Santo Agostinho
Bispo de Hipona · Doutor da Graça
Agostinho de Hipona (354–430), convertido pela pregação de Santo Ambrósio e pelas lágrimas de sua mãe, Santa Mônica, tornou-se o maior teólogo do Ocidente cristão. Bispo de Hipona, no norte da África, combateu os maniqueus, donatistas e pelagianos, e legou à Igreja obras monumentais como as Confissões e A Cidade de Deus. Seus Tratados sobre o Evangelho de João estão entre os comentários mais profundos já escritos sobre o quarto Evangelho.
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De modo algum poderia esta verdade evangélica ter-se tornado aceitável a certos filósofos e disputadores. Estes seguem um modo de vida que não permanece na verdade, mas é apenas imitação dela. Enganaram a si mesmos e aos outros. Carta a Consêncio.
A intenção de Paulo é perfeitamente clara: atalhar a soberba do homem, para que ninguém se glorie nas obras humanas e para que ninguém se glorie em si mesmo.
Paulo disse isto porque falava aos que não podiam alcançar os ensinamentos mais sublimes da divindade de Cristo.
Mas, se Cristo não tivesse sido morto, a morte não teria morrido. O diabo foi vencido por seu próprio troféu, pois o diabo se alegrou quando, seduzindo o primeiro homem, o lançou na morte. Seduzindo o primeiro homem, matou-o. Matando o último homem, perdeu o primeiro de seu laço.
Paulo não falava dos corpos deles, mas dos seus espíritos carnais.
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Visto que os apóstolos nada teriam realizado se Deus não tivesse dado o crescimento, quanto mais verdadeiro é isto a respeito de ti, ou de mim, ou de qualquer outro de nosso tempo que se imagina mestre.
Não se deve negar que este é o fundamento próprio da fé ortodoxa, ainda que seja comum a nós e a certos hereges também. Pois se refletirmos cuidadosamente sobre o sentido de Cristo, veremos que, entre alguns dos hereges que querem chamar-se cristãos, o nome de Cristo é tido em honra, mas a realidade a que esse nome se refere não o é.
O fogo provará a qualidade da obra de cada um. Se sua obra permanecer, receberá sua recompensa. Se sua obra se queimar, perderá sua recompensa, mas ele mesmo será salvo. Neste fogo nenhum dos dois homens se perderá para sempre, ainda que o fogo aproveite a um e prejudique ao outro, sendo prova para ambos.
Os que se vangloriam imaginam que são justificados por seus próprios esforços e, por isso, glorificam-se em si mesmos, e não no Senhor.
Quis, pois, o Apóstolo que homens sábios, santos e fiéis, solidamente estabelecidos nos diversos lugares, fossem os juízes de tais questões, e não aqueles que, na pregação, andavam peregrinando de um lugar a outro… Faltando juízes sábios, quis que fossem constituídos até os humildes e desprezíveis, para que os negócios dos cristãos não viessem a público.
Diz Paulo que foram mudados para melhor, não de modo a perder de todo a concupiscência — condição jamais alcançada nesta vida —, mas de modo a não obedecer ao desejo de pecar.
Segundo isto, se ele tivesse desejado praticar a continência, mas tu não a desejasses, ele teria sido obrigado a ceder a ti, e Deus lhe atribuiria o mérito da continência por não haver recusado a união conjugal, em consideração à tua fraqueza, não à sua própria, a fim de impedir que cometesses adultério. Quanto melhor teria sido para ti — para quem a sujeição era mais própria — ceder à vontade dele, pagando-lhe a dívida, uma vez que Deus teria levado em conta tua intenção de observar a continência, à qual renunciaste para salvar teu marido da perdição. Carta , A Eudícia.
Não é árduo nem difícil que os fiéis casados façam por alguns dias aquilo que as santas viúvas empreenderam e que as santas virgens praticam por toda a vida. Acenda-se, pois, a devoção, e reprima-se a autocomplacência.
Não devemos entender estas palavras no sentido de que as viúvas não sejam não casadas pelo fato de já terem outrora abraçado o estado conjugal. As viúvas são não casadas, mas nem todas as não casadas são viúvas. Por isso Paulo estabelece aqui uma distinção.
Por que reconheces que há um remédio necessário para a concupiscência, mas me contradizes quando digo que a concupiscência é uma enfermidade? Se reconheces o remédio, reconhece também a enfermidade.
Aqui se nos dá a entender que nenhum dos cônjuges pode divorciar-se do outro, se ambos forem fiéis.
O marido cristão pode deixar a sua esposa sem culpa alguma, ainda que legitimamente casados, se ela recusar viver com ele por ser ele cristão.
Não se deve interpretar isto como significando que a mulher casada não deva ser santa tanto no corpo quanto na alma.
A morte aqui referida é claramente a morte do corpo, não da alma. O perdão e as tentativas de reconciliação da pessoa ofensora são oferecidos como soluções melhores que o divórcio.
Paulo quer dizer que a ciência somente aproveita quando acompanhada do amor. De outro modo, apenas incha o homem de soberba.
Diz Paulo: "Se alguém ama a Deus, este é conhecido por Ele." Certamente não disse "conhece a Deus", presunção perigosa, mas "é conhecido por Deus". Em outro lugar observa: "Mas agora conheceis a Deus", e logo em seguida se corrige: "ou antes, sois conhecidos por Deus".
Ainda que o homem tenha feito para si os seus próprios deuses, tornou-se, contudo, cativo deles desde que se entregou à sua comunhão pelo ato de adorá-los... Pois que são os ídolos senão coisas que, como diz a Escritura, "têm olhos e não veem"? Cidade de Deus
"Dele" significa do Pai. "Por meio dele" significa por meio do Filho. "Nele" significa no Espírito Santo. É evidente por si mesmo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus.
Fizeste não somente o que é criado e formado, mas também tudo quanto pode ser criado e formado. Tudo o que é formado a partir do informe deve primeiro ser informe, antes que possa ser coisa formada.
"Nem teremos abundância alguma se comermos, nem sofreremos perda alguma se não comermos." Isto é: nem aquilo me fará rico, nem isto me fará pobre.
Se amas menos o fraco por causa da falha moral que o torna fraco, considera Aquele que morreu por ele.
É a própria lei de Cristo que levemos uns os fardos dos outros. Além disso, amando a Cristo, facilmente suportamos a fraqueza de outrem, mesmo daquele a quem ainda não amamos por causa de suas próprias boas qualidades, pois percebemos que aquele a quem amamos é alguém por quem o Senhor morreu.
Os que são mais fortes e não são perturbados por escrúpulos recebem, todavia, o preceito de abster-se, a fim de não escandalizarem aqueles que, por causa de sua fraqueza, ainda consideram necessária a abstinência.
A que direito se refere ele senão àquele que o Senhor deu aos que enviou a pregar o reino dos céus, quando disse: "Comei do que tiverem, pois o trabalhador é digno do seu salário"? Ofereceu-se ele mesmo como intérprete deste privilégio. Mulheres mui fiéis atendiam às necessidades de sua vida à própria custa.
Uma vez estabelecida sua identidade, mostra ele que os privilégios concedidos aos demais apóstolos são também seus, a saber, a isenção do trabalho manual e o sustento em recompensa por sua pregação, conforme o Senhor ordenou. Isto se afirma mui claramente segundo os versículos em que São Paulo argumenta expressamente que mulheres fiéis, possuindo os bens deste mundo, acompanhavam os apóstolos e os serviam com seus próprios recursos, para que aos servos de Deus não faltasse nenhuma daquelas coisas que constituem as necessidades da vida... Certas pessoas, não entendendo esta passagem, a interpretaram como "esposa". Enganou-as a obscuridade da palavra grega, pois, em grego, usa-se a mesma palavra para esposa e mulher. Contudo, o apóstolo dispôs as palavras de tal modo que ninguém se enganasse, pois não diz simplesmente "uma mulher", mas "uma mulher irmã", nem "tomar em casamento", mas "levar consigo".
O Senhor ordenou que os que pregam o evangelho vivam do evangelho, isto é, que sustentem à custa dos fiéis aquela vida para a qual o alimento e o vestuário são essenciais.
A Igreja tem os seus próprios soldados e os seus próprios oficiais provinciais... a sua vinha e os seus plantadores, o seu rebanho e os seus pastores... Assim, alguns são retamente alimentados e vestidos à custa dos ricos caridosos. Nada aceitam para as suas próprias necessidades senão daqueles que vendem os seus bens. Não devem ser julgados nem condenados pelos membros mais perfeitos de Cristo, que provêm às suas próprias necessidades com as próprias mãos — virtude mais alta, que o apóstolo vivamente encarece. Estes, por sua vez, não devem condenar como cristãos de grau inferior aqueles de cujos recursos são supridos... Os servos de Deus que vivem da venda das honestas obras de suas próprias mãos poderiam, com muito menos impropriedade, condenar aqueles de quem nada recebem, do que poderiam aqueles outros que, por alguma fraqueza corporal, não podem trabalhar com as mãos e, no entanto, condenam os próprios de cuja custa vivem. Carta a Hilário.
Paulo enfatiza o fato de que seus companheiros apóstolos, de modo algum transgrediam quando não se ocupavam do trabalho manual para prover as necessidades da vida, mas, segundo o que o Senhor ordenara, vivendo do evangelho, recebiam, sem oferecer pagamento algum, o sustento corporal daqueles a quem, por sua vez, forneciam o sustento espiritual sem exigir retribuição.
O Apóstolo diz isto [aqui e em Timóteo] para que Timóteo compreendesse que aquilo que ele recebia daqueles por quem, por assim dizer, combatia, e a quem cultivava como vinha, ou apascentava como rebanho, não era sinal de mendicância, mas reconhecimento de um direito.
“Pois digno é o operário do seu salário.” Mostrou que essa prática era permitida, ainda que não ordenada, para que porventura um discípulo que recebesse alguma retribuição para suas necessidades pessoais daqueles a quem pregava não julgasse estar obrando mal. Que era mais louvável omitir essa prática, mostra-o claramente a vida do apóstolo … [que] declarou: “Todavia, não usei deste direito.” … Possuía o direito, mas não obrigou seus seguidores por preceito. Visto que não podemos, pois, compreender muitas passagens, colhemos dos feitos dos santos o modo de entender aquelas passagens que facilmente se prestariam a má interpretação, se não se recorresse ao exemplo estabelecido pelos santos.
“O Senhor ordenou que os que anunciam o evangelho vivam do evangelho. Eu, todavia, de nenhum destes direitos me tenho valido.” … O que há de mais claro do que isto? O que há de mais definido? Meu único receio é que, ao discorrer sobre a passagem na tentativa de explicá-la, eu venha a obscurecer o que por si mesmo é evidente e vigoroso. Pois aqueles que não entendem estas palavras, ou fingem não entendê-las, muito menos entenderão as minhas.
Até agora estou de tal modo restaurado nessa glória que confesso ignorar não apenas quão perto dela estou, mas até mesmo se a ela hei de chegar. É verdade que sou dispenseiro da salvação eterna juntamente com meus inúmeros outros conservos. “Pois se faço isto de boa vontade, tenho recompensa.” Ser dispenseiro dessa salvação pela palavra e pelo sacramento não é de modo algum o mesmo que ser dela partícipe. Carta a Audax.
Aquele que cuida de um enfermo torna-se, em certo sentido, ele mesmo enfermo, não por fingir ter febre, mas por pensar com compaixão como gostaria de ser tratado se ele mesmo estivesse enfermo. Carta a Jerônimo.
Paulo não fingia ser o que não era, mas mostrava compaixão. Carta a Jerônimo.
Ele fez isto por compaixão, não por mentira. Pois cada um se faz semelhante àquele a quem quer ajudar, quando prevalece tão grande misericórdia quanto cada um desejaria para si mesmo, se estivesse na mesma miséria. E assim ele se faz semelhante ao outro — não o enganando, mas colocando-se no lugar do outro.
Isto se interpreta corretamente no sentido de que ele, não por mentira, mas por compaixão, fez com que se realizasse a conversão deles mediante seu próprio e grande amor, o qual fazia parecer que ele mesmo estava aflito por aquele mal do qual desejava curá-los.
Não é daquele que quer, nem daquele que corre, mas de Deus que se compadece, que obtemos o que esperamos e alcançamos o que desejamos. Esaú não quis nem correu. Se tivesse querido e corrido, teria obtido o auxílio de Deus, que, chamando-o, lhe teria dado o poder tanto de querer quanto de correr.
Ao entrarmos no caminho do Senhor, jejuemos da vaidade desta vida presente e refrigeremo-nos com a esperança da vida futura, não fixando o coração nas coisas daqui, mas banqueteando-o com as coisas do alto.
Paulo castiga o que é seu, e não o que ele é. Pois uma coisa é o que é seu, outra o que ele é. Castiga o que é seu, para que ele, sendo justo, possa promover a morte da concupiscência corporal.
A história do êxodo foi uma alegoria do povo cristão que ainda estava por vir.
Todos os símbolos parecem, de certo modo, personificar as realidades que simbolizam. Assim diz Santo Agostinho — ou antes, assim diz São Paulo: "A pedra era Cristo", porque a pedra em questão simbolizava a Cristo.
Que há tão semelhante ao brincar das crianças quanto o culto aos ídolos? Questões
Por que se escreveu isto, se agora estamos de tal modo dotados que, pela força de nosso livre-arbítrio, somos capazes de vencer todas as tentações apenas suportando-as? Carta , Ao Bispo João.
Aquele cálice, ou antes, o que o cálice contém, consagrado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo. Por meio desses elementos quis o Senhor confiar-nos o seu corpo e o sangue que derramou para a remissão dos pecados. Se recebestes dignamente, sois aquilo que recebestes.
Aquele que propriamente se diz comer o corpo de Cristo e beber o seu sangue é aquele que se incorpora à unidade do seu corpo. Os hereges e os cismáticos podem receber o sacramento, mas para nenhum proveito — antes, para seu próprio dano —, posto que o resultado é aumentar-lhes a pena, e não abreviar a duração do castigo.
Assim, pelo pão sois instruídos a respeito de como deveis estimar a unidade. Acaso aquele pão foi feito de um só grão de trigo? Não eram, antes, muitos grãos? Todavia, antes de se tornarem pão, esses grãos estavam separados. Foram unidos pela água, depois de certa moedura. Pois, a menos que o grão seja moído e umedecido com água, não pode alcançar aquela forma que se chama pão. Assim também vós fostes anteriormente moídos, por assim dizer, pela humilhação do vosso jejum e pelo sacramento do exorcismo. Depois veio o batismo da água. Fostes umedecidos, por assim dizer, para que chegásseis à forma do pão. Mas sem o fogo, o pão ainda não existe.
Não peca aquele que, sem o saber, come depois o alimento que anteriormente havia recusado por pertencer aos ídolos. As hortaliças e qualquer fruto que se produza em qualquer campo pertencem a Deus, que os criou.
O apóstolo quis que os crentes agradassem a todos os homens, e ele se comprazia em agradar-lhes, não porque se inchasse interiormente com os seus louvores, mas porque, sendo agradável, todos pudessem ser edificados em Cristo.
Pois o homem é a cabeça da mulher em perfeita ordem quando Cristo, que é a Sabedoria de Deus, é a cabeça do homem.
[Dizem os maniqueus]: «Não se deveria ter permitido que o diabo se aproximasse da mulher.» Pelo contrário, ela é que não deveria ter permitido que o diabo se aproximasse dela. Foi feita de tal modo que, se não o quisesse, poderia ter impedido a sua aproximação. Dizem, então: «Talvez nem a mulher devesse ter sido feita.» Isto seria admitir que algo bom não deveria ter sido feito. Pois não pode haver dúvida de que a mulher é boa — tão boa que o apóstolo diz que ela é a glória do homem e que todas as coisas provêm de Deus.
Não é que uma parte do gênero humano pertença a Deus como seu autor e outra às trevas, como alguns pretendem. Antes, tanto a parte que detém o poder de governar quanto a que é governada procedem de Deus. Assim diz o apóstolo: «O homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, pois é imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem.»
Esta imagem, feita à imagem de Deus, não é igual nem coeterna àquele de quem é imagem, e não o seria ainda que jamais houvesse pecado. Cumpre entender o sentido das palavras de Deus quando disse: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.» Não foram ditas no singular, mas no plural. Pois o homem não foi feito à imagem do Pai somente, nem do Filho somente, nem do Espírito Santo somente, mas à imagem da Trindade.
A respeito dos sexos masculino e feminino, que tem a dizer o filho da perdição? Que os dois sexos não provêm de Deus, mas do diabo? Que tem a dizer sobre isto o vaso de eleição? "Pois, assim como a mulher provém do homem, também o homem provém por meio da mulher — mas todas as coisas provêm de Deus." Que diz o diabo, pela boca dos maniqueus, acerca da carne? Que ela é uma substância má, criatura não de Deus, mas do inimigo.
Que razão haverá, pergunto-me, para que os homens usem os cabelos compridos, contra o preceito do Apóstolo? Será para dar maior ócio aos barbeiros? Ou será porque desejam imitar as aves do evangelho? Talvez temam ser depenados, de modo a não poderem voar? Absto-me de dizer mais acerca deste costume, por causa de certos irmãos de longos cabelos, a quem, em quase tudo o mais, tenho em grande estima. Mas na medida em que mais os amamos em Cristo, nessa mesma medida mais seriamente os aconselhamos.
Os homens tornam-se hereges, ainda que, permanecendo dentro da Igreja, continuassem a sustentar opiniões errôneas. Agora que estão fora, eles nos são de maior proveito, não por ensinarem a verdade, pois não a conhecem, mas por instigarem os cristãos carnais a buscá-la e os cristãos espirituais a expô-la. Na Igreja há inumeráveis pessoas aprovadas por Deus, mas que não se manifestam entre nós enquanto nos contentamos com as trevas de nossa ignorância e preferimos dormir a contemplar a luz da verdade.
As coisas antigas passaram e se fazem novas em Cristo, de modo que altar cede a altar, espada a espada, fogo a fogo, pão a pão, vítima a Vítima, sangue a Sangue.
Que significa receber indignamente? Receber por zombaria, receber por desprezo.
Com efeito, muitos pecados parecem ser negligenciados e permanecer impunes. Mas o castigo desses fica reservado para o futuro. Não é sem razão que o dia em que há de vir o Juiz dos vivos e dos mortos é justamente chamado dia do juízo. Assim como, por outro lado, alguns pecados são punidos aqui, e se são perdoados certamente não nos trarão dano na era futura. Por isso, referindo-se a certos castigos temporais que recaem sobre os pecadores nesta vida, o apóstolo, falando àqueles cujos pecados são apagados e não reservados para o fim, diz: "Mas, se nós nos julgássemos a nós mesmos verdadeiramente, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados pelo Senhor, somos disciplinados para que não sejamos condenados com o mundo."
Por isto se nos dá a entender que era demasiado para ele expor numa carta todo o modo de proceder que a Igreja universal deve observar, e que aquilo que ele mesmo, pessoalmente, ordenou não pode ser alterado. Carta , A Januário.
A sabedoria refere-se ao conhecimento das coisas divinas, e a ciência ao conhecimento humano.
Sem o espírito de fé, ninguém crerá retamente. Sem o espírito de oração, ninguém orará proveitosamente. Não que sejam tantos espíritos, "mas em todas as coisas um só e o mesmo Espírito opera, repartindo a cada um individualmente como quer." Carta a Sisto.
Pois nem todos possuem todos eles, mas uns têm estes e outros aqueles, ainda que cada um possua o próprio Dom por quem são repartidas as coisas próprias de cada um, a saber, o Espírito Santo.
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Assim como é bom usar bem os males, também é honesto usar bem o que é indecoroso. Não por causa da beleza da obra divina, mas por causa da torpeza da concupiscência, o Apóstolo chama indecorosos estes membros do corpo. Os castos não estão sujeitos a uma necessidade de depravação, pois resistem à concupiscência para que esta não os obrigue a cometer atos indecorosos. Contudo, nem mesmo a honesta procriação pode existir sem a concupiscência. Deste modo, nos esposos castos há tanto o voluntário, na procriação da prole, quanto o necessário, na concupiscência. A honestidade nasce da indecência quando a união casta aceita, mas não ama, a concupiscência.
Não são os cabelos de tua cabeça, por certo, de menor valor que teus demais membros? Que há de mais barato, mais desprezível, mais ínfimo em teu corpo do que os cabelos de tua cabeça? Contudo, se o barbeiro te corta o cabelo sem perícia, indignas-te contra ele, porque não te cortou o cabelo de modo uniforme. E, no entanto, não guardas essa mesma solicitude pela unidade dos membros na Igreja.
Suponde que tivésseis um dedo deslocado. Não tremeríeis em todos os vossos membros? Não correríeis ao médico para que o dedo fosse posto no lugar? Certamente, pois, vosso corpo está em bom estado quando todos os seus membros concordam entre si. Então sois tido por saudável, e realmente estais bem.
Longe de nós recusar ouvir o que é amargo e triste àqueles a quem amamos. Não é possível que um membro padeça sem que os demais membros padeçam com ele.
Dar o próprio corpo para ser queimado não é licença para o suicídio, mas preceito de não resistir ao sofrimento, quando a alternativa seja ser forçado a praticar o mal. Epístola a Donato.
A razão pela qual a caridade não tem inveja é porque não se ensoberbece. Pois onde precede a soberba, segue-se a inveja, porque a soberba é mãe da inveja.
Quanto maior é o amor de Deus que os santos possuem, tanto mais tudo suportam por Ele.
Pois que é ouvir de ti algo sobre si mesmo, senão conhecer-se a si mesmo? Quem, pois, pode conhecer-se a si mesmo e dizer "É falso", a não ser que ele próprio minta? Mas, porque "a caridade tudo crê", ao menos entre aqueles a quem ela une, tornando-os íntimos entre si, também eu, ó Senhor, a Ti me confesso de tal modo que os homens me ouçam, ainda que não lhes possa provar que são verdadeiras as coisas que confesso. Mas aqueles cujos ouvidos a caridade me abre, esses creem.
Usa o conhecimento como uma espécie de instrumento para edificar o edifício da caridade, que permanece para sempre, ainda quando "o conhecimento se esvanecer". Pois o conhecimento que se emprega para promover o amor é útil, mas, em si mesmo e apartado do amor, revela-se não apenas inútil, mas até nocivo.
Nosso conhecimento, nesta vida, permanece imperfeito, mas é fidedigno dentro de seus limites. Os fiéis confiam no testemunho de seus sentidos, os quais estão subordinados à sua inteligência. Podem, por vezes, ser enganados, mas, ainda assim, encontram-se em condição melhor do que aqueles que sustentam que os sentidos jamais podem ser dignos de confiança.
Mas, à medida que esta fé, que opera pelo amor, começa a penetrar a alma, ela tende, pela força vital da bondade, a transformar-se em visão, de modo que os santos e perfeitos de coração vislumbram aquela beleza inefável cuja visão plena é a nossa suprema felicidade... Começamos na fé, somos aperfeiçoados na visão.
Mas quando começarmos a ter um corpo espiritual, como nos foi prometido na ressurreição, vejamo-lo ainda que seja no próprio corpo, seja por uma visão intelectual, seja de algum modo miraculoso, visto que a graça do corpo espiritual é indizível. Vê-lo-emos então segundo a nossa capacidade, sem limitações de espaço, não maior numa parte e menor noutra, visto que não é um corpo, e está inteiramente presente em toda parte. Carta, A Consêncio.
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Face a face — assim já veem os santos anjos, que são chamados nossos anjos. São nossos anjos no sentido de que, uma vez libertos do poder das trevas, tendo recebido o penhor do Espírito e sido transladados ao reino de Cristo, teremos começado a pertencer aos anjos.
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Pois ele fala assim quando o que se diz não é entendido, porque nem sequer pode ser proferido, a menos que as imagens dos sons corpóreos precedam os sons orais pelo pensamento do espírito.
Aqueles que promovem dissensões e perturbações na Igreja são os que parecem ser o que não são. Carta, A Evódio.
O Inimigo é vencido de modo mais completo no caso do homem sobre quem exercia domínio mais pleno.
Como, pois, se cumpre o mandamento de Deus, ainda que com dificuldade, sem o Seu auxílio, uma vez que, se o Senhor não edifica, em vão trabalha o edificador? Carta , de Alípio e a Paulino.
Paulo não trabalhou para receber a graça, mas recebeu a graça para que trabalhasse.
Com alegria e com os olhos da fé, todos voltam o olhar para este grande homem, Paulo, este atleta de Cristo, que foi ungido por Cristo e por Ele instruído. Com Ele foi pregado à cruz, e por Ele feito glorioso. Este homem foi feito espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens. Ele travou legitimamente um grande combate no teatro deste mundo e esforçou-se por alcançar o prêmio de sua vocação celestial.
Quando o Apóstolo diz aos coríntios: «Como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição dos mortos?», mostra claramente que nem todos afirmavam isto, mas apenas alguns, e é evidente que estes não estavam fora, mas entre eles... Se não tivéssemos lido na mesma carta que «o testemunho de Cristo foi confirmado em vós, de modo que nada vos falta em graça alguma», poderíamos de outro modo ter concluído que todos os coríntios eram carnais e sensuais, não discernindo o Espírito de Deus, «contenciosos, invejosos, andando segundo o homem». Carta a Vicêncio.
Se uma mentira dirigida contra a vida temporal de outrem é detestável, quanto mais o é aquela que prejudica a sua vida eterna. Tal é toda mentira proferida no ensino da religião. Por isso, o apóstolo denomina falso testemunho quando alguém mente acerca de Cristo, ainda que naquilo que pareça pertencer ao seu louvor.
Costumamos dizer que todos entram numa certa casa por uma só porta, não porque toda a humanidade entre nessa casa, mas porque ninguém entra senão por essa porta. É nesse sentido que, assim como todos morrem em Adão, assim também todos os que vivem vivem em Cristo... Fora do único Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus, não há outro nome debaixo do céu pelo qual devamos ser salvos.
Nenhum homem entra na morte senão por Adão, e ninguém na vida eterna senão por Cristo. Este é o sentido daquela frase repetida, "todos", porque, assim como todos os homens pertencem a Adão por seu primeiro nascimento, ou nascimento carnal, assim todos os homens que pertencem a Cristo vêm ao segundo nascimento, ou nascimento espiritual. Por isso diz "todos" em ambos os lugares, porque, assim como todos os que morrem só morrem em Adão, assim todos os que serão vivificados não serão vivificados senão em Cristo. Carta , A Jerônimo
Isto não significa que todos os que morrem em Adão serão membros de Cristo, pois a maioria será punida eternamente pela segunda morte. O apóstolo usa a palavra "todos" em ambas as cláusulas porque, assim como ninguém morre em corpo natural senão em Adão, assim ninguém é feito viver novamente em corpo espiritual, senão em Cristo.
Observai como ele enfatiza "um" e "um", isto é, Adão e Cristo, aquele para a condenação, este para a justificação... Evidentemente ele fala da ressurreição dos justos, na qual há vida eterna, e não da ressurreição dos ímpios, na qual haverá morte eterna. Os que "serão vivificados" contrapõem-se aos outros, que serão condenados. Carta , A Hilário.
O homem, na verdade, trouxe a morte para si mesmo e para o Filho do Homem. Mas o Filho do Homem, morrendo e ressuscitando, trouxe a vida para o homem. Carta , A Honorato
É necessário que o reino de Cristo se manifeste até tal ponto que todos os seus inimigos confessem que Ele reina... Isto é, diz o Apóstolo, é necessário que Ele torne o seu reinado tão claramente evidente até que os seus inimigos não ousem de modo algum negar que Cristo reina.
Ele reina para sempre. Todavia, no que concerne à guerra travada sob Ele contra o diabo, este conflito há de, evidentemente, prosseguir "até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés". Mas depois não haverá mais conflito algum, pois havemos de gozar de uma paz eterna.
Nesta casa, o povo de Deus há de habitar eternamente com o seu Deus e no seu Deus, e Deus com o seu povo e no seu povo, Deus preenchendo o seu povo, o seu povo preenchido de Deus, de sorte que "Deus seja tudo em todos" — sendo o mesmíssimo Deus, na paz, o seu galardão, que na batalha fora a sua força.
A vida nova começa agora pela fé e é levada adiante pela esperança, mas há de vir o tempo em que a morte será tragada pela vitória, quando aquele "inimigo, a morte, será destruído por último", quando seremos transformados e nos tornaremos semelhantes aos anjos... Já agora dominamos o temor pela fé, mas então teremos o domínio no amor pela visão. Carta a Januário.
Uma coisa é combater bem, o que sucede agora, quando se resiste à luta da morte. Outra coisa é não ter adversário algum, o que sucederá quando for destruída a morte, "nosso último inimigo".
Se o Filho é igual, como é o Pai maior? Pois o próprio Senhor diz: "porque o Pai é maior do que eu." Contudo, a regra da fé católica é esta: quando as Escrituras dizem do Filho que ele é menor que o Pai, as Escrituras o entendem quanto à assunção da humanidade. Mas quando as Escrituras apontam que ele é igual, entendem-se quanto à sua divindade.
A visão mesma é face a face, a qual é prometida aos justos como sua suprema recompensa. Isto se dará quando ele entregar o reino a Deus Pai. Ali, quer ele que se entenda, estará também a visão de sua própria forma, quando toda a criação, juntamente com aquela forma na qual o Filho de Deus foi feito Filho do Homem, tiver sido sujeita a Deus. Segundo esta forma, o próprio Filho será sujeito Àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.
Deus será a consumação de todo o nosso desejar — o objeto de nossa visão sem fim, de nosso amor que não decresce, de nosso louvor que não se cansa. E neste dom da visão, nesta resposta do amor, neste hino de louvor, todos igualmente participarão, assim como todos participarão da vida eterna.
No céu não experimentaremos carência, e por isso seremos felizes. Seremos saciados, mas sê-lo-emos de Deus. Ele será para nós todas aquelas coisas que aqui consideramos de grande valor.
Ainda que não haja possibilidade alguma de alforria, devem os escravos fazer agora de sua escravidão uma espécie de liberdade, servindo com amor e lealdade, livres do temor e da simulação, até que a injustiça se torne coisa do passado e toda soberania e poder humanos sejam abolidos, para que Deus seja tudo em todos.
A alusão aqui refere-se à transformação dos santos quando passam das antigas sombras do tempo para as novas luzes da eternidade.
Ele não disse que Deus "deu" ou "ordenou", mas que Deus "dá", para que saibais como o Criador aplica o poder eficaz da Sua sabedoria à criação das coisas que diariamente vêm à existência nos tempos que lhes são designados.
Quaisquer que sejam as causas corpóreas ou seminais que desempenhem papel na geração, pela mistura dos dois sexos, ou nos animais, ou mesmo pelo influxo dos anjos, e quaisquer que sejam os desejos ou as emoções da mãe que possam afetar os traços ou a cor enquanto o feto é ainda brando e maleável, contudo toda natureza, enquanto tal, por mais que seja afetada pelas circunstâncias, é criada inteiramente pelo Deus supremo. É o poder oculto e penetrante da presença irresistível de Deus que dá o ser a toda criatura que possa dizer-se que é, seja qual for o seu gênero e espécie. Pois, sem o Seu ato criador, uma natureza não somente não estaria neste ou naquele gênero; simplesmente não poderia ter ser algum.
Porfírio diz: "Louvas-me o corpo sem boas razões. Seja qual for o gênero de corpo, deves fugir dele se queres ser feliz." Isto dizem os filósofos, mas erram. Deliram... Li os teus livros, onde dizes que o mundo é animado, que os céus, a terra, os mares, todos os corpos imensos que existem, todos os elementos vastíssimos de todos os tempos, todo este corpo universal que consiste de todos estes elementos — tudo isto, dizes tu, é um vivente imenso e possui alma própria. Mas afirmas que ele não possui os sentidos do corpo, porque fora dele nada há que possa ser percebido. Não obstante, dizes que ele tem inteligência, e que conduz a Deus, e que a alma do mundo se chama Júpiter... Afirmas que esse mesmo mundo é eterno, que sempre há de existir, que não terá fim. Se, pois, o mundo é eterno e permanece sem fim algum, se este mundo é um vivente e se a sua alma está sempre contida no mundo, então, na verdade, havemos de fugir de todo gênero de corpo? Sermão pascal
Se alguém não crê que a carne comum possa ser transformada em natureza deste gênero, deve ser conduzido à fé por graus sucessivos. Se lhe perguntares se a terra pode ser transformada em água, isto não lhe parecerá incrível, porquanto não há grande distância entre estes dois elementos. Do mesmo modo, se lhe perguntares se a água pode ser transformada em ar, há de concordar que isso não é absurdo, porquanto estes dois elementos são vizinhos próximos.
No corpo, os olhos são tidos em alta estima. Mas seriam menos estimados se estivessem sozinhos, ou se não houvesse outros membros de valor aparentemente menor. Nos céus, o sol ofusca a lua, mas não a despreza, e "uma estrela difere de outra estrela em glória", mas jamais se mede a si mesma por soberba.
A seu tempo, cedi a mentes melhores e mais esclarecidas, ou antes, à própria verdade, ao ouvir nas palavras do apóstolo o gemido dos santos em sua batalha contra a concupiscência carnal. Ainda que os santos sejam espirituais quanto ao entendimento, permanecem contudo carnais no corpo corruptível, que continua a pesar sobre a alma. Serão, todavia, espirituais também quanto ao corpo, quando o corpo semeado animal ressuscitar espiritual. Permanecem ainda prisioneiros sob o muro do pecado, na medida em que estão sujeitos ao estímulo de desejos aos quais não consentem. Assim vim a entender esta matéria, como o entenderam Hilário, Gregório, Ambrósio e outros santos e renomados doutores da Igreja, os quais viram que o apóstolo, por suas próprias palavras, travava vigorosamente esta mesma batalha contra as concupiscências carnais, que não desejava ter, mas que de fato tinha.
Ainda seremos corpos, vivificados, porém, pelo espírito, de sorte a conservar a substância da carne sem sofrer os acidentes da indolência e da mortalidade.
Assim como o Espírito, quando serve à carne, não é impropriamente dito carnal, assim também a carne, quando serve ao espírito, será corretamente chamada espiritual — não porque transformada em espírito, como supõem alguns que interpretam mal o texto "o que é semeado corpo natural ressuscita corpo espiritual", mas porque estará de tal modo sujeita ao espírito que, com uma maravilhosa flexibilidade de perfeita obediência, há de acolher a infalível lei de sua indissolúvel imortalidade, deixando de lado todo sentimento de fadiga, toda sombra de sofrimento, todo sinal de declínio. Este "corpo espiritual" não apenas será melhor que qualquer corpo terreno em perfeita saúde, mas há de superar até mesmo o de Adão ou de Eva antes do pecado deles.
O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente... mas de todos os animais foi dito: "Produza a terra os seres viventes." Entendemos, pois, que o corpo natural é dito semelhante aos demais animais por causa da dissolução e corrupção da morte. É renovado diariamente pelo alimento, e, rompido o laço da vida, dissolve-se. Mas o corpo espiritual, que agora está com o Espírito, é imortal. Carta, A Consêncio.
O corpo espiritual se entende como um corpo tão sujeito ao espírito que se torne apto à sua morada celestial, transmudada e convertida toda a fraqueza e corrupção terrena em pureza e estabilidade celestes.
Primeiro vem o barro que só serve para ser lançado fora, com o qual devemos começar, mas no qual não devemos permanecer. Depois vem o que nos convém, aquilo em que podemos ser gradualmente moldados e no qual, uma vez moldados, poderemos permanecer.
Primeiro vem o corpo natural, tal como o possuiu Adão, o primeiro homem. Se ele não houvesse pecado, jamais teria morrido. Tal corpo também nós possuímos, salvo que sua natureza, em consequência do pecado, mudou-se tanto para pior que agora se acha diante da morte inexorável. Tal corpo também Cristo se dignou assumir por nossa causa, não por necessidade, na verdade, mas em virtude de seu poder. Depois, porém, vem o corpo espiritual, tal como o teve primeiro Cristo, nossa cabeça, mas que nós, seus membros, teremos na ressurreição final dos mortos.
O Senhor, que era celestial, fez-Se terreno para que fizesse celestiais aqueles que eram terrenos. De imortal, fez-Se mortal ao assumir a forma de servo, não mudando a natureza do Senhor, para que fizesse imortais aqueles que eram mortais, comunicando a graça do Senhor, não retendo a ofensa do servo. Carta, A Consêncio.
Se não vos agrada a fé cristã, dizei-o. Mas não encontrareis outra fé cristã. Há um homem para a vida; há um para a morte. Um é apenas homem; o outro é Deus e homem. Por meio de um, o mundo fez-se inimigo de Deus. Por meio do outro, os escolhidos do mundo são reconciliados com Deus. Pois "assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados". Portanto, assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem do celestial. Quem quer que tente solapar estes fundamentos da fé cristã será ele mesmo destruído, mas eles permanecerão firmes.
Portanto, visto que nossa natureza pecou no paraíso, somos agora formados, por uma geração mortal, pela mesma divina providência, não segundo o céu, mas segundo a terra — não segundo o Espírito, mas segundo a carne. Todos nos tornamos uma só massa de lodo, uma massa de pecado. Visto, pois, que perdemos a recompensa pecando, e visto que, na ausência da misericórdia de Deus, nós, pecadores, não merecemos outra coisa senão a condenação eterna, quem, pois, pensa ser o homem desta massa, para poder questionar a Deus e dizer: "Por que me fizeste assim?" Se quiseres conhecer estas coisas, não sejas lodo, mas torna-te filho de Deus pela misericórdia daquele que deu, aos que creem em seu nome, o poder de se tornarem filhos de Deus — ainda que não o tenha dado, como se poderia querer, aos que desejam conhecer as coisas divinas antes de crer.
Haverá então tamanha concórdia entre a carne e o Espírito — vivificando o Espírito a carne serva, sem nenhuma necessidade de sustento que dela receba. Não haverá mais conflito algum dentro de nós mesmos. E assim como não haverá mais inimigos externos a suportar, tampouco teremos de suportar a nós mesmos como inimigos interiores.
Os piedosos ressuscitarão à medida que transformarem em "homem novo" os resquícios do "velho homem" que a eles se apegam. Os ímpios que conservaram o "velho homem" desde o princípio até o fim ressuscitarão para serem precipitados na segunda morte. Os que leem diligentemente podem discernir as divisões dos tempos. Não têm horror ao joio nem à palha.
Tão fácil é para Deus ressuscitar os que há pouco morreram quanto os que há muito caíram em decomposição. Carta , A Deográcias.
Por «trombeta» quer ele que entendamos algum sinal muito claro e eminente, ao qual noutro lugar chama a voz do arcanjo e a trombeta de Deus [1 Ts :].
Com a emissão daquele clamor e a ressurreição dos mortos, será tirado todo o consolo do louvor humano. Não haverá dúvida de que o juízo está agora presente e iminente. Então não haverá tempo para discutir a respeito deste, nem para julgar de outro, nem para fazer favor ou oferecer apoio a outrem. Carta , A Honorato.
O olhar de nossos olhos não alcança os objetos mais próximos mais depressa e os distantes mais devagar; antes alcança uns e outros com igual rapidez. Semelhantemente, quando, como diz o Apóstolo, a ressurreição dos mortos se opera num abrir e fechar de olhos, tão fácil é para a onipotência de Deus e para sua tremenda autoridade ressuscitar os que há pouco morreram quanto os que há muito caíram em decomposição. A algumas mentes, estas coisas são difíceis de aceitar, porque estão fora de sua experiência; contudo, o universo inteiro está repleto de maravilhas que nos parecem mal merecer nota ou exame, não porque sejam facilmente penetradas por nossa razão, mas porque estamos habituados a vê-las. Eu, porém, e aqueles que comigo se associam e se esforçam por entender «as coisas invisíveis de Deus por meio das coisas que foram feitas», não nos admiramos nem mais nem menos do fato de que, numa única e minúscula semente, jaz dobrado tudo quanto louvamos na árvore. Carta , A Deográcias.
Admiram-se as pessoas de que Deus, que fez todas as coisas do nada, faça um corpo celestial da carne humana. Quando Ele estava na carne, não fez o Senhor vinho da água? É acaso muito mais maravilhoso que faça um corpo celestial da carne humana? ... Aquele que foi capaz de fazer-te quando não existias não é capaz de refazer aquilo que outrora foste? Sermões para a Festa da Ascensão
Por causa das atividades necessárias desta vida, a saúde não deve ser desprezada até que "este mortal se revista de imortalidade." Esta é a saúde verdadeira, perfeita e sem fim, que não se restaura por prazer corruptível quando desfalece por fraqueza terrena, mas se mantém pela força celeste e se rejuvenesce pela incorruptibilidade eterna. Carta, A Proba.
Então não somente não obedeceremos a nenhuma sedução do pecado, mas tampouco existirão tais seduções, daquele gênero que nos é ordenado não obedecer. Carta, A Asélico.
Muitos são os desejos dos enfermos, que a saúde remove. Assim como a saúde do corpo suprime esses desejos, também a imortalidade removerá todos os demais desejos, porque a imortalidade é a nossa saúde.
O apóstolo Paulo parece ter apontado o dedo diretamente para a carne quando escreveu: “é necessário que este corruptível se revista de incorruptibilidade”. Ao dizer isso, ele como que aponta com o dedo. Aquilo que é visível pode ser assim apontado. A alma não pode ser apontada, ainda que possa ser chamada corruptível, porque é corrompida pelos vícios morais.
Onde está a morte? Buscai-a em Cristo, pois já não existe mais. Existiu, e agora a morte está morta. Ó Vida, ó Morte da morte! Tende bom ânimo: a morte morrerá também em nós. O que se realizou em nossa Cabeça também se realizará em seus membros. A morte morrerá também em nós. Mas quando? No fim do mundo, na ressurreição dos mortos, na qual cremos e da qual não temos dúvida alguma. … Estas são palavras dadas aos que triunfam, para que tenhais algo em que pensar, algo para cantar em vosso coração, algo para esperar em vosso coração, algo para buscar com fé e boas obras.
Se os nossos hereges fossem capazes de apreender esta única verdade, renunciariam ao seu orgulho e se reconciliariam, e jamais voltariam a adorar a Deus em outro lugar que não fosse na Igreja.
Porquanto a natureza humana foi submetida a um inimigo como justo castigo do pecado, é necessário que o homem primeiro seja resgatado do seu poder, para que O encontre. Depois, se sua vida nesta carne se prolonga, é ele assistido no combate, para que vença o inimigo. E, por fim, o vencedor será feito bem-aventurado, para que reine, e no termo derradeiro perguntará: "Morte, onde está o teu devorar?"
Penso que a "morte", nesta passagem, se refere a um hábito carnal que resiste à boa vontade mediante o deleite nos prazeres temporais.
Por que, se a lei é boa, é ela a força do pecado? Porque o pecado operou a morte por meio daquilo que é bom, para que se tornasse sobremaneira pecaminoso, isto é, para que adquirisse maiores forças ao tornar-se também transgressão. Por que, se a lei é boa, estamos "mortos para a lei pelo corpo de Cristo"? Porque estamos mortos para a condenação da lei, havendo sido libertados da disposição que a lei condena e pune... Assim, o mesmo preceito que é lei para os que o temem é graça para os que o amam. — A Simpliciano — Sobre Diversas Questões
Com efeito, pecando, resvalamos para a morte. Pois, onde a lei proíbe, pecamos mais gravemente do que se pela lei não fôssemos proibidos. Todavia, quando a graça é acrescentada, cumprimos então sem dificuldade e de muito boa vontade aquilo mesmo que a lei havia opressivamente ordenado. Já não somos escravos da lei pelo temor, mas amigos por amor, e escravos da justiça, a qual foi a própria fonte da promulgação da lei. Por conseguinte, a lei do pecado e da morte, isto é, a lei imposta aos homens pecadores e mortais, apenas ordena que não cobicemos. Não obstante, cobiçamos. Contudo, a lei do espírito da vida — a lei que pertence à graça e nos liberta da lei do pecado e da morte — faz com que não cobicemos. Ela nos faz cumprir os mandamentos da lei.
Nada poderia ser mais verdadeiro. Pois a proibição sempre aumenta o desejo ilícito, enquanto o amor e o gozo da santidade forem demasiado fracos para vencer a inclinação ao pecado. Assim, sem o auxílio da graça divina, é impossível ao homem amar e deleitar-se na santidade.
A proibição aumentou a concupiscência. Tornou-a invicta. Assim se acrescentou a transgressão, que não existia sem a lei, embora já houvesse pecado… Não é de admirar que a infirmidade humana tenha acrescentado ao mal força até mesmo de uma lei boa, pois no cumprimento dessa mesma lei confiava em sua própria força.
A coroa não poderia ter sido dada a quem dela fosse digno, se a graça não lhe tivesse sido dada quando ainda indigno.
Quem é aquele que com as mãos toca o Verbo, senão porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós? Ora, este Verbo que se fez carne para que pudesse ser tocado, começou a ser carne da Virgem Maria; mas não foi então que o Verbo começou a ser, pois diz o Apóstolo: Aquilo que era desde o princípio. Vede se a sua epístola não dá testemunho do seu evangelho, onde há pouco ouvistes: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus. Talvez se possa entender a expressão acerca do Verbo da vida como uma espécie de referência a Cristo, e não ao próprio corpo de Cristo que foi tocado pelas mãos. Vede o que se segue: E a Vida se manifestou. Cristo, portanto, é o Verbo da vida. E de que modo se manifestou? Pois ela existia desde o princípio, apenas não manifesta aos homens; mas manifestava-se aos anjos, que a viam e dela se alimentavam como de seu pão. Mas que diz a Escritura? O homem comeu o pão dos anjos. Pois bem, a Vida manifestou-se na carne; porque assim dispôs, na manifestação, que aquilo que só pode ser visto pelo coração fosse também visto pelos olhos, a fim de que curasse os corações. Pois só pelo coração se vê o Verbo; mas a carne também se vê pelos olhos corporais. Tínhamos com que ver a carne, mas não tínhamos com que ver o Verbo: o Verbo se fez carne, a qual pudéssemos ver, para que assim em nós se curasse aquilo com que havíamos de ver o Verbo.
Talvez alguns dos irmãos que não conhecem o grego não saibam o que é a palavra testemunhas em grego: e, contudo, é termo muito usado por todos, e tido em veneração religiosa; pois o que em nossa língua chamamos testemunhas, em grego são mártires. Ora, onde está o homem que não ouviu falar de mártires, ou onde o cristão em cuja boca o nome dos mártires não habite todos os dias — e quisera Deus que habitasse também no coração, para que imitássemos os sofrimentos dos mártires, e não os perseguíssemos com os nossos copos! Pois bem, Vimos e somos testemunhas equivale a dizer: Vimos e somos mártires. Pois foi por dar testemunho daquilo que tinham visto, e dar testemunho daquilo que tinham ouvido daqueles que o haviam visto, que, desagradando o seu próprio testemunho aos homens contra quem era proferido, os mártires sofreram tudo quanto sofreram. Os mártires são testemunhas de Deus. Aprouve a Deus ter os homens por suas testemunhas, para que também os homens tivessem a Deus por sua testemunha. Vimos, diz ele, e somos testemunhas. Onde viram? Na manifestação. Que significa, na manifestação? No sol, isto é, nesta luz do dia. E como poderia ser visto no sol aquele que fez o sol, senão porque no sol pôs o seu tabernáculo; e ele mesmo, como esposo que sai do seu tálamo, exultou como gigante para correr o seu caminho? Ele, antes do sol, que fez o sol; antes da estrela d'alva, antes de todas as estrelas, antes de todos os anjos, o verdadeiro Criador (pois todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada se fez), para que pudesse ser visto por olhos de carne que veem o sol, pôs o seu próprio tabernáculo no sol, isto é, mostrou a sua carne na manifestação desta luz do dia: e o tálamo desse Esposo foi o ventre da Virgem, porque naquele ventre virginal se uniram os dois, o Esposo e a esposa: o Esposo, o Verbo; a esposa, a carne; porque está escrito: E os dois serão uma só carne; e o Senhor diz no Evangelho: Portanto já não são dois, mas uma só carne. E Isaías bem se lembra de que são dois: pois, falando na pessoa de Cristo, diz: Pôs sobre mim a mitra como sobre um esposo, e adornou-me com ornamento como a uma esposa. Um só parece falar, e contudo se faz a um só tempo Esposo e Esposa; porque não são dois, mas uma só carne: porque o Verbo se fez carne, e habitou entre nós. A essa carne se une a Igreja, e assim se forma o Cristo total, Cabeça e corpo.
Isto é, manifestada entre nós: o que se poderia exprimir mais claramente como manifestada a nós. As coisas, pois, que vimos e ouvimos, vo-las anunciamos. Aqueles viram o próprio Senhor presente na carne, e ouviram palavras da boca do Senhor, e no-las transmitiram. Por conseguinte, nós também ouvimos, mas não vimos. Somos, então, menos felizes do que aqueles que viram e ouviram? E como acrescenta ele: Para que também vós tenhais comunhão conosco? Aqueles viram, nós não vimos, e contudo somos companheiros; porque possuímos em comum a fé. Pois houve quem não cresse mesmo vendo, e quisesse antes tocar, e assim crer, e disse: Não crerei se não meter os meus dedos no lugar dos cravos, e tocar as suas chagas. E Ele deu-se, por certo tempo, a ser tocado pelas mãos dos homens, Ele que sempre se dá a ser visto pela vista dos anjos; e aquele discípulo tocou, e exclamou: Meu Senhor e meu Deus! Porque tocou o Homem, confessou o Deus. E o Senhor, para consolar-nos a nós, que agora que Ele está assentado nos céus não podemos tocá-lo com a mão, mas somente alcançá-lo pela fé, disse-lhe: Porque me viste, creste; bem-aventurados os que não viram, e creram. Aqui somos descritos, aqui somos designados. Realize-se, pois, em nós essa bem-aventurança que o Senhor predisse que haveria de realizar-se; retenhamos firmemente aquilo que não vemos; porque no-lo dizem aqueles que viram. Para que também vós, diz ele, tenhais comunhão conosco. E que grande coisa é ter comunhão com os homens? Não a desprezeis; vede o que acrescenta: e a nossa comunhão seja com Deus Pai, e com Jesus Cristo, seu Filho. E estas coisas, diz ele, vo-las escrevemos, para que o vosso gozo seja pleno. Por gozo pleno entende ele aquela comunhão, aquela caridade, aquela unidade.
Que é isto? Esses mesmos viram, tocaram com as próprias mãos o Verbo da vida: Ele era desde o princípio, e por um tempo se fez visível e palpável, o Filho Unigênito de Deus. Por que veio Ele, ou que coisa nova nos anunciou? Que quis Ele ensinar? Por que fez Ele o que fez — que o Verbo se fizesse carne, que Deus sobre todas as coisas sofresse indignidades da parte dos homens, que suportasse ser ferido no rosto pelas mãos que Ele mesmo havia criado? Que quereria Ele ensinar? Que quereria mostrar? Que quereria declarar? Ouçamos: pois, sem o fruto do preceito, ouvir a narrativa de como Cristo nasceu e de como Cristo padeceu é mero passatempo da mente, não fortalecimento dela. Que grande coisa ouvis? Vede com que fruto ouvis. Que quereria Ele ensinar? Que declarar? Ouvi. Que Deus é luz, diz ele, e nEle não há treva alguma. Até aqui, ele nomeou de fato a luz, mas as palavras são obscuras: bom é para nós que a própria luz que nomeou ilumine nossos corações, e vejamos o que disse. Isto é o que declaramos: que Deus é luz, e nEle não há treva alguma. Quem ousaria dizer que há treva em Deus? Ou o que é a luz? Ou o que é a treva? Para que não fale, porventura, de coisas que pertencem a estes nossos olhos. Deus é luz. Dirá alguém: também o sol é luz, também a lua é luz, e uma candeia é luz. Há de ser algo bem maior que estas, bem mais excelente, e bem mais superior. Quanto Deus dista da criatura, quanto o Criador daquilo que é criado, quanto a Sabedoria daquilo que pela Sabedoria é feito, tão além de todas as coisas há de ser esta luz. E talvez estejamos perto dela, se chegarmos a conhecer o que é esta luz, e a ela nos aplicarmos, para que por ela sejamos iluminados; porque em nós mesmos somos treva, e só quando por ela iluminados podemos tornar-nos luz, e não sermos por ela confundidos, sendo antes confundidos por nós mesmos. Quem é aquele que por si mesmo se confunde? Aquele que se conhece pecador. Quem é aquele que por ela não se confunde? Aquele que por ela é iluminado. Que é ser por ela iluminado? Aquele que agora se vê obscurecido pelos pecados, e deseja por ela ser iluminado, dela se aproxima: donde o Salmo diz: Aproximai-vos dEle, e sereis iluminados, e vossos rostos não serão envergonhados. Mas não sereis por ela envergonhados, se, quando ela vos mostrar a vós mesmos que sois imundos, vossa própria imundície vos desagradar, para que possais perceber a beleza dela. Isto é o que Ele quereria ensinar.
E será que dizemos isto precipitadamente? Que o próprio apóstolo o esclareça no que se segue. Lembrai-vos do que se disse no início de nosso discurso, que a presente epístola recomenda a caridade: Deus é luz, diz ele, e nEle não há treva alguma. E que disse ele acima? Para que tenhais comunhão conosco, e nossa comunhão seja com Deus Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. Mas, além disso, se Deus é luz, e nEle não há treva alguma, e devemos ter comunhão com Ele, então também de nós deve ser afastada a treva, para que em nós se crie a luz, pois a treva não pode ter comunhão com a luz. Para isto, vede o que se segue: Se dissermos que temos comunhão com Ele, e andamos em trevas, mentimos. Tendes também o apóstolo Paulo dizendo: Ou que comunhão tem a luz com as trevas? Dizeis que tendes comunhão com Deus, e andais em trevas; e Deus é luz, e nEle não há treva alguma: como pode então haver comunhão entre a luz e a treva? Nesse ponto, portanto, pode alguém dizer a si mesmo: Que farei eu? Como serei luz? Vivo em pecados e iniquidades. Insinua-se nele, como que, um desespero e uma tristeza. Não há salvação senão na comunhão de Deus. Deus é luz, e nEle não há treva alguma. Mas os pecados são treva, como diz o Apóstolo do diabo e de seus anjos, que são príncipes desta treva. Não os chamaria de trevas, senão como príncipes dos pecados, tendo domínio sobre os ímpios. Que faremos, então, meus irmãos? Comunhão com Deus há de se ter, outra esperança de vida eterna não há; ora, Deus é Luz, e nEle não há treva alguma: ora, as iniquidades são treva; pelas iniquidades somos oprimidos, de modo que não podemos ter comunhão com Deus: que esperança temos então? Acaso não prometi dizer, nestes dias, algo que causasse alegria? Se não o cumprir, isto é tristeza. Deus é Luz, e nEle não há treva alguma; os pecados são treva: que será de nós? Ouçamos se, porventura, Ele nos consolará, nos erguerá, nos dará esperança, para que não desfaleçamos pelo caminho. Pois corremos, e corremos para nossa própria pátria; e, se desesperarmos de alcançá-la, por esse mesmo desespero fracassaremos. Mas Aquele que quer que a alcancemos, para nos manter seguros em nossa própria terra, nos alimenta pelo caminho. Ouçamos, pois: Se dissermos que temos comunhão com Ele e andamos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade.
Não digamos que temos comunhão com Ele, se andamos em trevas. Se andamos na luz, como Ele está na luz, temos comunhão uns com os outros. Andemos na luz, como Ele está na luz, para que possamos ter comunhão com Ele. E que faremos quanto aos nossos pecados? Ouvi o que se segue: E o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purificará de todo pecado. Grande segurança nos deu Deus! Bem podemos celebrar a Páscoa, na qual foi derramado o sangue do Senhor, pelo qual somos purificados de todo pecado! Estejamos seguros: a cédula que era contra nós, o vínculo de nossa escravidão, o diabo o retinha, mas pelo sangue de Cristo é apagado. O sangue, diz ele, de seu Filho nos purificará de todo pecado. Que significa, de todo pecado? Notai: eis que, ainda agora, em nome de Cristo, que estes aqui, chamados infantes, já confessaram, foram todos os seus pecados purificados. Entraram velhos, saíram novos. Como, entraram velhos, saíram novos? Homens velhos entraram, infantes saíram. Pois a vida velha é a velhice com toda a sua decrepitude, mas a vida nova é a infância da regeneração. Mas que faremos nós? Os pecados passados são perdoados, não somente a estes, mas a nós; e, depois do perdão e da abolição de todos os pecados, vivendo neste mundo em meio às tentações, alguns porventura foram contraídos. Faça, pois, o homem o que pode: confesse-se a si mesmo ser o que é, para que seja curado por Aquele que sempre é o que é: pois Ele sempre foi e é; nós não éramos e somos.
Por conseguinte, se te confessaste pecador, a verdade está em ti: pois a própria Verdade é luz. Tua vida ainda não resplandeceu em perfeito fulgor, porque há pecados em ti; mas já começaste a ser iluminado, porque há em ti a confissão dos pecados.
Não somente os passados, mas também, porventura, se contraímos algum desta vida; porque o homem, enquanto carrega a carne, não pode deixar de ter, ao menos, alguns pecados leves. Mas estes que chamamos leves, não os tenhais por leves. Se os tiverdes por leves quando os pesais, temei-os quando os contais. Muitos leves fazem um único e enorme pecado: muitas gotas enchem o rio; muitos grãos formam a massa. E que esperança há? Antes de tudo, a confissão: para que ninguém se julgue justo e, diante dos olhos de Deus, que vê o que é, o homem, que não era e é, levante o pescoço. Antes de tudo, portanto, a confissão; depois, a caridade: pois que se diz da caridade? "A caridade cobre a multidão dos pecados" (1 Pd 4:8). Vejamos agora se ele encomia a caridade a respeito dos pecados que subsequentemente nos alcançam: porque a caridade, só ela, extingue os pecados. A soberba extingue a caridade: logo, a humildade fortalece a caridade; a caridade extingue os pecados. A humildade acompanha a confissão, a humildade pela qual nos confessamos pecadores: isto é humildade, não dizê-lo com a língua, como que só para evitar a arrogância, para que não desagrademos aos homens se disséssemos que somos justos. Isto fazem os ímpios e os insensatos: "Sei, na verdade, que sou justo, mas que direi diante dos homens? Se me chamar justo, quem o suportará, quem o tolerará? Seja minha justiça conhecida a Deus: eu, porém, direi que sou pecador, mas somente para que não seja tido por odioso por arrogância." Dize aos homens o que és, dize a Deus o que és. Porque, se não disseres a Deus o que és, Deus condenará o que encontrar em ti. Não queres que Ele te condene? Condena-te tu. Queres que Ele te perdoe? Reconhece, para que possas dizer a Deus: "Desviai a Vossa face dos meus pecados." Dize também a Ele aquelas palavras no mesmo Salmo: "Pois eu reconheço a minha iniquidade." "Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda iniquidade. Se dissermos que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso, e a Sua palavra não está em nós" (1 Jo 1:9-10). Se disseres: "não pequei", fazes dEle mentiroso, ao quereres fazer-te a ti mesmo verdadeiro. Como é possível que Deus seja mentiroso, e o homem verdadeiro, quando a Escritura diz o contrário: "Todo homem é mentiroso, só Deus é verdadeiro" (Rm 3:4)? Por conseguinte, Deus é verdadeiro por Si mesmo; tu és verdadeiro por Deus; porque, por ti mesmo, és mentiroso.
E para que, porventura, não parecesse ter concedido impunidade aos pecados, ao dizer "Ele é fiel e justo para nos purificar de toda iniquidade", e os homens dissessem doravante consigo mesmos "pequemos, façamos com segurança o que quisermos, Cristo nos purifica, é fiel e justo, purifica-nos de toda iniquidade": Ele te tira uma segurança perniciosa, e te põe um temor proveitoso. Para teu próprio mal serias seguro; convém que sejas solícito. Pois Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, contanto que sempre te desagrades de ti mesmo, e te vás transformando até que sejas aperfeiçoado.
Mas talvez o pecado nos surpreenda, vindos que somos desta vida mortal: que se há de fazer então? Quê? Haverá agora desespero? Ouvi: E se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e Ele é a propiciação pelos nossos pecados (1 Jo 2:1-2). Ele, pois, é o advogado; esforça-te por não pecar; mas se, pela fraqueza desta vida, o pecado te surpreender, atenta para isso imediatamente, desagrada-te dele imediatamente, condena-o imediatamente; e, tendo-o condenado, virás seguro ao Juiz. Ali tens o advogado: não temas perder a tua causa na tua confissão. Pois se, muitas vezes nesta vida, alguém confia a sua causa a uma língua eloquente, e não se perde, tu te confias ao Verbo, e haverás de perder-te? Clama: Temos um advogado junto ao Pai.
Vede o próprio João observando a humildade. Certamente foi ele um homem justo e grande, que do seio do Senhor bebeu os segredos de seus mistérios; ele, o homem que, bebendo do seio do Senhor, redigiu acerca de sua Divindade: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus; ele, sendo homem de tal grandeza, não diz: Tendes um advogado junto ao Pai; mas: Se alguém pecar, temos, diz ele, um advogado. Não diz: tendes; nem diz: tendes a mim; nem diz: tendes o próprio Cristo; mas põe a Cristo, não a si mesmo, e diz também: Temos, não: Tendes. Preferiu antes colocar-se no número dos pecadores, para ter a Cristo por seu advogado, do que colocar-se no lugar de Cristo como advogado, e ser encontrado entre os soberbos que hão de ser condenados. Irmãos, Jesus Cristo, o justo, a Ele mesmo temos por nosso advogado junto ao Pai; Ele, sim, Ele é a propiciação por nossos pecados. Isto, quem o tem guardado firmemente, não fez heresia alguma; isto, quem o tem guardado firmemente, não fez cisma algum. Pois de onde vieram os cismas? Quando os homens dizem: somos justos, quando os homens dizem: santificamos o impuro, justificamos o ímpio; pedimos, obtemos. Mas que diz João? E se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo. Mas alguém dirá: então os santos não rogam por nós? Então os bispos e os que presidem não rogam pelo povo? Sim, mas atentai para as Escrituras, e vede que também os que presidem se recomendam às orações do povo. Assim diz o apóstolo à congregação: Orando também por nós (Cl 4:3). O apóstolo ora pelo povo, o povo ora pelo apóstolo. Nós oramos por vós, irmãos; mas orai também vós por nós. Orem todos os membros uns pelos outros; interceda a Cabeça por todos. Não é, pois, de admirar que ele aqui prossiga e feche a boca dos que dividem a Igreja de Deus. Pois aquele que disse: Temos Jesus Cristo, o justo, e Ele é a propiciação por nossos pecados, tendo em vista os que se dividiriam a si mesmos e diriam: Eis aqui Cristo, eis ali (Mt 24:23), e o mostrariam numa parte quem comprou o todo e possui o todo, prossegue imediatamente dizendo: Não somente pelos nossos pecados, mas também pelos pecados de todo o mundo. Que é isto, irmãos? Certamente o encontramos nos campos dos bosques, encontramos a Igreja em todas as nações. Eis que Cristo é a propiciação por nossos pecados; não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo. Eis que tendes a Igreja por todo o mundo; não sigais os falsos justificadores que, em verdade, são cismáticos. Estai naquele monte que encheu toda a terra, porque Cristo é a propiciação por nossos pecados; não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo, os quais Ele comprou com o seu sangue.
Vejamos se este mesmo mandamento não se chama caridade. Pois perguntávamos que mandamentos, e ele diz: Mas quem guarda a sua palavra, nele verdadeiramente está aperfeiçoado o amor de Deus. Atentai para o Evangelho, se este não é o mandamento: Um novo mandamento, diz o Senhor, vos dou, que vos ameis uns aos outros (Jo 13:34). Nisto sabemos que estamos nEle, se nEle formos aperfeiçoados. Aperfeiçoados no amor, assim os chama: que é a perfeição do amor? Amar até os inimigos, e amá-los com este fim, que se tornem irmãos. Pois não deve ser carnal o nosso amor. Desejar a alguém o bem temporal é bom; mas, ainda que este falte, esteja a alma a salvo. Desejas vida a algum que seja teu amigo? Fazes bem. Alegras-te com a morte de teu inimigo? Fazes mal. Mas talvez, tanto ao teu amigo a vida que lhe desejas não seja para o seu bem, quanto ao teu inimigo a morte com que te alegras tenha sido para o seu bem. É incerto se esta vida presente é proveitosa ou não a algum homem; mas a vida que está com Deus é, sem dúvida, proveitosa. Amai, pois, os vossos inimigos de tal modo que desejeis que se tornem vossos irmãos; amai os vossos inimigos de tal modo que possam ser chamados à vossa comunhão. Pois assim amou Aquele que, pendente na cruz, disse: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23:34). Pois não disse: Pai, façam-nos viver longamente, a mim, na verdade, matam, mas que vivam eles. Ele estava expulsando deles a morte que é para todo o sempre, por sua oração misericordiosíssima e por seu poder soberaníssimo. Muitos deles creram, e o derramamento do sangue de Cristo lhes foi perdoado. No princípio o derramaram enquanto se enfureciam; depois o beberam enquanto criam.
Nisto sabemos que estamos nEle, se nEle formos aperfeiçoados. Tocante à própria perfeição do amor aos inimigos, o Senhor, admoestando, diz: Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial (Mt 5:48). Aquele, pois, que diz que permanece nEle, deve também ele mesmo andar assim como Ele andou (1 Jo 2:6). Como, irmãos? Que nos aconselha ele? Aquele que diz que permanece nEle, isto é, em Cristo, deve também ele mesmo andar assim como Ele andou. Porventura o conselho é este, que andemos sobre o mar? Longe de nós tal coisa! É este, pois, que andemos no caminho da justiça. Em qual caminho? Já o mencionei. Ele estava fixado na cruz, e contudo andava neste mesmo caminho: este caminho é o caminho da caridade: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Se, pois, aprendeste a orar por teu inimigo, andas no caminho do Senhor.
Que mandamento chama ele antigo? Aquele que tínheis, diz ele, desde o princípio. Antigo, pois, neste sentido, porque já o ouvistes: de outro modo, contradiria ao Senhor, onde Ele diz: Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros (Jo 13,34). Mas por que um mandamento antigo? Não como pertencente ao homem velho. Mas por quê? Aquele que tínheis desde o princípio. O mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Antigo, pois, neste sentido, porque já o ouvistes.
Não outro, mas o mesmíssimo que ele chamou de antigo, esse mesmo é também novo. Por quê? Porque isto é verdadeiro n'Ele e em vós. Por que antigo, já o ouvistes: isto é, porque já o conhecíeis. Mas por que novo? Porque as trevas passam, e a verdadeira luz já resplandece. Eis, pois, donde é novo: porque as trevas pertencem ao homem velho, mas a luz ao homem novo. Que diz o Apóstolo Paulo? Despojai-vos do homem velho, e revesti-vos do novo (Cl 3,9-10). E que diz ele ainda? Éreis outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor (Ef 5,8).
Quê! Irmãos meus, até quando vos diremos: Amai a vossos inimigos (Mt 5,44)? Vede se, o que é pior, não odiais a vossos irmãos. Se amásseis apenas a vossos irmãos, não seríeis ainda perfeitos: mas se odiais a vossos irmãos, que sois, onde estais? Que cada um examine o próprio coração: que não guarde ódio contra o irmão por causa de alguma palavra dura; que por contenda terrena não se torne terra. Pois quem odeia a seu irmão, que não diga que anda na luz. Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, está nas trevas até agora. Assim, algum homem que era pagão fez-se cristão; observai bem: eis que estava nas trevas, enquanto era pagão: agora é feito, doravante, cristão; graças sejam dadas a Deus, dizem todos com alegria; lê-se o apóstolo, onde diz jubilosamente: Pois éreis outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor (Ef 5,8). Outrora adorava ídolos, agora adora a Deus; outrora adorava as coisas que fez, agora adora Aquele que o fez. Ele está transformado: graças sejam dadas a Deus, dizem todos os cristãos com jubilosa saudação. Por quê? Porque doravante é alguém que adora o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo; alguém que detesta os demônios e os ídolos. Contudo, ainda está João solícito por nosso convertido: enquanto muitos o saúdam com alegria, por ele ainda é olhado com apreensão. Irmãos, acolhamos de bom grado a solicitude de uma mãe. Não sem causa a mãe está solícita por nós quando outros se alegram: por mãe, entendo a caridade: pois ela habitava no coração de João, quando disse estas palavras. Por que, senão porque há algo que ele teme em nós, mesmo quando os homens já nos saúdam com alegria? Que é o que ele teme? Aquele que diz que está na luz — que é isto? Aquele que diz agora que é cristão — e odeia a seu irmão, está nas trevas até agora. O que não há necessidade de expor: mas de alegrar-nos, se não for assim, ou de lamentar, se assim for.
Sinceramente vos suplico por Cristo: Deus nos está alimentando, estamos prestes a reconfortar nossos corpos em nome de Cristo; ambos são, em alguma boa medida, reconfortados, e hão de sê-lo ainda: que a mente também seja alimentada. Não digo isto porque irei falar longamente, pois eis que a lição já se aproxima do fim; mas para que, por acaso, de fastio não ouçamos com menos atenção do que devemos aquilo que é sumamente necessário. — Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e não há nele escândalo, nem ocasião de tropeço. Quem são, pois, os que tomam escândalo ou fazem escândalo? Aqueles que se ofendem em Cristo e na Igreja. Os que se ofendem em Cristo são como que queimados pelo sol; os que se ofendem na Igreja, como pela lua. Mas o Salmo diz: O sol não te queimará de dia, nem a lua de noite; isto é, se conservardes firme a caridade, nem em Cristo tereis ocasião de queda, nem na Igreja; nem a Cristo abandonareis, nem à Igreja. Pois aquele que abandona a Igreja, como está em Cristo, se não está nos membros de Cristo? Como está em Cristo quem não está no corpo de Cristo? Tomam, portanto, escândalo, ou ocasião de queda, os que abandonam a Cristo ou a Igreja. Donde entendemos que o Salmo, ao dizer De dia o sol não te queimará, nem a lua de noite, o diz nesse sentido, de que o queimar significa escândalo, ou ocasião de tropeço? Observai, em primeiro lugar, a própria similitude. Assim como aquele a quem algo queima diz: não posso suportar, não posso tolerar isto, e recua; assim também aqueles que não podem suportar certas coisas na Igreja, e se apartam ou do nome de Cristo ou da Igreja, tomam escândalo. Vede, com efeito, como tomaram escândalo, como que do sol, aqueles carnais a quem Cristo pregou acerca de Sua carne, dizendo: Quem não come a carne do Filho do Homem e não bebe o Seu sangue não terá vida nele (Jo 6,54-69). Uns setenta disseram: Duro é este discurso, e voltaram atrás, e permaneceram os doze. A todos estes o sol queimou, e voltaram atrás, não podendo suportar a força da Palavra. Permaneceram, pois, os doze. E para que, por acaso, os homens não imaginassem que conferiam um benefício a Cristo ao crer em Cristo, e não que o benefício lhes era conferido por Ele; quando os doze ficaram, o Senhor lhes disse: Quereis vós também ir-vos? Para que soubésseis que Eu vos sou necessário, não vós a Mim. Mas aqueles a quem o sol não queimara responderam pela voz de Pedro: Senhor, Tu tens palavras de vida eterna; para onde iremos? Mas quem são aqueles a quem a Igreja, como lua, queima de noite? Os que fizeram cismas. Ouvi a própria palavra usada pelo Apóstolo: Quem se escandaliza, e eu não me abraso? (2 Cor 11,29). Em que sentido, pois, é que não há escândalo nem ocasião de tropeço naquele que ama a seu irmão? Porque aquele que ama a seu irmão tudo suporta por causa da unidade; porque é na unidade da caridade que existe o amor fraterno. Alguém, não sei quem, vos ofende: seja um mau homem, seja como supondes um mau homem, seja como fingis um mau homem: e abandonais, por isso, tantos homens bons? Que espécie de amor fraterno é este que se manifestou nessas pessoas? Enquanto acusam os africanos, abandonaram o mundo inteiro! Como assim, não havia santos em todo o mundo? Ou seria possível que fossem condenados por vós sem serem ouvidos? Mas, ah! Se amásseis a vossos irmãos, não haveria em vós ocasião alguma de tropeço.
Ouvi o Salmo, o que diz: Grande paz têm os que amam a Vossa lei, e não há para eles ocasião de tropeço. Grande paz, diz, têm os que amam a lei de Deus, e é por isso que não há para eles ocasião de tropeço. Aqueles, pois, que tomam escândalo, ou ocasião de tropeço, destroem a paz. E de quem diz ele que não tomam nem fazem ocasião de tropeço? Daqueles que amam a lei de Deus. Por conseguinte, estão na caridade. Mas dirá alguém: Ele disse isso dos que amam a lei de Deus, não dos irmãos. Ouvi o que diz o Senhor: Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros (Jo 13,34). Que é a Lei senão mandamento? Além disso, como é que eles não tomam ocasião de tropeço, senão porque se suportam uns aos outros? Como diz Paulo: Suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4,2-3). E, para mostrar que esta é a lei de Cristo, ouvi o mesmo apóstolo recomendando esta mesma lei. Levai as cargas uns dos outros, diz ele, e assim cumprireis a lei de Cristo (Gl 6,2).
Grande coisa, meus irmãos: notai-a, suplicamos-vos. Aquele que odeia a seu irmão anda em trevas e não sabe para onde vai, porque as trevas cegaram os seus olhos. Que há de mais cego do que estes que odeiam os irmãos? Pois, para que saibais que são cegos, tropeçaram numa Montanha. Digo muitas vezes as mesmas coisas, para que não escapem de vossa memória. A Pedra que foi cortada da Montanha sem mãos, não é Cristo, que veio do reino dos judeus, sem obra de homem? Não despedaçou aquela Pedra todos os reinos da terra, isto é, todas as dominações dos ídolos e dos demônios? Não cresceu aquela Pedra, e se fez uma grande montanha, e encheu toda a terra? Apontamos nós com o dedo esta Montanha, tal como se aponta aos homens a lua em seu terceiro dia? Por exemplo, quando querem que as pessoas vejam a lua nova, dizem: Eis a lua! eis onde está! E se há ali alguns que não têm vista aguda, e dizem: Onde? Então estende-se o dedo para que a vejam. Às vezes, quando têm vergonha de serem tidos por cegos, dizem ter visto o que não viram. Apontamos nós desta maneira a Igreja, meus irmãos? Não está ela patente? Não é manifesta? Não possuiu ela todas as nações? Não se cumpriu o que, tantos anos antes, fora prometido a Abraão, que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações? Foi prometido a um só crente, e o mundo se encheu de milhares de crentes. Eis aqui a montanha enchendo toda a face da terra! Eis a cidade da qual se diz: Uma cidade posta sobre um monte não se pode esconder! Mas estes tropeçam na montanha, e quando se lhes diz: Subi; Não há montanha, dizem eles, e antes quebram a cabeça contra ela do que buscar ali morada. Ontem se leu Isaías; quem quer que dentre vós estivesse desperto não só com os olhos, mas com o ouvido, e não o ouvido do corpo, mas o ouvido do coração, notou isto: Nos últimos dias se manifestará o monte da casa do Senhor, preparado sobre o cume dos montes. Que há de mais manifesto do que um monte? Mas há até montes desconhecidos, porque estão situados em uma parte da terra. Qual de vós conhece o Monte Olimpo? Assim como os que ali habitam não conhecem o nosso Giddaba. Estes montes estão em diferentes partes da terra. Mas não é assim aquela Montanha, pois encheu toda a face da terra, e dela se diz: Preparado sobre o cume dos montes. É uma Montanha acima dos cumes de todos os montes. E, diz ele, a ela se ajuntarão todas as nações. Quem pode ignorar esta Montanha? Quem quebra a cabeça tropeçando nela? Quem desconhece a cidade posta sobre um monte? Mas não vos maravilheis de que seja desconhecida por estes que odeiam os irmãos, porque andam em trevas e não sabem para onde vão, porque as trevas cegaram os seus olhos. Não veem a Montanha: não quero que vos maravilheis; não têm olhos. Como é que não têm olhos? Porque as trevas os cegaram. Como provamos isto? Porque odeiam os irmãos, visto que, ofendendo-se com os africanos, separam-se de toda a terra: visto que não toleram, pela paz de Cristo, aqueles que difamam, e toleram, por causa de Donato, aqueles que condenam.
Todas as coisas que se leem nas Sagradas Escrituras para nossa instrução e salvação, cumpre-nos ouvi-las com atenção diligente. Mas sobretudo devem ser recomendadas à nossa memória aquelas que têm maior força contra os hereges, cujos desígnios insidiosos não cessam de circunvir todos os que são mais fracos e mais negligentes. Lembrai-vos de que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo tanto morreu por nós quanto ressuscitou; morreu, a saber, por nossos delitos, ressuscitou para nossa justificação (Rm 4,25). Assim como acabastes de ouvir a respeito dos dois discípulos com quem Ele se encontrou no caminho, como seus olhos estavam retidos para que não O reconhecessem (Lc 24,13-28): e Ele os encontrou desesperançados da redenção que havia em Cristo, julgando que agora Ele padecera e estava morto como homem, não considerando que, como Filho de Deus, Ele vive sempre; e julgando também que Ele estava de tal modo morto na carne que não haveria de tornar à vida, mas apenas como um dos profetas — como aqueles dentre vós que estavam atentos acabaram de ouvir suas próprias palavras. Então Ele lhes abriu as Escrituras, começando por Moisés e percorrendo todos os profetas, mostrando-lhes que tudo o que Ele padecera fora predito, para que não se perturbassem ainda mais se o Senhor ressuscitasse, e menos ainda cressem Nele, se estas coisas não tivessem sido preditas a Seu respeito. Pois a firmeza da fé consiste nisto: que todas as coisas que se cumpriram em Cristo foram preditas. Os discípulos, pois, não O conheceram senão no partir do pão. E, na verdade, aquele que come e bebe sem discernir para si mesmo o Corpo do Senhor, na fração do pão, conhece a Cristo (1 Cor 11,29). Depois também aqueles onze pensaram ver um espírito. Ele Se deu para ser tocado por eles, Ele que também Se dera para ser crucificado; para ser crucificado pelos inimigos, para ser tocado pelos amigos: e, no entanto, era o Médico de todos, tanto da impiedade destes quanto da incredulidade daqueles. Pois ouvistes, quando se leram os Atos dos Apóstolos, quantos milhares dos matadores de Cristo creram (At 2,41). Se aqueles que O mataram creram depois, não haveriam de crer estes que por pouco tempo duvidaram? E, contudo, mesmo a respeito destes — coisa que deveis sobretudo observar e confiar à memória, porque aquilo que há de nos fortalecer contra os erros insidiosos, aprouve a Deus depositá-lo nas Escrituras, contra as quais ninguém ousa falar, se de algum modo deseja parecer cristão — quando Ele Se dera para ser tocado por eles, isto não Lhe bastou, mas quis também confirmar por meio das Escrituras o coração dos que creem; pois Ele previa a nós, que havíamos de vir depois, vendo que em Ele nada temos que possamos tocar, mas temos o que podemos ler. Pois, se aqueles creram apenas porque O seguraram e O tocaram, que faremos nós? Ora, Cristo subiu aos céus; não há de vir senão no fim, para julgar os vivos e os mortos. Por que meio, pois, haveremos de crer, senão por aquele meio pelo qual Ele quis que fossem confirmados até mesmo aqueles que O tocaram? Pois Ele lhes abriu as Escrituras e lhes mostrou que convinha que Cristo padecesse, e que se cumprissem todas as coisas que a respeito dEle estavam escritas na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Abraçou em Seu discurso todo o texto antigo das Escrituras. Tudo quanto há naquelas Escrituras antigas fala de Cristo; mas somente se encontrar ouvidos. Ele também lhes abriu o entendimento, para que compreendessem as Escrituras.
Whence também é preciso que roguemos por isto, que Ele abra o nosso entendimento.
Bem, mas o que mostrou o Senhor estar escrito acerca dEle na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos? O que mostrou Ele? Que Ele mesmo o diga. O evangelista pôs isto de modo breve, para que soubéssemos o que, em toda aquela vasta extensão das Escrituras, devemos crer e entender. Certamente há muitas páginas, e muitos livros; o conteúdo de todos eles é isto que o Senhor brevemente disse a Seus discípulos. Que é isto? Que convinha que Cristo padecesse, e ressuscitasse ao terceiro dia. Tendes agora acerca do Esposo, que convinha que Cristo padecesse, e ressuscitasse: o Esposo nos foi apresentado. Acerca da Esposa, vejamos o que Ele diz; para que vós, quando conhecerdes o Esposo e a Esposa, não venhais sem razão às núpcias. Pois toda celebração é celebração de núpcias: celebram-se as núpcias da Igreja. O Filho do Rei está para desposar uma esposa, e esse Filho do Rei é Ele mesmo um Rei: e os convidados que frequentam as núpcias são eles mesmos a Esposa. Não como num casamento carnal, em que uns são convidados, e outra é a que se casa; na Igreja, os que vêm como convidados, se vêm com bom propósito, tornam-se a Esposa. Pois toda a Igreja é a Esposa de Cristo, da qual o começo e as primícias são a carne de Cristo: ali foi a Esposa unida ao Esposo na carne. Com boa razão, quando quis significar essa mesma carne, partiu o pão, e com boa razão, no partir do pão, abriram-se os olhos dos discípulos, e O reconheceram. Pois bem, o que disse o Senhor estar escrito acerca dEle na Lei, nos Profetas e nos Salmos? Que convinha que Cristo padecesse. Se Ele não tivesse acrescentado, e ressuscitasse, bem poderiam lamentar-se aqueles cujos olhos estavam retidos; mas também a ressurreição é predita. E por que isto? Por que convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse? Por causa daquele Salmo que sobretudo vos recomendamos no quarto dia, na primeira estação, da semana passada. Por que convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse? Por esta razão: Todos os confins da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor, e todas as famílias das nações adorarão diante dEle. E para que saibais que convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse, também aqui, neste lugar, o que Ele acrescentou, para que, depois de apresentar o Esposo, apresentasse também a Esposa? E que se pregue, diz Ele, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Ouvistes, irmãos; retende-o firmemente. Que ninguém duvide acerca da Igreja, de que ela está por todas as nações: que ninguém duvide de que ela começou em Jerusalém, e encheu todas as nações. Conhecemos o campo onde a Vinha foi plantada; mas, quando crescida, não a conhecemos, porque tomou todo o espaço. Onde começou? Em Jerusalém. Aonde chegou? A todas as nações. Poucos restam: ela os possuirá a todos. Entretanto, enquanto vai tomando posse de todos, pareceu bem ao Lavrador cortar alguns ramos infrutíferos, e estes fizeram heresias e cismas. Que os ramos cortados não vos induzam a serdes cortados; antes exortai os que foram cortados a que sejam enxertados de novo. É manifesto que Cristo padeceu, ressuscitou, e subiu ao céu: manifesta também é a Igreja, porque se prega em Seu nome o arrependimento e a remissão dos pecados por todas as nações. Onde começou? Começando por Jerusalém.
Foolhardy o homem que a isto dá ouvidos, e vão, e — como o direi? — pior que cego! Tão grande monte, e não o vê; uma candeia posta sobre o candelabro, e ele cerra os olhos contra ela!
Quando lhes dizemos: Se sois cristãos católicos, comunicai-vos com aquela Igreja de onde o Evangelho se difundiu por toda a terra: comunicai-vos com aquela Jerusalém — quando isto lhes dizemos, respondem-nos: não nos comunicamos com aquela cidade onde nosso Rei foi morto, onde nosso Senhor foi morto: como se odiassem a cidade onde nosso Senhor foi morto. Os judeus mataram Aquele que encontraram na terra; estes escarnecem d'Aquele que está sentado nos céus! Quais são piores: os que O desprezaram porque O julgavam homem, ou os que escarnecem os sacramentos d'Aquele que agora confessam ser Deus? Mas odeiam, dizem eles, a cidade em que seu Senhor foi morto! Homens piedosos e misericordiosos! Muito se afligem porque Cristo foi morto, e nos homens matam a Cristo! Mas Ele amou aquela cidade, e teve piedade dela: dela ordenou que começasse a pregação de Seu nome, começando por Jerusalém. Ali fez o começo da pregação de Seu nome: e vós vos horrorizais de ter comunhão com aquela cidade! Não é de admirar que, estando cortados, odieis a raiz. Que disse Ele a Seus discípulos? Permanecei sentados na cidade, porque envio sobre vós a minha promessa. Vede qual é a cidade que odeiam! Talvez a amassem, se nela habitassem os matadores de Cristo. Pois é manifesto que todos os matadores de Cristo, isto é, os judeus, foram expulsos daquela cidade. Aquela que continha em si os que eram ferozes contra Cristo, tem agora os que adoram a Cristo. Por isso a odeiam estes homens, porque nela há cristãos. Ali foi Sua vontade que Seus discípulos permanecessem, e ali lhes enviaria o Espírito Santo. Onde teve a Igreja seu começo, senão onde o Espírito Santo desceu do céu e encheu os cento e vinte que estavam sentados num só lugar? Aquele número, doze, foi multiplicado por dez. Estavam sentados, cento e vinte pessoas, e veio o Espírito Santo, e encheu todo o lugar, e sobreveio um som, como de um vento impetuoso, e apareceram línguas repartidas como que de fogo. Ouvistes os Atos dos Apóstolos: esta foi a lição lida hoje: Começaram a falar em línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. E todos os que ali se achavam, judeus vindos de várias nações, reconheciam cada qual a sua própria língua, e maravilhavam-se de que aqueles homens indoutos e ignorantes tivessem de súbito aprendido não uma ou duas línguas, mas as línguas de todas as nações. Ali, pois, onde soaram todas as línguas, ali se prenunciava que todas as línguas haveriam de crer. Mas estes homens, que tanto amam a Cristo e por isso recusam comunicar-se com a cidade que matou a Cristo, tanto honram a Cristo que afirmam estar Ele restrito a duas línguas, a latina e a púnica, isto é, africana. Cristo possuir somente duas línguas! Pois não há mais que estas duas línguas do lado de Donato, outras não têm. Despertemos, irmãos meus, vejamos antes o dom do Espírito de Deus, e creiamos as coisas ditas de antemão a Seu respeito, e vejamos cumprido o que foi predito no Salmo: Não há linguagens nem discursos, mas suas vozes se ouvem entre eles. E para que não se pense, porventura, que foram as próprias línguas que vieram a um só lugar, e não antes o dom de Cristo que veio a todas as línguas, ouvi o que se segue: Por toda a terra saiu o seu som, e até os confins do mundo as suas palavras. Por que isto? Porque no sol pôs Ele o seu tabernáculo, isto é, em plena luz. Seu tabernáculo, Sua carne; Seu tabernáculo, Sua Igreja: no sol está posto; não na noite, mas no dia.
Mas por que não a reconhecem? Voltai à lição no ponto em que ontem terminou, e vede por que não a reconhecem: *Aquele que odeia a seu irmão anda nas trevas e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos*. Vejamos, pois, o que se segue, para que não estejamos nas trevas. Como não estaremos nas trevas? Se amarmos os irmãos. Como se prova que amamos a fraternidade? Por isto: que não rasgamos a unidade, que mantemos firme a caridade.
*Escrevo-vos, filhinhos, porque os vossos pecados vos são perdoados por causa do Seu nome* (1 Jo 2,12). Portanto, filhinhos, porque no perdão dos pecados tendes o vosso nascimento. Mas por meio de que nome são perdoados os pecados? Por meio de Agostinho? Não; logo, tampouco por meio do nome de Donato. Cuidai vós de ver quem é Agostinho, ou quem é Donato: não, nem sequer por meio do nome de Paulo, nem por meio do nome de Pedro. Pois àqueles que dividiram para si a Igreja e, saindo da unidade, se esforçaram por fazer partidos, a caridade materna, no apóstolo que com dores de parto gerava os seus pequeninos, expõe as próprias entranhas, com palavras rasga como que os próprios seios, chora os filhos que vê nascidos mortos, chama de volta ao único Nome os que quiseram fazer-se muitos nomes, afasta-os do amor de si mesma para que se ame a Cristo, e diz: *Acaso Paulo foi crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo?* (1 Cor 1,13). Que diz ele? Não quereria que fôsseis meus, para que assim pudésseis estar comigo: estai comigo; todos nós somos daquele que morreu por nós, que foi crucificado por nós; donde também aqui se diz: *Os vossos pecados vos são perdoados por causa do Seu nome*, e não por causa do nome de nenhum homem.
Escrevo-vos, pais. Por que primeiro filhos? Porque os vossos pecados vos são perdoados por meio do Seu nome, e sois regenerados para uma vida nova, por isso filhos. Por que pais? Porque conhecestes Aquele que é desde o princípio: pois o princípio tem relação com a paternidade. Cristo novo na carne, mas antigo na divindade. Quão antigo pensamos? Quantos anos teria? Pensamos ser Ele de idade maior que a de Sua mãe? Certamente de idade maior que a de Sua mãe, pois todas as coisas foram feitas por Ele. Se todas as coisas, então o Antigo fez a própria mãe de quem havia de nascer o Novo. Seria Ele, pensamos, apenas anterior à Sua mãe? Sim, e anterior aos antepassados de Sua mãe é a Sua antiguidade. O antepassado de Sua mãe foi Abraão; e o Senhor diz: Antes de Abraão, Eu Sou. Antes de Abraão, dizemos? O céu e a terra, antes que o homem existisse, foram feitos. Antes destes era o Senhor, ou antes, também é. Pois muito bem Ele diz, não: Antes de Abraão Eu era, mas: Antes de Abraão Eu Sou. Pois aquilo de que se diz "era" não é; e aquilo de que se diz "será" ainda não é: Ele não conhece outra coisa senão ser. Como Deus, conhece o ser: era e será, não conhece. Ali é um só dia, mas um dia que é para todo o sempre. Aquele dia não tem "ontem" e "amanhã" a se interporem no meio: pois quando o "ontem" termina, começa o "hoje", para se acabar com a chegada do "amanhã" vindouro. Aquele único dia é um dia sem trevas, sem noite, sem espaços, sem medida, sem horas. Chamai-o como quiserdes: se quiserdes, é um dia; se quiserdes, um ano; se quiserdes, anos. Pois se diz deste mesmo: E os vossos anos não faltarão. Mas quando se chama dia? Quando se diz ao Senhor: Hoje Te gerei. Do Pai eterno gerado, desde a eternidade gerado, na eternidade gerado: sem princípio algum, sem limite, sem espaço de amplidão; porque Ele é o que é, porque Ele mesmo é Aquele que É. Este nome Ele o disse a Moisés: Direis a eles: Aquele que É me enviou a vós. Por que falar então de antes de Abraão? Por que, antes de Noé? Por que, antes de Adão? Ouvi a Escritura: Antes da estrela da manhã Eu Te gerei. Enfim, antes do céu e da terra. Por quê? Porque todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito. Por isto conheceis os pais: pois se fazem pais reconhecendo Aquilo que é desde o princípio.
Escrevo-vos, jovens. Há filhos, há pais, há jovens: filhos, porque gerados; pais, porque reconhecem o Princípio; por que jovens? Porque vencestes o maligno. Nos filhos, o nascimento: nos pais, a antiguidade: nos jovens, a força. Se o maligno é vencido pelos jovens, ele combate conosco. Combate, mas não vence. Por quê? Porque somos fortes, ou porque é forte em nós Aquele que, nas mãos dos perseguidores, foi achado fraco? Ele nos fez fortes, Ele que não resistiu aos Seus perseguidores. Pois foi crucificado por fraqueza, mas vive pelo poder de Deus.
Escrevo-vos, filhinhos. De onde filhinhos? Porque conhecestes o Pai. Escrevo-vos, pais: ele reforça isto, e repete: Porque conhecestes Aquele que é desde o princípio. Lembrai-vos de que sois pais: se esquecerdes Aquele que é desde o princípio, perdestes a vossa paternidade. Escrevo-vos, jovens. Considerai uma vez e outra que sois jovens: combatei, para que venças: vencei, para que sejais coroados: sede humildes, para que não caiais no combate. Escrevo-vos, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e vencestes o maligno.
Todas estas coisas, meus irmãos — porque conhecemos Aquilo que é desde o princípio, porque somos fortes, porque conhecemos o Pai — todas estas coisas, ao mesmo tempo em que, de certo modo, encarecem o conhecimento, não encarecem também a caridade? Se conhecemos, amemos: pois o conhecimento sem a caridade não salva. O conhecimento incha, a caridade edifica. Se tens ânimo para confessar e não amar, começas a ser semelhante aos demônios. Os demônios confessaram o Filho de Deus, e disseram: Que temos nós contigo? — e foram repelidos. Confessai e abraçai. Pois aqueles temiam por suas iniquidades; amai vós Aquele que perdoa as vossas iniquidades. Mas como podemos amar a Deus, se amamos o mundo? Ele nos prepara, portanto, para sermos habitados pela caridade. Há dois amores: o do mundo e o de Deus: se o amor do mundo habita, não há lugar para que entre o amor de Deus: dê lugar o amor do mundo, e habite o amor de Deus; tenha lugar o melhor. Amaste o mundo: não ameis o mundo: quando tiverdes esvaziado o vosso coração do amor terreno, bebereis o amor divino: e desde então começa a caridade a habitar-vos, da qual nada de mal pode proceder. Ouvi, pois, as suas palavras, como procede à maneira de quem faz uma limpeza. Ele vem sobre os corações dos homens como um campo que quisesse ocupar: mas em que estado o encontra? Se encontra um bosque, arranca-o pela raiz; se encontra o campo limpo, planta-o. Ele quer ali plantar uma árvore, a caridade. E qual é o bosque que ele quer arrancar? O amor do mundo. Ouvi-o, o arrancador do bosque! Não ameis o mundo (pois isto vem a seguir), nem as coisas que estão no mundo; se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.
Ouvistes que, se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Que ninguém diga em seu coração que isto é falso, irmãos: Deus o diz; pelo Apóstolo falou o Espírito Santo; nada mais verdadeiro: Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Quereis ter o amor do Pai, para serdes coerdeiros com o Filho? Não ameis o mundo. Excluí o mau amor do mundo, para que sejais cheios do amor de Deus. Sois um vaso; mas ainda estais cheios. Derramai o que tendes, para que recebais o que não tendes. Certamente, nossos irmãos agora renasceram da água e do Espírito: também nós, há alguns anos, renascemos da água e do Espírito. Bom é para nós que não amemos o mundo, para que os sacramentos não permaneçam em nós para condenação, e não como meios de fortalecimento para a salvação. O que fortalece para a salvação é ter a raiz da caridade, ter o poder da piedade, não somente a forma. Boa é a forma, santa é a forma: mas de que aproveita a forma, se não retém a raiz? O ramo que é cortado, não é lançado ao fogo? Tende a forma, mas na raiz. Mas de que maneira estais enraizados, de sorte que não sejais desarraigados? Retendo a caridade, como diz o Apóstolo Paulo: enraizados e fundados na caridade. Como se enraizará ali a caridade, em meio à selva crescida do amor do mundo? Fazei limpeza clara dos bosques. Uma poderosa semente estais para pôr: que não haja no campo aquilo que sufoque a semente. Estas são as palavras de desarraigamento que ele disse: Não ameis o mundo, nem as coisas que estão no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.
Estes são três: para que ninguém diga, porventura: As coisas que há no mundo, Deus as fez: isto é, o céu e a terra, o mar; o sol, a lua, as estrelas, todo o ornamento dos céus. Qual é o ornamento do mar? Todos os répteis. Qual o da terra? Os animais, as árvores, as aves. Estas coisas estão "no mundo", Deus as fez. Por que, então, não hei de amar o que Deus fez? Que o Espírito de Deus esteja em ti, para que vejas que todas essas coisas são boas: mas ai de ti se amares as coisas feitas e abandonares o seu Feitor! Belas são elas para ti: mas quanto mais belo Aquele que as formou! Atendei bem, amados. Pois por semelhanças podeis ser instruídos: para que Satanás não vos surpreenda, dizendo o que costuma dizer: Desfruta da criatura de Deus; pois para que fez Ele essas coisas senão para o teu deleite? E os homens embriagam-se e perecem, e esquecem o seu próprio Criador: enquanto, não com temperança, mas com concupiscência, usam das coisas criadas, o Criador é desprezado. Destes diz o Apóstolo: Adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito para sempre (Rm 1,25). Deus não te proíbe amar essas coisas; contudo, não as ponhas como tua bem-aventurança, mas aprova-as e louva-as com este fim: que ames o teu Criador. Do mesmo modo, irmãos meus, como se um esposo fizesse um anel para sua esposa, e ela, tendo recebido o anel, o amasse mais do que ama ao esposo que lho fez: não seria a sua alma culpada de adultério no próprio dom do esposo, ainda que ela amasse apenas o que o esposo lhe deu? De todo em todo, que ame o que o esposo lhe deu: mas se ela dissesse: Este anel me basta, não quero ver o seu rosto agora — que espécie de mulher seria essa? Quem não detestaria tal loucura? Quem não a julgaria culpada de mente adúltera? Amas o ouro em lugar do homem, amas um anel em lugar do esposo: se isto há em ti, que ames um anel em lugar do teu esposo, e não tens desejo de ver o teu esposo, o fato de ele te ter dado um penhor não serve para te ligar a ele, mas para desviar de ti o teu coração! Pois para isto dá o esposo o penhor, para que em seu penhor ele mesmo seja amado. Pois bem, Deus te deu todas essas coisas: ama Aquele que as fez. Há mais que Ele de bom grado te daria, isto é, Ele mesmo, que fez essas coisas. Mas se amares estas — ainda que Deus as tenha feito — e negligenciares o Criador e amares o mundo, não será a tua caridade tida por adúltera? Pois o nome de mundo se dá não somente a esta obra que Deus fez, o céu e a terra, o mar, as coisas visíveis e invisíveis: mas os habitantes do mundo se chamam mundo, assim como chamamos casa tanto às paredes quanto aos que nela habitam. E, às vezes, louvamos uma casa e censuramos os habitantes. Pois dizemos: Boa casa; porque é de mármore e tem belo teto: e em outro sentido dizemos: Boa casa: ninguém ali sofre injúria, nenhum ato de rapina, nenhum ato de opressão ali se comete. Ora, não louvamos a edificação, mas os que habitam dentro da edificação: contudo chamamos casa tanto a uma quanto à outra. Pois todos os amadores do mundo, porque por amor habitam o mundo, assim como habitam o céu aqueles cujo coração está no alto, ainda que na carne caminhem sobre a terra: digo, pois, que todos os amadores do mundo se chamam mundo.
Não lograram apenas estes três cônjuges: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a vanglória da vida. Pois cobiçam comer, beber, coabitar: usar destes prazeres. Não que não haja medida lícita nestas coisas, ou que, quando se diz: "Não ameis estas coisas", se signifique que não deveis comer, ou não deveis beber, ou não deveis gerar filhos. Não é isto o que se diz. Somente que haja medida, por causa do Criador, para que estas coisas não vos prendam pelo amor que lhes tendes: para que não ameis para gozo aquilo que deveis ter para uso. Ora, não sois postos à prova senão quando se vos propõem duas coisas, esta ou aquela: quereis a justiça ou os ganhos? Não tenho com que viver, não tenho com que comer, não tenho com que beber. Mas, e se não podeis ter estas coisas senão pela iniquidade? Não é melhor amar aquilo que não perdeis, do que perder-vos a vós mesmo pela iniquidade? Vedes o ganho do ouro, mas não vedes a perda da fé. Isto, pois, nos diz ele, é a concupiscência da carne, isto é, o cobiçar as coisas que pertencem à carne, tais como o alimento, e a coabitação carnal, e todas as demais coisas semelhantes. E a concupiscência dos olhos: por concupiscência dos olhos entende ele toda curiosidade. Ora, quão amplo é o campo da curiosidade! É ela que atua nos espetáculos, nos teatros, nos sacramentos do demônio, nas artes mágicas, nos tratos com as trevas: nada mais que curiosidade. Às vezes tenta até os servos de Deus, de modo que estes desejam, por assim dizer, operar um milagre, para tentar a Deus, se Ele há de ouvir suas orações na realização de milagres; é curiosidade: isto é concupiscência dos olhos; não procede do Pai. Se Deus vos deu o poder, fazei o milagre, pois Ele o pôs em vosso caminho para que o façais: pois não penseis que aqueles que não fizeram milagres não hão de pertencer ao reino de Deus. Quando os apóstolos se regozijavam de que os demônios lhes estivessem sujeitos, que lhes disse o Senhor? Não vos regozijeis nisto, mas regozijai-vos porque vossos nomes estão escritos nos céus (Lc 10,20). Nisto quis Ele que os apóstolos se regozijassem, nisto em que vós também vos regozijais. Ai de vós, na verdade, se vosso nome não estiver escrito nos céus! Acaso vos é ai se não ressuscitardes os mortos? Acaso vos é ai se não andardes sobre o mar? Acaso vos é ai se não expulsardes demônios? Se recebestes o poder de fazê-los, usai-o com humildade, não com soberba. Pois até de certos falsos profetas disse o Senhor que farão sinais e prodígios (Mt 24,24). Portanto, que não haja ambição do século: Ambitio sæculi é a Soberba. O homem deseja engrandecer-se em suas honras: julga-se grande, seja pelas riquezas, seja por algum poder.
Estas três coisas há, e nada podeis achar pelo qual a cupidez humana possa ser tentada, senão ou pela concupiscência da carne, ou pela concupiscência dos olhos, ou pela soberba da vida. Por estas três foi o Senhor tentado pelo diabo. Pela concupiscência da carne foi Ele tentado quando se Lhe disse: Se és o Filho de Deus, dize a estas pedras que se façam pão, quando tinha fome após o jejum. Mas de que maneira repeliu Ele o tentador, e ensinou ao seu soldado como combater? Notai o que lhe disse: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra de Deus. Foi também tentado pela concupiscência dos olhos acerca de um milagre, quando lhe disse: Lança-te daqui abaixo: pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito: e em suas mãos te sustentarão, para que nunca tropeces com teu pé em pedra. Resistiu ao tentador, pois fazer o milagre seria apenas parecer ter cedido, ou tê-lo feito por curiosidade; pois Ele operava quando queria, como Deus, embora curando os fracos. Pois se o tivesse feito então, poder-se-ia pensar que Ele quisesse apenas fazer um milagre. Mas, para que os homens não pensassem isto, notai o que respondeu; e quando semelhante tentação vos suceder, dizei também o mesmo: Retira-te, Satanás; pois está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus: isto é, se eu fizer isto, tentarei a Deus. Disse o que quer que digais. Quando o inimigo vos sugerir: Que espécie de homem, que espécie de cristão és tu? Já fizeste algum milagre, ou por tuas orações foram os mortos ressuscitados, ou curaste os febris? Se de fato fosses de alguma importância, farias algum milagre: respondei e dizei: Está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus: portanto não tentarei a Deus, como se eu pertencesse a Deus se fizer um milagre, e não lhe pertencesse se não o fizer: e que é feito então das Suas palavras: Alegrai-vos, porque os vossos nomes estão escritos nos céus? Pela soberba da vida como foi o Senhor tentado? Quando o levou a um lugar alto, e lhe disse: Todas estas coisas te darei, se te prostrares e me adorares. Pela grandeza de um reino terreno quis ele tentar o Rei de todos os mundos: mas o Senhor que fez o céu e a terra pisou o diabo sob os pés. Que grande coisa é o diabo ser vencido pelo Senhor? Que fez Ele então na resposta que deu ao diabo, senão ensinar-vos a resposta que quer que deis? Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a Ele só servirás. Guardando firmemente estas coisas, não tereis a concupiscência do mundo: não tendo concupiscência do mundo, nem a concupiscência da carne, nem a concupiscência dos olhos, nem a soberba da vida vos subjugarão: e dareis lugar à Caridade quando vier, para que ameis a Deus. Porque, se ali estiver o amor do mundo, não estará ali o amor de Deus. Retende antes o amor de Deus, para que, assim como Deus é para todo o sempre, também vós permaneçais para todo o sempre: porque tal é cada um qual é o seu amor. Amai a terra, sereis terra. Amai a Deus, que direi? Sereis um deus? Não ouso dizê-lo de mim mesmo, ouçamos as Escrituras: Eu disse: Sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. Se, pois, quereis ser deuses e filhos do Altíssimo, não ameis o mundo, nem as coisas que estão no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo é a concupiscência da carne, e a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida, que não vem do Pai, mas vem do mundo: isto é, dos homens amadores do mundo. E o mundo passa, e as suas concupiscências: mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre, assim como também Deus permanece para sempre.
Filhos, é a última hora. Nesta lição ele se dirige aos filhos, para que se apressem a crescer, porque é a última hora. A idade ou a estatura do corpo não está ao arbítrio de cada um. O homem não cresce segundo a carne quando quer, tampouco nasce quando quer; mas onde o nascer depende da vontade, também o crescer depende da vontade. Ninguém nasce da água e do Espírito (Jo 3:5) senão que o queira. Por conseguinte, se quiser, cresce ou aumenta; se quiser, diminui. Que é crescer? Ir avante por proficiência. Que é diminuir? Ir para trás por deficiência. Quem sabe que nasceu, ouça que é infante; apegue-se avidamente aos seios de sua mãe, e crescerá rapidamente. Ora, sua mãe é a Igreja; e seus seios são os dois Testamentos das divinas Escrituras. Sugue, pois, o leite de todas as coisas que, como sinais de verdades espirituais, foram feitas no tempo para nossa eterna salvação, para que, nutrido e fortalecido, chegue a comer o alimento sólido, que é: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1:1). Nosso leite é Cristo em sua humildade; nosso alimento, esse mesmo Cristo igual ao Pai. Com leite Ele vos nutre, para que possa alimentar-vos com pão; pois tocar espiritualmente a Cristo com o coração é conhecer que Ele é igual ao Pai. Foi por isso que Ele proibiu Maria de tocá-lo, e lhe disse: Não me toques, pois ainda não subi ao Pai. Que é isto? Deu-se Ele a ser tocado pelos discípulos, e evitou o toque de Maria? Não é Ele o mesmo que disse ao discípulo em dúvida: Estende aqui teus dedos, e apalpa as cicatrizes? Havia Ele então subido ao Pai? Por que, pois, proíbe a Maria, e diz: Não me toques, pois ainda não subi ao Pai? Ou diremos que Ele não temeu ser tocado pelos homens, e temeu ser tocado pelas mulheres? O toque dEle purifica toda carne. Àqueles a quem primeiro quis manifestar-se, temeu Ele ser tocado por eles? Não foi sua ressurreição anunciada pelas mulheres aos homens, para que assim a serpente fosse vencida por uma espécie de contragolpe? Pois, porque ela primeiro, por meio da mulher, anunciou a morte ao homem, por isso também aos homens foi anunciada a vida por meio de uma mulher. Por que, então, não quis ser tocado, senão porque quis que se entendesse aquele toque espiritual? O toque espiritual se dá a partir de um coração puro. Aquele alcança Cristo com toque de coração puro que O entende coigual ao Pai. Mas quem ainda não entende a divindade de Cristo, esse alcança apenas a carne, não alcança a divindade. Ora, que grande coisa é alcançar somente aquilo que alcançaram os perseguidores, que O crucificaram? Mas a grande coisa é entender o Verbo Deus com Deus, no princípio, por quem todas as coisas foram feitas: tal como Ele quis ser conhecido quando disse a Filipe: Há tanto tempo estou convosco, e não me conheceste, Filipe? Quem me vê, vê também o Pai (Jo 14:9). Mas para que ninguém se torne indolente em avançar, ouça: Filhos, é a última hora. Avançai, correi, crescei; é a última hora. Esta mesma última hora é longa; contudo é a última. Pois ele pôs "hora" pelo último tempo; porque é nos últimos tempos que nosso Senhor Jesus Cristo há de vir. Mas dirão alguns: Como, os últimos tempos? Como, a última hora?
Certamente o anticristo virá primeiro, e depois virá o dia do juízo. João percebeu estes pensamentos: para que os homens não se tornassem, de certo modo, despreocupados, e pensassem que não era a última hora porque o anticristo ainda estava para vir, disse-lhes: E, como ouvistes que o anticristo há de vir, agora já surgiram muitos anticristos. Poderia haver muitos anticristos, se não fosse a última hora? A quem chamou ele de anticristos? Prossegue e expõe. Por onde sabemos que é a última hora? Por quê? Porque muitos anticristos já surgiram. Saíram de nós; vede os anticristos! Saíram de nós: por isso lamentamos a perda. Ouvi, porém, a consolação. Mas não eram de nós. Todos os hereges, todos os cismáticos saíram de nós, isto é, saem da Igreja; mas não sairiam, se fossem de nós. Portanto, antes de saírem, já não eram de nós. Se antes de saírem já não eram de nós, muitos há dentro que ainda não saíram, mas que, contudo, são anticristos. Ousamos dizer isto: e por quê, senão para que cada um, enquanto está dentro, não seja um anticristo? Pois ele está por descrever e assinalar os anticristos, e agora os veremos. E cada um deve interrogar a própria consciência, para saber se é anticristo. Pois anticristo, em nossa língua, significa contrário a Cristo. Não, como alguns entendem, que o anticristo deva assim ser chamado por haver de vir ante Christum, antes de Cristo, isto é, que Cristo viria depois dele: não é isto que significa, nem é assim que está escrito, mas Antichristus, isto é, contrário a Cristo. Ora, quem é contrário a Cristo, já o percebeis pela própria exposição do apóstolo, e compreendeis que ninguém pode sair senão os anticristos; ao passo que aqueles que não são contrários a Cristo, de modo nenhum podem sair. Pois quem não é contrário a Cristo permanece firme em Seu corpo, e é contado nele como membro. Os membros jamais são contrários uns aos outros. O corpo inteiro é constituído de todos os membros. E que diz o apóstolo acerca do acordo dos membros? Se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e se um membro é glorificado, todos os membros se alegram com ele (1 Cor 12,26). Se, pois, na glorificação de um membro os demais membros se alegram com ele, e no seu sofrimento todos os membros sofrem, o acordo dos membros não admite anticristo. E há aqueles que, interiormente, estão de tal modo no corpo de nosso Senhor Jesus Cristo — visto que Seu corpo ainda está sob cura, e a perfeita sanidade não se dará senão na ressurreição dos mortos — que estão no corpo de Cristo à maneira de maus humores. Quando estes são vomitados, o corpo se alivia: assim também, quando os maus saem, então a Igreja se alivia. E alguém diz, quando o corpo vomita e os expele: Estes humores saíram de mim, mas não eram de mim. Como não eram de mim? Não foram cortados de minha carne, mas oprimiam meu peito enquanto estavam em mim. Saíram de nós; mas não vos entristeçais, não eram de nós. Como provais isto? Se fossem de nós, sem dúvida teriam permanecido conosco. Por aqui, pois, podeis ver que muitos que não são de nós recebem conosco os Sacramentos, recebem conosco o batismo, recebem conosco aquilo que os fiéis sabem que recebem, a Bênção, a Eucaristia, e tudo quanto há nos Santos Sacramentos: a comunhão do próprio altar recebem conosco, e não são de nós. A tentação prova que não são de nós. Quando a tentação lhes sobrevém, como que soprada por um vento, voam para longe; porque não eram grão.
Mas todos eles se dispersarão pelos ares, como amiúde vos devemos dizer, quando começar o joeiramento da eira do Senhor, no dia do juízo. Saíram de nós, mas não eram de nós; pois, se fossem de nós, sem dúvida teriam permanecido conosco. Pois quereis saber, amados, quão certíssima é esta sentença: que aqueles que porventura saíram e retornam não são anticristos, não são contrários a Cristo? Aqueles que não são anticristos, não pode ser que permaneçam fora. Mas por sua própria vontade é cada um, ou anticristo, ou está em Cristo. Ou estamos entre os membros, ou entre os maus humores. Aquele que se transforma para melhor está no corpo, é membro; mas aquele que permanece em sua maldade é mau humor; e, quando ele sair, então os que eram oprimidos serão aliviados. Saíram de nós, mas não eram de nós; pois, se fossem de nós, sem dúvida teriam permanecido conosco; mas saíram, para que se manifestasse que nem todos eram de nós. O que ele acrescentou — para que se manifestassem — é porque, mesmo estando dentro, não são de nós; contudo não são manifestos, senão que, ao saírem, se manifestam. E vós tendes a unção do Santo, para que vos manifesteis a vós mesmos. A unção espiritual é o próprio Espírito Santo, do qual o Sacramento está na unção visível. Desta unção de Cristo diz ele que todos os que a têm conhecem o mau e o bom; e não necessitam que se lhes ensine, porque a própria unção os ensina.
Se então saíram de nós, são anticristos; se são anticristos, são mentirosos; se são mentirosos, negam que Jesus é o Cristo. Uma vez mais voltamos à dificuldade da questão. Interrogai-os um a um; confessam que Jesus é o Cristo. A dificuldade que nos embaraça provém de tomarmos o que se diz na Epístola em sentido demasiado estreito. Vede, contudo, a questão; esta questão nos deixa perplexos, tanto a nós quanto a eles, se não for bem entendida. Ou nós somos anticristos, ou eles são anticristos; eles nos chamam anticristos, e dizem que saímos deles; nós dizemos o mesmo deles. Mas eis que esta epístola já marcou os anticristos com este sinal distintivo: Todo aquele que nega que Jesus é o Cristo, esse é anticristo. Perguntemo-nos, pois, agora quem nega; e observemos não a língua, mas as obras. Pois se todos forem interrogados, todos com uma só boca confessam que Jesus é o Cristo. Cale-se a língua por um pouco, interrogue-se a vida. Se acharmos isto — se a própria Escritura nos disser que a negação se faz não somente com a língua, mas também com as obras —, então certamente encontraremos muitos anticristos, que com a boca professam a Cristo, e nos costumes dissentem de Cristo. Onde encontramos isto na Escritura? Ouvi o Apóstolo Paulo; falando de tais homens, ele diz: Confessam que conhecem a Deus, mas nas obras o negam (Tt 1:16). Encontramos também estes como anticristos: todo aquele que em suas obras nega a Cristo é anticristo. Não escuto o que ele diz, mas observo que vida leva. As obras falam, e ainda exigimos palavras? Pois onde está o homem mau que não queira falar bem? Mas que diz o Senhor a tais homens? Hipócritas, como podeis falar coisas boas, sendo maus? (Mt 12:34). Trazeis vossas vozes aos meus ouvidos; eu perscruto vossos pensamentos. Vejo ali uma vontade má, e ostentais falsos frutos. Sei o que devo colher, e de onde; não colho figos dos espinheiros, não colho uvas dos abrolhos; pois cada árvore se conhece por seu fruto (Mt 12:33; 7:16). Anticristo mais mentiroso é aquele que com a boca professa que Jesus é o Cristo, e com as obras o nega. Mentiroso nisto, que diz uma coisa e faz outra. Agora, pois, irmãos, se as obras hão de ser postas em questão, não somente encontramos muitos anticristos já saídos; mas também muitos ainda não manifestos, que de modo algum saíram. Pois quantos a Igreja tem em seu seio que sejam perjuros, fraudadores, dados às artes negras, consulentes de adivinhos, adúlteros, ébrios, usurários, roubadores de meninos, e todos os demais vícios que não podemos enumerar; estas coisas são contrárias à doutrina de Cristo, são contrárias à palavra de Deus. Ora, o Verbo de Deus é Cristo: tudo quanto é contrário ao Verbo de Deus está no Anticristo. Pois Anticristo significa contrário a Cristo. E quereis saber quão abertamente estes resistem a Cristo? Acontece por vezes que praticam algum mal, e alguém começa a repreendê-los; porque não ousam blasfemar de Cristo, blasfemam de seus ministros, por quem são repreendidos: mas se lhes mostrardes que falais as palavras de Cristo, e não as vossas próprias, esforçam-se quanto podem por vos convencer de que falais as vossas próprias palavras, e não as de Cristo: se, porém, é manifesto que falais as palavras de Cristo, voltam-se até mesmo contra Cristo, começam a encontrar defeito em Cristo: Como, dizem eles, e por que nos fez Ele tais quais somos? Não dizem os homens isto todos os dias, quando são convencidos de suas obras?
Perverso pelo desejo depravado, acusam o seu Criador. O seu Criador clama a eles desde o céu (pois o mesmo que nos fez, é quem nos refez): Que fiz Eu de vós? Fiz o homem, não a avareza; fiz o homem, não a rapina; fiz o homem, não o adultério. Ouvistes que as minhas obras me louvam. Da boca dos Três Meninos, foi o próprio hino que os preservou das chamas. As obras do Senhor louvam o Senhor: o céu, a terra, o mar, o louvam; louvem-No todas as coisas que estão no céu, louvem-No os anjos, louvem-No os astros, louvem-No as luzes, louve-O tudo o que nada, tudo o que voa, tudo o que anda, tudo o que rasteja; todas estas coisas louvam o Senhor. Ouvistes ali que a avareza louva o Senhor? Ouvistes que a embriaguez louva o Senhor? Que a luxúria O louva, que a frivolidade O louva? Tudo o que não ouvires naquele hino, dá louvor ao Senhor por isso: o Senhor não fez essa coisa. Corrige o que fizeste, para que o que Deus fez em ti seja salvo. Mas se não quiseres, e amares e abraçares os teus pecados, és contrário a Cristo. Estejas dentro, estejas fora, és um anticristo; estejas dentro, estejas fora, és palha. Mas por que não estás fora? Porque não te deparaste ainda com um vento que te leve. Estas coisas já estão manifestas, meus irmãos. Ninguém diga: Eu não adoro a Cristo, mas adoro a Deus, Seu Pai. Todo aquele que nega o Filho não tem nem o Filho nem o Pai; e aquele que confessa o Filho tem tanto o Filho quanto o Pai. Fala Ele a vós que sois grão: e ouçam aqueles que eram palha, e se tornem grão. Que cada um, examinando bem a própria consciência, se for amante do mundo, se mude; que se torne amante de Cristo, para que não seja um anticristo. Se alguém lhe disser que ele é um anticristo, ele se irrita, julga que lhe fizeram uma injúria; talvez, se lhe é dito por aquele que contende com ele que é um anticristo, ameace uma ação judicial. Cristo lhe diz: Sê paciente; se falaram falsamente de ti, alegra-te comigo, porque também de mim falam falsamente os anticristos; mas se falaram verdadeiramente, chega a um entendimento com a tua própria consciência; e se temes ser chamado isto, teme mais sê-lo.
Eis que somos admoestados a como podemos reconhecer o anticristo. Que é Cristo? A Verdade. Ele mesmo disse: Eu sou a Verdade (Jo 14:6). Ora, nenhuma mentira procede da verdade. Logo, todos os que mentem ainda não são de Cristo. Não disse ele que alguma mentira procede da verdade, e outra não procede da verdade. Atentai para a sentença. Não vos acaricieis, não vos lisonjeeis, não vos enganeis, não vos iludais: nenhuma mentira procede da verdade. Vejamos, pois, como mentem os anticristos, porquanto há mais de um gênero de mentira. Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Uma é a significação da palavra Jesus, outra a significação da palavra Cristo: ainda que seja um só Jesus Cristo nosso Salvador, todavia Jesus é seu nome próprio. Assim como Moisés era assim chamado por seu nome próprio, como Elias, como Abraão: assim também, como nome próprio, nosso Senhor tem o nome de Jesus; mas Cristo é o nome de seu caráter sagrado. Como quando dizemos Profeta, como quando dizemos Sacerdote; assim, pelo nome Cristo, somos levados a entender o Ungido, em quem havia de estar a redenção de todo o povo. A vinda deste Cristo era esperada pelo povo dos judeus; e, porque veio em humildade, não foi reconhecido; porque a pedra era pequena, tropeçaram nela e foram quebrantados. Mas a pedra cresceu e se tornou um grande monte (Dn 2:35); e que diz a Escritura? Todo aquele que tropeçar nesta pedra será quebrantado; e sobre quem ela cair, ela o reduzirá a pó. Devemos notar a diferença das palavras: diz que aquele que tropeça será quebrantado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó. No primeiro momento, porque veio humilde, os homens tropeçaram nele; porque há de vir excelso ao juízo, sobre quem quer que Ele venha, o reduzirá a pó. Mas não reduzirá a pó, em sua vinda futura, aquele homem que não quebrantou quando veio. Aquele que não tropeçou no humilde não temerá o excelso. Em suma, ouvistes, irmãos: aquele que não tropeçou no humilde não temerá o excelso. Pois para todos os homens maus Cristo é pedra de tropeço; tudo o que Cristo diz lhes é amargo.
Ouvi, pois, e vede. Certamente todos os que saem da Igreja e são cortados da unidade da Igreja são anticristos; ninguém o duvide: pois o próprio apóstolo os assinalou: Saíram de nós, mas não eram de nós; pois, se fossem de nós, sem dúvida teriam permanecido conosco. Portanto, os que não permanecem conosco, mas saem de nós, é manifesto que são anticristos. E como se provam anticristos? Pela mentira. E quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? (1 Jo 2:22). Perguntemos aos hereges: onde encontrais um herege que negue que Jesus é o Cristo? Vede agora, caríssimos, um grande mistério. Notai o que o Senhor Deus nos possa ter inspirado, e o que eu gostaria de gravar em vossas mentes. Eis que saíram de nós e se fizeram donatistas: perguntamo-lhes se Jesus é o Cristo; instantaneamente confessam que Jesus é o Cristo. Se, pois, é anticristo aquele que nega que Jesus é o Cristo, nem eles podem nos chamar anticristos, nem nós a eles; logo, nem eles saíram de nós, nem nós deles. Se, pois, não saímos um do outro, estamos na unidade: se estamos na unidade, que significa haver dois altares nesta cidade? Que significa haver casas divididas, matrimônios divididos? Que haja um leito comum e um Cristo dividido? Ele nos admoesta, quer que confessemos qual é a verdade: ou eles saíram de nós, ou nós deles. Mas não se imagine que nós saímos deles. Pois temos o testamento da herança do Senhor, nós o recitamos, e ali encontramos: Dar-te-ei as nações por herança, e por tua possessão os confins da terra. Nós retemos firmemente a herança de Cristo; eles não a retêm, pois não comungam com toda a terra, não comungam com o corpo universal remido pelo sangue do Senhor. Temos o próprio Senhor ressuscitado dos mortos, que se apresentou para ser apalpado pelas mãos dos discípulos duvidosos: e enquanto ainda duvidavam, disse-lhes: Convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia; e que em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados (Lc 24:46-47) — Onde? Por que via? A que pessoas? — a todas as nações, começando por Jerusalém. Nossas mentes se apaziguam quanto à unidade da herança! Quem não comunga com esta herança, saiu.
Pois talvez indagueis acerca da recompensa, e digais: Eis que aquilo que ouvi desde o princípio guardo salvo em mim, a isso me conformo; perigos, trabalhos, tentações, por causa desta perseverança, tudo isso suporto: com que fruto? Que recompensa? Que me dará Ele afinal, visto que neste mundo vejo que labuto em meio a tentações? Não vejo aqui que haja repouso algum: a mera mortalidade pesa sobre a alma, e o corpo corruptível a comprime para as coisas inferiores; mas tudo suporto, para que aquilo que ouvi desde o princípio (Sb 9:15) permaneça em mim; e para que eu possa dizer a meu Deus: Por causa das palavras de teus lábios guardei caminhos árduos. Para que recompensa, então? Ouvi, e não desfaleçais. Se desfalecêsseis nos trabalhos, fortalecei-vos com a recompensa prometida. Onde está o homem que há de trabalhar numa vinha e deixar escapar de seu coração a recompensa que há de receber? Suponde que a tenha esquecido, suas mãos desfalecem. A lembrança da recompensa prometida o torna perseverante na obra: e, contudo, aquele que a prometeu é homem que pode enganar vossa expectativa. Quanto mais forte deveis ser no campo de Deus, quando aquele que prometeu é a Verdade, que não pode ter sucessor algum, nem morrer, nem enganar aquele a quem a promessa foi feita! E qual é a promessa? Vejamos o que Ele prometeu. É ouro, que os homens aqui tanto amam, ou prata? Ou possessões, pelas quais os homens prodigalizam ouro, por mais que amem o ouro? Ou terras aprazíveis, casas espaçosas, muitos escravos, numerosos rebanhos? Não são estas, por assim dizer, a recompensa pela qual nos exorta a perseverar no trabalho. Como se chama esta recompensa? Vida eterna. Ouvistes, e em vosso gozo exclamastes: amai o que ouvistes, e sereis libertos de vossos trabalhos para o repouso da vida eterna. Eis o que Deus promete: vida eterna (Mt 25:34). Eis o que Deus ameaça: fogo eterno. Que diz aos postos à direita? Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino preparado para vós desde a fundação do mundo (Mt 25:41). Aos da esquerda, que diz? Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Ainda não amais aquilo: ao menos temei isto.
Que ninguém vos seduza para a morte: desejai a promessa da vida eterna. Que pode o mundo prometer? Que prometa o que quiser, faz a promessa porventura a alguém que amanhã há de morrer. E com que rosto partirás daqui para Aquele que permanece para sempre? Mas um homem poderoso me ameaça, de modo que devo cometer algum mal. Que ameaça ele? Prisões, cadeias, fogos, tormentos, feras: sim, mas não o fogo eterno? Temei aquilo que Um Todo-Poderoso ameaça; amai aquilo que Um Todo-Poderoso promete; e todo o mundo se torna vil a nossos olhos, quer prometa, quer aterrorize. Estas coisas vos escrevi acerca dos que vos seduzem; para que saibais que tendes uma unção, e a unção que dele recebemos permaneça em vós. Na unção temos o sinal sacramental [de uma coisa invisível]; a virtude mesma é invisível; a unção invisível é o Espírito Santo; a unção invisível é aquela caridade que, em quem quer que esteja, lhe será como uma raiz: por mais que o sol arda, não poderá secá-lo. Tudo o que está enraizado é nutrido pelo calor do sol, não secado.
Para que fim, então, é que nós, irmãos meus, vos ensinamos? Se a Sua unção vos ensina acerca de todas as coisas, parece que trabalhamos sem causa. E que sentido tem clamarmos como fazemos? Deixemo-vos à Sua unção, e que a Sua unção vos ensine. Mas isto é interrogar apenas a mim mesmo: interrogo-o também a esse mesmo apóstolo: digne-se ele ouvir um infante que lhe pergunta: ao próprio João digo eu: Tinham eles a unção, aqueles a quem falavas? Disseste que a Sua unção vos ensina acerca de todas as coisas. Para que fim, então, escreveste uma Epístola como esta? Que ensino lhes deste? Que instrução? Que edificação? Vede agora, irmãos, vede um grande mistério. O som de nossas palavras fere os ouvidos, o Mestre está dentro. Não suponhais que algum homem aprenda algo de outro homem. Podemos admoestar pelo som de nossa voz; se não houver Alguém dentro que ensine, vão é o ruído que fazemos. Sim, irmãos, quereis sabê-lo? Não ouvistes todos vós este presente discurso? E, contudo, quantos sairão deste lugar sem terem sido ensinados! Eu, por minha parte, falei a todos; mas aqueles a quem aquela Unção interior não fala, aqueles a quem o Espírito Santo interiormente não ensina, esses regressam sem instrução. Os ensinamentos do mestre exterior são uma espécie de auxílio e admoestação. Aquele que ensina os corações tem a Sua cátedra no céu. Por isso diz Ele mesmo no Evangelho: A ninguém chameis vosso mestre sobre a terra; um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo (Mt 23,8-9). Que Ele, portanto, fale Ele mesmo a vós interiormente, quando nenhum homem ali estiver: pois ainda que haja alguém ao vosso lado, ninguém há em vosso coração. Que não haja, contudo, ninguém em vosso coração: que Cristo esteja em vosso coração: que a Sua unção esteja no coração, para que não seja um coração a ter sede no deserto, sem fontes que o reguem. Há, pois, digo eu, um Mestre interior que ensina: Cristo ensina; a Sua inspiração ensina. Onde não há a Sua inspiração e a Sua unção, em vão as palavras fazem ruído de fora. Assim são, irmãos, as palavras que proferimos de fora, como o lavrador é para a árvore: de fora ele trabalha, aplica água e diligência de cultivo; aplique ele de fora o que quiser, forma ele os frutos? Reveste ele a nudez do lenho com a sombria cobertura das folhas? Faz ele, de dentro, algo semelhante a isto? Mas de quem é esta obra? Ouvi o lavrador, o apóstolo: vede o que somos, e ouvi o Mestre interior: Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento: nem o que planta é algo, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento (1 Cor 3,6-7). Isto, pois, vos dizemos: quer plantemos, quer reguemos, ao falar não somos coisa alguma; mas Aquele que dá o crescimento, a saber, Deus: isto é, a Sua unção, que vos ensina acerca de todas as coisas.
Recordai-vos, irmãos, que a lição de ontem se encerrou neste ponto: que não tendes necessidade de que alguém vos ensine, mas a própria unção vos ensina acerca de todas as coisas. Ora isto, como estou certo de que vos recordais, assim vo-lo expusemos: que nós, que de fora falamos aos vossos ouvidos, somos como operários que de fora aplicam cultivo a uma árvore, mas não podemos dar o crescimento nem formar os frutos: só Aquele que vos criou, e vos redimiu, e vos chamou, habitando em vós pela fé e pelo Espírito, deve falar-vos interiormente; do contrário, vão é todo o nosso ruído de palavras. De onde isto se manifesta? Disto: que, embora muitos ouçam, nem todos se persuadem do que se diz, mas somente aqueles a quem Deus fala interiormente. Ora, aqueles a quem Ele fala interiormente são os que Lhe dão lugar: e dão lugar a Deus os que não dão lugar ao diabo (Ef 5,27). Pois o diabo deseja habitar os corações dos homens, e ali falar as coisas que são capazes de seduzir. Mas que diz o Senhor Jesus? O príncipe deste mundo é lançado fora (Jo 12,31). Lançado fora de onde? Do céu e da terra? Da estrutura do mundo? Não, mas dos corações dos que creem. Lançado fora o invasor, que o Redentor habite interiormente: porque o mesmo que criou, também redimiu. E o diabo agora ataca de fora, não vence Aquele que possui interiormente. E ataca de fora, lançando várias tentações: mas a isso não consente aquele a quem Deus fala interiormente, e cuja unção ouvistes.
Vede, irmãos: cremos em Jesus a quem não vimos; anunciaram-No aqueles que O viram, que O tocaram, que ouviram a palavra da Sua própria boca; e para que persuadissem toda a humanidade da verdade disso, foram enviados por Ele, não se atreveram a ir por si mesmos. E para onde foram enviados? Ouvistes quando se leu o Evangelho: Ide, pregai o Evangelho a toda a criatura que está debaixo do céu. Por conseguinte, os discípulos foram enviados por toda a parte: com sinais e prodígios para atestar que aquilo que diziam, tinham-no visto. E nós cremos Naquele a quem não vimos, e esperamos que Ele venha. Aqueles que O esperam pela fé hão de alegrar-se quando Ele vier; os que carecem de fé, quando vier o que agora não veem, hão de envergonhar-se. E aquela confusão de rosto não será de um só dia, para depois passar, à maneira daqueles que costumam confundir-se quando são descobertos em alguma falta e escarnecidos por seus semelhantes. Essa confusão levará os confundidos para a mão esquerda, para que a eles se diga: Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25,31). Permaneçamos, pois, nas Suas palavras, para que não sejamos confundidos quando Ele vier. Pois Ele mesmo diz no Evangelho àqueles que n'Ele haviam crido: Se permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos (Jo 8,31-32). E, como se Lhe perguntassem: Com que fruto? Diz Ele: E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Pois ainda a nossa salvação está na esperança, não no efeito: pois ainda não possuímos aquilo que nos foi prometido, mas o esperamos que venha. E fiel é Aquele que prometeu (Hb 10,23); Ele não vos engana: apenas não desfaleçais, mas aguardai a promessa. Pois Ele, que é a Verdade, não pode enganar. Não sejas mentiroso, professando uma coisa e fazendo outra; guarda a fé, e Ele guardará a Sua promessa. Mas se não guardares a fé, foste tu mesmo, não Aquele que prometeu, quem te defraudou.
A justiça que ao presente é nossa é a da fé. A justiça perfeita não existe senão nos anjos: e mal existe nos anjos, se estes forem comparados a Deus: contudo, se há alguma justiça perfeita das almas e dos espíritos que Deus criou, é nos anjos, santos, justos, bons, por nenhuma queda desviados, por nenhuma soberba caídos, mas permanecendo sempre na contemplação do Verbo de Deus, e não tendo outra coisa que lhes seja doce senão Aquele por quem foram criados; neles há justiça perfeita: mas em nós ela começou a ser, da fé, pelo Espírito. Ouvistes quando se leu o Salmo: Começai ao Senhor em confissão. Começai, diz ele; o início da nossa justiça é a confissão dos pecados. Começastes por não defender o vosso pecado; já fizestes um começo de justiça: mas ela será aperfeiçoada em vós quando nada mais vos deleitar, quando a morte for tragada na vitória (1 Cor 15,54), quando não houver comichão de concupiscência, quando não houver luta com a carne e o sangue, quando houver a palma da vitória, o triunfo sobre o inimigo; então haverá justiça perfeita. Ao presente ainda combatemos: se combatemos, estamos na arena; ferimos e somos feridos; mas quem há de vencer, é o que resta ver. E aquele vence que, mesmo ao ferir, não presume da própria força, mas se apoia em Deus, que o anima. O diabo está só quando combate contra nós. Se estamos com Deus, vencemos o diabo: pois se combateres sozinho com o diabo, serás vencido. É ele um inimigo hábil: quantas palmas já conquistou! Considerai a que nos precipitou! Que nascemos mortais vem disto, que ele, em primeiro lugar, precipitou do Paraíso a nossa própria origem. Que fazer, então, sendo ele tão bem exercitado? Que o Todo-Poderoso seja invocado em vosso auxílio contra as artimanhas do diabo. Que habite em vós Aquele que não pode ser vencido, e vencereis com segurança aquele que costuma vencer. Mas vencer a quem? Àqueles em quem Deus não habita. Pois, para que o saibais, irmãos: Adão, estando no Paraíso, desprezou o mandamento de Deus, e ergueu a cerviz, como se desejasse ser seu próprio senhor, e se recusasse a estar sujeito à vontade de Deus: assim caiu daquela imortalidade, daquela bem-aventurança. Mas houve certo homem, um homem já bem experimentado, ainda que mortal nascido, que, sentado no monturo, apodrecendo entre vermes, venceu o diabo: sim, o próprio Adão então venceu: ele mesmo, em Jó; porque Jó era da sua raça. Assim, pois, Adão, vencido no Paraíso, venceu no monturo. Estando no Paraíso, deu ouvidos à persuasão da mulher, que o diabo nela havia posto: mas, estando no monturo, disse a Eva: Falaste como uma das mulheres insensatas (Jó 2,10). Ali emprestou o ouvido, aqui deu a resposta: quando estava contente, escutou; quando foi flagelado, venceu. Vede, pois, o que se segue, irmãos meus, na Epístola: porque é isto que ela quer que tomemos a peito, para que de fato vençamos o diabo, mas não por nós mesmos. Se sabeis que Ele é justo, diz ela, sabei que todo aquele que pratica a justiça é nascido d'Ele: de Deus, de Cristo. E em dizer Nascido d'Ele, ele nos anima. Já, portanto, em sermos nascidos d'Ele, somos perfeitos.
Pois os que se chamam filhos, e não o são, que lhes aproveita o nome, onde a coisa não existe? Quantos são chamados médicos, que não sabem curar! Quantos são chamados vigias, que dormem a noite inteira! Assim também, muitos são chamados cristãos, e todavia em suas obras não se acham tais; porque não são aquilo que se chamam, isto é, na vida, nos costumes, na fé, na esperança, na caridade. Mas o que ouvistes aqui, irmãos? Eis que amor tão grande nos deu o Pai, que fôssemos chamados, e de fato sejamos, filhos de Deus: por isso o mundo não nos conhece, porque não O conheceu; também a nós o mundo não conhece. Há um mundo todo cristão, e um mundo todo ímpio; porque em todo o mundo há ímpios, e em todo o mundo há píos: aqueles não conhecem a estes. Em que sentido, pensamos, não os conhecem? Escarnecem os que vivem bem. Atendei e vede: pois talvez haja também tais entre vós. Cada um de vós que agora vive piamente, que despreza as coisas do mundo, que não quer ir aos espetáculos, que não quer embriagar-se como que por costume solene, sim, o que é pior, que não quer, sob aparência de dias santos, tornar-se imundo: o homem que não quer fazer estas coisas, como é escarnecido por aqueles que as fazem! Seria ele zombado se fosse conhecido? Mas por que não é conhecido? O mundo não O conhece. Quem é o mundo? Aqueles habitantes do mundo. Assim como dizemos, uma casa; significando seus habitantes. Estas coisas vos foram ditas repetidas vezes, e evitamos repeti-las por não vos enfadar. A esta altura, quando ouvis a palavra mundo, em sentido mau, sabeis que deveis entendê-la como significando somente os amantes do mundo, porque pelo amor habitam nele, e por habitarem fizeram-se merecedores do nome. Por isso o mundo não nos conheceu, porque não O conheceu. Ele mesmo andou aqui, o Senhor Jesus Cristo em carne; Ele era Deus, estava oculto na fraqueza. E por que não foi conhecido? Porque repreendia todos os pecados nos homens. Eles, por amarem os deleites dos pecados, não reconheceram o Deus: por amarem aquilo que a febre lhes sugeria, fizeram injúria ao Médico. E nós então, o que somos? Já somos gerados por Ele; mas porque somos tais em esperança, diz ele, Amados, agora somos filhos de Deus. Já agora? Então o que é isto que esperamos, se já somos filhos de Deus? E ainda não, diz ele, se manifestou o que seremos. Mas que outra coisa seremos senão filhos de Deus? Ouvi o que se segue: Sabemos que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é. Entendei, meus amados. É coisa grande: Sabemos que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele; porque O veremos como Ele é. Em primeiro lugar atendei ao que se chama É. Sabeis o que é aquilo que assim se chama. Aquilo que se chama É, e não somente se chama, mas o é, é imutável: permanece sempre, não pode ser mudado, em nenhuma parte é corruptível: não tem progresso, pois é perfeito; nem tem deficiência, pois é eterno. E o que é isto? No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1,1). E o que é isto? O qual, subsistindo em forma de Deus, não teve por usurpação o ser igual a Deus (Fp 2,6). Ver a Cristo desta maneira, Cristo em forma de Deus, Verbo de Deus, Unigênito do Pai, igual ao Pai, é impossível aos maus.
Ora, quanto a haver o Verbo se feito carne, também os maus terão poder de vê-lO: porque no dia do juízo também os maus O verão; pois Ele virá para julgar assim como veio para ser julgado. Na mesma forma, homem, mas ainda assim Deus: porque maldito é todo aquele que põe sua confiança no homem (Jr 17:5). Homem, veio para ser julgado; homem, virá para julgar. E se Ele não há de ser visto, que é isto que está escrito: Olharão para Aquele a quem traspassaram (Jo 19:37)? Pois dos ímpios se diz que verão e serão confundidos. Como não hão de ver os ímpios, quando Ele porá alguns à direita, outros à esquerda? Aos que estiverem à direita dirá: Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino (Mt 25:41); aos que estiverem à esquerda dirá: Ide para o fogo eterno. Verão, porém, apenas a forma de servo; a forma de Deus não verão. Por quê? Porque foram ímpios; e o próprio Senhor diz: Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5:8). Havemos, pois, de ver uma certa visão, meus irmãos, a qual olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem (1 Cor 2:9): uma certa visão, uma visão que ultrapassa toda formosura terrena, do ouro, da prata, dos bosques e dos campos; a formosura do mar e do ar, a formosura do sol e da lua, a formosura das estrelas, a formosura dos anjos: ultrapassando todas as coisas, porque dela vêm todas as coisas belas. Que seremos, pois, quando virmos isto? Que nos é prometido? Seremos semelhantes a Ele, pois O veremos como Ele é. A língua fez o que pôde, articulou as palavras: que o resto seja pensado pelo coração. Pois que disse até mesmo o próprio João em comparação com Aquele Que É, ou que pode ser dito por nós, homens, tão distantes de igualar-nos a seus méritos? Voltemos, pois, àquela unção d'Ele, voltemos àquela unção que ensina interiormente o que não podemos dizer: e, porque não podeis por ora ver, seja vossa parte e vosso dever o desejo. Toda a vida de um bom cristão é um santo desejo. Ora, o que ansiais, ainda não o vedes: mas pelo ansiar sois feitos capazes, de modo que, quando vier aquilo que podereis ver, sereis preenchidos. Pois assim como, se quiséreis encher um saco, e soubésseis quão grande é a coisa que há de ser dada, estendêsseis a abertura do saco ou do odre, ou qualquer outra coisa que seja; sabeis quanto quereríeis colocar, e vedes que o saco é estreito; estendendo-o, o fazeis capaz de conter mais: assim Deus, adiando nossa esperança, estende nosso desejo; pelo desejar, estende a mente; pelo estender, a torna mais capaz. Desejemos, pois, meus irmãos, porquanto seremos preenchidos. Vede Paulo alargando, por assim dizer, o seu seio, para que possa ser capaz de receber aquilo que há de vir. Ele diz, a saber: Não que eu já tenha recebido, ou já seja perfeito: irmãos, não julgo ter eu mesmo alcançado (Fp 3:13-14). Que fazeis, então, nesta vida, se ainda não alcançastes? Mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram atrás, e avançando para as que estão diante, no esforço prossigo para o prêmio da soberana vocação. Diz ele que avança, ou se estende, e diz que prossegue no esforço. Sentia-se pequeno demais para conter aquilo que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem (1 Cor 2:9). Esta é a nossa vida: que pelo desejar sejamos exercitados.
Contudo, o santo desejo tanto nos exercita quanto podamos as nossas paixões do amor do mundo. Já dissemos: esvazia o que há de ser preenchido. De bem deves ser preenchido: derrama o mal. Suponhamos que Deus quisesse encher-te de mel: se estás cheio de vinagre, onde porás o mel? É preciso que se derrame o que o vaso continha; é preciso que o próprio vaso seja purificado — purificado, ainda que com labor, ainda que com áspero atrito — para que se torne apto para aquilo, seja o que for. Digamos mel, digamos ouro, digamos vinho; seja o que dissermos, sendo Ele aquilo que não pode ser dito, seja o que quisermos dizer, Ele se chama — Deus. E quando dizemos Deus, que dissemos? Será essa única sílaba tudo o que buscamos? Assim, pois, tudo o que tivermos podido dizer está abaixo d'Ele: estendamo-nos para Ele, para que, quando vier, nos encha. Pois seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é. E todo aquele que tem esta esperança n'Ele. Vede como ele nos estabeleceu o nosso lugar, na esperança. Vede como o apóstolo Paulo concorda com o seu companheiro de apostolado: Pela esperança fomos salvos. Mas a esperança que se vê não é esperança; pois o que o homem vê, por que o espera? Porque, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos (Rm 8,24-25). É precisamente esta paciência que exercita o desejo. Persevera, porque Ele persevera; e persevera em caminhar, para que alcances a meta, pois aquilo para onde tendes não se removerá. Vede: E todo aquele que tem esta esperança n'Ele purifica-se a si mesmo, assim como Ele é puro. Vede como ele não suprimiu o livre-arbítrio, ao dizer purifica-se a si mesmo. Quem nos purifica senão Deus? Sim, mas Deus não te purifica se fores relutante. Portanto, ao unires a tua vontade à de Deus, nisto te purificas a ti mesmo. Tu te purificas a ti mesmo, não por ti mesmo, mas por Aquele que vem habitar em ti. Contudo, porque algo fazes nisso pela vontade, por isso algo te é atribuído. Mas isto te é atribuído somente para que digas, como no Salmo: Sê meu auxílio, não me abandones. Se dizes: sê meu auxílio, algo fazes; pois, se nada estiveres fazendo, como se diria que Ele te ajuda?
Ele, em quem não há pecado, este veio para tirar o pecado. Pois se nEle houvesse pecado, seria necessário que Ele mesmo fosse liberto do pecado, e não que Ele o tirasse.
Na medida em que permanece nEle, nessa medida não peca. Todo aquele que peca não O viu, nem O conheceu. Grande questão é esta: todo aquele que peca não O viu, nem O conheceu. Não é de admirar. Nós não O vimos, mas havemos de vê-lO; não O conhecemos, mas havemos de conhecê-lO: cremos naquele que não conhecemos. Ou porventura, pela fé O conhecemos, e pela visão efetiva ainda não O conhecemos? Mas então, na fé, tanto O vimos quanto O conhecemos. Pois se a fé ainda não vê, por que se diz que fomos iluminados? Há uma iluminação pela fé, e uma iluminação pela visão. No presente, enquanto peregrinamos, andamos por fé, não por visão (2 Cor 5,7), ou seja, não pela contemplação efetiva. Por isso também a nossa justiça é pela fé, não pela visão. A nossa justiça será perfeita quando virmos por contemplação efetiva. Somente, entretanto, não abandonemos aquela justiça que é da fé, pois o justo vive da fé (Rm 1,17), como diz o apóstolo. Todo aquele que permanece nEle não peca. Pois todo aquele que peca não O viu, nem O conheceu. Aquele homem que peca não crê; mas se um homem crê, no que tange à sua fé, não peca.
Que, ao ouvirmos que somos justos como Ele é justo, havemos de nos julgar iguais a Deus? Deveis saber o que significa este "como": assim disse ele há pouco, "purifica-se a si mesmo assim como Ele é puro". Será então a nossa pureza semelhante e igual à pureza de Deus, e a nossa justiça à justiça de Deus? Quem pode dizer isto? Mas a palavra "como" nem sempre costuma ser usada no sentido de igualdade. Como, por exemplo, se, tendo visto esta grande igreja, alguém quisesse construir uma igreja menor, mas com as mesmas proporções relativas: se, por exemplo, esta tiver uma medida de largura e duas de comprimento, ele também construísse a sua igreja com uma medida de largura e duas de comprimento: nesse caso vê-se que ele a construiu como esta foi construída. Mas esta igreja tem, digamos, cem côvados de comprimento, a outra trinta: é ao mesmo tempo como esta, e todavia desigual. Vedes que este "como" nem sempre se refere à paridade e à igualdade. Vede, por exemplo, que diferença há entre o rosto de um homem e a sua imagem refletida num espelho: há um rosto na imagem, um rosto no corpo; a imagem existe por imitação, o corpo em realidade. E que dizemos? Ora, como há olhos aqui, assim também ali; como há ouvidos aqui, assim também ouvidos ali. A coisa é diferente, mas o "como" se diz da semelhança. Pois bem, também nós temos em nós a imagem de Deus; não, porém, a que o Filho, igual ao Pai, possui: contudo, a não ser que também nós, segundo a nossa medida, fôssemos como Ele, de modo algum se diria que somos semelhantes a Ele. Ele nos purifica, pois, assim como Ele é puro: mas Ele é puro desde a eternidade, nós somos puros pela fé. Somos justos assim como Ele é justo; mas Ele o é em sua perpetuidade imutável, nós somos justos por crermos naquele que não vemos, a fim de que um dia O possamos ver. Ainda quando a nossa justiça for perfeita, quando formos iguais aos anjos, nem ainda então será igualada a Ele. Quão longe está, pois, dEle agora, se nem mesmo então lhe será igual!
sabeis o que ele quer dizer: imitando o diabo. Pois o diabo não fez homem algum, não gerou homem algum, não criou homem algum: mas quem quer que imite o diabo, esse, como se dele fosse gerado, torna-se filho do diabo; por imitá-lo, e não literalmente por ter sido dele gerado. Em que sentido és filho de Abraão, se não foi Abraão quem te gerou? No mesmo sentido em que os judeus, filhos de Abraão, não imitando a fé de Abraão, tornaram-se filhos do diabo: da carne de Abraão foram gerados, mas a fé de Abraão não imitaram. Se, pois, aqueles que dali foram gerados foram lançados fora da herança, porque não imitaram, tu, que não és dele gerado, és feito filho, e desta maneira serás filho dele por imitá-lo. E se imitares o diabo, do modo como ele se tornou soberbo e ímpio contra Deus, serás filho do diabo: por imitá-lo, não porque ele te tenha criado ou gerado. Para isto se manifestou o Filho de Deus. Ora, pois, irmãos, atentai! Todos os pecadores são gerados do diabo, enquanto pecadores. Adão foi feito por Deus: mas quando consentiu ao diabo, foi gerado do diabo; e gerou todos os homens tais qual ele mesmo se tornara. Com a própria concupiscência nascemos; ainda antes que acrescentemos os nossos pecados, daquela condenação temos o nosso nascimento. Pois se nascêssemos sem pecado algum, por que este correr com os infantes ao batismo para que sejam livres? Atentai, pois, bem, irmãos, para as duas estirpes de nascimento, Adão e Cristo: dois homens há; mas um deles, homem que é homem; o outro, Homem que é Deus. Pelo homem que é homem somos pecadores; pelo Homem que é Deus somos justificados. Aquele nascimento nos lançou à morte; este nascimento nos ressuscitou para a vida: aquele nascimento traz consigo o pecado; este nascimento liberta do pecado. Pois para isto veio Cristo como Homem, para desfazer os pecados dos homens. Para isto se manifestou o Filho de Deus, para desfazer as obras do diabo. O resto entrego aos vossos pensamentos, meus amados, para que não vos sobrecarregue. Pois a questão que nos esforçamos por resolver é justamente esta — que nos chamamos pecadores: pois se alguém disser que está sem pecado, é mentiroso. E na Epístola deste mesmo João encontramos escrito: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos" (1 Jo 1,8). Pois deveis lembrar-vos do que precedeu: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós." E contudo, por outro lado, no que se segue vos é dito: "Aquele que é nascido de Deus não peca: aquele que peca não O viu, nem O conheceu." — "Todo aquele que peca é do diabo: o pecado não é de Deus": isto novamente nos atemoriza. Em que sentido somos nascidos de Deus, e em que sentido confessamos ser pecadores? Diremos que é porque não somos nascidos de Deus? E que fazem estes Sacramentos em relação aos infantes? Que disse João? "Aquele que é nascido de Deus não peca." E contudo, novamente, o mesmo João disse: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós"! Grande questão é esta, e embaraçosa; e possa eu ter-vos deixado ansiosos por vê-la resolvida, meus amados. Amanhã, no nome do Senhor, o que Ele nos der, disso trataremos.
Ouvi atentamente, eu vos suplico, porque não é pequena a questão que temos de enfrentar; e não duvido que, tendo estado atentos ontem, tenhais vindo hoje reunir-vos com maior atenção de propósito ainda. Pois não é leve a questão de como ele diz nesta Epístola: Todo aquele que é nascido de Deus não peca (1 Jo 3,9), e como na mesma Epístola disse antes: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós (1 Jo 1,8). Que fará o homem que se vê pressionado por ambas as sentenças da mesma Epístola? Se confessar-se pecador, teme que se lhe diga: Logo não és nascido de Deus, porque está escrito: Todo aquele que é nascido de Deus não peca. Mas se disser que é justo e que não tem pecado, recebe do outro lado um golpe da mesma Epístola: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Colocado, pois, no meio, não encontra o que possa dizer, o que confessar, ou o que professar. Professar-se sem pecado é coisa cheia de perigo; e não somente cheia de perigo, mas também cheia de erro: Enganamo-nos a nós mesmos, diz ele, e a verdade não está em nós, se dissermos que não temos pecado. Mas oxalá não o tivésseis, e ainda assim o dissésseis! Pois então diríeis a verdade, e ao proferir a verdade não teríeis sequer vestígio de erro a temer. Mas o mal que fazeis ao dizê-lo está em que é mentira o que dizeis: A verdade, diz ele, não está em nós, se dissermos que não temos pecado. Não diz: Não tivemos; para que porventura não parecesse falar-se da vida passada. Pois este homem teve pecados; mas desde que nasceu de Deus, começou a não ter pecados. Se assim fosse, não haveria questão alguma a nos embaraçar. Pois diríamos: Fomos pecadores, mas agora estamos justificados; tivemos pecado, mas agora não o temos. Não é isto o que ele diz; mas o que diz? Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. E logo depois, por outro lado, diz: Todo aquele que é nascido de Deus não peca. Acaso o próprio João não era nascido de Deus? Se João não era nascido de Deus — João, de quem ouvistes que repousava no seio do Senhor — ousará algum homem responder por si mesmo que nele se operou aquela regeneração que não foi dado ter àquele a quem foi dado repousar no seio do Senhor? Aquele homem a quem o Senhor amava mais que aos demais (Jo 13,23), a ele somente não o havia Ele gerado do Espírito? Atentai agora a estas palavras. Ainda estou a insistir convosco em quão grandes estreitezas nos vemos postos, para que, aguçando vossas mentes — isto é, orando por nós e por vós mesmos — Deus faça alargamento e nos dê saída; para que ninguém encontre em Sua palavra ocasião de sua própria perdição, sendo que essa palavra foi pregada e posta por escrito somente para cura e salvação. Todo aquele, diz ele, que comete pecado, comete também iniquidade. Para que porventura não façais distinção, Pecado é iniquidade. Para que não digais: Sou pecador, mas não praticante de iniquidade, Pecado é iniquidade. E sabeis que Ele se manifestou para isto, para tirar o pecado; e nEle não há pecado. E que nos aproveita que Ele tenha vindo sem pecado? Todo aquele que não peca permanece nEle; e todo aquele que peca não O viu, nem O conheceu. Filhinhos, ninguém vos seduza. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como Ele é justo.
Como já dissemos, o vocábulo "como" costuma ser empregado para indicar certa semelhança, não igualdade. Aquele que comete pecado é do diabo, porque o diabo peca desde o princípio. Isto também já dissemos, que o diabo não criou nenhum homem, nem gerou nenhum, mas seus imitadores são, por assim dizer, nascidos dele. Para isto se manifestou o Filho de Deus, para desfazer as obras do diabo. Por conseguinte, para desfazer (ou desatar) os pecados, é necessário Aquele que não tem pecado. E segue-se: Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus (1 Jo 3,9) — apertou bem o nó! Talvez seja a respeito de um certo pecado que disse não comete pecado, e não a respeito de todo pecado: de modo que, naquilo que diz, Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado, podeis entender algum pecado particular, que aquele homem que é nascido de Deus não pode cometer; e tal é aquele pecado que, se alguém o comete, confirma todos os demais. Qual é este pecado? Agir contra o mandamento. Qual é o mandamento? Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros (Jo 13,34). Atentai bem! Este mandamento de Cristo se chama caridade. Por esta caridade os pecados são desatados. Se esta caridade não for guardada, o não a possuir já é, por si mesmo, pecado grave, e raiz de todos os pecados. Atentai bem, irmãos; trouxemos algo à luz em que, para os que têm bom entendimento, a questão se resolve. Mas caminharemos na via somente com aqueles que correm mais velozes? Os que caminham mais devagar não devem ser deixados para trás. Voltemos a questão para todos os lados, com as palavras que pudermos, a fim de que se torne acessível a todos. Pois suponho, irmãos, que todo homem se preocupa com a própria alma, aquele que não vem à Igreja sem causa, que não busca coisas temporais na Igreja, que não vem aqui para tratar de negócios seculares; mas vem aqui a fim de apoderar-se de alguma coisa eterna, que lhe foi prometida, à qual possa alcançar: é necessário que considere como há de caminhar na via, para que não seja deixado para trás, para que não retroceda, para que não se desvie, para que, mancando, não deixe de alcançá-la. Quem quer que, pois, seja diligente, seja ele lento, seja veloz, contudo que não abandone a via. Isto, pois, dissemos: que, ao dizer, Todo aquele que é nascido de Deus não peca, é provável que se referisse a algum pecado particular; pois de outro modo seria contrário àquele lugar: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Deste modo, pois, pode-se resolver a questão. Há um certo pecado, que aquele que é nascido de Deus não pode cometer; um pecado que, não sendo cometido, os demais pecados são desatados, e, sendo cometido, os demais pecados são confirmados. Qual é este pecado? Agir contra o mandamento de Cristo, contra o Novo Testamento. Qual é o novo mandamento? Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros (Jo 13,34). Quem age contra a caridade e contra o amor fraterno, não ouse gloriar-se e dizer que é nascido de Deus: mas aquele que está no amor fraterno, há certos pecados que não pode cometer, e este sobretudo, que odeie a seu irmão. E como lhe vai quanto aos demais pecados, dos quais se diz, Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós? Ouça aquilo que há de tranquilizar-lhe o ânimo, tirado de outro lugar da Escritura: A caridade cobre a multidão dos pecados (1 Pd 4,8). A caridade, pois, recomendamos; a caridade esta Epístola recomenda.
Após a Sua ressurreição, que pergunta fez o Senhor a Pedro, senão: *Amas-Me?* (Jo 21:15-17). E não bastou perguntá-lo uma vez; também uma segunda vez não fez outra pergunta; também uma terceira vez, nenhuma outra. Ainda que, chegada a terceira vez, Pedro, como quem não sabia aonde isto tendia, entristeceu-se, porque lhe parecia que o Senhor não cria nele; contudo, uma primeira, uma segunda e uma terceira vez lhe fez Ele esta pergunta. Três vezes o temor negou, três vezes o amor confessou. Eis que Pedro ama ao Senhor. Que há de fazer pelo Senhor? Pois não penseis que ele, no Salmo, não se sentiu em dificuldade sobre o que fazer: *Que retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que Ele me fez?* Aquele que disse isto no Salmo notou quão grandes coisas lhe haviam sido feitas por Deus; e buscou o que retribuir a Deus, e nada pôde encontrar. Pois o que quer que fôsseis retribuir, dEle o recebestes para retribuí-lo. E que achou ele para oferecer em retorno? Aquilo que, como dissemos, irmãos meus, dEle havia recebido, somente isso achou ele para oferecer em retorno. *Receberei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor.* Pois quem lhe dera o cálice da salvação, senão Aquele a quem desejava retribuir? Ora, receber o cálice da salvação e invocar o nome do Senhor é ser cheio de caridade; e de tal modo cheio, que não somente não odiareis a vosso irmão, mas estareis prontos a morrer por vosso irmão. Esta é a caridade perfeita, que estejais prontos a morrer por vosso irmão. Isto o Senhor exibiu em Si mesmo, o qual morreu por todos, orando por aqueles que O crucificavam, e dizendo: *Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem* (Lc 23:34). Mas se só Ele fez isto, não seria Mestre, se não tivesse discípulos. Discípulos que vieram depois dEle fizeram isto. Homens apedrejavam Estêvão, e ele se ajoelhou e disse: *Senhor, não lhes imputes este pecado* (At 7:59). Amava ele aos que o matavam, pois também por eles estava morrendo. Ouvi também o Apóstolo Paulo: *E eu mesmo*, diz ele, *me gastarei pelas vossas almas* (2 Cor 12:15). Pois estava ele entre aqueles pelos quais Estêvão, ao morrer por suas mãos, implorava perdão. Esta é, pois, a caridade perfeita. Se algum homem tiver tão grande caridade que esteja pronto até a morrer por seus irmãos, nesse homem há caridade perfeita. Mas, assim que nasce, já está ela de todo perfeita? Para que se faça perfeita, nasce; nascida, é nutrida; nutrida, é fortalecida; fortalecida, é aperfeiçoada; chegada à perfeição, que diz ela? *Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Desejava ser desatado e estar com Cristo, o que é muito melhor; todavia, permanecer na carne é necessário por vossa causa* (Fp 1:21-24). Por causa deles quis viver, por cuja causa estava pronto a morrer. E, para que saibais que é esta a caridade perfeita que aquele homem não viola, e contra a qual aquele homem não peca, que é nascido de Deus, isto é o que o Senhor diz a Pedro: Pedro, amas-Me? E ele responde: Amo. Não diz Ele: Se me amas, faze-me algum bem. Pois quando o Senhor estava em carne mortal, teve fome, teve sede; naquele tempo em que teve fome e sede, foi recebido como hóspede; aqueles que tinham posses ministravam-Lhe de seus bens, como lemos no Evangelho. Zaqueu O hospedou como seu hóspede; foi salvo de sua enfermidade por hospedar o Médico. De que enfermidade?
Doença da avareza. Pois era muito rico, e o chefe dos publicanos. Notai o homem curado da doença da avareza: A metade dos meus bens dou aos pobres; e se em alguma coisa defraudei alguém, restituo-lho em quádruplo (Lc 19:8). Que ele conservasse a outra metade, não era para dela gozar, mas para pagar suas dívidas. Ora, ele então hospedou o Médico como seu convidado, porque havia no Senhor infirmidade da carne, à qual os homens podiam prestar esta gentileza; e isto, porque foi Sua vontade conceder isto mesmo àqueles que Lhe prestavam serviços de benevolência; pois o benefício era para os que prestavam o serviço, não para Ele. Pois, poderia Aquele a quem os anjos ministravam requerer a bondade destes homens? Nem mesmo Seu servo Elias, a quem enviou pão e carne pelos corvos em certa ocasião (1 Rs 17:4-9), teve necessidade disto; e contudo, para que uma viúva piedosa fosse abençoada, o servo de Deus é enviado, e aquele a quem Deus em segredo alimentava é alimentado pela viúva. Mas ainda assim, embora por meio destes servos de Deus, aqueles que consideram sua necessidade obtenham bem para si, quanto àquela recompensa manifestíssima proposta pelo Senhor no Evangelho: Quem recebe um justo em nome de justo receberá recompensa de justo; e quem recebe um profeta em nome de profeta receberá recompensa de profeta; e qualquer que der de beber a um destes pequeninos somente um copo de água fria, em nome de discípulo, em verdade vos digo, de modo algum perderá sua recompensa (Mt 10:41-42): embora, pois, os que fazem isto, o façam para o seu próprio bem, contudo nem mesmo este ofício de bondade poderia ser prestado a Ele quando estivesse para ascender aos Céus. Que poderia Pedro, que O amava, render-Lhe? Ouvi o quê. Apascenta as minhas ovelhas: isto é, fazei pelos irmãos aquilo que Eu fiz por vós. Redimi a todos com meu sangue: não hesiteis em morrer pela confissão da verdade, para que os demais vos imitem. Mas isto, como já dissemos, irmãos, é a caridade perfeita. Quem é nascido de Deus a possui. Notai, meus amados, vede o que digo. Eis que um homem recebeu o Sacramento daquele nascimento, sendo batizado; ele tem o Sacramento, e um grande Sacramento, divino, santo, inefável. Considerai que Sacramento! Fazer dele um homem novo pela remissão de todos os pecados! Contudo, que ele examine bem o coração, se ali se realiza inteiramente aquilo que se realiza no corpo; que veja se tem caridade, e então diga: Sou nascido de Deus. Se, porém, não a tem, tem sobre si de fato a marca do soldado, mas anda errante como desertor. Que tenha caridade; do contrário, que não diga que é nascido de Deus. Mas ele diz: Tenho o Sacramento. Ouvi o Apóstolo: Se eu conhecer todos os mistérios, e tiver toda a fé, de modo a transportar montanhas, e não tiver caridade, nada sou (1 Cor 13:2). Isto, se vos lembrais, vo-lo demos a entender ao começarmos a ler esta Epístola, que nada nela é tão encarecido quanto a caridade. Ainda que pareça falar de várias outras coisas, a esta ela retorna, e o que quer que diga, há de fazer recair tudo sobre a caridade. Vejamos se assim o faz aqui. Notai: Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado. Perguntamos: que pecado? Pois se entenderdes todo pecado, isto será contrário àquele lugar: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.
Diga ele, pois, qual pecado; ensine-nos ele; para que eu não tenha, porventura, dito temerariamente que o pecado aqui é a violação da caridade, porque disse acima: Aquele que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas cegaram os seus olhos (1 Jo 2:11). Mas talvez tenha ele dito algo no que se segue, e tenha mencionado a caridade pelo nome? Vede que este circuito de palavras tem este fim, tem este desfecho. Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque a sua semente permanece nele (1 Jo 3:9). A semente de Deus, isto é, a palavra de Deus: donde diz o Apóstolo: Eu vos gerei pelo Evangelho (1 Cor 4:15). E não pode pecar, porque é nascido de Deus.
Que ele nos diga isto, vejamos em que não podemos pecar. Nisto se manifestam os filhos de Deus e os filhos do diabo. Todo aquele que não é justo não é de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão (1 Jo 3,10). Ora, agora sim se manifesta de quem ele fala: nem aquele que não ama a seu irmão. Portanto, somente a caridade estabelece a diferença entre os filhos de Deus e os filhos do diabo. Que todos se assinalem com o sinal da cruz de Cristo; que todos respondam Amém; que todos cantem o Aleluia; que todos sejam batizados, que todos venham à igreja, que todos edifiquem as paredes das igrejas: não há como discernir os filhos de Deus dos filhos do diabo senão pela caridade. Os que têm caridade nasceram de Deus; os que não a têm, não nasceram de Deus. Sinal poderoso, poderosa distinção! Tenhas o que quiseres; se isto somente não tens, de nada te aproveita: outras coisas, se não as tens, tem esta, e cumpriste a lei. Pois quem ama a outrem cumpriu a lei, diz o apóstolo; e: A caridade é o cumprimento da lei (Rm 13,8.10). Tenho por certo que esta é a pérola que se descreve, no Evangelho, ter buscado o mercador, o qual, achando uma pérola, vendeu tudo quanto tinha e a comprou (Mt 13,46). Esta é a pérola de grande preço, a Caridade, sem a qual, o que quer que tenhas, de nada te aproveita; a qual, se somente a tens, te basta. Ora, com a fé agora vedes; então, com a visão real, vereis. Pois, se amamos quando não vemos, como não a abraçaremos quando vermos! Mas em que devemos exercitar-nos? No amor fraterno. Podes dizer-me: não vi a Deus; podes dizer-me: não vi o homem? Ama a teu irmão. Pois, se amas a teu irmão que vês, ao mesmo tempo verás também a Deus; porque verás a própria Caridade, e dentro dela habita Deus.
observai como ele o confirma: Pois esta é a mensagem que ouvimos desde o princípio, que nos amemos uns aos outros. Ele nos manifestou que é disto que fala; quem age contra este mandamento está naquele pecado maldito, no qual caem aqueles que não nasceram de Deus.
Portanto, onde há inveja, não pode haver amor fraterno. Observai, amados. Aquele que inveja não ama. O pecado do diabo está naquele homem; porque o diabo, por inveja, derrubou o homem. Pois caiu, e invejou aquele que estava de pé. Não quis derrubar o homem para que ele mesmo se erguesse, mas somente para que não caísse sozinho. Retende firmemente em vossa mente isto que ele acrescentou, que a inveja não pode existir na caridade. Tendes isto claramente dito, quando a caridade foi louvada: A caridade não inveja (1 Cor 13,4). Não havia caridade em Caim; e se não houvesse caridade em Abel, Deus não teria aceitado o seu sacrifício. Pois, quando ambos ofereceram, um dos frutos da terra, outro das crias do rebanho, que pensais, irmãos, que Deus desprezou os frutos da terra e amou as crias do rebanho? Deus não atentava para as mãos, mas via no coração: e a quem via oferecer com caridade, a seu sacrifício atendia; a quem via oferecer com inveja, deste sacrifício desviava os olhos. Pelas boas obras de Abel, portanto, ele entende apenas a caridade; pelas más obras de Caim, entende apenas o seu ódio ao irmão. Não lhe bastava odiar o irmão e invejar as suas boas obras; porque não quis imitá-lo, quis matá-lo. E daí se manifestou que ele era filho do diabo, e daí também que o outro era o justo de Deus. Assim, pois, se discernem os homens, meus irmãos. Que ninguém atente para a língua, mas para as obras e o coração. Se alguém não faz o bem a seus irmãos, mostra o que tem em si. Pelas tentações se provam os homens. Não vos maravilheis, irmãos, se o mundo nos odeia. Será preciso dizer-vos com frequência o que significa o mundo? Não o céu, não a terra, nem estas obras visíveis que Deus fez; mas os amantes do mundo. Ao dizer com frequência estas coisas, a alguns me torno pesado; mas estou tão longe de dizê-lo sem motivo que alguns poderão ser interrogados se eu o disse, e não saberão responder. Que, pois, ainda que a força de repeti-lo, algo se fixe nos corações dos que ouvem. Que é o mundo? O mundo, tomado em mau sentido, são os amantes do mundo; o mundo, quando a palavra se usa em sentido louvável, é o céu e a terra, e as obras de Deus que neles há; donde se diz: E o mundo foi feito por Ele (Jo 1,10). Também o mundo é a plenitude da terra, como o próprio João disse: Não somente por nossos pecados é Ele o propiciador, mas pelos de todo o mundo (1 Jo 2,2): entende, do mundo, de todos os fiéis espalhados por toda a terra. Mas o mundo em mau sentido são os amantes do mundo. Os que amam o mundo não podem amar a seu irmão.
Que ninguém pergunte ao homem: que cada um retorne ao próprio coração; se ali encontrar o amor fraterno, que tranquilize o seu espírito, porque passou da morte para a vida. Já está à direita: que não considere que, por ora, a sua glória está oculta; quando o Senhor vier, então aparecerá em glória. Pois tem em si a vida, mas ainda em inverno; a raiz está viva, mas os ramos, por assim dizer, estão secos; dentro está a substância que tem em si a vida, dentro estão as folhas das árvores, dentro estão os frutos: mas aguardam o verão. Pois bem, sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Aquele que não ama permanece na morte.
Para que não penseis, irmãos, ser coisa leve odiar, ou não amar, ouvi o que se segue: Todo aquele que odeia a seu irmão é homicida (1 Jo 3:15). Ora, se alguém considerasse leve odiar a seu irmão, consideraria também leve, em seu coração, o homicídio? Ele não move as mãos para matar um homem; e, contudo, já é tido por Deus como homicida; o outro vive, e, no entanto, este já é julgado como seu matador! Todo aquele que odeia a seu irmão é homicida; e sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.
quer dizer, a perfeição do amor, aquela perfeição que vos exortamos a guardar no coração: Nisto conhecemos o amor, que Ele deu a Sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Eis aqui, donde isso proveio: Pedro, tu Me amas? Apascenta as Minhas ovelhas (Jo 21:15-19). Pois, para que soubesses que Ele queria que as Suas ovelhas fossem por ele apascentadas de tal modo que desse a vida pelas ovelhas, logo lhe disse isto: Quando eras jovem, cingias-te a ti mesmo e andavas para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde não queres. Isto disse Ele, afirma o evangelista, significando com que morte havia de glorificar a Deus; de modo que a quem havia dito Apascenta as Minhas ovelhas, a esse mesmo ensinasse a dar a vida pelas Suas ovelhas.
Donde começa a caridade, irmãos? Atendei um pouco: a que ela se aperfeiçoa, já ouvistes; o seu próprio termo, e a sua própria medida, é o que o Senhor nos propôs no Evangelho: Ninguém tem maior amor do que este, diz Ele, de dar a sua vida pelos seus amigos (Jo 15:13). A sua perfeição, portanto, Ele a propôs no Evangelho, e também aqui é a sua perfeição que nos é proposta; mas vós vos perguntais a vós mesmos, e dizeis a vós mesmos: Quando nos será possível ter esta caridade? Não desespereis de vós mesmos tão depressa. Talvez ela esteja nascida e ainda não seja perfeita; alimentai-a, para que não seja sufocada. Mas dir-me-eis: E por que hei de conhecê-la?
Eis, pois, donde a caridade começa! Se ainda não sois capazes de morrer por vosso irmão, sede ao menos capazes, desde já, de dar-lhe dos vossos bens. Desde já fira a caridade as vossas entranhas, não para que o façais por vanglória, mas pelo mais íntimo tutano da misericórdia; que considereis a ele, agora necessitado. Pois, se não podeis dar ao vosso irmão o vosso supérfluo, poderíeis dar a vida por vosso irmão? Aí jaz o vosso dinheiro em vosso seio, que os ladrões vo-lo podem tirar; e, ainda que os ladrões não vo-lo tirem, ao morrer o deixareis, mesmo que ele não vos deixe enquanto viveis: que fareis dele? Vosso irmão tem fome, está em necessidade: talvez esteja em aflição, angustiado pelo seu credor: ele é vosso irmão, igualmente fostes comprados, um só é o preço pago por vós, ambos fostes redimidos pelo sangue de Cristo: vede se tendes misericórdia, se tendes os bens deste mundo. Talvez digais: Que me importa isso? Hei de dar o meu dinheiro, para que ele não sofra aflição? Se esta for a resposta que vosso coração vos dá, o amor do Pai não permanece em vós. Se o amor do Pai não permanece em vós, não sois nascidos de Deus. Como vos gloriais de ser cristãos? Tendes o nome, e não tendes as obras. Mas, se a obra seguir o nome, ainda que alguém vos chame pagão, mostrai pelas obras que sois cristãos. Pois, se pelas obras não vos mostrardes cristãos, todos os homens poderão ainda chamar-vos cristãos; de que vos aproveita o nome, onde a coisa não se manifesta? Mas aquele que tiver os bens deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e lhe fechar as suas entranhas de compaixão, como pode habitar nele o amor de Deus? E logo prossegue: Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade (1 Jo 3:18). Suponho que a coisa já vos está agora manifesta, meus irmãos: este grande e sumamente relevante segredo e mistério. Qual seja a força da caridade, toda a Escritura o expõe; mas não sei se em nenhuma outra parte seja ela mais largamente exposta do que nesta Epístola. Rogamo-vos e suplicamo-vos no Senhor que tanto guardeis na memória o que já ouvistes, quanto venhais com afinco ao que ainda há de ser dito, até que a epístola se termine, e com afinco o ouçais. Abri, porém, o vosso coração para a boa semente: arrancai os espinhos, para que aquilo que em vós semeamos não seja sufocado, mas antes cresça a colheita, e o Lavrador se alegre e vos prepare o celeiro como para o grão, e não o fogo como para a palha.
Se vos lembrais, irmãos, ontem encerramos nossa homilia nesta sentença — 1 Jo 3:18-20 —, a qual sem dúvida convinha e convém que permaneça em vosso coração, visto que foi a última que ouvistes. *Filhinhos meus, não amemos de palavra nem de língua, mas em obra e em verdade.* E prossegue: *E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante Dele tranquilizamos o nosso coração. Pois, se o nosso coração nos condena, maior é Deus que o nosso coração, e conhece todas as coisas.* Havia dito: *Não amemos de palavra nem de língua, mas em obra e em verdade*; perguntamo-nos: em que obra, ou em que verdade, se reconhece aquele que ama a Deus, ou que ama ao seu irmão? Acima já havia dito até que ponto se aperfeiçoa a caridade: o que o Senhor diz no Evangelho, *Ninguém tem maior amor do que este: o de dar alguém a sua vida pelos seus amigos* (Jo 15:13), isto mesmo havia dito também o apóstolo: *Assim como Ele deu a Sua vida por nós, também nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos* (1 Jo 3:16). Esta é a perfeição da caridade, e maior não se pode absolutamente encontrar. Mas, porque não é perfeita em todos, e não deve desesperar aquele em quem ela ainda não é perfeita, se já nasceu aquilo que pode ser aperfeiçoado — e, certamente, se nasceu, é preciso que seja nutrido, e que por certos alimentos próprios seus seja conduzido até a sua devida perfeição —, indagamos, portanto, acerca do início da caridade, onde ela começa, e logo encontramos: *Mas aquele que possuir bens deste mundo e vir seu irmão padecer necessidade, e lhe fechar as suas entranhas de compaixão, como habita nele o amor do Pai?* (1 Jo 3:17). Aqui, pois, tem esta caridade, irmãos meus, o seu começo: dar do que lhe sobeja àquele que padece necessidade, a quem está em alguma angústia; da própria abundância temporal livrar o irmão da tribulação temporal. Eis o primeiro despontar da caridade. Esta, assim começada, se a nutrirdes com a palavra de Deus e com a esperança da vida futura, chegareis por fim àquela perfeição em que estareis prontos a dar a vossa vida pelos vossos irmãos. Mas, porque muitas coisas semelhantes são feitas por homens que buscam outros fins, e que não amam os irmãos, voltemos ao testemunho da consciência. Como provamos que muitas coisas semelhantes são feitas por homens que não amam os irmãos? Quantos, nas heresias e nos cismas, chamam-se a si mesmos mártires! Parecem a si próprios dar a vida pelos irmãos. Se pelos irmãos dessem a vida, não se separariam de toda a fraternidade. De novo, quantos há que, por vanglória, distribuem muito, dão muito, e não buscam nisso senão o louvor dos homens e a glória popular, que está cheia de ventania e não possui nenhuma estabilidade! Vendo, pois, que tais homens existem, onde estará a prova da caridade fraterna? Vendo que ele quis que fosse provada, e disse por admoestação: *Filhinhos meus, não amemos de palavra nem de língua, mas em obra e em verdade*, perguntamo-nos: em que obra, em que verdade? Pode haver obra mais manifesta do que dar aos pobres? Muitos o fazem por vanglória, não por amor. Pode haver obra maior do que morrer pelos irmãos? Também isto muitos quereriam parecer fazer, e o fazem por vanglória, para alcançar renome, não a partir das entranhas do amor.
Resta, pois, que ama a seu irmão aquele que, diante de Deus, onde só Deus vê, interroga o próprio coração e a ele pergunta se de fato faz isto por amor aos irmãos; e testemunha lhe é aquele olho que penetra o coração, aonde o homem não pode olhar. Por isso o Apóstolo Paulo, que estava pronto a morrer pelos irmãos, e dizia: Eu mesmo me consumirei por vossas almas (2 Cor 12,15), contudo, porque só Deus via isto em seu coração, e não os homens mortais a quem falava, diz-lhes: Mas a mim mui pouco importa ser julgado por vós ou pelo tribunal humano (1 Cor 4,3). E o mesmo apóstolo mostra também em certo lugar que estas coisas muitas vezes se fazem por vã glória vazia, e não sobre o firme fundamento da caridade; pois, falando dos louvores da caridade, diz: Se eu distribuir todos os meus bens aos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, mas não tiver caridade, nada disso me aproveita (1 Cor 13,3). É possível, pois, que o homem faça isto sem caridade? É possível. Porque os que dividiram a unidade são pessoas que não têm caridade. Procurai ali, e vereis muitos que dão muito aos pobres; vereis outros dispostos a acolher a morte, a ponto de, onde não há perseguidor, precipitar-se a si mesmos: estes, sem dúvida, fazem-no sem caridade. Voltemos, pois, à consciência, da qual diz o Apóstolo: Pois a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência (2 Cor 1,12). Voltemos à consciência, da qual o mesmo diz: Mas cada um prove a sua própria obra, e então terá glória em si mesmo e não em outro (Gl 6,4). Prove, pois, cada um de nós a sua própria obra, se ela brota da veia da caridade, se é a partir da caridade, como raiz, que suas boas obras germinam qual ramos. Mas cada um prove a sua própria obra, e então terá glória em si mesmo e não em outro — não quando a língua de outrem lhe dá testemunho, mas quando a sua própria consciência o testemunha. É isto, pois, que ele aqui reforça. Nisto conhecemos que somos da verdade, quando em obra e em verdade amamos, e não somente de palavra e de língua; e diante d'Ele tranquilizamos o nosso coração (1 Jo 3,19). Que significa, diante d'Ele? Onde Ele vê. Donde o próprio Senhor diz no Evangelho: Guardai-vos de fazer a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos por eles; do contrário, não tereis recompensa junto a vosso Pai que está nos céus. E que significa, Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita, senão que a mão direita significa a consciência pura, e a mão esquerda a concupiscência do mundo? Muitos, por concupiscência do mundo, fazem muitas coisas admiráveis: a mão esquerda opera, não a direita. A mão direita deve operar, e sem o conhecimento da esquerda, para que a concupiscência do mundo nem sequer se misture, quando por amor fazemos algum bem. E onde vamos conhecer isto? Estais diante de Deus: interrogai o vosso coração, vede o que fizestes, e qual era ali o vosso alvo — a vossa salvação, ou o vão louvor dos homens. Olhai para dentro, pois o homem não pode julgar a quem não pode ver. Se tranquilizamos o nosso coração, que seja diante d'Ele. Porque, se o nosso coração pensa mal de nós, isto é, nos acusa interiormente de que não fazemos a coisa com a disposição com que deveria ser feita, maior é Deus que o nosso coração, e conhece todas as coisas. Ocultas o teu coração do homem: oculta-o de Deus, se puderes. Como o ocultarás d'Aquele a quem, temendo e confessando, disse o pecador: Para onde irei de diante do Vosso Espírito? E de diante da Vossa face, para onde fugirei?
Comentário ao Salmo 138 (Vulgata), continuação:
Buscou um caminho para fugir, para escapar do juízo de Deus, e não o encontrou. Pois onde não está Deus? Se eu subir aos céus, diz ele, lá estás Tu; se eu descer ao inferno, lá estás Tu presente. Para onde irás? Para onde fugirás? Queres ouvir um conselho? Se queres fugir Dele, foge para Ele. Foge para Ele confessando, não Dele escondendo-te: esconder-te não podes, mas confessar podes. Dize-Lhe: Tu és o meu lugar de refúgio; e que o amor se nutra em ti, o qual só ele conduz à vida. Que a tua consciência te dê testemunho de que o teu amor é de Deus. Se é de Deus, não queiras exibi-lo diante dos homens; porque nem os louvores dos homens te elevam ao céu, nem as suas censuras te derrubam de lá. Que O veja, Aquele que te coroa: seja Ele a tua testemunha, por quem, como juiz, és coroado. Maior é Deus que o nosso coração, e conhece todas as coisas.
Que significa: Se o nosso coração não pensar mal de nós? Se ele nos responder com verdade que amamos, e que há em nós amor genuíno: não fingido, mas sincero; buscando a salvação do irmão, sem esperar dele nenhum proveito, senão somente a sua salvação.
Portanto, não à vista dos homens, mas onde o próprio Deus vê, no coração — temos, pois, confiança para com Deus: e tudo quanto pedirmos, dEle receberemos; porquanto guardamos os Seus mandamentos. Quais são os Seus mandamentos? Havemos de estar sempre repetindo? Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros (Jo 13:34). É da própria caridade que ele fala, é isto que ele inculca. Quem, pois, tiver caridade fraterna, e a tiver diante de Deus, onde Deus vê, e, interrogado o seu coração sob exame justo, não lhe der outra resposta senão que ali está a raiz genuína da caridade, donde hão de vir bons frutos — esse homem tem confiança para com Deus, e tudo quanto pedir, dEle receberá, porque guarda os Seus mandamentos. Aqui se nos depara uma questão: pois não é este ou aquele homem, nem eu nem tu, que vem em questão — pois se eu tiver pedido algo a Deus e não o receber, qualquer um pode facilmente dizer de mim: Ele não tem caridade; e de qualquer homem deste tempo presente isto se pode facilmente dizer; e pense cada um o que quiser, homem de homem — não nós, mas aqueles vêm mais em questão, aqueles homens de quem por toda parte se sabe que eram santos quando escreveram, e que agora estão com Deus. Onde está o homem que tem caridade, se Paulo não a teve — ele que disse: A nossa boca está aberta para vós, ó coríntios, o nosso coração está dilatado; não estais estreitados em nós; ele que disse: Eu mesmo me gastarei por vossas almas? E tão grande graça havia nele, que se manifestou que ele tinha caridade. E, contudo, achamos que ele pediu e não recebeu. Que diremos, irmãos? É uma questão: olhai atentamente para Deus: é também esta uma grande questão. Assim como, onde se disse do pecado: Aquele que é nascido de Deus não peca, achamos que esse pecado era a violação da caridade, e que era isso precisamente o que se pretendia naquele lugar; assim também agora perguntamos o que é que ele quereria dizer. Pois, se atentares somente às palavras, parece claro; se levares em conta os exemplos, é obscuro. Nada pode ser mais claro que as palavras aqui. E tudo quanto pedirmos, dEle receberemos, porque guardamos os Seus mandamentos e fazemos as coisas que Lhe são agradáveis. Tudo quanto pedirmos, diz ele, dEle receberemos. Ele nos pôs em grande aperto. Também no outro lugar ele nos poria em aperto, se se referisse a todo pecado; mas ali achamos lugar para expor que ele se referia a um certo pecado, não a todo pecado; contudo, a um pecado que todo aquele que é nascido de Deus não comete: e achamos que esse mesmo pecado não é outro senão a violação da caridade. Temos também um exemplo manifesto do Evangelho, quando o Senhor diz: Se Eu não tivesse vindo, não teriam pecado (Jo 15:22). Como assim? Estavam os judeus inocentes quando Ele veio a eles, porque assim fala? Então, se Ele não tivesse vindo, não teriam pecado nenhum? Acaso a presença do Médico causou a doença, em vez de tirar a febre? Que louco diria isto? Ele não veio senão para curar e sarar os enfermos. Portanto, quando disse: Se Eu não tivesse vindo, não teriam pecado, que quis Ele que se entendesse, senão um certo pecado em particular? Pois havia um pecado que os judeus não teriam tido. Qual pecado? O de não crerem nEle, o de, tendo Ele vindo, O terem desprezado.
Como então ali disse Ele pecado, e disso não se segue que devamos entender todo pecado, mas um certo pecado, assim também aqui não todo pecado, para que não seja contrário àquele lugar onde diz: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós (1 Jo 1,8); mas um certo pecado em particular, isto é, a violação da caridade. Mas neste lugar Ele nos vinculou mais estreitamente: Se pedirmos, disse Ele, se o nosso coração não nos acusar, e nos disser em resposta, à vista de Deus, que o verdadeiro amor está em nós, tudo quanto pedirmos, dEle receberemos. Ora bem: já vos disse, meus amados irmãos, que ninguém volte os olhos para nós. Pois que somos nós? Ou que sois vós? Que somos, senão a Igreja de Deus, que é conhecida de todos? E, se Lhe aprouver, nessa Igreja estamos nós; e aqueles de nós que pela caridade nela permanecem, aí perseveremos, se quisermos manifestar o amor que temos. Mas então, do apóstolo Paulo, que mal havemos de pensar? Não amar ele os irmãos! Não ter em si mesmo o testemunho de sua consciência à vista de Deus! Não ter Paulo em si aquela raiz de caridade de onde procediam todos os bons frutos! Que louco diria isto? Ora bem: onde acharemos que o apóstolo pediu e não recebeu? Ele mesmo diz: Para que eu não me exaltasse sobremaneira pela grandeza das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear. Pelo que três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim. E disse-me Ele: Basta-te a minha graça; porque a força se aperfeiçoa na fraqueza (2 Cor 12,7-9). Eis que ele não foi ouvido em sua oração, para que o anjo de Satanás lhe fosse tirado. Mas por quê? Porque isso não lhe era bom. Foi, pois, ouvido para a salvação, quando não foi ouvido segundo o seu desejo. Sabei, meus amados, um grande mistério, o qual vos inculcamos de propósito, para que não vos escape nas vossas tentações. Os santos são em todas as coisas ouvidos para a salvação: são sempre ouvidos naquilo que respeita à sua salvação eterna; é isto que desejam; porque, quanto a isto, as suas orações são sempre ouvidas. Distingamos, porém, os diferentes modos como Deus ouve a oração. Pois achamos alguns que, não ouvidos segundo o seu desejo, foram ouvidos para a salvação; e achamos outros, ao contrário, que, ouvidos segundo o seu desejo, não foram ouvidos para a salvação. Notai esta diferença, retende este exemplo de um homem não ouvido segundo o seu desejo, mas ouvido para a salvação. Ouvi o apóstolo Paulo; pois o que seja ouvir a oração para a salvação, o próprio Deus lho mostrou: Basta-te, diz Ele, a minha graça; porque a força se aperfeiçoa na fraqueza. Rogaste, clamaste, três vezes clamaste: o próprio clamor que uma vez para sempre levantaste, Eu o ouvi, não desviei de ti os meus ouvidos; Eu sei o que devo fazer: tu quiseras que te fosse tirada a coisa que te sara e que te queima; Eu conheço a enfermidade de que estás sobrecarregado. Ora bem: eis um homem que foi ouvido para a salvação, ao passo que, quanto à sua vontade, não foi ouvido. Onde acharemos pessoas ouvidas segundo a sua vontade, e não ouvidas para a salvação? Acharemos, pensais vós, algum ímpio, algum homem sem piedade, ouvido por Deus segundo a sua vontade, e não ouvido para a salvação? Se eu vos propusesse o exemplo de algum homem, talvez me digais: És tu que o chamas ímpio, pois ele era justo; se não fosse justo, sua oração não teria sido ouvida por Deus. O exemplo que estou para vos apresentar é o de alguém de cuja iniquidade e impiedade ninguém pode duvidar.
Adão trouxe, através da mulher, a bebida do veneno? Que até no caso de Jó guardou-lhe a esposa, para que por meio dela o marido fosse, não consolado, mas tentado? O demônio pediu um homem santo, para tentá-lo; e recebeu: o apóstolo pediu que lhe fosse tirado o aguilhão da carne, e não recebeu. Mas o apóstolo foi mais ouvido do que o demônio. Pois o apóstolo foi ouvido para a salvação, ainda que não segundo o seu desejo: o demônio foi ouvido segundo o seu desejo, mas para a sua condenação. Pois que Jó lhe fosse entregue para ser tentado, foi para que, por sua firmeza na prova, o demônio fosse atormentado.
Mas isto, irmãos meus, não o encontramos apenas nos livros do Antigo Testamento, mas também no Evangelho. Os demônios suplicaram ao Senhor, quando Ele os expulsava do homem, que lhes fosse permitido ir para os porcos. Não teria o Senhor poder para dizer-lhes que nem sequer se aproximassem daquelas criaturas? Pois, se não fosse Sua vontade permitir isto, eles não estariam para se rebelar contra o Rei do céu e da terra. Mas com vistas a certo mistério, com certo sentido ulterior, Ele deixou os demônios irem para os porcos: para mostrar que o demônio tem domínio sobre aqueles que levam vida de porcos.
Foram, pois, os demônios ouvidos em seu pedido; não foi o apóstolo ouvido? Ou antes (o que é mais verdadeiro) diremos: o apóstolo foi ouvido, os demônios não foram ouvidos? A vontade deles foi efetuada; o bem dele foi aperfeiçoado. De acordo com isto, devemos entender que Deus, ainda que não dê à nossa vontade, dá para a nossa salvação. Pois suponde que a coisa que pedistes seja para vosso dano, e o Médico saiba que é para vosso dano; que então? Não se há de dizer que o médico não vos dá ouvidos, quando, porventura, pedis água fria, e se ela vos é boa, ele a dá imediatamente; se não é boa, não a dá. Não teria ele ouvidos para o vosso pedido, ou antes, não daria ele ouvidos para o vosso bem, mesmo quando contrariasse a vossa vontade?
Haja, pois, em vós a caridade, irmãos meus; que ela esteja em vós, e então tranquilizai vossos ânimos: mesmo quando a coisa que pedis não vos é dada, vossa oração é atendida, somente não o sabeis. Muitos foram entregues em suas próprias mãos, para seu próprio dano: dos quais diz o apóstolo, Deus os entregou às concupiscências de seus próprios corações (Rm 1:24). Algum homem pediu grande soma de dinheiro; recebeu, para seu dano. Quando não a tinha, tinha pouco a temer; mal veio a tê-la, tornou-se presa dos mais poderosos. Não foi o pedido daquele homem atendido para seu próprio dano, ele que quis ter aquilo pelo qual seria procurado pelo ladrão, ao passo que, sendo pobre, ninguém o procurava?
Aprendei a suplicar a Deus que possais confiar ao Médico fazer o que Ele sabe ser melhor. Confessai a doença, que Ele aplique os meios de cura. Somente mantende firme a caridade. Pois Ele há de cortar, há de queimar; e se clamais, e não sois poupados por vosso clamor sob o corte, sob a queima e a tribulação, contudo Ele sabe até onde chega a podridão. Quereríeis que Ele já agora retirasse as mãos, e Ele considera apenas a profundidade da chaga; Ele sabe até onde deve ir.
Ele não vos atende segundo a vossa vontade, mas atende-vos para a vossa cura. Tende, pois, por certo, meus irmãos, que é verdadeiro o que diz o Apóstolo: Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis; pois Ele intercede pelos santos (Rm 8,26-27). Como se diz que o próprio Espírito intercede pelos santos, senão no sentido da caridade que Ele opera em vós? Por isso diz o mesmo Apóstolo: A caridade de Deus é derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). É a caridade que geme, é a caridade que ora: e a ela não pode fechar os ouvidos Aquele que a deu. Aquietai, pois, o vosso ânimo: que ore a caridade, e ali estarão os ouvidos de Deus. Não se faz o que vós quereis, mas se faz o que vos é proveitoso. Portanto, diz ele, tudo o que pedirmos receberemos dEle — já o disse: se o entendeis referido à salvação, não há questão; se não referido à salvação, há questão, e grande, questão que vos faz acusador do apóstolo Paulo. Tudo o que pedirmos, dEle o recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que Lhe é agradável, interiormente, onde Ele vê.
Vedes que este é o mandamento: vedes que todo aquele que faz algo contra este mandamento comete o pecado do qual está livre todo aquele que é nascido de Deus.
Ora vedes que nada mais nos foi ordenado senão que nos amemos uns aos outros — E quem guarda o Seu mandamento permanece Nele, e Ele nele. E nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo Espírito que Ele nos deu. Não é manifesto que é isto o que o Espírito Santo opera no homem, que haja nele amor e caridade? Não é manifesto, como diz o Apóstolo Paulo, que o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado? (Rm 5,5) Pois [nosso apóstolo] falava da caridade, e dizia que devemos, à vista de Deus, interrogar o nosso próprio coração. Mas se o nosso coração não nos condena: isto é, se ele confessa que do amor do irmão procede em nós tudo quanto se faz em qualquer boa obra. E além disso, falando do mandamento, diz isto: Este é o Seu mandamento: que creiamos no nome do Seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, como Ele nos ordenou. E quem guarda o Seu mandamento permanece Nele, e Ele nele. Nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo Espírito que Ele nos deu. Se em verdade encontrardes que tendes caridade, tendes o Espírito de Deus para entender; pois é coisa muito necessária. Nos primeiros tempos, o Espírito Santo caía sobre os que criam, e eles falavam em línguas que não haviam aprendido, conforme o Espírito lhes concedia que falassem (At 2,4). Estes eram sinais adequados àquele tempo. Pois convinha que houvesse aquele sinal do Espírito Santo em todas as línguas, para mostrar que o Evangelho de Deus haveria de correr por todas as línguas sobre toda a terra. Aquilo foi feito como sinal, e passou. Agora, na imposição das mãos, para que as pessoas recebam o Espírito Santo, esperamos acaso que elas falem em línguas? Ou, quando impusemos a mão sobre estas crianças, esperou cada um de vós ver se elas falariam em línguas, e, ao ver que não falavam em línguas, foi algum de vós tão mal-ajuizado a ponto de dizer: Estas não receberam o Espírito Santo, pois, se o tivessem recebido, falariam em línguas, como sucedia naqueles tempos? Se, pois, o testemunho da presença do Espírito Santo não é agora dado por meio destes milagres, por que é dado, por que se chega alguém a saber que recebeu o Espírito Santo? Que interrogue o seu próprio coração. Se ama o seu irmão, o Espírito de Deus habita nele. Que veja, que se prove diante dos olhos de Deus, que veja se há nele o amor da paz e da unidade, o amor da Igreja que se estende por toda a terra. Que não repouse somente em amar o irmão que tem diante dos olhos, pois temos muitos irmãos que não vemos, e na unidade do Espírito estamos ligados a eles. Que maravilha é que não estejam conosco? Estamos em um só corpo, temos uma só Cabeça, no céu. Irmãos, os nossos dois olhos não se veem um ao outro; poder-se-ia dizer que não se conhecem. Mas, na caridade da estrutura corpórea, não se conhecem eles? Pois, para vos mostrar que na caridade que os une eles se conhecem: quando ambos os olhos estão abertos, o direito não repousa sobre algum objeto sobre o qual o esquerdo não repouse igualmente. Dirigi o olhar do olho direito sem o outro, se puderdes. Juntos eles se encontram em um só objeto, juntos são dirigidos a um só objeto: o seu alvo é um, os seus lugares são diversos.
Se, pois, todos os que convosco amam a Deus têm convosco um só propósito, não vos importeis com o fato de estardes separados no corpo quanto ao lugar; tendes igualmente fixados os olhos do coração na luz da verdade. Ora, se quereis saber se recebestes o Espírito, interrogai o vosso coração: para que porventura não tenhais o sacramento, e não tenhais a virtude do sacramento. Interrogai o vosso coração. Se ali estiver o amor dos vossos irmãos, tranquilizai o vosso espírito. Não pode haver amor sem o Espírito de Deus: pois Paulo clama: O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5:5).
Caríssimos, não creiais a todo espírito (1 Jo 4:1). Porque havia dito: Nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu. Mas como se conhece este mesmo Espírito, atentai: Caríssimos, não creiais a todo espírito, mas provai os espíritos se são de Deus. E quem é aquele que prova os espíritos? Questão árdua nos propôs ele, meus irmãos! Bem nos é que ele mesmo nos diga como havemos de discerni-los. Está para nos dizê-lo: não temais; mas primeiro vede; atentai: vede que nisto se exprime justamente aquilo com que os vãos hereges nos escarnecem. Atentai, vede o que ele diz: Caríssimos, não creiais a todo espírito, mas provai os espíritos se são de Deus. O Espírito Santo é chamado no Evangelho pelo nome de água; onde o Senhor clamou e disse: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Aquele que crê em mim, de seu ventre correrão rios de água viva (Jo 7:37-39). Mas o evangelista expôs do que Ele falava: pois prossegue dizendo: Ora, isto disse Ele do Espírito, que haviam de receber os que nEle cressem. Por que, pois, não batizou o Senhor a muitos? Mas que diz ele? Porque o Espírito Santo ainda não fora dado, pois Jesus ainda não fora glorificado. Vendo, pois, que estes tinham o batismo e ainda não haviam recebido o Espírito Santo, que no dia de Pentecostes o Senhor enviou do céu, esperou-se primeiro a glorificação do Senhor, para que o Espírito pudesse ser dado. Mesmo antes de ser glorificado, e antes de enviar o Espírito, Ele já convidava os homens a se prepararem para receber a água da qual disse: Quem tiver sede, venha e beba; e: Aquele que crê em mim, de seu ventre correrão rios de água viva. Que significa: Rios de água viva? Que água é essa? Ninguém me pergunte; pergunte ao Evangelho. Mas isto, diz ele, disse Ele do Espírito, que haviam de receber os que nEle cressem. Por conseguinte, uma coisa é a água do sacramento; outra, a água que significa o Espírito de Deus. A água do sacramento é visível; a água do Espírito, invisível. Aquela lava o corpo, e significa o que se opera na alma. Por este Espírito é a própria alma purificada e alimentada. Este é o Espírito de Deus, que os hereges e todos os que se separam da Igreja não podem ter. E os que não se separam abertamente, mas pela iniquidade são separados, e, estando dentro, rodopiam como palha e não são grão; estes não têm este Espírito. Este Espírito é designado pelo Senhor sob o nome de água: e ouvimos desta epístola: Não creiais a todo espírito; e testemunham aquelas palavras de Salomão: Da água estranha te aparta. Que significa: água? Espírito. Significará a água sempre espírito?
Não sempre: mas em alguns lugares significa o Espírito, em alguns lugares significa o batismo, em alguns lugares significa povos (Ap 17:15), em alguns lugares significa conselho: assim encontras dito em certo lugar, Fonte de vida é o conselho para os que o possuem (Pv 16:22). Assim, pois, em vários lugares das Escrituras, o termo água significa várias coisas. Ora, contudo, pelo termo água já ouviste referido o Espírito Santo, não por interpretação nossa, mas por testemunho do Evangelho, onde diz: Mas isto disse Ele do Espírito, que haveriam de receber os que nEle cressem. Se, pois, pelo nome de água é significado o Espírito Santo, e esta epístola nos diz: Não creiais a todo espírito, mas provai os espíritos, se são de Deus; entendamos que disto se disse: De água estranha guarda-te longe, e de fonte estranha não bebas. Que significa, De fonte estranha não bebas? Espírito estranho não creias.
Resta, pois, a prova pela qual há de se demonstrar que é o Espírito de Deus. Ele estabeleceu, na verdade, um sinal, e este, ao que parece, difícil: vejamos, contudo. Havemos de recorrer àquela caridade; é ela que nos ensina, porque é a unção. Mas o que diz ele aqui? Provai os espíritos, se são de Deus: porque muitos falsos profetas saíram para este mundo. Ora, aí estão todos os hereges e todos os cismáticos. Como, pois, hei de provar o espírito?
Nossos ouvidos, por assim dizer, estão alerta para o discernimento dos espíritos; e algo nos foi dito, de tal modo que com isso não discernimos nem um pouco mais. Pois que diz ele? Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus. Será, pois, de Deus o espírito que há entre os hereges, visto que confessam que Jesus Cristo veio em carne? Sim, aqui talvez se levantem contra nós e digam: Vós não tendes o Espírito de Deus; nós, porém, confessamos que Jesus Cristo veio em carne. Mas o apóstolo disse aqui que não têm o Espírito de Deus aqueles que não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Perguntai aos arianos: confessam que Jesus Cristo veio em carne; perguntai aos eunomianos: confessam que Jesus Cristo veio em carne; perguntai aos macedonianos: confessam que Jesus Cristo veio em carne; interrogai os catafrígios: confessam que Jesus Cristo veio em carne; interrogai os novacianos: confessam que Jesus Cristo veio em carne. Têm, pois, todas estas heresias o Espírito de Deus? Não são elas, então, falsos profetas? Não há, pois, ali engano algum, nem sedução alguma? Certamente são anticristos; pois saíram de nós, mas não eram de nós. Que faremos, pois? Por que meio os discerniremos? Estai bem atentos; vamos juntos em coração, e batamos. A própria caridade vigia; pois não é outra senão ela que há de bater, e também ela que há de abrir: em breve compreendereis, no nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Já ouvistes que foi dito acima: Quem nega que Jesus Cristo veio em carne, esse é um anticristo. Ali também perguntamos: Quem nega? Pois nem nós negamos, nem aqueles negam. E encontramos que alguns negam em suas obras; e trouxemos o testemunho do apóstolo, que diz: Confessam que conhecem a Deus, mas nas obras o negam (Tt 1,16). Assim, pois, façamos agora também a investigação nas obras, não na língua. Qual é o espírito que não é de Deus? Aquele que nega que Jesus Cristo veio em carne. E qual é o espírito que é de Deus? Aquele que confessa que Jesus Cristo veio em carne. Quem é aquele que confessa que Jesus Cristo veio em carne? Agora, irmãos, ao alvo! Olhemos para as obras, não nos detenhamos no ruído da língua. Perguntemos por que Cristo veio em carne, para que cheguemos às pessoas que negam que Ele veio em carne. Se vos detiverdes nas línguas, ora, ouvireis muitas heresias confessando que Cristo veio em carne; mas a verdade convence esses homens. Por que veio Cristo em carne? Não era Ele Deus? Não está escrito d'Ele: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1,1)? Não era Ele que alimentava os anjos, não é Ele que alimenta os anjos? Não veio Ele para cá de tal modo que não partiu de lá? Não subiu Ele de tal modo que não nos abandonou? Por que, pois, veio Ele em carne? Porque nos convinha que nos fosse mostrada a esperança da ressurreição. Deus era Ele, e em carne veio; pois Deus não podia morrer, a carne podia morrer; veio, pois, em carne, para que pudesse morrer por nós. Mas como morreu Ele por nós? Maior caridade do que esta ninguém tem, que alguém dê a sua vida por seus amigos (Jo 15,13). A caridade, portanto, O trouxe à carne. Quem, pois, não tem caridade nega que Cristo veio em carne. Aqui, pois, interrogai agora todos os hereges. Veio Cristo em carne?
Ele veio; isto eu creio, isto eu confesso. Mas isto tu negas. Como nego? Ouves que eu o digo! Antes te convenço de que o negas. Dizes com a voz, negas com o coração; dizes com as palavras, negas com os feitos. Como, dizes tu, nego eu com os feitos? Porque o fim para o qual Cristo veio na carne foi que morresse por nós. Morreu por nós, porque nisto ensinou grande caridade. Maior caridade que esta ninguém tem, que alguém dê a sua vida por seus amigos. Tu não tens caridade, pois por tua própria honra divides a unidade. Nisto, pois, conhecei o espírito que é de Deus. Dá um toque nos vasos de barro, põe-nos à prova, se acaso estão rachados e dão som surdo: vede se soam cheios e claros, vede se aí há caridade. Tu te apartas da unidade de toda a terra, divides a Igreja por cismas, despedaças o Corpo de Cristo. Ele veio na carne para congregar em um, tu clamas para dispersar. Este, pois, é o Espírito de Deus, que diz que Jesus veio na carne, que o diz não com a língua, mas com os feitos; que o diz não fazendo alarido, mas amando. E aquele espírito não é de Deus, que nega que Jesus Cristo veio na carne; nega-o, também aqui, não com a língua, mas com a vida; não com palavras, mas com feitos. É manifesto, pois, por que sinais podemos conhecer os irmãos. Muitos que estão por dentro são, de certo modo, de fora; mas ninguém está de fora senão aquele que verdadeiramente é de fora. E para que saibais que ele referiu a questão aos feitos, diz: E todo espírito qui solvit Christum, que desfaz a Cristo, isto é, que Ele veio na carne, não é de Deus. Trata-se de um desfazer nos feitos. Que te mostrou ele? Que nega: nisto que diz "desfaz" (ou "desmancha"). Ele veio para congregar em um, tu vens para desmanchar. Queres despedaçar os membros de Cristo. Como se pode dizer que não negas que Cristo veio na carne, tu que despedaças a Igreja de Deus, que Ele congregou? Portanto, vais contra Cristo; és um anticristo. Estejas tu por dentro, ou estejas por fora, és um anticristo: somente que, quando estás por dentro, estás oculto; quando estás por fora, és manifestado. Tu desfazes a Jesus e negas que Ele veio na carne; não és de Deus. Por isso diz Ele no Evangelho: Quem quebrar um destes mandamentos mínimos, e assim ensinar aos homens, será chamado o mínimo no reino dos céus (Mt 5,19). Que é este quebrar? Que é este ensinar? Um quebrar nos feitos e um ensinar como que em palavras. Tu que pregas que os homens não devem furtar, furtas? (Rm 2,21). Logo, aquele que furta quebra ou desfaz o mandamento em seu feito, e como que assim ensina: será chamado o mínimo no reino dos céus, isto é, na Igreja deste tempo presente. Dele se diz: O que dizem, fazei; mas o que fazem, não façais (Mt 23,3). Mas aquele que fizer, e assim ensinar, será chamado grande no reino dos céus. Disto — que Ele aqui disse fecerit, "fizer", enquanto, em contraposição a isto, ali disse solverit, querendo dizer non fecerit, "não fizer", e assim ensinar — quebrar, pois, é não fazer — que nos ensina Ele senão que devemos interrogar os feitos dos homens, e não tomar suas palavras por fiança? A obscuridade das coisas nos obriga a falar longamente e com detença, sobretudo para que aquilo que o Senhor se digna revelar possa chegar ao alcance até dos irmãos de entendimento mais tardo, porque todos foram comprados pelo sangue de Cristo.
Antes Meu, e temo que a própria epístola não se conclua nestes dias, como havia prometido; mas, como aprouver ao Senhor, melhor é reservar o restante do que sobrecarregar vossos corações com alimento em demasia.
Assim é este mundo para todos os fiéis que buscam a sua própria pátria, como foi o deserto para o povo de Israel. Eles ainda peregrinavam, e buscavam a sua própria pátria; mas, tendo a Deus por guia, não podiam errar o caminho. O caminho deles era o mandamento de Deus. Pois, quanto ao que andaram durante quarenta anos, a própria jornada compõe-se de bem poucas estações, e é conhecida de todos. Foram retardados porque estavam em treinamento, não porque haviam sido abandonados. Aquilo, pois, que Deus nos promete é doçura inefável e um bem, como diz Isaías 64:4, e como já ouvistes muitas vezes recitado por nós, o que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem (1 Cor 2:9). Mas por labores temporais somos exercitados, e por tentações desta vida presente somos treinados. Todavia, se não quiserdes morrer de sede neste deserto, bebei da caridade. É a fonte que Deus houve por bem colocar aqui, para que não desfaleçamos no caminho; e dela beberemos mais abundantemente quando tivermos chegado à nossa própria terra. Acabou de ser lido o Evangelho; ora, para falar das próprias palavras com que a lição terminou, que outra coisa ouvistes senão acerca da caridade? Pois fizemos um pacto com o nosso Deus na oração, que, se quisermos que Ele nos perdoe os nossos pecados, também nós perdoemos os pecados que possam ter sido cometidos contra nós (Mt 6:12). Ora, aquilo que perdoa não é outra coisa senão a caridade. Tirai a caridade do coração; o ódio o possui, e ele não sabe perdoar. Esteja ali a caridade, e ela perdoa sem temor, não estando constrangida. E toda esta epístola que empreendemos expor-vos, vede se recomenda outra coisa senão esta única coisa, a caridade. Nem precisamos temer que, por muito falarmos dela, venha ela a tornar-se odiosa. Pois que há para amar, se a própria caridade vier a ser odiosa? É pela caridade que as demais coisas vêm a ser retamente amadas; logo, como deve ela mesma ser amada! Que não se aparte, pois, da língua aquilo que nunca deve apartar-se do coração.
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Quem senão o Anticristo? Pois acima ele havia dito: Quem quer que desfaça a Jesus Cristo e negue que Ele veio em carne não é de Deus. Ora, expusemos, se vos lembrais, que todos aqueles que violam a caridade negam que Jesus Cristo tenha vindo em carne. Pois Jesus não teve necessidade de vir senão por causa da caridade: como, de fato, a caridade que estamos recomendando é aquela que o próprio Senhor recomenda no Evangelho: Maior amor do que este ninguém tem, que alguém dê a sua vida pelos seus amigos (Jo 15:13). Como seria possível ao Filho de Deus dar a sua vida por nós sem revestir-se da carne na qual pudesse morrer? Quem quer, pois, que viole a caridade, diga o que quiser com a língua, a sua vida nega que Cristo veio em carne; e este é um anticristo, onde quer que esteja, onde quer que tenha entrado. Mas que diz o apóstolo àqueles que são cidadãos daquela pátria pela qual suspiramos? Vós o vencestes. E por que meio o venceram? Porque maior é Aquele que está em vós do que aquele que está neste mundo. Para que não atribuíssem a vitória à sua própria força, e por arrogância de soberba viessem a ser vencidos (pois a quem quer que o diabo torne soberbo, ele o vence), querendo que guardassem a humildade, que diz ele? Vós o vencestes. Todo homem agora, ao ouvir este dito, "vós o vencestes", levanta a cabeça, estende o pescoço, deseja ser louvado. Não te exaltes; vê quem é que em ti venceu. Por que venceste? Porque maior é Aquele que está em ti do que aquele que está no mundo. Sê humilde, carrega o teu Senhor; sê a besta para Ele montar. Bom te é que Ele reine, e Ele te guie. Pois, se não O tiveres montado sobre ti, poderás levantar o pescoço, poderás dar coices; mas ai de ti sem quem te governe, pois esta liberdade te envia entre as feras para seres devorado!
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Estes são do mundo. 1 Jo 4:5. Quem? Os anticristos. Já ouvistes quem eles sejam. E se não sois tais, conhecei-os; mas quem quer que seja tal, não os conhece. Estes são do mundo: por isso falam do mundo, e o mundo os ouve. Quem são os que falam do mundo? Reparai em quem é contra a caridade. Eis que ouvistes o Senhor dizendo: Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas (Mt 6:14-15). É a sentença da Verdade: ou, se não é a Verdade quem fala, contradizei-a. Se és cristão e crês em Cristo, Ele o disse: Eu sou a verdade. Esta sentença é verdadeira, é firme. Ouvi agora os homens que falam do mundo. E não te vingarás? E hás de deixar que ele diga que te fez isto? Não: que ele sinta que tem que ver com um homem. Todos os dias se dizem tais coisas; os que dizem tais coisas, do mundo falam, e o mundo os ouve. Ninguém diz tais coisas senão os que amam o mundo, e por ninguém são ouvidas senão pelos que amam o mundo. E ouvistes que amar o mundo e negligenciar a caridade é negar que Jesus veio em carne. Ou dizei se o próprio Senhor, na carne, assim procedeu? Se, esbofeteado, quis vingar-se? Se, pendendo na cruz, não disse: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23:34)? Ora, se Ele, que tinha poder, não ameaçou, por que ameaças tu, por que te inflas de ira, tu que estás sob o poder de outrem? Ele morreu porque quis morrer, e contudo não ameaçou; tu não sabes quando morrerás, e ameaças?
Nós somos de Deus. 1 Jo 4:6. Vejamos por quê; vede se é por outra coisa que não a caridade. Nós somos de Deus: quem conhece a Deus, ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. Nisto conhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro: a saber, nisto, que quem nos ouve tem o espírito da verdade; quem não nos ouve, tem o espírito do erro. Vejamos o que ele aconselha, e escolhamos antes ouvi-lo aconselhando no espírito da verdade, e não os anticristos, não os amantes do mundo, não o mundo. Se somos nascidos de Deus,
Se somos nascidos de Deus, amados (1 Jo 4:7), prossegue ele — vede acima de quê: Nós somos de Deus: quem conhece a Deus, ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. Nisto conhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro: eis que, agora, ele nos torna ansiosamente atentos: dizer-se que aquele que conhece a Deus, ouve; mas aquele que não conhece, não ouve; e que este é o discernimento entre o espírito da verdade e o espírito do erro: pois bem, vejamos o que ele está para aconselhar; naquilo em que o devemos ouvir — Amados, amemo-nos uns aos outros (1 Jo 4:7). Por quê? Porque um homem o aconselha? Porque o amor é de Deus. Muito recomendou ele o amor, ao dizer: É de Deus; mas há de dizer mais; ouçamo-lo com avidez.
Por quê? Porque Deus é amor [o Amor é Deus]. Que mais poderia dizer-se, irmãos? Se nada se dissesse em louvor do amor em todas as páginas desta epístola, se absolutamente nada em todas as demais páginas das Escrituras, e esta única coisa fosse tudo quanto nos fosse dito pela voz do Espírito de Deus — Porque o Amor é Deus — nada mais deveríamos requerer. Vede agora que agir contra o amor é agir contra Deus. Que ninguém diga: peco contra o homem quando não amo a meu irmão (reparai bem!), e o pecado contra o homem é coisa a tomar-se levianamente; contanto que eu não peque contra Deus. Como não pecas contra Deus, quando pecas contra o amor? O Amor é Deus. Dizemos nós isto? Se disséssemos: O Amor é Deus, talvez algum de vós se escandalizasse e dissesse: Que disse ele? Que quis dizer, que o Amor é Deus? Deus deu o amor, como um dom Deus outorgou o amor. O Amor é de Deus: o Amor É Deus. Vede, aqui tendes, irmãos, as Escrituras de Deus: esta epístola é canônica; em todas as nações se recita, é sustida pela autoridade de toda a terra, edificou toda a terra. Aqui vos é dito pelo Espírito de Deus: o Amor é Deus. Ora, se ousas, vai contra Deus, e recusa-te a amar a teu irmão! Em que sentido, pois, se disse há pouco: o Amor é de Deus; e agora: o Amor É Deus? Porque Deus é Pai e Filho e Espírito Santo: o Filho, Deus de Deus; o Espírito Santo, Deus de Deus; e estes três, um só Deus, não três deuses. Se o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus, e ama aquela pessoa em quem habita o Espírito Santo: logo, o Amor é Deus; mas É Deus, porque É de Deus. Pois tendes ambos na epístola: ambos, que o Amor é de Deus, e que o Amor é Deus. Do Pai somente não tem a Escritura de dizer que Ele é de Deus: mas quando ouvires aquela expressão, De Deus, ou se entende o Filho, ou o Espírito Santo. Porque, dizendo o Apóstolo: O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5:5), entendamos que Aquele que subsiste no amor é o Espírito Santo. Pois é este mesmo Espírito Santo, a quem os maus não podem receber, é Ele aquela Fonte de que diz a Escritura: Seja a fonte da tua água só tua, e não a partilhe contigo nenhum estranho (Pv 5:16-17). Pois todos os que não amam a Deus são estranhos, são anticristos. E ainda que venham às igrejas, não podem ser contados entre os filhos de Deus; a eles não pertence aquela Fonte da vida. Ter o batismo é possível ainda ao mau; ter a profecia é possível ainda ao mau. Achamos que o rei Saul teve profecia: perseguia ele o santo Davi, e contudo se encheu do espírito de profecia, e começou a profetizar (1 Sm 19). Receber o sacramento do corpo e do sangue do Senhor é possível ainda ao mau: pois de tais se diz: Quem come e bebe indignamente, come e bebe para si mesmo o juízo (1 Cor 11:29). Ter o nome de Cristo é possível ainda ao mau; isto é, ainda o mau pode chamar-se cristão: como aqueles de quem se diz: Profanaram o nome do seu Deus (Ez 36:20). Digo eu: ter todos estes sacramentos é possível ainda ao mau; mas ter a caridade, e ser mau, não é possível. Este é, pois, o dom peculiar, esta a Fonte que é singularmente própria. A beber desta vos exorta o Espírito de Deus; a beber d'Ele mesmo vos exorta o Espírito de Deus.
Comportai, para que amemos a Deus, temos exortação. Poderíamos amá-Lo, se Ele primeiro não nos houvesse amado? Se éramos tardios para amar, não sejamos tardios para retribuir o amor. Ele nos amou primeiro; nem assim O amamos. Amou os injustos, mas desfez a injustiça: amou os injustos, mas não os reuniu para a injustiça: amou os enfermos, mas os visitou para saná-los. O amor, pois, é Deus. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, porque Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que vivamos por Ele. Como o próprio Senhor diz: Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos (Jo 15,13): e assim se provou o amor de Cristo para conosco, em que Ele morreu por nós: como se prova o amor do Pai para conosco? Em que enviou o seu Filho único para morrer por nós: assim também diz o apóstolo Paulo: Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará também com Ele todas as coisas? (Rm 8,32) Eis que o Pai entregou Cristo; Judas O entregou; não parece que a coisa feita seja da mesma espécie? Judas é *traditor*, aquele que entrega, [ou, traidor]: é Deus Pai isto? Longe esteja! Dizeis vós. Não o digo eu, mas o apóstolo diz, Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o *tradidit*, entregou por todos nós. Tanto o Pai O entregou, quanto Ele mesmo se entregou. O mesmo apóstolo diz: Que me amou, e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2,20). Se o Pai entregou o Filho; e o Filho se entregou a si mesmo, que fez Judas? Houve uma *traditio* (entrega) pelo Pai; houve uma *traditio* pelo Filho; houve uma *traditio* por Judas: a coisa feita é a mesma, mas o que distingue o Pai entregando o Filho, o Filho entregando a si mesmo, e Judas o discípulo entregando o seu Mestre? Isto: que o Pai e o Filho o fizeram por amor, mas Judas o fez por traiçoeira traição. Vedes que não é o que o homem faz que se há de considerar; mas com que ânimo e vontade o faz. Encontramos a Deus Pai no mesmo feito em que encontramos Judas; ao Pai bendizemos, a Judas detestamos. Por que bendizemos ao Pai, e detestamos a Judas? Bendizemos a caridade, detestamos a iniquidade. Quão grande bem foi conferido ao gênero humano pela entrega de Cristo! Tinha Judas isto em seus pensamentos, que por isso O entregasse? Deus tinha em seus pensamentos a nossa salvação, pela qual fomos redimidos; Judas tinha em seus pensamentos o preço pelo qual vendeu o Senhor. O próprio Filho tinha em seus pensamentos o preço que deu por nós, Judas nos seus o preço que recebeu para vendê-Lo. A diversa intenção, portanto, faz diversos os feitos. Ainda que o feito seja um, contudo, se o medirmos pelas diversas intenções, encontramos um que se há de amar, outro que se há de condenar; um que se há de glorificar, outro que se há de detestar. Tal é a força da caridade. Vede que ela sozinha discrimina, ela sozinha distingue os feitos dos homens. Isto dissemos no caso em que os feitos são semelhantes. No caso em que são diversos, encontramos um homem feito feroz pela caridade; e feito amavelmente brando pela iniquidade. Um pai açoita o filho, e um raptor de crianças o acaricia. Se nomeardes as duas coisas, açoites e carícias, quem não escolheria as carícias, e recusaria os açoites? Se atentardes às pessoas, é a caridade que açoita, a iniquidade que acaricia.
que os feitos dos homens só se discernem pela raiz da caridade. Pois muitas coisas podem ser feitas que têm boa aparência, e todavia não procedem da raiz da caridade. Também os espinhos têm flores: certas ações, na verdade, parecem ásperas, parecem selvagens; contudo são feitas para disciplina, por mandado da caridade. Uma vez por todas, pois, um breve preceito vos é dado: Amai, e fazei o que quiserdes: quer vos calando, pelo amor vos calai; quer clamando, pelo amor clamai; quer corrigindo, pelo amor corrigi; quer poupando, pelo amor poupai: esteja dentro a raiz do amor, pois desta raiz nada pode brotar senão o que é bom.
não O amamos primeiro: pois para isto nos amou Ele, a fim de que O amemos: E enviou seu Filho para ser o Propiciador de nossos pecados: litatorem, isto é, aquele que sacrifica. Ele se sacrificou por nossos pecados. Onde achou Ele o sacrifício? Onde achou a vítima que havia de oferecer pura? Nenhuma outra achou; a Si mesmo se ofereceu.
Ele é coisa invisível; não com os olhos, mas com o coração deve ser buscado. Mas assim como, se quiséssemos ver o sol, purificaríamos o olho do corpo, assim, querendo ver a Deus, purifiquemos o olho pelo qual Deus pode ser visto. Onde está esse olho? Ouvi o Evangelho: Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5,8). Mas que ninguém imagine a Deus segundo a concupiscência dos seus olhos. Pois assim ele forja para si ou uma forma enorme, ou certa magnitude incalculável que, como a luz que vê com os olhos corporais, ele faz estender-se por todas as direções; campo após campo de espaço lhe dá, toda a grandeza que pode; ou representa para si como que um ancião de forma venerável. Nenhuma destas coisas imagineis. Há algo que podeis imaginar, se quiserdes ver a Deus: Deus é caridade. Que rosto tem a caridade? Que forma tem ela? Que estatura? Que pés? Que mãos tem ela? Ninguém pode dizer. E, contudo, ela tem pés, pois estes levam os homens à igreja; tem mãos, pois estas se estendem para os pobres; tem olhos, pois por eles consideramos o necessitado: Bem-aventurado, diz-se, o homem que considera o necessitado e o pobre. Tem ouvidos, dos quais o Senhor diz: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Lc 8,8). Estes não são membros distintos por lugar, mas com o entendimento aquele que tem caridade vê tudo de uma só vez. Habitai, e sereis habitados; morai, e sereis morada. Pois como dizeis vós, meus irmãos? Quem ama o que não vê? Ora, por que, quando a caridade é louvada, levantais as mãos, aclamais, louvais? Que vos mostrei eu? O que produzi, foi um brilho de cores? O que propus, foi ouro e prata? Escavei jóias de tesouros ocultos? Que coisa desse tipo mostrei aos vossos olhos? Muda-se o meu rosto enquanto falo? Estou na carne; estou na mesma forma em que vim a vós; vós estais na mesma forma em que aqui viestes: a caridade é louvada, e vós aclamais com aplauso. Certamente nada vedes. Mas assim como vos apraz louvar, apraza-vos também guardá-la no coração. Pois atendei bem ao que digo, irmãos; a todos vós exorto, tanto quanto Deus me concede, a um grande tesouro. Se vos fosse mostrado um belo vasinho, cinzelado, incrustado de ouro, engenhosamente lavrado, e ele encantasse os vossos olhos, e atraísse a si o ávido desejo do vosso coração, e vos agradasse a mão do artífice, e o peso da prata, e o esplendor do metal; não diria cada um de vós: Ah, se eu tivesse aquele vaso! E em vão o diríeis, pois não estaria em vosso poder tê-lo. Ou, se alguém desejasse tê-lo, poderia pensar em roubá-lo da casa alheia. A caridade vos é louvada; se vos apraz, tende-a, possuí-a: não há necessidade de roubardes a ninguém, não há necessidade de pensardes em comprá-la; ela se há de ter gratuitamente, sem custo. Tomai-a, abraçai-a; nada há mais doce. Se tal é quando apenas se fala dela, que será quando se a possui? Se algum de vós, porventura, quiser guardar a caridade, irmãos, sobretudo não a imagineis coisa abjeta e indolente; nem que a caridade se há de preservar por uma espécie de brandura — não, não brandura, mas domesticidade e apatia. Não é assim que ela se preserva. Não imagineis que amais o vosso servo quando não o açoitais, ou que amais o vosso filho quando não lhe dais disciplina, ou que amais o vosso próximo quando não o repreendeis: isto não é caridade, mas mera fraqueza.
Que a caridade seja fervorosa para corrigir, para emendar: mas se houver bons costumes, que eles vos deleitem; se maus, que sejam emendados, que sejam corrigidos. Não ames no homem o seu erro, mas o homem: pois o homem, Deus o fez; o erro, o próprio homem o fez. Ama aquilo que Deus fez, não ames aquilo que o próprio homem fez. Quando amares aquilo, tiras isto; quando estimares aquilo, emendas isto. Mas, ainda que sejas severo alguma vez, que isso seja por amor, para correção. Por esta causa foi a caridade figurada pela pomba que desceu sobre o Senhor. Aquela semelhança de pomba, semelhança na qual veio o Espírito Santo, por quem a caridade deveria ser derramada em nós: por que foi isto? A pomba não tem fel: contudo, com bico e asas ela combate por seus filhotes; sua é uma fereza sem amargor. Assim faz também um pai; quando castiga o filho, para disciplina o castiga. Como disse, o raptor, para que possa vender, engana a criança com carícias amargas; um pai, para que possa corrigir, sem fel castiga. Sede vós assim para com todos os homens. Vede aqui, irmãos, uma grande lição, uma grande regra: cada um de vós tem filhos, ou deseja tê-los; ou, se determinou de todo não ter filhos segundo a carne, ao menos espiritualmente deseja ter filhos: — que pai não corrige o seu filho? Que filho não é disciplinado por seu pai? E, no entanto, ele parece ser fero com ele. É a fereza do amor, a fereza da caridade: uma espécie de fereza sem fel, à maneira da pomba, não do corvo. Donde me veio ao pensamento, meus irmãos, dizer-vos que aqueles violadores da caridade são os que fizeram o cisma: como odeiam a própria caridade, assim odeiam também a pomba. Mas a pomba os convence: ela procede do céu, os céus se abrem, e ela permanece sobre a cabeça do Senhor. Por que isto? Para que João ouça: Este é o que batiza (Jo 1,33). Fora, ladrões; fora, invasores da posse de Cristo! Sobre as vossas próprias posses, onde quereis a todo custo ser senhores, ousastes fixar os títulos do grande Proprietário. Ele reconhece os seus próprios títulos; Ele reivindica para Si a sua própria posse. Ele não cancela os títulos, mas entra e toma posse. Assim, naquele que vem para a Igreja Católica, o seu batismo não é cancelado, para que o título do comandante não seja cancelado: mas o que se faz na Igreja Católica? O título é reconhecido; o Proprietário entra sob os seus próprios títulos, onde o ladrão entrava sob títulos que não eram os seus.
O amor é palavra doce, mas mais doce é a obra. Estar sempre a falar dele, não está em nosso poder: pois temos muitas coisas a fazer, e diversos afazeres nos puxam para direções diferentes, de modo que nossa língua não tem vagar para estar sempre a falar do amor: como, na verdade, nada melhor poderia ela fazer. Mas, ainda que não possamos estar sempre a falar dele, podemos sempre guardá-lo. Assim como se passa com o Aleluia que cantamos neste momento presente — porventura fazemos isso sempre? Não digo por todo o espaço de uma hora, mas nem sequer por poucos instantes de uma hora cantamos o Aleluia, e logo nos entregamos a outra coisa. Ora, Aleluia, como já sabeis, significa: Louvai ao Senhor. Aquele que louva a Deus com a língua, não pode estar sempre a fazê-lo; aquele que pela vida e pela conduta louva a Deus, pode estar sempre a fazê-lo. As obras de misericórdia, os afetos da caridade, a santidade da piedade, a incorruptibilidade da castidade, a modéstia da sobriedade — estas coisas devem sempre ser praticadas: seja em público, seja em casa; seja diante dos homens, seja em nosso aposento; seja falando, seja guardando silêncio; seja ocupados em algo, seja livres de ocupação: estas devem sempre ser guardadas, porque todas estas virtudes que mencionei estão no íntimo. Mas quem é capaz de nomeá-las todas? Há como que o exército de um imperador aquartelado no íntimo de vossa mente. Pois assim como um imperador, por meio de seu exército, faz o que quer, assim o Senhor Jesus Cristo, uma vez começando a habitar em nosso homem interior (isto é, na mente, pela fé), usa estas virtudes como Suas servas. E por meio destas virtudes, que não podem ser vistas com os olhos, e no entanto, quando nomeadas, são louvadas — e não seriam louvadas se não fossem amadas, nem amadas se não fossem vistas; e se não são amadas senão vistas, são vistas com outro olho, isto é, com a contemplação interior do coração — por meio destas virtudes invisíveis, os membros são visivelmente postos em movimento: os pés a caminhar, mas para onde? Para onde são movidos pela boa vontade, que como um soldado serve ao bom imperador; as mãos a trabalhar, mas em quê? Naquilo que é ordenado pela caridade, que é inspirada no íntimo pelo Espírito Santo. Os membros, pois, são vistos quando postos em movimento; Aquele que os ordena por dentro não é visto: e quem é Aquele que os ordena por dentro, é conhecido quase somente Dele mesmo, que ordena, e daquele que, por dentro, é ordenado. Pois, irmãos, ouvistes há pouco, quando o Evangelho foi lido — ao menos se para ele tivésteis não somente o ouvido do corpo, mas também o do coração. Que disse Ele? Guardai-vos de não fazer a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1). Quis Ele dizer que, quaisquer bens que façamos, devemos ocultá-los dos olhos dos homens, e temer ser vistos? Se temerdes os espectadores, não tereis imitadores: deveis, pois, ser vistos. Mas não deveis fazê-lo com o fim de serdes vistos. Não deve estar ali o termo de vosso gozo, não ali a meta de vosso regozijo, de modo que vos considereis por haver colhido todo o fruto de vossa boa obra, quando sois vistos e louvados. Isto é nada. Desprezai-vos a vós mesmos quando fordes louvados; seja Ele louvado em vós, que opera por vós. Portanto, não trabalheis o bem que fazeis para louvor próprio, mas para o louvor Daquele de quem tendes o poder de fazer o bem. De vós mesmos tendes o mal-fazer; de Deus tendes o bem-fazer. Vede, por outro lado, os homens perversos, quão preposterosos são. O que fazem bem, querem atribuí-lo a si mesmos; se fazem mal, querem acusar a Deus.
Inverte este proceder distorcido e absurdo, que põe a coisa, por assim dizer, de cabeça para baixo, que faz inferior o que é superior, e superior o que é inferior. Queres fazer de Deus o inferior e de ti mesmo o superior? Precipitas-te, não te elevas; pois Ele está sempre acima. Que, pois? Tu bem, e Deus mal? Antes, dize isto, se queres falar mais verdadeiramente: eu mal, Ele bem; e o que de bem faço, vindo dEle, é o bem-obrar; pois de mim mesmo, tudo o que faço é mal. Esta confissão fortalece o coração e assenta um firme fundamento de caridade. Pois, se devêssemos ocultar as nossas boas obras para que não fossem vistas pelos homens, que seria daquela sentença do Senhor no sermão que proferiu no monte? Onde disse isto, ali disse também, um pouco antes: Resplandeçam as vossas boas obras diante dos homens (Mt 5,16). E não parou aí, não pôs ali fim ao que dizia, mas acrescentou: E glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. E que diz o Apóstolo? Eu era desconhecido de vista às igrejas da Judeia que estavam em Cristo; ouviam apenas dizer: Aquele que outrora nos perseguia agora anuncia a fé que antes destruía. E glorificavam a Deus em mim (Gl 1,22-24). Vede como também ele, quanto ao ter-se tornado tão amplamente conhecido, não pôs o bem no próprio louvor, mas no louvor de Deus. E, quanto a si mesmo, quanto ao ter sido devastador da Igreja, perseguidor, invejoso, maligno, é ele próprio quem o confessa, não somos nós que lho lançamos em rosto. Paulo ama que falemos dos seus pecados, para que seja glorificado Aquele que curou tão grande enfermidade. Pois foi a mão do Médico que cortou e curou a grandeza da chaga. Aquela voz do céu prostrou o perseguidor e ergueu o pregador; matou Saulo e vivificou Paulo. Pois Saul foi o perseguidor de um homem santo; daí tomou este homem o seu nome, quando perseguia os cristãos (1 Sm 19); depois, de Saulo, tornou-se Paulo. Que significa o nome Paulo? Pequeno. Por isso, quando era Saulo, era soberbo, elevado; quando se fez Paulo, era humilde, pequeno. Assim dizemos: Ver-te-ei paulo post, isto é, dentro em pouco. Ouve que se fez pequeno: Pois eu sou o menor dos apóstolos; e, a mim, o menor de todos os santos, diz ele noutro lugar. Assim era ele entre os apóstolos como a orla da veste: mas a Igreja dos gentios a tocou, como a mulher que padecia de fluxo de sangue, e foi curada (Mt 9,20-22).
Então, irmãos, isto eu quereria dizer, isto digo, isto, se me fosse possível, não deixaria por dizer: haja em vós ora estas obras, ora aquelas, conforme o tempo, conforme as horas, conforme os dias. Haveis sempre de falar? Sempre de guardar silêncio? Sempre de reconfortar o corpo? Sempre de jejuar? Sempre de dar pão aos necessitados? Sempre de vestir os nus? Sempre de visitar os enfermos? Sempre de reconciliar os que discordam? Sempre de sepultar os mortos? Não: mas ora isto, ora aquilo. Estas coisas são empreendidas, e cessam; mas aquilo que, como imperador, comanda todas as forças interiores, não tem começo nem deve cessar. Que a caridade interior não tenha intermissão: que os ofícios da caridade se exibam conforme o tempo. Permaneça, pois, o amor fraterno, como está escrito: permaneça o amor fraterno.
Hebreus 13:1
Mas talvez isto tenha ocorrido a alguns de vós, ao longo desta exposição que temos feito desta epístola do bem-aventurado João: por que somente o amor fraterno ele recomenda com tanta ênfase. Aquele que ama a seu irmão, diz ele; e um mandamento nos foi dado, que amemos uns aos outros. Repetidas vezes é do amor fraterno que ele fala; mas o amor de Deus — isto é, o amor com que devemos amar a Deus — ele não o nomeou tão constantemente; contudo, não o deixou de todo silenciado. Já acerca do amor ao inimigo, em quase toda a epístola, nada disse. Ainda que pregue com veemência e nos recomende a caridade, não nos diz que amemos os nossos inimigos, mas nos diz que amemos os nossos irmãos. Mas há pouco, quando se lia o Evangelho, ouvimos: Pois se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos o mesmo? (Mt 5:46). Como se explica, pois, que João, o apóstolo, como coisa de grande importância para nós, tendo em vista certa perfeição, recomende o amor fraterno; ao passo que o Senhor diz que não basta amarmos os nossos irmãos, mas que devemos estender esse amor de modo a alcançar até mesmo os inimigos? Aquele que alcança até os inimigos não transpõe os irmãos. É necessário, como o fogo, que primeiro se apodere do que lhe está mais próximo, para então se estender ao que está mais distante. O irmão te é mais próximo que qualquer pessoa ao acaso. Ora, aquele que não conheces, mas que tampouco é contra ti, tem sobre ti mais domínio do que o inimigo, que também é contra ti. Estende teu amor aos que te são mais próximos, e ainda assim não chames isto de estender: pois é quase amar-te a ti mesmo, amar os que te são próximos. Estende-o aos desconhecidos, que não te fizeram mal algum. Ultrapassa até mesmo estes: alcança o amor aos teus inimigos. Isto, ao menos, o Senhor ordena. Por que aqui o apóstolo nada disse acerca de amar o inimigo? Todo amor — seja o que se chama carnal, que costuma denominar-se não dilectio, mas amor (pois a palavra dilectio costuma ser empregada para objetos melhores, e ser entendida a respeito de objetos melhores) —, contudo, todo amor, caríssimos irmãos, traz em si o desejar bem àqueles que são amados. Pois não devemos assim amar, nem somos capazes de assim amar (seja diligere, seja amare: pois esta última palavra o Senhor empregou quando disse, Petra, amas me? Pedro, tu me amas?) — não devemos assim amar os homens, como ouvimos os gulosos dizerem: Eu amo tordos. Perguntas por que ele os ama? Para que os mate, para que os consuma. Diz que os ama, e para isto os ama, para que deixem de existir; para isto os ama, para que possa acabar com eles. E tudo o que amamos a título de alimento, para isto o amamos, para que seja consumido e nós reconfortados. Devem os homens ser assim amados, para serem consumidos? Mas há certa benevolência de bem-querer, pela qual desejamos, em algum momento, fazer bem àqueles a quem amamos. E se não houver bem algum que possamos fazer? A benevolência, o bem-querer, por si só basta a quem ama. Pois não devemos desejar que os homens sejam miseráveis, para que nos seja possível praticar obras de misericórdia. Dás pão ao faminto: mas melhor seria que ninguém tivesse fome, e não houvesse a quem dar. Vestes o nu: oxalá todos estivessem vestidos, e esta necessidade não existisse! Sepultas o morto: oxalá viesse enfim aquela vida em que ninguém morrerá! Reconcilias os que contendem: oxalá estivesse aqui enfim aquela paz eterna de Jerusalém, onde ninguém discordará! Pois todos estes são ofícios prestados a necessidades.
Tirai os miseráveis; terão fim as obras de misericórdia. As obras de misericórdia terão fim: extinguir-se-á o ardor da caridade? Com um toque mais verdadeiro de amor amas o homem feliz, a quem nenhum ofício bom podes prestar; mais pura será aquela caridade, e muito mais isenta de mescla. Pois, se fizeste um benefício ao miserável, porventura desejas exaltar-te sobre ele, e queres que te esteja sujeito aquele a quem fizeste o benefício. Ele estava necessitado, tu deste; pareces a ti mesmo maior por teres dado, do que aquele a quem foi dado. Deseja-o teu igual, para que ambos estejais sob o único Senhor, a quem nada se pode dar. Pois nisto a alma soberba ultrapassou os limites, e, de certo modo, tornou-se avarenta. Porque a raiz de todos os males é a avareza (1 Tm 6,10); e novamente se diz: O princípio de todo pecado é a soberba (Eclo 10,15). E perguntamos, talvez, como concordam estas duas sentenças: a raiz de todos os males é a avareza; e o princípio de todo pecado é a soberba. Se a soberba é o princípio de todo pecado, então a soberba é a raiz de todos os males. Ora, certamente, a raiz de todos os males é a avareza. Encontramos que na soberba há também avareza (ou cobiça); pois o homem ultrapassou os limites: e que é ser avarento senão ultrapassar aquilo que basta? Adão caiu pela soberba: o princípio de todo pecado é a soberba, diz a Escritura: caiu ele por cobiça? Que maior cobiça do que a daquele a quem nem Deus podia bastar? De fato, meus irmãos, lemos como o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus: e que disse Deus a respeito dele? E tenha ele poder sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra (Gn 1,26). Disse Ele: tenha poder sobre os homens? Tenha poder, diz Ele: deu-lhe um poder natural: poder sobre quê? Sobre os peixes do mar, as aves do céu, e todos os seres que se movem sobre a terra. Por que este poder sobre estas coisas é um poder natural? Porque o homem tem este poder pelo fato de ter sido feito à imagem de Deus. E em que foi feito à imagem de Deus? No intelecto, na mente, no homem interior; no fato de que compreende a verdade, distingue entre o bem e o mal, sabe por quem foi feito, é capaz de entender o seu Criador, de louvar o seu Criador: possui esta inteligência aquele que possui prudência. Por isso, quando muitos, por maus desejos, desgastaram em si mesmos a imagem de Deus, e pela perversidade de seus costumes extinguiram, por assim dizer, a própria chama da inteligência, a Escritura lhes clamou: Não vos torneis como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento. Isto é: eu vos coloquei acima do cavalo e do mulo; a vós, fiz à minha imagem, dei-vos poder sobre estas coisas. Por quê? Porque estas não têm a mente racional: mas tu, pela mente racional, és capaz da verdade, entendes o que está acima de ti: sê sujeito Àquele que está acima de ti, e ficarão abaixo de ti aquelas coisas sobre as quais foste colocado. Mas porque, pelo pecado, o homem abandonou Aquele a quem devia estar sujeito, foi feito sujeito às coisas às quais devia estar acima. Notai o que digo: Deus, o homem, os animais: a saber, acima de ti, Deus; abaixo de ti, os animais. Reconhece Aquele que está acima de ti, para que aqueles que estão abaixo de ti te reconheçam (Dn 6,22). Assim, porque Daniel reconheceu Deus acima de si, os leões o reconheceram acima de si. Mas se não reconheces Aquele que está acima de ti, desprezas o teu superior, tornas-te sujeito ao teu inferior. Por conseguinte, como foi subjugada a soberba dos egípcios?
Por meio de rãs e de moscas (Êx 8). Poderia Deus ter enviado leões; mas um grande homem pode ser atemorizado por um leão. Quanto mais soberbos eram, tanto mais por meio de coisas desprezíveis e débeis foi quebrada a sua ímpia cerviz. Mas a Daniel os próprios leões reconheceram, porque ele estava sujeito a Deus. Acaso os mártires que foram lançados às feras para com elas combater, e foram dilacerados pelos dentes de animais selvagens, não estavam eles sob Deus? Ou seriam aqueles três varões servos de Deus, e os Macabeus não servos de Deus? O fogo reconheceu como servos de Deus os três varões, aos quais não queimou, nem lhes tocou nas vestes (Dn 3,50); e não reconheceu ele também os Macabeus? (2Mac 7). Reconheceu-os, sim, meus irmãos, também a eles reconheceu. Mas era necessário o açoite, por permissão do Senhor: pois está dito na Escritura: Açoita a todo filho a quem recebe (Hb 12,6). Pois pensais vós, meus irmãos, que o ferro teria penetrado nas entranhas do Senhor, se Ele não o houvesse permitido, ou que Ele teria pendido preso ao madeiro, se não fosse essa a sua vontade? Não O reconheceu a sua própria criatura? Ou não deu Ele exemplo de paciência aos seus fiéis? Vedes, pois, que Deus a uns livrou visivelmente, a outros não livrou visivelmente; a todos, contudo, livrou espiritualmente, a nenhum abandonou espiritualmente. Visivelmente pareceu ter abandonado a alguns, a outros pareceu ter arrebatado. Arrebatou, pois, a alguns, para que não penses que não tinha poder para arrebatar. Deu prova de que tem o poder, a fim de que, onde não o faz, entendas haver uma vontade mais secreta, e não suspeites dificuldade em fazê-lo. Mas que, irmãos? Quando tivermos saído de todos estes laços da mortalidade, quando os tempos da tentação houverem passado, quando o rio deste mundo houver escoado, e tivermos recebido de novo aquela primeira estola, a imortalidade que, pecando, perdemos, quando este corruptível se houver revestido de incorruptibilidade, isto é, esta carne se houver revestido de incorruptibilidade, e este mortal se houver revestido de imortalidade (1Cor 15,44-49); a nós, então filhos de Deus já aperfeiçoados, em quem não haverá mais necessidade de sermos tentados, nem de sermos açoitados, todas as criaturas nos reconhecerão: sujeitas a nós estarão todas as coisas, se aqui estivermos sujeitos a Deus. Assim, pois, deve ser o cristão, que não se glorie sobre os outros homens. Pois Deus te deu que estivesses acima dos animais, isto é, que fosses melhor que os animais. Isto tens por natureza; sempre serás melhor que um animal. Se quiseres ser melhor que outro homem, hás de invejá-lo quando o vires teu igual. Deves desejar que todos os homens sejam teus iguais; e se em sabedoria a algum superas, deves desejar que também ele seja sábio. Enquanto ele é lento, aprende de ti; enquanto é indouto, tem necessidade de ti; e tu és tido por mestre, ele por discípulo; por isso pareces ser o superior, porque és o mestre; ele o inferior, porque é o discípulo. Se não desejares que ele seja teu igual, desejas tê-lo sempre por discípulo. Mas se quiseres tê-lo sempre por discípulo, serás um mestre invejoso. Se és mestre invejoso, como serás mestre? Rogo-te, não lhe ensines a tua inveja. Ouve o Apóstolo falando das entranhas da caridade: Quisera eu que todos fossem como eu mesmo (1Cor 7,7). Em que sentido quis ele que todos fossem seus iguais? Nisto era ele superior a todos: em que, pela caridade, quis que todos fossem seus iguais.
Digo, pois: o homem ultrapassou os limites; quis ser cobiçoso de mais do que lhe era devido, quis estar acima dos homens, ele que fora feito acima dos animais: e isto é a soberba. E vede que grandes obras faz a soberba. Guardai em vossos corações quão semelhantes, quão iguais, por assim dizer, são as obras que ela faz e as obras da caridade. A caridade alimenta o faminto, e assim faz também a soberba: a caridade, para que Deus seja louvado; a soberba, para que ela mesma seja louvada. A caridade veste o nu, assim faz também a soberba: a caridade jejua, assim faz também a soberba: a caridade sepulta os mortos, assim faz também a soberba. Todas as boas obras que a caridade quer fazer, e faz, a soberba, por sua vez, aspira às mesmas, e, por assim dizer, mantém seus cavalos no rumo certo. Mas a caridade está entre ela e a soberba, e não deixa lugar para a soberba mal conduzida — não mal conduzindo, mas mal conduzida. Ai do homem cujo cocheiro é a soberba, pois necessariamente irá de cabeça para o abismo! Mas que, no bem que se faz, não seja a soberba quem nos impele — quem o sabe? Quem o vê? Onde está isso? As obras nós as vemos: a misericórdia alimenta, a soberba também alimenta; a misericórdia acolhe o estrangeiro, a soberba também acolhe o estrangeiro; a misericórdia intercede pelo pobre, a soberba também intercede. Como se explica isto? Nas obras não vemos diferença alguma. Ouso dizer algo, mas não eu; foi Paulo quem o disse: a caridade morre, isto é, o homem que tem caridade confessa o nome de Cristo, sofre o martírio: a soberba também confessa, sofre também o martírio. Uma tem caridade, a outra não tem caridade. Mas ouça aquele que não tem caridade o que diz o Apóstolo: Ainda que distribua todos os meus bens aos pobres, e ainda que entregue o meu corpo para ser queimado, e não tenha caridade, nada disso me aproveita (1 Cor 13,3). Assim, pois, a divina Escritura nos chama de volta da exibição do rosto exteriormente para aquilo que está dentro; desta superfície que se ostenta diante dos homens, ela nos chama de volta para o que está no interior. Voltai à vossa própria consciência, interrogai-a. Não considereis o que floresce por fora, mas que raiz há na terra. Está ali radicada a cobiça? Poderá haver aparência de boas obras, mas verdadeiramente boas obras não pode haver. Está ali radicada a caridade? Não temais: nada de mau pode provir daí. O soberbo acaricia, o amor é severo. Um veste, o outro fere. Pois um veste para agradar aos homens, o outro fere para corrigir pela disciplina. Mais aceito é o golpe da caridade do que a esmola da soberba. Vinde, pois, para dentro, irmãos; e em todas as coisas, o que quer que façais, olhai para Deus, vossa testemunha. Vede, se Ele vê, com que ânimo o fazeis. Se vosso coração não vos acusa de o fazerdes por ostentação, está bem: não temais. Mas quando fizerdes o bem, não temais que outro vos veja. Temei antes fazê-lo a fim de serdes louvados: que o outro o veja, para que Deus seja louvado. Pois se o ocultais dos olhos do homem, ocultais-vos da imitação do homem, subtraís a Deus o louvor que Lhe é devido. Dois são aqueles a quem fazeis a esmola: dois têm fome; um de pão, o outro de justiça. Entre estas duas almas famintas — como está escrito: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos (Mt 5,6) — entre estas duas pessoas famintas estais vós, o que faz a boa obra, colocados; se a caridade faz a obra por ocasião de um deles, nela se compadece de ambos, a ambos deseja socorrer. Pois um deseja aquilo que possa comer, o outro deseja aquilo que possa imitar.
Alimentas um, dás a ti mesmo como exemplo ao outro; assim deste esmola a ambos: fizeste com que um te agradecesse por lhe teres saciado a fome, e ao outro fizeste imitar-te, propondo-lhe um exemplo. Mostrai, pois, misericórdia, como homens de coração misericordioso; porque, ao amardes também os inimigos, amais os irmãos. Não penseis que João nada preceituou acerca do amor ao inimigo, pelo fato de não ter cessado de falar do amor fraterno. Amais os irmãos. Como, perguntais, amamos os irmãos? Pergunto-vos: por que amais um inimigo? Por que o amais? Para que ele goze de saúde nesta vida? E se isso não lhe for proveitoso? Para que enriqueça? E se, pela própria riqueza, vier a se cegar? Para que se case? E se disso lhe advier uma vida amarga? Para que tenha filhos? E se estes forem maus? Incertas são, portanto, estas coisas que pareceis desejar para o vosso inimigo, ao amá-lo; incertas são. Desejai-lhe antes que tenha convosco a vida eterna; desejai-lhe que seja vosso irmão: quando o amais, amais um irmão. Pois não amais nele o que ele é, mas o que desejais que venha a ser. Já uma vez vos disse, amados, se não me engano: há um madeiro à vista; um bom artífice viu o madeiro, ainda não desbastado, tal como foi cortado da floresta, e afeiçoou-se a ele, pois dele quer fazer algo. Com efeito, não o amou para que permanecesse sempre assim. Em sua arte, viu o que ele virá a ser, não em seu afeto o que ele é; e seu afeto é pela coisa que dele fará, não pela coisa que ele é. Assim Deus nos amou, a nós pecadores. Dizemos que Deus amou os pecadores: pois Ele diz: Os sãos não necessitam de médico, mas os enfermos (Mt 9,12). Acaso nos amou pecadores para que permanecêssemos sempre pecadores? Como madeiro da floresta nos viu o nosso Carpinteiro, e tinha em Seus pensamentos o edifício que dele havia de fazer, não o madeiro bruto que éramos. Assim também vós, ao verdes o vosso inimigo lutar contra vós, enfurecer-se, morder com palavras, exasperar com contumélias, atormentar com ódio: atendei nele a isto, que é homem. Vedes todas estas coisas que são contra vós, que foram feitas pelo homem; e vede nele que foi feito por Deus. Ora, que ele fosse feito homem, foi obra de Deus; mas que vos odeie, é obra dele; que vos tenha má vontade, é obra dele. E que dizeis em vosso coração? Senhor, tende misericórdia dele, perdoai-lhe os pecados, infundi-lhe temor, mudai-o. Não amais nele o que ele é, mas o que desejais que venha a ser. Por conseguinte, quando amais um inimigo, amais um irmão. Por isso, o amor perfeito é amar o inimigo; e este amor perfeito está no amor fraterno. E não diga ninguém que o apóstolo João nos admoestou algo de menos, e o Senhor Cristo, algo de mais. João nos admoestou a amar os irmãos; Cristo nos admoestou a amar até os inimigos. Notai a que fim Cristo vos ordenou amar os vossos inimigos. Para que permaneçam sempre inimigos? Se para isto o ordenou, para que permanecessem inimigos, vós odiais, não amais. Notai como Ele mesmo amou, isto é: porque não quis que continuassem a ser os perseguidores que eram, disse: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Aos que quis que fossem perdoados, quis que fossem transformados; aos que quis que fossem transformados, de inimigos dignou-Se fazer irmãos, e de fato os fez.
Foi morto, foi sepultado, ressuscitou, subiu ao céu; enviou o Espírito Santo aos Seus discípulos; estes começaram a pregar com ousadia o Seu nome, fizeram milagres em nome Daquele que fora crucificado e morto; aqueles mesmos que mataram o Senhor os viram; e os que em fúria haviam derramado o Seu sangue, crendo, o beberam. Estas coisas disse eu, irmãos, e com alguma extensão; mas porque a caridade devia ser mais ardentemente recomendada a vós, amados, foi por este modo que ela devia ser recomendada. Pois se não há caridade em vós, nada dissemos. Mas se ela está em vós, lançamos como que azeite sobre as chamas. E naquele em quem ela não estava, talvez por estas palavras se tenha acendido. Em um, cresceu o que já havia; em outro, começou a ser o que não era. Para isto, pois, dissemos estas coisas, para que não sejais tardios em amar os vossos inimigos. Enraivece-se alguém contra vós? Ele se enraivece, tu oras; ele odeia, tu te compadeces. É a febre da sua alma que odeia a ti: ele há de sarar, e há de agradecer-te. Como amam os médicos aos enfermos? É aos enfermos que eles amam? Se os amassem enquanto enfermos, quereriam que estivessem sempre enfermos. Para isto amam eles os enfermos: não para que permaneçam enfermos, mas para que, de enfermos, sejam curados. E quanto têm eles frequentemente de sofrer da parte dos que delirem! Que palavras injuriosas! Muitas vezes são até feridos por eles. Ele combate a febre, perdoa ao homem. E que direi eu, irmãos? Ama ele ao seu inimigo? Não; ele odeia o seu inimigo, a doença; pois é esta que ele odeia, e ama ao homem por quem é ferido: ele odeia a febre. Pois por quem, ou por que, é ele ferido? Pela doença, pela enfermidade, pela febre. Ele remove aquilo que contra ele se ergue, para que permaneça aquilo de que há de receber agradecimento. Assim faze tu. Se o teu inimigo te odeia, e injustamente te odeia, sabe que a cobiça do mundo reina nele, e por isso te odeia. Se também tu o odeias, tu, por tua vez, retribuis mal por mal. Que faz aquele que retribui mal por mal? Chorei por um enfermo que te odiava; agora choro por ti, se também tu odeias. Mas ele investe contra os teus bens; toma-te não sei que coisas que tens sobre a terra: por isso o odeias, porque ele te aperta na terra. Não te deixes apertar; transfere-te para o céu acima; ali terás o teu coração, onde há amplo espaço, de modo que não sejas apertado na esperança da vida eterna. Considera quais são as coisas que ele te toma: nem essas mesmas te tomaria, senão por permissão Daquele que açoita a todo filho que recebe (Hb 12,6). Ele, este mesmo teu inimigo, é de certo modo o instrumento nas mãos de Deus, pelo qual podes ser curado. Se Deus sabe que te é bom que ele te despoje, permite-o; se sabe que te é bom que recebas golpes, permite que ele te fira: por meio dele Ele cuida de ti: deseja que ele seja curado.
Começa a amar; serás aperfeiçoado. Já começaste a amar? Deus já começou a habitar em ti: ama Aquele que começou a habitar em ti, para que, por uma inabitação mais perfeita, Ele te faça perfeito. Está bem: graças sejam dadas a Deus! Chegamos a conhecer que Ele habita em nós. E de onde vem este mesmo conhecimento, a saber, que sabemos que Ele habita em nós? Porque o próprio João disse isto: Porque Ele nos deu do Seu Espírito. De onde sabemos que Ele nos deu do Seu Espírito? Isto mesmo, que Ele te deu do Seu Espírito, de onde te vem este conhecimento? Pergunta às tuas próprias entranhas: se estão cheias de caridade, tens o Espírito de Deus. De onde sabemos que é por isto que sabes que o Espírito de Deus habita em ti? Porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Rm 5,5
Aquietai vossas mentes, vós que estais enfermos: tal Médico veio, e desesperais? Grandes eram as enfermidades, incuráveis eram as feridas, desesperada era a doença. Notas a grandeza de teu mal, e não notas a onipotência do Médico? Tu és desesperado, mas Ele é onipotente; Suas testemunhas são estes que primeiro foram curados, e que anunciam o Médico: ainda que eles próprios sejam sarados na esperança mais que na realidade. Pois assim diz o apóstolo: Porque pela esperança somos salvos. Esperança, não a realidade. Mas aquele que se alegra na esperança há de possuir também a realidade: ao passo que aquele que não tem a esperança, não poderá alcançar a realidade.
E, novamente, por que meio chegaste a conhecer isto? O amor é Deus. Já o disse acima, eis que o diz de novo. O amor não poderia ser mais excelentemente recomendado a ti do que sendo chamado Deus. Porventura estavas pronto a desprezar um dom de Deus. E desprezas a Deus? O amor é Deus: e aquele que habita no amor habita em Deus, e Deus habita nele. Cada um habita mutuamente no outro: o que retém, e o que é retido. Tu habitas em Deus, mas para que sejas retido: Deus habita em ti, mas para que Ele te retenha, a fim de que não caias. Para que porventura não imagines que te tornas casa de Deus da mesma maneira que tua casa sustenta tua carne: se a casa em que estás se retirar de sob ti, cais; mas se tu te retirares, Deus não cai. Quando O abandonas, Ele não é em nada menor; quando a Ele retornaste, Ele não é em nada maior. Tu és sarado, nada conferirás a Ele; és purificado, és refeito, és corrigido: Ele é remédio para o enfermo, é regra para o tortuoso, é luz para o obscurecido, é morada para o desamparado. Tudo, portanto, te é conferido: vê que não imagines que algo seja conferido a Deus por tua vinda a Ele: não, nem sequer tanto quanto um servo. Acaso Deus não terá servos, se a ti não aprouver, se a ninguém aprouver? Deus não tem necessidade dos servos, mas os servos têm necessidade de Deus: por isso diz o Salmo, Disse eu ao Senhor: Tu és meu Deus. Ele é o verdadeiro Senhor. E que mais diz? Pois de meus bens não tens necessidade. Tu tens necessidade do bem que possuis por meio de teu servo. Teu servo tem necessidade do bem que possui por meio de ti, para que o alimentes; tu também tens necessidade do bem que possuis por meio de teu servo, para que ele te ajude. Não podes tirar água para ti mesmo, não podes cozinhar para ti mesmo, não podes correr diante de teu cavalo, não podes cuidar de teu animal. Vês que tens necessidade do bem que possuis por meio de teu servo, tens necessidade de seu serviço. Portanto não és verdadeiro senhor, enquanto tens necessidade de um inferior. Ele é o verdadeiro Senhor, que nada busca de nós; e ai de nós se não O buscarmos! Ele nada busca de nós: contudo Ele nos buscou, quando não O buscávamos. Uma ovelha se extraviara; Ele a encontrou, trouxe-a de volta sobre os Seus ombros, alegrando-se. Lc 15,4-5 E era a ovelha necessária ao Pastor, e não antes o Pastor necessário à ovelha? — Quanto mais amo falar da caridade, tanto menos desejoso estou de que esta epístola se acabe. Ninguém é mais ardente em recomendar a caridade. Nada mais doce se prega a vós, nada mais salutar se bebe por vós: mas somente se, por uma vida piedosa, confirmardes em vós o dom de Deus. Não sejais ingratos por tão grande graça d'Aquele que, tendo um único Filho, não quis que Ele fosse Filho sozinho; mas, para que tivesse irmãos, adotou para Si aqueles que com Ele haveriam de possuir a vida eterna.
Lembrai-vos, amados, que das epístolas do apóstolo João resta ainda a última parte a ser por nós tratada e exposta a vós, assim como o Senhor o conceder. Deste débito, pois, estamos conscientes: e vós deveis estar conscientes de vosso direito. Pois, na verdade, esta mesma caridade, que nesta epístola é principal e quase exclusivamente recomendada, ao mesmo tempo nos faz mui fiéis em pagar nossas dívidas, e a vós mui doces em exigir vossos direitos. Disse "mui doces em exigir", porque onde não há caridade, aquele que exige é amargo: mas onde há caridade, tanto é doce aquele que exige quanto aquele de quem se exige, ainda que este empreenda algum trabalho, pois a caridade torna o próprio trabalho quase nenhum trabalho, e leve. Não vemos nós como, mesmo nos animais mudos e irracionais, onde o amor não é espiritual, mas carnal e natural, com grande afeto a mãe se entrega às suas crias quando estas querem o leite que é seu direito: e por mais impetuosamente que a cria se lance sobre as tetas, isto é melhor para a mãe do que se não mamasse nem exigisse o que por amor lhe é devido? Frequentemente vemos grandes bezerros investindo suas cabeças contra os úberes da vaca com uma força que quase levanta o corpo da mãe, e contudo ela não os repele; antes, se a cria não estiver ali para mamar, o mugido da mãe a chama para vir às tetas. Se, pois, há em nós aquela caridade espiritual da qual diz o apóstolo, Tornei-me pequeno no meio de vós, como uma ama que acaricia suas crianças, 1Ts 2,7 tanto mais vos amamos quanto mais exigentes sois. Não gostamos dos indolentes, porque pelos lânguidos tememos. Fomos, todavia, obrigados a interromper a leitura contínua desta epístola, por causa de certas lições determinadas que se interpuseram, as quais era necessário ler em seus dias santos, e sobre elas pregar. Voltemos agora à ordem que foi interrompida; e o que resta, santos irmãos, recebei-o com toda atenção. Não sei se a caridade poderia ser mais magnificamente recomendada a nós, do que dizendo-se: A caridade é Deus. 1Jo 4,16 Breve louvor, porém poderoso louvor: breve na expressão, poderoso no sentido! Quão brevemente se diz: O amor é Deus! Isto também é curto: se o contas, é uma só palavra: se o pesas, quão grande é! O amor é Deus, e aquele que habita, diz ele, no amor, habita em Deus, e Deus habita nele. Seja Deus a tua casa, e sê tu casa de Deus; habita em Deus, e que Deus habite em ti. Deus habita em ti, para que te retenha: tu habitas em Deus, para que não caias; pois assim diz o apóstolo desta mesma caridade, A caridade jamais cai. Como cairia aquele a quem Deus retém?
Ele nos ensina como cada um pode provar-se a si mesmo, que progresso a caridade fez nele, ou antes, que progresso ele fez na caridade. Pois se a caridade é Deus, Deus não é capaz nem de aproveitamento nem de deficiência: dizer-se que a caridade está aproveitando em ti significa apenas que tu estás aproveitando nela. Pergunta, pois, que aproveitamento fizeste na caridade, e o que teu coração te responderá, para que conheças a medida do teu proveito. Pois Ele prometeu mostrar-nos naquilo que O poderíamos conhecer, e disse: Nisto é a caridade aperfeiçoada em nós. Pergunta: em quê? Em que tenhamos confiança no dia do juízo. Quem tem confiança no dia do juízo, nesse homem a caridade está aperfeiçoada. Que é ter confiança no dia do juízo? Não temer que venha o dia do juízo. Há homens que não creem que haja um dia de juízo; estes não podem ter confiança num dia que não creem que há de vir. Deixemo-los; que Deus os desperte, para que vivam; por que falamos dos mortos? Não creem que haverá um dia de juízo; nem temem nem desejam o que não creem. Algum homem começou a crer num dia de juízo: se começou a crer, também começou a temer. Mas porque ainda teme, porque ainda não tem confiança no dia do juízo, ainda não está a caridade aperfeiçoada nesse homem. Mas, por isso, deve-se desesperar? Naquele em quem vês o começo, por que desesperas do fim? Que começo vejo eu? (dizes tu.) Aquele mesmo temor. Ouve a Escritura: O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Pois bem, ele começou a temer o dia do juízo: temendo, corrija-se, vigie contra os seus inimigos, isto é, os seus pecados; comece a reviver interiormente, e a mortificar os seus membros que estão sobre a terra, como diz o apóstolo: Mortificai os vossos membros que estão sobre a terra. Pelos membros que estão sobre a terra entende ele a malícia espiritual: pois prossegue explicando-o: A avareza, a impureza, e o mais que ali desenvolve. Ora, na proporção em que este homem, que começou a temer o dia do juízo, mortifica os seus membros que estão sobre a terra, nessa mesma proporção os membros celestiais se erguem e se fortalecem. Ora, os membros celestiais são todas as boas obras. À medida que os membros celestiais se erguem, ele começa a desejar aquilo que outrora temia. Outrora temia que Cristo viesse e encontrasse nele o ímpio que Ele haveria de condenar; agora anseia que Ele venha, porque há de encontrar o piedoso a quem possa coroar. Tendo, pois, começado a desejar a vinda de Cristo, a alma casta, que deseja o abraço do Esposo, renuncia ao adúltero, torna-se virgem interiormente pela fé, pela esperança e pela caridade. Agora tem o homem confiança no dia do juízo: não luta contra si mesmo quando ora: Venha o Vosso reino. Pois quem teme que venha o reino de Deus, teme que a sua oração seja atendida. Como se pode dizer que ora quem teme que a sua oração seja atendida? Mas quem ora com a confiança da caridade, deseja agora que Ele venha. Deste mesmo desejo disse alguém no Salmo: E Vós, Senhor, até quando? Voltai-Vos, Senhor, e livrai a minha alma. Gemia por ver-se assim protelado. Pois há homens que com paciência se submetem a morrer; mas há alguns perfeitos que com paciência suportam viver. Que quero eu dizer com isto?
Ora, quando alguém ainda deseja esta vida, essa pessoa, ao chegar o dia da morte, suporta a morte pacientemente: luta contra si mesma para seguir a vontade de Deus, e em seu espírito deseja aquilo que Deus escolhe, não o que a vontade do homem escolhe; do desejo da vida presente nasce uma repugnância contra a morte, mas, ainda assim, ela se arma de paciência e fortaleza, para enfrentar a morte com ânimo equânime; morre pacientemente. Mas quando um homem deseja, como diz o Apóstolo, ser dissolvido e estar com Cristo (Fl 1:23-24), essa pessoa não morre pacientemente, mas vive pacientemente, morre com deleite. Vede o Apóstolo vivendo pacientemente, isto é, como ele aqui, com paciência, não ama a vida, mas a suporta. Ser dissolvido, diz ele, e estar com Cristo, é de longe melhor; mas permanecer na carne é necessário por vossa causa. Portanto, irmãos, empenhai-vos, assentai isto interiormente convosco, fazei disto vossa preocupação, que possais desejar o dia do juízo. De nenhum outro modo se prova perfeita a caridade, senão quando alguém começou a desejar aquele dia. Ora, deseja-o aquele que nele tem confiança, cuja consciência não sente sobressalto algum na caridade perfeita e sincera. Nisto se aperfeiçoou o Seu amor em nós, para que tenhamos confiança no dia do juízo. Por que teremos confiança? Porque, como Ele é, assim somos nós também neste mundo. Ouvistes o fundamento de vossa confiança: Porque, como Ele é, diz o Apóstolo, assim somos nós também neste mundo. Não parece ele ter dito algo impossível? Pois é possível ao homem ser como Deus? Já vos expus que como nem sempre se diz por igualdade, mas se diz por certa semelhança. Pois como dizes: Como eu tenho olhos, assim os tem minha imagem? É isso mesmo, ao pé da letra? E, contudo, assim dizes, como. Se, pois, fomos feitos à imagem de Deus, por que não somos assim como Deus? Não segundo a igualdade, mas segundo a nossa medida. De onde, então, nos é dada a confiança no dia do juízo? Porque, como Ele é, somos nós também neste mundo. Devemos referir isto à mesma caridade, e entender o que se quer dizer. Diz o Senhor no Evangelho: Se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos o mesmo? (Mt 5:44-46). Que quer Ele, pois, que façamos? Mas Eu vos digo: Amai os vossos inimigos, e orai por aqueles que vos perseguem. Se, pois, Ele nos ordena amar os nossos inimigos, de onde tira Ele o exemplo a nos propor? Do próprio Deus: pois diz Ele: Para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus. Como faz Deus isto? Ele ama os Seus inimigos, Ele que faz nascer o Seu sol sobre bons e maus, e chove sobre justos e injustos. Se, pois, esta é a perfeição para a qual Deus nos convida, que amemos os nossos inimigos como Ele amou os Seus; esta é a nossa confiança no dia do juízo, que, como Ele é, assim somos nós também neste mundo: porque, assim como Ele ama os Seus inimigos ao fazer nascer o Seu sol sobre bons e maus, e ao enviar chuva sobre justos e injustos, assim nós, já que não podemos conceder-lhes sol e chuva, concedemos-lhes as nossas lágrimas quando oramos por eles.
Então, que diremos daquele que começou a temer o dia do juízo? Se a caridade nele fosse perfeita, ele não temeria. Pois a caridade perfeita faria perfeita a justiça, e ele não teria nada a temer; antes, teria algo a desejar: que a iniquidade passasse, e viesse o reino de Deus. Assim, pois, não há temor na caridade. Mas em qual caridade? Não na caridade iniciada: em qual, então? Mas a caridade perfeita, diz ele, lança fora o temor. Que o temor faça, pois, o começo, porque o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. O temor, por assim dizer, prepara um lugar para a caridade. Mas, uma vez que a caridade começou a habitar, o temor que lhe preparara o lugar é lançado fora. Pois, na medida em que esta cresce, aquele decresce; e quanto mais esta passa a estar dentro, tanto mais o temor é lançado fora. Maior a caridade, menor o temor; menor a caridade, maior o temor. Mas, se não há temor, não há caminho para a caridade entrar. Como vemos na costura, o fio é introduzido por meio da cerda; a cerda entra primeiro, mas, se não sair, o fio não vem ocupar o seu lugar: assim o temor ocupa primeiro a mente, mas o temor não permanece ali, porque só entra a fim de introduzir a caridade. Uma vez que há na mente o sentimento de segurança, que alegria temos, tanto neste mundo quanto no mundo vindouro! Mesmo neste mundo, quem nos fará mal, estando nós repletos de caridade? Vede como o apóstolo exulta acerca desta mesma caridade: Quem nos separará da caridade de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? (Rm 8,35). E Pedro diz: E quem é aquele que vos fará mal, se fordes seguidores do que é bom? Não há temor no amor; mas o amor perfeito lança fora o temor: porque o temor tem tormento (1 Pd 3,13). A consciência dos pecados atormenta o coração: a justificação ainda não se deu. Há nela algo que coça, algo que fere. Por isso, no Salmo, que diz ele acerca desta mesma perfeição da justiça? Tornaste para mim o meu pranto em alegria; despiste o meu saco, e cingiste-me de contentamento; a fim de que a minha glória te cante, e eu não seja ferido. Que é isto, que eu não seja ferido? Que não haja o que aguilhoe a minha consciência. O temor, sim, aguilhoa: mas não temais; a caridade entra, e ela cura a ferida que o temor infligiu. O temor de Deus fere como o faz o bisturi do médico; tira a podridão, e parece tornar a ferida maior. Eis que, quando a podridão estava no corpo, a ferida era menor, mas perigosa: então vem o bisturi; a ferida doía menos do que dói agora, enquanto o médico a corta. Dói mais enquanto ele opera sobre ela do que doeria se não fosse operada; dói mais sob a operação curativa, mas apenas para que nunca mais doa, uma vez efetuada a cura. Que o temor ocupe, pois, o vosso coração, para que traga a caridade; que a cicatriz suceda ao bisturi do médico. Ele é tal Médico, que as cicatrizes nem sequer aparecem: apenas colocai-vos sob a Sua mão. Pois, se estiverdes sem temor, não podereis ser justificados. É uma sentença pronunciada pelas Escrituras: Pois aquele que está sem temor não pode ser justificado (Eclo 1,28). É necessário, pois, que o temor entre primeiro, para que por ele venha a caridade. O temor é a operação curativa: a caridade, a condição sã. Mas aquele que teme não é feito perfeito no amor. Por quê? Porque o temor tem tormento; assim como o corte do bisturi do cirurgião tem tormento.
Que se teme na Senhor não é casto, perene para sempre. Ele nos mostra um temor eterno, mas casto. Mas se ali nos mostra Ele um temor eterno, acaso esta epístola O contradiz, quando diz: *Não há temor no amor, mas o amor perfeito lança fora o temor*? Interroguemos ambas as sentenças de Deus. Um só é o Espírito, ainda que sejam dois os livros, ainda que duas as bocas, ainda que duas as línguas. Pois isto foi dito pela boca de João, aquilo pela boca de Davi: mas não penseis que o Espírito seja mais de um. Se um único sopro enche duas flautas [do aulo duplo], não poderá um único Espírito encher dois corações, mover duas línguas? Mas se duas flautas, enchidas por um só sopro, soam em uníssono, poderão duas línguas, cheias do Espírito ou do Sopro de Deus, soar em dissonância? Há, pois, ali um uníssono, há uma harmonia, apenas se requer quem saiba ouvir. Eis que este Espírito de Deus soprou e encheu dois corações, moveu duas línguas: e ouvimos de uma língua: *Não há temor no amor; mas o amor perfeito lança fora o temor*; ouvimos da outra: *O temor do Senhor é casto, perene para sempre*. Como se há de entender isto? As notas parecem discordar. Não é assim: aguçai os ouvidos: atentai para a melodia. Não é sem motivo que num lugar se acrescenta aquela palavra, *casto*, e no outro não se acrescenta: mas porque há um temor que se chama casto, e há outro temor que não se chama casto. Notemos a diferença entre estes dois temores, e assim compreenderemos a harmonia das flautas. Como havemos de entender, ou como distinguir? Notai, amados. Há homens que temem a Deus para não serem lançados no inferno, para não arderem, porventura, com o diabo no fogo eterno. Este é o temor que introduz a caridade: mas ele vem para que depois se retire. Pois se ainda temes a Deus por causa dos castigos, ainda não amas Aquele a quem assim temes. Não desejas os bens, mas temes os males. Contudo, porque temes os males, corriges-te e começas a desejar os bens. Uma vez que hajas começado a desejar o bem, haverá em ti o temor casto. Que é o temor casto? O temor de perderes os próprios bens. Notai! Uma coisa é temer a Deus para que não te lance no inferno com o diabo, outra coisa é temer a Deus para que não te abandone. O temor pelo qual temes ser lançado no inferno com o diabo ainda não é casto; pois não provém do amor de Deus, mas do temor do castigo: mas quando temes a Deus para que a Sua presença não te abandone, tu O abraças, anseias por gozar do próprio Deus. Ninguém pode melhor explicar a diferença entre estes dois temores — aquele que a caridade lança fora, e o outro, casto, que perdura para sempre — do que propondo o caso de duas mulheres casadas, das quais uma, suponhamos, está disposta a cometer adultério, deleita-se na maldade, e só teme ser condenada por seu marido. Ela teme seu marido: mas é porque ainda ama a maldade que teme seu marido. Para esta mulher, a presença de seu marido não é grata, mas pesada; e se acontece que ela viva mal, teme o marido, temendo que ele venha. Tais são aqueles que temem a vinda do dia do juízo.
Vede o caso da outra mulher, que ama seu marido, que sente que lhe deve castos abraços, que não se mancha com nenhuma imundícia de adultério; ela deseja a presença do marido. E como se distinguem estes dois temores? Uma teme, a outra também teme. Interrogai-as: parecem dar uma só resposta: interrogai a primeira, temes teu marido? Ela responde: temo. Interrogai a segunda, se teme seu marido; ela responde: eu o temo. A voz é uma, o ânimo é diverso. Sejam então interrogadas: por quê? Uma diz: temo meu marido, para que não venha; a outra diz: temo meu marido, para que não se aparte de mim. Uma diz: temo ser condenada; a outra: temo ser abandonada. Que o mesmo se dê no ânimo dos cristãos, e encontrareis um temor que o amor lança fora, e outro temor, casto, que permanece para sempre. Falemos então primeiro àqueles que temem a Deus à maneira daquela mulher que se compraz na maldade; a saber, ela teme o marido para que não a condene; a estes falemos primeiro. Ó alma, que temes a Deus para que Ele não te condene, tal como teme aquela mulher que se compraz na maldade: teme o marido, para não ser condenada pelo marido: assim como te desagrada esta mulher, desagrada-te de ti mesma. Se acaso tens esposa, quererias que tua esposa te temesse assim, para não ser condenada por ti? Que, comprazendo-se na maldade, fosse reprimida apenas pelo peso do temor de ti, e não pela condenação de sua iniquidade? Tu a quererias casta, para que te amasse, não para que te temesse. Mostra-te tal diante de Deus, qual quererias que tua esposa fosse diante de ti. E se ainda não tens esposa, e desejas ter uma, quererias que ela fosse assim. E, no entanto, que estamos dizendo, irmãos? Aquela mulher, cujo temor do marido é ser condenada pelo marido, talvez não cometa adultério, para que de algum modo não chegue ao conhecimento do marido, e ele a prive desta luz temporal da vida: ora, o marido pode ser enganado e mantido na ignorância; pois ele é apenas humano, como também ela, que pode enganá-lo. Ela teme aquele a cujos olhos pode ocultar-se: e tu não temes o rosto sempre voltado para ti de teu Esposo? O semblante do Senhor está contra os que praticam o mal. Ela se aproveita da ausência do marido, e porventura é incitada pelo deleite do adultério; e, no entanto, diz a si mesma: não o farei; ele, na verdade, está ausente, mas é difícil evitar que de algum modo chegue ao seu conhecimento. Ela se contém, para que não chegue ao conhecimento de um homem mortal, que também é possível que jamais o saiba, que também é possível que seja enganado, de modo que tenha por boa uma mulher má, tenha por casta a que é adúltera: e tu não temes os olhos Daquele a quem ninguém pode enganar? Não temes a presença Daquele que não pode ser desviado de ti? Ora a Deus que olhe para ti, e que desvie o Seu rosto de teus pecados: Desviai o Vosso rosto dos meus pecados. Mas por que merecerias que Ele desviasse o Seu rosto de teus pecados, se tu não desvias o teu próprio rosto de teus pecados? Pois a mesma voz diz no Salmo: Porque eu reconheço a minha iniquidade, e o meu pecado está sempre diante de mim. Reconhece, e Ele perdoa. Dirigimo-nos àquela alma que ainda tem o temor que não perdura para sempre, mas que o amor exclui e lança fora: dirijamo-nos também àquela que já tem o temor que é casto, e que perdura para sempre.
Havemos de encontrar essa alma, pensais, para que a ela nos dirijamos? Pensais estar ela aqui nesta congregação? Pensais estar ela aqui neste recinto sagrado? Pensais estar ela aqui na terra? Não pode deixar de ser, somente está oculta. Agora é inverno: dentro, na raiz, está o verdor. Talvez possamos alcançar os ouvidos dessa alma. Mas onde quer que essa alma esteja, oxalá eu pudesse encontrá-la, e, em vez de ela dar ouvidos a mim, eu mesmo desse ouvidos a ela! Ela haveria de me ensinar algo, antes que aprender de mim! Uma alma santa, uma alma de fogo, e que suspira pelo Reino de Deus: a essa alma não sou eu que me dirijo, mas o próprio Deus é quem se dirige a ela, e assim a consola enquanto ela suporta, com paciência, viver aqui na terra: Tu quererias que Eu viesse já agora, e Eu sei que desejas que Eu venha já agora; Eu sei o que és, de tal modo que sem temor podes aguardar a minha vinda; Eu sei que isso te é um tormento: mas espera ainda um pouco mais, suporta; Eu venho, e venho depressa. Mas, para a alma que ama, o tempo passa devagar. Ouvi-a cantar, como um lírio que é ela em meio aos espinhos; ouvi-a suspirar e dizer: Cantarei, e entenderei o caminho imaculado: quando virás a mim? Mas, quanto ao caminho imaculado, bem pode ela não temer; porque o amor perfeito lança fora o temor. E, quando Ele tiver chegado ao seu abraço, ainda ela teme, mas à maneira de quem se sente segura. Que teme ela então? Vigiará e tomará cautela contra a própria iniquidade, para que não torne a pecar: não para que não seja lançada ao fogo, mas para que não seja abandonada por Ele. E haverá nela — o quê? O temor casto, que permanece para sempre. Ouvimos duas flautas soarem em uníssono. Esta fala de temor, e aquela fala de temor: mas aquela, do temor com que a alma teme ser condenada; esta, do temor com que a alma teme ser abandonada. Aquele é o temor que a caridade lança fora: este, o temor que permanece para sempre.
Amamos, porque Ele primeiro nos amou. Pois como amaríamos, se Ele não nos tivesse amado primeiro? Amando, tornamo-nos amigos; mas Ele nos amou como inimigos, para que fôssemos feitos amigos. Ele primeiro nos amou, e nos deu o dom de O amar. Ainda não O amávamos: amando, somos feitos belos. Se um homem disforme e de mau aspecto ama uma bela mulher, que fará ele? Ou que fará uma mulher, se, sendo disforme e de mau aspecto e de tez escurecida, ama um belo homem? Poderá ela, amando, tornar-se bela? Poderá ele, amando, tornar-se formoso? Ele ama uma bela mulher, e, ao ver-se num espelho, envergonha-se de erguer o rosto diante daquela sua formosa, de quem está enamorado. Que fará ele para ser belo? Aguardará que lhe venha a boa aparência? Ao contrário: esperando, a velhice se lhe acrescenta, e o torna ainda mais disforme. Nada, pois, há a fazer, nenhum conselho há a dar-lhe, senão que se contenha, e não presuma amar desigualmente; ou, se acaso a ama, e deseja tomá-la por esposa, que ame nela a castidade, não a face da carne. Mas a nossa alma, irmãos meus, é desagradável por causa da iniquidade: amando a Deus, torna-se agradável. Que amor deve ser esse, que faz belo o amante! Mas Deus é sempre belo, nunca desagradável, nunca mutável. Aquele que é sempre belo primeiro nos amou; e que éramos nós, quando Ele nos amou, senão feios e desagradáveis? Mas não para nos deixar feios; não, mas para nos transformar, e de desagradáveis fazer-nos agradáveis. Como nos tornaremos agradáveis? Amando Aquele que é sempre belo. Assim como cresce em ti o amor, assim cresce a formosura: pois o próprio amor é a beleza da alma. Amemos, porque Ele primeiro nos amou. Ouvi o apóstolo Paulo: Mas Deus provou o seu amor para conosco em que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós (Rm 5,8-9); o justo pelo injusto, o belo pelo feio. Como achamos belo a Jesus? Formoso és em beleza sobre os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios. Por que assim? Vede outra vez por que é Ele formoso: Formoso em beleza sobre os filhos dos homens: porque No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1,1). Mas, ao tomar carne, tomou sobre si, por assim dizer, a tua feiúra, isto é, a tua mortalidade, para que se ajustasse a ti, e se fizesse conveniente para ti, e te despertasse para o amor da beleza interior. Onde, pois, na Escritura, achamos Jesus sem formosura e disforme, como O achamos formoso e belo em beleza sobre os filhos dos homens? onde também O achamos disforme? Perguntai a Isaías: E o vimos, e não havia nele formosura nem beleza (Is 53,2). Eis, pois, duas flautas que parecem emitir sons discordantes: contudo, um só Espírito sopra em ambas. Por esta se diz: Formoso em beleza sobre os filhos dos homens; por aquela se diz em Isaías: Vimo-lo, e não havia nele formosura nem beleza. Por um só Espírito são ambas as flautas enchidas; não produzem dissonância. Não desvieis os ouvidos, aplicai o entendimento. Perguntemos ao apóstolo Paulo, e que ele nos exponha o uníssono das duas flautas. Que ele nos faça soar a nota: Formoso em beleza sobre os filhos dos homens. — O qual, subsistindo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus (Fl 2,6-7). Que ele nos faça soar também a nota: Vimo-lo, e não havia nele formosura nem beleza. — Ele se esvaziou a si mesmo, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens, e reconhecido em figura humana.
Não teve Ele forma nem formosura, para que a ti desse forma e formosura. Que forma? Que formosura? O amor que há na caridade: para que, amando, corras; correndo, ames (Ct 1,4). Formosa és agora; mas não detenhas o teu olhar em ti mesma, para que não percas o que recebeste; que os teus olhares terminem Naquele por quem foste feita formosa. Sê formosa somente para que Ele te ame. Mas dirige tu toda a tua intenção para Ele, corre a Ele, busca os Seus abraços, teme afastar-te dEle; para que haja em ti o casto temor, que permanece para sempre. Amemos, porque Ele nos amou primeiro.
Se alguém disser: Eu amo a Deus. Que Deus? Por que O amamos? Porque Ele nos amou primeiro, e nos deu o amar. Amou-nos ímpios, para nos fazer piedosos; amou-nos injustos, para nos fazer justos; amou-nos enfermos, para nos fazer sãos. Pergunta a cada homem em particular; que ele te diga se ama a Deus. Ele clama, ele confessa: Eu amo, Deus o sabe. Há ainda outra questão a perguntar. Se alguém disser: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Por que provas que é mentiroso? Ouve. Pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? Que dizer então? Aquele que ama a um irmão, ama também a Deus? Necessariamente há de amar a Deus, necessariamente há de amar Aquele que é o próprio Amor. Pode alguém amar a seu irmão, e não amar o Amor? Necessariamente há de amar o Amor. Que dizer então? Porque ama o Amor, segue-se que ama a Deus? Certamente que sim. Amando o Amor, ama a Deus. Ou já esqueceste o que dissestes há pouco, que o Amor é Deus? (1 Jo 4.8,16) Se o Amor é Deus, quem quer que ame o Amor, ama a Deus. Amai, pois, a vosso irmão, e senti-vos seguros. Não podes dizer: Eu amo a meu irmão, mas não amo a Deus. Assim como mentes se disseres: Eu amo a Deus, quando não amas a teu irmão, assim também te enganas quando dizes: Eu amo a meu irmão, se pensas que não amas a Deus. Necessariamente há de amar o próprio Amor aquele que ama a seu irmão; mas o Amor é Deus; logo, necessariamente há de amar a Deus quem quer que ame a seu irmão. Mas se não amas o irmão que vês, como podes amar a Deus, a quem não vês? Por que não vê ele a Deus? Porque não tem o próprio Amor. Que não veja a Deus, é porque não tem o amor; que não tenha o amor, é porque não ama a seu irmão. A razão, pois, por que não vê a Deus, é que não tem o Amor. Pois, se tivesse o Amor, veria a Deus, porque o Amor é Deus; e aquele olho vai sendo cada vez mais purificado pelo amor, para ver aquela Substância Imutável, em cuja presença há de exultar para sempre, da qual há de gozar eternamente, quando estiver unido aos anjos. Somente, corra ele agora, para que ao fim tenha alegria em sua própria pátria. Que não ame a sua peregrinação, não ame o caminho: que tudo lhe seja amargo, salvo Aquele que nos chama, até que O retenhamos, e digamos o que está dito no Salmo: Destruíste todos os que se prostituem, apartando-se de Ti — e quem são os que se prostituem? Os que se afastam e amam o mundo: mas que farás tu? Ele prossegue e diz: — mas para mim, bom é apegar-me a Deus. Todo o meu bem é unir-me a Deus, gratuitamente. Pois, se o interrogares e disseres: Para que te apegas a Ele? E ele responder: Para que Ele me dê — Dar-te o quê? Foi Ele que fez o céu, Ele que fez a terra: que te dará Ele? Já estás apegado a Ele; encontra algo melhor, e Ele to dará.
Bela conversa, na verdade, foi essa que fizeste, dizendo: Eu amo a Deus, e odeias a teu irmão! Ó homicida, como amas tu a Deus? Não ouviste acima, nesta mesma epístola, que aquele que odeia a seu irmão é homicida? (1 Jo 3.15) Sim, mas eu verdadeiramente amo a Deus, ainda que odeie a meu irmão. Tu verdadeiramente não amas a Deus, se odeias a teu irmão. E agora o comprovo por outra prova. Este mesmo apóstolo disse que Ele nos deu mandamento de que nos amássemos uns aos outros. Como se pode dizer que amas Aquele cujo mandamento odeias? Quem dirá: Eu amo o imperador, mas odeio as suas leis? Nisto entende o imperador se o amas, em que suas leis sejam observadas por todas as províncias. A lei do nosso Imperador, qual é? Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros. (Jo 13.34) Dizes, pois, que amas a Cristo: guarda o Seu mandamento, e ama a teu irmão. Mas se não amas a teu irmão, como se pode dizer que amas Aquele cujo mandamento desprezas? Irmãos, nunca me sacio de falar da caridade em nome do Senhor. Na medida em que tendes um desejo insaciável desta coisa, nessa mesma medida esperamos que ela mesma esteja crescendo em vós, e lançando fora o temor, para que assim permaneça aquele casto temor que é para sempre permanente. Suportemos o mundo, suportemos as tribulações, suportemos os tropeços das tentações. Não nos apartemos do caminho; retenhamos a unidade da Igreja, retenhamos a Cristo, retenhamos a caridade. Não sejamos arrancados dos membros de Sua Esposa, nem arrancados da fé, para que nos gloriemos em Sua vinda: e permaneceremos seguros nEle, agora pela fé, depois pela visão, do qual temos tão grande penhor, a saber, o dom do Espírito Santo.
Quem é aquele que não crê que Jesus é o Cristo? Aquele que não vive como Cristo ordenou. Pois muitos dizem: Eu creio; mas a fé sem obras não salva. Ora, a obra da fé é o Amor, como diz o apóstolo Paulo: "E a fé que opera por meio do amor" (Gl 5:6). As vossas obras passadas, na verdade, antes que crêsseis, ou não existiam, ou, se pareciam boas, nada valiam. Pois, se não existiam, éreis como um homem sem pés, ou com os pés doentes, incapaz de andar; mas, se pareciam boas, antes que crêsseis, corríeis de fato, mas, correndo fora do caminho, desviastes-vos, em vez de chegar à meta. Cumpre-nos, pois, tanto correr quanto correr no caminho. Aquele que corre fora do caminho corre em vão, ou antes, corre apenas para se cansar. Tanto mais se desvia quanto mais corre fora do caminho. Qual é o caminho pelo qual corremos? Cristo no-lo disse: "Eu sou o Caminho" (Jo 14:6). Qual é a morada para a qual corremos? "Eu sou a Verdade." Por Ele correis, a Ele correis, nEle repousais. Mas, para que corrêssemos por Ele, Ele mesmo se estendeu até nós; pois estávamos longe, estrangeiros em terra distante. Não bastava estarmos em terra distante; éramos também tão fracos que não podíamos mover-nos. Médico, veio Ele aos enfermos; Caminho, estendeu-se Ele aos que estavam em terra distante. Sejamos salvos por Ele, andemos nEle. Isto é crer que Jesus é o Cristo, como creem os cristãos que não o são apenas de nome, mas em obras e em vida, não como creem os demônios. Pois também os demônios creem e tremem (Tg 2:19), como nos diz a Escritura. Que mais poderiam crer os demônios do que dizer: Sabemos quem sois, o Filho de Deus? O que disseram os demônios, isso mesmo disse também Pedro. Quando o Senhor lhes perguntou quem Ele era, e quem diziam os homens que Ele era, os discípulos Lhe responderam: Alguns dizem que sois João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes Ele: Mas vós, quem dizeis que Eu sou? E Pedro respondeu, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16:13-18). E isto ouviu ele do Senhor: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas; porque não foi a carne e o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está nos céus. Vede que louvores se seguem a esta fé. Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Que significa: Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja? Sobre esta fé; sobre isto que foi dito: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Sobre esta pedra, diz Ele, edificarei a minha Igreja. Grande louvor! Assim, pois, diz Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo; dizem também os demônios: Sabemos quem sois, o Filho de Deus, o Santo de Deus. Isto disse Pedro, isto mesmo disseram também os demônios: as palavras, as mesmas; o sentimento, não o mesmo. E como se manifesta que Pedro disse isto com amor? Porque a fé do cristão é com amor, mas a do demônio é sem amor. Como sem amor? Pedro disse isto para abraçar a Cristo; os demônios disseram-no para que Cristo se afastasse deles. Pois, antes de dizerem: Sabemos quem sois, o Filho de Deus, disseram: Que temos nós contigo? Vieste destruir-nos antes do tempo? É, pois, uma coisa confessar a Cristo para reter a Cristo, outra coisa confessar a Cristo para afastar de si a Cristo. Vedes, pois, que, no sentido em que aqui diz "Quem crê", trata-se de uma fé própria, não como quem tem uma fé comum a muitos. Portanto, irmãos, que nenhum dos hereges vos diga: Também nós cremos.
Para este fim vos apresentei o exemplo dos demônios, para que não vos alegreis nas palavras de crer, mas examineis com cuidado as obras da vida. Vejamos, pois, o que é crer em Cristo; o que é crer que Jesus é o Cristo. Prossegue ele: Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus. Mas o que é crer isso? E todo aquele que ama Aquele que gerou, ama também Aquele que dEle é gerado. À fé ele logo uniu o amor, porque a fé sem amor de nada vale. Com o amor, a fé do cristão; sem o amor, a fé do demônio: mas os que não creem são piores que os demônios, mais estúpidos que os demônios. Há quem não creia em Cristo: até aqui, nem sequer se iguala aos demônios. Alguém já crê em Cristo, mas odeia a Cristo: tem a confissão da fé pelo temor do castigo, não pelo amor da coroa; assim também os demônios temiam ser castigados. Acrescenta a esta fé o amor, para que se torne uma fé qual a que fala o Apóstolo Paulo, uma fé que opera por meio do amor (Gl 5:6): encontraste um cristão, encontraste um cidadão de Jerusalém, encontraste um concidadão dos anjos, encontraste um peregrino que suspira pelo caminho: une-te a ele, ele é teu companheiro de viagem, corre com ele, se é que também tu és isto. Todo aquele que ama Aquele que gerou, ama também Aquele que dEle é gerado. Quem gerou? O Pai. Quem é gerado? O Filho. Que diz ele, pois? Todo aquele que ama o Pai, ama o Filho.
Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus. 1 Jo 4:2. Que é isto, irmãos? Ainda agora ele falava do Filho de Deus, não dos filhos de Deus: eis que aqui um só Cristo nos foi proposto para contemplar, e nos foi dito: Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama Aquele que gerou, isto é, o Pai, ama também Aquele que dEle é gerado, isto é, o Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. E prossegue: Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus; como se estivesse prestes a dizer: Nisto conhecemos que amamos o Filho de Deus. Disse os filhos de Deus, quando pouco antes falava do Filho de Deus — porque os filhos de Deus são o Corpo do Filho Único de Deus, e sendo Ele a Cabeça, e nós os membros, é um só Filho de Deus. Portanto, quem ama os filhos de Deus, ama o Filho de Deus, e quem ama o Filho de Deus, ama o Pai; nem pode ninguém amar o Pai sem amar o Filho, e quem ama os filhos, ama também o Filho de Deus. Quais filhos de Deus? Os membros do Filho de Deus. E amando, ele mesmo se torna membro, e vem, por meio do amor, a estar na estrutura do corpo de Cristo, de modo que haverá um só Cristo, amando a Si mesmo. Pois, quando os membros se amam uns aos outros, o corpo ama a si mesmo. E se um membro padece, todos os membros padecem com ele; ou se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. 1 Cor 12:26-27. E logo prossegue, dizendo: Ora, vós sois o corpo de Cristo, e membros. João falava pouco antes do amor fraterno, e disse: Quem não ama a seu irmão, a quem vê, como poderá amar a Deus, a quem não vê? 1 Jo 4:20. Mas, se amas a teu irmão, acaso amas a teu irmão e não amas a Cristo? Como seria isso, quando amas os membros de Cristo? Quando, pois, amas os membros de Cristo, amas a Cristo; quando amas a Cristo, amas o Filho de Deus; quando amas o Filho de Deus, amas também o Pai. O amor, portanto, não pode ser dividido em partes. Escolhe o que queiras amar; o resto te seguirá. Suponhamos que digas: Eu amo somente a Deus, a Deus Pai. Mentes: se amas, não O amas sozinho; mas, se amas o Pai, amas também o Filho. Eis que dizes: Eu amo o Pai, e amo o Filho; mas somente isto, o Pai Deus e o Filho Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que subiu aos céus e está assentado à direita do Pai, aquele Verbo pelo qual todas as coisas foram feitas, e o Verbo se fez carne e habitou entre nós: só isto amo. Mentes; pois, se amas a Cabeça, amas também os membros; mas, se não amas os membros, tampouco amas a Cabeça. Não estremeces diante da voz proferida pela Cabeça, desde o Céu, em favor de Seus membros: Saulo, Saulo, por que me persegues? At 9:4. Ao perseguidor de Seus membros chamou de seu perseguidor: a quem O amava, chamou de amante de Seus membros. Ora, quais são Seus membros, sabeis, irmãos: nenhum outro senão a Igreja de Deus. Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, em que amamos a Deus. E como? Não é uma coisa os filhos de Deus, e outra Deus mesmo? Mas quem ama a Deus, ama os Seus preceitos. E quais são os preceitos de Deus? Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros. Jo 13:34. Não se desculpe ninguém com outro amor, por outro amor; pois assim, e somente assim, é este amor: assim como o próprio amor se compacta em um, assim também torna um só tudo o que a ele se prende, como o fogo os funde em um. É ouro: a massa se funde e se torna uma só coisa.
Mas se o fervor da caridade não se aplicar, de muitos não pode haver fusão em um. Que amamos a Deus, nisto sabemos que amamos os filhos de Deus. E por que sabemos que amamos os filhos de Deus? Por isto, que amamos a Deus e cumprimos os Seus mandamentos. Suspiramos aqui, por causa da dureza de cumprir os mandamentos de Deus. Ouvi o que se segue. Ó homem, em que te afadigas ao amar? Em amar a avareza. Com fadiga se ama aquilo que amas: não há fadiga em amar a Deus. A avareza te imporá trabalhos, perigos, duras aflições e tribulações; e farás o que ela ordena. Para que fim? Para que tenhas aquilo com que hás de encher o teu cofre, e percas a tua paz de espírito. Sentias-te, porventura, mais seguro antes de o teres, do que desde que começaste a possuí-lo. Vede o que a avareza te impôs. Encheste a tua casa, e temes os ladrões; adquiriste ouro, perdeste o sono. Vede o que a avareza te impôs. Fazes, e fizeste. Que te ordena Deus? Ama-me. Amas o ouro, buscarás o ouro, e talvez não o encontres: quem quer que me busque, com ele estou Eu. Amarás a honra, e talvez a ela não chegues: quem jamais me amou e não alcançou? Deus te diz: quiseras fazer-te um patrono, ou um amigo poderoso: buscas um caminho para o seu favor por meio de outro inferior. Ama-me, diz-te Deus: o favor comigo não se obtém angariando influência por meio de outrem: o teu próprio amor me torna presente a ti. Que coisa mais doce que este amor, irmãos? Não sem razão ouvistes há pouco no Salmo: Os injustos me contaram deleites, mas não como a Vossa lei, ó Senhor. Que é a Lei de Deus? O mandamento de Deus. Que é o mandamento de Deus? Aquele mandamento novo, que se chama novo porque faz novo: Um mandamento novo vos dou, que vos ameis uns aos outros (Jo 13:34). Ouvi, porque esta é a lei de Deus. Diz o Apóstolo: Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo (Gl 6:2). Esta, sim, esta é a consumação de todas as nossas obras: a Caridade. Nela está o fim: para ela corremos; a ela corremos; quando a ela tivermos chegado, descansaremos. Ouvistes no Salmo: Vi o fim de toda perfeição. Disse ele: Vi o fim de toda perfeição: que tinha ele visto? Pensamos nós que tivesse ele subido ao cume de algum monte muito alto e agudo, e dali olhasse e visse o círculo da terra, e os giros do mundo redondo, e por isso dissesse: Vi o fim de toda perfeição? Se isto fosse coisa louvável, peçamos ao Senhor olhos de carne tão penetrantes, que apenas necessitemos de algum monte sobremodo alto na terra, para que do seu cimo possamos ver o fim de toda perfeição. Não vades longe: eis que vos digo, está aqui; subi ao monte, e vede o fim. Cristo é o Monte; vinde a Cristo: dali vereis o fim de toda perfeição. Qual é este fim? Perguntai a Paulo: Mas o fim do mandamento é a caridade, procedente de coração puro, e de boa consciência, e de fé não fingida (1 Tm 1:5); e em outro lugar: A caridade é a plenitude, ou o cumprimento, da lei. Que coisa tão acabada e concluída como a plenitude? Pois, irmãos, o Apóstolo usa aqui o fim em sentido de louvor. Não penseis em consunção, mas em consumação. Pois é em um sentido que se diz: Acabei o meu pão, e em outro: Acabei a minha veste. Acabei o pão, comendo-o; a veste, fazendo-a.
Em ambos os lugares a palavra é *fim*, *termo*: mas o pão se acaba por ser consumido, a túnica se acaba por ser feita; o pão, de modo a não mais existir; a túnica, de modo a ficar completa. Tomai, pois, também vós neste sentido esta palavra, *fim*, quando se lê o Salmo e ouvis dizer: *Ao fim, salmo de Davi*. Ouvis isto constantemente nos Salmos, e deveis saber o que ouvis. Que significa *ao fim*? — Pois Cristo é o fim da lei para todo aquele que crê (Rm 13,10). E que significa: Cristo é o fim? Porque Cristo é Deus, e o fim do mandamento é a caridade, e a Caridade é Deus: porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Um só. Ali está Ele como Fim para ti; noutro lugar Ele é o Caminho. Não fiqueis presos no caminho, e assim jamais chegueis ao fim. Seja qual for a outra coisa a que chegardes, ultrapassai-a, até que chegueis ao fim. Qual é o fim? *É bom para mim aterrar-me firmemente em Deus*. Já vos apegastes firmemente a Deus? Terminastes o caminho: permanecereis em vossa própria pátria. Atentai bem! Alguém busca dinheiro: que não seja ele o fim para ti: passa adiante, como viajante em terra estranha. Mas se o amares, ficarás enredado pela avareza; a avareza será grilhão para teus pés: não poderás progredir mais. Ultrapassa, pois, também isto: busca o fim. Buscas a saúde do corpo; ainda assim não te detenhas aí. Pois que é ela, esta saúde do corpo, à qual a morte põe termo, que a doença debilita, coisa frágil, mortal, fugaz? Busca-a, sim, para que porventura a enfermidade não impeça tuas boas obras: mas por essa mesma razão, o fim não está ali, pois ela é buscada em vista de outra coisa. Tudo o que é buscado em vista de outra coisa, o fim não está ali: tudo o que é amado por si mesmo, e gratuitamente, ali está o fim. Buscas honrarias; talvez as busques para fazer algo, para realizares algo, e assim agradares a Deus: não ames a própria honraria, para que não te detenhas aí. Buscas o louvor? Se buscas o de Deus, fazes bem; se buscas o teu próprio, fazes mal; deténs-te no meio do caminho. Mas eis que és amado, és louvado: não julgues alegria quando em ti mesmo és louvado; sê louvado no Senhor, para que possas cantar: *No Senhor será louvada a minha alma*. Proferes algum bom discurso, e teu discurso é louvado. Que não seja louvado como teu, o fim não está ali. Se puseres ali o fim, é o fim de ti: mas um fim, não para que sejas aperfeiçoado, mas para que sejas consumido. Que não seja, pois, teu discurso louvado como proveniente de ti, como sendo teu. Mas como louvado? Como diz o Salmo: *Em Deus louvarei o discurso, em Deus louvarei a palavra*. Por isto se cumprirá em ti o que ali se segue: *Em Deus esperei, não temerei o que me possa fazer o homem*. Pois quando todas as coisas que são tuas são louvadas em Deus, não há temor de que teu louvor se perca, pois Deus não falha. Ultrapassa, pois, também isto. Vede, irmãos, quantas coisas ultrapassamos, nas quais não está o fim. Delas nos servimos como de passagem; delas tomamos, por assim dizer, nosso refrigério nas paradas de nossa jornada, e passamos adiante. Onde está, pois, o fim? Amados, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que seremos (1 Jo 3,2); é isto o que ali se diz, nesta epístola. Ainda, pois, estamos a caminho; ainda, aonde quer que cheguemos, devemos passar adiante, até que alcancemos algum fim. Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, pois O veremos como Ele é. Esse é o fim; ali o louvor perpétuo, ali o Aleluia sempre sem falha.
Este é, pois, o fim de que ele falou no Salmo: *Vi o fim de toda perfeição.* E como se lhe fosse perguntado: Qual é o fim que viste? *O Vosso mandamento é sobremodo largo.* Este é o fim: a largueza do mandamento. A largueza do mandamento é a caridade, porque onde há caridade, não há estreiteza. Nesta largueza, neste amplo espaço, estava o apóstolo quando disse: *A nossa boca está aberta para vós, ó coríntios, o nosso coração está dilatado; não estais estreitados em nós* (2Cor 6.11-12). Nisto, pois, é que o Vosso mandamento é sobremodo largo. Qual é o mandamento largo? *Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros.* A caridade, pois, não é estreita. Não queres ser estreitado aqui na terra? Habita no amplo espaço. Pois o que quer que o homem te faça, não te estreitará; porque amas aquilo que o homem não pode ferir: amas a Deus, amas a fraternidade, amas a lei de Deus, amas a Igreja de Deus: isso será para sempre. Aqui na terra trabalhas, mas hás de chegar ao gozo prometido. Quem pode tirar-te aquilo que amas? Se ninguém pode tirar-te aquilo que amas, dorme seguro, ou antes, vigia seguro, para que, dormindo, não percas aquilo que amas. Pois não sem razão está dito: *Iluminai os meus olhos, para que eu nunca adormeça na morte.* Os que fecham os olhos à caridade adormecem nas concupiscências dos deleites carnais. Sê, pois, vigilante. Pois eis os deleites: comer, beber, entregar-se à luxúria, jogar, caçar; a todas essas vãs pompas seguem-se todos os males. Ignoramos, acaso, que são deleites? Quem pode negar que deleitam? Mas mais amada é a lei de Deus. Clama contra os que assim persuadem: *Os ímpios me contaram deleites, mas não assim como a Vossa lei, ó Senhor.* Este deleite permanece. Não só permanece como o alvo a que podes chegar, mas também te chama de volta quando foges.
Já ouvistes: *Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.* Vede como Ele não quis que vos dividísseis em uma multidão de páginas: *Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.* Que dois mandamentos? *Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com toda a tua mente.* E: *Amarás o teu próximo como a ti mesmo.* *Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas* (Mt 22:37-40). Vede aqui de que mandamentos trata toda esta epístola. Retende, pois, firmemente o amor, e sossegai os vossos ânimos. Por que temeis fazer mal a algum homem? Quem faz mal ao homem que ama? Amai: é impossível fazer isto sem fazer o bem. Mas talvez repreendas. A bondade faz isto, não a fereza. Mas talvez firas. Por disciplina fazes isto; porque a bondade do teu amor não te deixará abandoná-lo indisciplinado. E de fato sucedem de algum modo estes resultados diversos e contrários: que às vezes o ódio se serve de maneiras insinuantes, e a caridade se mostra fera. Um homem odeia o seu inimigo, e finge amizade para com ele: vê-o fazendo algum mal, e o louva; deseja que ele se precipite, deseja que ele caia cego pelo despenhadeiro das suas concupiscências, para nunca mais, porventura, retornar; louva-o, *pois o pecador é louvado nos desejos da sua alma*; aplica-lhe a unção da adulação; eis que odeia, e louva. Outro vê o seu amigo fazendo algo semelhante; ele o chama de volta; se este não quiser ouvir, usa até palavras de castigo, repreende, contende: há ocasiões em que se chega a isto, que é preciso até contender! Eis que o ódio se mostra insinuantemente brando, e a caridade contende! Não detenhais o vosso olhar nas palavras de aparente bondade, ou na aparente crueldade da repreensão; olhai para a veia de onde procedem; buscai a raiz de onde brotam. Um é brando e suave para enganar, o outro contende para corrigir. Pois bem, não é a nós, irmãos, que compete dilatar-vos o coração: obtende de Deus o dom de amar-vos uns aos outros. Amai a todos os homens, até os vossos inimigos, não porque são vossos irmãos, mas para que venham a ser vossos irmãos; para que estejais em todo tempo abrasados de amor fraterno, seja para com aquele que já se fez vosso irmão, seja para com o vosso inimigo, de modo que, sendo amado, ele venha a fazer-se vosso irmão. Onde quer que ameis um irmão, amais um amigo. Agora ele está convosco, agora está unido a vós na unidade, sim, na unidade católica. Se estais vivendo retamente, amais um irmão feito de um inimigo. Mas amais também algum homem que ainda não creu em Cristo, ou, se creu, crê como creem os demônios: repreendeis a sua vaidade. Amai, e isso com amor fraterno: ele ainda não é irmão, mas amais para que, ao fim, venha a sê-lo. Pois bem, todo o nosso amor é um amor fraterno, para com os cristãos, para com todos os Seus membros. A disciplina da caridade, meus irmãos, a sua força, flores, fruto, beleza, suavidade, alimento, bebida, sustento, abraço, não tem em si saciedade. Se ela assim nos deleita enquanto em terra estranha, na nossa própria pátria como havemos de exultar! Corramos, pois, meus irmãos, corramos, e amemos a Cristo. Que Cristo? Jesus Cristo. Quem é Ele? O Verbo de Deus. E como veio Ele aos enfermos? *O Verbo se fez carne, e habitou entre nós* (Jo 1:14). Está, pois, cumprido o que a Escritura predisse: *Era necessário que Cristo padecesse, e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia* (Lc 24:46). O Seu corpo, onde está? Os Seus membros, onde labutam?
Onde deveis estar, para que estejais sob a vossa Cabeça? E que o arrependimento e a remissão dos pecados fossem pregados em Seu nome por todas as nações, começando por Jerusalém (Lc 24:47). Aí espalhai a vossa caridade. Diz Cristo, e diz o Salmo, isto é, o Espírito de Deus: O vosso mandamento é sobremaneira largo; e eis que algum homem quererá restringir a caridade à África! Estendei a vossa caridade sobre toda a terra, se quiserdes amar a Cristo, pois os membros de Cristo estão sobre toda a terra. Se amais apenas uma parte, estais divididos; se estais divididos, não estais no corpo; se não estais no corpo, não estais sob a Cabeça. Que vos aproveita crer e blasfemar? Adorais-O na Cabeça, blasfemais d'Ele no Corpo. Ele ama o Seu Corpo. Se vós vos cortastes do Seu Corpo, a Cabeça não se cortou do seu Corpo. Em vão me honras, clama-vos a vossa Cabeça do alto, em vão me honras. É tudo uma mesma coisa como se alguém quisesse beijar-vos a cabeça e pisar-vos os pés: porventura, com botas cravejadas, esmagaria os vossos pés, enquanto abraçaria a vossa cabeça e a beijaria: não clamaríeis, no meio das palavras com que vos honra, dizendo: Que fazes, homem? Pisas-me. Não quereríeis dizer: Pisas-me a cabeça; pois a cabeça ele honrou; mas mais clamaria a cabeça pelos membros pisados do que por si mesma, porque foi honrada. Não clama a própria cabeça: Não quero a vossa honra; não me pises? Ora, dizei, se podeis: Como te pisei? Dizei isso à cabeça: Eu quis beijar-te, quis abraçar-te. Mas não vedes, ó insensato, que aquilo que quereríeis abraçar, em virtude de certa unidade que ata todo o corpo, alcança aquilo que pisais? Acima me honras, abaixo me pisas. Aquilo em que pisas dói mais do que aquilo que honras se regozija. De que modo clama a língua? Dói-me. Não diz: Dói-me o pé, mas: Dói-me, diz ela. Ó língua, quem te tocou? Quem feriu? Quem aguilhoou? Quem picou? Ninguém, mas eu estou atada às partes que são pisadas. Como quereríeis que eu não sofresse, se não estou separada? Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, ascendendo aos céus no quadragésimo dia, por esta razão nos confiou o Seu Corpo, onde ele continuaria a jazer, porque via que muitos O honrariam por ter ascendido aos céus: e via que a honra que Lhe prestassem seria inútil se pisassem os Seus membros aqui na terra. E para que ninguém errasse, e, ao adorar a Cabeça no céu, pisasse os pés na terra, Ele nos disse onde estariam os Seus membros. Pois, estando prestes a ascender, proferiu as Suas últimas palavras na terra: depois dessas mesmas palavras, não falou mais na terra. A Cabeça, prestes a ascender aos céus, confiou-nos os Seus membros na terra e partiu. Doravante não encontrareis Cristo falando na terra; encontrai-lo-eis falando, mas dos céus. E mesmo dos céus, por quê? Porque os Seus membros na terra eram pisados. Pois ao perseguidor Saulo Ele disse do alto: Saulo, Saulo, por que me persegues? (At 9:4) Ascendi aos céus, mas ainda jazo na terra: aqui assento-me à destra do Pai, mas ali ainda tenho fome, sede, e sou peregrino. De que modo, pois, nos confiou Ele o Seu Corpo, estando prestes a ascender aos céus? Quando os discípulos Lhe perguntaram, dizendo: Senhor, restaurarás Tu neste tempo o reino a Israel?
Acts 1:6-8. Respondeu Ele, já prestes a partir: Não vos compete saber os tempos que o Pai pôs em Seu próprio poder; mas recebereis a virtude do Espírito Santo que sobre vós há de vir, e ser-me-eis testemunhas. Vede onde está espalhado o Seu Corpo, vede onde Ele não quer ser pisado: ser-me-eis testemunhas em Jerusalém, e em toda a Judeia, e até os confins da terra. Eis onde jazo eu, que estou ascendendo! Pois ascendo, porque sou a Cabeça; meu Corpo jaz ainda abaixo. Onde jaz? Por toda a terra. Guardai-vos de feri-lo, guardai-vos de agravá-lo, guardai-vos de pisá-lo: estas são as últimas palavras de Cristo, prestes a subir aos céus. Considerai um enfermo que definha em seu leito, jazendo em sua casa, exausto pela doença, à porta da morte, com a alma como que já entre os dentes: este, ansioso, talvez, por alguma coisa que lhe é cara, que grandemente ama, e que lhe vem à mente, chama seus herdeiros e lhes diz: Rogo-vos, fazei isto. Ele, por assim dizer, detém a alma com esforço violento, para que não parta antes que essas palavras sejam confirmadas. Depois de ditar essas últimas palavras, exala a alma, é levado cadáver ao sepulcro. Seus herdeiros, como se lembram das últimas palavras do moribundo? Como, se alguém se levantasse e lhes dissesse: Não o façais; que diriam eles? Quê? Não hei de fazer o que meu pai, no ato mesmo de exalar a alma, me ordenou com seu último alento, a derradeira palavra sua que ressoou em meus ouvidos quando meu pai partia desta vida? Quaisquer outras palavras suas que eu venha a não observar, as últimas têm sobre mim domínio mais forte; desde então nunca mais o vi, nunca mais ouvi sua fala. Irmãos, considerai com corações cristãos: se para os herdeiros de um homem suas palavras, ditas quando prestes a ir para o túmulo, são tão doces, tão gratas, tão graves, que devemos nós estimar das últimas palavras de Cristo, ditas não quando prestes a voltar ao túmulo, mas a ascender ao céu! Quanto ao homem que viveu e morreu, sua alma é arrebatada para outros lugares, seu corpo é posto na terra, e, se essas suas palavras se cumprem ou não, nada lhe importa mais: ele já tem outra coisa a fazer, ou outra coisa a sofrer; ou no seio de Abraão se regozija, ou no fogo eterno anseia por uma gota d'água, enquanto seu cadáver jaz ali insensível no sepulcro; e ainda assim as últimas palavras do moribundo são guardadas. Que hão de esperar aqueles que não guardam as últimas palavras Daquele que está sentado no céu, que vê do alto se são desprezadas ou não desprezadas? As palavras Daquele que disse: Saulo, Saulo, por que me persegues? Que leva conta, até o juízo, de tudo quanto vê sofrerem os Seus membros? E que fizemos nós, dizem eles? Nós somos os perseguidos, não os perseguidores. Vós sois os perseguidores, ó homens desventurados. Primeiramente, porque dividistes a Igreja. Mais poderosa é a espada da língua do que a espada de aço. Agar, serva de Sara, era soberba, e por sua soberba foi aflita por sua senhora. Aquilo foi disciplina, não castigo. Assim, quando ela se afastou de sua senhora, que lhe disse o anjo? Volta para tua senhora. Gênesis 16:4-9. Então, ó alma carnal, como serva soberba, supõe que sofreste alguma tribulação para disciplina; por que te enfureces? Volta para tua senhora, apega-te à paz da Igreja. Eis que os evangelhos são produzidos, lemos onde a Igreja está espalhada: os homens disputam contra nós, e nos dizem: Traidores!
Betrayers de quê? Cristo nos confia a Sua Igreja, e vós não credes: crerei em vós, quando difamais meus pais? Quereríeis que eu vos cresse acerca dos traidores? Crede primeiro em Cristo. O que é digno de crédito? Cristo é Deus, vós sois homem: qual dos dois deve ser crido primeiro? Cristo espalhou a Sua Igreja por toda a terra: eu o digo — desprezai-me; o evangelho o diz — acautelai-vos. Que diz o evangelho? Convinha que Cristo padecesse, e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia, e que em Seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados (Lc 24:47). Onde há remissão dos pecados, ali está a Igreja. Como assim, a Igreja? Pois foi a ela que se disse: A vós darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu (Mt 16:19). Onde se espalhou esta remissão dos pecados? Por todas as nações, começando por Jerusalém. Eis que credes em Cristo! Mas, porque bem sabeis que, se crerdes em Cristo, nada mais tereis a dizer acerca dos traidores, quereis antes que eu creia em vós, quando falais mal de meus pais, do que vós mesmos crerdes no que Cristo predisse!
Quando vier a visão prometida, “face a face”, contemplaremos a Trindade — aquela Trindade que não é apenas incorpórea, mas perfeitamente inseparável e verdadeiramente imutável — muito mais claramente e com mais certeza do que agora contemplamos a sua imagem em nós mesmos. Esta visão presente, por espelho e em enigma, tal como nos é oferecida nesta vida, não pertence a quem quer que possa perceber em sua própria mente tudo o que aqui expusemos por nossa análise, mas àqueles que veem a mente como imagem reflexiva. Deste modo, são capazes de relacionar o que veem com Aquele de quem é imagem. Alcançam, por sua visão atual da imagem, uma visão presuntiva do original, o qual ainda não se pode ver face a face. O apóstolo não diz: “Vemos agora um espelho”, mas “vemos agora por espelho”. Aqueles que veem a mente tal como pode ser vista, e nela aquela Trindade da qual tentei dar variadas descrições, sem contudo crer ou entender que seja imagem de Deus: estes veem como que num espelho. Mas, longe de ver através do espelho Aquele que agora só assim se pode ver, ignoram que o espelho visto é um espelho — isto é, uma imagem. Se o soubessem, poderiam sentir a necessidade de buscar e, em certa medida, já mesmo agora ver, por este espelho, Aquele de quem é espelho — purificados os seus corações pela fé não fingida, para que Aquele que agora se vê por espelho seja enfim visto face a face. Mas se desprezam a fé que purifica os corações, nenhuma compreensão da mais sutil análise da natureza de nossa mente lhes poderá servir senão para condená-los, pelo próprio testemunho de seu entendimento.
Ora, conheces, penso eu, não somente a natureza da tua oração, mas também o seu objeto, e isto aprendeste não de mim, mas daquele que se humilhou para nos ensinar a todos. A felicidade é o que devemos buscar e o que devemos pedir ao Senhor Deus. Muitos argumentos foram forjados por muitos homens acerca da natureza da felicidade; mas por que havemos de nos voltar aos muitos homens ou aos muitos argumentos? Breve e verdadeira é a palavra na Escritura de Deus: “Bem-aventurado o povo cujo Deus é o Senhor”. “O fim do preceito é o amor que procede de coração puro, e de boa consciência, e de fé não fingida”, para que pertençamos a esse povo e possamos alcançar a contemplação de Deus e a vida eterna com Deus.
Quando alguém sabe que o fim dos mandamentos é a caridade “que procede de coração puro, e de boa consciência, e de fé não fingida”, e relaciona a estas três tudo o que entende das divinas Escrituras, pode aproximar-se do estudo destes livros com segurança. Pois, ao dizer “caridade”, acrescenta “que procede de coração puro”, para que nada mais se ame senão aquilo que deve ser amado. E a isto ajunta “boa consciência”, por causa da esperança, pois aquele em quem há a menor mácula de má consciência desespera de alcançar aquilo em que crê e que ama. Terceiro, diz “fé não fingida”. Se a nossa fé não envolve mentira alguma, então não amamos o que não deve ser amado e, vivendo justamente, esperamos aquilo que de nenhum modo enganará a nossa esperança.
Fé, esperança e caridade — estas três virtudes, para cuja edificação se ergue todo o andaime da Escritura — só se encontram na alma que crê no que ainda não vê, e espera e ama o que crê. Pode, pois, haver amor até mesmo por Aquele que não se conhece, se contudo se crê nele. Sem dúvida, devemos guardar-nos de que a alma, crendo no que não vê, forje para si uma imagem daquilo que não existe e funde sua esperança e seu amor sobre uma mentira. Então não haverá de nascer aquela “caridade de coração puro, e de boa consciência, e de fé não fingida, que é o fim do mandamento”.
Ditas e ponderadas todas essas coisas, não quero contender por palavras, pois tal contenda de nada aproveita senão para a subversão dos ouvintes. Mas a lei é proveitosa para a edificação, se dela alguém usar legitimamente. Pois o fim da lei "é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida". E bem o sabia o nosso Mestre, pois foi nestes dois mandamentos que Ele fez pender toda a lei e os profetas.
O fim de todas as divinas Escrituras é o amor ao Ser em que devemos alegrar-nos e o amor ao ser que pode alegrar-se conosco nesse amor. … Quem quer que … pense entender as divinas Escrituras, ou qualquer parte delas, de modo que isso não edifique o duplo amor de Deus e do próximo, não as entendeu de forma alguma. Quem ali encontra uma lição útil à edificação da caridade, ainda que não tenha dito o que se pode demonstrar ter sido a intenção do autor naquele lugar, não foi enganado…. Mas todo aquele que entende nas Escrituras algo diverso daquilo que por elas foi intencionado está enganado, ainda que elas mesmas não mintam.
Portanto, não nos amemos a nós mesmos, mas a Ele, e, ao apascentar as suas ovelhas, busquemos as coisas que são dele, não as que são nossas. Pois, de algum modo inexplicável, quem ama a si mesmo, e não a Deus, não ama a si mesmo; e quem ama a Deus, e não a si mesmo, ama-se verdadeiramente a si mesmo. Pois aquele que não pode viver de si mesmo morre, sem dúvida, ao amar-se a si mesmo. Logo, aquele que se ama de tal modo que não possa viver não se ama a si mesmo. Mas quando é amado Aquele de quem provém a vida, então aquele que não ama a si mesmo — precisamente para amar Aquele de quem tem a vida — ama-se tanto mais a si mesmo. Portanto, que aqueles que apascentam as ovelhas de Cristo não sejam «amantes de si mesmos», para que não as apascentem como próprias, mas como dele. Que não queiram tirar delas ganhos próprios, como «amantes do dinheiro»; nem ser seus senhores, como «presunçosos»; nem gloriar-se das honras que delas recebem, como «soberbos»; nem cheguem até a criar heresias, como «blasfemos»; nem deixem de ceder aos santos padres, como «desobedientes aos pais». Que não retribuam com males os bens àqueles que querem que não pereçam, precisamente porque não querem que pereçam, como «ingratos». Que não matem as suas próprias almas nem as dos outros, como «ímpios». Que não rasguem as entranhas maternas da Igreja, como «irreligiosos»; que não deixem de ter compaixão dos fracos, como «sem afeto natural»; que não tentem manchar a reputação dos santos, como «caluniadores»; nem deixem de refrear os seus piores desejos, como «incontinentes». Que não se envolvam em litígios, como «sem misericórdia»; nem deixem de saber prestar auxílio, como «sem benignidade». Que não revelem aos inimigos dos piedosos aquilo que aprenderam dever ser guardado em segredo, como «traidores». Que não perturbem o pudor humano com buscas desavergonhadas, como «licenciosos»; nem deixem de entender o que dizem ou afirmam, como se fossem «cegos». Que não prefiram os gozos carnais às alegrias espirituais, como «amantes dos prazeres mais que amantes de Deus».
Que dizer, pois, se a alma e o espírito do homem são dados pelo próprio Deus, sempre que são dados; e dados, também, por propagação de sua própria espécie? Ora, esta é uma posição que eu nem sustento nem refuto. Contudo, se há de ser defendida ou refutada, recomendo certamente que se faça mediante provas claras e certas. Nem mereço ser comparado a gado insensato por confessar-me ainda incapaz de decidir a questão, mas antes a pessoas cautelosas, porque não ensino temerariamente aquilo que ignoro. Mas não estou disposto, de minha parte, a retribuir injúria por injúria e a comparar este homem com os brutos. Antes o admoesto, como a um filho, a reconhecer que verdadeiramente ignora aquilo de que nada sabe. Admoesto-o a não tentar ensinar o que ainda não aprendeu, para que não venha a merecer ser comparado àqueles de quem o Apóstolo diz que «querem ser doutores da lei, não entendendo nem o que dizem, nem as coisas sobre que fazem as suas afirmações».
É necessário que dois muros se ajustem à pedra angular, a fim de conservar «a unidade do Espírito pelo vínculo da paz» — um proveniente dos judeus, outro dos gentios. Não devemos deixar-nos perturbar pelo grande número de judeus réprobos, entre os quais se contavam os construtores; aqueles, digo, que «queriam ser doutores da lei», mas dos quais o Apóstolo diz que «não entendem nem o que dizem, nem as coisas sobre que fazem as suas afirmações». Foi, com efeito, em consequência dessa cegueira mental que rejeitaram a pedra que foi posta à cabeça do ângulo. Ora, ela não seria posta à cabeça do ângulo se não oferecesse aos dois povos, vindos de pontos diferentes, uma união pacífica, um enlace de graça.
Com efeito, "os preceitos são bons", como diz Pelágio, se deles usarmos licitamente. E, em virtude de nossa firme convicção "de que o Deus bom e justo não poderia ter prescrito coisas impossíveis", somos admoestados tanto quanto ao que fazer nas coisas fáceis quanto ao que pedir nas difíceis. Com efeito, todas as coisas são fáceis para a caridade, para a qual somente o jugo de Cristo é leve, ou que somente ela mesma é o jugo que é leve.
Por isso, "a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom". Ordena o que deve ser ordenado e proíbe o que deve ser proibido. "Logo, o que é bom tornou-se morte para mim? De modo algum". A falta está em fazer mau uso do mandamento, o qual em si mesmo é bom. "A lei é boa, se dela se usa licitamente". Mas faz mau uso da lei aquele que não se submete a Deus em humilde piedade, a fim de que, com o auxílio da graça, se torne capaz de cumprir a lei. Aquele que não usa licitamente da lei não a recebe para outro fim senão que seu pecado, que antes da proibição estava latente, seja tornado manifesto por sua transgressão. A Simpliciano: Sobre Diversas Questões.
"A lei não foi feita para o justo", e contudo "a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente". Ora, ao unir estas duas afirmações aparentemente contrárias, o Apóstolo adverte e exorta o leitor a perscrutar a questão e resolvê-la. Pois como pode ser que "a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente", se também é verdadeiro o que se segue: "sabendo isto, que a lei não foi feita para o justo"? Pois quem, senão o homem justo, usa legitimamente da lei? E, contudo, não é para ele que ela foi feita, mas para o injusto…. O homem injusto, portanto, usa legitimamente da lei, para que se torne justo. Mas, uma vez tornado justo, já não deve dela usar como veículo, pois chegou ao termo de sua jornada — ou antes (para empregar a própria similitude do Apóstolo, já mencionada) como de um pedagogo, visto que já está plenamente instruído.
Que é, pois, esta "graça sobre graça"? Pela fé, primeiramente alcançamos o favor de Deus; e para nós, que não éramos dignos de ter os nossos pecados perdoados, precisamente pelo fato de termos recebido, ainda que indignos, tão grande dom, chama-se isto graça. Que é a graça? Aquilo que é dado gratuitamente. Aquilo que é outorgado, não retribuído. Se fosse devido, pagava-se a recompensa, não se outorgava a graça... Tendo adquirido esta graça da fé, sereis justos pela fé. "Pois o justo viverá pela fé." E primeiramente alcançareis o favor de Deus por viverdes pela fé. Quando tiverdes alcançado o favor de Deus por viverdes pela fé, recebereis como recompensa a imortalidade e a vida eterna. E isto é a graça... Paulo reconhece esta graça quando diz que antes fora blasfemo, perseguidor e ultrajador, "mas alcancei misericórdia".
De perseguidor foi ele transformado em "pregador e mestre das nações". "Antes", diz ele, "eu era blasfemo e perseguidor e homem insolente. Mas a razão pela qual alcancei misericórdia foi esta: que Cristo Jesus demonstrasse nele, antes de tudo, a sua longanimidade, para instrução daqueles que haveriam de crer nele para a vida eterna." É pela graça de Deus, vede bem, que somos salvos dos nossos pecados, nos quais definhamos. Só Deus é o remédio que cura a alma. A alma bem podia ferir-se a si mesma, mas de modo nenhum podia curar-se a si mesma. Também no corpo, afinal, têm os homens em seu poder adoecer, mas não igualmente em seu poder sarar. Quero dizer: se excedem os limites devidos, e vivem vidas dadas ao prazer, e fazem tudo o que mina a constituição e é nocivo à saúde, chega o dia, se é isso que querem, em que adoecem. Uma vez, porém, adoecidos, não saram por si. Pois, para adoecer, entregam-se ao prazer; mas, para sarar, precisam recorrer aos cuidados do médico para a sua saúde... E assim se passa com a alma.
Ouvimos a leitura do apóstolo, e talvez alguns de vós se inquietem com o que ali está escrito: "Quanto à justiça que vem da lei, era eu irrepreensível. Tudo o que para mim era ganho, isso considerei como perda por causa de Cristo." Depois prosseguiu, dizendo: "Considero-o não só perda, mas até esterco, para que eu possa ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo a minha própria justiça, que vem da lei, mas a que vem da fé de Jesus Cristo." A questão é: como pôde ele considerar o seu proceder irrepreensível segundo a justiça que vem da lei como sendo tanto esterco e perda? Afinal, quem deu a lei?... Mas ouçamos o que ele diz em outro lugar: "Não em virtude das obras", diz ele, "que nós mesmos praticamos, mas segundo a sua própria misericórdia, ele nos salvou, mediante o lavacro da regeneração." E ainda: "Eu, que antes era blasfemo, perseguidor e homem soberbo; mas alcancei misericórdia", e assim por diante. Por um lado, afirmou ter-se conduzido irrepreensível; por outro, confessou ter sido pecador de tais proporções, que nenhum pecador precisa desesperar de si mesmo, precisamente porque até Paulo encontrou remissão.
Atendei ao apóstolo Paulo: "Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro." Disse: "dos quais eu sou o primeiro." Como foi ele o primeiro? Não houve tantos judeus que foram pecadores antes dele? Não houve pecadores antes dele em todo o gênero humano?... Que significa, pois, "dos quais eu sou o primeiro"? Que eu sou pior que todos eles. Por "primeiro" quis que entendêssemos "o pior"…. Lembrai-vos de Saulo, e descobrireis por quê. Não é ele aquele que não se contentou com uma só mão para apedrejar Estêvão, e que cuidava das vestes dos outros? Não é ele aquele que perseguia a Igreja em toda parte?... Assim, foi ele o perseguidor número um. Não houve ninguém pior do que ele.
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"Porque todos pecaram," seja em Adão, seja por si mesmos, "e carecem da glória de Deus." Por conseguinte, toda a massa humana merecia ser punida, e se a merecida pena de condenação fosse aplicada a todos, sem dúvida alguma seria justamente aplicada. É por isso que aqueles que dela são libertados pela graça não são chamados vasos de méritos próprios, mas "vasos de misericórdia". Mas de quem foi essa misericórdia, senão daquele que enviou Jesus Cristo a este mundo para salvar os pecadores, os quais Ele preconheceu, predestinou, chamou, justificou e glorificou? Donde, quem poderia estar tão adiantado em insensata loucura a ponto de não render inefáveis graças à misericórdia deste Deus, que liberta aqueles a quem quis, considerando que de nenhum modo se poderia reprovar a justiça de Deus em condenar a todos inteiramente? — Da Natureza e da Graça...
Não houve razão para que Cristo, o Senhor, viesse, senão para salvar os pecadores. Eliminai as enfermidades, eliminai as feridas, e não haverá necessidade de medicina. Se um grande médico desceu do céu, é sinal de que um grande enfermo estava deitado, gravemente doente, por toda a vastidão do mundo. Esse enfermo é todo o gênero humano.
Ouvimos o bem-aventurado apóstolo Paulo dizer: "Palavra humana é, e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro." É, pois, uma palavra humana, e digna de toda aceitação. Por que humana, e não divina? Sem sombra de dúvida, se esta palavra não fosse também divina, não seria digna de toda aceitação. Mas esta palavra é ao mesmo tempo humana e divina, da mesma maneira que o próprio Cristo é ao mesmo tempo homem e Deus. Se, pois, estamos certos ao entender que esta palavra não é apenas humana, mas também divina, por que preferiu o apóstolo chamá-la humana, e não divina? ... Escolheu, pois, o aspecto segundo o qual Cristo veio ao mundo. Veio, com efeito, enquanto homem. Pois, enquanto Deus, sempre esteve presente.
Notai, pois, como este Saulo, mais tarde Paulo, ironicamente "se felicita" por ter alcançado a misericórdia de Deus, por se ter encontrado o primeiro, isto é, o mais destacado, nos pecados! ... Isto era para que todos os demais pudessem dizer a si mesmos: "se Paulo foi curado, por que haveria eu de desesperar? Se um doente tão desesperadamente enfermo foi curado por tão grande médico, quem sou eu, para não ajustar aquelas mãos às minhas feridas, para não me apressar ao cuidado daquelas mãos?" Para que as pessoas pudessem dizer coisas desse tipo, foi por isso que Saulo foi feito apóstolo a partir de perseguidor. Quando um médico chega a um lugar novo, procura ali alguém de quem já se desesperou, e o cura, ainda que o encontre muito pobre, contanto que o encontre em estado desesperado. Não busca honorários, mas exibe a sua arte.
Sustenhamos firmemente que o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo, em sua própria natureza, em sua própria substância, são conjunta e igualmente invisíveis. Cremos que são conjunta e igualmente imortais, conjunta e igualmente incorruptíveis. Há uma passagem em que o Apóstolo declara todas estas coisas simultaneamente: "Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, incorruptível, ao único Deus, honra e glória para todo o sempre. Amém."
A fim de alcançarmos aquela visão pela qual vemos a Deus como Ele é, Ele nos advertiu de que nossos corações devem ser purificados. Assim como as coisas são chamadas visíveis segundo o nosso modo de falar, assim Deus é chamado invisível para que não se pense que Ele seja um corpo material. Contudo, Ele não privará os corações puros da contemplação de Sua essência, visto que esta recompensa grande e sublime é prometida, pela própria palavra do Senhor, àqueles que adoram e amam a Deus. No tempo em que Ele apareceu visivelmente aos olhos corporais, prometeu que também o Seu ser invisível seria visto pelos limpos de coração: "Aquele que me ama será amado por meu Pai, e Eu o amarei e a ele me manifestarei." É certo que esta Sua natureza, que Ele compartilha com o Pai, é igualmente invisível assim como é igualmente incorruptível.
Assim, também esta fé é uma regra de salvação: "crer em Deus Pai onipotente", criador de todas as coisas, "Rei dos séculos, imortal e invisível". Ele é, com efeito, o Deus onipotente que, na origem do mundo, fez todas as coisas a partir do nada. Ele é anterior aos séculos, e fez e governa os séculos. Ele não cresce, pois, com o tempo, nem se estende no espaço, nem é encerrado ou limitado por matéria alguma. Ele permanece consigo e em si mesmo como plena e perfeita eternidade, a qual nem o pensamento humano pode compreender, nem a língua descrever.
Dizem eles novamente: "Quem fez o diabo?" Ele fez a si mesmo; pois o diabo foi feito pelo pecado, não pela natureza. "Ou," dizem eles, "Deus não deveria tê-lo feito, se sabia que ele haveria de pecar." Pelo contrário, por que não deveria tê-lo feito? Pois, por Sua própria justiça e providência, Deus corrige a muitos por meio da malícia do diabo. Ou não terás porventura ouvido o apóstolo Paulo dizendo: "E os entreguei a Satanás, para que aprendessem a não blasfemar"? Sobre o Gênesis, Contra os Maniqueus.
Aprendamos, irmãos, quando as ações são semelhantes, a distinguir as intenções dos que agem; do contrário, se fecharmos os olhos a isto, poderíamos julgar falsamente, e poderíamos acusar de nos fazerem mal aqueles que nos querem bem. Do mesmo modo, quando o mesmo apóstolo diz que entregou certos homens a Satanás, "para que aprendam a não blasfemar," retribuiu ele mal por mal, ou antes julgou que era boa obra corrigir os maus ainda que por meio do mal? Cartas.
Por amor entregou o apóstolo um homem a Satanás para a destruição da carne, a fim de que seu espírito fosse salvo no dia do Senhor Jesus.
Prefiro entender por estas palavras aquilo que a Igreja inteira, ou quase inteira, observa: que tomemos por súplicas aquelas orações que se dizem na celebração dos mistérios, antes que comecemos a consagrar o que jaz sobre a mesa do Senhor. Orações se dizem quando é abençoado e santificado e partido para a distribuição; e a Igreja toda, na maior parte, encerra esta súplica completa com a Oração do Senhor. A palavra grega original ajuda-nos a compreender esta distinção: raramente usa a Escritura a palavra euche no sentido de oratio, mas geralmente, e com muito maior frequência, euche significa votum; ao passo que proseuche, o vocábulo empregado na passagem que tratamos, é sempre traduzido por oratio... Ora, todas as coisas que são oferecidas a Deus são votadas, sobretudo a oblação no santo altar, pois neste sacramento mostramos aquela suprema oferenda, pela qual votamos permanecer em Cristo, até à união com o corpo de Cristo. O sinal exterior disto é que "nós, sendo muitos, somos um só pão, um só corpo". Por conseguinte, penso que, nesta consagração e nesta preparação para a Comunhão, quer o apóstolo, com propriedade, que se façam proseuchas, isto é, orações, ou, como alguns menos habilmente verteram, adoração, isto é, o que se passa na oferenda, ainda que isto seja mais comumente expresso na Escritura por euche. As intercessões, porém, ou, como trazem os vossos textos, pedidos, oferecem-se enquanto se dá a bênção ao povo, pois nesse momento, pela imposição das mãos, os bispos, como intercessores, oferecem os membros do seu rebanho ao Poder misericordiosíssimo. Concluído isto, e havendo todos recebido o santo sacramento, tudo se encerra pela ação de graças, e este último é o próprio termo que o apóstolo nos assinala.
Assim como a vida do corpo é a alma, assim também a "vida bem-aventurada" do homem é Deus. Como está nos sagrados escritos dos hebreus, "Feliz é o povo cujo Deus é o Senhor." Contudo, ainda mesmo tal povo cultiva uma paz sua própria, que não deve ser desprezada, embora, ao fim, não seja de se possuir, porquanto essa paz, antes do fim, foi abusada. Entretanto, é de nossa vantagem que haja tal paz nesta vida. Pois, enquanto as duas cidades se acham misturadas entre si, podemos fazer uso da paz da Babilônia. A fé pode assegurar-nos o êxodo da Babilônia, mas nossa condição de peregrinos, por ora, faz-nos vizinhos. Tudo isto estava na mente de São Paulo quando aconselhou a igreja a orar pelos reis deste mundo e pelas altas autoridades — a fim de que "possamos levar uma vida quieta e tranquila em toda piedade e conduta digna." Jeremias, também, predizendo o cativeiro babilônico aos judeus do Antigo Testamento, deu-lhes ordens da parte de Deus para que fossem submissos e servissem ao seu Deus por meio de tais sofrimentos, e que entretanto orassem pela Babilônia. "Pois na paz dela", disse ele, "estará a vossa paz" — referindo-se, é claro, à paz deste mundo, da qual bons e maus participam em comum.
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Minha razão muito especial para dizer tudo isto foi que, depois de eu haver brevemente definido e interpretado estes termos [isto é, os termos de Timóteo], ninguém pensasse em passar por alto a passagem que se segue, "por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em posição elevada, para que possamos levar uma vida quieta e pacífica em toda piedade e caridade", e que ninguém imaginasse, por uma fraqueza comum da mente humana, que estas orações não devessem também ser feitas mesmo por aqueles às mãos de quem a igreja padece perseguição. Pois os membros de Cristo hão de ser reunidos de toda classe. Por isso ele continua e diz, "porque isto é bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador, que deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade." E para que ninguém dissesse que pode haver um caminho de salvação sem a participação do corpo e do sangue de Cristo, mas simplesmente vivendo uma boa maneira de vida e adorando a um só Deus Todo-Poderoso, Paulo prossegue: "Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus." Isto deixa claro que aquilo que ele havia dito acima, "Ele quer que todos os homens se salvem", há de realizar-se somente por meio de um mediador que não seria Deus, como o Verbo é sempre Deus, mas o homem Cristo Jesus, visto que "o Verbo se fez carne e habitou entre nós."
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E o que está escrito, que "Ele quer que todos os homens se salvem", ao passo que nem todos os homens se salvam, pode entender-se de muitas maneiras, algumas das quais já mencionei em outros escritos meus; mas aqui direi uma coisa: "Ele quer que todos os homens se salvem" é dito de tal modo que por isso se entendam todos os predestinados, porque toda espécie de homens está entre eles.
Assim, quando ouvimos e lemos na Sagrada Escritura que Deus "quer que todos se salvem", ainda que saibamos suficientemente bem que nem todos se salvam, não devemos por isso menosprezar a onipotente vontade de Deus. Antes, devemos entender a Escritura, "que quer que todos se salvem", como significando que ninguém se salva a menos que Deus queira a sua salvação. Não é que não haja ninguém cuja salvação Deus não queira, mas que ninguém se salva a menos que Deus o queira. Além disso, a vontade de Deus deve ser buscada na oração, porque, se Ele quer, então o que Ele quer há de necessariamente ser. E, de fato, era da oração a Deus que o Apóstolo falava quando fez essa afirmação.
Foi para que a mente pudesse avançar com mais confiança rumo à verdade que a própria Verdade, o Filho divino de Deus, revestiu-Se da humanidade sem despojar-Se da sua divindade, e edificou este firme caminho da fé, para que o homem, por meio do Deus-Homem, pudesse encontrar o seu caminho até o Deus do homem. Falo do "mediador entre Deus e os homens, Ele mesmo homem, Cristo Jesus". Pois é como homem que Ele é o Mediador, e como homem que Ele é o caminho.
Quem pode ordenar o que faz tal como este homem ordenou o que padeceu? Ora, o homem, o Mediador de Deus e dos homens, foi o homem acerca de quem se lê que fora predito: "E é homem, e quem o conhecerá?" Pois os homens por meio de quem estas coisas se deram conheceram, sim, o homem de Deus. Porquanto Aquele que estava oculto como Deus manifestava-Se como homem. Aquele que Se manifestava padecia estas coisas. Aquele que estava oculto é o mesmíssimo que ordenava estas coisas. Por isso viu que estavam consumadas todas as coisas que era necessário fazer antes de tomar o vinagre e entregar o seu espírito.
Por isso respondemos a esta objeção que eles propõem a partir do Evangelho, de tal modo que nenhum homem seja tão falto de entendimento que julgue sermos obrigados, por este texto, a crer e confessar que o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, não teve alma humana. Do mesmo modo, pergunto como respondem eles a objeções tão evidentes quanto as nossas, pelas quais mostramos, através de inúmeras passagens dos escritos evangélicos, o que dEle foi narrado pelos Evangelistas, a saber, que foi encontrado com sentimentos que são impossíveis sem uma alma.
Mas como seríamos reconciliados, a não ser que fosse rompido aquilo que nos separa dele? Pois Ele diz por meio do profeta: “O ouvido do Senhor não está surdo, que não possa ouvir, mas os vossos pecados vos separam de vosso Deus.” Portanto, porquanto não somos reconciliados a não ser que se remova o que estava no meio e se coloque ali o que deveria estar — pois há um meio que separa, mas, contraposto a ele, há um mediador que reconcilia. O meio que separa é o pecado. O mediador que reconcilia é o Senhor Jesus Cristo, “pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus”. E assim, para que fosse removido o muro separador que é o pecado, veio esse Mediador, e o próprio Sacerdote se fez sacrifício.
Cristo Jesus, ele mesmo homem, é o verdadeiro Mediador, pois, na medida em que tomou a “forma de servo”, tornou-se “o Mediador entre Deus e os homens”. Em sua condição de Deus, recebeu os sacrifícios em união com o Pai, com quem é um só Deus. Contudo, quis, em sua condição de servo, ser ele mesmo o sacrifício, em vez de recebê-lo, para que ninguém tomasse ocasião de pensar que o sacrifício pudesse ser prestado a uma criatura. Assim é que Ele é ao mesmo tempo o Sacerdote que oferece e a Oblação que é oferecida.
Ora, não poderíamos ser redimidos, ainda que por “o único mediador entre Deus e o homem, o próprio Homem, Cristo Jesus”, se Ele não fosse também Deus. Pois, quando Adão foi feito — sendo feito homem reto — não havia necessidade de mediador. Uma vez, porém, que o pecado separou amplamente o gênero humano de Deus, foi necessário um mediador que, único, nascesse, vivesse e fosse posto à morte sem pecado, a fim de reconciliar-nos com Deus e prover até para nossos corpos uma ressurreição para a vida eterna — e tudo isso a fim de que a soberba do homem fosse exposta e curada pela humildade de Deus.
Deve estar bem ciente, certo e confiante da própria inocência aquele que estende e alarga as mãos a Deus. Por isso diz o Apóstolo: "Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos puras" (1 Tm 2,8). Justamente levanta as mãos a Deus, verte suas orações com boa consciência, aquele que pode dizer: "Sabes Tu, ó Senhor, quão santas, quão inocentes, quão puras de toda fraude, injúria e rapina são as mãos que a Ti levanto; quão imaculados e livres de todo engano são os lábios com que a Ti derramo minhas preces, para que de mim Te compadeças." Tal homem merece ser ouvido prontamente, e pode obter o que pede antes mesmo de haver concluído sua oração.
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Assim também devemos crer que Adão transgrediu a lei de Deus, não porque tenha sido enganado a crer que a mentira era verdadeira, mas porque, em obediência a uma compulsão social, cedeu a Eva, como esposo à esposa, como o único homem no mundo à única mulher. Não sem razão escreveu o apóstolo: "Adão não foi enganado; a mulher, sendo enganada, incorreu em transgressão". Quer ele dizer, sem dúvida, que Eva aceitou como verdadeira a palavra da serpente, ao passo que Adão recusou separar-se de sua companheira mesmo numa união de pecado. Isto não implica, contudo, que fosse por isso menos culpado, uma vez que pecou com conhecimento e deliberação.
Considerai estes três temperamentos: o contemplativo, o ativo, o contemplativo-ativo. Um homem pode viver a vida da fé em qualquer um destes três e chegar ao céu. O que não é indiferente é que ame a verdade e faça o que a caridade exige. Nenhum homem deve estar tão entregue à contemplação que, em sua contemplação, não pense nas necessidades do próximo, nem tão absorto na ação que dispense a contemplação de Deus. O atrativo do ócio não deve consistir numa inatividade vazia, mas na busca ou na descoberta da verdade, tanto para o próprio progresso quanto para o propósito de partilhá-la sem reservas com os outros. Tampouco deve o homem de ação amar a posição ou o poder mundanos, pois tudo é vaidade debaixo do sol, mas somente aquilo que pode ser realizado de modo reto e útil por meio de tal posição e poder... a saber, contribuir para a salvação eterna daqueles que lhe foram confiados. Assim, como escreveu São Paulo: "Se alguém aspira ao episcopado, deseja uma boa obra." Quis ele deixar claro que o ofício episcopal, episcopatus, implica trabalho antes que dignidade.
"Quero ser bispo; ah, se eu fosse bispo!" Quem dera o fosses! Buscas o nome ou a realidade? Se é a realidade que buscas, estás pondo o coração numa boa obra. Se é o nome que buscas, podes tê-lo mesmo com uma má obra, mas com um castigo pior. Que diremos, pois? Há bispos maus? Longe disso, não há nenhum; sim, tenho a ousadia, o atrevimento de dizer que não há bispos maus; porque, se são maus, não são bispos. Estás me chamando de volta ao nome e dizendo: "Ele é bispo, porque está sentado na cátedra episcopal." Também um espantalho de palha guarda a vinha.
Mas pensas que isto não deveria ter-te acontecido, porque crês que ninguém deve ser forçado a fazer o bem. Vê o que disse o apóstolo: "Se alguém deseja o episcopado, deseja uma boa obra", e, no entanto, quantos são forçados contra a própria vontade a assumir o episcopado. Alguns são arrastados, trancafiados e mantidos sob guarda, sofrendo tudo isso contra a vontade, até que neles surja a vontade de assumir esta boa obra.
Que quer dizer Paulo ao afirmar "ou se ensoberbeça e caia na condenação do diabo"? Não significa que há de ser julgado pelo diabo, mas que há de ser condenado juntamente com o diabo. O diabo, afinal, não será nosso juiz. Ele mesmo caiu pela soberba. Como ele, aquele que se tornou ímpio por causa da soberba será condenado ao fogo eterno. Devemos considerar com cuidado, diz Paulo, a quem se dá posição de eminência na igreja, para que aquele que é elevado não caia, por soberba, no mesmíssimo juízo em que caiu o diabo.
Este não é o louvor concedido a um homem por poucos sábios e justos, mas a fama popular. De fato, a fama popular confere ao homem grandeza e renome, os quais não são desejáveis por si mesmos, mas são essenciais ao êxito dos homens bons em seus empenhos de beneficiar seus semelhantes. Assim diz o apóstolo que convém ter bom testemunho dos que estão de fora. Pois, ainda que estes não sejam infalíveis, o brilho de seu louvor e o odor de sua boa opinião são de grande auxílio aos esforços daqueles que buscam beneficiá-los. Esta fama popular não a obtêm os que ocupam os postos mais altos na Igreja, a menos que se exponham às fadigas e riscos de uma vida ativa.
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Ninguém poderia ser retamente ordenado ministro na Igreja se o apóstolo tivesse dito: "Se alguém está sem pecado", onde diz: "Se alguém está sem crime"; ou se tivesse dito: "Não tendo pecado", onde diz: "Não tendo crime". Porque muitos crentes batizados estão sem crime, mas eu diria que ninguém nesta vida está sem pecado — por mais que os pelagianos se inflem e se arrebentem em fúria contra mim por eu dizer isto: não porque reste algo do pecado que não seja remitido no batismo, mas porque nós, que permanecemos na fraqueza desta vida, não cessamos de cometer diariamente tais pecados, os quais diariamente são remitidos àqueles que oram com fé e operam com misericórdia.
Portanto, amados, com ânimo seguro e coração constante, continuemos a viver sob tão excelsa Cabeça, neste corpo tão glorioso, no qual somos membros uns dos outros. Assim, ainda que minha ausência se estendesse às terras mais distantes, estaríamos juntos nEle, e jamais nos apartaríamos da unidade do seu corpo. Se habitássemos numa só casa, certamente se diria que estamos juntos; quanto mais estamos juntos quando estamos juntos num só corpo! Cartas.
Honra a santa Igreja como tua mãe. Ama-a, proclama-a a Jerusalém que é do alto, a cidade santa de Deus. É ela que, nesta fé que ouviste, dá fruto e cresce no mundo inteiro, a Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade. Ela tolera os maus na comunhão dos sacramentos, sabendo que hão de ser dela separados no fim, e retirando-se deles, entretanto, pela dissimilitude dos costumes.
Mas, quando veio a plenitude do tempo, foi enviada a Sabedoria na carne, não para preencher os anjos, nem para ser anjo, senão enquanto anunciava o desígnio do Pai, que era também o seu próprio. Foi enviada não para estar com os homens e nos homens, pois isto já se fizera antes, tanto nos Padres quanto nos profetas, mas para que o próprio Verbo se fizesse carne, isto é, se fizesse homem. Este mistério futuro, uma vez revelado, seria igualmente a salvação daqueles homens sábios e santos que haviam nascido de mulher antes que Ele mesmo nascesse de uma virgem; e, desde que se cumpriu e foi pregado, é a salvação de todos os que creem, esperam e amam.
O cumprimento destas predições nos maniqueus é tão claro como a luz do dia para todos os que os conhecem, e já foi demonstrado tão plenamente quanto o tempo permite.
Considerando os sinais mencionados pelo Evangelho e pela profecia, que vemos acontecerem, poderia alguém negar que devemos esperar a vinda do Senhor? Manifestamente, ela se aproxima mais e mais a cada dia. Mas quanto à medida exata dessa proximidade, essa, como dissemos, "não vos compete saber." Reparai quando o apóstolo disse isto: "Pois a nossa salvação está mais próxima agora do que quando cremos. A noite vai adiantada, e o dia se aproxima," e vede quantos anos se passaram! Contudo, o que ele disse não era inverdadeiro. Quanto mais provável é dizer agora que a vinda do Senhor está próxima, quando houve tal acréscimo de tempo rumo ao fim! Certamente o apóstolo disse: "O Espírito diz manifestamente que, nos últimos tempos, alguns se apartarão da fé." Evidentemente, ainda não eram aqueles os tempos dos hereges tais como ele os descreve na mesma sentença, mas agora já vieram. Segundo isto, parece que estamos nos últimos tempos, e os hereges parecem ser um aviso do fim do mundo.
O fato de o Senhor ter sido convidado e ter vindo às núpcias, mesmo sem se considerar o sentido místico, teve por fim afirmar aquilo que Ele mesmo criara. Pois haveria de haver aqueles, dos quais falou o Apóstolo, que proibiriam o matrimônio e diriam que o matrimônio é um mal e que o diabo o instituiu, ainda que o mesmo Senhor, no Evangelho, interrogado se é lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo, respondesse que não é lícito senão em caso de fornicação.
A Igreja de Deus, estabelecida em meio a muita palha e muito joio, tolera muitas coisas; contudo, não aprova nem aceita, silenciando ou praticando, aquilo que é contrário à fé e à boa vida. Portanto, o que escrevestes acerca de certos irmãos que se abstêm da carne por crê-la imunda é manifestamente contrário à fé e à sã doutrina...
Porquanto o pecado ou a iniquidade não é a busca de coisas más por natureza, mas o abandono das coisas melhores, eis o que se encontra escrito na Escritura: "Toda criatura é boa." Toda árvore que Deus plantou no paraíso era boa. O homem, portanto, não desejou nada de mau por natureza quando tocou a árvore proibida; mas, ao apartar-se do que era melhor, ele mesmo cometeu um ato que era mau.
Assim como há, nas fantasiosas lendas dos maniqueus, uma inconsciente adoração de ídolos e demônios, assim também eles servem conscientemente à criatura em sua adoração do sol e da lua. E naquilo que chamam de seu culto ao Criador, na verdade servem à própria fantasia, e não ao Criador de modo algum. Pois negam que Deus tenha criado aquelas coisas que o apóstolo claramente declara serem criaturas de Deus, quando diz a respeito do alimento: "Toda criatura de Deus é boa, e nada há que se deva rejeitar, se é recebido com ação de graças." Esta é a sã doutrina... O apóstolo louva a criatura de Deus, mas proíbe sua adoração. E do mesmo modo Moisés tributa ao sol e à lua o devido louvor, ao mesmo tempo em que declara o fato de terem sido feitos por Deus. Foram por Ele postos em seus cursos — o sol para governar o dia, e a lua para governar a noite.
Não é a imundície do alimento que temo, mas a imundície de um apetite incontinente.
"A piedade", pois, "que é o verdadeiro culto de Deus, é proveitosa para tudo", pois desvia ou abranda as tribulações desta vida e conduz àquela outra vida, nossa salvação, onde não sofreremos mal algum e gozaremos do bem supremo e eterno. Exorto-vos, como a mim mesmo, a perseguirdes esta felicidade com mais ardor e a a ela vos aterdes com firme constância.
Mas na própria humildade do Senhor (ao consentir em ser batizado por João) há um remédio admirável; um batizava, o outro curava. Com efeito, se Cristo é o Salvador de todos, especialmente dos fiéis — é este o juízo do apóstolo, e verdadeiro, que Cristo é o Salvador de todos —, então ninguém pode dizer: "Não tenho necessidade de salvador." Se dizes isto, não te curvas humildemente às ordens do médico, mas pereces em tua enfermidade.
Contudo, a vida de quem fala tem maior peso na determinação de ser ouvido com obediência do que qualquer grandeza de eloquência. Pois aquele que fala com sabedoria e eloquência, mas vive perversamente, pode beneficiar a muitos discípulos, ainda que, como está escrito, "seja inútil à sua própria alma." ... E assim beneficiam a muitos pregando o que não praticam; mas beneficiariam a muitos mais se fizessem o que dizem. Pois há muitos que buscam uma defesa para as suas vidas más nas vidas de seus superiores e mestres, respondendo em seus corações, ou, se irrompe até aos lábios, dizendo: "Por que não fazes tu o que pregas que eu faça?" Assim acontece que não ouvem com obediência a quem não se ouve a si mesmo, e condenam a palavra de Deus que lhes é pregada juntamente com o próprio pregador. Por isso, quando o apóstolo, escrevendo a Timóteo, disse: "Ninguém despreze a tua mocidade", acrescentou a razão pela qual ele não deveria ser desprezado, e disse: "mas sê exemplo dos fiéis na palavra, no procedimento, na caridade, na fé, na castidade."
Não há outro modo de resistir à tentação do orgulho senão pela instilação do temor e do amor de Deus, mediante a frequente meditação dos livros sagrados. Mas aquele que faz isso deve mostrar-se um modelo de paciência e humildade, atribuindo a si menos honra do que lhe é oferecida, nem engolindo tudo nem recusando tudo daqueles que o honram. O louvor e a honra que aceitar não os deve receber para si mesmo — pois deve referir tudo a Deus e desprezar as coisas humanas —, mas por causa daqueles a quem não poderia ajudar se, por excessiva autodepreciação, perdesse a dignidade. A isto se aplica o dito: "ninguém despreze a tua mocidade", lembrando que aquele que disse isso também disse em outro lugar: "Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo."
De que modo se diz que os maus pastores matam as ovelhas? Levando má vida, dando mau exemplo. Acaso foi em vão que a um servo de Deus, proeminente entre os membros do sumo pastor, se disse: "Tornando-te em toda companhia exemplo de boas obras"; e: "Sê modelo para os fiéis"? Vede: até uma ovelha forte, não raro, quando percebe seu pastor levando má vida, se seus olhos se desviam das regras do Senhor e se deixam atrair por considerações humanas, começa a dizer a si mesma: "Se o meu pastor vive assim, quem sou eu para não proceder como ele?" Matou uma ovelha forte. Se, pois, matou uma ovelha forte, que deve estar fazendo às demais, visto que, por sua má vida, chacinou o que ele mesmo não havia engordado, mas que encontrara gordo e robusto?
Quando o Senhor nos exortou a orar sempre e não desfalecer, narrou o caso da viúva cuja súplica contínua levou um juiz iníquo e ímpio, que não temia a Deus nem respeitava os homens, a atender sua causa. Por isso pode-se facilmente compreender como cabe às viúvas, mais que a todas as outras, o dever de se aplicarem à oração, visto que das viúvas se tomou o exemplo para encorajar a todos nós a cultivar o amor da oração. Mas, em prática de tamanha importância, que característica das viúvas é aqui destacada senão a sua pobreza e desolação? Portanto, na medida em que toda alma compreende que é pobre e desolada neste mundo, enquanto está ausente do Senhor, seguramente recomenda a sua viuvez, por assim dizer, a Deus, seu defensor, mediante oração contínua e ferventíssima.
Há, porém, um gênero de morte que o Apóstolo detesta, quando diz da viúva: "Mas a que vive em prazeres está morta enquanto vive." Donde a alma que era ímpia, mas agora se tornou pia, diz-se que voltou à vida dentre os mortos e que vive em razão da justificação pela fé. O corpo, ao contrário, não somente se diz que há de morrer por causa da partida da alma, o que há de acontecer, mas, em não poucas passagens, já se fala dele como morto, por causa da grande fraqueza da carne e do sangue, como quando o Apóstolo diz: "O corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida por causa da justiça."
Ora, Deus, nosso mestre, ensina dois preceitos principais: o amor de Deus e o amor do próximo. Neles encontra o homem três objetos para o seu amor: Deus, a si mesmo e o seu próximo. Aquele que ama a Deus não erra em amar-se a si mesmo. Segue-se, portanto, que também se preocupará com que o seu próximo ame a Deus, visto que lhe é ordenado amar o próximo como a si mesmo. E o mesmo se diga do cuidado que deve ter por sua esposa, seus filhos, os membros de sua casa e todos os demais, tanto quanto lhe for possível. E, para o mesmo fim, desejará que o seu próximo também se preocupe por ele, caso venha a necessitar deste cuidado. Por esta razão, estará em paz, quanto de si depender, com todos. Nesta paz, viverá em harmonia ordenada. O fundamento desta ordem consiste na observância de duas regras: primeira, não fazer mal a ninguém; segunda, ajudar a todos sempre que possível. Ao homem cabe, pois, antes de tudo, o cuidado de sua própria casa — evidentemente, tanto pela ordem da natureza quanto pela estrutura da sociedade humana. Com estes tem ele contato mais fácil e mais imediato.
Quando o Apóstolo diz alhures: "Quero que as viúvas mais jovens se casem, gerem filhos, governem suas casas", recomenda o bem do matrimônio com sabedoria e autoridade apostólica. Não impõe, porém, o dever de gerar filhos. Isso não há de ser tomado como lei a observar-se, ao menos no caso daquelas que escolheram o estado de continência. Por fim, deixa claro por que disse isto, ao acrescentar: "Não deis ao adversário ocasião de nos difamar. Pois já algumas se desviaram, seguindo Satanás." Com estas palavras quer que entendamos que, para as viúvas jovens que ele julgou conveniente que se casassem, melhor teria sido a continência que o matrimônio; mas era melhor que se casassem do que se desviassem seguindo Satanás, isto é, que, voltando o olhar às coisas passadas depois de haver escolhido o excelente estado da castidade na virgindade ou na viuvez, o abandonassem e perecessem.
O Apóstolo menciona mulheres más, não casadas, que são fofoqueiras e intrometidas, e diz que este vício nasce da ociosidade. "E ainda mais", diz ele, "sendo ociosas, aprendem a andar de casa em casa, e não são apenas ociosas, mas também fofoqueiras e intrometidas, falando o que não convém." Havia dito antes destas: "Mas rejeita as viúvas mais jovens, pois quando se afastam lascivamente de Cristo, querem casar-se e são de condenar, porque romperam o primeiro compromisso", isto é, não perseveraram naquilo que primeiro haviam prometido. Contudo, não diz "Casam-se", mas "Querem casar-se", pois não é o amor ao seu nobre voto que impede a muitas delas de casar-se, mas o temor de uma indecência manifesta. E isto mesmo provém da soberba, pela qual se teme mais o desagrado humano do que o desagrado divino.
O matrimônio é um bem em tudo o que lhe é próprio enquanto estado conjugal. E estes bens são três: é o meio ordenado para a procriação, é a garantia da castidade, é o vínculo da união. Quanto à sua ordenação para a geração, diz a Escritura: "Quero, pois, que as mais jovens se casem, gerem filhos, governem a casa." Quanto à garantia da castidade, diz-se dele: "A mulher não tem poder sobre o próprio corpo, mas o marido; e da mesma forma também o marido não tem poder sobre o próprio corpo, mas a mulher." E, considerado como vínculo da união: "O que Deus uniu, ninguém separe."
"Mas nenhum dos que estavam reclinados à mesa entendeu por que lhe dissera isto. Pois alguns pensavam que, como Judas tinha a bolsa, Jesus lhe dizia: 'Compra o que nos é necessário para a festa,' ou que desse algo aos pobres." Também o Senhor, pois, tinha uma bolsa. Guardando com segurança as ofertas dos fiéis, distribuía tanto para as necessidades do seu povo quanto para outros necessitados. Estabeleceu-se, assim, o paradigma para o manejo do dinheiro da Igreja: devemos entender que seu ensinamento de que não se deve pensar no amanhã foi ensinado com este propósito, a saber, que nenhum dinheiro fosse guardado pelos santos, mas que Deus não fosse servido por dinheiro, e que a justiça não fosse abandonada por medo da necessidade. Pois também o Apóstolo, prevendo o futuro, disse: "Se alguma mulher fiel tem parentes viúvas, provenha-lhes suficientemente, para que a Igreja não seja onerada, a fim de que possa ter o bastante para as verdadeiras viúvas."
Quem é o mercenário? Aquele que vê vir o lobo e foge. Aquele que busca as coisas que são suas, não as de Jesus Cristo. Não ousa acusar abertamente o pecador. Suponhamos que alguém pecou, e pecou gravemente. Deveria ser repreendido e, talvez, excomungado. Mas, se for excomungado, imaginas tu, tornar-se-á inimigo, tramará intrigas, fará mal quando puder. Considera agora aquele que busca as coisas que são suas, não as de Jesus Cristo. Não perde aquilo que persegue, a vantagem de uma amizade humana. Não incorre no dissabor das inimizades humanas — está quieto; não corrige. Eis que o lobo agarra a garganta da ovelha. O diabo persuadiu um crente a cometer adultério. Tu te calas; não repreendes. Ó mercenário, viste vir o lobo e fugiste.
E eis aqui um dilema que amiúde ocorre: se punes um homem, podes arruiná-lo. Se o deixas impune, podes arruinar outro. Confesso que erro nesta matéria todos os dias.
O apóstolo escreve a Timóteo: “Exercita-te no domínio próprio.” É um mandamento; é uma ordem; há de ser ouvida; há de ser cumprida. Mas, a menos que Deus venha em nosso auxílio, ficamos presos. Tentamos, de fato, fazê-lo pela força de vontade, e a vontade faz algum esforço. Não deveria, porém, confiar na sua própria capacidade, a não ser que seja assistida em sua debilidade...
Se a Igreja participa dos pecados que foram proibidos pelo apóstolo, então há de se considerar que consente a eles. Sobre o Batismo, Contra os Donatistas.
Assim, muitos cristãos não comem carne, e contudo não a têm supersticiosamente por imunda. E esses mesmos que dela se abstêm quando sadios tomam-na sem escrúpulo quando enfermos, se for requerida como remédio. Muitos não bebem vinho. Não obstante, não julgam que isso os contaminaria. Antes, mostram grande compaixão e bom discernimento em prover que ele seja dado aos que tendem à prostração e a todos quantos não podem manter a saúde corporal sem ele.
Por causa das atividades necessárias desta vida, a saúde não deve ser desprezada até que "este mortal se revista da imortalidade", e essa é a verdadeira, perfeita e infindável saúde, a qual não é reanimada por prazer corruptível quando desfalece pela fraqueza terrena, mas é sustentada pela força celeste e rejuvenescida pela incorruptibilidade eterna. Diz o próprio apóstolo: "Não tenhais cuidado da carne em sua concupiscência", porquanto nosso cuidado da carne deve atender às exigências da salvação. "Pois ninguém jamais odiou a sua própria carne."
Quando é manifesta a intenção com que são cometidos, chama-os de pecados manifestos, e estes pecados precedem o juízo. Isto significa que, se o juízo os segue imediatamente, não será um juízo temerário. Mas os pecados ocultos seguem o juízo, porque nem mesmo estes permanecerão escondidos quando chegar o seu tempo próprio. E isto deve ser entendido também a respeito das boas obras.... Sobre as coisas manifestas, portanto, julguemos; mas quanto às coisas ocultas, deixemos o juízo a Deus. Pois, sejam as próprias obras más ou boas, não podem permanecer ocultas quando chegar o tempo de serem reveladas.
Tenho estado a admoestar os ricos. Vós, pobres, escutai também. Também vós deveis dar de vós mesmos; tampouco deveis entregar-vos à pilhagem. Também vós deveis dar dos vossos bens. Também vós refreai a vossa cobiça. Ouvi, ó pobres, o mesmo apóstolo: "Há grande ganho", diz ele, "na piedade com contentamento." Tendes o mundo em comum com os ricos. Não tendes uma casa em comum com os ricos, mas tendes o céu, tendes a luz em comum com eles. Buscai tão somente a suficiência, buscai o que basta, não mais que isso. O que é além disso é peso que abate, não elevação do espírito; é fardo, não recompensa.
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Feliz, pois, é aquele que tem tudo quanto deseja e não deseja o que não convém... Mas, quando os homens alcançam esse bem-estar para si e para aqueles a quem amam, poderemos dizer que são agora felizes? Têm algo que é lícito desejar, mas, se nada mais possuem, nem maior, nem melhor, nem mais proveitoso para sua vantagem e distinção pessoal, ainda estão longe da felicidade... Certamente lhes é lícito desejar tais coisas, não por causa delas mesmas, mas por outra razão, a saber, para que possam fazer o bem, provendo ao bem-estar daqueles que vivem sob seu governo; porém não lhes é lícito cobiçá-las pelo vão orgulho da autoestima, ou pela inútil ostentação, ou pela vaidade nociva.
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Nada levamos conosco, nem arrebatamos coisa alguma. E se pudéssemos levar algo — não estaríamos devorando homens vivos? Que apetite monstruosamente ávido é este, quando até as feras enormes conhecem seus limites? O momento em que elas se lançam sobre a presa, com efeito, é quando têm fome; mas, uma vez saciadas, poupam-na. Só a avareza e a cobiça dos ricos são para sempre insaciáveis.
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Mas o mundo retém seu domínio sobre nós. De todos os lados seus encantos nos seduzem. Amamos o muito dinheiro, amamos as honras esplêndidas, amamos o poder de intimidar os outros. Amamos todas essas coisas, mas ouçamos o apóstolo: "Nada trouxemos a este mundo, nem tampouco coisa alguma podemos levar dele." A honra deve buscar-te, não tu a ela. Tu, com efeito, deves sentar-te no lugar mais humilde, para que aquele que te convidou te faça subir a lugar mais honroso. Mas, se ele não o quiser, come no lugar em que estás sentado, porque nada trouxeste a este mundo.
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"O pão nosso de cada dia nos dai hoje." Pode-se entender, de modo bastante simples, que derramamos esta súplica por nosso sustento cotidiano, para que o tenhamos em abundância; e, se não o tivermos em abundância, para que ao menos dele não careçamos de todo. Chamou-o "de cada dia" enquanto durar aquilo que se chama "hoje". Diariamente vivemos, diariamente nos levantamos, diariamente nos saciamos, diariamente sentimos fome. Que Ele nos dê o nosso pão de cada dia.
Vede que combate temos com os nossos pecados mortos, como mostra aquele soldado ativo de Cristo e fiel mestre da Igreja. Pois como está morto o pecado, se opera em nós muitas coisas enquanto contra ele lutamos? Que são estas muitas coisas senão desejos insensatos e nocivos, que precipitam na morte e na destruição aqueles que a eles consentem? E suportá-los pacientemente e não lhes consentir é uma luta, um combate, uma batalha.
Não disse: Aqueles que são ricos. Disse: Aqueles que buscam tornar-se ricos…. O nome das riquezas é, por assim dizer, doce ao ouvido. Mas “muitos desejos vãos e nocivos” — soa isto doce? Estar “envolvido em muitas tribulações” — soa isto doce? Não vos deixeis enganar por um único bem falso, de modo que vos apegueis, por causa dele, a muitos males verdadeiros.
Pois, quando a alma ama seu próprio poder, ela escorrega do todo comum para sua própria parte particular. Se houvesse seguido a Deus como seu governante na criatura universal, teria podido ser excelentíssimamente governada por suas leis. Mas naquela soberba apóstata, que se chama "o princípio do pecado", buscou algo mais que o todo; e, enquanto se esforçava por governá-lo por suas próprias leis, foi lançada a cuidar de uma parte, já que nada há mais que o todo. Assim, ao desejar algo mais, torna-se menor, e por esta razão a cobiça é chamada "raiz de todos os males".
Amai, pois, a Deus, e amai a vosso próximo como a vós mesmos. Quero dizer: posso ver que vós vos amais, porque amais a Deus. A caridade é a raiz de todas as boas obras. Pois, assim como a cobiça é a raiz de todo mal, assim a caridade é a raiz de todos os bens.
"Quanto a ti, ó homem de Deus, foge destas coisas." Vede que ele não disse apenas "Deixa e abandona", mas "Foge", como de um inimigo. Tu procuravas fugir com o ouro; foge, antes, do ouro. Que teu coração fuja dele, e o uso que dele fizeres não terá por que inquietar-se. Prescinde da avareza; não prescindas do cuidado para com os outros. Há algo que podes fazer com o ouro, se dele fores senhor, e não escravo. Se és senhor do ouro, podes fazer o bem com ele; se és seu escravo, ele pode fazer o mal contigo.
Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, é, em sua própria natureza, invisível. Mas Ele apareceu quando quis e a quem quis; não como Ele é, mas do modo que quis, sendo, afinal, servido por toda a criação. Se a tua mente, ainda que invisível em teu corpo, pode manifestar-se ao proferir a tua voz, e a voz na qual a tua mente se manifesta quando falas não é a substância da tua mente, isso significa que uma coisa é a mente, outra a voz, e, no entanto, a mente se torna manifesta em algo que, em si mesmo, ela não é. Assim também Deus: se apareceu no fogo, ainda assim não é fogo; se apareceu na fumaça, ainda assim não é fumaça; se apareceu num som, não é um som. Estas coisas não são Deus, mas indicam Deus. Se tivermos isto em mente, poderemos crer com segurança que poderia ter sido o Filho quem apareceu a Moisés e foi chamado tanto Senhor quanto anjo do Senhor.
Esta é, pois, a caridade, por menor coisa que nos pareça, enquanto inerente à nossa vontade; "não se vê em lugar algum, nem se busca com os olhos corporais, nem se limita à nossa vista, nem se retém pelo tato, nem se ouve por sua enunciação, nem se percebe em sua aproximação." Quanto mais verdadeiro é isto de Deus, de quem a caridade é o penhor dentro de nós! Se o nosso homem interior é imagem d'Ele — insignificante, é certo — não gerado por Ele, mas criado por Ele, e, embora ainda se renove dia após dia, já habita em tal luz que nenhuma faculdade da visão corporal dela se aproxima; e se as coisas que percebemos com os olhos do coração por meio dessa luz se distinguem umas das outras e se separam sem intervalo algum de espaço, quanto mais verdadeiro é isto de Deus, que habita numa luz inacessível aos sentidos corporais, a quem não pode haver acesso senão para os limpos de coração! Cartas.
Se perguntas se Ele também pode ser visto alguma vez como Ele é, respondo que isto foi prometido a seus filhos, dos quais se diz: "Sabemos que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é." Se perguntas por que meio O veremos, respondo: como os anjos veem, pois então seremos iguais a eles, tal como os anjos veem aquelas coisas que se chamam visíveis; mas ninguém jamais viu a Deus nem pode vê-lO, porque "Ele habita numa luz inacessível", e sua natureza é invisível assim como é imortal.
Se, pois, só Deus tem a imortalidade, é a alma mortal? Por isso disse que a alma é imortal à sua própria maneira. Vede: ela também pode morrer. Vossas caridades devem procurar entender, e então o problema se resolverá. Ouso dizer que a alma pode morrer, pode ser morta. Certamente é imortal. Eis, pois: ouso dizer que ela é, ao mesmo tempo, imortal num sentido e passível de ser morta noutro sentido. E por isso disse que há uma espécie de imortalidade, a saber, uma imutabilidade absoluta e total, que só Deus possui, como se diz d'Ele: "Que só Ele tem a imortalidade."
Faço bem em demorar-me sobre esta questão [acerca da origem da alma], porque não tenho dúvida alguma de que a alma é imortal, não como Deus é, "Que só Ele tem a imortalidade", mas de certo modo segundo sua própria natureza, e que ela é um ser criado, não a substância do Criador: isto sustento com a maior firmeza, assim como todas as demais verdades acerca da natureza da alma.
Já me disseste, ó Senhor, por meio de uma voz alta no meu ouvido interior, que és eterno, o único que possui a imortalidade, pois não mudas nem quanto à forma nem quanto ao movimento. A tua vontade não se altera em relação aos períodos de tempo, porque nenhuma vontade é imortal se ora é de um modo, ora de outro. Isto me é claro à tua vista. Que se torne cada vez mais claro, eu Vos suplico, e que eu continue a viver sobriamente sob vossas asas protetoras, sob o influxo desta revelação.
Não eram as riquezas que ele temia, mas a doença das riquezas. A doença das riquezas é a grande soberba. Grande espírito é, na verdade, aquele que, em meio às riquezas, não se inclina a essa doença, espírito maior que suas riquezas, que as supera não desejando-as, mas desprezando-as.
Louvor aos ricos, se permanecerem humildes. Louvai os ricos por serem pobres. Aquele que escreve a Timóteo quer que assim sejam, quando diz: "Ordena aos ricos deste mundo que não sejam altivos de espírito." Sei o que estou dizendo: dai-lhes estas ordens. As riquezas que possuem sussurram-lhes persuasivamente que sejam soberbos; as riquezas que possuem tornam-lhes muitíssimo difícil serem humildes.
Aqueles que deram liberalmente de suas riquezas tiveram grandes ganhos que lhes compensaram as leves perdas. A alegria por aquilo que asseguraram para si mais firmemente pela prontidão em dar superou a tristeza pela entrega das posses que perderam mais facilmente porque a elas se apegavam com temor. A relutância em remover os seus bens deste mundo os expôs ao risco da perda. Houve os que aceitaram o conselho do Senhor: "Não entesoureis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões escavam e roubam. Ajuntai antes tesouro no céu, onde nenhum ladrão se aproxima e nenhuma traça destrói. Pois onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração." Tais pessoas provaram, no tempo da tribulação, quão sábios foram em não desprezar o mais excelente dos conselheiros e o mais fiel e inconquistável guardião do tesouro.
Por amor a esta verdadeira vida, deveis considerar-vos desolados neste mundo, por maior que seja a felicidade de que gozeis. Aquela é a verdadeira vida, em comparação com a qual esta outra, tão amada, não deve ser chamada vida, por mais agradável e longa que seja. Do mesmo modo, aquele é o verdadeiro consolo que Deus prometeu pelo profeta, dizendo: "Dar-lhes-ei verdadeiro consolo, paz sobre paz." Sem este consolo, há mais tristeza do que consolação a encontrar nos consolos terrenos, sejam quais forem.
Ensinou-nos, pois, o nosso bom Mestre, por meio do seu apóstolo, a viver retamente e a fazer o bem não para sermos louvados pelos homens — isto é, a não fazermos do louvor dos homens o motivo de praticarmos o bem —, ainda que, por causa dos homens, devamos buscar aquilo que é digno de louvor. Pois, quando os bons são louvados, o proveito recai mais sobre os que louvam do que sobre os que são louvados. Quanto a estes últimos, com efeito, basta-lhes serem bons. Já os primeiros, para quem é vantajoso imitar o bem, devem louvar o bem, porque assim dão testemunho de que aqueles a quem sinceramente louvam lhes são agradáveis. Assim diz o Apóstolo em certa passagem: "Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo." Em outra passagem, diz: "Agradai a todos em tudo, como também eu em tudo agrado a todos"; mas dá a razão: "não buscando o que me é proveitoso, mas o que é proveitoso a muitos, para que se salvem."
Não podemos nós ver, mesmo nas criaturas mudas e irracionais, nas quais não há caridade espiritual, mas somente aquela que pertence à sua natureza animal, com que ávida insistência o leite da mãe é reclamado por seus filhotes? Ora, por mais rude que seja a boca do bezerro lactente sobre o úbere, a mãe prefere isso a não haver sucção alguma, nenhuma reclamação da dívida que a caridade admite. De fato, vemos frequentemente o bezerro maior golpear com a cabeça os úberes da vaca, e o corpo da mãe ser empurrado para cima pela pressão; contudo, ela jamais expulsará seu bezerro a coices, mas, se o filhote não estiver ali para mamar, ela mugirá para que venha. Da caridade espiritual, diz o apóstolo: "Tornei-me pequenino entre vós, como uma ama que acalenta os seus filhos." Se tal caridade estiver em nós, não podemos deixar de vos amar quando nos apresentais vossa exigência. Não amamos em vós a tibieza. Ela nos faz temer que vossa força esteja a esmorecer.
Vede Paulo a ascender: "Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe), foi arrebatado até o terceiro céu e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é dado falar." Ouvistes-o ascender; ouvi-o agora descer: "Não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais, como a pequeninos em Cristo. Dei-vos a beber leite, e não alimento sólido." Eis que aquele que havia ascendido, desceu. Buscai aonde havia ascendido: "até o terceiro céu." Buscai aonde havia descido: a dar leite a pequeninos. Ouvi que ele desceu: "Tornei-me pequenino," diz ele, "em vosso meio, como se uma ama acalentasse os seus próprios filhos." Pois vemos tanto amas quanto mães descerem aos pequeninos; e, embora saibam falar corretamente, elas cortam as palavras e de algum modo mudam a sua fala, para que possam comunicar seus desejos por meio de uma linguagem simples; pois se falassem de modo maduro e gramaticalmente correto, o infante não ouviria com entendimento. Nem tampouco aproveitaria. E algum pai eloquente, ainda que seja grande orador, trovejando com a língua e fazendo ressoar as tribunas dos magistrados, se tiver um filho, ao voltar para casa, deixa de lado a eloquência forense pela qual havia ascendido e, com linguagem infantil, desce até o seu pequenino.
Eis, pois; tanto havia crescido a perseguição, e tanto a tribulação, que o salmista chegou a cansar-se de viver. Vede como o temor e o tremor vieram sobre ele, e as trevas o cobriram, como ouvistes quando isso foi dito no salmo. É, com efeito, a voz do corpo de Cristo, a voz dos membros de Cristo. Quereis reconhecer ali a vossa própria voz? Sede membros de Cristo. "Temor," diz, "e tremor vieram sobre mim, e as trevas me cobriram. E eu disse: Quem me dará asas como as da pomba, e voarei e descansarei?"... O salmista sentiu, de certo modo, cansaço da pesada carga terrena e da corrupção da carne, quando desejava voar até Cristo; uma multidão de tribulações infestava o caminho, mas não o bloqueava de todo. Estava cansado de viver, mas não da vida eterna, a respeito da qual diz: "Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro." Mas, porque era retido aqui pela caridade, como prossegue ele? "Se, porém, viver na carne é fruto do meu trabalho — e que devo escolher, não sei. Estou em aperto de ambos os lados, tendo o desejo de partir e estar com Cristo."... "Mas permanecer na carne é necessário por vossa causa." Ele havia cedido aos pios de seus pintos. Cobria-os com a extensão de suas asas, acalentando seus pintos, como ele mesmo diz: "Tornei-me pequenino em vosso meio, como uma ama que acalenta os seus filhos."
Embora a Escritura seja espiritual em si mesma, contudo, por assim dizer, frequentemente se adapta aos homens carnais e materialistas de modo carnal e materialista. Mas não quer que permaneçam carnais e materialistas. Também a mãe ama amamentar o seu filhinho, mas não o ama de modo que ele permaneça sempre bebê. Ela o segura em seu colo, acaricia-o com as mãos, consola-o com carícias, alimenta-o com o seu leite. Faz tudo isso pelo bebê, mas quer que ele cresça, de modo que não fará essas coisas para sempre. Olhai agora para o apóstolo. Podemos fixar os olhos nele com tanto mais razão porquanto ele não se furtou a chamar-se a si mesmo de mãe. Escreve ele: "Tornei-me como um menino em vosso meio, como uma ama que acalenta os seus filhos." Há, decerto, amas que acalentam crianças que não são seus próprios filhos. E há, por outro lado, mães que entregam seus filhos a amas e não os acalentam elas mesmas. O apóstolo, porém, cheio de genuínos e vivos sentimentos de amor, assume tanto o papel de ama, quando diz "acalentando", quanto o de mãe, quando completa com "os seus filhos."
Mas não há prova maior de caridade na Igreja de Cristo do que quando a própria honra, que aos olhos humanos parece tão importante, é desprezada. Por isso, a sábia providência de Salomão em impedir que os membros da criança fossem cortados em dois é como os nossos esforços para impedir que a fraqueza cristã seja despedaçada pela ruptura da unidade. Diz o apóstolo que se mostrara como mãe para os pequeninos entre os quais realizara a boa obra do evangelho — não ele, mas a graça de Deus nele. A meretriz nada podia chamar de seu senão os próprios pecados, ao passo que sua capacidade de gerar filhos vinha de Deus. E belamente diz o Senhor acerca de uma meretriz: "aquela a quem muito se perdoa, muito ama." Assim diz o apóstolo Paulo: "Tornei-me pequenino entre vós, como uma ama que acalenta os seus filhos." Mas quando se trata do perigo de a criança ser cortada em dois, quando a mulher insincera reivindica para si uma falsa dignidade de mãe e está pronta a romper a unidade, a verdadeira mãe despreza sua própria dignidade, contanto que possa ver seu filho inteiro e preservá-lo com vida. Ela teme que, se insistir com demasiada obstinação na dignidade devida à sua maternidade, dê à insinceridade a ocasião de dividir os membros débeis com a espada do cisma. Diga, pois, a mãe Caridade: "Dai-lhe o menino."
Não é, aparentemente, o começo da fé dos tessalonicenses pelo qual este mesmo apóstolo dá graças a Deus, quando diz: "Portanto, também nós damos graças a Deus sem cessar, porque, havendo recebido a palavra que de nós ouvistes, a recebestes não como palavra de homens, mas (como em verdade é) palavra de Deus, a qual opera em vós, os que credes"? Por que aqui dá graças a Deus? Certamente seria vão e sem sentido se aquele a quem dá graças por algo não fosse aquele que o fez. Mas, visto que isto não é vão nem sem sentido, certamente Deus, a quem dá graças por esta obra, é quem fez com que os tessalonicenses, tendo recebido do apóstolo a palavra pelo ouvido, a recebessem não como palavra de homens, mas, como em verdade é, como palavra de Deus. Portanto, Deus opera nos corações dos homens, por aquele chamado que é segundo o Seu propósito e do qual já muito dissemos, para que não ouvissem o evangelho em vão.
Podemos comparar o modo pelo qual nossa própria palavra se faz, por assim dizer, discurso produzido por nosso corpo, mediante a assunção desse discurso como meio de manifestar-se aos sentidos humanos, com a assunção da carne pelo Verbo de Deus como meio de manifestar-Se aos sentidos humanos. Assim como nossas palavras humanas são pensamentos humanos ainda não convertidos em discurso, assim o Verbo de Deus se fez carne, mas certamente não convertido em carne. Nossas palavras se tornam vocalizadas. Assim o Verbo divino se faz carne por uma assunção da forma exterior, e não por uma transformação de uma coisa em outra. Aquele, pois, que deseja alcançar alguma sorte de semelhança — por dessemelhante que deva ser em muitos pontos — do Verbo de Deus, não deve considerar como definitiva a palavra humana que soa ao ouvido, seja em sua enunciação vocal, seja no pensamento não proferido dela. As palavras de toda língua audível podem também ser objeto de pensamento sem serem vocalizadas. Poemas podem ser repetidos mentalmente, enquanto a boca corporal permanece silenciosa. Não apenas a série de sílabas, mas as notas de melodias, materiais como são, e dirigidas ao sentido material que chamamos audição, podem ser apresentadas, mediante suas imagens materiais, à mente pensante que as recita todas em silêncio. Devemos ir além de tudo isto para chegar à palavra humana que possa fornecer alguma pequena medida de semelhança para compreender, como em enigma, o Verbo de Deus. Não falamos aqui daquela palavra que veio a este ou àquele profeta, da qual se diz que "a palavra de Deus crescia e se multiplicava"; nem tampouco que "a fé vem do ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo"; nem ainda: "quando recebestes de nós a palavra do ouvir de Deus, a recebestes não como palavra de homens, mas, como na verdade é, palavra de Deus." Há inumeráveis exemplos nas Escrituras onde declarações semelhantes se fazem acerca da palavra de Deus, que se espalha nos sons de muitas línguas diferentes através dos corações e mentes dos homens. Mas se chama, contudo, palavra de Deus, porque se transmite doutrina divina e não humana.
Eis por que admoesto a vossa caridade e vos exorto no Senhor a estimar em pouco, meus irmãos e irmãs, as coisas presentes, que não podeis levar convosco quando morrerdes. Guardai-vos do pecado, guardai-vos de toda sorte de injustiça, guardai-vos dos apetites e da cobiça mundanos. Somente então, com efeito, é que o nosso proveito de vós permanece íntegro e a nossa recompensa plena de alegria no Senhor. Digo isto: falamos o que se há de falar. Pregamos o que se há de pregar e desobrigamo-nos de nossa dívida para com o Senhor, à vista do Senhor. Não calamos o que tememos, nem calamos o que amamos. De sorte que a espada da vingança do Senhor, sobre quem quer que caia, não pode culpar a sentinela por haver falhado em seu posto. Ainda assim, não queremos que a nossa recompensa esteja assegurada com todos vós perdidos, mas com todos vós achados. Também o apóstolo Paulo estava seguro de sua recompensa, e, contudo, que disse ele ao povo? "Agora vivemos, se estais firmes no Senhor."
Mas todo discurso sobre este tema, quando o propósito é que o que se diz não seja apenas crido, mas também entendido e conhecido, é penoso para os que ainda são espiritualmente imaturos. Estes o apóstolo diz serem carnais, necessitados de serem nutridos com leite, pois não têm a força para perceber tais coisas e são mais facilmente frustrados que alimentados. Por esta razão, sucede que os homens espirituais não recusam, em toda circunstância, discorrer sobre estas coisas com os carnais, por causa da fé católica, que deve ser pregada a todos. Contudo, tendo o desejo de transmitir algum grau de verdade a entendimentos incapazes de uma apreensão segura, cuidam de transmiti-la de modo tal que o seu discurso não seja tido em desdém, nem a verdade nele contida seja de todo ignorada. Assim, a fim de continuar a nutri-los apesar de sua imaturidade, escrevendo aos colossenses, diz: "Ainda que ausente no corpo, no espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e o que falta à vossa fé em Cristo." E aos tessalonicenses: "Noite e dia", diz, "orando mais abundantemente para que vejamos o vosso rosto e supramos o que falta à vossa fé."
Não se aparte de vossos corações a admoestação do beatíssimo apóstolo: "Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que recebestes, seja anátema." Não disse "mais do que recebestes", mas "além do que recebestes". Pois, se dissesse aquilo, ele mesmo se prejulgaria, ele que desejava vir aos tessalonicenses para suprir o que faltava à sua fé. Ora, quem supre acrescenta ao que era menor, não retira o que já havia. Mas quem vai além da regra da fé não avança no caminho, antes retrocede do caminho.
Suponhamos que primeiro o amássemos, de modo a merecer que Ele nos amasse em retorno. Então, não escolheríamos primeiro a Ele, de modo a merecer sermos escolhidos por Ele? Mas Aquele que é a própria Verdade diz o contrário e contradiz abertamente tal vaidade humana, declarando: “Vós não me escolhestes.” Por conseguinte, se não fostes vós que escolhestes, certamente não fostes vós que amastes; pois como poderiam escolher a quem não amavam? “Mas fui eu”, diz Ele, “que vos escolhi.” E como poderiam, depois disso, deixar de escolhê-lo, ou deixar de preferi-lo a todos os bens deste mundo? Foi porque foram escolhidos que o escolheram. Não foram escolhidos porque o haviam escolhido. Não haveria mérito algum em que os homens o escolhessem, se a ação da graça de Deus ao escolhê-los não a tivesse precedido. É por isso que, ao transmitir sua bênção aos tessalonicenses, o apóstolo Paulo declara: “E o Senhor vos faça crescer e abundar em caridade uns para com os outros e para com todos os homens.” Aquele que deu esta bênção de nos amarmos uns aos outros é o mesmo que nos deu o amor para nos amarmos uns aos outros.
A doença do desejo desordenado é aquilo a que o apóstolo se refere quando, falando aos fiéis casados, diz: "Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da fornicação, que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra, não na enfermidade da concupiscência, como os gentios que não conhecem a Deus". O fiel casado, portanto, não deve apenas abster-se de usar o vaso alheio — o que fazem aqueles que cobiçam as esposas de outros homens —, mas deve saber que nem mesmo o seu próprio vaso deve ser possuído na enfermidade do desejo sexual desordenado. O conselho de Paulo não deve ser entendido como se o apóstolo proibisse a coabitação conjugal — isto é, lícita e honrosa.
São muitas, pois, as espécies de concupiscência quanto a isto e àquilo; mas, quando a palavra é empregada por si mesma, sem qualificação, sugere à maioria dos homens a concupiscência da excitação sexual. Tal concupiscência não apenas invade a totalidade do corpo e os membros exteriores. Ela toma posse tão completa e apaixonada de todo o homem, tanto no corpo quanto na alma, que daí resulta o mais agudo de todos os prazeres no plano da sensação. E, no ápice da excitação, ela quase paralisa todo o poder da deliberação racional. Isto é de tal modo verdadeiro que suscita um problema para todo amante da sabedoria e dos gozos santos que, estando comprometido com a vida conjugal, tem também consciência do ideal apostólico de que cada um deve "aprender a possuir o seu vaso em santidade e honra, não na paixão da concupiscência como os gentios que não conhecem a Deus". Qualquer homem assim preferiria, se isso fosse possível, gerar seus filhos sem padecer a paixão desordenada. Poderia desejar que, assim como todos os seus outros membros obedecem à razão no cumprimento das tarefas que lhes são designadas, também os órgãos genitais funcionassem em obediência às ordens da vontade, e não fossem imoderadamente excitados pelos ardores da concupiscência.
É pela graça que não somente descobrimos o que deve ser feito, mas também fazemos o que descobrimos. Isto é, não somente cremos o que deve ser amado, mas também amamos o que cremos. Se esta graça há de ser chamada "ensino", que ao menos seja chamada "ensino" de tal maneira que se creia que Deus a infunde, juntamente com uma doçura inefável, mais profunda e mais intimamente. Este ensino, portanto, não seria apenas pela ação daqueles que plantam e regam de fora, mas igualmente por Deus, que ministra em segredo o seu próprio incremento. Tudo isto de tal modo que Deus não somente exibe a verdade, mas igualmente concede o amor.... Assim fala o apóstolo aos Tessalonicenses: "Quanto ao amor fraternal, não necessitais que vos escreva, pois vós mesmos fostes ensinados por Deus a amar-vos uns aos outros."
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No Evangelho está escrito: "E, tardando o esposo, todas adormeceram"? Se entendemos aquele sono como causado pela demora do juízo final, ao qual há de vir Cristo para julgar, e o fato de que, por ter abundado a iniquidade, esfria-se a caridade de muitos, como colocaremos ali as virgens prudentes, quando elas são antes daquelas de quem se diz: "Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo"? Diz: "todas adormeceram", porque não são somente as néscias que praticam suas boas obras por causa do louvor humano, mas também as prudentes, que as praticam para que Deus seja glorificado, as quais experimentam aquela morte. Ambas as espécies morrem. E essa morte é frequentemente chamada na Escritura de sono, assim como a ressurreição é chamada de despertar. Por isso diz o apóstolo: "Mas não quero, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que dormem", e em outro lugar, "dos quais muitos permanecem até o presente, e alguns adormeceram."
Paulo não disse apenas que não vos entristeçais, mas que não vos entristeçais como os gentios, que não têm esperança alguma. É inevitável, com efeito, que vos entristeçais; mas, quando estiverdes tristes, que a esperança vos console.
E não deveis entristecer-vos como os gentios que não têm esperança, porque temos esperança, fundada na mais firme promessa, de que, assim como não perdemos os nossos entes queridos que partiram desta vida, mas antes os enviamos adiante de nós, assim também nós partiremos e chegaremos àquela vida onde, mais do que nunca, a afeição que lhes tivermos será proporcional à intimidade que compartilhamos na terra, e onde os amaremos sem temor de separação.
E depois disto, diz-lhes ele: "Lázaro, nosso amigo, dorme; mas vou para despertá-lo do sono." Falou a verdade. Para as irmãs, ele estava morto; para o Senhor, ele dormia. Estava morto para os homens, que eram incapazes de ressuscitá-lo; pois o Senhor o despertou do sepulcro com tanta facilidade quanto vós não despertaríeis alguém adormecido de seu leito. Portanto, quanto ao seu próprio poder, falou dele como de quem dormia; pois também outros mortos são frequentemente referidos nas Escrituras como dormentes, como diz o apóstolo: "Mas não quero, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança." E assim também ele os chamou de adormecidos, porque predisse que haveriam de ressuscitar. Portanto, todo homem morto dorme, tanto o bom quanto o mau.
As palavras do apóstolo mostram com a mais absoluta clareza que haverá uma ressurreição dos mortos quando Cristo vier; e certamente o propósito de sua vinda será julgar os vivos e os mortos. Mas continuamente se pergunta se aqueles a quem Cristo há de encontrar vivos neste mundo (representados, na imagem do apóstolo, por ele mesmo e seus contemporâneos) jamais hão de morrer, ou se, naquele preciso instante em que forem arrebatados nas nuvens, juntamente com os que ressuscitam, ao encontro de Cristo nos ares, passarão com maravilhosa rapidez pela morte rumo à imortalidade. Pois não se pode dizer que lhes seja impossível morrer e tornar à vida naquele espaço de tempo em que são levados às alturas pelos ares.... O próprio apóstolo parece exigir que tomemos suas palavras neste sentido; isto é, que entendamos que aqueles a quem o Senhor há de encontrar vivos aqui sofrerão a morte e receberão a imortalidade naquele breve espaço de tempo. Ele confirma esta interpretação quando diz: "Em Cristo todos serão vivificados", e por sua afirmação em outra passagem, tratando diretamente da ressurreição do corpo: "A semente que semeias não é vivificada, se primeiro não morrer."
Que dia é, pois, este que o Senhor fez? Vivei retamente, e vós mesmos sereis este dia. O apóstolo, com efeito, não falava do dia que começa com o nascer do sol e termina com o seu ocaso, quando disse: "Andemos honestamente, como de dia"; onde também disse: "Pois os que se embriagam, embriagam-se de noite." Ninguém vê homens embriagando-se à refeição do meio-dia; mas, quando isto acontece, é coisa da noite, não do dia que o Senhor fez. Vede, pois, que, assim como aquele dia se realiza naqueles que vivem vida piedosa, santa e justa, marcada pela moderação, pela justiça, pela sobriedade, assim também, ao contrário, para os que vivem de modo ímpio, dissoluto, soberbo e irreligioso — para esta espécie de noite, a noite será sem dúvida um ladrão. "O dia do Senhor virá assim como um ladrão de noite."
Sobre o versículo: "Este é o dia que o Senhor fez." Aquilo que cantamos ao nosso Senhor, ponhamo-lo em prática com o Seu auxílio. Certamente, todo dia foi feito pelo Senhor, mas com boa razão se disse de um dia particular: "Este é o dia que o Senhor fez." Lemos que, quando Ele criou o céu e a terra, "disse Deus: 'Haja luz', e houve luz, e Deus chamou à luz Dia, e às trevas, Noite." Mas há um outro dia, bem estabelecido e por nós decerto louvável, a respeito do qual diz o apóstolo: "Andemos decorosamente como de dia." Esse dia, comumente chamado "hoje", é causado pelo nascer e pelo pôr do sol. Há ainda um outro dia, pelo qual a palavra de Deus resplandece nos corações dos fiéis e dissipa as trevas — não dos olhos, mas dos maus costumes. Reconheçamos, pois, esta luz; alegremo-nos nela; atentemos ao apóstolo quando diz: "Pois somos filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas."
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Não conhecer os tempos, portanto, é coisa distinta da corrupção dos costumes e do amor ao vício. Pois, quando o apóstolo Paulo disse: "Não vos deixeis abalar em vosso entendimento, nem vos perturbeis, seja por palavra, seja por epístola como enviada por nós, como se o dia do Senhor estivesse já próximo", evidentemente não quis que dessem crédito aos que julgavam já iminente a vinda do Senhor, mas tampouco quis que se assemelhassem ao servo mau que diz: "Meu senhor tarda em vir", entregando-se, por soberba e vida dissoluta, à perdição. Assim, seu desejo de que não desses ouvidos a falsos rumores sobre a proximidade iminente do último dia era consonante com sua vontade de que aguardassem plenamente preparados a vinda de seu Senhor, prontos para a viagem e com as lâmpadas acesas. Disse-lhes: "Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como ladrão, pois todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas."
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Donde, no que a nós concerne, que não somos capazes de distinguir os que são predestinados dos que não o são, devemos precisamente por isso querer que toda a humanidade seja salva. A repreensão severa deve ser aplicada por nós a todos como remédio, para que nem eles mesmos pereçam, nem venham a ser causa da perdição de outros. Compete, todavia, a Deus tornar proveitosa essa repreensão àqueles que Ele mesmo previu e predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Não nos abstemos de admoestar por medo de que, pela repreensão, alguém venha a perecer. Por que, então, não repreendemos também por medo de que alguém antes pereça por termos retido a admoestação? Pois não há maior ato de compaixão da nossa parte do que quando o bem-aventurado Apóstolo diz: "Repreendei os desordeiros; consolai os pusilânimes; sustentai os fracos; sede pacientes para com todos. Vede que ninguém retribua a ninguém mal por mal."
Certamente, até os bons podem estar enfermos, padecendo daquela desobediência que é a pena de uma desobediência primordial, a qual é, portanto, uma chaga ou fraqueza numa natureza que em si mesma é boa. É por causa dessa chaga que aos bons que crescem na graça e vivem pela fé durante sua peregrinação na terra são dados os conselhos: "Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo", e, em outro lugar: "Exortamo-vos, irmãos, repreendei os desordeiros, consolai os pusilânimes, sustentai os fracos, sede pacientes para com todos. Vede que ninguém retribua a ninguém mal por mal." ... É deste modo que aos cidadãos da Cidade de Deus é dado remédio durante sua peregrinação na terra, enquanto rogam pela paz de sua pátria celestial. E, decerto, o Espírito Santo opera interiormente para dar poder curativo ao remédio que é aplicado exteriormente, pois, de outro modo, nenhuma pregação da verdade seria de proveito algum. Ainda que Deus se sirva de alguma de Suas criaturas obedientes, como quando fala à maneira humana a nossos ouvidos — quer aos ouvidos do corpo, quer àquela espécie de ouvidos que temos no sono —, é somente por Sua graça interior que Ele move e governa nossa mente.
E quem observou e notou a causa do seu gemido [isto é, do salmista]? "Diante de Ti está todo o meu desejo." Pois não é diante dos homens, que não podem ver o coração, mas é diante de Ti que está patente todo o meu desejo! Esteja o teu desejo diante d'Ele, e "o Pai, que vê em secreto, te recompensará." Pois o desejo do teu coração é a tua oração. Se o teu desejo persevera ininterrupto, também persevera a tua oração. Pois não foi sem propósito que o apóstolo disse: "Orai sem cessar." Havemos, acaso, de estar "sem cessar" dobrando os joelhos, prostrando o corpo e elevando as mãos, de sorte que ele diga "sem cessar"? Se é isto o que "sem cessar" significa, não creio que seja possível. Há um outro gênero de oração interior, sem cessar, que é o desejo do coração.
Catão é, com razão, mais louvado do que César, pois, como diz Salústio a seu respeito: "Quanto menos buscava a glória, tanto mais ela o seguia." Contudo, a única espécie de glória que ambos cobiçavam era tão somente a reputação de um bom nome entre os homens; ao passo que a virtude não se apoia nos juízos alheios, mas no testemunho da própria consciência, e por isso é superior a um bom nome. Donde diz o Apóstolo: Pois a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência (2Co 1,12)... Portanto, não deveria a virtude perseguir a glória, a honra e o domínio que eles buscavam, ainda que estes homens de bem procurassem alcançar tais fins por bons meios; antes, deveriam tais coisas seguir a virtude. Não há verdadeira virtude senão aquela que persegue o fim que é o verdadeiro bem do homem. Segue-se, pois, que Catão não deveria ter buscado as honras que buscou, mas antes deveria a sua cidade tê-las-lhe outorgado por causa de sua virtude, e sem que ele as pedisse.
E quando confessamos que mentimos, dizemos a verdade, pois afirmamos o que sabemos, e sabemos que mentimos. Aquele Verbo, porém, que é Deus e mais poderoso do que nós, não pode fazer isto (...). E não fala de si mesmo, mas tudo quanto fala é daquele Pai, visto que o Pai o fala de modo singular. O grande poder daquele Verbo está em que Ele não pode mentir, porque nEle não pode haver sim e não, mas sim, sim; não, não. Pois isso nem sequer se pode chamar palavra, se não for verdadeiro.
Aprendi por vossa carta, bem como pela declaração do portador, que ardentemente desejais uma carta minha, na crença de que ela vos trará a maior consolação. Não devo recusar nem demorar esta carta, mas havereis de ver que proveito podeis dela tirar. Que a fé, a esperança e a caridade, que são difundidas nos corações dos fiéis pelo Espírito Santo, sejam vossa consolação. Recebemos um pouco dela nesta vida como penhor, para que aprendamos a ansiar por sua plenitude. Não deveis considerar-vos abandonada, posto que, na vida interior, tendes Cristo, presente em vosso coração pela fé. Carta a Itálica.
E ainda, em sua segunda carta aos Coríntios, o mesmo apóstolo diz: "Quando cheguei a Trôade para o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, não tive repouso em meu espírito, porque não encontrei Tito, meu irmão; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia." A quem declarou ele sua despedida senão àqueles que haviam crido, isto é, àqueles em cujos corações se lhe abrira uma porta para pregar o evangelho? Mas atentai bem para o que acrescenta: "Graças, porém, a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo e manifesta por nós o aroma do Seu conhecimento em todo lugar, para Deus, tanto nos que se salvam quanto nos que perecem; para uns, na verdade, cheiro de morte para morte, mas para outros, cheiro de vida para vida." Eis por que este soldado intrepidíssimo, este defensor invencibilíssimo da graça, dá graças. Eis por que dá graças — porque os apóstolos são o bom odor de Cristo para Deus, tanto naqueles que se salvam por Sua graça quanto naqueles que perecem em virtude de Seu juízo.
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Por que, então, se a lei é boa, é chamada "ministério de morte"? Porque "o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte por meio daquilo que é bom." Não te maravilhes quando se diz, acerca da pregação do evangelho: "Somos para Deus suave odor de Cristo, nos que se salvam e nos que perecem, para uns odor de vida para vida, para outros odor de morte para morte." Ora, a lei é chamada "ministério de morte" para os judeus, para quem foi escrita em pedra, a fim de simbolizar a dureza do seu coração. Mas isto não se aplica àqueles que cumprem a lei na caridade. Pois a caridade é o cumprimento da lei. A Simpliciano — Sobre Diversas Questões
Através de um homem mau a divina providência pode tanto castigar quanto consolar. Pois a impiedade dos judeus foi a ruína dos judeus e, contudo, proveu a salvação para os gentios. De novo, a divina providência através de um homem bom pode tanto condenar quanto ajudar, como diz o apóstolo: "Para uns somos odor de vida para vida, mas para outros somos odor de morte para morte." Mas toda tribulação é ou castigo dos ímpios ou provação dos justos... Além disso, a paz e o sossego dos tempos tranquilos podem tanto aproveitar aos bons quanto corromper os maus.
Não está, pois, no poder humano, mas no de Deus, que temos o "poder de nos tornarmos filhos de Deus". Recebem-no daquele que inspira no coração humano pensamentos devotos, pelos quais ele possui a "fé que opera pelo amor". Para adquirir e reter este bem, e para nele progredir perseverantemente até o fim, "não somos capazes de pensar alguma coisa como de nós mesmos, mas a nossa suficiência vem de Deus", em cujo poder estão o nosso coração e os nossos pensamentos.
Portanto, Deus ordena a continência, e Ele mesmo a concede; ordena pela lei, concede pelo Espírito; pois a lei sem a graça faz abundar o pecado, e a letra sem o espírito mata. Ordena para que aprendamos a pedir o socorro da graça quando, ao tentarmos obedecer aos seus mandamentos, caímos exaustos sob a lei em nossa fraqueza, e também para que sejamos gratos àquele que nos ajuda, se por acaso pudemos realizar alguma boa obra.
Portanto, vós que temeis o Senhor, louvai-O, e, para que O adoreis não como escravos, mas como homens livres, aprendei a amar Aquele a quem temeis, e então podereis louvar o que amais. Os homens do Antigo Testamento, temendo a Deus por causa da letra que aterroriza e mata, e não possuindo ainda "o espírito que vivifica", corriam ao templo com sacrifícios e ofereciam vítimas sangrentas. Ignoravam o que por elas era prefigurado, ainda que fossem figura do Sangue vindouro, pelo qual fomos redimidos.
Junte-se o Espírito à lei, porque, se recebeste a lei e careces do auxílio do Espírito, não cumpres o que é da lei. Não executas o que te é ordenado... Acrescente-se o Espírito, que Ele ajude: o que é ordenado se cumpre. Se o Espírito está ausente, a letra te mata... Não podes desculpar-te sob o pretexto da ignorância, visto que recebeste a lei. Ora, porque aprendeste o que deves fazer, a ignorância não te desculpa... Mas por que diz o apóstolo: "A letra mata, mas o Espírito vivifica"? Como dá o Espírito a vida? Porque faz com que a letra se cumpra, para que não mate. Os santificados são aqueles que cumprem a lei de Deus segundo o dom de Deus. A lei pode ordenar; não pode ajudar. O Espírito se acrescenta como auxiliador, e o mandamento de Deus se cumpre com alegria e deleite. Certamente muitos observam a lei por temor, mas os que guardam a lei por medo do castigo prefeririam que não existisse aquilo que temem. Ao contrário, os que observam a lei por amor à justiça alegram-se até mesmo nesse ponto, pois não a consideram hostil a si.
Seria possível que a lei não fosse de Deus? Ninguém, senão um ímpio, pensaria assim. Mas, porque a lei ordena pela letra e não ajuda pelo Espírito, todo aquele que ouve a letra da lei de tal modo que julgue bastar-lhe saber o que ela ordena ou proíbe, todo aquele que confia na força de seu próprio livre-arbítrio para cumpri-la e não se refugia na fé a fim de ser assistido, ao aproximar-se do Espírito que vivifica, para que a letra não o encontre culpado e o mate — esse tem zelo de Deus, mas não segundo a ciência.
Pois, se removeres o Espírito, de que aproveita a lei? Ela faz um prevaricador. Por isso diz a Escritura: "A letra mata." A lei ordena e tu não obedeces... Algo é ordenado, e não o fazes; algo é proibido, e o fazes. Eis que "a letra mata."
Como dá o Espírito a vida? Fazendo com que a letra se cumpra, para que não mate.
Não é o Antigo Testamento que é abolido em Cristo, mas o véu que o encobre, para que através de Cristo seja compreendido. Isto é, por assim dizer, posto a descoberto o que sem Cristo permanece oculto e obscuro. O mesmo apóstolo acrescenta logo em seguida: "Quando te converteres a Cristo, o véu será tirado." Não diz ele: "A lei ou o Antigo Testamento será tirado." Não é o caso, portanto, de que pela graça do Senhor tenha sido abolido, como inútil, aquilo que estava coberto; antes, foi removida a cobertura que ocultava a verdade útil. Isto é o que acontece com aqueles que, com zelo e piedade, e não com soberba e maldade, buscam o sentido das Escrituras. A eles se demonstra cuidadosamente a ordem dos acontecimentos, as razões das palavras e dos feitos, e a concordância do Antigo Testamento com o Novo, de modo que não resta um só ponto em que não haja perfeita harmonia; e tais verdades secretas são transmitidas em figuras. Quando trazidas à luz pela interpretação, obrigam aqueles que quiseram antes condenar do que aprender.
Sem dúvida, há um véu no Antigo Testamento, o qual será removido tão logo se venha a Cristo. Em sua crucificação, "rasgou-se o véu do templo", para significar o que o apóstolo disse acerca do véu do Antigo Testamento: "Porque em Cristo ele é anulado." Epístola, A Honorato
A verdade é que o Antigo Testamento do monte Sinai, "gerando filhos para a escravidão", já não serve senão para dar testemunho do Novo. De outro modo, não seriam verdadeiras as palavras de São Paulo: "Sim, até o dia de hoje, quando se lê Moisés, o véu permanece sobre o coração deles"; mas, quando algum deles se converte do Antigo Testamento a Cristo, "o véu será tirado". O que acontece é que as aspirações mais profundas dos que fazem essa passagem se transferem do Antigo Testamento para o Novo, e então eles passam a buscar uma felicidade espiritual — e não terrena.
Também aqueles homens justos foram salvos por sua fé salutar nele como homem e Deus. Eles, antes que viesse na carne, criam que Ele havia de vir na carne. A nossa fé é a mesma que a deles, visto que eles criam que isto haveria de acontecer, ao passo que nós cremos que já se cumpriu. Por isso diz o apóstolo Paulo: "Tendo, porém, o mesmo espírito de fé, conforme está escrito: Cri, por isso falei; também nós cremos, por isso também falamos." Se, pois, aqueles que predisseram que Cristo havia de vir na carne tinham a mesma fé que os que registraram a sua vinda, estes sagrados mistérios podem variar segundo a diversidade dos tempos, mas todos se reportam com a mais perfeita harmonia à unidade de uma só e mesma fé. Carta, A Optato.
Além disso, o nosso Mediador, ao revelar-se a nós, quis que se manifestasse o sacramento da nossa regeneração. Mas para os justos de outrora ele era algo oculto, ainda que também eles houvessem de ser salvos pela mesma fé que em seu próprio tempo se havia de revelar. Pois não ousamos preferir os fiéis do nosso tempo aos amigos de Deus por quem aquelas profecias haviam de ser proferidas, visto que Deus assim se anunciou como o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, a ponto de tomar para si esse nome para sempre. Se é correta a crença de que a circuncisão serviu no lugar do batismo nos santos de outrora, que se dirá então daqueles que agradaram a Deus antes que isto fosse ordenado, senão que lhe agradaram pela fé, porque, como está escrito na Epístola aos Hebreus: "Sem fé é impossível agradar a Deus"? "Tendo, porém, o mesmo espírito de fé", diz o apóstolo, "conforme está escrito: Cri, por isso falei; também nós cremos, por isso também falamos." Não teria dito "o mesmo" se este mesmíssimo espírito de fé não fosse também deles. Pois, assim como eles, quando este mesmo mistério estava oculto, criam na encarnação de Cristo que havia de vir, também nós cremos que ela já veio. Carta, A Dárdano.
A renovação do gênero humano, iniciada no sagrado banho do batismo, procede gradualmente e se cumpre mais depressa em alguns, mais lentamente em outros. Mas muitos estão em progresso rumo à vida nova, se considerarmos a questão com atenção e sem prejuízo. Como diz o Apóstolo: "Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o interior se renova de dia em dia." Ele diz que o homem interior se renova de dia em dia para que se torne perfeito, mas tu quererias que ele começasse já perfeito. Oxalá fosse esse verdadeiramente o teu desejo! Mas tu buscas antes desencaminhar os incautos do que erguer os fracos.
A paciência humana que é boa, louvável e digna do nome de virtude é aquela pela qual suportamos os males com equanimidade, a fim de não abandonarmos, por falta de equanimidade, o bem por meio do qual chegamos ao melhor. Por sua recusa em sofrer o mal, os impacientes não conseguem libertar-se dele; antes, trazem sobre si o sofrimento de males mais graves. Mas os pacientes, que preferem suportar as injúrias sem cometê-las a cometê-las por não as suportarem, tanto diminuem, na paciência, o que sofrem, como escapam de males piores, nos quais, pela impaciência, seriam submergidos. Cedendo a males breves e passageiros, não destroem o bem que é grande e eterno, pois "os sofrimentos do tempo presente não são dignos de comparação", diz o Apóstolo, "com a glória futura que em nós há de se revelar." E diz ainda: "A nossa leve e presente tribulação, que é passageira, produz para nós um peso eterno de glória que excede toda medida."
Se alguém disser que a causa dos vícios e dos maus hábitos reside na carne, porquanto, quando a alma é influenciada pela carne, vive de tal maneira, esse tal não terá considerado suficientemente a natureza humana em seu todo… . Mas notai que o Apóstolo, que, ao discorrer sobre o corpo corruptível, havia dito "ainda que o nosso homem exterior se corrompa", declara, um pouco adiante: "Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna nos céus." … Por um lado, nosso corpo corruptível pode ser um peso para nossa alma; por outro, a causa deste gravame não está na natureza e substância do corpo. Portanto, cientes como estamos de sua corrupção, não desejamos ser despojados do corpo, mas antes revestidos de sua imortalidade. Na vida imortal, teremos um corpo, mas ele já não será um peso, porquanto já não será corruptível.
Agora, porém, vemos obscuramente, mas então face a face; agora vemos em parte, mas então por inteiro. Mas a presente capacidade de ver nas Escrituras, obscura e parcialmente, algo que, não obstante, está de acordo com a fé católica, é obra do penhor que a igreja virgem recebeu na humilde vinda de seu esposo. Ela se desposará na vinda final dele, quando ele virá em glória e quando ela então O contemplará face a face, pois Ele nos deu um penhor, que é o Espírito Santo, como diz o apóstolo.
Quanto a este período na economia divina, no qual o Senhor se dignou aparecer no tempo e visivelmente como homem, e nos deu como penhor o Espírito Santo, por cuja obra sétupla nos é dada a vida (acrescentando-se a autoridade apostólica como o tempero de uns poucos peixes), que outra coisa opera, pois, este período da economia divina senão a possibilidade de alcançarmos o prêmio da vocação celestial sem que as forças nos faltem? "Pois andamos por fé e não por vista."
O homem, na verdade, trouxe a morte para si e para o Filho do Homem, mas o Filho do Homem, morrendo e ressuscitando, trouxe vida ao homem... Quis padecer isto à vista de seus inimigos, para que pensassem tê-lo, por assim dizer, abandonado, e para que a graça do Novo Testamento nos fosse confiada, a fim de nos fazer aprender a buscar outra felicidade, a qual agora possuímos pela fé, mas então a contemplaremos. "Pois enquanto estamos no corpo", diz o apóstolo, "estamos ausentes do Senhor, pois andamos por fé e não por vista." Portanto, agora vivemos na esperança, mas então gozaremos da realidade. Carta a Honorato
Portanto, em meio às sombras desta vida, na qual «estamos ausentes do Senhor» enquanto «andamos por fé e não por vista», deve a alma cristã considerar-se desolada e não deve cessar de orar e de atender, com o olho da fé, à palavra das divinas e sagradas Escrituras.
Disse Paulo: "Portanto, todos morreram; e Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou." Todos os homens, por conseguinte, sem exceção alguma, estavam mortos pelo pecado — pecado original, ou original acrescido de pecado pessoal —, seja pela ignorância, seja pela recusa consciente de fazer o que é reto. E por todas estas almas mortas morreu um único homem vivo — homem inteiramente isento de pecado —, com a intenção de que aqueles que se tornam vivos pelo perdão de seus pecados não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por todos morreu por causa de nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação.
Como diz o Apóstolo, e como já frequentemente repetimos: "Visto que um morreu por todos, logo todos morreram, e ele morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou." Os vivos são aqueles por quem morreu aquele que estava vivo, a fim de que vivessem; mais claramente, são libertos das cadeias da morte aqueles por quem morreu o único livre entre os mortos. Ou, ainda mais claramente: foram libertos do pecado aqueles por quem morreu aquele que jamais esteve no pecado. Ainda que tenha morrido uma só vez, morre ele por cada um naquele momento em que cada qual, seja qual for a sua idade, é batizado em sua morte; isto é, a morte daquele que era sem pecado aproveita a cada homem no momento em que, tendo sido batizado em sua morte, aquele que estava morto no pecado há de também morrer para o pecado.
Verdadeiramente livres somos, pois, quando Deus ordena a nossa vida, isto é, nos forma e nos cria não como seres humanos — isto já o fez —, mas como pessoas boas, o que agora faz por sua graça, a fim de que sejamos, de fato, novas criaturas em Cristo Jesus. Segundo o que se diz na oração: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro."
Diz ele: "Aquele [Cristo] que não conheceu pecado, Ele [Deus] o fez pecado por nós." O Deus com quem havemos de ser reconciliados fê-lo, assim, o sacrifício pelo pecado, mediante o qual podemos ser reconciliados. Ele mesmo é, portanto, pecado, como nós mesmos somos justiça — não a nossa, mas a de Deus; não em nós mesmos, mas nele. Assim como Ele foi pecado — não o seu próprio, mas o nosso, radicado não em si mesmo, mas em nós —, assim manifestou, pela semelhança da carne do pecado, na qual foi crucificado, que, não havendo nele pecado, pôde então, por assim dizer, morrer para o pecado, morrendo na carne, que era "a semelhança do pecado". E, porquanto jamais vivera segundo o velho modo de pecar, pôde, em sua ressurreição, significar a vida nova que é nossa, a qual brota de novo da velha morte em que estávamos mortos para o pecado.
Poderia acontecer que algum magistrado dissesse a um cristão: "Ou deixarás de ser cristão, ou, se persistires em sê-lo, não terás casa nem propriedade alguma." Essa será a hora em que aqueles ricos, que haviam decidido conservar suas riquezas a fim de granjear mérito diante de Deus empregando-as em boas obras, hão de escolher renunciar a elas por causa de Cristo, antes que renunciar a Cristo por causa delas... Assim se tornam como homens "nada tendo, e contudo possuindo tudo" — e a vida eterna no mundo que há de vir, para que, renunciando a Cristo por causa das riquezas, não sejam lançados na morte eterna. Carta a Hilário.
Ora, falo aos verdadeiros cristãos. Se credes, esperais e amais de modo diverso [do dos pagãos], vivei também de modo diverso e fazei aprovar a vossa fé, esperança e caridade distintas por obras distintas. Atentai para o apóstolo quando, em séria admoestação, diz: "Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos. Pois que sociedade tem a justiça com a iniquidade? Ou que comunhão tem a luz com as trevas?... Ou que parte tem o crente com o incrédulo? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?" Dia de Ano Novo
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Ademais, até mesmo a tristeza — afeto para o qual, segundo afirmam os estoicos, não se pode encontrar na alma do sábio nenhuma "disposição" correspondente — é palavra empregada em sentido bom, especialmente nos escritos cristãos. O apóstolo, por exemplo, louva os coríntios porque se entristeceram segundo Deus. Poderá, é certo, alguém objetar que o apóstolo felicitou os coríntios porque a sua tristeza os conduziu ao arrependimento, e que tal tristeza só pode ser experimentada por aqueles que pecaram. O que ele diz é isto: "Vendo que a mesma carta vos entristeceu, ainda que por um tempo, agora me alegro; não porque fostes entristecidos, mas porque a vossa tristeza vos conduziu ao arrependimento. Pois fostes entristecidos segundo Deus, de modo que em nada sofrêsseis dano por nossa causa. Porquanto a tristeza que é segundo Deus produz arrependimento que, sem dúvida, tende à salvação, ao passo que a tristeza que é segundo o mundo produz a morte. Pois eis que este mesmo fato de terdes sido entristecidos segundo Deus, que zelo operou em vós" (2 Cor 7).
Portanto, meus irmãos, como já disse antes, um lugar conveniente para o esterco ajuda a produzir fruto, mas um lugar inconveniente conduz à imundície. Disse alguém: encontrei este homem triste; vejo o esterco; examino o lugar. Dize-me, amigo, por que estás triste? Responde ele: perdi o meu dinheiro. O lugar é imundo; não há fruto. Ouça ele o apóstolo: "A tristeza que é segundo o mundo produz a morte." Olhei ainda para outro homem que gemia, chorava e orava; reconheço o esterco e examino o lugar. E mais, inclinei o meu ouvido à oração deste homem, e ouvi-o dizer: "Ó Senhor, tende piedade de mim; sarai a minha alma, pois pequei contra Vós." Lamenta ele o seu pecado; reconheço o campo; procuro o fruto. Graças a Deus! O esterco está em bom lugar; não é ali inútil; produz fruto. Este é verdadeiramente o tempo da tristeza frutuosa, para que lamentemos a condição de nossa mortalidade, a abundância das tentações, os ataques sorrateiros dos pecadores, o choque dos desejos, os conflitos das paixões que sempre se rebelam contra os bons pensamentos. Por isto choremos; entristeçamo-nos por causa deste estado de coisas.
E, em outra passagem, diz ele: "A tristeza que é segundo Deus produz arrependimento que tende à salvação, do qual ninguém se arrepende." Aquele que se entristece segundo Deus entristece-se em arrependimento pelos seus pecados; a tristeza por causa da própria iniquidade produz justiça. Primeiro, desagrade-te aquilo que és, para que possas ser o que não és. "A tristeza que é segundo Deus produz arrependimento que tende à salvação, do qual ninguém se arrepende." Diz ele: "arrependimento que tende à salvação." Que espécie de salvação? Aquela de que ninguém se arrepende. Que significa isto? Aquela de que jamais te arrependerás. Pois tivemos uma vida da qual deveríamos ter-nos arrependido; tivemos uma vida capaz de inspirar arrependimento. Mas não podemos chegar àquela vida de que ninguém se arrepende senão pelo arrependimento de uma vida má. Encontrareis vós, meus irmãos, como havia começado a dizer, algum dia esterco num monte de trigo já peneirado? Contudo, o trigo chega àquele brilho, àquele belo e formoso aspecto, por meio do esterco; a imundície foi o caminho para um belo resultado.
Ouve agora algo sobre as riquezas, em resposta à próxima indagação de tua carta. Nela escreveste que alguns dizem que um homem rico, se continuar a viver rico, não pode entrar no reino dos céus, a menos que venda tudo quanto possui, e que de nada lhe aproveita guardar os mandamentos enquanto guarda suas riquezas. Os argumentos destes esqueceram nossos pais, Abraão, Isaac e Jacó, que há muito partiram desta vida. É fato que todos estes possuíam extensas riquezas, como a Escritura fielmente testemunha; contudo, Aquele que se fez pobre por amor de nós, embora fosse verdadeiramente rico, predisse, em promessa verdadeira, que muitos viriam do oriente e do ocidente, e se assentariam, não acima deles nem sem eles, mas com eles, no reino dos céus. Sim, o soberbo rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias, morreu e foi atormentado no inferno. Não obstante, se houvesse mostrado misericórdia ao pobre coberto de chagas que jazia à sua porta e era tratado com desprezo, ele mesmo teria merecido misericórdia. E se o mérito do pobre fosse sua pobreza, e não sua bondade, certamente não teria sido levado pelos anjos ao seio de Abraão, o qual fora rico nesta vida. Isto se destina a mostrar-nos que não foi a pobreza em si mesma o que foi divinamente honrado, nem foram as riquezas condenadas, mas que a piedade de um e a impiedade do outro tiveram suas próprias consequências. Carta a Hilário.
Que ser humano poderia conhecer todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento ocultos em Cristo, e escondidos sob a pobreza de sua humanidade? Pois, "sendo rico, fez-se pobre por amor de nós, para que, por sua pobreza, fôssemos enriquecidos." Ao assumir nossa mortalidade e vencer a morte, manifestou-se em pobreza, mas prometeu riquezas, ainda que diferidas; não as perdeu como se lhe fossem tiradas. Quão grande é a multidão de sua doçura, que Ele oculta aos que O temem, mas revela aos que n'Ele esperam! Pois conhecemos apenas em parte, até que venha a nós o que é perfeito. Para que sejamos feitos dignos deste dom perfeito, Ele, igual ao Pai na forma de Deus, fez-se semelhante a nós na forma de servo, e nos reformula à semelhança de Deus.
E visto que o próprio Apóstolo diz: "Isto, porém, digo: aquele que semeia parcamente, parcamente também ceifará", deveis entender que agora é o tempo, enquanto ainda estamos nesta vida, de sermos prestes e ávidos em comprar o dom da vida eterna, pois, quando vier o fim do mundo, ele só será dado àqueles que o houverem comprado para si pela fé, antes que pudessem vê-lo.
O erro fundamental destes homens, que preferem trilhar caminhos tortuosos de erro a manter-se na senda reta da verdade, é que não possuem senão suas próprias mentes humanas, pequeninas e mutáveis, para medir a mente divina — infinitamente ampla e absolutamente imutável, mente capaz de contar coisas incontáveis sem passar de uma a outra. Tais homens, para usar as palavras do apóstolo, "comparando-se consigo mesmos", terminam por não entender coisa alguma. Com efeito, cada vez que tais filósofos decidem fazer algo, é-lhes necessário formar uma nova resolução mental, porquanto suas mentes são mutáveis, e imaginam que assim se dá também com Deus. Não tendo noção de Deus, confundem-se a si mesmos com Ele, e, em vez de medir Deus por Deus, comparam-se consigo mesmos.
Queres saber como a Igreja é virgem? Ouve o apóstolo Paulo; ouve o amigo do Esposo, que não zela por si mesmo, mas pelo Esposo: "Desposei-vos com um só esposo." Falou à Igreja. A qual Igreja? A todas as que sua carta pudesse alcançar. "Desposei-vos com um só esposo, para vos apresentar como virgem casta a Cristo. Mas temo," disse ele, "que, assim como a serpente enganou Eva com sua astúcia..." Acaso essa serpente jamais corrompeu fisicamente Eva? Contudo, destruiu-lhe a virgindade do coração. Por isso disse Paulo: "Temo que... vossas mentes se corrompam daquela castidade que há em Cristo." Portanto, a Igreja é virgem; ela é virgem, que seja virgem. Guarde-se do enganador, para que este não se revele um corruptor. A Igreja é virgem. Talvez me digas: "Se a Igreja é virgem, como gera filhos? Ou, se não gera filhos, como demos nossos nomes para que dela nascêssemos?" Respondo: "Ela é virgem e também gera filhos." Ela imita a Maria, que gerou o Senhor. Acaso a santa Maria não gerou seu Filho e permaneceu virgem? Assim também a Igreja gera filhos e é virgem. E, se considerares um pouco a questão, ela gera a Cristo, porque os que são batizados são membros dEle.
À mesma Igreja diz o apóstolo: "Pois vos prometi a um só esposo, para vos apresentar como virgem casta a Cristo." ... A Igreja, pois, à semelhança de Maria, possui íntegra integridade e incorrupta fecundidade. O que Maria mereceu na carne, a Igreja o guardou espiritualmente, com a diferença de que Maria gerou um só Filho, ao passo que a Igreja tem muitos filhos, destinados a serem reunidos em um só corpo por Um só.
Por que Paulo se dirige a todas essas diferentes pessoas como "virgem casta", senão porque se refere à sua fé, esperança e caridade? Festa da Natividade
Quanto ao poder das trevas, que é ele senão o poder do diabo e de seus anjos, os quais, depois de terem sido anjos de luz, não usaram de seu livre-arbítrio para permanecer na verdade, mas, caindo dela, tornaram-se trevas? Não vos ensino isto; aconselho-vos antes a relembrar o que já sabeis. Assim, o gênero humano tornou-se sujeito a este poder das trevas pela queda do primeiro homem, que foi induzido por aquele poder a cometer o pecado, e nele todos nós caímos. Carta, A Vital.
Tão poderoso é o atrativo da virtude da pureza que praticamente todo ser humano se compraz em ouvi-la louvada, e ninguém está tão afundado na depravação a ponto de ter perdido todo senso de decência. Por isso, a menos que a malignidade dos demônios em algum ponto "se transforme em anjo de luz", como lemos em nossa Escritura, não pode ela levar a cabo o seu ofício de engano.
Satanás por vezes se transforma em anjo de luz a fim de provar aqueles que precisam ser provados ou de enganar aqueles que merecem ser enganados. Nada senão a grande misericórdia de Deus pode salvar o homem de tomar por engano os maus demônios por bons anjos e os falsos amigos por verdadeiros, e de sofrer todo o dano desta diabólica ilusão, que é tanto mais mortífera quanto mais astuta além de toda palavra.
Estas ilusões são aparições daquele espírito que busca enredar as almas infelizes nos ritos enganosos de uma multidão de falsos deuses e desviá-las do verdadeiro culto ao verdadeiro Deus, pelo qual somente elas podem ser purificadas e curadas.
Há, pois, alguns que ocupam a cátedra pastoral para cuidar do rebanho de Cristo, mas há outros que nela se assentam para satisfazerem-se com honras temporais e vantagens mundanas. Estas são as duas espécies de pastores, uns morrendo, outros nascendo, os quais hão de perdurar na própria Igreja Católica até o fim do mundo e o juízo do Senhor. Se tais homens existiram nos tempos dos apóstolos, os quais o apóstolo lamentava como falsos irmãos quando disse: "Perigos entre falsos irmãos", e ainda assim não os rejeitou com soberba, mas os suportou e tolerou, quanto mais provável não será que existam tais homens em nossos tempos. Carta, A Felícia.
Quão grandes queixas faz o apóstolo Paulo a respeito dos falsos irmãos. Contudo, não foi ele contaminado pela companhia física destes, porquanto dele se distinguiam por esta marca: a pureza de coração. Carta, A Macróbio.
Não quer Paulo dizer que fingia a fraqueza deles, mas que com ela se compadecia. Carta, A Jerônimo.
E o apóstolo Paulo, quando foi descido pela janela num cesto, para que seu inimigo não o capturasse, e assim escapou de suas mãos, acaso privou a igreja que ali estava de um ministério necessário, e aquele ofício não foi desempenhado por outros irmãos designados para tal fim? O apóstolo assim agiu por deferência à vontade deles, a fim de se preservar para a igreja, visto ser ele o único que o perseguidor buscava. Portanto, que os servos de Cristo, os ministros de sua palavra e de seu sacramento, façam o que ele ordenou ou permitiu. Que fujam, por certo, de cidade em cidade, quando algum deles for pessoalmente buscado pelos perseguidores, contanto que a igreja não seja abandonada pelos demais que não são assim perseguidos e que podem prover o alimento a seus companheiros de serviço, sabendo que, de outro modo, estes não poderiam viver. Mas quando o perigo é comum a todos — isto é, a bispos, clérigos e leigos —, não devem os que dependem de outros ser desamparados por aqueles de quem dependem. Portanto, ou todos se retirem para lugares de refúgio, ou os que hão de permanecer não sejam abandonados por aqueles que ministram às suas necessidades espirituais; assim, todos igualmente poderão viver e padecer o que quer que o Senhor da casa queira que suportem. Carta a Honorato.
Mas, se até os anjos, cuja natureza é simples e espiritual, se diz que possuem línguas com as quais cantam louvores ao seu Senhor e Criador e Lhe rendem incessantes ações de graças, muito mais devem fazê-lo os corpos espiritualizados dos homens depois da ressurreição. Pois todos os membros da sua carne glorificada terão línguas em suas bocas, e darão voz às suas línguas que falam, e assim proferirão divinos louvores, o derramar em palavras do seu amor e das alegrias que enchem até os seus próprios sentidos. Sem dúvida o Senhor acrescentará isto à graça e à glória dos seus santos no tempo do Seu reino: que, quanto mais perfeitamente alcançarem esta bem-aventurada condição do corpo por uma feliz transformação, tanto mais plenamente cantarão com língua e voz. Estabelecidos em seus corpos espirituais, falarão, talvez, não com línguas de homens, mas com as dos anjos, tais como o apóstolo ouviu no paraíso.
“E então”, perguntam eles, “o diabo é bom porque é útil?” Pelo contrário, ele é mau enquanto diabo, mas Deus, que é bom e onipotente, tira muitas coisas justas e boas da malícia do diabo. Pois ao diabo cabe apenas a sua vontade, com a qual tenta fazer o mal, e não a providência de Deus, que dele tira o bem.
Portanto, nestas provações que podem ser tanto para nossa bênção quanto para nossa ruína, “não sabemos o que havemos de pedir”, e contudo, porque são duras, porque são dolorosas, porque contrariam o sentimento de nossa fraqueza humana, por uma vontade universalmente humana rogamos que nossas tribulações se afastem de nós. Mas devemos ao Senhor nosso Deus esta devoção: que, se Ele não as remove, não pensemos que fomos abandonados por Ele, mas antes, suportando com amor o mal, esperemos um bem maior. É assim que a força se aperfeiçoa na fraqueza. A alguns, na verdade, a quem falta paciência, o Senhor Deus, em sua ira, concede o que pedem, assim como, ao contrário, em sua misericórdia recusou os pedidos do apóstolo.
Nem todo aquele que poupa é amigo, nem todo aquele que fere é inimigo... O amor misturado com a severidade é melhor que o engano com a indulgência. É mais proveitoso que se tire o pão do faminto, se ele negligencia o bem viver por estar seguro de seu alimento, do que se lhe parta o pão, levando-o a errar na conivência com o mal. Tanto aquele que enclausura o louco quanto aquele que desperta o letárgico incomodam a ambos, mas amam a ambos. Quem poderia amar-nos mais do que Deus nos ama? Contudo Ele continuamente nos ensina com doçura e ao mesmo tempo nos atemoriza para nosso bem. Muitas vezes, acrescentando aos remédios brandos com que nos consola o medicamento mais picante da tribulação, Ele prova os patriarcas, ainda que bons e devotos, pela fome; castiga um povo obstinado com castigos mais pesados; não retira do apóstolo o espinho da carne, ainda que pedido três vezes, a fim de aperfeiçoar a força na fraqueza. Carta a Vicente.
Quanto mais facilmente alguém vence, tanto menos necessita de combate. Mas quem lutaria dentro de si mesmo, se não houvesse oposição de si para consigo? E por que há oposição de si para consigo, senão porque algo resta em nós que precisa ser sarado e curado? Portanto, a única causa de nosso combate é a fraqueza que há em nós. De novo, a fraqueza adverte contra a soberba. Verdadeiramente, aquela força e virtude pela qual alguém não se ensoberbece nesta vida, onde poderia ensoberbecer-se, é aperfeiçoada na fraqueza.
Assim como o homem não teria sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus, a não ser que, segundo as palavras do profeta, tivesse recebido "o espírito de sabedoria e de entendimento, de conselho e de fortaleza, de ciência e de piedade, e de temor de Deus", e assim como não teria poder, amor e temperança, senão recebendo o Espírito de quem fala o Apóstolo: "Não recebemos o espírito de temor, mas de poder, de amor e de temperança", assim também não teria fé, a menos que recebesse o espírito de fé.
Por que, pois, é que, no que se segue, onde mencionam o que os próprios pelagianos pensam, dizem confessar que "a graça também assiste ao bom propósito de cada um, mas que, contudo, não infunde o desejo da virtude num coração relutante"? Dizem isto como se o homem, por si mesmo, sem o auxílio de Deus, tivesse um bom propósito e um desejo de virtude, de onde este suposto mérito precedente seria digno de ser assistido pela graça subsequente de Deus. Pois pensam talvez que o apóstolo disse assim: "Pois sabemos que Ele faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que amam a Deus, que são chamados segundo o propósito", de modo a querer que se entendesse o propósito do homem. Este propósito é então tido como um bom mérito, ao qual se seguiria a misericórdia de Deus que chama. Ignoram que se diz "que são chamados segundo o propósito" de modo que isto se entenda como o propósito de Deus, não do homem. Assim, aqueles que Ele de antemão conheceu e predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, Ele os elegeu antes da fundação do mundo... Este é, pois, o propósito de Deus, em relação ao qual se diz: "Ele faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que são chamados segundo o seu próprio propósito". De fato, a graça subsequente assiste ao bom propósito do homem, mas o próprio propósito não existiria se a graça não o precedesse.
Não é Ele, ao mesmo tempo, cordeiro e leão, tanto em Sua paixão quanto em Sua ressurreição? Discernamos o cordeiro na paixão. "Ele foi", como há pouco vos lembramos, "mudo como um cordeiro diante do que o tosquia, e não abriu a boca" (Is 53.7). Discernamos o leão na paixão. Disse Jacó: "Levantaste-te: descansando, dormiste como um leão" (Gn 49.9). Discernamos o cordeiro na ressurreição. Quando o Apocalipse fala da glória eterna das virgens, diz: "Seguem o Cordeiro por onde quer que vá" (Ap 14.4). Discernamos o leão na ressurreição. Diz também o Apocalipse: "O leão da tribo de Judá venceu para abrir o livro" (Ap 5.5). Por que é cordeiro em Sua paixão? Porque, sendo inocente, sofreu a morte. Por que é leão em Sua paixão? Porque, ao ser morto, matou a morte. Por que é cordeiro em Sua ressurreição? Porque Sua inocência é eterna. Por que é leão em Sua ressurreição? Porque Seu poder é eterno.
Diz Paulo [em outro lugar]: "Guardei a fé" (2 Tm 4.7), mas o mesmo apóstolo diz também: "Pois sei em quem tenho crido, e tenho certeza de que Ele é poderoso para guardar o que Lhe confiei até aquele dia" (2 Tm 1.12). "O que Lhe confiei" significa: o que Lhe encomendei, pois alguns exemplares [latinos] não trazem a palavra depositum, mas commendatum, que é mais clara. Ora, que confiamos nós à guarda de Deus, senão aquilo que rogamos que Ele preserve? Não está entre estas coisas a própria fé? Pois que confiou o Senhor ao apóstolo Pedro, por Sua oração em favor dele, quando lhe disse: "Roguei por ti, Pedro, para que a tua fé não desfaleça" (Lc 22.32)? Isto significa que Deus preservaria sua fé, e que ela não desfaleceria cedendo à tentação.
Não nos inquietamos com as necessidades da vida, porque, quando podemos realizar estes trabalhos, Ele nos alimenta e nos veste como aos homens em geral se alimenta e se veste. Quando, porém, não podemos trabalhar, então Ele nos alimenta e nos veste assim como alimenta as aves e veste os lírios, visto que valemos mais do que eles. Portanto, nesta nossa milícia, não pensamos no dia de amanhã, porque não é pelos cuidados temporais pertencentes ao amanhã, mas pelas coisas eternas, o cuidado do sempiterno hoje, que nos provamos diante d'Aquele a quem não podemos agradar se estivermos enredados nos negócios do mundo.
Creiamos em Cristo crucificado; mas nele como aquele que ressuscitou ao terceiro dia. Esta é a fé que nos distingue deles, que nos distingue dos pagãos, que nos distingue dos judeus — a fé pela qual cremos que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Diz o Apóstolo a Timóteo: "Lembra-te de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, da semente de Davi, segundo o meu evangelho." E de novo o mesmo apóstolo: "Porque, se confessares com a tua boca," diz ele, "que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo." Esta é a salvação, o bem-estar, a segurança e a sanidade, das quais tratei ontem. Quem crer e for batizado será salvo. Sei que credes; sereis salvos. Guardai firmemente em vossos corações, professai-o com vossos lábios: que Cristo ressuscitou dos mortos.
Devemos ser humildes de coração, com a mais sincera devoção, durante todo o tempo deste exílio peregrino, no qual vivemos em meio a provações e tentações. Se assim é, quanto mais devemos sê-lo durante estes dias, em que, além de passarmos este tempo de humildade vivendo-o, também o significamos por meio da nossa celebração litúrgica dele. A humildade de Cristo nos ensinou a ser humildes, porque, ao morrer, Ele se entregou aos ímpios. A grandeza de Cristo nos exalta, porque, ao ressuscitar, Ele abriu caminho para os piedosos... Celebramos uma destas coisas agora, quando a sua paixão, por assim dizer, se aproxima. Celebramos a outra depois da Páscoa, com a devida devoção, quando a sua ressurreição, por assim dizer, já se consumou.
Deus é onipotente, e, por ser onipotente, não pode morrer, não pode ser enganado, não pode mentir, e, como diz o apóstolo, "não pode negar-se a Si mesmo". Muitíssimas coisas Ele não pode fazer, e, contudo, é onipotente. É precisamente porque não pode fazer estas coisas que Ele é onipotente. Se pudesse morrer, não seria onipotente. Se pudesse mentir, se pudesse ser enganado, se pudesse enganar, se lhe fosse possível cometer injustiça, não seria onipotente. Se nele houvesse a possibilidade de qualquer destas coisas, tais atos não seriam dignos do Onipotente. Absolutamente onipotente, nosso Pai não pode pecar.
A única coisa que o Onipotente não pode fazer é aquilo que não quer, para que ninguém julgue haver sido muita temeridade minha dizer que o Onipotente "não pode" fazer algo. Também o bem-aventurado apóstolo o disse: "Se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a Si mesmo". Mas é porque não quer que não pode fazê-lo, porque nem sequer pode ter a vontade de fazê-lo. A justiça, com efeito, não pode ter a vontade de fazer o que é injusto, nem a sabedoria, de querer o que é insensato, nem a verdade, de querer o que é falso.
Um bom mestre escolhe uma boa vida de tal modo que não negligencie também a boa reputação, provendo "não somente o que é bom diante de Deus, mas também diante dos homens", na medida em que lhe seja possível, temendo a Deus e cuidando dos homens. No próprio discurso, deve preferir agradar mais pelos sentidos expressos do que pelas palavras empregadas para exprimi-los. Nem deve pensar que algo se possa dizer melhor do que aquilo que é dito verdadeiramente. Nem deve o mestre servir às palavras, mas as palavras ao mestre.
Portanto, todos quantos fundaram alguma seita religiosa, ainda que falsa, desejando ser cridos, não puderam negar esta ressurreição das almas humanas. Todos concordaram nisso; mas muitos negaram a ressurreição da carne e disseram que a ressurreição já se dera na fé…. Diziam que a ressurreição já havia ocorrido, mas de tal modo que não se devia esperar outra; e censuravam os que esperavam a ressurreição da carne, como se a ressurreição que fora prometida já se cumprisse na alma humana pelo crer.
E sabemos que o apóstolo disse dos vasos postos na grande casa: "Se, pois, alguém se purificar destes, será vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra." Mas de que modo cada um deve purificar-se destes, ele o mostra um pouco antes, dizendo: "Aparte-se da iniquidade todo aquele que profere o nome de Cristo." Isto, para que não seja, no último dia, arrebatado com a palha da eira. Nem seja, por fim, separado ao ouvir o mandamento: "Apartai-vos de mim, vós que operais a iniquidade." Sobre o Batismo, Contra os Donatistas.
Algo está sempre a suceder neste lagar de azeite. O mundo é o lagar; não há fim para as suas pressões. Sede azeite, não borra. Converta-se cada um de vós a Deus e mude o seu modo de vida. O azeite segue por canais ocultos até os seus recônditos tanques. Outros pecam, escarnecem, blasfemam, fazem acusações estridentes pelas ruas — a borra está a escorrer. Contudo, o Senhor do lagar não cessa de operá-lo por meio dos seus obreiros, os santos anjos. Ele conhece o seu azeite; sabe quanto ele pode suportar, a pressão exata necessária para dele o extrair. "O Senhor conhece", vedes, "os que são seus." Evitai a borra. Ela é turva, exposta a céu aberto para que todos a vejam.
A abundância dos maus no mundo é o grande monte de matéria necessária para a refinação dos bons. Ainda que os bons não possam ser vistos, misturados na vasta multidão dos maus, o Senhor conhece os que são seus. Sob a mão de tão grande artífice, o grão de ouro não pode perder-se no imenso monte de palha. Quanta palha há, e quão pouco ouro! Mas não temais: o artífice é tão grande que pode refiná-lo e não pode perdê-lo.
São os eleitos que se entendem na carta a Timóteo, onde, após menção das tentativas de Himeneu e Fileto de solapar a fé, o texto prossegue: "Mas o firme fundamento de Deus permanece de pé, trazendo este selo: 'O Senhor conhece os que são seus.'" A fé destes últimos, que opera por meio da caridade, ou jamais falha, ou, se falhar em alguns, a perda é reparada antes da morte, o pecado que interveio é apagado e a perseverança até o fim lhes é concedida. Por outro lado, aqueles que não hão de perseverar até o fim, os que hão de decair da fé e da conduta cristãs, de tal modo que o termo desta vida os encontrará assim decaídos — estes certamente não devem ser contados no número dos eleitos, nem mesmo no tempo em que vivem na bondade e na piedade.
Mas na comunidade cristã, no que concerne à partilha e à comunhão nos sacramentos, estes foram multiplicados além de todo número. Uma coisa, pois, é o número; outra, o que está além do número. O número são aqueles de quem o apóstolo diz: O Senhor conhece os que são seus. Há, porém, alguns além do número, pois numa casa grande não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; uns para uso nobre, outros para uso ignóbil. O número, portanto, aplica-se aos vasos para uso nobre; além do número estão os vasos para uso ignóbil.
Aquela lei da caridade foi pronunciada pelos lábios do Senhor Cristo, pois são suas aquelas parábolas acerca do joio espalhado pelo mundo na unidade do campo até o tempo da colheita, e acerca dos peixes maus que hão de ser deixados na mesma rede até o tempo de aportarem à praia.
Cipriano argumentou contra aqueles que, sob o pretexto de evitar a companhia dos ímpios, haviam-se apartado da unidade da igreja. Pela grande casa de que falou o apóstolo — na qual havia não somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro —, Paulo não entendia outra coisa senão a igreja. Na igreja deve haver bons e maus, até que, no último dia, ela seja purificada como uma eira pela pá aventadora. Do Batismo, Contra os Donatistas.
Sendo tão numerosos os enganos e erros dos homens ímpios e perversos que clamam contra a sabedoria, quão grande é a necessidade de um olho limpo e único para se encontrar o caminho da sabedoria! Escapar de todos estes é o mesmo que alcançar a suprema segurança da paz e a morada imutável da sabedoria. O rumor dos contendores é de pouca monta, a menos que o homem se torne obstáculo até para si mesmo. Mas isto poucos o podem ver, e há grande perigo de que ninguém o veja em meio à contenda e à luta... Portanto: "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus."
Confesse Pelágio que o perdão é concedido ao penitente segundo a graça e a misericórdia de Deus, não segundo os seus méritos. É essa mesma penitência que o apóstolo chamou dom de Deus, quando disse de alguns: "Para que Deus lhes conceda, porventura, a penitência."
Ora, a própria penitência é muitas vezes omitida por fraqueza, ainda quando no costume eclesiástico haja razão suficiente para que se realize. Pois a vergonha é o temor de desagradar aos homens, quando alguém ama mais a boa opinião do que atenta para o juízo que o faria humilde na penitência. Assim, não somente para que alguém se arrependa, mas também para que seja capacitado a fazê-lo, é necessária de antemão a misericórdia de Deus. Do contrário, não diria o apóstolo de alguns: "Se, porventura, Deus lhes conceder a penitência."
Mas, então, na correção e repressão dos pecados alheios, deve-se ter cuidado para que, ao repreender outrem, não se ensoberbeça a si mesmo. Deve-se recordar a sentença do apóstolo: "Aquele que pensa estar em pé, olhe para que não caia." Soe exteriormente a voz da repreensão em tons de severidade; conserve-se interiormente o espírito de amor e de mansidão... Assim, não se deve consentir no mal a ponto de aprová-lo, nem ser negligente a ponto de não o reprovar, nem ser soberbo a ponto de reprová-lo em tom de ultraje.
Não pensamos que, nesta passagem, ele tenha empregado seus verbos no tempo presente em lugar do futuro, pois, de fato, admoestava seu correspondente a evitar tais pessoas. Contudo, tinha um propósito ao dizer: "Nos últimos tempos sobrevirão dias perigosos." Ele demonstra que os tempos serão perigosos ao profetizar que os homens maus se multiplicarão à medida que o fim se aproxima. Já são numerosos no presente. Mas que importa isso, se serão ainda mais numerosos depois de nós, e numerosíssimos quando o próprio fim estiver iminente, ainda que não se saiba quão distante ele está? Com efeito, aqueles últimos dias já eram anunciados mesmo nos primeiros dias dos apóstolos, quando a ascensão do Senhor aos céus era acontecimento recente… Havia, pois, últimos dias já então! Quanto mais agora o são, ainda que restassem tantos dias até o fim quantos já transcorreram desde a ascensão do Senhor até hoje, ou ainda que restem mais ou menos dias por vir! Cartas–.
Não há, com efeito, ninguém que não ame a si mesmo. Mas devemos buscar a espécie reta de amor e evitar a espécie errada. Pois quem ama a si mesmo deixando Deus fora de sua vida, e deixa Deus fora de sua vida amando a si mesmo, nem sequer permanece em si mesmo, mas se afasta de si mesmo... Ouvi o apóstolo dando apoio a este entendimento da questão. "Nos últimos dias", diz ele, "sobrevirão tempos perigosos". Quais são os tempos perigosos? "Haverá homens que amam a si mesmos". Aí está o cerne do mal. Vejamos, pois, se permanecem em si mesmos amando a si mesmos; vejamos, ouçamos o que se segue: "Haverá homens, diz ele, que amam a si mesmos, avarentos". Onde estás agora, tu que estavas ocupado em amar a ti mesmo? Evidentemente, estás fora. Pergunto-te: acaso és o dinheiro? Evidentemente, depois de amares a ti mesmo negligenciando a Deus, ao amares o dinheiro abandonaste até mesmo a ti mesmo.
Visto que já dei um exemplo de amor [amor] empregado em bom sentido, talvez alguém queira um exemplo da mesma palavra empregada em mau sentido. Se assim é, leia o texto: "Os homens serão amantes [amantes] de si mesmos, avarentos [amatores pecuniae]".
Excluí o mau amor do mundo, para que sejais repletos do amor de Deus. Sois um vaso, mas ainda estais cheios. Derramai o que tendes, para que recebais o que não tendes…. É-nos bom não amar o mundo, para que os sacramentos não permaneçam em nós para nossa condenação, em vez de serem os sustentáculos da nossa salvação. O sustentáculo da salvação é ter a raiz do amor, ter o poder da piedade, e não somente a forma exterior.
Ouvistes agora mesmo, quando se leu aquela leitura, que Simão Mago foi batizado e, contudo, não deixou de lado a sua má mente. Tinha a forma do sacramento, mas o poder do sacramento não tinha. Ouvi o que o Apóstolo diz acerca dos ímpios: «tendo», diz ele, «a forma da piedade, mas recusando o seu poder». Que é a forma da piedade? O sacramento visível. Que é o poder da piedade? A caridade invisível.
Dirijamos o olhar da mente e, com o auxílio do Senhor, busquemos a Deus. A palavra do cântico divino é: “Buscai a Deus, e a vossa alma viverá”. Busquemos aquele que há de ser encontrado, e, ao fazê-lo, busquemos aquele que já foi encontrado. Ele se ocultou para que fosse buscado e encontrado; é imensurável, de modo que, ainda quando encontrado, possa ainda ser buscado…. Por isso não se disse assim: “Buscai sempre a sua face”, como se disse de certos homens: “sempre aprendendo e nunca chegando ao conhecimento da verdade”, mas antes como diz aquele: “Quando o homem termina, então é que começa”.
Acaso não resistem a esta verdade estes homens corruptos de entendimento, réprobos quanto à fé, que respondem e falam iniquidade, dizendo: "De Deus temos que somos homens, mas de nós mesmos que somos justos"? Que dizeis vós, [pelagianos]? Enganais a vós mesmos, não preservando, mas antes lançando fora o livre-arbítrio, desde o cume da soberba, através dos vazios espaços da presunção, até as profundezas de um mar que afoga. Sem dúvida é esta a vossa sentença: que o homem, de si mesmo, opera a justiça. Eis o cume de vossa presunção.
Pois aqueles que os maniqueus desencaminham são cristãos que já haviam nascido do evangelho, cuja profissão foi extraviada pelos hereges. Eles amealham riquezas com precipitação inconsiderada, mas sem bom juízo. Não consideram que os seguidores que reúnem como suas riquezas são arrancados da genuína sociedade cristã original e privados de seus benefícios... Isto recorda o que disse o profeta acerca da perdiz, que ajunta o que não gerou: "No meio dos seus dias o deixarão, e no fim será um insensato." Em outras palavras, aquele que a princípio desencaminhou os homens com uma promissora ostentação de sabedoria superior será um insensato, isto é, será visto como insensato. Será visto quando sua loucura se manifestar a todos, e aqueles para quem antes era sábio então o terão por insensato.
Que espécie de homens são, porém, aqueles que, temendo ofender os que os escutam, não apenas deixam de preparar seus ouvintes para as provações iminentes, mas ainda lhes prometem neste mundo um bem-estar que o próprio Deus não prometeu ao mundo? Ele predisse que sobrevirá ao mundo tribulação sobre tribulação até o fim, e queres tu que o cristão seja isento dessas tribulações? Precisamente por ser cristão, há de padecer mais neste mundo.
A perseguição, portanto, jamais faltará. Pois, quando os inimigos de fora cessam de enfurecer-se e sobrevém um período de tranquilidade — ainda que autêntica tranquilidade e grande consolação, ao menos para os fracos —, não estamos sem inimigos por dentro, a saber, os muitos cujas vidas escandalosas ferem os corações dos devotos… Assim, aqueles que desejam viver piamente em Cristo devem sofrer a perseguição espiritual destes e de outros desvios de pensamento e de costumes, ainda quando estejam livres da violência e vexação físicas.
Progredi, progredi em obrar o bem, pois, segundo o apóstolo, há certos homens que vão de mal a pior. Se estás progredindo, estás avançando. Progride em obrar o bem, progride em boa fé, progride em boas obras. Continua cantando. Continua avançando. Não te desvies. Não retrocedas. Não permaneças estacionário.
Pode acontecer que, mesmo com o auxílio de homens santos, ou ainda que os próprios santos anjos tomem parte, ninguém aprenda retamente as coisas que pertencem à vida com Deus, a menos que seja feito por Deus dócil a Deus…. Os remédios para o corpo, que são administrados aos homens por homens, não aproveitam a menos que a saúde seja conferida por Deus, que pode curá-los sem remédios. Contudo, eles são não obstante aplicados, ainda que sejam inúteis sem o Seu auxílio. E, se são aplicados com solicitude, são contados entre as obras de misericórdia ou de bondade. Do mesmo modo, os benefícios do ensino aproveitam à mente quando são aplicados pelos homens ali onde a assistência é concedida por Deus, que poderia ter dado o evangelho ao homem ainda que não viesse dos homens nem por meio de um homem.
As Escrituras são santas, são verazes, são irrepreensíveis…. Não temos, pois, motivo algum para culpar a Escritura, se porventura nos desviamos de algum modo, por não a termos compreendido. Quando a compreendemos, estamos certos. Mas quando erramos por não a termos compreendido, deixamo-la na retidão. Quando nós erramos, não fazemos a Escritura errada, mas ela continua a permanecer ereta e reta, para que a ela retornemos em busca de correção.
Sei que está escrito: "Na multidão de palavras não evitarás o pecado". Mas quisera eu falar somente pregando a Vossa palavra e louvando-Vos, Senhor! Não somente evitaria o pecado, mas obteria boa recompensa, por mais palavras que assim proferisse. Pois o bem-aventurado Paulo não ordenaria um pecado ao seu verdadeiro filho na fé, a quem escreveu: "Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo". Pois diremos que não falou muitas palavras aquele que, não somente a tempo, mas também fora de tempo, não se calou, ó Senhor, a respeito da Vossa palavra? Mas não foram muitas, portanto, porque foram apenas as necessárias.
Todos os hereges mais insensatos, que querem ser chamados cristãos, procuram colorir as impertinências das suas invenções. Diante disto estremece sobretudo a sensibilidade humana, tomando ocasião da sentença do Evangelho em que o Senhor diz: "Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora." Eram estas mesmas as coisas que os discípulos, naquele tempo, não podiam suportar, e o Espírito Santo ensinou tais coisas quais um espírito imundo empalidece de ensinar e pregar abertamente, por qualquer impertinência que o mova. São estes os que o apóstolo prevê no Espírito Santo e diz: "Pois virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; antes, segundo os seus próprios desejos, amontoarão para si mestres, tendo comichão de ouvir, e desviarão, na verdade, os ouvidos da verdade, e se voltarão para as fábulas."
Ouve a Paulo, o apóstolo, primeiro reconhecendo a graça e, depois, buscando o que lhe era devido. Qual é o reconhecimento da graça em Paulo? Ele "outrora foi blasfemo, e perseguidor, e injuriador", diz, "mas alcancei misericórdia". Disse que era indigno de alcançá-la, mas que a alcançou não por seus próprios méritos, senão pela misericórdia de Deus. Ouve-o agora pronto a receber o que lhe era devido, ele que primeiro recebera a graça imerecida. Diz ele: "Porque eu já estou pronto para ser sacrificado, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé. Quanto ao mais, está-me reservada a coroa da justiça." Agora ele reclama o que lhe é devido. Agora exige o que lhe há de ser pago. Pois atenta nas palavras que se seguem: "a qual o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia."
Permiti-me dizer algo a este respeito; pois sou ajudado, como vedes, pelas suas palavras, que se difundiram até os confins de todo o largo mundo. Notai, antes de tudo, o seu santo ato de derramar-se a si mesmo. Disse que estava sendo imolado, não que estava morrendo. Não porque quem é imolado não morra, mas porque nem todo aquele que morre é imolado. Sendo, pois, imolado, ele está morrendo por Deus. A palavra é tomada do sacrifício. Tudo o que é sacrificado é degolado para Deus.
Há, sem dúvida, a passagem em que ele fala da imortalidade após as boas obras, como se realmente a exigisse como coisa devida, pois diz: "Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé. Doravante me está reservada a coroa de justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia." Pensas, porventura, que, por ter dito "me dará", quis significar que isso lhe era devido? Mas quando "subiu ao alto e levou cativo o cativeiro", não deu como pagamento, mas "deu dons aos homens". Como poderia o apóstolo falar presunçosamente, como de uma dívida que lhe fosse restituída, se antes não tivesse recebido a graça que não lhe era devida, graça pela qual, sendo justificado, combateu o bom combate? A Simpliciano — Sobre Diversas Questões.
Recebi a carta de vossa Reverência, na qual nos exortais ao grande bem de amar e ansiar pela vinda do nosso Salvador. Nisto agis como o bom servo do senhor da casa, que se afadiga pelo lucro de seu amo e deseja ter muitos companheiros no amor que arde tão vivamente e constantemente em vós. Examinando, pois, a passagem que citastes do Apóstolo, em que ele diz que o Senhor há de conceder a coroa de justiça não somente a ele, mas a todos os que amam a sua vinda, vivamos tão retamente quanto ele, e passemos por este mundo como peregrinos, enquanto o nosso coração constantemente se dilata com este amor; e, quer Ele venha mais cedo, quer mais tarde do que se espera, a sua vinda é amada com fiel caridade e ansiada com piedoso afeto.
Pois devemos "frutos" àqueles que nos ministram a doutrina espiritual mediante o seu entendimento dos divinos mistérios. Devemos estes a eles como homens. Devemos também esses frutos às "almas viventes", posto que se oferecem a nós como exemplos na sua própria continência.
Não poderia haver mérito algum na escolha que os homens fazem de Cristo, se não fosse o caso de que a graça de Deus precede toda fé ou ação da parte deles ao escolhê-los. Por isso o apóstolo Paulo pronuncia aos tessalonicenses esta bênção: "O Senhor vos faça crescer e abundar em amor uns para com os outros e para com todos os homens." Esta bênção de amar uns aos outros Ele no-la deu, Aquele que também nos havia dado uma lei segundo a qual devemos amar uns aos outros. Depois, na saudação dirigida à mesma igreja, onde alguns de seus membros possuíam a disposição que ele havia desejado que cultivassem, Paulo diz: "Somos obrigados a agradecer sempre a Deus por vós, irmãos. Isto é inteiramente conveniente, porque a vossa fé cresce vigorosamente, e a vossa caridade mútua abunda."
Por fim, há a questão da insinuação astuciosa de Fausto, segundo a qual o Antigo Testamento representaria falsamente a Deus, ameaçando vir com uma espada que não pouparia nem o justo nem o ímpio. Se as palavras fossem explicadas ao pagão, este talvez não discordasse nem do Antigo Testamento nem do Novo; e poderia ver a beleza da parábola no Evangelho, que os que fingem ser cristãos ou não compreendem, por sua cegueira, ou rejeitam, por sua perversidade. O grande lavrador da vinha usa sua podadeira de modo diverso nos ramos frutíferos e nos infrutíferos. Contudo, não poupa nem os bons nem os maus, podando uns e cortando outros. Ninguém é tão justo que não precise ser provado pela aflição, para progredir, ou para firmar e comprovar sua virtude. Não consideram os maniqueus a Paulo como justo, o qual, confessando humilde e sinceramente seus pecados passados, ainda assim dá graças por ser justificado pela fé em Jesus Cristo? Foi, pois, o próprio Paulo poupado do sofrimento por esse Deus que os insensatos entendem mal? Ele diz: "Não pouparei nem o justo nem o pecador." Ouçamos o próprio apóstolo: "Para que eu não me exaltasse com a grandeza das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me esbofetear. Por isso, três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim; e Ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Cor 12:7-9). ... Paulo também, além de relatar sua própria experiência, diz que as aflições e perseguições dos justos manifestam o juízo de Deus.
Disse eu: "A salvação por meio desta religião, pela qual somente se promete a verdadeira salvação, e verdadeiramente se promete, jamais faltou a quem dela fosse digno, e aquele a quem faltou, indigno dela era." Não quis com isto dizer que alguém fosse digno segundo os próprios méritos, mas, como diz o apóstolo, o "propósito de Deus na eleição" não depende das obras, senão que se aplica segundo Aquele que chama — a Rebeca foi dito: "O maior servirá ao menor" —, e ele afirma que este chamado depende do propósito de Deus. Donde diz Paulo: "Não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça." Semelhantemente, diz: "Sabemos que para os que amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem, para os que são chamados segundo o seu propósito." A respeito deste chamado, diz: "para que vos considere dignos da sua vocação."
Tudo isto repetis com grande piedade e verdade, louvando a felicidade daqueles que amam a vinda do Senhor. Mas aqueles a quem o apóstolo disse: "Não vos deixeis mover facilmente do vosso entendimento, como se o dia do Senhor estivesse iminente", evidentemente amavam a vinda do Senhor. O propósito do doutor dos gentios, ao dizer isto, não era o de arrancá-los do amor que ardia neles. Antes, ele não queria que depositassem sua fé naqueles de quem ouviram que o dia do Senhor estava iminente, para que não acontecesse que, passado o tempo em que julgavam que Ele viria, e percebendo que não viera, pensassem que também as demais promessas que lhes haviam sido feitas eram falsas, e desesperassem da própria misericórdia da fé. Portanto, não é aquele que afirma que Ele está próximo, nem aquele que afirma que não está próximo, quem ama a vinda do Senhor, mas sim aquele que retamente O espera, esteja Ele próximo ou distante, com fé sincera, esperança firme e amor ardente.
Portanto, não conhecer os tempos é coisa diversa da corrupção moral e do amor ao vício. Pois, quando o apóstolo Paulo disse: "Não vos deixeis abalar facilmente em vosso entendimento, nem vos assusteis, seja por palavra, seja por epístola como enviada de nós, como se o dia do Senhor estivesse iminente", ele evidentemente não queria que dessem crédito àqueles que julgavam que a vinda do Senhor já estava próxima. Tampouco, por outro lado, queria que fossem como o servo mau, que diz: "O meu Senhor tarda em vir", e se entregassem à perdição pela soberba e pela conduta imoral. Assim, o desejo de Paulo de que não dessem ouvidos a falsos rumores acerca da iminente aproximação do dia derradeiro era consoante com o seu desejo de que aguardassem a vinda do seu Senhor plenamente preparados e prontos para a jornada, com as lâmpadas acesas.
Aquele que fala por si mesmo busca a sua própria glória. Este será aquele que é chamado Anticristo, «exaltando-se», como diz o Apóstolo, «acima de tudo o que se chama Deus ou é adorado». Com efeito, o Senhor, anunciando que buscaria a Sua própria glória, e não a glória do Pai, disse aos judeus: «Eu vim em nome de Meu Pai, e não Me recebestes; outro virá em seu próprio nome, a esse recebereis». Ele significou que eles receberiam o Anticristo, o qual buscaria a glória de seu próprio nome, inchado, oco, e por isso não perseverante, mas antes ruinoso. Mas o nosso Senhor Jesus Cristo nos ofereceu um grande exemplo de humildade.
Ninguém pode duvidar de que Paulo fala aqui do Anticristo, dizendo-nos que o dia do juízo (a que ele chama o dia do Senhor) não virá sem que antes venha uma figura a quem ele chama o Apóstata, significando, é claro, um apóstata do Senhor Deus. E se este apelativo pode com razão ser aplicado a todos os ímpios, quanto mais a ele! Há, contudo, alguma incerteza acerca do «templo» em que ele há de assentar-se. Serão as ruínas do templo edificado pelo rei Salomão, ou realmente numa igreja? Pois o Apóstolo não diria «o templo de Deus» se se referisse ao templo de algum ídolo ou demônio. Por essa razão, alguns querem que o Anticristo signifique aqui não o próprio chefe, mas o que poderíamos chamar todo o seu corpo, isto é, a multidão dos que a ele pertencem, juntamente consigo mesmo, seu chefe... Quanto a mim, muito me admiro da grande presunção daqueles que se atrevem a tais conjecturas.
Pensam alguns que reproduziríamos com maior exatidão o grego se lêssemos, não "no templo de Deus", mas "para" ou "como templo de Deus", como se ele próprio fosse o templo de Deus, isto é, a Igreja.
E agora vós sabeis Mostram que ele não quis fazer uma declaração explícita, porquanto disse que eles o sabiam. E assim nós, que não temos o conhecimento deles, desejamos e não conseguimos, ainda que nos esforcemos, compreender a que se referia o Apóstolo, sobretudo porque seu sentido se torna ainda mais obscuro pelo que acrescenta.
o que o detém Confesso francamente que não sei o que ele quer dizer. Mencionarei, contudo, as conjecturas que ouvi ou li. Dizem alguns que se refere ao império romano, como se se dissesse: "Somente aquele que agora reina, reine até que seja tirado do meio." Outros o referem apenas aos ímpios e hipócritas que há na Igreja, até que cheguem a um número tão grande que forneçam ao Anticristo um grande povo, e que este é o mistério da iniquidade, porque parece oculto;
até que seja tirado do meio de nós — isto é, até que os ímpios e os hipócritas que estão na Igreja, os quais agora se ocultam, se apartem da Igreja. Pensam eles que é a este mesmo mistério que João alude quando, em sua epístola, diz: "Filhinhos, é a última hora; e, como ouvistes que o anticristo vem, mesmo agora já muitos anticristos há; por isto conhecemos que é a última hora. Saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco." (1 Jo 2:18-19)
Ora, nem mesmo este é o juízo final dos ímpios; mas o juízo final é aquele que hão de padecer quando se houver dado a ressurreição corporal.
Assim é que aquilo que é obscuro nas palavras do apóstolo tem dado origem a várias conjecturas. Contudo, de uma coisa não há dúvida, a saber, que Paulo quis dizer que Cristo não virá julgar os vivos e os mortos senão depois que houver vindo o seu adversário, o Anticristo, para seduzir as almas dos mortos. E, sem dúvida, o fato de que essas almas hão de ser seduzidas já faz parte do juízo oculto de Deus... Parece haver certa ambiguidade na expressão "falsos sinais e prodígios". Pode ser que Satanás há de enganar os sentidos dos homens por meio de fantasmas, nos quais imaginam ver prodígios que não existem. Ou talvez verdadeiros milagres hão de conduzir ao engano aqueles que deveriam crer que milagres só podem ser feitos por Deus, mas que erroneamente os atribuem ao poder do demônio, particularmente num tempo em que a Satanás há de ser dado poder inaudito... O que o demônio faz é feito com seu próprio propósito ímpio e maligno, mas é permitido pelo justo juízo de Deus, "para que todos sejam julgados os que não creram na verdade, mas preferiram a iniquidade". Assim é que os juízos tanto precedem quanto seguem o engano. Os que são enganados são antecedentemente julgados por estes juízos de Deus, ocultamente justos e justamente ocultos, pelos quais Ele nunca cessou de julgar mesmo desde o primeiro pecado de sua criatura racional. Estes são enganados e subsequentemente julgados num último e manifesto juízo por Cristo Jesus, que há de ser o grande juiz de todos os juízes, assim como foi vítima do mais injusto de todos os juízos.
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Podemos relatar muitos outros acontecimentos que mostram claramente que, de um juízo oculto de Deus, provém a perversidade do coração, de modo que a recusa em ouvir a verdade conduz à prática do pecado, e este pecado é também castigo de pecado precedente. Pois crer numa mentira e não crer na verdade é, de fato, pecado, mas provém da cegueira do coração que, por um oculto porém justo juízo de Deus, é também castigo do pecado. Vemos isto também naquilo que o Apóstolo diz aos Tessalonicenses: "Porque não receberam o amor da verdade, para que fossem salvos. Por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira."
Tendo isto em mente, caríssimos, olhemos sempre com anelo adiante, para nosso eterno gozo. Oremos sempre pela fortaleza em nossos labores e provações temporais. Ofereçamos orações uns pelos outros. Que minhas orações sejam oferecidas por vós, e as vossas por mim. E, irmãos, não penseis que vós tendes necessidade de minhas orações, mas que eu não tenho necessidade das vossas. Temos mútua necessidade das orações uns dos outros, pois essas orações recíprocas são inflamadas pela caridade e — como um sacrifício oferecido no altar da piedade — são fragrantes e agradáveis ao Senhor. Se os apóstolos costumavam pedir orações em seu próprio favor, quanto mais me convém fazê-lo? Pois estou longe de ser igual a eles, ainda que anseie seguir-lhes os passos tão de perto quanto possível. Mas não tenho nem a sabedoria para conhecer, nem a ousadia para dizer, que progresso fiz.
Ele também diz aos tessalonicenses: “Quanto ao mais, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor corra e seja glorificada, assim como também o é entre vós; e para que sejamos livres de homens perversos e maus, pois nem todos têm fé.” De que outro modo poderia a palavra de Deus correr e ser glorificada, senão pela conversão à fé daqueles a quem é pregada, quando Paulo diz aos crentes presentes: “Assim como também o é entre vós”? Certamente ele sabe que isto é realizado por Aquele a quem deseja que se faça oração, para que assim seja, e também para que ele mesmo seja livrado, por meio das orações deles, dos homens perversos e maus. É por esta razão que acrescenta: “Pois nem todos têm fé”, como se dissesse: “A palavra de Deus não será glorificada entre todos, ainda que orásseis”, porque os que haveriam de crer eram aqueles que “estavam ordenados para a vida eterna”, predestinados “para a adoção de filhos por meio de Jesus Cristo, para Si mesmo”, e escolhidos “nEle antes da fundação do mundo”. Ninguém é tão inculto, tão carnal, tão obtuso de entendimento que não veja que Deus faz aquilo que nos ordena pedir-Lhe que faça.
Então, portanto, admiraram-se depois de ver que ele ascendia, e alegraram-se de que subisse ao céu, pois a precedência da Cabeça é a esperança dos membros. Além disso, ouviram a mensagem angélica: “varões galileus, por que estais olhando para o céu? Este Jesus... virá do mesmo modo como o vistes subir ao céu.” Que significa “virá do mesmo modo”? Virá naquela mesma forma, para que se cumpra a Escritura: “Olharão para Aquele a quem traspassaram.” Virá aos homens; virá como Homem; mas virá como o Deus-Homem. Virá como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, para fazer os homens semelhantes a Deus. Ascendeu como Juiz do céu; manifestou-se como Arauto do céu. Fiquemos nós justificados, para que não temamos o juízo que há de vir. Com efeito, ele ascendeu; aqueles que no-lo anunciaram foram testemunhas. O povo que não o viu creu; ainda assim, alguns incrédulos zombaram, “pois nem todos têm fé”.
Com efeito, o homem inchado de soberba em comparação a outro poderia dizer: "Minha fé me distingue", ou "minha justiça", ou qualquer outra coisa. É para impedir tais pensamentos que o bom mestre pergunta: "Pois que tens que não tenhas recebido?" Acaso não o recebeste daquele que quis distinguir-te de outro? Foi ele quem quis dar-te o que outro não recebeu. "Mas se o recebeste, por que te glorias como se não o tivesses recebido?" Pergunto agora: acaso o apóstolo tem aqui outra preocupação senão que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor"? Ora, nada é tão contrário a este sentimento quanto alguém gloriar-se de seus próprios méritos, como se ele mesmo, e não a graça de Deus, fosse o responsável por eles. Refiro-me àquela graça que distingue os bons dos maus, não à que é comum aos bons e aos maus. Segundo esta premissa, a graça pela qual somos criaturas vivas e racionais, e assim distintas dos animais, estaria enredada na natureza. A graça pela qual os belos se distinguem dos disformes, ou os inteligentes dos estultos, é uma graça que diz respeito à natureza. Mas aquele cuja soberba o apóstolo procurava conter não se ensoberbecia em comparação aos animais, nem em comparação aos dons da natureza que podem existir mesmo nos piores homens. Antes, ensoberbecia-se porque atribuía a si mesmo, e não a Deus, algum bem que dizia respeito à vida moralmente boa. Por isso, mereceu ouvir a repreensão: "Pois quem te distingue? Ou que tens que não tenhas recebido?" Pois, ainda que a capacidade de possuir a fé pertença à nossa natureza, será também verdadeiro isto quanto à posse efetiva da fé? "Pois nem todos os homens têm fé", ainda que todos os homens tenham a possibilidade de ter fé.
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Há, sem dúvida, os que compreendem mal o mesmo apóstolo quando escreve: "Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tem necessidade." Pois, ao ordenar que tais pessoas trabalhem com as mãos tão eficazmente que tenham também o que dar aos outros, seus intérpretes equivocados creem que ele vai de encontro à instrução que o Senhor dá quando diz: "Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros... Considerai os lírios do campo: não trabalham nem fiam." Não parece que Paulo tenha imitado as aves do céu e os lírios do campo. Ele repetidas vezes disse de si mesmo que trabalhava com as próprias mãos para não ser pesado a ninguém, e dele está escrito que se associou a Áquila por causa da semelhança de seu ofício, para que juntos trabalhassem em manter o sustento. A partir destas e de outras passagens semelhantes da Escritura, fica bastante claro que nosso Senhor não repreende o homem por procurar estas coisas do modo costumeiro.
Talvez alguém ouse pensar ou dizer que o apóstolo Paulo não alcançou a perfeição daqueles que, deixando tudo, seguiram a Cristo. A razão para tal pensamento seria que Paulo procurava sua própria subsistência com as próprias mãos, a fim de não ser pesado a nenhum daqueles a quem pregava o evangelho. Assim se cumpriram inteiramente as palavras que diz: "Trabalhei mais do que todos eles", e acrescentou: "Todavia não eu, mas a graça de Deus comigo." Só podemos atribuir a capacidade de Paulo tanto para pregar quanto para sustentar-se financeiramente à graça de Deus operando em sua mente e em seu corpo. Ele nem cessou de pregar o evangelho, nem, como seus detratores, se sustentou financeiramente à custa do evangelho.
Em primeiro lugar, devemos provar que o bem-aventurado apóstolo Paulo quis que os servos de Deus realizassem trabalho manual, o qual mereceria grande recompensa espiritual, e que o fizessem sem buscar de ninguém alimento e vestuário, mas procurando eles mesmos estes bens por seu próprio trabalho. Em segundo lugar, devemos mostrar que aqueles preceitos evangélicos com os quais alguns monges justificam não só a preguiça, mas até a arrogância, não são contrários à direção e ao exemplo do apóstolo. Examinemos as afirmações feitas pelo apóstolo antes desta: "Se alguém não quiser trabalhar, que também não coma", e as afirmações que a ela se seguem, para que o sentido pretendido por São Paulo possa ser colhido do contexto da passagem. Que se pode responder a isto, visto que, de fato, por seu próprio exemplo ensinou o que ordenava, para que ninguém depois pudesse interpretá-lo segundo sua própria vontade e não segundo a caridade? Pois o Senhor havia ordenado àquele apóstolo, como pregador do evangelho, como soldado de Cristo, como plantador da vinha, como pastor do rebanho, que vivesse do evangelho; contudo, São Paulo não aceitou o pagamento que lhe era devido, a fim de dar exemplo aos que quisessem exigir compensação imerecida.
É verdade que alguns tomam a expressão "do vosso meio" no sentido de que cada um deve expulsar de si mesmo a maldade, a fim de tornar-se bom. Mas, seja qual for a interpretação — quer se entenda que os maus na Igreja são reprimidos pelo rigor da excomunhão, quer que cada um, por autocensura e autodisciplina, expulse de si a maldade —, não pode haver equívoco algum quanto ao ensinamento do Apóstolo na passagem da Escritura acima citada: devemos abster-nos de conviver com os irmãos acusados de qualquer um dos vícios mencionados, isto é, com aqueles que são notoriamente escandalosos. Com que intenção e com que caridade se há de administrar este rigor misericordioso, evidencia-o não somente aquela sua afirmação — "para que o seu espírito seja salvo no dia de nosso Senhor Jesus Cristo" —, mas aparece ainda mais claramente noutro lugar, onde diz: "se alguém não obedecer à nossa palavra por esta epístola, notai esse homem e não vos associeis com ele, para que se envergonhe. Contudo, não o considereis como inimigo, mas admoestai-o como irmão."
Aqui é como se pombas contendessem entre si. Disse o Apóstolo: "Se alguém não obedecer à nossa palavra por esta epístola, notai essa pessoa e não vos mistureis com ela." Eis a contenda. Mas reparai como é uma contenda de pombas, não de lobos. Acrescentou ele logo em seguida: "E não o considereis como inimigo, mas admoestai-o como irmão." A pomba ama até quando fere; o lobo odeia até quando acaricia.
que Deus lhe deu. Mas o que é isto, que o Filho ouviu do Pai? Ouviu Ele a palavra do Pai? Sim, mas Ele é o Verbo do Pai. Quando concebeis uma palavra para nomear alguma coisa, a própria concepção dessa coisa na mente é uma palavra. Assim, pois, como tendes em vossa mente, e convosco, a vossa palavra proferida, assim também Deus proferiu o Verbo, isto é, gerou o Filho. Visto, então, que o Filho é o Verbo de Deus, e o Filho nos falou o Verbo de Deus, Ele nos falou a palavra do Pai. Verdadeiro é, portanto, o que disse João.
O número sete significa a perfeição da Igreja universal, razão pela qual o apóstolo João escreve às sete igrejas, mostrando assim que escreve à totalidade da Igreja una. Cidade de Deus 17.4
Primogênito. Sei que alguns pensam que, na morte de Cristo, foi concedida aos justos uma ressurreição tal como a que nos é prometida para o fim do mundo, fundando-se na afirmação da Escritura de que, no terremoto pelo qual, no momento de Sua morte, as rochas se fenderam e os sepulcros se abriram, muitos corpos dos santos ressuscitaram e foram vistos com Ele na Cidade Santa depois que Ele ressuscitou. Certamente, se estes não adormeceram novamente, tendo seus corpos sido postos pela segunda vez no sepulcro, seria necessário examinar em que sentido pode Cristo ser entendido como "o primogênito dentre os mortos", se tantos O precederam na ressurreição. E se se disser, em resposta a isto, que a afirmação é feita por antecipação, de modo que se deva supor que os sepulcros foram de fato abertos por aquele terremoto no momento em que Cristo estava pendurado na cruz, mas que os corpos dos santos não ressuscitaram então, senão somente depois que Cristo ressuscitara antes deles — ainda que, sob esta hipótese de antecipação na narrativa, o acréscimo destas palavras não nos impediria de continuar a crer, por um lado, que Cristo foi sem dúvida "o primogênito dentre os mortos". Carta 164.9
e os que o traspassaram. Profecia que implica que Cristo virá na mesmíssima carne em que foi crucificado.
prantearão. Mas quando os ímpios virem o Juiz, Ele não lhes parecerá bom; porquanto não se alegrarão em seu coração ao vê-lo, Trindade 1.13.31
poço do abismo. Por isto se entende a inumerável multidão dos ímpios, cujos corações são insondavelmente profundos em malignidade contra a Igreja de Deus (Cidade de Deus 20, 7).
e atou-o. O próprio Senhor Jesus Cristo diz: Ninguém pode entrar na casa do valente e roubar os seus bens, se primeiro não atar o valente (Mt 12,29) — designando pelo valente o diabo, porque tinha poder para levar cativo o gênero humano; e designando por seus bens, que havia de tomar, aqueles que eram tidos pelo diabo em diversos pecados e iniquidades, mas que haviam de tornar-se crentes n'Ele. Foi, pois, para o atamento desse valente que o apóstolo viu aqui. atou-o: Mas o atamento do diabo consiste em ser ele impedido de exercer todo o seu poder de seduzir os homens, seja forçando-os violentamente, seja enganando-os fraudulentamente a tomar partido com ele. Se lhe fosse permitido, durante tão longo período, assediar a fraqueza dos homens, muitíssimas pessoas, tais como Deus não haveria de querer expor a semelhante tentação, teriam a sua fé derrubada, ou seriam impedidas de crer; e para que isso não acontecesse, ele é atado. Pois o Todo-Poderoso não afasta absolutamente os santos de sua tentação, mas resguarda apenas o homem interior, onde reside a fé, para que, pela tentação exterior, cresçam em graça. E Ele o ata para que não impeça nem destrua, no livre e ávido exercício de sua malícia, a fé daquela inumerável multidão de fracos, já crentes ou ainda por crer, dos quais a Igreja há de ser aumentada e completada;
Ora, o diabo foi assim atado não somente quando a Igreja começou a estender-se cada vez mais amplamente entre as nações para além da Judeia, mas está agora, e há de estar até o fim do mundo, atado, quando então será solto. Porque, ainda agora, os homens se convertem, e sem dúvida se converterão até o fim do mundo, da incredulidade em que ele os detinha à fé. (Cidade de Deus 20.7)
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selou-o. Que isto foi ordenado para manter em segredo quem pertencia ao partido do diabo e quem não pertencia. Pois, neste mundo, isto é um segredo, porquanto não podemos saber se mesmo aquele que parece estar de pé há de cair, ou se aquele que parece jazer há de ressurgir.
não mais seduzisse as nações. O diabo, pois, é atado e encerrado no abismo, para que não seduza as nações das quais a Igreja é reunida, e as quais outrora seduzia antes de a Igreja existir. Pois não se disse que não seduziria homem algum, mas que não seduziria as nações — significando, sem dúvida, aquelas em meio às quais a Igreja existe.
imagem. Parece-me significar a sua simulação, a saber, naqueles homens que professam crer, mas vivem como incrédulos; pois fingem ser o que não são, e são chamados cristãos não por uma verdadeira semelhança, mas por uma imagem enganosa. Pois a esta besta pertencem não somente os inimigos declarados do nome de Cristo e de sua gloriosíssima cidade, mas também o joio que há de ser colhido do meio de seu reino, a Igreja, no fim do mundo. E quem são os que não adoram a besta e sua imagem, senão aqueles que fazem o que diz o apóstolo: Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos (2 Cor 6:14)? Pois tais homens não adoram, isto é, não consentem, não se sujeitam; nem recebem a inscrição, a marca do crime, na fronte pela sua profissão de fé, nem na mão pela sua conduta.
E vi os tronos... Pois, depois de dizer que o diabo é atado por mil anos e depois solto por um breve tempo, passa a esboçar o que a Igreja faz, ou o que se faz na Igreja, nesses dias. Não se deve supor que isto se refira ao juízo final, mas aos tronos dos governantes e aos próprios governantes pelos quais a Igreja é agora governada. E não se pode produzir melhor interpretação do que seja este julgamento do que a que temos nas palavras: Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu (Mt 18:18). Donde diz o Apóstolo: Que me importa julgar os que estão de fora? Não julgais vós os que estão de dentro? (1 Cor 5:12)
isto é, as almas dos mártires ainda não restituídas a seus corpos. Pois as almas dos piedosos defuntos não estão separadas da Igreja, que já agora é o reino de Cristo; do contrário, não se faria memória deles ao altar de Deus na participação do corpo de Cristo, nem aproveitaria nada correr ao seu batismo em perigo de morte, para que não passássemos desta vida sem ele; nem à reconciliação, se por penitência ou má consciência alguém se apartasse do seu corpo. Pois por que se praticam estas coisas, senão porque os fiéis, ainda que mortos, são membros seus? Portanto, enquanto correm estes mil anos, as suas almas reinam com Ele, ainda que não estejam ainda conjuntas aos seus corpos.
Os demais mortos. Ora, esta ressurreição não concerne ao corpo, mas à alma. Pois também as almas têm sua própria morte na iniquidade e nos pecados, pela qual são os mortos de quem os mesmos lábios dizem: Deixai que os mortos sepultem os seus mortos (Mt 8,22) — isto é, que aqueles que estão mortos na alma sepultem os que estão mortos no corpo. É destes mortos, pois — os mortos na impiedade e na iniquidade — que Ele diz: Vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. Os que ouvem, isto é, os que obedecem, creem e perseveram até o fim. Aqui não se faz diferença entre bons e maus. Pois é bom para todos os homens ouvir a Sua voz e viver, passando da morte da impiedade à vida da piedade. Desta morte diz o apóstolo Paulo: Portanto todos morreram, e Ele morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou (2Cor 5,14-15). Assim, todos, sem exceção alguma, estavam mortos em pecados, sejam pecados originais ou voluntários, pecados de ignorância ou pecados cometidos contra o conhecimento;
E assim, o reinado dos santos com Cristo há de durar mais do que os laços e o cárcere do diabo, porquanto reinarão com seu Rei, o Filho de Deus, durante estes três anos e meio em que o diabo já não está preso. De modo que entendemos, ou que os mil anos do reinado dos santos não se terminam, embora se termine o cárcere do diabo — de sorte que ambas as partes têm o seu milênio, isto é, o seu tempo completo, ainda que cada qual com duração real diversa e própria, sendo mais longo o reino dos santos e mais breve o cárcere do diabo —, ou, ao menos, que, sendo três anos e seis meses um tempo bem curto, não se computa nem como subtraído do tempo total do cárcere de Satanás, nem como acrescentado à duração total do reinado dos santos; assim como mostramos acima, no décimo sexto livro, a respeito do número redondo de quatrocentos anos, que foram especificados como quatrocentos, ainda que, na realidade, fossem algo mais; e semelhantes expressões encontram-se amiúde nas sagradas escrituras, para quem as observar.
Pois estas nações, que ele denomina Gogue e Magogue, não se hão de entender como algumas nações bárbaras em alguma parte do mundo, sejam os getas e massagetas, como alguns concluem a partir das letras iniciais, sejam outras nações estrangeiras não sujeitas ao governo romano. Pois João assinala que elas estão espalhadas por toda a terra,
Isto não significa que tenham vindo, ou que hão de vir, a um só lugar, como se o acampamento dos santos e a cidade amada houvessem de estar em algum lugar único; pois este acampamento não é outra coisa senão a Igreja de Cristo estendida por todo o mundo. E, por conseguinte, onde quer que esteja a Igreja — e estará em todas as nações, como é significado pela largura da terra —, ali estará também o acampamento dos santos e a cidade amada, e ali será cercada pela feroz perseguição de todos os seus inimigos; pois estes também existirão juntamente com ela em todas as nações — isto é, ela será estreitada, e duramente pressionada, e encerrada nas angústias da tribulação, mas não abandonará seu dever militar, o que é significado pela palavra acampamento.
Não se deve entender isto acerca do castigo final que será infligido quando se disser: Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 25,41); pois então serão lançados no fogo, e não o fogo descerá sobre eles do céu. Entende-se bem acerca da firmeza dos santos, pela qual recusam prestar obediência aos que se enfurecem contra eles. Pois o firmamento é o céu, por cuja firmeza estes agressores serão atormentados por um zelo ardente, visto que serão impotentes para arrastar os santos ao partido do Anticristo. Este é o fogo que os há de devorar, e este é da parte de Deus; pois é pela graça de Deus que os santos se tornam invencíveis, e assim atormentam os seus inimigos. Pois, assim como em bom sentido se diz: O zelo da Tua casa Me consumiu, assim também em mau sentido se diz: O zelo se apossou do povo insensato, e agora o fogo consumirá os inimigos (Is 26,11). E "agora", isto é, não o fogo do juízo final. Ou, se por este fogo que desce do céu e os consome João entendeu aquele golpe com que Cristo, em sua vinda, há de ferir aqueles perseguidores da Igreja que então encontrar ainda vivos sobre a terra, quando matar o Anticristo com o sopro de sua boca, o último juízo, porém, é aquele que hão de sofrer quando se tiver dado a ressurreição corporal.
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a Igreja, escurecer-se-á, porquanto naquelas tremendas tentações e tribulações que hão de sobrevir no fim do mundo, muitos que pareciam tão luminosos e firmes quanto o sol e as estrelas cairão da fé.
pois certamente era impossível que Ele fosse retido por ela: Pode-se também entender como ensinando-nos a crer que Ele soltou aquelas dores que de nenhum modo podiam retê-Lo, mas que retinham aqueles a quem Ele havia decidido conceder a libertação.
Pois não abandonarás minha alma ao Inferno: Ele o fez descer ao inferno e o fez subir de novo.
e o seu sepulcro está conosco até o dia de hoje: Ele afirmou que era Cristo, e não Davi, quem fora predito por aquela profecia, a saber, que a sua carne não veria corrupção; mas acrescentou que o túmulo de Davi ainda estava com eles. E este não teria sido argumento convincente, se o corpo de Davi ali já não estivesse; mas o seu túmulo ainda ali permanecia.
e havendo recebido do Pai a Promessa do Espírito Santo: Por isso também o próprio Senhor Jesus Cristo não somente deu o Espírito Santo como Deus, mas também o recebeu como homem, e por isso se diz que Ele estava cheio de graça, do Espírito Santo (Lc 2:52). Deve-se entender que Ele foi então ungido com aquela unção mística e invisível, quando o Verbo de Deus se fez carne, quando a natureza humana, sem nenhum mérito precedente de boas obras, foi unida a Deus Verbo no ventre da Virgem, de modo que com ela se tornou uma só pessoa. Por isso é que confessamos que Ele nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria.
Pois, no envio do Espírito Santo depois da paixão, ressurreição e ascensão do Senhor, quando se realizavam milagres em nome d'Aquele a quem, como se estivesse morto, os judeus perseguidores haviam desprezado, foram eles compungidos em seus corações; e os que em seu furor O mataram foram transformados e creram; e os que em seu furor derramaram o Seu sangue, agora, no espírito da fé, o beberam; reconheceram o seu pecado, aprenderam algo do Apóstolo, para que não desesperassem do perdão do Pregador.
e sua alma e coração eram um só no Senhor. Depois, estas mesmas pessoas também sofreram elas próprias perseguição na carne, às mãos dos judeus, seus compatriotas segundo a carne, e foram dispersas, a fim de que, em consequência de sua dispersão, Cristo fosse pregado mais amplamente, e para que eles mesmos fossem, ao mesmo tempo, seguidores da paciência de seu Senhor.
e ninguém chamava a coisa alguma sua própria, mas tinham todas as coisas em comum. E que significa "unânimes"? Tinham, diz ele, um só ânimo e um só coração voltados para Deus.
Cristo não orara em vão por eles. Não disse em vão: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lc 23:34). Dentre eles, uma grandíssima multidão creu.
A descendência de Abraão é Cristo; porquanto dele veio Isaac, de Isaac Jacó, de Jacó doze filhos, destes doze o povo dos judeus, do povo dos judeus a Virgem Maria, dela o nosso Senhor Jesus Cristo. E o que foi prometido a Abraão encontramo-lo cumprido entre nós.
Honrai, amai e louvai a santa Igreja, vossa mãe, a Jerusalém celeste, a santa Cidade de Deus. É ela quem, nesta fé que recebestes, dá fruto e se espalha por todo o mundo. Ela é a "igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade", a qual, na dispensação dos sacramentos, tolera os ímpios que hão de ser por fim separados, e aos quais, entretanto, a disparidade dos costumes mantém à distância. Por causa do trigo que ora cresce em meio à palha, na peneira final do qual se manifestará a colheita destinada ao celeiro, a Igreja recebeu as chaves do reino dos céus.
Há tanto bons quanto maus na Igreja Católica, a qual se espalhou não somente na África, como fez a seita donatista, mas por todas as nações, conforme foi prometido, e a qual se estende por todo o mundo, como diz o apóstolo, frutificando e crescendo.
"O evangelho chegou até vós, como também está em todo o mundo, e frutifica." O Filho de Deus disse com a própria boca: "Sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra." Ceciliano, o bispo da igreja de Cartago, é acusado com humana contenda; a Igreja de Cristo, estabelecida entre todas as nações, é recomendada pela voz de Deus.
É bem menos surpreendente que ele [Paulo] tenha usado seus verbos no tempo presente naquela passagem que, como observastes, ele repetiu vez após vez: "Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual antes ouvistes na palavra da verdade do evangelho, que chegou até vós, como também está em todo o mundo, e frutifica e cresce." Ainda que o evangelho não abrangesse ainda todo o mundo, disse que frutifica e cresce em todo o mundo, a fim de mostrar até onde se estenderia em frutificar e crescer. Se, pois, nos está oculto quando todo o mundo será preenchido pela Igreja que frutifica e cresce, sem dúvida nos está oculto quando será o fim, mas certamente não será antes disso.
Somos ordenados a fazer o bem quando se diz: "Apartai-vos do mal e fazei o bem"; mas oramos para fazer o bem quando se diz: "Não cessamos de orar por vós, pedindo", e, entre outras coisas que Paulo pede, menciona: "Que andeis de modo digno de Deus em tudo o que Lhe é agradável, em toda boa obra e boa palavra." Assim como reconhecemos, pois, a parte que cabe à vontade quando tais preceitos são dados, reconheça ele também a parte que cabe à graça quando tais petições são oferecidas.
Como pode o apóstolo dizer: "Dando graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participar da sorte dos santos na luz, que nos arrebatou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do Filho do seu amor", senão porque a vontade que nos liberta não é nossa, mas Sua? Cartas.
Vede, pois, como pode acontecer que um homem tenha o batismo de Cristo e, contudo, não tenha a fé nem o amor de Cristo; como é que pode ter o sacramento da santidade e, contudo, não ser contado na sorte dos santos. No que diz respeito ao mero sacramento em si mesmo, nada importa que alguém receba o batismo de Cristo onde não existe a unidade de Cristo.
O lamento dos Salmos, com efeito, é absolutamente verdadeiro: "Eis que em iniquidade fui concebido, e em pecados minha mãe me nutriu no seu ventre." De novo, há o que está escrito, que ninguém é limpo diante de Deus, nem mesmo o infante cuja vida durou apenas um dia sobre a terra. Estes, pois, são a exceção, e exceder a nossa limitada medida humana é querer indagar sobre o grau que possam merecer naquela "sorte dos santos na luz" que é prometida para o futuro.
"E lançou-o", diz João, "no abismo", significando, evidentemente, que lançou o diabo no abismo, e o "abismo" simboliza a inumerável multitude dos ímpios, em cujos corações há uma grande profundidade de malignidade contra a Igreja de Deus... Ora, porque está atado e encerrado por este veto, o diabo é proibido e impedido de desencaminhar as nações que pertenciam a Cristo, mas que outrora foram por ele desencaminhadas ou mantidas sob seu domínio. Pois Deus escolheu essas nações antes da fundação do mundo, para "resgatá-las do poder das trevas e trasladá-las para o reino do seu Filho amado", como diz o Apóstolo.
Porque em grego "sofrer" se diz paschein, por essa razão a Páscoa foi entendida como uma paixão, como se este nome derivasse de "sofrimento". Mas em sua própria língua, isto é, em hebraico, Páscoa significa uma "passagem". Por essa razão o povo de Deus celebrou a Páscoa pela primeira vez quando, fugindo do Egito, passou pelo Mar Vermelho... E nós realizamos uma passagem sumamente salutar quando passamos do diabo para Cristo, e deste mundo cambaleante para o seu reino solidissimamente estabelecido. E, portanto, passamos para Deus, que permanece, a fim de não passarmos junto com o mundo que passa. Acerca desta graça a nós conferida, o Apóstolo, louvando a Deus, diz: "Que nos resgatou do poder das trevas e nos trasladou para o reino do Filho do seu amor."
Deste poder dos anjos maus nada liberta o homem senão a graça de Deus, da qual fala o Apóstolo: "Que nos libertou do poder das trevas, e nos trasladou para o reino do Filho do seu amor." A própria história de Israel ilustra esta figura, quando foram libertados do poder dos egípcios e trasladados para o reino da terra da promissão, que mana leite e mel, o que significa a doçura da graça.
Com efeito, segundo a forma de Deus, Ele é "o princípio que também nos fala", princípio no qual Deus "fez os céus e a terra", mas segundo a forma de servo, Ele é "o esposo que sai de seu tálamo". Segundo a forma de Deus, Ele é "o primogênito de toda criatura, e Ele mesmo é antes de todas as criaturas, e nEle todas as coisas subsistem", e segundo a forma de servo, Ele é "a cabeça do corpo, que é a Igreja".
Nos pais e nos filhos encontrar-se-iam imagem, igualdade e semelhança, se não houvesse diferença de idade. Pois a semelhança do filho deriva do pai, de modo que a semelhança pode com razão ser chamada imagem…. Em Deus, porém, não se dão as condições do tempo, pois não se pode pensar que Deus tenha gerado no tempo o Filho por meio de quem criou os tempos. Segue-se, pois, que Ele não somente é sua imagem, porquanto procede dEle, e sua semelhança, porquanto é imagem, mas também a igualdade é tão grande que nem mesmo uma distinção temporal se interpõe entre Ambos.
“Antes de Abraão, Eu Sou”; foi isso que Ele mesmo disse, é o Evangelho que fala. Ouvi-o, ou lede-o. Mas pouco é isso, ser o criador antes de Abraão; Ele é o criador antes de Adão, criador antes do céu e da terra, antes de todos os anjos, e de toda a criação espiritual, “tronos, dominações, principados e potestades”, criador antes de todas as coisas, quaisquer que sejam.
"Se o Espírito daquele", diz ele, "que ressuscitou Cristo dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por causa do seu Espírito que habita em vós." Portanto, a Igreja universal, que ora se encontra na peregrinação da vida mortal, aguarda, no fim dos tempos, o que primeiramente se mostrou no corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, que é "o primogênito dentre os mortos", porquanto a Igreja é o seu corpo, do qual ele é a cabeça.
É isto também o que se quer dizer quando se diz que "ele se esvaziou a si mesmo", porque não apareceu aos homens naquela dignidade que tinha junto ao Pai, mas atendeu à fraqueza daqueles que ainda não tinham um coração puro pelo qual pudessem ver o Verbo no princípio junto ao Pai. Que significam, pois, as palavras "deixou o Pai"? Deixou [o Pai] para aparecer aos homens tal como é junto ao Pai. Deixou igualmente sua mãe, isto é, a antiga e carnal observância da sinagoga, que lhe foi mãe segundo a semente de Davi, conforme a carne. E apegou-se à sua esposa, isto é, à Igreja, para que fossem dois numa só carne. Pois diz o apóstolo que ele é a cabeça da Igreja, e a Igreja é o seu corpo.
Pois a ressurreição, nós cristãos já sabemos, sucedeu em nossa cabeça, e nos membros ainda está por vir. A cabeça da Igreja é Cristo, os membros de Cristo são a Igreja. Aquilo que precedeu na cabeça há de seguir-se no corpo. Esta é a nossa esperança; por esta cremos, por esta suportamos e perseveramos em meio a tão grande perversidade deste mundo, confortando-nos a esperança, antes que essa esperança se torne realidade.
Ele, porém, não sem razão se diz que caminha sem mácula — não aquele que já alcançou o termo de sua jornada, mas aquele que está avançando rumo ao termo de modo irrepreensível, livre de pecados condenáveis, e, ao mesmo tempo, não negligenciando purificar mediante a esmola os pecados que são veniais. Pois o caminho pelo qual andamos, isto é, a via pela qual chegamos à perfeição, é purificado pela oração pura. Aquela, porém, é uma oração pura na qual dizemos em verdade: "Perdoai-nos, assim como nós mesmos perdoamos." De modo que, como nada é censurado quando a culpa não é imputada, possamos manter o nosso curso rumo à perfeição sem censura, numa palavra, sem mácula. Da Perfeição do Homem na Justiça
E, agora como pregador de Cristo, padecendo dos outros o que ele próprio, como perseguidor, havia feito, disse: "para que eu preencha em minha carne o que falta das aflições de Cristo"; mostrando assim que aquilo que padecia era parte integrante das aflições de Cristo. Isto não se pode entender da cabeça, que agora, no céu, não padece coisa alguma semelhante; mas do corpo, isto é, da Igreja; o corpo que, com a cabeça, é o único Cristo.
A este respeito é o que, em outro lugar, o mesmo apóstolo diz: "Agora me alegro nos sofrimentos por vós, e preencho o que falta das aflições de Cristo em minha carne." Não disse "das aflições de mim", mas "de Cristo", porque era membro de Cristo, e em suas perseguições — tais quais era necessário que Cristo padecesse em todo o seu corpo — o próprio Paulo preenchia as aflições de Cristo na sua parte, a de Paulo.
Nisto consiste todo o valor da graça, pela qual Ele salva os que creem, contendo em si mesma profundos tesouros de sabedoria e conhecimento, e imbuindo de fé as mentes que atrai à contemplação eterna da verdade imutável. Suponhamos que o Onipotente tivesse criado sua humanidade formando-a de outro modo que não no ventre materno, e se tivesse apresentado subitamente à nossa vista. Suponhamos que Ele não tivesse passado pelas etapas da infância à juventude, que não tivesse tomado alimento nem sono: não teria Ele dado ocasião à opinião errônea de que não se fizera verdadeiramente homem? E, fazendo tudo miraculosamente, não teria Ele obscurecido o efeito de sua misericórdia? Mas agora Ele apareceu como Mediador entre Deus e os homens, de tal maneira que uniu ambas as naturezas na unidade de uma só Pessoa. Ele elevou o comum às alturas do incomum, e trouxe o incomum ao nível do comum.
Atendei, caríssimos, e vede quão sensato é o conselho do apóstolo, quando diz: "Como, pois, recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, arraigados e edificados nele, e confirmados na fé." O que nos cumpre fazer, afinal, é permanecer firmemente nele, pela simplicidade e certeza desta fé, para que Ele nos abra, a nós que fielmente cremos, o tesouro que nele está escondido. O mesmo apóstolo diz: "Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento." Não os escondeu para no-los negar, mas para despertar em nós o desejo daquilo que está oculto. Esse é o valor dos segredos.
Falando dEle como nossa Cabeça, diz o apóstolo: "Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." Não diz "corporalmente" porque Deus seja corpóreo, mas ou usa a palavra em sentido derivado, como se habitasse num templo feito por mãos, não corporalmente, mas simbolicamente, isto é, sob signos prefigurativos... ou então a palavra corporalmente é certamente usada porque Deus habita, como em seu templo, no corpo de Cristo que Ele tomou da Virgem.
Afinal, se achamos tão exultantes estes dias passageiros, nos quais recordamos a paixão e a ressurreição de Cristo com devoção e solenidade especiais, quão bem-aventurados e ditosos nos fará aquele dia eterno, quando finalmente O veremos e permaneceremos com Ele, aquele de quem agora nos alegramos apenas por desejá-lo e esperá-lo! Que júbilo exultante dará Deus à sua Igreja, à qual, renascida por Cristo, Ele de certo modo removeu o prepúcio de sua natureza carnal, isto é, o opróbrio de seu nascimento natural! Por isso se diz: "E a vós, quando estáveis mortos nos delitos e no prepúcio da vossa carne, Ele vos vivificou com Ele, perdoando-nos todos os nossos débitos."
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Este é todo o desígnio de nossa salvação, pelo qual Aquele que, sendo Deus, fez o homem, Ele próprio se fez homem, a fim de encontrar o homem perdido. Esta é toda a matéria de Cristo derramando, para a remissão dos nossos pecados, sangue verdadeiro, não falso, e com o seu sangue “apagando a cédula dos nossos pecados”. Tudo isto estes hereges condenáveis se esforçam por esvaziar de todo sentido. Tudo isto, segundo creem os maniqueus, tal como pareceu aos olhos humanos, era espírito e não carne.
Ela [isto é, sua mãe, Mônica] não pedia tais coisas, mas simplesmente rogava que dela se fizesse memória junto ao Vosso altar, ao qual assistira sem faltar um único dia. Ela sabia que sobre ele se oferece a Santa Vítima; por meio da qual é cancelado “o decreto contra nós, que nos era hostil”; por meio da qual o Inimigo, somando as nossas ofensas e buscando algo de que nos acusar, e nada encontrando naquele em quem vencemos, foi derrotado.
Com razão celebramos a Páscoa, na qual foi derramado o sangue do Senhor, pelo qual somos purificados de toda ofensa. Estejamos certos: o diabo detinha contra nós a cédula da escravidão, mas ela foi apagada pelo sangue de Cristo.
E onde quer que o demônio pudesse algo, ali foi derrotado por todos os lados. Se da cruz recebeu o poder de matar exteriormente o corpo do Senhor, foi também da cruz que o poder interior, pelo qual nos detinha presos, foi morto. Pois sucedeu que as cadeias de muitos pecados, em muitas mortes, foram rompidas pela única morte Daquele que não tinha pecado anterior algum que merecesse a morte. E, portanto, por nossa causa, o Senhor pagou à morte o tributo que não Lhe era devido, a fim de que a morte que nos era devida não nos prejudicasse. Pois Ele não foi despojado da carne por obrigação alguma a qualquer potestade, mas quis a Sua própria morte; pois Aquele que não podia morrer a não ser que o quisesse, sem dúvida morreu porque quis; e, por isso, expôs abertamente os principados e as potestades, triunfando confiantemente sobre eles em Si mesmo.
Todo aquele que busca ser estranho àquele judaísmo carnal ... justamente repudiado e condenado, deve primeiro considerar como alheias a si aquelas antigas observâncias que manifestamente já deixaram de ser necessárias. Isto porque o Novo Testamento foi revelado, e as coisas que por aquelas outras eram prefiguradas já se cumpriram. Não se há de julgar a alguém "no comer ou no beber, ou a respeito de dia de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas que haviam de vir." Por outro lado, deve receber, abraçar e observar, sem qualquer reserva, aqueles preceitos da lei que ajudam a formar o caráter dos fiéis ... [e] todo progresso que neles alcançar não deve atribuí-lo a si mesmo, mas "à graça de Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor."
Há ainda outra passagem, mais obscura, sobre a qual vos peço que me tireis das águas profundas e me poneis nos baixios. Na epístola aos Colossenses, simplesmente não consigo ver a conexão onde ele diz: "Ninguém vos seduza, comprazendo-se na humildade e culto dos anjos, andando naquilo que não viu; vaidosamente inchado pelo sentido da sua carne, e não retendo a cabeça." Que anjos ele tem em mente? Se se refere aos anjos rebeldes e maus, qual é a religião deles, ou a sua humildade, ou quem é o mestre desta sedução, que, sob o pretexto de alguma religião angélica, ensinaria como visto ou experimentado aquilo que não vê? Sem dúvida, são os hereges, que seguem os ensinamentos dos demônios, que forjam falsos sistemas movidos pelo seu próprio espírito, que declaram ter visto visões que não viram e que, por seus argumentos mortíferos, semeiam a sua sementeira em corações tolos e crédulos — sem dúvida, são estes os que não retêm a cabeça, a saber, Cristo, a fonte da verdade.
Quanto às palavras "Não toques, não proves, não manuseies", não se hão de considerar como um mandamento do apóstolo que nos proíba tocar, provar ou manusear isto ou aquilo. É justamente o contrário, se não me iludo com a obscuridade da passagem. Certamente ele usou estas palavras em escárnio daqueles por quem não queria que seus seguidores fossem enganados e desviados. Eram estes os que faziam distinção de alimentos segundo o culto dos anjos e promulgavam decretos para esta vida, dizendo: "Não toques, não proves, não manuseies", ainda que "todas as coisas são puras para os puros". "Porque toda criatura de Deus é boa", como ele nos assegura noutro lugar.
Que há tão louvável quanto uma aparência de sabedoria, e que há tão detestável quanto a superstição do erro? Também a humildade, agradável a Deus e sobremaneira louvável na verdadeira religião, é atribuída, com aparência de sabedoria, àqueles de cujas doutrinas e ações se nos diz: "Não toques, não proves, não manuseies, coisas que conduzem à destruição", porque não são de Deus, e "tudo o que não procede da fé é pecado". … Desejo saber que humildade é esta e que aparência de sabedoria é esta que ele diz haver na superstição deles, a qual provém das doutrinas dos homens…. Penso que ele fala de uma abstinência fingida e inútil, tal como os hereges costumam almejar … porquanto revestem a aparência de obra santa, mas, como não a praticam no seio da verdade, não alcançam nem honra nem a recompensa da glória.
Porque o homem interior, também ele, se é certamente renovado dia após dia, é seguramente velho antes de ser renovado. Pois isto se realiza interiormente, o que o mesmo apóstolo diz: "Despojai-vos do velho homem e revesti-vos do novo homem." E ele oferece uma explicação disto nas palavras que se seguem: "Por isso, desprezando a mentira, falai a verdade." Mas onde é a mentira desprezada, senão interiormente, a fim de que habite no monte santo de Deus aquele que fala a verdade em seu coração... E as palavras do apóstolo estão em consonância com este mistério [isto é, da ressurreição interior]: "Mas se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que estão acima, onde Cristo está assentado à direita de Deus; atentai nas coisas que estão acima."
Pois quando Deus for tudo em todos, então nada faltará ao seu desejo. Tal fim não tem fim. Ali ninguém morre, aonde ninguém chega senão morrendo para este mundo, não pela morte de todos, na qual o corpo é abandonado pela alma, mas pela morte dos eleitos, na qual, ainda que se permaneça na carne mortal, o coração está posto no alto. A respeito desta espécie de morte disse o apóstolo: "Pois estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus". Talvez a respeito dela se tenha dito: "Forte como a morte é o amor". Pois por este amor sucede que, habitando ainda neste corpo corruptível, morremos para este mundo, e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus; ou antes, o próprio amor é a nossa morte para o mundo e a nossa vida com Deus.
Mas o que disse ele em seguida? "Quando Cristo aparecer, vossa vida, então também vós aparecereis com Ele em glória." Assim, agora é tempo de gemer; então será de exultar; agora de desejar, então de abraçar. O que agora desejamos não está presente; mas não desfaleçamos no desejo; que o desejo longo e contínuo seja o nosso exercício cotidiano, porquanto Aquele que fez a promessa não nos engana. ..
Assim, nos movimentos segundo o espírito, a alma por vezes se opõe a outros movimentos de si mesma segundo a carne. Reciprocamente, nos movimentos segundo a carne, opõe-se a outros que tem segundo o espírito, e é por isso que dizemos que a carne cobiça contra o espírito e o espírito cobiça contra a carne. Mas é também por isso que "se vai renovando de dia em dia", pois a alma não deixa de progredir na virtude à medida que vai diminuindo gradualmente os desejos carnais aos quais não consente. É aos já batizados que o apóstolo diz: "Mortificai os vossos membros que estão sobre a terra."
A renovação e reforma da mente se dá “segundo Deus”, ou “segundo a imagem de Deus”: diz-se “segundo Deus” para excluir que se pense ser segundo alguma outra criatura; e “segundo a imagem de Deus”, para deixar claro que a renovação se opera ali onde está a imagem de Deus, isto é, na mente.
Nem se pode duvidar que é mais consentâneo com a ordem da natureza que os homens exerçam domínio sobre as mulheres do que as mulheres sobre os homens. É tendo em vista este princípio que o Apóstolo diz: "A cabeça da mulher é o homem"; e: "Mulheres, sujeitai-vos a vossos próprios maridos."
Longe esteja que um homem que possui a fé, ao ouvir o Apóstolo ordenar que os homens "amem suas esposas", ame nela aquele desordenado desejo sexual que nem em si mesmo deveria amar. Pode sabê-lo, se der ouvidos às palavras de outro apóstolo: "Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo."
Quando o bem-aventurado apóstolo nos recordava a importância da oração, ao mesmo tempo nos advertia também acerca da vigilância: "Perseverai na oração", disse ele, "vigiando nela". O amor impuro, irmãos e irmãs, compele aqueles que por ele são possuídos a permanecerem despertos; o impudico vigia, para seduzir; o malfeitor, para prejudicar; o ébrio, para beber; o bandido, para matar; o dissoluto, para dissipar; o avarento, para acumular; o ladrão, para furtar; o salteador, para arrombar e roubar. Quanto mais, pois, deve o amor permanecer desperto nos homens santos e inofensivos, se a iniquidade pode arrancar a vigília ao criminoso e ao corrupto? Sermões.
Os cismas surgem quando os homens dizem: somos justos; quando dizem: santificamos o impuro, justificamos o ímpio, pedimos, obtemos. Mas o que disse João? "Se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo." Dirás: Mas não podem os homens santos pedir por nós? Não podem os bispos e os prelados pedir pelo povo? Olha para a Escritura, e encontrarás os prelados recomendando-se às orações do povo. O Apóstolo diz ao seu povo: "Orando também por nós." O Apóstolo ora pelo povo, e o povo pelo Apóstolo. Nós oramos por vós, irmãos, mas também vós deveis orar por nós. Orem todos os membros uns pelos outros, e interceda a Cabeça por todos.
O que se entende, pois, por esta maldade do homem natural e daqueles que... são "por natureza" filhos da ira? Poderia ser, porventura, a natureza criada em Adão? Essa natureza criada foi nele aviltada. Ela percorreu e ainda agora percorre o seu curso através de todos por natureza, de modo que nada nos livra da condenação senão a graça de Deus por Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Falamos de "natureza" de dois modos. Quando falamos rigorosamente da própria natureza, referimo-nos à natureza em que a humanidade foi originalmente criada — segundo a própria imagem de Deus e sem falta. O outro modo pelo qual falamos da natureza refere-se àquela natureza caída pelo pecado, na qual nos enganamos a nós mesmos e estamos sujeitos à carne como pena de nossa condenação. O Apóstolo adota este modo de falar quando diz: "pois éramos por natureza filhos da ira, como os demais."
Os que leem com atenção muito acurada reconhecem a Trindade nesta passagem. Escreve Paulo de Deus Pai, «que está sobre todos, e por meio de todos, e em todos». Todas as coisas são «de Deus», que a ninguém deve a sua existência. Todas as coisas são «por meio dEle», como quem diz, por meio do Mediador. Todas as coisas são «nEle», como quem diz, naquele que as contém, isto é, que as reconcilia em uma só.
Está escrito: "A boca que mente mata a alma." ... Por isso o Apóstolo põe em primeiro lugar o dizer a verdade quando nos ordena que despojemos o "homem velho", sob cujo nome se compreendem todos os pecados, dizendo: "portanto, despojando-vos da mentira, falai a verdade."
Que ninguém se engane quanto a isto. O Apóstolo não nos dá margem para mentir àqueles que ainda não são conosco membros de Cristo. O sentido do dito é que cada um de nós considere a todos como desejamos que venham a ser, ainda que não o sejam ainda... Devemos tratar a pessoa de tal maneira que ela deixe de ser estranha. Considerai-a já como vosso próximo, e não como estranho. Pode ser que, pelo fato de ela ainda não ser partícipe de nossa fé e de nossos sacramentos, certas verdades lhe devam ser ocultadas. Mas isto não é razão para lhe dizermos falsidades.
Pelo mesmo banho da regeneração e água da santificação são purificados e curados todos os pecados dos remidos, não somente aqueles que são perdoados neste tempo no batismo, mas também os que posteriormente se contraem por infirmidade ou ignorância humana.
O exemplo se estende às esposas a partir da Igreja e aos maridos a partir de Cristo... Ele exorta os maridos com base em algo inferior, a saber, o próprio corpo deles, não apenas a partir do superior, isto é, do seu Senhor.
Se Cristo se uniu à Igreja de modo que se tornaram uma só carne, de que maneira "deixou" Ele o Pai? De que maneira "deixou" a mãe? Deixou o Pai no sentido de que, estando na forma de Deus, ... esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo. ... Isso significa que deixou o Pai, não abandonando-O nem se apartando dEle, mas vindo à humanidade sob forma humilde, na qual despojou-se temporariamente de sua glória junto ao Pai.
O apóstolo fala de um grande mistério na relação entre Cristo e a Igreja. Aquilo que é grande no tocante a Cristo e à Igreja pode parecer menos auspicioso na relação entre maridos e esposas. Mas no matrimônio ele ainda assim representa o mistério de um vínculo inseparável.
A graça de Deus, pela qual nossos pecados são perdoados, é a condição de nossa reconciliação com Ele, ao passo que a paz é aquilo em que somos reconciliados.
E, dirigindo-se a Filemom, diz Paulo: "que a tua bondade não seja como que por necessidade, mas voluntária." ... Ora, sempre que há a declaração expressa de não fazer isto ou aquilo, e sempre que se exige o exercício da vontade para fazer ou deixar de fazer alguma ação, em conformidade com os mandamentos de Deus, isso é prova suficiente do livre-arbítrio da vontade. Ninguém, pois, culpe a Deus em seu coração sempre que pecar, mas impute o pecado a si mesmo.
Mas quando gozas de um homem em Deus, é antes a Deus que a um homem que gozas. Pois gozas Daquele por quem és feito feliz, e te alegras de haver chegado Àquele em cuja presença pões a tua esperança de alegria. E por isso diz Paulo a Filemom: "Sim, irmão, quero gozar de ti no Senhor." Pois se não tivesse acrescentado "no Senhor", mas dissesse apenas "quero gozar de ti", daria a entender que fixava nele a sua esperança de felicidade, ainda que também neste mesmo contexto "gozar" seja empregado no sentido de "usar com deleite". (Sobre a Doutrina Cristã 1.33)
Deus pode operar em nossos atos sem o nosso auxílio. Mas, quando queremos o ato, Ele coopera conosco.
Havia, nos tempos dos apóstolos, alguns que pregavam a verdade, mas não em verdade, isto é, não em espírito verdadeiro. Destes diz o apóstolo que a proclamação não era pura, mas era pregada "por inveja e rivalidade". Ainda que fossem tolerados os que proclamavam a verdade sem pureza de mente, não eram louvados, como se se devesse supor que pregavam com mente pura. Assim diz Paulo a respeito deles que, seja em pretexto, seja em verdade, Cristo é proclamado. Contudo, certamente não insinua que Cristo possa agora ser negado para depois ser proclamado.
Em que consiste a igualdade do Filho? Se disseres que na grandeza, não há igualdade de grandeza naquele que é menos eterno. E assim quanto às demais coisas. Seria talvez igual em poder, mas não igual em sabedoria? Ora, como pode haver igualdade de poder naquele que é inferior em sabedoria? Ou é igual em sabedoria, mas não igual em poder? Mas como pode haver igualdade de virtude naquele que é inferior em poder? Antes, a Escritura declara mais simplesmente: "não considerou usurpação ser igual a Deus." Portanto, todo adversário da verdade que esteja de algum modo sujeito à autoridade apostólica há de admitir que o Filho é, ao menos em algum aspecto, igual a Deus. Escolha ele o atributo que quiser, pois a partir daí há de manifestar-se que Ele é igual em tudo quanto se atribui à divindade.
Deus, que é eternamente sábio, tem consigo a sua Sabedoria eterna [o Filho]. Ele não é, de modo algum, desigual ao Pai. Não é, em nenhum aspecto, inferior. Pois também o Apóstolo diz: "o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou usurpação ser igual a Deus."
Estas coisas se dizem em parte por causa da economia pela qual o Filho assumiu a humanidade... em parte porque o Filho deve ao Pai a sua existência, e deve também ao Pai, na verdade, a sua igualdade ou paridade com o Pai. O Pai, porém, a ninguém deve o seu ser, seja Ele o que for.
Ele não assumiu sua humanidade da maneira simples como alguém veste uma roupa, como algo exterior a si. Antes, assumiu a forma humana de modo inexprimivelmente mais excelente e mais íntimo que isso. O Apóstolo deixou suficientemente claro o que quis dizer: "Foi feito à semelhança dos homens". Ele não se reduziu inteiramente a ser homem; antes, assumiu a verdadeira condição humana ao revestir-se do homem.
O Senhor Jesus Cristo veio em carne e, tendo "tomado a forma de escravo, fez-se obediente até a morte, e morte de cruz". Não tem Ele outro propósito senão o de, por esta disposição de sua clementíssima graça, dar vida àqueles que se tornaram, por assim dizer, membros de seu corpo. Ele é a cabeça deles a fim de lhes obter o reino dos céus. Isto fez para salvar e libertar. Redimiu e iluminou aqueles que outrora estavam entregues à morte do pecado. Jaziam eles a definhar na escravidão, no cativeiro e nas trevas, sob o poder do diabo, príncipe dos pecadores.
O Filho humilhou-se, tomando a forma de escravo. Mas, ao mesmo tempo, permaneceu acima de toda escravidão, pois não havia nele mácula alguma de pecado.
"Esvaziou-se a si mesmo", não porque, enquanto Sabedoria eterna, tenha sofrido mudança — pois, como Sabedoria eterna, Ele é absolutamente imutável —, mas porque, sem mudar, quis fazer-se conhecido aos homens sob forma tão humilde.
Diz-se que Ele “se esvaziou” de nenhuma outra maneira senão tomando a forma de servo, e não perdendo a forma de Deus. Pois aquela natureza pela qual Ele é igual ao Pai na forma de Deus permaneceu imutável, ao mesmo tempo em que assumiu a nossa natureza mutável, por meio da qual nasceu da Virgem.
Ele se humilhou, feito obediente até a morte, e morte de cruz, para que nenhum de nós, ainda que capaz de enfrentar a morte sem temor, se retraísse diante de qualquer espécie de morte que os homens reputem grande ignomínia.
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Não devemos supor, porque disse ele: "Pois é Deus quem opera em vós tanto o querer quanto o realizar", que ele tenha suprimido o livre-arbítrio. Pois, se assim fosse, não teria dito acima: "Operai a vossa própria salvação com temor e tremor". Porquanto, ao ordenar-lhes que operem, fica estabelecido que possuem livre-arbítrio. Mas devem operar com temor e tremor, para que não venham, atribuindo a si mesmos a boa obra, a ensoberbecer-se com as boas obras como se fossem suas.
Não que a vontade ou a obra não sejam nossas, mas sem o seu auxílio nós nada queremos nem fazemos de bom.
É certo que, quando praticamos uma obra, a obra é nossa; mas é Ele quem nos faz praticá-la, dando-nos força plenamente suficiente para levar a cabo a nossa vontade.
Não está no poder de Deus que alguém seja forçado, contra a sua vontade, a fazer o mal ou o bem, mas sim que se incline para o mal, segundo os seus próprios merecimentos, quando Deus o abandona. Pois ninguém é bom se não o quiser, mas a graça de Deus o assiste até mesmo no querer. Não é sem razão que está escrito: "Deus é quem opera em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade."
Antes de sua conversão, Paulo cumpria a lei de modo conspícuo, seja por temor do povo, seja do próprio Deus, ainda que pudesse ofender a lei em seus afetos internos. Cumpria, porém, a lei por temor da punição, não por amor da justiça.
Que quer ele dizer, pois, com «não tendo a minha própria justiça», visto que aquela lei não era sua, mas de Deus? Só pode ter chamado de sua própria justiça porque, embora ela procedesse da lei, ele costumava pensar que poderia cumpri-la sem o auxílio da graça que vem por Cristo.
Todos nós que corremos perfeitamente a carreira devemos estar cientes de que ainda não somos perfeitos. A esperança é que recebamos a perfeição no lugar para o qual agora corremos perfeitamente.
O apóstolo fala de si mesmo como perfeito e imperfeito ao mesmo tempo: imperfeito quando considera quanta justiça ainda lhe falta, mas perfeito porquanto não se envergonha de confessar sua própria imperfeição e progride retamente a fim de alcançá-la.
Mantende-vos firmes nos afetos da mente e nos hábitos de vida, de modo que se possa possuir perfeitamente a justiça quando, avançando dia após dia pelo caminho direto da fé, já se tenha tornado um perfeito viandante nesse caminho.
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Toda sorte de pessoas pode, com efeito, padecer a pobreza; mas “saber padecer a pobreza” é sinal de grandeza. Do mesmo modo, quem há que não possa abundar? Mas “saber abundar” não pertence senão àqueles que não são corrompidos pela abundância.
Aquele que é enviado "dos homens" é mentiroso; aquele que é enviado "por meio de um homem" diz a verdade, pois também Deus, que é verdadeiro, pode enviar a verdade por meio de homens. Aquele, portanto, que não é enviado dos homens nem por meio de um homem, mas "por meio de Deus", deriva sua veracidade Daquele que torna verazes até mesmo os que são enviados por meio de homens.
A graça de Deus, pela qual nos são perdoados os pecados, é a condição para que sejamos reconciliados com Ele; ao passo que a paz é aquilo em que somos reconciliados.
Quanto mais, portanto, não devem os homens reivindicar para si o mérito, se realizam alguma boa obra, quando o próprio Filho de Deus, no Evangelho, disse que não buscava a sua própria glória! Nem viera fazer a sua própria vontade, mas a vontade daquele que o enviara! Esta vontade e esta glória do Pai o apóstolo agora comemora, para que também ele, pelo exemplo do Senhor que o enviou, indique que não busca a sua própria glória, nem o cumprimento de sua própria vontade, na pregação do evangelho, tal como diz um pouco depois: "se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo."
Se fosse outro evangelho diferente daquele que o Senhor deu por si mesmo ou por algum outro, não seria evangelho.
Ninguém persuade a Deus, pois todas as coisas Lhe são manifestas. Mas o homem faz bem em desejar persuadir os outros quando não deseja que gostem dele mesmo, mas que sejam por ele persuadidos da verdade... Quando alguém agrada a outros por causa da verdade, não é o próprio pregador, mas a verdade, que agrada... Assim, o sentido é: "Persuado eu, então, os homens ou a Deus? E, visto que são os homens que persuado, busco agradar-lhes? Se ainda buscasse agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Pois Ele ordena a seus servos que dEle aprendam a ser mansos e humildes de coração, o que é totalmente impossível para aquele que busca agradar aos homens por si mesmo, para sua própria e particular glória." ... Podem, pois, ser ditas ambas as coisas com razão: "agrado" e "não agrado".
O evangelho que é "segundo os homens" é mentira, pois todo homem é mentiroso, visto que toda verdade que se encontra num homem não provém do homem, mas por meio do homem, de Deus.
Se, portanto, ele demonstrou proeza no judaísmo ao perseguir e devastar a igreja de Deus, é evidente que o judaísmo é contrário à igreja de Deus, não por aquela lei espiritual que os judeus haviam recebido, mas pelo seu costume carnal de servidão. E se Paulo, como zelador — isto é, imitador das tradições judaicas tardias — perseguiu a igreja de Deus, suas tradições paternas são contrárias à igreja de Deus, mas a culpa não pertence à própria lei. Pois a lei é espiritual e não se permite interpretar carnalmente. Essa é a falta daqueles que entendem carnalmente as coisas que receberam, e que também transmitiram muitas coisas suas próprias, solapando, como disse o Senhor, o mandamento de Deus por meio das suas tradições.
Se, tendo Paulo evangelizado a Arábia, viu depois a Pedro, não foi para que aprendesse o evangelho do próprio Pedro (pois então o teria visto antes), mas para que aumentasse o amor fraterno estando com os apóstolos.
Ele certamente jura, e que juramento poderia ser mais sagrado? Mas um juramento não é contra o mandamento quando a "causa má" não está no que jura, mas na incredulidade daquele a quem é forçado a jurar. Pois compreendemos por isto que o que o Senhor quis dizer ao proibir os juramentos foi que cada um, tanto quanto nele estiver, não jure os juramentos que muitos fazem, tendo o juramento nos lábios como se fosse algo elevado e elegante.
Deve-se observar que os judeus haviam crido em Cristo não somente em Jerusalém, nem eram tão poucos que tivessem sido absorvidos nas igrejas dos gentios, mas eram tão numerosos que dele se originaram igrejas.
"Para que eu não corresse nem tivesse corrido em vão" devemos entender que se dirige, como que em forma de pergunta, não àqueles com quem ele confrontou seu evangelho em particular, mas àqueles a quem escrevia, de modo que ficasse manifesto que ele não corria nem havia corrido em vão pelo fato de que, pelo testemunho dos outros, fosse certificado de que não dissentia da verdade do evangelho.
Foi por causa das intrigas dos falsos irmãos que Tito não foi compelido a circuncidar-se. Não era possível exigir-lhe a circuncisão. Aqueles que haviam se introduzido furtivamente para espiar a sua liberdade tinham veemente expectativa e desejo da circuncisão de Tito. Queriam, com o testemunho e o consentimento de Paulo, pregar a circuncisão como necessária à salvação.
Se as pessoas eram tidas por algo, isso era reputação humana, pois elas mesmas não são coisa alguma de que se gloriar. Pois, ainda que sejam bons ministros de Deus, é Cristo neles, não elas por si mesmas, quem é algo. Pois, se por si mesmas fossem algo, seriam sempre algo. "O que foram" outrora significa que a ele nada importa que eles próprios tenham sido pecadores. Deus não aceita ninguém por causa do ofício que ocupa. A todos chama à salvação, não lhes imputando as transgressões... Ninguém deve supor que Paulo disse isto para depreciar seus predecessores, pois também eles, como homens espirituais, desejavam opor-se aos carnais, que se julgavam "ser algo" por si mesmos, e não por Cristo neles. Alegravam-se sobremaneira quando se convenciam de que eles próprios, predecessores de Paulo, tal como Paulo, haviam sido justificados pelo Senhor a partir de um estado de pecado. Mas os homens carnais, se algo se diz de sua vida pregressa, irritam-se e o tomam como depreciação. Assim, supõem que os apóstolos partilham de seu próprio parecer. Ora, Pedro, Tiago e João eram mais honrados entre os apóstolos, porquanto o Senhor se manifestou no Monte a esses mesmos três como sinal de seu reino.
Não se constatou, portanto, que os apóstolos discordassem em coisa alguma. Do contrário, quando Paulo afirmou ter recebido o evangelho de modo perfeito, eles poderiam tê-lo negado e desejado acrescentar algo ao seu ensino, como se ele fosse incompleto. Pelo contrário, em vez de reprovarem a imperfeição de Paulo, aprovaram a sua perfeição (...). Sua expressão "pelo contrário" também pode ser entendida de modo a produzir o seguinte sentido: "A mim, aqueles que tinham reputação nada mais impuseram. Pelo contrário, consentiram comigo e com Barnabé, unindo a destra da comunhão, para que nós, por nossa parte, fôssemos aos gentios, que são contrários à circuncisão, enquanto eles, por sua parte, fossem aos da circuncisão."
Paulo jamais incorreu em qualquer fingimento, pois em toda parte observava um princípio que parecia conveniente tanto às igrejas dos gentios quanto às dos judeus: que em nenhum lugar suprimisse um costume cuja observância não impedia o recebimento do reino de Deus... Pedro, porém, quando veio a Antioquia, foi repreendido por Paulo não porque observasse o costume judaico em que fora nascido e criado, ainda que não o observasse entre os gentios, mas porque quis impô-lo aos gentios. Isto aconteceu depois de ver certas pessoas que vieram da parte de Tiago — isto é, da Judeia, visto que Tiago era o chefe da igreja em Jerusalém. Foi, pois, por temor daqueles que ainda pensavam que a salvação residia nessas observâncias que Pedro se apartou dos gentios e fingiu consentir em impor aos gentios aqueles fardos de servidão.
Para que alguém pudesse cumprir as obras da lei, sendo sua enfermidade socorrida não pelo seu próprio mérito, mas pela graça de Deus, não deviam eles exigir dos gentios uma observância carnal da lei, mas antes compreender que, mediante essa mesma graça de Deus, eram capazes de cumprir as obras espirituais da lei.
Que ele o repreendesse "diante de todos" era necessário, para que todos pudessem ser aperfeiçoados por sua repreensão. Pois não era conveniente corrigir em segredo um erro que causava dano público. Deve-se acrescentar que, em sua firmeza e caridade, Pedro, a quem o Senhor havia dito três vezes: "Amas-me? Apascenta as minhas ovelhas", estava muito pronto a suportar esta repreensão de um pastor mais jovem, para a salvação do rebanho. Pois aquele que era repreendido era ele mesmo mais notável e mais difícil de imitar do que aquele que repreendia. Pois é mais fácil ver o que se deve corrigir nos outros do que ver o que deve ser corrigido em si mesmo. É mais fácil corrigir os outros admoestando e repreendendo do que ser corrigido prontamente até por si mesmo, quanto mais por outro, e menos ainda se a isso se acrescenta outro, e "diante de todos".
Aqueles que desejam defender Pedro do erro e da depravação de vida em que havia caído subvertem o próprio caminho da religião no qual reside a salvação de todos. Isto despedaça e diminui a autoridade das Escrituras. Não veem eles que, nesta defesa, imputam implicitamente ao apóstolo Paulo não apenas o crime da mentira, mas até mesmo o de perjúrio no próprio ensino da piedade, isto é, na carta em que Paulo proclama o evangelho. É por esta razão que ele diz, antes de narrar estas coisas [em :]: "O que vos escrevo, sabei diante de Deus que não minto".
Os judeus haviam dado aos gentios o nome de pecadores por certa soberba, já inveterada. É como se eles mesmos fossem justos, vendo o argueiro no olho alheio e não a trave no seu próprio.
O espírito humano, aderindo ao Espírito de Deus, combate contra a carne, isto é, contra si mesmo e em seu próprio favor. Aqueles ímpetos naturais à humanidade, quer na carne, quer na alma, que permanecem por causa de nossa debilidade adquirida, são refreados pela disciplina em vista da obtenção da salvação. Assim, o ser humano que já não vive segundo a natureza humana pode dizer: "Vivo, mas já não eu, e sim Cristo vive em mim." Pois onde eu não sou eu, sou eu mais felizmente. Assim, quando surge algum ímpeto reprovável segundo minha antiga natureza humana, ao qual eu, que sirvo à lei de Deus com a mente, não consinto, posso já dizer isto: "agora não sou eu quem faz aquilo."
Aqui ele começa a demonstrar em que sentido a graça da fé é suficiente para a justificação sem as obras da lei... Mas, para que esta questão seja tratada com cuidado e ninguém se deixe enganar por ambiguidades, devemos primeiro compreender que as obras da lei são de duas espécies; pois residem em parte em ordenações cerimoniais e em parte na moral. Às ordenações pertencem a circuncisão da carne, o sábado semanal, as luas novas, os sacrifícios e todas as inumeráveis observâncias desta espécie. Mas à moral pertencem: "Não matarás, não cometerás adultério, não darás falso testemunho" e assim por diante. Poderia porventura o apóstolo não se importar se um cristão fosse homicida e adúltero, ou casto e inocente, do mesmo modo que não se importa se ele é circuncidado ou incircunciso na carne? Ele, portanto, ocupa-se especialmente com as obras que consistem em ordenações cerimoniais, embora indique que as outras estão por vezes a elas ligadas. Mas perto do fim da carta ele trata separadamente das obras que consistem na moral, e o faz brevemente, discorrendo, porém, mais longamente sobre as obras [cerimoniais]... Pois nada aterroriza tanto a mente quanto uma ordenação cerimonial que não é compreendida. Mas quando é compreendida, produz alegria espiritual e é celebrada com gozo e em tempo devido. É lida e tratada apenas com uma doçura espiritual. Ora, todo sacramento, uma vez assim compreendido, aplica-se ou à contemplação da verdade ou aos bons costumes. A contemplação da verdade funda-se somente no amor de Deus; os bons costumes, no amor de Deus e do próximo, e destes dois preceitos dependem toda a Lei e os Profetas.
A maior causa de triunfo em Abraão foi que, antes de sua circuncisão, a fé lhe foi imputada como justiça. Isto se refere mui corretamente à promessa de que "todas as nações serão abençoadas em ti", entendendo-se, evidentemente, pelo seguimento de sua fé, pela qual foi justificado ainda antes da instituição da circuncisão — que recebeu como sinal da fé — e muito antes da servidão da lei, que foi dada bem mais tarde.
A lei conduz ao conhecimento do pecado e, por fim, à transgressão da própria lei. É assim, pois, que, com o conhecimento e o aumento do pecado, a graça possa ser buscada mediante a fé.
O valor que a morte do testador tem para confirmar seu testamento é definitivo, uma vez que ele já não pode mudar de parecer. É este o valor que a imutabilidade da promessa de Deus tem para confirmar a herança de Abraão, cuja fé lhe foi reputada para justiça.
Se a lei justifica, Abraão não foi justificado, visto que viveu muito antes da lei. Como não podem dizer isto, são forçados a admitir que o homem é justificado não pelas obras da lei, mas pela fé. E ele nos obriga a entender que todos os antigos que foram justificados o foram pela mesma fé. Pois, assim como somos salvos crendo em parte num acontecimento passado, isto é, a primeira vinda do Senhor, e em parte num futuro, isto é, sua segunda vinda, eles criam na totalidade disso, isto é, em ambas as vindas como acontecimentos. O Espírito Santo revela isto para a salvação deles.
Ora, toda dispensação do Antigo Testamento foi dada por meio de anjos, operando neles o Espírito Santo e o próprio Verbo da verdade, ainda que não incarnado, sem jamais se apartar de alguma verdadeira ordenação da providência. Esta lei foi dada por meio de anjos, ora agindo em pessoa própria, ora na pessoa de Deus, como era também o modo dos profetas… Os filhos [de Abraão] foram postos na mão d'[Cristo] o Mediador, a fim de que Ele mesmo os libertasse do pecado, quando, forçados pela sua transgressão da lei, fossem obrigados a confessar que necessitavam da graça e da misericórdia do Senhor.
Aqui se levanta uma questão bastante pertinente: se a fé justifica, e até mesmo os santos de outrora, que foram justificados diante de Deus, o foram por meio dela, que necessidade havia de que a lei fosse dada?… A lei foi dada a um povo soberbo, mas a graça do amor não pode ser recebida senão pelos humildes. Sem esta graça, de modo algum podem cumprir-se os preceitos da lei. Israel foi tornado humilde pela transgressão, para que buscasse a graça e não presumisse arrogantemente salvar-se por seus próprios méritos; e assim seria justo, não por sua própria força e poder, mas pela mão do Mediador que justifica o ímpio.
Era necessária a transgressão da lei para quebrar o orgulho daqueles que, gloriando-se em seu pai Abraão, se vangloriavam de possuir uma espécie de justiça natural. Causavam eles maior dano aos gentios quanto mais arrogantemente ostentavam os méritos de sua circuncisão. Mas os gentios podiam ser humilhados com muita facilidade mesmo sem transgressão desta espécie de lei, pois a graça do evangelho encontrou estes homens, que sabiam não haver recebido de seus pais raiz alguma de sabedoria, sendo de fato escravos dos ídolos... A lei foi, portanto, dada não para tirar o pecado, mas para incluir a todos debaixo do pecado. Pois a lei mostrou ser pecado aquilo que os judeus, em sua cegueira, julgavam ser justiça, para que, por esta humilhação, pudessem conhecer que sua salvação não estava em suas próprias mãos, mas na mão de um mediador... Esta mesma humildade era própria ao reconhecimento de Cristo, que é o paradigma da humildade.
Para os que são soberbos, é útil serem mais estreitamente atados sob o pecado, para que não presumissem do livre-arbítrio para a realização da justiça, como que apoiados na própria força.
Ninguém deve ser tão insensato que diga aqui: "Que proveito, então, tiveram os judeus em serem postos na mão de um Mediador, mediante anjos que dispensavam a lei?" Foi-lhes proveitoso além do que se pode exprimir. Pois que igrejas dos gentios venderam suas posses e puseram o preço delas aos pés dos apóstolos, como tantos milhares de pessoas tão prontamente o fizeram? ... E quando louva a igreja dos tessalonicenses acima de todas as demais igrejas, diz que se tornaram semelhantes às igrejas dos judeus, porque haviam padecido muitas coisas de seu próprio povo por causa de sua fé, assim como as outras dos judeus. ... E a consciência de uma enfermidade maior, a de se descobrirem transgressores da própria lei, operou não para a ruína, mas para o bem dos que criam, fazendo-os desejar mais fervorosamente um médico e amá-lo com mais ardor.
A diferença de raça, ou de condição, ou de sexo é, na verdade, removida pela unidade da fé, mas permanece arraigada em nossas relações mortais, e no percurso desta vida os próprios apóstolos ensinam que ela deve ser respeitada.... Pois observamos que, na unidade da fé, não há tais distinções. Contudo, dentro das ordens desta vida, elas persistem. Assim caminhamos por esta via de modo que o nome e a doutrina de Deus não sejam blasfemados. Não é por medo ou por ira que desejamos evitar ofender os outros, mas também por causa da consciência, para que façamos estas coisas não por mera aparência, como que para os olhos dos homens, mas com um amor puro para com Deus.
Por que Paulo inclui a si mesmo nesta descrição? Ele não diz “Quando vós éreis pequenos, estáveis sujeitos aos elementos deste mundo”, mas “Quando nós éramos pequenos, estávamos em servidão sob os elementos deste mundo”. Isto não tem nenhuma referência aos judeus, dos quais Paulo tirava sua origem. Antes, refere-se à sua identificação com os gentios neste ponto ao menos, visto que ele pode propriamente unir-se ao caráter daqueles a quem foi enviado para evangelizar.
Diz "adoção" para que entendamos claramente que o Filho de Deus é único. Pois nós somos filhos de Deus por Sua generosidade e pela condescendência de Sua misericórdia, ao passo que Ele é Filho por natureza, partilhando da mesma divindade com o Pai.
Há duas palavras que ele colocou de modo que a primeira seja interpretada pela segunda, pois "Aba" significa o mesmo que "Pai". Ora, vemos que ele reuniu, elegante e não sem razão, palavras de duas línguas que significam a mesma coisa, por causa de todo o povo que foi chamado, dentre judeus e gentios, à unidade da fé.
Quando, porém, ele diz, "estáveis em servidão aos que por natureza não são deuses", prova suficientemente que um só Deus verdadeiro é Deus por natureza, em cujo nome o Deus triúno é recebido no seio mais fiel e católico do coração. Aqueles "que por natureza não são deuses" são por ele descritos como governadores e superintendentes. Não há criatura, quer permaneça na verdade dando glória a Deus, quer deixe de permanecer na verdade buscando a sua própria glória — não há, digo, criatura alguma que, queira ou não queira, não sirva à divina providência.... Mas, assim como o magistrado, sob a lei imperial, nada faz senão o que lhe é permitido, também os governadores e superintendentes deste mundo nada fazem senão o que Deus permite.
O que se segue, por assim dizer, reintroduz uma questão já explorada. Ao longo de toda a epístola mostrou ele que ninguém perturbou a fé dos gálatas senão os que eram da circuncisão, os quais desejavam conduzi-los a observâncias carnais da lei, como se nelas estivesse a salvação. Somente neste lugar parece falar àqueles que tentavam retornar às superstições gentílicas... Pois, ao dizer "reverteste", visto que fala não aos circuncisos, mas aos gentios, como aparece em toda a epístola, não diz de modo algum que reverteram à circuncisão, na qual jamais estiveram, mas diz "aos fracos e pobres elementos", aos quais desejais servir de novo como antes.
Assim, escolha o leitor a interpretação que preferir, contanto que compreenda que tais observâncias supersticiosas dos tempos trazem grande perigo à alma, a tal ponto que o apóstolo acrescenta: "Temo que talvez tenha trabalhado em vão entre vós." ... E, no entanto, se alguém, ainda que catecúmeno, é surpreendido guardando o sábado segundo o rito judaico, a igreja se perturba. Ao passo que, inúmeros membros da igreja dizem, com grande complacência, à vista de todos nós: "Não viajo no dia seguinte ao primeiro." ... Ai da pecaminosidade humana, que só condenamos o que nos é estranho, mas com as coisas familiares somos tolerantes, ainda que sejam grandes e façam com que o reino dos céus lhes seja absolutamente fechado. Por eles o Filho de Deus derramou o Seu sangue. Chegamos a tolerá-los pelo trato frequente, e, pela tolerância crescente, dele participamos.
Os seres humanos são concebidos no ventre materno a fim de serem formados, mas somente quando plenamente formados entram em trabalho de parto. Poder-se-ia estranhar sua afirmação: "Vós, meus filhinhos, por quem de novo sofro as dores de parto até que Cristo seja formado em vós." Devemos entender que estas dores representam as agonias de sua solicitude, para que nasçam em Cristo. Então ele padece por eles uma vez mais, por causa dos perigos de sua sedução, pela qual os vê perturbados.
Porquanto no Antigo Testamento se prefigura o Novo, mostra-se que aqueles homens de Deus que então o entenderam segundo o modo próprio de seu tempo foram ministros e executores da antiga aliança, mas herdeiros da nova.
Poderiam os homens supor que, no caso de Agar, Abraão agiu apenas por desejo humano de procriação. Mas o Apóstolo torna claro o contrário, considerando isto em relação à profecia.
Ora, o fato de Isaque ter nascido de uma esposa livre não basta para que ele signifique o povo que herda a Nova Aliança. O que mais importa é que ele nasceu segundo a promessa. Pois poderia ter nascido, segundo as normas da natureza, tanto de uma escrava quanto igualmente de uma mulher livre, assim como Abraão recebeu de Cetura, com quem depois se casou, filhos não segundo uma promessa, mas segundo a natureza.
Sob a segura orientação do apóstolo, vemos com que clareza ele mostra que estas duas coisas devem ser tomadas alegoricamente. Pode-se também considerar os filhos de Quetura sob alguma figura das coisas futuras. O fato de tais pessoas terem feito estas coisas não está registrado sem propósito, mas sob a orientação do Espírito Santo. Talvez encontremos que as heresias e os cismas estão significados nesta alegoria. Pois estes são filhos da livre, isto é, da Igreja, e contudo revertem novamente à vida segundo a carne, não espiritualmente segundo uma promessa.
Sara significa a Jerusalém celestial, tendo sido por longo tempo privada dos abraços de seu marido por causa de sua reconhecida esterilidade. Pois homens como Abraão não se serviam das mulheres para satisfazer a luxúria, mas para a procriação da prole. Ora, à sua esterilidade acrescentara-se também a idade…. A idade dos pais de Isaque serve para significar que, ainda que novo seja o povo da Nova Aliança, a sua predestinação repousa, não obstante, em Deus, e é aquela antiga Jerusalém celestial.
Consideremos se devemos dizer que os justos de outrora eram filhos da mulher escrava ou da livre. Mas Deus nos livre de que fossem da escrava. Se, portanto, são da livre, pertencem à nova aliança no Espírito Santo, cujo poder vivificante o apóstolo contrapõe "à letra que mata".
Ora, diz Paulo que Cristo de nada lhes aproveitará se forem circuncidados, isto é, no modo físico que seus opositores queriam, a saber, pôr sua esperança de salvação em circuncidar a sua carne. Pois o próprio Paulo circuncidou Timóteo, quando jovem, já sendo este cristão. Isto fez [para evitar] escandalizar os seus, de nenhum modo por dissimulação, mas por aquela indiferença que o fez dizer: “a circuncisão nada é, a incircuncisão nada é.” Pois a circuncisão não é impedimento algum para aquele que não crê que nela esteja a sua salvação.
Porquanto são eles, e não Cristo, os que sofrem o dano, acrescenta: "caístes da graça." Pois, sendo efeito da graça de Cristo que aqueles que eram devedores às obras da lei fossem libertados desta dívida, estes, ingratos a tão grande graça, preferem ser devedores a toda a lei. Ora, isto ainda não havia sucedido; mas, porque a vontade já começara a mover-se, fala ele frequentemente como se já tivesse sucedido.
Esta é a fé que separa os justos dos demônios imundos, pois estes também, como diz o apóstolo Tiago, "creem e tremem," mas suas obras não são boas. Por isso não têm aquela fé pela qual "o justo vive."
Visto que aqui fala de tropeço, ele lhes recorda que a principal razão pela qual os judeus se escandalizavam de Cristo era que amiúde o viam ignorar e desdenhar aquelas observâncias cerimoniais que criam necessárias para a sua própria salvação. O que aqui diz equivale, pois, a dizer: "Em vão, portanto, os judeus, em sua indignação, crucificaram a Cristo quando Este desdenhou tais mandamentos. Agora ainda tentam impor tais coisas àqueles por quem Ele foi crucificado."
A partir deste ponto, começa Paulo a discutir aquelas obras da lei que ... ninguém nega pertencerem também ao novo pacto, mas com outro fim, próprio dos que praticam boas obras "em liberdade". Estes atos visam às recompensas de um amor que espera as coisas eternas e aguarda na fé. Isto é bem diverso dos judeus, os quais eram compelidos a cumprir estes mandamentos por temor, e não aquele temor justo que permanece para a eternidade, mas um que os fazia temer pela vida presente. O resultado: cumprem certas obras da lei que consistem em cerimônias, mas são inteiramente incapazes de cumprir aquelas que consistem em boa conduta. Pois nada cumpre estas senão o amor... E assim o apóstolo diz agora: "Fostes chamados à liberdade, irmãos, mas com a condição de que não deixeis que a vossa liberdade seja ocasião para a natureza pecaminosa. Não suponhais, ao ouvir a palavra liberdade, que podeis pecar impunemente."
Pensam alguns que o Apóstolo aqui nega que possuamos o livre-arbítrio. Não percebem o que ele lhes diz: Se se recusarem a reter a graça que receberam, pela qual somente podem andar no Espírito e não cumprir os desejos da carne, não poderão fazer o que desejam… É o amor que "cumpre a lei". Mas a "sabedoria da carne", seguindo os bens temporais, se opõe ao amor espiritual. Como poderia sujeitar-se à lei de Deus (isto é, cumprir livre e obedientemente a justiça e não se lhe opor) se, mesmo ao tentá-lo, há de ser vencida? A carne imagina que pode obter maior bem temporal pela iniquidade do que pela manutenção da justiça. O primeiro estágio, a vida natural do homem, precede a lei, quando nenhuma iniquidade ou malícia é proibida. O ser natural não oferece resistência alguma aos desejos vis, pois não há quem os proíba. O segundo estágio é sob a lei, antes da graça, quando de fato é proibido e tenta abster-se do pecado, mas é vencido, porque ainda não ama a justiça por causa de Deus e por si mesma, mas deseja observá-la na esperança de aquisições terrenas. E, portanto, quando vê de um lado a justiça e de outro o bem temporal, é arrastado pelo peso de seu desejo temporal e assim abandona a justiça, que tentava manter apenas para ter aquilo que agora vê que há de perder ao mantê-la. O terceiro estágio da vida é o que se dá sob a graça, quando nenhum bem temporal é preferido à justiça. Isto não pode acontecer senão pelo amor espiritual, que o Senhor ensinou por seu exemplo e concedeu pela graça. Pois nesta vida, ainda que permaneçam os desejos da carne por causa da mortalidade do corpo, contudo não subjugam a mente ao consentimento do pecado.
Ora, isto, penso eu, escreve ele aos gálatas, aos quais diz: "Quem vos deu o Espírito"… Por isto é manifesto que fala a cristãos, pessoas a quem Deus dera o Espírito, e, portanto, aos batizados. Vede, a natureza pecaminosa é adversária até mesmo dentro dos batizados, e não há neles aquela possibilidade [de impecabilidade] que [Pelágio] diz estar de tal modo implantada em nossa natureza que não pode ser anulada.
O fato é que ambos são bons: bom é o espírito, e boa é também a carne. E a pessoa inteira, que consiste de ambos, um governando e outro obedecendo, é de fato boa, mas um bem mutável. Todavia, esses bens mutáveis não poderiam existir se não fosse pelo bem imutável, que é a fonte de todo bem criado, seja pequeno, seja grande. Mas por menor que seja um bem particular, ele é não obstante feito por Aquele que é incomparavelmente bom. E por maior que seja, de modo algum é comparável à grandeza de seu Criador. Mas nesta natureza humana, boa como é em sua origem e constituição, há agora guerra, porque ainda não há salvação.
"A carne combate contra o espírito", mas não o subjuga, uma vez que o espírito também "combate contra a carne". Ainda que essa mesma lei do pecado detenha algo da carne como seu cativo, e por isso resista à lei da mente, ela contudo não reina em nosso corpo, mortal como é, se nosso corpo não obedece voluntariamente aos seus desejos.
Não disse ele "Andai no Espírito, para que não tenhais desejos da carne", mas "para que não os satisfaçais". Não os ter absolutamente, com efeito, não é a luta, mas o prêmio da luta, se houvermos alcançado a vitória pela perseverança sob a graça. Pois somente a transformação do corpo em estado imortal é que já não terá desejos da carne.
Está o homem "debaixo da lei" quando tem consciência de que se abstém das obras do pecado por temor dos tormentos ameaçados pela lei, e não por amor da justiça. Não é ele ainda livre, não é ainda estranho à vontade de pecar. Pois faz o mal pelo próprio querer, visto que preferiria, se possível fosse, que nada houvesse que a vontade temesse, para que livremente fizesse o que secretamente deseja... Pela lei, de que se serviu para infundir temor, não lhe comunicou Deus o amor. O amor piedoso é derramado em nossos corações não pela letra da lei, mas pelo Espírito Santo, que nos é dado.
Ninguém suponha que a inveja seja o mesmo que o zelo. Pois são, na verdade, vizinhos, e por causa dessa mesma vizinhança um é amiúde substituído livremente pelo outro… Mas, porque aqui cada qual se distingue, exigem de nós que façamos a distinção. O zelo é a angústia da mente quando alguém alcança algo que dois ou mais buscavam, mas que só pode ser possuído por um. O zelo cura-se pela paz, na qual todos podem obter aquilo que buscam e assim se tornam um só. A inveja, por sua vez, é a tristeza que se sente na mente quando um indigno parece ter obtido algo, ainda que não seja buscado pelos outros. A inveja vence-se pela mansidão, quando todos os que anelam apelam ao juízo de Deus e não resistem à Sua vontade, confiando antes na justiça do que Ele faz do que na própria estimativa do que os homens merecem.
Ele colocou a fornicação à frente dos vícios carnais, e o amor à frente das virtudes espirituais. Quem se aplicar ao estudo da divina Escritura sentir-se-á impelido a investigar atentamente o restante. A fornicação é o amor divorciado do legítimo matrimônio; ele vagueia por toda parte à procura de ocasião para satisfazer sua luxúria. Ora, nada se ajusta tão retamente à geração espiritual quanto a união da alma com Deus: quanto mais firmemente ela se Lhe apega, tanto mais irrepreensível se torna. É o amor que a capacita a aderir. Com razão, pois, o contrário da fornicação é o amor; ele é o único meio pelo qual se preserva a castidade. Ora, os atos impuros provêm de todas aquelas perturbações produzidas pela luxúria de fornicar, às quais se opõe o gozo da tranquilidade. E a escravidão à idolatria é a suprema fornicação da alma. Trava-se contra o evangelho e contra os que foram reconciliados com Deus uma guerra das mais furiosas; os resquícios da fornicação, embora há muito arrefecidos, podem contudo ainda reacender-se. O contrário desta guerra é a paz pela qual somos reconciliados com Deus. Quando esta mesma paz de Deus se mantém para com os homens, curam-se entre nós os vícios dos envenenamentos, da inimizade, da contenda, do engano, da animosidade e da dissensão, de modo que os demais entre nós sejam tratados com a devida moderação. A longanimidade combate para suportar estes vícios, a benignidade para mitigá-los, e a bondade para perdoá-los. Além disso, a fé luta contra a heresia, a mansidão contra a inveja, a continência contra a embriaguez e a gula.
Acrescentou "contra tais coisas não há lei", para que entendamos que aqueles a quem se deve impor a lei são os que ainda não têm em si o reinado destas excelentes disposições. Pois aqueles em quem elas reinam são os que aplicam a lei legitimamente, uma vez que a lei não lhes é imposta com intenção coercitiva, visto que a justiça já é sua preferência dominante... Estes frutos espirituais reinam naquele em quem os pecados não reinam. Estes bens reinam se são de tal modo deleitáveis que eles mesmos sustêm a mente em suas provações, para que não caia no consentimento ao pecado. Pois, o que quer que nos dê maior deleite, isso necessariamente executamos.
Não disse "contra estes", para que não se pensasse serem os únicos - ainda que, mesmo se o tivesse dito, devêssemos entender todos os bens desta espécie que se possa conceber. Não; ele diz "contra tais coisas", a saber, tanto estes quanto tudo o que lhes é semelhante.
Alguém é surpreendido nessas ocasiões ou quando peca sem perceber, no momento, que se trata de pecado, ou quando o percebe e, ainda assim, é vencido. Peca-se, pois, ou por ignorância da verdade ou sob os limites da fraqueza.
Não há prova mais segura do homem espiritual do que o modo como trata o pecado alheio. Observai como ele se esforça por libertar o pecador, e não por triunfar sobre ele; por socorrê-lo, e não por castigá-lo; e, na medida de sua capacidade, por sustentá-lo.
A "lei de Cristo" significa a lei do amor. Aquele que ama o seu próximo cumpre a lei. O amor ao próximo é fortemente recomendado já no Antigo Testamento. O apóstolo diz alhures que é pelo amor que se resumem todos os mandamentos da lei. Se assim é, então é evidente que também aquela Escritura que foi dada ao povo da aliança era a lei de Cristo, a qual, uma vez que não estava sendo cumprida pelo temor, Ele veio cumprir pelo amor. A mesma Escritura, portanto, e a mesma lei, chama-se antiga aliança quando oprime na escravidão aqueles que se apegam avidamente aos bens terrenos. Chama-se novo testamento quando eleva à liberdade aqueles que buscam ardentemente o bem eterno.
Semear no espírito é servir à justiça a partir da fé e com amor, e não dar ouvidos aos desejos do pecado, ainda que estes surjam da carne mortal… Quando estamos sob a graça, semeamos em lágrimas, quando surgem os desejos de nosso corpo animal, aos quais resistimos por não lhes consentir, para que colhamos em alegria. Colhemos quando, pela reforma de nosso corpo, nenhuma vexação ou perigo de tentação vem, de qualquer fonte corpórea, perturbar-nos.
Os judeus infligiam grande perseguição àqueles que pareciam abandonar suas observâncias tradicionais, tais como a circuncisão. A ausência de temor de Paulo ficou demonstrada por ele ter composto tal carta de seu próprio punho. Deste modo ele mostra que aqueles que forçam os gentios à circuncisão operam sob o domínio do temor, como se estivessem sujeitos à lei.
Não somente desejavam [os judaizantes] evitar a perseguição dos judeus, que de modo algum estavam dispostos a permitir que a lei fosse dada aos incircuncisos, mas também desejavam gabar-se diante dos judeus do número de prosélitos que faziam.
Paulo se refere àqueles que verdadeiramente estão preparados para a visão de Deus. Estes se distinguem daqueles que são chamados por este nome [Israel] e, em sua cegueira carnal, recusam-se a ver o Senhor, desprezando a Sua graça, ainda desejando ser escravizados pelas coisas temporais.
O que em grego se diz logos, em latim significa tanto razão quanto verbo; mas neste caso é melhor interpretá-lo como Verbo, para que se signifique não apenas a relação com o Pai, mas também a potência operativa para aquelas coisas que foram feitas pelo Verbo. A razão, porém, ainda que nada seja feito por ela, corretamente se chama razão1.
[1] Esta nota corresponde à observação presente na tradução espanhola. ↩
Diariamente, ao serem pronunciadas, as palavras tornaram-se comuns para nós, porque ao soarem e passarem, tornaram-se vulgares. Existe uma palavra que permanece no interior do próprio homem: pois o som procede da boca. Existe uma palavra que verdadeiramente e especialmente é chamada aquilo que se entende a partir do som, não o próprio som.
Qualquer um, porém, que possa compreender a palavra, não apenas antes que soe, mas também antes que as imagens de seus sons sejam formadas no pensamento, já pode ver por este espelho e neste enigma alguma semelhança do Verbo, do qual foi dito: no princípio era o Verbo(São João 1,1). É necessário, pois, que quando falamos o que sabemos, da própria ciência que retemos na memória nasça a palavra, que deve ser absolutamente do mesmo modo que aquela ciência da qual nasce. Pois o pensamento formado a partir daquilo que sabemos é a palavra que dizemos no coração; a qual não é grega, nem latina, nem de língua alguma. Mas quando é necessário levá-la ao conhecimento daqueles com quem falamos, assume-se algum sinal pelo qual seja significada. Por conseguinte, a palavra que soa exteriormente é um sinal da palavra que permanece oculta no interior, à qual compete mais propriamente o nome de palavra: pois aquilo que é proferido pela boca da carne é a voz da palavra, e também se chama palavra por causa daquela da qual foi tomada para aparecer exteriormente.
Assim como nosso conhecimento difere do conhecimento de Deus, assim também nossa palavra, que nasce de nossa ciência, é diferente daquela Palavra de Deus, que nasceu da essência do Pai. Isto é como se eu dissesse, do conhecimento do Pai, da sabedoria do Pai; ou, o que é mais expressivo, do Pai que é conhecimento, do Pai que é sabedoria. Portanto, o Verbo de Deus, Filho unigênito do Pai, é em tudo semelhante e igual ao Pai: isto é absolutamente o que o Pai é, mas não é o Pai; porque este é o Filho, aquele é o Pai. E por isso conhece todas as coisas que o Pai conhece; mas seu conhecer vem do Pai, assim como seu ser: pois conhecer e ser ali são uma mesma coisa; e, portanto, para o Pai, assim como o ser não vem do Filho, também não o conhecer. Por conseguinte, como que dizendo-se a si mesmo, o Pai gerou o Verbo igual a si em todas as coisas: pois não teria dito a si mesmo íntegra e perfeitamente se algo menor ou maior existisse em seu Verbo do que nele mesmo. Nossa palavra interior, porém, que descobrimos ser de algum modo semelhante àquela, não nos aborreçamos em contemplar quão dissemelhante também é. Pois há uma palavra em nossa mente às vezes formável, ainda não formada, algo em nossa mente que lançamos com certo movimento volúvel de um lado para outro, quando ora isto, ora aquilo, conforme for encontrado ou ocorrer, é pensado por nós; e então se torna verdadeira palavra quando aquilo que dissemos lançar com movimento volúvel chega àquilo que sabemos, e daí é formado, tomando sua completa semelhança; para que, do modo como cada coisa é conhecida, assim também seja pensada. Quem não vê quão grande é aqui a dessemelhança com aquele Verbo de Deus, que na forma de Deus existe de tal modo que não foi primeiro formável para depois ser formado, nem pode em algum momento ser informe, mas é forma simples e simplesmente igual àquele de quem procede? Por isso, assim se diz ser aquele Verbo de Deus, para que não se diga ser pensamento de Deus; para que não se diga haver algo como que volúvel em Deus, que ora tenha, ora receba forma para ser Verbo, e que possa perdê-la e de certo modo revolver-se informemente.
Pois o Verbo de Deus é uma forma não formada, mas a forma de todas as formas, forma imutável, sem lapso, sem defeito, sem tempo, sem lugar, superando todas as coisas, existindo em todas como um certo fundamento sobre o qual existem, e cume sob o qual estão.
Ou no princípio, como se fosse dito: antes de todas as coisas.
Mas dizem: se é Filho, nasceu; isto confessamos. Em seguida, acrescentam: se o Filho nasceu para o Pai, o Pai existia antes que o Filho lhe nascesse; isto a fé rechaça. Então, dizem: dá-me a razão de como o Filho pôde nascer do Pai, de modo que fosse coetâneo daquele do qual nasceu. Pois o filho nasce depois do pai, para sucedê-lo quando morrer. Usam semelhanças das criaturas; e nós devemos também nos esforçar para encontrar semelhanças daquelas coisas que afirmamos. Mas como podemos encontrar na criatura o coeterno, quando na criatura nada encontramos de eterno? Mas se podem ser encontradas estas duas coisas coetâneas, aquele que gera e aquele que é gerado, ali podemos entender o coeterno. A própria sabedoria é chamada nas Escrituras de esplendor da luz eterna, e imagem do Pai. Daqui tomemos uma semelhança, para encontrarmos coisas coetâneas, a partir das quais possamos entender as coeternas. Ninguém duvida que o esplendor provém do fogo. Suponhamos, pois, o fogo como pai daquele esplendor: logo que acendo uma lâmpada, simultaneamente com o fogo existe também o esplendor. Dá-me aqui fogo sem esplendor, e crerei que o Pai existiu sem o Filho. A imagem surge de um espelho, da pessoa que contempla o espelho; a imagem existe logo que o observador aparece: mas aquele que olha já existia antes de se aproximar do espelho. Suponhamos, então, algo nascido sobre a água, como um ramo ou uma erva: porventura não nasce com sua imagem? Se, portanto, o ramo sempre existisse, também a imagem do ramo sempre existiria. Ora, o que vem de outro, certamente nasceu. Pode, portanto, o gerador existir sempre, e sempre com aquilo que dele nasceu. Mas alguém dirá: eis que entendi o Pai eterno, o Filho coeterno; todavia, como dizemos que o esplendor emitido brilha menos que o fogo, ou que a imagem refletida tem menos existência que o ramo. Não, mas a igualdade é completa em tudo. Não creio, diz ele, porque não encontraste uma semelhança adequada. Talvez, porém, encontremos na criatura algo através do qual possamos entender o Filho como coeterno com o Pai, e de modo algum inferior; mas não podemos encontrar isso em um único tipo de semelhança. Juntemos, portanto, ambos os tipos: um de onde eles mesmos tiram suas semelhanças, e outro de onde nós tiramos as nossas. Pois eles deram semelhança a partir daquelas coisas que são precedidas no tempo por aquelas das quais nascem, como o homem do homem; mas, todavia, homem e homem são da mesma substância. Louvamos, portanto, neste nascimento a igualdade de natureza: falta a igualdade de tempo. Naquele tipo de semelhança que nós demos, do esplendor do fogo e da imagem do ramo, não encontras igualdade de natureza, mas encontras coetaneidade. Portanto, tudo o que ali se encontra em partes singulares e coisas singulares; e não apenas o que está nas criaturas, eu encontro ali totalmente, porém como no Criador.
Quando se diz que todas as coisas foram feitas por Ele, mostra-se claramente que também a luz foi feita por Ele, quando Deus disse: faça-se a luz; e semelhantemente quanto às outras coisas. Se isto é assim, é eterno o que Deus diz: faça-se a luz, porque o Verbo de Deus, Deus junto a Deus, é coeterno com o Pai, embora a criatura temporal tenha sido feita. Pois ainda que as palavras quando e alguma vez pertençam ao tempo, todavia é eterno no Verbo de Deus quando algo deve ser feito; e então é feito quando deva ser feito naquele Verbo, no qual não há quando nem alguma vez, pois todo aquele Verbo é eterno.
Como, então, pode acontecer que o Verbo de Deus tenha sido feito, quando Deus fez todas as coisas pelo Verbo? Se o próprio Verbo foi feito, por qual outro Verbo foi Ele feito? Se dizes que existe um verbo do Verbo, pelo qual Aquele foi feito, este mesmo eu chamo de Filho Unigênito de Deus. Mas se não O chamas de Verbo de Deus, então concede que aquele Verbo não foi feito, pelo qual todas as coisas foram feitas.
E se não foi feito, não é criatura; e se não é criatura, é da mesma substância que o Pai, pois toda substância que não é Deus é criatura, e o que não é criatura é Deus.
Ou, ao dizer, sem Ele nada foi feito, nos ensina que não devemos, de modo algum, suspeitar que Ele mesmo seja uma criatura. Pois como pode ser dito que Ele é uma criatura, quando se afirma que Deus nada fez sem Ele?
Pois o pecado não foi feito por Ele: e é manifesto que o pecado é nada, e em nada se tornam os homens quando pecam. E o ídolo não foi feito pelo Verbo: tem, de fato, certa forma humana, e o próprio homem foi feito pelo Verbo; mas a forma do homem no ídolo não foi feita pelo Verbo: pois está escrito: "sabemos que o ídolo é nada". Portanto, estas coisas não foram feitas pelo Verbo; mas todas as coisas que foram feitas naturalmente, toda a natureza das coisas, absolutamente toda criatura, desde o anjo até o verme.
Não devem ser ouvidos os delírios dos homens que pensam que neste lugar se deve entender o nada como algo, porque a própria palavra "nada" está colocada no final da frase; e não compreendem que não há diferença alguma se dissermos: sem Ele nada foi feito, ou sem Ele foi feito nada.
Pode também ser pontuado assim: “o que foi feito nele”; e depois dizer “era vida”. Logo, tudo é vida, se o pronunciarmos assim: pois o que não foi feito nele? Ele é a Sabedoria de Deus, e diz-se no Salmo 103, 24: “tudo fizeste com sabedoria”. Portanto, todas as coisas, assim como foram feitas por ele, também foram feitas nele. Se, portanto, o que foi feito nele é vida, então a terra é vida, e a pedra é vida. É desonesto entender assim, para que não se insinue em nós a seita dos Maniqueus, dizendo que a pedra tem vida, e a parede tem vida: pois costumam dizer tais delírios; e quando repreendidos e refutados, apresentam como se fosse das Escrituras, dizendo: por que foi dito: “o que foi feito nele, era vida”? Pronuncia, portanto, assim: “o que foi feito”, aqui faz-se uma pausa; e depois acrescenta “nele era vida”. Foi feita, pois, a terra; mas a própria terra que foi feita não é vida. Há, porém, na própria Sabedoria de Deus, espiritualmente, certa razão pela qual a terra foi feita; esta é vida. Assim como uma arca em toda obra não é vida; a arca na arte é vida, porque vive a alma do artífice. Assim, pois, porque a Sabedoria de Deus, pela qual foram feitas todas as coisas, segundo a arte contém todas as coisas que são feitas pela mesma arte, não são estas imediatamente vida; mas tudo o que foi feito, é vida nele.
Pela própria vida os homens são iluminados, os animais não são iluminados, porque não possuem mentes racionais que possam ver a sabedoria; mas o homem, feito à imagem de Deus, possui mente racional, pela qual pode perceber a sabedoria. Portanto, aquela vida pela qual todas as coisas foram feitas é luz, e não de quaisquer animais, mas dos homens.
Porque aquela vida é a luz dos homens, mas os corações insensatos não podem compreender esta luz, pois são oprimidos por seus pecados, para que não possam vê-la; portanto, para que não pensem que a luz está ausente porque não podem vê-la, segue-se: e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Assim como um homem cego posto diante do sol, o sol está presente para ele, mas ele está ausente do sol; assim todo insensato é cego, e a sabedoria está presente para ele. Mas quando está presente ao cego, está ausente dos seus olhos: não porque ela esteja ausente dele, mas porque ele está ausente dela.
Um certo platônico1 dizia que este início do santo Evangelho deveria ser escrito com letras de ouro e colocado nos lugares mais eminentes em todas as Igrejas.
[1] Referência a um filósofo da escola platônica. ↩
O que foi dito acima refere-se à divindade de Cristo. Ele veio a nós segundo o que apareceu como homem. Visto que Ele era homem de tal modo que Deus estava oculto nele, foi enviado antes dele um grande homem, por cujo testemunho se descobrisse que Ele era mais do que homem. E quem é este? Foi um homem
E como poderia este homem dizer a verdade sobre Deus, se não fosse enviado por Deus?
Por que veio? Veio em testemunho, para dar testemunho da luz.
De qual luz São João dá testemunho, ele mesmo mostra, dizendo: "Era a luz verdadeira".
Por que foi adicionada a palavra verdadeira? Porque também o homem iluminado é chamado luz; mas a verdadeira luz é aquela que ilumina; pois também nossos olhos são chamados lumes, e todavia, a menos que à noite se acenda uma lâmpada, ou durante o dia o sol desponte, aqueles lumes se abrem em vão; por isso acrescenta que ilumina todo homem. Se todo homem, portanto também o próprio São João. Ele mesmo, pois, iluminava aquele por quem queria ser indicado. Assim como muitas vezes acontece que em algum corpo radiante conhecemos que o sol nasceu, o qual não podemos ver com os olhos; porque também aqueles que têm os olhos feridos são capazes de ver a parede iluminada, ou algo semelhante; assim todos aqueles aos quais Cristo veio eram menos aptos a vê-lo. Ele irradiou São João, e por meio dele, que confessava estar iluminado, foi conhecido aquele que ilumina. Diz que vem a este mundo, pois se de lá não se afastasse, não seria iluminado; mas aqui deve ser iluminado, porque se afastou dali onde o homem podia ser iluminado.
Ou quando diz "ilumina todo homem", deve-se entender assim: não que não haja nenhum homem que não seja iluminado, mas que ninguém é iluminado senão por Ele.
A luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, veio aqui por meio da carne; porque enquanto aqui estava pela divindade, não podia ser vista pelos insensatos, cegos e iníquos, sobre os quais acima foi dito "as trevas não a compreenderam"; e por isso se diz "estava no mundo".
Não penses, porém, que estava no mundo como na terra estão os animais e os homens; mas como o artífice que rege aquilo que fez; de onde se segue e o mundo foi feito por ele. Pois não o fez como faz o artesão: pois aquele que fabrica está extrinsecamente àquilo que fabrica. Deus, porém, infundido no mundo, fabrica em todas as partes onde se encontra, e não se afasta de coisa alguma: pela presença de sua majestade faz o que faz, e governa o que faz. Assim, pois, estava no mundo, como aquele por quem o mundo foi feito.
O que significa, pois, que o mundo foi feito por Ele? O céu, a terra, o mar e todas as coisas que neles existem, isto é chamado mundo. Além disso, em outro sentido, os amantes do mundo são chamados mundo; sobre o qual se segue: e o mundo não O conheceu. Porventura os céus, ou os Anjos, ou as estrelas não conheceram o Criador, a quem até os demônios confessam, e do qual todas as coisas dão testemunho? Mas quem não O conheceu? Aqueles que, amando o mundo, são chamados mundo: pois amando o mundo, habitamos com o coração no mundo; pois aqueles que não amam o mundo, vivem com o corpo no mundo, mas com o coração habitam no céu; como diz o Apóstolo: a nossa morada está nos céus. Amando, portanto, o mundo, mereceram ser chamados pelo nome do lugar onde habitam. Pois assim como quando dizemos: aquela casa é má ou boa, não estamos acusando ou louvando as paredes, mas os habitantes, assim também chamamos mundo àqueles que habitam o mundo amando-o.
Mas se absolutamente ninguém o recebeu, então ninguém foi salvo. Pois ninguém será salvo, senão aquele que receber Cristo quando Ele vier; e por isso acrescenta "mas a todos quantos o receberam".
Grande benevolência! Ele nasceu como Filho Único, e não quis permanecer sozinho; não temeu ter co-herdeiros, porque sua herança não se torna estreita, mesmo que muitos a possuam.
Os que creem, portanto, porque se tornam filhos de Deus e irmãos de Cristo, certamente nascem; pois se não nascem, de que modo podem ser filhos? Mas os filhos dos homens nascem da carne e do sangue, e da vontade do homem, e da união conjugal. Mas de que modo aqueles nascem, acrescenta: os quais não nasceram dos sangues, como do homem e da mulher. “Sanguina” ou “sanguines” não é latim; mas como em grego foi posto no plural, preferiu aquele que o interpretava colocá-lo assim, e falar como que em um latim menos correto segundo os gramáticos, e contudo explicar a verdade segundo a compreensão dos mais fracos. Porque dos sangues do homem e da mulher nascem os homens.
Naquilo, porém, que segue: "nem da vontade da carne, nem da vontade do homem", colocou carne em vez de mulher, porque, tendo sido feita da costela, Adão disse: "isto agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne". Portanto, carne é posta pela esposa, do mesmo modo que algumas vezes o espírito é posto pelo marido; porque ele deve governar, ela servir. Pois o que há de pior do que uma casa onde a mulher tem domínio sobre o homem? Estes, portanto, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus nasceram.
Tendo dito que "nasceram de Deus", para que não nos admirássemos nem nos horrorizássemos com graça tão extraordinária, e para que não nos parecesse incrível que os homens nascessem de Deus; como que querendo dar-nos segurança, diz: "e o Verbo se fez carne". Por que te admiras, então, de que os homens nasçam de Deus? Atenta para o próprio Deus nascido dos homens.
Assim como a nossa palavra se torna, de certo modo, a voz do corpo ao assumi-la para se manifestar aos sentidos dos homens, assim o Verbo de Deus se fez carne, assumindo-a para também Ele se manifestar aos sentidos dos homens. E assim como a nossa palavra se torna voz, e não se muda em voz, assim o Verbo de Deus verdadeiramente se fez carne; mas longe esteja que se mudasse em carne: assumindo-a, não se consumindo nela, e assim a nossa se torna voz, e aquele se fez carne.
Se, porém, incomodam-se com o que está escrito, que o Verbo se fez carne, e ali não se menciona a alma, entendam que a carne foi posta para representar o homem todo, a parte pelo todo, por meio de linguagem figurada, como está: "a ti virá toda carne"; de modo semelhante, "pelas obras da lei não será justificada toda carne"; o que mais claramente se diz em outro lugar: "o homem não será justificado pelas obras da lei". Assim, portanto, foi dito que o Verbo se fez carne; como se dissesse: o Verbo se fez homem.
Ou de outro modo. O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e por esta natividade fez um colírio para que nossos olhos fossem limpos, a fim de que pudéssemos ver sua majestade por meio de sua humanidade; e por isso se diz: e vimos a sua glória. Ninguém poderia ver a sua glória se não fosse curado pela humildade da carne. Pois havia caído sobre o olho do homem como que um pó vindo da terra: este olho estava ferido, e a terra foi enviada àquele lugar para que fosse curado: a carne te havia cegado, a carne te cura. Pois a alma tinha se tornado carnal, consentindo com os afetos carnais; daí o olho do coração ter sido cegado: o médico fez para ti um colírio, pois assim veio para extinguir os vícios da carne por meio da carne. De fato o Verbo se fez carne, para que pudesses dizer vimos a sua glória.
Não se entende, portanto: foi feito antes que eu fosse feito, mas foi anteposto a mim.
Mas o que recebestes? E graça por graça: para que eu não saiba o que ele quis nos fazer entender sobre termos recebido algo de sua plenitude, e ademais graça por graça: pois recebemos de sua plenitude primeiro a graça, e novamente recebemos graça por graça. Qual graça primeiro recebemos? A fé. De fato, é chamada graça, porque gratuitamente é dada. Esta, pois, recebe o pecador como primeira graça, para que seus pecados sejam perdoados; e novamente graça por graça; isto é, por esta graça na qual vivemos pela fé, haveremos de receber outra, isto é, a vida eterna: pois a vida eterna é como que a recompensa da fé; mas porque a própria fé é graça, a vida eterna é graça por graça. Não existia esta graça no antigo testamento: porque a lei ameaçava, não socorria; ordenava, não curava; mostrava a enfermidade, não a removia, mas preparava para o médico que havia de vir com a graça e a verdade; daí segue-se que a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade foram feitas por Jesus Cristo. A morte do teu Senhor destruiu a morte temporal e eterna: esta é a graça que foi prometida e não estava contida na lei.
Ou, podemos referir a graça à ciência, a verdade à sabedoria: nas coisas originadas no tempo, a suprema graça é que o homem está unido a Deus na unidade da pessoa; nas coisas eternas, porém, a suprema verdade é corretamente atribuída ao Verbo de Deus.
O que é, então, o que Jacó diz: "Vi o Senhor face a face"; e o que está escrito sobre Moisés: "porque ele falava com Deus face a face"; e aquilo que o profeta Isaías, falando de si mesmo, diz: "Vi o Senhor Sabaoth sentado em seu trono"?
Mas sendo que está escrito: Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus, e novamente: Quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é, o que significa quando aqui se diz que ninguém jamais viu a Deus? Acaso não se poderia responder que aqueles testemunhos se referem a ver a Deus, e não a tê-Lo visto? Pois foi dito que eles verão a Deus, não que O viram; e não "nós O vimos", mas "nós O veremos como Ele é". Porque ninguém jamais viu a Deus: nem nesta vida como Ele é em si mesmo, nem mesmo na vida dos Anjos, assim como as coisas visíveis que são percebidas pela visão corporal.
Pois, a menos que alguém de algum modo morra para esta vida, seja abandonando completamente o corpo, seja afastando-se e alienando-se dos sentidos carnais, de tal forma que com razão não saiba, como diz o Apóstolo, se está no corpo ou fora do corpo, não pode ser arrebatado nem elevado àquela visão.
Se, porém, diz-se, sobre o que está escrito que "A Deus ninguém viu jamais", que se deve entender que se refere apenas aos homens, pois o Apóstolo explicou isto mais claramente dizendo: "A quem nenhum dos homens viu, nem pode ver", de modo que o dito "A Deus ninguém viu jamais" seria como se dissesse: nenhum dos homens, parece que aquela questão estaria resolvida, para que não seja contrário a esta sentença o que o Senhor disse: "Os anjos deles sempre veem a face de meu Pai"; para que, assim, acreditemos que os anjos veem a Deus, a quem "ninguém viu jamais", isto é, dos homens.
O que é verdadeiro na medida em que ninguém jamais compreendeu a plenitude de Deus, não apenas com os olhos do corpo, mas nem mesmo com a própria mente. Pois uma coisa é ver, outra é compreender totalmente o que se vê: visto que se vê aquilo que, estando presente, de algum modo se percebe; mas compreende-se totalmente vendo quando algo é visto de tal modo que nada dele escapa a quem vê, ou cujos limites podem ser observados.
No seio do Pai, isto é, no segredo do Pai: pois Deus não tem seio, como nós temos em nossas vestes; nem se deve pensar que esteja sentado como nós; ou talvez esteja cingido, de modo a ter um seio: mas porque o nosso seio está no interior, o segredo do Pai é chamado seio do Pai. Aquele, pois, que no segredo do Pai conhece o Pai, esse mesmo narrou o que viu.
Houve, porém, homens que diziam, enganados pela vaidade de seu coração: o Pai é invisível, mas o Filho é visível. Se, portanto, o Filho é chamado visível por causa da carne, também nós o concedemos, e isto é a fé Católica; mas se, como eles mesmos dizem, antes de se encarnar, deliram muito, pois Cristo é a sabedoria de Deus e a virtude de Deus: ora, a sabedoria de Deus não pode ser vista pelos olhos. Se a palavra do homem não é vista pelos olhos, como pode a Palavra de Deus ser vista?
Não teriam enviado emissários a não ser que estivessem impressionados pela excelência de sua autoridade, pois ousou batizar.
Pois sabiam que Elias havia de preceder a Cristo; pois o nome de Cristo não era desconhecido para ninguém entre os hebreus; mas não acreditavam que ele fosse o Cristo; e ainda assim não pensavam absolutamente que o Cristo não haveria de vir. E enquanto esperavam pelo futuro, ofenderam-se com o presente. Segue-se: e disse: não sou.
Ou porque São João era maior que um profeta: pois os profetas anunciavam de longe, mas São João demonstrava o presente. Seguiu-se que lhe disseram: quem és tu, para que demos resposta àqueles que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo?
Isaías disse aquilo; em São João esta profecia foi cumprida.
Como Ele aparecia humilde, por isso a lâmpada foi acesa.
Pelo que, ainda que se declarasse digno apenas de desatar a correia de seu calçado, teria pensado muito de si mesmo.
Se porém o Cordeiro de Deus é inocente, e João é cordeiro; acaso ele também não é inocente? Mas todos vêm daquela linhagem sobre a qual canta gemendo David: eu fui concebido em iniquidades. Portanto, somente Ele é o Cordeiro que não veio assim: pois não foi concebido em iniquidade, nem em pecados sua mãe o alimentou em seu ventre, a quem uma virgem concebeu, uma virgem deu à luz, porque pela fé concebeu, e pela fé recebeu.
Pois Aquele que não assumiu pecado de nossa natureza, é o mesmo que tira nosso pecado. Sabeis que alguns homens dizem: nós tiramos os pecados dos homens porque somos santos; pois se aquele que batiza não for santo, como pode tirar o pecado de outro, sendo ele mesmo um homem cheio de pecado? Contra estas disputas, leiamos agora: eis aquele que tira o pecado do mundo, para que não haja presunção dos homens para com os homens.
"Depois de mim vem, porque nasceu depois de mim; antes de mim foi feito, porque foi preferido a mim"
Quando, pois, o Senhor foi conhecido, desnecessariamente se lhe preparava o caminho, porque para aqueles que o conhecem, Ele mesmo se fez caminho. Assim, o Batismo de João não durou muito tempo, mas apenas até que o Senhor fosse demonstrado em sua humildade. Portanto, para que nos fosse dado pelo Senhor um exemplo de humildade para recebermos a salvação do Batismo, Ele recebeu o batismo do servo; e para que o batismo do servo não fosse posto acima do batismo do Senhor, outros foram batizados com o batismo do conservo. Mas aqueles que foram batizados com o batismo do conservo, era necessário que fossem batizados com o Batismo do Senhor; porém aqueles que são batizados com o Batismo do Senhor, não têm necessidade do batismo do conservo.
Não foi, todavia, naquele momento que Cristo foi ungido com o Espírito Santo, quando sobre ele, batizado, desceu na forma de uma pomba; nessa ocasião, ele dignou-se prefigurar seu corpo, isto é, sua Igreja, na qual principalmente os batizados recebem o Espírito Santo. Pois é absolutamente absurdo crermos que ele, quando já tinha trinta anos (pois com esta idade foi batizado por João), tenha recebido o Espírito Santo; mas que veio àquele Batismo sem nenhum pecado e também não sem o Espírito Santo. Pois se sobre seu servo e precursor, o próprio João, está escrito: será cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe; o qual, embora gerado por um pai, recebeu o Espírito Santo quando formado no útero: o que devemos entender ou crer sobre o homem Cristo, cuja própria concepção da carne não foi carnal, mas espiritual?
Não dizemos apenas que Cristo teve um corpo verdadeiro, e que o Espírito Santo apareceu enganosamente aos olhos dos homens: pois assim como não convinha que o Filho de Deus enganasse os homens, assim também não convinha ao Espírito Santo. Mas para Deus onipotente, que fabricou toda a criação a partir do nada, não era difícil formar um corpo verdadeiro de pomba sem a intervenção de outras pombas; assim como não lhe foi difícil formar um corpo verdadeiro no útero da Virgem sem a semente masculina.
De dois modos o Senhor mostrou visivelmente o Espírito Santo: por meio da pomba sobre o Senhor batizado; e por meio do fogo sobre os discípulos congregados: ali é mostrada a simplicidade, aqui o fervor. Portanto, para que os santificados pelo Espírito não tenham engano, foi demonstrado na pomba; e para que a simplicidade não permaneça fria, foi demonstrado no fogo. Nem inquieta que as línguas estivessem divididas: não temas a dissipação, reconhece a unidade na pomba. Assim, pois, convinha que se demonstrasse o Espírito Santo vindo sobre o Senhor, para que cada um conheça, se tem o Espírito Santo, que deve ser simples como a pomba, e ter com os irmãos a verdadeira paz, que significam os beijos das pombas. Também os corvos se beijam, mas dilaceram; a natureza das pombas é inocente quanto ao dilacerar: pois os corvos se alimentam da morte, a pomba vive somente dos frutos da terra. Se também gemem as pombas no amor, não vos admireis, pois na forma de pomba quis o Espírito Santo ser demonstrado; ele mesmo intercede por nós com gemidos inenarráveis. O Espírito Santo, porém, não geme em si mesmo, mas em nós, porque nos faz gemer. Pois aquele que sabe estar sob a pressão desta mortalidade, peregrinar longe do Senhor, enquanto por isso geme, bem geme: o Espírito lhe ensinou a gemer. Muitos, porém, gemem pela infelicidade terrena, ou abalados por danos, ou agravados pela enfermidade do corpo; mas não gemem com o gemido da pomba. De onde, pois, deveria ser demonstrado o Espírito Santo designando uma certa unidade, senão pela pomba, para que à Igreja pacificada se dissesse: uma só é a minha pomba? De onde deveria ser figurada a humildade senão pela ave simples e gemente? Apareceu ali a santa e verdadeira Trindade: o Pai na voz que dizia: tu és o meu Filho amado; o Espírito Santo na pomba. Nesta Trindade foram enviados os apóstolos a batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Quem, pois, enviou São João? Se dissermos: o Pai, dizemos a verdade; se dissermos: o Filho, dizemos a verdade. Mas é mais manifesto dizermos: o Pai e o Filho. Como, portanto, não conhecia Aquele por quem foi enviado? Pois se não conhecia Aquele por quem queria ser batizado, temerariamente diria eu devo ser batizado por Ti. Portanto, ele O conhecia: o que significa, então, o que diz e eu não O conhecia?
Mas leiam-se os outros Evangelistas, que o disseram mais claramente; e encontraremos muito evidentemente que a pomba desceu quando o Senhor subiu da água. Se, portanto, a pomba desceu após o Batismo, e antes de ser batizado João disse-lhe: "Eu devo ser batizado por ti", antes do Batismo ele já o conhecia: como então disse "Eu não o conhecia; mas aquele que me enviou a batizar", e assim por diante? João ouviu isto para conhecer aquele que não conhecia, ou talvez para conhecer mais plenamente aquele que já conhecia? Certamente conhecia o Senhor, conhecia o Filho de Deus, sabia que Ele próprio batizaria no Espírito Santo. Pois antes que Cristo viesse ao rio, quando muitos acorriam a João, ele lhes disse: "Aquele que vem depois de mim é maior do que eu: Ele vos batizará no Espírito Santo e com fogo". Mas o quê? Não sabia que o próprio Senhor teria o poder do Batismo e o reteria para si (para que Paulo ou Pedro não dissesse: meu Batismo, como encontramos dito: meu Evangelho), mas que o ministério certamente passaria aos bons e aos maus? O que te pode fazer um mau ministro, quando o Senhor é bom? Eis que depois de João batizou-se, depois de um homicida não se batizou de novo: porque João deu o seu Batismo, o homicida deu o Batismo de Cristo; este sacramento é tão santo que nem pelo ministério de um homicida é manchado. O Senhor poderia, se quisesse, dar poder a algum servo seu para que conferisse o seu Batismo como que em seu lugar, e estabelecer tanta força no Batismo transferido ao servo, quanta força teria o Batismo dado pelo Senhor. Não quis isto para que a esperança dos batizados estivesse naquele por quem reconheciam ter sido batizados; e não quis que o servo pusesse a esperança em outro servo. Mas se desse este poder aos servos, haveria tantos Batismos quantos servos; e assim como se disse Batismo de João, dir-se-ia Batismo de Pedro ou de Paulo. Por este poder, pois, que só Cristo reteve para si, permanece a unidade da Igreja, da qual foi dito: "Uma só é a minha pomba". Pode, contudo, acontecer que alguém tenha o Batismo fora da pomba; mas que o Batismo aproveite a alguém fora da pomba, não é possível.
Convinha, pois, que aquele que é o Filho Único de Deus, não adotivo, batizasse. Os filhos adotivos são ministros do Único; o Único tem o poder, os adotivos o ministério.
São João, de fato, era amigo do Esposo; não buscava sua própria glória, mas dava testemunho da verdade: pois não queria que seus discípulos permanecessem com ele, de modo que não seguissem o Senhor; mas antes mostrou quem deveriam seguir, dizendo: "Eis o Cordeiro de Deus".
Pois este singularmente é chamado cordeiro, o único sem mácula, sem pecado; não aquele cujas manchas foram limpas, mas aquele cuja mácula nunca existiu: singularmente este é o Cordeiro de Deus, pois somente pelo sangue deste Cordeiro os homens puderam ser redimidos. Este é o Cordeiro que os lobos temem, que sendo morto matou o leão.
Quão bem-aventurado dia tiveram, quão bem-aventurada noite. Edifiquemos, pois, também nós em nosso coração, e façamos uma morada, para onde Ele venha e nos ensine.
Este número também significa a Lei, porque nos dez preceitos foi dada a Lei. Viera, pois, o tempo em que a Lei seria cumprida pelo amor, a qual pelos judeus não podia ser cumprida pelo temor; por isso também na décima hora o Senhor ouviu Rabbi: pois o mestre da lei não é senão o doador da lei. Segue-se era porém André, irmão de Simão Pedro, um dos dois que ouviram de João, e o seguiram.
Messias em hebraico, Cristo em grego, Ungido em latim: crisma é unção, e Ele foi ungido de modo singular; por isso todos os cristãos são ungidos, conforme o que se diz no Salmo 44: "Ungiu-te Deus, teu Deus, com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros"; pois seus participantes são todos os santos; mas Ele é singularmente santo e singularmente ungido.
Não é grande coisa que o Senhor tenha dito de quem era filho este: pois conhecia todos os nomes de seus santos, que predestinou antes da constituição do mundo. Mas é grande que tenha mudado o seu nome, e feito de Simão, Pedro. Pedro vem de pedra; e a pedra é a Igreja: portanto, no nome de Pedro está figurada a Igreja. E quem está seguro, senão aquele que edifica sobre a pedra? O Senhor quis chamar tua atenção: pois se antes ele se chamasse Pedro, não verias assim o mistério da pedra, e pensarias que ele foi chamado assim por acaso, não pela providência de Deus. Por isso quis que ele primeiro se chamasse de outro modo, para que pela própria mudança do nome, a vivacidade do sacramento fosse manifestada.
Não se pode considerar pequena a contradição se junto ao Jordão, antes que Jesus tivesse ido à Galileia, conforme o testemunho de João Batista, seguiram-no dois, um dos quais era André, que trouxe seu irmão Simão a Jesus; quando também recebeu o nome para ser chamado Pedro; enquanto que segundo os outros Evangelistas, ele os encontrou pescando na Galileia, e os chamou para o discipulado: a não ser que se entenda que eles não viram o Senhor junto ao Jordão de maneira que já aderissem a ele inseparavelmente; mas apenas conheceram quem era ele, e admirando-o, voltaram para as suas casas. E não se pense que Pedro recebeu seu nome quando o Senhor lhe disse: "tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja"; mas onde se recorda ter-lhe dito "tu serás chamado Cefas" (que se interpreta Pedro).
Aquela à qual estava desposada sua mãe: pois que ela intacta o concebeu e deu à luz, bem o sabem do Evangelho todos os cristãos. Adiciona também o lugar: de Nazaré.
Ambas as pronúncias podem corresponder às palavras subsequentes de Filipe: seja pronunciando como confirmação: "De Nazaré pode haver algo de bom", e ele responde "Vem e vê"; ou como questionando com dúvida, e perguntando tudo: "De Nazaré pode haver algo de bom? Vem e vê". Como, portanto, seja de um modo ou de outro que se pronuncie, as palavras seguintes não contradizem, cabe a nós buscar o que melhor entendemos nestas palavras. Pois Natanael, muito versado na lei, tendo ouvido Filipe dizer "encontramos Jesus", ao ouvir "de Nazaré", encheu-se de esperança e disse: "De Nazaré pode haver algo de bom". Ele havia escrutinado as Escrituras e sabia o que outros escribas e fariseus não conheciam facilmente, que dali se devia esperar o Salvador.
Ou de outra forma. O que significa aquele em quem não há dolo? Acaso não tinha pecado? Porventura não necessitava daquele médico? De modo algum. Ninguém nasceu de tal modo que não necessitasse daquele médico. Pois dolo é quando se faz uma coisa e se finge outra; como, então, não havia dolo nele, se é pecador? Ele confessa que é pecador; se, pois, é pecador e se diz justo, há dolo em sua boca. Portanto, em Natanael, louvou a confissão do pecado, não indicou que não era pecador.
Deve-se perguntar, pois, se a figueira significa algo. Descobrimos que a figueira foi amaldiçoada porque tinha apenas folhas e carecia de fruto. Na origem do gênero humano, Adão e Eva, quando pecaram, fizeram para si cintas com folhas de figueira. As folhas da figueira, portanto, simbolizam os pecados. Natanael estava debaixo da figueira, como sob a sombra da morte; como se o Senhor lhe dissesse: Ó Israel, quem de vós é sem engano, ó povo judaico que vive pela fé, antes que eu te chamasse por meio dos meus apóstolos, e quando estavas sob a sombra da morte, e tu não me vias, eu te vi.
Nathanael, porém, recordou-se de que estivera sob a figueira, onde Cristo não estava presente corporalmente, mas por conhecimento espiritual; e como sabia que estava sozinho sob a figueira, reconheceu nele a divindade.
Recordemos, pois, a história antiga, quando Jacó viu em sonhos uma escada que se estendia da terra até o céu, e o Senhor repousava sobre ela, e os Anjos subiam e desciam por ela. Por fim, o próprio Jacó, porque compreendeu o que viu, colocou uma pedra e derramou óleo sobre ela: ao ungir a pedra, porventura Jacó cometeu idolatria? Ele prefigurou, não adorou. Reconheceis o crisma, reconhecei também a Cristo. Ele é a pedra que os construtores rejeitaram. Se, portanto, Jacó viu a escada, que foi chamado Israel, e Natanael era verdadeiramente israelita, oportunamente o Senhor lhe falou do sonho de Jacó; como se dissesse: Aquele por cujo nome te chamei, o sonho dele apareceu em ti: pois verás o céu aberto, e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem. Se, pois, a Ele descem e a Ele sobem, então Ele está ao mesmo tempo em cima e aqui embaixo: em cima em si mesmo, embaixo nos seus.
Ora, os anjos de Deus são os bons pregadores que pregam a Cristo; isto é, sobem e descem sobre o Filho do homem, como São Paulo, que ascendeu até o terceiro céu, e desceu até dar leite para beber aos pequeninos. Disse, porém, "maiores coisas que estas verás"; porque maior é o fato de o Senhor ter-nos justificado após ter-nos chamado, do que o ter-nos visto jazendo sob a sombra da morte. Pois, de que nos aproveitaria se permanecêssemos onde Ele nos viu? Pergunta-se, no entanto, por que Natanael, a quem o Filho de Deus deu tão grande testemunho, não é encontrado entre os doze Apóstolos. Devemos entender que ele era erudito e perito na lei; por isso o Senhor não quis colocá-lo entre os discípulos, porque escolheu os ignorantes, pelos quais confundiria o mundo. Pois, querendo quebrar as cervizes dos soberbos, não procurou o pescador por meio do orador, mas pelo pescador conquistou o imperador. O grande Cipriano foi orador; mas primeiro Pedro foi pescador, por meio de quem depois creu não apenas o orador, mas também o imperador.
Envergonhe-se, portanto, o homem de ser soberbo, porque Deus se fez humilde. Eis que, entre outras coisas, o Filho da Virgem veio às núpcias, Ele que, quando estava junto ao Pai, instituiu as núpcias.
Ora, que há de admirável se veio àquela casa para as núpcias Aquele que veio a este mundo para as núpcias? Pois tem aqui uma esposa, a qual redimiu com seu próprio sangue, e a quem deu o Espírito Santo como penhor, a qual uniu a si mesmo no ventre da Virgem. Pois o Verbo é o esposo, e a carne humana é a esposa; e ambos juntos são um único Filho de Deus, e o mesmo Filho do homem. Aquele ventre da Virgem Maria é o seu tálamo, de onde saiu como um esposo do seu tálamo.
Alguns, menosprezando o Evangelho e dizendo que Jesus não nasceu da Virgem Maria, tentam daqui tirar argumento para seu erro, a fim de dizerem: como poderia ser mãe dele aquela a quem disse "que tenho eu contigo, mulher?" Mas quem narrou isto, para que acreditemos que o Senhor disse tal coisa? Certamente João Evangelista. Mas ele mesmo disse: "e estava ali a mãe de Jesus". Por qual motivo, senão porque ambas as coisas são verdadeiras? Mas, porventura, veio Ele às núpcias para ensinar a desprezar as mães?
Para, então, distinguir entre Deus e o homem, porque segundo o homem era menor e sujeito, mas segundo Deus estava acima de todos, disse: "Mulher, que tenho eu contigo?"
Ou porque nosso Senhor, enquanto Deus, não tinha mãe; enquanto homem, tinha mãe. O milagre, porém, que estava prestes a realizar, iria realizá-lo segundo a divindade, não segundo a fraqueza humana. A mãe, contudo, exigia o milagre; mas ele, como se não reconhecesse as entranhas humanas, estando para realizar obras divinas, disse: "Que tenho eu contigo, mulher?" Como se dissesse: o que em mim faz milagres, não o geraste tu, mas a minha divindade. É chamada mulher segundo o sexo feminino, não segundo a corrupção da integridade. Mas porque geraste a minha fraqueza, então te reconhecerei quando essa mesma fraqueza estiver pendente na cruz; por isso acrescenta: "Ainda não chegou a minha hora"; como se dissesse: ali te reconhecerei quando começar a pender na cruz a fraqueza da qual tu és mãe. Confiou, pois, sua mãe ao discípulo, estando para morrer antes de sua mãe, e para ressuscitar antes da morte dela. Vede, porém, se por acaso, assim como os maniqueus encontraram ocasião para sua perfídia porque o Senhor disse: "Que tenho eu contigo, mulher?", assim também os astrólogos encontram ocasião para sua falácia, porque disse: "Ainda não chegou a minha hora". Dizem: vedes que Cristo estava sujeito ao destino, porque disse: "Ainda não chegou a minha hora". Mas creiam em Deus que diz: "Tenho o poder de entregar a minha alma e de retomá-la novamente"; e procurem por que foi dito: "Ainda não chegou a minha hora"; e não coloquem logo sob o destino o Criador do céu, porque se existisse um destino proveniente dos astros, não poderia estar sob a necessidade dos astros o Criador dos astros. Acrescenta ainda que não só Cristo não esteve sujeito ao que chamas destino, mas nem tu, nem aquele, nem qualquer ser humano. Por que, então, disse: "Ainda não chegou a minha hora"? Porque tinha em seu poder o momento em que morreria; mas ainda não considerava oportuno usar esse poder. Era preciso chamar os discípulos, anunciar o reino dos céus, realizar as virtudes, recomendar a divindade do Senhor nos milagres, recomendar a humanidade do Senhor na própria compaixão pela mortalidade. Mas quando fez tudo quanto julgou suficiente, veio a hora, não da necessidade, mas da vontade; não da condição, mas do poder.
Pois metretas refere-se a certas medidas, como se dissesse urnas, ânforas, ou algo semelhante. Porque os gregos chamam à medida metron: daí que sejam chamadas metretae. Quanto ao que diz "de duas ou três", não deve ser entendido como se umas contivessem duas e outras três; mas que as mesmas comportavam duas ou três. Segue-se "Jesus lhes disse: Enchei as talhas de água. E eles as encheram até em cima".
Este milagre do Senhor, pelo qual fez vinho da água, não é admirável para aqueles que sabem que Deus o fez. Pois o mesmo que naquele dia fez o vinho nas talhas é quem todos os anos o faz nas videiras; mas isto, por acontecer com frequência, perdeu a admiração: por isso Deus reservou para si certas coisas incomuns para fazer, a fim de despertar maravilhosamente os homens adormecidos para que O adorem; por isso segue e manifestou a sua glória.
Mas se então creram nele, ainda não eram discípulos quando foram convidados para as núpcias; mas isto foi dito conforme aquele modo de falar que usamos quando dizemos que o apóstolo Paulo nasceu em Tarso da Cilícia: pois certamente então ainda não era apóstolo. Assim, quando ouvimos falar dos discípulos de Cristo convidados para as núpcias, devemos entender não já discípulos, mas aqueles que haveriam de ser discípulos.
Vede os mistérios que se ocultam neste milagre do Senhor. Era necessário que se cumprisse em Cristo o que estava escrito sobre Ele. Aquilo era água; mas Ele transformou a água em vinho quando lhes abriu o entendimento e lhes expôs as Escrituras. Assim, aquilo que não tinha sabor passou a ter sabor, e aquilo que não embriagava, passou a embriagar.
Se, porém, tivesse ordenado que a água fosse derramada, e ele mesmo tivesse introduzido vinho a partir dos ocultos limites da criação, pareceria reprovar as antigas Escrituras. Mas, quando converteu a própria água em vinho, nos mostrou que a antiga Escritura também é dele: pois por sua ordem as talhas foram cheias. Mas nada tem sabor naquela Escritura se Cristo não for ali compreendido. Sabemos, pois, que a lei data desde os primeiros tempos, isto é, desde o princípio do mundo; dali até este tempo em que agora vivemos é a sexta idade: pois a primeira idade é contada de Adão até Noé, a segunda de Noé até Abraão, a terceira de Abraão até Davi, a quarta de Davi até a transmigração da Babilônia, a quinta até João Batista, a sexta daí até o fim do mundo. Portanto, aquelas seis talhas significam as seis idades, nas quais nunca faltou profecia. As profecias foram cumpridas, as talhas estão cheias. Mas o que significa que continham duas ou três metretas cada? Se tivesse dito apenas três, nossa mente não correria senão para o mistério da Trindade. Mas talvez nem mesmo assim devamos desviar nosso entendimento disso, porque disse duas ou três: pois, nomeados o Pai e o Filho, consequentemente o Espírito Santo deve ser entendido. É necessário, pois, entender o amor mútuo entre o Pai e o Filho, que é o Espírito Santo. Mas há também outro entendimento que não deve ser omitido: as duas metretas são entendidas como os dois gêneros de homens, isto é, judeus e gregos; as três, porém, para significar os três filhos de Noé.
Este é, pois, o Senhor nosso Deus excelso, para nos criar; humilde, para nos renovar; andando entre os homens, padecendo o que é humano, ocultando o que é divino. Eis que tem Mãe, tem irmãos, tem também discípulos. De onde vêm os irmãos, daí vem a Mãe. Pois a nossa Escritura costuma chamar de irmãos não apenas àqueles que nascem do mesmo ventre ou do mesmo pai, mas do mesmo grau, como primos paternos ou maternos. De onde, portanto, vêm os irmãos do Senhor? Acaso Maria deu à luz novamente? De modo algum: com ela começou a dignidade das virgens. Abraão era tio paterno de Ló, e Jacó tinha Labão, o sírio, como tio materno; e ambos foram chamados irmãos.
Quanto ao que diz "e seus discípulos", é incerto se já tinham aderido a ele Pedro, André e os filhos de Zebedeu. São Mateus primeiro narra que ele veio e habitou em Cafarnaum, e depois que os chamou das barcas quando estavam pescando. Acaso São Mateus recapitulou o que tinha omitido? Pois sem nenhuma diferença no tempo subsequente, disse: "caminhando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos". Ou seriam antes outros discípulos? Pois a Escritura evangélica e apostólica não chama somente aqueles doze de discípulos seus, mas todos os que, crendo em Deus, eram instruídos pelo seu magistério para o reino dos céus. Também deve-se investigar como aqui diz que, antes de João Batista ser enviado à prisão, Jesus veio à Galileia, quando São Mateus diz: "tendo ouvido que João fora entregue, retirou-se para a Galileia"; semelhantemente também diz São Marcos. São Lucas, por sua vez, nada diz sobre a entrega de João, mas depois do Batismo e da tentação de Cristo, diz que ele foi à Galileia, como aqueles dois. Donde se entende que os três Evangelistas não narraram coisas contrárias a São João Evangelista, mas omitiram a primeira vinda do Senhor à Galileia depois que foi batizado, quando ali converteu a água em vinho.
Pois tais sacrifícios foram concedidos àquele povo por causa de sua carnalidade, para que permanecessem neles e não se voltassem aos ídolos; e imolavam bois e ovelhas e pombas.
E Aquele que deveria ser flagelado por eles, primeiro os flagelou; por isso segue: e tendo feito como que um flagelo de cordas, expulsou todos do templo.
É manifesto que isso não foi feito uma só vez, mas repetidas vezes pelo Senhor. Mas aquele primeiro evento é rememorado aqui por São João, o último pelos outros três.
Eis que aquele templo ainda era uma figura, e o Senhor expulsou de lá todos os que vinham para as feiras. E o que vendiam ali? O que os homens necessitavam para os sacrifícios daquele tempo. E se ali encontrasse ébrios? Se a casa de Deus não deve ser uma casa de comércio, deve ser uma casa de bebedeira?
É devorado pelo zelo da casa de Deus aquele que deseja corrigir tudo o que vê errado ali; e, se não pode corrigir, tolera e lamenta. Se em tua casa te preocupas para que nada errado aconteça, na casa de Deus, onde a salvação é oferecida, deverias ser indiferente? Se tens um amigo, admoesta-o suavemente; uma esposa? repreende-a com severidade; uma serva? até mesmo com açoites deves contê-la. Faz o que puderes conforme a pessoa que tens a teu cargo.
Ou, os que vendem na Igreja são aqueles que buscam o que é seu, não as coisas de Jesus Cristo. Têm tudo à venda, porque querem ser recompensados. Por isso Simão queria comprar o Espírito Santo, porque queria vendê-lo: era um daqueles que vendem pombas; pois o Espírito Santo apareceu na forma de pomba. A pomba, porém, não é vendida; ela é dada gratuitamente, porque gratuitamente é chamada.
Por bois compreendem-se os apóstolos e profetas, que nos dispensaram as Sagradas Escrituras. Aqueles, portanto, que com estas mesmas Escrituras enganam o povo de quem buscam honras, vendem os bois, e vendem também as ovelhas, isto é, as próprias plebes, e a quem vendem, senão ao Diabo? Tudo o que for cortado da única Igreja, quem o leva senão o leão rugiente?
O Senhor nos mostrou um certo sinal, quando fez um açoite de cordéis e com ele flagelou os que negociavam no templo. De fato, cada um, em seus pecados, tece para si uma corda, quando acrescenta pecados a pecados. Portanto, quando os homens sofrem por causa de suas iniquidades, reconheçam que o Senhor faz um açoite de cordéis, e ainda os adverte para que mudem: pois se não se mudarem, ouvirão no fim: "atai-lhe as mãos e os pés".
O Pai, de fato, o ressuscitou, a quem diz: "Ressuscita-me, e eu lhes retribuirei". Mas o que fez o Pai sem o Verbo? Assim como o Pai o ressuscitou, assim também o Filho o ressuscitou; porque o Filho disse: "Eu e o Pai somos um".
Ou este número se harmoniza perfeitamente com a perfeição do corpo do Senhor, pois quarenta e seis vezes seis soma duzentos e setenta e seis, número de dias que completa nove meses e seis dias. E a própria perfeição do corpo do Senhor, conforme se verifica, é produzida ao longo de tantos dias até o parto, segundo a autoridade da Igreja conserva, recebendo-o da tradição dos antepassados. Pois crê-se que Ele foi concebido no oitavo dia das calendas de abril, dia em que também padeceu; e a tradição afirma que nasceu no oitavo dia das calendas de janeiro. Assim, contando desde aquele dia até este, encontram-se duzentos e setenta e seis dias, que contêm quarenta e seis vezes o número seis.
Diz-se também que a concepção humana procede e se aperfeiçoa nos primeiros seis dias tendo uma aparência semelhante ao leite; nos nove dias seguintes se converte em sangue; depois, durante doze dias, solidifica-se; nos dezoito dias restantes forma-se até alcançar o delineamento perfeito de todos os membros; e no tempo restante até o momento do parto, aumenta em tamanho. Ora, seis e nove e doze e dezoito reunidos em uma soma fazem quarenta e cinco; adicionando-se, portanto, um, fazem quarenta e seis; que, se forem multiplicados pelo próprio número seis, que ocupa o primeiro lugar nesta ordenação, resultam em duzentos e setenta e seis, isto é, nove meses e seis dias. Não é, portanto, absurdo dizer que o templo foi edificado em quarenta e seis anos, o qual significava o seu corpo; de modo que quantos anos foram necessários na edificação do templo, tantos dias foram necessários na perfeição do corpo do Senhor.
Ou de outra maneira. Porque Nosso Senhor tomou o corpo de Adão, mas não contraiu o pecado de Adão; tomou dali o templo corpóreo, não a iniquidade, que deve ser expulsa do templo. E se formares quatro nomes gregos, anatoli, que é oriente, dysis, que é ocidente, Arctos, que é Setentrião, mesembria, que é meridional, as primeiras letras das palavras formam Adão. Pois dos quatro ventos o Senhor diz que há de reunir seus eleitos quando vier para o juízo. E as letras do nome de Adão têm um número, segundo os gregos; e aí se descobre que o templo foi edificado em quarenta e seis anos. Pois Adão tem alpha, que é um; e delta, que é quatro; e alpha, que é um; e mi, que é quarenta: e assim tem quarenta e seis. Mas os judeus, porque eram carne, entendiam as coisas carnalmente; ele falava espiritualmente, e de qual templo falava, pelo Evangelista nos revelou; pois segue: ele, porém, falava do templo do seu corpo.
O que significa isto: eles criam em seu nome, e o próprio Jesus não confiava a si mesmo a eles? Acaso não criam nele e fingiam ter crido? Mas o Evangelista não diria: muitos creram em seu nome. Grande coisa, portanto, e admirável! Os homens creem em Cristo, e Cristo não se confia aos homens, especialmente porque é o Filho de Deus e, por certo, padeceu voluntariamente, e se não quisesse, nunca teria padecido. Mas assim são todos os catecúmenos. Se dissermos ao catecúmeno: crês em Cristo? Ele responde: creio, e faz o sinal da cruz. Se o interrogamos: comes a carne do Filho do homem? Ele não sabe o que dizemos, porque Jesus não se confiou a ele.
O artífice sabia melhor o que havia em sua obra, do que a própria obra sabia o que havia em si mesma. Pois nem mesmo Pedro sabia o que havia nele mesmo quando disse: "estarei contigo até a morte"; mas o Senhor sabia o que havia no homem, dizendo: "antes que o galo cante, três vezes me negarás".
Anteriormente havia dito que, quando esteve em Jerusalém (...) muitos creram em seu nome, vendo os sinais e prodígios que fazia; entre estes estava Nicodemos, do qual se diz: era um homem dentre os fariseus, de nome Nicodemos.
Nicodemos também era daquele número que creram, mas ainda não renasceram: por isso é pertinente que tenha vindo à noite. Mas os renascidos da água e do Espírito Santo, ouvem do Apóstolo: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor"(Efésios 5,8).
Mas o motivo pelo qual este havia crido é evidente pelo que acrescenta: "pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele". Assim, Nicodemos era um daqueles muitos que haviam crido em seu nome, vendo os sinais que ele fazia.
Estes são, portanto, aqueles a quem Jesus se confia, os que nasceram de novo, que não vêm à noite a Jesus, como Nicodemos; pois tais já o professam. Diz, portanto: Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus; como se dissesse: porque ainda não nasceste de novo, isto é, de Deus, por geração espiritual, o conhecimento que tens de mim não é espiritual, mas animal e humano. Eu, porém, te digo que, quer tu, quer qualquer outro, se não nascer de novo de Deus, não poderá apreender a glória que há em mim; mas estará fora do reino; pois a geração que se faz pelo Batismo confere iluminação à alma.
Pois o Espírito fala, e ele entende segundo a carne: este não conhecia senão um nascimento, a saber, o de Adão e Eva; e o de Deus e da Igreja ainda não conhecia. Assim, porém, compreendas tu o nascimento do espírito como Nicodemos entendeu o nascimento da carne: pois assim como o útero não pode ser repetido, assim também não pode o Batismo.
Como se dissesse: Tu entendes que falo de um nascimento carnal; mas é necessário que o homem nasça da água e do Espírito para o reino de Deus. Se para obter a herança temporal de seu pai humano, um homem deve nascer do ventre de sua mãe; para obter a herança eterna de seu Pai celestial, deve nascer das entranhas da Igreja. E como o homem consiste de duas partes, corpo e alma, o modo desta última geração é também duplo: a água, que é visível, entende-se para a purificação do corpo; e o Espírito, concorrendo invisibilmente, é indicado para a purificação da alma invisível.
Mas como Ele não diz "se alguém não nascer novamente da água e do Espírito, não terá salvação ou vida eterna", mas "não entrará no reino de Deus", alguns afirmam, por causa disso, que as crianças devem ser batizadas para que estejam com Cristo no reino de Deus, onde não estarão se não forem batizadas; embora mesmo sem o Batismo, se as crianças morrerem, teriam salvação e vida eterna, pois não estão presas por nenhum vínculo de pecado. Mas por que alguém nasceria de novo, senão para ser renovado de sua condição antiga? Ou por que a imagem de Deus não entra no reino de Deus, a não ser pelo impedimento proibitivo do pecado?
Mas quem de nós não vê, por exemplo, o vento Austro indo do Sul ao Norte, ou outro vento vindo do Oriente e do Ocidente? Como, então, não sabemos de onde vem ou para onde vai?
Ressoa o Salmo, ressoa o Evangelho, ressoa a Palavra divina, é a voz do Espírito. E diz isto porque o Espírito Santo está presente, ainda que de modo invisível, na palavra e no sacramento, para que nasçamos.
Ou de outro modo. E se tu nasceres do espírito, serás tal que aquele que ainda não nasceu do espírito, não saberá de onde vens ou para onde vais; pois isto é o que ele acrescenta em seguida: "Assim é todo aquele que nasceu do Espírito".
O que pensamos? Que o Senhor quis insultar este mestre em Israel? Ele desejava, certamente, que nascesse do Espírito; e ninguém nasce do Espírito a não ser que seja humilde, porque é a própria humildade que nos faz nascer do Espírito. Ele, porém, estava inflado com seu magistério e parecia ser de alguma importância para si mesmo porque era doutor dos judeus. O Senhor, portanto, depõe a sua soberba, para que possa nascer do Espírito.
Isto é, se vós não acreditais que posso restaurar o templo derrubado por vós, como acreditareis que os homens podem ser regenerados pelo Espírito Santo?
Observada a pequena imperícia daquele que se colocava acima dos outros pelo magistério, e repreendida a incredulidade de todos os semelhantes, responde para que outros creiam, se aqueles não creem, à pergunta que lhe foi feita: como estas coisas podem acontecer? Dizendo: "E ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu"; como se dissesse: assim se dará a geração espiritual, para que os homens terrenos se tornem celestiais; o que não poderão alcançar a não ser que se tornem meus membros, para que aquele que subiu seja o mesmo que desceu, não considerando seu corpo, isto é, sua Igreja, como algo diferente de si mesmo.
Embora na terra tenha sido feito filho do homem, não considerou, contudo, sua divindade, pela qual permanecendo no céu desceu à terra, indigna do nome de filho do homem, assim como dignou-se a chamar sua carne de filho de Deus. Pela unidade da pessoa, pela qual ambas as substâncias são um só Cristo, tanto o filho de Deus caminhava na terra, como o mesmo filho do homem permanecia no céu. Torna-se, portanto, a fé das coisas mais críveis a partir da crença nas mais incríveis. Pois, se a substância divina, muito mais distante, pôde, por nossa causa, assumir a substância humana de tal modo que se fizesse uma só pessoa, quanto mais crível é que outros santos se tornem com o homem Cristo um só Cristo, de modo que, ascendendo todos pela graça, só ele ascenda ao céu, ele que desceu do céu?
Tu te admiras porque ele estava aqui, e no céu. Assim fez também seus discípulos. Ouve Paulo dizendo: "nossa conversação está nos céus". Se o homem Paulo andava na terra e conversava nos céus, o Deus do céu e da terra não poderia estar no céu e na terra?
Muitos morriam no deserto pelos ataques das serpentes; e assim Moisés, por ordem do Senhor, levantou no deserto uma serpente de bronze: aqueles que a viam eram imediatamente curados. A serpente levantada é a morte de Cristo, de tal modo significativo que pelo agente se significa o efeito. Pois da serpente veio a morte, ela que persuadiu o homem ao pecado, pelo qual mereceu morrer; o Senhor, entretanto, não transferiu o pecado para sua carne como veneno da serpente, mas a morte, para que houvesse, na semelhança da carne do pecado, pena sem culpa; de onde na carne do pecado fossem absolvidas tanto a pena quanto a culpa.
Assim como, portanto, aquele que olhava para a serpente elevada era curado do veneno e liberto da morte, assim agora aquele que se conforma à semelhança da morte de Cristo pela fé e pelo Batismo, é liberto tanto do pecado pela justificação quanto da morte pela ressurreição; pois isto é o que Ele diz: para que todo aquele que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna. Que necessidade há, então, de que a criança seja conformada à morte de Cristo pelo Batismo, se ela não está inteiramente envenenada pela mordida da serpente?
Mas a diferença entre a figura simbólica e a própria realidade é que aqueles eram curados da morte temporal; estes, porém, para que tenham a vida eterna.
Deve-se notar que ele repete as mesmas coisas sobre o Filho de Deus unigênito que havia dito anteriormente sobre o Filho do homem exaltado na cruz, dizendo "para que todo aquele que nele crê"; porque o mesmo nosso Redentor e Criador, Filho de Deus existente antes dos séculos, tornou-se Filho do homem no fim dos séculos; para que aquele que pelo poder da sua divindade nos criou para desfrutar da bem-aventurança da vida eterna, ele mesmo, pela fragilidade da nossa humanidade, nos restaurasse para receber a vida que perdemos.
Por que, de fato, Ele é chamado Salvador do mundo, senão porque salva o mundo? Portanto, quanto está no médico, veio para curar o enfermo. Destrói-se a si mesmo aquele que não quer observar os preceitos do médico, ou os despreza.
Mas o que esperavas que Ele dissesse daquele que não crê, senão que é julgado? Mas vede o que Ele diz: quem não crê já foi julgado. O Juízo ainda não apareceu, mas já foi realizado. Pois o Senhor conhece os que são seus; conhece os que permanecerão até a coroa e os que permanecerão até o fogo.
Onde, pois, colocamos as crianças batizadas, senão entre aqueles que creram? Isto lhes é adquirido pela virtude do sacramento e pela resposta dos que as apresentam; e por isso, colocamos aqueles que não são batizados entre os que não creram.
Porque não querem ser enganados e desejam enganar, amam a verdade quando ela se mostra a si mesma, e a odeiam quando esta luz os revela a eles mesmos. Por isso lhes será retribuído, de modo que ela os manifeste contra a vontade deles, e ela mesma não lhes seja manifesta. Amam, portanto, a verdade quando resplandece, mas a odeiam quando os repreende; donde segue: e não vem à luz, para que suas obras não sejam censuradas.
Em Deus, diz, são feitas as obras daquele que vem à luz, porque entende que sua justificação não pertence aos seus próprios méritos, mas à graça de Deus.
Mas se Deus encontra todas as obras más, como é que alguns fizeram a verdade, e vieram à luz, isto é, a Cristo? Mas amaram mais as trevas do que a luz: nisto está a força do argumento. Muitos amaram seus pecados, muitos os confessaram. Deus acusa teus pecados: se tu também os acusas, te unes a Deus. É necessário que odeies em ti tua própria obra, e ames em ti a obra de Deus. O princípio das boas obras é a confissão das obras más: e então fazes a verdade, porque não te lisonjeias, não te adulas. Vens, porém, à luz, porque este mesmo pecado que te desagrada, não te desagradaria se Deus não te iluminasse, e sua verdade não to mostrasse. Faz, porém, alguém a verdade da confissão, e vem à luz nas boas obras, também por aqueles que parecem ser pequenos pecados da língua ou dos pensamentos, ou da demora nas coisas permitidas; porque muitos pequenos pecados, se forem negligenciados, matam. Pequenas são as gotas que enchem o rio; pequenos são os grãos de areia; mas se muita areia for colocada, a areia pressiona e oprime. Isto faz o porão negligenciado, o que faz a onda que irrompe pouco a pouco. Pela sentina entra; mas entrando por muito tempo e não sendo esgotada, afunda o navio. O que é, porém, esvaziar, senão agir com boas obras para que os pecados não nos afundem, gemendo, jejuando, dando esmolas, perdoando?
Batizado o Senhor, batizava não com o mesmo Batismo com que foi batizado; pois foi batizado por um servo, mostrando o caminho da humildade, e conduzindo ao Batismo do Senhor, isto é, ao seu próprio. Porque Jesus batizava como Senhor, como Filho de Deus.
Mas por que batizava São João? Porque convinha que o Senhor fosse batizado. Não somente, porém, foi batizado por ele, para que o Batismo de São João não parecesse melhor que o Batismo do Senhor.
Entendas, pois, que os judeus disseram que Cristo era maior, e que ao seu Batismo se devia acorrer; eles, porém, ainda não entendendo, defendiam o Batismo de São João. Chegou-se, portanto, ao próprio São João, para que solucionasse a questão; por isso segue: "e vieram a São João, e disseram-lhe: Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão (...) eis que batiza".
Ou de outra maneira. São João diz isto de si mesmo: como homem recebi do céu; portanto, porque recebi para ser algo, quereis que eu seja vão, para que fale contra a verdade?
Como se dissesse: ela não é Minha esposa. Mas acaso não te alegras nas núpcias? Sim, eu me alegro, disse ele, porque sou amigo do Esposo.
Mas por que permanece de pé? Porque não cai, devido à sua humildade. Veja-o firmemente em pé: "Não sou digno de desatar a correia de sua sandália". Ele está de pé e o ouve. Se, portanto, cai, não o ouve: logo o amigo do esposo deve estar de pé e ouvir, isto é, permanecer na graça que recebeu e ouvir a voz na qual se alegra. Não me alegro, diz ele, por causa de minha própria voz, mas me alegro pela voz do esposo: eu em ouvir, ele em falar; eu sou o ouvido, ele a Palavra. Pois aquele que guarda a esposa ou a mulher de seu amigo se empenha para que nenhum outro seja amado; mas se ele mesmo quiser ser amado no lugar de seu amigo e desejar usufruir daquela que lhe foi confiada, quão detestável aparece a todo o gênero humano! Vejo, porém, muitos adúlteros que querem possuir a esposa comprada por tão alto preço, e se esforçam com suas palavras para que sejam amados em vez do esposo.
Ou de outro modo. Nisto o meu gozo se cumpriu, isto é, que eu me alegre com a voz do esposo. Tenho a minha graça; não assumo mais para mim, para não perder o que recebi. Pois quem quer alegrar-se em si mesmo, está triste; mas quem quer alegrar-se em Deus, sempre se alegrará, porque Deus é eterno.
Mas o que significa isso: "É necessário que ele cresça"? Deus nem cresce, nem diminui. Mas João e Jesus, no que diz respeito à carne, eram contemporâneos: os seis meses que havia entre eles não estabelecem qualquer distinção de idade. Grande é este mistério. Antes que viesse o Senhor, os homens gloriavam-se em si mesmos; veio aquele homem para que diminuísse a glória do homem e aumentasse a glória de Deus. Pois assim veio ele para perdoar os pecados, e para que o homem confessasse: porque a confissão do homem é a humildade do homem, a misericórdia de Deus é a sublimidade de Deus. Esta verdade Cristo e João também significaram com seus padecimentos: pois João foi diminuído pela cabeça, Cristo foi exaltado na cruz. Depois, Cristo nasceu quando os dias já começavam a crescer; João nasceu quando os dias começavam a diminuir. Cresça, portanto, em nós a glória de Deus, e diminua a nossa glória, para que também a nossa cresça em Deus. Quanto mais compreenderes a Deus, parece que Deus cresce em ti; no entanto, não cresce em si mesmo, mas sempre é perfeito: assim como se fossem curados os olhos de alguém de sua antiga cegueira, e começasse a ver um pouco de luz, e no outro dia visse mais, pareceria a ele que a luz crescia; todavia, a luz é perfeita, quer ele a veja ou não: assim também o homem interior progride em Deus, e Deus parece crescer nele; mas ele diminui, para que decaia de sua própria glória e se eleve na glória de Deus.
Ou, quando diz fala da terra, referia-se ao homem e ao que pertence ao próprio homem. E se alguém fala coisas divinas, é porque foi iluminado por Deus; como diz o Apóstolo: "Não eu, porém, mas a graça de Deus comigo". Portanto, São João, no que se refere ao próprio São João, é da terra e fala da terra; se ouvistes algo divino de São João, é de quem ilumina, não de quem recebe.
Isto é, vem do Pai. De dois modos está acima de todos: primeiro, sobre toda a humanidade, da qual veio antes que ela pecasse; segundo, conforme a altura do Pai, a quem é igual.
Quando concebes a palavra que irás proferir, queres dizer a coisa, e a própria concepção da coisa em teu coração já é palavra. Assim como tu tens a palavra que falas em teu coração, e está junto a ti, assim Deus proferiu o Verbo; isto é, gerou o Filho. Como, portanto, o Verbo de Deus é o Filho, e o Filho nos falou, não a sua palavra, mas a palavra do Pai, Ele quis nos falar, Ele que falava a palavra do Pai. Isto, portanto, como convinha e era necessário, disse São João.
Ou de outro modo. Há certo povo preparado para a ira de Deus, que será condenado com o Diabo. Destes, ninguém aceita o testemunho de Cristo. Ele [João] atentou, pois, no espírito à divisão, mas no gênero humano à mistura; e o que ainda não estava separado em lugares, separou pelo olhar do coração; e viu dois povos, o dos infiéis e o dos fiéis. Atentou aos infiéis, e disse: "e ninguém aceita o seu testemunho". Depois, afastou-se da esquerda e olhou para a direita, e continuou dizendo: "mas aquele que aceitou o seu testemunho, confirmou".
O que significa que Deus é verídico, senão que o homem é mentiroso e Deus é verídico? Porque nenhum homem pode dizer o que é a verdade, a não ser que seja iluminado por Aquele que não pode mentir. Deus, portanto, é verídico, e Cristo é Deus. Queres provar isso? Aceita o Seu testemunho e o encontrarás. Mas se ainda não compreendes que Deus, ainda não recebeste o Seu testemunho. O próprio Cristo, portanto, é Deus verídico, e Deus O enviou. Deus enviou Deus. Une ambos, e tens um único Deus: pois isto que João dizia de Cristo, que Deus O havia enviado, dizia-o para distinguir-se d'Ele. E o quê? Acaso o próprio João não foi enviado por Deus? Mas vê o que ele acrescenta: "pois Deus não dá o Espírito por medida". Aos homens dá por medida, ao Filho único não dá por medida. "A um é dada pela palavra do Espírito a sabedoria, a outro a palavra da ciência"; este possui uma coisa, e aquele possui outra. A medida é uma certa divisão dos dons, mas Cristo não recebeu por medida aquilo que Ele dá.
Como então havia falado do Filho, "Deus não dá o Espírito por medida", acrescenta: "O Pai ama o Filho"; e acrescenta ainda: "e todas as coisas entregou em suas mãos"; para que compreendêssemos aqui distintamente, quando foi dito "o Pai ama o Filho". Pois o Pai ama a João ou a Paulo, e contudo não entregou todas as coisas em suas mãos. O Pai ama o Filho; mas como Filho, não como o senhor ao servo; como Unigênito, não como adotado. Assim, entregou todas as coisas em suas mãos, para que tão grande seja o Filho quanto é o Pai. Portanto, quando se dignou a enviar-nos o Filho, não pensemos que nos foi enviado alguém menor do que o Pai.
E não disse que a ira de Deus vem a ele, mas permanece sobre ele; porque todos os que nascem mortais, trazem consigo a ira de Deus, a qual recebeu o primeiro Adão. Veio o Filho de Deus, não tendo pecado, e vestiu-se de mortalidade: morreu para que tu vivas. Quem, portanto, não quer crer no Filho, a ira de Deus permanece sobre ele, da qual diz o Apóstolo: éramos por natureza filhos da ira.
Certamente o Senhor, se soubesse que os fariseus haviam conhecido sobre Ele que fazia mais discípulos e batizava mais que João, de modo que isso lhes valesse para a salvação seguindo-O, não teria deixado a terra da Judeia, mas por causa deles permaneceria ali; porém, como conheceu a ciência deles e também a inveja, porque não haviam aprendido isso para segui-Lo, mas para persegui-Lo, partiu dali. Poderia, certamente, mesmo estando presente, não ser capturado por eles, se não quisesse; mas em tudo o que fez como homem, oferecia exemplo aos homens que nEle haveriam de crer, porque qualquer servo de Deus não peca se se retira para outro lugar ao ver o furor dos que o perseguem. Fez, portanto, isso aquele bom Mestre, para ensinar, não porque temesse.
Talvez isto cause perplexidade, que foi dito que batizava mais do que João; e logo em seguida acrescentou-se que, contudo, Jesus não batizava. O que é isto? Era falso o que foi dito e depois foi corrigido?
Ou de outro modo. Ambas as coisas são verdadeiras: porque Jesus tanto batizava quanto não batizava; batizava, porque Ele mesmo purificava; não batizava, porque Ele mesmo não imergia. Os discípulos prestavam o ministério corporal; Ele proporcionava o auxílio da majestade, do qual foi dito: "Este é quem batiza"(São João 1,33).
Entendemos, porém, que os discípulos de Cristo já haviam sido batizados, seja pelo Batismo de João, como alguns julgam, seja, o que é mais crível, pelo Batismo de Cristo; pois Ele não se absteve do ministério de batizar, para ter servos batizados por meio dos quais batizasse os demais, Ele que não faltou com o ministério daquela humildade, quando lhes lavou os pés.
Era um poço: porém todo poço é fonte, mas nem toda fonte é poço: onde a água brota da terra e proporciona uso aos que a retiram, chama-se fonte; mas se está à vista e na superfície, chama-se apenas fonte; porém se está nas profundezas, então é chamado poço, de modo que não perca o nome de fonte.
Encontramos Jesus forte e fraco: forte, porque no princípio era o Verbo; fraco, porque o Verbo se fez carne. Assim, pois, Jesus, fraco, fatigado do caminho, sentou-se junto à fonte.
O caminho dele é a carne assumida por nós; pois aquele que está em toda parte, para onde vai, senão porque não viria a nós se não assumisse a forma da carne visível? Portanto, fatigado pelo caminho, o que é senão fatigado na carne? E por que na hora sexta? Porque é na sexta idade do mundo. Conte como uma hora, uma idade desde Adão até Noé; a segunda desde Noé até Abraão; a terceira desde Abraão até Davi; a quarta desde Davi até a migração para a Babilônia; a quinta desde então até o Batismo de João; desde então a sexta se desenvolve.
Na hora sexta, portanto, nosso Senhor veio ao poço. Vejo no poço uma profundidade tenebrosa. Sou, pois, admoestado a compreender as partes mais baixas deste mundo, isto é, as terrenas, aonde veio o Senhor Jesus na hora sexta, isto é, na sexta idade do gênero humano, como na velhice do homem velho, do qual somos ordenados a nos despojar, para que nos revistamos do novo; pois a sexta idade é a velhice: visto que a primeira é a infância, a segunda a puerícia, a terceira a adolescência, a quarta a juventude, a quinta a idade avançada. Também na hora sexta veio o Senhor ao poço, isto é, ao meio-dia; a partir de onde já começa este sol visível a declinar para o ocaso: porque para nós, chamados por Cristo, diminui o deleite das coisas visíveis, a fim de que o homem interior, recreado pelo amor das coisas invisíveis, retorne à luz interior, que jamais se apaga. E quanto ao fato de que se sentou, significa a humildade: ou porque os doutores costumam sentar-se, indica a pessoa do mestre.
Esta mulher é figura da Igreja, não justificada, mas prestes a ser justificada. E pertence à imagem da coisa que vem de estrangeiros: pois os samaritanos eram estrangeiros, embora habitassem terras vizinhas; assim também a Igreja havia de vir dos gentios, e ser alheia à raça dos judeus.
Jesus também tinha sede da fé daquela mulher: pois Ele tem sede da fé daqueles por quem derramou seu sangue.
E os judeus não usavam de modo algum os vasilhames deles. E porque a mulher trazia consigo um vasilhame, com o qual tirava água, ela se admirou de que um judeu lhe pedisse de beber, o que os judeus não costumavam fazer.
Ele, porém, que buscava beber, tinha sede da fé da própria mulher; por isso segue: Respondeu Jesus, e disse-lhe: se conhecesses o dom de Deus, e quem é aquele que te diz: dá-me de beber, tu talvez lhe pedirias, e ele te daria água viva.
E aqui Ele mostra que não havia pedido a água que ela entendia, mas como Ele conhecia a fé dela, desejava dar o Espírito Santo a ela que tinha sede. Por isso entendemos corretamente por água viva, que é dom de Deus, como Ele mesmo diz "se conhecesses o dom".
Diz-se vulgarmente água viva aquela que sai de uma fonte; aquela que se recolhe da chuva em lagoas ou cisternas não se chama água viva; e se tiver emanado de uma fonte e permanecido recolhida em algum lugar, sem ter admitido nela aquilo de onde emanava, mas tendo sido separada da corrente por um canal rompido, como que apartada do curso da fonte, não se chama água viva.
Vede como ela entendeu a água viva, a saber, a água que estava naquela fonte; como se dissesse: tu queres me dar água viva, e eu trago com que haurir e tu não trazes; desta água viva, portanto, não podes me dar, pois não tens instrumento para tirar água. Talvez prometas outra fonte? Mas, porventura, és tu maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço, e ele mesmo bebeu dele, e seus filhos, e seus animais?
O que certamente é verdadeiro tanto a respeito da água sensível, como daquela que esta água significa: pois a água no poço é o prazer do mundo em sua profundidade tenebrosa; dela os homens retiram com o balde de suas cobiças: porque quem não antepuser a cobiça, não pode chegar ao prazer. E quando alguém alcança o prazer deste mundo, porventura não terá sede novamente? Logo, quem beber desta água terá sede outra vez. Mas se receber de mim a água, não terá sede eternamente: pois como terão sede aqueles que se embriagarem com a abundância da casa de Deus? Portanto, prometia uma fonte para a saciedade do Espírito Santo.
Ou de outro modo. Ainda aquela mulher saboreava a carne: deleitava-se em não ter sede, e pensava que isto lhe fosse prometido segundo a carne pelo Senhor. Deus havia dado, uma vez, ao seu servo Elias para que durante quarenta dias não tivesse fome, nem sede; quem pôde dar isto por quarenta dias, não poderia dar sempre? Deleitada, pois, com tal dom, roga que lhe desse água viva; por isso segue-se: diz-lhe a mulher: Senhor, dai-me esta água, para que eu não tenha sede, nem venha aqui tirá-la. Pois a necessidade obrigava-a ao trabalho, e a enfermidade recusava o labor: oxalá tivesse ouvido: "vinde a mim, todos os que trabalhais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei". Isto, de fato, Jesus dizia, para que já não trabalhasse; mas ela ainda não entendia. Finalmente, quis o Senhor que ela entendesse; por isso segue-se: diz-lhe Jesus: Vai, chama teu marido, e volta aqui. O que é isto? Por meio do seu marido queria dar-lhe aquela água. Ou porque ela não entendia, queria ensiná-la por meio do seu marido? Talvez como diz o Apóstolo acerca das mulheres: "se elas querem aprender alguma coisa, interroguem em casa os seus maridos". Mas isto se diz onde não está Jesus para ensinar; quando, porém, o próprio Senhor estava presente, que necessidade havia de que lhe falasse por meio do seu marido? Porventura falou por meio do marido a Maria, que se sentara aos seus pés?
Entenda-se que, na verdade, esta mulher não tinha marido naquele momento; mas mantinha relações com um homem que não era seu legítimo marido. Por isso, Cristo lhe fala apropriadamente dos mistérios, dizendo: "tiveste cinco maridos".
Alguns interpretam os cinco maridos como os cinco livros que foram ministrados por Moisés. E quanto àquilo que foi dito: "e este que tens agora não é teu marido", entendem que o Senhor falava de si mesmo, de modo que este seja o sentido: primeiro serviste aos cinco livros de Moisés como se fossem cinco maridos; mas agora o que tens, isto é, o que ouves, não é teu marido, porque ainda não creste nele. Mas como não crendo em Cristo, ainda estava ligada àqueles cinco maridos, isto é, aos cinco livros, pode-se questionar como se poderia dizer "tiveste cinco maridos", como se agora já não os tivesse. Além disso, como se pode entender que um homem deva apartar-se daqueles cinco livros para passar a Cristo, quando aquele que crê em Cristo, longe de abandonar aqueles cinco livros, abraça-os com muito mais avidez para entendê-los espiritualmente? Há, portanto, outro entendimento.
Vendo Jesus que a mulher não entendia, e querendo que ela entendesse, diz: "Chama o teu marido"; isto é, apresenta o teu intelecto. Pois quando a vida está ordenada, o intelecto rege a alma, pertencendo à própria alma; não é algo diferente da alma, mas é algo da alma. Esta mesma parte da alma que se chama intelecto e mente é iluminada por uma luz superior. Tal luz falava com a mulher, e nela não estava presente o intelecto; portanto, o Senhor, como se dissesse: quero iluminar, e não há quem; diz: "Chama o teu marido"; isto é, utiliza o intelecto, pelo qual sejas ensinada, pelo qual sejas governada; e ela, ainda sem chamar aquele marido, não entende. Parece-me que podemos entender os cinco primeiros maridos da alma como os cinco sentidos do corpo: pois antes que alguém possa fazer uso da razão, não é regido senão pelos sentidos da carne; mas quando a alma começa a ser capaz de razão, ou é regida por uma mente sábia, ou pelo erro; mas o erro não rege, apenas destrói. Depois daqueles cinco sentidos, aquela mulher ainda errava: aquele erro não era marido legítimo, mas adúltero. Diz, portanto, o Senhor: "Afasta esse adúltero que te corrompe, e chama o teu marido", para que me entendas.
Ainda que o marido começasse a vir a ela, ainda não tinha vindo plenamente: ela julgava o Senhor um profeta. E de fato era profeta, pois diz de si mesmo: "Um profeta não fica sem honra, senão em sua própria pátria".
E começa a indagar sobre o que costuma movê-la, dizendo: Nossos pais adoraram neste monte; e vós dizeis que em Jerusalém está o lugar onde se deve adorar. Havia, de fato, uma contenda entre os samaritanos e os judeus, porque os judeus adoravam a Deus no templo construído por Salomão e, por isso, vangloriavam-se de serem melhores; aos quais os samaritanos diziam: Como vos vangloriais de que tendes um templo que nós não temos? Porventura nossos pais, que agradaram a Deus, adoraram naquele templo? Melhor, portanto, é que nós roguemos a Deus neste monte, onde nossos pais adoraram a Deus.
Com razão, estando já presente o marido, ouve a mulher: "crê em mim". Pois já há em ti quem creia: começaste a estar presente no entendimento, mas se não crerdes, certamente não entendereis.
Muito concedeu, portanto, aos judeus, em cuja pessoa dissera: nós adoramos o que sabemos; mas não da pessoa dos judeus réprobos, mas dos que foram como os apóstolos, como foram os profetas, como foram todos aqueles santos que puseram o preço de seus bens aos pés dos apóstolos.
Talvez procurasses um monte para orar, a fim de estares mais próximo de Deus; mas o próprio que habita nas alturas aproxima-se dos humildes: portanto, desce para que possas subir. As ascensões estão em seu coração no vale de lágrimas, que possui a humildade. Queres orar no templo? Ora em ti mesmo; mas primeiro sê templo de Deus.
Em latim, Unctus; em grego, Cristo; em hebraico, Messias. Sabia, portanto, quem a poderia ensinar; mas ainda não reconhecia aquele que já a ensinava; por isso acrescenta: quando ele vier, nos anunciará todas as coisas; como se dissesse: agora os judeus disputam sobre o templo, nós sobre o monte; mas quando ele vier, desprezará o monte, derrubará o templo, e nos ensinará como adorar em espírito e verdade.
Talvez, porém, para indicar aos que compreendem que os cinco sentidos do corpo eram significados pelo nome dos cinco maridos, após as cinco respostas carnais, que acima estão patentes na letra, na sexta resposta ela nomeia Cristo.
Porque buscava a perdida, aquele que viera buscar o que havia perecido, admiravam-se disso: pois admiravam o bem, e não suspeitavam o mal.
Chama-se hydria por um nome grego, como se se dissesse aquário, pois em grego a água é chamada hydor.
O fato de a mulher ter se afastado deixando a sua bilha não deve ser negligenciado. Pois a bilha representa o amor deste mundo, isto é, a concupiscência, pela qual os homens, das profundezas tenebrosas, simbolizadas pelo poço, ou seja, da vida terrena, extraem o prazer. Convinha, portanto, que aquela que passou a crer em Cristo renunciasse ao mundo e, deixando a bilha, demonstrasse que tinha abandonado os desejos mundanos.
Ela rejeitou, portanto, a cobiça, e apressou-se a anunciar a verdade. Aprendam aqueles que desejam evangelizar, que devem primeiro deixar seus cântaros junto ao poço.
Seus discípulos tinham ido comprar alimentos, e haviam retornado; os quais ofereciam a Cristo; por isso diz: entretanto rogavam-lhe seus discípulos, dizendo: Rabi, come.
Que admiração há se aquela mulher não entendia sobre a água? Eis que os discípulos não entendem sobre a comida.
O Senhor, porém, ouviu os pensamentos dos discípulos, e os instruiu como mestre, não por rodeios como à mulher, mas abertamente; donde se segue: Diz-lhes Jesus: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou.
Ele fervia na obra e se apressava em enviar operários; por isso acrescenta: e aquele que ceifa recebe recompensa, e congrega fruto para a vida eterna; para que tanto aquele que semeia quanto aquele que ceifa se alegrem juntos.
Os Apóstolos e os Profetas tiveram trabalhos em tempos distintos, mas desfrutarão igualmente da alegria, recebendo juntos a mesma recompensa, que é a vida eterna.
O que é então? Enviou ceifadores, não semeadores? Ali, portanto, os ceifadores deviam ser enviados onde já os profetas haviam pregado. Lede os trabalhos deles, e em todos os seus trabalhos há profecia de Cristo: portanto, já na Judeia a colheita estava preparada quando tantos milhares de homens ofereciam o valor de seus bens e, colocando-os aos pés dos apóstolos, libertos seus ombros dos fardos seculares, seguiam a Cristo Senhor. Dessa mesma colheita foram expulsos poucos grãos, e semearam o mundo inteiro: e surge outra colheita, que no fim do século há de ser ceifada; para a qual ceifar não os apóstolos, mas os Anjos serão enviados. Os ceifadores são os Anjos.
Permanece entre eles por dois dias; isto é, dá-lhes os dois preceitos da caridade
Assim, pois, conheceram a Cristo primeiro pela fama, depois pela presença; como acontece hoje com aqueles que estão fora e ainda não são cristãos: Cristo é anunciado por amigos cristãos; como por aquela mulher, isto é, a Igreja, anunciando, vêm a Cristo; creem por meio desta mulher; e muito mais e mais firmemente nele creem, porque verdadeiramente ele é o salvador do mundo.
Surpreende-nos, porém, porque o Evangelista disse a seguir "o próprio Jesus testemunhou que um profeta não tem honra em sua própria pátria". Pois parece que Ele poderia ter melhor testemunhado que um profeta não tem honra em sua própria pátria se tivesse evitado ir à Galileia e permanecido na Samaria. Isto é o que penso: na Samaria, Ele permaneceu dois dias, e os samaritanos creram nEle; permaneceu tantos dias na Galileia, e os galileus não creram nEle; e por esta razão disse que um profeta não tem honra em sua própria pátria.
Ali, pois, quando converteu a água em vinho, seus discípulos creram nele; e certamente a casa estava cheia de convidados para o banquete, e aconteceu tão grande milagre, e não creram senão os seus discípulos; e por isso agora voltou a esta cidade, a saber, para que aqueles que não haviam crido pelas primeiras razões, agora creiam.
Aquele que pedia, acaso não acreditava? O que esperas ouvir de mim? Pergunta ao Senhor o que Ele pensava daquele homem; pois segue-se: disse, pois, Jesus a ele: se não virdes sinais e prodígios, não acreditais. Reprova o homem de ser tíbio ou frio na fé, ou totalmente sem fé alguma; mas desejando experimentar, pela saúde de seu filho, quem era Cristo, o que Ele era, quanto podia. Prodígio, na verdade, é assim chamado, como algo dito ao longe, porque diz longe, significa longe, e pressagia algo futuro.
Assim, o Senhor quer elevar a mente do crente acima de todas as coisas mutáveis, de tal modo que nem mesmo os milagres, que, embora divinamente, são realizados pela mutabilidade dos corpos, sejam objeto de busca pelos fiéis.
Se, portanto, ele creu por isso, porque lhe foi anunciado que seu filho estava são, e comparou a hora dos que anunciavam com a hora daquele que prenunciava, quando rogava, ainda não acreditava.
Apenas pela pregação acreditaram muitos samaritanos; porém naquele milagre somente a casa onde foi realizado acreditou; por isso conclui o Evangelista: Este foi novamente o segundo sinal que Jesus fez, quando veio da Judeia para a Galileia.
Depois destas coisas, era um dia festivo dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
É muito mais que Cristo tenha curado os vícios das almas, do que ter curado as enfermidades dos corpos dos mortos. Mas como a própria alma não conhecia aquele por quem devia ser curada, e tinha olhos na carne, pelos quais via as coisas corporais, e ainda não tinha no coração, por onde pudesse conhecer a Deus ocultamente, fez o que podia ser visto, para que se curasse o que não podia ser visto. Entrou no local onde jazia uma multidão de enfermos, dentre os quais escolheu um para curar, sobre o qual se acrescenta: "havia ali um homem que tinha trinta e oito anos em sua enfermidade".
Três coisas disse: mas "levanta-te" não foi um mandato de obra, mas a operação da cura; ao já curado, porém, ordenou duas coisas: "toma o teu leito" e "anda".
Não caluniavam ao Senhor porque havia feito um homem são no sábado, pois Ele poderia responder-lhes que, se um jumento de qualquer um deles caísse em um poço, certamente o retiraria e o salvaria no dia de sábado; mas ao homem que carregava seu leito; como se dissessem: se a cura não devia ser adiada, acaso era preciso ordenar-lhe o trabalho? Mas ele diante dos caluniadores objetava com o autor da sua cura; donde segue: respondeu-lhes: aquele que me fez são, ele me disse: toma o teu leito e anda; como se dissesse: por que não receberia eu a ordem daquele de quem recebi a saúde?
Se considerarmos com coração medíocre e engenho humano este milagre, no que se refere ao poder, não realizou algo grandioso; e quanto à benignidade, fez pouco. Muitos jaziam ali, e apenas um foi curado, quando poderia com uma só palavra erguer a todos. O que devemos, então, entender, senão que aquele poder e bondade agiam mais pelo que as almas compreendessem em seus atos para a salvação eterna, do que pelo que os corpos merecessem para a saúde temporal? Pois naqueles feitos, tudo o que foi curado temporalmente nos membros mortais, ao fim pereceu; mas a alma que creu fez a passagem para a vida eterna. Esta piscina e aquela água me parece significar o povo dos judeus: pois que os povos são significados pelo nome de águas, o Apocalipse de São João claramente nos indica.
Aquela água, portanto, isto é, aquele povo, estava cercado pelos cinco livros de Moisés como por cinco pórticos; mas aqueles livros revelavam os enfermos, não os curavam: pois a Lei convencia os pecadores, mas não os absolvia.
Porém, Cristo veio ao povo judeu, e fazendo grandes coisas, ensinando coisas úteis, perturbou os pecadores, isto é, a água, com sua presença, e incitou-os à sua paixão. Mas perturbou estando oculto: pois se eles o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória. De repente a água parecia perturbada, e não se via por quem era perturbada. Descer, pois, à água perturbada significa crer humildemente na paixão do Senhor. Ali era curado apenas um, significando a unidade da Igreja; depois, quem quer que viesse não era curado; porque quem quer que esteja fora da unidade não poderá ser curado. Ai daqueles que odeiam a unidade e fazem para si mesmos facções entre os homens. Tinha trinta e oito anos em sua enfermidade aquele que foi curado: este número pertence mais à doença do que à saúde. O número quarenta nos é recomendado como sagrado em certa perfeição: porque a Lei foi dada em dez preceitos, e devia ser pregada por todo o mundo, que se distingue em quatro partes: e o número dez multiplicado por quatro chega a quarenta. Ou também porque pela Lei, que tem quatro livros, se cumpre a Lei. Se, portanto, o número quarenta tem a perfeição da Lei, e a Lei não se cumpre senão no duplo preceito da caridade, por que te admiras que estivesse enfermo aquele que tinha quarenta menos dois? Era necessário um homem para sua cura, mas um homem que também é Deus: e porque o encontrou deitado faltando dois, ordenando duas coisas, completou o que faltava. Nos dois mandatos do Senhor estão significados os dois preceitos da caridade. O amor a Deus é o primeiro na ordem do preceito, mas o amor ao próximo é o primeiro na ordem da prática. Diz, portanto, toma o teu leito; como se dissesse: quando estavas enfermo, teu próximo te carregava; agora que estás curado, carrega teu próximo. Diz também anda. Mas para onde caminhas senão para o Senhor teu Deus?
Carrega, pois, Aquele com quem caminhas, para que possas chegar Àquele com quem desejas permanecer. No entanto, ele ainda não conhecia Jesus, pois nós também cremos naquele que não vemos; e para não ser visto, afasta-se da multidão. É em uma certa solidão de intenção que se vê a Deus; a multidão produz ruído; esta visão requer silêncio.
O Senhor Jesus via-o tanto na multidão como no templo. O enfermo, porém, não reconhece Jesus na multidão; no templo, que é lugar sagrado, o reconhece.
Agora, porém, aquele homem, depois que viu Jesus e o reconheceu como autor de sua salvação, não foi negligente em evangelizar aquele que havia visto; por isso se segue: aquele homem partiu e anunciou aos judeus que Jesus era quem o havia curado.
Assim, pois, aquele anunciava, e eles enfureciam-se; de onde segue: "Por isso os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado". Sem dúvida, havia sido realizada uma obra corporal manifesta diante dos olhos dos judeus, não a saúde do corpo, mas o carregar do leito, o que não parecia tão necessário como a saúde. Portanto, o Senhor claramente diz que o sacramento do sábado e o sinal de observar um dia foi dado temporariamente aos judeus; mas o próprio cumprimento do sacramento veio nele, quando segue: "Jesus, porém, respondeu-lhes: Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho"; como se dissesse: não penseis que no sábado meu Pai descansou de tal modo que desde então não opere mais; mas assim como ele mesmo opera agora sem trabalho, também eu opero. Mas foi dito que Deus descansou porque já não criava nenhuma nova criatura depois que tudo foi completado. A Escritura, no entanto, chamou isto de descanso para nos advertir que descansaremos após as boas obras. E assim como Deus, depois que fez o homem à sua imagem e semelhança, e completou todas as suas obras que eram muito boas, descansou no sétimo dia; assim também tu não esperes descanso, a não ser quando retornares à semelhança na qual foste feito, que perdeste pelo pecado; e a não ser que tenhas realizado boas obras.
Pode-se, portanto, dizer com probabilidade que foi ordenado aos judeus observar o sábado como sombra do futuro, que significava o descanso espiritual que Deus, pelo exemplo do seu próprio repouso, prometia com significado misterioso aos fiéis que praticam boas obras.
Haverá, pois, um sábado deste século quando tiverem passado as seis idades, como que os seis dias do século: então virá o descanso que está prometido aos santos.
O mistério deste descanso o próprio Senhor Jesus confirmou com Sua sepultura: pois nesse mesmo dia de sábado descansou no sepulcro, depois que no sexto dia consumou suas obras, quando disse: "Está consumado". Portanto, que admiração há em que Deus, querendo também deste modo prenunciar o dia em que Cristo iria descansar na sepultura, descansou de suas obras em um só dia, para depois operar na ordem dos séculos? Pode-se também entender que Deus descansou da criação dos gêneros das criaturas, porque depois disso já não criou nenhum gênero novo. Entretanto, desde então até agora e além, opera a administração daqueles mesmos gêneros que então foram instituídos, não para que ao menos no sétimo dia seu poder cessasse de governar o céu e a terra e todas as coisas que criara; do contrário, imediatamente se desintegrariam: pois o poder do Criador é a causa da subsistência de toda criatura, e se alguma vez cessasse de reger aquelas que foram criadas, ao mesmo tempo cessaria a sua espécie, e toda a natureza ruiria. Pois não é como a estrutura de um edifício que, depois de fabricado, o construtor se retira, e cessando ele, permanece sua obra; assim o mundo mal poderia subsistir num piscar de olhos, se Deus lhe subtraísse seu governo. Por isso, quando o Senhor diz "Meu Pai trabalha até agora", mostra uma certa continuidade de sua obra, que contém e administra toda a criação. De outro modo poderia ser entendido, se dissesse: "e agora trabalha"; onde não seria necessário que entendêssemos uma continuação da obra. Mas nos obriga a entender de outra maneira, quando diz "até agora", isto é, desde aquele tempo em que, ao criar todas as coisas, trabalhou.
Portanto, como se dissesse aos judeus: o que esperais que eu não trabalhe no sábado? O dia do sábado foi-vos prescrito para minha significação. Considerai as obras de Deus: todas as coisas foram feitas por mim. O Pai operou a luz, mas falou para que fosse feita. Se falou, operou pela palavra, e eu sou a sua Palavra. Meu Pai tanto operou quando fez o mundo, quanto opera até agora quando governa o mundo: portanto, tanto fez por mim quando fez, quanto governa por mim quando governa.
Não de qualquer modo, mas porque se fez igual a Deus: pois todos nós dizemos a Deus: Pai nosso, que estais nos céus. Lemos também que os judeus diziam: sendo tu o nosso Pai. Portanto, não se irritavam aqui porque Ele chamava a Deus de seu Pai, mas porque o fazia de modo muito diferente dos homens.
Pois dizendo "meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho", quis dar a entender que era igual a Ele; mostrando ser consequência que, como o Pai trabalha, também o Filho trabalhe: porque o Pai não opera sem o Filho.
Eis que os judeus entendem o que os arianos não entendem: pois os arianos declaram o filho desigual ao pai, e daí a heresia que ataca a Igreja.
Contudo, os judeus não entenderam que Cristo era o Filho de Deus; mas entenderam nas palavras de Cristo que tal Filho de Deus era exaltado, que seria igual a Deus. Porque, como não O conheciam, mas reconheciam que tal coisa era pregada, por isso diz: fazendo-se igual a Deus. Mas Ele não se fazia igual, mas Aquele O havia gerado igual.
Alguns que querem ser considerados cristãos, os hereges arianos, dizendo que o próprio Filho de Deus que assumiu a carne é menor do que o Pai, tomam destas palavras a causa para calúnia, e nos respondem: vedes que quando o Senhor Jesus percebeu que os judeus se indignavam por Ele se fazer igual a Deus Pai, acrescentou tais palavras para mostrar que Ele não era igual. Pois dizem: aquele que não pode fazer nada por si mesmo, a não ser o que vir o Pai fazendo, certamente é menor, não igual. Mas se o Verbo era Deus, e existe um Deus maior e um Deus menor, então adoramos dois deuses, e não um só Deus.
Como se dissesse: por que vos escandalizais porque chamei a Deus meu Pai, e porque me fiz igual a Deus? Sou igual, de tal modo que Ele me gerou, não de modo que Ele seja por mim, mas eu por Ele. No Filho, o ser é o mesmo que o poder. Porque a substância do Filho vem do Pai, o poder do Filho também vem do Pai; porque o Filho não existe por si mesmo, também não pode por si mesmo. Assim, portanto, o Filho não pode fazer nada por si mesmo, senão o que vir o Pai fazer: porque o ver do Filho é o mesmo que ter nascido do Pai; sua visão não é distinta de sua substância: tudo o que Ele é, vem do Pai.
Mas se nós entendermos isto como tendo sido dito porque o Filho é menor na forma recebida da criatura, seguir-se-á que o Pai antes andou sobre as águas, e fez todas as outras coisas que o Filho, aparecendo na carne entre os homens, fez, para que o Filho pudesse fazê-las. Mas quem, mesmo em delírio, pensaria tais coisas?
Aquela caminhada da carne sobre o mar era feita pelo Pai através do Filho. Pois quando a carne caminhava, e a divindade do Filho a governava, o Pai não estava ausente, como diz o Filho: "o Pai que permanece em mim, Ele mesmo faz as obras". Tendo dito "o Filho não pode fazer nada por si mesmo", para que não se insinuasse um entendimento carnal, como se o homem fizesse para si dois artífices, um mestre e outro discípulo, de modo que assim como aquele fez uma arca, este faça outra, acrescenta em seguida: "pois tudo o que Ele fizer, o Filho igualmente o faz". Não diz: tudo o que o Pai faz, o Filho faz outras coisas semelhantes; mas: "estas mesmas coisas". O Pai fez o mundo, o Filho fez o mundo, o Espírito Santo fez o mundo. Se há um só Deus Pai, Filho e Espírito Santo, um só mundo foi feito pelo Pai por meio do Filho no Espírito Santo. Portanto, Ele faz estas mesmas coisas. E acrescenta "igualmente", para que não nascesse outro erro no espírito. Pois parece que o corpo faz a mesma coisa que a alma, mas não igualmente: a alma comanda o corpo: o corpo é visível, a alma invisível. Quando um servo faz algo sob as ordens do senhor, a mesma coisa é feita por ambos; mas acaso é feita igualmente? Não é assim, pois, o Pai e o Filho; mas faz estas mesmas coisas, e as faz igualmente; para que entendamos que o Filho faz com semelhante poder as mesmas coisas que o Pai faz. O Filho, portanto, é igual ao Pai.
Isto, porém, não é próprio de quem é deficiente, mas de quem permanece naquilo que nasceu do Pai; e tão louvável é que o Onipotente não possa mudar, quanto louvável é que o Onipotente não possa morrer. Pois o Filho poderia fazer o que não tivesse visto o Pai fazer, se pudesse fazer o que o Pai não faz por meio dele; isto é, se pudesse pecar: o que não conviria à natureza imutavelmente boa que foi gerada pelo Pai. Mas isto, porque não pode, não é por deficiência que não pode, mas por poder.
Como, pois, tivesse dito que Ele fazia as mesmas coisas e de modo semelhante às que o Pai faz, acrescenta: Porque o Pai ama o Filho e mostra-lhe todas as coisas que Ele mesmo faz. A isso que disse acima, a não ser o que vir o Pai fazer, parece relacionar-se também que mostra-lhe todas as coisas que Ele mesmo faz. Mas, de novo, a imaginação humana se perturba: pois alguém dirá: o Pai faz separadamente, para que o Filho possa ver o que Ele faz; assim como um artífice ensina a seu filho a sua arte e lhe mostra tudo o que faz, para que também ele possa fazer o que vê o pai fazendo. Logo, quando o Pai faz, o Filho não faz, para que o Filho possa ver o que o Pai faz. Mas se mantemos firme e inabalável que o Pai faz todas as coisas por meio do Filho, mostra ao Filho antes de fazer. E onde o Pai mostra ao Filho o que faz, senão no próprio Filho, por quem o faz? Pois se o Pai faz como exemplo, e o Filho observa as mãos do Pai enquanto Ele faz, onde está aquela inseparabilidade da Trindade? Portanto, o Pai não mostra ao Filho fazendo, mas mostrando faz por meio do Filho. Pois o Filho vê o Pai mostrando antes que algo seja feito, e pela demonstração do Pai e pela visão do Filho é feito o que é feito pelo Pai por meio do Filho. Mas dirás: mostro ao meu filho o que quero fazer, e ele mesmo o faz, e eu por meio dele. Mas irás dizer palavras ao teu filho. Mas o próprio Filho é a Palavra do Pai. Porventura, então, falaria por meio da Palavra à Palavra? Ou, porque o Filho é a grande Palavra, palavras menores passariam entre o Pai e o Filho, e algum som, e como que alguma criatura temporal sairia da boca do Pai e tocaria o ouvido do Filho? Remove todas as coisas corporais: vê a simplicidade, se és simples; se não podes compreender o que seja Deus, ao menos compreende o que Deus não seja. Muito progredirás se não pensares de Deus outra coisa do que aquilo que Ele é. Em tua mente vê o que quero dizer: na qual vejo a memória e o pensamento. Tua memória mostra ao teu pensamento Cartago, e o que nela estava antes que para ela voltasses tua atenção, mostra ao pensamento convertido a ela. Eis que foi feita uma demonstração pela memória, foi feita uma visão no pensamento, e nenhuma palavra correu no meio, nenhum sinal do corpo foi dado; e, contudo, tudo o que tens na memória, recebeste de fora. O Pai, o que mostra ao Filho, não recebeu de fora: dentro tudo se faz; porque nenhuma das criaturas existiria externamente, se o Pai não a tivesse feito pelo Filho; e o Pai a fez mostrando, porque a fez pelo Filho que vê. Assim, pois, o Pai demonstrando gera a visão do Filho, assim como o Pai gera o Filho. Pois a demonstração gera a visão, não a visão a demonstração. Se pudéssemos ver isso de modo mais puro e perfeito, talvez descobríssemos que o Pai não é uma coisa e sua demonstração outra, nem o Filho uma coisa e sua visão outra.
Pois ver o Pai, para Ele, é ser Filho. Assim, portanto, o Pai demonstra ao Filho todas as coisas que faz, para que o Filho veja todas as coisas a partir do Pai. Pois vendo foi gerado, e d'Ele lhe vem o ver de quem lhe vem o ser, tanto o ser gerado quanto o permanecer.
Mas eis que Aquele que dissemos ser coeterno ao Pai, que vê o Pai e existe vendo-o, novamente nos menciona os tempos; pois segue-se: e obras maiores que estas lhe mostrará. Se mostrará, isto é, há de mostrar, ainda não mostrou; e então as mostrará ao Filho quando também as mostrar a estes; pois segue-se: para que vós vos admireis. E isto é difícil de ver, como o Pai eterno mostra temporalmente ao Filho coeterno, que sabe todas as coisas que estão junto ao Pai. Mas quais são estas obras maiores, é fácil entender pelo que se segue: pois assim como o Pai ressuscita os mortos e vivifica, assim também o Filho vivifica a quem quer. Pois são obras maiores ressuscitar os mortos do que curar os enfermos. Mas aquele que pouco antes falava como Deus, começou a falar como homem. Pois mostrará, como que temporalmente ao homem feito no tempo, obras maiores, isto é, a ressurreição dos corpos. Porque os corpos ressuscitarão pela dispensação humana; mas as almas ressuscitarão pela substância de Deus: pois pela participação de Deus a alma torna-se bem-aventurada, não pela participação de uma alma bem-aventurada. Pois assim como a alma, que é inferior a Deus, faz viver aquilo que lhe é inferior, isto é, o corpo, assim só pode fazer a alma viver bem-aventuradamente aquilo que é superior à própria alma, a saber, Deus. Por isso também se disse antes que o Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que Ele faz. Pois o Pai mostra ao Filho que as almas sejam ressuscitadas, porque pelo Pai e pelo Filho são ressuscitadas, e não podem viver a não ser que Deus seja sua vida. Ou o Pai nos mostrará, não a Ele; por isso acrescenta: para que vós vos admireis: no que explicou o que quis dizer: e obras maiores que estas lhe mostrará. Mas por que não disse: mostrará a vós, mas ao Filho? Porque nós também somos membros do Filho, e Ele de certo modo aprende em seus membros, assim como também sofre em nós: pois como disse: o que fizestes a um dos meus pequeninos, a mim o fizestes, assim, se for questionado por nós: quando serás discípulo, tu que ensinas todas as coisas? Responde: quando um dos meus pequeninos aprende, eu aprendo.
Porque havia dito que o Pai demonstraria ao Filho obras maiores do que estas, prossegue mostrando quais são estas obras maiores, e diz: pois assim como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica, também o Filho vivifica a quem quer. Certamente estas são obras maiores: de fato, é muito mais que um morto ressuscite do que um doente recupere a saúde. Não devemos entender isto como se alguns fossem ressuscitados pelo Pai e outros pelo Filho; mas os mesmos que o Pai ressuscita e vivifica, estes também o Filho ressuscita e vivifica. E para que ninguém diga: o Pai ressuscita os mortos por meio do Filho, aquele como poderoso, este como por poder alheio, como um ministro que faz algo; indicou o poder do Filho dizendo o Filho vivifica a quem quer. Reconheçam aqui não só o poder do Filho, mas também sua vontade. Pois o poder e a vontade do Pai e do Filho são os mesmos: o Pai não quer algo diferente do que quer o Filho; mas assim como eles têm uma só substância, assim também têm uma só vontade.
Mas quem são estes mortos, aos quais o Pai e o Filho vivificam? Ele quer nos insinuar a ressurreição dos mortos que todos esperamos, e não aquela que alguns tiveram, para que outros acreditassem; pois ressuscitou Lázaro, que haveria de morrer. Quando ele disse "assim como o Pai ressuscita os mortos e vivifica", para que não entendêssemos aquela ressurreição dos mortos que Ele fez como milagre, não para a vida eterna, prosseguiu dizendo "pois o Pai não julga a ninguém", etc.; para mostrar que falara daquela ressurreição dos mortos que acontecerá no juízo. Ou de outro modo, da ressurreição das almas foi dito "assim como o Pai ressuscita os mortos", etc. Quanto à ressurreição dos corpos, disse assim: "pois o Pai não julga a ninguém", etc. Porque a ressurreição das almas ocorre pela substância do Pai e do Filho, e por isso o Pai e o Filho operam juntos: mas a ressurreição dos corpos ocorre pela dispensação da humanidade não coeterna com o Pai. Mas veja como a palavra de Cristo conduz nossa mente para um lado e para outro, e não permite que permanecemos num só lugar carnal; para que exercitando-a a purifique, purificando-a a torne capaz, e tornando-a capaz a preencha. Pois pouco antes dizia que o Pai mostra ao Filho tudo o que faz. Eu via como que o Pai agindo, e o Filho esperando: agora novamente vejo o Filho agindo, e o Pai descansando.
Pois a expressão "todo o juízo deu ao Filho" não foi dita no mesmo sentido daquela expressão "assim deu ao Filho ter vida em si mesmo", para significar que gerou o Filho. Pois se assim fosse dito, não seria dito "o Pai não julga a ninguém"; porque segundo o fato de que o Pai gerou o Filho igual, julga com Ele. Segundo isso, portanto, foi dito que no juízo não aparecerá a forma de Deus, mas a forma do Filho do homem; não porque não julgará Aquele que deu todo o juízo ao Filho, uma vez que o Filho diz dele: "há quem busque e julgue"; mas foi dito "o Pai não julga a ninguém" como se dissesse: ninguém verá o Pai no juízo, mas todos verão o Filho, porque é Filho do homem, para que possa ser visto até pelos ímpios, quando também aqueles verão em quem transpassaram.
E antes, de fato, o Filho aparecia como um servo, e o Pai era honrado como Deus. Mas o Filho aparecerá igual ao Pai, para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Mas e se forem encontradas pessoas que honram o Pai, e não honram o Filho? Isso não pode acontecer; por isso segue: quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. Uma coisa é quando Deus te é apresentado porque é Deus, e outra quando Deus te é apresentado porque é Pai. Quando Deus te é apresentado como Criador, te é apresentado o Onipotente, um certo Espírito supremo, eterno, invisível, imutável; mas quando te é apresentado porque é Pai, nada mais te é apresentado senão o Filho; porque não pode ser chamado Pai se não tem Filho. Mas se por acaso honras o Pai como maior, e o Filho como menor, nisso tiras a honra do Pai, ao dar menor honra ao Filho. Pois o que te parece quando pensas isso, senão que o Pai ou não quis gerar um Filho igual a si, ou não pôde? Se não quis, teve inveja; se não pôde, falhou. Ou de outro modo: O que se diz para que todos honrem o Filho como honram o Pai, refere-se à ressurreição das almas, que o Filho opera assim como o Pai; mas por causa da ressurreição dos corpos, acrescenta: quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. Não disse "assim": pois o homem Cristo é honrado, mas não como o Pai Deus. Mas alguém diz: o Filho foi enviado, e o Pai é maior, porque o enviou. Afasta-te da carne: ouve envio, não separação. As coisas humanas enganam os homens, as coisas divinas os purificam; embora as próprias coisas humanas deem testemunho contra si mesmas; como se alguém quisesse pedir uma esposa, e não pudesse por si mesmo, envia um amigo maior que ele para pedi-la. E, no entanto, atenta para o quanto isso é diferente nas coisas humanas: acaso o homem vai com aquele que envia? Mas o Pai que enviou o Filho não se afastou do Filho, pois diz: não estou só, porque o Pai está comigo.
Não é, porém, pelo fato de ser nascido do Pai que se diz que o Filho é enviado; mas ou porque apareceu neste mundo, tendo-se feito carne o Verbo; pelo que diz: "Saí do Pai e vim a este mundo"; ou porque é percebido no tempo pela mente de alguém, como está escrito: "Envia-a para que esteja comigo e trabalhe comigo".
Uma vez que há vida eterna no ouvir e crer, muito mais no compreender. Mas o degrau da piedade é a fé, e o fruto da fé é o entendimento. E não disse: em mim; mas crê naquele que me enviou. Por que escuta a tua palavra e crê em outro? O que quis dizer senão que a sua palavra está em mim? E o que significa ouve a minha palavra, senão me ouve? Crê, porém, naquele que me enviou: porque quando crê nele, crê na sua palavra, crê em mim, porque eu sou a Palavra do Pai.
Mas quem é este? Haverá alguém melhor que o apóstolo Paulo, que diz: "importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo"? Às vezes juízo significa punição, outras vezes juízo significa discernimento. Portanto, segundo o juízo de discernimento, é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo; segundo o juízo de condenação, aqui se diz que não vem a juízo, isto é, não vem à condenação. Segue-se, mas passou da morte para a vida. Não passa agora, mas já passou da morte da infidelidade para a vida da fé, da morte da iniquidade para a vida da justiça. Ou de outro modo: para que não pensasses que, crendo, não morrerias segundo a carne, saibas que pagarás a morte que deves como castigo de Adão. Pois este, em quem todos então estávamos, recebeu o seguinte: de morte morrerás, e não podes escapar da sentença divina. Mas quando tiveres pago a morte do homem velho, receberás a vida do homem novo, e farás a passagem da morte para a vida. Para qual vida? Para a eterna: pois os mortos, ao ressuscitarem no fim do mundo, passarão para a vida eterna; pois esta vida nem sequer merece ser chamada de vida, porque não há vida verdadeira senão a que é eterna.
Vemos, pois, homens amantes da presente vida temporal e passageira, que por ela tanto se afanam que, quando chega o temor da morte, fazem tudo o que podem, não para evitá-la, mas para adiá-la. Se, portanto, com tanto trabalho e tanto cuidado se age para viver um pouco mais, como se deve agir para viver eternamente? E se são chamados prudentes aqueles que por todos os meios agem para adiar a morte e viver poucos dias mais, quão insensatos são aqueles que vivem de tal modo que perdem o dia eterno!
Alguém poderia dizer: é o Pai quem vivifica aquele que nEle crê. E quanto a ti? Não vivificas? Vede que também o Filho vivifica a quem quer; por isso diz: Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão.
Ou de outro modo: Para que não aconteça que, porque ele disse "passa da morte para a vida", entendamos isto como se referindo à ressurreição futura, querendo mostrar como passa aquele que crê, acrescenta: "Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora". Que hora? "E agora é, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão". Não diz: "porque vivem, ouvem"; mas ouvindo, revivem. Pois o que significa "ouvirão", senão obedecerão? Porque os que creem e agem conforme a verdadeira fé, vivem e não estão mortos; enquanto aqueles que ou não creem, ou creem vivendo mal e não têm caridade, devem ser considerados antes como mortos. E, no entanto, ainda transcorre esta hora, e até o fim do mundo esta mesma hora única transcorrerá, como São João diz: "É a última hora".
Quando os mortos, isto é, os infiéis, ouvirem a voz do Filho de Deus, isto é, o Evangelho, e os que ouvirem, isto é, os que obedecerem, viverão, isto é, serão justificados, e já não serão infiéis.
Mas alguém perguntará: tem o Filho vida para que vivam os crentes? Ouça-o dizendo: assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter vida em si mesmo. Seu viver, na verdade, está Nele, não vem de outra parte, não é alheio; não como se fosse participante da vida, que não é o que Ele mesmo é; mas tem vida em si mesmo, de modo que Ele mesmo seja sua própria vida. E tu? Tua alma estava morta. Ouve o Pai pelo Filho: levanta-te, para que nEle recebas a vida que não tens em ti mesmo, que tem vida em si mesmo; e assim se realiza a primeira ressurreição. Esta vida, que é o Pai e o Filho, pertence à alma. Pois o corpo não sente aquela vida da sabedoria, mas a mente racional.
Entende-se, porém, que o Pai não deu a vida ao Filho já existente sem vida; mas que o gerou de tal modo fora do tempo, que a vida que o Pai deu ao Filho ao gerá-lo é coeterna com a vida daquele que a deu.
Portanto, o que se diz deu ao Filho, equivale a dizer gerou o Filho; pois, gerando, deu. Assim como lhe deu o ser, assim lhe deu que a vida estivesse em si mesmo, para que não necessitasse de vida de outro lugar; mas Ele mesmo fosse a plenitude da vida, de onde outros, os que creem, vivessem enquanto vivessem. Qual é a diferença? Que um deu e o outro recebeu.
Ou de outra maneira. Enquanto era o Verbo no princípio junto a Deus, deu-lhe o poder de ter vida em si mesmo; mas porque o Verbo se fez carne da Virgem Maria, feito homem é filho do homem; e porque é filho do homem, recebeu o poder de fazer o juízo, que certamente será no fim do mundo, e ali haverá a ressurreição dos corpos mortos. Portanto, Deus ressuscita as almas por Cristo Filho de Deus, ressuscita os corpos pelo mesmo filho do homem; por isso acrescenta: porque é filho do homem; pois segundo é Filho de Deus, sempre teve.
Ao juízo virá a forma humana; aquela forma julgará que foi julgada: sentar-se-á como juiz aquele que esteve diante do juiz, condenará os verdadeiros réus aquele que falsamente foi feito réu. Pois era justo que os que hão de ser julgados vissem o juiz: e como serão julgados tanto os bons quanto os maus, restava que no juízo a forma de servo fosse mostrada tanto aos bons quanto aos maus, e a forma de Deus fosse reservada somente aos bons. Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.
Todos, porém, que instituíram alguma seita de religião, mesmo falsa, não puderam negar a ressurreição das almas; mas muitos negaram a ressurreição da carne; e se tu, Senhor Jesus, não a tivesses declarado, que oporíamos aos contradizentes? Para demonstrá-la, portanto, acrescenta: não vos admireis disso, isto é, que deu poder ao Filho do homem de fazer juízo, porque vem a hora.
Aqui não acrescenta "e agora é", porque esta hora será no fim do mundo. Não vos maravilheis, digo, porque disse: convém que os homens sejam julgados por um homem; mas quais homens? Não somente aqueles que encontrará vivos; por isso segue: porque vem a hora na qual todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz.
O que pode ser mais evidente? Os corpos estão nos túmulos, não as almas. Também anteriormente, quando disse vem a hora, e acrescentou e agora é, continuou dizendo quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus. Não disse: todos os mortos; pois queria que se entendesse por mortos os iníquos; mas nem todos os iníquos obedecem ao Evangelho; contudo, no fim, todos os que estão nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão. Não quis dizer: e viverão, como havia dito antes, onde queria que se entendesse a vida eterna e bem-aventurada, a qual nem todos os que saírem dos túmulos terão. Recebeste certamente o poder de julgar, porque és Filho do homem. Ressuscitarão os corpos; dize algo sobre o próprio juízo, e escutai isto: os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, isto é, para viver com os Anjos de Deus; os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo. Aqui juízo é posto no lugar de pena.
Estaríamos prestes a dizer a Cristo: tu julgarás, e o Pai não julgará; porventura não julgarás segundo o Pai? E por isso acrescentou: "não posso eu de mim mesmo fazer coisa alguma".
Quando se tratava da ressurreição das almas, Ele não dizia ouço, mas vejo. Agora, porém, diz ouço, como que recebendo uma ordem de seu Pai. Portanto, fala como homem, segundo o qual o Pai é maior.
Ou de outro modo. O Filho diz "como ouço, julgo", seja por sua sujeição humana, porque é Filho do homem, seja segundo aquela natureza imutável e simples que é do Filho de tal modo que, contudo, vem a Ele do Pai: natureza na qual ouvir não é uma coisa, ver outra, e ser outra. Donde d'Aquele de quem Ele tem o ser, tem também o ouvir e o ver. E, portanto, julga como ouve, porque assim como o Verbo é gerado para que o mesmo Verbo seja a verdade, assim julga segundo a verdade. Segue-se "e meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou". Ao dizer isto, quis dirigir nossa atenção para aquele homem que, buscando sua própria vontade, e não a d'Aquele por quem foi feito, não teve um juízo justo de si mesmo, mas sobre ele foi feito um juízo justo. Pois ele, fazendo sua própria vontade, não a de Deus, não acreditou que fosse morrer; mas este juízo seu não foi justo. Enfim, fez, e morreu, porque o juízo de Deus é justo, juízo que o Filho de Deus faz, não buscando sua própria vontade, sendo também Filho do homem; não porque não tenha nenhuma vontade ao julgar, mas porque sua vontade não é de tal modo própria que seja alheia à vontade do Pai.
Eu não busco a minha própria vontade, isto é, a do Filho do homem, que resiste a Deus; pois os homens fazem a sua própria vontade, não a de Deus, quando fazem o que querem e não o que Deus ordena. Quando, porém, fazem o que querem, mas de tal modo que sigam a vontade de Deus, não fazem a sua própria vontade. Ou diz o Filho não busco a minha vontade porque Cristo não é de si mesmo, mas de seu Pai.
O Filho único diz "Não busco a minha vontade": e os homens querem fazer a sua própria vontade. Façamos, pois, a vontade do Pai, de Cristo e do Espírito Santo: porque destes há uma só vontade, um só poder, uma só majestade.
Ele mesmo sabia que Seu testemunho sobre Si mesmo era verdadeiro; mas, por causa dos fracos e dos incrédulos, o Sol buscava lâmpadas: pois a vista fraca deles não podia suportar o brilho do sol; por isso, João foi procurado para que desse testemunho da verdade. Porventura os mártires não são testemunhas de Cristo, para que deem testemunho da verdade? Mas se observarmos com mais atenção, quando os mártires dão testemunho d'Ele, Ele próprio dá testemunho de Si mesmo; pois Ele mesmo habita nos mártires, para que deem testemunho da verdade.
Mas ouçamos também a São João: "Ouvistes que o Anticristo virá, e agora muitos se tornaram anticristos". Mas o que se teme no Anticristo, senão que ele honrará seu próprio nome e desprezará o nome do Senhor? O que mais faz aquele que diz: "eu justifico", ou "se não formos bons, vós perecereis"? Então minha vida dependerá de ti, e minha salvação estará ligada a ti? Acaso assim esqueci meu fundamento? Não era Cristo a pedra?
Mas também tudo o que Moisés escreveu, é sobre Cristo, isto é, pertence inteiramente a Cristo, seja anunciando-o por meio de figuras das coisas, ações ou palavras, seja recomendando sua graça e glória. Segue-se: "Mas se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?"
Não por ignorar o que deveria ser dito por ele; mas isso foi dito à maneira humana. Pois assim como o que é dito: aquele que perscruta os corações dos homens, não mostra a perscrutação da ignorância, mas do conhecimento mais certo; assim quando aqui diz que o tentou, nada mais diz senão que sabia com absoluta certeza. Mas uma coisa é dizer que o tornava mais provado, por meio de tal interrogação, conduzindo-o a um conhecimento certíssimo do sinal. Por isso também o Evangelista, para que não suspeites de alguma diminuição por fraqueza de expressão, acrescenta: pois ele sabia o que estava para fazer.
Mas se o Senhor, segundo a narrativa de São João, tendo visto as multidões, perguntou a Felipe, tentando-o, de onde se poderia comprar comida para eles; pode causar perplexidade como seja verdadeiro o que outros narraram, que primeiro os discípulos disseram ao Senhor que despedisse as multidões. Aos quais ele respondeu, segundo São Mateus: "Não têm necessidade de ir embora; dai-lhes vós de comer". Entende-se, portanto, que depois destas palavras o Senhor observou a multidão e disse a Felipe o que São João relembra, mas que os outros omitiram.
O que Felipe aqui responde em São João, isso Marcos recorda ter sido respondido pelos discípulos, querendo dar a entender que Felipe respondeu isto pela boca dos demais, embora também pudesse muito habitualmente usar o número plural em vez do singular.
O que, porém, André sugeriu em São João a respeito dos cinco pães e dois peixes, isto foi relatado pelos outros, usando o plural em vez do singular, como dito pela pessoa dos discípulos
Assim como Ele multiplica as searas a partir de poucos grãos, do mesmo modo multiplicou cinco pães em suas mãos: pois o poder estava nas mãos de Cristo, e aqueles cinco pães eram como sementes, não confiadas à terra, mas multiplicadas por Aquele que fez a terra.
Assim, Cristo é profeta e Senhor dos profetas, assim como é Anjo e Senhor dos Anjos. Pelo fato de que anunciou o que estava presente, era Anjo; pelo fato de que predisse o futuro, era profeta; pelo fato de que o Verbo se fez carne, era Senhor tanto dos Anjos quanto dos profetas: pois nenhum profeta existe sem o Verbo de Deus.
Deve-se considerar o que é dito: porque Deus não é uma substância tal que possa ser vista com os olhos, e seus milagres pelos quais governa todo o mundo e administra toda a criação perderam seu valor pela sua assiduidade; reservou para si certas coisas que faria em tempo oportuno, fora do curso e ordem habitual da natureza, para que, vendo não coisas maiores, mas incomuns, se admirassem aqueles para quem as coisas cotidianas perderam o valor. Pois é maior milagre o governo de todo o mundo do que saciar cinco mil homens com cinco pães; e, no entanto, ninguém se admira disso; os homens admiram aquilo, não porque é maior, mas porque é raro. Contudo, não é suficiente considerar apenas isto nos milagres de Cristo: pois como o Senhor está no monte, o Verbo de Deus está no alto; portanto, não jaz humildemente, nem deve ser passado por alto transitoriamente.
Os cinco pães de cevada significam a antiga lei: seja porque a lei foi dada ainda não aos espirituais, mas aos carnais, isto é, aos entregues aos cinco sentidos do corpo; pois as multidões eram de cinco mil homens; seja porque por Moisés a própria lei foi dada: pois Moisés escreveu cinco livros. E que os pães eram de cevada, bem significava ou a própria lei, que fora dada de tal modo que nela o alimento vital da alma estivesse oculto pelos sacramentos corporais: pois o miolo da cevada é coberto por uma casca muito resistente; ou o próprio povo ainda não despojado do desejo carnal, que como palha aderia ao seu coração.
Os dois peixes, que davam sabor suave ao pão, parecem significar aquelas duas pessoas pelas quais aquele povo era governado, a saber, a régia e a sacerdotal; as quais duas pessoas prefiguravam nosso Senhor, pois ele sustentava ambas.
O menino, porém, que tinha estas coisas, talvez fosse o povo de Israel, que as carregava com entendimento infantil, e não as comia. Pois aquelas coisas que carregava, quando fechadas eram um fardo, quando abertas serviam de alimento.
Ao partir os pães, eles se multiplicaram. Pois os cinco livros de Moisés, quando são expostos partindo-os, isto é, dissertando sobre eles, fizeram muitos livros.
O Senhor também, como que partindo e abrindo o que era duro e fechado na Lei, cumpriu através dos discípulos, quando lhes abriu as Escrituras depois da ressurreição.
Como, porém, a ignorância do povo era na lei, por isto a tentação do Senhor demonstrava a ignorância do discípulo. Sobre o feno, porém, reclinavam-se, porque carnalmente sabiam e nas coisas carnais repousavam; pois toda carne é feno. Aqueles, porém, são saciados com os pães do Senhor que cumprem com obras o que ouvem com os ouvidos.
E o que são os fragmentos, senão aquilo que o povo não podia comer? O que resta, portanto, senão que aqueles segredos mais profundos do entendimento, que a multidão não pode compreender, sejam confiados àqueles que são capazes e podem ensinar aos outros, como eram os apóstolos? Por isso também se encheram doze cestos.
Não contradiz, porém, o que São Mateus disse: "subiu ao monte sozinho para orar"; pois a causa de orar não é contrária à causa de fugir, visto que também nisto o Senhor nos ensina que esta é uma grande causa para orarmos, quando há causa para fugir.
Era, porém, rei aquele que temia ser feito rei; e não era tal rei que fosse feito pelos homens, mas tal que desse aos homens o reino: sempre, certamente, ele reina com o Pai segundo o que é Filho de Deus. Predisseram, porém, os profetas o seu reino também segundo o que o homem se fez Cristo, e fez seus fiéis cristãos, que são o seu reino; que ora se reúne, ora é comprado com o sangue de Cristo. Será, porém, algum dia manifesto o seu reino, quando for revelada a claridade dos seus santos, depois do juízo feito por ele. Os discípulos, porém, e as multidões que acreditavam nele, pensavam que ele tinha vindo assim para já reinar. Isto é querer arrebatá-lo e fazê-lo rei.
Assim, pois, disse o fim, e volta para expor como chegaram: porque atravessaram navegando pelo lago; e enquanto navegavam, recapitulando, expõe o que aconteceu, dizendo: e já se haviam feito trevas, e Jesus não tinha vindo a eles.
Não é contraditório que São Mateus tenha dito primeiro que Jesus ordenou aos discípulos que subissem no barco e fossem adiante dele para a outra margem, até que ele despedisse as multidões; e depois, tendo despedido as multidões, subiu sozinho ao monte para orar; enquanto São João primeiramente relata que ele fugiu sozinho para o monte, e depois diz "Quando anoiteceu, seus discípulos desceram ao mar, e tendo entrado no barco", e assim por diante. Quem não percebe que São João, recapitulando, disse depois o que os discípulos fizeram, o que Jesus já havia ordenado antes de fugir para o monte?
Misticamente, o Senhor alimentou as multidões e subiu ao monte: assim, de fato, foi predito sobre ele: "a congregação dos povos te cercará; e por causa desta, volta ao alto"; isto é, para que a congregação dos povos te cerque, volta ao alto. Mas por que foi dito que fugiu? De modo algum seria detido se não quisesse. Portanto, algo significou ao fugir: a saber, porque não se pôde compreender a sua altura; pois qualquer coisa que não compreenderes, dizes "isso me escapa". Portanto, fugiu para o monte, ele sozinho, porque ascendeu acima de todos os céus. E estando ele posto nas alturas, os discípulos na barca padeciam tempestade: aquela barca prefigurava a Igreja. As trevas já se haviam feito, e com razão, porque a luz não estava lá; pois Jesus ainda não viera até eles. Quanto mais se aproxima o fim do mundo, crescem os erros, cresce a iniquidade. Finalmente, a luz é a caridade, segundo aquilo: "quem odeia seu irmão, está nas trevas". Aquelas ondas que perturbam a nave, e as tempestades, e os ventos, são os clamores dos maldizentes: por isso a caridade se esfria, por isso as ondas aumentam, e a nave é perturbada. Nem, contudo, aqueles ventos, tempestades, ondas e trevas conseguiam fazer com que a nave não avançasse ou que, destroçada, afundasse: "pois quem perseverar até o fim, este será salvo". O número cinco pertence à Lei; cinco são os livros de Moisés: portanto, o número vinte e cinco indica a Lei, pois cinco vezes cinco fazem vinte e cinco. Mas a esta Lei, antes que o Evangelho viesse, faltava a perfeição, que se compreende no número seis. Que esses cinco, portanto, sejam multiplicados por seis, para que a Lei seja cumprida pelo Evangelho, para que seis vezes cinco sejam trinta. Àqueles, portanto, que cumprem a Lei, vem Jesus caminhando sobre as ondas; isto é, tendo sob seus pés todas as agitações do mundo, comprimindo todas as alturas do século; e, no entanto, são tantas as tribulações que até mesmo aqueles que creem em Jesus temem desfalecer.
Insinuou-se a eles tão grande milagre. Vieram, pois, outros barcos ao lugar onde haviam comido o pão, nos quais as multidões o seguiram; e isto é o que se acrescenta: vieram, porém, outros barcos, procurando-o.
Eis que aquele que fugira para o monte, perturbado, fala com as próprias multidões. Ora o detêm, ora o fazem rei. Mas ele, após o sacramento do milagre, profere um sermão, e sacia com palavras a mente daqueles cujo ventre saciara com pães.
Como se dissesse: vós me buscais por causa da carne, não por causa do espírito.
Ele mesmo se insinua como esse alimento, como se esclarece nas passagens seguintes; como se dissesse: vós me procurais por causa de outra coisa: procurai-me por mim mesmo.
Assim como havia dito à Samaritana: se soubesses quem é que te pede de beber, tu lhe pedirias a Ele, e Ele te daria água viva, assim também aqui acrescenta: a qual o Filho do homem vos dará.
Quantos há que buscam a Jesus apenas para que lhes faça bem segundo o tempo! Um tem um negócio e busca a intercessão dos clérigos; outro é oprimido por alguém mais poderoso e foge para a Igreja. Dificilmente se busca a Jesus por causa de Jesus.
Ele não diz: para que creiais nele, mas para que creiais em ele; pois nem sempre aquele que crê nele, crê em ele, pois também os demônios criam nele, e não criam em ele; e nós cremos em Paulo, mas não em Paulo. Crer em ele, portanto, é amá-lo crendo, adorá-lo crendo, ir a ele crendo, e ser incorporado a seus membros. Esta é a fé que Deus exige de nós, a que opera por meio do amor. A fé, contudo, distingue-se das obras, como diz o Apóstolo: o homem é justificado pela fé sem as obras da lei. E há obras que parecem boas sem a fé em Cristo, e não são boas, porque não se referem àquele fim pelo qual são boas; pois o fim da lei é Cristo para justificação de todo aquele que crê. Por isso não quis separar a fé da obra, mas disse que a própria fé é obra de Deus; é esta, com efeito, a fé que opera por meio do amor. E não disse: esta é a vossa obra; mas esta é a obra de Deus, para que creiais em ele, a fim de que quem se gloria, se glorie no Senhor. Crer em ele é, portanto, comer o alimento que permanece para a vida eterna. Para que preparas o dente e o estômago? Crê, e já comeste. Porque os convidava à fé, eles ainda buscavam sinais pelos quais pudessem crer; os judeus, de fato, buscam sinais; e isto é o que segue: disseram-lhe, pois: que sinal fazes tu, para que vejamos e creiamos em ti? Que obras realizas?
O Senhor Jesus se apresentava de tal modo que se colocava acima de Moisés: pois Moisés não ousou dizer de si mesmo que daria um alimento que não perece. Consideravam, portanto, quão grandes coisas Moisés havia feito; ainda queriam coisas maiores; como se dissessem: tu prometes um alimento que não perece, e não realizas obras como as que Moisés fez. Ele não nos deu pães de cevada, mas maná do céu.
Como se dissesse: Aquele maná significava isto, a saber, o alimento de que falei um pouco antes; e todos os meus sinais eram sinais. Vós amastes os meus sinais; o que é significado, desprezais. Pois Deus dá o pão que o maná significou, isto é, o próprio Senhor Jesus Cristo; donde se segue: Pois o pão verdadeiro é aquele que desceu do céu e dá vida ao mundo.
Assim como a Samaritana, a quem foi dito: "Quem beber desta água nunca mais terá sede", entendendo isto segundo o corpo, e querendo livrar-se da necessidade, disse: "Senhor, dá-me desta água", assim também estes dizem: "Dá-nos este pão" que restaura e não acaba.
Aquele que vem a mim, isto é, aquele que crê em mim; e quando disse não terá fome, isto deve ser entendido como: e não terá sede jamais; pois por ambas as expressões é significada aquela eterna saciedade, onde não há nenhuma carência.
Portanto, vós desejais o pão do céu: diante de vós o tendes, mas não o comeis; por isso segue: mas eu vos disse que vós me vistes e não crestes
Mas não é por isso que eu perdi o povo de Deus, porque vós me vistes e não crestes; donde segue: Todo aquele que o Pai me dá, virá a mim, e aquele que vem a mim, não o lançarei fora.
Aquele interior do qual não se sai para fora é um grande santuário e um doce refúgio secreto, sem tédio, sem a amargura dos maus pensamentos, sem a interposição das tentações e das dores; do qual é dito: "Entra no gozo do teu Senhor"(São Mateus 25,21).
Ou de outra maneira. Por que não lança fora, explica dizendo: "Porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou". Pois por isso a alma se afastou de Deus, porque era soberba. Pela soberba fomos expulsos, pela humildade regressamos. Um médico quando analisa uma enfermidade, se cura o que foi causado por alguma razão, mas não cura a própria causa, parece curar temporariamente, mas permanecendo a causa, a doença se repete. Para que, portanto, a causa de todas as enfermidades fosse curada, isto é, a soberbia, o Filho de Deus desceu e se fez humilde. Por que te orgulhas, ó homem? O Filho de Deus por ti se fez humilde. Talvez te envergonhasse imitar um homem humilde; ao menos imita um Deus humilde: esta é, de fato, a recomendação da humildade. "Não vim fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou": a soberba certamente faz a sua própria vontade, a humildade faz a vontade de Deus.
Por isso, àquele que vier a mim, não o lançarei fora, porque não vim fazer a minha vontade. Vim humilde para ensinar a humildade: aquele que vem a mim incorpora-se a mim e torna-se humilde, porque não fará a sua vontade, mas a de Deus; e, portanto, não é lançado fora, porque quando era soberbo, foi expulso para fora, pois não pode vir a mim senão o humilde: não é expulso para fora senão pela soberba. Quem conserva a humildade, não se afasta da verdade. E por que ele não lança fora aquele que vem a ele, porque não veio fazer a sua vontade, mostra quando acrescenta: "Esta é, pois, a vontade daquele que me enviou, o Pai, que eu não perca nada do que ele me deu". A ele é dado aquele que conserva a humildade. Não é a vontade do Pai que pereça um só dos pequeninos. Dos soberbos pode perecer, dos pequeninos nada perece: porque "se não vos tornardes como este pequenino, não entrareis no reino dos céus"(São Mateus 18,3).
Portanto, aqueles que na providentíssima disposição de Deus são prescienciados, predestinados, chamados, justificados, glorificados, ainda que não tenham sido regenerados, e mesmo que ainda não tenham nascido, já são filhos de Deus e não podem de modo algum perecer: pois estes verdadeiramente vêm a Cristo. Por Ele, portanto, é dada também a perseverança no bem até o fim: porque esta não é dada senão àqueles que não perecerão, uma vez que os que não perseveram perecerão.
Vede, pois, de que modo também aqui ele designa aquela dupla ressurreição. Aquele que vem a mim, agora ressuscitará, feito humilde em meus membros. Segue, porém: mas eu o ressuscitarei no último dia. Para explicar o que havia dito: tudo o que o Pai me deu, e novamente o que havia dito: não perderei nada dele, acrescenta: pois esta é a vontade de meu Pai que me enviou, que todo aquele que vê o Filho e crê nele, tenha a vida eterna. Anteriormente disse: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou; agora, porém: quem vê o Filho e crê nele. Não disse: e crê no Pai; pois isto é crer no Filho, o mesmo que crer no Pai; porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter vida em si mesmo; para que assim todo aquele que vê o Filho e crê nele, tenha a vida eterna, crendo e passando à vida, como naquela primeira ressurreição; e porque esta não é a única, acrescenta sobre a segunda: e eu o ressuscitarei no último dia.
Mas eles estavam longe do pão do céu, e não sabiam ter fome dele: pois este pão requer a fome do homem interior.
Pois Ele assumiu a carne dos homens, mas não à maneira dos homens; porque tendo Pai no céu, escolheu Mãe na terra, e ali nasceu sem mãe, e aqui sem pai. O que, portanto, respondeu aos que murmuravam, segue-se: "Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: não murmureis entre vós"; como se dissesse: sei por que não tendes fome assim, de modo que não compreendeis nem buscais este pão. "Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que Me enviou não o trouxer". Grande é o louvor da graça: ninguém vem a não ser que seja trazido. A quem traz e a quem não traz, por que traz a este e não àquele, não queiras julgar, se não queres errar. Aceita de uma vez, e entende; se não és trazido, ora para que sejas trazido.
Mas se somos trazidos a Cristo contra nossa vontade, cremos contra nossa vontade; então é empregada violência, não é despertada a vontade. Mas alguém pode entrar na Igreja sendo constrangido; crer, porém, não pode senão querendo; pois é com o coração que se crê para a justiça. Se, portanto, vem contrariado aquele que é trazido, não crê; se não crê, não vem: pois não corremos para Cristo andando, mas crendo; nem nos aproximamos pelo movimento do corpo, mas pela vontade do coração: logo, és trazido pela vontade. E o que é ser trazido pela vontade? Deleita-te no Senhor, e Ele te concederá os pedidos do teu coração. Há certo deleite do coração, para o qual é doce aquele pão celestial. Além disso, se ao poeta foi lícito dizer: a cada um o seu prazer o arrasta, com quanto mais força devemos dizer que o homem é trazido a Cristo, ele que se deleita na verdade, na bem-aventurança, na justiça, na vida eterna, o que tudo é Cristo? Porventura os sentidos do corpo têm seus prazeres, e a alma é privada de seus deleites? Dá-me alguém que ame, que deseje, que ferva, que suspire pela fonte da pátria eterna; e saberá o que digo. Mas por que quis dizer a quem o Pai trouxer? Se devemos ser trazidos, sejamos trazidos por Aquele a quem diz certa pessoa que o ama: arrasta-me após ti. Mas vejamos o que quis dar a entender. O Pai traz ao Filho aqueles que por isso creem no Filho, porque O consideram tendo a Deus como Pai. Pois Deus Pai gerou o Filho igual a Si: e aquele que pensa, e em sua fé sente, e rumina que é igual ao Pai Aquele em quem crê, a este o Pai traz ao Filho. Ário creu que era uma criatura: o Pai não o trouxe. Fotino diz: Cristo é apenas homem. Quem assim crê, o Pai não o traz. Trouxe a Pedro, que disse: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo; por isso lhe foi dito: não te revelou isto a carne e o sangue, mas meu Pai que está nos céus. Esta revelação é a própria atração. Se, pois, as coisas que se revelam entre as delícias terrenas aos que as amam, atraem, não atrairá Cristo revelado pelo Pai? O que, com efeito, a alma deseja mais fortemente que a verdade? Mas aqui os homens têm fome, lá serão saciados; por isso acrescentou e eu o ressuscitarei no último dia: como se dissesse: será saciado daquilo pelo qual ele aqui tem sede, na ressurreição dos mortos, porque eu o ressuscitarei.
Ou o Pai atrai ao Filho por meio das obras que fazia por Ele.
Ou de outro modo. Assim como falamos corretamente quando, sobre algum mestre de letras que é o único na cidade, dizemos: este aqui ensina todas as letras; não porque todos aprendam, mas porque ninguém aprende senão dele, qualquer que seja aquele que ali aprende letras; assim dizemos corretamente: Deus ensina a todos a vir a Cristo, não porque todos venham, mas porque ninguém vem de outro modo.
Ou de outro modo. Todos os homens daquele reino serão ensinados por Deus, não ouvirão dos homens: e se aqui ouvem dos homens, contudo o que compreendem é dado interiormente. Lanço o ruído das palavras em vossos ouvidos, mas se Aquele que está no interior não revelar, de que serve? Como, pois, ó judeus, podeis conhecer-me, vós a quem o Pai não ensinou?
Todos os que são ensinados por Deus vêm ao Filho, porque ouviram e aprenderam do Pai por meio do Filho; donde segue: Todo aquele que ouviu do Pai e aprendeu, vem a mim. Se, pois, todo aquele que ouviu do Pai e aprendeu, vem, certamente todo aquele que não vem, não ouviu do Pai nem aprendeu. Esta escola, na qual o Pai é ouvido e ensina para que se venha ao Filho, está muito distante dos sentidos da carne; e não opera isto com o ouvido da carne, mas do coração, onde está o próprio Filho; porque Ele é o Verbo pelo qual o Pai assim ensina: e junto está também o Espírito Santo; pois aprendemos que as obras da Trindade são inseparáveis. Mas isso é atribuído especialmente ao Pai, porque dele procedem o Filho e o Espírito Santo. Assim, a graça que é concedida ocultamente aos corações humanos pela divina liberalidade, não é rejeitada por nenhum coração endurecido; porque, de fato, é concedida para que a dureza do coração seja primeiramente removida. Por que, então, Ele não ensina a todos para que venham a Cristo, senão porque aqueles a quem ensina, ensina por misericórdia; e aqueles a quem não ensina, não ensina por juízo? Se, no entanto, dissermos que aqueles a quem Ele não ensina desejam aprender, nos será respondido: onde está o que lhe é dito: Deus, convertendo-nos, Tu nos vivificarás? Ou se Deus não faz os que querem a partir dos que não querem, por que a Igreja reza, segundo o preceito do Senhor, por seus perseguidores? De fato, ninguém pode dizer: "cri, para ser assim chamado"; porque a misericórdia de Deus o previne, para que seja chamado a crer.
Eis, portanto, como o Pai atrai ensinando a verdade, não impondo necessidade; pois atrair é próprio de Deus. "Todo aquele que ouviu do Pai, e aprendeu, vem a mim". Pois o quê? Cristo nada ensinou? Como assim? Os homens não viram o Pai como mestre, mas viram o Filho? O Filho, portanto, falava, mas o Pai ensinava. Pois se eu, sendo homem, ensino àquele que ouviu minha palavra, também o Pai ensina àquele que ouviu a Sua palavra. Ele mesmo, porém, explica isto e nos mostra o que havia dito, imediatamente acrescentando: "Não que alguém tenha visto o Pai, senão aquele que é de Deus, este viu o Pai"; como se dissesse: para que não penseis, quando vos digo "todo aquele que ouviu do Pai, e aprendeu", e digais entre vós: "nunca vimos o Pai; como poderemos aprender dele?" Ouvi-me a mim mesmo. Eu conheço o Pai, dele procedo, como a palavra procede daquele de quem é a palavra; não a que soa e passa, mas a que permanece com quem a pronuncia e atrai quem a ouve.
O Senhor quis revelar o que Ele era; por isso diz: Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim, tem a vida eterna; como se dissesse: quem crê em mim, tem a mim. Mas o que é ter-me? É ter a vida eterna: pois a vida eterna é o Verbo que no princípio estava junto de Deus, e a vida era a luz dos homens. A vida assumiu a morte, para que a vida matasse a morte.
Mas porque eles se orgulhavam do maná, acrescenta: vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Por isso são vossos pais, porque sois semelhantes a eles: pais murmuradores de filhos murmuradores; pois se diz que aquele povo em nada ofendeu mais a Deus do que murmurando contra Ele. E por isso morreram, porque acreditavam naquilo que viam; e no que não viam não acreditavam, nem entendiam.
Este pão foi simbolizado pelo maná; este pão foi simbolizado pelo altar de Deus. Estes são sacramentos, e aqueles o foram: nos sinais são diversos; na coisa que é significada, são iguais. Ouvi o Apóstolo: "todos comeram o mesmo alimento espiritual".
Mas, porventura, nós não morremos, nós que comemos o pão que desce do céu? Aqueles morreram assim como nós também havemos de morrer, no que diz respeito à morte visível e carnal deste corpo; mas no que diz respeito à morte espiritual, pela qual os pais deles morreram, Moisés comeu o maná, assim como muitos que agradaram ao Senhor, e não morreram; porque entenderam espiritualmente o alimento visível, espiritualmente o saborearam, para que espiritualmente fossem saciados. Pois também nós hoje recebemos o alimento visível; mas uma coisa é o sacramento, outra é a virtude do sacramento: porque muitos recebem do altar e, ao receber, morrem: por isso diz o apóstolo: "come e bebe para si o juízo". Portanto, comer espiritualmente o pão celestial é trazer a inocência ao altar; os pecados, ainda que sejam cotidianos, não sejam mortais; antes de vos aproximardes do altar, atentai ao que dizeis: "perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores". Se perdoas, ser-te-á perdoado; aproxima-te com segurança: é pão, não veneno. Se, pois, alguém comer deste pão, não morrerá; mas no que diz respeito à virtude do sacramento, não ao que diz respeito ao sacramento visível; quem come interiormente, não exteriormente.
Do céu desceu também o maná; mas o maná era sombra, este é a verdade.
Em seguida, o Senhor determina de que modo se diz ser o pão, não somente segundo a divindade que alimenta todas as coisas, mas também segundo a natureza humana que foi assumida pelo Verbo de Deus, quando acrescenta: "e o pão que eu darei é a minha carne pela vida do mundo".
Mas quando a carne compreenderia o que Ele disse, que o pão é carne? Os fiéis, porém, conhecem o corpo de Cristo, se não negligenciarem ser o corpo de Cristo: tornem-se corpo de Cristo, se quiserem viver do espírito de Cristo: pois do espírito de Cristo não vive senão o corpo de Cristo. Porventura o meu corpo vive do teu espírito? Este pão o Apóstolo expõe, dizendo: sendo muitos, somos um só corpo. Ó sacramento de piedade, ó sinal de unidade, ó vínculo de caridade! Quem quiser viver, aproxime-se, creia, incorpore-se para ser vivificado.
Como os judeus não entendiam qual era o pão da concórdia, disputavam entre si; por isso diz: Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este homem dar-nos a sua carne para comer? Porém aqueles que comem deste pão não disputam entre si, porque por meio dele Deus faz habitar unânimes em sua casa.
Como se dissesse: Certamente ignorais de que modo se come, e qual seja o modo de comer aquele pão; porém, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós.
E para que não entendessem que se referia a esta vida e disputassem sobre isto, acrescentou logo em seguida: tem a vida eterna. Portanto, não a possui quem não come desta carne, nem bebe deste sangue. Pois os homens podem ter a vida temporal sem Ele; mas a vida eterna de modo algum podem ter. Esta não é como o alimento que tomamos para sustentar esta vida temporal: pois quem não o tomar, não viverá; contudo, nem sempre quem o tomar viverá. Pode acontecer que muitos que o tomaram morram por doença, velhice ou algum outro acidente. Mas neste alimento e bebida, isto é, do corpo e sangue do Senhor, não é assim; pois quem não o toma, não tem a vida; e quem o toma, tem a vida, e esta certamente eterna.
Existem, porém, alguns que prometem libertação do suplício eterno aos homens purificados pelo Batismo de Cristo, que são participantes do seu corpo, não importa como tenham vivido, por causa daquilo que é dito aqui. Mas contradiz-lhes o apóstolo, dizendo: manifestas são as obras da carne, que são a fornicação, a imundícia, a impudicícia, a luxúria, a idolatria, os feitiços, as inimizades, as contendas, as emulações, as iras, as rixas, as dissensões, as seitas, as invejas, os homicídios, as embriaguezes, as glutonarias, e coisas semelhantes a estas; das quais vos previno, como já vos preveni, que os que praticam tais coisas não possuirão o reino de Deus. Por isso, justamente se pergunta como deve ser entendido o que aqui se diz. Pois aquele que está na unidade do seu corpo, isto é, na união dos membros cristãos, cujo corpo é sacramento que os fiéis, ao comungarem, costumam receber do altar, esse pode verdadeiramente ser dito que come o corpo e bebe o sangue de Cristo; e por isso os hereges e cismáticos, separados da unidade do corpo, podem receber o mesmo sacramento, mas não para seu proveito, antes para seu dano, pelo qual serão julgados mais gravemente ou serão libertados mais tardiamente. Nem mesmo aqueles que vivem em costumes perversos e condenáveis devem sentir-se seguros, os quais, pela iniquidade de vida, abandonam a própria justiça da vida, que é Cristo, seja fornicando, seja fazendo algo semelhante: pois estes não devem ser considerados como comendo o corpo de Cristo, já que nem sequer devem ser contados entre os membros de Cristo. Pois, para não mencionar outras coisas, não podem ser ao mesmo tempo membros de Cristo e membros de uma meretriz.
Por esta comida e bebida, pois, Ele quer que se entenda a sociedade de Seu corpo e de Seus membros, que é a Igreja, nos predestinados e chamados e justificados e glorificados santos e fiéis Seus. O sacramento disto, isto é, da unidade do corpo e do sangue de Cristo, é preparado em alguns lugares diariamente, em outros em certos intervalos de dias na mesa do Senhor, e é tomado da mesa do Senhor: para alguns para a vida, para outros para a ruína. Mas a coisa em si, da qual é sacramento, é para a vida de todo homem, para a ruína de ninguém, quem quer que seja participante dela. E para que não pensassem que nesta comida e bebida é prometida a vida eterna de tal modo que aqueles que a tomassem já não morreriam nem mesmo no corpo, a esse pensamento se opondo, acrescenta dizendo: "e eu o ressuscitarei no último dia"; para que, evidentemente, tenham no entretempo a vida eterna segundo o espírito no repouso, que acolhe os espíritos dos santos; quanto ao que concerne ao corpo, nem mesmo o corpo seja privado da vida eterna, mas na ressurreição dos mortos no último dia a tenha.
Ou de outra forma. Como os homens desejam, mediante o alimento e a bebida, não ter fome nem sede, isto verazmente não proporciona senão este alimento e esta bebida, que faz imortais e incorruptíveis aqueles pelos quais é consumido; isto é, a própria sociedade dos santos, onde haverá paz e unidade plena e perfeita. Por isso, nosso Senhor confiou o seu corpo e sangue naquelas coisas que são reduzidas a uma unidade a partir de muitas: pois uma, a saber, o pão, é constituída por muitos grãos em um só; a outra, a saber, o vinho, flui de muitas uvas. Depois, ele já expõe o que é comer o seu corpo e beber o seu sangue, dizendo: "quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele". Isto é, portanto, comer aquele alimento e beber aquela bebida: permanecer em Cristo e ter Cristo em si. E por isso, quem não permanece em Cristo, e em quem Cristo não permanece, sem dúvida nem come a sua carne, nem bebe o seu sangue; mas, antes, come e bebe o sacramento de tão grande realidade para seu próprio julgamento.
Muitos, de fato, que ou com coração fingido comem aquela carne e bebem aquele sangue, ou depois de comerem tornam-se apóstatas, porventura permanecem em Cristo, e Cristo neles? Mas há, certamente, um certo modo de comer aquela carne e beber aquele sangue, pelo qual modo quem comer e beber, permanece em Cristo, e Cristo nele.
Isto é, aqueles que não somente pelo sacramento, mas verdadeiramente comem o corpo de Cristo e bebem o sangue
Porém, Ele não diz: assim como eu como o Pai, e vivo por causa do Pai, também aquele que me come viverá por minha causa. Pois o Filho não se torna melhor pela participação do Pai, como nós nos tornamos melhores pela participação do Filho, por meio da unidade com seu corpo e sangue, o que aquela manducação e bebida significam. Se, portanto, foi dito vivo por causa do Pai porque Ele procede dEle, isto foi dito sem detrimento da igualdade. No entanto, Ele não significou a mesma igualdade entre nós e Ele, mas mostrou a graça do mediador. Se, contudo, entendemos vivo por causa do Pai conforme o que diz em outro lugar: o Pai é maior do que eu, Ele disse estas palavras, assim como o Pai me enviou, como se dissesse: para que eu viva por causa do Pai, isto é, para que eu refira minha vida a Ele como ao maior, fê-lo meu esvaziamento, no qual Ele me enviou; mas para que alguém viva por minha causa, fá-lo a participação pela qual me come.
Para que vivamos comendo aquele pão, nós que não podemos obter de nós mesmos a vida eterna, ele desceu do céu; por isso segue: Este é o pão que desceu do céu.
O que ele quer que se entenda por aqueles que morreram é que não vivem para a eternidade. Pois temporalmente, certamente também morrerão aqueles que comem Cristo; mas vivem eternamente, porque Cristo é a vida eterna.
Enquanto Jesus falava tais coisas, não acreditaram que Ele dissesse algo grandioso, ou que aquelas palavras ocultassem alguma graça; mas as entenderam como quiseram, e à maneira dos homens, pensando que Jesus poderia ou se dispunha a distribuir a carne, com a qual o verbo estava revestido, como se fosse dividida em pedaços para os que nele creem; por isso se diz: muitos, portanto, ao ouvirem, não dentre seus inimigos, mas dentre seus discípulos, disseram: duro é este discurso.
E se os discípulos consideraram duro este discurso, que diriam os inimigos? E, contudo, era conveniente que fosse dito de modo que não fosse compreendido pelos homens; o mistério de Deus deve tornar os homens atentos, não adversários.
E assim eles disseram isto entre si para que não fossem ouvidos por Ele; mas Ele, que conhecia o que havia neles mesmos, ouvia-os dentro de si mesmo; por isso segue: sabendo, pois, Jesus em si mesmo que seus discípulos murmuravam sobre isto, disse-lhes: Isto vos escandaliza?
Ou de outro modo. Então resolve aquilo que os perturbara: pois julgavam que ele fosse distribuir seu corpo; ele, porém, disse que subiria ao céu, certamente íntegro. Quando virdes, diz, o Filho do homem subir onde estava antes. Certamente, então vereis que não distribui seu corpo do modo que imaginais, e que sua graça não é consumida pelas mordidas. O Filho do homem, Cristo, nascido da Virgem Maria, começou a estar aqui na terra, onde assumiu a carne da terra: o que significa, pois, quando diz quando virdes o Filho do homem subir onde estava antes, senão para que compreendamos que Cristo Deus e homem é uma só pessoa, e não duas? Para que nossa fé não seja quaternidade, mas Trindade. Assim, portanto, o Filho do homem estava no céu, do mesmo modo que o Filho de Deus estava na terra: o Filho de Deus na terra na carne assumida; o Filho do homem no céu na unidade da pessoa.
Ou de outro modo: A carne não aproveita nada. Mas como eles entenderam? Compreenderam a carne como se fosse a que é dilacerada num cadáver, ou vendida no mercado, não como a que é vivificada pelo espírito. Junte-se o espírito à carne, e esta aproveita muito; pois se a carne não aproveitasse, o Verbo não se faria carne para habitar entre nós; mas o espírito, por meio da carne, operou algo em nós para a nossa salvação.
Pois a carne não purifica por si mesma, mas pelo Verbo pelo qual foi assumida; o qual, sendo o princípio de todas as coisas, tendo assumido alma e carne, purifica a alma e a carne daqueles que creem. O espírito, portanto, é que vivifica; a carne não aproveita nada; como eles entenderam a carne. Não é assim que eu dou a minha carne para comer. Nem devemos saborear a carne segundo a carne; por isso diz: "As palavras que eu vos falei são espírito e vida".
Se, portanto, compreendeste espiritualmente, são espírito e vida para ti; se compreendeste carnalmente, também assim são espírito e vida, mas não são para ti. Dissemos, pois, que o Senhor recomendou na manducação da sua carne e na bebida do seu sangue, que permaneçamos nele, e ele em nós. Mas o que faz isto senão a caridade? Pois a caridade de Deus foi difundida em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado; portanto, é o espírito que vivifica.
Ele não disse: há alguns entre vós que não entendem; mas disse a causa de por que não entendem. Pois o profeta disse: "Se não crerdes, não entendereis"; pois quem resiste, como pode ser vivificado? O adversário, ainda que não desvie o rosto, fecha a mente ao raio de luz que deveria penetrá-lo. Creiam e abram, e serão iluminados.
Mas depois que o Senhor distinguiu os crentes dos não crentes, manifestou a causa pela qual não creem; donde segue: e dizia: por isso vos disse que ninguém pode vir a mim se não lhe for dado por meu Pai.
Portanto, também o crer é dado a nós: porque crer não é coisa de pouca importância. Se, pois, é algo grande, alegra-te porque creste, mas não te exaltes: pois que tens tu que não tenhas recebido?(1 Coríntios 4,7) E que este dom seja dado a alguns e a outros não, de modo algum duvida quem não quer opor-se às Sagradas Escrituras, que o manifestam clarissimamente. E por que não seja dado a todos, não deve inquietar o fiel, que crê que todos, a partir de um só, foram conduzidos à justíssima condenação; de modo que não haveria justa repreensão a Deus, ainda que ninguém fosse dali libertado; donde consta que é grande graça que muitos sejam libertados. Mas por que liberta a este e não àquele, insondáveis são os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos(Romanos 11,33). Segue: Desde então, muitos de seus discípulos voltaram atrás, e já não andavam com ele.
Eis que, separados do corpo, perderam a vida: porque nem estavam no corpo: foram contados entre os que não criam. Voltaram atrás não poucos, mas muitos, depois de Satanás, não depois de Cristo, como diz o Apóstolo acerca de algumas mulheres: "Algumas já se desviaram, indo após Satanás"(1 Timóteo 5,15). Mas o Senhor não repeliu Pedro para ir atrás de Satanás, mas fez com que fosse após Ele.
E talvez isto também tenha ocorrido para nossa consolação: pois acontece algumas vezes que um homem diga a verdade, e aquilo que diz não seja compreendido, e aqueles que ouvem se escandalizem e se afastem. Então o homem se arrepende de ter dito o que é verdade; pois diz consigo mesmo: "Não deveria ter falado assim"; e isto aconteceu também ao Senhor. Ele falou, e perdeu muitos; mas não se perturba, porque desde o princípio conhecia quais não eram crentes. Nós, se isto nos acontece, ficamos perturbados: encontremos consolo no Senhor, e contudo falemos com cautela as palavras.
Como se dissesse: Tu nos repeles de Ti; dá-nos outro a quem iremos, se Te deixarmos.
Pois nós acreditamos para conhecer: se quiséssemos primeiro conhecer e depois crer, nem conheceríamos, nem seríamos capazes de crer. Isto cremos e conhecemos, que tu és o Cristo, o Filho de Deus; isto é, que tu és a própria vida eterna, e não dás na tua carne e sangue senão o que tu és.
Este foi escolhido para que, sem sua vontade e conhecimento, se realizasse um grande bem. Pois assim como os iníquos usam mal as boas obras de Deus, assim, ao contrário, Deus usa bem as más obras dos homens. O que há de pior que Judas? Mas o Senhor utilizou bem o seu mal: permitiu ser entregue, para que nos redimisse. Pode-se entender também o que diz "Escolhi doze": porque foi consagrado o número doze daqueles que, pelos quatro cantos do mundo, haveriam de anunciar a Trindade. E não porque um deles pereceu, tal número perdeu sua honra: pois no lugar do que pereceu, outro foi designado.
Era de se esperar que algum fiel de Cristo se escondesse para não ser encontrado pelos perseguidores; e para que não lhe fosse imputado como crime o ter-se ocultado, precedeu na Cabeça aquilo que seria confirmado no membro; por isso diz: Depois disto, Jesus andava pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo.
Assim, pois, o Senhor disse isto, como se não pudesse andar entre os judeus, e não ser morto pelos judeus; pois quando Ele quis demonstrou este poder; mas dava exemplo à nossa fraqueza: Ele não havia perdido o poder, mas consolava nossa fragilidade.
O que seja Cenopégia, os que leram as Escrituras sabem. Faziam tabernáculos no dia festivo à semelhança dos tabernáculos nos quais habitaram quando, conduzidos para fora do Egito, peregrinaram no deserto. Celebravam por isso o dia festivo, recordando os benefícios do Senhor, eles que, no entanto, haveriam de matar o Senhor. Era chamado entre os judeus de dia festivo, embora não fosse um único, mas vários.
Quando ouvis "irmãos" do Senhor, considerai o parentesco com Maria, não uma outra descendência por ela gerada. Assim como no sepulcro onde foi colocado o corpo do Senhor, nem antes nem depois ali jazeu morto algum, também o ventre de Maria nem antes nem depois concebeu algo mortal. De fato, as obras do Senhor não estavam ocultas dos discípulos, mas estavam ocultas daqueles; e por isso diziam: "para que teus discípulos vejam as obras que fazes". Falavam, porém, segundo a prudência da carne, ao Verbo que se fez carne; e por isso acrescentam: "porque ninguém faz algo em oculto e procura ele mesmo estar em público". "Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo"; como se dissessem: fazes milagres: mostra-te aos homens, para que possas ser louvado pelos homens; pois os que parecem adverti-lo, buscam a sua própria glória; e porque buscavam a glória humana, não criam nele; donde se segue: "pois nem seus irmãos criam nele". Puderam ter Cristo como consanguíneo; mas por causa dessa mesma proximidade desprezaram crer nele.
Eles lhe davam conselho para alcançar a glória, como se falassem mundanamente e movidos por sentimentos terrenos, aconselhando-o a não ser desprezível e viver escondido. Mas o Senhor quis preparar o caminho para a própria exaltação através da humildade; diz então: Meu tempo, isto é, o da minha glória, quando virei na altura para julgar, ainda não chegou; mas vosso tempo, isto é, o da glória mundana, está sempre preparado. E como nós somos o corpo do Senhor, quando os amantes deste século nos insultarem, digamos a eles: vosso tempo está pronto, o nosso tempo ainda não chegou: a pátria é elevada, o caminho é humilde. Quem recusa o caminho, para que busca a pátria?
Ou de outro modo. "Vós subi a esta festa", onde buscais a glória humana, onde quereis estender os gozos carnais, não pensando nas coisas celestiais. Segue-se: "eu porém não subirei a esta festa"
Ou "meu tempo", isto é, o tempo da minha glória, ainda não chegou: esse será meu dia festivo, não dias que passam e transcorrem, como estes, mas permanecendo para toda a eternidade. Será essa mesma festividade e alegria sem fim, eternidade sem trabalho, serenidade sem nuvem.
Subiu, porém, não para gloriar-se temporalmente, mas para ensinar algo de maneira salutar, e para advertir sobre a festa eterna.
Ou que, ao subir quase secretamente, quis significar algo: pois todas as coisas que foram ditas ao antigo povo de Israel foram sombras de coisas futuras, e a Festa dos Tabernáculos era sombra de coisas futuras. Pois todas as coisas que aconteciam como figura, manifestam-se em nós. Ele subiu, portanto, em segredo; pois a figura era o próprio estar em oculto. No próprio dia festivo Cristo se ocultava, porque esse mesmo dia festivo significava que os membros de Cristo haveriam de peregrinar. De fato, aquele está em tabernáculos que entende ser peregrino neste mundo; a Scenopegia, porém, era a celebração dos tabernáculos. Segue: "Os judeus, pois, o procuravam no dia de festa, e diziam: Onde está ele?"
O murmúrio era sobre a contenda, que ele expõe convenientemente dizendo: alguns, pois, diziam que ele é bom; outros, porém, diziam: não, mas seduz as multidões. Qualquer um que se destacar em alguma graça, alguns dizem que ele é bom; outros: não, mas seduz as multidões. E o que foi dito a respeito dele serve de consolação para qualquer cristão sobre quem isso for dito. E certamente, se seduzir é enganar, nem Cristo é sedutor, nem qualquer cristão deve ser sedutor. Mas se seduzir é conduzir alguém de um lugar para outro pela persuasão, deve-se perguntar de onde e para onde. Se do bem para o mal, é um mau sedutor; se do mal para o bem, é bom; e oxalá que todos sejamos chamados e sejamos realmente tais sedutores.
Ou seja, daqueles que diziam "ele é bom", não daqueles que diziam "ele seduz as turbas"; pois estas palavras soavam mais claramente, enquanto "ele é bom" era sussurrado mais discretamente.
Pelo que se pode entender, eles celebravam aquela festividade por vários dias; e por isso diz "já no meio da festa"; isto é, quando restavam tantos dias daquela festa quanto já haviam passado; para que também se cumprisse o que disse: "não subirei para esta festa", isto é, para aquela que vós quereis, no primeiro ou segundo dia; mas subiu depois, estando a festa em seu meio.
Então também subiu, não como para um dia de festa, mas como para a luz. Eles, porém, subiram como para desfrutar dos prazeres do dia festivo. Para Cristo, contudo, aquele foi o dia festivo em que, por sua Paixão, redimiu o mundo.
Ele, porém, que antes se ocultava, ensinava e falava abertamente, e não era detido. Aquilo que estava oculto era por motivo de exemplo, isto era por poder.
Todos, conforme julgo, admiravam-se, mas nem todos se convertiam. E de onde vinha a admiração? Porque muitos sabiam onde havia nascido, como fora educado; nunca o tinham visto aprendendo letras; ouviam-no, porém, disputar sobre a lei, proferindo testemunhos da lei; que ninguém poderia proferir, a não ser que tivesse lido; ninguém leria, se não tivesse aprendido as letras; e por isso admiravam-se.
Parece haver uma contradição quando Ele diz "minha" e "não é minha"; pois se tivesse dito: esta doutrina não é minha, não haveria questão. Qual é, portanto, a doutrina do Pai, senão o Verbo do Pai? O próprio Cristo, então, é a doutrina do Pai, se Ele é o Verbo do Pai. Mas como o verbo não pode ser de ninguém, mas é de alguém, Ele disse que Sua doutrina era Ele mesmo, e não Sua; porque é o Verbo do Pai. O que há de mais teu do que tu mesmo? E o que há de menos teu do que tu mesmo, se pertences a outro naquilo que és? Brevemente, portanto, parece-me que Ele quis dizer "minha doutrina não é minha", como se dissesse: Eu não sou de mim mesmo. Esta sentença dissolve a heresia sabeliana, que ousou afirmar que o Filho é o mesmo que o Pai: dois nomes, mas uma só realidade.
Ou ainda: Em um sentido chamou sua, em outro sentido não sua: segundo a forma de Deus, sua; segundo a forma de servo, não sua.
Se alguém, porém, entender pouco isto, ouça o conselho que o Senhor dá em seguida, dizendo: "Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus, ou se eu falo por mim mesmo". O que significa "se alguém quiser fazer a vontade dele"? Isto é crer nele: pois ele mesmo disse: "esta é a obra de Deus, que creiais naquele que ele enviou". Quem não sabe que fazer a vontade de Deus é realizar a obra dele? E conhecer é o mesmo que entender. Portanto, não busques entender para crer, mas crê para que entendas, porque "se não crerdes, não entendereis".
Aquele que busca a glória própria é o Anticristo. Mas o Nosso Senhor nos ofereceu um grande exemplo de humildade, quando, encontrado em condição humana, buscou a glória do Pai, não a sua. Mas tu, quando fazes algo de bom, buscas a tua glória; quando fazes algo de mal, preparas calúnia contra Deus.
Ou Ele diz isto porque se cumprissem a lei, reconheceriam Cristo nas próprias escrituras, e não matariam aquele que estava presente. Porém a multidão respondeu-lhe, não referindo-se à ordem, mas à perturbação; pois segue-se: Respondeu a multidão, e disse: Tu tens demônio: quem procura matar-te? Foi dito àquele que expulsava os demônios que tinha um demônio. O Senhor, contudo, não se perturbou, mas tranquilo em sua verdade, não retribuiu maldição por maldição, mas respondeu serenamente.
Como se dissesse: e se vísseis todas as minhas obras? Pois dele eram as obras que viam no mundo, e não viam a ele mesmo que fez todas as coisas. Ele fez uma só coisa e se perturbaram, porque curou um homem no sábado; como se algum deles, estando doente no sábado, houvesse sido curado por outro que não por este que os escandalizou, porque fez são um homem no sábado.
Como se dissesse: bem fizestes em receber a circuncisão de Moisés, não porque ela provém de Moisés, mas dos patriarcas; porque Abraão foi o primeiro que recebeu a circuncisão do Senhor. E circuncidais no sábado. Moisés vos convenceu: recebestes na lei para circuncidar no oitavo dia; recebestes na lei para descansar no sétimo dia. Se o oitavo dia daquele que nasceu coincide com o sétimo dia do sábado, circuncidais o homem; porque a circuncisão pertence a um sinal de salvação, e os homens não devem abster-se da salvação no sábado.
Talvez aquela circuncisão significasse o próprio Senhor. Pois o que é a circuncisão, senão o despojamento da carne? Significava, portanto, o despojamento dos desejos carnais do coração. Não foi sem razão que foi aplicada naquele membro pelo qual se procria a criatura dos mortais, porque por um só homem o pecado entrou no mundo. Por isso, todo aquele que nasce com prepúcio, nasce com o vício de sua propagação; e Deus não purifica, seja do vício com o qual nascemos, seja dos vícios que acrescentamos vivendo mal, senão por Cristo: pois circuncidavam com facas de pedra, e com o nome de pedra prefiguravam a Cristo. E a circuncisão era feita no oitavo dia porque, após o sétimo dia do sábado, o Senhor ressuscitou no dia do Senhor. A própria ressurreição nos circuncida, isto é, remove os desejos carnais. Entendei que isto significa a boa obra que eu fiz, curando um homem inteiramente no sábado: porque foi curado para ser são no corpo, e creu para ser são na alma. Estais proibidos de realizar trabalhos servis no sábado: porventura é trabalho servil curar um homem no sábado? Vós certamente comeis e bebeis no sábado, porque isto pertence à saúde; por isso demonstrais que as obras de salvação não devem de modo algum ser omitidas no dia de sábado.
Isto, porém, que o Senhor advertiu aqui, evitar julgar neste mundo, é de grande trabalho: não julgar pessoalmente. O Senhor certamente admoestou os judeus, e também nos admoestou a nós: pois o que soava precioso da boca do Senhor, foi escrito por nossa causa, e foi preservado para nós, e por nossa causa recitado. O Senhor está no alto, mas também aqui a verdade é o Senhor. Pois o corpo do Senhor, no qual ressuscitou, só pode estar em um lugar; sua verdade está difundida por toda parte. Quem, portanto, é aquele que não julga pessoalmente? Aquele que ama igualmente. Pois quando honramos os homens de diferentes modos segundo os seus graus, não se deve temer que aceitemos pessoas: às vezes, de fato, há julgamento entre pai e filho; não igualamos o filho ao pai em honra, mas antepomos, se tem boa causa, o filho ao pai na verdade; e assim conferimos a honra devida, para que a equidade não perca o mérito.
Foi dito acima que o Senhor havia subido ocultamente à festa, não porque temia ser capturado, pois tinha poder para não ser detido, mas para significar que, mesmo naquele dia festivo que era celebrado pelos judeus, Ele se ocultava, e que isto encerrava o seu mistério. Agora, porém, manifesta-se o poder que se julgava ser timidez: falava publicamente no dia da festa, de tal modo que as multidões se admiravam; por isso diz: "Diziam, pois, alguns de Jerusalém: Não é este a quem os judeus procuravam matar? Eis que fala abertamente, e nada lhe dizem". Conheciam a ferocidade com que era procurado e se admiravam do poder pelo qual não era capturado.
Portanto, não compreendendo plenamente o poder de Cristo, julgaram que era conhecimento dos príncipes o que os havia levado a poupá-lo; donde acrescentam: Porventura conheceram verdadeiramente os príncipes que este é o Cristo?
Esta opinião não nasceu sem fundamento entre os judeus. Encontramos, de fato, que as Escrituras disseram de Cristo que seria chamado Nazareno, e assim predisseram de onde ele viria. E novamente os judeus disseram a Herodes, quando ele inquiriu, que Cristo nasceria em Belém de Judá, e adduziram o testemunho do Profeta. Como então surgiu esta noção entre os judeus de que, quando Cristo viesse, ninguém saberia de onde ele era? Por esta razão, a saber, que as Escrituras afirmaram ambas as coisas. Como homem, predisseram de onde Cristo seria; como Deus, ele estava escondido dos profanos, mas revelou-se aos piedosos. Esta noção eles haviam tomado de Isaías: "Quem poderá narrar a sua geração?" Nosso Senhor responde que eles o conheciam e ao mesmo tempo não o conheciam: "Então Jesus clamou no templo, enquanto ensinava, dizendo: Vós me conheceis, e sabeis de onde eu sou"; isto é, vós me conheceis e não sabeis de onde eu sou: vós sabeis de onde eu sou, que sou Jesus de Nazaré, cujos pais conheceis. O nascimento da Virgem era a única parte da questão que lhes era desconhecida: com esta exceção, eles conheciam tudo o que pertencia a Jesus como homem. Assim, ele bem diz: "Vós me conheceis e sabeis de onde eu sou"; isto é, segundo a carne e a semelhança do homem que eu apresentava. Mas a respeito da sua divindade, ele diz: "Eu não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é verdadeiro".
Finalmente, para mostrar-lhes de onde poderiam saber, acrescentou: "Eu o conheço". Portanto, buscai-me para que o conheçais. Pois ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar. "E se eu disser que não o conheço, serei mentiroso como vós".
"Eu sou dele", diz, porque o Filho é do Pai: mas que me vejais na carne, é porque Ele me enviou. Onde não se deve entender dissemelhança de natureza, mas a autoridade do gerador.
Isto é, porque Ele não queria, pois o Senhor não nasceu sob o destino. Isto nem de ti se deve crer, quanto menos d'Aquele por quem foste feito? Se tua hora é a vontade d'Ele, a hora d'Ele o que é senão Sua própria vontade? Não disse, portanto, a hora em que seria forçado a morrer, mas a hora em que se dignaria a ser morto.
O Senhor salvava os humildes e os pobres; por isso está dito: Da multidão, porém, muitos creram nele. Pois a multidão, que logo percebeu a sua enfermidade, também conheceu a sua medicina sem demora.
Ou assim compreendem: se não houver dois, este é o Cristo. Os príncipes, porém, estavam insanos; e por isso não apenas não reconheciam o médico, mas também desejavam matá-lo; por isso segue: os fariseus ouviram a multidão murmurando tais coisas a respeito dele, e os príncipes e fariseus enviaram ministros para que o prendessem.
Como eles, pois, não podiam prendê-lo contra sua vontade, foram enviados para ouvir o que ele ensinava; pois segue-se "Jesus então disse: Por mais um pouco de tempo estou convosco".
O que agora quereis fazer, haveis de fazer, mas não agora, porque agora não quero: pois devo cumprir minha dispensação, e assim chegar à minha paixão.
Ou aqui Ele já predisse a sua ressurreição: porque haveriam de buscá-lo depois da ressurreição, compungidos. Pois não quiseram reconhecê-lo quando presente, e depois o buscaram quando viram a multidão dos que nele criam: de onde muitos, compungidos, disseram: que faremos? Viram Cristo morrendo por seus crimes, e creram em Cristo que perdoava seus crimes, e desesperaram de sua salvação até que beberam o sangue que derramaram.
Ele não disse: "onde eu estarei", mas "onde eu estou": pois Cristo sempre estava lá onde havia de voltar; assim retornou, para que não nos abandonasse. Pois Cristo estava segundo a carne visível na terra, segundo a invisível majestade no céu e na terra. Ele não disse: "não podereis", mas "não podeis vir": pois tais eram eles então que não podiam. Para que saibais que isto não foi dito para levar ao desespero, também aos seus discípulos disse algo semelhante: "para onde eu vou, vós não podeis vir". Por fim, explicou isto a Pedro, dizendo: "para onde eu vou, não podes me seguir agora, mas me seguirás depois".
Mas o Senhor havia dito "para onde eu vou", referindo-se ao seio do Pai. Isto eles não entenderam de forma alguma; e, contudo, a partir desta ocasião, predisseram nossa salvação, porque o Senhor iria às nações, não pela presença corporal, mas pelos seus pés; pois enviou a nós seus membros, e nos fez membros seus.
Celebrava-se então a festa que se chama Scenopegia, isto é, a construção dos tabernáculos.
Pois há uma sede interior, porque existe um homem interior. E é sabido que o homem interior é mais amado que o exterior. Portanto, se temos sede, venhamos, não com os pés, mas com os afetos; não pelo deslocamento, mas pelo amor.
O ventre do homem interior é a consciência de seu coração. Bebendo deste líquido, a consciência purificada se reaviva, e quem bebe terá a fonte, e ele mesmo será a fonte. O que é a fonte, ou qual é o rio que flui do ventre do homem interior? A benevolência, pela qual deseja fazer o bem ao próximo. Bebem, portanto, os que creem no Senhor. Mas se aquele que bebe pensa que deve bastar apenas a si mesmo, não fluirá de seu ventre a água viva; se, ao contrário, apressa-se em fazer o bem ao próximo, por isso não seca, porque mana.
O Evangelista explicou a que tipo de bebida o Senhor os convidava, e disse: Isto Ele disse do Espírito que haveriam de receber os que nele cressem. Que espírito Ele menciona, senão o Espírito Santo? Pois cada homem tem em si seu próprio espírito.
Era, pois, o Espírito de Deus; mas ainda não estava naqueles que haviam crido em Jesus. Assim dispôs não lhes dar este Espírito, senão após sua ressurreição; donde segue: pois o Espírito ainda não fora dado porque Jesus ainda não fora glorificado.
Mas como também de São João Batista foi dito: será repleto do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe; e Zacarias se encontra repleto do Espírito Santo, para que dissesse tais coisas a respeito dele; e Maria do Espírito Santo, para que proclamasse tais coisas sobre o Senhor; Simeão e Ana do Espírito Santo, para que reconhecessem a grandeza do pequeno Cristo? Como, portanto, se entende isso, senão porque aquela doação do Espírito Santo que aconteceria após a glorificação de Cristo seria de tal modo como nunca antes havia sido? Ela teria, de fato, certa propriedade na sua própria vinda, que antes nunca existiu. Pois em lugar algum lemos que homens tenham falado em línguas que não conheciam, vindo sobre eles o Espírito Santo, como então aconteceu, quando convinha que sua vinda fosse demonstrada com sinais sensíveis.
Sendo, pois, que também agora se recebe o Espírito Santo, por que ninguém fala em todas as línguas de todas as gentes? Porque a própria Igreja já fala nas línguas das gentes: nela quem não está, nem agora recebe o Espírito Santo. Se amas a unidade, também a ti pertence aquilo que qualquer pessoa nela tem. Afasta a inveja, e aquilo que tenho é teu. A inveja separa, a caridade une: possui esta, e terás tudo, porque sem ela de nada te aproveitará o que puderes ter. Ora, a caridade de Deus está difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado. Por que, então, o Senhor quis dar o Espírito Santo depois da sua ressurreição? Para que, certamente, em nossa ressurreição, a caridade se inflamasse, se separasse do amor do século e corresse inteiramente para Deus. Pois aquele que disse "quem crê em mim, venha e beba, e rios de água viva correrão do seu ventre", prometeu a vida eterna, onde nada temeremos, onde não morreremos. Porque, portanto, tal é o que prometeu aos ardentes na caridade do Espírito Santo; por isso não quis dar o mesmo Espírito senão quando fosse glorificado, para que em seu próprio corpo mostrasse a vida que agora não temos, mas que esperamos na ressurreição.
Se, portanto, esta era a causa pela qual ainda não era dado o Espírito Santo, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado; sem dúvida, a glorificação de Jesus era já causa para que fosse imediatamente dado. Os catafrigios, porém, disseram que eles receberam o Paráclito prometido, e por isso se desviaram da fé católica. Os maniqueus também afirmam que o que se diz sobre a promessa do Espírito Santo foi predito sobre Maniqueu, como se antes o Espírito não tivesse sido dado.
Como o Senhor convidasse aqueles que nele criam a beber do Espírito Santo, surgiu uma dissensão entre a multidão acerca dele; por isso diz: Daquela multidão, pois, tendo ouvido estas palavras dele, diziam: Este é verdadeiramente o profeta.
Aqueles, porém, que haviam sido enviados para o prender, voltaram isentos do crime, e cheios de admiração; sobre os quais se prossegue: Voltaram, pois, os ministros aos pontífices e fariseus; e estes lhes disseram: Por que não o trouxestes?
Os fariseus, porém, rejeitaram o testemunho deles; pois segue-se "os fariseus lhes responderam: Acaso também vós fostes seduzidos?" Como se dissessem: Vemos que vos deleitastes com as suas palavras.
Aqueles que não conheciam a lei, criam naquele que tinha enviado a lei, e os que ensinavam a lei condenavam aquele que tinha enviado a lei; para que se cumprisse o que o Senhor tinha dito: "Eu vim para que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos".
Ele não era incrédulo, mas temeroso; e por isso vinha de noite à luz, porque queria ser iluminado, mas temia ser conhecido. Este, pois, respondeu aos judeus: "Porventura a nossa lei julga um homem sem antes ouvi-lo e conhecer o que ele faz?" Ele acreditava que, se apenas quisessem ouvi-lo pacientemente, talvez se tornassem semelhantes àqueles que haviam sido enviados para prendê-lo e preferiram crer. Mas aqueles perversos queriam ser condenadores antes de serem conhecedores.
Diz, porém, nossa lei, acerca da lei que é de Deus, porque foi dada por Ele aos homens.
Isto é, como que seduzido por um galileu. O Senhor era chamado galileu, porque seus pais eram da cidade de Nazaré; quando digo pais, refiro-me a Maria, não à descendência masculina.
De fato, não surge profeta da Galileia, mas o Senhor dos profetas de lá surgiu. Segue-se que cada um voltou para sua casa.
E onde convinha que Cristo ensinasse senão no monte das Oliveiras, no monte do unguento, no monte do crisma? Pois o nome Cristo deriva de crisma. Crisma em grego, em latim se chama unção. Por isso nos ungiu, porque nos fez lutadores contra o Diabo.
Haviam percebido que Ele era excessivamente manso, pois dele já havia sido predito: "Prossegue e reina, em nome da verdade, da mansidão e da justiça". Portanto, trouxe a verdade como Mestre, a mansidão como Libertador, e a justiça como Conhecedor. Quando falava, a verdade era reconhecida; quando não se movia contra os inimigos, sua mansidão era louvada. No terceiro aspecto, portanto, isto é, na justiça, colocaram o escândalo: pois disseram entre si: se Ele julgar que ela deve ser libertada, não manterá a justiça; pois a lei não poderia ordenar o que era injusto; e por isso invocam a lei, dizendo: "Ora, na lei, Moisés nos ordenou apedrejar as tais". Mas para que não perdesse a mansidão, pela qual já se tornara amado pelo povo, haveria de dizer que ela deveria ser libertada. Por isso, exigem sua sentença, dizendo: "Tu, pois, que dizes?". Nisso encontraremos ocasião para acusá-lo, e o tornaremos réu como transgressor da lei; por isso o Evangelista acrescenta: "E isto diziam tentando-o, para que o pudessem acusar". Mas o Senhor, em sua resposta, preservará a justiça e não se afastará da mansidão; pois segue: "Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra".
Como para manifestar que tais pessoas deviam ser escritas na terra, não no céu, onde Ele disse aos seus discípulos que se alegrassem por estarem escritos; ou que, ao inclinar a cabeça (o que mostrava por sua inclinação de cabeça), fazia sinais na terra; ou que já era tempo de que a sua Lei fosse escrita na terra que desse fruto, e não na pedra estéril, como anteriormente.
Ele não disse: não seja apedrejada, para não parecer que falava contra a lei. Mas seria impensável que dissesse: seja apedrejada; pois Ele veio não para perder o que havia encontrado, mas para buscar o que estava perdido. O que, então, respondeu? Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar a pedra contra ela. Esta é a voz da justiça. Que a pecadora seja punida, mas não por pecadores; que a lei seja cumprida, mas não pelos transgressores da lei.
Quando, portanto, Ele os feriu com a arma da justiça, não se dignou a olhar para os caídos, mas desviou deles seu olhar; por isso segue: e inclinando-se novamente, escrevia na terra.
Assim, então, aqueles, feridos pela voz da justiça como por um dardo, examinando-se a si mesmos e encontrando-se culpados, um após outro todos se retiraram; e isto é o que se acrescenta: ouvindo isto, saíam um após outro, começando pelos mais velhos.
Restaram, porém, dois: a miséria e a misericórdia; pois segue-se e ficou Jesus sozinho, e a mulher em pé no meio. Creio que aquela mulher, aterrorizada, esperava ser punida por Aquele em quem não se podia encontrar pecado. Ele, porém, que havia repelido seus adversários com a língua da justiça, levantando para ela os olhos da mansidão, interrogou-a; donde segue-se e erguendo-se Jesus, disse-lhe: mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Ela disse: Ninguém, Senhor. Ouvimos acima a voz da justiça: ouçamos agora a da mansidão; pois segue-se disse-lhe Jesus: nem eu te condeno, por quem talvez temeste ser condenada, porque em mim não encontraste pecado. O que é isto, Senhor? Favoreces, então, os pecados? Não, certamente; atende ao que segue: vai, e não peques mais. Portanto, também o Senhor condenou, mas o pecado, não a pessoa; pois se fosse favorecedor dos pecados, diria: vai, e vive como quiseres; fica segura da minha libertação: eu te libertarei, por mais que peques, mesmo da Geena e dos tormentos do Inferno. Não disse isto. Atentem, pois, os que amam no Senhor a mansidão, e temam a verdade: porque o Senhor é doce e reto.
Os maniqueus pensaram que esse sol visível aos olhos da carne era Cristo Senhor, mas a Igreja Católica reprova tal invenção; pois o Senhor Cristo não é o sol criado, mas aquele por quem o sol foi feito: pois todas as coisas foram feitas por Ele, e por nossa causa, sob o sol, fez-se a luz que fez o sol: é coberto pela nuvem da carne, não para ser obscurecido, mas para ser temperado. Falando, pois, através da nuvem da carne, a luz indefectível, a luz da sabedoria, diz aos homens: "Eu sou a luz do mundo".
Ele, porém, afastou-te dos olhos da carne e chamou-te novamente para os olhos do coração nisso que acrescenta: quem me segue não anda em trevas, mas terá a luz da vida. Pois não basta dizer "terá a luz", mas acrescentou "da vida". Estas palavras do Senhor harmonizam-se com as palavras do Salmo: "Em tua luz veremos a luz", "porque contigo está a fonte da vida". Nos usos corporais, uma coisa é a luz e outra é a fonte: a boca procura a fonte, os olhos a luz. Junto a Deus, o que é luz, isso é fonte. Aquele que te ilumina para que vejas, é o mesmo que flui para ti para que bebas. O que prometeu, expressou com verbo no tempo futuro; naquilo que devemos fazer, usou o tempo presente. "Quem segue", diz, "terá" agora pela fé, depois terá pela visão. Segue este sol visível se tu mesmo te diriges ao ocidente, para onde ele também se dirige; e se tu não quiseres abandoná-lo, ele te abandonará no ocaso. Teu Deus está em toda parte inteiramente: se não te afastares dele, ele nunca se porá para ti. As trevas que se devem temer são as dos costumes, não as dos olhos; e se dos olhos, não dos exteriores, mas dos interiores, pelos quais se discerne não o branco e o preto, mas o justo e o injusto.
Verdadeiro é o testemunho da luz, quer mostre a si mesma, quer mostre outras coisas. O profeta disse a verdade; mas de onde a obteria, se não a bebesse da fonte da verdade? Portanto, Jesus é idôneo para dar testemunho de si mesmo. Ao dizer "Porque sei de onde venho e para onde vou", queria dar a entender o Pai: pois o Filho dava glória ao Pai, por quem foi enviado. Quanto, pois, deve o homem glorificar Aquele por quem foi criado? Mas Ele nem se afastou do Pai ao vir, nem nos abandonou ao retornar. Não pode fazer isto aquele sol que, quando se dirige ao ocidente, abandona o oriente. Mas assim como este sol ilumina tanto o rosto daquele que vê quanto o do cego; mas um vê, o outro não: assim também a sabedoria de Deus, o Verbo de Deus, está presente em toda parte, mesmo entre os infiéis; mas estes não têm os olhos do coração para vê-la. Assim, para que o Senhor distinguisse entre os seus fiéis e os seus inimigos judeus, como entre a luz e as trevas, acrescenta: "Vós, porém, não sabeis de onde venho ou para onde vou". Estes judeus viam o homem, mas não acreditavam no Deus; e por isso o Senhor acrescenta: "Vós julgais segundo a carne", ou seja, quando dizeis "Tu dás testemunho de ti mesmo, e o teu testemunho não é verdadeiro".
Como não compreendeis a Deus, e vedes o homem, por isso vos pareço arrogante, porque eu dou testemunho de mim mesmo. Pois todo homem quando quer dar de si um testemunho louvável, parece soberbo e arrogante; nós homens somos fracos, podemos dizer a verdade e mentir; a luz não pode mentir.
O que pode ser entendido de dois modos: para que entendamos isto "não julgo a ninguém", isto é, agora, como diz em outro lugar: "Eu não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo", não negando o seu juízo, mas diferindo-o; ou certamente, porque havia dito "vós julgais segundo a carne", assim acrescentou "eu não julgo a ninguém", para que entendas: segundo a carne Cristo não julga, como foi julgado pelos homens; pois para que reconheças que Cristo já é juiz, acrescenta "e se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro".
Mas se o Pai está contigo, como Ele te enviou? Portanto, Senhor, tua missão é tua encarnação. Aqui, pois, Cristo estava segundo a carne, e não havia deixado o Pai, porque o Pai e o Filho estavam em toda parte. Envergonha-te, Sabeliano: pois Ele não disse: eu sou o Pai, e eu mesmo sou o Filho; mas, não estou só, diz, porque o Pai está comigo. Distingue, pois, as pessoas, distingue a inteligência; reconhece que o Pai é Pai e o Filho é Filho; mas não digas: o Pai é maior, o Filho é menor. Uma é a substância, uma é a coeternidade, perfeita é a igualdade. Portanto, diz, verdadeiro é o meu juízo, porque sou o Filho de Deus. Para que compreendas que o Pai está comigo, não sou Filho de tal forma que o tenha abandonado: tomei a forma de servo, mas não perdi a forma de Deus. Havia falado do juízo, agora quer falar do testemunho, pois segue: e em vossa Lei está escrito que o testemunho de dois homens é verdadeiro.
Acaso os maniqueus por ventura caluniam porque não disse: na lei de Deus, mas na vossa lei está escrito? Quem não reconhece nisto um modo de falar habitual nas Escrituras? Disse vossa lei, ou seja, a lei que vos foi dada. Da mesma forma, o Apóstolo fala de seu Evangelho, embora testemunhe tê-lo recebido não dos homens, mas pela revelação de Jesus Cristo.
Grande é a questão, e parece ser matéria estabelecida em grande mistério, quando Deus disse: "Na boca de duas ou três testemunhas se estabelece toda palavra"; pois pode acontecer que duas pessoas mintam. A casta Susana foi acusada por duas falsas testemunhas; todo o povo mentiu contra Cristo. Como, portanto, deve-se entender que "na boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra", senão porque deste modo, por meio do mistério, é recomendada a Trindade, na qual há perpétua estabilidade da verdade? Aceitai, pois, nosso testemunho, para que não sintais o juízo: adiou o julgamento, não adio o testemunho; de onde segue "Eu sou o que dou testemunho de mim mesmo, e o Pai que me enviou dá testemunho de mim".
Aqueles que haviam ouvido do Senhor: "Vós julgais segundo a carne", manifestaram o que ouviram: pois entenderam o Pai de Cristo carnalmente; por isso se diz: "Diziam-lhe, pois: Onde está teu Pai?" Como se dissessem: Ouvimos-te dizer: "Eu não estou só, mas eu e o Pai que me enviou"; nós te vemos somente a ti: mostra-nos, pois, que teu Pai está contigo.
Como se dissesse: Vós perguntais: onde está teu Pai? Como se já me conhecêsseis, como se tudo o que sou fosse o que vedes: portanto, porque não me conheceis, por isso não vos mostro meu Pai. Pois vós me considerais um homem; por isso buscais meu Pai como um homem. Mas visto que, segundo o que vedes, sou uma coisa, e outra coisa segundo o que não vedes; e falo de meu Pai oculto, estando eu oculto: primeiro é necessário que me conheçais, e então conhecereis meu Pai; e isto é o que acrescenta: "Se me conhecêsseis, certamente também conheceríeis meu Pai".
O que significa isto: "Se me conhecêsseis, também conheceríeis meu Pai", senão que "Eu e o Pai somos um"? Quando vês alguém semelhante a outro, é expressão comum dizer: se viste este, viste aquele. Tal resposta é dada por causa da semelhança. Por isso o Senhor diz: "Se me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai"; não porque o Pai é o Filho, mas porque o Filho é semelhante ao Pai.
Esta palavra forsitan (talvez) é usada apenas como forma de repreensão, embora pareça expressar dúvida. Entre os homens, de fato, muitas vezes ocorre que falam com dúvida sobre aquilo que conhecem com certeza, empregando palavras que a indicam, como quando alguém se irrita com seu servo e diz: "Desprezas-me? Considera, talvez eu seja teu senhor". Assim também o Senhor, duvidando, repreende os infiéis quando diz: "E talvez conheceríeis também a meu Pai".
Grande, portanto, é sua confiança sem temor: pois não padeceria o que não quisesse; donde segue e ninguém o prendeu, porque ainda não chegara a sua hora. Alguns, quando ouvem isto, acreditam que Cristo esteve sob o destino; mas se destino, como alguns entenderam, deriva de fari [falar], isto é, de pronunciar, como pode o Verbo de Deus estar sujeito ao destino? Onde estão os destinos? No céu, dizes tu, na ordem e nas revoluções dos astros. Como, portanto, pode estar sujeito ao destino Aquele por quem foram feitos o céu e os astros, quando até a tua vontade, se exercida retamente, transcende os astros? Acaso porque sabes que a carne de Cristo esteve sob o céu, por isso pensas que também o poder de Cristo esteve submetido ao céu? Portanto, ainda não chegara a sua hora, não aquela em que seria forçado a morrer, mas aquela em que se dignaria a ser morto.
Como foi dito acima que ninguém o prendeu, porque ainda não tinha chegado a sua hora, agora fala aos judeus sobre a sua própria paixão, que não estava sujeita à necessidade, mas ao seu poder; por isso diz: Jesus lhes disse novamente: Eu vou embora. Para Cristo Senhor, a morte foi uma partida para o lugar de onde tinha vindo e de onde tinha saído.
"Me buscareis, então", diz Ele, "não por piedoso desejo, mas por ódio": pois, depois que Ele foi removido da vista dos homens, procuraram-no tanto aqueles que o odiavam quanto aqueles que o amavam: os primeiros perseguindo-o, os segundos desejando ter sua presença. "E para que não penseis que me buscareis com boa intenção, em vosso pecado morrereis". Isto é buscar a Cristo de maneira errada, morrer em seu pecado; isto é odiar Aquele de quem unicamente poderia vir a salvação. Ele pronunciou sentença de forma presciente de que morreriam em seus pecados.
Isto também disse aos discípulos em outro lugar; porém não lhes disse morrereis em vosso pecado, mas "aonde eu vou, vós não podeis vir agora". Não lhes tirou a esperança, mas apenas predisse a dilação.
Ouvidas estas palavras, como costumam, pensando carnalmente, perguntaram; pois segue-se que os judeus diziam: Acaso se matará a si mesmo, pois diz: Para onde eu vou, vós não podeis vir? Palavras tolas. O que na verdade? Não poderiam eles ir para onde ele se dirigisse, se matasse a si mesmo? Eles próprios não haveriam de morrer? Portanto, para onde eu vou, disse; não para onde se vai à morte, mas para onde ele mesmo iria depois da morte.
De quais alturas? Do próprio Pai, acima do qual nada existe. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo: como poderia ser do mundo aquele por quem o mundo foi feito?
O Senhor explicou o que quis dar a entender quando disse "vós sois deste mundo"; isto é, porque eram pecadores. Todos nascemos com o pecado, todos vivendo acrescentamos algo àquilo que éramos ao nascer. Toda a infelicidade dos judeus consistia, pois, não em ter pecado, mas em morrer nos pecados; por isso acrescenta: "disse-vos, pois, que morrereis em vossos pecados". Creio, porém, que naquela multidão que ouvia o Senhor, havia também aqueles que iriam crer; mas aquela severíssima sentença "morrereis em vosso pecado" recaía sobre todos; e por isso, também para aqueles que iriam crer, a esperança tinha sido retirada. Reconduziu-os, portanto, à esperança, acrescentando: "pois se não crerdes que eu sou, morrereis em vosso pecado". Logo, se crerdes que eu sou, não morrereis em vosso pecado.
Quando disse "se não crerdes que eu sou", porque nada acrescentou, é muito o que recomendou; pois também Deus havia dito a Moisés: "Eu sou o que sou". Mas como ouço: "Eu sou o que sou", e "se não crerdes que eu sou", como se outras coisas não existissem? Mas certamente qualquer excelência, por grande que seja, se é mutável, verdadeiramente não é; pois não há verdadeiro ser onde existe também o não ser. Examina a mudança das coisas: encontrarás o foi e o será; pensa em Deus, encontrarás o é, onde o tempo passado não pode existir. Para que tu sejas, portanto, transcende o tempo. Assim, prometendo isso, para que não morramos em nossos pecados, nada mais parece-me ter dito com estas palavras "se não crerdes que eu sou", senão: se não crerdes que eu sou Deus. Graças a Deus, porque diz "se não crerdes"; não disse: se não compreenderdes; pois quem poderia compreender isto?
Porque o Senhor havia dito antes: "se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados", interrogam eles como que procurando saber em quem deveriam crer, para não morrerem em seu pecado; por isso diz: "Diziam-lhe, pois: quem és tu?" Pois quando disseste "se não crerdes que eu sou", não acrescentaste quem eras. Sabia, porém, que ali havia alguns que haveriam de crer; e por isso, quando disseram "quem és tu?", para que soubessem em quem deveriam crer, Jesus lhes disse: "O princípio, que também vos falo"; não como se dissesse: sou o princípio; mas como se dissesse: crede que eu sou o princípio; o que no idioma grego aparece evidentemente, onde princípio é do gênero feminino. Crede, pois, que eu sou o princípio, para que não morrais em vossos pecados: pois o princípio não pode ser alterado, permanece em si mesmo e renova todas as coisas. É absurdo, porém, que chamemos o Filho de princípio, e não chamemos o Pai de princípio; não são, contudo, dois princípios, assim como não são dois deuses: o Espírito Santo é o Espírito do Pai e do Filho, e não é o Pai, nem o Filho. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são, no entanto, um só Deus, uma só luz, um só princípio. E acrescentou "que também vos falo": porque me fiz humilde por vós e desci a estas palavras. Portanto, crede que eu sou o princípio: porque para que creiais isto, não somente sou o princípio, mas também vos falo. Pois se o princípio, do modo como é, permanecesse junto ao Pai, de modo que não tomasse a forma de servo, como poderiam crer nele, uma vez que os corações frágeis não poderiam ouvir o Verbo inteligível sem a voz sensível?
Acima Ele disse: eu não julgo a ninguém; mas eu não julgo é uma coisa, e tenho de julgar é outra. Não julgo, diz Ele, referindo-se ao tempo presente. Mas o outro, tenho muitas coisas a dizer e a julgar de vós, refere-se a um juízo futuro. E serei verdadeiro em Meu juízo, porque sou a verdade, o Filho do Verdadeiro. Aquele que me enviou é verdadeiro. Meu Pai é verdadeiro, não por participação, mas gerando a verdade. Diremos que a verdade é maior do que aquele que é verdadeiro? Se dissermos isso, começaremos a dizer que o Filho é maior que o Pai.
O Filho coigual dá glória ao Pai; como se dissesse: Dou glória Àquele de quem sou Filho; como tu te ensoberbeces contra Aquele de quem és servo?
Quando o Senhor disse: "É verdadeiro aquele que me enviou", os judeus não entenderam que Ele lhes falava do Pai. Mas Ele via ali alguns que, sabia Ele, haveriam de crer nEle após a sua paixão; e por isso segue: Disse-lhes, pois, Jesus: Quando tiverdes levantado o Filho do homem, então conhecereis que eu sou. Recordai aquilo: Eu sou o que sou, e conhecereis o que significa o dito Eu sou. Adio o vosso conhecimento, para que possa cumprir a minha paixão. Segundo vossa ordem conhecereis quem eu sou, quando, a saber, tiverdes levantado o Filho do homem. Fala da exaltação da cruz, porque também ali foi exaltado quando pendeu no madeiro. Isto devia ser cumprido pelas mãos daqueles que depois haveriam de crer, aos quais diz isto. E por quê, senão para que ninguém, qualquer que seja o crime e mal de que seja consciente, desesperasse, quando visse que lhes era perdoado o homicídio daqueles que mataram a Cristo?
Ou de outro modo. Porque havia dito "então conhecereis que eu sou", e ao próprio ser pertence toda a Trindade; para que não se insinuasse o erro dos Sabelianos, logo acrescentou: "e nada faço de mim mesmo"; como se dissesse: não existo de mim mesmo, pois o Filho é Deus do Pai. Portanto, o que acrescentou: "assim como o Pai me ensinou, estas coisas falo", que não vos ocorra um pensamento carnal. Não queirais colocar diante de vossos olhos como que dois homens, e o Pai falando ao Filho, como fazes tu quando dizes algumas palavras a teu filho. Pois quais palavras se fariam ao único Verbo? Pois se Ele fala nos vossos corações sem som, como falaria ao seu Filho? O Pai falou incorporeamente ao Filho, porque incorporeamente o Pai gerou o Filho; nem o ensinou como se tivesse gerado um ignorante; mas ensiná-lo foi gerar quem sabe. Pois se a natureza da verdade é simples, para o Filho ser é o mesmo que conhecer. Assim como o Pai, ao gerá-lo, deu-lhe o ser, assim, ao gerá-lo, deu-lhe o conhecer.
E embora ambos estejam juntos, um é enviado, o outro envia: porque a missão é a encarnação, e a própria encarnação é somente do Filho, não do Pai. Portanto, diz "quem me enviou"; isto é, por cuja autoridade paterna fui encarnado. Assim, o Pai enviou o Filho, mas não se afastou do Filho; por isso segue "e não me deixou só": pois não é que onde enviou o Filho, ali não estivesse o Pai, que disse: "eu encho o céu e a terra". Mas por que não o abandonou, acrescenta "porque faço sempre as coisas que Lhe agradam"; não a partir de algum início, mas sem início e sem fim: pois a geração divina não tem início no tempo.
O Senhor quis fundamentar em profundidade a fé daqueles que haviam crido, para que não acreditassem apenas superficialmente; e por isso se diz: Então Jesus dizia aos judeus que haviam crido nele: se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. Pelo fato de dizer se permanecerdes, revela aquilo que estava em seus corações: pois sabia que alguns haviam crido, mas não permaneceram; e promete-lhes algo grandioso, a saber, tornarem-se verdadeiramente seus discípulos, no que tacitamente repreende alguns que antes haviam se afastado dele: eles o ouviram e creram, mas se afastaram, porque não permaneceram.
Todos nós temos um único mestre, e sob ele somos condiscípulos. Nem somos mestres porque falamos de um lugar mais elevado, mas o mestre de todos é aquele que habita em todos nós. Para o discípulo, pouco é aproximar-se; mas é necessário que permaneçamos nele: e se nele não permanecermos, cairemos. Breve obra, breve em palavras, grande em obras, se permanecerdes. Pois o que é permanecer nas palavras de Deus, senão não ceder a nenhuma tentação? Se não há trabalho, recebes gratuitamente a recompensa; se há trabalho, atenta para a grande recompensa. E conhecereis a verdade.
Como se dissesse: porque agora sois crentes, permanecendo, sereis videntes. Pois não foi porque conheceram que creram, mas para que conhecessem, creram. O que é a fé senão crer naquilo que não vês? E a verdade senão ver aquilo que creste? Se, portanto, permanecermos naquilo que se crê, chegaremos àquilo que se vê, a saber, contemplar a própria verdade como ela é, não por meio de palavras que soam, mas pela luz resplandecente. A verdade imutável é o pão da mente; alimenta sem diminuir; transforma quem a consome, e não é ela transformada em quem a consome. Esta própria verdade é o Verbo de Deus: esta verdade revestiu-se de carne por nossa causa: estava oculta na carne, não para ser negada, mas para ser diferida; para que na carne padecesse, a fim de que a carne do pecado fosse redimida.
Talvez alguém diga: "E que me aproveita conhecer a verdade?" E por isso acrescenta: "E a verdade vos libertará"; como se dissesse: se a verdade não te deleita, que te deleite a liberdade. Porque libertar propriamente significa tornar-se livre, assim como sanar significa tornar-se são. Isto no grego é mais claro; pois no costume latino, comumente estamos acostumados a ouvir esta palavra principalmente quando se entende que alguém, ao ser libertado, escapa dos perigos e fica livre de incômodos.
E de que nos libertará a verdade, senão da morte, da corrupção, da mutabilidade? Pois a verdade permanece imortal, incorrupta, imutável. A verdadeira imutabilidade é a própria eternidade.
Ou responderam isto, não aqueles que já haviam crido, mas os que estavam na multidão ainda não crentes. E quanto ao que disseram "a ninguém servimos jamais", segundo a liberdade deste tempo, como disseram a verdade? José não foi vendido? Os santos profetas não foram levados ao cativeiro? Ó ingratos, que é isso que Deus continuamente vos imputa, que vos libertou da casa da servidão, se a ninguém servistes? E vós que falais, como pagáveis tributos aos romanos, se jamais servistes a alguém?
Muito enaltece o que assim anuncia: de certo modo, se é lícito dizer, seu juramento é este: pois amém é interpretado como verdadeiro, e contudo não foi traduzido, nem o intérprete grego ousou fazê-lo, nem o latino. Pois esta palavra amém é hebraica: e não foi traduzida, para que tivesse honra sob o véu do segredo; não para que ficasse presa, mas para que não se tornasse vulgar ao ser desnudada. O quanto isso é importante, podeis conhecer pela própria repetição. Em verdade vos digo. A Verdade diz; a qual, certamente, ainda que não dissesse: digo a verdade, de modo algum poderia mentir; contudo, insiste, de certo modo desperta os que dormem: não quer que se despreze o que diz. Todo, disse, judeu, grego, rico, pobre, imperador e mendigo, se comete pecado, é servo do pecado.
Ó miserável escravidão! O servo de um homem, algumas vezes fatigado pelos duros comandos do seu senhor, descansa fugindo; mas para onde foge o servo do pecado? Leva-o consigo para onde quer que fuja; pois o pecado que cometeu está dentro dele. O prazer passa, mas o pecado não passa; o que deleitava desapareceu, permaneceu o que fere. Somente pode libertar do pecado aquele que veio sem pecado e se fez sacrifício pelo pecado; pois segue-se: o servo não permanece na casa para sempre. A Igreja é a casa, o servo é o pecador; muitos pecadores entram na Igreja. Portanto, não disse que o servo não está na casa, mas não permanece na casa para sempre. Se, portanto, nenhum servo estará lá, quem estará? Quem se gloriará de ser puro do pecado? Ele nos atemorizou muito; mas acrescenta: o filho permanece para sempre. Portanto, só Cristo estará em sua casa. Ou talvez nisto que diz filho, esteja incluído o corpo e a cabeça? Não foi sem razão que ele atemorizou e deu esperança; atemorizou, para que não amássemos o pecado; deu esperança, para que não desconfiássemos da absolvição do pecado. Esta é, pois, a nossa esperança: que sejamos libertados por aquele que é livre. Pois ele pagou o preço, não em prata, mas com seu sangue; e por isso acrescenta: se, pois, o filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.
Não dos bárbaros, mas do diabo; não do cativeiro do corpo, mas da iniquidade da alma.
A primeira liberdade é carecer de pecados; mas esta é uma liberdade iniciada, não perfeita: porque a carne concupisce contra o espírito, para que não façais aquilo que quereis. A liberdade plena e perfeita, porém, existirá quando não houver inimizades, quando o último inimigo, a morte, for destruído.
Não abuses, pois, da liberdade para pecar livremente; mas usa-a para não pecar: pois tua vontade será livre, se for piedosa; serás livre, se fores servo da justiça.
Os judeus tinham se declarado livres, porque eram descendentes de Abraão. O que o Senhor respondeu a isso se segue: Eu sei que sois filhos de Abraão; como se dissesse: Reconheço que vós sois filhos de Abraão segundo a origem da carne, não pela fé do coração; e por isso acrescenta: mas buscais matar-me.
Isto é, não alcança o vosso coração, porque não é recebido pelo vosso coração. Pois assim é a palavra de Deus para os fiéis como o anzol para o peixe: então captura quando é capturada; e não se faz injúria àqueles que são capturados: pois são capturados para a salvação, não para a perdição.
O Senhor, porém, quer que se entenda Deus como seu pai; como se dissesse: vi a verdade, falo a verdade, porque eu sou a verdade. Se, portanto, o Senhor fala a verdade que viu junto ao Pai, a si mesmo viu, a si mesmo fala, porque Ele mesmo é a verdade do Pai.
Como se dissessem: "Que vais tu dizer contra Abraão?" Parecia que o provocavam para que dissesse algo mau a respeito de Abraão, e assim lhes desse ocasião para fazer o que pensavam.
E contudo, anteriormente, disse: "Sei que sois filhos de Abraão"; por isso não negou a origem deles, mas condena os atos. A carne deles procedia dele, mas a vida não procedia.
Os judeus haviam começado a compreender que o Senhor não lhes falava da geração carnal, mas do modo de vida. É costume das Escrituras chamar espiritualmente de fornicação quando a alma se submete como prostituta a muitos e falsos deuses; por isso diz: Disseram-lhe, pois: Nós não nascemos da fornicação, temos um só Pai, Deus.
Assim, pois, o que procede de Deus como Verbo é uma processão eterna, pois d'Ele procedeu como Verbo do Pai, e veio a nós, porque o Verbo se fez carne. Sua vinda é Sua humanidade; Sua permanência, Sua divindade. Vós chamais a Deus de Pai, reconhecei-me ao menos como irmão.
E não podiam ouvir, porque não queriam se corrigir crendo.
Aqui devemos tomar cuidado com a heresia dos maniqueus, que afirma existir uma certa natureza do mal e um povo das trevas com seus príncipes, de onde o Diabo traz sua origem; e dizem que daqui tem origem também a nossa carne; e segundo isto interpretam o que foi dito pelo Senhor "vós tendes por pai o diabo": como se eles fossem, por natureza, maus, derivando sua origem da raça contrária das trevas.
Os judeus, portanto, eram filhos do Diabo por imitação, não por nascimento; donde se segue: e quereis fazer os desejos de vosso pai. Eis por que sois filhos: porque desejais tais coisas, não porque nascestes dele: pois procurais matar-me, a mim que vos digo a verdade: e ele teve inveja do homem e o matou; donde se segue: ele foi homicida desde o princípio: certamente no primeiro homem, no qual o homicídio pôde ser realizado: pois o homem não poderia ser morto se antes não existisse homem. O Diabo não veio ao homem armado com espada; semeou a palavra má e matou. Não penses, portanto, que não há homicídio quando persuades teu irmão ao mal. Vós, porém, por isso vos enfureceis contra a carne, porque não podeis atacar a mente.
Talvez alguém diga que desde o princípio de sua criação não permaneceu na verdade, e por isso nunca foi bem-aventurado com os santos Anjos, recusando-se a estar sujeito ao seu Criador, e por isso falso e enganador, porque não quis manter na pia sujeição o que é próprio da natureza, buscando, por soberba exaltação, simular aquilo que não é. Quem quer que concorde com esta sentença, não compartilha com os maniqueus, que afirmam que o Diabo possui certa natureza própria de mal, como que de um princípio adverso; estes, com tanta vaidade, desvariam que não atentam para o fato de que o Senhor não disse: "era alheio à verdade", mas "não permaneceu na verdade"; onde quis que se entendesse sua queda da verdade. Aquilo também que São João diz: "o Diabo peca desde o princípio", eles entendem que, se é natural, de modo algum é pecado. Mas como responder aos testemunhos proféticos? Seja o que diz Isaías, sob a figura do príncipe da Babilônia, referindo-se ao Diabo: "Como caiu do céu Lúcifer, que nascia pela manhã?", seja o que diz Ezequiel: "Estiveste nas delícias do Paraíso de Deus"? Se estas passagens não podem ser entendidas de outro modo mais conveniente, é necessário que entendamos o que foi dito, "não permaneceu na verdade", no sentido de que esteve na verdade, mas não permaneceu; e aquilo, que "o Diabo peca desde o princípio", deve ser entendido não desde o princípio em que foi criado, mas desde o princípio do pecado: porque o pecado começou nele, e ele foi o princípio do pecado.
Ou, quando diz que a verdade não está nele, apresenta uma indicação, como se perguntássemos de que modo se mostra que ele não permaneceu na verdade, e porque a verdade não está nele. Estaria nele, porém, se nela tivesse permanecido. Segue-se quando fala a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.
Nestas palavras, alguns pensaram que o Diabo tivesse um pai, e investigaram quem seria o pai do Diabo. Este é o erro dos Maniqueus. Mas o Senhor chamou o Diabo de pai da mentira: pois nem todo aquele que mente é pai de sua própria mentira; se recebeste de outro a mentira e a disseste, tu certamente mentiste, mas não és o pai da mentira. Aquele, porém, como não recebeu de outro a mentira, com a qual, como com veneno de serpente, matou o homem, é pai da mentira, assim como Deus é pai da verdade.
Ou de outra maneira. Diabo não é um nome específico, mas comum. Em qualquer um em que se encontrarem as obras do Diabo, esse deve ser chamado de diabo, pois é um nome de uma obra, não de uma natureza. Assim, neste lugar, significa que o pai dos judeus é Caim, a quem os judeus, querendo imitar, mataram o Salvador. Dele veio o modelo do fratricídio, daquele que disse mentir por conta própria, para mostrar que cada um não peca senão por sua própria vontade. Mas como Caim é imitador do Diabo, disse que o Diabo era seu pai, cujas obras ele seguiu.
Não vejas aqui a natureza, mas o vício. Estes são de Deus e não são de Deus: a natureza vem de Deus, o vício não vem de Deus. Isto foi dito àqueles que não só eram viciosos pelo pecado, pois isto era comum a todos, mas também eram reconhecidos de antemão porque não acreditariam com aquela fé pela qual poderiam ser libertados da obrigação dos pecados.
E para que o homem primeiro imite a sua paciência, a fim de que chegue ao poder. Mas embora sendo amaldiçoado não devolvesse maldições, convinha-lhe negar a acusação. Duas coisas lhe foram objetadas: "És samaritano" e "tens um demônio". Ele não disse: "não sou samaritano"; pois samaritano significa guardião; e Ele sabia que era nosso guardião; pois não apenas lhe pertenceu redimir-nos, mas também lhe pertence preservar-nos. Enfim, Ele mesmo é o Samaritano que se aproximou do ferido e dispensou-lhe misericórdia.
Então depois de tal insulto, Ele disse somente isto sobre a Sua glória: "mas honro a meu Pai"; como se dissesse: Para que não vos pareça arrogante, tenho a quem honrar.
Mas a quem quer que se entenda senão ao Pai? Como, então, diz em outro lugar: "o Pai não julga a ninguém, mas deu todo o julgamento ao Filho"(São João 5,22)? Mas vede que julgamento às vezes é tomado por condenação: aqui, porém, está posto segundo discernimento; como se dissesse: é o Pai quem discerne a minha glória da vossa; pois vós vos glorificais segundo este mundo, eu não me glorifico segundo este mundo. Discerne também a glória do seu Filho da glória de todos os homens: pois não é porque se fez homem que já deva ser comparado a nós. Nós somos homens com pecado, ele sem pecado, e isto segundo a própria forma de servo; pois daquilo que se diz: "no princípio era o Verbo"(São João 1,1), quem poderia falar dignamente?
Ou de outra forma. Se foi verdadeiramente dito pelo Salvador: "tudo o que é meu é teu", é manifesto que também o próprio juízo do Filho pertence ao Pai.
"Ver" foi dito no lugar de "experimentar". Uma vez que, sendo ele mesmo mortal, falava aos que também eram mortais, o que significa o que ele disse "quem guardar a minha palavra não verá a morte eternamente", senão que ele verá outra morte, da qual Ele veio nos libertar, a morte eterna, a morte da condenação com o Diabo e seus Anjos? Esta é a verdadeira morte, pois a outra é apenas uma passagem.
Disse isso por causa daquilo que haviam dito: "Quem tu te fazes?". Refere, pois, a sua glória ao Pai, do qual procede; por isso acrescenta: "É meu Pai que me glorifica". A respeito destas palavras, os arianos caluniam nossa fé, e dizem: eis que o Pai é maior, pois glorifica o Filho. Hereges, não lestes que o próprio Filho também diz que glorifica a seu Pai?
Alguns hereges dizem que o Deus anunciado no Antigo Testamento não é o Pai de Cristo, mas não sei qual príncipe dos anjos maus. Contra estes, portanto, diz ser seu Pai aquele a quem eles chamavam seu Deus e não conheceram; pois se o tivessem conhecido, teriam recebido seu Filho. De si mesmo acrescenta: Eu, porém, o conheço. Para aqueles que julgam segundo a carne, poderia parecer arrogante; mas a arrogância não deve ser evitada de tal modo que a verdade seja abandonada; por isso acrescenta: E se eu disser que não o conheço, serei mentiroso como vós.
Ele falava também a palavra do Pai como Filho; e Ele mesmo era o Verbo do Pai, que falava aos homens.
Não temeu, mas exultou por ver: crendo, certamente, exultou esperando, para ver compreendendo o meu dia. Pode, porém, ser incerto se disse o dia temporal do Senhor, em que haveria de vir na carne, ou o dia do Senhor que não conhece nascimento, não conhece ocaso. Mas eu não duvido que o pai Abraão soubesse tudo: pois disse ao seu servo que enviava: "põe tua mão debaixo do meu fêmur, e jura-me pelo Deus do céu". Qual foi, então, aquele juramento, senão porque se significava que do gênero de Abraão haveria de vir na carne o Deus do céu?
E qual gozo houve no coração daquele que viu o Verbo permanente, o esplendor que refulge nas mentes piedosas, o Deus que permanece junto ao Pai, e que algum dia viria na carne, sem afastar-se do seio do Pai.
Porque verdadeiramente Abraão é uma criatura, Ele não disse: antes que Abraão existisse, mas, antes que Abraão fosse feito; nem tampouco disse: Eu fui feito; porque "no princípio era o Verbo"(São João 1,1).
Tanta dureza, para onde correria senão para seus semelhantes, isto é, as pedras? Porque depois que ele havia concluído, ensinando todas as coisas que lhe diziam respeito, estes lhe atiram pedras, e ele os abandona como aqueles que não aceitam correção; donde se segue Jesus escondeu-se e saiu do templo. Não se escondeu em um ângulo do templo como se estivesse com medo, nem fugindo para uma pequena casa, nem desviando-se para trás de um muro ou coluna; mas pelo poder celestial, tornando-se invisível para aqueles que o espreitavam, saiu pelo meio deles. Jesus escondeu-se e saiu do templo.
Rabi significa Mestre. Eles O chamam de Mestre, porque desejavam aprender: eles propuseram uma questão ao Senhor, como a um Mestre.
Porventura havia ele nascido sem o pecado original, ou vivendo não acrescentara nada? Tinham, portanto, pecado tanto ele como seus pais, mas não foi por esse pecado que nasceu cego. O próprio Senhor diz a causa pela qual nasceu cego, quando acrescenta: "mas para que se manifestem as obras de Deus nele".
Pelo fato de que diz "quem me enviou", Ele dá toda a glória Àquele de quem procede, porque Ele tem um Filho que é d'Ele; Ele mesmo não tem alguém de quem proceda.
Se, porém, trabalhamos agora, este é o dia, este é Cristo; por isso acrescenta: enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. Eis que ele mesmo é o dia. Este dia, que se completa com o circuito do sol, tem poucas horas; o dia da presença de Cristo se estenderá até a consumação dos séculos: pois ele mesmo disse: eis que eu estarei convosco até a consumação dos séculos.
O gênero humano é este cego: pois esta cegueira veio ao primeiro homem pelo pecado, do qual todos nós trazemos nossa origem: é cego, portanto, desde o nascimento. O Senhor cuspiu na terra, com sua saliva fez lodo, porque o Verbo se fez carne, e ungiu os olhos do cego. Estava ungido e ainda não via: pois quando o ungiu, talvez o tenha feito catecúmeno. Enviou-o à piscina que se chama Siloé, porque foi batizado em Cristo, e então o iluminou. Coube ao Evangelista recomendar-nos o nome desta piscina; e diz que se interpreta Enviado: pois se Ele não tivesse sido enviado, nenhum de nós seria absolvido da iniquidade.
Pois os olhos abertos haviam mudado sua aparência. Depois, ele dizia: "Eu sou". Voz grata, para não ser condenado como ingrato.
Eis que ele se tornou anunciador da graça, eis que evangeliza e confessa aos judeus. Aquele cego confessava, e o coração dos ímpios se angustiava, porque não tinham no coração o que ele já tinha no rosto; donde segue-se: "E disseram-lhe: Onde está Ele?"
Nestas palavras ele era semelhante a um ungido, mas que ainda não pode ver: ele prega, e não sabe o que prega.
Não todos, mas alguns: pois já alguns estavam ungidos. Diziam, portanto, aqueles que não viam nem estavam ungidos: "Este homem não é de Deus, porque não guarda o sábado". Antes, ele sim o guardava, pois estava sem pecado: porque guardar o sábado espiritualmente é não ter pecado; e isto Deus nos adverte quando recomenda o sábado: "não fareis nenhuma obra servil". O que seja obra servil, ouvi do Senhor: "todo aquele que comete pecado é servo do pecado". Mas estes observavam o sábado carnalmente, e o violavam espiritualmente.
Pois Cristo era o dia que divide entre a luz e as trevas.
Ou buscavam de que modo poderiam caluniar o homem, para expulsá-lo da sinagoga. Mas ele expressou constantemente o que sentia; por isso segue: mas ele disse que é profeta. Ainda não ungido no coração, não confessava ainda o Filho de Deus; contudo, não mente: pois o próprio Senhor diz sobre si mesmo: "Não há profeta sem honra, senão em sua pátria".
Como se dissessem: justamente seríamos obrigados a falar pelo infante, porque ele mesmo não poderia falar por si. Nós o conhecemos cego de nascimento, mas falando.
Já não era um mal ser posto fora da sinagoga: aqueles expulsavam, Cristo acolhia. Segue-se "por isso seus pais disseram: ele tem idade, perguntai a ele mesmo".
Nega o que recebeste. Isto claramente não é dar glória a Deus, mas antes blasfemar contra Deus.
O que significa "porventura também vós", senão que "eu já sou, porventura também vós quereis ser"? Já vejo, mas não invejo. Falava isto já indignado contra a dureza dos judeus; e vendo, após ter sido cego, não tolerando os cegos.
Maldição há, se examinares o coração, não se apenas pesares as palavras. Tal maldição caia sobre nós e sobre nossos filhos. Segue: Nós, porém, somos discípulos de Moisés; nós sabemos que Deus falou a Moisés. Mas então saberíeis que Deus foi predito por Moisés: pois tendes o Senhor dizendo: se crêsseis em Moisés, creríeis também em mim: pois ele escreveu sobre mim. Assim seguis o servo e dais as costas ao Senhor? Pois acrescentais: Quanto a este, não sabemos de onde seja.
Ainda assim fala como alguém que acaba de ser ungido: pois Deus também ouve aos pecadores. Porque se Ele não os ouvisse, em vão o publicano diria: "Deus, tem piedade de mim, pecador"; por aquela confissão mereceu a justificação, assim como o cego mereceu receber a visão.
Livremente, constantemente, verazmente. Estas coisas que foram feitas pelo Senhor, por quem seriam feitas senão por Deus? Ou quando pelos discípulos tais coisas seriam feitas, a não ser que o Senhor habitasse neles?
O que significa totalmente? Que ele estava completamente cego. Porém Aquele que abriu seus olhos, também o salva totalmente.
Foram eles mesmos que o fizeram mestre; eles mesmos, que tantas vezes o interrogaram para aprender, e agora ingratos rejeitam aquele que os ensina.
Agora lava a face do seu coração. Por fim, já lavada a face do coração e purificada a consciência, reconhece-o não apenas como filho do homem, como antes acreditava, mas já como filho de Deus, que assumiu a carne; donde segue: e ele disse: creio, Senhor. É pouco crer; queres ver de que modo ele crê? E prostrando-se, adorou-o.
O dia, com efeito, era o que se movia entre a luz e as trevas. De maneira correta, pois, é acrescentado "para que os que não veem, vejam", porque ele liberta das trevas. Mas o que significa o que se segue: "e os que veem, tornem-se cegos"? Ouve o que vem a seguir: pois alguns fariseus se perturbaram com estas palavras; por isso segue: "e alguns dos fariseus que estavam com ele ouviram essas palavras, e lhe disseram: porventura também nós somos cegos?" O que os perturbava era "e os que veem, tornem-se cegos". Segue: "Disse-lhes, portanto, Jesus: se fôsseis cegos, não teríeis pecado"; isto é, se vos declarásseis cegos e recorrêsseis ao médico. "Agora, porém, porque dizeis: vemos, vosso pecado permanece": porque dizendo "vemos", não buscais o médico, permanecereis em vossa cegueira. Isto, portanto, que pouco antes disse "eu vim para que os que não veem, vejam", isto é, os que confessam que não veem e buscam o médico, para que vejam; "e os que veem, tornem-se cegos", isto é, os que pensam ver e não buscam o médico, permaneçam em sua cegueira. Portanto, chamou a essa separação "juízo", quando disse "vim a este mundo para juízo". Não aquele juízo que já trouxe ao mundo, pelo qual julgará os vivos e os mortos no fim dos tempos.
Ou de outro modo. Muitos são os que segundo certo costume desta vida são chamados homens bons, que aparentemente observam o que na lei foi mandado, e não são cristãos, e muitas vezes se vangloriam como os fariseus: "Acaso também nós somos cegos?" Mas como todas estas coisas que fazem, e não sabem a que fim as dirigem, fazem-nas inutilmente, o Senhor pôs uma semelhança sobre o seu rebanho e a porta pela qual se entra no redil, dizendo: "Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, esse é ladrão e salteador". Digam, pois, os pagãos, ou os judeus, ou os hereges: "Vivemos bem"; se não entram pela porta, de que lhes serve? Para isto deve a cada um aproveitar o viver bem, para que lhe seja dado sempre viver, porque não devem ser chamados de bem viventes aqueles que desconhecem por cegueira ou desprezam por orgulho o fim do bem viver. Não há verdadeira esperança de sempre viver para ninguém, a não ser que conheça a vida, que é Cristo, e por esta porta entre no redil. Portanto, todo aquele que quer entrar no redil, entre pela porta; não só pregue a Cristo, mas busque a glória de Cristo, não a sua. Humilde é a porta que é Cristo; o que entra por esta porta deve ser humilde, para que possa entrar com a cabeça sã. Mas quem não se humilha, e sim se exalta, quer subir pelo muro; por isso é elevado para cair. Buscam, pois, muitas vezes tais homens persuadir aos outros para que vivam bem e não sejam cristãos: por outra parte querem subir e roubar e matar. Tais, portanto, são ladrões, porque dizem ser seu o que é alheio; e salteadores, porque matam o que roubam.
Entra pela porta quem entra por Cristo, quem imita a paixão de Cristo, quem conhece a humildade de Cristo; para que, tendo Deus se feito homem por nós, reconheça-se o homem não como Deus, mas como homem. Pois quem quer parecer Deus sendo homem, não imita Aquele que, sendo Deus, se fez homem. Não te é dito: sê algo menor do que és; mas: reconhece o que és. A este o porteiro abre.
Ou de outra maneira. Pelo porteiro devemos entender o próprio Senhor: pois nas coisas humanas há muito mais diferença entre um pastor e uma porta, do que entre um porteiro e uma porta; e, contudo, o Senhor disse ser tanto pastor quanto porta. Por que, então, não entenderíamos que Ele mesmo é o porteiro? Ele mesmo se abre, quando se revela a si mesmo. Se procuras outra pessoa como porteiro, considera que talvez seja o Espírito Santo, sobre o qual o Senhor diz: "Ele vos ensinará toda a verdade". A porta é Cristo, que é a verdade. Quem abre a porta senão aquele que ensina a verdade? Deve-se tomar cuidado, no entanto, para não considerar o porteiro maior que a porta, porque nas casas dos homens o porteiro está acima da porta, não a porta acima do porteiro.
Pois ele conhece os nomes dos predestinados; por isso disse aos seus discípulos: "Alegrai-vos porque vossos nomes estão escritos no céu"(São Lucas 10,20). E as conduz para fora.
Mas quem mais solta as ovelhas, senão aquele que perdoa os pecados delas, para que, libertadas de suas duras cadeias, possam segui-lo? Segue-se, pois: "E quando tiver feito sair suas próprias ovelhas, vai adiante delas".
E quem é aquele que precedeu as ovelhas senão Aquele que ressurgindo dos mortos já não morre mais, e disse ao Pai: "Quero que aqueles que me deste estejam comigo onde eu estou"? Segue-se: "E as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz; mas ao estranho não seguem, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos".
Mas como se resolverá esta questão? Às vezes aqueles que não são ovelhas ouvem a voz de Cristo: Judas ouviu, mas era lobo; e as ovelhas não ouvem: pois alguns daqueles que crucificaram a Cristo não ouviram, mas eram ovelhas. Mas alguém dirá: quando não ouviam, não eram ovelhas; a voz ouvida os transformou, e de lobos fez ovelhas. Mas ainda me inquieta o que pelo profeta Ezequiel o Senhor repreende os pastores, e diz, entre outras coisas, sobre as ovelhas: não trouxestes de volta a que se desviou; e chama-a desviada, e a denomina ovelha. Não se desviaria se ouvisse a voz do pastor; mas desviou-se porque ouviu a voz de um estranho. Digo, portanto: o Senhor conhece os que são seus; conhece os prescienciados, conhece os predestinados. Estes são as ovelhas, às vezes elas mesmas não se conhecem; mas o pastor as conhece: pois muitas ovelhas estão fora e muitos lobos estão dentro. Portanto, fala dos predestinados. Há, no entanto, alguma voz do pastor na qual as ovelhas não ouvem os estranhos, na qual as que não são ovelhas não ouvem a Cristo. Qual é esta voz? "Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo". Esta voz o próprio não negligencia, o estranho não ouve. Segue: "Jesus disse-lhes esta parábola; mas eles não entenderam o que lhes falava". Pois o Senhor apascenta com o que é manifesto, exercita com o que é obscuro. Quando dois ouvem as palavras do Evangelho, um ímpio, outro piedoso, e são tais que ambos não entendem: um diz: é verdade o que disse, e é bom o que disse, mas nós não entendemos; este, porque crê, já bate à porta; é digno de que se lhe abra, se persistir em bater. O outro diz: nada disse; porque ainda ouvirá: "Se não crerdes, não entendereis".
Eis que o que havia posto fechado, abriu: Ele é a porta: entremos, e alegremo-nos de ter entrado. Segue: Todos quantos vieram são ladrões e salteadores.
Entende, pois: todos quantos vieram sem mim; porém, não vieram sem Ele os profetas, porque vieram com Ele os que vieram com a palavra de Deus, que foram verídicos, porque Ele é o verbo e a verdade que havia de vir e enviava seus arautos; mas possuía os corações daqueles que enviava. Pois Ele assumiu a carne no tempo, sendo eterno; "pois no princípio era o Verbo". Antes de seu advento, quando veio humilde na carne, os justos o precederam, crendo que Ele haveria de vir, do mesmo modo que nós cremos naquele que veio; os tempos mudaram, não a fé, pois a mesma fé une a ambos, tanto àqueles que creram que havia de vir, quanto àqueles que creram que veio. Portanto, todos quantos vieram sem Ele foram ladrões e salteadores; isto é, vieram para roubar e matar. Mas as ovelhas não os ouviram; a saber, aquelas das quais foi dito: "o Senhor conhece os que são seus". Logo, as ovelhas não ouviram aqueles nos quais não estava a voz de Cristo, errantes, inventores de falsidades, sedutores de infelizes. E por que se declarou a porta, explica acrescentando: "eu sou a porta; se alguém entrar por mim, será salvo".
Mas o que significa que "entrará e sairá"? Entrar na Igreja pela porta que é Cristo é algo muito bom; porém, sair da Igreja não é bom. Pode-se, portanto, dizer que nós entramos quando pensamos algo interiormente, e saímos quando realizamos alguma ação exterior, conforme aquilo: "o homem sairá para a sua obra"(Salmo 103,23).
Mas agrada-me mais que ele próprio, de certo modo, nos tenha advertido quando acrescenta em seguida: "O ladrão não vem senão para roubar".
Parece-me que disse "para que tenham vida" os que entram, isto é, pela fé que opera por meio do amor, pela qual fé entram no aprisco para viver, porque o justo vive da fé. E "para que a tenham em abundância", isto é, os que saem, ou seja, quando os verdadeiros fiéis morrem, e têm vida mais abundante, onde nunca mais morrerão. Embora também aqui, no próprio aprisco, não faltem pastagens, encontrarão, contudo, pastagens onde se saciarão, como encontrou aquele a quem foi dito: "Hoje estarás comigo no Paraíso".
O Senhor nos revela duas coisas que de certo modo havia proposto veladamente. Primeiramente sabemos que Ele mesmo é a porta; agora nos mostra que é o pastor, dizendo "Eu sou o bom pastor". Acima havia dito que o pastor entra pela porta. Se, portanto, Ele mesmo é a porta, como entra por si mesmo? Assim como Ele por si mesmo conhece o Pai, e nós através Dele; assim também Ele entra no redil por si mesmo, e nós por Ele: nós, porque pregamos a Cristo, entramos pela porta; Cristo, porém, prega a si mesmo: pois a luz tanto mostra as outras coisas quanto a si mesma. Se, portanto, os líderes da Igreja, que são seus filhos, são pastores, como existe um único pastor, a não ser porque todos eles são membros de um único pastor? E certamente o que é pastor, Ele também concedeu aos seus membros: pois Pedro é pastor, e os demais apóstolos são pastores, e todos os bons bispos são pastores; mas nenhum de nós se diz a porta: isto Ele reservou propriamente para si. Não teria acrescentado bom, se não houvesse também pastores maus: estes são os ladrões e salteadores, ou certamente, na melhor das hipóteses, mercenários.
Cristo não foi o único que fez isto. E ainda assim, se aqueles que o fizeram são membros dele, o mesmo e único Cristo sempre o fez. Ele podia fazê-lo sem eles; eles não podiam sem Ele.
Todos, porém, foram bons pastores, não somente porque derramaram seu sangue, mas porque o derramaram pelas ovelhas: pois não o derramaram por orgulho, mas por caridade. Mesmo entre os hereges, que por causa de suas iniquidades e erros sofreram algumas moléstias, jactam-se do nome de mártires, para que, branqueados com este manto, possam mais facilmente roubar, porque são lobos. Nem todos os que entregam seus corpos à paixão, mesmo às chamas, devem ser considerados como tendo derramado seu sangue pelas ovelhas, mas antes contra as ovelhas; pois diz o Apóstolo: "se eu entregar meu corpo para ser queimado, mas não tiver caridade, de nada me aproveitará". Como pode ter sequer uma pequena caridade aquele que, mesmo estando em comunhão, não ama a unidade? O Senhor, recomendando essa unidade, não quis chamar a muitos de pastores, mas a um só pastor, dizendo: "Eu sou o bom pastor".
Busca, portanto, na Igreja, não a Deus, mas outra coisa: se buscasse a Deus, seria casto, porque Deus é o legítimo esposo da alma; quem busca de Deus alguma coisa além de Deus, não busca a Deus castamente.
O lobo, porém, é o Diabo, e os que o seguem; pois foi dito que alguns revestidos de peles de ovelhas, por dentro são lobos rapaces.
Eis que o lobo agarra a garganta da ovelha, o Diabo persuadiu o fiel ao adultério, deve ser excomungado: mas excomungado, se tornará inimigo, armará ciladas, causará dano quando puder: por isso te calas, não censuras: viste o lobo se aproximando, e fugiste: permaneceste com o corpo, mas fugiste com o ânimo; pois nossos sentimentos são movimentos da alma: a alegria é uma expansão da alma, a tristeza, uma contração, o desejo, um avanço da alma, o temor é a fuga da alma.
Mas se os Apóstolos foram pastores, não mercenários, por que fugiam quando sofriam perseguição? E isso tendo o Senhor dito: "se vos perseguirem, fugi". Batamos à porta, estará presente aquele que a abrirá.
Fujam, pois, totalmente de cidade em cidade os servos de Cristo, ministros da palavra e do sacramento dele, quando qualquer um deles é especialmente procurado pelos perseguidores, para que a Igreja não seja abandonada por outros que não são assim procurados. Quando, porém, o perigo é comum a todos, isto é, bispos, clérigos e leigos, aqueles que necessitam de outros não sejam abandonados por aqueles de quem necessitam. Ou todos se dirijam a lugares seguros; ou aqueles que têm necessidade de permanecer não sejam deixados por aqueles pelos quais sua necessidade eclesiástica deve ser suprida. Então, portanto, os ministros de Cristo devem fugir dos lugares em que estamos, sob pressão da perseguição, quando ali ou não houver fiéis de Cristo a quem ministrar, ou quando o ministério necessário puder ser cumprido por outros que não têm a mesma razão para fugir. Porém, quando o povo permanece e os ministros fogem, e o ministério é suprimido, o que será senão aquela fuga condenável dos mercenários, aos quais não importa o cuidado das ovelhas?
Entre os bons são nomeados a porta, o porteiro, o pastor e as ovelhas; entre os maus, os ladrões e salteadores, os mercenários, o lobo.
Deve-se amar o pastor, evitar o ladrão, tolerar o mercenário. Pois o mercenário é útil enquanto não vê o lobo, o ladrão ou o salteador; mas quando os vê, foge.
E não seria chamado mercenário se não recebesse uma recompensa de quem o contrata. Os filhos esperam pacientemente a herança eterna do pai, o mercenário anseia apressadamente pela recompensa temporal de quem o contrata; e, no entanto, pelas línguas de ambos, a divina glória de Cristo é difundida. Portanto, ele prejudica pelo mal que faz, não pelo bem que diz: colha o cacho de uva, evite o espinho; porque o cacho às vezes, nascido da raiz da videira, pende entre os espinhos; de fato, muitos na Igreja, buscando vantagens terrenas, pregam a Cristo, e por meio deles a voz de Cristo é ouvida; e as ovelhas seguem não o mercenário, mas a voz do pastor através do mercenário.
Ele falava primeiro do rebanho de origem carnal de Israel; havia, porém, outros da linhagem da fé do próprio Israel: estavam fora, ainda dispersos entre os gentios, predestinados, mas ainda não reunidos. Não são, portanto, deste redil, porque não são da linhagem carnal de Israel; mas serão deste redil; pois segue: "e a essas é necessário que eu conduza".
O que significa, então: "Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel", senão que Ele não manifestou sua presença corporal senão ao povo de Israel, não tendo Ele mesmo ido aos gentios, mas enviado outros?
Isto é, porque morro, para ressuscitar: pois com grande ênfase foi dito eu ponho. Não se gloriem os judeus: puderam enfurecer-se, mas se eu não quisesse pôr minha alma, o que conseguiriam fazer com seu furor?
No qual demonstrou que nenhuma causa de pecado teve acesso até à morte da carne, mas porque quis, quando quis e como quis; donde se segue: tenho poder para entregar a minha alma.
Por isso que disse de sua alma, somos instruídos contra os apolinaristas, que dizem que Cristo não teve alma humana, isto é, racional. Perguntemos, porém, de que modo o Senhor põe sua alma. Cristo é o Verbo e homem, isto é, Verbo e alma e carne. Cristo, portanto, enquanto é Verbo, põe sua alma, e novamente a toma; ou enquanto é alma humana, ela mesma se põe, e novamente ela mesma se retoma; ou ainda, enquanto é carne, a carne põe a alma e novamente a toma? Se, porém, dissermos que o Verbo de Deus pôs sua alma e novamente a tomou, logo, em algum momento, aquela alma foi separada do Verbo de Deus. A morte, de fato, separou o corpo da alma; porém não digo que a alma foi separada do Verbo. Se, porém, dissermos que a própria alma se pôs, é um sentido absurdíssimo: pois se não estava separada do Verbo, como poderia separar-se de si mesma? Portanto, a carne põe sua alma, e novamente a toma, não por seu próprio poder, mas pelo poder daquele que habita na carne, a saber, o Verbo.
Encaenia era a festividade da dedicação do templo: pois em grego chenon significa novo: sempre que algo novo é dedicado, chama-se encaenia.
Como, pois, os judeus haviam esfriado na caridade de amar, e ardiam no desejo de prejudicar, não se aproximavam para seguir, mas pressionavam para perseguir; donde segue-se: cercaram, pois, a ele os judeus, e lhe disseram: até quando tirais a nossa alma? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente. Não desejavam a verdade, mas preparavam uma calúnia.
Queriam ouvir do Senhor: "Eu sou o Cristo"; e talvez pensassem de Cristo segundo o homem, mas não compreendiam a divindade de Cristo nos profetas, e assim, se Ele dissesse: "Eu sou o Cristo", segundo o que eles entendiam, da descendência de Davi, caluniariam que Ele estaria se arrogando do poder real.
Ele disse isto porque os via predestinados à morte eterna, e não aqueles para os quais havia adquirido a vida eterna pelo preço do seu sangue: pois as ovelhas são aquelas que creem e seguem o pastor.
Estes são os pastos dos quais tinha dito acima: "e encontrará pastos". A vida eterna é chamada bom pasto, onde nenhuma erva murcha, tudo está verde. Mas vós buscais motivo de calúnia, porque pensais apenas na vida presente. Segue-se "e não perecerão eternamente": subentenda-se como se lhes tivesse dito: vós perecereis eternamente, porque não sois das minhas ovelhas.
E por que não perecem, acrescenta: "E ninguém as arrebatará da minha mão". Pois, daquelas ovelhas das quais se diz: "O Senhor conhece os que são seus", nem o lobo arrebata, nem o ladrão leva, nem o salteador mata. Seguro está do número daqueles, Ele que sabe o que entregou por eles.
Não por crescimento, mas por nascimento, é igual aquele que sempre foi nascido do Pai como Filho, Deus de Deus. Isto é, portanto, o que o Pai me deu, que é maior que tudo, a saber: que eu seja o seu Verbo, que eu seja o seu Filho unigênito, que eu seja o esplendor de sua luz. Por isso, ninguém pode arrebatar minhas ovelhas de minha mão, porque ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai; por isso segue: e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Se por mão entendemos poder, uma só é a potestade do Pai e do Filho, porque uma só é a divindade; se por mão entendemos o Filho, a mão do Pai é o próprio Filho: o que não é dito como se Deus Pai tivesse membros corporais, mas porque por meio dele todas as coisas foram feitas. Pois os homens costumam chamar de suas mãos outros homens pelos quais fazem o que querem. Às vezes, a própria obra do homem é chamada mão do homem, porque é feita pela mão; assim como se diz que alguém reconhece sua própria mão quando reconhece o que foi escrito. Neste lugar, entendemos por mão do Pai e do Filho a potestade: para que não aconteça que, tendo entendido aqui que a mão do Pai significa o Filho, o pensamento carnal comece a procurar também um filho do Filho.
Ouça ambas as palavras, um e somos, e serás libertado de Cila e Caríbdis. O que disse um te liberta de Sabélio. Se um, então não há diversidade; se somos, então há Pai e Filho.
"Nós somos um." Isto foi dito: o que Ele é, eu também o sou segundo a essência, não segundo a relação.
Ouviram, portanto, os judeus: "Eu e o Pai somos um", e não suportaram, e conforme seu costume, endurecidos, correram às pedras; pelo que se diz: "Os judeus pegaram pedras para apedrejá-lo".
Esta é a resposta deles ao que Ele havia dito: "Eu e o Pai somos um". Eis que os judeus entenderam o que os arianos não entendem; pois eles se enfureceram justamente porque perceberam que não se poderia dizer "Eu e o Pai somos um" a não ser onde há igualdade entre o Pai e o Filho.
Isto é, a vós foi dada: porque eu disse: sois deuses. Deus diz isto pelo profeta no Salmo, aos homens. E o Senhor chamou lei geralmente a todas aquelas Escrituras, embora em alguns lugares diga especificamente lei, distinguindo-a dos profetas, como está: nestes dois preceitos toda a lei depende e os profetas. Algumas vezes, porém, distribui em três as mesmas Escrituras, onde diz: era necessário cumprir todas as coisas que estão escritas na lei e nos profetas e nos Salmos acerca de mim. Agora, no entanto, também aos Salmos nomeou com o nome de lei: a partir dos quais assim argumenta: se Ele chamou deuses àqueles aos quais a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser quebrada, Àquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, vós dizeis: blasfemas, porque eu disse: sou Filho de Deus?
Ou de outro modo. Santificou; isto é, para que fosse santo, ao gerá-Lo deu-lhe santidade, porque O gerou santo. Se a palavra de Deus se dirigiu aos homens para que fossem chamados deuses, como o próprio Verbo de Deus não é Deus? Se por participação na palavra de Deus os homens se tornam deuses, o Verbo do qual participam não é Deus?
Pois o Filho não diz "o Pai está em mim e eu nele" do modo como os homens podem dizer; porque se pensarmos bem e vivermos bem, estamos em Deus, e Deus está em nós, como que participando de sua graça e sendo iluminados por Ele mesmo. Mas o Filho Unigênito de Deus está no Pai, e o Pai nele, como um igual em um igual.
Não por crer e entender, mas por enfurecer-se e matar. Tu apreendas para possuir; eles queriam apreender para não possuir; por isso segue-se e saiu das mãos deles. Não o apreenderam, porque não tinham as mãos da fé. Mas não era grande coisa para o Verbo tirar sua carne das mãos da carne.
Isto é, não mostrou nenhum milagre: não expulsou demônios, não iluminou os cegos, não ressuscitou os mortos.
Eis os que apreenderam o que permanece, não como os judeus queriam apreender o que se afastava. E nós, portanto, cheguemos ao dia por meio da lâmpada, porque São João era a lâmpada, e dava testemunho ao dia.
Entre todos os milagres que o Senhor fez, a ressurreição de Lázaro é particularmente anunciada. Mas se atentarmos para quem o fez, devemos mais nos deleitar do que nos admirar. Aquele que ressuscitou o homem é o mesmo que fez o homem; pois é maior feito criar o homem do que ressuscitá-lo. Adoecia, pois, em Betânia, Lázaro; donde se diz: "de Betânia, do povoado de Maria e de Marta, suas irmãs"; povoado que estava próximo a Jerusalém.
Evang. Ou de outro modo. Ao dizer isso, São João atesta a São Lucas, que narrou que isto aconteceu na casa de um certo fariseu chamado Simão: por isso Maria já havia feito isso. Mas o fato de que ela o fez novamente em Betânia é algo diferente, que não pertence à narração de São Lucas, mas é igualmente narrado pelos três.
Dom. Havia invadido Lázaro a perniciosa inimiga da enfermidade; o ardente incêndio da febre consumia a cada dia o corpo do miserável homem. Estavam presentes as duas irmãs junto ao enfermo e, lamentando o infortúnio, permaneciam continuamente ao lado do leito do jovem adoecido; por isso, logo depois, diz-se delas: enviaram, pois, suas irmãs a ele, dizendo: Senhor, eis que aquele a quem amas está enfermo.
Não disseram: vem e cura; não ousaram dizer: ordena aí, e aqui será feito; mas apenas: eis que aquele que amas está enfermo. Como se dissessem: basta que o saibas, pois tu não és daqueles que amam e depois abandonam a quem amam.
Onde o Senhor, de modo indireto, disse-se Deus, contra os hereges que dizem que o Filho de Deus não é Deus. Para a glória de qual Deus, então? Ouve o que segue: "para que seja glorificado o Filho de Deus por ela", isto é, pela enfermidade.
Ele enfermo, elas tristes, todos amados. Tinham, pois, esperança, porque eram amados por Aquele que é o consolador dos aflitos e o curador dos enfermos.
Onde quase havia sido apedrejado, porque por isso parecia ter-se afastado dali para não ser apedrejado. Retirou-se, de fato, como homem; mas, ao retornar, como que esquecido de sua enfermidade, manifestou seu poder.
Quando, porém, os homens queriam dar conselho a Deus, e os discípulos ao Mestre, Ele os repreendeu; por isso segue-se: Respondeu Jesus: Não são doze as horas do dia? Pois para mostrar-se como o dia, elegeu doze discípulos. E nesta palavra não previa o próprio Judas, mas seu sucessor. Porque, caindo Judas, sucedeu-lhe Matias, e permaneceu o número doze. As horas, portanto, são iluminadas pelo dia, para que pela pregação das horas o mundo creia no dia. Segui-me, pois, se não quereis tropeçar; por isso acrescenta: se alguém caminhar durante o dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se alguém caminhar durante a noite, tropeça, porque a luz não está nele.
O que Ele disse "dorme" era verdadeiro. Para o Senhor estava dormindo, para os homens estava morto, pois eles não podiam ressuscitá-lo. O Senhor o despertava do sepulcro com tanta facilidade quanto tu despertas um adormecido do leito. Portanto, segundo o Seu poder, disse que estava dormindo, como também o Apóstolo diz: "Não quero que ignoreis a respeito dos que dormem". Chamou-os de adormecidos porque anunciou de antemão que ressuscitariam. Mas assim como entre aqueles que diariamente dormem e se levantam, importa o que cada um vê em sonhos — uns têm sonhos alegres, outros atormentadores — assim também cada um dorme com sua causa e com sua causa se levanta.
Mas Jesus havia falado da sua morte; eles, porém, pensaram que falava do dormir do sono.
Como, portanto, havia dito obscuramente "dorme", manifesta o que havia dito; donde segue: "Então, portanto, disse-lhes manifestamente: Lázaro está morto".
O enfermo havia sido anunciado não como morto; mas como poderia estar oculto aos olhos d'Aquele que o havia criado, e a cujas mãos a alma do moribundo havia ido? Diz, pois: "Alegro-me por vós, para que creiais, porque não estava lá"; para que já começassem a admirar-se de que o Senhor podia dizer que havia morrido, o que nem vira nem ouvira. Aqui devemos recordar que mesmo a fé dos discípulos ainda se edificava por meio de milagres, não para que começasse a existir, mas para que a que já havia começado crescesse. Portanto, quando diz "para que creiais", deve-se entender para que creiais mais ampla e robustamente.
Sobre os quatro dias, muitas coisas podem ser ditas. Pois uma mesma coisa pode ser significada de diversos modos. Há um dia de morte que o homem traz da propagação da morte. Mas os homens também transgridem a lei natural: eis aqui o segundo dia de morte. A lei da Escritura também foi divinamente dada por Moisés, e ela própria é desprezada: acrescente-se o terceiro dia de morte. Vem o Evangelho, e os homens o transgridem: eis aqui o quarto dia de morte. E o Senhor não se desdenha a vir para ressuscitar a tais homens.
Não diz a Ele: rogo-te que ressuscites meu irmão; pois como saberia ela se seria útil ao irmão dela ressuscitar? Contudo, disse isso: sei que podes, se quiseres, fazê-lo; mas que o faças, pertence ao teu juízo, não à minha presunção determinar.
Foi ambíguo o que Ele disse ressuscitará: pois não disse: agora; e por isso segue diz-lhe Marta: sei que ressuscitará na ressurreição no último dia. Daquela ressurreição estou segura, desta estou incerta.
Diz, pois: "Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto" (na carne), "viverá" na alma, até que ressuscite a carne, para nunca mais morrer depois: pois a vida da alma é a fé. Segue-se "e todo aquele que vive" na carne, "e crê em mim, ainda que morra" temporariamente pela morte da carne, "não morrerá eternamente".
Ou ainda de outro modo. Quando acreditei que tu és o Filho de Deus, acreditei que tu és a vida: porque também aquele que crê em ti, ainda que morra, viverá.
É preciso observar que o evangelista chama silêncio à voz baixa: pois como permaneceu em silêncio quando acrescentou, dizendo: "O Mestre está aqui e te chama"?
Deve-se notar também que o Evangelista não disse onde, quando ou como o Senhor chamou Maria, para que isso fosse melhor entendido pelas palavras de Marta, preservando a brevidade da narração.
Disto fica claro que Marta não teria se adiantado a ela, se lhe fosse conhecido o advento de Jesus. Segue-se "pois Jesus ainda não havia chegado à aldeia: mas estava ainda naquele lugar onde Marta o encontrara".
Isto pertenceu ao Evangelista narrar, para que vejamos qual foi a ocasião em que muitos estavam ali quando Lázaro foi ressuscitado; para que tão grande milagre de um morto de quatro dias que ressurgia encontrasse mais testemunhas. Segue-se Maria, portanto, quando chegou onde estava Jesus, vendo-o, caiu aos seus pés.
Dom. Ó assembléia infiel! Estando Tu ainda no mundo, Lázaro, teu amigo, morre. Se o amigo morre, o que sofrerá o inimigo? É pouco que só a ti os céus não sirvam; eis que os infernos arrebataram o teu amado.
Pois quem poderia perturbá-Lo a não ser Ele mesmo? Cristo ficou perturbado, porque quis; teve fome, porque quis; em Seu poder estava ser afetado desta ou daquela maneira, ou não ser afetado. Pois o Verbo assumiu alma e carne, adaptando para Si toda a natureza humana na unidade da pessoa; e por isso, onde existe o poder supremo, segundo o assentimento da vontade, a fragilidade se perturba.
Dom. Não deve ter sido acreditado que Ele ignorava o lugar da sepultura, mas queria comprovar a fé do povo.
83 questão. O que também interroga, julgo significar a nossa vocação, que se faz em segredo. Com efeito, a predestinação da nossa vocação é oculta, sinal deste segredo é a interrogação do Senhor, como se não soubesse, uma vez que nós mesmos não sabemos; ou porque o Senhor mostra, em outro lugar, que Ele não conhece os pecadores, dizendo: "Não vos conheço"; porque em sua disciplina e seus preceitos não há pecados. Segue-se: "Dizem-lhe: Senhor, vem e vê".
O Senhor vê quando se compadece; por isso diz-lhe: "Vê minha humildade e meu trabalho, e perdoa todos os meus pecados". Segue-se "E Jesus chorou".
Por que, pois, Cristo chorou, senão para ensinar aos homens a chorar?
O que significa "ele o amava"? Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência. Segue-se: Alguns deles, pois, disseram: Não poderia este, que abriu os olhos do cego de nascença, fazer com que este não morresse? Mais é o que está prestes a fazer, para que o morto ressuscite.
Geme também em ti mesmo, se pretendes reviver; isto é dito a todo homem que está oprimido por um péssimo costume. Segue-se era uma gruta, e uma pedra estava colocada sobre ela. O morto sob a pedra é o réu sob a Lei: pois a Lei, que foi dada aos judeus, foi escrita em pedra. E todos os réus estão sob a Lei, mas para o justo não foi posta a Lei.
Misticamente, porém, diz: removei a pedra, removei o peso da lei, anunciai a graça.
Nisto creio que estão significados aqueles que queriam impor o ônus da circuncisão aos que vinham à Igreja dentre os gentios; ou aqueles que vivem corruptamente na Igreja, e são motivo de ofensa para os que desejam crer.
Já Maria e Marta, irmãs de Lázaro, que frequentemente haviam visto Cristo ressuscitar mortos, mal acreditavam que Ele poderia ressuscitar seu irmão; pois segue-se Marta, irmã daquele que estava morto, disse-lhe: Senhor, já cheira mal, pois está morto há quatro dias.
Nisto, porém, está a glória de Deus, pois até ao que cheira mal e está morto há quatro dias ressuscita. Segue-se "Tiraram, pois, a pedra".
Cristo veio ao sepulcro onde Lázaro dormia, e não como se ele estivesse morto, mas como se estivesse são, como se estivesse pronto para ouvir, e imediatamente o chamou para fora do sepulcro; por isso segue-se: Tendo dito isto, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora. Ele diz o nome para que não fossem todos os mortos obrigados a sair.
Embora conforme a história do Evangelho, sustentemos com plena fé que Lázaro foi ressuscitado, contudo não duvido que em alegoria signifique algo; nem quando os fatos são alegorizados, perdem a fé no acontecimento real.
Todo aquele que peca, morre; mas Deus, por sua grande misericórdia, ressuscita as almas, para que não morram eternamente. Entendemos, portanto, que os três mortos que Ele ressuscitou em seus corpos significam algo sobre as ressurreições das almas.
Ou então, a morte está dentro, porque o pensamento mau ainda não se transformou em ato. Mas se tu realmente fizeste o mal, como que conduziste o morto para fora da porta.
Ou podemos tomar Lázaro no sepulcro como a alma oprimida por pecados terrenos.
E, contudo, o Senhor amava a Lázaro; pois se não amasse os pecadores, não teria descido do céu à terra. Bem se diz daquele que habitualmente pecava "já cheira mal": pois começa a ter péssima reputação, como um odor extremamente fétido.
E com razão também diz que está morto há quatro dias: pois a terra é o último dos elementos. Significa o poço dos pecados terrenos, isto é, das concupiscências carnais.
O Senhor gemeu, chorou, clamou em alta voz, porque dificilmente se levanta aquele que o peso do costume oprime. Cristo perturba-se a si mesmo, para te significar como tu deves perturbar-te, quando estás oprimido e pressionado por tão grande peso de pecado. A fé do homem que está descontente consigo mesmo deve gemer na acusação das más obras, para que o hábito de pecar ceda à violência do penitente. Quando dizes: fiz aquilo e Deus me poupou; ouvi o Evangelho e o desprezei; que faço? Já geme Cristo, porque a fé geme; na voz do que geme aparece a esperança do que ressurge.
O fato de Lázaro sair do sepulcro significa a alma que se afasta dos vícios carnais; e que saiu envolto em faixas significa que, mesmo os que se afastam das coisas carnais e servem com a mente à lei de Deus, enquanto permanecem no corpo, não podem estar livres das moléstias da carne; o fato de seu rosto estar coberto com um sudário significa que nesta vida não podemos ter conhecimento pleno; e quando diz "soltai-o e deixai-o ir", isto significa que após esta vida serão removidos todos os véus, para que vejamos face a face.
Ou de outro modo. Quando desprezas, jazes morto; quando confessas, sais para fora. Pois o que é sair para fora, senão como que saindo do oculto manifestar-se? Mas para que confesses, Deus o faz, clamando com grande voz, isto é, chamando com grande graça. O morto que sai, porém, ainda está amarrado, o que confessa ainda é réu; mas para que seus pecados fossem absolvidos, disse isto aos ministros: soltai-o e deixai-o ir; o que significa: o que desligardes sobre a terra será desligado também nos céus.
Contudo, não diziam: creremos; pois estes homens perdidos pensavam mais em como prejudicar e destruir, do que em como cuidar de si para não perecerem; e, no entanto, temiam e como que deliberavam: diziam, pois, que faremos, já que este homem faz muitos sinais?
Ou temeram que, se todos cressem em Cristo, ninguém permaneceria para defender a cidade de Deus e o templo contra os romanos, pois sentiam que a doutrina de Cristo era contra o próprio templo e contra suas leis paternas. Assim, temeram perder as coisas temporais e não pensaram na vida eterna. E perderam ambas, pois os romanos, após a paixão e glorificação do Senhor, tomaram-lhes tanto o lugar quanto a nação, subjugando um pelo cerco e dispersando a outra.
Pode causar estranheza como ele é chamado de pontífice daquele ano, uma vez que o Senhor estabeleceu um único sumo sacerdote, a quem, após sua morte, um outro sucederia. Mas deve-se entender que, devido às ambições e disputas entre os judeus, posteriormente foi estabelecido que houvesse vários pontífices, que exerciam o ministério em turnos anuais; e talvez até mesmo em um só ano vários administravam, aos quais outros sucediam no ano seguinte.
Aqui aprendemos que até mesmo os homens maus podem predizer coisas futuras pelo espírito de profecia, poder que o Evangelista atribui a um divino sacramento, por ser ele Pontífice, isto é, Sumo Sacerdote.
Caifás, portanto, profetizou somente sobre a nação judaica, na qual estavam as ovelhas, das quais o próprio Senhor disse: "Não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel". Mas o Evangelista sabia que havia outras ovelhas, que não eram deste aprisco, as quais era necessário conduzir; e por isso acrescentou: "e não somente pela nação, mas para que os filhos de Deus, que estavam dispersos, congregasse em um". Estas coisas, porém, foram ditas segundo a predestinação: pois nem suas ovelhas, nem filhos de Deus ainda eram.
Não porque seu poder tivesse falhado, pois, se quisesse, poderia ter conversado abertamente com os judeus, e nada lhe fariam; mas mostrou este exemplo aos discípulos, pelo qual ficaria evidente não ser pecado se os seus fiéis se subtraíssem aos olhos dos perseguidores e, escondendo-se, preferissem evitar o furor dos perversos, em vez de o acender mais, mostrando-se a eles.
Aquele, porém, que viera do céu para padecer, quis aproximar-se do lugar da Paixão, porque a hora da Paixão estava iminente; por isso segue estando próxima a Páscoa dos judeus. Os judeus tinham a Páscoa na sombra, nós na luz: com o sangue do animal sacrificado foram assinalados os batentes das portas dos judeus; com o sangue de Cristo são assinaladas as nossas frontes. Os judeus quiseram tornar aquele dia festivo ensanguentado com o sangue do Senhor; naquele dia festivo foi sacrificado o cordeiro, que consagrou o mesmo dia de festa com o seu sangue. Havia um mandamento na lei para os judeus de que, no dia festivo, quando era a Páscoa, todos de toda parte se reunissem e fossem santificados pela celebração daquele dia; por isso segue e muitos subiram a Jerusalém da região antes da Páscoa para santificarem a si mesmos.
Mas nós mostraremos aos judeus onde Ele está. Queira Deus que eles queiram ouvir e O apreender.
Ele vivia, falava, banqueteava-se; a verdade era manifesta, a infidelidade dos judeus era confundida.
A expressão pistici deve ser considerada como o nome de algum lugar, de onde provinha este precioso unguento.
O fato de que Ele fez isto novamente em Betânia é algo distinto que não pertence à narrativa de São Lucas, mas é narrado igualmente pelos três, a saber, São João, São Mateus e São Marcos. Quanto ao fato de que São Mateus e São Marcos dizem que o ungüento foi derramado sobre a cabeça do Senhor, enquanto São João diz que foi sobre os pés, devemos entender que a mulher perfumou não só a cabeça, mas também os pés do Senhor. São Mateus e São Marcos, recapitulando, retornam àquele dia em Betânia, que era seis dias antes da Páscoa, e narram o que São João diz sobre a ceia e o ungüento. Segue-se que "a casa encheu-se com o odor do ungüento".
Recorda o Apóstolo, que diz: "Para uns somos odor de vida para vida, para outros somos odor de morte para morte"(2 Coríntios 2,16); finalmente, ouvirás daqui, a respeito deste unguento, como era para uns bom odor para vida, e para outros mau odor para morte; donde segue: "Disse então um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, aquele que havia de traí-lo".
Quando outros dizem que os discípulos murmuraram sobre o derramamento do precioso unguento, enquanto São João menciona apenas Judas, penso que pelo nome de discípulos se quis significar Judas, usando o plural pelo singular. Pode-se também entender que outros discípulos ou sentiram isto, ou o disseram, ou foram persuadidos pelo que Judas disse, e São Mateus e São Marcos expressaram com palavras a vontade de todos; mas Judas o disse porque era ladrão, enquanto os outros por causa do cuidado com os pobres. São João, porém, quis mencionar apenas aquele cuja prática de roubar ele acreditou que deveria ser revelada nesta ocasião; pois segue: disse isto, não porque se importasse com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, carregava o que nela se depositava.
Judas não pereceu quando recebeu dinheiro dos judeus para entregar o Senhor: já era ladrão, já perdido, seguia o Senhor não com o coração, mas com o corpo. Por isso o Senhor quis nos admoestar a tolerar os maus, para não dividirmos o corpo de Cristo. Quem rouba algo da Igreja, é comparado a Judas, o perdido. Tolera o mau, tu que és bom, para que chegues à recompensa dos bons, para que não sejas lançado no castigo dos maus. Tomai o exemplo do Senhor que vivia na terra. Por que tinha bolsas aquele a quem os Anjos serviam, senão porque a sua Igreja haveria de ter bolsas? Por que admitiu ladrões, senão para que a sua Igreja, enquanto sofre, tolerasse os ladrões? Mas aquele que costumava tirar dinheiro das bolsas, não hesitou, depois de receber o dinheiro, em vender o próprio Senhor.
Ele falava da presença do seu corpo: pois segundo a sua majestade, segundo a sua providência, segundo a sua graça inefável e invisível, cumpre-se o que foi dito por ele: "eis que eu estou convosco até a consumação do século". Ou de outro modo: Na pessoa de Judas estão significados os maus na Igreja: pois se és bom, tens Cristo tanto no presente pela fé e pelo sacramento, e o terás sempre: porque quando daqui saíres, irás para aquele que disse ao ladrão: "hoje estarás comigo no Paraíso". Mas se te comportas mal, pareces ter Cristo no presente, porque és batizado com o Batismo de Cristo, aproximas-te do altar de Cristo; mas vivendo mal não o terás sempre. Ele não disse: tens, mas tereis, porque um mau significa o corpo dos maus. Segue-se "conheceu, portanto, uma grande multidão dos judeus que ele estava ali, e vieram, não por causa de Jesus somente, mas para verem a Lázaro, a quem ressuscitou dos mortos". A curiosidade os trouxe, não a caridade.
Como, na verdade, tão grande milagre do Senhor havia sido divulgado com tamanha evidência, de modo que não pudessem nem ocultar o que foi feito, nem negar, pensaram em matar Lázaro; por isso segue: cogitaverunt autem principes sacerdotum ut et Lazarum interficerent [pensaram, porém, os príncipes dos sacerdotes em matar também a Lázaro]. Ó cega crueldade! Como se o Senhor pudesse ressuscitar um morto, e não pudesse ressuscitar um assassinado. Eis que o Senhor fez ambas as coisas: ressuscitou Lázaro morto, e ressuscitou a si mesmo depois de morto.
O unguento com que Maria ungiu os pés de Jesus foi a justiça, por isso era uma libra. Era um unguento de nardo pistici precioso. Pistis em grego, em latim se diz fé. Buscavas praticar a justiça? O justo vive da fé. Unge os pés de Jesus vivendo bem, segue os passos do Senhor, enxuga com os cabelos; se tens coisas supérfluas, dá aos pobres, e terás enxugado os pés do Senhor: pois os cabelos parecem ser a parte supérflua do corpo.
A casa encheu-se com o odor; o mundo encheu-se com a boa fama.
Quão grande foi o fruto da Sua pregação, e quão numeroso rebanho de ovelhas dentre aquelas que estavam perdidas da casa de Israel escutou a voz do pastor, deve-se considerar a partir do que é dito: "No dia seguinte, uma grande multidão que havia vindo para a festa, quando ouviu que Jesus estava chegando a Jerusalém, tomou ramos de palmeiras" e assim por diante. Os ramos de palmeiras são louvores, significando a vitória pela qual o Senhor haveria de superar a morte morrendo, e triunfar sobre o Diabo, príncipe da morte, pelo troféu da cruz.
Hosanna é uma voz de súplica, indicando mais um sentimento afetivo do que significando alguma coisa, assim como são na língua latina as que chamam de interjeições.
Que grande coisa foi para o Rei dos séculos tornar-se Rei dos homens? Pois Cristo não foi Rei de Israel para cobrar tributos ou armar exércitos com ferro; mas Rei de Israel para governar as mentes e conduzi-las ao reino dos céus. Portanto, o fato de haver querido ser Rei de Israel foi uma condescendência, não uma promoção; um sinal de misericórdia, não um aumento de poder; pois aquele que foi chamado na terra de Rei dos judeus, nos céus é o Senhor dos Anjos.
Isto é brevemente dito: pois de que modo foi feito, lê-se plenamente nos outros Evangelistas. Entendemos pelo jumentinho da jumenta, no qual ninguém se havia sentado (isto se encontra nos outros Evangelistas), o povo dos gentios, que não havia recebido a lei do Senhor; pela jumenta, porém (pois ambos foram conduzidos ao Senhor), o povo que vinha do povo de Israel.
Aplica-se a este fato o testemunho profético, para que se torne evidente que os príncipes malignos dos judeus não compreendiam aquele no qual se cumpria aquilo que liam; por isso segue-se, como está escrito: "Não temas, filha de Sião: eis que o teu Rei vem a ti, sentado sobre um jumentinho". Naquele povo estava a filha de Sião: ela é Jerusalém, que é Sião, à qual se diz: não temas aquele que é louvado por ti; e não tremas quando ele padecer, porque aquele sangue é derramado pelo qual teu delito será apagado e tua vida resgatada.
Isto é, quando mostrou a virtude de sua ressurreição, então se recordaram que estas coisas estavam escritas sobre Ele, e que estas coisas fizeram a Ele, isto é, não outras senão aquelas que estavam escritas sobre Ele.
A multidão perturbou a multidão. Por que, porém, a multidão cega inveja, porque o mundo segue aquele por quem o mundo foi feito?
Eis que os judeus querem matá-lo, os gentios querem vê-lo; mas também havia aqueles dentre os judeus que clamavam: bendito o que vem em nome do Senhor. Eis aqueles da circuncisão, aqueles do prepúcio, como duas paredes vindas de lados diferentes, e convergindo em uma só fé em Cristo pelo ósculo da paz. Segue-se veio Filipe, e disse a André.
Ouçamos, pois, a voz da pedra angular; donde segue: Jesus, porém, respondeu-lhes, dizendo: chegou a hora para que o Filho do homem seja glorificado. Talvez alguém pense que Ele tenha dito ser glorificado porque os gentios queriam vê-lo. Não é assim; mas Ele via que os gentios, após sua paixão e ressurreição, acreditariam Nele em todas as nações. Por ocasião, pois, destes gentios que desejavam vê-lo, anuncia a futura plenitude das nações, e promete que já está próxima a hora de sua glorificação, a qual, consumada nos céus, faria com que as nações viessem a crer, conforme aquilo: "Sê exaltado, ó Deus, sobre os céus, e sobre toda a terra a tua glória". Mas foi necessário que à sublimidade da glorificação precedesse a humildade da paixão; por isso acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, permanece só; mas se morrer, produz muito fruto. Referia-se a si mesmo como o grão que seria mortificado na infidelidade dos judeus, e multiplicado na fé dos povos.
Isto pode ser entendido de dois modos: quem ama, perderá; isto é: se amas, perderás: se desejas conservar a vida em Cristo, não temas a morte por Cristo. Do mesmo modo, de outra maneira: quem ama a sua alma, perdê-la-á. Não a ames nesta vida, para não a perderes na vida eterna. Isto, porém, que disse posteriormente, parece ter mais o sentido evangélico; pois segue-se: e quem odeia a sua alma neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna. Logo, o que foi dito acima, quem ama, subentende-se neste mundo.
Mas cuida para que não te assalte a tentação de querer matar a ti mesmo, entendendo assim que deves odiar a tua alma neste mundo; pois disto alguns homens malignos e perversos, homicidas, entregam-se às chamas, afogam-se nas águas, despedaçam-se lançando-se de precipícios e perecem. Isto Cristo não ensinou; pelo contrário, ao diabo que lhe sugeria que se lançasse de um precipício, respondeu: "Vai-te, Satanás". Portanto, quando chegar o momento decisivo, em que te seja proposta esta condição: ou agir contra o preceito de Deus, ou partir desta vida, ameaçando-te o perseguidor com a morte, então odiarás a tua alma neste mundo, para guardá-la para a vida eterna.
Qual seja servir a Cristo, encontramos nas próprias palavras, quando diz "se alguém me serve". Servem, portanto, a Jesus os que não buscam as suas próprias coisas, mas as de Jesus Cristo; pois isto é "que me siga": que caminhe por minhas vias, não pelas suas; não apenas fazendo as obras que pertencem à misericórdia corporal, mas todas as boas obras por causa de Cristo, até aquela obra de grande caridade, que é dar a vida pelos irmãos. Mas com qual fruto, com qual recompensa? Segue-se "e onde eu estou, lá também estará o meu servidor". Que seja amado gratuitamente, para que o prêmio da obra com que a Ele se serve seja estar com Ele.
Por isto se entende que explicou o que acima havia dito "ali também estará o meu ministro": porque, que maior honra pode receber o filho adotivo do que estar onde está o Único?
Ouço quem neste mundo odeia a sua alma, guarda-a para a vida eterna: e me inflamo para desprezar o mundo, e diante de mim nada é toda esta vida, por mais longa que seja, é um vapor; por amor das coisas eternas, todas as coisas temporais se tornam vis para mim; e de novo ouço o Senhor dizendo: agora minha alma está turbada. Mandas que minha alma te siga; mas vejo tua alma turbada: que fundamento buscarei se a pedra sucumbe? Reconheço, Senhor, tua misericórdia: pois tu que te turbas por vontade de caridade, consolas a muitos em teu corpo que se turbam pela necessidade de sua fraqueza, para que não pereçam desesperando. Em si, portanto, nossa cabeça tomou o afeto de seus membros; e por isso não foi turbado por alguém; mas, como foi dito dele: turbou-se a si mesmo.
Por fim, o homem que quer seguir, ouça em que hora deve seguir. Chegou talvez a hora terrível: apresenta-se a opção ou de cometer a iniquidade, ou de suportar o sofrimento. A alma débil se turba; ouça, pois, o que acrescenta: "E que direi?"
Ele te ensinou a quem deves invocar, e cuja vontade deves antepor à tua vontade. Não te pareça por isso que Ele esteja distante do alto, porque quer que tu progridas desde o princípio. Ele assumiu a enfermidade do homem para ensinar ao aflito a dizer: "Não o que eu quero, mas o que tu queres"; de onde se segue: "Mas por isso vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome", isto é, na sua paixão e ressurreição.
Glorifiquei, diz, antes de fazer o mundo, e de novo glorificarei, quando ressuscitar dos mortos. Ou de outro modo: Glorifiquei, quando nasceu da virgem, quando fez muitos milagres, quando descendo o Espírito Santo em forma de pomba foi manifestado; e de novo glorificarei, quando ressuscitar dos mortos, quando for exaltado acima dos céus como Deus e quando a sua glória estiver acima de toda a terra. Segue-se: "A multidão, pois, que estava de pé e tinha ouvido, dizia que havia ocorrido um trovão".
Aqui ele mostra que, por aquela voz, não foi indicado a Ele o que já sabia, mas àqueles a quem era necessário indicar. E assim como aquela voz não foi feita por causa dele, mas por causa deles; da mesma forma, sua alma não se turbou por causa dele mesmo, mas por causa deles.
O juízo que se espera para o fim será de prêmios e penas eternas. Diz-se também juízo não de condenação, mas de discernimento: a isto chamava aqui juízo, ou seja, discernimento e expulsão do Diabo dos seus redimidos; por isso segue agora o príncipe deste mundo será lançado fora. Longe de nós pensar que o Diabo seja chamado príncipe do mundo de tal modo que acreditemos que ele possa dominar o céu e a terra; mas o mundo é designado nos homens maus que estão espalhados por toda a terra. Assim, portanto, é dito príncipe deste mundo, isto é, príncipe dos homens maus que habitam no mundo. Também é chamado mundo com relação aos bons, que igualmente estão espalhados por toda a terra; por isso diz o Apóstolo: Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo. Estes são aqueles de cujos corações o príncipe do mundo será lançado fora. Pois o Senhor previa que, após sua paixão e glorificação, muitos povos por todo o mundo iriam crer, em cujos corações o Diabo estava dentro, e quando pela fé o renunciam, ele é lançado fora. Mas acaso ele não foi lançado fora dos corações dos antigos justos? Como, então, é dito agora será lançado fora, senão porque o que então foi feito em pouquíssimos homens, agora foi predito que em breve aconteceria em muitos e grandes povos? O que diz então alguém: porque o Diabo é lançado fora, já não tenta a nenhum dos fiéis? Pelo contrário, não cessa de tentar; mas uma coisa é reinar interiormente, outra é atacar exteriormente.
Mas que coisas são todas estas que atrai, senão aquelas das quais o Diabo é expulso para fora? E não disse: todos, mas todas as coisas, pois nem todos têm fé. Portanto, não se referiu à universalidade dos homens, mas à integridade da criatura, isto é, ao espírito, à alma e ao corpo; àquilo pelo qual entendemos, pelo qual vivemos, pelo qual somos visíveis; ou se por "todas as coisas" devemos entender os próprios homens, podemos dizer que são todos os predestinados à salvação; ou certamente todos os gêneros de homens segundo as inumeráveis diferenças pelas quais os homens se distinguem entre si, exceto somente pelos pecados.
Mas, "se eu for", diz, "levantado da terra"; isto é, quando for levantado; pois não duvida que haveria de acontecer aquilo que veio cumprir: porque chamou à sua exaltação a paixão na cruz; razão pela qual o Evangelista acrescenta: "E isto dizia, significando de que morte havia de morrer".
Quando os judeus compreenderam que o Senhor havia falado de sua morte, propuseram-lhe uma questão sobre como ele dizia que iria morrer; por isso diz-se: Respondeu-lhe a multidão: Nós ouvimos da Lei que o Cristo permanece para sempre; como tu dizes: É necessário que o Filho do homem seja exaltado? Eles lembraram com precisão que o Senhor frequentemente dizia ser o Filho do homem: pois neste lugar ele não disse: 'Se o Filho do homem for exaltado'; mas anteriormente havia dito: 'É chegada a hora em que o Filho do homem seja glorificado'. Mantendo isso, portanto, em mente, perguntam: Se o Cristo permanece para sempre, como será exaltado da terra; isto é, como morrerá pela paixão da cruz?
Ou entendiam que Ele disse isso por preverem o que eles pretendiam fazer. Portanto, não foi a sabedoria infusa que lhes revelou a obscuridade destas palavras, mas a consciência estimulada.
Ou de outro modo. Uma pequena luz está em vós, por isto que entendeis que Cristo permanece eternamente; portanto caminhai, aproximai-vos, compreendei tudo, tanto que Cristo morrerá quanto viverá eternamente, enquanto tendes a luz.
A saber, se credes na eternidade de Cristo de tal modo que negueis a humildade de sua morte. Segue-se: "E o que caminha nas trevas não sabe para onde vai".
Isto é, enquanto tendes algo de verdade, crede na verdade, para que renasçais para a verdade; de onde segue que sejais filhos da luz.
Não daqueles que começaram a crer e a amar, mas daqueles que viam e invejavam. E quando Ele se ocultou, atendeu à nossa fraqueza, não diminuiu o Seu poder.
Ele demonstrou suficientemente que o braço do Senhor é chamado o próprio Filho de Deus: não porque Deus Pai está contido na figura da carne humana, mas porque todas as coisas foram feitas por Ele, por isso foi chamado o braço do Senhor. Pois se algum homem prevalecesse com tanto poder que, sem qualquer movimento de seu corpo, o que dissesse se realizasse, sua palavra seria seu braço. Não há, entretanto, ocasião para erro àqueles que dizem que só o Pai existe, se o Filho é o Seu braço (pois não são duas, mas uma pessoa é o homem e seu braço), não compreendendo como as palavras são transferidas de umas coisas para outras por causa de alguma semelhança. Alguns, porém, murmuram entre si: qual foi a culpa dos judeus, se era necessário que a palavra de Isaías se cumprisse? A estes respondemos que Deus, conhecedor das coisas futuras, predisse pela boca do profeta a infidelidade dos judeus, mas não a causou; pois Deus não força ninguém a pecar porque conhece de antemão os pecados futuros dos homens: Ele previu os pecados deles, não os Seus. Os judeus, portanto, cometeram o pecado que Aquele a quem nada está oculto predisse que cometeriam.
Mas as coisas que se seguem propõem uma questão mais profunda; pois acrescenta e diz: por isso não podiam crer, porque, como disse Isaías novamente: cegou os olhos deles e endureceu o coração deles, para que não vejam com os olhos, e não entendam com o coração, e se convertam, e eu os cure. Pois se não podiam crer, que pecado há no homem que não faz o que não pode fazer? E, o que é mais grave, a causa é atribuída a Deus, visto que Ele mesmo cegou os olhos deles e endureceu o coração deles; pois isto não é dito ao menos do Diabo, mas de Deus. Mas por que não podiam crer? Respondo: porque não queriam. Assim como o fato de que o Senhor não pode negar-se a si mesmo é louvor da vontade divina, assim também o fato de que eles não podiam crer é culpa da vontade humana.
Mas, dizes, o profeta indica outra causa, não a vontade deles: porque cegou os olhos deles e endureceu o coração deles. Mas a isto respondo que mesmo isto foi merecido pela vontade deles. Pois Deus cega e endurece abandonando e não ajudando; o que pode fazer por um juízo oculto, mas não pode fazer por um juízo iníquo.
E quando acrescentou "e convertam-se, e eu os sare", deve-se subentender o 'não', isto é, para que não se convertam? Pois, na verdade, a conversão é um efeito da graça divina; ou talvez deva-se entender isso como um ato da misericórdia do médico supremo, para que, como queriam estabelecer orgulhosamente sua própria justiça, fossem ainda mais abandonados e cegados, para tropeçarem na pedra de tropeço, e suas faces fossem cobertas de ignomínia, e assim humilhados buscassem não a sua própria justiça, que infla o soberbo, mas a justiça de Deus, que justifica o ímpio? Isto, de fato, serviu para o bem de muitos deles que, compungidos de seu crime, depois creram em Cristo. Segue-se: "Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou a respeito dele". Viu, porém, não como Ele é, mas de um modo simbólico, conforme a visão profética precisava ser formada. Ninguém, portanto, vos engane entre aqueles que dizem que o Pai é invisível e o Filho visível, julgando que Ele é uma criatura: pois na forma de Deus, na qual é igual ao Pai, também o Filho é invisível; mas para ser visto pelos homens, tomou a forma de servo. Ele também se mostrou, antes de assumir a carne, aos olhos dos homens, como quis, em uma criatura sujeita, não como Ele é em si mesmo.
O Evangelista, portanto, reprovava aqueles que, se progredissem neste caminho da fé por amor, superariam, ao progredir, as coisas que são da glória humana.
Porque embora aparecesse como homem diante dos homens, enquanto Deus permanecia oculto, para que não pensassem que Ele era apenas o que viam, e querendo que acreditassem n'Ele como sendo igual e tão grande quanto o Pai, diz: "Quem crê em mim, não crê em mim", isto é, naquilo que vê, "mas naquele que me enviou", isto é, no Pai. Pois se alguém pensar que Ele tem filhos segundo a graça, mas não tem um Filho igual e coeterno a Ele, não crê no Pai que O enviou, porque não é este o Pai que O enviou. E para que não pensassem que Ele queria que entendessem o Pai como gerador de muitos filhos pela graça, e não do único Verbo igual a Ele, imediatamente acrescentou: "Quem me vê, vê aquele que me enviou"; como se dissesse: Tão nenhuma distância há entre Ele e mim, que quem me vê, vê aquele que me enviou. Certamente o próprio Senhor enviou seus apóstolos; no entanto, nenhum deles jamais ousaria dizer: "Quem crê em mim". Pois cremos no apóstolo, mas não cremos em um apóstolo. O Filho Unigênito, porém, diz corretamente: "Quem crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou"; com isto não afastou de si a fé do crente, mas não quis que o crente permanecesse na forma de servo.
No qual Ele manifesta claramente que encontrou a todos nas trevas. Mas para que não permaneçam nas trevas em que foram encontrados, devem crer na luz que veio ao mundo. Disse em certo lugar aos seus discípulos: "Vós sois a luz do mundo"; contudo, não lhes disse: vós, luz, viestes ao mundo, para que todo aquele que crê em vós não permaneça nas trevas. Luzes, portanto, são todos os santos; mas crendo são iluminados por Aquele do qual se alguém se afastar, cairá em trevas.
Deve-se entender: "agora não o julgo"; uma vez que em outro lugar diz: "o Pai deu todo o julgamento ao Filho". Por que não julga agora, mostra acrescentando: "Não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo"; isto é, para fazer o mundo salvo. Agora, portanto, é tempo de misericórdia, depois será de juízo.
Ele não diz: Eu não o julgarei no último dia, pois isto seria contrário àquela sentença: "Deu todo o julgamento ao Filho". E enquanto esperavam saber quem seria aquele, prosseguiu acrescentando: "A palavra que falei, ela o julgará no último dia". Manifestou claramente que Ele mesmo julgará no último dia, pois falou de si mesmo e anunciou a si mesmo. De um modo, portanto, serão julgados os que não ouviram; de outro modo, os que ouviram e desprezaram.
Por isso o verbo que o Filho falou julga, porque o Filho não falou por si mesmo; por isso segue: Porque eu não falei por mim mesmo; pelo que ele quis dar a entender: eu não nasci de mim mesmo. Pergunto, então, como entendemos: Eu não julgarei, mas a palavra que falei julgará; quando ele mesmo é o Verbo do Pai que fala. Ou assim: Eu não julgarei pelo poder humano, porque sou o Filho do homem, mas eu julgarei pelo poder do Verbo de Deus, porque sou o Filho de Deus.
O Pai não deu o mandamento porque o Filho não o tivesse; mas na sabedoria do Pai, que é o Verbo do Pai, estão todos os mandamentos do Pai. Diz-se, porém, que o mandamento foi dado, porque aquele a quem é dito ter sido dado não o tem de si mesmo; e dar ao Filho aquilo sem o qual o Filho nunca existiu é o mesmo que gerar o Filho que jamais não existiu.
Se, portanto, a vida eterna é o próprio Filho, e o mandamento é a vida eterna, que outra coisa foi dita senão que eu sou o mandamento do Pai? Por isso também o que acrescenta: o que eu falo, assim como o Pai me disse, assim eu falo, não entendamos me disse como se falasse por palavras ao único Verbo. O Pai, portanto, disse ao Filho aquilo sem o qual o Filho nunca existiu, assim como deu vida ao Filho: não porque não sabia ou não tinha, mas porque era o próprio Filho. O que é, portanto, assim como o Pai me disse, assim eu falo, senão eu, que sou o Verbo, falo? Assim, aquele disse como o veraz, assim este fala como a verdade; o veraz, porém, gerou a verdade: que diria, então, à verdade? Pois não era imperfeita a verdade, à qual se pudesse acrescentar algo verdadeiro.
Páscoa não é, como alguns pensam, um nome grego, mas hebraico; oportunissimamente, porém, ocorre neste nome uma certa congruência de ambas as línguas: pois como em grego padecer diz-se paschin, por isso Páscoa foi entendida como paixão, como se este nome fosse derivado de paixão; mas em sua própria língua, isto é, na hebraica, Páscoa significa passagem, porque então o povo de Deus celebrou a primeira Páscoa quando, fugindo do Egito, atravessaram o mar Vermelho1. Agora, portanto, aquela figura profética se cumpriu na verdade, quando Cristo é conduzido como um cordeiro ao sacrifício, com cujo sangue, ungidas as nossas portas, isto é, com cujo sinal da cruz marcadas as nossas frontes, somos libertados da perdição deste mundo, como que do cativeiro egípcio, e realizamos uma passagem extremamente salutar, quando passamos do Diabo para Cristo, e deste mundo instável para o seu reino solidíssimo. Assim, o Evangelista, como que interpretando para nós este nome, isto é, Páscoa, diz: "sabendo que chegara a sua hora para passar deste mundo ao Pai". Eis a Páscoa, eis a passagem.
[1] Os judíos celebraram pela primeira vez quando, saindo do Egito, atravessaram o mar Vermelho. ↩
Ou, de outro modo, os amou até o fim, para que eles mesmos, por amor, pudessem passar deste mundo para sua cabeça. Pois o que é até o fim, senão até Cristo? Porque o fim da lei é Cristo para justificação de todo aquele que crê(Romanos 10,4), fim que aperfeiçoa, não que aniquila. Vejo, porém, que estas palavras podem também ser entendidas de modo humano, como se Cristo tivesse amado os seus até a morte. Mas longe esteja que tenha terminado pelo amor pela morte Aquele que não foi terminado pela morte: a não ser talvez que deva ser entendido assim: amou-os até a morte, isto é, o próprio amor o conduziu até a morte. Segue-se e feita a ceia, isto é, já preparada e colocada à mesa para uso dos que ceavam. Pois não devemos entender ceia feita como já consumada e terminada; ainda se ceava quando se levantou e lavou os pés dos discípulos; pois depois reclinou-se de novo e deu o bocado ao traidor. Quanto ao que diz tendo já o diabo metido no coração que Judas Iscariotes, filho de Simão, o traísse, esta introdução é uma sugestão espiritual e não se faz pelo ouvido, mas pelo pensamento; pois as sugestões diabólicas são introduzidas e misturadas aos pensamentos humanos. Já estava feito, portanto, no coração de Judas, por introdução diabólica, que o discípulo traísse o mestre.
O Evangelista, estando prestes a relatar tão grande exemplo da humildade de Nosso Senhor, recorda-nos primeiramente sua excelsa natureza: "sabendo que o Pai lhe havia entregado todas as coisas nas mãos", sem excetuar o próprio traidor.
Sabendo também que saiu de Deus, e vai para Deus, nem deixando a Deus quando dali saiu, nem nos abandonando quando regressar
Tendo, pois, o Pai posto todas as coisas em suas mãos, Ele lavou não as mãos dos seus discípulos, mas os pés; e sabendo que havia saído de Deus e que ia para Deus, desempenhou o ofício não de Deus e Senhor, mas de homem e servo.
Ele pôs seus vestidos de lado, aquele que, estando na forma de Deus, esvaziou-se a si mesmo; cingiu-se com um pano de linho, aquele que tomou a forma de servo; deitou água numa bacia para lavar os pés dos discípulos, aquele que na terra derramou seu sangue, para limpar a imundície dos pecados; com o pano de linho com que estava cingido, enxugou os pés que havia lavado, aquele que com a carne de que estava revestido, fortaleceu os passos dos Evangelistas; e para cingir-se com o pano de linho, pôs de lado as vestes que tinha; porém, para tomar a forma de servo, quando se esvaziou a si mesmo, não depôs o que tinha, mas tomou o que não tinha; para ser crucificado, foi despojado de suas vestes, e morto foi envolto em panos de linho, e toda a sua paixão é nossa purificação.
O que é tu? O que é para mim? Estas coisas devem ser mais pensadas do que ditas; para que não aconteça que aquilo que a alma, de algum modo, concebeu dignamente a partir destas palavras, a língua não consiga explicar.
Ou de outro modo. Não devemos pensar que Pedro, entre os demais, temeu e recusou, como se os outros antes dele tivessem permitido de bom grado ou com serenidade que isto fosse feito; pois não se deve entender que já havia lavado alguns, e depois deles tivesse vindo ao primeiro: quem não sabe que o primeiro dos apóstolos é o bem-aventurado Pedro? Mas que começou por ele. Quando, portanto, começou a lavar os pés dos discípulos, veio àquele por quem começou, isto é, a Pedro; e então Pedro se assustou; o que qualquer um deles também teria se assustado. Segue-se: respondeu Jesus e disse-lhe: o que eu faço, tu não sabes agora, mas saberás depois.
Todavia, aquele que ficou surpreso diante da grandeza do ato do Senhor, não permite que seja feito aquilo cuja razão desconhecia; mas não podia suportar ver Cristo humilde até os seus pés; pois segue-se: Pedro lhe diz: Não me lavarás os pés jamais; isto é, nunca permitirei isto. Pois aquilo que jamais se faz é o mesmo que nunca se faz.
Assim foi dito: se eu não te lavar, quando se falava apenas dos pés, do mesmo modo que se costuma dizer: tu me pisas, quando apenas a planta do pé é pisada.
Mas ele, perturbado pelo amor e pelo temor, temeu mais que Cristo lhe fosse negado do que vê-lo até humilhado aos seus pés; donde segue: Simão Pedro lhe diz: Senhor, não apenas os pés, mas também as mãos e a cabeça.
Todo, exceto os pés, ou a não ser os pés, os quais necessita lavar: pois o homem no Batismo é todo lavado, não exceto os pés, mas inteiramente todo; contudo, quando depois vive nas coisas humanas, certamente pisa na terra. Portanto, os próprios afetos humanos, sem os quais não se vive nesta mortalidade, são como os pés, pelos quais somos afetados pelas coisas humanas, de modo que, se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos(1 São João 1,8). Mas se confessamos nossos pecados, Aquele que lavou os pés dos discípulos, perdoa-nos os pecados até os pés, com os quais conversamos na terra.
Pelo que aqui se diz, entende-se que São Pedro já havia sido batizado; entendemos também que seus discípulos, por meio dos quais batizava, já haviam sido batizados, seja com o Batismo de São João, como alguns consideram, seja, o que é mais provável, com o Batismo de Cristo. Pois Ele não rejeitou o ministério de batizar, a fim de ter servos batizados por meio dos quais batizasse os demais, Aquele que não faltou ao ministério da humildade quando lhes lavou os pés; por isso segue: "E vós estais limpos, mas nem todos".
Não perguntemos o que isto seja, pois o próprio Evangelista o revelou acrescentando: "Pois sabia quem era aquele que o havia de entregar"; por isso disse: "Nem todos vós estais limpos".
Ou os próprios discípulos, quando estavam lavados, não tinham necessidade senão de lavar os pés; porque enquanto o homem vive neste mundo, atrai para si a terra, como que pisando com os pés, por meio de seus afetos humanos.
O Senhor, recordando-se de ter prometido a Pedro o conhecimento do seu feito, dizendo: "saberás depois" o que fiz, começa agora a ensiná-lo; por isso diz: "Depois que lavou os pés deles, tomou as suas vestes, e tendo se reclinado novamente, disse-lhes: Sabeis o que vos fiz?"
Ao homem foi ordenado: "Não te louve a tua própria boca, mas louve-te a boca do teu próximo"; porque é perigoso agradar-se a si mesmo, quando se deve evitar a soberba. Mas Aquele que está acima de todas as coisas, por mais que se louve, não se exalta demasiadamente. Nem se pode corretamente chamar a Deus de arrogante, pois a nós é proveitoso conhecer a Deus, não a Ele; e ninguém O conhece se Ele próprio, que se conhece, não se revelar. Se, portanto, querendo evitar a aparência de arrogância, Ele se abstivesse de louvar-se a si mesmo, estaria nos negando a sabedoria. Como pode a verdade temer a arrogância? E certamente, quando Ele se chama de mestre, ninguém o censuraria, mesmo aqueles que nada mais veem nele que um homem; pois isso é o que os próprios homens professam sem arrogância nas diversas artes, tanto que são chamados de professores. Mas quanto a chamar-se Senhor dos seus discípulos, quando estes são livres segundo o mundo, quem poderia tolerar isso em um homem? Mas quando Deus fala, não há exaltação nesta sublime altura, nem mentira na verdade: é útil para nós submeter-nos àquela grandeza e servir à verdade. Por isso, "dizeis bem chamando-me Mestre e Senhor, porque assim o sou"; pois se eu não fosse o que dizeis, mal diríeis.
Isto é, bem-aventurado Pedro, o que tu ignoravas; isto que te prometeu que depois haverias de saber.
Existe entre muitos o costume desta humildade, quando mutuamente se recebem em hospedagem, e os irmãos fazem isto uns aos outros, inclusive pela própria obra visível. Pois é muito melhor e, sem controvérsia, mais verdadeiro, que também se faça com as próprias mãos, para que o cristão não se desdigne de fazer o que Cristo fez. Pois quando o corpo se inclina aos pés de um irmão, também no próprio coração se desperta ou, se já existia, se confirma o sentimento de humildade. Mas, além deste entendimento moral, acaso poderá um irmão purificar outro irmão do contágio do pecado? Confessemos, pois, uns aos outros os nossos pecados, perdoemos mutuamente as nossas faltas, e oremos uns pelos outros por nossos pecados; e assim, de certo modo, lavemos os pés uns dos outros.
Como dizendo: há entre vós quem não será bem-aventurado, nem faz estas coisas. Eu sei a quem escolhi. A quem, senão àqueles que serão bem-aventurados, fazendo o que Ele ordena? Portanto, Judas não foi escolhido. O que significa, então, o que diz em outro lugar: "Não vos escolhi a vós os doze?" Acaso ele não foi escolhido para algo que era certamente necessário, mas não para a bem-aventurança, sobre a qual diz "bem-aventurados sereis se fizerdes estas coisas"?
O que significa, de fato, "levantará seu calcanhar contra Mim", senão que me pisoteará? Nisto alude-se a Judas, o traidor.
Aqueles, portanto, que haviam sido escolhidos comiam o Senhor; ele comia o pão do Senhor contra o Senhor: aqueles comiam a vida, ele a condenação. Pois "quem come indignamente", diz o apóstolo, "come o juízo para si mesmo"(1 Coríntios 11,29). Segue-se: "Desde agora vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que eu sou", a saber, aquele sobre quem aquela Escritura profetizou.
Os arianos, porém, quando ouvem isso, logo recorrem aos graus de seu dogma, dizendo: quanto o apóstolo dista do Senhor, tanto o Filho dista do Pai. Mas onde o Senhor disse: "eu e o Pai somos um", não deixou nenhuma suspeita de distância. Portanto, quando devemos entender estas palavras do Senhor "quem me recebe, recebe aquele que me enviou", que o Pai e o Filho são de uma mesma natureza, parecerá consequente, porque Ele disse "quem recebe aquele que eu enviar, a mim recebe", que o Filho e o apóstolo sejam de uma mesma natureza. Assim, poderia parecer que Ele disse: quem recebe aquele que eu enviar, a mim segundo o homem recebe; quem, porém, a mim segundo Deus recebe, recebe aquele que me enviou. Mas quando dizia isso, não se recomendava a unidade de natureza, mas a autoridade de quem envia naquele que é enviado. Se, portanto, consideras Cristo em Pedro, encontrarás o preceptor no discípulo; se, porém, o Pai no Filho, encontrarás o Genitor do Unigênito.
Não lhe veio então isto pela primeira vez à mente; mas porque já havia de expor quem era o traidor, para que não ficasse oculto entre os demais, por isso turbou-se em espírito: e porque o mesmo traidor já estava prestes a sair, para trazer os judeus, aos quais o Senhor haveria de ser entregue por ele. Turbou-o a paixão iminente, e o perigo dos próximos, e as mãos ameaçadoras do traidor, cujo ânimo já era conhecido de antemão. O Senhor também Se dignou significar com sua turbação que, quando uma causa urgente obriga a separar alguns dentre os falsos irmãos, mesmo antes da colheita, não pode ser feito sem turbação da Igreja. Turbou-se, porém, não na carne, mas no espírito: o espírito, pois, em escândalos deste tipo, não se turba por perversidade, mas por caridade; para que, porventura, na separação de alguns joios, não seja desenraizado também algum trigo. Quer, portanto, compadecendo-se do próprio Judas que perecia, quer aproximando-se Sua morte, turbou-se; não por fraqueza de ânimo, mas por vontade turba-se: pois não se turba porque alguém o obriga, mas turbou-se a si mesmo, como foi dito acima. E pelo fato de que se turba, consola os fracos em seu corpo, isto é, em sua Igreja, para que, se alguns dos seus se turbam com a morte iminente, não se julguem réprobos.
Pereçam, pois, os argumentos dos estoicos, que negam que a perturbação dos ânimos ocorra no sábio; os quais, na verdade, assim como consideram a verdade como vaidade, também julgam o estupor como sanidade. Que se perturbe claramente o ânimo do cristão, não pela miséria, mas pela misericórdia. Diz, porém: "um de vós", pelo número, não pelo mérito; na aparência, não na virtude.
Assim também, neles havia para com o seu Mestre uma piedosa caridade, de modo que, contudo, a enfermidade humana os estimulava um a respeito do outro.
Este é João, cujo Evangelho é este, como depois se manifesta. Era, pois, costume daqueles que nos ministraram as sagradas escrituras, que quando a história divina fosse narrada por algum deles, ao chegar a si mesmo, falasse como se estivesse falando de outro. O que perde a verdade, quando a própria coisa é dita, e de algum modo a jactância de quem fala é evitada?
Deve-se notar o modo de falar, dizendo algo não por sons, mas apenas por meio de sinais: "faz sinais e diz", isto é, diz fazendo sinais. Se, pois, pensando se diz algo, como naquela passagem: "disseram entre si", quanto mais fazendo sinais, quando já se manifesta exteriormente, por meio de quaisquer tipos de sinais, aquilo que foi concebido no coração?
O que agora diz sobre o peito, pouco antes havia dito no seio. Ou, de outro modo: Primeiro, estando reclinado no seio de Jesus, elevou-se e inclinou-se sobre o peito; como se, não tendo-se inclinado sobre o peito, mas permanecido deitado no seio, de modo algum o Senhor lhe teria transmitido a palavra que Pedro desejava saber. Pelo fato, portanto, de que por último se inclinou sobre o peito, expressa-se, como por uma graça maior e mais abundante, que ele era o discípulo especial de Jesus.
Pois pelo seio, que outra coisa é significada senão o secreto? Este é, certamente, o seio do peito, o secreto recinto da sabedoria.
Ou entrou nele para possuí-lo já entregue a si mais plenamente: pois não é que não estivesse nele quando pactuou com os judeus sobre o preço para entregar o Senhor, como diz São Lucas: "E Satanás entrou em Judas; e ele foi e falou com os príncipes dos sacerdotes". Já assim ele tinha vindo para a ceia; mas depois do pão, entrou nele, não para tentar alguém ainda alheio, mas para possuir como próprio.
Alguns, porém, dizem: acaso o pão oferecido da mesa de Cristo mereceu isto, que depois dele Satanás entrasse no discípulo? A estes respondemos que somos ensinados, antes, o quanto se deve tomar cuidado ao receber mal o bem: pois se é repreendido aquele que não discerne, isto é, não distingue o corpo do Senhor dos demais alimentos, como deve ser condenado aquele que, fingindo-se amigo, aproxima-se como inimigo à mesa do Senhor? Segue-se: "E Jesus lhe diz: o que fazes, faze-o depressa".
Todavia, não ordenou o crime, mas o predisse; não tanto enfurecendo-se para a perdição do pérfido, quanto apressando-se para a salvação dos fiéis.
O Senhor, portanto, tinha bolsas, e conservava o que os fiéis lhe ofereciam, e distribuía para as necessidades dos seus e para outros indigentes. Então, pela primeira vez, foi instituída a forma da economia eclesiástica, para que entendêssemos que o preceito de não nos preocuparmos com o amanhã não foi ordenado para que nada de dinheiro seja guardado pelos santos; mas para que não se sirva a Deus por causa dessas coisas, e por medo da pobreza se abandone a justiça.
Ou de outra maneira. Saindo o imundo, todos permaneceram limpos com seu purificador. Algo semelhante acontecerá quando, separado o joio do trigo, os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. Prevendo isto, o Senhor, quando Judas se retirou, como joio separado, permanecendo os santos apóstolos como trigo, disse: "Agora o Filho do homem foi glorificado"; como se dissesse: Eis o que acontecerá na minha glorificação, onde não haverá nenhum dos maus, e onde nenhum dos bons perecerá. Assim, não foi dito: "Agora está significada a glorificação do Filho do homem"; mas "Agora o Filho do homem foi glorificado"; como não foi dito: "A pedra significa Cristo"; mas "A pedra era Cristo". Pois costuma a Escritura chamar as coisas que significam como se fossem as próprias coisas significadas. A glorificação do Filho do homem consiste em que Deus seja glorificado nele; por isso acrescenta: "e Deus foi glorificado nele". E finalmente, como explicando isto, acrescenta e diz: "Se Deus foi glorificado nele", porque não veio fazer a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou, "também Deus o glorificará em si mesmo", para que a natureza humana, que foi assumida pelo Verbo eterno, seja também dotada de imortal eternidade. Segue: "e logo o glorificará"; predizendo assim sua ressurreição, não como a nossa no fim dos tempos, mas que aconteceria imediatamente. Pode-se também entender que a frase "Agora o Filho do homem foi glorificado" se refere a esta glorificação; de modo que o que diz "agora" não se refira à iminente paixão, mas à próxima ressurreição; como se já tivesse ocorrido o que estava tão próximo de acontecer.
Depois que Ele tinha dito: E imediatamente o glorificará, para que não pensassem que Deus iria glorificá-lo de tal maneira que Ele não mais teria convivência com eles na terra, acrescentou: Filhinhos, ainda estarei convosco por um pouco; como se dissesse: de fato, serei imediatamente glorificado pela minha ressurreição, mas não ascenderei imediatamente ao céu. Pois lemos nos Atos dos Apóstolos que Ele esteve com eles quarenta dias após Sua ressurreição. Estes quarenta dias são o que Ele quis dizer com: Ainda estarei convosco por um pouco.
Pode também ser entendido assim: ainda estou como vós nesta enfermidade da carne, a saber, até que morresse e ressuscitasse. Com eles esteve depois que ressuscitou, mediante a manifestação da presença corporal; mas não esteve com eles no compartilhamento da fraqueza humana. Pois segundo outro Evangelista, após a ressurreição, disse: "Estas são as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco"; isto é, quando estava na carne mortal como vós. Então, de fato, estava na mesma carne, mas já não estava com eles na mesma mortalidade. Há também outra presença divina desconhecida aos sentidos mortais, da qual Ele mesmo diz: "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos". Isto não significa "ainda estou um pouco convosco", pois não é pouco tempo até a consumação dos séculos; ou mesmo se isto é pouco, porque aos olhos de Deus mil anos são como um dia, não devemos crer que Ele quis significar isto agora, quando em seguida acrescentou: "Para onde eu vou, vós não podeis vir". Acaso depois da consumação dos séculos, para onde ele vai, não poderiam eles ir? Deles dirá depois: "Pai, quero que onde eu estou, também eles estejam comigo".
Ou diz isto porque ainda não estavam aptos a seguir o Senhor que ia morrer pela justiça: pois como poderiam segui-lo se ainda não estavam maduros para o martírio? Ou como poderiam seguir o Senhor para a imortalidade da carne, eles que haveriam de morrer em algum momento, mas que só ressuscitariam no fim do mundo? Ou como poderiam seguir o Senhor ao seio do Pai, quando ninguém pode estar naquela felicidade a não ser que seja perfeito na caridade? Mas aos judeus, quando lhes disse isto, não acrescentou agora. Eles não podiam ir para onde Ele ia naquele momento, mas poderiam depois; e por isso acrescenta: e a vós vos digo: agora.
Ensinando, pois, como poderiam se tornar aptos para ir aonde Ele ia à frente, acrescenta: Um mandamento novo vos dou, que vos ameis uns aos outros. Não estava já este mandamento na antiga lei de Deus, onde está escrito: "amarás o teu próximo como a ti mesmo"? Por que, então, é chamado pelo Senhor de mandamento novo? Acaso porque, despojando-nos do homem velho, reveste-nos do homem novo? Certamente renova quem ouve, ou melhor, quem obedece, não qualquer amor, mas este amor que o Senhor, para distingui-lo do amor carnal, acrescentou: assim como eu vos amei, para que vós também vos ameis uns aos outros; não como se amam os que se corrompem, nem como se amam os homens porque são homens, mas como se amam aqueles que são de Deus e todos filhos do Altíssimo, para que sejam irmãos do seu Filho único, amando-se uns aos outros com aquele amor com que Ele os amou, para conduzi-los àquele fim onde será saciado nos bens o desejo deles.
Não penses, porém, que aquele mandamento maior, pelo qual se ordena que amemos ao Senhor nosso Deus, foi preterido; pois para os que bem compreendem, ambos se encontram em cada um deles. Porque aquele que ama a Deus não pode desprezar o seu preceito de amar ao próximo; e aquele que ama ao próximo de modo sublime e espiritual, o que ama nele senão a Deus? Este é o amor que, distinguindo-o de todo amor mundano, o Senhor acrescentou: "Como eu vos amei". O que amou em nós senão a Deus, não o que já tínhamos, mas para que o tivéssemos? Assim, pois, amemo-nos uns aos outros, para que, tanto quanto possamos, atraiamos uns aos outros, pelo cuidado do amor, a possuir a Deus em nós.
Como se dissesse: Os meus outros dons são compartilhados convosco também por aqueles que não são meus, não somente a natureza, a vida, o sentido, a razão, e aquela saúde que é comum aos homens e aos animais; mas também a língua, os sacramentos, a profecia, a ciência, a fé, a distribuição de seus bens aos pobres, e a entrega do próprio corpo para que seja queimado; mas porque não têm caridade, como címbalos ressoam, nada são, nada lhes aproveita.
Assim, pois, o discípulo disse isto ao mestre como alguém preparado para seguir; por isso o Senhor, que via seu coração, respondeu-lhe assim; pois segue Jesus lhe respondeu: para onde eu vou, não podes seguir-me agora. Impôs um adiamento, não tirou a esperança, mas a confirmou com as palavras seguintes, dizendo seguir-me-ás, porém, depois. Por que te apressas, Pedro? A pedra ainda não te havia consolidado com seu espírito: não te exaltes presumindo, não podes agora; não te abatas desesperando, pois me seguirás depois.
Far-me-ás por acaso, o que ainda eu não fiz por ti? Podes ir à frente, tu que não podes seguir? Por que tanto presumes? Ouve quem és: amém, amém, te digo: não cantará o galo, até que três vezes me negues. Tu que me prometes a tua morte, três vezes negarás a tua vida. Ele via o que havia de desejo em seu ânimo, mas não via o que havia de forças: o enfermo vangloriava-se de sua vontade; mas o médico examinava o seu estado de saúde. Acaso o apóstolo Pedro, como alguns se esforçam para desculpá-lo com um favor perverso, não negou a Cristo, porque interrogado pela criada respondeu que não conhecia o homem, como outros Evangelistas testemunham mais expressamente? Como se quem nega o homem Cristo, não negasse a Cristo; e negasse nele o que ele se fez por nós, para que não perecesse o que ele nos fez. Por que é ele a cabeça da Igreja, senão por ser homem? Como está, portanto, no corpo de Cristo aquele que nega o homem Cristo? Mas por que me demoro em muitas palavras? Pois o Senhor não diz: não cantará o galo, até que negues o homem ou o filho do homem; mas até que me negues. O que é me, senão aquilo que era? Qualquer coisa que dele negou, a Cristo negou. Se de fato é nefasto duvidar. Cristo disse isto, e predisse a verdade; sem dúvida Pedro negou a Cristo. Não acusemos a Cristo, quando defendemos Pedro. A fraqueza de Pedro reconheceu claramente o seu pecado. E quanto mal cometeu negando a Cristo, mostrou chorando. E nós, quando assim falamos, não nos deleita acusar o primeiro dos apóstolos; mas, contemplando-o, convém que sejamos advertidos, para que nenhum homem confie nas forças humanas.
Assim, pois, aconteceu na alma de Pedro aquilo que ele oferecia em seu corpo, mas de modo diferente do que pensava: pois antes da morte e ressurreição do Senhor, ele morreu ao negá-lo e reviveu ao chorar.
Isto, porém, sobre sua predita negação, não apenas São João, mas também os outros três recordam a Pedro; certamente, nem todos chegam a recordá-la a partir da mesma ocasião do discurso: pois São Mateus e São Marcos acrescentam-na depois que o Senhor saiu daquela casa onde havia comido a Páscoa; São Lucas e São João, porém, antes que de lá houvesse saído. Mas facilmente podemos entender ou que aqueles dois a colocaram recapitulando, ou estes antecipando; a não ser que nos impressione mais o fato de serem tão diversas não somente as palavras, mas também as sentenças do Senhor que precedem, pelas quais Pedro foi movido a proferir aquela presunção de morrer pelo Senhor ou com o Senhor, de tal modo que somos levados a entender que ele expressou três vezes a sua presunção em diversos momentos do discurso de Cristo, e três vezes lhe foi respondido pelo Senhor que ele haveria de negá-lo três vezes antes do canto do galo.
Para que os discípulos não temessem a morte de Cristo como homens e, por isso, se turbassem, Ele os consola, afirmando também ser Deus. Por isso diz: "Não se turbe vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim", como se dissesse: É consequente que, se credes em Deus, deveis crer também em mim; o que não seria consequente se Cristo não fosse Deus. Temeis a morte desta forma de servo; não se turbe vosso coração; a forma de Deus a ressuscitará.
E como os discípulos também temiam por si mesmos, quando foi dito a Pedro, o mais confiante e mais fervoroso: "não cantará o galo, até que me negues três vezes", acrescentou: "na casa de meu Pai há muitas moradas"; pelo que são reconfortados de sua perturbação, certos e confiantes de que, mesmo após os perigos das tentações, permaneceriam junto a Deus com Cristo; porque ainda que um seja mais forte, mais sábio, mais justo ou mais santo que outro, ninguém será excluído daquela casa onde cada um receberá uma morada segundo o seu mérito. Aquele denário, com efeito, é igual para todos, o qual o pai de família manda dar aos que trabalharam na vinha; com este denário significa-se certamente a vida eterna, onde ninguém vive mais que outro, pois não há diversidade de vivência na eternidade que há de permanecer; mas as muitas moradas significam as diversas dignidades dos méritos na única vida eterna.
E assim Deus será tudo em todos, para que, sendo Deus caridade, por meio da caridade aconteça que aquilo que cada um tem seja comum a todos. Assim, portanto, cada um possui também o que tem, quando ama no outro o que ele mesmo não tem: não haverá, pois, inveja pela desigualdade da claridade, porque reinará em todos a unidade da caridade.
Devem ser repelidos do coração cristão aqueles que pensam ter sido dito que há muitas moradas porque existiria algum lugar fora do reino dos céus onde permaneçam os bem-aventurados inocentes que partiram desta vida sem o Batismo, sem o qual não podem entrar no reino dos céus. Contudo, sendo que toda casa dos filhos que reinam não está em outro lugar senão no reino, não é admissível que alguma parte da própria casa real não esteja no reino; pois o Senhor não disse: na bem-aventurança eterna há muitas moradas, mas "na casa de meu Pai".
Onde claramente mostra que, por isso, lhes disse isto, porque já ali há muitas moradas, e não há necessidade de Ele preparar alguma.
Mas como é que vai e prepara o lugar, se já existem muitas moradas? Mas ainda não estão como devem ser preparadas; pois as mesmas moradas que preparou predestinando, prepara operando. Já existem, portanto, na predestinação; se não fosse assim, teria dito: Irei e prepararei, isto é, predestinarei; mas porque ainda não estão em operação, diz e se eu for e vos preparar um lugar. Prepara agora as moradas, preparando moradores para as moradas. Visto que quando disse na casa de meu Pai há muitas moradas, o que entendemos ser a casa de Deus, senão o templo de Deus? Sobre o qual o Apóstolo diz: O templo de Deus é santo, e este sois vós(1 Coríntios 3,17). Esta casa de Deus, portanto, ainda está sendo edificada, ainda está sendo preparada. Mas o que significa que para prepará-la Ele se foi, quando é a nós mesmos que prepara; o que não faria se nos deixasse? Mas isso significa que, para que essas moradas sejam preparadas, o justo deve viver da fé; mas se vês, não é fé. Que vá, portanto, para não ser visto; que se oculte para que se creia. Então o lugar é preparado, se se vive da fé: que seja desejado pela fé, para que o desejado seja obtido. Se bem entendes, nem de onde vai, nem de onde vem Ele se afasta. Vai, portanto, ocultando-se, e vem manifestando-se. Mas se não permanece dirigindo-nos, para que progridamos vivendo bem, não será preparado o lugar onde possamos permanecer desfrutando.
O Senhor havia dito que eles sabiam ambas as coisas, aquele diz que desconhece ambas; mas ele não sabe que está mentindo; portanto, eles sabiam, e não sabiam que sabiam. Assim, os convence de que sabiam isto; donde segue-se Jesus lhe disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Como se dissesse: por onde queres ir? Eu sou o caminho. Para onde queres ir? Eu sou a verdade. Onde queres permanecer? Eu sou a vida. A verdade e a vida todo homem compreende; mas o caminho nem todos encontram. Que Deus é uma certa vida eterna, uma verdade que pode ser conhecida, até os filósofos deste mundo o viram. Logo, o Verbo de Deus, que junto ao Pai é verdade e vida, assumindo a humanidade, fez-se caminho. Caminha pelo homem, e chegarás a Deus. Pois é melhor mancar no caminho correto, do que caminhar vigorosamente fora dele.
Sabiam, então, o caminho, porque sabiam que Ele é o caminho. Mas, que necessidade havia de acrescentar verdade e vida, quando restava saber para onde ia? Porque ia para a verdade e para a vida. Ia, portanto, para si mesmo, por si mesmo. Mas, porventura, ó Senhor, para vires a nós, deixaste a ti mesmo? Sei bem que assumiste a forma de servo e vieste na carne, permanecendo onde estavas; e por esta regressaste, não deixando para onde tinhas vindo. Se, portanto, por esta vieste e regressaste, por esta foste para nós não só o caminho pelo qual viéssemos a ti, mas também foste o caminho pelo qual vieste e regressaste. E quando foste para a vida, que és tu mesmo, conduziste a tua mesma carne da morte para a vida. Assim, enquanto a carne vai da morte para a vida, Cristo vai para a vida. E porque o Verbo é vida, Cristo vai para si mesmo; pois ambos são Cristo, uma única pessoa, a saber, o Verbo feito carne. Tinha vindo também por meio da carne Deus aos homens, a verdade aos mentirosos; pois Deus é verdadeiro, e todo homem é mentiroso. Quando, pois, se retirou dos homens e elevou sua carne para aquele lugar onde ninguém mente, ele mesmo, enquanto o Verbo se fez carne, por si mesmo, isto é, por sua carne, voltou à verdade, que é ele mesmo: verdade que, mesmo entre mentirosos, conservou até na morte. Eis que eu mesmo, se vos falo o que entendeis, de certo modo venho a vós, e não deixo a mim mesmo. E quando me calo, de certo modo volto a mim, e permaneço convosco, se retiverdes o que ouvistes. Se a imagem que Deus fez pode fazer isto, o que pode a imagem nascida de Deus? E por isso, ele mesmo por si mesmo, e a si mesmo, e ao Pai, e nós por ele, e a ele, e ao Pai vamos.
Pois aquela alegria com que Ele nos encherá com sua face, nada mais será requisitado: o que bem havia entendido Filipe, quando disse: "Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta". Mas ainda não havia entendido que também desse mesmo modo poderia ter dito a Ele: "Senhor, mostra-Te a nós, e isso nos basta". Para que ele entendesse isso, o Senhor lhe respondeu; de onde segue: "Disse-lhe Jesus: Há tanto tempo estou convosco, e não me conhecestes?"
Mas como diz isto, uma vez que sabiam para onde ia e sabiam o caminho, não por outro motivo senão porque o conheciam? Mas facilmente esta questão se resolve, se dissermos que alguns deles sabiam, e outros não sabiam, entre os quais estava Filipe.
Pois costumamos falar de duas coisas muito semelhantes assim: Viste aquele? Viste este. Assim, portanto, foi dito quem me vê, vê também o Pai: não que ele seja tanto o Pai quanto o Filho; mas porque o Filho não se desvia absolutamente em nada da semelhança do Pai.
Mas acaso deve ser repreendido aquele que, tendo visto a semelhança, quer também ver aquele a quem é semelhante? Mas por isso o Senhor repreendia o discípulo, porque via o coração de quem pedia. Pois como se o Pai fosse melhor que o Filho, assim Felipe desejava conhecer o Pai; e por isso nem conhecia o Filho, porque acreditava que outro fosse melhor que Ele. Para corrigir, portanto, este pensamento, foi dito: "Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim?" Como se dissesse: Se isto é demais para ti ver, ao menos crê no que não vês.
Ele queria que vivesse pela fé, antes que pudesse ver, e por isso diz: "Não crês?" Pois a contemplação é a recompensa da fé; recompensa para a qual os corações são purificados pela fé.
Depois, não fala apenas a Filipe, mas a todos no plural, dizendo: As palavras que eu vos falo, não as falo de mim mesmo. O que significa não as falo de mim mesmo, senão: não sou de mim mesmo, eu que falo? Pois atribui o que faz Àquele do qual Ele próprio é, Ele que faz.
Pois quem edifica o próximo com sua palavra, realiza uma boa obra. Nestas duas sentenças, diversos hereges nos confrontam. Os arianos dizem: eis que o Filho é desigual ao Pai, pois não fala por si mesmo. Os sabelianos dizem: eis que quem é o Pai, o mesmo é o Filho. O que significa "o Pai que permanece em mim, Ele mesmo faz as obras", senão eu que permaneço em mim mesmo, sou eu quem faço?
"Crede, pois, por causa das obras que eu estou no Pai e o Pai está em mim; porque, se estivéssemos separados, não poderíamos de maneira alguma operar inseparavelmente."
Mas quais são essas coisas maiores? Porventura o fato de que os enfermos eram curados até mesmo pela sombra dos apóstolos quando passavam? De fato, é maior que a sombra cure do que a fímbria de uma veste. Todavia, quando dizia essas coisas, estava recomendando suas palavras e obras. Pois quando disse: "o Pai que permanece em mim, ele mesmo faz as obras", a que obras se referia senão às palavras que falava? E o fruto dessas palavras era a fé deles. No entanto, quando os discípulos evangelizavam, não foram tão poucos quanto eles que acreditaram, mas também os gentios. Acaso aquele homem rico não se afastou triste de sua presença? E, contudo, o que um não fez ao ouvir diretamente dele, muitos fizeram depois, quando ele falava por meio dos discípulos. Eis que realizou coisas maiores sendo anunciado pelos crentes do que quando falava aos ouvintes. Mas ainda nos impressiona o fato de que tenha feito coisas maiores por meio dos apóstolos. Porém, não se referindo apenas a eles, diz: "aquele que crê em mim". Acaso não devemos contar entre os que creem em Cristo aquele que não fizer obras maiores que Cristo? Isto parece difícil, a menos que seja compreendido. O Apóstolo diz: "Àquele que crê naquele que justifica o ímpio, sua fé lhe é imputada como justiça".
E para que ninguém atribuísse isto a si mesmo, para mostrar que ele mesmo faria também aquelas obras maiores, acrescentou: e qualquer coisa que pedirdes ao Pai em meu nome, eu o farei. Antes tinha dito: fará, agora diz: farei; como se dissesse: não vos pareça isto impossível; pois não poderá ser maior do que eu aquele que crê em mim; mas eu é que farei então obras maiores do que agora; maiores obras por meio daquele que crê em mim, do que agora por mim mesmo; o que não é diminuição, mas condescendência.
Mas o que significa "tudo o que pedirdes", quando vemos frequentemente fiéis pedirem e não receberem? Será porventura porque pedem mal? Pois aquele que usaria mal o que deseja receber, por misericórdia de Deus não o recebe. Como, portanto, devemos entender "tudo o que pedirdes, isto farei", se Deus não atende a alguns pedidos dos fiéis, até mesmo para o bem deles? Ou talvez devêssemos entender que isso foi dito apenas aos apóstolos? De modo algum; pois anteriormente Ele havia dito: "Quem crê em mim, as obras que eu faço, também ele as fará". E se considerarmos os próprios apóstolos, encontraremos aquele que mais que todos trabalhou rogando que dele se afastasse o anjo de Satanás, e, contudo, não recebeu o que pedira. Mas atente para o que ali está posto: "em meu nome", que é Cristo Jesus. Cristo significa Rei, e Jesus significa Salvador; e por isso, tudo o que pedimos contra a utilidade da salvação, não pedimos em nome do Salvador. E, no entanto, Ele é Salvador não apenas quando faz o que pedimos, mas também quando não o faz, porque quando vê que se pede algo contrário à salvação, não fazendo, mostra-se Salvador. Pois o médico sabe o que o doente pede a favor de sua saúde e o que pede contra ela; e por isso não atende à vontade daquele que pede o contrário, para proporcionar-lhe a saúde. Certamente, algumas coisas que pedimos em seu nome, Ele não as faz no momento em que pedimos, mas as faz depois; o que pedimos é adiado, não negado. E imediatamente acrescentou: "para que seja glorificado o Pai no Filho, se pedirdes algo em meu nome, eu o farei". De modo algum, portanto, o Filho age sem o Pai, visto que, para que o Pai seja glorificado nele, por isso o faz.
Em isso mostra que Ele mesmo é o Paráclito. Paráclito em latim significa advogado: e foi dito de Cristo: "temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo"(1 São João 2,1).
O qual, no entanto, para demonstrar que suas obras e as do Pai são inseparáveis, disse em outro lugar: "Quando eu me for, eu o enviarei a vós"(São João 16,7).
Este é certamente na Trindade o Espírito Santo, que a fé Católica professa ser consubstancial e coeterno com o Pai e o Filho.
Assim, pois, diz que o mundo, isto é, os amantes do mundo, não pode receber o Espírito Santo, como se disséssemos: a injustiça não pode ser justa. O mundo, portanto, isto é, os amantes do mundo, não pode recebê-lo, porque não o vê. Pois o amor mundano não tem olhos invisíveis, através dos quais o Espírito Santo não pode ser visto senão invisivelmente. Segue-se: "Vós, porém, o conhecereis, porque permanecerá convosco". Mas para que não pensassem que o que foi dito, "permanecerá convosco", foi dito da mesma maneira como costuma permanecer visivelmente entre os hóspedes, acrescentou: "estará em vós".
Primeiro é estar em algum lugar, depois permanecer. Mas explicou o que dissera "junto a vós", quando acrescentou "em vós". Pois se Ele não estiver em vós, não pode haver em vós o seu conhecimento: assim, é visto por vós em vós e em vossa consciência.
O Consolador (nome que atribuem ao Espírito Santo como a pessoa mais humilde na Trindade), o Apóstolo chama Deus, conforme aquilo: "Deus, que consola os humildes, nos consolou". Deus é, portanto, o Espírito Santo que consola os humildes. Ou se quiserem entender que isso foi dito pelo Apóstolo sobre o Pai ou o Filho, deixem de separar do Pai e do Filho o Espírito Santo no que se refere à obra própria de consolar.
Mas quando a caridade de Deus está difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado, como amaremos e guardaremos os mandamentos de Cristo, para recebê-lo, quando sem Ele não podemos amar nem guardar os mandamentos? Acaso precede em nós a caridade com a qual amamos a Cristo, para que, amando a Cristo e cumprindo seus mandamentos, mereçamos receber o Espírito Santo, a fim de que a caridade de Deus Pai se difunda em nossos corações? Perversa é esta opinião. Pois quem crê amar o Filho de Deus, e não ama o Pai, certamente nem o Filho ama; mas forjou para si mesmo o que lhe parece. Resta, portanto, entender que possui o Espírito Santo quem ama, e possuindo-o merece possuir mais, e possuindo mais, mais ama. Já os discípulos tinham o Espírito que o Senhor prometia; mas devia ser-lhes dado mais abundantemente; possuíam-no ocultamente, iriam recebê-lo manifestamente. Por isso, não em vão é prometido não só a quem não o tem, mas também a quem já o tem; a quem não o tem, para que o tenha; a quem já o tem, para que o tenha mais abundantemente.
Para que ninguém pensasse que o Senhor haveria de dar o Espírito Santo de tal modo que Ele mesmo não estaria presente com eles, acrescentou e disse: "Não vos deixarei órfãos". Órfãos são pupilos: aquela é a palavra grega, esta a latina. Ainda que o Filho de Deus nos tenha adotado como filhos para seu Pai, também nisso Ele mesmo demonstra para conosco um afeto paternal.
Pois então o mundo O via com os olhos carnais, manifesto na carne, ainda que não visse o Verbo que se ocultava sob a carne. Mas depois da ressurreição, como não quisesse mostrar sequer sua carne, exceto aos seus próprios seguidores, a quem permitiu ver e tocar: "Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais; mas vós me vereis". Porém, visto que o mundo, pelo qual se entende todos os que são estranhos ao seu reino, O verá no último juízo, talvez seja melhor entender que Ele aponta aqui para aquele tempo, quando será retirado para sempre dos olhos dos ímpios, para ser visto dali em diante por aqueles que O amam. "Um pouco", diz Ele, porque aquilo que aos homens parece um longo tempo, é apenas um momento aos olhos de Deus. "Porque eu vivo, vós também vivereis".
Por que, porém, disse que ele vive no presente, e que eles viverão no futuro, senão porque a vida da carne ressuscitada, tal como precedia nele mesmo, também prometeu que seguiria neles? E porque sua ressurreição iria acontecer em breve, utiliza o tempo presente para expressar a verdade, por causa de indicar a celeridade; quanto a deles, como é diferida até o fim do século, não diz "viveis", mas "vivereis". Porque ele vive, por isso também nós viveremos: pois pela morte veio por um homem, e por um homem veio a ressurreição dos mortos. Segue-se "naquele dia", sobre o qual certamente diz, "e vós vivereis", "vós conhecereis", contemplando, embora também agora conheçamos pela fé, "que eu estou no Pai, e vós em mim, e eu em vós": porque quando vivermos aquela vida na qual a morte é absorvida, então se completará isto mesmo que agora já foi iniciado por ele, para que ele esteja em nós, e nós nele.
Aquele que tem na memória e guarda na vida; aquele que tem nas palavras e guarda nas obras; aquele que tem ao ouvir e guarda ao fazer; aquele que tem ao fazer e guarda ao perseverar, este é quem me ama. O amor deve ser demonstrado por obras, para que não seja uma infrutífera invocação do nome.
Mas o que significa "amarei", como se agora não amasse? Ele explica pelo que segue: "e me manifestarei a ele"; isto é, amarei a fim de me manifestar, e receberemos a própria visão como recompensa da fé. Pois agora Ele nos amou para que creiamos; então nos amará para que vejamos; porque também nós agora amamos crendo naquilo que veremos; mas então amaremos vendo aquilo que acreditamos.
Assim, pois, prometeu mostrar-se a Si mesmo aos que O amam como Deus uno com o Pai, não do modo como foi visto neste mundo em corpo, e até pelos maus.
Porque o Senhor dissera: "Ainda um pouco, e o mundo já não me verá; vós, porém, me vereis", interrogou-lhe sobre isto o próprio Judas, não aquele traidor dele que foi chamado Iscariotes, mas aquele cuja epístola se lê entre as Escrituras canônicas; por isso diz: "Diz-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, o que aconteceu, para que hajas de manifestar-te a nós e não ao mundo?" Procurou saber a causa pela qual não se manifestaria ao mundo, mas aos seus. O Senhor, porém, explica por que se manifestará aos seus, e não aos estranhos: porque, a saber, estes o amam, mas aqueles não amam; por isso segue "Respondeu Jesus e disse-lhe: se alguém me ama, guardará a minha palavra".
O amor distingue os santos do mundo, que faz os unânimes habitarem na casa onde o Pai e o Filho fazem morada; eles que doam o próprio amor, àqueles a quem ao fim doarão sua manifestação. Há, com efeito, certa manifestação interior de Deus, que os ímpios absolutamente não conhecem: para os quais não há manifestação alguma de Deus Pai e do Espírito Santo; a do Filho, porém, poderia existir, mas na carne; a qual não é tal como aquela, nem sempre lhes pode estar presente, mas por um breve tempo; e isso para juízo, não para alegria; para suplício, não para prêmio; donde segue e a ele viremos. Vêm certamente a nós quando vamos a eles; vêm socorrendo, nós vamos obedecendo; vêm iluminando, nós vamos contemplando; vêm enchendo, nós vamos recebendo; para que seja para nós a visão deles não estranha, mas interna; e em nós a morada deles não transitória, mas eterna; donde segue e faremos morada junto dele.
Porventura se pensará que, fazendo o Pai e o Filho morada naquele que os ama, esteja excluído dessa morada o Espírito Santo? O que significa então o que disse anteriormente sobre o Espírito Santo: "ele permanecerá convosco e estará em vós"? A não ser que alguém seja tão absurdo a ponto de pensar que, quando o Pai e o Filho vierem, o Espírito Santo deverá retirar-se, como que cedendo lugar aos maiores. Mas a este pensamento carnal opõe-se a Escritura, quando diz: "para que permaneça convosco eternamente". Na mesma morada, portanto, estará com eles eternamente, pois nem Ele vem sem eles, nem eles sem Ele. Mas, para insinuar a Trindade, algumas coisas são ditas referindo-se a cada pessoa separadamente, sem que se entenda a exclusão das outras, devido à unidade de substância da mesma Trindade.
E talvez por causa de alguma distinção, onde disse "os seus", referiu-se às palavras no plural, dizendo: "Quem não me ama não guarda as minhas palavras". Mas quando se refere à palavra, isto é, ao Verbo, que disse não ser seu, mas do Pai, quis que se entendesse como referindo a si mesmo; pois não é seu Verbo, mas do Pai; assim como também não é sua imagem, mas do Pai; nem seu Filho, mas do Pai. Corretamente, portanto, atribui ao Autor aquilo que faz como igual, pois dEle recebe isto mesmo: o ser-Lhe indiferente e igual.
Aquela morada que prometeu no futuro é diferente daquela que afirma estar presente: aquela é espiritual e concedida interiormente às mentes; esta é corporal e apresentada exteriormente aos olhos e ouvidos.
Porventura o Filho fala e o Espírito Santo ensina, de modo que quando o Filho fala captamos as palavras, e quando o Espírito Santo ensina, compreendemos essas mesmas palavras? Toda a Trindade, portanto, tanto fala quanto ensina; mas se não fosse também apresentada individualmente, a fraqueza humana de modo algum poderia apreendê-la.
Ou o que acrescenta "sugerirá", isto é, vos fará recordar, devemos entender também que nos é ordenado não esquecer os salubérrimos preceitos, que pertencem à graça, os quais Cristo nos faz recordar.
Ele nos deixou a paz neste século, na qual permanecendo vencemos o inimigo, e para que também aqui nos amemos mutuamente; sua paz nos dará no século futuro, quando reinaremos sem inimigo, onde nunca poderemos dissentir. A paz, porém, para nós é Ele mesmo, tanto quando cremos que Ele existe, quanto quando O veremos como Ele é. Mas o que significa que onde diz "a paz vos deixo", não acrescenta "minha"; mas onde diz "vos dou", aí diz "minha"? Será que se deve subentender "minha" também onde não foi dito? Ou talvez aqui haja algo oculto? Pois quis que se entendesse como sua paz aquela que Ele mesmo tem; já a paz que nos deixou neste século deve ser chamada mais nossa do que d'Ele. Pois n'Ele nada se opõe em si mesmo, porque não tem absolutamente nenhum pecado; nós, porém, temos agora tal paz na qual ainda dizemos: "perdoa-nos as nossas dívidas"(São Mateus 6,12). Do mesmo modo, entre nós mesmos existe paz para nós, porque mutuamente cremos uns nos outros que mutuamente nos amamos. Mas nem essa é plena, porque não vemos reciprocamente os pensamentos de nossos corações. Nem ignoro que estas palavras do Senhor também podem ser entendidas como se fossem uma repetição da mesma sentença. E quanto ao que o Senhor acrescentou "não como o mundo a dá, eu vo-la dou", o que é isso senão não como os homens que amam o mundo? Estes dão paz a si mesmos para que possam desfrutar do mundo sem incômodo; e quando dão paz aos justos, para que não os persigam, não pode haver verdadeira paz onde não há verdadeira concórdia, porque seus corações estão separados.
A paz é serenidade do pensamento, tranquilidade da alma, simplicidade do coração, vínculo do amor, consórcio da caridade. Não poderá chegar à herança do Senhor quem não quiser observar o testamento da paz; nem pode ter concórdia com Cristo quem quiser estar em discórdia com o cristão.
Por causa disto, porém, o coração deles poderia turbar-se e temer, porque Ele ia embora deles, ainda que fosse voltar para junto deles, a fim de que o lobo não invadisse porventura o rebanho neste intervalo de ausência do pastor; por isso segue: ouvistes que eu vos disse: vou, e venho a vós. Ia, porém, por aquilo que era homem, e permanecia por aquilo que era Deus. Por que, portanto, turbar-se-ia e temeria o coração, quando assim abandonava os olhos para não abandonar o coração? Mas, para que entendessem que Ele disse vou, e venho a vós segundo aquilo que era homem, acrescentou e disse: se me amásseis, certamente vos alegraríeis porque vou para o Pai, porque o Pai é maior do que eu. Portanto, por aquilo em que o Filho não é igual ao Pai, por isso haveria de ir ao Pai, de quem também há de vir para julgar os vivos e os mortos; mas por aquilo em que é igual ao que O gerou, nunca se afasta do Pai, mas está com Ele em toda parte, todo inteiro, em igual divindade, que lugar algum contém. Logo, o próprio Filho de Deus, igual ao Pai na forma de Deus, porque se esvaziou a si mesmo, não perdendo a forma de Deus, mas assumindo a forma de servo, é maior também que si mesmo: porque maior é a forma de Deus, que não foi perdida, do que a forma de servo, que foi assumida. Esta, portanto, é a forma de servo, na qual o Filho de Deus é menor não só que o Pai, mas também que o Espírito Santo: segundo esta forma de servo, o menino Cristo era menor também que seus pais, quando, pequeno, estava sujeito aos mais velhos, como está escrito. Reconheçamos, portanto, a dupla substância de Cristo; a divina, a saber, pela qual é igual ao Pai; e a humana, pela qual o Pai é maior. Ambas, porém, simultaneamente, não são dois, mas um só Cristo, para que não seja quaternidade, mas Trindade Deus. Por isso, então, disse: se me amásseis, certamente vos alegraríeis, porque vou para o Pai: porque a natureza humana deve ser congratulada por ter sido assumida pelo Verbo unigênito de tal modo que fosse constituída imortal no céu, e assim se tornasse sublime a terra, de forma que o pó incorruptível se sentasse à direita do Pai. Quem não se alegraria com isto, quem assim ama a Cristo, que já se congratula por sua natureza imortal em Cristo, e espera que ele mesmo há de ser assim por Cristo?
O que é isto, quando antes o homem deve crer antes que aconteça aquilo que se deve crer? Este é o valor da fé, se aquilo que se crê não é visto; pois também àquele a quem foi dito: "porque viste, creste", uma coisa viu, outra acreditou: viu o homem, acreditou em Deus. Mas se dizemos que se crê no que se vê, como cada um diz que acreditou em seus próprios olhos, não é esta, contudo, a fé que em nós se edifica; mas a partir das coisas que se veem, adquire-se em nós a crença naquelas que não se veem. Assim, diz "quando acontecer", quando após a morte haveriam de vê-lo vivendo e subindo ao Pai; visto isso, haveriam de crer que ele era Cristo, o Filho de Deus, que pôde fazer isso e predizer antes que o fizesse; e haveriam de crer isso não com uma fé nova, mas aumentada; ou certamente, quando morreu, enfraquecida; quando ressuscitou, restaurada.
Quem senão o Diabo? Mas o Diabo não é príncipe das criaturas, mas dos pecadores. Por isso o apóstolo, depois de dizer: "contra os dominadores deste mundo", na palavra seguinte expôs o que havia dito por "mundo", quando acrescenta: "destas trevas", isto é, dos homens ímpios. "E em mim não tem coisa alguma". Porque nem Deus viera com pecado, nem a Virgem havia gerado sua carne da propagação do pecado. E como se lhe fosse dito: por que, então, morrerás, se não tens pecado, ao qual é devido o suplício da morte? Imediatamente acrescenta: "mas para que o mundo conheça que amo o Pai, e como o Pai me ordenou, assim faço; levantai-vos, vamos daqui". Pois estando reclinado, falava aos que estavam reclinados. E disse "vamos" para aquele lugar onde haveria de ser entregue à morte aquele que não tinha mérito algum de morte, mas tinha, para morrer, o mandamento do Pai.
Mas o fato de o Filho ser obediente à vontade e ao preceito do Pai, nem mesmo nos homens demonstra natureza diversa e desigual entre o pai que ordena e o filho que obedece. A isto se acrescenta que Cristo não é apenas Deus, por cuja natureza é igual ao Pai, mas também homem, por cuja natureza é menor que o Pai.
Ele diz isto por ser a cabeça da Igreja, da qual nós somos os membros, o homem Cristo Jesus. Com efeito, a videira e os ramos são de uma mesma natureza. Mas quando Ele diz "Eu sou a videira verdadeira", por acaso, ao acrescentar "verdadeira", não está fazendo referência àquela videira de onde esta semelhança foi tomada? Assim, Ele é chamado de videira por semelhança, não por propriedade, assim como cordeiro, ovelha e outras coisas semelhantes; de modo que são mais verdadeiras as próprias coisas das quais estas semelhanças são derivadas. Mas ao dizer "Eu sou a videira verdadeira", Ele se distingue daquela a quem foi dito: "Como te converteste em amargura, videira estranha?" Pois, como poderia ser videira verdadeira aquela que, quando se esperava que produzisse uvas, produziu espinhos?
Pois nós cultuamos a Deus, e Deus nos cultiva; mas nós cultuamos a Deus de tal modo que não o tornamos melhor; pois o cultuamos adorando-o, não arando; mas quando Ele nos cultiva, Ele nos torna melhores. Sua cultura em nós consiste em não cessar, por meio de sua palavra, de extirpar as más sementes de nossos corações, abrir nosso coração como que com o arado de sua doutrina, plantar as sementes dos preceitos e esperar o fruto da piedade.
Quem, pois, é tão puro nesta vida que não deva ser cada vez mais purificado? Pois se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos. Ele purifica, portanto, os puros, isto é, os que dão fruto, para que sejam tanto mais frutíferos quanto mais puros forem. Segundo isso, Cristo é a videira, conforme o que diz: "o Pai é maior do que eu"; mas segundo aquilo que disse acima: "eu e o Pai somos um", Ele mesmo é também o agricultor; não como aqueles que, trabalhando externamente, prestam um ministério, mas de tal modo que dá o crescimento internamente. Por isso, imediatamente mostra a si mesmo como purificador dos ramos, dizendo: "Vós já estais limpos por causa da palavra que vos tenho falado". Eis que Ele próprio é o purificador dos ramos, o que é ofício do agricultor, não da videira. Mas por que não diz: estais limpos por causa do Batismo pelo qual fostes lavados, senão porque também na água é a palavra que purifica? Tire a palavra: o que é a água senão água? Acrescenta-se a palavra ao elemento, e se faz o sacramento. De onde vem à água tão grande virtude de tocar o corpo e purificar o coração, senão pela ação da palavra, não porque é dita, mas porque é crida? Pois na própria palavra uma coisa é o som passageiro, outra a virtude permanente. Esta palavra de fé tem tanto poder na Igreja de Deus que, por meio daquele que crê, oferece, abençoa e batiza, purifica o infante, ainda que este não seja capaz de crer.
Não de igual modo eles n'Ele, como Ele neles: pois ambos os modos são proveitosos, não para Ele, mas para eles; pois os ramos estão na videira de tal modo que não lhe conferem nada, mas dela recebem o que os faz viver; assim a videira está nos ramos para lhes fornecer alimento vital, não para receber deles; e por isso, para que os discípulos tivessem Cristo permanecendo neles e permanecessem em Cristo, ambos os modos são proveitosos para os discípulos, não para Cristo; por isso acrescenta: assim como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Grande recomendação da graça! Instrui os corações dos humildes, fecha a boca dos soberbos. Acaso não resistem a esta verdade aqueles que julgam não necessitar de Deus para fazer boas obras, não afirmadores, mas destruidores do livre-arbítrio? Pois quem julga produzir fruto por si mesmo, não está na videira; quem não está na videira, não está em Cristo; quem não está em Cristo, não é cristão.
Mas para que ninguém pense que o ramo pudesse, ao menos, produzir algum pequeno fruto por si mesmo, acrescenta: Porque sem mim nada podeis fazer. Ele não diz: podeis fazer pouco; porque a menos que o ramo permaneça na videira e viva da raiz, não pode de maneira alguma produzir fruto por si mesmo. Embora Cristo não seria a videira se não fosse homem, contudo, não concederia essa graça aos ramos se não fosse também Deus.
Porque os ramos da videira são tão desprezíveis, se não permanecerem na videira, quanto gloriosos, se permanecerem. Uma de duas coisas convém ao ramo: ou a videira, ou o fogo; se não está na videira, estará no fogo.
Então as suas palavras são ditas permanecer em nós quando fazemos o que Ele ordenou, e amamos o que Ele prometeu. Mas quando as suas palavras permanecem na memória e não são encontradas na vida, o ramo não é considerado estar na videira, porque não extrai vida da sua raiz. Na medida em que permanecemos no Salvador, não podemos querer nada que seja alheio à nossa salvação. Temos uma vontade enquanto estamos em Cristo, outra enquanto estamos neste mundo. E por causa da nossa permanência neste mundo, às vezes acontece de pedirmos aquilo que não é conveniente, por ignorância. Mas nunca, se permanecermos em Cristo, Ele nos concederá, Ele que não concede senão o que é conveniente para nós. E aqui somos dirigidos à oração do Pai Nosso. Devemos aderir às palavras e ao sentido desta oração em nossas petições, e tudo o que pedirmos será feito para nós.
Quer se diga clarificado, quer se diga glorificado, ambas as traduções derivam de uma única palavra grega. Pois doxa em grego corresponde a gloria em latim. Julguei necessário lembrar isso para que não atribuamos esta glória a nós mesmos, como se a tivéssemos por nós próprios: é graça d'Ele; e, portanto, nisto a glória não é nossa, mas d'Ele. Pois de quem receberíamos o fruto senão daquele cuja misericórdia nos prevenisse? Por isso acrescenta: "Como o Pai me amou, eu também vos amei". Eis de onde provêm nossas boas obras; pois de onde nos viriam, senão porque a fé opera pela caridade? E como amaríamos se não fôssemos amados primeiro? Quando ele diz: "Como o Pai me amou, eu também vos amei", não mostra igualdade de natureza entre a nossa e a sua, como há entre a do Pai e a dele; mas a graça, pela qual é mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus. Mostra-se realmente como mediador quando diz: "O Pai me amou, e eu vos amei"; pois certamente o Pai também nos ama, mas nele.
Quem duvidaria que o amor precede a observância dos preceitos? Pois não tem como guardar os preceitos quem não ama. O que, portanto, aqui diz, mostra não de onde o amor é gerado, mas de onde se manifesta; a fim de que ninguém se engane dizendo que O ama, se não guarda os Seus preceitos. Embora quando diz permanecei no Meu amor, não fica claro a qual amor se referiu: se àquele com que O amamos, ou àquele com que Ele nos ama; mas pelo que disse anteriormente, reconhece-se: pois Ele tinha dito eu vos amei, e imediatamente acrescentou permanecei no Meu amor, certamente naquele com que Ele os amou. O que é, portanto, permanecei no Meu amor, senão permanecei na Minha graça? E o que é se guardardes os Meus preceitos, permanecereis no Meu amor, senão por isso sabereis que permaneceis em Meu amor, com o qual vos amo, se guardardes os Meus preceitos? Não é, portanto, que nós guardamos primeiro os Seus preceitos para que Ele nos ame; mas se Ele não nos amar, não podemos guardar os Seus preceitos. Esta é a graça que se revela aos humildes e se esconde dos soberbos. Mas o que é aquilo que acrescenta assim como eu guardei os preceitos de Meu Pai e permaneço no Seu amor? Certamente Ele quis que aqui se entendesse aquele amor do Pai com o qual o Pai O ama. Mas por acaso também esta graça deve ser entendida como aquela com a qual o Pai ama o Filho, assim como é graça aquela com a qual o Filho nos ama, uma vez que nós somos filhos por graça, não por natureza, enquanto o Unigênito é por natureza, não por graça? Ou isto também no próprio Filho deve ser referido ao homem? Assim é certamente: pois dizendo assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei, mostra a graça do mediador; ora, o mediador entre Deus e os homens, não enquanto Deus, mas enquanto homem, é Cristo. Portanto, isto podemos dizer corretamente, que embora a natureza humana não pertença à natureza de Deus, pertence, contudo, à pessoa do Filho de Deus pela graça, a qual nenhuma é maior, absolutamente nenhuma é igual. Pois nenhum mérito humano precedeu àquela assunção, mas a partir daquela assunção começaram todos os seus méritos.
E qual é a alegria de Cristo em nós, senão aquela em que Ele se digna a alegrar-se por nós? E qual é a nossa alegria, que Ele diz que deve ser plena, senão participar da comunhão com Ele? Ele já tinha uma alegria perfeita a nosso respeito, quando se alegrava ao nos conhecer previamente e ao nos predestinar; mas aquela alegria não estava em nós, porque nem nós, em quem poderia existir, existíamos; mas começou a estar em nós quando Ele nos chamou. E esta alegria, com razão dizemos nossa, pela qual seremos bem-aventurados; a qual tem início na fé dos que renascem, e será completada na recompensa dos que ressuscitam.
Onde, portanto, a caridade existe, o que há que possa faltar? Mas onde ela não existe, o que há que possa ser proveitoso? Distingue-se, assim, esta dilecção daquela com que os homens se amam uns aos outros como homens; por isso é acrescentado como eu vos amei. Para que fim Cristo nos amou, senão para que possamos reinar com Cristo? Por isso, amemo-nos também uns aos outros, de modo a discernir o nosso amor dos demais, que não se amam mutuamente para que Deus seja amado, porque na verdade não amam. Mas aqueles que se amam para ter a Deus, estes verdadeiramente se amam.
Porque acima havia dito: Este é o meu precepto, que vos ameis uns aos outros assim como vos amei, segue-se logicamente o que o mesmo São João diz, que assim como Cristo por nós sua alma entregou, assim também nós devemos entregar nossas almas pelos irmãos. Isto os mártires fizeram com ardente amor; por isso à mesa de Cristo não os comemoramos como aos outros, para que por eles rezemos; mas antes para que sigamos seus passos. Pois eles mostraram aos seus irmãos aquilo que igualmente receberam da mesa do Senhor.
De um único e mesmo amor, amamos a Deus e ao próximo; mas a Deus por causa de Deus, e a nós mesmos e ao próximo por causa de Deus. Sendo, portanto, dois os preceitos da caridade, nos quais toda a Lei e os Profetas estão contidos, o amor a Deus e ao próximo; não é sem razão que a Escritura frequentemente coloca um pelo outro: porque quem ama a Deus, consequentemente faz o que Deus ordena; consequentemente, portanto, ama ao próximo, porque isto também Deus ordenou; por isso segue-se: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos ordeno".
Grande dignação! Não podendo ser bom um servo, se não cumprir os preceitos de seu senhor, quis que se entendesse aqui por seus amigos, donde os bons servos podem ser provados. Pode, portanto, ser tanto servo quanto amigo aquele que é bom servo. Como, porém, devemos entender que um servo bom é tanto servo quanto amigo, explica quando acrescenta: "já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor". Assim, então, não seremos servos quando formos bons servos. Porventura o senhor não confia também seus segredos ao servo bom e provado? Mas assim como há dois temores, há também duas servidões. Há o temor que a caridade perfeita lança fora, no qual também está a servidão que deve ser lançada fora junto com o próprio temor; e há outro temor casto, que permanece pelos séculos dos séculos. À primeira servidão, portanto, pertenciam os servos a quem o Senhor contemplava, dizendo: "já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor"; não aquele servo que certamente pertence ao temor casto, a quem é dito: "muito bem, servo bom (...) entra no gozo do teu senhor"; mas aquele servo que pertence ao temor a ser lançado fora pela caridade, do qual em outro lugar se diz: "o servo não permanece na casa para sempre, mas o filho permanece para sempre". Portanto, uma vez que nos deu o poder de nos tornarmos filhos de Deus, para que de modo admirável possamos ser servos, e não servos, sabemos que isto é o Senhor quem faz. Isto aquele servo não sabe, que não sabe o que faz o seu senhor; e quando faz algo de bom, se exalta como se ele mesmo o fizesse, e não o seu senhor; e gloria-se em si mesmo, e não no senhor. Segue-se: "a vós, porém, chamei amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai".
Mas de que modo compreenderemos ter Ele feito saber aos discípulos todas as coisas que ouviu do Pai, quando se abstém de dizer-lhes muitas coisas, porque sabe que eles ainda não são capazes de as suportar? Mas diz que fez saber aos discípulos todas as coisas, que sabe que lhes fará saber naquela plenitude, da qual diz o Apóstolo: "Então conhecerei como também sou conhecido"(1 Coríntios 13,12). Pois assim como esperamos a mortalidade da carne e a salvação das almas futura, assim também devemos esperar o conhecimento futuro de todas as coisas que o Unigênito ouviu do Pai.
Esta é uma graça inefável: pois o que éramos nós quando ainda não havíamos escolhido Cristo, senão iníquos e perdidos? Não tínhamos ainda crido nele para que nos elegesse; pois se elegeu os que creem, elegeu os que o elegem. Aqui certamente é vã a argumentação daqueles que dizem que fomos eleitos antes da constituição do mundo porque Deus previu que seríamos bons, e não que Ele mesmo nos faria bons; pois se por isso nos tivesse elegido, porque havia previsto que seríamos bons, teria também previsto que nós o teríamos elegido primeiro; não podemos ser bons de outro modo, a não ser que se diga que é bom aquele que não elege o bem. O que, então, elegeu nos que não são bons? Não podes dizer: por isso fui eleito porque já cria; pois se já crias nele, já o havias elegido. Nem podes dizer: antes de crer já praticava boas obras, por isso fui eleito. Pois que obra boa existe antes da fé? O que podemos dizer, então, senão que éramos maus e fomos eleitos para que, pela graça daquele que nos elege, nos tornássemos bons?
Portanto, eles foram escolhidos antes da fundação do mundo, de acordo com aquela predestinação na qual Deus previu seus futuros atos; escolhidos do mundo por aquela vocação pela qual Deus cumpriu o que havia predestinado: pois aqueles a quem predestinou, a estes também chamou(Romanos 8,30).
E vede como não escolhe os bons, mas aqueles que escolheu, faz bons; pois segue-se: "e vos designei para que vades e deis fruto". Este é o fruto do qual já havia falado: "sem mim nada podeis fazer". Ele mesmo é o caminho, no qual nos colocou, para que caminhemos.
O amor, portanto, é o nosso fruto; o qual agora está no desejo, ainda não na saciedade. E por meio deste mesmo desejo, qualquer coisa que pedirmos em nome do Filho unigênito, o Pai nos dá; de onde segue: "E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos dará". Pedimos em nome do Salvador aquilo que pertence à razão da salvação.
O Senhor havia dito: "Eu vos coloquei para que vades e produzais fruto". A caridade é o nosso fruto; portanto, sobre este fruto, ordenando-nos, diz: "Isto vos ordeno: que vos ameis uns aos outros". Por isso também o Apóstolo diz: "O fruto do Espírito é a caridade", e então enumera as demais virtudes como que brotando desta fonte principal e a ela ligadas. Com razão, portanto, recomenda assim a caridade frequentemente, como se fosse a única a ser ordenada, sem a qual as demais boas obras não podem ser proveitosas, e a qual não pode ser possuída sem as outras boas obras pelas quais o homem se torna bom.
Por que, pois, os membros se exaltam acima da cabeça? Recusas estar no corpo, se não queres suportar o ódio do mundo juntamente com a cabeça. Por causa do amor, devemos suportar pacientemente também o ódio do mundo: pois é necessário que ele nos odeie, quando vê que não queremos o que ele ama; por isso, segue-se: Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu.
Ele disse isso para toda a Igreja, a qual frequentemente chama de mundo, como está escrito: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo". Todo o mundo, portanto, é a Igreja, e todo o mundo odeia a Igreja. O mundo, portanto, odeia o mundo: o mundo inimigo odeia o mundo reconciliado, o mundo corrompido odeia o mundo purificado. Pode-se perguntar: se também os maus perseguem os maus, como quando reis e juízes ímpios, sendo perseguidores dos piedosos, castigam também homicidas e adúlteros; como se deve entender o que o Senhor disse: "se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu"? A não ser porque o mundo está naqueles que punem tais crimes, e o mundo está naqueles que os amam. O mundo, portanto, odeia o que é seu na parte dos homens que prejudica os criminosos, e ama o que é seu na parte que os favorece. Se também se perguntar como se ama a si mesmo o mundo que odeia o modo de redenção, ama certamente com um falso amor, não verdadeiro, pois ama aquilo que lhe prejudica. Odeia a natureza, ama o vício; por isso somos proibidos de amar nele o que ele ama, e ordenados a amar o que ele odeia em si mesmo. Somos proibidos de amar o vício nele, e ordenados a amar a natureza. E para que não fossem deste mundo condenado, foram escolhidos dele não por seus méritos, pois nenhuma boa obra os precedeu; não pela natureza, que estava toda viciada na própria raiz, mas pela graça; donde se segue: "mas porque não sois do mundo, mas eu vos escolhi do mundo, por isso o mundo vos odeia".
Exortando o Senhor seus servos a suportar pacientemente os ódios do mundo, não lhes propõe exemplo maior e melhor do que o de si mesmo; de onde se segue: Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior que seu senhor. Se me perseguiram, também vos perseguirão; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.
Onde diz "O servo não é maior que seu senhor", significa aquele servo pertencente ao temor casto, que permanece pelos séculos dos séculos.
Que significa tudo isto, senão o que Ele disse, que terão ódio e perseguirão, e desprezarão a palavra? O que significa dizer por causa do meu nome, senão que em vós me odiarão, em vós me perseguirão, e vossa palavra, por ser minha, por isso não guardarão? Tanto mais miseráveis são, pois, os que por causa deste nome fazem tais coisas, quanto mais bem-aventurados são os que por causa deste nome as padecem. Os maus também fazem tais coisas contra os maus; mas ambos são miseráveis, tanto os que fazem, como os que padecem. Como, pois, será verdade tudo isto vos farão por causa do meu nome, quando eles não o fazem por causa do nome de Cristo, isto é, por causa da justiça, mas por causa de sua iniquidade? Esta questão resolve-se assim: se tudo se referir aos justos, como se dissesse: isto padecereis da parte deles por causa do meu nome. Se por causa do meu nome se entende assim, isto é, aquilo que em vós odeiam, e por causa da justiça que em vós odeiam: de modo semelhante, pode-se dizer corretamente que também os bons, quando perseguem os maus, o fazem por causa da justiça, que amando perseguem os maus; e por causa da iniquidade, que odeiam nos próprios maus. E o que acrescenta: porque não conhecem aquele que me enviou, é dito segundo aquela ciência pela qual se diz: conhecer-te é sensatez consumada.
Cristo falou aos judeus, não a outras nações. Neles, portanto, quis que se entendesse o mundo que odeia a Cristo e a seus discípulos; e não somente neles, mas mostrou também que nós pertencemos ao mesmo mundo. Porventura, estavam sem pecado os judeus, aos quais Cristo falou, antes que Cristo viesse na carne? Mas ele quer que se entenda por um nome genérico um determinado grande pecado, não todo pecado. Este é, pois, o pecado pelo qual se mantêm todos os pecados, o qual se alguém não tiver, todos os pecados lhe são perdoados; este, porém, é porque não creram em Cristo, que veio precisamente para que se creia nele. Este pecado, portanto, se ele não tivesse vindo, certamente não teriam; pois sua vinda, quanto foi salutar para os que creram, tanto se tornou fatal para os que não creram. Segue-se: "agora, porém, não têm desculpa para o seu pecado". Porém, se aqueles aos quais Cristo não veio, nem lhes falou, não têm desculpa para o seu pecado, por que aqui foi dito que estes não a têm porque ele veio e lhes falou? Se, todavia, têm desculpa, porventura a têm para ficarem isentos dos castigos, ou para serem punidos mais brandamente? A estas questões respondo que eles têm desculpa, não de todo o seu pecado, mas deste seu pecado, porque não creram em Cristo. Entretanto, não estão neste número aqueles aos quais veio por meio dos discípulos: não devem ser tratados com pena mais leve aqueles que de modo algum quiseram receber a lei de Cristo e que, quanto a eles mesmos, quiseram que ela fosse completamente nula. Também podem ter esta desculpa aqueles que foram arrebatados pelo fim desta vida antes de ouvirem o Evangelho de Cristo; porém, nem por isso podem escapar à condenação. Pois quaisquer homens, se não forem salvos naquele salvador que veio procurar o que havia perecido, sem dúvida pertencerão à perdição. Embora se possa dizer que alguns sofrerão penas mais leves, outros mais graves. Diz-se que perece para Deus aquele que, por suplício, é separado daquela bem-aventurança que Deus dá aos seus santos. Tão grande é a diversidade dos suplícios, quão grande é a diversidade dos pecados: como esta se relaciona, a sabedoria divina julga mais profundamente do que a conjectura humana investiga ou exprime.
Mas, tendo Ele dito antes: não conhecem aquele que me enviou, como podem odiar aquele que não conhecem? Pois se odeiam a Deus, não tal como Ele é, mas suspeitando ou crendo que Ele seja outra coisa, não O odeiam verdadeiramente. E a respeito dos homens, pode acontecer que frequentemente odiemos ou amemos aqueles que nunca vimos, pela boa ou má fama que alguém propaga sobre eles. Mas como se pode dizer que é desconhecido aquele cuja natureza nos é íntima? Pois não nos é revelada sua face corporal; mas seu conhecimento torna-se manifesto para nós quando seus costumes e sua vida não estão ocultos: de outro modo, nem a si mesmo poderia alguém conhecer, quem não pode ver seu próprio rosto. Mas muitas vezes nossa credulidade é enganada nessas coisas: porque às vezes a história, e muito mais a fama, mentem. Cabe a nós, porém, já que não podemos investigar a consciência dos homens, ter uma opinião verdadeira e certa sobre as próprias coisas. Quando, pois, não se erra nas coisas, para que seja correta a reprovação dos vícios e a aprovação das virtudes; se houver erro quanto às pessoas, é uma tentação humana perdoável. Por conseguinte, assim como pode acontecer que um homem bom odeie um homem bom, sem saber, não a ele mesmo, mas o que pensa ser ele; ou antes ame sem saber, quando ama o bem que é aquele homem; assim pode acontecer que um homem injusto odeie um homem justo; e, contudo, enquanto o crê injusto, ame não a ele mesmo, mas o que pensa ser ele; da mesma forma como com os homens, assim também com Deus. Depois, se os judeus fossem interrogados se amavam a Deus, responderiam que O amavam, não mentindo deliberadamente, mas antes equivocando-se em sua opinião: pois como poderiam amar o pai da verdade aqueles que odeiam a verdade? Não querem que suas obras sejam condenadas; e isto é o que faz a verdade. Portanto, odeiam a verdade tanto quanto odeiam suas penas, que ela inflige a tais pessoas. Não sabem, porém, que aquela é a verdade, a qual condena os tais como eles são; e por isso, porque não sabem que a verdade, pela qual são condenados em seu juízo, nasceu do Pai Deus, também a Ele não conhecem e O odeiam.
Isto é o pecado pelo qual não acreditaram nele, que falava e operava. Mas o que significa o que acrescentou "que ninguém mais fez"? Certamente, nenhuma das obras de Cristo parece ser maior do que a ressurreição dos mortos, o que sabemos que até mesmo os antigos profetas fizeram. No entanto, Cristo fez algumas coisas que ninguém mais fez. Mas respondem-nos que outros também fizeram coisas que nem ele nem ninguém mais fez. Porém, não se lê absolutamente de nenhum dos antigos que tenha curado tantos vícios, enfermidades graves e mortais aflições com tanto poder. Pois, para não mencionar que ordenando, conforme se apresentavam, curava um a um, Marcos diz que onde quer que ele entrasse, em aldeias, povoados ou cidades, colocavam os enfermos nas praças e suplicavam-lhe que pudessem tocar ao menos a orla de sua veste; e todos os que o tocavam ficavam curados. Isto ninguém mais fez neles. Pois deve-se entender assim o que disse "neles", não "entre eles" ou "diante deles", mas precisamente "neles": porque os curou. Entretanto, ninguém mais fez qualquer dessas obras neles, pois qualquer outro homem que tenha feito algo semelhante, o fez porque Ele mesmo operava; mas estas obras Ele as fez não por ação deles. Mas ainda que o Pai ou o Espírito Santo as tenham feito, ninguém mais as fez, porque a substância de toda a Trindade é uma só. Portanto, a estes benefícios deveriam retribuir com amor, não com ódio; e repreendendo-os por isso, acrescenta dizendo: "mas agora viram e odiaram tanto a mim como a meu Pai".
Sob o nome de Lei, algumas vezes todos os escritos sagrados do Antigo Testamento são designados: e assim o Senhor diz aqui, "Está escrito na lei deles", quando se lê nos Salmos.
Ele diz a lei deles, não como feita por eles, mas como dada a eles. Gratuitamente odeia quem não busca nenhuma vantagem do ódio, nem foge de nenhum incômodo: assim os ímpios odeiam a Deus, assim os justos O amam, de modo que não esperam outros bens além d'Ele: porque Ele será tudo em todos.
Como se dissesse: Eles me odiaram e me mataram enquanto me viam; mas o Paráclito dará tal testemunho de mim, que fará com que creiam em mim, mesmo sem me verem. E porque Ele dará testemunho, vós também dareis testemunho; por isso segue-se: e vós também dareis testemunho. Ele inspirando em vossos corações, e vós proclamando com vossas vozes; por isso podereis pregar o que conheceis, porque estais comigo desde o princípio: o que agora não fazeis, porque a plenitude daquele Espírito ainda não está em vós. Pois a caridade de Deus, difundida em vossos corações pelo Espírito Santo que vos será dado, vos dará confiança para dar testemunho. Ele, ao dar testemunho e tornar fortíssimos os testemunhos, retirou o temor dos amigos de Cristo, e converteu em amor o ódio dos inimigos.
Aqui alguém talvez pergunte se o Espírito Santo procede também do Filho; pois o Filho é filho somente do Pai, e o Pai é pai somente do Filho; mas o Espírito Santo não é Espírito de um só deles, mas de ambos, visto que o próprio Cristo diz: "O Espírito de vosso Pai que fala em vós"(São Mateus 10,20); e diz o Apóstolo: "Enviou Deus o Espírito de seu Filho aos vossos corações"(Gálatas 4,6). E por nenhuma outra razão, creio eu, é Ele propriamente chamado Espírito, pois ainda que se nos pergunte sobre cada um dos dois, não podemos deixar de dizer que tanto o Pai como o Filho são espírito. Portanto, o que cada um é chamado em comum, foi conveniente que fosse propriamente chamado Aquele que não é um dos dois, mas em quem aparece a comunhão de ambos. Por que, então, não cremos que o Espírito Santo procede também do Filho, uma vez que também é Espírito do Filho? Se dele não procedesse, não teria, após a ressurreição, soprado sobre seus discípulos, dizendo: "Recebei o Espírito Santo"(São João 20,22). Desta virtude também se deve crer que fala o Evangelista: "Dele saía uma virtude que curava a todos"(São Lucas 6,19). Se, portanto, o Espírito Santo procede tanto do Pai como do Filho, por que o Filho disse: "do Pai procede", senão porque, como costuma, refere ao Pai aquilo que também é seu, e de quem Ele próprio procede? Daí aquilo que diz: "Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou"(São João 7,16). Se, portanto, entende-se que é doutrina sua a que, no entanto, disse não ser sua, mas do Pai, com quanto mais razão se deve entender que o Espírito Santo procede também dele, já que assim disse "do Pai procede", de modo a não dizer: "de mim não procede". De quem, porém, o Filho tem o ser Deus, desse mesmo tem, sem dúvida, que dele proceda o Espírito Santo. Daqui também de algum modo se compreende por que o Espírito Santo não é dito ter nascido, mas proceder: porque se também ele fosse chamado filho, seria certamente chamado filho de ambos, o que é absurdíssimo; pois filho algum é de dois, senão de pai e mãe. Longe de nós, porém, suspeitar algo semelhante entre Deus Pai e Deus Filho, pois nem o filho dos homens procede simultaneamente do pai e da mãe; mas quando procede à mãe a partir do pai, não procede então também da mãe. O Espírito Santo, porém, não procede do Pai para o Filho e do Filho para santificar a criatura; mas procede simultaneamente de ambos. Nem podemos dizer que o Espírito Santo não é vida, sendo o Pai vida, e vida o Filho; e por isso, assim como o Pai, tendo vida em si mesmo, deu ao Filho ter vida em si mesmo, assim lhe deu que a vida procedesse dele, como procede também de si mesmo.
Após a promessa do Espírito Santo, pelo qual operando neles se tornariam suas testemunhas, acrescentou: "Estas coisas vos tenho dito, para que não vos escandalizeis". Pois quando a caridade de Deus é difundida em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Romanos 5,5), faz-se muita paz aos que amam a lei de Deus, para que não haja para eles escândalo. Em seguida, expressando o que haveriam de sofrer, diz: "Far-vos-ão expulsar das sinagogas".
Que mal havia em os Apóstolos serem expulsos das sinagogas judaicas, como se não fossem sair delas ainda que ninguém os expulsasse? Mas quis anunciar que os judeus não iriam receber a Cristo, de quem estes não se afastariam. Pois como não havia outro povo de Deus senão aquela descendência de Abraão, se tivessem reconhecido a Cristo, não haveria Igrejas de Cristo separadas das sinagogas dos judeus. Mas como não quiseram, o que restava senão que, permanecendo fora de Cristo, expulsassem das sinagogas aqueles que não abandonaram a Cristo? Depois, tendo-lhes dito isto, acrescentou: "mas vem a hora em que todo aquele que vos matar julgará prestar um serviço a Deus". Estas palavras ele acrescentou como para consolar os que seriam expulsos das sinagogas judaicas. Acaso essa separação das sinagogas os perturbaria tanto a ponto de preferirem morrer a viver neste mundo sem as congregações dos judeus? Longe disto, não se perturbariam assim os que buscavam a glória de Deus, não a dos homens. Este, portanto, é o sentido destas palavras: "Expulsar-vos-ão das sinagogas; mas não temais a solidão". Pois, separados das congregações deles, reunireis tantos em meu nome que eles, temendo que o templo que estava entre eles e todos os sacramentos da antiga lei sejam abandonados, vos matarão pensando prestar um serviço a Deus, tendo zelo de Deus, mas não segundo a ciência. Isto devemos entender que foi dito acerca dos judeus, dos quais dissera: "expulsar-vos-ão das sinagogas". Pois as testemunhas, isto é, os mártires de Cristo, ainda que tenham sido mortos pelos gentios, estes, no entanto, não julgavam prestar um serviço a Deus, mas aos seus falsos deuses; mas todo judeu que matava os pregadores de Cristo, pensava estar prestando um serviço a Deus, crendo que abandonavam o Deus de Israel todos os que se convertiam a Cristo. Assim, pois, inflamados e tendo zelo de Deus, mas não segundo a ciência, crendo prestar um serviço a Deus, matavam-nos.
Mas, para que tais males não perturbassem os ânimos ignorantes e despreparados, embora devessem logo passar, Ele lhes mostrou que esta foi a razão pela qual os anunciou de antemão, acrescentando: "Disse-vos estas coisas para que, quando chegar a hora deles, vos lembreis de que Eu vos disse". A hora deles, hora tenebrosa, hora noturna; mas a noite dos judeus, separada do dia dos cristãos, não o obscureceu com confusão alguma.
Mas os outros três Evangelistas demonstram que Ele predisse essas coisas antes que se chegasse à ceia, a qual, tendo sido concluída, segundo São João, falou estas coisas. Porventura esta questão se resolve desta forma, porque também eles narram que Ele estava próximo da paixão quando disse isto? Logo, não desde o início quando estava com eles. Mas São Mateus recorda que não só na iminência da paixão, mas também desde o início, estas coisas foram anunciadas. O que significa, então, o que Ele diz aqui "estas coisas, porém, não vos disse desde o início", senão porque estas coisas que Ele diz aqui sobre o Espírito Santo, que haveria de vir a eles e dar testemunho quando sofressem males, estas coisas não lhes disse desde o início, porque estava com eles e com Sua presença os consolava? Estando, porém, para partir, era necessário que dissesse que Aquele haveria de vir, por meio de quem, difundida a caridade em seus corações, predicariam com confiança a palavra de Deus.
Ou porque anteriormente eles o haviam interrogado para onde iria; e Ele respondera que iria para onde eles então não podiam vir: agora, assim, Ele promete ir de modo que nenhum deles interrogue para onde vai; e é isto o que diz: "e nenhum de vós me interroga: para onde vais?" Pois quando Ele ia para o céu, não o questionaram com palavras, mas o acompanharam com os olhos. Mas o Senhor via o que suas palavras operavam nos corações deles: não tendo ainda interiormente o consolo espiritual que haveriam de receber pelo Espírito Santo, temiam perder o que exteriormente viam em Cristo; e porque não podiam duvidar que o perderiam, uma vez que Ele anunciara a verdade, o sentimento humano entristecia-se, porque o olhar carnal era desolado; donde segue: "mas porque vos disse estas coisas, a tristeza encheu vosso coração". Conhecia, porém, o Senhor o que lhes era mais proveitoso: pois a visão interior é melhor, pela qual o Espírito Santo os haveria de consolar; donde acrescenta: "mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá".
Ele disse isto não por causa de uma desigualdade entre o Verbo de Deus e o Espírito Santo; mas porque a presença do Filho do homem entre eles seria um impedimento para a vinda daquele que não era menor: pois este não se aniquilou a si mesmo como o Filho, tomando a forma de servo. Era necessário, portanto, que a forma de servo fosse retirada dos olhos deles, pois contemplando-a pensavam que Cristo era apenas aquilo que viam; donde segue: "mas, se eu for, enviá-lo-ei a vós".
Mas, acaso, estando aqui, não poderia enviar Aquele que sabemos ter vindo sobre Ele e permanecido em Seu batismo; ou melhor, Aquele de quem sabemos que nunca poderia ser separado? O que significa, então, "Se eu não for embora, o Paráclito não virá a vós", senão: não podeis receber o Espírito enquanto persistis em conhecer Cristo segundo a carne? Partindo Cristo corporalmente, não apenas o Espírito Santo, mas também o Pai e o Filho vieram a eles espiritualmente.
O Espírito Santo Paráclito trouxe esta disposição, para que, removida dos olhos da carne a forma de servo que recebeu do ventre da Virgem, fosse manifestado à visão mental purificada na própria forma de Deus, na qual permaneceu igual ao Pai, mesmo quando se dignou aparecer na carne.
Porventura Cristo não arguiu o mundo? Ou talvez porque Cristo falou somente entre a nação dos judeus, não parece ter arguido o mundo? Contudo, o Espírito Santo, difundido por todo o orbe nos seus discípulos, não se entende ter arguido uma única nação, mas o mundo. Mas quem ousaria dizer que o Espírito Santo, pelos discípulos de Cristo, argui o mundo, e Cristo não o argui, quando o Apóstolo exclama: "quereis uma prova de Cristo que fala em mim?"(2 Coríntios 13,3) Portanto, aqueles a quem o Espírito Santo argui, Cristo também argui. Mas disse "ele arguirá o mundo", como se dissesse: ele derramará a caridade em vossos corações; assim, com o temor afastado, tereis liberdade para arguir. E então explica o que havia dito: "De pecado, certamente, porque não creram em mim"; pois mencionou este pecado acima de todos os outros, porque permanecendo este, os demais são retidos, e desaparecendo este, os outros são perdoados.
Mas há grande diferença entre crer que alguém é Cristo e crer em Cristo; pois que Ele era Cristo, até os demônios creram: mas aquele crê em Cristo que tanto espera em Cristo quanto ama a Cristo.
É acusado, pois, o mundo de pecado, porque não crê em Cristo; e é acusado da justiça daqueles que creem. Pois a própria comparação dos fiéis é a repreensão dos infiéis. Da justiça, porque vou ao Pai. E visto que este costuma ser o clamor dos infiéis: como podemos crer naquilo que não vemos? Por isso, a justiça dos crentes deve ser assim definida: porque vou ao Pai, e já não me vereis. Bem-aventurados, de fato, os que não veem e creem. Pois também aqueles que viram Cristo, não foi louvada a fé deles porque criam no que viam, isto é, no Filho do homem; mas porque criam no que não viam, isto é, no Filho de Deus. Porém, quando também a própria forma de servo foi retirada de suas vistas, então se cumpriu completamente: o justo vive da fé. Será, portanto, vossa justiça, da qual o mundo será acusado, porque em mim, a quem não vereis, crereis; e quando me virdes: pois então me vereis como serei, não como estou convosco agora; isto é, não me vereis mortal, mas eterno; pois ao dizer já não me vereis, anunciou como se eles nunca mais fossem ver a Cristo.
Ou de outro modo. Aqueles não acreditaram: Ele vai ao Pai. Deles, portanto, foi o pecado, mas dele a justiça. Pois o que veio do Pai até nós foi misericórdia; mas é justiça que Ele vá ao Pai; conforme aquilo do Apóstolo: "Por isso também Deus o exaltou". Mas se Ele vai sozinho ao Pai, que proveito há para nós? Acaso sozinho significa que Cristo é um só com todos os seus membros, assim como a cabeça com o seu corpo? Argui-se, pois, o mundo de pecado naqueles que não creem em Cristo, e de justiça naqueles que ressuscitam como membros de Cristo. Segue-se: "de juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado", isto é, o Diabo, príncipe dos iníquos, que no coração não habitam senão neste mundo que amam. E pelo fato mesmo de ter sido lançado fora, foi julgado; e deste juízo o mundo é arguido: porque em vão se queixa do Diabo quem não quer crer em Cristo, a quem julgado, isto é, lançado fora, e para nosso exercício permitido atacar de fora, não só homens, mas também mulheres e meninos e meninas mártires venceram.
Ou julgado está, porque foi destinado irrevocavelmente ao juízo do fogo eterno; e deste juízo o mundo é arguido, porque é julgado com seu príncipe, a quem imita na soberba e impiedade. Creiam, pois, os homens em Cristo, para que não sejam arguidos do pecado de sua infidelidade, pelo qual todos os pecados são retidos; passem para o número dos fiéis, para que não sejam arguidos da justiça daqueles que, justificados, não imitam; acautelem-se do juízo futuro, para que não sejam julgados com o príncipe do mundo, a quem imitam após ser julgado.
Também deste modo o Espírito Santo convence o mundo do pecado, porque em nome do Salvador, que foi reprovado pelo mundo, operou maravilhas. O Salvador, conservada a justiça, não temeu retornar àquele que o enviou, e por ter regressado provou que de lá viera; donde segue: "e de justiça, porque vou ao Pai".
Vendo os demônios as almas irem dos infernos aos céus, reconheceram que o príncipe deste mundo havia sido julgado e, tornando-se réu na causa do Salvador, perdera por direito o que detinha. Isto, na verdade, foi visto na ascensão do Salvador; mas, com a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos, foi manifestado clara e abertamente.
Todos os herejes tentam colorir as audácias de suas invenções, as quais o senso humano mais abomina, com esta ocasião da sentença evangélica; como se estas mesmas coisas fossem as que então os discípulos não podiam suportar, e que o Espírito Santo tenha ensinado aquelas coisas que o espírito imundo se envergonha de ensinar e pregar abertamente. Mas uma coisa são os males que não pode suportar qualquer pudor humano, e outra coisa são os bens que não pode suportar o limitado senso humano. Aqueles estão nos corpos impudicos, estes estão afastados de todos os corpos. Qual de nós, porém, ousaria dizer-se já capaz daquilo que eles não conseguiam captar? E por isso, nem de mim se deve esperar que sejam ditas. Mas alguém dirá: assim, muitos podem o que então Pedro não podia, assim como muitos podem ser coroados pelo martírio, o que então Pedro não podia, especialmente já enviado o Espírito Santo, que então ainda não tinha sido enviado. Mas acaso por isso sabemos quais são as coisas que quis dizer? Pois me parece absurdíssimo dizer-se que os discípulos não podiam então suportar as coisas que encontramos nas cartas apostólicas sobre os assuntos mais elevados, que foram escritas depois, e não se narra que o Senhor as tenha dito. Os homens de seitas perversas não podem suportar o que se encontra nas Sagradas Escrituras a respeito da fé Católica, assim como nós não podemos suportar suas sacrilegas vaidades: pois o que é não poder suportar, senão não ter com ânimo sereno? Pois qual fiel, ou até catecúmeno, antes de receber o Espírito Santo pelo batismo, não lê e escuta com ânimo sereno, ainda que não entenda, aquelas coisas que foram escritas após a ascensão do Senhor? Alguém dirá: os homens espirituais não têm nada em sua doutrina que calem aos carnais e falem aos espirituais? Certamente não há necessidade de que alguns segredos da doutrina sejam calados aos pequenos fiéis, para serem ditos separadamente aos maiores; mas os espirituais não devem de modo algum calar as coisas espirituais aos carnais por causa da fé Católica, que deve ser pregada a todos: nem, contudo, devem explicá-las de tal modo que, querendo conduzir à inteligência dos não capazes, mais facilmente causem fastídio no discurso sobre a verdade, do que fazer com que a verdade seja percebida no discurso. Não recebemos, portanto, nessas palavras do Senhor, não sei quais segredos que, podendo ser ditos pelo mestre, não possam ser suportados pelo discípulo. Mas aquelas mesmas coisas que na doutrina da religião dizemos ao conhecimento de quaisquer homens, se Cristo quisesse dizer-nos, como as diz aos seus Anjos; quais homens poderiam suportá-las, ainda que fossem espirituais, como os apóstolos ainda não eram? Pois certamente qualquer coisa que se possa saber da criatura é menor que o próprio Criador: e quem o cala? Quem, porém, vivendo neste corpo, poderia conhecer toda a verdade, quando diz o apóstolo: "em parte conhecemos"? Mas, porque pelo Espírito Santo acontece que cheguemos também àquela plenitude, da qual o mesmo apóstolo diz: "mas então face a face"; não é apenas o que está nesta vida que o Senhor nos prometeu, dizendo: "quando vier aquele Espírito de verdade, ensinar-vos-á toda a verdade"; ou "conduzir-vos-á a toda a verdade": por esta palavra entendemos que a sua plenitude está reservada para nós na outra vida. O próprio Espírito Santo também agora ensina os fiéis as coisas espirituais, quanto cada um pode captar, e acende em seus corações um desejo maior.
Isto é semelhante ao que Ele disse sobre si mesmo: "não posso fazer nada por mim mesmo, mas julgo conforme ouço"; mas afirmamos que aquilo pode ser entendido segundo a natureza humana. Como, portanto, o Espírito Santo não se tornou criatura pela assunção de alguma criatura, de que modo devemos entender isso a respeito dele? Devemos, pois, compreender que ele não existe por si mesmo: porque o Filho é nascido do Pai, e o Espírito Santo procede do Pai. Mas qual é a diferença entre proceder e nascer, é demasiado longo explicar e temerário definir. Ouvir, para ele, é conhecer, e conhecer é ser. Porque, portanto, ele não é de si mesmo, mas daquele de quem procede; daquele que lhe dá a essência, daquele vem o conhecimento; daquele, portanto, vem o ouvir. Assim, o Espírito Santo sempre ouve, porque sempre conhece; dele, portanto, ouviu, ouve e ouvirá aquele que dele procede.
Mas daqui não se deduz que o Espírito Santo seja menor; pois isso foi dito apenas para significar que Ele procede do Pai.
Nem te perturbe que o verbo tenha sido posto no tempo futuro: certamente aquela audiência é eterna, porque a ciência é eterna. Naquilo, porém, que é eterno, sem início e sem fim, pode-se usar um verbo de qualquer tempo: pois embora aquela natureza imutável não admita foi e será, mas somente é, não dizemos falsamente: foi e é e será; foi, porque nunca faltou; será, porque nunca faltará; é, porque sempre é.
Porque, difundindo a caridade nos corações dos crentes, e tornando-os espirituais, lhes declarou como o Filho era igual ao Pai, a quem antes conheciam apenas segundo a carne, e consideravam como homem entre os homens. Ou certamente, porque por meio da própria caridade, repletos de confiança e dissipado o temor, anunciaram Cristo aos homens; e assim sua fama se difundiu por todo o orbe da terra. Pois o que haveriam de fazer no Espírito Santo, isso mesmo o Espírito disse que Ele próprio o faria.
O Espírito Santo não é, como afirmaram alguns hereges, menor que o Filho, porque o Filho receba do Pai e o Espírito Santo do Filho, como se por certos graus de natureza. Por isso, resolvendo esta questão, ele explica o motivo de ter dito isso, dizendo: "Tudo o que o Pai tem é meu; por isso vos disse que ele receberá do que é meu, e vos anunciará".
Estas palavras do Senhor, porém, eram obscuras para os discípulos, antes que aquilo que Ele diz se cumprisse; por isso segue: Disseram então dentre os seus discípulos uns aos outros: O que é isto que nos diz: um pouco e não me vereis, e novamente um pouco e me vereis, porque vou ao Pai?
Pois no que precede, como Ele não tinha dito "um pouco", mas tinha dito "vou ao Pai", pareceu-lhes falar claramente. Agora, pois, o que para eles era então obscuro, e logo se tornou manifesto, já é certamente manifesto para nós. Pouco depois, com efeito, padeceu, e não O viram; e novamente, pouco depois, ressuscitou, e O viram. Diz também "e já não me vereis", porque, certamente, não viram mais o Cristo mortal.
O que pode ser entendido assim: que os discípulos se entristeceram com a morte do Senhor, e imediatamente se alegraram com a ressurreição. O mundo, porém, (nome pelo qual são designados os inimigos pelos quais Cristo foi morto) alegrou-se quando Cristo foi morto, justamente quando os discípulos estavam entristecidos; por isso segue: "o mundo se alegrará, mas vós vos entristecereis; mas a vossa tristeza se converterá em alegria".
Esta comparação não parece ser difícil de entender; pois sua analogia é evidente, explicando ele mesmo por que foi dita; pois segue: e vós agora em verdade tendes tristeza. Porém eu vos verei novamente, e vosso coração se alegrará. O trabalho de parto é comparado à tristeza, enquanto o nascimento é comparado à alegria; o que costuma ser ainda mais verdadeiro quando não é uma menina, mas um menino que nasce. E quanto ao que acrescenta: e vosso gozo ninguém tirará de vós, porque o gozo deles é o próprio Jesus, significa o que diz o Apóstolo: Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre(Romanos 6,9).
Ou melhor é entender sobre a visão e gozo futuros, que foram mencionados acima, o "um pouco e já não me vereis": pois um pouco é todo este espaço de tempo em que o século presente passa voando; por isso certamente acrescentou "porque vou ao Pai": o que deve ser referido à sentença anterior, onde diz "um pouco e já não me vereis"; não à posterior onde diz "um pouco e me vereis". Pois indo ao Pai, haveria de fazer com que não o vissem. Portanto, a eles diz "um pouco e já não me vereis", aos que então o viam corporalmente: porque iria ao Pai e daí em diante os mortais não o veriam mais como o viam quando lhes falava isso. Mas o que acrescentou "e novamente um pouco e me vereis", prometeu a toda a Igreja. Este pouco, porém, nos parece longo, porque ainda está em curso; quando for terminado, então sentiremos quão pouco foi.
E, no entanto, neste parto de alegria não estamos tristes sem alegria; mas, como diz o Apóstolo: alegres na esperança(Romanos 12,12); porque mesmo a mulher em trabalho de parto, à qual somos comparados, mais se alegra pela prole que em breve virá do que se entristece pela dor presente.
Pois este fruto de todo o seu trabalho a Igreja agora está em trabalho de parto desejando-o, mas então o dará à luz contemplando-o. E é um filho varão, porquanto a este fruto da contemplação são referidos todos os ofícios da ação; pois somente é livre aquilo que é desejado por si mesmo, e não se refere a outra coisa: a isto serve a ação. Pois a isto se refere tudo o que é bem feito: ali está o fim que nos basta: será, portanto, eterno. Pois não nos basta um fim a não ser aquele que não tem fim. Sobre isto, pois, que nos é suficiente, com toda razão ouvimos: "vosso gozo ninguém o tirará de vós".
Esta palavra que é rogare não significa apenas pedir, mas também interrogar; e o Evangelho grego, de onde este foi traduzido, tem tal palavra que pode ser entendida de ambas as formas.
Mas, porventura nos ama Ele porque nós O amamos, ou antes porque Ele nos ama, nós O amamos? Isto mesmo diz o Evangelista: "Amemos nós, porque Ele nos amou primeiro"(1 São João 4,19). Ama-nos, pois, o Pai, porque nós amamos o Filho, tendo recebido do Pai e do Filho a graça para que amemos o Pai e o Filho. Amou Ele mesmo o que fez; mas não faria em nós o que ama, se antes de o fazer, não nos amasse.
Saiu do Pai, porque é do Pai; veio ao mundo, porque mostrou seu corpo ao mundo. Deixou o mundo com a partida corporal, dirigiu-se ao Pai com a ascensão do homem, e não abandonou o mundo com a presença de seu governo; porque assim veio ao mundo saindo do Pai, de modo a não abandonar o Pai. Mas lemos que o Senhor Jesus Cristo, depois que ressuscitou, foi tanto interrogado quanto rogado: pois foi interrogado pelos discípulos quando estava prestes a subir ao céu, quando restituiria o reino a Israel; foi rogado por Estêvão quando estava no céu, para que recebesse seu espírito. E quem ousaria dizer que não se deve rogar ao imortal, mas que se devia rogar ao mortal? Penso, portanto, que quando diz "naquele dia não me pedireis nada", isso não deve ser referido àquele tempo em que ressuscitou, mas àquele quando o veremos como ele é; cuja visão não é da vida temporal, mas da eterna, onde já nada rogaremos, nada interrogaremos, porque nada permanecerá a ser desejado, nada permanecerá oculto para ser indagado.
Isto que diz "se alguma coisa", não se entende qualquer coisa, mas algo que, em comparação com a vida bem-aventurada, não seja nada. Não se pede em nome do Salvador o que se pede contra a razão da salvação; pois não se deve tomar aqui o som das letras ou sílabas, mas o que pelo som reta e verdadeiramente se entende, quando diz "em meu nome". Por isso, quem pensa de Cristo o que não se deve pensar do Filho único de Deus, não pede em seu nome. Mas quem pensa sobre Ele o que se deve pensar, esse pede em seu nome, e recebe o que pede, se não pede contra sua salvação eterna; recebe, porém, quando deve receber, pois certas coisas não são negadas, mas diferidas para que sejam dadas em tempo oportuno. De fato, deve-se entender assim o que diz "vos dará", para que se saiba que estas palavras significam os benefícios que propriamente pertencem àqueles que pedem. Todos os santos são atendidos por si mesmos, mas não por todos, porque não foi dito indistintamente "dará", mas "vos dará". Quanto ao que segue, "até agora não pedistes nada em meu nome", pode-se entender de dois modos: ou porque em meu nome não pedistes, nome que não conhecestes como deveria ser conhecido; ou não pedistes nada, porque em comparação com o que deveríeis pedir, deve ser considerado nada o que pedistes. Para que, portanto, em seu nome não peçam nada, mas o gozo pleno, acrescenta "pedi e recebereis, para que vosso gozo seja pleno". Este gozo pleno que menciona não é um gozo carnal, mas espiritual; e quando for tão grande que já nada se possa acrescentar a ele, então será pleno.
E esta é a vossa alegria plena, além da qual não existe maior, gozar de Deus, da Trindade, a cuja imagem fomos feitos.
Tudo aquilo que se pede que pertence para alcançar este gozo, isto deve ser pedido em nome de Cristo. Pois com este bem a divina misericórdia não fraudará de maneira alguma os seus santos que perseveram em pedir. Mas qualquer outra coisa que se peça, nada se pede: não porque não seja coisa alguma, mas porque em comparação com coisa tão grande, o que quer que se deseje, nada é. Segue-se: Eu vos disse estas coisas em provérbios: vem a hora em que já não vos falarei em provérbios, mas abertamente vos anunciarei sobre o meu Pai. Eu poderia dizer que esta hora da qual fala é o entendimento do século futuro, onde veremos abertamente o que o Apóstolo diz: face a face(1 Coríntios 13,12); e quando diz Eu vos disse estas coisas em provérbios, isto seria o que foi dito pelo Apóstolo: vemos agora por espelho, em enigma(1 Coríntios 13,12). Anunciar-vos-ei porque o Pai será visto através do Filho: nem alguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar(São Mateus 11,27).
Mas este sentido parece ser impedido pelo que segue: "Naquele dia pedireis em meu nome": pois no século futuro, o que haveremos de pedir, quando nosso desejo for saciado em bens? Com efeito, a petição denota alguma carência. Resta, portanto, que se entenda que Jesus tornaria seus discípulos de carnais em espirituais. O homem natural ouve o que quer que seja que ouve sobre a natureza de Deus de tal modo que não pode pensar em outra coisa senão em um corpo. Por isso, tudo o que a sabedoria diz sobre a substância incorpórea e imutável são como provérbios para ele; não que ele considere tais coisas como provérbios, mas porque ele pensa como aqueles que costumam ouvir provérbios sem entendê-los. Quando, porém, o homem espiritual começa a julgar todas as coisas, mesmo que nesta vida perceba como por espelho e em parte, contudo, sem nenhum sentido corporal, sem nenhum pensamento imaginário, mas pela mais certa inteligência da mente, compreende que Deus não é corpo, mas espírito. Assim, quando o Filho anuncia claramente sobre o Pai, de modo que Ele mesmo que anuncia é reconhecido como sendo da mesma substância, agora pedem em seu nome aqueles que pedem: porque no som deste nome não entendem outra coisa senão a própria realidade que é chamada por este nome. Estes podem entender que nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto homem, intercede pelo Pai por nós; enquanto Deus, nos ouve com o Pai: o que julgo ter significado quando disse "e não digo que eu rogarei ao Pai por vós". Para chegar a esta compreensão, isto é, como o Filho não pede ao Pai, mas Pai e Filho juntos ouvem os que pedem, somente o olho espiritual da mente se eleva.
Contudo, visto que ainda se promete aquela hora futura na qual falará sem provérbios, por que eles dizem isso, senão porque aquelas coisas que Ele sabe serem provérbios para os que não entendem, a tal ponto não as compreendem, que nem sequer entendem que não as entendem?
Por que, então, quiseram dizer-lhe, àquele que sabiam conhecer todas as coisas, "não tens necessidade de que alguém te interrogue", quando parece que deveriam ter dito: "não tens necessidade de interrogar nada"? Pois lemos que ambas as coisas aconteceram: que o Senhor tanto interrogou quanto foi interrogado. Mas isto se resolve facilmente: porque isto não era necessário para Ele, mas sim para aqueles a quem interrogava, ou por quem era interrogado. Pois Ele não interrogava a ninguém para aprender algo deles, mas antes para ensiná-los; e aqueles que o interrogavam, querendo aprender algo dele, certamente tinham necessidade de saber algumas coisas daquele que conhecia tudo. Ele, porém, não tinha necessidade de conhecer, através da interrogação, o que alguém quisesse saber dele, porque antes de ser interrogado, já conhecia a vontade dos que interrogavam. Prever os pensamentos dos homens não era algo grandioso para o Senhor, mas era grandioso para os pequeninos que dizem: "nisto cremos que saíste de Deus".
Por fim, adverte-os ainda acerca da fragilidade da idade deles no que se refere ao homem interior; donde segue-se respondeu-lhes Jesus: agora credes
Pois quando Ele foi preso, não apenas com seus corpos abandonaram o corpo d'Ele, mas também com suas mentes abandonaram a fé.
Para entender isto, Ele queria que eles se estendessem e crescessem, para que não pensassem que o Filho tinha saído do Pai de tal modo que também acreditassem que Ele tivesse se afastado. Então, conclui seu discurso dizendo: "Estas coisas vos tenho dito, para que tenhais paz em mim".
Esta aflição teria tido aquele início sobre o qual diz: "Vem a hora em que vos dispersareis, cada um para o que é seu"; mas não estava destinada a perseverar desse modo, pois o que acrescentou, "e me deixareis só", não quer que eles sejam assim na tribulação subsequente, a qual haveriam de ter no mundo depois de sua ascensão, de modo que o abandonem, mas para que nele tenham paz permanecendo nele; por isso segue: "mas tende confiança".
Dado, porém, o Espírito Santo, confiaram e venceram, não somente n'Ele: pois Ele não teria vencido o mundo se o mundo vencesse seus membros. Quando, porém, diz "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim", não devemos entender somente as coisas ditas pouco antes por Ele, mas todas as coisas: seja tudo quanto lhes falou desde que começou a ter discípulos, seja desde quando, após a ceia, iniciou este admirável e extenso sermão. Pois esta foi a causa que recomendou de seu sermão, para que nele tivessem paz. Esta paz não terá fim no tempo; mas será ela mesma o fim de toda nossa pia intenção e ação.
Poderia o Senhor na forma de servo, se isso fosse necessário, orar em silêncio; mas quis assim se mostrar ao Pai como suplicante para que se lembrasse de que Ele é nosso mestre. Por conseguinte, não só o discurso para eles, mas também a oração ao Pai por eles, é para edificação dos discípulos; e certamente também para a nossa, que havíamos de ler o que foi escrito. Isto, porém, que Ele diz Pai, chegou a hora, mostra que todo o tempo, e o que e quando faria, ou permitiria ser feito, foi disposto por Aquele que não está sujeito ao tempo. E não se creia que esta hora veio por urgência do destino, mas antes pela ordenação de Deus: longe de nós pensar que os astros pudessem forçar à morte o Criador dos astros.
Mas se pela paixão Ele é dito glorificado, quanto mais pela ressurreição! Pois na paixão, mais a sua humildade do que a sua glória é recomendada. Portanto, o que diz: "Pai, chegou a hora, glorifica teu Filho", deve ser entendido como se dissesse: chegou a hora de semear a humildade; não retardes o fruto da glória.
Com razão se pergunta como o Filho glorificou o Pai, visto que a glória sempiterna do Pai nem foi diminuída na forma humana, nem pôde ser aumentada em sua perfeição divina. Mas entre os homens era menor, quando somente na Judeia Deus era conhecido; porque, de fato, pelo Evangelho de Cristo aconteceu que o Pai se tornou conhecido aos gentios, o Filho glorificou o Pai. Portanto, diz: "Glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique"; como se dissesse: ressuscita-me, para que por mim sejas conhecido em todo o orbe. Em seguida, revelando mais como o Filho glorifica o Pai, acrescenta: "assim como lhe deste poder sobre toda carne, para que dê a vida eterna a todos que lhe deste". Disse toda carne para dizer todo homem, significando o todo pela parte. Mas isto, que o poder foi dado a Cristo pelo Pai sobre toda carne, deve ser entendido segundo o homem.
Diz, portanto: "Assim como lhe deste poder sobre toda carne, assim o Filho te glorifique", isto é, te faça conhecido a toda carne que lhe deste; pois assim lhe deste, para que dê vida eterna a todos os que lhe deste.
Devemos, portanto, examinar se somos obrigados a entender, quando foi dito ao Pai "para que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro", como se quisesse insinuar que só o Pai é Deus verdadeiro, de modo que não entendêssemos que são Deus apenas os três juntos: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Agora, portanto, pelo testemunho do Senhor, dizemos que o Pai é o único Deus verdadeiro, e o Filho é o único Deus verdadeiro, e o Espírito Santo é o único Deus verdadeiro; e simultaneamente o Pai, o Filho e o Espírito, isto é, a própria Trindade em conjunto, não são três Deuses verdadeiros, mas um único Deus verdadeiro.
Ou a ordem das palavras é: que te conheçam a ti, e a Jesus Cristo a quem enviaste, como o único Deus verdadeiro; consequentemente entende-se também o Espírito Santo, porque o Espírito é do Pai e do Filho, como caridade consubstancial de ambos. Assim, pois, o Filho te glorifica, fazendo-te conhecido por todos os que lhe deste. Ademais, se o conhecimento de mim é a vida eterna, tanto mais progrediremos na vida eterna quanto mais avançarmos neste conhecimento. Não morreremos, porém, na vida eterna. Então o conhecimento de Deus será perfeito quando não houver mais morte: suprema será então a glorificação de Deus, porque suprema será a glória. Pelos antigos, a glória foi definida como a fama frequente de alguém acompanhada de louvor. Mas se o homem é louvado quando se crê em sua fama, como será louvado Deus quando Ele for visto? Por isso está escrito: "bem-aventurados os que habitam em tua casa, pelos séculos dos séculos te louvarão". Ali haverá o louvor de Deus sem fim, onde haverá o pleno conhecimento de Deus, e, portanto, a glorificação.
O que Ele disse ao Seu servo Moisés: "Eu sou aquele que sou"; isto contemplaremos quando vivermos na eternidade.
Pois quando nossa fé se tornar verdade pela visão, então a eternidade possuirá e substituirá nossa mortalidade transformada.
Mas Deus é primeiramente glorificado aqui quando é anunciado, dando-se a conhecer aos homens, e é pregado aos que creem pela fé; por isso diz: "Eu te glorifiquei sobre a terra".
Não diz: ordenaste, mas deste: no que se põe em evidência claramente a graça: pois o que tem a natureza humana, mesmo no Unigênito, que não tenha recebido? Mas como consumou a obra que recebeu para fazer, quando ainda lhe resta a experiência da paixão, senão porque diz ter consumado aquilo que sabe com absoluta certeza que irá consumar?
Acima havia dito: Pai, é chegada a hora, glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique; em cuja ordem de palavras mostrava que primeiro o Filho haveria de ser glorificado pelo Pai, para que o Filho glorificasse ao Pai; agora, porém, disse: Eu te glorifiquei, e agora glorifica-me, como se Ele mesmo tivesse antes glorificado ao Pai, de quem agora pede ser glorificado. Portanto, deve-se entender que anteriormente usou de ambas as expressões na ordem em que haveria de ocorrer; e agora usou do verbo no tempo pretérito sobre coisa futura, como se tivesse dito: Eu te glorificarei sobre a terra, consumando a obra que me deste para fazer, e agora glorifica-me tu, Pai; o que é inteiramente a mesma sentença, exceto que aqui se acrescenta o modo de glorificação, quando segue: com a glória que tive, antes que o mundo existisse, junto de ti. A ordem das palavras é: que tive junto de ti, antes que o mundo existisse. Alguns julgaram que isto deveria ser entendido como se a natureza humana, que foi assumida pelo Verbo, fosse convertida no Verbo, e o homem se transformasse em Deus; ou melhor, se pensarmos com mais diligência, o homem seria destruído em Deus. Pois ninguém irá dizer que por essa transformação do homem, o Verbo de Deus seria duplicado ou aumentado; mas quem nega que o Filho de Deus foi predestinado, este mesmo nega o Filho do homem. Como, portanto, visse chegado o tempo daquela sua glorificação predestinada, para que agora se realizasse o que já tinha sido feito na predestinação, orou dizendo: e agora glorifica-me tu, Pai, etc.; isto é, aquela glória que tive junto de ti pela tua predestinação, é tempo de que eu a tenha junto de ti, também vivendo à tua direita.
Se Ele fala apenas dos discípulos com os quais ceou, isso não pertence àquela glorificação da qual falava acima, pela qual o Filho glorifica o Pai; pois quanta glória há em ser conhecido por doze ou onze homens mortais? Mas se pelo que diz "manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo", Ele quis referir-se a todos os que haveriam de crer nEle, esta é claramente a glorificação pela qual o Filho glorifica o Pai; e tal é o que diz "manifestei o teu nome", semelhante àquilo que dissera antes: "eu te glorifiquei", colocando o tempo passado pelo futuro, tanto lá como aqui. Mas o que segue demonstra mais credivelmente que Ele disse isso a respeito daqueles que já eram seus discípulos, não de todos os que haveriam de crer nEle. Portanto, desde o início de sua oração, o Senhor queria que se entendesse que todos os seus, aos quais, fazendo conhecido o Pai, glorifica a Ele. Pois tendo dito: "que o teu Filho te glorifique", logo demonstrou como isso aconteceria, dizendo: "assim como lhe deste poder sobre toda carne". Ouçamos agora o que diz sobre aqueles discípulos que o ouviam então: "manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo". Então não conheciam o nome de Deus, sendo judeus? E onde está o que se lê: "Conhecido é Deus em Judá, e grande é o seu nome em Israel"? Portanto, deve-se entender: "manifestei o teu nome a estes homens que me deste do mundo", que me ouvem dizer estas coisas, não aquele nome teu pelo qual és chamado Deus, mas aquele pelo qual és chamado meu Pai; nome que não poderia ser manifestado sem a manifestação do próprio Filho. Pois enquanto é chamado Deus de toda criatura, este nome não poderia ser totalmente desconhecido para todas as nações, mesmo antes que cressem em Cristo. Por isso, enquanto criador deste mundo, e antes que fossem instruídos na fé de Cristo, Deus era conhecido em todas as nações; enquanto não deve ser adorado com deuses falsos, era conhecido em Judá; mas enquanto é Pai deste Cristo, por quem tira o pecado do mundo, este seu nome, antes oculto, agora foi manifestado àqueles que o próprio Pai lhe deu do mundo. Mas como manifestou, se ainda não tinha chegado a hora da qual falara antes, que "virá a hora em que já não vos falarei em parábolas"? Portanto, deve-se entender que o passado foi usado pelo futuro.
Por isto que diz dedisti mihi de mundo, foi dito daqueles que não eram do mundo; mas isto lhes conferiu a regeneração, não a geração. O que significa, porém, o que se segue: tui erant, et mihi eos dedisti? Porventura teve o Pai alguma vez algo sem o Filho? De modo algum. Contudo, o Filho de Deus teve algo, em algum momento, que ainda não tinha o mesmo Filho do homem, que ainda não havia sido feito homem da sua mãe: pelo que, quando disse tui erant, o Filho de Deus não se separou do Pai; mas costuma atribuir a Ele, de quem procede, tudo o que pode, Ele que pode. Assim, quando diz et mihi eos dedisti, mostra que, como homem, recebeu este poder de tê-los; e também Ele mesmo os deu a si, isto é, com o Pai, Deus Cristo ao homem Cristo; o que não tem com o Pai. Disse isto, porém, para mostrar sua unanimidade com o Pai, e que agrada ao Pai que creiam no Filho; donde segue et sermonem tuum servaverunt.
O Pai deu-Lhe todas as coisas quando gerou Aquele que tem todas as coisas.
Isto é, entenderam e retiveram. Pois então a palavra é recebida quando é percebida pela mente; de onde se segue e conheceram verdadeiramente que de ti saí. E para que ninguém pensasse que esse conhecimento já se dava pela visão e não pela fé, explicando, acrescentou e creram, para que subentendamos verdadeiramente que tu me enviaste. Isto, portanto, creram verdadeiramente, o que conheceram verdadeiramente. Pois o mesmo é de ti saí que tu me enviaste. O que diz creram verdadeiramente deve ser entendido não do modo que disse acima creram, mas verdadeiramente, isto é, como se deve crer, incontestavelmente, firmemente, estavelmente; não mais para retornar às suas próprias coisas e abandonar a Cristo. Portanto, os discípulos ainda não eram tais quais os descreve com palavras de tempo passado, como se já estivesse prenunciando quais seriam depois de recebido o Espírito Santo. Mas como o Pai deu aquelas palavras ao Filho, parece questão mais fácil, se se crê que as recebeu do Pai segundo o que é filho do homem; se, porém, se pensa que as recebeu segundo o que é gerado pelo Pai, não se considere aí nenhum tempo, como se primeiro existisse e não as tivesse; pois tudo o que Deus Pai deu a Deus Filho, deu ao gerá-lo.
Quando, pois, acrescenta "não pelo mundo", por mundo quer ele dar a entender aqueles que vivem segundo a concupiscência do mundo, e não estão naquela sorte da graça pela qual são escolhidos do mundo; sorte esta que significa quando acrescenta "mas por aqueles que me deste". Pois, pelo fato de que o Pai já os deu a ele, aconteceu que não pertencem ao mundo pelo qual ele não roga. E nem porque o Pai os deu ao Filho, perdeu ele mesmo os que deu; donde acrescenta "porque são teus".
Está claramente demonstrado aqui que todas as coisas que pertencem ao Pai pertencem ao Filho Unigênito; certamente por isto, que Ele mesmo é Deus, nascido do Pai, igual ao Pai: não do modo como foi dito ao maior dos dois filhos: "Tudo o que é meu é teu"; pois aquilo foi dito de todas as criaturas que estão abaixo da santa criatura racional; mas isto foi dito de tal modo que se refere também à própria criatura racional, a qual não está sujeita senão a Deus. Portanto, sendo isto de Deus Pai, não seria ao mesmo tempo do Filho, se não fosse igual ao Pai. Pois é ímpio que os santos, dos quais Ele falou estas coisas, sejam de alguém senão daquele por quem foram criados e santificados. E o que Ele disse quando falava do Espírito Santo: "Tudo o que o Pai tem é meu", fala daquelas coisas que pertencem à própria divindade do Pai: pois o Espírito Santo não haveria de receber da criatura que está sujeita ao Pai e ao Filho, já que diz: "Ele receberá do que é meu".
Dizendo que já está feito, mostra que já havia sido predestinado, e quis que se tivesse por certo aquilo que havia de acontecer. Mas será esta a mesma glorificação da qual tinha dito: "e agora glorifica-me tu, Pai, junto a ti mesmo"? (Pois se é junto a ti, como pode ser neles?) Ou será quando isto mesmo se torna conhecido a eles, e por meio deles a todos os que neles creem, como suas testemunhas; de onde acrescenta: "e já não estou no mundo, e estes estão no mundo".
Mas se consideras a hora em que falava, ambos ainda estavam no mundo. Não podemos entender "já não estou no mundo" segundo o progresso do coração e da vida. Acaso seria lícito crer que Ele alguma vez teve afetos mundanos? Resta, portanto, que segundo aquilo que Ele mesmo antes estava no mundo, disse que já não estava no mundo por presença corporal. Porventura não dizemos todos os dias "já não está aqui" sobre alguém que está prestes a partir, e principalmente prestes a morrer? Por isso, explicando por que havia dito isso, acrescentou: "e eu venho a ti". Ele confia, portanto, ao Pai aqueles que vai deixar por sua ausência corporal, dizendo: "Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste". Como homem, roga a Deus pelos seus discípulos, que recebeu de Deus. Mas atende ao que segue: "para que sejam um, assim como nós". Não diz: "para que sejamos um, eles e nós, assim como nós somos um"; eles, certamente, são um em sua natureza, assim como nós somos um na nossa; porque, sendo uma e a mesma pessoa Deus e homem, entendemos o homem naquilo que roga, e Deus naquilo em que são um, tanto ele quanto aquele a quem roga. Poderia certamente dizer, por ser a cabeça da Igreja, e a Igreja seu corpo: "eu e eles não somos um, mas somos um só", porque a cabeça e o corpo são um só Cristo; mas, mostrando sua divindade consubstancial ao Pai, quer que os seus sejam um, mas em Cristo; não apenas pela mesma natureza, pela qual todos os homens mortais se tornam iguais aos Anjos, mas também pela mesma concórdia de vontade, tendendo para a mesma disposição, em um só espírito, como que fundidos pelo fogo da caridade. Para isso vale o que diz: "para que sejam um, assim como nós somos um"; para que, assim como o Pai e o Filho são um não apenas pela igualdade de substância, mas também pela vontade, assim também aqueles entre os quais e Deus o Filho é mediador, sejam um não apenas porque são da mesma natureza, mas também pela mesma sociedade do amor.
Em nome do Pai, o Filho homem guardava os seus discípulos, estando estabelecido entre eles com presença humana; mas também o Pai guardava no nome do Filho aqueles que, pedindo em nome do Filho, Ele atendia. Nem devemos entender isso de modo tão carnal, como se alternadamente nos guardassem o Pai e o Filho: pois simultaneamente nos protegem tanto o Pai como o Filho e o Espírito Santo; mas a Escritura não nos eleva a menos que desça até nós. Entendamos, portanto, que quando o Senhor assim fala, Ele está distinguindo as pessoas, não separando a natureza. Quando, pois, o Filho guardava os seus discípulos com presença corporal, o Pai não esperava suceder ao Filho na proteção quando este partisse; mas ambos os guardavam com poder espiritual; e quando o Filho retirou deles a sua presença corporal, manteve com o Pai a guarda espiritual; porque também quando o Filho homem recebeu os discípulos para guardá-los, não os retirou da guarda paterna; e quando o Pai deu ao Filho a incumbência de guardá-los, não o fez sem aquele mesmo a quem os entregou; mas deu-os ao Filho homem, não sem o mesmo Filho que é Deus; pois segue: "Os que me deste, eu os guardei, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição", isto é, o traidor de Cristo, predestinado à perdição, para que "a Escritura se cumprisse", que sobre ele, principalmente no Salmo 108, profetiza.
Ou de outro modo. Qual seja este gozo, já foi expresso acima onde diz "para que sejam um, assim como nós somos um". Este gozo seu, isto é, por ele conferido a eles, diz que há de ser completado neles; por causa disso disse que falou no mundo. Esta é a paz e a bem-aventurança do século futuro. Diz que fala no mundo aquele que pouco antes havia dito "já não estou no mundo"; porque ainda não havia partido, ainda estava aqui; e porque estava prestes a partir, de certo modo já não estava aqui.
Ainda não tinham experimentado em seus próprios sofrimentos o que posteriormente viria a eles; mas, conforme Seu costume, diz essas coisas usando verbos no tempo passado para anunciar coisas futuras. Em seguida, apresenta a causa pela qual o mundo os odeia, dizendo: "Porque não são do mundo". Isto lhes foi concedido pela regeneração; pois por nascimento eram do mundo. Foi-lhes dado, portanto, que, assim como Ele, também eles não fossem do mundo; por isso segue: "Assim como eu não sou do mundo". Ele nunca foi do mundo, porque, mesmo segundo a forma de servo, nasceu do Espírito Santo, do qual eles renasceram. Embora já não fossem do mundo, ainda era necessário que permanecessem no mundo; por isso acrescenta: "Não rogo que os tires do mundo".
Repete a mesma sentença, dizendo: "Não são do mundo, assim como eu não sou do mundo".
Assim, pois, são preservados do mal; o que acima pediu que fosse feito. Pode-se, no entanto, perguntar como já não eram do mundo, se ainda não estavam santificados na verdade. Porventura porque mesmo santificados progridem na mesma santidade, e isso não sem o auxílio da graça de Deus? São santificados na verdade os herdeiros do Novo Testamento, cuja verdade foram sombras as santificações do Antigo Testamento; e quando são santificados na verdade, são santificados em Cristo, que disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"; donde segue: "Tua palavra é verdade". O Evangelho grego tem logos, isto é, verbo. Santificou, portanto, o Pai na verdade, isto é, em seu Verbo unigênito, seus herdeiros e co-herdeiros dEle.
É manifesto por isto que agora ainda fala dos apóstolos: pois o próprio nome de apóstolos, por ser grego, significa enviados em latim; mas porque Cristo foi feito cabeça da Igreja, eles são seus membros, por isso diz "e por eles eu santifico a mim mesmo"; isto é, eu os santifico em mim mesmo, sendo também eles eu mesmo. E para que entendêssemos, quando disse "por eles santifico a mim mesmo", que ele disse isso porque os santificava, logo acrescentou "para que eles também sejam santificados na verdade", isto é, em mim, segundo o qual o Verbo é a verdade, no qual também o próprio Filho do homem foi santificado desde o princípio, quando o Verbo se fez carne. Pois então ele santificou a si mesmo em si mesmo, isto é, a si mesmo homem em si mesmo Verbo: porque um só é Cristo, Verbo e homem; por causa de seus membros diz "e por eles eu santifico a mim mesmo"; isto é, a eles em mim, pois em mim também eles são eu mesmo. "Para que eles também sejam santificados na verdade". O que significa "eles também", senão como eu, e "na verdade", que sou eu?
Como o Senhor havia orado por seus discípulos, a quem também chamou de Apóstolos, acrescentou também os demais que haveriam de crer nele, dizendo: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim pela palavra deles".
Onde quis dar a entender que todos aqueles que são seus, não somente os que então estavam na carne, mas também todos os que haveriam de vir; nem apenas aqueles que ouviram os apóstolos quando viviam na carne, mas também após a morte deles, e nós, nascidos muito tempo depois, acreditamos em Cristo por meio da palavra deles: pois aqueles que estavam com ele então, o que ouviram dele, pregaram aos demais, e assim a palavra deles chegou até nós, e chegará aos pósteros, todos os que hão de crer. Mas pode parecer que nesta oração não orou por alguns dos seus, a saber, por aqueles que nem estavam com ele naquele momento, nem posteriormente por intermédio da palavra deles, mas nele creram antes. Acaso estavam então com ele Natanael, José de Arimateia, e muitos outros, dos quais São João diz que creram nele? Omito falar de Simeão, o ancião, de Ana, a profetisa, de Zacarias, de Isabel, de João, o precursor: pois poderia responder-se que não havia necessidade de orar por tais mortos, que partiram daqui com grandes méritos; pois o mesmo se responde em relação aos antigos justos. Deve-se, portanto, entender que ainda não haviam crido nele como ele queria que se cresse nele; mas depois de sua ressurreição, pelo Espírito Santo distribuído, instruídos e confirmados os apóstolos, outros creram da maneira como convinha crer em Cristo. Mas resta para questionar o apóstolo Paulo, não de homens nem por homem, e o ladrão que creu quando nos próprios doutores a fé, que fora qualquer que fosse, havia faltado. Por isso, resta-nos entender que o que foi dito, pela palavra deles, refere-se à própria palavra da fé que pregaram no mundo, assim cremos que foi significado. E foi dito palavra deles, porque por eles foi primeiramente e principalmente pregada: pois quando era pregada por eles na terra, pela revelação de Jesus Cristo, o próprio Paulo recebeu a palavra deles; e por isso também aquele ladrão em sua fé tinha a palavra deles. Portanto, naquela oração por todos os que redimiu, seja os que então viviam na carne, seja os que haviam de vir, nosso Redentor orou. O que, porém, ou por que rogava por eles, imediatamente acrescentou, dizendo para que todos sejam um. Aqui rogou por todos o que acima havia rogado por aqueles; para que todos, isto é, para que nós e eles sejamos um.
É necessário atentar diligentemente aqui que o Senhor não disse: "para que todos sejamos um"; mas "para que todos sejam um, assim como tu, Pai, em mim e eu em ti"; subentende-se: "somos um". Pois o Pai está no Filho de modo que são um, porque são de uma única substância; nós, porém, podemos ser um neles, mas não podemos ser um com eles, porque nós e eles não somos de uma única substância. Assim, eles estão em nós, ou nós neles, de modo que eles são um em sua natureza, e nós um na nossa. Eles estão em nós como Deus no templo; estamos nós neles como a criatura em seu Criador. Por isso, portanto, acrescentou "em nós", para que o fato de nos tornarmos um pela fidelíssima caridade fosse atribuído à graça de Deus, não a nós mesmos.
Ou porque em si mesmos não podem ser um, dissociados uns dos outros por diversos prazeres e desejos e imundície dos pecados: por isso, que sejam purificados pelo mediador, para que sejam um nele.
Mas o que significa isso que Ele acrescenta: "para que o mundo creia que tu me enviaste"? Porventura o mundo haverá de crer, quando todos nós seremos um no Pai e no Filho? Não é essa a paz perpétua, mais o prêmio da fé do que a própria fé? Mas mesmo que nesta vida, por causa da mesma fé comum, todos os que cremos em um só, somos um só; também assim não para que creiamos, mas porque cremos, somos um. O que significa então "todos sejam um para que o mundo creia"? Certamente o próprio mundo que crê é todo ele, quando diz a respeito daqueles sobre os quais havia dito: "não rogo somente por estes, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio de suas palavras". Como, pois, havemos de entender isso? A não ser que Ele não colocou aí a causa para que o mundo creia, porque eles são um; mas orando disse para que o mundo creia, assim como orando dissera para que sejam um. Finalmente, se colocarmos o verbo "rogo" em toda parte, será mais manifesta a exposição deste pensamento. Rogo que todos sejam um; rogo que também eles sejam um em nós; rogo que o mundo creia que tu me enviaste.
Depois nosso Salvador, que rogando ao Pai se mostrava homem, agora demonstra que Ele mesmo, sendo Deus com o Pai, faz aquilo que pede; por isso acrescenta: e eu dei a eles a claridade que tu me deste. Que claridade, senão a imortalidade, que a natureza humana haveria de receber nele? Por causa da imutabilidade da predestinação, Ele indica com palavras de tempo passado coisas futuras. Mas deve-se entender que a claridade da imortalidade, que Ele diz ter sido dada pelo Pai, também a deu a si mesmo. Pois quando o Filho silencia sobre sua operação na obra do Pai, recomenda a humildade; mas quando em sua obra silencia sobre a operação do Pai, recomenda a igualdade. Deste modo e neste lugar, nem se faz alheio à obra do Pai, embora tenha dito a claridade que me deste; nem faz o Pai alheio à sua própria obra, embora tenha dito dei a eles. Assim como pelo fato de rogar ao Pai por todos os seus, quis que se realizasse que todos fossem uma só coisa; assim também quis que por seu benefício isso se fizesse; por isso acrescentou para que sejam um em nós, assim como nós somos um.
Nem isso foi dito como se o Pai não estivesse em nós ou nós não estivéssemos no Pai, mas por meio do mediador entre Deus e os homens Ele brevemente se revelou. E quanto ao que acrescentou "para que sejam consumados em um", mostra que a reconciliação que se faz pelo mediador conduz a isso: que desfrutemos da perfeita bem-aventurança. Por isso, o que se segue, "para que o mundo conheça que tu me enviaste", não penso que deva ser entendido como se tivesse dito novamente "para que o mundo creia". Pois enquanto cremos no que não vemos, ainda não estamos consumados, como estaremos quando merecermos ver aquilo que cremos. Portanto, quando fala da consumação, deve-se entender o conhecimento como aquele que virá pela visão, não como o que agora existe pela fé. Aqueles que creem são o próprio mundo, não permanecendo inimigo, mas convertido de inimigo em amigo; por isso segue: "e os amaste como me amaste". Pois o Pai nos ama no Filho, porque nele nos escolheu. E nem por isso somos iguais ao Filho Unigênito, pois nem sempre a expressão "assim como" significa igualdade; às vezes significa apenas: "porque aquilo é, isso também é". Assim, neste lugar, "amaste-os como me amaste" não significa outra coisa senão "amaste-os porque me amaste a mim", pois não existe outra causa para amar os seus membros, a não ser que O ama. Logo, como não odeia nada do que fez, quem poderia expressar dignamente o quanto Ele ama os membros do seu Filho Unigênito, e quanto mais ama o próprio Unigênito?
Estes são os que Ele recebeu do Pai, que Ele também elegeu do mundo; como Ele diz no exórdio desta oração: deu-lhe poder sobre toda carne, isto é, sobre todo homem, para que dê a vida eterna; onde mostra ter recebido poder sobre todo homem, para libertar a quem quisesse e condenar a quem quisesse. Pelo que a todos os seus membros prometeu este prêmio, que onde Ele está, também nós estejamos com Ele; e não poderia deixar de acontecer o que o Filho onipotente disse querer ao Pai onipotente: uma só é, porém, a vontade do Pai e do Filho; e se a fraqueza ainda não permite compreender, que a piedade creia. Quanto ao que diz respeito à criatura, na qual foi feito da descendência de Davi segundo a carne, daquele modo pôde dizer onde eu estou, para que já dissesse estar ali onde em breve estaria. No céu, portanto, prometeu que estaremos: pois àquele lugar foi elevada a forma de servo que tomou da Virgem e foi colocada à direita do Pai.
Quanto ao que diz respeito à forma de Deus, na qual é igual ao Pai, se segundo ela quisermos entender o que foi dito "onde eu estou, que eles também estejam comigo", afaste-se do espírito todo pensamento de imagens corporais, e não se procure onde está o Filho igual ao Pai; pois ninguém encontra onde Ele não esteja. Por isso não lhe bastou dizer "quero que onde eu estou, eles também estejam", mas acrescentou "comigo". Estar com Ele é um grande bem: pois os miseráveis podem estar onde Ele está, mas somente os bem-aventurados estão com Ele. E para que do visível, embora muito dissemelhante, tomemos algum exemplo; assim como o cego, ainda que esteja onde a luz está, não está, contudo, com a luz, mas ausente da presença dela, assim não só o infiel, mas também o fiel, ainda que nunca possa estar onde Cristo não esteja, não está com Cristo pela visão; pois não se deve duvidar que o fiel esteja com Cristo pela fé. Mas aqui Ele falava daquela visão na qual O veremos como Ele é; por isso acrescentou "para que vejam a minha glória que me deste". "Para que vejam", disse, não "para que creiam": esta é a recompensa da fé, não a fé.
Quando, pois, virmos a claridade que o Pai deu ao Filho, ainda que entendamos dito aqui, não aquela que o Pai deu ao Filho igual, ao gerá-lo, mas aquela que deu ao Filho feito homem depois da morte na cruz, então realizar-se-á o juízo, então o ímpio será removido para que não veja a claridade do Senhor: que claridade, senão aquela pela qual Ele é Deus? Se, portanto, segundo o que o Filho é Deus, entendermos isto que foi dito: quero que onde eu estou, também eles estejam comigo, estaremos com Cristo no Pai: o qual, depois de dizer para que vejam a minha claridade que me deste, imediatamente acrescentou porque me amaste antes da fundação do mundo. Nele, pois, amou também a nós antes da fundação do mundo, e então predestinou o que haveria de fazer no fim do mundo.
Ou de outro modo: o que significa conhecê-lo, senão a vida eterna, a qual não deu ao mundo condenado, mas concedeu ao mundo reconciliado? Por isso, o mundo não te conheceu porque és justo. Retribuíste isto aos seus méritos, para que não te conhecesse; e por isso o mundo reconciliado te conheceu, porque és misericordioso; e para que te conhecesse, vieste em seu auxílio não por mérito, mas por graça. Por fim, segue-se: Eu, porém, te conheci. Ele é a fonte da graça, Deus por natureza, homem pelo Espírito Santo e pela Virgem por graça inefável. E finalmente, porque a graça de Deus vem por Jesus Cristo, diz: e estes conheceram; este é o mundo reconciliado; mas assim porque tu me enviaste; portanto, conheceram pela graça. E eu lhes fiz conhecer o teu nome pela fé, e farei conhecer pela visão, para que o amor com que me amaste esteja neles. Tal é esta expressão, semelhante à que usou o Apóstolo: combati o bom combate; não disse "com bom combate", o que seria mais usual. De que modo, pois, o amor com que o Pai amou o Filho estaria em nós, senão porque somos seus membros e n'Ele somos amados, quando Ele é amado em sua totalidade, isto é, cabeça e corpo? E por isso acrescentou: e eu neles. Pois está em nós como em seu templo, e nós estamos n'Ele conforme Ele é nossa cabeça.
Terminado o sermão que o Senhor teve com seus discípulos depois da ceia, tendo acrescentado a oração que dirigira ao Pai, São João Evangelista começou assim a sua paixão: "Tendo dito estas palavras, Jesus saiu com seus discípulos para além da torrente de Cedron, onde havia um horto, no qual entrou ele e seus discípulos". Porém isto não aconteceu imediatamente após ter terminado aquela oração, mas outras coisas foram interpostas, que, omitidas por este, se leem nos outros Evangelistas.
Houve, pois, contenda entre eles sobre quem lhes parecia ser o maior, como São Lucas comemora. Disse também o mesmo a Pedro, como o próprio São Lucas acrescenta: "Eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo", e o que se segue naquele lugar. E, tendo cantado o hino, como São Mateus e São Marcos comemoram, saíram para o monte das Oliveiras. São Mateus, portanto, continua a narrativa e diz: "Então veio Jesus com eles a uma propriedade chamada Getsêmani". Este é o lugar que São João menciona aqui: onde havia um horto, no qual entrou ele mesmo e seus discípulos.
Isto foi dito, portanto, "quando pronunciou estas palavras", para que não pensemos que Ele entrou antes de ter terminado de falar.
Ali, portanto, o lobo coberto com pele de ovelha, e tolerado entre as ovelhas pelo profundo conselho do pai de família, aprendeu onde, por um breve tempo, dispersar o rebanho, atacando com ciladas o pastor.
A coorte não era de judeus, mas de soldados. Entenda-se que foi recebida do governador, observando-se a ordem da legítima autoridade para prender o acusado, de modo que ninguém ousasse resistir aos que o prendiam; embora também fosse tão numerosa a multidão reunida, e viesse tão bem armada, para atemorizar ou até mesmo enfrentar qualquer um que ousasse defender a Cristo.
Onde está agora a coorte de soldados, onde o terror e a proteção das armas? Uma só voz feriu, repeliu e prostrou uma multidão feroz em ódio e terrível em armas, sem qualquer dardo. Pois Deus estava oculto na carne, e o dia eterno estava tão escondido nos membros humanos, que com lanternas e tochas era procurado pelas trevas para ser morto. O que fará quando vier para julgar, Aquele que fez isto quando ia ser julgado? E agora, certamente através do Evangelho, "Eu sou", diz Cristo, e o Anticristo é esperado pelos judeus: para que retrocedam e caiam por terra; pois, abandonando as coisas celestiais, desejam as terrenas.
Eles tinham ouvido primeiramente "Eu sou"; mas não haviam compreendido, pois Aquele que podia fazer tudo o que queria, não quis isto. Mas se nunca tivesse permitido ser preso por eles, eles não teriam feito aquilo pelo qual vieram, nem Ele teria feito aquilo pelo qual viera; portanto, tendo mostrado seu poder àqueles que queriam prendê-lo e não puderam, agora permite que o capturem, para que eles, sem o saberem, cumpram a Sua vontade; donde se segue: "Se, pois, me buscais a mim, deixai que estes vão embora".
Ele ordena a seus inimigos, e estes fazem o que lhes ordena; permitem, a saber, que se vão agora aqueles que Ele não quer que pereçam.
Mas acaso não haveriam de morrer depois? Por que, então, se morressem naquele momento, os perderia, senão porque ainda não criam Nele como creem todos aqueles que não perecem?
Somente este Evangelista expressou também o nome deste servo, quando disse: "E o nome do servo era Malco"; assim como somente São Lucas menciona que o Senhor tocou sua orelha e o curou.
Malco, porém, significa aquele que há de reinar. Que significa, portanto, a orelha cortada em defesa do Senhor e curada pelo Senhor, senão o ouvido renovado, com a velhice amputada, para que esteja na novidade do espírito, e não na velhice da letra? Ao que isto foi concedido por Cristo, quem duvidará que há de reinar com Cristo? E quanto ao fato de que ele era servo, isto também pertence àquela velhice que gera para a servidão; mas quando ocorreu a cura, foi figurada também a liberdade.
O Senhor reprovou o ato de Pedro, e proibiu-o de prosseguir adiante; por isso segue-se "disse, pois, Jesus a Pedro: coloca tua espada na bainha". Pois ele devia ser admoestado para ter paciência, e isto devia ser escrito para nossa instrução.
Quanto ao que diz que o cálice da paixão foi entregue a Ele pelo Pai, é aquilo que diz o Apóstolo: "não poupou seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou"(Romanos 8,32). Mas o Autor deste cálice é também o mesmo que o bebe: por isso o mesmo Apóstolo diz: "Cristo nos amou e entregou a si mesmo por nós"(Efésios 5,2).
Prenderam aquele a quem não se aproximaram; nem ouviram aquilo: "Aproximai-vos dele e sereis iluminados". Pois se assim se aproximassem, não o prenderiam com as mãos para matá-lo, mas o receberiam no coração. Agora, porém, quando o prenderam daquele modo, dele mais se afastaram. Segue-se e o amarraram; a quem antes deveriam querer ser desatados; e talvez houvesse entre eles alguns que, posteriormente libertados por Ele, disseram: "Tu rompeste as minhas cadeias". Depois que os perseguidores, pela traição de Judas, amarraram o Senhor, para que se entenda que Judas não é louvável pela utilidade desta traição, mas condenável pela vontade criminosa, segue-se e o conduziram primeiro a Anás.
Nem cala o motivo pelo qual isso foi feito assim, acrescentando: era, pois, sogro de Caifás, que era pontífice daquele ano. Com razão, São Mateus, querendo narrar isso mais brevemente, recorda que Ele foi levado a Caifás; porque se foi conduzido primeiro a Anás, foi justamente por ser este seu sogro; para que se entenda que o próprio Caifás quis que assim se fizesse.
A tentação de Pedro, que aconteceu em meio aos ultrajes oferecidos a nosso Senhor, não é colocada por todos na mesma ordem. São Mateus e São Marcos colocam primeiro os ultrajes, e depois a tentação de Pedro; São Lucas, primeiro a tentação, e depois os ultrajes. São João começa com a tentação: "Seguia a Jesus Simão Pedro e outro discípulo".
Quem seria aquele outro discípulo, não se deve afirmar temerariamente, porque não é mencionado. São João costuma identificar-se desta maneira e acrescentar: a quem Jesus amava; talvez, portanto, seja ele mesmo.
Mas o que admira se Deus predisse a verdade, e o homem presumiu falsamente? Na verdade, nesta negação de Pedro que já começou, devemos advertir que não somente nega a Cristo quem diz que Ele não é Cristo, mas também aquele que nega ser cristão. Pois o Senhor não disse a Pedro: negarás que és meu discípulo; mas: "me negarás". Negou, portanto, o próprio Cristo quando negou ser seu discípulo. E o que fez deste modo senão negar que era cristão? Quantos depois, até mesmo meninos e meninas, puderam desprezar a morte pela confissão de Cristo, e entrar corajosamente no reino dos céus, o que então este não pôde, que recebeu as chaves daquele reino. Eis porque foi dito: "deixai ir estes"; porque dos que me deste, não perdi nenhum deles. Certamente Pedro, se negando a Cristo partisse daqui, que outra coisa faria senão perecer?
Não era inverno, e contudo fazia frio, como costuma acontecer também no equinócio da primavera.
Não se deve deixar de lado uma questão que aqui surge: se aos próprios discípulos Ele não falava abertamente, mas prometia uma hora quando falaria abertamente, como então falou abertamente ao mundo? Além disso, aos seus próprios discípulos falava muito mais claramente quando estava com eles afastado das multidões; pois então lhes explicava as parábolas que apresentava de forma velada aos outros. Mas deve-se entender que quando disse "falei abertamente ao mundo", é como se tivesse dito: "muitos me ouviram". E, por outro lado, não era abertamente, porque não entendiam; e quando falava em separado aos discípulos, certamente não falava em segredo; pois quem fala em segredo quando fala diante de tantos homens? Especialmente se diz isto a poucos, o que através deles quer dar a conhecer a muitos.
Pois aquilo mesmo que haviam ouvido e não haviam entendido era de tal natureza que não podiam acusá-lo justa e verazmente; e quantas vezes tentaram interrogá-lo para encontrar do que o acusar, ele lhes respondeu de modo que todos os seus ardis foram rechaçados e suas calúnias frustradas.
Aqui mostra-se claramente que Anás era o pontífice, pois ainda não tinha sido enviado a Caifás quando isto foi dito; e estes dois, Anás e Caifás, são mencionados como pontífices também por São Lucas no início do seu Evangelho.
O que poderia haver de mais verdadeiro, mais manso e mais justo do que esta resposta? Pois aquele que recebeu a bofetada, acaso gostaria que aquele que o feriu fosse consumido pelo fogo celestial, ou engolido pela terra que se abre, ou tomado pelo demônio e revolvido, ou punido com qualquer outra pena semelhante, ou até mesmo mais grave? Qual dessas coisas não poderia ter ordenado pelo seu poder Aquele por quem o mundo foi feito, se não preferisse ensinar-nos a paciência pela qual o mundo é vencido? Aqui alguém dirá: por que não fez o que Ele mesmo ordenou? Isto é, não responder assim a quem o golpeou, mas oferecer a outra face. O que dizer do fato de que ele respondeu mansamente, e não apenas preparou a outra face para quem o iria golpear novamente, mas todo o seu corpo para ser pregado na madeira? E daqui demonstrou mais claramente que aqueles preceitos de paciência não devem ser cumpridos pela ostentação do corpo, mas pela preparação do coração: pois é possível que um homem ofereça a outra face visivelmente, mas com ira. Quanto melhor é, portanto, responder a verdade com serenidade e estar preparado com ânimo tranquilo para suportar coisas ainda mais graves!
A ele, como diz São Mateus, estava sendo conduzido desde o início, porque ele era o príncipe dos sacerdotes daquele ano. Devemos entender que costumavam exercer o pontificado em anos alternados, e crê-se que isso foi feito segundo a vontade de Caifás, para que levassem Jesus primeiro a Anás; ou também que suas casas estavam dispostas de tal maneira que Anás não devia ser ignorado pelos que passavam.
Tendo dito o Evangelista que Anás havia enviado Jesus atado a Caifás, voltou ao ponto da narrativa onde havia deixado Pedro, para explicar o que acontecera na casa de Anás sobre a tríplice negação dele; por isso diz: Estava, pois, Simão Pedro em pé, aquecendo-se. Aqui recapitula o que já havia dito antes.
Neste ponto encontramos que Pedro, não diante da porta, mas estando junto ao fogo, negou pela segunda vez; o que não poderia acontecer a menos que já tivesse retornado depois de ter saído para fora, como diz São Mateus. Pois ele não havia ainda saído, e uma outra criada o viu do lado de fora; mas quando ele estava saindo, ela o viu; isto é, quando ele se levantou e estava saindo, ela o observou e disse aos que estavam ali, ou seja, aos que estavam juntos ao fogo dentro do átrio: "Este também estava com Jesus Nazareno". Mas aquele que tinha saído para fora, ouvindo isto, voltando, jurou contra os que insistiam: "Não conheço este homem". Depois, no que São João aqui diz: "Disseram: Porventura também tu és dos seus discípulos?", entendemos que foi dito a ele quando voltava e estava parado, e isto também se confirma, não apenas por aquela outra criada que São Mateus e São Marcos mencionam nesta segunda negação, mas também por um outro homem, que São Lucas menciona, que interpelou Pedro; por isso São João diz: "Disseram-lhe, pois". São João, prosseguindo sobre a terceira negação de Pedro, assim explica: "Diz-lhe um dos servos do pontífice, parente daquele a quem Pedro cortou a orelha: Não te vi eu no horto com ele?" O que São Mateus e São Marcos não expressam no singular, mas no plural, sobre aqueles que conversavam com Pedro, enquanto São Lucas diz que foi um; e também São João menciona um só, e este parente daquele a quem Pedro cortou a orelha; é fácil entender que ou São Mateus e São Marcos usaram o número plural em vez do singular, conforme o modo usual de falar; ou que um deles, principalmente por saber e ter visto, afirmava, e os outros, seguindo sua afirmação, pressionavam Pedro ao mesmo tempo.
Eis que se cumpriu a predição do médico e ficou demonstrada a presunção do enfermo. Pois não aconteceu o que ele havia dito: "Darei a minha vida por ti", mas aconteceu o que Ele havia predito: "Tu me negarás três vezes".
O Evangelista retorna ao lugar de sua narração, onde a havia deixado para explicar a negação de Pedro; de onde se diz: conduzem, pois, a Jesus de Caifás ao pretório: pois havia dito que fora enviado a Caifás por Anás, seu colega e sogro. Mas se a Caifás, por que ao pretório, que não quer significar outra coisa senão onde o governador Pilatos residia?
Ou então Caifás, por alguma causa urgente, tinha ido da casa de Anás, onde ambos haviam se reunido para ouvir, ao pretório do governador, deixando Jesus para ser ouvido por seu sogro; ou Pilatos havia estabelecido o pretório na casa de Caifás, que era tão grande que suportava, de um lado, seu próprio dono residindo e, de outro, o juiz.
Contudo, ao próprio Caifás era conduzido desde o início, a quem no final foi levado; mas como já o conduziam como réu convicto, e como antes havia parecido a Caifás que Jesus deveria morrer, nenhuma demora se interpôs para que fosse entregue a Pilatos para ser executado. Segue-se "era, pois, de manhã".
Isso é, naquela parte da casa que Pilatos ocupava, se era a casa de Caifás. Por que não entraram, ele explica em seguida: para não se contaminarem, mas para comerem a Páscoa.
Pois haviam começado os dias dos ázimos, durante os quais era uma contaminação para eles entrar na habitação de um estrangeiro.
Ó ímpia cegueira! Temiam contaminar-se no pretório de um juiz estrangeiro, e não temiam derramar o sangue de um irmão inocente! Pois o fato de que o Senhor, doador da vida, foi morto, não deve ser atribuído à consciência deles, mas à sua ignorância.
Perguntem e respondam os libertos de espíritos imundos, os cegos que agora veem, os mortos que ressuscitaram e, o que supera todas as coisas, os tolos que se tornaram sábios, se Jesus é um malfeitor. Mas diziam estas coisas, sobre as quais pelo profeta Ele mesmo já havia predito: "retribuíam-me o mal pelo bem".
Mas é preciso verificar se isto não é contrário ao que São Lucas diz, que foram apresentadas contra ele acusações precisas: "Começaram, pois, a acusá-lo, dizendo: encontramos este subvertendo a nossa gente, e proibindo pagar tributos a César, e dizendo ser ele Cristo rei." Mas segundo São João, parece que os judeus não quiseram declarar os crimes para que Pilatos, seguindo a autoridade deles, deixasse de indagar o que lhe objetavam; mas que o considerasse culpado só pelo fato de ter merecido ser entregue por eles. Portanto, devemos entender que foi dito tanto isto quanto aquilo que São Lucas mencionou: pois foram ditas e respondidas muitas coisas. Por isso em sua narrativa cada um inseriu o que julgou ser suficiente: pois o próprio São João diz algumas coisas que foram objetadas, as quais veremos em seus lugares. Assim, segue-se: "Diz-lhes, pois, Pilatos: tomai-o vós, e segundo a vossa lei julgai-o."
Mas a lei não ordenou que não poupassem os malfeitores, principalmente aos sedutores, tal como o consideravam? Porém, deve-se entender que eles disseram que não lhes era lícito matar alguém devido à santidade do dia festivo que já haviam começado a celebrar. Acaso perdestes por completo o juízo pela extrema malícia, a ponto de crerdes que estais livres da mancha do sangue inocente porque o entregais a outro para ser derramado?
Assim, pois, lemos em São Marcos, onde diz: "Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregado aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e eles o entregarão aos gentios". Pilatos, por sua vez, era romano, e os romanos o haviam enviado como governador à Judeia. Para que, portanto, esta palavra de Jesus se cumprisse, isto é, para que as nações matassem aquele que lhes foi entregue, não quiseram aceitá-lo, dizendo: "A nós não é lícito matar ninguém".
O Senhor sabia certamente tanto o que Ele próprio perguntava, quanto o que aquele responderia; mas, contudo, quis que fosse dito, não para que Ele mesmo soubesse, mas para que fosse registrado por escrito o que quis que se soubesse.
Ele afastou de si a suspeita pela qual se pudesse pensar que falava por si mesmo, demonstrando que o havia ouvido dos judeus; de onde acrescenta: "Tua nação e os teus pontífices te entregaram a mim". Em seguida, ao dizer "que fizeste?", mostra suficientemente que aquilo lhe foi imputado como crime; como se dissesse: Se te negas a ser rei, que fizeste para seres entregue a mim? Como se não fosse admirável que fosse entregue ao juiz para ser punido aquele que se dizia rei.
Isto é o que o bom Mestre quis que soubéssemos. Mas primeiro precisava ser-nos demonstrada a vã opinião dos homens acerca do seu reino, seja dos gentios ou dos judeus, dos quais Pilatos havia ouvido isso; como se por isso ele devesse ser condenado à morte, por ter aspirado a um reino ilícito, ou porque os que vão reinar costumam invejar ao que já reina: e claramente devia-se precaver para que seu reino não fosse adverso nem aos romanos nem aos judeus. Se, após a pergunta de Pilatos, ele tivesse respondido imediatamente, pareceria que estaria respondendo não aos judeus, mas somente aos gentios que assim pensavam dele. Mas após a resposta de Pilatos, respondeu mais oportuna e adequadamente tanto aos judeus quanto aos gentios; como se dissesse: ouvi, judeus e gentios, não impeço vossa dominação neste mundo. O que quereis mais? Vinde, crendo, ao reino que não é deste mundo. Pois o que é o seu reino, senão os que nele creem? Aos quais diz: não sois deste mundo; embora ele quisesse que estivessem no mundo. Por isso ele não diz: o meu reino não está neste mundo; mas não é deste mundo. De fato, é deste mundo tudo o que, dos homens, foi criado por Deus, mas gerado da estirpe viciada de Adão; tornou-se, porém, um reino não mais deste mundo tudo o que daí foi regenerado em Cristo. Assim, pois, Deus nos arrancou do poder das trevas, e nos transferiu para o reino do Filho do seu amor.
Tendo provado que o seu reino não era deste mundo, acrescentou: "mas agora o meu reino não é daqui". Não disse: Não está aqui, pois aqui está o seu reino até o fim dos séculos, tendo dentro de si o joio misturado com o trigo até a colheita; mas, contudo, não é daqui, porque peregrina no mundo.
Não porque temesse confessar-se Rei: mas está dito de tal maneira que nem nega ser rei, nem confessa ser tal rei cujo reino se pensa ser deste mundo. Pois está dito "tu dizes", como se dissesse: carnal, carnalmente dizes. Depois acrescenta "eu para isto nasci, e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade". Não deve ser prolongada a sílaba deste pronome que diz "in hoc natus sum" [para isto nasci], como se dissesse: nesta coisa nasci; mas deve ser abreviada, como se dissesse: para isto nasci; assim como também diz "para isto vim ao mundo". Por isso é manifesto que Ele recordou aqui o seu nascimento temporal, pelo qual encarnado veio ao mundo; não aquele sem início pelo qual era Deus.
Mas quando Cristo dá testemunho da verdade, dá testemunho de si mesmo; pois sua voz é: "Eu sou a verdade". Mas como nem todos têm fé, acrescenta e diz: "Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". Ouve, certamente, com os ouvidos interiores; isto é, obedece à minha voz; como se dissesse: crê em mim. Quanto ao que diz "todo aquele que é da verdade", recomenda a graça pela qual chama segundo o seu propósito. Pois se considerarmos a natureza na qual fomos criados, tendo a verdade criado a todos, quem não é da verdade? Mas nem todos são aqueles a quem é concedido pela própria verdade que obedeçam à verdade. Porque se tivesse dito: "Todo aquele que ouve a minha voz é da verdade", por isso se pensaria que é dito da verdade porque obedece à verdade. Mas não diz isto, mas diz: "Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". Ouve certamente, e por isso não é da verdade porque ouve a sua voz, mas ouve porque é da verdade: porque este dom lhe foi conferido pela verdade.
Quando Pilatos disse O que é a verdade?
, creio que logo lhe veio à mente o costume dos judeus, pelo qual era habitual que se lhes liberasse um preso na Páscoa; e por isso não esperou que Jesus lhe respondesse, para não haver demora, uma vez que recordara o costume pelo qual poderia libertar-lhes alguém na Páscoa; o que ficou manifesto que ele muito desejava; daí diz e tendo dito isto, saiu novamente para os judeus
.
Não se pôde arrancar de seu coração que Jesus era o Rei dos judeus, como se a própria Verdade tivesse fixado isto ali como um título, aquela sobre a qual ele havia perguntado o que era.
Mas ao ouvir isso, clamaram; donde segue: clamaram todos novamente dizendo: não a este, mas a Barrabás. Era, porém, Barrabás um ladrão. Não vos repreendemos, ó judeus, porque libertastes um culpado na Páscoa, mas porque matastes um inocente; o que, contudo, se não tivesse acontecido, a verdadeira Páscoa não se realizaria.
Como os judeus clamaram que não queriam que Jesus lhes fosse libertado por Pilatos por causa da Páscoa, mas sim Barrabás, o ladrão, acrescenta-se: então Pilatos tomou Jesus e o açoitou. Deve-se crer que Pilatos não fez isso por outro motivo senão para que os judeus, saciados com as injúrias feitas a Ele, julgassem que isso lhes bastava e desistissem de enfurecer-se até à morte de Jesus. A isto se refere o fato de que o mesmo governador também permitiu que sua coorte fizesse o que segue; ou talvez até ordenou: pois disse o que depois os soldados fizeram, mas não disse que Pilatos o ordenou; segue-se, pois: e os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, a impuseram sobre a sua cabeça, e o vestiram com um manto de púrpura: e aproximavam-se dele, e diziam: Salve, rei dos judeus, e davam-lhe bofetadas.
Assim se cumpriam as coisas que Cristo havia dito de si mesmo; assim os mártires eram instruídos a suportar tudo o que aprouve aos perseguidores fazer; assim o reino que não era deste mundo vencia o mundo soberbo, não pela atrocidade do combate, mas pela humildade do sofrimento.
Fica evidente que isso não foi feito com Pilato ignorando, seja porque ele o ordenou, seja porque o permitiu, ou seja, pela causa que acima dissemos, para que seus inimigos vissem estas zombarias com muita satisfação e não tivessem mais sede de sangue; por isso segue: Saiu, pois, Jesus levando a coroa de espinhos e a veste púrpura: não resplandecente com insígnias de império, mas cheio de opróbrio. Segue-se e diz-lhes: Eis o homem; como se dissesse: se tendes inveja do rei, poupai-o agora, porque o vedes abatido: a ignomínia está ardendo, que a inveja se esfrie.
A inveja dos judeus não se esfria diante da ignomínia de Cristo; antes, arde mais intensamente e cresce; por isso diz: Quando, pois, o viram os pontífices e os ministros, clamavam dizendo: crucifica-o, crucifica-o.
Eis aqui outra maior inveja: pequena, de fato, aquela parecia, como se afetada por ilícita presunção de poder real; e, no entanto, Jesus não usurpou falsamente para si nenhuma das duas coisas, mas ambas são verdadeiras: ele é o Filho unigênito de Deus e o rei constituído por Deus sobre Sião, seu monte santo; e ambas as coisas agora demonstraria, se não preferisse ser tanto mais paciente quanto era poderoso.
Isto pode corresponder ao que São Lucas recorda ter sido dito na acusação dos judeus: "encontramos este subvertendo a nossa nação", para acrescentar: "porque se fez Filho de Deus".
Este silêncio de nosso Senhor Jesus Cristo, recolhendo as narrativas de todos os Evangelistas, descobre-se ter ocorrido não apenas uma vez, mas diante do príncipe dos sacerdotes, diante de Herodes e diante do próprio Pilatos, de modo que não em vão se cumpriu sobre Ele a profecia: como um cordeiro diante daquele que o tosquia permaneceu sem voz, assim não abriu sua boca, precisamente quando não respondeu aos que o interrogavam. Pois, ainda que frequentemente tenha respondido a alguns dos que o interrogavam, contudo, por causa daquelas ocasiões em que não quis responder, foi dada a comparação com o cordeiro para que, em seu silêncio, fosse considerado não culpado, mas inocente; isto é, não como quem, consciente de suas más ações, era condenado por seus próprios pecados, mas como manso que era imolado pelos pecados alheios.
Eis que respondeu. E assim, quando não respondia, não era como réu ou como enganador, mas como ovelha silenciava; quando respondia, como pastor ensinava. Aprendamos, pois, o que disse, o que também ensinou pelo Apóstolo: "não há poder senão de Deus"; e que peca mais quem, por inveja, entrega um inocente ao poder para ser morto, do que o próprio poder se o mata por temor de um poder maior. Pois Deus lhe havia dado tal poder que também estivesse sob o poder de César; por isso diz: "não terias poder algum contra mim", isto é, por menor que seja o poder que tens, não o terias se não te fosse dado do alto. Mas como sei quão grande é esse poder, pois não é tão grande que te dê completa liberdade de ação, por isso "quem me entregou a ti tem maior pecado". Aquele, com efeito, me entregou ao teu poder por inveja; tu, porém, exercerás esse mesmo poder contra mim por medo. E certamente nem por temor deve o homem matar outro homem, especialmente um inocente; mas fazê-lo por inveja é um mal muito maior do que por temor. Por isso não diz "quem me entregou a ti tem pecado", como se o outro não o tivesse; mas diz "tem maior pecado", para que também compreendesse que ele mesmo o tinha.
Leia os parágrafos anteriores, e você descobrirá que ele já buscava há tempos libertar Jesus. Daí deve-se entender que, por isso, isto é, por esta causa, para que não tivesse o pecado de matar um inocente que lhe fora entregue.
Os judeus acreditavam que poderiam incutir maior temor em Pilatos assustando-o com referência a César para que matasse Cristo, do que anteriormente quando disseram: "nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus"; por isso se diz: "Mas os judeus clamavam, dizendo: se soltares este homem, não és amigo de César, pois todo aquele que se faz rei, contradiz a César".
Pilatos, todavia, não temeu a lei deles para matá-lo; mas temeu mais matar o Filho de Deus. Agora, porém, não pôde desprezar a César, autor de sua autoridade, da mesma maneira que desprezava a lei de uma nação estrangeira; por isso segue: Pilatos, porém, ao ouvir estas palavras, conduziu Jesus para fora, e sentou-se no tribunal, no lugar chamado Litóstrotos, em hebraico Gábata.
O que é, então, o que São Marcos diz: "era a hora terceira quando o crucificaram", senão que na hora terceira o Senhor foi crucificado pelas línguas dos judeus, e na hora sexta pelas mãos dos soldados? Para que entendamos que a quinta hora já havia passado, e algo da sexta havia começado, quando Pilatos sentou-se no tribunal, o que foi dito por São João como hora quase sexta; e quando foi conduzido e crucificado, e junto à sua cruz aconteceram as coisas que se narram, a hora sexta completava-se integralmente: a partir dessa hora até a nona, com o sol obscurecido, trevas foram feitas, segundo testifica a autoridade dos três Evangelistas, São Mateus, São Marcos e São Lucas. Mas como os judeus tentaram transferir a culpa pelo assassinato de Cristo de si mesmos para os romanos, isto é, para Pilatos e seus soldados, por isso São Marcos, omitindo a hora em que Cristo foi crucificado pelos soldados, expressou preferivelmente a terceira hora, para que não apenas os soldados sejam reconhecidos por crucificar Jesus, mas também os judeus, que para que fosse crucificado, clamaram na hora terceira. Há também outra solução para esta questão, para que não se entenda aqui a hora sexta do dia; porque São João não diz: era hora do dia quase sexta; mas diz: era parasceve, hora quase sexta. Parasceve em latim é preparação. Pois nossa Páscoa, como diz o apóstolo, Cristo foi imolado: cuja preparação da Páscoa se computarmos a partir da hora nona da noite, quando os príncipes dos sacerdotes parecem ter pronunciado a imolação do Senhor, dizendo: "é réu de morte", até a hora terceira do dia, na qual São Marcos Evangelista testemunha que Cristo foi crucificado, são seis horas: três noturnas e três diurnas.
Ainda mais Pilatos tenta superar o temor que eles tinham incutido sobre César; donde segue: disse-lhes Pilatos: Crucificarei o vosso rei? Querendo dobrá-los pelo próprio opróbrio deles, já que não pudera abrandá-los pelo opróbrio de Cristo. Segue-se: Responderam os pontífices: Não temos rei, senão César.
Mas Pilatos logo é vencido pelo temor; do que segue "Então, pois, entregou-lhes a Ele, para que fosse crucificado". Pois claramente pareceria ir contra César se, àqueles que proclamavam não ter outro rei senão César, quisesse impor outro rei, deixando impune aquele que por causa destas ousadias lhe entregaram para ser morto. E não está dito "entregou-lhes a Ele para que eles o crucificassem", mas "para que fosse crucificado", isto é, pelo julgamento e poder do governador. Mas o Evangelista disse que Ele foi entregue a eles, para mostrar que eles estavam implicados no crime do qual tentavam alienar-se; pois Pilatos não teria feito isto, senão para cumprir o que percebia que eles desejavam.
Isto, pois, já pode ser referido aos soldados, servidores do governador; pois mais tarde diz mais claramente: "Os soldados, portanto, quando o crucificaram"; ainda que o Evangelista, mesmo atribuindo tudo aos judeus, o faz com razão; pois eles realmente fizeram tudo o que obrigaram a que se fizesse.
Encontramos que ambos os fatos ocorreram: primeiro o que São João diz, e depois o que os outros três dizem; de onde se entende que Ele próprio carregava sua cruz, quando saiu para o mencionado lugar.
Grande espetáculo; mas se a impiedade o contempla, é um grande objeto de escárnio; se a piedade, um grande mistério. A impiedade vê um rei que, em vez do cetro real, carrega o madeiro de seu suplício; a piedade vê um rei que carrega o madeiro para nele ser pregado, o qual haveria de fixar também nas frontes dos reis, desprezível aos olhos dos ímpios, mas no qual se gloriariam os corações dos santos. Carregando sua própria cruz em seu ombro, recomendava-a; e trazia o candelabro para a lâmpada que haveria de arder, a qual não devia ser posta debaixo do alqueire.
No entanto, a própria cruz, se você observar, foi um tribunal de justiça: com o Juiz colocado no meio, um ladrão, que acreditou, foi libertado; o outro, que insultou, foi condenado: já significava o que Ele fará com os vivos e os mortos, colocando alguns à direita e outros à esquerda.
Mas Cristo é rei apenas dos judeus, ou também dos gentios? Certamente também dos gentios; pois quando disse: Eu porém fui constituído rei por ele sobre Sião, seu santo monte, acrescentou: pede-me, e dar-te-ei as nações por herança. Portanto, queremos compreender neste título um grande mistério: porque o zambujeiro foi feito participante da gordura da oliveira, e não a oliveira foi feita participante da amargura do zambujeiro. Assim, Cristo é rei dos judeus, segundo a circuncisão dos judeus, não da carne, mas do coração; não pela letra, mas pelo espírito. Segue-se, pois, que muitos dos judeus liam este título, porque estava perto da cidade o lugar onde Jesus foi crucificado.
Estas três línguas, de fato, sobressaíam-se ali mais do que as outras: a Hebraica, por causa dos Judeus que se gloriavam na lei de Deus; a Grega, por causa dos sábios dentre os gentios; e a Latina, por causa dos Romanos que governavam então muitas e quase todas as nações.
Por sentença de Pilatos, os soldados que lhe obedeciam crucificaram Jesus; por isso diz: "os soldados, portanto, tendo-o crucificado, tomaram suas vestes": e contudo se considerarmos as vontades, se considerarmos os clamores deles, os judeus mais o crucificaram. Mas sobre a divisão e sorteio de suas vestes, os outros Evangelistas falaram mais brevemente e de modo fechado; este, porém, falou muito claramente; pois segue: "e fizeram quatro partes, uma parte para cada soldado": onde se percebe que foram quatro os soldados que ao crucificá-lo obedeceram ao governador. Segue-se: "e a túnica": subentende-se: tomaram; para que este seja o sentido: tomaram também a túnica; e assim falou, para que vejamos que sobre as outras vestes nenhuma sorte foi lançada; mas sobre a túnica, que tomaram junto com as outras, mas não dividiram de modo semelhante; pois sobre esta segue, explicando: "era, porém, a túnica inconsútil, tecida por inteiro desde cima".
Explica, pois, por que lançaram sortes sobre ela, dizendo: Disseram portanto uns aos outros: não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será. Manifesta-se, assim, que nos outros vestidos receberam partes iguais, de modo que não foi necessário lançar sortes; mas naquela única não podiam ter partes individuais a não ser que a rasgassem, o que faria com que tomassem seus retalhos inutilmente: para não fazer isso, preferiram que ela chegasse a um só através de sorteio. A esta narração do Evangelista corresponde também o testemunho profético; donde acrescenta: para que se cumprisse a Escritura que diz: dividiram minhas vestes entre si e sobre minha túnica lançaram sortes.
São Mateus, ao dizer: "dividiram suas vestimentas, lançando sorte", quis dar a entender toda a divisão das vestimentas, referindo-se também àquela túnica, sobre a qual lançaram sorte. Do mesmo modo, São Lucas diz: "dividindo suas vestimentas, lançaram sortes". Dividindo, pois, chegaram à túnica, sobre a qual lançaram sorte. Ao dizer "sortes", usou o número plural em lugar do singular. São Marcos parece ser o único que introduziu alguma questão: ao dizer "lançando sorte sobre elas, quem levaria o quê", parece ter falado como se a sorte fosse lançada sobre todas as vestimentas, e não apenas sobre a túnica. Mas esta brevidade gera obscuridade. Pois assim foi dito: "lançando sorte sobre elas", como se dissesse: lançando sorte quando eram divididas. Quando diz: "quem levaria o quê", isto é, quem levaria a túnica, como se o todo assim fosse dito: lançando sorte sobre elas, quem levaria a túnica, que havia sobrado às partes iguais. A veste quadripartida de nosso Senhor Jesus Cristo figurou sua Igreja quadripartida, isto é, difundida em quatro partes do mundo, e distribuída igualmente, ou seja, em concórdia, nas mesmas. A túnica sorteada, porém, significa a unidade de todas as partes, que é mantida pelo vínculo da caridade. Se, pois, a caridade tem um caminho mais excelente, e é superior ao conhecimento, e está acima de todos os preceitos, conforme aquilo: "acima de tudo, porém, tende caridade", com razão a veste, pela qual se significa isso, é dita tecida de cima até embaixo. E acrescentou "por inteiro", porque ninguém é excluído dela, que se encontra pertencendo ao todo, pelo qual a Igreja é chamada Católica. É sem costura, para que nunca se desfaça; e chega a um só, porque a todos reúne em um. Na sorte, pois, está recomendada a graça de Deus: pois quando se lança a sorte, não à pessoa ou aos méritos de cada um, mas ao oculto juízo de Deus se cede.
Nem por isso se dirá que estas coisas não significaram algo de bom, porque foram feitas por homens maus: pois o que diremos da própria cruz, que igualmente foi feita por ímpios? E, contudo, entende-se corretamente que por ela se significa o que diz o apóstolo: qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade. É larga, de fato, no madeiro transversal, onde se estendem as mãos do que nela está pendente, e significa as boas obras na extensão da caridade; é longa desde o madeiro transversal até a terra, e significa a perseverança no decurso do tempo; é alta no cume, onde o madeiro transversal se eleva para o alto, e significa o fim supremo, ao qual todas as obras se referem; é profunda naquela parte que se fixa na terra; ali, com efeito, está oculta, mas dela surgem todas as suas partes visíveis, assim como todos os nossos bens procedem da profundidade da graça de Deus, que não pode ser compreendida. Mas ainda que a cruz de Cristo signifique apenas o que diz o apóstolo: os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as paixões e concupiscências, quão grande bem é! Finalmente, qual é o sinal de Cristo senão a cruz de Cristo? Se este sinal não for aplicado seja às frontes dos crentes, seja à própria água, pela qual são regenerados, seja ao óleo, com o qual são ungidos pelo crisma, seja ao sacrifício, com o qual são alimentados, nada disso lhes aproveita para a vida.
Se São Mateus e São Lucas não tivessem mencionado o nome de Maria Madalena, poderíamos dizer que algumas estavam longe, outras junto à cruz: pois nenhum deles, além de São João, mencionou a mãe do Senhor. Agora, portanto, como se entende que a mesma Maria Madalena estava tanto de longe com as outras mulheres, como dizem São Mateus e São Lucas, quanto junto à cruz, como diz São João, a não ser porque estavam a uma distância tal que poderiam ser consideradas como estando junto, pois estavam presentes à vista dele, e de longe aos olhos da multidão que estava mais próxima, com o centurião e os soldados? Podemos também entender que aquelas que estavam junto com a mãe do Senhor, depois que ele a confiou ao discípulo, já começavam a se afastar, para escaparem da densidade da multidão, e observarem de mais longe o restante do que acontecia; de modo que os outros Evangelistas, que as mencionaram após a morte do Senhor, as recordaram já estando longe. E quanto à verdade, que importa que alguns evangelistas mencionassem igualmente todas as mulheres, e outros nominassem apenas algumas?
Esta é, sem dúvida, aquela hora sobre a qual Jesus, quando estava para transformar a água em vinho, havia dito à sua mãe: "Que tenho eu contigo, mulher? Ainda não chegou a minha hora". Pois então, estando para realizar atos divinos, repelia como desconhecida a mãe não de sua divindade, mas de sua humanidade ou fraqueza; agora, porém, já padecendo humanamente, recomendava com afeto humano aquela de quem fora feito homem. Insinua-se, portanto, um ensinamento moral, e com seu exemplo o bom Mestre instrui que os filhos piedosos devem dispensar cuidado aos seus pais: de modo que aquele madeiro onde estavam fixados os membros do moribundo tornou-se também a cátedra do Mestre que ensinava.
Como, portanto, providenciou para sua Mãe, a quem deixava, outro filho em seu lugar, de certo modo, o motivo pelo qual fez isso é mostrado no que se segue: "E desde aquela hora o discípulo a recebeu como sua". Mas em que coisas suas João recebeu a Mãe do Senhor? Pois ele não estava entre aqueles que lhe haviam dito: "Eis que deixamos tudo e te seguimos"? Recebeu-a, pois, como sua, não em suas propriedades, das quais não possuía nenhuma, mas em seus cuidados, os quais ele zelava por dispensar com solicitude própria.
Padecia todas estas coisas aquele que aparecia como homem, e o mesmo que se ocultava como Deus dispunha todas estas coisas; por isso se diz depois: sabendo que tudo estava consumado, para que se cumprisse a Escritura, isto é, o que a Escritura havia predito: e na minha sede me deram vinagre para beber, disse: Tenho sede, como se dissesse: Isto tendes feito a menos: dai o que sois. Pois os judeus eram o próprio vinagre, degenerados do vinho dos patriarcas e profetas. Havia, portanto, um vaso cheio de vinagre: como que de um vaso cheio, tendo o coração repleto da iniquidade deste mundo, como uma esponja, com esconderijos cavernosos e tortuosos de certo modo, cheios de fraude; de onde se segue e eles, preparando uma esponja cheia de vinagre, envolvendo-a com hissopo, a ofereceram à sua boca.
O hissopo, ao qual aplicaram a esponja cheia de vinagre, sendo uma erva humilde que purga o peito, representa convenientemente a humildade de Cristo; a qual cercaram, e pensaram haver enganado. Pois somos purificados pela humildade de Cristo. Não vos inquiete como puderam aproximar a esponja à boca dele, que estava elevado da terra na cruz: como se lê nos outros Evangelistas, o que este omitiu, foi feito em uma cana, para que tal bebida na esponja fosse elevada até o alto da cruz.
A saber, o que a profecia havia predito tanto tempo antes.
Depois, como nada mais restava que devesse ainda ser feito antes que morresse, segue-se e inclinada a cabeça entregou o espírito, tendo sido concluídas todas as coisas que esperava para serem realizadas, como aquele que tinha o poder de entregar a sua alma e retomá-la novamente.
Pois quem assim pode dormir quando quiser, como Jesus morreu quando quis? Quão grande há de ser o poder daquele que julga, se tão grande se manifestou quando morria?
Não para que as pernas fossem removidas, mas para que aqueles cujas pernas eram quebradas para que morressem, fossem retirados do madeiro, a fim de que, pendurados nas cruzes, não manchassem o grande dia festivo com o horror de seu tormento diurno.
O Evangelista usou uma palavra vigilante, para não dizer feriu o seu lado, ou golpeou, mas abriu, para que ali, de certo modo, se abrisse a porta da vida, de onde manaram os sacramentos da Igreja, sem os quais não se entra na vida que verdadeiramente é vida; donde segue e imediatamente saiu sangue e água. Aquele sangue foi derramado para a remissão dos pecados; aquela água tempera a taça da salvação: isto fornece tanto o banho quanto a bebida. Isso prenunciava o que Noé foi ordenado a fazer, uma porta no lado da arca, pela qual entrariam os animais que não haviam de perecer no dilúvio, pelos quais prefigurava-se a Igreja. Por isto a primeira mulher foi feita do lado do homem adormecido; e este segundo Adão, inclinando a cabeça, dormiu na cruz, para que dali se formasse para Ele uma esposa, por aquilo que fluiu do lado do adormecido. Ó morte, donde os mortos revivem! O que há mais puro que este sangue, o que há mais saudável que esta ferida?
Porque aquele que viu sabe, em cujo testemunho deve crer aquele que não viu. Apresentou dois testemunhos das Escrituras para cada um dos fatos que narrou terem ocorrido. Pois, quando disse: "não quebraram as pernas de Jesus", acrescentou: "Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: não quebrareis nenhum dos seus ossos", preceito que foi dado àqueles que, na lei antiga, foram ordenados a celebrar a Páscoa com a imolação do cordeiro, o qual precedeu como sombra da paixão do Senhor. Do mesmo modo, porque acrescentara: "um dos soldados abriu seu lado com uma lança", a isto se refere o outro testemunho que acrescenta, dizendo: "e novamente outra Escritura diz: olharão para aquele a quem transpassaram", onde se promete que Cristo virá na mesma carne em que foi crucificado.
Ao prestar este último ofício fúnebre, demonstrou menor preocupação com os judeus, embora costumasse evitar as inimizades deles quando ia ouvir o Senhor.
Não se deve distinguir de modo a dizermos: primeiramente trazendo uma mistura de mirra, mas de modo que o que foi dito primeiramente pertença ao sentido anterior. Pois Nicodemos tinha vindo a Jesus de noite primeiramente, o que o próprio São João narrou nas primeiras partes do seu Evangelho. Aqui, portanto, deve-se entender que Nicodemos não somente veio a Jesus naquela ocasião, mas que naquela ocasião veio pela primeira vez; e que veio depois para se tornar discípulo de Cristo ouvindo-o. Trazem, porém, unguentos que são muito apropriados para conservar ao máximo o corpo e não permitir que rapidamente se sujeite à corrupção: pois ainda o tratavam como um simples homem, mas demonstravam, contudo, muito amor.
Nisso o Evangelista adverte que em tais ofícios que são prestados aos mortos, deve-se observar o costume de cada nação. Era, pois, costume daquela nação preparar os corpos dos mortos com vários aromas, para que se conservassem ilesos por mais tempo.
E nem São João aqui contradiz os outros: pois aqueles que silenciaram sobre Nicodemos não afirmaram que o Senhor foi sepultado somente por José, embora tenham feito menção apenas a ele; nem porque disseram que o Senhor foi envolvido por José em um único lençol, por isso impediram de se entender que outros panos de linho pudessem ter sido trazidos por Nicodemos e acrescentados; de modo que João narra com verdade que ele foi envolvido não em um único lençol, mas em panos de linho; posto que também por causa do sudário que foi colocado na cabeça, e das faixas com as quais todo o corpo foi amarrado, porque tudo era de linho, mesmo se ali houvesse apenas um lençol, poderia ser dito com toda verdade que "o amarraram com panos de linho": pois, genericamente, chama-se panos de linho àquilo que é tecido de linho.
Assim como no ventre da Virgem Maria ninguém antes dele, ninguém depois dele foi concebido, também neste sepulcro ninguém antes dele, ninguém depois dele foi sepultado.
Ele pretende que se entenda que a sepultura foi acelerada, para que não anoitecesse, quando por causa da parasceve, que os judeus mais comumente chamam entre nós de ceia pura em latim, já não era lícito fazer tal coisa.
Maria Madalena veio, sem dúvida a mais fervorosa em amor dentre todas as mulheres que haviam servido ao Senhor, de modo que não sem mérito São João a comemora somente a ela, omitindo aquelas que com ela estavam, como atestam os outros evangelistas.
Una sabbati é o dia que os cristãos chamam de dia do Senhor, devido à ressurreição do Senhor. São Mateus o denomina prima sabbati.
O que São Marcos diz: "Muito cedo pela manhã, já nascendo o sol", não contradiz o que aqui se diz: "Quando ainda havia trevas"; pois ao amanhecer o dia, alguns resquícios das trevas tanto mais se atenuam quanto mais a luz nasce. Nem se deve entender o que diz São Marcos: "Muito cedo pela manhã, já nascido o sol", como se o próprio sol já fosse visto sobre a terra; mas antes, como costumamos dizer àqueles aos quais queremos indicar que algo deve ser feito mais cedo, "já nascido o sol" significa que está próximo a chegar nessas partes.
Já havia, portanto, acontecido o que somente São Mateus relata, sobre o terremoto e a pedra removida, e sobre os guardas aterrorizados.
Assim costuma recordar-se que ele era o discípulo que Jesus amava, o qual certamente amava a todos, mas a ele amava de maneira especial e mais familiar que aos demais. Segue-se: "E disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram".
Alguns códices gregos têm "tiraram o meu Senhor", o que pode parecer ter sido dito com um afeto mais intenso de caridade ou de servidão. Mas isto não encontramos na maioria dos códices que temos à disposição.
Depois de ter dito que vieram ao sepulcro, retrocedeu para narrar como eles vieram, e disse: corriam, pois, os dois juntos: e aquele outro discípulo correu mais depressa que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro, onde ele mostra que ele mesmo chegou primeiro, mas narra tudo como se falasse de outra pessoa.
Alguns pensam que São João acreditou que Jesus havia ressuscitado; mas o que segue não indica isso. Viu, portanto, o sepulcro vazio, e acreditou no que a mulher havia dito; pois segue: porque ainda não conheciam a Escritura, que era necessário que Ele ressuscitasse dos mortos. Não acreditou, portanto, que ressuscitara Aquele que não sabia ser necessário ressuscitar. Quando, porém, ouviam do próprio Senhor, embora fosse dito muito claramente, contudo, pelo costume de ouvir dele parábolas, não entendiam, e acreditavam que Ele significava alguma outra coisa.
Isto é, para onde habitavam, e de onde tinham corrido ao sepulcro. Enquanto os homens regressavam, o mais forte afeto fixava o sexo mais frágil no mesmo lugar; donde segue: Maria, porém, estava junto ao sepulcro, chorando do lado de fora.
Isto é, diante daquele lugar do sepulcro de pedra; mas, contudo, dentro daquele espaço por onde já haviam entrado: pois havia ali um jardim
Os olhos, pois, que haviam buscado ao Senhor e não O encontraram, entregavam-se às lágrimas, sofrendo mais porque Ele havia sido removido do sepulcro do que porque havia sido morto no madeiro: pois do grande Mestre, cuja vida havia sido subtraída, nem a memória permanecia.
Ela havia visto, com as outras mulheres, o Anjo sentado à direita, sobre a pedra que havia sido removida do sepulcro, a cujas palavras, enquanto chorava, olhou para o sepulcro.
Porque a sua dor era demasiada, e não acreditava facilmente nem em seus próprios olhos nem nos olhos dos discípulos; ou talvez por instinto divino foi produzido em seu espírito que olhasse para dentro?
Mas o que significa que um estava sentado à cabeça e outro aos pés? Por acaso, visto que aqueles que em grego são chamados Anjos, em latim são mensageiros, deste modo significavam que o Evangelho de Cristo haveria de ser anunciado da cabeça até os pés, isto é, desde o início até o fim?
Mas ela, julgando que eles perguntavam por desconhecerem, revela as causas de suas lágrimas; por isso segue: diz a eles: porque levaram o meu Senhor. Chama de seu Senhor ao corpo inanimado de seu Senhor, significando o todo pela parte; assim como todos confessamos que Jesus Cristo, Filho de Deus, foi sepultado, quando somente sua carne foi sepultada. Segue: e não sei onde o colocaram. Esta era a causa de maior dor, porque não sabia aonde ir para consolar sua dor.
Aqui devemos entender que os Anjos se levantaram, para que também fossem vistos em pé, como São Lucas registra que eles foram vistos.
Mas já havia chegado a hora em que aquilo que tinha sido de certo modo anunciado pelos Anjos, quando proibiam que chorasse, se transformaria em alegria para os que choravam; por isso segue: E tendo dito isto, virou-se para trás.
Ou porque anteriormente voltando-se corporalmente, julgou ser o que não era; agora, convertida em seu coração, reconheceu quem era. Ninguém, contudo, calunie a mulher porque chamou ao hortelão de senhor e a Jesus de mestre; pois ali honrava o homem de quem pedia um benefício; aqui recordava o doutor de quem aprendia a discernir as coisas humanas e divinas. Portanto, de um modo disse senhor: levaram o meu senhor; e de outro modo: senhor, se tu o tiraste.
Mas se estando na terra não se deixa tocar, sentado no céu, como será tocado pelo homem? Certamente, antes de sua ascensão, ofereceu-se aos seus discípulos para ser tocado, dizendo: "palpai e vede, porque um espírito não tem carne e ossos", como testemunha São Lucas. Quem seria tão absurdo a ponto de dizer que Ele quis ser tocado pelos discípulos antes de subir ao Pai, mas não quis ser tocado pelas mulheres senão depois de haver ascendido ao Pai? Mas lemos que também as mulheres depois da ressurreição, antes que subisse ao Pai, tocaram a Jesus, entre as quais estava a própria Maria Madalena, conforme narra São Mateus. Ou isso foi dito assim para que naquela mulher fosse representada a Igreja dos gentios, que não acreditou em Cristo senão depois que Ele ascendeu ao Pai; ou Jesus quis que se cresse Nele assim, isto é, que fosse tocado espiritualmente, porque Ele e o Pai são um só. Pois ascende ao Pai, de certo modo, nos sentimentos íntimos daquele que progrediu tanto Nele a ponto de reconhecê-Lo igual ao Pai. E como não haveria de crer ainda carnalmente Nele, a quem chorava como homem?
O toque é como o fim do conhecimento; e por isso não queria que o coração atento tivesse seu fim nele, de modo que aquilo que era visto fosse considerado apenas como aparentava ser.
Ou de outro modo. Não diz: nosso Pai, mas meu Pai e vosso Pai. De um modo, portanto, meu, e de outro modo, vosso; meu por natureza, vosso pela graça. Nem disse: nosso Deus, mas meu Deus, sob quem eu sou homem, e vosso Deus; entre vós e Ele eu sou o mediador.
Então ela saiu do sepulcro, isto é, daquele lugar onde havia o espaço do jardim diante da pedra escavada, e com ela outras que, segundo São Marcos, foram tomadas de tremor e pavor, e a ninguém, isto é, a nenhum dos outros, diziam coisa alguma; por isso aqui também se diz veio Maria Madalena anunciando aos discípulos: "Vi o Senhor, e isto me disse".
Enquanto ela ia com as outras mulheres, segundo São Mateus, Jesus as encontrou, dizendo: "Salve". Assim coligimos que houve duas visões de Anjos; e que nosso Senhor também foi visto duas vezes, uma quando Maria o tomou por jardineiro, e novamente, quando Ele as encontrou pelo caminho, e por esta repetição de sua presença confirmou a fé delas. E assim Maria Madalena veio e anunciou aos discípulos, não sozinha, mas com as outras mulheres que São Lucas menciona.
Alguns ficam tão perturbados com este assunto que quase se põem em perigo, apresentando contra os milagres divinos os preconceitos de seus raciocínios; pois assim disputam: se era um corpo, se o que ressuscitou do sepulcro foi o mesmo que pendeu no madeiro, como pôde entrar por portas fechadas? Se compreendes o modo, não é milagre; onde falha a razão, aí se edifica a fé.
As portas fechadas não impediram o corpo, onde habitava a divindade: Ele certamente pôde entrar, sem que elas fossem abertas, Aquele que, ao nascer, deixou intacta a virgindade de sua mãe.
A claridade, com a qual os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai, deve-se crer que no corpo de Cristo, quando ressuscitou, foi antes velada aos olhos dos discípulos do que ausente (pois o olhar humano e frágil não poderia suportá-la), quando Ele devia ser visto pelos seus de tal modo que pudesse ser reconhecido.
Nós reconhecemos que o Filho é igual ao Pai; mas aqui reconhecemos as palavras do Mediador. Pois ele se mostra como intermediário ao dizer: "Ele a mim, e eu a vós".
Aquele sopro corpóreo, portanto, não foi a substância do Espírito Santo, mas uma demonstração, por meio de significação adequada, de que o Espírito Santo procede não apenas do Pai, mas também do Filho. Pois quem, sendo completamente insensato, diria que foi um Espírito que Ele deu ao soprar e outro que enviou após Sua ascensão?
A caridade da Igreja, que pelo Espírito Santo é difundida em nossos corações, perdoa os pecados daqueles que dela participam; porém retém os pecados daqueles que não são seus participantes; por isso, depois que disse "Recebei o Espírito Santo", imediatamente acrescentou sobre a remissão e retenção dos pecados.
Tu me perguntas e dizes: se Ele entrou pelas portas fechadas, onde está o modo do corpo? E eu respondo: se Ele andou sobre o mar, onde está o peso do corpo? Mas o Senhor fez aquilo como Senhor: por acaso, porque ressuscitou, deixou de ser o Senhor?
Poderia, se quisesse, remover de seu corpo ressuscitado e glorificado toda mancha de qualquer cicatriz; mas Ele sabia por que reservava as cicatrizes em seu corpo. Pois assim como demonstrou a Tomé que não acreditava a não ser que tocasse e visse, assim também a seus inimigos há de mostrar suas feridas: não para lhes dizer como a Tomé: "porque viste, creste", mas para que a verdade os convença dizendo: eis o homem que crucificastes; vedes as feridas que infligistes, reconheceis o lado que traspassastes, pois por vós e para vós foi aberto, e contudo não quisestes entrar.
Não sei, porém, como somos afetados de tal maneira pelo amor aos bem-aventurados mártires, que queiramos ver naquele reino, em seus corpos, as cicatrizes das feridas que suportaram pelo nome de Cristo; e talvez as veremos; pois não haverá neles deformidade, mas dignidade; e brilhará certa beleza, ainda que no corpo, não do corpo, mas da virtude. Nem por isso, contudo, se alguns membros dos mártires foram amputados e removidos, estarão sem esses mesmos membros na ressurreição dos mortos, aos quais foi dito: "Um cabelo da vossa cabeça não perecerá". Mas se for apropriado que, naquele novo século, sejam vistas as marcas das gloriosas feridas naquela carne imortal, ali onde os membros foram golpeados ou cortados para serem amputados, aparecerão as cicatrizes, mas com os mesmos membros restituídos, não perdidos. Portanto, embora então não existam todos os defeitos que ocorreram ao corpo, não devem ser chamados defeitos, mas indícios de virtude.
Tomás, porém, via e tocava o homem, e confessava a Deus, a quem não via nem tocava; por meio daquilo que via e tocava, já acreditava naquilo sem dúvida; donde segue-se que Tomás respondeu e disse-lhe: "Senhor meu e Deus meu".
Ele não disse: "tu me tocaste", mas "tu me viste", porque o sentido da visão é de certo modo um sentido geral, pois costuma ser nomeado pelos outros quatro sentidos, como quando dizemos: ouve e vê quão bem soa; cheira e vê quão bem cheira; prova e vê quão bem sabe; toca e vê quão quente está. Por isso também o Senhor diz: "Introduz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos". O que mais significa isto senão toca e vê? E, no entanto, ele não tinha olhos no dedo. Portanto, seja olhando, seja também tocando, isto é o que ele diz: "porque me viste, creste". Embora possa dizer-se que o discípulo não ousou tocar, quando o próprio Senhor se ofereceu para ser tocado.
Ele usou o tempo pretérito em suas palavras, como se já estivesse feito aquilo que conhecia em sua predestinação que haveria de acontecer.
O que o Evangelista imediatamente expusera antes, como que indica o fim deste livro; mas narra-se, em seguida, como o Senhor se manifestou junto ao mar de Tiberíades; por isso diz: Depois Jesus manifestou-se novamente aos discípulos junto ao mar de Tiberíades.
Se os discípulos tivessem feito isso depois da morte de Jesus, antes que ressuscitasse dos mortos, pensaríamos que o faziam dominados pelo desespero que havia ocupado seus ânimos. Mas agora, depois de recebê-lo vivo de volta do sepulcro, depois de examinarem os lugares das feridas, depois de receberem o Espírito Santo pelo seu sopro, subitamente tornam-se como eram antes, não pescadores de homens, mas de peixes. Deve-se responder, portanto, que não lhes fora proibido buscar o sustento necessário de sua arte lícita, conservada a integridade de seu apostolado, se não tivessem outro meio de subsistência. Pois se o bem-aventurado São Paulo, usando daquela faculdade que certamente possuía como os demais pregadores do Evangelho, não a utilizava como os outros, mas servia à sua própria custa, para não ofender com sua doutrina, como se fosse venal, aos gentios totalmente alheios ao nome de Cristo, e tendo sido educado de outro modo, aprendeu uma arte que antes não conhecia, para que enquanto o mestre trabalhava com suas próprias mãos, nenhum ouvinte fosse sobrecarregado, quanto mais o bem-aventurado São Pedro, que já havia sido pescador, podia fazer o que sabia, se naquele momento não encontrava outro meio de subsistência. Mas alguém responderá: e por que não encontrou, tendo o Senhor prometido ao dizer: "buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas"? Certamente o Senhor cumpriu o que prometeu: pois quem senão Ele proveu os peixes para serem pescados? E deve-se crer que Ele não lhes impôs a necessidade que os obrigou a ir pescar por outro motivo, senão porque queria realizar o milagre que havia disposto.
Não se deve entender aqui que o pão estava colocado sobre as brasas, mas como se dissesse: viram as brasas postas, e o peixe sobreposto às brasas, e viram o pão.
Misticamente, na pesca dos peixes, Ele manifestou o sacramento da Igreja, tal como será na última ressurreição dos mortos. E para isso vale observar que foi interposto como se fosse o fim do livro, que seria também como um proêmio da narração que haveria de seguir. O fato de que sete discípulos estiveram naquela pescaria, pelo seu número setenário, significa o fim dos tempos: pois todo o tempo se desenvolve em um período de sete dias.
O litoral também é o limite do mar; e por isso significa o fim do mundo. Assim como neste lugar figura-se como a Igreja será no fim do mundo, assim o Senhor, em outra pesca, significou a Igreja como ela é agora: por isso lá Jesus não estava no litoral, mas, subindo a uma barca que era de Simão, pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra. Na outra pesca não lançam as redes à direita, para não significar só os bons; nem à esquerda, para não significar só os maus; mas indiferentemente: "Lançai as vossas redes para a pesca", para que entendamos misturados os bons e os maus; aqui, porém, diz "Lançai a rede à direita da barca", para significar que somente os bons estarão à direita. Aquilo fez no início de sua pregação, isto depois de sua ressurreição: nisto mostrando que aquela captura de peixes significa os bons e os maus, que agora a Igreja tem; esta, porém, somente os bons, que terá eternamente, completada no fim deste século a ressurreição dos mortos. Aqueles, pois, que pertencem à ressurreição da vida, isto é, à direita, e estão presos nas redes do nome cristão, somente na praia, isto é, no fim do mundo, quando ressuscitarem, aparecerão; por isso não puderam puxar as redes de modo a descarregar na barca os peixes que haviam capturado, como se fez com os outros. A Igreja mantém estes da direita após o fim desta vida, no sono da paz, como que ocultos nas profundezas, até que a rede chegue à praia. Quanto ao fato de que na primeira pesca havia duas barcas, e neste lugar duzentos côvados, como que cem e cem, penso que figuram os dois tipos de eleitos, tanto da circuncisão quanto do prepúcio.
Na outra pescaria, o número de peixes não é expresso, como se ali acontecesse o que foi predito pelo profeta: "Anunciei e falei; multiplicaram-se além do número"; mas aqui o número é certo, do qual se deve dar razão. Pois o número que significa a lei é dez, por causa do Decálogo. Quando, porém, à lei se acrescenta a graça, isto é, ao sentido literal o espírito, de certo modo ao número dez se adiciona o número sete, pois pelo número sete é significado o Espírito Santo, ao qual pertence propriamente a santificação. De fato, na lei a santificação foi primeiramente proclamada no sétimo dia. Também o profeta Isaías o recomenda pela obra ou dom septenário. Assim, quando ao número dez da lei se junta o Espírito Santo pelo número sete, obtém-se dezessete, cujo número, somando-se todos desde um até ele próprio, chega a cento e cinquenta e três.
Não são, portanto, significados apenas cento e cinquenta e três santos que ressuscitarão para a vida eterna, mas todos os que pertencem à graça do Espírito Santo são representados por este número: que também contém três vezes o número cinquenta, e além disso o próprio três devido ao mistério da Trindade. O número cinquenta, por sua vez, é completado multiplicando-se sete por sete, e adicionando-se um. E um é adicionado para significar que eles são um só. Não foi em vão que se disse que eram grandes. Pois tendo o Senhor dito: "Não vim destruir a Lei, mas cumpri-la", para dar o Espírito, certamente por meio do qual a Lei poderia ser cumprida, tendo interposto poucas palavras, diz: "Aquele que fizer e ensinar, será chamado grande no reino dos céus". Na primeira pescaria, a rede se rompia para significar os cismas; mas aqui, como naquela suma paz dos santos não haverá cismas, coube ao Evangelista dizer consequentemente "e sendo tantos", isto é, tão grandes, "não se rompeu a rede", como se olhasse para aquela ocasião em que se rompeu, e em comparação àquele mal, recomendasse este bem.
Terminada a pesca, o Senhor os convida para a refeição; donde se diz: Jesus diz a eles: Vinde, comei.
Os corpos dos justos que estarão na ressurreição futura não precisarão do lenho da vida, para que não morram de nenhuma doença ou velhice envelhecida, nem de quaisquer outros alimentos corporais, pelos quais seja evitada qualquer moléstia de fome ou sede; posto que serão revestidos com o dom certo e inviolável da imortalidade, de modo que não por necessidade, mas por possibilidade, comam somente se quiserem; pois destes corpos não será retirada a capacidade, mas a carência de comer e beber; assim como nosso Salvador, após a ressurreição, já em carne espiritual, mas verdadeira, tomou comida e bebida com os discípulos, não por indigência de alimento, mas pelo poder pelo qual também podia fazer isso. Segue-se: "E nenhum dos que estavam à mesa ousava perguntar-lhe: Quem és tu?", sabendo que era o Senhor; como se dissesse.
Ninguém ousava duvidar que era Ele: pois tanta era a evidência da verdade, que ninguém se atrevia não apenas a negar, mas nem mesmo a duvidar; porque se alguém duvidasse, certamente perguntaria.
Misticamente, o peixe assado é Cristo que padeceu; Ele mesmo é o pão que desceu do céu; a este se incorpora a Igreja para participar da bem-aventurança eterna; por isso foi dito trazei dos peixes que apanhastes agora: para que todos nós que temos esta esperança, por aquele número septenário de discípulos, pelo qual pode-se entender figurada neste lugar a nossa universalidade, saibamos que comungamos de tão grande sacramento e somos associados à mesma bem-aventurança.
O que devemos referir não às próprias manifestações, mas aos dias; isto é, no primeiro dia, quando ressuscitou, e após oito dias, quando Tomás viu e creu, e neste dia quando fez o prodígio dos peixes, e depois quantas vezes quis, até o quadragésimo dia, no qual subiu ao céu.
Encontramos, porém, nos quatro Evangelistas, mencionado dez vezes que o Senhor foi visto após a ressurreição. Uma vez junto ao sepulcro pelas mulheres; segunda vez às mesmas regressando do sepulcro, no caminho; terceira vez a Pedro; quarta vez aos dois que iam para a aldeia; quinta vez a muitos em Jerusalém, onde não estava Tomás; sexta vez quando Tomás o viu; sétima vez junto ao mar de Tiberíades; oitava vez a todos os onze no monte da Galileia, segundo São Mateus; nona vez, como diz São Marcos, na última refeição, pois já não haveriam de comer com Ele na terra; décima vez no próprio dia da ascensão, não mais na terra, mas elevado em uma nuvem.
Quando o Senhor estava morrendo, [Pedro] temeu e negou; mas, ressuscitando o Senhor, infundiu-lhe amor e afugentou o temor: pois quando negou, temeu morrer; ressurgindo o Senhor, que temeria ele, naquele em quem encontraria a morte já morta? Por isso segue-se que ele lhe disse: "Sim, Senhor, tu sabes que te amo". E ao que confessou seu amor, confiou suas ovelhas; por isso segue-se: "Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros"; como se não houvesse outro modo pelo qual Pedro pudesse mostrar seu amor a Cristo, senão sendo um pastor fiel sob o príncipe de todos os pastores.
Com razão se pergunta a Pedro "Me amas?", e ele responde "Te amo", e lhe é dito "Apascenta os meus cordeiros"; onde também se demonstra que amor e dilecção são uma e a mesma coisa: pois o Senhor, por fim, não lhe diz "diligis me", mas "amas me". Segue-se: "Disse-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, tu me amas?" Pela terceira vez o Senhor interroga se Pedro o ama. À tríplice negação corresponde a tríplice confissão; para que a língua não sirva menos ao amor do que serviu ao temor; e para que pareça que a morte iminente tenha extraído mais palavras do que a vida presente.
Portanto, entristeceu-se porque foi interrogado muitas vezes por Aquele que sabia o que perguntava, e concedia o que ouvia. Assim, respondeu verdadeiramente, e do íntimo de seu coração proferiu as palavras de amor, dizendo: "Tu sabes que te amo".
Não acrescenta, porém, "mais do que estes"; pois ele respondeu aquilo que sabia de si mesmo; não podia saber quanto seria amado por qualquer outro, pois não podia ver o coração de outrem. Segue-se que lhe diz: apascenta as minhas ovelhas; como se dissesse: seja o ofício do amor apascentar o rebanho do Senhor, assim como foi indício de temor negar o pastor.
Os que apascentam as ovelhas de Cristo com a intenção de que sejam suas, e não de Cristo, demonstram que amam a si mesmos, não a Cristo, quer por desejo de glória, de domínio ou de ganho, não por caridade de obedecer, de servir e de agradar a Deus. Não amemos, portanto, a nós mesmos, mas a Ele, e ao apascentar suas ovelhas, busquemos as coisas que são Dele, não as nossas; pois todo aquele que ama a si mesmo, e não a Deus, não ama a si mesmo: pois aquele que não pode viver de si mesmo, certamente morre ao amar-se. Portanto, não se ama quem se ama para não viver. Porém, quando amamos Aquele de quem vivemos, não nos amando, mais nos amamos, pois não nos amamos para amar Aquele de quem vivemos.
Surgiram, porém, alguns servos infiéis, que dividiram o rebanho de Cristo, e com seus furtos fizeram para si peculio; e ouves eles dizerem: aquelas ovelhas são minhas. O que procuras junto às minhas ovelhas? Não te encontrarei junto às minhas ovelhas. Se assim também nós dissermos minhas, e eles disserem suas, Cristo perdeu suas ovelhas.
Isto é, serás crucificado. E para que chegues a este fim, outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres. Primeiro disse o que aconteceria, e depois como aconteceria: pois não foi quando crucificado, mas quando estava prestes a ser crucificado, que foi levado para onde não queria. Ele desejava ser libertado do corpo e estar com Cristo; mas, se fosse possível, desejava alcançar a vida eterna sem as dores da morte; para a qual foi contra sua vontade, mas venceu pela força de sua vontade, triunfando sobre o sentimento humano, tão natural, que nem mesmo a velhice pôde privar São Pedro dele. Mas qualquer que seja a dor da morte, ela deve ser vencida pela força do amor por Aquele que, sendo nossa vida, voluntariamente também sofreu a morte por nós. Pois se não houvesse dor na morte, ou muito pouca, a glória do martírio não seria grande.
Este foi o fim que encontrou aquele que negou e amou, morrendo com perfeito amor por Aquele por quem havia prometido morrer com precipitação equivocada. Pois era necessário que Cristo morresse primeiro pela salvação de Pedro, e depois Pedro morresse pela pregação de Cristo.
Tendo o Senhor anunciado a Pedro com que morte havia de glorificar a Deus, convida-o a segui-lo; donde se diz e, tendo dito isto, diz-lhe: Segue-me. Por que se diz a Pedro segue-me, e não se diz aos demais que estavam presentes juntos, os quais, como discípulos, seguiam ao mestre? Mas se isto deve ser entendido sobre o sofrimento, porventura só Pedro sofreu pela verdade cristã? Não estava ali também São Tiago, que, é manifesto, foi morto por Herodes? Mas alguém poderia dizer, como São Tiago não foi crucificado, com razão foi dito a Pedro segue-me, pois ele não só experimentou a morte, mas também a morte de cruz, assim como Cristo.
Ele chama a si mesmo o discípulo a quem Jesus amava, porque Jesus o amava mais que aos outros e com maior familiaridade, a tal ponto que o fazia reclinar sobre o seu peito durante a ceia. Creio que desta maneira recomendava mais profundamente a divina excelência deste Evangelho que havia de ser pregado por ele. Há aqueles que pensaram, e estes não são intérpretes desprezíveis da sagrada escritura, que João foi mais amado por Cristo porque desde o início de sua juventude viveu de modo castíssimo. Segue: "Tendo-o, pois, visto, Pedro disse a Jesus: Senhor, e este?"
E repetiu: "Tu, segue-me", como se aquele não o seguisse, porque Ele queria que permanecesse até que viesse. Quem facilmente acreditaria em outra coisa senão o que os irmãos presentes acreditaram? Segue-se, pois: "Correu, portanto, esse rumor entre os irmãos, que aquele discípulo não morreria". Mas esta opinião o próprio São João refutou, acrescentando: "E Jesus não disse: 'Não morre'; mas: 'Quero que ele permaneça assim até que eu venha; que te importa a ti?'" Mas quem quiser, ainda pode resistir e dizer que é verdade o que diz São João, que o Senhor não disse que aquele discípulo não morreria; mas que isto foi significado por tais palavras, tal como ele narrou que Jesus disse.
Ou talvez alguém insista que em seu sepulcro, que está em Éfeso, ele está mais adormecido do que morto jazendo; aduzindo como argumento o fato de que ali a terra parece brotar suavemente e como que borbulhar; e afirmando obstinadamente que isso ocorre pela sua respiração. Mas por que teria concedido ao seu discípulo que amava mais que aos outros, como um grande presente, um longo sono corporal, quando libertou o bem-aventurado Pedro do peso do corpo pela imensa glória do martírio, e lhe concedeu aquilo que Paulo disse desejar: "desejo partir e estar com Cristo"? Mas se realmente ali acontece o que sempre divulgou a fama, ou é para que desse modo seja louvada a sua preciosa morte, visto que não a enaltece o martírio, ou por alguma outra razão que nos é oculta. Permanece, contudo, a questão de por que o Senhor disse de um homem que haveria de morrer: "Quero que ele permaneça assim até que eu venha". Também causa perplexidade investigar por que o Senhor amou mais a João, quando o próprio Pedro amava mais ao Senhor. Tanto quanto posso entender, responderia facilmente que é melhor aquele que mais ama a Cristo, mas mais feliz aquele a quem Cristo mais ama, se eu visse como defender a justiça de nosso libertador. Portanto, tentarei resolver tão grande questão. A Igreja conhece duas vidas que lhe foram divinamente pregadas: uma na fé, outra na visão. A primeira é significada pelo apóstolo Pedro por causa do primado de seu apostolado, a outra por João; por isso a um é dito "segue-me", ou seja, pela imitação suportando os males temporais; do outro, porém, é dito "quero que ele permaneça assim até que eu venha"; como se dissesse: tu me segue pela imitação suportando os males temporais; ele permaneça até que eu venha para dar os bens eternos; o que pode ser dito mais claramente: a ação perfeita me siga, informada pelo exemplo de minha paixão; mas a contemplação iniciada permaneça até que eu venha para ser aperfeiçoada quando eu vier: o que não deve ser entendido como se dissesse ficar ou continuar, mas aguardar: porque aquilo que por ele é significado, quando Cristo vier será cumprido. Nesta vida ativa, quanto mais amamos a Cristo, tanto mais facilmente somos libertados do mal; mas ele nos ama menos como somos, e por isso nos liberta, para que não sejamos sempre assim; mas lá nos ama mais, porque não teremos nada que lhe desagrade e que ele deva tirar de nós. Ame, portanto, Pedro a ele, para que sejamos libertados desta mortalidade; seja João amado por ele, para que sejamos preservados naquela imortalidade. Por que, então, João o amava menos que Pedro, se ele representava aquela vida na qual se deve amar muito mais, senão porque por isso foi dito "quero que ele permaneça", isto é, espere, "até que eu venha"; quando também o próprio amor, que então será muito maior, ainda não temos, mas esperamos que venha, para que quando ele vier, o tenhamos? Isto, pois, é significado por Pedro, que ama mais, mas é menos amado, porque Cristo nos ama menos miseráveis do que bem-aventurados: mas a contemplação da verdade, como será então, amamos menos, porque agora ainda não a conhecemos nem a possuímos. Contudo, ninguém separe estes insignes apóstolos: tanto no que Pedro representava, ambos estavam, quanto no que João representava, ambos estariam.
Quanto ao que acrescenta: "que se fossem escritas uma por uma, nem o próprio mundo, penso eu, poderia conter os livros que deveriam ser escritos", não se deve acreditar que o mundo não poderia contê-los em termos de espaço físico, mas que não poderiam ser compreendidos pela capacidade dos leitores; embora, sem prejudicar a veracidade das coisas, muitas vezes as palavras pareçam exceder a verdade: o que não ocorre quando se expõe algo que era obscuro ou duvidoso, mas quando aquilo que é evidente é aumentado ou diminuído; contudo, não se desvia do caminho de significar a verdade, pois as palavras excedem a coisa que indicam de tal modo que se manifesta a intenção do que fala sem querer enganar. Este modo de falar chamam os gregos de hipérbole, modo este que, como neste lugar, também se encontra em outras passagens das divinas Escrituras.
Aqui convém primeiro observar que não é verossímil que, quando ele oferecia sacrifício pelos pecados ou pela salvação ou redenção do povo, pudesse um homem idoso, tendo esposa, deixar as preces públicas para orar para receber filhos, especialmente porque ninguém pede para receber o que desespera de alcançar. E a tal ponto ele já desesperava de ter filhos, que não acreditou quando o Anjo lhe prometeu. Portanto, quando lhe é dito "tua súplica foi ouvida", deve-se entender pelo povo; e como a salvação e redenção deste povo e a abolição dos pecados haveria de ocorrer por Cristo, ainda é anunciado a Zacarias que nascerá um filho, porque estava destinado a ser o precursor de Cristo.
Somente a virginidade poderia decentemente dar à luz Aquele que em seu nascimento não poderia ter igual. Convinha, pois, que nossa Cabeça, por insigne milagre, nascesse segundo a carne de uma virgem, o que significava que seus membros haveriam de nascer, segundo o espírito, da Igreja virgem.
Mais que comigo: pois Ele mesmo está em teu coração, Ele se faz em teu ventre, Ele preenche tua mente, Ele preenche teu ventre.
Qualquer um, porém, que diz: "se Deus é onipotente, faça com que as coisas que foram feitas não tenham sido feitas", não percebe que está dizendo que as coisas que são verdadeiras, pelo próprio fato de serem verdadeiras, sejam falsas. Ele pode, de fato, fazer com que algo que existia não exista mais: como quando faz com que alguém que começou a existir nascendo, deixe de existir morrendo. Mas quem dirá que aquilo que já não existe, faça com que não exista? Pois tudo o que é passado já não existe; se algo pode ser feito a partir dele, ainda existe algo do qual se possa fazer. E se existe, como é passado? Não é, portanto, aquilo que com verdade dissemos ter existido; mas é verdadeiro dizer que aquilo existiu porque em nossa afirmação é verdadeiro, não naquela coisa que já não existe: esta afirmação, porém, Deus não pode tornar falsa. Não chamamos Deus onipotente como se acreditássemos que Ele também pudesse morrer. Claramente, somente Aquele é verdadeiramente chamado onipotente que verdadeiramente existe, e de quem unicamente procede tudo o que, de algum modo, existe.
Mas para dizer isto, como o Evangelista previamente declarou, foi cheia do Espírito Santo, por cuja revelação, sem dúvida, conheceu o que aquele exultar significava; isto é, que tinha vindo a mãe daquele de quem ela seria precursora e demonstradora futura. Portanto, este poderia ser o significado de tão grande acontecimento; para ser conhecido de fato por pessoas adultas, mas não compreendido por uma criança pequena; pois ela não disse: "O menino exultou na fé em meu ventre", mas exultou de alegria. Ora, vemos não só crianças exultando de alegria, mas até animais; certamente não por alguma fé ou sentimento religioso, ou qualquer conhecimento racional. Mas esta alegria foi estranha e inusitada, porque estava no ventre; e na vinda daquela que haveria de dar à luz o Salvador do mundo. Esta alegria, portanto, e como que uma saudação recíproca à mãe do Senhor, foi causada (como são os milagres) por influências Divinas na criança, não de modo humano por ela. Pois mesmo supondo que o exercício da razão e da vontade tivesse sido tão avançado naquela criança, a ponto de que ele pudesse, nas entranhas de sua mãe, conhecer, crer e assentir; isto certamente deve ser colocado entre os milagres do poder Divino, não referido a exemplos humanos.
Ó verdadeira humildade, que gerou Deus para os homens, deu vida aos mortais, renovou os céus, purificou o mundo, abriu o Paraíso e libertou as almas dos homens! A humildade de Maria tornou-se a escada celestial, pela qual Deus desceu à terra. O que significa dizer "olhou", senão "aprovou"? Muitos parecem ser humildes aos olhos dos homens; mas a humildade deles não é contemplada pelo Senhor. Pois se fossem verdadeiramente humildes, não desejariam ser louvados pelos homens, mas sim que Deus fosse louvado pelos homens; e seu espírito se alegraria não neste mundo, mas em Deus.
Embora também desse modo possa ser chamado pai dele, pelo qual também é corretamente entendido como marido de Maria, sem mistura carnal, pela própria união do matrimônio; evidentemente muito mais unido do que se fosse adotado de outro lugar. E nem por isso José não deveria ser chamado pai de Cristo, porque não o havia gerado pela relação carnal; uma vez que seria pai também daquele que, não tendo sido gerado de sua esposa, tivesse adotado de outro lugar.
Ou por meio disto significou que Maria, por meio da qual foi realizado o mistério da encarnação, na morte do Senhor duvidou com certo estupor, vendo o Filho de Deus tão humilhado a ponto de descer até a morte. E assim como a espada que passa próxima ao homem causa temor, mas não fere, assim também a dúvida causou tristeza, mas não matou, porque não se fixou na alma, mas passou como através de uma sombra.
Talvez cause estranheza o fato de São Mateus afirmar que os pais foram com o menino para a Galileia porque não quiseram ir para a Judeia por medo de Arquelau, quando parece que foram para a Galileia principalmente porque sua cidade era Nazaré da Galileia, como São Lucas aqui não deixa de mencionar. Mas deve-se entender que, quando o Anjo disse em sonhos a José no Egito: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel", inicialmente foi compreendido por José como uma ordem para ir à Judeia, pois esta poderia ser entendida primeiramente como a terra de Israel. Porém, depois, quando soube que ali reinava Arquelau, filho de Herodes, não quis expor-se àquele perigo; visto que a terra de Israel também poderia ser entendida de modo a incluir a Galileia, porque também lá habitava o povo de Israel.
Mas como seus pais iam todos os anos da infância de Cristo a Jerusalém, se por temor de Arquelau estavam impedidos de ir lá? Não me seria difícil resolver esta questão, nem mesmo se algum dos Evangelistas tivesse indicado expressamente quanto tempo reinou Arquelau: pois poderia ter acontecido que durante o dia festivo, entre tão imensa multidão, subissem secretamente e logo retornassem; enquanto temiam habitar lá em outros dias, de modo que nem omitissem a solenidade, sendo assim irreligiosos, nem se tornassem notáveis por uma permanência contínua. Porém, como todos silenciaram também sobre a duração do reino de Arquelau, este entendimento é evidente: que quando Lucas diz que eles costumavam subir todos os anos a Jerusalém, entendemos que isso aconteceu quando Arquelau já não era mais temido.
Porque ele sabia que os soldados quando serviam não eram homicidas, mas ministros da lei; e não vingadores de injúrias próprias, mas defensores da segurança pública: de outro modo lhes responderia: abandonai as armas, desertai da milícia, não golpeeis, não firais, não derrubeis ninguém. Pois o que é culpado na guerra? Porventura que morram os que de algum modo haveriam de morrer, para que dominem em paz os que hão de viver? Isto é próprio de reprimir aos tímidos, não aos religiosos. O desejo de prejudicar, a crueldade na vingança, o ânimo implacado e implacável, a ferocidade na rebelião, a ânsia de dominar, e outras coisas semelhantes, estas são as que com justiça são culpadas nas guerras; pelas quais muitas vezes, para que sejam punidas, contra a violência dos que resistem, seja por ordem de Deus ou por algum poder legítimo que o ordene, os bons empreendem as próprias guerras, quando se encontram naquela ordem das coisas humanas em que a própria ordem os obriga justamente ou a ordenar tal coisa ou a obedecer em tais circunstâncias.
São Mateus certamente diz: de quem não sou digno de carregar as sandálias. Assim, se importa compreender de modo diferente o que foi dito: carregar as sandálias e desatar a correia das sandálias, de modo que um dos Evangelistas tenha dito isto e os outros aquilo, todos narraram a verdade; mas se João não pretendeu nada mais quando falava das sandálias do Senhor senão mostrar a excelência dele e sua própria humildade, qualquer uma destas coisas que tenha dito, seja sobre desatar a correia das sandálias, seja sobre carregar as sandálias, todos mantiveram, contudo, o mesmo sentido, pois quem quer que, por meio da menção às sandálias, tenha expressado com suas próprias palavras o mesmo significado de humildade.
É um grande absurdo supor que Ele tenha recebido o Espírito Santo quando já tinha trinta anos. Mas Ele veio ao batismo sem pecado, e também não sem o Espírito Santo. Pois se está escrito sobre São João: será cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, o que devemos crer do homem Cristo, cuja concepção da carne não foi carnal, mas espiritual? Agora, pois, dignou-se prefigurar o seu corpo, isto é, a Igreja, na qual os batizados recebem especialmente o Espírito Santo.
Quanto ao que São Mateus diz: "este é meu filho", e São Lucas: "tu és meu filho amado", vale para explicar o mesmo significado: de fato, a voz celestial disse uma destas coisas; mas São Mateus quis mostrar que o que foi dito: "este é meu filho", servia para indicar àqueles que estavam ouvindo que Ele era o Filho de Deus: pois não estava sendo indicado a Cristo, que já o sabia; mas ouviam os que estavam presentes, para os quais também a própria voz foi feita.
Ou de outro modo. São Mateus descende de Davi até José através de Salomão; São Lucas, porém, partindo de Heli, que viveu no tempo do Salvador, sobe pela linhagem de Natã filho de Davi, e uniu Heli e José na mesma tribo, mostrando que ambos são de um mesmo parentesco; e por isso o Salvador é não somente filho de José, mas também de Heli. Pela mesma razão pela qual o Salvador é chamado filho de José, ele é também filho de Heli e de todos os demais que são da mesma tribo. Daí o que diz o Apóstolo: "dos quais são os pais, e dos quais Cristo veio segundo a carne".
Ou concorrem três causas, uma das quais o Evangelista seguiu: ou um Evangelista nomeou o pai de quem ele foi gerado, enquanto outro apresentou o avô materno, ou algum dos parentes maiores; ou um era o pai natural de José e outro o adotou; ou segundo o costume dos judeus, quando um homem morria sem filhos, seu parente próximo, recebendo a esposa dele, atribuía o filho que gerou ao parente falecido.
É mais provável que São Lucas tenha seguido a origem por adoção, pois não quis dizer que José fora gerado por aquele de quem o narrou como filho. Pois mais convenientemente se diz filho daquele por quem foi adotado, do que se chamasse gerado por aquele de cuja carne não nasceu. São Mateus, porém, dizendo: "Abraão gerou Isaac, e Isaac gerou Jacó", e perseverando nesta palavra, que é "gerou", até que no final dissesse: "Jacó gerou José", expressou suficientemente que ele havia conduzido a origem até aquele pai pelo qual José não foi adotado, mas gerado. Ainda que se São Lucas dissesse que José fora gerado por Eli, nem assim esta palavra deveria nos perturbar: pois não é absurdo dizer que alguém gerou, não pela carne, mas pela caridade, aquele que adotou como filho. Com razão, porém, São Lucas assumiu a origem pela adoção, porque pela adoção nos tornamos filhos de Deus; mas pela geração carnal, o Filho de Deus, antes, por nossa causa, se fez filho do homem.
Deve-se dizer, porém, que um profeta deste mesmo nome repreendeu a Davi, para que não se pense ter sido o mesmo homem, quando na verdade era outro.
Suficientemente demonstrou com isto que, ao chamar José filho de Heli, não quis dizer que fora gerado por ele, mas antes que fora adotado por ele; assim como também chamou a Adão filho, embora tenha sido feito por Deus; mas pela graça, que depois perdeu ao pecar, foi estabelecido como filho no Paraíso.
São Mateus, de fato, quis significar o Senhor descendo à nossa mortalidade; por isso rememorou as gerações desde Abraão até o nascimento de Cristo em ordem descendente, desde o início do seu Evangelho. São Lucas, porém, não narra as gerações desde o início, mas a partir do Batismo de Cristo, e não de modo descendente, mas ascendente, como que assinalando mais claramente o sacerdote na expiação dos pecados; ao qual São João deu testemunho dizendo: "Eis aquele que tira os pecados do mundo". Ascendendo, pois, chega a Deus, a quem somos reconciliados depois de purificados e expiados.
Muito convenientemente Lucas, após o batismo do Senhor, enumera as gerações através de setenta e sete pessoas, em ordem ascendente; pois assim é expressa a ascensão a Deus, com quem somos reconciliados pela abolição dos pecados; e pelo Batismo é concedida ao homem a remissão de todos os pecados, que são significados por aquele número: pois onze vezes sete são setenta e sete: no número dez está a perfeição da bem-aventurança; donde é manifesto que a transgressão do número dez designa o pecado pela soberba de quem deseja ter algo mais. Isto, porém, é multiplicado por sete para significar que aquela transgressão é feita pelo movimento do homem: pelo número três significa-se a parte incorpórea do homem; pelo número quatro, o corpo; o movimento, porém, não se expressa nos números quando dizemos: um, dois, três; mas quando dizemos: uma vez, duas vezes, três vezes. Por isso, por sete vezes onze significa-se a transgressão feita pelo movimento do homem.
Este número é um sacramento deste tempo laborioso, no qual sob a disciplina do rei Cristo lutamos contra o Diabo. Pois este número significa a vida temporal: os tempos dos anos correm em ciclos de quatro, e quarenta contém quatro vezes dez; além disso, estes mesmos dez são completados pelo número que progride sucessivamente de um até quatro; o que demonstra que o jejum de quarenta dias, isto é, a humilhação da alma, foi consagrado tanto pela lei e pelos profetas por meio de Moisés e Elias, quanto pelo Evangelho através do próprio jejum do Senhor.
São Mateus narra tudo isso igualmente, mas não com a mesma ordem; de onde é incerto o que foi feito primeiro: se os reinos da terra foram primeiro mostrados a Ele e depois foi levado ao pináculo do templo; ou se isto ocorreu primeiro e aquilo depois. Nada disso importa, desde que seja manifesto que todas estas coisas aconteceram.
Mas como ele recorda que grandes coisas já haviam sido feitas por Ele, as quais sabe que ainda não tinha narrado, o que é mais evidente do que ele ter conscientemente antecipado a narração dessas coisas? Pois ele não avançou tanto além do batismo do Senhor a ponto de se supor que ele tivesse esquecido que ainda não havia mencionado nada sobre as coisas que foram feitas em Cafarnaum.
Da qual ensinava às multidões, porque da autoridade da Igreja ensina aos gentios. E quanto ao que o Senhor, subindo ao barco, pede a ele que o afaste um pouco da terra, significa que se deve usar com moderação a palavra para as multidões, para que nem lhes sejam ensinadas coisas terrenas, nem das coisas terrenas se recue para o profundo dos sacramentos. Ou, primeiramente, deve-se pregar às regiões próximas dos gentios, para que quando depois diz "avança para o fundo", ordene que posteriormente se pregue às nações mais remotas.
São João, de fato, parece descrever um milagre semelhante; mas aquele é muito diferente, que ocorreu após a ressurreição do Senhor no mar de Tiberíades: ali não só o tempo é muito diferente, mas também a própria coisa é muito distinta. Pois lá as redes lançadas à direita apanharam cento e cinquenta e três peixes, certamente grandes; mas competiu ao Evangelista dizer que, ainda que fossem tão grandes, as redes não se romperam; referindo-se, sem dúvida, a este fato que São Lucas comemora, onde por causa da multidão de peixes as redes se rompiam.
O fato de que as redes se rompiam com a abundância de peixes, e as barcas foram enchidas, a ponto de quase submergir, significa que haverá na Igreja uma multidão tão grande de homens carnais, que a unidade será rompida, e ela será dividida por heresias e cismas.
Ele não nomeia André, que, entretanto, entende-se ter estado naquela barca, segundo as narrativas de São Mateus e São Marcos. E Jesus disse a Simão: "Não temas".
São Mateus e São Marcos referem-se a este assunto brevemente conforme aconteceu, o que São Lucas explicou aqui mais claramente. No entanto, parece haver esta diferença: que só a Pedro é recordado ter sido dito pelo Senhor "desde agora serás pescador de homens", o que eles narraram ter sido dito a ambos os irmãos. Mas certamente poderia ter sido dito primeiro a Pedro, quando ele se admirou com a enorme quantidade de peixes capturados, como São Lucas insinuou; e depois a ambos, como os outros dois recordaram. Ou devemos entender que primeiro ocorreu o que São Lucas comemora; e que eles não foram então chamados pelo Senhor, mas apenas foi predito a Pedro que ele seria pescador de homens: não que nunca mais fosse pescar peixes. Por isso, há margem para compreender que eles voltaram à pesca de peixes, para que depois acontecesse o que São Mateus e São Marcos narram: pois então não puxaram os barcos para a terra, como se estivessem preocupados em voltar, mas seguiram-no como se ele os chamasse ou ordenasse. Mas se, segundo São João, Pedro e André seguiram-no junto ao Jordão, como é que os outros Evangelistas dizem que Ele os encontrou pescando na Galileia e os chamou para o discipulado, a não ser que devamos entender que eles não viram o Senhor junto ao Jordão de modo a se unirem a ele inseparavelmente, mas apenas reconheceram quem ele era, e admirados com ele, voltaram para suas casas?
Ou de outro modo. Pedro, representando a Igreja cheia de homens carnais, diz: sai de mim, porque sou um homem pecador; como se a Igreja, repleta de multidões carnais, e quase submergida por seus costumes, de certo modo repelisse de si o reino das coisas espirituais, nas quais sobressai maximamente a pessoa de Cristo. Pois os homens não dizem isto com a voz da língua aos bons ministros de Deus, para que os afastem de si; mas com a voz dos costumes e das ações persuadem que se afastem deles, para não serem governados pelos bons, e tanto mais veementemente quanto lhes conferem honras; assim como Pedro significou sua reverência caindo aos pés do Senhor, mas seus costumes naquilo que disse: sai de mim.
O Senhor, porém, não se afastando deles, significa que nos homens bons e espirituais não deve haver esta vontade de que, perturbados pelos pecados das multidões, abandonem o ministério eclesiástico para viverem como que mais segura e tranquilamente. Quanto ao fato de que, trazendo os barcos para a terra, deixando tudo, seguiram-no, pode significar o fim do tempo, quando aqueles que se uniram a Cristo se afastarão completamente das tempestades deste mundo.
Parece que aqui ele aprova o sacrifício que foi ordenado por Moisés, embora a Igreja não o aceite. Pode-se entender que isso foi ordenado porque ainda não havia começado o sacrifício santíssimo dos santos, que é o Seu corpo. Pois não convinha que os sacrifícios figurativos fossem retirados antes que aquele que era significado fosse confirmado pelo testemunho da pregação dos apóstolos e pela fé dos povos crentes.
Porém, quando Ele diz ao homem, "são perdoados os teus pecados", isto vale para insinuar que os pecados eram perdoados ao homem que, pelo próprio fato de ser homem, não poderia dizer: "não pequei"; e, ao mesmo tempo, para que se entendesse que Aquele que perdoava ao homem era Deus.
Quanto ao paralítico, pode-se entender a alma privada dos seus membros, isto é, de suas operações, buscando a Cristo, ou seja, a vontade do Verbo de Deus; mas impedida pelas multidões, a saber, dos pensamentos, a não ser que abra o teto, isto é, o que está encoberto nas Escrituras, e por este meio chegue ao conhecimento de Cristo, isto é, desça com piedade de fé à sua humildade.
Aqueles, portanto, pelos quais ele é baixado, podem significar os bons doutores da Igreja; mas o fato de que ele é baixado com o leito, significa que Cristo deve ser conhecido pelo homem, ainda constituído nesta carne.
Para que a enfermidade da alma não mais descanse nos gozos carnais, como em um leito, mas antes contenha em si as afeições carnais, e se dirija para sua própria casa, isto é, para o repouso dos segredos de seu coração.
Depois do paralítico curado, continua falando da conversão do publicano, dizendo: e depois disto, saiu e viu um publicano de nome Levi, sentado no posto de cobrança. Este é São Mateus, também chamado Levi.
Parece que São Lucas relatou isto de maneira um tanto diferente dos outros Evangelistas: pois ele não diz que ao Senhor somente foi objetado que comia e bebia com publicanos e fariseus, mas aos discípulos; o que se entendia tanto dele quanto deles próprios. Por isso São Mateus e São Marcos narram que a objeção sobre Cristo foi dirigida aos discípulos: porque quando os discípulos comiam com publicanos e pecadores, isso era mais objetado ao mestre, a quem imitavam seguindo-o. É, portanto, uma única sentença, tanto melhor insinuada quanto expressa com palavras diferentes, permanecendo a verdade.
Por isso acrescenta para a penitência, o que serve para explicar a sentença, para que ninguém pense que os pecadores, pelo próprio fato de serem pecadores, são amados por Cristo; pois aquela semelhança com os doentes bem dá a entender o que Deus quer ao chamar os pecadores, como um médico aos doentes, para que sejam salvos da iniquidade como de uma enfermidade.
Evidentemente São Lucas narra que uns disseram isso acerca de outros; então por que São Mateus disse: "Então aproximaram-se dele os discípulos de São João dizendo: Por que jejuamos nós e os fariseus?" Senão porque eles também estavam presentes, e todos, competindo entre si, como cada um podia, levantaram esta objeção?
Existe um duplo jejum: um na tribulação para aplacar a Deus pelos pecados; outro na alegria, quando as coisas carnais deleitam tanto menos quanto maior é o peso das coisas espirituais. Interrogado, pois, o Senhor sobre por que seus discípulos não jejuavam, respondeu sobre ambos os jejuns: e primeiro sobre o jejum da tribulação; pois segue: aos quais ele mesmo disse: "Porventura podeis fazer os filhos do esposo jejuarem, enquanto o esposo está com eles?"
Pelo fato de que só São Lucas diz "não podeis fazer que os filhos do Esposo jejuem", entende-se que aqueles mesmos que falavam, fariam com que os filhos do Esposo lamentassem e jejuassem, quando eles mesmos estivessem para matar o Esposo.
Como se dissesse: Então ficarão desolados, e estarão em luto e tristeza, até que as alegrias consoladoras lhes sejam concedidas pelo Espírito Santo.
Ou de outro modo. Recebido o dom do Espírito Santo, também celebram muito convenientemente um tipo de jejum que se faz por alegria de já estarem renovados para a vida espiritual; antes de recebê-lo, diz que eles são como vestes velhas, às quais inadequadamente se costura um pano novo, isto é, alguma parte da doutrina que se refere à temperança da nova vida: porque se isto se fizer, a própria doutrina de certo modo se rasga, a qual ensina o jejum geral não apenas da concupiscência dos alimentos, mas de toda alegria das deleitações temporais: e diz que não convém impartir aos homens ainda dedicados ao velho costume aquela parte que pertence aos alimentos: porque aí parece haver uma divisão, e isto não convém à antiguidade. Diz também que eles são semelhantes a odres velhos; por isso segue "e ninguém coloca vinho novo em odres velhos".
Os apóstolos, porém, são comparados aos odres velhos, que mais facilmente são rompidos pelo vinho novo, como se fossem preceitos espirituais, do que o contêm; por isso segue: "De outra maneira o vinho novo rompe os odres, e o vinho se derrama e os odres se perdem". Serão, porém, odres novos, quando, após a ascensão, tendo recebido o desejo de sua consolação, serão renovados pela oração e esperança; por isso segue: "Mas o vinho novo deve ser posto em odres novos, e ambos se conservam".
Quando, porém, o Senhor havia curado o corpo, assim interrogou: salvar a alma ou perdê-la? Ou porque fazia aqueles milagres por causa da fé, onde está a salvação da alma; ou porque a própria cura da mão direita significava a salvação da alma, que cessando de fazer boas obras, parecia ter de certo modo a mão direita ressequida; ou colocou alma pelo homem, como se costuma dizer: tantas almas estiveram lá.
Mas pode-se questionar como São Mateus disse que eles interrogaram ao Senhor se era lícito curar no sábado, quando São Lucas neste lugar afirma que eles foram interrogados pelo Senhor. Portanto, deve-se entender que eles primeiro perguntaram ao Senhor se era lícito curar no sábado. Depois, compreendendo os pensamentos deles, que buscavam oportunidade para acusá-lo, colocou no meio aquele a quem ia curar, e interrogou o que São Marcos e São Lucas recordam que Ele perguntou. Segue-se "e olhando ao redor para todos".
No nome de Judas de Tiago, São Lucas parece discrepar de São Mateus, que o chama de Tadeu. Mas quem jamais proibiu que um homem fosse chamado por dois ou três nomes? Judas, o traidor, é escolhido não por imprudência, mas por providência: ele havia assumido a fragilidade humana, e por isso não recusou sequer essa parte da enfermidade humana. Quis ser entregue pelo seu apóstolo, para que tu, quando traído por teu companheiro, suportes com moderação o erro do teu juízo e a perda do teu benefício.
Ele não diz: a todo o que pedir; mas que dês aquilo que podes justa e honestamente, isto é, o que nem a ti, nem a outrem prejudica, quanto se pode saber ou crer humanamente; e àquele a quem justamente negares o que pede, deve ser explicada a justiça; e algumas vezes concederás algo melhor, quando corrigires aquele que pede o que não deve.
O que diz a respeito da veste, da casa, do terreno, do jumento e, geralmente, de toda riqueza. Mas o cristão não deve possuir um servo como possui um cavalo ou dinheiro. Se um servo for mais honrosamente governado por ti do que por aquele que deseja tomá-lo de ti, não sei se alguém ousaria dizer que ele deve ser desprezado.
Ele diz darão, porque pelos méritos daqueles a quem deram até mesmo um copo de água fria em nome de um discípulo, merecerão receber a recompensa celestial. Segue-se com a mesma medida com que medirdes, vos medirão a vós.
Ou o que diz "porventura pode um cego guiar a outro cego?", por isto acrescentou, para que não esperassem dos Levitas receber aquela medida da qual disse "darão em vosso seio", pois davam os dízimos àqueles a quem chamou de cegos, porque não possuíam o Evangelho; para que o povo começasse já a esperar aquela remuneração antes por meio dos discípulos do Senhor; querendo mostrá-los como seus imitadores, acrescenta "não está o discípulo acima do mestre".
São Lucas começou este longo sermão do Senhor da mesma forma que São Mateus: pois ambos disseram bem-aventurados os pobres; e depois, muitas coisas que se seguem na narrativa de ambos são semelhantes; e ao fim do sermão, a mesma conclusão é encontrada exatamente, a saber, sobre o homem que edifica sobre a pedra e sobre a areia. Poder-se-ia então facilmente acreditar que São Lucas inseriu o mesmo sermão do Senhor, omitindo algumas sentenças que São Mateus colocou, e igualmente colocando outras que São Mateus não disse; se não nos intrigasse o fato de que São Mateus diz que o sermão foi pronunciado pelo Senhor no monte, estando sentado, enquanto São Lucas diz que foi em um lugar campestre, estando o Senhor de pé. No entanto, não se crê provável que estes dois sermões estejam separados por um longo intervalo de tempo, pois tanto antes como depois ambos narraram algumas coisas semelhantes ou idênticas. Embora possa ocorrer que em alguma parte mais elevada do monte, primeiro o Senhor esteve somente com os discípulos, quando escolheu aqueles doze dentre eles; depois desceu com eles do monte, isto é, da própria altura do monte, para um lugar campestre, ou seja, para alguma planície que havia na encosta do monte, e que podia conter muitas multidões, e ali permaneceu de pé até que as multidões se reunissem ao seu redor; e depois, tendo se sentado, aproximaram-se mais os seus discípulos, e a eles e às demais multidões presentes, proferiu um único sermão.
Aqui é preciso entender que Ele não entrou antes de terminar estas palavras, mas não é mencionado quanto tempo de intervalo decorreu entre o término de Seu discurso e Sua entrada em Cafarnaum. Pois naquele intervalo, o leproso foi purificado, a quem São Mateus introduz em seu devido lugar.
Como, portanto, será verdadeiro o que São Mateus narra: "aproximou-se dele um certo centurião", quando ele mesmo não se aproximou? Observando cuidadosamente, entendamos que São Mateus não abandonou o modo habitual de falar: pois se comumente se diz que a própria chegada ocorre por meio de outros, quanto mais a aproximação pode ser feita por meio de outros? Portanto, não é absurdo que São Mateus, considerando a aproximação do centurião ao Senhor feita por meio de outros, tenha querido dizer resumidamente que ele mesmo se aproximou de Cristo, em vez daqueles por meio de quem enviou suas palavras: porque quanto mais ele creu, mais se aproximou.
Estas coisas, porém, se referem a São João e a Cristo. Porque o que diz "lamentamos, e não chorastes", pertence a São João, cuja abstinência de comidas e bebida significava o luto da penitência; por isso, explicando, acrescenta: "Porque veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho; e dizeis: Tem um demônio".
Quanto ao que dissera: "Cantamos com flautas, e não dançastes", refere-se ao próprio Senhor, que ao usar com os demais o alimento e a bebida, significava a alegria do reino; por isso segue: "Veio o Filho do homem comendo e bebendo; e dizeis: eis um homem devorador e bebedor de vinho".
Ou, quando diz que "a sabedoria é justificada por todos os seus filhos", mostra que os filhos da sabedoria entendem que a justiça não consiste nem em abster-se nem em comer alimentos, mas em suportar a privação com paciência. Pois não é o uso dessas coisas, mas a concupiscência delas que deve ser repreendida, contanto que a pessoa se adapte ao tipo de alimento daqueles com quem vive.
Eu creio que se deve entender que foi a mesma Maria que fez isto duas vezes; uma vez, certamente, como São Lucas narrou, quando aproximando-se primeiro com humildade e lágrimas, mereceu a remissão dos pecados. Por isso São João, quando começou a falar da ressurreição de Lázaro, antes de chegar a Betânia, diz: "Maria era aquela que havia ungido o Senhor com unguento e enxugado seus pés com seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava enfermo". Maria, portanto, já havia feito isto. Mas o que ela novamente fez em Betânia é outro acontecimento, que não pertence à narrativa de São Lucas, mas é igualmente narrado pelos outros três.
Ou pode ser interpretado de outra maneira, inteiramente. Com estas palavras, Ele ensina figuradamente a confiança na pregação, para que ninguém, por temor das inconveniências carnais, esconda a luz da ciência; pois com os nomes de vaso e de leito, designa a carne, e com o vocábulo da lâmpada, designa a palavra, a qual, por medo das inconveniências carnais, oculta aquele que coloca a própria carne acima da manifestação da verdade, e a cobre, por assim dizer, com a palavra aquele que treme ao pregar. Coloca, porém, a lâmpada sobre o candelabro aquele que submete seu corpo ao ministério de Deus, de modo que a pregação da verdade esteja em posição superior, e o serviço do corpo em posição inferior.
São Mateus certamente diz: "Senhor, salva-nos, perecemos"; Marcos, porém: "Mestre, não te importas que pereçamos?" Porém, é o mesmo o sentido dos que despertam o Senhor, querendo ser salvos. Nem é necessário perguntar qual destas expressões foi mais provavelmente dita a Cristo: seja que tenham dito alguma destas três coisas, seja outras palavras que nenhum dos Evangelistas mencionou, mas que tenham o mesmo valor, que importa isso para o caso? Ainda que também pudesse ter acontecido que, sendo muitos os que O despertavam, todas estas coisas fossem ditas, uma por um e outra por outro.
Isto, porém, foi dito pelos outros Evangelistas com outras palavras. Pois São Mateus diz que Ele disse: "Por que temeis, homens de pouca fé?" Já São Marcos diz: "Por que temeis? Ainda não tendes fé?", isto é, aquela fé perfeita como o grão de mostarda. Isto, portanto, é o que ele diz: "Homens de pouca fé"; São Lucas, porém, diz: "Onde está a vossa fé?" E tudo isto poderia ter sido dito: "Por que temeis? Onde está a vossa fé? Homens de pouca fé?" Por isso um Evangelista menciona uma coisa, e outro, outra.
Enquanto São Mateus diz que havia dois endemoninhados, mas Marcos e Lucas mencionam apenas um; deve-se entender que um deles era uma pessoa mais ilustre e famosa, por quem aquela região estava principalmente angustiada, e por cuja recuperação estavam grandemente interessados. Querendo significar isto, os dois Evangelistas julgaram correto mencionar apenas aquele sobre o qual a notícia deste milagre havia sido mais amplamente e claramente difundida.
O que São Marcos disse, que o rebanho de porcos estava próximo ao monte, e Lucas, que estava no monte, não se contradizem: pois o rebanho de porcos era tão grande que parte dele podia estar no monte e parte perto do monte; pois eram dois mil porcos, como São Marcos expressou.
Não habitava em casa; isto é, não descansava em sua consciência: permanecia nos sepulcros; isto é, deleitava-se nas obras mortas, ou seja, nos pecados.
O fato dele ser amarrado por grilhões e correntes de ferro significa as leis duras e severas dos gentios, pelas quais também em suas repúblicas os pecados são reprimidos. E que, tendo rompido tais vínculos, era levado pelo demônio ao deserto, significa que mesmo tendo transgredido estas leis, era conduzido pela cobiça a crimes que já excediam o costume comum. O fato de haver nele uma legião de demônios refere-se aos gentios, que serviam a muitos demônios. E o fato de ser concedido aos demônios ir para os porcos que pastavam nos montes significa também os homens imundos e soberbos, sobre os quais os demônios têm domínio por causa do culto aos ídolos.
O fato de terem sido precipitados no lago significa que a Igreja já está purificada e, libertado o povo gentio da dominação dos demônios, aqueles que não quiseram crer em Cristo, submergidos em uma cega e profunda curiosidade, realizam seus ritos sacrílegos em lugares ocultos.
Ou o fato de que os pastores de porcos, fugindo, anunciaram essas coisas, significa que alguns dos principais dos ímpios, ainda que rejeitando a lei cristã, continuam a proclamá-la com espanto e admiração. E o fato de que os gerasenos, conhecendo o que aconteceu, rogam a Jesus que se afaste deles, tomados de grande temor, significa a multidão que se deleita nos antigos prazeres, que de fato honra a lei cristã, mas não quer sofrê-la, quando dizem que não a podem cumprir; admirando, contudo, o povo fiel curado de seu antigo estado perdido.
Quanto ao homem curado que deseja estar com Cristo, e a quem é dito: "Volta para tua casa e conta quão grandes coisas Deus fez por ti", deve-se entender que, após a remissão dos pecados, cada um deve retornar à boa consciência como à sua casa, e servir ao Evangelho para a salvação dos outros, para que então possa descansar com Cristo; para que não aconteça que, querendo prematuramente estar com Cristo, negligencie o ministério da pregação adequado à redenção fraterna.
Depois de narrar o milagre entre os gerasenos, passa a narrar sobre a filha do chefe da sinagoga, dizendo: E aconteceu que, quando Jesus regressou, a multidão o recebeu: pois todos estavam esperando por ele.
Quanto ao que acrescenta: "E eis que veio um homem chamado Jairo", não se deve entender que isto aconteceu imediatamente, mas primeiramente aquele banquete dos publicanos, como narra São Mateus; ao qual une isto de tal modo que não se pode entender consecutivamente outro acontecimento.
Mas como São Mateus narra que o chefe da sinagoga anunciou ao Senhor que sua filha não estava prestes a morrer, mas completamente morta; enquanto Lucas e Marcos dizem que ela ainda não estava morta, a tal ponto que afirmam terem vindo depois os que anunciaram que estava morta; deve-se considerar se isso não parece contraditório. E deve-se entender que, por causa da brevidade, São Mateus preferiu dizer que o Senhor foi rogado a fazer o que é manifesto que Ele fez, isto é, ressuscitar a morta. Pois o Senhor não atentou às palavras do pai sobre sua filha, mas, o que é mais importante, à sua vontade. Certamente, se os outros dois ou qualquer um deles tivesse mencionado que o pai disse o que aqueles que vieram da casa disseram, que Jesus não devesse ser incomodado porque a menina estava morta, suas palavras que São Mateus relatou pareceriam estar em desacordo com seus pensamentos. Mas agora não se lê que o próprio pai tenha consentido com aqueles que trouxeram essa mensagem e disseram que o Mestre não precisava vir. Por isso o Senhor não o repreendeu como descrente, mas confirmou ainda mais fortemente a sua fé; por isso segue-se: "Mas Jesus, ouvindo isto, respondeu ao pai da menina: Não temas, crê somente, e ela será salva".
Ou o Senhor não quis que os discípulos possuíssem e carregassem estas coisas, não porque não fossem necessárias ao sustento desta vida, mas porque os enviava assim para mostrar que tais coisas lhes eram devidas por aqueles a quem anunciavam o Evangelho, aos que nele acreditavam; para que assim, seguros, não possuíssem nem levassem consigo as coisas necessárias para esta vida, nem grandes, nem pequenas. Por isso, estabeleceu segundo São Marcos: "senão uma vara", mostrando que tudo é devido pelos fiéis aos seus ministros que não buscam coisas supérfluas. Esta autoridade, porém, significou pelo nome de vara, quando disse que nada levassem pelo caminho, senão somente uma vara.
Lucas, porém, mantendo a mesma ordem de narração que Marcos, não obriga a crer que também a ordem dos acontecimentos tenha sido a mesma. Também nestas palavras ele concorda com Marcos, apenas no que diz respeito ao fato de que outros disseram, não Herodes, que João havia ressuscitado dos mortos. Mas como ele menciona que Herodes estava hesitante, deve-se entender que: ou após esta hesitação ele confirmou em seu ânimo aquilo que era dito por outros, quando disse aos seus servos, conforme narra São Mateus: "Este é João Batista, ele ressuscitou dos mortos"; ou estas palavras de São Mateus devem ser pronunciadas de tal modo que indiquem que ele ainda estava hesitante.
São Mateus e São Marcos, tomando ocasião do que ocorrera anteriormente, narram aqui como São João foi morto por Herodes; mas São Lucas, que muito antes já havia relatado os sofrimentos de São João, após mencionar aquela perplexidade de Herodes sobre quem seria o Senhor, imediatamente acrescenta: "E voltando os apóstolos, contaram-lhe tudo o que haviam feito".
Nestas palavras, certamente, São Lucas reuniu em uma única sentença a resposta de Filipe, que disse: "Duzentos denários de pão não são suficientes para eles, para que cada um receba um pouco", e a resposta de André, que disse: "Há aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes", como narra São João. Pois quando diz "não temos mais do que cinco pães e dois peixes", refere-se à resposta de André; mas o que acrescenta: "a não ser que vamos e compremos alimentos para toda esta multidão", parece pertencer à resposta de Filipe, embora tenha silenciado sobre os duzentos denários; contudo, isto também poderia ser entendido na própria afirmação de André; pois quando disse: "Há aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes", acrescentou: "mas o que é isto para tantos?". Isto é o mesmo que dizer "a não ser que vamos e compremos alimentos para toda esta multidão". A partir desta variedade de palavras, mas concordância de coisas e sentenças, fica bastante evidente que somos salutarmente ensinados a não buscar nas palavras senão a vontade dos que falam; para demonstrar isso devem estar vigilantes todos os narradores verídicos quando contam algo sobre o homem, ou sobre o anjo, ou sobre Deus.
O que São Lucas diz aqui, que mandou sentar-se em grupos de cinquenta, mas São Marcos, em grupos de cinquenta e cem, não constitui problema, porque um mencionou a parte, e o outro o todo. Porém, se um tivesse mencionado somente cinquenta, e o outro somente cem, pareceria haver grande contradição, e não seria suficientemente claro qual dos dois foi dito. Mas quem não admitirá que uma coisa foi mencionada por um Evangelista e outra pelo outro, e que, se considerado mais atentamente, deveria descobrir-se que assim é? Digo isto porque frequentemente existem algumas coisas deste tipo que, para aqueles que prestam pouca atenção e julgam temerariamente, parecem contraditórias, mas não o são.
Pode, no entanto, nos deixar perplexos o fato de que São Lucas disse que o Senhor, perguntando aos seus discípulos, quem os homens diziam que Ele era, disse isso quando estava sozinho orando, e eles também estavam com Ele; mas São Marcos diz que eles foram interrogados sobre isso pelo mesmo no caminho. Mas isso apenas pode inquietar aquele que nunca orou no caminho.
Quanto ao que Lucas disse aqui sobre Moisés e Elias: "E aconteceu que, enquanto eles se afastavam dele, Pedro disse a Jesus: Mestre, é bom estarmos aqui", não se deve considerar contraditório ao que São Mateus e São Marcos relataram, unindo a sugestão de Pedro como se Moisés e Elias ainda estivessem falando com o Senhor; pois eles não expressaram explicitamente que Pedro disse isso naquele momento, mas antes silenciaram sobre o que Lucas acrescentou, que foi ao se retirarem eles que Pedro fez esta sugestão ao Senhor.
Isso, pois, dizia o Senhor àquele a quem havia dito: "Segue-me". Mas outro discípulo se interpôs, a quem ninguém havia dito algo; por isso segue-se: "E outro disse: Senhor, eu te seguirei, mas primeiramente permite-me ir e despedir-me daqueles que estão em casa", para que não aconteça, como costuma ocorrer, que me procurem.
Como se lhe dissesse: O Oriente te chama, e tu te voltas para o Ocidente.
Como também em vinte e quatro horas todo o orbe percorre-se e ilumina-se, assim o mistério de iluminar o mundo pelo Evangelho da Trindade é insinuado nos setenta e dois discípulos. Pois três vezes vinte e quatro resulta em setenta e dois.
Mas se a palavra de Deus chegou também a vós, e vos constituiu no lugar dos Apóstolos, cuidai para que não nos desprezeis, para que não chegue até Ele o que tiverdes feito conosco.
Este homem é entendido como o próprio Adão, representando o gênero humano; Jerusalém, cidade da paz, aquela celestial, de cuja beatitude ele caiu; Jericó se interpreta como lua, e significa nossa mortalidade, porque nasce, cresce, envelhece e morre.
Ou por Jerusalém, que se interpreta visão da paz, entendemos o Paraíso, pois antes que o homem pecasse, estava na visão da paz, isto é, no Paraíso, onde tudo o que via era paz e alegria. De lá desceu (como que humilhado e tornado miserável pelo pecado) para Jericó, isto é, para o mundo, no qual todas as coisas que nascem morrem como a lua.
Caiu, pois, em poder dos ladrões, isto é, do Diabo e seus Anjos, que pela desobediência do primeiro homem despojaram o gênero humano, a saber, dos ornamentos dos bons costumes, e o feriram, a saber, perdido o dom da possibilidade do livre arbítrio; donde segue os quais o despojaram, e, depois de terem-lhe imposto feridas, partiram. Pois naquele que pecou, fez uma ferida, mas em nós, na verdade, muitas feridas, visto que por um só pecado que contraímos, acrescentamos muitos pecados.
Ou os ladrões despojaram o homem da imortalidade, e infligindo-lhe feridas, persuadindo-o ao pecado, deixaram-no semimorto: porque na parte em que pode entender e conhecer a Deus, o homem está vivo; mas na parte em que padece e é oprimido pelos pecados, está morto; e isto é o que se acrescenta: deixando-o semimorto.
Pois o semivivo tem seu movimento vital (isto é, o livre arbítrio) ferido, de modo que não era suficiente para retornar à vida eterna que havia perdido; e por isso jazia, porque suas próprias forças não eram suficientes para se levantar e buscar um médico, isto é, Deus, para curá-lo.
Ou pelo sacerdote e pelo levita se entendem dois tempos, a saber, o da Lei e o dos Profetas: no sacerdote, a lei, pela qual foram instituídos o sacerdócio e os sacrifícios; no levita, os vaticínios dos profetas: em cujos tempos o gênero humano não pôde ser curado, porque pela lei veio o conhecimento do pecado, não a sua abolição.
Ou porque se entende que o homem que descia de Jerusalém para Jericó era israelita; o que pode ser compreendido porque o sacerdote que passava, certamente próximo por origem, passou adiante daquele que jazia; passou também o Levita, e este, igualmente próximo por origem, também desprezou aquele que jazia.
Passou um samaritano, distante por origem, próximo pela misericórdia; fez o que se segue: "Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou junto dele", no qual samaritano quis nosso Senhor Jesus Cristo ser entendido. Pois samaritano se interpreta como guardião, e dele é dito: "Não dormitará nem adormecerá aquele que guarda Israel", porque ressuscitando dos mortos, já não morre. Por fim, quando lhe foi dito: "Porque és samaritano e tens um demônio", negou ter um demônio, pois sabia-se expulsor de demônios, não negou ser o guardião do enfermo.
Veio, porém, na semelhança de carne de pecado; portanto, perto dele, como que em semelhança.
Vendo-o certamente deitado, incapaz, sem movimento; e por isso moveu-se de misericórdia, porque nele não encontrou nenhum mérito, pelo qual fosse digno de ser curado; mas Ele mesmo condenou o pecado do pecado na carne; de onde segue: e aproximando-se atou suas feridas, derramando óleo e vinho.
O que há de tão distante, o que há de tão remoto quanto Deus dos homens, o imortal dos mortais, o justo dos pecadores, não distante pelo lugar, mas pela dessemelhança? Tendo Ele em si dois bens, a saber, a justiça e a imortalidade, e nós dois males, a saber, a iniquidade e a mortalidade; se Ele tivesse assumido ambos os nossos males, seria nosso igual, e necessitaria junto conosco de um libertador. Assim, para que não fosse o que nós somos, mas próximo a nós, Ele não se fez pecador como tu; mas se fez mortal como tu; assumindo a pena, e não assumindo a culpa, e assim eliminou tanto a culpa quanto a pena.
O enfaixamento das feridas é a contenção dos pecados; o óleo é o consolo da boa esperança, concedida pelo perdão para a reconciliação da paz; o vinho é a exortação para agir fervorosamente no Espírito.
O jumento d'Ele é a carne, através da qual dignou-se vir até nós; ser colocado sobre o jumento é crer na própria encarnação de Cristo.
Ou os dois denários são os dois preceitos de caridade, que os Apóstolos receberam do Espírito Santo para evangelizar aos demais; ou a promessa da vida presente e da futura.
O estalajadeiro foi o apóstolo, que gastou além do necessário; seja naquele conselho que diz: "quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou conselho", ou porque também trabalhou com suas próprias mãos, para não sobrecarregar algum dos enfermos com a novidade do Evangelho, ainda que lhe fosse lícito alimentar-se do Evangelho. Muito mais gastaram também os apóstolos; mas também os doutores de seu tempo, que expuseram o Antigo e o Novo Testamento, gastaram além do necessário, pelo que receberão retribuição.
Por isso entendemos que é nosso próximo aquele a quem devemos prestar o serviço de misericórdia, se ele necessita, ou a quem deveríamos prestar, se necessitasse. De onde se deduz que também aquele que, por sua vez, deve prestar-nos este serviço, é nosso próximo: pois o nome de próximo é uma relação recíproca; e ninguém pode ser próximo senão de outro próximo. Mas quem não vê que ninguém está excluído de receber o serviço de misericórdia? Como diz o Senhor: "Fazei bem aos que vos odeiam". Por isso, fica manifesto que neste preceito pelo qual somos ordenados a amar o próximo, também os santos Anjos estão incluídos, dos quais recebemos tantos serviços de misericórdia. Por isso, o próprio Senhor quis ser chamado nosso próximo, significando que foi Ele quem socorreu o homem meio morto caído à beira do caminho.
Mas o Senhor, que veio aos seus, e os seus não o receberam, foi recebido como hóspede; pois segue: E uma mulher de nome Marta o recebeu em sua casa; como costumam ser recebidos os peregrinos. Contudo, a serva recebeu seu Senhor, a enferma o Salvador, a criatura o Criador. No entanto, ninguém diga: "Oh, bem-aventurados os que mereceram receber Cristo em sua própria casa"; não te entristeças, pois Ele diz: "O que fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fizestes". Tendo assumido a forma de servo, nela quis ser alimentado pelos servos por dignação, não por condição. Tinha carne na qual sentia fome e sede; mas quando estava faminto no deserto, os Anjos o serviam. Portanto, ao querer ser alimentado, favoreceu a quem o alimentava. Marta, então, dispondo-se a alimentar o Senhor e preparando-se, ocupava-se com o serviço; Maria, porém, sua irmã, preferiu ser alimentada pelo Senhor; pois segue: E esta tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra.
Quanto mais humildemente se sentava aos pés, tanto mais recebia: pois a água flui para a humildade do vale, enquanto se afasta da elevação do monte.
Marta servia bem ao Senhor quanto à necessidade corporal ou vontade, como se fosse a um mortal; mas aquele que estava na carne mortal, no princípio era o Verbo; eis o que Maria ouvia; "o Verbo se fez carne", eis a quem Marta servia: esta trabalhava, aquela repousava; entretanto, Marta, trabalhando muito naquela ocupação e ofício de servir, interpelou o Senhor e queixou-se da irmã; pois segue-se e diz: "Senhor, não te importas que minha irmã me tenha deixado sozinha a servir?" Pois Maria estava atenta à doçura da palavra do Senhor; Marta preparava um banquete para o Senhor, em cujo banquete Maria já se deleitava. Enquanto, pois, ouvia suavemente a palavra dulcíssima, e se alimentava com o coração mais atento, sendo o Senhor interpelado por sua irmã, como pensamos que ela temeu que o Senhor lhe dissesse: levanta-te e ajuda tua irmã? Era retida por uma admirável suavidade, que certamente é maior para a mente do que para o ventre. Mas preferiu confiar sua causa ao juiz, como se estivesse ociosa, nem quis se cansar em responder: pois se preparasse um discurso para responder, diminuiria a atenção de ouvir. Respondeu, portanto, o Senhor, que na palavra não se cansava, porque era o Verbo; segue-se, pois, e respondendo disse-lhe o Senhor: "Marta, Marta, estás inquieta e te preocupas com muitas coisas". A repetição do nome é indício de afeição, ou talvez para despertar a atenção, para que ouça mais atentamente. Chamada duas vezes, ouve "te inquietas com muitas coisas"; isto é, estás ocupada com muitas coisas: pois o homem quer agradar quando serve, e às vezes não pode: busca-se o que falta, prepara-se o que há: distende-se o ânimo; pois se Marta fosse suficiente, não pediria a ajuda da irmã: muitas são as coisas, diversas são, porque são carnais, são temporais. Prefere-se, porém, o uno ao múltiplo; pois não vem o uno do múltiplo, mas o múltiplo do uno; donde segue "contudo, uma só coisa é necessária". Quis ocupar-se com o uno, segundo aquilo: "é bom para mim aderir a Deus". Um só são o Pai e o Filho e o Espírito Santo: a este uno não nos conduz, a não ser que muitos tenhamos um só coração.
O que então? Julgamos que foi repreendido o serviço de Marta, que estava ocupada com os cuidados da hospitalidade, e que se alegrava por ter um hóspede tão grandioso? Se isso for verdade, abandonem os homens o ministério aos necessitados; dediquem-se à palavra, ocupem-se com a ciência da salvação; não se importem se algum peregrino está no povoado, ou se alguém necessita de pão; deixem de lado as obras de misericórdia, dediquem-se unicamente à ciência.
Não é, pois, que o Senhor reprove a obra, mas distingue o serviço; pois segue: Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada. Não é que tu escolheste a má parte, mas ela escolheu a melhor. E por que melhor? Porque não lhe será tirada. De ti algum dia será tirado o fardo da necessidade: pois quando chegares àquela pátria, não encontrarás peregrino a quem receber com hospitalidade. Mas para o teu bem será tirado, para que se dê o que é melhor: será tirado de ti o trabalho, para que te seja dado o descanso. Tu navegas, ela está no porto: pois eterna é a doçura da verdade; nesta vida, porém, ela aumenta, naquela será aperfeiçoada, nunca será tirada.
Em sentido místico, Marta que recebeu o Senhor em sua casa, significa a Igreja, que agora recebe o Senhor em seu coração. Maria, sua irmã, que estava sentada aos pés do Senhor e ouvia sua palavra, significa a mesma Igreja, mas no século futuro, onde, cessando do trabalho e do ministério das necessidades, somente goza da sabedoria. E quando ela se queixa de que sua irmã não a ajuda, dá-se ocasião para a sentença do Senhor, pela qual mostra que esta Igreja está solícita e turbada por muitas coisas, quando uma só é necessária, à qual se chega pelos méritos deste ministério. Mas diz que Maria escolheu a melhor parte, porque por esta se tende àquela, e não lhe será tirada.
Quanta graça encerra esta primeira palavra? Não te atrevias a levantar teu rosto ao céu, e de repente recebeste a graça de Cristo. De mau servo foste feito bom filho; portanto, não presumas de tuas obras, mas da graça de Cristo. Não há, pois, aqui arrogância, mas fé: proclamar o que recebeste não é soberba, mas devoção. Portanto, levanta os olhos ao pai; que te gerou pelo batismo, que te redimiu por seu Filho: dizes pai como filho; mas não reclames para ti nada de especial: somente de Cristo é pai especial, para nós é pai de todos em comum: porque somente a Ele gerou, a nós, porém, criou. E por isso, segundo São Mateus, se diz: pai nosso, e se acrescenta: que estás nos céus; naqueles céus sobre os quais foi dito: os céus narram a glória de Deus. O céu é onde o pecado cessou, onde não há ferida de morte.
Ou é dito: "Santificado seja o teu nome", em nós, para que a sua santificação possa chegar a nós.
Porque então vem o reino de Deus, quando temos alcançado a Sua graça: pois Ele mesmo diz: "O reino de Deus está dentro de vós"(São Lucas 17,21).
Segundo o evangelista São Mateus, a oração dominical parece conter sete petições; mas o evangelista São Lucas na oração dominical compreendeu não sete, mas cinco petições, e certamente não discrepou daquele. Porém, como estas sete devem ser entendidas, ele próprio brevemente o demonstrou. Pois o nome de Deus é santificado no espírito; já o reino de Deus está para acontecer na ressurreição. Assim, mostrando que a terceira petição é de certa forma uma repetição das duas superiores, São Lucas preferiu omiti-la para fazê-la melhor compreendida. Em seguida, acrescentou três outras; e primeiro sobre o pão quotidiano, dizendo: "O nosso pão de cada dia nos dai hoje".
No grego diz-se epiousión, isto é, supersubstancial. Este não é o pão que entra no corpo, mas aquele pão da vida eterna que sustenta a substância de nossa alma. O latino, porém, chama a este pão cotidiano, que os gregos chamam de vindouro. Se este é um pão cotidiano, por que o tomarias após um ano, como os gregos costumam fazer no oriente? Recebe diariamente o que diariamente te é proveitoso; vive de tal modo que diariamente mereças recebê-lo. A morte do Senhor é significada, e a remissão dos pecados. Quem tem uma ferida busca o remédio; a ferida é que estamos sob o pecado; o remédio é o celestial e venerável sacramento. Se recebes diariamente, diariamente é hoje para ti; Cristo ressuscita para ti diariamente: hoje é, portanto, quando Cristo ressuscita.
Mas o que é dívida senão o pecado? Se não tivesses recebido o dinheiro de usura alheia, não serias devedor; e, portanto, o pecado te é imputado. Pois tu tinhas dinheiro, com o qual nasceste rico, feito à imagem e semelhança de Deus; mas perdeste o que tinhas; assim como quando desejas reivindicar a arrogância, perdeste o dinheiro da humildade; recebeste do Diabo uma dívida que não era necessária: o inimigo detinha tua garantia; mas o Senhor a crucificou, e com seu sangue a apagou. O Senhor, porém, que removeu o pecado e perdoou nossas dívidas, é poderoso para nos guardar contra as insídias do Diabo, que costuma gerar culpa; por isso segue e não nos induzas à tentação, a qual não podemos suportar. Mas como um atleta, deseja tal tentação que a condição humana possa suportar.
Mas o que Mateus colocou no final: "Mas livra-nos do mal", este não colocou, para que entendamos que pertence àquilo anterior, que foi dito sobre a tentação. Por isso ele diz: "Mas livra-nos", não diz: "E livra-nos"; como demonstrando uma única petição: não queiras isto, mas isto. Mas saiba cada um que é libertado do mal quando não é conduzido à tentação.
Pois cada um pede para ser liberto do mal, isto é, do inimigo e do pecado; mas aquele que se confia a Deus não teme o Diabo. Se Deus está por nós, quem será contra nós?(Romanos 8,31)
O que são estes três pães senão o alimento do mistério celestial? Pode acontecer que alguém tenha suportado um amigo que pergunta algo ao qual não possa responder; e então descobre que não tem quando foi obrigado a dar. Vem, portanto, a ti um amigo do caminho deste século, no qual todos passam como peregrinos, e ninguém permanece como possuidor; mas a todo homem é dito: passa, dá lugar ao que vem, ou talvez do mau caminho, isto é, da má vida, cansado, algum amigo teu que não encontra a verdade, que ouvida e percebida, o tornaria feliz. Vem a ti como a um cristão, e diz: dá-me razão; e pergunta o que talvez tu, pela simplicidade da fé, não sabias; e não tens com que saciar o faminto e és compelido a buscar nos livros do Senhor: pois talvez o que ele perguntou esteja no livro, mas seja obscuro; não te é permitido interrogar o próprio Paulo, ou Pedro, ou algum profeta: pois já descansa essa família com seu Senhor; e a ignorância deste século é profunda, isto é, é meia-noite, e o amigo faminto insiste, para quem a fé simples não é suficiente. Porventura deve ser abandonado? Portanto, vai ao próprio Senhor, com quem a família descansa, bate orando; sobre o qual se acrescenta e ele de dentro respondendo diz: não me sejas molesto. Quem adia dar, quer que desejes mais o que é adiado, para que não se torne vil o que é dado rapidamente.
Significa-se, portanto, o tempo de fome da palavra quando o entendimento está fechado, e aqueles que, distribuindo a sabedoria apostólica como pão, pregaram por todo o mundo, já estão no secreto repouso com o Senhor; e isto é o que se acrescenta: "e meus filhos estão comigo no leito".
Ou de outro modo. O amigo a quem se vem pela meia-noite, para que empreste três pães, é certamente colocado como uma comparação, segundo a qual alguém roga a Deus, quando se encontra no meio da tribulação, para que lhe conceda a inteligência da Trindade, com a qual possa consolar os trabalhos da vida presente. Pois a mesma angústia é a meia-noite, na qual se vê obrigado a insistir veementemente. Nos três pães também se significa que a Trindade é de uma só substância. O amigo que vem do caminho se entende como o apetite do homem, que deve servir à razão; mas ele servia ao costume temporal, o qual chama de caminho por causa de todas as coisas que passam. Convertendo-se o homem a Deus, também aquele apetite é chamado de volta do costume. Mas se não for consolado interiormente pelo gozo da doutrina espiritual, pela qual se prega a Trindade do criador, há grandes angústias no homem a quem oprime a miséria mortal, quando lhe é ordenada a abstinência das coisas que deleitam exteriormente, e interiormente não há alimento da alegria da doutrina espiritual; e, no entanto, orando, acontece que o que deseja recebe a inteligência do Senhor, ainda que falte o homem pelo qual a sabedoria seja pregada; pois segue-se: "e se ele perseverar batendo, digo-vos: mesmo que não se levante para dar-lhe por ser seu amigo, ao menos por causa da sua importunação se levantará, e lhe dará todos os que necessitar". A comparação é do menor para o maior: pois se um homem amigo se levanta do leito e dá, não compelido pela amizade, mas pelo tédio, quanto mais Deus dá, que sem tédio concede larguissimamente o que é pedido?
Quando, porém, chegares aos três pães, isto é, ao alimento e à inteligência da Trindade, terás com que viver e com que alimentar. Não temas, não cesses: pois aquele pão não se acabará, mas acabará com a tua indigência; aprende e ensina, vive e alimenta.
Após apresentar a parábola, o Senhor acrescentou uma exortação e nos estimulou completamente a buscar, pedir e bater, até que recebamos o que pedimos; por isso diz: E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á.
Mas Ele não nos exortaria tanto a pedir se não quisesse dar. Envergonhe-se a preguiça humana; Ele está mais disposto a dar do que nós a receber.
Ou, de preferência, entende-se por pão a caridade, por ser mais desejada e tão necessária que, sem ela, todo o resto nada é, assim como sem pão a mesa é pobre: à qual é contrária a dureza do coração, que comparou à pedra. Pelo peixe entende-se a fé nas coisas invisíveis, seja por causa das águas do Batismo, seja porque é capturado de lugares invisíveis. Porque também a fé, ainda que agitada pelas ondas deste mundo, não se quebra, é corretamente comparada ao peixe; ao qual contrapôs a serpente por causa do veneno da falsidade, que também semeou de antemão, persuadindo ao mal o primeiro homem. No ovo entende-se a esperança; pois o ovo ainda não é um feto perfeito, mas, ao ser aquecido, espera-se que o seja; a este contrapôs o escorpião, cujo aguilhão venenoso na parte traseira deve ser temido, assim como o contrário da esperança é olhar para trás, quando a esperança das coisas futuras se estende para aquelas que estão adiante.
Quantas coisas o mundo te fala, quanto ruído faz atrás de ti para que olhes para trás! Ó mundo imundo, por que fazes ruído, por que tentas desviar-nos? Queres reter-nos perecendo; o que farias se permanecesses? A quem não enganarias sendo doce, se amargo ofereces alimentos mentirosos?
Portanto, ó avarento, o que buscas? Ou se buscas outra coisa, o que poderá bastar-te, a quem Deus não é suficiente?
O que São Lucas chama dedo de Deus, onde São Mateus disse espírito, não se afasta do mesmo sentido; mas antes ensina algo, para que saibamos como entender onde quer que nas Escrituras leiamos sobre o dedo de Deus.
O Espírito Santo é chamado dedo de Deus, por causa da distribuição dos dons, que são dados por Ele a cada um em particular, sejam homens ou Anjos; pois em nenhum de nossos membros a divisão é mais evidente do que nos dedos.
Diga-me: não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que pela fé acreditou, pela fé concebeu, que foi escolhida para que dela nascesse a nossa salvação entre os homens, e que foi criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado? Certamente fez a vontade do Pai a santa Maria. E por isso é mais valioso para Maria ter sido discípula de Cristo do que mãe de Cristo. De nada lhe aproveitaria a proximidade materna, se ela não tivesse levado Cristo no coração de modo mais feliz do que no ventre.
Santo Agostinho, Sermão 72A (Denis 25), 7 (PL 46, 937). Cf. Da Santa Virgindade, 3.
São Lucas narra isto no mesmo lugar que São Mateus, mas em uma ordem um tanto diferente. Mas quem não percebe que é supérfluo questionar em que ordem o Senhor disse estas coisas, quando devemos aprender, pela excelentíssima autoridade dos Evangelistas, que não há mentira se alguém não dispuser o discurso de outro na mesma ordem em que procedeu daquele de quem se originou, uma vez que a própria ordem em nada importa para o fato, seja deste ou daquele modo?
Para narrar isto, São Lucas desviou-se de São Mateus naquele lugar onde ambos mencionaram o que foi dito pelo Senhor sobre o sinal de Jonas, sobre a rainha do Sul, sobre os ninivitas e sobre o espírito imundo. Depois deste discurso, diz São Mateus: "Ainda falava ele à multidão, eis que sua mãe e seus irmãos estavam fora, procurando falar-lhe". São Lucas, porém, naquele discurso do Senhor, tendo mencionado também algumas coisas que São Mateus omitiu que o Senhor disse, desvia-se da ordem que até então havia mantido com São Mateus.
Pois todos os dias, antes de comerem, os fariseus se lavavam com água; como se a lavagem diária pudesse ser uma purificação do coração. Em seu íntimo, porém, o fariseu pensou, sem emitir som com a voz: mas Aquele que discerne o interior o ouviu; donde segue: e o Senhor lhe disse: Agora vós, fariseus, limpais o exterior do cálice e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e iniquidade.
Mas como não poupou o homem por quem fora convidado? Antes, poupou-o repreendendo-o para que, uma vez corrigido, o poupasse no juízo. Depois, mostra-nos que também o Batismo, que se administra uma só vez, purifica pela fé; a fé, porém, está no interior, não no exterior. Os fariseus desprezavam a fé e lavavam o que estava por fora, permanecendo interiormente cheios de imundície; isto o Senhor reprova, dizendo: Insensatos, porventura aquele que fez o que está por fora não fez também o que está por dentro?
O Misericordioso aconselha que se pratique a misericórdia; e porque busca salvar aqueles que redimiu por tão grande preço, ensina que aqueles que foram manchados depois da graça do batismo podem novamente ser purificados.
Mas se não podem ser purificados senão os que creem naquele que pela fé purifica o coração, o que significa quando diz "dai esmola, e eis que todas as coisas são limpas para vós"? Consideremos: talvez ele mesmo explique. Pois eles retiravam a décima parte de todos os seus frutos e davam esmolas, o que dificilmente algum cristão faz. Zombaram, portanto, dele quando lhes dizia isso, como se fossem homens que não dessem esmolas. Deus, sabendo disso, acrescenta: "mas ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças, e omitis o juízo e a caridade de Deus". Isto, portanto, não é dar esmola; pois dar esmola é praticar a misericórdia. Se compreendes, começa por ti mesmo: pois como podes ser misericordioso com outro, se és cruel contigo mesmo? Ouve a Escritura que diz: "tem misericórdia de tua alma, agradando a Deus". Volta-te para tua consciência, quem quer que vivas mal ou com infidelidade; e ali encontrarás tua alma mendigando, ou talvez emudecida pela miséria. Faz esmola à tua alma com juízo e caridade. O que é juízo? Desagrada-te a ti mesmo. O que é caridade? Ama a Deus, ama ao próximo. Se omites esta esmola, por mais que ames, nada fazes quando não a fazes contigo mesmo.
Mas também a chave da ciência é a humildade de Cristo, a qual nem eles mesmos queriam compreender, nem permitiam que fosse compreendida pelos outros.
Mas São Mateus narra que todas estas coisas foram ditas depois que o Senhor havia vindo a Jerusalém. Lucas, porém, narra aqui quando o Senhor ainda estava a caminho de Jerusalém. Por isso, para mim, parecem ser discursos semelhantes, dos quais aquele [Mateus] narrou um, e este [Lucas] narrou outro.
Ou de outro modo. Se aqui fosse dito: "quem blasfemar qualquer blasfêmia contra o Espírito Santo", deveríamos entender toda blasfêmia; mas como foi dito "quem blasfemar contra o Espírito Santo", deve-se entender aquele que não blasfema de qualquer modo, mas daquele modo tal que nunca possa ser perdoado: assim como foi dito: "Deus a ninguém tenta", isto é, não de todo modo, mas de certo modo de tentação. Vejamos, pois, qual é este modo de blasfemar contra o Espírito Santo. O primeiro benefício dos crentes está na remissão dos pecados pelo Espírito Santo: contra este dom gratuito fala o coração impenitente; portanto, a própria impenitência é a blasfêmia contra o Espírito, a qual não é perdoada nem neste século, nem no futuro: porque a penitência obtém a remissão neste século, a qual tem valor no futuro.
Mas ao falar sobre o aumento da estatura do corpo, Ele afirma que isto é o mínimo, isto é, para Deus, criar os corpos.
Proibida a solicitude com os alimentos, consequentemente advertiu para que não se ensoberbeçam, dizendo: "Não vos deixeis elevar às alturas". Primeiramente, o homem busca tais coisas para satisfazer suas necessidades; mas quando as tem em abundância, começa a ensoberbecer-se por elas. Isto é como se alguém ferido se jactasse porque tem muitos emplastros em casa, quando seria melhor para ele que não tivesse feridas, e não necessitasse sequer de um emplastro.
Ou ele ensina também a cingir os lombos para manter-nos afastados do amor das coisas seculares, e a ter as lâmpadas acesas, para que isso mesmo seja feito com verdadeiro fim e reta intenção.
Diz medida, devido ao modo de capacidade de cada um dos ouvintes.
Ou, em outro sentido, a figueira é o gênero humano. Pois o primeiro homem, depois que pecou, cobriu com folhas de figueira a sua nudez, isto é, os membros de onde nascemos.
Ou, o colono que intercede é todo santo que dentro da Igreja ora por aqueles que estão fora da Igreja, dizendo: Senhor, deixa-a por mais este ano, isto é, por este tempo concedido sob a graça, até que eu cave ao redor dela. Cavar ao redor é ensinar a humildade e a paciência, pois a terra que foi cavada é humilde. O esterco significa, entendido no bom sentido, as sujeiras, mas elas produzem fruto. A sujeira do cultivador é a dor do pecador. Aqueles que fazem penitência, fazem-na em meio às sujeiras e a fazem verdadeiramente.
Isto é, será bem, mas se não, depois a cortarás; a saber, quando vieres no juízo julgar os vivos e os mortos. Enquanto isso, por ora, ela é poupada.
O que, portanto, significa o triênio na árvore, isso os dezoito anos representam naquela mulher, pois três vezes seis fazem dezoito. Ela estava, porém, curvada, não podia olhar para cima, porque em vão ouvia as palavras elevai vossos corações.
Ou, os três satos de farinha são o gênero humano, que foi restaurado a partir dos três filhos de Noé. A mulher que escondeu o fermento é a sabedoria de Deus.
Ou de outro modo. Confirmou o Senhor o que ouviu, isto é, que são poucos os que se salvam, porque são poucos os que entram pela porta estreita. Em outro lugar, Ele mesmo diz o mesmo: "estreito é o caminho que conduz à vida, e poucos são os que entram por ele"; por isso acrescenta: "porque muitos, digo-vos, procurarão entrar".
O Senhor não é contrário a si mesmo quando diz que poucos são os que entram pela porta estreita, e em outro lugar diz: muitos virão do oriente e do ocidente. Poucos são em comparação com os perdidos, mas muitos quando reunidos à sociedade dos Anjos. Dificilmente se veem os grãos quando a eira é trilhada; mas tão grande quantidade sairá desta eira, que encherá o celeiro do céu.
Ou, em sentido místico, entende-se que estas palavras foram ditas por Ele para referir-se ao seu corpo, que é a Igreja. Pois os demônios são expulsos quando, abandonando suas superstições, os gentios creem nEle; e as curas são realizadas quando, segundo seus preceitos, depois de renunciar ao diabo e a este mundo, até o fim da ressurreição (pela qual, como se fosse no terceiro dia, se consumará), a Igreja será aperfeiçoada com a plenitude angélica, também pela imortalidade do corpo.
Diz, pois: Eu quis, e tu não quiseste; como se dissesse: Todos quantos agreguei pela minha vontade sempre eficaz, fiz isso apesar da tua recusa, porque sempre foste ingrata.
A esta narrativa de São Lucas não parece contradizer o que as multidões disseram, quando o Senhor veio a Jerusalém: "Bendito o que vem em nome do Senhor", porque ele ainda não havia chegado lá, e isto ainda não havia sido dito.
Mas como Lucas não diz para onde de lá então se dirigiu o Senhor, para que não viesse senão naquele tempo em que já aquilo fosse dito (pois persevera em sua jornada até que chegue a Jerusalém); isto significa aquela sua vinda na qual há de vir em glória.
Deve-se, portanto, entender que São Lucas quis antecipar, antes que sua narrativa conduzisse o Senhor a Jerusalém, ou que, já aproximando-se da mesma cidade, respondeu a tais admoestações para que se precavesse de Herodes, semelhantes àquelas que São Mateus diz ter falado quando já havia chegado a Jerusalém.
Apropriadamente, Ele comparou o hidrópico a um animal que caiu num poço, pois sofria de excesso de líquido; assim como comparou aquela mulher que Ele disse estar amarrada, e a qual Ele mesmo libertou, a um jumento que é desamarrado para ser conduzido à água.
Ou comparamos corretamente o hidrópico ao rico avarento: pois assim como aquele, quanto mais abunda em humores desordenados, tanto mais sede tem; assim também este, quanto mais abundante em riquezas, das quais não faz bom uso, tanto mais ardentemente as cobiça.
Ou porque este suspirava pelo que estava distante, e o pão que ele desejava estava diante dele. Pois quem é o pão do reino de Deus, senão aquele que diz: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu"? Não prepareis a boca, mas o coração.
Ou então, este homem é o mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus. Enviou para que viessem os convidados, isto é, os chamados por meio dos profetas enviados. Estes outrora convidavam para a ceia de Cristo, foram enviados muitas vezes ao povo de Israel, muitas vezes chamaram para que viessem à hora da ceia; eles receberam os que convidavam, mas recusaram a ceia; leram os profetas e mataram a Cristo; e então, sem o saber, prepararam a ceia para nós. Estando já preparada a ceia, isto é, imolado Cristo, foram enviados os apóstolos àqueles a quem antes haviam sido enviados os profetas.
Houve três desculpas, das quais se acrescenta: o primeiro disse-lhe: comprei uma propriedade rural e tenho necessidade de sair e vê-la. Rogo-te, tem-me por desculpado. Na propriedade rural comprada nota-se o domínio: por isso, a soberba é castigada como o primeiro vício: pois o primeiro homem quis dominar, ele que não quis ter um senhor.
Os cinco jugos de bois são considerados os cinco sentidos da carne. Nos olhos está a visão, nos ouvidos a audição, nas narinas o olfato, na garganta o paladar, e em todos os membros o tato. Mas como são jugos, nos três primeiros sentidos isso aparece mais facilmente: dois são os olhos, dois os ouvidos, duas as narinas: eis três jugos; e na garganta, isto é, no sentido do paladar, encontra-se certa duplicidade, porque nada se saboreia ao provar se não for tocado tanto pela língua quanto pelo palato. O prazer da carne, que pertence ao tato, secretamente se duplica: é tanto externo quanto interno. São chamados jugos de bois porque por meio destes sentidos da carne buscam-se as coisas terrenas; pois os bois revolvem a terra; os homens, porém, afastados da fé, dedicados às coisas terrenas, não querem crer em nada senão naquilo que alcançam por meio dos cinco sentidos do corpo. "Não creio", diz, "senão no que vejo". Se pensássemos em tais coisas, seríamos impedidos da ceia por aqueles cinco jugos de bois. Mas para que saibais que não se referia ao deleite desses cinco sentidos que encanta e gera prazer, mas que certa curiosidade foi notada, não disse ter comprado cinco jugos de bois para alimentá-los, mas para experimentá-los.
Este é o prazer da carne, que impede a muitos: oxalá fosse exterior, e não interior. Pois aquele que disse 'tomei esposa', abraça a carne, regozija-se nos prazeres da carne, escusa-se da ceia: que tome cuidado para não morrer de fome interior.
São João, porém, dizendo: todo o que está no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e ambição do século, começou onde o Evangelho terminou. Concupiscência da carne: tomei uma esposa; concupiscência dos olhos: comprei cinco juntas de bois; ambição do século: comprei uma propriedade. Tomando a parte pelo todo, os cinco sentidos foram mencionados apenas pelos olhos, que têm a primazia entre os cinco sentidos. Por isso, embora a visão pertença propriamente aos olhos, costumamos denominar o ato de ver para todos os cinco sentidos.
Deus não necessita de mensageiros para ter conhecimento das coisas inferiores, como se por meio deles se tornasse mais conhecedor; mas Ele conhece todas as coisas de modo estável e imutável. Ele tem mensageiros por nossa causa e pela causa deles mesmos; pois, no modo em que obedecem a Deus e assistem diante dele, para consultá-lo sobre as coisas inferiores e cumprir seus mandamentos superiores, isso é bom para eles na ordem de sua própria natureza.
Vieram os gentios das praças e das ruas, vêm os hereges dos cercados: pois aqueles que constroem cercados, buscam divisões. Sejam afastados dos cercados, sejam arrancados dos espinhos. Mas não querem ser coagidos: por nossa própria vontade, dizem, entraremos. Não é isto que o Senhor ordenou: obriga, disse, a entrar. Que se encontre fora a necessidade, daí nasce a vontade.
Ou os dez mil que irão lutar com o rei que tem vinte mil significam a simplicidade do homem cristão, que haverá de batalhar contra a duplicidade do Diabo.
Assim como desencorajou da torre não concluída através do opróbrio dos que dizem "este homem começou a edificar e não pôde terminar", assim também, quanto ao rei contra quem se deve combater, acusou a própria paz ao acrescentar: "Do contrário, estando o outro ainda longe, envia embaixada e roga condições de paz"; significando também que as ameaças das tentações iminentes do Diabo não são suportadas por aqueles que não renunciam a tudo o que possuem, e fazem paz com ele, consentindo em cometer pecados.
Como, porém, pertencem estas comparações, pela própria conclusão bastante esclareceu, dizendo: assim, portanto, qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo. E assim, os recursos para edificar a torre e a força de dez mil contra o rei que tem vinte mil, nada mais é do que renunciar cada um a tudo o que é seu. A introdução anterior concorda com a exposição final: pois naquilo em que alguém renuncia a tudo o que é seu, também está contido que odeie seu pai e sua mãe, e sua mulher, e seus filhos, e seus irmãos, e suas irmãs, e ainda sua própria vida. Todas estas coisas são próprias de alguém, as quais frequentemente envolvem e impedem de obter não estas coisas próprias temporalmente transitórias, mas os bens comuns que permanecerão eternamente.
Ou então, aquelas noventa e nove que Ele deixou no deserto, significa os soberbos, que carregam, como se fosse, a solidão em seu ânimo, enquanto desejam ser vistos como os únicos; aos quais falta a unidade para a perfeição: pois quando alguém se separa da verdadeira unidade, separa-se por soberba, desejando ser senhor de seu próprio poder, não segue o uno, que é Deus. A todos os reconciliados pela penitência, que se obtém pela humildade, Ele ordena à unidade.
Ou nas nove dracmas, assim como nas noventa e nove ovelhas, coloca a representação daqueles que, presumindo de si mesmos, preferem-se aos pecadores que retornam à salvação: pois falta um a nove para que sejam dez, e a noventa e nove para que sejam cem; e a este um atribui todos aqueles que são reconciliados pela penitência.
Este homem tendo dois filhos deve ser entendido como Deus tendo dois povos, como duas linhagens do gênero humano: uma daqueles que permaneceram no culto de um único Deus, outra daqueles que abandonaram Deus a ponto de adorar ídolos. Assim, desde o princípio da criação dos mortais, o filho mais velho está associado ao culto do único Deus, mas o mais novo pede que lhe seja dada pelo pai a parte da substância que lhe cabe; por isso segue: e o mais jovem deles disse ao pai: Pai, dá-me a porção da substância que me pertence; como uma alma que se deleita em seu próprio poder, pede aquilo que lhe é viver, entender, recordar, ou destacar-se em talento ágil, todos estes são dons divinos. E recebeu estes em seu próprio poder por meio do livre arbítrio; donde segue: e dividiu entre eles a sua substância.
Quem quer que deseje ser semelhante a Deus, de modo a conservar sua força n'Ele, não se afaste d'Ele, mas antes a Ele se una, para que preserve a semelhança e imagem segundo a qual foi feito. Porém, se de maneira perversa quiser imitar a Deus, para que, assim como Deus não tem quem o governe, ele também queira usar de seu próprio poder, vivendo sem reconhecer autoridade alguma, o que lhe resta senão, afastando-se do calor divino, tornar-se frio e insensível, e, apartando-se da verdade, desvanecer-se?
O que disse ter acontecido não muitos dias depois, a saber, que reunindo tudo partiu para uma região distante, que é o esquecimento de Deus; isto é, porque não muito tempo depois da instituição do gênero humano, aprouve à alma, por seu livre arbítrio, levar consigo como que certa potência de sua natureza, e abandonar aquele por quem foi criada, confiando em suas próprias forças; forças estas que consome tanto mais rapidamente quanto mais cedo abandonou aquele por quem foram dadas; de onde se segue e ali dissipou sua substância vivendo luxuriosamente. Chama de vida luxuriosa ou pródiga àquela que ama derramar e dispersar-se em pompas exteriores, enquanto interiormente se esvazia, quando alguém segue aquelas coisas que se encaminham para o exterior, e abandona aquele que lhe é interior; de onde se segue e depois que consumiu tudo, sobreveio uma grande fome naquela região. A fome é a indigência da palavra da verdade. Segue-se e ele começou a necessitar.
Um dos cidadãos daquela região é um certo príncipe do ar pertencente à milícia do Diabo, cujo campo significa o modo de seu poder; sobre o qual segue, e o enviou a seu campo para apascentar porcos. Os porcos são os espíritos imundos que estavam sob ele.
As algarrobas, com as quais alimentava os porcos, são as doutrinas seculares, estéreis, que ressoam de vaidade, das quais ecoam os louvores dos ídolos e das fábulas que dizem respeito aos deuses dos gentios, em vários discursos e canções; com as quais os Demônios se deleitam: por isso, quando ele desejava saciar-se, queria encontrar em tais coisas algo sólido e reto, que pertencesse à vida bem-aventurada, e não podia; donde se segue "e ninguém lhe dava".
Ele voltou a si mesmo quando, afastando-se daquelas coisas exteriores que em vão seduzem e iludem, dirigiu sua atenção para o interior de sua consciência.
Mas como poderia saber isto aquele em quem havia tão grande esquecimento de Deus, como existiu em todos os idólatras, senão porque esta reflexão é própria de quem volta a si, quando o Evangelho é pregado? Já podia tal alma perceber que muitos pregam a verdade; entre os quais alguns são levados não pelo amor da própria verdade, mas pela cobiça de obter vantagens seculares; os quais, contudo, não anunciam algo diferente, como os hereges: pelo que são corretamente chamados de mercenários. Pois estão na mesma casa e tratam do mesmo pão da palavra, mas não são chamados à herança eterna, e sim contratados por uma recompensa temporal.
Porque jazia; e irei, porque estava longe afastado; ao meu pai, porque estava sob o príncipe dos porcos. As demais palavras são de quem medita o arrependimento na confissão do pecado, mas ainda não o põe em prática: pois não fala ainda ao pai, mas promete que irá falar quando vier. Entenda-se, portanto, que este vir ao pai deve agora ser tomado como estar estabelecido na Igreja pela fé, onde já pode haver uma confissão legítima e frutuosa dos pecados. Diz, pois, que falará a seu pai: pai
Mas acaso este pecado contra o céu é o mesmo que o pecado diante de ti, de modo que ele designou pelo nome de céu a suprema majestade do pai; ou mais propriamente: pequei contra o céu diante das almas santas, e diante de ti no próprio santuário da minha consciência?
Pois antes que entendesse a Deus, estando longe, embora já o buscasse piedosamente, seu pai o viu. Pois com razão se diz que Deus não vê os ímpios e soberbos, como não os tendo diante de seus olhos; pois costuma-se dizer que estão diante dos olhos apenas aqueles que são amados.
Ou correndo caiu sobre o seu pescoço: pois o Pai não abandonou seu Filho Unigênito, no qual correu até nossa longínqua peregrinação: porque Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo. Cair sobre o seu pescoço é humilhar em seu abraço o seu braço, que é o Senhor Jesus Cristo. Consolar, porém, com a palavra da graça de Deus para a esperança do perdão dos pecados, isto é, depois de longas jornadas, ao regressar, merecer do pai o ósculo da caridade. Começa então, já estabelecido na Igreja, a confessar os pecados, e não diz tudo o que prometera que diria; segue-se: e o filho lhe disse: pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Isto, pois, quer que seja feito pela graça, o que confessa ser indigno por seus méritos. Não acrescenta o que dissera naquela meditação: faz-me como um dos teus mercenários; pois quando não tinha pão, desejava ser ao menos mercenário; o que, após o ósculo do pai, já mui nobremente desdenhava.
Ou a primeira estola é a dignidade que Adão perdeu; e os servos que a trazem são os pregadores da reconciliação.
Ou o anel na mão é um penhor do Espírito Santo, por causa da participação da graça, que é bem significada pelo dedo.
Mas os calçados nos pés são a preparação para a evangelização, a fim de não tocar as coisas terrenas; sobre os quais se segue: "e calçado em seus pés".
Ou o vitelo cevado é o próprio Senhor, segundo a carne saciado de opróbrios. Mas quando ordena que o tragam, que outra coisa é senão que o preguem, e anunciando-o façam vir nas entranhas exaustas pela fome do filho faminto? Porque também ordena que o matem: isto é, que insinuem sua morte; pois então é morto para cada um quando crê que foi morto. Segue-se: "e comamos".
Estes banquetes e esta festividade são agora celebrados, estando a Igreja dilatada e difundida por todo o mundo: pois aquele novilho, no corpo e sangue do Senhor, é tanto oferecido ao Pai quanto alimenta toda a casa.
O filho maior é o povo de Israel, não tendo de fato partido para uma região longínqua, mas contudo não está na casa; está no campo, isto é, na própria opulência hereditária da lei e dos profetas, trabalhando mais em coisas terrenas. Voltando do campo, começou a aproximar-se da casa; isto é, reprovada a labuta de obras servis, considerou a liberdade da Igreja a partir das mesmas Escrituras; de onde segue "e quando veio e aproximou-se da casa, ouviu a sinfonia e o coro"; isto é, aqueles cheios do Espírito Santo que pregavam o Evangelho com vozes harmoniosas; segue-se "e chamou um dos servos e perguntou o que era aquilo": isto é, toma para ler algum dos profetas, e nele buscando, de certo modo interroga por que aquelas festas são celebradas na Igreja, na qual não se vê presente. Responde-lhe o servo do pai, o profeta; pois segue-se "e ele lhe disse: teu irmão voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque o recebeu são e salvo"; como se dissesse: teu irmão estava nos confins da terra; daí a maior exultação dos que cantam ao Senhor um cântico novo, porque seu louvor vem dos confins da terra, e por aquele que estava ausente, foi morto o homem que sabia suportar a fraqueza: porque aqueles a quem não foi anunciado sobre ele o viram.
Ele se indigna também agora e ainda não quer entrar. Quando, pois, a plenitude dos gentios tiver entrado, sairá em tempo oportuno o seu pai, para que também todo o Israel seja salvo; donde segue: O pai, portanto, saindo, começou a rogar-lhe. Pois haverá um tempo em que se manifestará abertamente o chamado dos judeus para a salvação do Evangelho; a esta manifestação do chamado, como a uma saída do pai, ele se refere ao rogar ao filho mais velho. Depois, o que respondeu o filho mais velho contém duas questões; segue, com efeito: Mas ele, respondendo, disse ao seu pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca descumpri teu mandamento. Sobre o mandamento não transgredido, facilmente ocorre aquilo: que não foi dito de todo mandamento, mas de um maximamente necessário, pois que não foi visto adorar nenhum outro Deus além do único criador de todas as coisas. E este filho é entendido como tendo a pessoa, não de todos os israelitas, mas daqueles que nunca se converteram do Deus único aos simulacros. Ainda que, com efeito, desejasse coisas terrenas, este, no entanto, desejava os bens de um só Deus, ainda que comuns com os animais; por isso se diz no Salmo 72, 23: Tornei-me como um jumento diante de ti, e eu sempre contigo. Mas o que é o cabrito que nunca recebeu para o banquete? Segue, com efeito: E nunca me deste um cabrito para que eu banqueteasse com meus amigos. O pecador pode ser significado pelo nome de cabrito.
Mas não encontro saída para esta sentença. Pois é muito absurdo que aquele a quem depois é dito tu estás sempre comigo, tenha pedido isto ao pai, que acreditasse no Anticristo. E de maneira alguma é lícito entender que este filho seja algum dos judeus que haverão de crer no Anticristo. E como se banquetearia com aquele bode, se ele próprio é o Anticristo, em quem não acreditaria? Mas se banquetear-se da morte do bode é o mesmo que alegrar-se com a perdição do Anticristo, como diz o filho a quem o pai recebeu que isto não lhe tinha sido concedido, quando todos os filhos se alegrarão com a sua perdição? Portanto, ele se queixa que o próprio Senhor lhe foi negado para banquetear-se, porque o considera um pecador: pois enquanto ele é um bode para aquela gente, isto é, enquanto o consideram violador e profanador do sábado, não mereceu deleitar-se nos banquetes d'Ele.
As meretrizes são as superstições dos gentios, com as quais dissipa sua substância aquele que, tendo abandonado a verdadeira união com o verdadeiro Deus, fornica com o Demônio em torpe concupiscência.
Porém o pai não o repreendeu como se estivesse mentindo, mas aprovando sua perseverança junto a ele, convida-o à perfeição de uma alegria melhor e mais agradável; donde se segue "Mas ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo".
Mas o que significa o que ele acrescentou: "e tudo o que é meu é teu", como se não fossem também do irmão? Mas assim os filhos perfeitos e imortais possuem todas as coisas, de modo que pertencem tanto a todos em conjunto quanto a cada um em particular. Pois assim como a cobiça nada possui sem angústia, a caridade nada possui com angústia. Mas como assim "todas as coisas"? Não devemos pensar que Deus submeteu também os Anjos à posse de tal filho? Se entendermos a posse de modo que o possuidor seja o dono da coisa, certamente não são todas as coisas, pois não seremos senhores, mas antes consortes dos Anjos. Mas se a posse é entendida assim, como quando dizemos corretamente que as almas possuem a verdade, não encontro razão pela qual não possamos aceitar isso de modo verdadeiro e próprio, pois não dizemos que as almas sejam senhoras da verdade. Ou se o termo possessão nos impede de tomar esse sentido, que se elimine também aquilo, pois o pai não diz: "tu possuis tudo", mas "tudo o que é meu é teu", e não como se tu fosses o senhor disso. Porque aquilo que está em nosso patrimônio pode ser alimento para nossa família, ou ornamento, ou algo semelhante. E certamente, quando ele pode corretamente chamar o próprio pai de seu, não vejo como não poderia também chamar corretamente de suas as coisas que pertencem ao pai, ainda que de modos diferentes. Pois quando obtivermos aquela bem-aventurança, serão nossas as coisas superiores para contemplá-las, nossas as coisas iguais para conviver com elas, e nossas as coisas inferiores para dominá-las. Alegre-se, portanto, com toda segurança o irmão mais velho.
Ou ainda, que de cem cados de azeite fez escrever cinquenta pelo devedor, e de cem coros de trigo, oitenta, creio que isso significa que aquelas coisas que cada judeu realiza para os Sacerdotes e Levitas deveriam ser mais praticadas na Igreja de Cristo, que, enquanto aqueles davam um décimo, os cristãos deveriam dar metade, como Zaqueu fez de seus bens; ou, pelo menos, dando dois décimos, isto é, um quinto, excedam as contribuições dos judeus.
O administrador que o senhor expulsava de sua administração, o senhor o louvou, porque ele havia providenciado para seu futuro; por isso diz: e o senhor louvou o administrador infiel, porque havia agido prudentemente. Contudo, não devemos tomar tudo como exemplo a ser imitado; pois não devemos fazer qualquer fraude contra nosso Senhor, para com essa mesma fraude fazer esmolas.
Ao contrário, estas parábolas são chamadas de contraditórias para que compreendamos que, se aquele que cometia fraude pôde ser louvado por seu senhor, quanto mais agradam a Deus aqueles que realizam tais obras segundo o Seu preceito.
O que os hebreus chamam de mammona, em latim se chama riquezas; como se dissesse: "Fazei amigos para vós das riquezas da iniquidade". Mas alguns, mal entendendo isso, roubam coisas alheias e, a partir disso, dão algo aos pobres, e pensam que fazem o que é ordenado. Este entendimento deve ser corrigido. Dai esmolas dos vossos justos trabalhos: pois não ireis corromper a Cristo, vosso Juiz. Se do que roubaste do pobre desses algo ao juiz para que julgasse a teu favor, mesmo que o juiz julgue a teu favor, é tanta a força da justiça que isso também te desagradaria. Não queiras pintar para ti um Deus assim; Ele é a fonte da justiça. Não queiras, portanto, fazer esmolas de empréstimos e usuras: falo aos fiéis, aos quais distribuímos o corpo de Cristo. Mas se tendes tais riquezas, é do mal que as tendes. Não queirais mais fazer o mal. Zaqueu disse: "Dou a metade dos meus bens aos pobres". Eis como corre aquele que corre para fazer amigos do mammona da iniquidade; e para não ser considerado culpado em nada, diz: "Se tomei algo de alguém, restituirei o quádruplo". Há também outro entendimento. Mammona da iniquidade são todas as riquezas do mundo, venham de onde vierem. Pois se procuras as verdadeiras riquezas, outras são aquelas nas quais Jó, mesmo nu, abundava, quando tinha o coração repleto para Deus. Estas, porém, são chamadas riquezas da iniquidade porque não são verdadeiras: estão cheias de pobreza e sempre sujeitas a revezes. Pois se fossem verdadeiras riquezas, te dariam segurança.
Ou as riquezas da iniquidade são assim chamadas, porque não são riquezas senão para os iníquos, e para aqueles que nelas colocam a esperança e a plenitude de sua felicidade. Mas quando estas coisas são possuídas pelos justos, eles têm de fato tanto dinheiro, mas nenhumas riquezas são suas senão as celestiais e espirituais.
Pois quem são aqueles que terão moradas eternas senão os santos de Deus? E quem são aqueles que serão recebidos por eles nas moradas eternas, senão os que servem às suas necessidades e lhes fornecem alegremente o que lhes é necessário? Estes são os pequeninos de Cristo, que deixaram tudo o que possuíam e O seguiram; e tudo o que tinham distribuíram aos pobres, para que pudessem servir a Deus livres dos grilhões terrenos, e, libertos dos fardos do mundo, como que alçassem seus ombros com asas.
Não se deve, pois, entender que aqueles por quem desejamos ser recebidos nos tabernáculos eternos são, por assim dizer, devedores de Deus, visto que neste lugar são significados os justos e santos, que introduzirão aqueles que lhes comunicaram bens terrenos para suas necessidades.
Mas estas coisas não foram ditas casualmente ou como que por acaso; pois ninguém, quando perguntado se ama o Diabo, responde que o ama, mas sim que o odeia; enquanto quase todos proclamam que amam a Deus. Portanto, ou odiará a um, a saber, o Diabo, e amará ao outro, a saber, Deus; ou se apegará a um, a saber, ao Diabo, quando busca, por assim dizer, as recompensas temporais dele, e desprezará ao outro, a saber, Deus; assim como costumam fazer aqueles que, por causa de suas paixões, negligenciam as ameaças divinas, lisonjeando-se a si mesmos com a ideia de que a bondade de Deus lhes concederá impunidade.
Eles também fazem violência ao reino dos céus, na medida em que não apenas desprezam estas coisas temporais, mas também as línguas daqueles que zombam deles por desprezarem tais coisas: pois isto o Evangelista acrescenta, quando disse que Jesus foi escarnecido quando falava sobre o desprezo às riquezas terrenas.
Porque a insaciável avareza dos ricos nem teme a Deus, nem respeita o homem; não poupa o pai, não mantém fidelidade ao amigo, oprime a viúva, invade a propriedade do pupilo.
Mas, quanto ao fato de considerares o seio de Abraão como algo corpóreo, temo que em assunto tão importante pareças estar agindo de maneira jocosa, não com seriedade. Nem poderias estar tão enganado a ponto de julgares que o seio corpóreo de um único homem possa conter tantas almas; ou melhor, para falar segundo teus termos, tantos corpos quantos os Anjos para lá levam, como levaram a Lázaro: a menos que acredites, talvez, que somente aquela única alma mereceu chegar ao mesmo seio. Se não queres errar de maneira pueril, entende o seio de Abraão como um lugar remoto de descanso e secreto, onde está Abraão; e por isso é chamado de Abraão, não porque pertença somente a ele, mas porque ele é pai de muitas nações, e foi colocado como modelo para que se imite o primado de sua fé.
A sepultura do Inferno é a profundidade das penas, que devora os soberbos e os sem misericórdia após esta vida.
Ou, quando ele quer refrigerar sua língua, enquanto todo ele está ardendo na chama, significa o que está escrito: "A morte e a vida estão nas mãos da língua", e porque pela boca se faz a confissão para a salvação, o que por soberbia ele não fez. E a extremidade do dedo significa a mínima operação, pela qual se presta auxílio através do Espírito Santo.
Dizes, porém: aqui descrevem-se os membros da alma; e queres que pelo olho se entenda toda a cabeça, porque se diz que ergueu os seus olhos, pela língua as fauces, pelo dedo a mão. Mas qual é a razão para que esses nomes de membros, quando se referem a Deus, não te façam pensar em um corpo, mas quando se referem à alma, o façam? Porventura, quando se dizem da criatura, devem ser tomados literalmente; mas quando do Criador, tropológica e metaforicamente? Então, terias que nos atribuir asas corporais, porque não o Criador, mas a criatura, isto é, o homem, diz: "se eu tomar as minhas asas ao amanhecer". Além disso, se aquele rico tinha uma língua corpórea porque disse "refrigera a minha língua", também em nós, que ainda vivemos na carne, a própria língua corpórea tem mãos, já que está escrito: "a morte e a vida estão nas mãos da língua".
Todas estas coisas, portanto, lhe são ditas, porque amou a felicidade do século, e não amou outra vida além daquela na qual se inflava de soberba. E diz que Lázaro recebeu males, porque entendeu que a mortalidade desta vida, os trabalhos, as dores e as misérias são pena do pecado, pois todos morremos em Adão, que se tornou mortal pela transgressão.
Mostra-se, pois, pela imutabilidade da sentença divina, que nenhum auxílio de misericórdia pode ser prestado aos pecadores pelos justos, ainda que queiram prestá-lo; por isso adverte que, nesta vida, os homens socorram àqueles que puderem, para que, depois, mesmo que sejam otimamente recebidos, não lhes seja possível ajudar àqueles a quem amam. Porque aquilo que está escrito neste capítulo: "para que eles vos recebam nos tabernáculos eternos", não foi escrito a respeito dos soberbos e dos que não têm misericórdia, mas daqueles que fizeram amigos para si por meio das obras de misericórdia, os quais os justos não recebem como por um poder próprio, como se estivessem recompensando-os, mas por permissão divina.
Ele pede que Lázaro seja enviado, porque se sente indigno de dar testemunho da verdade; e como não obteve nem mesmo um pouco de refrigério, muito menos acredita que possa ser libertado dos Infernos para a pregação da verdade.
Mas alguém poderia dizer: se os mortos não têm nenhum cuidado para com os vivos, como o rico pediu a Abraão que enviasse Lázaro aos seus cinco irmãos? Mas porventura, porque o rico disse isso, sabia então o que seus irmãos faziam ou o que padeciam naquele tempo? Assim, ele tinha cuidado com os vivos, embora ignorasse completamente o que faziam, do mesmo modo que nós temos cuidado com os mortos, embora ignoremos completamente o que fazem. Mas novamente surge a questão: como Abraão sabia da existência de Moisés e dos profetas, isto é, de seus livros? E de onde também soube que aquele rico tinha vivido em delícias, e Lázaro, por sua vez, em dores? Na verdade, não quando estas coisas aconteciam entre os vivos, mas depois que morreram, pôde saber por indicação de Lázaro, para não ser falso o que diz o profeta: "Abraão não nos conheceu". Os mortos também podem ouvir algo dos Anjos, que estão presentes às coisas que aqui se passam; podem também conhecer, por revelação do Espírito de Deus, algumas coisas que é necessário que saibam, não só passadas, mas também futuras.
Em sentido alegórico, estas coisas podem ser entendidas do seguinte modo: pelo rico se compreendem os soberbos judeus, ignorantes da justiça de Deus e querendo estabelecer a sua própria. A púrpura e o linho fino representam a dignidade do reino: "e vos será tirado o reino de Deus". O banquete esplêndido é a jactância da lei, na qual se gloriavam, abusando dela mais para a pompa da ostentação do que utilizando-a para a necessidade da salvação. O mendigo chamado Lázaro, que se interpreta como "ajudado", significa o indigente, como algum gentio ou publicano, que é tanto mais ajudado quanto menos presume da abundância de seus próprios recursos.
Os cães, porém, que lambiam as úlceras do pobre, são os homens mais perversos, que amam os pecados, os quais, com língua larga, não cessam de louvar as obras más que outro, gemendo e confessando, detesta em si mesmo.
Os cinco irmãos que ele diz ter na casa de seu pai, significam os judeus que foram chamados cinco, porque estavam retidos sob a lei, que foi dada por Moisés, que escreveu cinco livros.
Também pode ser entendida aquela narrativa de outro modo, de maneira que entendamos Lázaro como significando o Senhor, deitado à porta daquele rico, porque Ele se abateu aos ouvidos soberbíssimos dos judeus na humildade da encarnação, desejando saciar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, isto é, buscando deles ao menos as mínimas obras de justiça, que da sua mesa, ou seja, do seu poder, não usurpassem por soberba: obras que, embora mínimas e sem a disciplina da perseverança de uma vida boa, ao menos às vezes ou por acaso fariam, como as migalhas costumam cair da mesa. As úlceras são os sofrimentos do Senhor; os cães que as lambiam são os gentios, a quem os judeus chamavam de imundos; e, no entanto, eles lambem as paixões do Senhor nos sacramentos do corpo e sangue d'Ele, por todo o mundo, com suavidade devotíssima. O seio de Abraão é entendido como o segredo do Pai, para onde após a paixão, ao ressurgir, foi elevado o Senhor, para onde penso que se diz que foi levado pelos Anjos, porque os próprios Anjos anunciaram aos discípulos aquela recepção pela qual Ele acedeu ao segredo do Pai. O restante pode ser entendido segundo a exposição anterior, porque bem se entende como o segredo do Pai onde, mesmo antes da ressurreição, as almas dos justos vivem com Deus.
Pode-se entender que pediam para si o aumento daquela fé pela qual se crê nas coisas que não se veem; mas também se diz que há fé nas coisas, quando não pelas palavras, mas pelas próprias coisas presentes se crê no que há de vir, quando já se oferecerá à contemplação dos santos, por uma manifestação visível, a própria Sabedoria de Deus, pela qual todas as coisas foram feitas.
Ou ainda de outro modo. Portanto, esta fé da mais excelente verdade não sendo compreendida por muitos, pode parecer que o Senhor não respondeu aos seus discípulos sobre aquilo que haviam pedido. No entanto, me parece difícil crer nisso, a não ser que entendamos que Ele quis significar a passagem da fé para a fé, isto é, desta fé pela qual se serve a Deus, para aquela onde se frui de Deus. Pois a fé será aumentada quando primeiro se crê nas palavras pregadas, e depois nas coisas que aparecem; mas aquela contemplação possui o sumo repouso, que é concedido no reino eterno de Deus. Esse sumo repouso é o prêmio dos justos trabalhos, que são realizados na administração da Igreja; e, portanto, ainda que o servo esteja arando no campo ou apascentando, isto é, na vida secular ou ocupado com negócios terrenos, ou servindo a homens ignorantes como se fossem animais, é necessário que depois daqueles trabalhos volte para casa, ou seja, una-se à Igreja.
Enquanto seus servos estão ministrando, isto é, evangelizando o Evangelho, o Senhor come e bebe a confissão e a fé dos gentios. Segue-se: "E depois comerás e beberás".
Misticamente, por leprosos podem-se entender aqueles que, não possuindo conhecimento da verdadeira fé, professam várias doutrinas de erro: pois não escondem sua ignorância, mas a apresentam como elevada sabedoria, e ostentam jactância em seus discursos. De fato, a lepra é um defeito na cor do corpo; assim, quando verdades e falsidades se misturam desordenadamente em uma discussão ou narrativa do homem, aparecendo como na cor de um único corpo, representam a lepra que varia e mancha os corpos humanos como com tinturas de cores verdadeiras e falsas. Estes devem ser afastados da Igreja de tal modo que, se possível, colocados à maior distância, clamem a Cristo em alta voz. O fato de que O invocam como mestre, creio indicar claramente que a lepra é verdadeiramente a falsa doutrina, que o bom mestre pode limpar. De todos aqueles a quem o Senhor concedeu benefícios corporais, não encontramos nenhum que tenha sido enviado aos sacerdotes, exceto os leprosos. Pois o sacerdócio dos judeus era figura do sacerdócio que existe na Igreja. Os demais vícios o Senhor mesmo cura e corrige interiormente na consciência; mas o poder de ensinar, seja pela administração dos sacramentos, seja pela catequese através da palavra, foi confiado à Igreja. "E aconteceu que, enquanto iam, foram purificados": pois os gentios, a quem Pedro foi enviado, mesmo antes de receberem o sacramento do Batismo, pelo qual se chega espiritualmente aos sacerdotes, foram declarados limpos pela infusão do Espírito Santo. Portanto, qualquer um que na sociedade da Igreja alcança a doutrina íntegra e verdadeira, sendo manifestado que está livre da variedade de mentiras como da lepra, e ainda assim, ingrato a Deus seu purificador, não se prostra em piedosa humildade para dar graças, este é semelhante àqueles dos quais diz o Apóstolo que, "tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças". Por isso, tais pessoas permanecerão no número nove, como imperfeitos: pois os nove necessitam de um para que, por uma forma de unidade, sejam consolidados e se tornem dez. Mas aquele que deu graças foi aprovado como figura da única Igreja. E porque aqueles eram judeus, foi declarado que perderam por soberba o reino dos céus, onde a unidade é maximamente preservada. Este, porém, que era Samaritano, que se interpreta como "guardião", atribuindo àquele de quem recebeu o que recebeu, segundo aquilo: "A ti guardarei a minha força", conservou a unidade do reino com humilde devoção.
Aquele que está no telhado é quem, superando as coisas carnais, vive espiritualmente como em um ar livre; pois os utensílios na casa são os sentidos carnais, os quais muitos, usando para investigar a verdade que só é apreendida pelo intelecto, erraram completamente. Portanto, que o homem espiritual tome cuidado para que, no dia da tribulação, não se deleite novamente com a vida carnal, que é alimentada pelos sentidos do corpo, e desça para pegar os vasos deste mundo. Segue-se "e aquele que está no campo, igualmente não volte atrás"; isto é, aquele que trabalha na Igreja, como São Paulo plantando e como Apolo regando, não olhe para a esperança secular à qual renunciou.
A mulher de Lot significa, portanto, aqueles que na tribulação olham para trás e se afastam da esperança da promessa divina: e por isso foi transformada em estátua de sal a fim de advertir os homens para que não façam isso, como que temperando o coração deles, para que não sejam insensatos.
Ou Ele diz, naquela noite, isto é, naquela tribulação.
Ou aqui parecem estar significados três gêneros de homens. Um daqueles que escolhem o ócio e o descanso, não ocupados nem com negócios seculares nem eclesiásticos; cujo repouso é significado pelo nome de leito. O outro daqueles que, estabelecidos entre o povo, são regidos pelos doutores, ocupando-se com as coisas deste século; os quais designou com o nome de mulheres, porque convém a estes serem regidos pelos conselhos dos prelados; e disse molentes (que moem), porque fazem girar o ciclo e o curso dos negócios temporais; no entanto, disse moendo juntos, na medida em que, destas coisas e dos seus negócios, prestam serviços aos usos da Igreja. O terceiro gênero é daqueles que trabalham no ministério da Igreja, como no campo de Deus. Nestes três gêneros, portanto, há novamente dois tipos de homens em cada um: dos quais alguns permanecem na Igreja, que são assumidos; outros caem, que são deixados.
Estas coisas, porém, que São Lucas aqui coloca, ou as recorda antecipando, para comemorar primeiro o que depois foi dito pelo Senhor, ou faz entender que foram ditas duas vezes pelo Senhor.
O Senhor propõe suas parábolas ou segundo a semelhança, como no caso do credor que, havendo perdoado a dois devedores o que deviam, foi mais amado por aquele a quem mais perdoou; ou prova algo a partir da própria semelhança, como aquilo: se Deus veste assim o feno do campo, que hoje existe e amanhã é lançado no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Aqui, portanto, o juiz iníquo é apresentado não por semelhança, mas por dessemelhança, sobre o qual se acrescenta: "Havia um juiz em certa cidade, que não temia a Deus e não respeitava os homens".
Esta viúva pode ter semelhança com a Igreja, que parece desolada até que venha o Senhor, o qual agora em segredo cuida dela. Mas como segue: e vinha a ele dizendo: vinga-me do meu adversário. E não queria por muito tempo, aqui adverte por que os eleitos de Deus suplicam para serem vingados, o que também se diz no Apocalipse de São João sobre os mártires, quando somos muito claramente advertidos a orar por nossos inimigos e perseguidores. Deve-se entender, porém, que a vingança dos justos é que todos os maus pereçam. E perecem de dois modos: ou pela conversão à justiça, ou pelo suplício, tendo perdido o poder. Assim, se todos os homens se convertessem a Deus, o Diabo, contudo, permaneceria para ser condenado no fim do século; e como os justos desejam ver este fim, não é absurdo dizer que desejam vingança.
Logo, junto ao injustíssimo juiz, até o efeito de cumprir o desejo valeu a perseverança da suplicante; por isso segue-se: "Depois disse consigo mesmo: Ainda que não temo a Deus nem respeito os homens, contudo, porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, para que não venha continuamente a molestar-me". Portanto, muito mais seguros devem estar aqueles que rogam perseverantemente a Deus, fonte de justiça e misericórdia; por isso segue-se: "Disse então o Senhor: Ouvi o que diz o juiz iníquo. E Deus não fará vingança de seus eleitos, que clamam a Ele dia e noite, e terá paciência com eles?"
O Senhor fala isto da fé que é perfeita: pois esta dificilmente se encontra na terra. Eis que a Igreja de Deus está cheia: quem viria aqui, se não houvesse fé alguma? quem não moveria montanhas, se a fé fosse plena?
O Senhor acrescenta isto para mostrar que, se a fé falha, a oração perece. Portanto, para que oremos, creiamos, e para que a própria fé não falhe, oremos. A fé produz a oração, e a oração derramada obtém a firmeza da fé.
Como a fé não é própria dos soberbos, mas dos humildes, acrescentou às coisas já ditas a parábola sobre a humildade e contra a soberbia; por isso diz: Disse também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos como justos e desprezavam os outros.
Não é repreendido porque dava graças a Deus, mas porque não desejava que nada lhe fosse acrescentado. Portanto, já estás pleno, já abundas; não há por que dizer: perdoa-nos as nossas dívidas. Quem é, pois, aquele que impunemente combate a graça, se é repreendido quem soberbo dá graças? Ouçam os que dizem: Deus me fez homem; eu me faço justo. Ó pior e mais detestável que o fariseu, que soberbamente se dizia justo, mas todavia dava graças a Deus por isso!
Ele poderia ao menos ter dito: "como muitos homens". Pois o que quer dizer com "os demais homens", senão todos exceto ele mesmo? "Eu", diz ele, "sou justo, os demais são pecadores".
Eis que pela proximidade do publicano ele tinha maior ocasião para orgulho; pois segue-se "ou até mesmo como este publicano"; como se dissesse: Eu estou sozinho, este é um dos demais.
Procura em suas palavras: nada encontrarás que ele tenha rogado a Deus. Ele subiu para orar, mas não quis rogar a Deus, e sim louvar a si mesmo e insultar aquele que rogava. Quanto ao publicano, a consciência de seu coração o afastava, mas a piedade o aproximava; por isso segue: e o publicano, estando longe, não queria nem levantar os olhos ao céu.
Por que te admirais se Deus perdoa, quando ele mesmo reconhece? De longe estava; contudo, aproximava-se de Deus, e o Senhor lhe atendia de perto: pois excelso é o Senhor, e olha para as coisas humildes; nem levantava os olhos ao céu para olhar; tremia sua consciência, a esperança o elevava; batia no seu peito, exigia de si mesmo o castigo: por isso o Senhor perdoava ao que confessava. Ouviste o acusador soberbo, ouviste o réu humilde: ouve agora o juiz que diz: em verdade vos digo: este desceu justificado para sua casa, ao contrário daquele.
A quem são apresentados para serem tocados, senão ao Salvador? Mas se Ele é Salvador, são apresentados para serem salvos por Aquele que veio salvar o que estava perdido. Onde estes haviam perecido, quanto a eles próprios, inocentes? Mas segundo o Apóstolo, por um só homem o pecado entrou no mundo. Venham, portanto, as crianças, como enfermos ao médico, como perdidos ao Redentor.
Pode parecer que há alguma diferença no que, segundo São Mateus, é dito: "Por que me interrogas sobre o bem?" O que pode referir-se mais àquilo que disse aquele que perguntava: "Que bem farei?" Pois ali ele tanto mencionou o bem, quanto fez uma interrogação. Assim, muito convenientemente se entende que ambas as coisas foram ditas: "Por que me chamas bom?" e "Por que me interrogas sobre o bem?" O que pode referir-se mais àquilo.
Ele chama de rico, portanto, ao que cobiça as coisas temporais e se orgulha delas. A estes ricos são contrários os pobres de espírito, dos quais é o reino dos céus. No sentido místico, é mais fácil que Cristo padeça pelos amantes do mundo, do que os amantes do mundo possam se converter a Cristo. Pois pelo nome de camelo Ele queria dar a entender a Si mesmo, porque voluntariamente humilhado suportou os fardos de nossa enfermidade. Pela agulha, porém, significa perfurações, e pelas perfurações as dores suportadas na paixão; e pelo furo da agulha indica a angústia da paixão.
Considerando que é incomparavelmente maior a multidão dos pobres que, quando se perdem os ricos, pode salvar-se, compreenderam que todos os que amam as riquezas, ainda que não possam alcançá-las, devem ser contados no número dos ricos. Segue-se: Disse-lhes: As coisas que são impossíveis para os homens são possíveis para Deus, o que não deve ser entendido como se o rico com cobiça e soberba pudesse entrar no reino de Deus; mas é possível a Deus que o homem se converta da cobiça e da soberba para a caridade e a humildade.
Podemos entender sobre a aproximação de Jericó como se já tivessem saído dela, mas ainda estivessem perto daquela cidade; isso certamente é dito de maneira menos usual, mas, no entanto, poderia ser entendido assim, uma vez que São Mateus diz que, ao saírem de Jericó, dois cegos que estavam sentados junto ao caminho foram iluminados. Sobre o número, certamente não haveria questão se um dos Evangelistas tivesse silenciado sobre um deles, lembrando-se apenas de um; pois também São Marcos menciona apenas um, dizendo que foi iluminado quando saíam de Jericó; e disse o nome dele e de seu pai, para que entendamos que ele era o mais conhecido, sendo o outro desconhecido, de modo que com razão aquele conhecido foi o único dignamente mencionado. Mas como o que se segue no Evangelho segundo São Lucas mostra claramente que aquilo que ele mesmo narra aconteceu quando ainda se aproximavam daquela cidade, nada mais resta a entender senão que este milagre foi realizado duas vezes: uma vez em um cego, quando ainda se aproximava daquela cidade; e novamente em dois, quando saía dela; de modo que São Lucas narra um, e São Mateus o outro.
Se interpretamos Jericó como lua, e portanto mortalidade, o Senhor, aproximando-se de Sua morte, ordenou que a luz do Evangelho fosse pregada somente aos judeus; os quais são significados por aquele único cego que São Lucas menciona: mas ressuscitando da morte e descendendo, tanto aos judeus quanto aos gentios; e estes dois povos parecem ser denotados pelos dois cegos que São Mateus menciona.
Ou ainda, a região longínqua é a Igreja dos gentios, que se estende até os confins da terra: pois Ele partiu para que a plenitude dos gentios entrasse; voltará para que todo Israel seja salvo.
Ou pelas dez minas significa a lei, por causa do Decálogo; e pelos dez servos, aqueles que, estando sob ela, receberam a pregação da graça. Assim deve-se entender que lhes foram dadas as minas para uso, quando compreenderam que a lei, removido o véu, pertencia ao Evangelho.
E enviaram uma legação após Ele, porque também após a sua ressurreição continuaram a perseguir os Apóstolos e rejeitaram a pregação do Evangelho.
Ele também volta depois de receber o reino, porque virá com a mais manifesta claridade aquele que lhes apareceu humilde, quando disse: "Meu reino não é deste mundo"(São João 18,36).
Ou então. O fato de que um deles que usou bem adquiriu dez, e outro cinco, significa que eles foram adquiridos para o rebanho do Senhor, por aqueles que já entenderam a lei pela graça, seja por causa dos dez mandamentos da lei, seja porque aquele por quem a lei foi dada escreveu cinco livros. A isto pertencem as dez e cinco cidades, sobre as quais ele os coloca: pois a multiplicação do entendimento na própria variedade, que brota de cada preceito ou de cada livro, reduzida à unidade, forma como que uma cidade de razões eternas viventes: pois a cidade não é uma multidão de quaisquer seres vivos, mas de seres racionais, unidos pela sociedade de uma mesma lei. Portanto, o fato de que os servos que prestam contas do que receberam, aqueles que lucraram, sejam louvados, significa que prestam boa conta aqueles que usaram bem o que receberam para aumentar as riquezas do senhor por meio daqueles que creem nele. Os que não querem fazer isso estão representados naquele que guardou a sua mina em um lenço; do qual segue e o terceiro veio dizendo: Senhor, eis aqui a tua mina, que guardei depositada em um lenço. Pois há homens que se iludem com esta perversidade, dizendo: basta que cada um preste contas de si mesmo; que necessidade há de pregar aos outros e servi-los, de modo que alguém seja obrigado a prestar contas também deles? Quando, junto ao Senhor, mesmo aqueles a quem a lei não foi dada são inescusáveis, nem mesmo aqueles que, tendo ouvido o Evangelho, não obedeceram: porque pela criatura podiam conhecer o Criador; de onde segue pois temi-te, porque és homem austero: tomas o que não puseste, e ceifas o que não semeaste. Isto é como ceifar onde não semeou, isto é, considerar culpados de impiedade aqueles a quem não foi ministrada a palavra ou da lei, ou do Evangelho. Assim, evitando como que o perigo do juízo, com trabalho indolente se abstêm do ministério da palavra, e isto é como que amarrar em um lenço o que receberam.
Ou a mesa na qual o dinheiro deveria ser dado, entendemos como sendo a própria profissão da religião, que é publicamente proposta como meio necessário para a salvação.
Por isso significa que pode perder o dom de Deus aquele que tendo não tem, isto é, não o utiliza; e que pode ter aumentado aquele que tendo, tem, isto é, usa bem dele.
Por meio do qual designa a impiedade dos judeus, porque não quiseram se converter a Ele.
Nem deve causar estranheza que São Mateus fale da jumenta e do jumentinho, enquanto os outros passam em silêncio sobre a jumenta; pois quando se pode entender que ambos os fatos ocorreram, não há contradição alguma, nem se um relata uma coisa e outro relata outra; muito menos quando um relata uma coisa, e outro relata ambas?
Misticamente, porém, entenda-se pelo templo o próprio homem Cristo, ou também unido ao seu corpo que é a Igreja. Segundo aquilo que é a cabeça da Igreja, foi dito: "Destruí este templo, e em três dias o levantarei"; mas segundo aquilo que é a Igreja unida a Ele, entende-se o templo do qual parece ter dito: "Tirai isto daqui". Pois significou que haveria na Igreja aqueles que tratariam mais de seus próprios negócios, ou teriam ali refúgios para ocultar seus crimes, do que seguiriam a caridade de Cristo e, pela confissão dos pecados, recebida a absolvição, se corrigiriam.
Tendo relatado Lucas a expulsão dos que compravam e vendiam no templo, omitiu que Jesus saía para Betânia e regressava à cidade, e o que aconteceu com a figueira, e o que foi respondido aos discípulos admirados sobre a virtude da fé. E tendo omitido estas coisas, não como se seguisse em ordem os dias, como Marcos introduziu, dizendo "e aconteceu em um daqueles dias", ensinando ele ao povo no templo, e evangelizando, reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os Escribas com os anciãos. Quando diz que aconteceu em um daqueles dias, entende-se aquele dia no qual Mateus e Marcos relataram que isto aconteceu.
São Mateus, por causa da brevidade, silenciou o que São Lucas não silencia, que esta parábola foi dita não só aos príncipes que interrogaram sobre sua autoridade, mas também ao povo.
Ou de outro modo. Naquela multidão da qual falamos, havia os que dolosamente interrogavam o Senhor sobre com que poder fazia aquilo; havia também os que não dolosamente, mas fielmente, aclamavam: Bendito o que vem em nome do Senhor, e por isso havia os que diziam Ele destruirá aqueles, e dará a sua vinha a outros: esta voz, com razão, também se entende como sendo do próprio Senhor, seja por causa da verdade, seja por causa da unidade dos membros com a sua cabeça. Havia também os que respondiam aos que diziam tais coisas: De modo algum; porque entendiam que esta parábola era dita contra eles mesmos; segue-se Mas ele, olhando para eles, disse: O que é então isso que está escrito: A pedra que os edificadores rejeitaram, esta se tornou a cabeça do ângulo?
Porque os matrimônios são para a descendência, os filhos para a sucessão, a sucessão por causa da morte. Onde, portanto, não há morte, não há matrimônios; por isso segue-se: Mas aqueles que forem julgados dignos daquele século e da ressurreição dos mortos, nem se casarão, nem tomarão esposas; pois nem poderão mais morrer.
Assim como agora o nosso discurso é completado e aperfeiçoado por sílabas que se vão e que se sucedem, também os próprios homens, cujo discurso é este, indo-se e sucedendo-se, completam e aperfeiçoam a ordem deste mundo, que é tecido com a beleza temporal das coisas. Mas naquela vida, uma vez que o Verbo de Deus, do qual fruiremos, não se completa por nenhuma partida e sucessão de sílabas, mas tudo o que tem, permanecendo sempre, o tem simultaneamente; assim os participantes dele, para os quais só Ele será a vida, nem partirão morrendo, nem sucederão nascendo; como agora é com os Anjos; por isso segue pois são iguais aos Anjos.
Por esta sessão não devemos entender uma posição dos membros humanos, como se o Pai estivesse sentado à esquerda e o Filho sentado à direita; mas devemos entender que a própria direita significa o poder que aquele homem assumido por Deus recebeu, para que venha a julgar aquele que primeiro veio para ser julgado.
Lucas recordou neste lugar estas palavras do Senhor, para mostrar que a abominação da desolação que foi predita por Daniel, da qual falaram São Mateus e São Marcos, foi cumprida quando Jerusalém foi conquistada.
Por causa disto, São Mateus e São Marcos disseram: "e quem estiver sobre o telhado, não desça para a casa"; e São Marcos acrescenta: "nem entre para pegar alguma coisa de sua casa"; em vez do que São Lucas acrescenta: "e os que estão no meio dela, saiam".
Mas em relação ao que São Mateus e São Marcos escreveram: "E aquele que estiver no campo, não volte atrás para pegar sua veste", este acrescenta mais claramente: "E os que estiverem nas regiões, não entrem nela, porque estes são os dias de vingança, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas".
Depois Lucas prossegue de modo semelhante, como os outros dois: Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias. E assim, portanto, Lucas esclareceu o que poderia ser incerto, a saber: que aquilo que foi dito sobre a abominação da desolação não pertence ao fim do mundo, mas à destruição de Jerusalém.
Mas direis: vosso castigo vos obriga a confessar que já chegou o fim, vendo o cumprimento daquilo que foi predito. Pois é certo que não há pátria, nem lugar em nosso tempo que não seja afligido ou atribulado. Mas se estes males que agora padece o gênero humano são sinais certos de que o Senhor está para vir, o que significa aquilo que diz o Apóstolo: "quando disserem: paz e segurança"? Vejamos, pois, se talvez não seja melhor entender que não se cumprem deste modo as coisas que foram preditas nestas palavras; mas que então virão, quando a tribulação for tal para todo o mundo que pertencerá à Igreja, que será atribulada em todo o orbe, não àqueles que a atribularão: pois são eles mesmos que hão de dizer: paz e segurança. Agora, porém, estes males que são considerados como máximos e extremos, vemos que são comuns a ambos os reinos, isto é, ao de Cristo e ao do Diabo: do mesmo modo os bons e os maus são por eles afligidos; e em meio a tantos males, continuam a realizar-se por toda parte os banquetes luxuriosos. Acaso isto é secar-se pelo temor, ou antes abrasar-se pela concupiscência?
Mas para que o Senhor, aproximando-se a sua segunda vinda, não pareça haver predito como extraordinárias aquelas coisas que costumavam acontecer neste mundo mesmo antes de sua primeira vinda, e para que não sejamos ridicularizados por aqueles que leram coisas maiores e mais numerosas na história dos povos, creio que é melhor entender o que foi dito em relação à Igreja. Pois a Igreja é o sol, a lua e as estrelas, a quem foi dito: Formosa como a lua, eleita como o sol; ela então não aparecerá, quando os perseguidores se enfurecerem além da medida.
Mas quanto ao que foi dito "e na terra haverá angústia entre as nações", quis entender por nações, não aquelas que serão benditas na descendência de Abraão, mas as que estarão à esquerda.
Ou as potestades dos céus se moverão, porque quando os ímpios perseguirem, alguns dos fiéis mais fortes se turbarão. Segue-se: "E então verão o Filho do homem"
Quanto ao que diz vindo na nube, pode ser entendido de dois modos: ou vindo em sua Igreja como em uma nube, como agora não cessa de vir; mas então será com grande poder e majestade, porque maior majestade e poder dele aparecerá aos santos, aos quais dará grande virtude, para que não sejam vencidos em tão grande perseguição; ou em seu corpo, no qual está sentado à direita do Pai, com razão deve-se crer que virá não só no mesmo corpo, mas também na nube: pois assim virá como partiu; e uma nube o recebeu dos olhos deles.
Quando, porém, diz "quando virdes estas coisas acontecerem", o que poderemos entender senão aquelas coisas que foram mencionadas acima? Entre elas está o que diz: "e então verão o Filho do homem vindo". Por conseguinte, quando isso for visto, o Reino de Deus ainda não estará presente, mas estará próximo. Ou deve-se dizer que não se deve entender todas as coisas que foram mencionadas acima, quando Ele diz "quando virdes estas coisas acontecerem", mas apenas algumas delas, excetuando-se, é claro, o que foi dito: "e então verão o Filho do homem"? Mas São Mateus esclareceu que deve ser entendido sem nenhuma exceção, dizendo: "assim também vós, quando virdes todas estas coisas"; entre as quais está que se verá o Filho do homem vindo, para que se entenda sobre a vinda pela qual Ele agora vem em seus membros como em nuvens, ou na Igreja como em uma grande nuvem.
Entende-se por isso aquela fuga que São Mateus menciona, a qual não deve ocorrer no inverno ou no sábado. Ao inverno pertencem os cuidados desta vida, que são tristes como o inverno; já ao sábado pertencem a embriaguez e a glutonaria, que submergem e sobrecarregam o coração com a luxúria e alegria carnal; este mal é significado pelo nome de sábado, porque naquele dia os judeus abundam em delícias, enquanto ignoram o sábado espiritual.
Ou porque São Lucas menciona o cálice duas vezes, primeiro antes de dar o pão, e depois de ter dado o pão: aquilo que disse anteriormente, ele o antecipou, como costuma fazer; mas aquilo que colocou em sua devida ordem, não havia mencionado antes. E ambos os relatos unidos formam o mesmo significado daqueles, isto é, de São Mateus e São Marcos.
Tendo o Senhor entregado aos discípulos o cálice, novamente falou do seu traidor, dizendo: "Contudo, eis que a mão de quem me entrega está comigo à mesa".
O que aqui se diz sobre a negação predita de Pedro, todos os Evangelistas certamente mencionam; mas nem todos chegam a mencionar isso a partir de uma mesma ocasião do discurso: pois São Mateus e São Marcos a acrescentam depois que o Senhor saiu daquela casa onde haviam comido a Páscoa; já São Lucas e São João, antes que de lá tivesse saído. Mas facilmente poderíamos entender ou que aqueles dois a relataram recapitulando, ou que estes a mencionaram antecipadamente; se não nos impressionasse mais o fato de que são tão diversas não somente as palavras, mas também as sentenças do Senhor que precedem, pelas quais Pedro foi movido a manifestar aquela presunção de morrer pelo Senhor ou com o Senhor, que nos obrigam mais a entender que ele expressou três vezes sua presunção em diversos momentos do discurso de Cristo, e três vezes lhe foi respondido pelo Senhor que ele O negaria três vezes antes do canto do galo.
Não há, portanto, inconstância naquele que comanda, mas, pela razão de dispensação, de acordo com a diversidade dos tempos, são mudados os preceitos, os conselhos ou as permissões.
E afastou-se deles à distância de um tiro de pedra, como se tipicamente os advertisse a dirigir para Ele a pedra; isto é, que até Ele conduzissem a intenção da lei, que estava escrita em pedra.
Porém, São Lucas não expressou aqui em qual oração o Senhor veio aos discípulos; contudo, em nada isto contradiz a São Mateus e São Marcos.
O Senhor, quando estava sendo entregue, primeiro disse o que São Lucas menciona: "Judas, com um beijo entregas o Filho do homem?" Em seguida, o que São Mateus diz: "Amigo, a que vieste?" E, por último, o que São João recorda: "A quem buscais?"
Aquele que feriu, segundo São João, era Pedro; mas aquele a quem feriu chamava-se Malco.
Diz Lucas em seguida: "Mas Jesus, respondendo, disse: Deixai até aqui". E isso é o que Mateus comenta: "Volta a tua espada ao seu lugar". E não cause estranhamento, como se fosse contraditório, que Lucas aqui diga que o Senhor respondeu: "Deixai até aqui"; como se, após essa agressão, tivesse sido dito de tal modo que lhe agradou o que foi feito até aquele momento, mas não quisesse que se fizesse mais; quando nas palavras que Mateus registrou, entende-se antes que todo o ato pelo qual Pedro usou a espada desagradou ao Senhor. Pois é verdade que, quando perguntaram dizendo: "Senhor, feriremos com a espada?", então respondeu: "Deixai até aqui"; isto é, não vos inquiete o que está para acontecer: eles devem ser permitidos avançar até este ponto, ou seja, que me prendam, e se cumpra o que está escrito sobre mim. Pois não diria "respondendo Jesus", se não estivesse respondendo à pergunta deles, e não ao ato de Pedro. Mas entre o momento das palavras dos que interrogavam o Senhor e Sua resposta, Pedro, com avidez de defesa, desferiu o golpe. Mas não puderam ser ditas simultaneamente as coisas que puderam acontecer simultaneamente. Então, como diz Lucas, curou aquele que tinha sido ferido; pois segue: "E, tocando-lhe a orelha, curou-o".
Mas primeiro foi levado a Anás, sogro de Caifás, como diz São João, e depois a Caifás, como diz São Mateus. São Marcos e São Lucas, porém, não mencionam o nome do pontífice.
Entende-se, porém, que nesta segunda negação ele foi interpelado por dois: pela serva, certamente, a quem mencionam São Mateus e São Marcos, e por outro que São Lucas menciona. Portanto, isto que aqui São Lucas diz "e pouco depois", já Pedro havia saído pela porta, e o galo cantara pela primeira vez, como diz São Marcos; já havia retornado, para que, assim como diz São João, estando junto ao fogo negasse novamente; acerca desta negação, segue-se: E Pedro disse: "Homem, não sou".
O que São Mateus e São Marcos dizem: "depois de pouco tempo", quanto foi este tempo, São Lucas o manifesta dizendo "e passado cerca de uma hora"; sobre este intervalo, São João se cala. Igualmente, o que São Mateus e São Marcos não enunciam no singular, mas no plural, sobre aqueles que falavam com Pedro; enquanto São Lucas e São João mencionam apenas uma pessoa: é fácil entender que ou São Mateus e São Marcos usaram o plural pelo singular, como é costume na linguagem habitual, ou que um principalmente, como aquele que o tinha visto, afirmava; e os outros, seguindo sua palavra, pressionavam Pedro ao mesmo tempo. E quanto àquilo que São Mateus assevera ter sido dito ao próprio Pedro: "Porventura não te vi no jardim?", enquanto São Marcos e São Lucas dizem que eles falavam entre si sobre Pedro: ou entendemos que mantiveram o sentido daqueles que dizem ter interpelado Pedro (pois o que foi dito sobre ele em sua presença equivale ao mesmo que se fosse dito a ele); ou foi dito de ambas as maneiras, e alguns evangelistas lembraram de um modo, e outros de outro modo.
Entendemos que o cantar do galo ocorreu após a tripla negação de Pedro, como São Marcos expressou.
Como deve ser entendido isso, é necessário considerarmos com diligência. Pois São Mateus diz: "Pedro estava sentado fora, no átrio"; o que não diria, se aquelas coisas com o Senhor não estivessem acontecendo dentro. De modo semelhante, também naquilo que São Marcos disse: "e estando Pedro no átrio de baixo", mostra que os acontecimentos que narrava ocorreram não apenas no interior, mas também na parte superior. Como, portanto, o Senhor olhou para Pedro com seu rosto corporal? Por isso, parece-me que aquele olhar foi realizado divinamente: e assim como foi dito "olha-me e ouve-me" e "volta-te, Senhor, liberta a minha alma", assim julgo ter sido dito que "o Senhor, voltando-se, olhou para Pedro".
Sobre a tentação de Pedro, que aconteceu durante os ultrajes ao Senhor, nem todos narram na mesma ordem: pois Mateus e Marcos primeiro mencionam os ultrajes e depois a tentação de Pedro; mas Lucas explicou primeiro a tentação de Pedro e depois os ultrajes ao Senhor, dizendo: "e os homens que o seguravam escarneciam dele, ferindo-o".
Supõe-se que Nosso Senhor sofreu estas coisas até a manhã na casa do príncipe dos sacerdotes, para onde foi primeiramente conduzido; por isso segue-se: E quando amanheceu, reuniram-se os anciãos do povo, e os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e o conduziram ao seu Conselho, dizendo: Se tu és o Cristo, dize-nos.
Depois que Lucas terminou de narrar a negação de Pedro, recapitulou as coisas que aconteceram com o Senhor durante a manhã, mencionando alguns fatos que os outros omitiram; e assim contextualizou sua narrativa, relatando coisas semelhantes aos outros, quando diz "E levantando-se toda a multidão deles, conduziram-no a Pilatos".
Depois narra o que sucedeu perante Pilatos: E começaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este pervertendo a nossa nação, e proibindo dar tributos a César, e dizendo ser ele o Cristo rei. São Mateus e São Marcos não disseram isto, embora afirmassem que o acusavam; mas este também revelou os próprios crimes que falsamente lhe imputaram.
Lucas, voltando às coisas que se passavam diante do governador, de onde se havia afastado para narrar o que ocorreu junto a Herodes, assim diz: Pilatos, tendo convocado os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, disse-lhes: Apresentastes-me este homem como se estivesse subvertendo o povo; e eis que eu, interrogando-o em vossa presença, não encontro neste homem nenhuma culpa daquelas de que o acusais. Aqui compreendemos que ele omitiu como Pilatos perguntou ao Senhor o que responderia aos seus acusadores.
São João, porém, narra que Jesus carregava a cruz por si mesmo: de onde se entende que Ele próprio carregava sua cruz quando saiu para aquele lugar que é chamado Calvário. Mas Simão foi obrigado no caminho, a quem foi dada a cruz para carregar até aquele lugar: pois nenhum dos outros aceitava carregar a cruz, porque a madeira era considerada detestável; e por isso a Simão Cireneu, como que para sua desonra, impuseram o carregar da cruz, que os outros recusavam. Aqui se cumpre aquilo: "cujo principado está sobre seu ombro": pois o principado de Cristo é a sua cruz, por causa da qual, segundo o Apóstolo, Deus o exaltou. E assim como em sinal de dignidade alguns portam um cinto, outros uma mitra; assim também o Senhor porta a cruz. E se investigares, descobrirás que Jesus não reina em nós de outro modo, senão por asperezas: por isso acontece que os voluptuosos são inimigos da cruz de Cristo.
Não foi em vão que Ele escolheu também tal gênero de morte, para que se tornasse mestre da largura, da altura, do comprimento e da profundidade, das quais fala o Apóstolo. Pois a largura está naquela madeira que é fixada transversalmente na parte superior: isto pertence às boas obras, porque ali as mãos se estendem. O comprimento está naquilo que é visível desde essa mesma madeira até a terra: ali de certo modo se permanece, isto é, persiste-se e persevera-se; o que se atribui à longanimidade. A altura está naquela parte da madeira que, daquela que é fixada transversalmente, resta para cima: isto é até a cabeça do crucificado, porque é elevada a expectativa dos que esperam boas coisas. Já aquilo da madeira que, fixado, permanece oculto, de onde surge todo o conjunto, significa a profundidade da graça gratuita.
Este assunto, de fato, foi narrado brevemente pelos três primeiros Evangelistas; mas São João explica aqui mais distintamente como isso aconteceu.
Porque disse os príncipes, e não acrescentou dos sacerdotes, abrangeu todos os primeiros sob um nome geral, para que ali pudessem ser compreendidos tanto os escribas quanto os anciãos.
O que aqui é dito sobre as trevas, também os outros dois evangelistas, São Mateus e São Marcos, o atestam. São Lucas, porém, acrescenta a causa de onde vieram as trevas, quando diz: "E o sol se obscureceu".
Esta escuridão do sol mostra claramente que não aconteceu conforme o curso canônico dos astros, porque era então a Páscoa dos judeus, que é solenemente celebrada durante a lua cheia; mas um eclipse regular do sol não ocorre senão no final da lua [lua nova].
Como depois daquela voz imediatamente entregou o espírito, isto causou grande admiração aos que estavam presentes; pois os que eram suspensos no madeiro eram geralmente atormentados por uma morte prolongada; por isso se diz vendo o centurião o que tinha acontecido, glorificou a Deus, dizendo: verdadeiramente este homem era justo.
Não é contrário o que Mateus diz, que o centurião se admirou ao ver o terremoto, quando Lucas afirma que ele se admirou porque com aquela voz emitida Jesus expirou, mostrando que poder tinha quando morria. No que Mateus disse, não somente tendo visto o terremoto, mas acrescentou: "e as coisas que aconteciam", demonstrou o texto completo de Lucas, ao dizer que o centurião se admirou da própria morte do Senhor. E o que o próprio Lucas também disse "vendo o centurião o que acontecera", neste gênero incluiu todas as coisas que aconteceram maravilhosamente naquela hora, como quem comemora um único fato admirável, do qual todos aqueles milagres eram como que membros e partes. Quanto ao que outro disse, que o centurião disse: "verdadeiramente este era o Filho de Deus", mas Lucas afirma que "era justo", pode-se considerar diverso; mas devemos entender ou que ambas as coisas foram ditas pelo centurião, e um evangelista lembrou uma coisa, e outro, outra; ou talvez Lucas tenha querido expressar o pensamento do centurião, de que modo dissera que Jesus era Filho de Deus: pois talvez o centurião não tivesse entendido que era o Unigênito igual ao Pai, mas o chamara Filho de Deus porque acreditava que era justo, assim como muitos justos são chamados filhos de Deus. Já porque Mateus acrescentou os que estavam com o centurião, mas Lucas o calou, não há contradição quando um diz o que outro cala: e Mateus disse: "temeram muito"; Lucas, porém, não disse: "temeu", mas "glorificou a Deus": quem não entende que glorificou a Deus temendo?
São João diz que ele era discípulo de Jesus; por isso aqui se acrescenta: que também ele próprio esperava o reino de Deus. Com razão, porém, causa surpresa como aquele que por temor era um discípulo oculto ousou pedir o corpo dele, o que nenhum daqueles que o seguiam abertamente ousaria fazer; segue-se, pois: este foi a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Mas deve-se entender que ele fez isso pela confiança em sua dignidade, pela qual podia entrar familiarmente à presença de Pilatos. Mas ao prestar aquele último serviço fúnebre, parece ter-se importado menos com os judeus, embora costumasse, ao ouvir o Senhor, evitar as inimizades deles.
Ou São Mateus, pela primeira parte da noite, que é a tarde, quis significar a própria noite; no fim da qual noite vieram ao sepulcro: e isso porque já desde a tarde haviam preparado, e era lícito trazer aromas tendo passado o sábado.
Podemos entender que um Anjo foi visto pelas mulheres, conforme dizem tanto São Marcos quanto São Mateus; de modo que as consideremos tendo entrado no sepulcro, isto é, em algum espaço que estava cercado por uma espécie de muro diante daquele lugar do sepulcro de pedra; e que ali viram o Anjo sentado à direita, como diz São Marcos; depois, dentro, quando elas inspecionavam o lugar onde jazia o corpo do Senhor, viram outros dois Anjos que estavam de pé, como diz São Lucas, que lhes falaram para exortar seus ânimos e edificar sua fé; por isso segue: como estivessem temerosas, e inclinassem o rosto para a terra.
Entende-se que Lucas colocou isto recapitulando sobre Pedro: pois Pedro correu ao sepulcro ao mesmo tempo que João, tão logo lhes foi anunciado pelas mulheres, especialmente por Maria Madalena, que o corpo havia sido levado. Depois disso, aconteceram estas coisas sobre a visão dos Anjos. Lucas apenas mencionou Pedro porque Maria havia anunciado primeiramente a ele. Da mesma forma, pode causar estranheza que Lucas diga que Pedro, não entrando, mas inclinando-se, viu apenas os lençóis e se retirou admirado; quando João diz que ele entrou, viu os lençóis postos, e que ele mesmo entrou depois de Pedro. Mas deve-se entender que Pedro primeiro, inclinando-se, viu o que Lucas menciona e João omite; depois, porém, entrou antes que João entrasse.
Não é absurdo compreendermos que aquela fortaleza também poderia ter sido chamada, segundo São Marcos, de aldeia. Depois, descreve a fortaleza, dizendo que estava a uma distância de sessenta estádios de Jerusalém, chamada Emaús.
Quando, porém, São Lucas disse que Pedro correu ao sepulcro, e relatou que o próprio Cleofás disse que alguns deles foram ao sepulcro; entende-se que confirma o testemunho de São João, de que dois foram ao sepulcro; mas mencionou primeiramente apenas Pedro, porque a ele Maria havia anunciado primeiramente a notícia.
Isso não pertence à mentira: pois nem tudo que fingimos é mentira; mas quando fingimos aquilo que nada significa, então é mentira; porém quando nossa ficção se refere a algum significado, não é mentira, mas alguma figura da verdade; de outro modo todas as coisas que foram ditas figuradamente pelos sábios e santos varões, ou mesmo pelo próprio Senhor, seriam consideradas mentiras, porque segundo o entendimento comum a verdade não consiste em tais expressões. Assim como as palavras, também os fatos são fingidos sem mentira para significar alguma coisa.
Pois eles não andavam com os olhos fechados, mas havia algo que não lhes permitia reconhecer o que viam; o que certamente a névoa e algum tipo de vapor costumam causar. Não porque o Senhor não pudesse transformar sua carne, para que fosse realmente uma aparência diferente daquela que costumavam contemplar; visto que também antes da paixão foi transformado no monte, de modo que seu rosto resplandeceu como o sol. Mas agora não aconteceu assim: pois não inadequadamente entendemos que este impedimento nos olhos deles foi causado por Satanás, para que Jesus não fosse reconhecido. Mas foi tão somente permitido por Cristo até o sacramento do pão, para que, pela participação na unidade de seu corpo, se entendesse que o impedimento do inimigo fora removido, para que Cristo pudesse ser reconhecido.
Ou quando o Senhor fingiu ir mais longe ao acompanhar os discípulos, expondo-lhes as Sagradas Escrituras, enquanto eles ignoravam quem Ele era, significou que, por meio da prática da hospitalidade, os homens podem chegar ao conhecimento d'Ele; para que, quando Ele mesmo se afastar dos homens para muito além dos céus, permaneça, contudo, com aqueles que demonstram este serviço aos seus servos. Assim, retém a Cristo, para que não se afaste dele, todo aquele que, sendo catequizado na palavra, compartilha todos os bens com aquele que o catequiza. Pois estes foram catequizados na palavra, quando Ele lhes expôs as Escrituras. E porque praticaram a hospitalidade, aquele que não conheceram na exposição das Escrituras, reconheceram na fração do pão; porque não são os ouvintes da lei que são justos diante de Deus, mas os praticantes da lei serão justificados.
Já corria a notícia de que Jesus havia ressuscitado, sendo anunciada pelas mulheres e por Simão Pedro, a quem Ele já havia aparecido. Com efeito, estes dois encontraram aqueles que estavam em Jerusalém falando destas coisas, quando a eles chegaram; pois segue: E encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles, dizendo que o Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão.
Quanto ao que disse São Marcos: "anunciaram aos demais, nem acreditaram neles", quando São Lucas diz que já falavam que verdadeiramente ressuscitou o Senhor, o que se deve entender, senão que havia ali alguns que não queriam crer nisto?
Esta manifestação do Senhor após a ressurreição, São João também comemora. Mas quando diz São João que o apóstolo Tomás não estava com os demais, enquanto que segundo São Lucas, os dois discípulos, ao regressarem a Jerusalém, encontraram congregados os onze, devemos sem dúvida entender que Tomás saiu dali antes que o Senhor aparecesse a eles enquanto falavam estas coisas. Pois São Lucas dá lugar em sua narrativa para que se possa entender que Tomás primeiro saiu dali, enquanto estes falavam, e depois o Senhor entrou; a não ser que alguém diga que aqueles onze não eram os que já então se chamavam Apóstolos, mas que eram onze discípulos dentre o grande número de discípulos. Mas quando São Lucas acrescentou "e os que estavam com eles", declarou certamente com bastante evidência que aqueles onze eram os que se chamavam Apóstolos, com os quais estavam os demais. Mas vejamos, pela graça de qual mistério, segundo São Mateus e São Marcos, o Senhor ao ressuscitar assim ordenou: "Eu vos precederei na Galileia, ali me vereis"; o que, embora tenha se cumprido, contudo foi cumprido depois de muitas outras coisas; quando foi ordenado de tal modo que se esperava que só isto, ou isto primeiro, devesse acontecer.
Ou o que foi dito pelo Anjo, isto é, pelo Senhor, deve ser tomado profeticamente: pois na Galileia, segundo o significado de transmigração, deve-se entender que eles estavam para passar do povo de Israel para os gentios; aos quais os apóstolos, pregando o Evangelho, não confiariam a mensagem se o próprio Senhor não preparasse o caminho nos corações dos homens; e isso se entende por: "Ele irá adiante de vós para a Galileia". Porém, segundo aquele sentido em que Galileia é interpretada como revelação, não se deve entender mais na forma de servo, mas naquela em que Ele é igual ao Pai, a qual prometeu aos seus eleitos; aquela será a revelação como a verdadeira Galileia, quando O veremos como Ele é. Esta será também a mais bem-aventurada transmigração deste mundo para aquela eternidade, de onde vindo a nós não se afastou, e para onde nos precedendo não nos abandonou.
Prestem atenção aqueles que deliram que Cristo poderia ter feito tais coisas por artes mágicas, e que por essa mesma arte consagrou seu nome para converter os apóstolos a si mesmo: porventura poderia ele, por artes mágicas, encher os profetas com o Espírito divino antes de nascer na terra? Pois se por artes mágicas fez com que fosse cultuado também depois de morto, não era mago antes de nascer, para quem uma única nação foi designada para profetizar sua vinda.
Ou o Senhor, depois de sua ressurreição, concedeu o Espírito Santo duas vezes: uma vez na terra, por causa do amor ao próximo, e outra vez do céu, por causa do amor a Deus.
Sabendo que todas as coisas devem ser referidas ao seu autor, ele atribuiu estas palavras a Isaías, que primeiro havia insinuado este sentido. Finalmente, após as palavras de Malaquias, imediatamente acrescentou, dizendo: voz do que clama no deserto, para unir as palavras de ambos os profetas pertencentes a um mesmo sentido, sob a pessoa do profeta anterior.
Por isso São Mateus diz que foi dito: filho meu amado, porque quis mostrar que o que foi dito: este é meu filho, valia para indicar àqueles que estavam ouvindo que ele mesmo era o Filho de Deus. Mas se perguntas qual destas expressões ressoou naquela voz, aceita qualquer uma delas, desde que entendas que aqueles que não relataram a mesma locução, relataram o mesmo sentido. E quanto ao fato de que Deus parece ter se agradado em seu filho, somos advertidos pelo que foi dito: em ti me agradei.
Contra a soberbia dos Demônios, quão grande virtude possui a humildade de Deus, que apareceu sob a forma de servo, os próprios Demônios sabem tão bem que ao mesmo Senhor revestido da enfermidade da carne expressaram isto; pois segue: e exclamou dizendo: que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste antes do tempo para nos destruir. É evidente nestas palavras que neles havia ciência, mas não havia caridade: temiam certamente a punição vinda d'Ele, mas não amavam a justiça n'Ele.
Pois Ele se deu a conhecer a eles tanto quanto quis; e tanto quis quanto foi conveniente. Mas não se deu a conhecer como aos santos Anjos, que gozam dele participando de sua eternidade, segundo o que é o Verbo de Deus; mas conforme devia dar-se a conhecer para aterrorizar aqueles de cujo poder tirânico haveria de libertar os predestinados. Deu-se a conhecer, portanto, aos Demônios, não por aquilo que é a vida eterna, mas por certos efeitos temporais de seu poder, que poderiam ser mais perceptíveis aos sentidos angélicos até mesmo dos espíritos malignos do que à fraqueza dos homens.
Pois os demônios sabiam que Ele era o Cristo, que havia sido prometido pela Lei: porque viam n'Ele todos os sinais que os profetas haviam predito; mas ignoravam o mistério de sua divindade, assim como também seus príncipes. Porque se o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória(1 Coríntios 2,8).
Nesta pregação, que ele diz ter feito em toda a Galileia, entende-se também o sermão do Senhor proferido na montanha, do qual faz menção São Mateus; o qual São Marcos não mencionou de modo algum, nem disse algo semelhante, exceto algumas sentenças não em contexto, mas repetidas esparsamente, que o Senhor proferiu em outros lugares.
De este leproso curado, São Marcos relata circunstâncias tais que dão a entender que ele é o mesmo que São Mateus recorda ter sido purificado quando o Senhor desceu do monte, após o sermão. E porque o Senhor diz: não vim para destruir a lei, mas para cumpri-la, aquele que era excluído pela lei, presumindo purificar-se pelo poder do Senhor, indicou que a graça, que podia lavar a mancha do leproso, não procedia da lei, mas estava acima da lei. E verdadeiramente, assim como no Senhor se manifesta a autoridade do poder, assim naquele se declara a constância da fé; pois segue: e, ajoelhando-se, disse: Senhor, se queres, podes me purificar. Prostra-se sobre a face, o que é ao mesmo tempo um gesto de humildade e de vergonha, para mostrar que cada um deve envergonhar-se das manchas de sua vida. Mas a vergonha não reprimiu a confissão: mostrou a ferida e pediu o remédio; e a própria confissão está cheia de religiosidade e de fé: pois atribuiu o poder à vontade do Senhor.
São Mateus, porém, escreve este milagre que se segue como se tivesse sido feito na cidade do Senhor, já Marcos o situa em Cafarnaum; o que seria mais difícil de resolver se Mateus também nomeasse Nazaré. Mas visto que a própria Galileia poderia ser chamada cidade de Cristo, porque Nazaré estava na Galileia; quem duvidará que o Senhor tenha feito isso em sua cidade, quando o fez em Cafarnaum, cidade da Galileia, especialmente porque a própria Cafarnaum se destacava tanto na Galileia que era considerada como sua metrópole? Ou São Mateus omitiu o que foi feito depois que chegou à sua cidade, até que chegasse a Cafarnaum, e assim acrescenta sobre a cura do paralítico, complementando: e eis que lhe apresentavam um paralítico, depois de ter dito que chegou à sua cidade.
Pode-se, porém, pensar que [o evangelista] acrescentou os fariseus porque eles, juntamente com os discípulos de São João, disseram ao Senhor o que se segue; enquanto São Mateus afirma que apenas os discípulos de São João o disseram; mas as palavras que vêm a seguir indicam mais claramente que outros disseram isto a respeito de outros; pois segue-se: "E vêm e dizem-lhe: Por que os discípulos de São João e os dos fariseus jejuam, mas os teus discípulos não jejuam?" Estas palavras indicam que os convidados que ali estavam vieram a Jesus e disseram isto mesmo aos discípulos, de modo que quando diz "vêm", não se referia àqueles mesmos sobre os quais tinha dito: "E estavam os discípulos de São João e os fariseus jejuando". Mas como estes estavam jejuando, vêm aqueles que isto preocupava. Por que, então, São Mateus diz: "E aproximaram-se dele os discípulos de São João, dizendo", senão porque também os apóstolos estavam presentes, e todos avidamente, conforme cada um podia, fizeram estas objeções?
Marcos aqui chama-os filhos das núpcias, aos quais Mateus chama filhos do esposo; pois entendemos por filhos das núpcias não somente os do esposo, mas também os da esposa.
Pois ao povo de Israel foi ordenado pela lei que ninguém detivesse em seus campos um ladrão, a não ser aquele que quisesse levar algo consigo; pois aquele que não tocasse em nada além do que comesse, deixaria-o ir livre e impune; por isso, quando os discípulos do Senhor colhiam espigas, os judeus os acusaram mais de violar o sábado do que de furto.
Mas pode causar perplexidade como São Mateus tenha dito que eles mesmos interrogaram o Senhor se era lícito curar no sábado; quando São Marcos antes relata que eles foram interrogados pelo Senhor: "É lícito no sábado fazer o bem ou fazer o mal?" Portanto, deve-se entender que eles primeiro perguntaram ao Senhor se era lícito curar no sábado, e então Ele, compreendendo os pensamentos deles e que buscavam uma oportunidade para acusá-Lo, colocou no meio aquele que estava para curar, e fez aquelas perguntas que São Marcos e São Lucas recordam que Ele fez; e então, como eles permanecessem em silêncio, propôs a parábola da ovelha, e concluiu que é lícito fazer o bem nos sábados. Segue-se: "Mas eles se calavam".
Ninguém, porém, pense que Simão agora recebeu o nome para se chamar Pedro, para que não haja contradição com São João, que recorda ter sido dito a ele muito antes: "Tu serás chamado Cephas", que se interpreta Pedro. Marcos, porém, recorda isso recapitulando: pois querendo enumerar os nomes dos doze apóstolos, e sendo necessário dizer Pedro, quis indicar brevemente que ele não se chamava assim antes, mas que o Senhor lhe impôs este nome.
Ou a própria impenitência é a blasfêmia contra o Espírito Santo, que não é perdoada. Contra o Espírito Santo, pelo qual os pecados são perdoados, diz palavra, seja em pensamento, seja pela língua, aquele que para si entesourou um coração impenitente. Acrescenta depois "porque diziam: tem um espírito imundo", para mostrar que daqui nasceu a causa para que dissesse isto, porque diziam que Ele expulsava o demônio por Beelzebub; não porque fosse blasfêmia que não se perdoa, pois também esta se perdoa, se a seguir houver verdadeira penitência; mas daqui surgiu a causa para que aquela sentença fosse proferida pelo Senhor, feita menção do espírito imundo, o qual o Senhor mostrou dividido contra si mesmo por causa do Espírito Santo, que também faz indivisos aqueles que reúne, perdoando os pecados, que estão divididos contra si mesmos; a este dom de remissão não resiste senão aquele que tiver a dureza de um coração impenitente. Pois em outro lugar disseram os judeus sobre o Senhor que Ele tinha um demônio; mas ali não disse nada acerca da blasfêmia contra o Espírito Santo: porque não lançaram em rosto o espírito imundo de tal forma que pudesse ser mostrado dividido contra si mesmo a partir das palavras deles, como Beelzebub, por quem disseram que os demônios podiam ser expulsos.
Ou se deve entender que eles, por seus pecados, mereceram não compreender, e, contudo, isso mesmo lhes foi feito misericordiosamente, para que conhecessem seus pecados e, convertendo-se, merecessem o perdão.
Como São Mateus diz que eram dois, mas São Marcos e São Lucas mencionam apenas um, deve-se entender que um deles era uma pessoa de maior destaque, cuja condição aquela região especialmente lamentava.
O que Marcos diz aqui, que o rebanho estava ao redor do monte, e o que Lucas chama de no monte, não são de modo algum inconsistentes. Pois o rebanho de porcos era tão grande, que uma parte estava no monte e outra parte ao redor dele. Segue-se: e os espíritos o suplicavam, dizendo: Enviai-nos aos porcos, para que entremos neles.
Deve-se entender, porém, que o que se acrescenta sobre a filha do chefe da sinagoga aconteceu quando Jesus atravessou novamente o mar em um barco; mas quanto tempo depois, não está claro: pois se não houvesse um intervalo, não haveria momento para que ocorresse o que São Mateus narra sobre o banquete em sua casa; depois do qual nada mais segue imediatamente, exceto aquilo sobre a filha do chefe da sinagoga. Assim ele entrelaça sua narrativa, de modo que a própria transição indica claramente que o que se narra a seguir acontece logo após o que foi feito anteriormente. Segue-se e veio um dos chefes da sinagoga, de nome Jairo.
Pois ele presta atenção não às palavras do pai sobre a filha, mas, o que é mais importante, à sua vontade: de fato, ele havia ficado tão desesperado que preferia que ela voltasse à vida, não acreditando ser possível encontrá-la viva, aquela que havia deixado morrendo.
Não se lê que ele tivesse consentido aos que lhe anunciavam e que proibiam que o Mestre ainda viesse; e por isso, quando o Senhor lhe disse "não temas, crê", não o repreendeu por falta de fé, mas confirmou mais robustamente a fé que já havia nele. Se, pois, o Evangelista tivesse narrado que o chefe da sinagoga havia dito o que afirmaram os que vieram de sua casa, isto é, que Jesus já não deveria ser incomodado, haveria contradição com o pensamento dele nas palavras que São Mateus relatou que ele disse, isto é, que a menina estava morta. Segue-se "e não permitiu que ninguém o seguisse, exceto Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago".
São Mateus, de fato, diz que Ele foi chamado filho do carpinteiro; e não é de admirar, visto que ambas as coisas poderiam ter sido ditas: pois eles acreditavam que Ele era carpinteiro, porque era filho de carpinteiro.
Ou porque, segundo São Mateus, o Senhor acrescentou imediatamente: o trabalhador é digno do seu alimento, mostra suficientemente por que não queria que possuíssem ou levassem tais coisas; não porque não fossem necessárias para a vida, mas porque os enviava de tal modo que demonstrava serem devidas a eles pelos fiéis a quem anunciavam o Evangelho. Disto se evidencia que o Senhor não ordenou que os Evangelistas devessem viver apenas das dádivas daqueles a quem pregavam o Evangelho; caso contrário, o Apóstolo teria transgredido este preceito quando provia seu sustento pelo trabalho de suas próprias mãos; mas quis dizer que lhes havia dado um poder, em virtude do qual poderiam estar seguros de que estas coisas lhes eram devidas.
Também frequentemente se pergunta por que São Mateus e São Lucas relataram que o Senhor ordenou a seus discípulos não levarem sequer um bastão, enquanto São Marcos diz: E ordenou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser apenas um bastão. Esta questão se resolve supondo que a palavra 'bastão' tem em São Marcos, que diz que deve ser levado, um significado diferente daquele que tem em São Mateus e São Lucas, que afirmam o contrário.
Pois de modo conciso, poder-se-ia dizer: Não leveis convosco nenhuma das coisas necessárias, nem sequer um bastão, exceto apenas um bastão; de modo que a expressão "nem sequer um bastão" signifique "nem mesmo as coisas mínimas"; mas o que se acrescenta, "exceto apenas um bastão", pode significar que, pelo poder recebido do Senhor, do qual o bastão é insígnia, nada, mesmo das coisas que não levam, lhes faltará.
O Senhor, portanto, disse ambas as coisas, mas porque um Evangelista não relatou ambas, supõe-se que aquele que disse que o bastão, num sentido, deveria ser levado, é contrário àquele que declarou que, em outro sentido, deveria ser deixado; agora, porém, que foi dada uma razão, que ninguém pense assim.
Do mesmo modo, quando São Mateus declara que não se deve usar calçados no caminho, ele proíbe a ansiedade por eles, pois a razão pela qual os homens estão ansiosos em carregá-los é para que não fiquem sem eles. Isto também deve ser entendido sobre as duas túnicas, que ninguém deve preocupar-se por ter apenas aquela com que está vestido, com ansiedade de que necessitará de outra, quando poderia sempre obter uma pelo poder dado pelo Senhor.
Semelhantemente, São Marcos, ao dizer que devem calçar sandálias ou solas, adverte-nos que este modo de proteger os pés tem uma significação mística, que o pé não deve estar totalmente coberto nem nu no chão, isto é, que o Evangelho não deve ser escondido nem apoiar-se em confortos terrenos; e quando proíbe possuir ou levar consigo, ou mais expressamente usar, duas túnicas, ordena-lhes que caminhem com simplicidade, não com duplicidade.
Mas quem pensa que o Senhor não poderia no mesmo discurso dizer algumas coisas figurativamente e outras em sentido literal, examine seus outros discursos, e verá quão temerário e ignorante é seu julgamento.
Nestas palavras, porém, São Lucas concorda com São Marcos, ao menos no que diz respeito ao fato de que foram outros, e não Herodes, que disseram ter São João ressuscitado; mas São Lucas apresentou Herodes como hesitante, e colocou suas palavras como se ele dissesse: "Eu mandei decapitar João. Quem é, pois, este de quem ouço tais coisas?". Devemos, contudo, supor que após esta hesitação ele havia confirmado em sua própria mente o que outros haviam dito, pois ele diz aos seus servos, como São Mateus narra: "Este é João Batista, ele ressuscitou dos mortos". Ou então estas palavras devem ser pronunciadas de modo a indicar que ele ainda está hesitando; particularmente porque São Marcos, que anteriormente dissera que outros haviam declarado que João havia ressuscitado dos mortos, posteriormente não se cala quanto a Herodes dizer claramente: "Este é João, a quem eu decapitei: ele ressuscitou dos mortos". Estas palavras também podem ser pronunciadas de dois modos, seja entendidas como as de um homem que afirma ou que duvida.
Isso aconteceu imediatamente após a paixão de São João, como ele recorda: de onde, depois destas coisas, ocorreram aquelas que foram narradas primeiro, pelas quais, comovido, Herodes disse: este é João Batista, a quem eu mandei decapitar.
Isto é o que Filipe responde em São João; mas Marcos relata que a resposta veio dos discípulos, querendo dar a entender que Filipe respondeu pela boca dos demais, embora também pudesse ter usado o plural pelo singular, como é muito comum. Segue-se e diz-lhes: Quantos pães tendes? Ide e vede. Isto que foi feito pelo Senhor, os outros Evangelistas omitiram. Segue-se e quando souberam, dizem: Cinco, e dois peixes. O que André, segundo São João, sugeriu sobre os cinco pães e dois peixes, os outros Evangelistas, colocando o plural pelo singular, relataram pela pessoa dos discípulos. Segue-se e ordenou-lhes que fizessem todos se reclinarem por grupos sobre a relva verde. E reclinaram-se em partes de cem e de cinquenta. O fato de que Lucas diz que foi ordenado que se reclinassem em grupos de cinquenta, e Marcos, por sua vez, em grupos de cinquenta e de cem, não deve causar dificuldade, porque um menciona uma parte, e o outro o todo: pois aquele que relatou sobre os grupos de cem, relatou o que o outro omitiu.
Como, pois, puderam entender isso, senão porque Ele ia em direção oposta, querendo passar por eles como por estranhos, pelos quais não era reconhecido a ponto de ser considerado um fantasma? Pois segue-se: e eles, quando o viram caminhando sobre o mar, pensaram ser um fantasma, e exclamaram: pois todos o viram, e ficaram perturbados.
Como, pois, queria Ele passar por eles, a quem tão temerosos assim confirma, senão porque aquela vontade de passar adiante servia para provocar aquele clamor ao qual convinha socorrer?
Pois algumas coisas aproximam-se de tal modo que tanto mudam quanto são mudadas; assim como o próprio alimento, perdendo sua forma, é convertido em nosso corpo, e nós, revigorados, somos transformados em força. Mas também um humor sutilíssimo, quando o alimento for cozido e digerido nas veias e outras artérias, através de canais ocultos, que os gregos chamam de poros, dilui-se e vai para o excremento.
Mas se quis e não pôde, sua vontade parece ser fraca. É impossível, porém, que a vontade do Salvador não seja cumprida, nem pode Ele querer aquilo que sabe não dever ser feito; por isso, deve-se dizer que Ele quis o que foi feito. Deve-se, porém, notar que isso aconteceu nos confins dos gentios, para os quais ainda não era tempo de pregar; contudo, não receber aqueles que vinham espontaneamente à fé seria inveja. Assim, portanto, aconteceu que o Salvador não foi revelado pelos discípulos, mas foi descoberto por outros que O tinham visto entrar na casa, e começou a ser conhecido que Ele estava na casa. Ele, portanto, não quis ser anunciado pelos seus; quis, porém, ser buscado; e assim sucedeu.
Finalmente, a mulher cananeia, ouvindo sobre Ele, entrou até Ele; a qual, se não se tivesse submetido antes ao Deus dos judeus, não teria conseguido o benefício deles; sobre a qual segue: "Pois uma mulher, assim que ouviu falar d'Ele, cuja filha tinha um espírito imundo, entrou e prostrou-se aos pés d'Ele".
Parece, porém, suscitar alguma questão de contradição, porque diz que o Senhor estava na casa quando a mulher veio suplicando por sua filha. Mas visto que São Mateus diz que os discípulos assim sugeriram ao Senhor: despede-a, porque grita atrás de nós, nada mais parece significar senão que aquela mulher, enquanto o Senhor caminhava, proferiu vozes suplicantes atrás dele. Como, então, estava ele na casa, senão porque se deve entender que Marcos disse que ela entrou onde Jesus estava, tendo antes mencionado que ele estava na casa? Mas como São Mateus diz: não lhe respondeu palavra, deu a entender que nesse silêncio Jesus saiu daquela casa; e assim as demais coisas se encadeiam de modo que já não apresentam discordância alguma. Segue-se que disse a ela: deixa que primeiro se saciem os filhos.
Se, porém, Ele sabia (como aquele que conhecia as vontades dos homens, tanto presentes quanto futuras) que quanto mais lhes ordenava que não pregassem, tanto mais eles haveriam de pregar; por que lhes dava esta ordem, senão porque queria mostrar aos indolentes com quanta alegria, com quanto fervor devem pregar aqueles a quem ordena que preguem, quando aqueles a quem se proibia não podiam calar-se?
Em São Mateus, porém, lê-se que Ele veio aos territórios de Magedam. Não se deve duvidar que seja o mesmo lugar com ambos os nomes, pois muitos códices, mesmo segundo São Marcos, não têm senão Magedam. Segue-se e saíram os fariseus, e começaram a discutir com Ele, pedindo-Lhe um sinal do céu, tentando-O.
Não deve causar estranheza que Marcos não diga que foi dada aos que perguntavam por um sinal do céu a mesma resposta que Mateus refere sobre Jonas, mas afirme que o Senhor respondeu: "nenhum sinal será dado a ela"; deve-se entender, na verdade, que se refere ao tipo de sinal que pediam, isto é, do céu. Ele omitiu, porém, mencionar o que dizia respeito a Jonas, o que São Mateus recordou.
É preciso examinar se isto não parece ser contrário àquela sentença do Senhor, onde diz: quem não está comigo, está contra mim. Ou alguém dirá que há esta diferença, porque aqui Ele diz aos discípulos quem não está contra vós, está a vosso favor; enquanto lá falou de si mesmo: quem não está comigo, está contra mim? Como se não pudesse estar com Ele aquele que está associado a seus discípulos como membros dele. Caso contrário, como seria verdadeiro: quem vos recebe, a mim recebe? Ou, pode, porventura, não estar contra Ele quem for contra os seus discípulos? Pois onde estaria aquilo: quem vos despreza, a mim despreza? Mas, sem dúvida, o que Ele quer dar a entender é que alguém não está com Ele na medida em que está contra Ele; e que não está contra Ele na medida em que está com Ele. Por exemplo, assim como este que fazia obras em nome de Cristo, e não estava na comunidade dos discípulos, na medida em que operava maravilhas naquele nome, nesta medida estava com eles e não estava contra eles; mas na medida em que não se aderia à comunidade deles, nesta medida não estava com eles e estava contra eles. Mas porque eles o proibiram de fazer aquilo em que ele estava com eles, o Senhor lhes disse: não o proibais. Pois deveriam ter proibido o que estava fora da comunidade deles, para assim persuadi-lo à unidade da Igreja, e não aquilo em que estava com eles, ou seja, enaltecendo o nome do mestre e Senhor deles na expulsão dos demônios, como faz a Igreja Católica, não reprovando nos hereges os sacramentos comuns, mas a divisão, ou alguma opinião contrária à paz e à verdade: pois nisto estão contra nós.
Desse modo, mostra que aquele de quem São João havia falado não estava tão separado da convivência dos discípulos a ponto de rejeitá-la como um herege, mas como costumam proceder os homens que ainda não ousam receber os sacramentos de Cristo, e, no entanto, favorecem o nome cristão, de tal modo que acolhem os cristãos e não os servem por outro motivo senão porque são cristãos; destes diz que não perderão sua recompensa: não porque já devam considerar-se seguros e salvos em razão desta benevolência que têm para com os cristãos, ainda que não sejam lavados com o Batismo de Cristo, nem incorporados à sua unidade; mas porque já são governados pela misericórdia de Deus de tal modo que também chegarão a isso, e assim partirão seguros deste mundo.
Mas aqueles que consideram que ambas estas coisas, o fogo e o verme, pertencem à alma, e não ao corpo, dizem também que os que foram separados do reino de Deus são atormentados, como que por fogo, pela dor da alma que se arrepende tarde e infrutuosamente. E por isso sustentam que o fogo pode não incongruentemente ser posto por esta dor ardente, segundo aquilo do Apóstolo: "quem se escandaliza, e eu não ardo?" Pensam também que por este verme deve-se entender a mesma dor, segundo aquilo: "como a traça ao vestido, e o verme à madeira, assim a tristeza atormenta o coração do homem". Porém aqueles que não duvidam que haverá penas tanto da alma quanto do corpo naquele suplício, afirmam que o corpo é queimado pelo fogo, e a alma é roída, por assim dizer, pelo verme da tristeza. Embora isto se diga de modo mais crível, porque certamente é absurdo que ali falte a dor ou do corpo ou da alma, eu, contudo, mais facilmente julgo que ambas as coisas pertencem ao corpo do que nenhuma delas. E por isso a dor da alma é omitida nestas palavras da Sagrada Escritura, porque se entende que é consequência que, com o corpo sofrendo, a alma também seja atormentada. Escolha, pois, cada um o que lhe agradar: ou atribuir o fogo ao corpo e o verme à alma, este em sentido próprio, aquele em sentido figurado; ou ambos propriamente ao corpo. Pois os animais podem viver também nos fogos, em combustão sem consumação, em dor sem morte, pelo milagre do poderosíssimo Criador. Segue-se: "e se o teu pé te escandaliza".
Aqui certamente se evidencia que aqueles que são devotos ao nome de Cristo, e antes mesmo de serem admitidos no número dos cristãos, são mais úteis do que aqueles que, já sendo chamados cristãos e estando imbuídos dos sacramentos cristãos, persuadem outros a tais coisas que arrastam consigo para o castigo eterno os que convenceram; aos quais, sob o nome de membros corporais, como mão ou olho que escandaliza, ordena que sejam arrancados do corpo, isto é, da própria sociedade da unidade; para que sem eles se chegue à vida, em vez de com eles ir para a Geena. Por isso mesmo, separam-se daqueles dos quais se separam, quando não consentem com os que lhes sugerem coisas más, isto é, que os escandalizam. E se, de fato, eles se tornam conhecidos em sua perversidade por todos os bons com quem mantêm relação, são completamente separados de toda a sociedade e da própria participação nos sacramentos divinos. Se, porém, são assim conhecidos apenas por alguns, e sua perversidade é ignorada pela maioria, devem ser tolerados de tal modo que nem se consinta com eles na comunhão da iniquidade, nem por causa deles se abandone a sociedade dos bons.
São Marcos relata que o Senhor pronunciou estas coisas consecutivamente; e apresentou algumas coisas que nenhum outro Evangelista apresentou, outras que também São Mateus apresentou, e algumas que tanto São Mateus quanto São Lucas relataram; mas estes as incluíram em outras ocasiões e em uma ordem diferente dos acontecimentos. Por isso, parece-me que neste lugar o Senhor disse o que havia dito em outros lugares, porque isso era suficientemente pertinente à sua própria sentença, pela qual proibiu que se impedissem as virtudes realizadas em seu nome, mesmo por aquele que não o seguia com seus discípulos.
Nada, porém, importa para a verdade do fato se, como São Mateus narra, as próprias multidões, quando o Senhor proibiu a separação e confirmou Sua sentença com base na lei, levantaram a questão acerca do libelo de repúdio que lhes fora permitido pelo mesmo Moisés, ou se elas responderam isso sobre o preceito de Moisés quando interrogadas por Ele, como afirma São Marcos aqui; pois também a vontade Dele era tal que não lhes daria a razão pela qual Moisés o permitiu, a não ser que eles mesmos primeiro a mencionassem. Portanto, como a vontade dos que falam, à qual as palavras devem servir, é demonstrada por ambos os Evangelistas, já não importa, embora haja diferença no modo de narrar entre ambos. Pode-se entender também que, como diz São Marcos, primeiro eles, interrogando sobre o repúdio da esposa, o Senhor por sua vez perguntou o que Moisés lhes prescreveu; e quando responderam que Moisés permitiu escrever um libelo de repúdio e repudiar, Ele lhes respondeu a partir da própria lei dada por Moisés, como Deus instituiu a união do homem e da mulher, dizendo aquelas coisas que São Mateus relata; ouvindo isso, eles repetiram o que haviam respondido à primeira pergunta, dizendo: "Por que, então, Moisés ordenou?"
Não queria, porém, que a esposa fosse separada pelo marido, aquele que interpôs esta demora, para que o ânimo precipitado ao dissídio, refreado pela redação do documento, desistisse, especialmente porque, segundo relatam, entre os hebreus a ninguém era permitido escrever caracteres hebraicos, senão somente aos Escribas. A estes, portanto, que convinha que fossem prudentes intérpretes da lei e justos dissuasores do dissídio, a lei quis enviar aquele a quem ordenou dar o libelo de repúdio, caso despedisse a esposa. Pois não podia ser escrito o libelo senão por eles mesmos, para que por esta ocasião, vindo por necessidade de certo modo às suas mãos, o dirigissem com bom conselho, e, agindo pacificamente entre ele e a esposa, persuadissem ao amor e à concórdia. E se tão grande fosse o ódio que não pudesse ser extinto ou corrigido, então certamente se escreveria o libelo, porque em vão não despediria aquela a quem odiasse de tal modo que não pudesse ser chamado de volta à caridade devida ao matrimônio por nenhuma persuasão dos prudentes; por isso acrescenta-se: aos quais respondendo Jesus disse: por causa da dureza dos vossos corações escreveu-vos este preceito. Grande, de fato, era a dureza que nem pela interposição do libelo, onde se oferecia aos justos e prudentes ocasião de dissuadir, podia ser dissolvida ou dobrada para receber ou chamar de volta a caridade conjugal.
Eis que os judeus são convencidos pelos livros de Moisés de que não se deve despedir a esposa, enquanto eles pensavam que, ao despedi-la, estavam agindo conforme a vontade da lei de Moisés. Do mesmo modo, por este mesmo testemunho de Cristo, sabemos que Deus fez e uniu o homem e a mulher; ao negar isto, os maniqueus são condenados, resistindo não mais aos livros de Moisés, mas ao Evangelho de Cristo.
São Mateus expressou que isto foi dito por eles não por meio deles mesmos, mas por meio da mãe, quando ela apresentou a vontade deles ao Senhor; pelo que São Marcos, de forma breve, indica que mais eles mesmos do que ela disseram o que foi dito.
Por fim, o Senhor, tanto segundo São Marcos como segundo São Mateus, respondeu a eles mesmos de preferência à mãe; pois segue: Jesus, porém, disse-lhes: Não sabeis o que pedis.
Assim é, pois, que somente ele quis que Marcos o comemorasse, cuja iluminação trouxe a este milagre uma fama tão ilustre quanto era conhecida a sua calamidade. Lucas, porém, ainda que narre o fato exatamente do mesmo modo, deve-se entender que comemora um milagre semelhante em outro cego, e um modo semelhante do mesmo milagre. Segue-se: e tendo ouvido que era Jesus de Nazaré, começou a clamar e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim.
São Mateus diz uma asna e um potro, os demais, porém, silenciam sobre a asna. Onde, portanto, ambos os casos podem ser entendidos, não há nenhuma discordância, nem mesmo se um mencionasse um e outro mencionasse o outro; quanto menos devemos nos perturbar, se um menciona um e outro menciona ambos? Segue-se: E alguns dos que estavam ali lhes diziam: Por que desatais o potro? E eles lhes responderam conforme Jesus lhes havia ordenado, e eles lhes permitiram levá-lo, isto é, o potro.
São João, entretanto, narra isto em uma ordem muito diferente; pelo que é manifesto que não uma só vez, mas duas vezes, isto foi feito pelo Senhor; sendo que a primeira foi relatada por São João, e a última pelos outros três evangelistas.
Nisso também São Marcos não mantém a mesma ordem que São Mateus, mas como São Mateus assim conecta: "e deixando-os, saiu para fora da cidade, para Betânia"; e daí comemora que, ao retornar pela manhã à cidade, amaldiçoou a árvore; acredita-se com maior probabilidade que ele manteve a ordem temporal dos acontecimentos sobre os vendedores e compradores expulsos do templo. São Marcos, portanto, omitiu o que foi feito no primeiro dia, quando entrou no templo, e ao recordar-se inseriu isso, depois de ter dito que não encontrou nada na figueira exceto folhas; o que foi feito no segundo dia, como ambos testemunham.
Entende-se, porém, que ela não secou quando a viram, mas imediatamente quando foi amaldiçoada; pois eles não a viram começando a secar, mas completamente seca; e assim compreenderam que ela secou imediatamente à palavra do Senhor.
E, de fato, São Mateus acrescenta que eles responderam e disseram: destruirá miseravelmente aqueles homens maus, o que Marcos aqui não recorda ter sido respondido por eles, mas que o Senhor, após sua interrogação, teria, de certo modo, respondido a si mesmo. Mas facilmente se pode entender ou que a voz deles foi acrescentada de tal modo que não se interpunha eles responderam ou eles disseram, mas ainda assim seria compreendido; ou que esta resposta foi atribuída ao Senhor, porque quando eles disseram a verdade, mesmo sobre eles o próprio Senhor respondeu, Ele que é a verdade.
E não nos espante que São Mateus diga que aquele que interrogou o Senhor estava a tentá-Lo; pois pode ser que, embora tenha se aproximado como tentador, tenha sido corrigido pela resposta do Senhor. Ou então, não devemos considerar a tentação como má, como se quisesse enganar como inimigo, mas antes como uma cautela daquele que desejava provar mais profundamente algo que lhe era desconhecido.
Interrogado pelos discípulos, o Senhor respondeu sobre as coisas que deveriam suceder a partir daquele momento, seja sobre a destruição de Jerusalém, de onde surgiu a ocasião da própria interrogação; seja sobre sua vinda por meio da Igreja, na qual não cessa de vir até o fim: pois é reconhecido vindo nos seus, enquanto seus membros nascem diariamente; seja sobre o próprio fim, no qual aparecerá para julgar os vivos e os mortos.
São Mateus acrescenta: "e então virá a consumação"(São Mateus 24,14). Mas isto que São Marcos diz primeiramente, significa certamente antes que venha a consumação.
São Mateus diz: "estando no lugar santo"; nesta mudança de palavra, porém, Marcos expôs o mesmo sentido: com efeito, por isso disse "onde não deve", porque no lugar santo não deve.
Lucas, porém, para mostrar que a abominação da desolação aconteceu quando Jerusalém foi conquistada, neste mesmo lugar comemora as palavras do Senhor: "Quando virdes Jerusalém cercada por um exército, então sabei que se aproxima a sua desolação"(São Lucas 21,20). Segue-se: "Então os que estiverem na Judeia fujam para os montes".
Josefo, que escreveu as histórias judaicas, relata que tamanhas desgraças sobrevieram àquele povo, que parecem dificilmente críveis. Por isso foi dito, não sem razão, que não houve tal tribulação desde o princípio da criação, nem haverá no futuro. Mas ainda que no tempo do Anticristo haja uma tribulação semelhante ou talvez maior, deve-se entender que foi dito sobre aquele povo que para eles não haverá mais uma tribulação tão grande. Pois se eles serão os primeiros e principais a receber o Anticristo, pode-se dizer que o mesmo povo causará a tribulação, mais do que a sofrerá.
Alguns, porém, parecem-me entender de modo mais adequado que os próprios males são significados pelo nome de dias, assim como são chamados dias maus em outros lugares da Sagrada Escritura: pois os próprios dias não são maus, mas aquilo que neles acontece. Diz-se, portanto, que estes mesmos [males] são abreviados para que, sendo Deus quem concede a tolerância, os sentissem menos, e assim aquilo que era grande se tornasse breve.
Pois então Satanás será solto, e por meio do Anticristo operará com todo o seu poder, de modo maravilhoso, mas enganoso. Costuma-se questionar se as palavras do Apóstolo sobre sinais e prodígios de mentira foram ditas porque ele enganará os sentidos mortais por meio de fantasmas, fazendo parecer que realiza o que de fato não realiza; ou porque aqueles mesmos prodígios, ainda que sejam verdadeiros, conduzirão à mentira os que acreditarem que tais coisas não poderiam ser feitas senão pelo poder divino, desconhecendo o poder do Diabo, especialmente quando este receber um poder tão grande como nunca antes teve. Mas, seja qual for o motivo pelo qual isso foi dito, serão seduzidos por estes sinais e prodígios aqueles que merecerem ser seduzidos.
Pois Ele não somente predisse os bens que haveria de entregar aos seus santos e fiéis, mas também os males que haveriam de abundar neste mundo, para que esperássemos com mais certeza os bens que virão após o fim dos tempos, quando sentíssemos os males igualmente prenunciados a preceder o fim do mundo.
Porque foi dito aos Apóstolos pelos Anjos: "assim virá como O vistes ir ao céu"(Atos 1,11), merecidamente deve-se crer que Ele virá não somente no mesmo corpo, mas também em uma nuvem, pois assim virá como partiu, e uma nuvem o recebeu enquanto partia.
Pois a visão do Filho do homem é mostrada também aos maus; mas a visão da forma de Deus somente aos puros de coração, "porque eles verão a Deus"(São Mateus 5,8). E porque os iníquos não podem ver o Filho de Deus, segundo aquilo que na forma de Deus é igual ao Pai, e convém que o juiz dos vivos e dos mortos, diante do qual serão julgados, seja visto tanto pelos justos quanto pelos iníquos; por isso era necessário que o Filho do homem recebesse o poder judiciário; de cuja execução logo se acrescenta "e então enviará os seus Anjos".
Ou de outro modo. Todas as coisas que foram ditas pelos três evangelistas sobre a vinda do Senhor, diligentemente comparadas e examinadas entre si, talvez se descubra que pertencem àquela vinda quotidiana em seu corpo, que é a Igreja, com exceção daqueles lugares onde a última vinda é prometida como se estivesse próxima: como no final do discurso segundo São Mateus, onde a própria vinda é claramente expressa, quando diz: "quando vier o Filho do homem em sua majestade". Pois o que significa "quando virdes estas coisas acontecerem", senão aquelas coisas que disse acima, entre as quais está também o que diz "e então verão o Filho do homem vindo nas nuvens"? Portanto, não será então o fim, mas então estará próximo. Ou deve-se dizer que nem todas as coisas que foram mencionadas acima devem ser compreendidas, mas algumas delas, exceto claramente o que foi dito "e então verão o Filho do homem vindo"? Pois este será o próprio fim, não estará apenas próximo. Mas São Mateus esclareceu que se deve entender sem exceções, dizendo: "quando virdes todas estas coisas, sabei que está próximo, às portas". Entende-se, portanto, que o que foi dito acima é assim: "e enviará seus Anjos das quatro partes do mundo", isto é, de toda a terra reunirá seus eleitos; o que faz inteiramente na última hora, vindo em seus membros como nas nuvens.
Não somente disse àqueles que então ouviam as Suas palavras, mas também àqueles que vieram depois deles, antes de nós, e a nós mesmos, e aos que virão depois de nós até a Sua última vinda. Porventura aquele dia encontrará todos ainda vivos nesta vida, ou alguém dirá que também aos mortos se refere quando diz "vigiai, para que, quando vier repentinamente, não vos encontre dormindo"? Por que, então, diz a todos o que só pertence àqueles que então estarão vivos, senão porque pertence a todos, como eu disse? Pois aquele dia virá para cada um quando vier o seu dia de partir desta vida, de tal modo que, como sair daqui, assim será julgado naquele dia; e, por isso, todo cristão deve vigiar, para que o advento do Senhor não o encontre despreparado. E aquele dia encontrará despreparado quem o último dia de sua vida encontre despreparado.
Eu, porém, julgo que não se deve entender outra coisa senão que não foi uma outra mulher, aquela que, sendo pecadora, então se aproximou dos pés de Jesus, mas a mesma Maria fez isto duas vezes: uma vez, certamente, como narra Lucas, quando, aproximando-se pela primeira vez com humildade e lágrimas, mereceu a remissão dos pecados. Pois também João comemora isto, quando começara a falar sobre a ressurreição de Lázaro, antes que viesse a Betânia, dizendo: "Maria era aquela que ungiu o Senhor com unguento e enxugou os seus pés com os seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava enfermo". O que, porém, novamente fez em Betânia é outra coisa que não pertence à narração de Lucas, mas é igualmente narrada pelos outros três. Quanto ao fato de que Mateus e Marcos dizem que a cabeça do Senhor foi perfumada com aquele unguento, e João, por sua vez, os pés, entendamos que a mulher perfumou não só a cabeça, mas também os pés do Senhor; a não ser que, porventura, porque Marcos menciona que, quebrado o vaso de alabastro, a cabeça foi perfumada, algum caluniador seja tal que negue que em um vaso quebrado pudesse restar algo com que também perfumasse os pés do Senhor. Mas alguém, de modo mais piedoso, sustentará que não foi quebrado de tal forma que derramasse todo o conteúdo; ou então, que primeiro receberam o perfume os pés, antes que aquele fosse quebrado, para que no vaso íntegro permanecesse com que também a cabeça fosse perfumada.
Pode parecer contraditório que São Mateus e São Marcos, depois de mencionarem a Páscoa e os dois dias, em seguida recordaram que Jesus estava em Betânia, onde se fala daquele precioso unguento; enquanto São João diz que Jesus veio a Betânia seis dias antes da Páscoa, dispondo-se a narrar sobre o mesmo unguento. Mas aqueles que se perturbam com isso não compreendem que São Mateus e São Marcos não colocaram aquele episódio do unguento em Betânia imediatamente após aquela predição dos dois dias, mas por meio de recapitulação, quando ainda faltavam seis dias para a Páscoa.
São Marcos diz lagena [cântaro], enquanto São Lucas diz amphora [ânfora]: aquele indicou o tipo de vaso, este o modo de carregá-lo; ambos, porém, preservaram a verdade do sentido.
Embora todos os Evangelistas digam que o Senhor predisse que Pedro o negaria antes que o galo cantasse, São Marcos narrou isso mais detalhadamente; por isso alguns, por falta de atenção, consideram que ele não concorda com os demais. Pois toda a negação de Pedro é tríplice; se ela tivesse começado inteiramente após o canto do galo, os outros três Evangelistas pareceriam ter falado falsamente, ao dizer que, antes que o galo cantasse, ele o negaria três vezes. Por outro lado, se ele tivesse terminado toda a tripla negação antes que o galo começasse a cantar, São Marcos, na pessoa do Senhor, pareceria ter dito desnecessariamente: "Antes que o galo cante duas vezes, tu me negarás três vezes". Mas como aquela tripla negação começou antes do primeiro canto do galo, os outros três não notaram quando Pedro a concluiria, mas quão grande seria, isto é, tripla, e quando começaria, isto é, antes do canto do galo; embora toda ela já estivesse concebida em seu ânimo, mesmo antes do primeiro canto do galo. São Marcos, porém, relatou mais claramente o intervalo entre as próprias palavras.
Ele não disse: se pudesse fazer, mas se pudesse ser feito; pois pode ser feito o que Ele quiser. Assim, portanto, foi dito se pudesse ser feito, como se fosse dito: se quisesse. E para que ninguém pensasse que Ele diminuiu o poder do Pai, manifestou em que sentido deve ser entendido o que foi dito: pois segue-se e disse: Abba, Pai, todas as coisas te são possíveis; no que mostra suficientemente que não foi dito se pudesse ser feito por impossibilidade, mas pela vontade do Pai. Quanto ao que Marcos recorda, que Ele não disse apenas Pai, mas Abba, Pai; isto é, Abba em hebraico, que em latim é Pai. E talvez o Senhor, por causa de algum sacramento, tenha dito ambas as palavras, querendo mostrar que Ele tomou aquela pessoa triste na pessoa de seu corpo, isto é, da Igreja, da qual se tornou pedra angular, vindo a Ele em parte dos hebreus, aos quais pertence o que diz abba, em parte dos gentios, aos quais pertence o que diz pai.
Ou de outro modo. Pelo fato de que, tendo dito "dormi agora, e descansai", acrescenta "basta", e depois diz "vem a hora, eis que o Filho do Homem será entregue", deve-se certamente entender que, após aquele "dormi e descansai", o Senhor calou-se por algum tempo, para que se realizasse o que Ele havia dito antes; e então acrescentou "vem a hora"; e por isso interpõe "basta", ou seja, já descansastes o suficiente.
São Mateus, porém, não disse que Jesus respondeu: Eu sou, mas: Tu o disseste; mas São Marcos mostra que o que lhe diz: Tu o disseste, tem o mesmo valor que se dissesse Eu sou. Segue-se: E vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu(São Mateus 26,64).
Deve-se entender por isso que o Senhor sofreu estas coisas até a manhã na casa do príncipe dos sacerdotes, para onde foi primeiramente conduzido.
Sobre a tentação de Pedro, que aconteceu durante os mencionados ultrajes ao Senhor, nem todos os Evangelistas narram na mesma ordem. Pois São Lucas explica primeiro a tentação de Pedro, e somente depois estes ultrajes ao Senhor; São João, no entanto, começa a relatar a tentação de Pedro, e interpõe algumas coisas sobre os ultrajes ao Senhor, e acrescenta que dali foi enviado ao pontífice Caifás; e então recapitula, para explicar a tentação de Pedro que havia começado. Já São Mateus e São Marcos primeiro mencionam os ultrajes a Cristo, depois a tentação de Pedro, sobre a qual se diz: "E estando Pedro embaixo no átrio, veio uma das servas do sumo sacerdote".
Esta serva não é a mesma, mas outra, como diz São Mateus. Certamente isto também se entende, porque na segunda negação ele foi interpelado por duas pessoas, ou seja, pela serva que São Mateus e São Marcos mencionam, e por outro que São Lucas menciona. Segue-se "mas ele negou novamente". Pedro já havia retornado para que, como diz São João, estando ao lado do fogo negasse novamente: por isso a serva dizia o que foi dito, não a ele, isto é, a Pedro, mas àqueles que permaneciam ali quando ele saiu; de tal modo, porém, que ele ouvisse; por isso, voltando e estando novamente junto ao fogo, resistia negando às palavras deles. De fato, confrontando-se todos os testemunhos dos Evangelistas sobre este assunto, conclui-se claramente que Pedro não negou pela segunda vez diante da porta, mas dentro, no átrio, junto ao fogo; São Mateus e São Marcos, que mencionaram que ele saiu, por causa da brevidade, silenciaram sobre o seu regresso.
São Lucas também revelou aqueles crimes que falsamente objetaram: pois assim narra: "começaram a acusá-lo, dizendo: encontramos este pervertendo a nossa nação, e proibindo dar tributos a César, e dizendo ser ele próprio o Cristo rei"(São Lucas 23,2). Segue-se: "Pilatos, novamente o interrogava, dizendo: não respondes nada? Vês de quantas coisas te acusam?"
Não há dúvida que São Mateus omite que eles próprios pediram que lhes fosse libertado alguém, o que São Marcos aqui diz. Pois nada importa se um silencia sobre algo que outro menciona. Segue-se: "Pilatos, então, respondeu e disse: Quereis que vos solte o rei dos judeus?" Pois ele sabia que por inveja os sumos sacerdotes o haviam entregado. Pode-se questionar quais palavras Pilatos disse, se as que são referidas por São Mateus ou as que são referidas por São Marcos? Pois parece ser uma coisa diferente: "A quem quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo?", como São Mateus refere; e outra: "Quereis que vos solte o rei dos judeus?", como aqui é dito. Mas porque chamavam reis de cristos, e quem disse este ou aquele, é manifesto que ele perguntou se queriam que fosse solto o rei dos judeus, isto é, Cristo. Nada importa para o sentido que São Marcos aqui tenha silenciado sobre Barrabás, querendo apenas dizer o que pertencia ao Senhor; visto que na resposta deles, também ele mesmo mostra suficientemente quem eles queriam que lhes fosse solto; pois segue-se: "Porém os pontífices incitaram a multidão para que lhes soltasse antes Barrabás."
Já está suficientemente claro que aquilo que São Marcos quer mostrar ao dizer rei dos judeus, São Mateus o diz chamando-o Cristo; pois não eram chamados Cristos senão os reis dos judeus. De fato, neste lugar, segundo São Mateus, diz-se: "Que farei então de Jesus que se chama Cristo?" Segue-se: "E eles clamavam: crucifica-o".
Entende-se que o que São Mateus diz: "cobriram-no com um manto escarlate", aqui São Marcos expressou como "vestido de púrpura"; pois aquele manto escarlate foi usado por eles em zombaria no lugar da púrpura real; e há certa púrpura avermelhada muito semelhante ao escarlate. Também pode ser que São Marcos tenha mencionado alguma púrpura que o manto continha, embora fosse de cor escarlate.
Parece, pois, que São Mateus e São Marcos colocaram estas coisas recapitulando, não como se tivesse acontecido quando Pilatos já o havia entregado para ser crucificado. Pois São João diz que estas coisas ocorreram na casa de Pilatos. Mas o que segue, "E depois que zombaram dele, tiraram-lhe a púrpura e vestiram-no com suas próprias vestes", deve ser entendido como tendo acontecido por último, quando ele já estava sendo conduzido para ser crucificado.
Isto deve ser entendido como o que São Mateus expressou por "misturado com fel"; pois ele usou fel para qualquer coisa amarga, e o vinho misturado com mirra é amaríssimo; embora seja possível que tanto o fel quanto a mirra tenham tornado o vinho extremamente amargo.
O que se segue, "e não aceitou", deve-se entender: não aceitou para beber; mas provou, como São Mateus testifica, e como o mesmo São Mateus diz: "não quis beber", isto mesmo Marcos expressou como "e não aceitou"; porém calou-se quanto ao fato de que Ele provou.
Se à hora quase sexta, estando Pilatos sentado no tribunal, Jesus foi entregue aos judeus para ser crucificado, como relata São João; como foi crucificado à hora terceira, como pensaram alguns que não entenderam as palavras de São Marcos? Vejamos, pois, primeiro a que hora poderia ter sido crucificado; depois veremos por que São Marcos disse que foi crucificado à hora terceira. Era quase a hora sexta quando foi entregue para ser crucificado por Pilatos sentado em seu tribunal, como foi dito: pois não era ainda plenamente a sexta hora, mas quase a sexta, isto é, terminada a quinta, e já havia começado algo da sexta, de modo que, terminada a quinta e iniciada a sexta, ocorreram estas coisas que foram narradas na crucificação de nosso Senhor, até que, completada a sexta hora, estando Ele pendente, aconteceram aquelas trevas que são mencionadas. Mas perguntemos agora por que São Marcos disse: "Era a hora terceira, e o crucificaram". Certamente ele já havia dito: "E crucificando-o, dividiram as suas vestes"; assim também os outros atestam que, tendo sido Ele crucificado, suas vestes foram divididas. Pois se São Marcos quisesse lembrar o tempo do acontecimento, teria sido suficiente dizer: "Era a hora terceira". Por que acrescentou "e o crucificaram"? A não ser porque quis, recapitulando, significar algo que, sendo investigado, poderia ser descoberto quando a própria Escritura fosse lida naqueles tempos em que era conhecido por toda a Igreja a que hora o Senhor foi suspenso no madeiro; donde poderia ser removido tal erro, ou refutada tal mentira. Mas porque sabia que o Senhor foi suspenso pelos soldados, não pelos judeus, como São João muito claramente diz, quis mostrar ocultamente que mais o crucificaram aqueles que clamaram para que fosse crucificado, do que aqueles que segundo seu ofício prestaram serviço ao seu príncipe. Entende-se, portanto, que era a hora terceira quando os judeus clamaram para que o Senhor fosse crucificado; e demonstra-se com toda a verdade que o crucificaram quando clamaram. Nas tentativas de Pilatos para livrar o Senhor, e no tumulto dos judeus que se opunham, entendemos que se consumiu o tempo de duas horas, e que era por volta da hora sexta, a qual ainda não tinha terminado, quando ocorreram as coisas que são narradas desde o momento em que Pilatos entregou o Senhor até que foram feitas as trevas. E facilmente verá, quem sem a dureza da impiedade quiser atentar, quão oportunamente São Marcos colocou isto sobre a hora terceira, onde certamente é mencionado o feito dos soldados que eram os ministros. Portanto, para que ninguém, desviando o pensamento de tão grande crime dos judeus, o atribuísse àqueles soldados, "era", diz ele, "a hora terceira, e o crucificaram"; para que se descubra que antes o crucificaram aqueles que, como encontrará o diligente investigador, puderam clamar à hora terceira para que fosse crucificado, quando advertir que isto que foi feito pelos soldados, foi feito à hora sexta.
Ele pretende, pois, dar a entender que a sentença dos judeus sobre a crucificação de Cristo foi proferida na terceira hora. Pois todo aquele que é condenado à morte já é considerado morto a partir do momento em que recebe a sentença. Portanto, Marcos manifestou que o Salvador não foi crucificado pela sentença do juiz, pois é difícil provar a inocência daquele que é punido pela sentença do juiz.
Ainda que não faltem aqueles que queiram entender como hora terceira do dia a parasceve que João comemora dizendo: "era, pois, a parasceve, cerca da hora sexta"; dizem, com efeito, que naquele dia, que era seguido pelo dia de sábado, foi a parasceve da Páscoa dos judeus, porque desde aquele mesmo sábado já começavam os ázimos; contudo, a verdadeira Páscoa, que já se celebra na paixão do Senhor, não dos judeus, mas dos cristãos, começou a ser preparada, isto é, a ter parasceve, a partir da hora nona daquela noite, quando o Senhor estava sendo preparado pelos judeus para ser morto; parasceve, de fato, significa preparação. Portanto, desde aquela hora da noite até a sua crucificação, ocorre a hora sexta da parasceve segundo João, e a hora terceira do dia segundo Marcos. Que fiel não favoreceria esta solução da questão? Contanto que se possa conjecturar algum ponto a partir do qual entendamos adequadamente que desde a hora nona da noite começou a parasceve da nossa Páscoa, isto é, a preparação da morte de Cristo. Pois se dissermos que ela começou quando o Senhor foi apreendido pelos judeus, era ainda a primeira parte da noite; mas quando foi conduzido à casa do sogro de Caifás, onde também foi ouvido pelos príncipes, o galo ainda não havia cantado. Porém, se quando foi entregue a Pilatos, já era manhã, conforme está escrito clarissimamente; resta, portanto, que entendamos que a preparação da morte do Senhor começou quando todos os príncipes dos sacerdotes disseram: "é réu de morte". De fato, não é absurdo conjecturar que naquele tempo podia ser a hora nona da noite, de modo que por recapitulação se entenda que foi dito posteriormente sobre a negação de Pedro o que havia sido feito antes. Segue-se: "e estava escrito o título da sua causa: rei dos judeus".
Como isso pode ser verdadeiro, quando, segundo o testemunho de São Lucas, um deles o injuriou, enquanto o outro o repreendeu e creu em Deus; a não ser que entendamos que São Mateus e São Marcos, abordando brevemente este trecho, usaram o número plural em lugar do singular?
São Lucas acrescentou a causa das trevas, isto é, o sol obscurecido.
Quanto a Elias, porém, São Mateus narrou que não foi aquele que ofereceu a esponja com vinagre, mas sim os outros que falaram; donde entendemos que tanto ele quanto os demais disseram isso.
E isto o admirou grandemente, que após aquela voz, na qual expressou a figura do nosso pecado, imediatamente entregou o espírito: pois o espírito do Mediador demonstrou que nenhuma pena de pecado havia alcançado até à morte da sua carne; porque não a abandonou contra a sua vontade, mas como quis, uma vez que estava unido ao Verbo de Deus na unidade da pessoa.
O que São Lucas diz: "muito de madrugada", e São João: "pela manhã, quando ainda estava escuro", isto deve ser entendido quando Marcos diz "muito cedo, nascendo já o sol", isto é, quando o céu do lado do oriente começava a clarear, o que certamente acontece pela proximidade do sol nascente. Pois aquele é o fulgor que costuma ser chamado pelo nome de aurora; por isso não contradiz o que diz: "quando ainda estava escuro". Com efeito, ao surgir o dia, alguns resquícios das trevas são tanto menores quanto mais a luz nasce; e não se deve entender o que diz "muito cedo, nascido já o sol", como se o próprio sol já fosse visto sobre a terra, mas pela aproximação do sol a estas partes, isto é, pelo seu nascimento já começando a iluminar o céu.
Ou entendamos que São Mateus guardou silêncio sobre aquele Anjo que viram ao entrar, e São Marcos sobre aquele que viram sentado sobre a pedra do lado de fora; de modo que viram dois, e ouviram separadamente de ambos o que os Anjos disseram sobre Jesus: ou certamente devemos compreender o "entrar no sepulcro" como o adentrar em algum recinto murado, que provavelmente cercava o local naquela época em algum espaço à frente da pedra; pedra essa que, tendo sido escavada, tornou-se o lugar da sepultura, de modo que viram no mesmo espaço sentado à direita aquele que São Mateus diz estar sentado sobre a pedra.
Quanto ao que diz "ele irá adiante de vós à Galileia; lá o vereis como vos disse", parece significar que Jesus não haveria de mostrar-se aos seus discípulos depois da ressurreição senão na Galileia; demonstração esta que o próprio Marcos não comemorou; pois aquilo que disse "na manhã do primeiro dia da semana apareceu a Maria Madalena (...). Depois disso, a dois que iam para o campo", aconteceu em Jerusalém no próprio dia da ressurreição; depois vem à última manifestação, que sabemos ter ocorrido no monte das Oliveiras, não longe de Jerusalém. Portanto, Marcos nunca comemora o cumprimento daquilo que testifica ter sido prenunciado pelo Anjo. São Mateus, por sua vez, não comemora em absoluto nenhum outro lugar onde os discípulos, depois que ressuscitou, viram o Senhor, a não ser na Galileia, segundo a predição do Anjo. Mas como não foi especificado quando isto haveria de acontecer, se primeiro, antes que fosse visto por eles em outro lugar, e como o próprio fato de que São Mateus diz que os discípulos foram à Galileia, ao monte, não expressa o dia nem a ordem da narração; São Mateus não se opõe às narrações dos outros; mas dá lugar a que sejam entendidas e aceitas. Contudo, o fato de que o Senhor não se demonstraria ali primeiro, mas na Galileia, onde depois foi visto, mandou que o vissem, torna todo fiel atento para procurar em que sentido misterioso isto deva ser entendido.
Também se indica que a graça de Cristo haveria de passar do povo de Israel para os gentios, os quais de modo algum teriam recebido os apóstolos quando pregassem, se o Senhor não os tivesse precedido e preparado o caminho em seus corações; e isto é o que significa: "Ele irá adiante de vós para a Galileia, lá o vereis", isto é, lá encontrareis os seus membros. Segue-se: "E, saindo elas, fugiram do sepulcro, pois haviam sido tomadas de tremor e pavor".
Pode-se, porém, perguntar como Marcos diz isto, quando São Mateus diz: "e saíram rapidamente do sepulcro com temor e grande alegria, correndo para anunciar aos discípulos dele", a não ser que entendamos que elas não ousaram dizer algo a nenhum dos próprios Anjos, isto é, responder àquilo que deles tinham ouvido; ou certamente aos guardas que viram deitados. Pois aquela alegria que São Mateus menciona não se opõe ao temor de que Marcos fala: devemos, de fato, entender que ambos os sentimentos ocorreram na alma delas, mesmo que São Mateus não falasse do temor. Mas quando ele mesmo diz: "saíram rapidamente do sepulcro com temor e grande alegria", não permite que permaneça qualquer questão sobre este assunto.
Agora, depois da ressurreição, deve-se considerar como o Senhor apareceu: pois diz São Marcos: "Tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios".
Sobre esses dois, dos quais um era Cleofas, São Lucas narra tudo, mas São Marcos aqui relata brevemente. Aquele castelo do qual São Lucas fala, não é absurdo entendermos que também poderia ser chamado de granja; e nos códices gregos encontramos mais frequentemente a palavra campo do que granja; pelo nome de campo costumam ser designados não apenas castelos, mas também municípios e colônias fora da cidade, que é como que a cabeça e mãe das demais. Quanto ao que São Marcos diz, que o Senhor lhes apareceu em outra forma, São Lucas o expressa dizendo que os olhos deles estavam impedidos para que não o reconhecessem. De fato, algo havia ocorrido aos olhos deles, que foi permitido permanecer assim até a fração do pão.
De que modo, porém, isto foi feito por último? Com efeito, o último dia foi aquele em que os apóstolos viram o Senhor na terra, o que aconteceu no quadragésimo dia após a sua ressurreição. Será que naquela ocasião iria repreendê-los por não terem acreditado naqueles que o viram ressuscitado, quando eles mesmos, após a ressurreição, já o tinham visto tantas vezes? Resta, portanto, que entendamos que Marcos quis aqui comemorar brevemente, e já disse "por último", porque foi o último fato naquele mesmo dia, já iniciando o tempo noturno, depois que os discípulos voltaram do povoado para Jerusalém e encontraram, como diz São Lucas, os onze e os que estavam com eles falando da ressurreição do Senhor. Mas certamente estavam ali alguns que não acreditavam. A estes, pois, como diz São Marcos, enquanto estavam à mesa, e ainda falando sobre isso, como diz São Lucas, o Senhor apareceu no meio deles e lhes disse: "a paz esteja convosco", como dizem São Lucas e São João. Assim, entre as palavras do Senhor que São Lucas e São João dizem que Ele então falou aos discípulos, interpõe-se também aquela repreensão da qual São Marcos aqui fala. Mas isso novamente levanta uma questão: como São Marcos diz ter aparecido aos onze quando estavam à mesa, se aquele era o tempo do dia do Senhor, já no início da noite, quando São João claramente diz que Tomé não estava com eles? Acreditamos que ele havia saído dali antes que o Senhor entrasse para junto deles, depois que aqueles dois, voltando do povoado, conversaram com os próprios onze, como se encontra em São Lucas. Mas São Lucas, em sua narrativa, dá lugar para que se possa entender que, enquanto falavam essas coisas, Tomé saiu primeiro, e depois o Senhor entrou. São Marcos, porém, que diz que por último apareceu aos onze quando estavam à mesa, obriga-nos a confessar que Tomé estava lá também; a não ser que, embora um estivesse ausente, ele quisesse chamá-los de onze, porque a mesma sociedade apostólica era então chamada por este número, antes que Matias fosse escolhido para o lugar de Judas. Ou, se isto é difícil de aceitar, aceitemos que, após muitas demonstrações dele, apareceu por último aos onze reclinados à mesa, isto é, no próprio quadragésimo dia. E como já estava prestes a ascender ao céu, quis mais naquele dia repreendê-los porque não tinham acreditado nos que o ouviram ter ressuscitado, antes que eles mesmos o vissem; uma vez que, certamente, após sua ascensão, quando pregassem o Evangelho, até mesmo os gentios que não o viram haveriam de acreditar. Pois depois daquela repreensão, o mesmo São Marcos diz: "E disse-lhes: ide por todo o mundo"; e abaixo: "mas quem não crer será condenado". Portanto, aqueles que iriam pregar isto, não deveriam primeiro ser repreendidos, porque antes de verem o Senhor, não acreditaram naqueles a quem Ele aparecera primeiro?
Nisso parece mostrar claramente o suficiente que a última conversa com eles na terra foi a que acabara de ter, embora não pareça nos obrigar inteiramente a esta opinião; pois não diz: "Depois que lhes falou estas coisas"; por isso permite, se a necessidade obrigasse, que aquela não fora a última conversa, mas que a tudo o que lhes falou durante todos aqueles dias pode referir-se o que foi dito: "Depois que lhes falou, foi elevado ao céu". Mas como o que dissemos acima sugere mais fortemente que foi o último dia, por isso, após a fala prévia que São Marcos recordou, acrescentando também aquelas palavras que são recordadas nos Atos dos Apóstolos, deve-se crer que o Senhor foi elevado ao céu.
Portanto, não devemos entender essa posição sentada como se Ele estivesse colocado ali em membros humanos, como se o Pai se sentasse à esquerda e o Filho à direita; mas pela própria mão direita entendemos o poder que Ele como homem recebeu de Deus, para que venha a julgar quem primeiro veio para ser julgado. Pois por estar sentado expressamos habitação, como dizemos de alguém: ele se estabeleceu naquele país por três anos; desta maneira, então, creia que Cristo habita à direita de Deus Pai. Pois Ele é bem-aventurado e habita na bem-aventurança, que é chamada de mão direita do Pai; pois tudo ali é mão direita, uma vez que não há miséria. Segue-se: "E eles, partindo, pregaram por toda parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiam."
Mas como foi este anúncio cumprido pelos Apóstolos, quando até agora há povos nos quais apenas começou, e outros nos quais ainda não começou a ser cumprido? Certamente este mandato não foi dado pelo Senhor aos Apóstolos como se somente eles, a quem então falava, tivessem de cumprir tão grande encargo; do mesmo modo como parece ter dito somente a eles: "Eis que estou convosco até a consumação dos séculos"; o que, no entanto, Ele prometeu a toda a Igreja, a qual, enquanto uns morrem e outros nascem, permanecerá aqui até a consumação do século - quem não entenderia isso?
O que Deus concedia àqueles que, pela unção do óleo, eram consagrados como reis ou sacerdotes, isto o Espírito Santo conferiu ao homem Cristo, acrescentando ademais uma purificação. O Espírito Santo purificou aquilo que, tomado da Virgem Maria, foi elevado ao corpo do Salvador, e esta é aquela unção do corpo do Salvador, pela qual ele foi chamado Cristo.1
[1] Esta passagem é de uma obra comumente atribuída a Hilário, o Diácono. Os Padres confirmam sua doutrina; por exemplo, "Uma vez que a carne não é santa em si mesma, portanto foi santificada mesmo em Cristo, o Verbo que nela habitava, através do Espírito Santo, santificando Seu próprio Templo e transformando-o na energia de Sua própria Natureza. Pois, portanto, o Corpo de Cristo é entendido como sendo tanto santo quanto santificador, sendo feito um Templo do Verbo unido a ele corporalmente, como Paulo diz." Cirilo de Alexandria, lib. v. in Joann. p. 992. De maneira semelhante, Gregório de Nazianzo fala do "Pai do Verdadeiro e realmente Ungido (Cristo), a quem Ele ungiu com o óleo da alegria acima de seus companheiros, ungindo a humanidade com a Divindade, para tornar ambos um." Orat. 5. fin. ↩
O erro dos hereges sobre Cristo limita-se a três gêneros: ou se enganam sobre a divindade, ou sobre a humanidade, ou sobre ambas.1
[1] Trad. Joseph Kenny, O.P. ↩
Cerinto e Ebion afirmaram que Jesus Cristo era somente um homem, a quem Paulo de Samosata, seguindo-os, asseverou que Cristo não existiu desde a eternidade, mas que seu início se deu a partir do seu nascimento da Virgem Maria; e tampouco pensa que Ele seja algo mais do que um homem. Esta heresia foi posteriormente confirmada por Fotino.
A perversidade de Nestório foi predicar que apenas um homem foi gerado da bem-aventurada Virgem Maria, ao qual o Verbo de Deus não teria recebido na unidade da pessoa e em comunhão inseparável; o que os ouvidos dos Católicos de modo algum puderam suportar.
Alguns afirmam que Sabélio foi discípulo de Noeto, que ensinava que Cristo era o mesmo e idêntico Pai e Espírito Santo.
Os maniqueus diziam que o Senhor Jesus Cristo era um fantasma, e não poderia nascer do ventre de uma mulher.
Mas se o corpo de Cristo foi um fantasma, Cristo enganou; e se engana, não é a verdade. Cristo, porém, é a verdade; portanto, seu corpo não foi um fantasma.
Por isso Fausto diz: "O Evangelho certamente começou a existir e a ser assim chamado a partir da pregação de Cristo, na qual ele em nenhum lugar diz ter nascido dos homens. De fato, a genealogia está longe de ser o Evangelho, a tal ponto que nem o seu escritor ousou chamá-la de Evangelho. Pois o que ele escreve? 'Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi'; portanto, não é 'livro do Evangelho de Jesus Cristo', mas 'livro da geração'. Mas São Marcos, como não se preocupou em escrever a genealogia, mas apenas a pregação do Filho de Deus, que é o Evangelho, vede quão adequadamente ele começou: 'Evangelho', diz ele, 'de Jesus Cristo, Filho de Deus'(São Marcos 1,1), para que a partir disso fique suficientemente claro que a genealogia não é o Evangelho; pois também no próprio São Mateus, após João ter sido encarcerado, lê-se então que Jesus começou a pregar o Evangelho do reino(São Mateus 4,17). Portanto, tudo o que é narrado antes disso, consta que é genealogia, não Evangelho. Por isso, voltei-me a São João e São Marcos, cujos princípios me agradaram com razão, porque não introduzem nem Davi, nem Maria, nem José."
O que responderá, portanto, ao apóstolo que diz: Lembra-te que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, da descendência de Davi, segundo o meu Evangelho? E aquilo que era o Evangelho do apóstolo São Paulo, também era o dos outros apóstolos e de todos os fiéis; pois em outro lugar diz: Quer seja eu, quer sejam eles, assim pregamos o Evangelho.
Os arianos, porém, não admitem que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam de uma e mesma substância, natureza ou existência; mas defendem que o Filho é uma criatura do Pai, e o Espírito Santo uma criatura de uma criatura, isto é, criado pelo próprio Filho. Também consideram que Cristo assumiu a carne sem alma.
Mas São João declara que o Filho não é apenas Deus, mas também da mesma substância que o Pai; porque, tendo dito: "e o Verbo era Deus"(São João 1,1), acrescentou: "todas as coisas foram feitas por Ele"(São João 1,3). Donde se evidencia que Ele mesmo não foi feito, por quem todas as coisas foram feitas; e se não foi feito, não foi criado; e assim é da mesma substância que o Pai; pois toda substância que não é Deus, é criatura.
Não sei, com efeito, que benefício a pessoa do Mediador nos conferiu, se, não redimindo a nossa melhor parte, assumiu a carne, que sem a alma não pode sentir o benefício. Se, pois, Cristo veio para salvar o que havia perecido, e como o homem todo pereceu, todo ele necessita do benefício do salvador; e por isso Cristo, ao vir, salva o todo, assumindo o corpo e a alma.
Como também respondem eles a tão manifestas objeções da Escritura evangélica, na qual o Senhor recorda tantas coisas contra eles? Como é aquilo: triste está a minha alma até a morte(São Mateus 26,38); e: tenho o poder de entregar a minha alma(São João 10,18); e muitas outras coisas semelhantes. E se dizem que Ele falou em parábolas, temos as razões dos Evangelistas que, narrando os fatos acontecidos, assim como testemunham que Ele tinha corpo, também indicam que Ele tinha alma pelos afetos que não podem existir senão na alma. Pois, segundo narram, lemos: e Jesus se admirou, e irou-se, e muitas outras coisas semelhantes.
Os apolinaristas, assim como os arianos, afirmavam que Cristo havia assumido apenas a carne sem a alma. Mas, vencidos nesta questão pelos testemunhos evangélicos, então disseram que aquela parte que é a alma racional do homem estava ausente na alma de Cristo, e que o próprio Verbo estava nela em seu lugar.
Mas se assim é, seria de se crer que o Verbo de Deus assumiu alguma besta com figura de corpo humano.
Mas, quanto à sua própria carne, diz-se que divergiram da fé correta de tal modo que afirmavam que aquela carne e o Verbo eram de uma e da mesma substância, sustentando com grande insistência que o Verbo se fez carne, isto é, que algo do Verbo foi transformado e convertido em carne, e não que assumiu carne da carne de Maria.
O Evangelista São Mateus mostra que assumiu para si narrar a geração de Cristo segundo a carne, pois iniciou com a genealogia de Cristo. São Lucas, porém, assinalando Cristo mais como sacerdote na expiação dos pecados, não narra as gerações desde o início de seu Evangelho, mas a partir do Batismo de Cristo, onde São João deu testemunho dizendo: Eis aquele que tira os pecados do mundo. Nas gerações narradas por São Mateus significa-se a assunção de nossos pecados pelo Senhor Cristo. Já nas gerações de São Lucas significa-se a abolição de nossos pecados por Ele mesmo; por isso São Mateus narra as gerações de Cristo em ordem descendente, enquanto São Lucas as narra em ordem ascendente. São Mateus, ao descrever a geração humana de Cristo de forma descendente, começa sua enumeração por Abraão.
Nem Judá era o primogênito, nem algum desses gêmeos foi o primogênito de Judá; mas antes deles ele já havia gerado três. Assim, ele manteve na ordem das gerações aqueles por meio dos quais chegou a Davi, e daí para onde pretendia.
Porque nas gerações de São Mateus está significada a assunção de nossos pecados, por isso ele desce de Davi por Salomão, em cuja mãe aquele pecou. Mas Lucas sobe até Davi por Natã, por meio de quem, como profeta, Deus expiou o pecado daquele, porque nas gerações de Lucas está significada a abolição dos pecados.
Deveria ser dito, entretanto, através de qual profeta com esse nome, para que não se pensasse ser o mesmo homem, quando era outro, ainda que este também fosse chamado pelo mesmo nome.
Ou não sem razão foram retirados do número dos demais Ocozias, Joás e Amasias. Pois a impiedade deles foi tão contínua que não teve intervalo algum. Salomão, no entanto, pelos méritos de seu pai foi mantido no reino; Roboão, pelos méritos de seu filho; mas aqueles três, agindo perversamente, foram apagados. Pois é um exemplo para a perdição de uma geração quando a maldade se manifesta continuamente. Segue-se: Ozias gerou Joatão. Joatão gerou Acaz. Acaz gerou Ezequias.
Com mais propriedade se diz que ele é filho daquele por quem foi adotado, do que se fosse dito ser gerado por aquele de cuja carne não nasceu. Enquanto São Mateus, ao dizer: "Abraão gerou Isaac", e continuando com esta mesma expressão até dizer "Jacó gerou José", expressou claramente que ele apresenta o pai segundo a ordem natural da geração, pela qual José não foi adotado, mas gerado. Ainda que Lucas tivesse dito que José foi gerado por Heli, nem assim esta palavra deveria nos perturbar; pois não é absurdo dizer que alguém gerou não pela carne, mas pelo afeto, aquele que adotou como filho.
Merecidamente, porém, São Lucas, que não narra as gerações desde o início de seu Evangelho, mas a partir do Batismo de Cristo, apresentando-o mais como sacerdote na expiação dos pecados, assumiu a origem da adoção, porque pela adoção nos tornamos filhos de Deus, crendo no Filho de Deus. Já pela geração carnal, que São Mateus descreve, o Filho de Deus, antes, por nossa causa, se fez homem. São Lucas, no entanto, mostra suficientemente que chamou José de filho de Heli porque foi por este adotado, assim como chamou Adão filho de Deus pela graça, a qual depois perdeu ao pecar, como filho que havia sido estabelecido no Paraíso.
O que é contra Valentino, que dizia que Cristo nada assumiu da virgem, mas passou através dela como através de um rio ou canal.
A razão pela qual quis assumir carne do útero de uma mulher permanece no mais alto conselho d'Ele próprio: seja porque julgou que desta maneira ambos os sexos deveriam ser honrados, assumindo a forma de homem e nascendo de mulher, seja por alguma outra causa que eu não ousaria afirmar precipitadamente.
O que Deus concedia através da unção com óleo àqueles que eram ungidos para serem reis, isto o Espírito Santo concedeu ao homem Cristo, acrescentando-lhe a expiação; por isso, quando nasceu, foi chamado Cristo; e isto é o que se diz: "que é chamado Cristo".
Não era lícito, contudo, que ele pensasse em separar-se de Maria por isto, que ela, sendo virgem, deu à luz a Cristo não por relação íntima com ele; pois por este exemplo se demonstra magnificamente aos cônjuges fiéis que, mantida a continência por mútuo consentimento, pode permanecer o matrimônio sem união física dos corpos, mas conservando o afeto da mente; principalmente porque lhes poderia nascer um filho sem nenhum contato carnal.
Todos os bens do matrimônio foram cumpridos naqueles pais de Cristo: a fidelidade, a prole e o sacramento; a prole reconhecemos no próprio Senhor, a fidelidade porque não houve adultério, o sacramento porque não houve divórcio.
Também a linha de descendência devia ser trazida até José, para que no matrimônio não se cometesse injúria ao sexo masculino, que é certamente mais digno, desde que nada fosse tirado à verdade; pois Maria era da linhagem de Davi.
Nós, portanto, cremos também que Maria foi da linhagem de Davi, porque acreditamos nas Escrituras que afirmam ambas as coisas: que Cristo veio da semente de Davi segundo a carne, e que sua mãe Maria o concebeu não por relação com homem, mas sendo virgem.
Mas não foi um o Filho de Deus e outro o filho do homem, mas o mesmo Cristo foi Filho de Deus e do homem. E assim como em um só homem uma coisa é a alma e outra o corpo, assim no mediador entre Deus e os homens uma coisa era o Filho de Deus e outra o filho do homem, todavia de ambos foi um só Cristo Senhor. Uma coisa, digo, pela distinção de substância, não outro pela unidade da pessoa.
Suponhamos, como muitos querem, que há no mundo uma alma universal que de tal modo vivifica todas as sementes por um movimento inefável que não se mistura com o que é gerado; certamente quando esta chega ao útero para formar a matéria passível para seus próprios usos, faz com que se torne com ela uma só pessoa aquilo que evidentemente não possui a mesma substância; e assim, pela ação da alma e pela passividade da matéria, de duas substâncias se faz um só homem, sendo a alma ensinada como uma coisa distinta, e a carne outra. E deste modo confessamos que a alma nasce do útero, a qual dizemos ter conferido vida ao que foi concebido ao chegar ao útero. Diz-se que nasce da mãe, repito, aquele que desta formou para si um corpo no qual pudesse nascer, não porque antes de nascer, no que lhe diz respeito, não existisse absolutamente. Assim, pois, de maneira muito mais incompreensível e sublime, nasceu da mãe o Filho de Deus pela assunção do homem perfeito, Ele que por sua onipotência singular é a causa do nascimento para todos os que são gerados.
Ou pode-se dizer que um dos progenitores de Cristo é contado duas vezes, a saber, Jeconias, por meio de quem se verificou uma certa mudança em direção a nações estrangeiras, uma vez que foi levado ao exílio na Babilônia. Onde, pois, a ordem se desvia da linha reta para seguir em direção diversa, forma-se como que um ângulo; e aquele que está no ângulo é contado duas vezes. E nisto já prefigurava a Cristo, que haveria de passar da circuncisão ao prepúcio, e se tornaria a pedra angular.
Tendo, porém, distinguido em três grupos as gerações de quatorze, contudo não as somou dizendo: são ao todo quarenta e duas. Pois um daqueles progenitores é contado duas vezes, a saber, Jeconias; assim, portanto, não são quarenta e duas, o que resultaria de três vezes quatorze, mas, devido a um ser contado duas vezes, são quarenta e uma gerações. São Mateus, portanto, que se propusera insinuar em Cristo a pessoa régia, excetuando Cristo, enumerou quarenta homens na série de gerações. Este número, de fato, significa aquele tempo em que neste mundo é necessário sermos regidos por Cristo, segundo a disciplina laboriosa que significa aquela vara de ferro da qual se lê nos Salmos: "os regerás com vara de ferro". Que este número signifique esta vida temporal e eterna, apresenta-se, entretanto, uma razão imediata: que os tempos do ano correm em quatro períodos, e o próprio mundo termina em quatro partes, do oriente e do ocidente, do norte e do sul. Ora, quarenta contém quatro vezes dez. Além disso, os próprios dez são completados pelo número que progride de um até quatro.
Também não houve união conjugal, porque na carne do pecado não poderia ocorrer sem alguma concupiscência da carne, a qual procede do pecado, sem a qual quis ser concebido Aquele que haveria de estar sem pecado, para que assim também ensinasse que toda carne que nasce da união carnal é carne de pecado; visto que somente aquela que não nasceu dessa maneira não foi carne de pecado.
Nasce também de uma mulher intacta Cristo, porque não era lícito que a virtude nascesse pelo prazer, a castidade pela luxúria, a incorrupção pela corrupção. Nem podia, senão por uma nova ordem, vir do céu aquele que vinha para destruir o antigo império da morte. Assim, ocupou o reino da virgindade aquela que gerou o rei da castidade. Por isso também nosso Senhor buscou para si um abrigo virginal para habitar, a fim de nos mostrar que Deus deve ser portado em um corpo casto. Portanto, aquele que escreveu as tábuas de pedra sem estilete de ferro, esse mesmo fecundou Maria pelo Espírito Santo; donde se diz "foi encontrada tendo em seu útero pelo Espírito Santo".
Mas não, como alguns opinam muito perversamente, dizemos que o Espírito Santo foi como semente, mas dizemos que Ele operou por poder e virtude de Criador.1
[1] E assim São Hilário fala da sementiva ineuntis Spiritus "efficacia". de Trin. ii, 26 ↩
Certamente este modo pelo qual Cristo nasceu do Espírito Santo insinua-nos a graça de Deus, pela qual o homem, sem quaisquer méritos precedentes, no próprio início de sua natureza, quando começou a existir, foi unido ao Verbo de Deus em tão grande unidade de pessoa que ele mesmo seria o Filho de Deus. Mas, visto que aquela criatura que a Virgem concebeu e deu à luz, embora pertencente somente à pessoa do Filho, toda a Trindade a produziu (pois as obras da Trindade não são separáveis), por que na realização dela só o Espírito Santo é mencionado? Porventura quando um dos três é nomeado em alguma obra, entende-se que toda a Trindade opera?
1[1] Santo Agostinho, Enquirídio, c. 38 ↩
Como isto foi feito, o que este [Mateus] omitiu, São Lucas expõe depois de mencionar a concepção de São João, narrando assim: "no sexto mês foi enviado o Anjo"; e adiante: "o Espírito Santo descerá sobre ti". Isto, portanto, é o que São Mateus menciona ao dizer "foi encontrada tendo no ventre pelo Espírito Santo". E não é contraditório, porque São Lucas expôs o que São Mateus omitiu; assim como não é contraditório que São Mateus contenha, em seguida, o que São Lucas omitiu. Pois continua "José, seu marido, sendo justo", até aquele lugar onde está escrito sobre os magos que "retornaram por outro caminho à sua região". Se alguém, porém, quiser ordenar uma única narrativa a partir de todas as coisas que são ditas sobre o nascimento de Cristo por um e outro, se estas coisas são omitidas, pode fazê-lo assim: "A geração de Cristo era assim: houve nos dias de Herodes" até ali: "Maria permaneceu com ela aproximadamente três meses, e regressou à sua casa". E então deve ser acrescentado o que aqui se diz: "e foi encontrada tendo no ventre pelo Espírito Santo".
José, percebendo que o ventre de Maria estava grávido, turbou-se porque Maria, a quem recebera do templo do Senhor e ainda não conhecera, sentia-a grávida; e agitava-se dentro de si, refletindo e dizendo: "O que farei? Denuncio ou calo-me? Se a denunciar, não consinto com o adultério, mas incorrerei no vício da crueldade, pois sei que, segundo a sentença de Moisés, ela deve ser apedrejada. Se me calar, consinto com o mal e ponho minha parte com os adúlteros. Portanto, como calar-me é mau e denunciar o adultério é pior, irei despedi-la do matrimônio".
Ou de outro modo: se somente tu conheces que alguém pecou contra ti, e desejas acusá-lo disso diante dos homens, não és um corretor, mas um traidor. Por isso o justo José, diante do grave crime de que suspeitava sua esposa, com grande benignidade a poupou. Certamente, fervia nele a suspeita de adultério; e, contudo, porque somente ele sabia, não quis divulgá-la, mas despedi-la secretamente, querendo beneficiar a pecadora, não puni-la.
Mas enquanto José pensava nisso, não tema Maria, filha de David, pois assim como a palavra profética concedeu perdão a David, assim também o Anjo do Salvador liberta Maria. Eis que novamente vem Gabriel, aquele paraninfo da virgem; por isso segue-se: "Eis que o Anjo do Senhor apareceu a José".
Mas se Cristo nasceu do Espírito Santo, por que foi dito: "a sabedoria edificou para si uma casa"? Esta casa deve ser entendida de duas maneiras. Primeiro, a casa de Cristo é a Igreja, que Ele edificou para si com o seu sangue; depois, também pode ser chamado casa seu corpo, assim como é chamado seu templo. Porém, a obra do Espírito Santo é também obra do Filho de Deus, por causa da unidade de natureza e vontade; pois seja o Pai que faça, seja o Filho, seja o Espírito Santo, é a Trindade que opera; e o que os três fazem, é de um só Deus.
Mas acaso diremos que o Espírito Santo é o pai de Cristo como homem, de modo que Deus Pai gerou o Verbo e o Espírito Santo gerou o homem? Isso é tão absurdo que os ouvidos dos fiéis não o podem suportar. Como então dizemos que Cristo nasceu do Espírito Santo, se o Espírito Santo não o gerou? Acaso porque o fez? Pois enquanto homem, foi feito, como diz o Apóstolo: "feito da descendência de David segundo a carne". Pois também não é lícito dizer que o mundo, por ter sido feito por Deus, é filho de Deus ou nascido de Deus, mas sim feito, criado ou estabelecido por Ele. Aqui, porém, quando confessamos que Ele nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria, como não seria filho do Espírito Santo, e é filho da Virgem Maria? Não se deve, portanto, conceder que tudo o que nasce de alguma coisa seja necessariamente chamado filho dessa coisa. Pois, para omitir que de um homem nasce de um modo o filho, de outro o cabelo, o piolho e a lombriga, nenhum dos quais é seu filho, certamente os homens que nascem da água e do Espírito, ninguém corretamente os chamaria filhos da água, mas sim filhos de Deus Pai e da mãe Igreja. Assim, portanto, nascido do Espírito Santo, Ele é filho de Deus Pai, não do Espírito Santo.
Pois Aquele que podia restaurar pelo toque os membros dilacerados de outros corpos, quanto mais em Sua própria mãe não violou ao nascer o que encontrou íntegro? Pois na sua parição, a integridade do corpo aumentou ao invés de diminuir, e a virgindade foi ampliada ao invés de ser removida.
Quem, porém, seria tão completamente insensato a ponto de dizer com os maniqueus que é uma fé fraca crer em Cristo sem testemunhas, quando o apóstolo diz: "Como crerão naquele de quem não ouviram? Ou como ouvirão sem pregador?" Para que as coisas que os apóstolos anunciavam não fossem desprezadas nem consideradas fabulosas, mostra-se que estas haviam sido preditas pelos profetas. Pois, embora fossem atestadas por milagres, não teriam faltado aqueles que atribuíssem tudo isso ao poder da magia, se tal pensamento não fosse vencido pelo testemunho profético. De fato, ninguém diria que Ele, por meio de artes mágicas, muito antes de nascer, havia estabelecido profetas para anunciá-lo. Pois, se dissermos a um gentio "crê em Cristo, porque Ele é Deus" e ele responder: "por que haveria de crer?", tendo apresentado a autoridade dos profetas, se ele disser que não quer crer nestes, mostraremos a autenticidade dos profetas a partir daquilo que predisseram que havia de vir e que se vê terem efetivamente ocorrido. Creio que não lhe escaparia quantas perseguições a religião cristã suportou antes da parte dos reis deste século; veja agora os próprios reis da terra subjugados ao império de Cristo e todas as nações servindo-O, coisas que todas foram preditas pelos profetas. Assim, ouvindo isso das Escrituras proféticas e vendo cumprido em toda a terra, seria movido à fé.
Após o milagre do parto virginal, pelo qual o útero pleno da divindade deu à luz ao Deus-homem, preservado o selo do pudor, entre os obscuros esconderijos do aposento e as estreitezas da manjedoura, nos quais a infinita Majestade habitava em membros contraídos, enquanto Deus pende ao seio e sofre os envoltórios de vis panos, repentinamente um novo astro do céu brilhou sobre a terra e, dissipada toda a escuridão do mundo, converteu a noite em dia para que o dia não ficasse oculto na noite; por isso o Evangelista diz "tendo, pois, nascido Jesus em Belém".
Sobre a cidade de Belém, São Mateus e São Lucas estão de acordo. Mas como e por qual motivo José e Maria foram para lá, São Lucas explica, São Mateus omite. Por outro lado, sobre os magos vindos do Oriente, São Lucas se cala, São Mateus relata.
Estes magos, o que foram senão as primícias dos gentios? Os pastores israelitas, os magos gentios; aqueles de perto, estes de longe, ambos, porém, correram à pedra angular. Jesus manifestou-se não aos doutos nem aos justos; prevalece, pois, a imperícia na rusticidade dos pastores, e a impiedade nos sacrilégios dos magos. A ambos atribui a si aquela pedra angular, visto que veio escolher as coisas estultas para confundir os sábios, e não chamar os justos, mas os pecadores, para que nenhum grande se ensoberbecesse, nenhum fraco desesperasse.
Tendo nascido e falecido muitos reis dos judeus, porventura os magos procuraram adorar algum deles? Não, porque não aprenderam que qualquer um deles falasse do céu. Portanto, estrangeiros de países distantes, inteiramente alheios ao referido reino, não consideravam que deviam prestar tamanha honra a um rei dos judeus, como costumavam existir lá. Mas tinham aprendido que nascera tal Rei, em cuja adoração não duvidavam minimamente que alcançariam a salvação, que existe segundo Deus; pois não havia sequer uma idade à qual a adulação humana servisse, não brilhava a púrpura em seus membros, nem o diadema em sua cabeça, não foi a pompa dos servidores, nem o terror do exército, nem a gloriosa fama das batalhas que atraíram estes homens de terras remotas com tanto empenho de súplica. Jazia no presépio um menino, de nascimento recente, de corpo pequeno, desprezível pela pobreza. Mas algo grande se escondia no pequeno, o que aqueles homens, primícias dos gentios, tinham aprendido não por testemunho da terra, mas pela narrativa do céu; donde se segue: vimos, pois, sua estrela no oriente. Anunciam e interrogam, creem e buscam, como que significando aqueles que caminham pela fé e desejam a visão.
E, segundo Fausto, aqui se introduz uma estrela que confirma a Gênese, para que esta história possa ser chamada propriamente mais de Genesidium do que de Evangelho.
Pois quando as pessoas ouvem a palavra "destino", pelo costume habitual de falar não compreendem senão a influência da posição dos astros, tal como é quando alguém nasce ou é concebido; o que alguns alienam da vontade de Deus. E estes devem ser repelidos dos ouvidos de todos, os que desejam ser adoradores de quaisquer deuses. Outros, porém, pensam que as estrelas têm este poder transmitido a elas pelo supremo poder de Deus: os quais fazem grande injúria ao céu, em cuja corte, por assim dizer esplendidíssima, consideram que se decreta a realização de crimes; tais que, se alguma cidade terrena os tivesse decretado, deveria ser destruída por decisão do gênero humano.
Não é totalmente absurdo dizer que as influências siderais podem afetar as diferenças corporais, como vemos que com os movimentos de aproximação e afastamento do sol, as estações do ano variam, e com o crescimento e diminuição da lua, aumentam e diminuem certos tipos de coisas, como conchas e as admiráveis marés do Oceano; mas não se pode admitir que as vontades da alma estejam sujeitas às posições dos astros. Se disserem que as estrelas mais indicam do que causam estas coisas, como explicar por que na vida dos gêmeos, nas ações, nos acontecimentos, profissões, atos, honras e demais coisas pertinentes à vida humana, e na própria morte, frequentemente existe tamanha diversidade, que muitos estranhos são mais semelhantes entre si do que os próprios gêmeos, separados no nascimento por um pequeno intervalo de tempo, mas concebidos pelo mesmo ato conjugal, semeados em um mesmo momento? Portanto, o que tentam atribuir ao pequeno intervalo de tempo que os gêmeos tiveram entre si ao nascer, não tem tanta influência quanto se encontra na diversidade de vontades, atos, costumes e circunstâncias dos gêmeos. Alguns, porém, chamam de destino não à disposição dos astros, mas à conexão e série de causas que atribuem à vontade e poder do Deus supremo. Se alguém, portanto, atribui as coisas humanas ao destino porque chama a própria vontade ou poder de Deus pelo nome de destino, mantenha seu pensamento, mas corrija sua linguagem, pois o nome destino costuma ser usado pelos que falam para designar a disposição dos astros. Por isso, não chamamos a vontade de Deus pelo vocábulo destino, a não ser que entendamos destino como derivado de falar, isto é, do ato de pronunciar. Pois está escrito: "Uma vez falou Deus: duas coisas ouvi". Por isso, não se deve trabalhar muito com eles em controvérsias e disputas sobre palavras.
Se não colocamos o nascimento de nenhum homem sob a influência fatal das estrelas, para que possamos reivindicar o livre arbítrio da vontade de todo vínculo de necessidade, quanto menos devemos crer que o nascimento temporal daquele que é o eterno Criador e Senhor do universo tenha sido feito sob a condição dos astros? Portanto, aquela estrela que os magos viram, nascido Cristo segundo a carne, não dominava por decreto, mas servia como testemunho. Por conseguinte, não era daquelas estrelas que desde o início da criação guardam a ordem de seus caminhos sob a lei do Criador, mas com o novo parto da Virgem, surgiu um novo astro, que ofereceu o ministério de seu ofício também aos próprios magos que buscavam Cristo, quando ia à frente deles, até que os conduzisse, precedendo-os, ao próprio lugar onde estava o Verbo Deus infante. Alguns astrólogos determinaram os destinos dos homens que nascem sob as estrelas, de tal modo que afirmam que alguma estrela, ao nascer algum homem, abandona a ordem de seu curso e se dirige para aquele que nasceu. Pois consideram que a sorte do nascido está ligada à ordem dos astros, e não que a ordem dos astros possa ser mudada para o dia do nascimento do homem. Por isso, se aquela estrela era das que no céu cumprem suas ordens, como poderia discernir o que Cristo faria, ela que ao nascer Cristo foi ordenada a abandonar o que fazia? Se, porém, como se crê mais provavelmente, surgiu para demonstrar Cristo, aquela que não existia, então não foi porque ela existiu que Cristo nasceu, mas ela existiu porque Cristo nasceu; donde, se fosse necessário dizê-lo, não diríamos que a estrela foi o destino de Cristo, mas que Cristo foi o destino da estrela: pois ele mesmo trouxe a ela a causa do nascimento, não ela a ele.
Aos pastores, os Anjos, e aos magos, uma estrela demonstra Cristo; a ambos fala a língua dos céus, porque a língua dos Profetas havia cessado. Os Anjos habitam os céus, e as estrelas os adornam; para ambos, portanto, "os céus narram a glória de Deus".
Mas dirás: De quem ouviram que tal estrela significava o nascimento de Cristo? Certamente dos Anjos, por alguma advertência de revelação. Talvez perguntes: de Anjos bons ou maus? Sem dúvida até os anjos maus, isto é, os Demônios, confessaram que Cristo é Filho de Deus. Mas por que não poderiam tê-lo ouvido também dos anjos bons, uma vez que ao adorar a Cristo buscavam já sua salvação, e não era sua iniquidade condenada? Portanto, os Anjos poderiam dizer-lhes: a estrela que vistes é Cristo. Ide, adorai-O onde nasceu, e julgai ao mesmo tempo qual e quão grande é Aquele que nasceu.
Ou compreenderam que havia nascido o Rei dos judeus, pois a estrela costumava designar um rei temporal. Estes magos caldeus não investigavam o curso dos astros com má intenção, mas por curiosidade científica. Pois, como se pode entender, eles seguiam a tradição de Balaão, que disse: "Nascerá uma estrela de Jacó". Por isso, vendo uma estrela fora da ordem comum do mundo, entenderam que esta era a que Balaão havia profetizado como sinal do futuro Rei dos judeus.
Assim como os magos desejam um Redentor, assim Herodes teme um sucessor; por isso segue-se: ouvindo o rei Herodes, turbou-se
Como será o tribunal do Juiz, quando a natividade de um Infante já fazia os reis soberbos temerem? Temam os reis a Ele, que já está sentado à direita do Pai, a quem um rei ímpio temeu quando ainda mamava no seio de sua mãe.
A estrela que guiou os magos ao lugar onde estava o Deus infante com sua Mãe Virgem poderia tê-los conduzido diretamente à cidade; porém ela se retirou, e não lhes apareceu completamente, até que os próprios judeus dissessem sobre a cidade na qual Cristo nasceria: "Em Belém de Judá"; tornados semelhantes aos construtores da arca de Noé, que proveram a outros um meio de escapar, mas eles mesmos pereceram no dilúvio; semelhantes às pedras miliárias que mostram o caminho, mas não podem caminhar por si mesmas. Os inquiridores ouviram e partiram; os doutores falaram e permaneceram. Agora também os judeus não deixam de nos mostrar algo semelhante: pois alguns dos pagãos, quando lhes apresentamos claramente testemunhos das Escrituras para que conheçam Cristo profetizado anteriormente, suspeitando que talvez estes tenham sido fabricados pelos cristãos, preferem acreditar nos códices dos judeus; e assim como os magos fizeram então, deixam os judeus em suas vãs leituras, enquanto eles mesmos prosseguem para adorar fielmente.
Por quase dois anos, a estrela já havia sido vista por aqueles que se admiravam sobre o que seria. Mas então se entende que foi-lhes indicado de quem era a estrela que já há muito tempo se via, quando nasceu aquele que por ela era significado. Mas depois que, nascido Cristo, foi revelado aos magos, vieram do oriente e no décimo terceiro dia adoraram aquele que poucos dias antes souberam ter nascido.1
[1] Isto é escrito com base na ideia de que os Magos se apresentaram a Cristo doze dias após o Seu nascimento, de acordo com a data latina para celebrar o evento. Parece que realmente ocorreu após a Purificação, no retorno de Santa Maria a Belém. No entanto, Santo Agostinho (Cons. Evan., ii. 11) situa o evento antes da Purificação. ↩
E para prestar a Cristo uma obediência plena, moderou seu curso, até que conduzisse os magos ao menino. Prestou obediência, não exerceu domínio: mostrou-os suplicantes, iluminou o abrigo com abundantíssima luz, e inundou com seus raios a morada do recém-nascido, e assim se retirou; donde segue: "até que, chegando, parou sobre onde estava o menino".
O ouro, portanto, é oferecido como a um grande rei, o incenso é imolado como a Deus, a mirra é apresentada como a quem haveria de morrer pela salvação de todos.
O ímpio Herodes, tornado cruel pelo temor, quis desencadear sua fúria. Mas como poderia capturar aquele que viera para extirpar as próprias fraudes? Para que, portanto, sua fraude fosse frustrada, segue-se: "e tendo recebido resposta".
Ouça também o sacramento de um grande mistério. Moisés outrora havia fechado o dia aos pérfidos no Egito; Cristo, chegando ali, restituiu a luz aos que estavam sentados nas trevas; fugiu para iluminar, não fugiu para se esconder. Segue-se "e permanece ali até que eu te diga; pois acontecerá que Herodes buscará o menino para o matar". O infeliz tirano pensava que, com a vinda do salvador, seria destituído do trono real, mas não era assim: Cristo não veio para usurpar a glória alheia, mas para conceder a sua própria. Segue-se "que, levantando-se, tomou o menino e sua mãe durante a noite e retirou-se para o Egito".
E enquanto perseguia a Cristo, proporcionou ao nosso rei um exército contemporâneo adornado com vestes vitoriosas resplandecentes.
Eis que o inimigo profano nunca poderia ter sido tão proveitoso a estes bem-aventurados pequeninos por seu favor, quanto o foi por seu ódio: pois tanto quanto a iniquidade abundou contra eles, tanto resplandeceu a graça da bênção.
Ó bem-aventurados pequeninos! Somente duvidará da vossa coroa no martírio por Cristo aquele que também não considera que o Batismo de Cristo seja proveitoso para os pequeninos. Pois aquele que, ao nascer, pôde ter anjos como arautos, os céus como narradores, e magos como adoradores, também poderia ter livrado estes pequeninos de morrerem assim por Ele, se soubesse que pereceriam com aquela morte, e não viveriam antes com maior felicidade. Longe de nós pensar que Cristo, vindo para libertar os homens, nada teria feito pelo prêmio daqueles que por Ele fossem mortos, Ele que, pendente no madeiro, orou por aqueles pelos quais era crucificado.
Pois os magos haviam visto no céu uma estrela totalmente desconhecida, não poucos dias antes, mas dois anos antes, conforme revelaram a Herodes quando este os inquiriu; por isso ele mandou matar as crianças de dois anos e menos, como segue: "segundo o tempo que havia inquirido dos magos".
Ou porque temia que o Menino, a quem os astros serviam, pudesse transformar sua aparência para mais ou para menos de sua própria idade, ou pudesse ocultar todos aqueles da mesma idade; por isso parece que mandou matar todos, desde os de um dia até os de dois anos.
Ou, agitado pelos terrores de perigos mais próximos, Herodes, tendo sua mente afastada daquela preocupação, isto é, de matar as crianças, ocupou-se antes com outras coisas; ou pôde acreditar que os magos, enganados pela visão de uma estrela enganosa, depois que não encontraram aquele que pensavam ter nascido, envergonharam-se de voltar a ele; e assim, afastado o temor, cessou de perseguir o menino, e desse modo, completados os dias da purificação, puderam subir com segurança ao templo. Quem não veria que aquele único dia poderia ter passado despercebido para um rei ocupado com tantas coisas? Depois, divulgadas as coisas que tinham sido ditas e feitas no templo, Herodes percebeu que tinha sido iludido pelos magos; e então, como aqui se diz, matou muitas crianças.
Ou porque os filhos de Benjamim, que pertencem a Raquel, foram outrora exterminados e extintos pelas outras tribos, tanto no presente quanto no futuro. Portanto, Raquel começou a chorar seus filhos quando viu os filhos de sua irmã mortos por tal causa, para que se tornassem herdeiros da vida eterna: pois aquele a quem acontece algo adverso lamenta mais miseravelmente suas próprias desgraças diante da felicidade de outrem.
Mas aqui alguém perguntará: como, conforme narra São Lucas, os pais de Jesus iam todos os anos da infância de Cristo a Jerusalém, se pelo temor a Arquelau eram impedidos de ir até lá? Não é difícil resolver isso: pois poderia acontecer que durante o dia da festa, em meio a tão grande multidão, subissem ocultamente para logo retornar, ainda que temessem habitar lá em outros dias; de modo que nem omitissem a solenidade por irreligiosidade, nem se tornassem visíveis por uma permanência contínua. Também é possível entender assim: que quando São Lucas diz que eles costumavam subir todos os anos a Jerusalém, entendamos que isso acontecia quando já não temiam Arquelau, que, segundo a história de Josefo, reinou apenas nove anos. Segue-se: "E avisado em sonhos, retirou-se para as regiões da Galileia". Mas talvez alguém aqui se perturbe: tendo Mateus dito que José temia voltar com o menino para a Judeia porque Arquelau, filho de Herodes, reinava ali no lugar de seu pai, como pôde ir para a Galileia, onde outro filho de Herodes, Herodes tetrarca, governava, conforme atesta São Lucas? Como se fossem os mesmos tempos em que se temia pelo menino que São Lucas mencionou, quando tudo já havia mudado a tal ponto que na própria Judeia já não era rei Arquelau, mas o governador Pilatos.
Talvez também isto cause dúvida: como diz São Mateus que os pais de Jesus foram com o menino para a Galileia por temerem ir a Jerusalém por causa de Arquelau, quando parece que estavam na Galileia principalmente porque sua cidade era Nazaré da Galileia, como São Lucas não deixou de mencionar. Mas deve-se entender que quando o Anjo disse a José em sonhos no Egito: "Vai para a terra de Israel", isto foi primeiramente entendido por José como se fosse mais correto dirigir-se à Judeia, pois esta podia ser considerada propriamente como a terra de Israel. Porém, depois que descobriu que Arquelau reinava ali, não quis expor-se ao perigo, já que a terra de Israel também podia ser entendida como incluindo a Galileia, porque também ali habitava o povo de Israel. Ainda que também se possa resolver de outro modo: porque podia parecer aos pais de Cristo que não deviam habitar com o menino senão em Jerusalém, onde estava o templo do Senhor; e para lá teriam ido, se não fossem aterrorizados pela presença de Arquelau. Não lhes foi ordenado divinamente que habitassem na Judeia ou em Jerusalém, de modo que devessem desprezar o temor que tinham de Arquelau; mas na terra de Israel, na qual também, como foi dito, podia-se entender estar incluída a Galileia.
Ora, Lucas omite todas estas coisas que dizem respeito à narração dos magos e aos eventos seguintes. Isto deve ser notado aqui, para que daqui em diante sirva para o demais: que cada um dos Evangelistas compõe sua narração de tal modo que parece uma série ordenada, como se nada omitisse; pois, calando o que não quer dizer, une o que quer dizer àquilo que estava dizendo, de modo que pareça seguir-se sem interrupção; mas quando um diz o que outro cala, a ordem cuidadosamente considerada indica o lugar onde o que foi omitido por um poderia ser inserido.
Lucas expressa este tempo através dos poderes terrenos quando disse: no décimo quinto ano. Mas devemos entender que São Mateus, ao dizer naqueles dias, quis que se compreendesse um espaço de tempo muito mais longo. Pois logo após narrar o regresso de Cristo do Egito, que certamente ocorreu na época de sua infância ou puerícia, para que possa concordar com o que Lucas narrou sobre Ele quando tinha doze anos, acrescentou imediatamente naqueles dias: não insinuando apenas os dias daquela infância, mas todos os dias desde o seu nascimento até quando João começou a pregar.
Se alguém não se arrepender da sua vida antiga, não pode começar uma nova.
Estas palavras de São João, porém, os outros Evangelistas omitiram. E quanto ao que se segue, "este é o que foi anunciado pelo profeta Isaías, que diz: voz do que clama no deserto: endireitai as suas veredas", está colocado de forma ambígua, e não fica claro se o Evangelista o mencionou em sua própria pessoa, ou se continuou a narrar as palavras do mesmo João, acrescentando, de modo que se entenda que João disse tudo isto: "Fazei penitência, pois se aproximará o reino dos céus. Este é, de fato, aquele de quem foi dito pelo profeta Isaías". Nem deve causar estranheza que ele não diga "eu sou", mas "este é"; pois São Mateus disse: "encontrou um homem sentado na coletoria", e não disse: "encontrou-me". E se assim é, não é admirável que, ao ser interrogado sobre o que dizia de si mesmo, como narra São João Evangelista, tenha respondido: "eu sou a voz do que clama no deserto".
Deus, porém, devido a certa semelhança de obras, não por causa da fraqueza de afetos, conforme as Escrituras, ira-se, mas não é perturbado por nenhuma paixão: pois esta palavra usurpou o efeito da vingança, não aquele afeto turbulento. Se, portanto, quereis fugir, fazei digno fruto de penitência.
Ou ele batizava porque convinha que Cristo fosse batizado. Mas por que não somente ele foi batizado por São João, se para isto São João foi enviado, para que por ele Cristo fosse batizado? Porque se somente o Senhor tivesse sido batizado pelo Batismo de São João, não faltariam os que pensariam que o Batismo de São João era maior que o Batismo de Cristo, ao ponto de somente Cristo ter merecido ser batizado por ele.
Se, porém, se questiona quais palavras São João Batista pronunciou, se aquelas que São Mateus, São Lucas ou São Marcos recordam que ele disse, de modo algum deve-se dedicar trabalho a isto aquele que prudentemente entende que as sentenças mesmas são necessárias para conhecer a verdade, com quaisquer palavras que tenham sido explicadas. E nisto se evidencia que não devemos julgar que alguém mente se, quando vários recordam algo que ouviram ou viram, uma mesma coisa não é indicada do mesmo modo e com as mesmas palavras. Quem, porém, diz que aos Evangelistas, pelo poder do Espírito Santo, poderia ter sido concedido que não discrepassem nem no gênero das palavras, nem na ordem, nem no número, não entende quanto mais excede a autoridade dos Evangelistas, tanto mais por meio deles deveria ser firmada a segurança dos demais homens que falam a verdade. Quanto ao fato de que um disse "cujo calçado não sou digno de carregar", e outro: "desatar a correia do calçado", parece ser algo diferente não apenas nas palavras, mas também na própria coisa. Portanto, com razão pode-se perguntar o que João disse. Pois parece ter narrado a verdade aquele que pôde narrar o que ele disse; aquele, porém, que narrou outra coisa, embora não tenha mentido, certamente, ou esquecido, será considerado como tendo dito uma coisa por outra. Mas convém que toda falsidade esteja ausente dos Evangelistas, não apenas aquela que se profere mentindo, mas também aquela que vem por esquecimento. Assim, se convém entender algo diferente a partir de ambas as expressões, deve-se corretamente julgar que João disse ambas as coisas, seja em momentos diferentes, seja de forma contínua. Se, porém, João não pretendeu nada além de expressar a excelência do Senhor e sua própria humildade quando falava sobre os calçados do Senhor, qualquer que seja a expressão que tenha dito, manteve a mesma sentença, e quem quer que tenha expressado, com suas próprias palavras, por meio da menção dos calçados, o mesmo significado de humildade, não se desviou da mesma intenção. Este é, portanto, um método útil, e que deve ser confiado à memória: não é mentira quando alguém explica a intenção daquele sobre quem narra algo, mesmo dizendo algo diferente que ele não disse; todavia, explicou a mesma intenção que tem aquele cujas palavras comemora. Assim, dizemos de modo salutar que nada mais deve ser buscado senão o que quer aquele que fala.
A Sagrada Escritura relata que muitas maravilhas aconteceram frequentemente neste rio, dizendo entre outras coisas: "O Jordão voltou para trás"(Salmos 113,3). Antes, as águas voltaram para trás; agora, os pecados voltaram para trás; assim como Elias fez a divisão das águas no Jordão, também Cristo Senhor operou no mesmo Jordão a separação dos pecados.
O Salvador, portanto, quis ser batizado, não para adquirir pureza para si, mas para purificar o fluxo de águas para nós. A partir do momento em que Ele mesmo mergulhou na água, a partir desse momento a água lavou todos os nossos pecados. E não é admirável que a água, isto é, uma substância corporal, chegue a purificar a alma: ela chega, de fato, e penetra todos os esconderijos da consciência. Pois embora ela seja sutil e tênue, todavia, pela bênção de Cristo, torna-se mais sutil e atravessa as causas ocultas da vida e os segredos da mente com um orvalho mais penetrante. Mais sutil, de fato, é o curso das bênçãos do que o movimento das águas. Por isso, a bênção que fluiu do batismo do Salvador, como um rio espiritual, preencheu os canais de todos os abismos e as veias de todas as fontes.
Também quis ser batizado porque desejou fazer aquilo que ordenava a todos que fizessem, para que, como bom mestre, insinuasse sua doutrina não tanto por palavras, mas a exercitasse por atos.
De fato, dignou-se a ser batizado por São João, para que os servos reconhecessem com quanta prontidão devem correr ao Batismo do Senhor, quando Ele mesmo não se recusou a receber o Batismo do servo.
Porque, como foi dito, quando o nosso Salvador foi lavado, já então toda a água foi purificada para o nosso Batismo, para que a graça do banho pudesse ser ministrada aos povos que viriam depois. Convinha também que no Batismo de Cristo fossem designadas aquelas coisas que os fiéis conseguem pelo Batismo; donde se diz: "Batizado Jesus, imediatamente saiu da água".
Mas acaso foi então a primeira vez que os céus se abriram para Ele também segundo a natureza humana? A fé da Igreja tanto crê quanto sustenta que os céus não estavam menos abertos para Ele antes do que depois. Portanto, diz-se que os céus se abriram para Ele, porque para todos os renascidos se abre a porta do reino celestial.
Cristo, depois de ter nascido para os homens, renasce nos sacramentos; para que, assim como então nós o admiramos gerado de uma mãe incorrupta, assim também agora o recebamos submergido em água pura. Pois a mãe gerou o Filho, e permaneceu casta; a água lavou Cristo, e tornou-se santa. Enfim, o Espírito Santo, que então esteve presente no útero, agora o circundou de luz nas águas; aquele que santificou Maria, agora santifica as correntes. De onde diz: e viu o Espírito de Deus descendo.
É fácil compreender como se diz que o Espírito Santo foi enviado, quando desceu sobre o Senhor em forma corporal como uma pomba; pois foi criada uma certa aparência temporal na qual o Espírito Santo fosse mostrado visivelmente. Esta operação, visivelmente expressa e oferecida aos olhos dos mortais, é chamada de missão do Espírito Santo; não para que sua substância invisível aparecesse, mas para que os corações dos homens, movidos pelas visões exteriores, se voltassem para a eternidade oculta. Entretanto, a criatura em que o Espírito Santo apareceu não foi assumida para a unidade da pessoa, como foi assumida aquela forma humana da Virgem. Pois o Espírito não beatificou a pomba nem a uniu a si mesmo na unidade de sua pessoa eternamente. Por conseguinte, embora aquela pomba seja chamada de espírito, para mostrar que por meio da pomba o espírito foi demonstrado, não podemos dizer que o Espírito Santo é Deus e pomba, como dizemos que o Filho é Deus e homem; nem como dizemos que o Filho é o Cordeiro de Deus, não só porque São João Batista o disse, mas também porque São João Evangelista viu o cordeiro imolado no Apocalipse: aquela visão profética não foi apresentada aos olhos corporais por formas corpóreas, mas no espírito por imagens espirituais dos corpos. Mas daquela pomba, ninguém jamais duvidou de que foi vista com os olhos; nem como dizemos que o Filho é a pedra (pois está escrito em 1 Coríntios 10,4: "a pedra era Cristo"), podemos dizer que o Espírito é a pomba. Pois aquela pedra já existia na criação, e pelo modo de ação foi denominada com o nome de Cristo, a quem significava; mas não assim aquela pomba, que surgiu repentinamente apenas para significar essas coisas. Isto me parece mais semelhante àquela chama que apareceu a Moisés no arbusto, e àquela que o povo seguia no deserto enquanto a Lei era dada no monte. Isso era seguido por relâmpagos e trovões, pois a forma corporal daquelas coisas existiu para significar algo e depois desaparecer. Por causa dessas formas corporais, diz-se que o Espírito Santo foi enviado; aquelas formas corporais apareceram temporariamente para demonstrar o que era necessário, e depois cessaram.
Não como antes por Moisés ou pelos profetas, nem por tipos ou figuras, o Pai ensinou que o Filho haveria de vir na carne, mas claramente mostrou que já havia vindo, dizendo "Este é o meu Filho".
E não é de admirar que no batismo do Senhor não tenha faltado o mistério da Trindade, quando o nosso batismo contém o sacramento da Trindade. Pois o Senhor quis primeiro manifestar em si mesmo o que depois haveria de prescrever ao gênero humano.
Ainda que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam de uma mesma natureza, mantém firmissimamente que são três Pessoas; e que somente o Pai é quem disse "este é o meu Filho amado"; e somente o Filho é sobre quem aquela voz do Pai soou; e somente o Espírito Santo é quem na forma de pomba desceu sobre Cristo batizado.
Estas obras são de toda a Trindade. Na sua própria substância, com efeito, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Um, sem quaisquer intervalos de tempo ou de lugares; mas em minhas palavras o Pai, o Filho e o Espírito Santo estão separados, e não podem ser ditos simultaneamente; e nas letras visíveis ocuparam separadamente seus próprios espaços: porque por meio desta semelhança se conhece de algum modo que a Trindade, inseparável em si mesma, pode ser demonstrada separadamente por meio da espécie de uma criatura visível. Que a voz é somente do Pai, mostra-se pelo fato de que diz: "Este é o meu Filho".
O Pai, pois, ama o Filho, mas como um pai ama a um filho, não como um senhor ama a um servo; como único, não como adotado. E por isso acrescenta: em quem me agradei.
Estas palavras também os outros dois, Marcos e Lucas, narram de modo semelhante; mas quanto às palavras da voz que se fez do céu, variam na expressão, preservando, porém, o mesmo sentido. Pois o que Mateus diz ter sido dito "Este é meu Filho amado", e os outros dois dizem: "Tu és meu Filho amado", serve para explicar o mesmo significado; pois a voz celestial disse uma dessas expressões; mas o Evangelista quis mostrar que o que foi dito "Este é meu Filho" servia principalmente para indicar àqueles que ouviam que Ele mesmo era o Filho de Deus; e assim quis relatar o que foi dito: "Tu és meu Filho", como se fosse dito a eles "Este é meu Filho". Pois não estava sendo indicado a Cristo o que Ele já sabia; mas ouviam os que estavam presentes, por causa de quem a voz se fez. Quanto ao que um diz "em quem me agradei", outro: "em ti me agradei", se perguntas qual destas expressões soou naquela voz, aceita qualquer uma, desde que entendas que aqueles que não relataram a mesma expressão, relataram o mesmo sentido; pois que Deus se agradou no Filho, adverte-se a alguém pelo que foi dito: "em ti me agradei"; que o Pai agradou aos homens no Filho, adverte-se pelo que foi dito: "em ti me agradei", ou entenda-se que isso foi dito por todos os Evangelistas, como se dissesse: "em ti estabeleci meu agrado", isto é, cumprir o que me agrada.
Por que Ele se ofereceu para ser tentado? Para que fosse nosso mediador no vencimento das tentações, não somente por meio de auxílio, mas também pelo exemplo.
Ou de outro modo. Toda a sabedoria consiste em conhecer o Criador e a criatura. O Criador é a Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; a criatura, por sua vez, em parte é invisível, como a alma, à qual se atribui o número ternário (pois somos ordenados a amar a Deus de três maneiras: de todo o coração, de toda a alma e de toda a mente), e em parte visível, como o corpo, ao qual corresponde o quaternário devido ao quente e frio, úmido e seco. Portanto, o número dez, que insinua toda a disciplina, multiplicado por quatro, isto é, pelo número que corresponde ao corpo, porque por meio do corpo a administração é realizada, forma o número quarenta, cujas partes iguais chegam a cinquenta; pois um, dois, quatro, cinco, oito, dez e vinte, que são as partes do número quarenta, somados juntos, resultam em cinquenta. E por isso o tempo em que gememos e sofremos é celebrado pelo número quarenta. Já o estado de bem-aventurança, no qual haverá alegria, é prefigurado na celebração da quinquagésima, isto é, da Páscoa até Pentecostes.
Não porque Cristo jejuou imediatamente após receber o batismo, deve-se acreditar que tenha dado uma regra de observância, de modo que após o batismo de Cristo seja necessário jejuar continuamente. Mas quando se enfrenta um combate mais árduo com o tentador, deve-se jejuar, para que o corpo cumpra seu serviço militar pela mortificação e a alma obtenha a vitória pela humilhação.
Pertence à sã doutrina que, quando o homem tem outros meios, não deve tentar ao Senhor seu Deus.
Donde segue: "Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele servirás". O único Senhor Deus nosso é a própria Trindade, a quem somente devemos por direito o serviço da piedade.
Pelo nome de servidumbre, entende-se o culto devido a Deus: pois os nossos, onde quer que nas Sagradas Escrituras esteja posto, interpretaram latria como servidão; mas aquela servidão que é devida aos homens, segundo a qual o apóstolo preceituou que os servos devem estar sujeitos aos seus senhores, costuma ser chamada em grego dulia; mas latria, ou sempre, ou tão frequentemente que quase sempre, é chamada aquela servidão que pertence ao culto de Deus1.
[1] Esta distinção entre latria (adoração devida somente a Deus) e dulia (honra devida aos santos) é fundamental na teologia católica para explicar a veneração dos santos sem que isso constitua idolatria. ↩
Após a tentação, os santos Anjos, temíveis aos espíritos imundos, serviam ao Senhor, e por isso mesmo se manifestava aos demônios quão grande era o seu poder; de onde segue: e eis que os Anjos se aproximaram e o serviam.
São Lucas não relatou as tentações na mesma ordem; portanto, é incerto o que aconteceu primeiro: se os reinos da terra foram mostrados primeiro e depois ele foi levado ao pináculo do templo, ou o contrário; isso, porém, nada importa, desde que seja manifesto que todas essas coisas realmente aconteceram.
São João evangelista, antes que Jesus fosse para a Galileia, fala de Pedro e André e Natanael, e do milagre em Caná da Galileia; todas essas coisas os outros Evangelistas omitiram, contextualizando em suas narrativas que Jesus retornou à Galileia; de onde se entende que houve alguns dias interpostos, nos quais aquelas coisas sobre os discípulos aconteceram, que são interpostas por São João.
Ele não escolheu reis ou senadores ou filósofos ou oradores, mas escolheu plebeus, pobres e incultos pescadores.
Se um sábio tivesse sido escolhido, talvez ele dissesse que foi escolhido porque sua sabedoria merecia ser escolhida. Mas nosso Senhor Jesus Cristo, querendo quebrar a cerviz dos soberbos, não buscou o pescador através do orador, mas ganhou o imperador através do pescador. Grande foi São Cipriano, o orador, mas antes dele foi Pedro, o pescador.
Certamente pode causar questionamento por que São João diz que não na Galileia, mas junto ao Jordão André seguiu o Senhor com outro cujo nome é omitido; e depois, Pedro recebeu dele o nome; os outros três Evangelistas, porém, dizem que eles foram chamados da pescaria, concordando bastante entre si, principalmente São Mateus e São Marcos; pois São Lucas não nomeia André, que apenas se entende ter estado na mesma barca. Isso também parece diferir pelo fato de que São Lucas recorda que foi dito pelo Senhor apenas a Pedro: "de agora em diante serás pescador de homens", o que São Mateus e São Marcos narram ter sido dito a ambos. Mas pôde primeiro ser dito a Pedro segundo São Lucas, e a ambos depois segundo os outros dois. Mas o que dissemos sobre São João deve ser considerado diligentemente, uma vez que há muita diferença tanto de lugares quanto de tempo e da própria vocação. Mas deve-se entender que Pedro e André não viram o Senhor junto ao Jordão de modo que já aderissem a ele inseparavelmente, mas apenas conheceram quem ele era, e admirados dele, voltaram para suas casas. Talvez ele recapitule o que havia omitido, porque sem qualquer diferença de tempo consecutivo diz: "caminhando junto ao mar". Pode-se também questionar como ele os chamou separadamente de dois em dois, como narram São Mateus e São Marcos, quando São Lucas diz que Tiago e João foram chamados como companheiros de Pedro para ajudar, e juntos, tendo tirado os barcos para a terra, seguiram a Cristo? Por isso deve-se entender que isso primeiro aconteceu como São Lucas insinua, e eles voltaram à captura de peixes como de costume: pois não havia sido dito a Pedro que nunca mais capturaria peixes, já que fez isso após a ressurreição, mas que capturaria homens; depois aconteceu o que São Mateus e São Marcos narram: pois não tendo tirado os barcos para a terra, como se tivessem a preocupação de voltar, o seguiram, mas como quem ordena que o seguissem.
Os demônios são atraídos a habitar nas criaturas (que não eles mesmos, mas Deus criou) por meio de deleites adaptados às suas diversas naturezas, não como animais atraídos por alimentos, mas como espíritos atraídos por sinais que se adaptam ao gosto de cada um.
Ou pode-se pensar que Ele quis evitar as multidões mais densas, e por isso subiu ao monte para falar apenas aos Seus discípulos.
Ou subiu ao monte para significar que eram menores os preceitos de justiça que foram dados por Deus através dos profetas ao povo dos judeus, que ainda convinha atar pelo temor; mas que por meio de seu Filho foram dispensados preceitos maiores ao povo que já convinha libertar pela caridade. Segue-se: "E tendo se sentado, aproximaram-se dele os seus discípulos".
Ou, o fato de que ensinava sentado, pertence à dignidade do mestre. Aproximaram-se dele os seus discípulos, para que aqueles que se aproximavam em espírito para cumprir seus preceitos estivessem também corporalmente mais próximos para ouvir suas palavras.
Suscita questão o fato de que São Mateus diz que este sermão foi pronunciado pelo Senhor sentado no monte; São Lucas, porém, diz que foi em lugar campestre, estando o Senhor de pé. Esta diversidade faz parecer que um foi um sermão e outro foi outro. Pois quem impede que Cristo repita em outro lugar o que já havia dito antes, ou faça novamente o que já havia feito? Embora também possa ocorrer isto: que em alguma parte mais elevada do monte, primeiramente o Senhor esteve apenas com seus discípulos, quando dentre eles escolheu os doze; depois, com eles desceu não do monte, mas da própria elevação do monte para um lugar campestre, isto é, para alguma planície que estava no lado do monte e que podia comportar muitas pessoas; e ali permaneceu de pé até que a multidão se reunisse ao seu redor; e posteriormente, quando se sentou, aproximaram-se mais os seus discípulos, e assim, estando presentes tanto eles como as demais multidões, pronunciou um sermão, que São Mateus e São Lucas narram de modo diverso, mas com a mesma verdade das coisas.
Ou diz "abrindo a sua boca", para que essa própria pausa indicasse que o sermão que se seguiria seria um tanto mais longo.
Se alguém, porém, considerar com piedade e sobriedade, encontrará neste sermão, no que concerne aos costumes oportunos, o modo perfeito da vida cristã; por isso o próprio sermão assim conclui: "Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, compará-lo-ei a um homem sábio".
Não há outra causa para o filosofar, senão o fim do bem; aquilo que faz bem-aventurado, isso mesmo é o fim do bem. E por isso começa pela bem-aventurança, dizendo: "Bem-aventurados os pobres de espírito".
A presunção do espírito significa audácia e soberba. Comumente se diz que os soberbos têm grande espírito, e corretamente, pois o espírito é chamado de vento. E quem não sabe que os soberbos são chamados de inflados, como que distendidos pelo vento? Por isso, entende-se aqui corretamente por pobres de espírito os humildes e tementes a Deus, isto é, aqueles que não têm o espírito que incha.
Os soberbos, portanto, desejam os reinos da terra; mas aos humildes pertence o reino dos céus.
Mansos são aqueles que cedem às iniquidades e não resistem ao mal, mas vencem o mal com o bem.
Disputem, portanto, os que não são mansos e lutem por coisas terrenas e temporais; mas bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra da qual não podem ser expulsos; aquela terra, digo, da qual se diz: "minha porção está na terra dos vivos". Significa, pois, certa estabilidade da herança perpétua, onde a alma, por seu bom afeto, repousa como em seu próprio lugar, assim como o corpo na terra, e dali se alimenta de seu sustento, como o corpo se alimenta da terra: esta é o repouso e a vida dos santos.
O luto é tristeza pela perda dos entes queridos. Os que se convertem a Deus perdem aquilo que tinham como querido neste mundo: pois já não se alegram nas coisas em que antes se alegravam; e até que se forme neles o amor pelas coisas eternas, são feridos por certa tristeza. Serão consolados, portanto, pelo Espírito Santo, que é chamado principalmente por isso de Paráclito, isto é, Consolador, para que, perdendo as alegrias temporais, desfrutem da alegria eterna, e por isso diz "porque eles serão consolados".
Ou serão saciados na vida presente com aquele alimento do qual o Senhor diz: "meu alimento é fazer a vontade do meu Pai", que é a justiça, e aquela água da qual qualquer um que beber: "se fará nele uma fonte de água que jorrará para a vida eterna".
Ele declara bem-aventurados aqueles que socorrem os miseráveis, porque a estes se recompensa de tal modo que sejam livrados da miséria; donde segue "porque eles alcançarão misericórdia".
São estultos aqueles que buscam ver a Deus com os olhos exteriores, visto que Ele é visto com o coração, como está escrito em outro lugar: "buscai-O na simplicidade do coração"; pois o coração simples é o mesmo que aqui é chamado coração puro.
Se, no entanto, os olhos no corpo espiritual, mesmo os próprios espirituais, puderem ver apenas tanto quanto podem estes que agora temos, sem dúvida Deus não poderá ser visto por meio deles.
Esta visão de Deus é a recompensa da fé; para esta recompensa os corações são purificados pela fé, como está escrito: "purificando pela fé os seus corações". Isto, porém, é provado principalmente por aquela sentença: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus".
Ninguém, vendo a Deus, vive nesta vida, na qual se vive de modo mortal e com estes sentidos corporais. Mas a menos que alguém morra completamente para esta vida, seja saindo totalmente do corpo, seja tornando-se tão alienado dos sentidos carnais que possa afirmar com mérito, como diz o Apóstolo: "se no corpo ou fora do corpo, não sei", não pode ser elevado àquela visão.
A paz é a tranquilidade da ordem. A ordem é a disposição que atribui a cada um, seja igual ou desigual, o seu devido lugar. Assim como não há quem não queira se alegrar, também não há quem não queira ter paz; visto que mesmo aqueles que desejam guerras nada mais almejam do que, por meio da guerra, chegar a uma paz gloriosa.
Os pacíficos em si mesmos são aqueles que, ordenando todos os movimentos da sua alma e submetendo-os à razão, e tendo domadas as concupiscências carnais, tornam-se reino de Deus, no qual estão de tal modo ordenadas todas as coisas que aquilo que no homem é principal e excelente governa as demais que se rebelam, as quais são comuns a nós e aos animais; e aquilo mesmo que se destaca no homem, isto é, a mente e a razão, sujeita-se àquilo que é superior, que é a própria verdade, o Filho de Deus. De fato, não pode governar os inferiores quem não se submete aos superiores. E esta é a paz que se dá na terra aos homens de boa vontade.
Todavia, não pode acontecer a ninguém nesta vida que a lei que se opõe à lei da mente não esteja de modo algum nos membros. Mas os pacíficos realizam isso agora, domando as concupiscências da carne, para que em algum momento se chegue à mais plena paz.
Ou porque na paz está a perfeição, onde nada se opõe, os pacíficos são chamados filhos de Deus, uma vez que nada resiste a Deus, e certamente os filhos de Deus devem ter semelhança com seu Pai.
Uma vez estabelecida e firmada interiormente a paz, quaisquer perseguições que aquele que foi lançado fora suscitar ou promover exteriormente, aumenta a glória que é segundo Deus.
Ou, a oitava bem-aventurança, por assim dizer, retorna ao princípio, porque demonstra e prova o que está consumado e perfeito. Assim, na primeira e na oitava é nomeado o reino dos céus; pois são sete as que aperfeiçoam; mas a oitava clarifica e demonstra o perfeito; para que por estes degraus se aperfeiçoem também os demais, como se tomasse novamente o início.
Deve-se atentar diligentemente ao número destas sentenças; pois a estes sete graus corresponde a operação septiforme do Espírito Santo que Isaías descreve; mas lá ele começa pelo mais alto, aqui pelo mais baixo: porque lá se ensina que o Filho de Deus descerá às coisas mais baixas, aqui que o homem ascenderá das coisas baixas à semelhança de Deus. Nestas bem-aventuranças, primeiro está o temor, que convém aos homens humildes, dos quais se diz bem-aventurados os pobres de espírito, isto é, os que não aspiram a coisas elevadas, mas temem. A segunda é a piedade, que convém aos mansos: pois quem busca piedosamente, honra, não repreende, não resiste, o que é tornar-se manso. A terceira é a ciência, que convém aos que choram, que aprenderam por quais males estão agora atados, os quais buscaram como se fossem bens. A quarta, que é a fortaleza, corresponde aos que têm fome e sede, porque desejando o gozo dos verdadeiros bens, trabalham para afastar-se dos desejos terrenos. A quinta, o conselho, convém aos misericordiosos, porque o único remédio para livrar-se de tantos males é perdoar aos outros e dar. A sexta é o entendimento, e convém aos puros de coração, que com o olho purificado podem ver o que o olho não viu. A sétima é a sabedoria, que convém aos pacificadores, nos quais nenhum movimento é rebelde, mas obedecem ao espírito. Um só prêmio, que é o reino dos céus, é diversamente nomeado. Na primeira bem-aventurança, como convinha, foi colocado o reino dos céus, que é o princípio da sabedoria perfeita, como se dissesse: o princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Aos mansos, a herança como um testamento do pai, para os que buscam com piedade; aos que choram, a consolação, como para aqueles que sabem o que perderam e em que estão mergulhados; aos famintos, a saciedade, como restauração para os que trabalham pela salvação; aos misericordiosos, a misericórdia, como para os que usam o melhor conselho, para que lhes seja mostrado o que eles mostram aos outros; aos puros de coração, a faculdade de ver a Deus, como aos que possuem olho puro para compreender as coisas eternas; aos pacificadores, a semelhança de Deus. E todas estas coisas podem ser cumpridas nesta vida, assim como acreditamos terem sido cumpridas nos apóstolos: pois o que se promete após esta vida não pode ser expresso por palavras.
Pode-se questionar qual é a diferença quando diz "quando vos amaldiçoarem e disserem todo tipo de mal", visto que amaldiçoar já é dizer o mal. Porém, uma coisa é a maldição proferida com contumácia na presença daquele que é amaldiçoado, outra é quando se fere a reputação do ausente. Perseguir, por sua vez, é impor violência ou buscar emboscadas.
O qual considero ter sido dito por causa daqueles que querem gloriar-se das perseguições e da fama de sua torpeza, e por isso dizem que Cristo lhes pertence, porque muitas coisas más são ditas sobre eles, ainda que sejam ditas coisas verdadeiras, quando também se fala sobre o erro deles; e se alguma vez falsidades são proferidas, no entanto, não sofrem estas coisas por causa de Cristo.
Não penso que aqui os céus signifiquem as partes superiores deste mundo visível: pois vossa recompensa não deve ser buscada nas coisas visíveis; mas creio que "nos céus" foi dito em referência aos firmamentos espirituais, onde habita a justiça sempiterna. Experimentam, portanto, esta recompensa aqueles que se alegram nas coisas espirituais, mas será completamente aperfeiçoada quando este ser mortal se revestir de imortalidade.
Ele colocou aqui a perseguição de modo geral, tanto na maledicência quanto na laceração da boa fama.
E se vós, por quem os povos devem ser condimentados, perderdes o reino dos céus por medo das perseguições temporais, quem serão os homens por quem o erro será afastado de vós? Outra versão diz "se o sal se tornar insípido", mostrando que devem ser julgados como néscios aqueles que, buscando a abundância dos bens temporais ou temendo sua escassez, perdem os bens eternos, que não podem ser dados nem retirados pelos homens.
Não é calcado pelos homens quem padece perseguição, mas quem, temendo a perseguição, perde o seu sabor. Pois só pode ser calcado o que está abaixo; e não está abaixo aquele que, embora no corpo suporte muitas coisas na terra, tem o coração fixado no céu.
Convém, porém, aqui entender por mundo não o céu e a terra, mas os homens que estão no mundo, ou os que amam o mundo, para cuja iluminação os apóstolos foram enviados.
Ou, está colocada sobre um monte, isto é, sobre a grande justiça, que é significada pelo monte, no qual o Senhor discorre.
O que, porém, pensamos ter sido dito com "e a põem debaixo do alqueire"? Acaso deve-se entender apenas a ocultação da lâmpada (como se dissesse: ninguém acende uma lâmpada e a oculta), ou o alqueire significa algo mais, de modo que colocar a lâmpada debaixo do alqueire seja preferir as comodidades do corpo à pregação da verdade? Coloca, pois, a lâmpada debaixo do alqueire todo aquele que obscurece e encobre a luz da boa doutrina com as comodidades temporais. E bem se diz alqueire para as coisas corporais, seja pela retribuição da medida, pois cada um receberá o que fez no corpo, seja porque os bens temporais, que se realizam no corpo, começam e passam dentro de uma medida de dias, que o alqueire significa; mas as coisas eternas e espirituais não são limitadas por tal fim. Coloca a lâmpada sobre o candelabro aquele que submete seu corpo ao ministério da palavra, para que a pregação da verdade esteja acima e o serviço do corpo abaixo; pois através da própria servidão do corpo a doutrina brilha mais elevada, enquanto por meio da voz e outros movimentos do corpo nas boas obras é insinuada aos que aprendem.
Se alguém quiser considerar a casa como a Igreja, não é absurdo. Ou a casa é o próprio mundo, em razão do que disse acima: "Vós sois a luz do mundo".
Se tão somente tivesse dito "para que vejam vossas boas obras", pareceria ter estabelecido como fim os louvores dos homens, os quais buscam os hipócritas; mas acrescentou "e glorifiquem vosso Pai que está nos céus", para que mesmo quando o homem agrada aos homens por suas boas obras, não constitua nisso o seu fim, mas dirija tudo ao louvor de Deus, e por isso agrade aos homens a fim de que Deus seja glorificado nele.
Nesta sentença, porém, há duplo sentido: pois cumprir a lei ou é acrescentando algo que lhe falta, ou fazendo o que ela contém.
Por fim, porque mesmo para aqueles que estavam sob a graça, nesta vida mortal era difícil cumprir o que está escrito na lei: "Não cobiçarás", Ele, tendo-se tornado sacerdote pelo sacrifício de sua carne, obteve para nós a indulgência; assim também cumprindo a lei, para que aquilo que por nossa fraqueza não podemos cumprir, seja curado pela perfeição daquele de quem nos tornamos membros do corpo, sendo Ele a cabeça. Penso também que assim se deve entender o que se diz "não vim para abolir a lei, mas para cumpri-la"; isto é, com estes acréscimos que pertencem tanto à exposição das antigas sentenças quanto à vida em conformidade com elas. Pois o Senhor ensinou que mesmo um movimento iníquo do pensamento para prejudicar o irmão deve ser considerado como uma espécie de homicídio. O Senhor também preferiu que nós, não jurando, não nos afastássemos da verdade, a que, jurando o verdadeiro, nos aproximássemos do perjúrio. Mas por que, ó maniqueus, não aceitais a lei e os profetas, quando Cristo disse que não veio para aboli-los, mas para cumpri-los?
Se ninguém disse coisas verdadeiras sobre Cristo a não ser aquele que O viu ou O ouviu, hoje ninguém diz verdades sobre Ele. Por que, então, não poderia São Mateus ouvir verdades sobre Cristo da boca de São João, se podemos falar verdadeiramente sobre Ele a partir do livro de São João, nós que nascemos tanto tempo depois? Por este motivo, não apenas o Evangelho de São Mateus, mas também os de São Lucas e São Marcos foram recebidos com igual autoridade. A isto se acrescenta que o próprio Senhor poderia ter narrado a São Mateus o que fizera antes de chamá-lo. Dizei abertamente que não credes no Evangelho; pois quem no Evangelho crê apenas naquilo que quer crer, crê mais em si mesmo do que no Evangelho.
assim São Mateus escreveu de si, como se escrevesse de outro, assim como São João fez dizendo: "Pedro, voltando-se, viu aquele outro discípulo a quem Jesus amava"; é manifesto, pois, que este foi o costume dos escritores quando narravam os acontecimentos
Isto é muito fraco: pois não negamos que aos judeus desprovidos de entendimento, Cristo poderia ter parecido um destruidor da Lei e dos Profetas.
Fausto não entende o que significa cumprir a Lei, quando pensa que isto deve ser entendido como uma adição de palavras. Pois a plenitude da Lei é a caridade, que o Senhor deu ao enviar o Espírito Santo aos fiéis. A Lei é, portanto, cumprida, quer quando se faz o que nela é preceituado, quer quando se cumpre o que nela é profetizado.
No Antigo Testamento havia figuras das coisas futuras, as quais, quando as próprias coisas foram trazidas por Cristo, deviam ser removidas, para que nessa mesma remoção a Lei e os Profetas fossem cumpridos, nos quais está escrito que Deus daria um Novo Testamento.
Maniqueu ensinou uma perversa impiedade, para que do Evangelho aceites o que não impede tua heresia, mas o que a impede não aceites. Mas o Apóstolo nos ensinou uma pia provisão: que qualquer um que nos anunciar algo além daquilo que recebemos, seja anátema(Gálatas 1,8). O Senhor, porém, explicou o que são os joios, não como algumas falsidades inseridas nas verdadeiras Escrituras, como tu interpretas, mas como homens que são filhos do maligno.
Os católicos não sofrem quaisquer dificuldades por causa deste capítulo, como se não observassem a Lei e os Profetas, porque possuem a caridade de Deus e do próximo, nos quais preceitos se sustentam a Lei e os Profetas. E tudo aquilo que ali foi profetizado figurativamente, seja em fatos históricos, celebrações sacramentais ou modos de linguagem, reconhecem cumprir-se em Cristo e na Igreja. Por isso, nem sucumbimos à vã superstição, nem dizemos que este capítulo do Evangelho seja falso, nem negamos ser discípulos de Cristo. Aquele, portanto, que diz: se Cristo não tivesse abolido a Lei e os Profetas, aqueles sacramentos da Lei e dos Profetas permaneceriam nas celebrações dos cristãos, pode igualmente dizer: se Cristo não tivesse abolido a Lei e os Profetas, ainda seria prometido que haveria de nascer, padecer e ressuscitar; porém, por isso mesmo não os aboliu, mas os cumpriu, porque já não se promete que nascerá, padecerá e ressuscitará - o que aqueles sacramentos de algum modo anunciavam - mas se anuncia que já nasceu, padeceu e ressuscitou, o que estes sacramentos, que são celebrados pelos cristãos, já manifestam. É evidente, portanto, quão grande erro cometem aqueles que pensam que, mudados os sinais e os sacramentos, também as próprias realidades são diferentes, quando o rito profético anunciou como promessas e o evangélico demonstra como cumpridas.
É manifesto qual Lei e quais Profetas Cristo não veio revogar, mas cumprir. Esta é, de fato, a Lei que foi dada por Moisés. Não é como Fausto opina, que o Senhor cumpriu algumas coisas que já haviam sido ditas pelos justos antigos antes da Lei de Moisés, como "não matarás", e revogou outras que pareciam próprias da Lei dos Hebreus. Nós, porém, dizemos que estas coisas foram bem instituídas para aquele tempo, e que agora não foram revogadas por Cristo, mas cumpridas, como ficará claro em cada caso particular. Isto também não compreendiam aqueles que permaneceram naquela perversidade de obrigar os gentios a judaizar, a saber, os hereges que são chamados Nazarenos.
Pelo fato de que diz que "um só iota, ou um só ápice não passará da Lei", nada mais se pode entender senão uma veemente expressão de perfeição, que é demonstrada por cada uma das letras; entre as quais letras o iota é menor que as demais, porque se faz com um só traço; o ápice é também uma pequena parte no topo da própria letra. Com estas palavras, mostra que na Lei até as mínimas coisas são levadas a efeito.
Ou, os preceitos da Lei são chamados 'os mínimos', em oposição aos preceitos de Cristo, que são grandes. Os menores mandamentos são significados pelo iota e pelo ápice. "Aquele", portanto, "que violar um destes mandamentos, e assim ensinar aos homens", isto é, a fazer como ele faz, "será chamado o menor no reino dos céus". Daí, talvez possamos concluir que não é verdade que ninguém estará lá, exceto aqueles que forem grandes.
Ou de outro modo: Quem violar estes mínimos, isto é, os preceitos da lei, e assim ensinar, será chamado o menor; mas aquele que praticar estes mínimos, e assim ensinar, não deve ser considerado grande, mas, contudo, não tão pequeno quanto aquele que os viola. Porém, para que seja grande, deve fazer e ensinar aquilo que Cristo ensina.
Ou de outro modo. Se a vossa justiça não for mais abundante que a dos Escribas e Fariseus, isto é, acima daqueles que não cumprem o que ensinam, porque sobre estes foi dito em outro lugar: "dizem e não fazem"; como se dissesse: se a vossa justiça não for tão abundante que vós não violeis, mas antes pratiqueis o que ensinais, não entrareis no reino dos céus. De outro modo, portanto, deve-se entender o reino dos céus onde ambos estão, tanto aquele que viola o que ensina, quanto aquele que o pratica, mas um é o menor, e o outro, o maior: este reino dos céus é a Igreja presente. De outra maneira, porém, diz-se reino dos céus àquele em que não entra senão quem pratica, e esta é a Igreja tal como será no futuro.
Este nome, reino dos céus, que o Senhor menciona com tanta frequência, não sei se alguém poderia encontrá-lo nos livros do Antigo Testamento; pois pertence propriamente à revelação do Novo Testamento, sendo reservado para ser nomeado pela boca daquele a quem o Antigo Testamento prefigurava como Rei que viria para governar seus servos. Este fim, ao qual os preceitos devem ser referidos, estava oculto no Antigo Testamento, embora já naquele tempo vivessem segundo ele os santos que viam a sua futura revelação.
Pois quase tudo o que o Senhor advertiu ou ordenou, onde acrescentava "Eu, porém, vos digo", encontra-se também naqueles antigos livros. Mas como os homens não compreendiam o homicídio senão como a destruição do corpo humano, o Senhor revelou que todo movimento iníquo para prejudicar um irmão deve ser considerado como uma forma de homicídio; por isso acrescenta: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás".
Não é porque ouvimos "Não matarás" que consideramos um crime arrancar um rebento, conforme o erro dos Maniqueus, nem entendemos que foi dito sobre os animais irracionais, porque pela justíssima ordenação do Criador, a vida e a morte destes estão sujeitas às nossas necessidades. Portanto, resta que entendamos que "Não matarás" foi dito sobre o homem: não a outrem, logo nem a ti mesmo; pois quem se mata, não mata senão um homem. De modo algum, porém, agiram contra este preceito aqueles que, por autoridade de Deus, empreenderam guerras, ou que, investidos de poder público, por ordem de justíssima razão, puniram criminosos com a morte. E Abraão não só não foi acusado do crime de crueldade, mas até foi louvado em nome da piedade, porque quis matar seu filho em obediência. Portanto, são excetuados aqueles a quem Deus ordena matar, seja por lei estabelecida, seja por ordem expressa temporariamente a uma pessoa: pois não mata quem presta auxílio a quem ordena, assim como o cabo é auxiliar de quem usa a espada; nem Sansão é desculpado de outro modo por ter esmagado a si mesmo junto com os inimigos na ruína da casa, a não ser porque o espírito lhe ordenara secretamente, o qual por meio dele fazia milagres.
Há duas opiniões diferentes entre os filósofos a respeito das paixões da alma: os Estoicos não admitem que qualquer paixão incida sobre o homem sábio; os Peripatéticos, porém, afirmam que elas incidem sobre o homem sábio, mas de maneira moderada e sujeitas à razão; como, por exemplo, quando a misericórdia é demonstrada de tal modo que a justiça seja preservada. Mas na regra cristã não questionamos tanto se a alma é primeiramente afetada pela ira ou pela tristeza, mas de onde provêm.
Também dizemos que se deve considerar o que significa irar-se contra seu irmão: pois não se ira contra o irmão aquele que se ira contra o pecado do irmão. Portanto, aquele que se ira contra o irmão, e não contra o pecado, ira-se sem causa.
Todavia, irar-se com um irmão para que ele seja corrigido, não há homem de mente sã que o reprove: pois movimentos desta natureza que procedem do amor ao bem e da santa caridade não devem ser chamados de vícios, quando seguem a reta razão.
Assim, portanto, neste primeiro há um só elemento, isto é, apenas a ira; no segundo, porém, há dois, a saber, a ira e a voz que a significa; de onde se segue quem disser a seu irmão: racha, será réu do Conselho. Alguns quiseram extrair do grego a interpretação desta palavra, pensando que racha significa maltrapilho, já que em grego pano se diz racos. Porém, é mais provável que não seja uma palavra que signifique algo, mas que expresse um movimento de ânimo indignado. Estas vozes os gramáticos chamam de interjeições, como quando se diz por alguém que sofre: "ai".
No terceiro caso são significadas três coisas: a ira, e a voz que significa a ira, e a expressão de vitupério na voz; por isso se diz e aquele que disser: insensato, será réu do fogo da Geena. Há, portanto, graus nestes pecados: primeiro, que alguém se ire, retendo o movimento concebido no coração. Mas se já deixa escapar uma voz que não significa algo determinado, mas que testemunha o movimento da alma pela própria erupção, é mais grave do que se a ira surgisse e fosse reprimida em silêncio. E ainda mais grave é se profere uma palavra que já designa uma vituperação determinada.
Veja também agora três acusações: do juízo, do Concílio e da Geena de fogo; nas quais adverte que foram estabelecidos certos graus, dos mais leves aos mais graves. Pois no juízo ainda se concede lugar para defesa; ao Concílio, porém, parece pertencer a prolação da sentença, quando os juízes conferem entre si com que suplício convém condenar; na Geena de fogo, por sua vez, a condenação é certa e a pena do condenado é determinada. Por isso, fica evidente quanta diferença existe entre a justiça dos fariseus e a de Cristo: ali, o homicídio torna alguém réu de juízo; aqui, porém, a ira torna alguém réu de juízo, que destas três acusações é a mais leve.
Mas quem disser: "Com que pena mais grave é punido o homicídio, se o insulto é punido com o fogo da Geena?" Obriga a entender que há diferença entre as Geenas.
Nestas três sentenças, deve-se observar o subentendido das palavras. Pois a primeira sentença tem todas as palavras necessárias, de modo que nada é subentendido. "Quem se irar", diz, "contra seu irmão, sem causa", segundo alguns; na segunda, porém, quando diz "quem disser a seu irmão: racha", subentende-se "sem causa"; pois na terceira, onde diz "quem disser: insensato", duas coisas são subentendidas: "a seu irmão" e "sem causa". E é por isso que se defende que o Apóstolo chama os Gálatas de insensatos, os quais também nomeia irmãos: pois não o faz sem causa.
Se não é lícito irar-se contra um irmão, ou dizer-lhe racha, ou insensato, muito menos é lícito guardar na memória algo que possa converter a ira em ódio; e por isso acrescenta: "se, pois, estiveres apresentando tua oferta diante do altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti".
Então ele tem algo contra nós quando o temos ofendido; e nós temos algo contra ele quando ele nos ofendeu, caso em que não há necessidade de ir para se reconciliar com ele, visto que só precisamos perdoá-lo, assim como desejamos que o Senhor nos perdoe.
Se porém o que aqui se diz se toma ao pé da letra, talvez alguém acredite que assim convém fazer, se o irmão estiver presente: pois não se pode adiar por muito tempo, quando te ordena deixar tua oferta diante do altar. Mas se acaso estiver ausente, e, como pode acontecer, encontrar-se até mesmo além-mar, é absurdo acreditar que se deva deixar a oferta diante do altar, para que a ofereças a Deus depois de percorrer terras e mares. E por isso somos forçados inteiramente a recorrer ao sentido espiritual, para que o que foi dito possa ser entendido sem absurdidade. Assim, espiritualmente, podemos entender o altar como a fé. Pois a oferta que oferecemos a Deus, seja doutrina, seja oração, ou qualquer outra coisa, não pode ser aceita por Deus se não for sustentada pela fé. Se, portanto, ofendemos o irmão em algo, deve-se ir à reconciliação, não com os pés do corpo, mas com os movimentos da alma, onde te prostres com humilde afeto diante do irmão, na presença daquele a quem vais oferecer tua oferta. Assim, como se ele estivesse presente, poderás acalmá-lo com ânimo não simulado, pedindo perdão, e voltando daí, isto é, trazendo de volta a intenção para aquilo que tinhas começado a fazer, oferecerás tua oferta.
Vejamos quem é este adversário, com quem nos é ordenado sermos benévolos. Pode ser ou o Diabo, ou o homem, ou a carne, ou Deus, ou seus preceitos. Mas não vejo como nos seria ordenado ser benévolos ou consentir com o Diabo; pois onde há benevolência, há amizade; e ninguém dirá que se deve estabelecer amizade com o Diabo; nem convém concordar com aquele ao qual, ao renunciar uma vez, declaramos guerra; nem convém consentir com ele, a quem se nunca tivéssemos consentido, nunca teríamos caído nestas dificuldades.
Não vejo, porém, como entender que somos entregues por um homem ao juiz, quando compreendo que Cristo é o juiz, diante de cujo tribunal todos devemos comparecer. Como, portanto, entregará ao juiz quem igualmente comparece diante do juiz? E também se alguém prejudicou um homem matando-o, já não haverá tempo para concordar com ele no caminho, isto é, nesta vida; mas nem por isso deixará de ser curado pelo arrependimento. Quanto à carne, muito menos vejo como podemos ser ordenados a concordar com ela; pois os pecadores é que concordam mais com ela: mas os que a submetem à servidão, não concordam com ela, mas a obrigam a concordar com eles.
Talvez, então, somos ordenados a consentir com Deus, porque d'Ele nos afastamos pelo pecado, de modo que Ele possa ser chamado nosso adversário, enquanto nos resiste: "Deus resiste aos soberbos". Portanto, qualquer um que nesta vida não for reconciliado com Deus pela morte de seu Filho, será por Ele entregue ao juiz, isto é, ao Filho, a quem o Pai confiou todo o julgamento. Mas como se pode dizer corretamente que o homem está no caminho com Deus, senão porque Deus está em toda parte? Ou, se não nos agrada dizer que os ímpios estão com Deus, que está presente em toda parte, assim como não dizemos que os cegos estão com a luz que os envolve, resta-nos apenas entender aqui que o adversário é o preceito de Deus, que se opõe aos que desejam pecar, e que nos foi dado para esta vida a fim de estar conosco no caminho; ao qual devemos consentir rapidamente, lendo-o, ouvindo-o com antecedência, atribuindo-lhe a mais alta autoridade, para que o que alguém compreende não seja odiado por se opor aos seus pecados, mas antes seja amado por causa da correção; e aquilo que é obscuro, que ore para que o entenda.
Pelo juiz entendo Cristo: pois o Pai entregou todo julgamento ao Filho; e pelo ministro entendo o Anjo: e os Anjos, diz São Mateus, serviam a Ele; e cremos que Ele virá com seus Anjos para julgar. Por isso segue-se e o juiz te entregará ao ministro.
Por cárcere, entendo as penas, ou seja, as trevas. E para que ninguém despreze este cárcere, segue: em verdade te digo que não sairás dali até que pagues o último quadrante.
Ou é colocado para expressar que nada fica sem punição; como quando queremos expressar algo que foi exigido de maneira tão exata que nada restou, dizemos "até a borra"; ou são significados sob o nome de "último quadrante"1 os pecados terrenos. Pois a quarta parte dos elementos deste mundo, e a última deles, é a terra. E naquilo que foi dito "pagar", é significado o castigo eterno. E assim como foi utilizado "até que", onde se disse: "senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés"(Salmo 109,1) (pois não deixará de reinar quando os inimigos forem postos sob seus pés), assim também aqui pode-se entender "não sairás até que pagues o último quadrante"; significa que nunca sairá, porque sempre estará pagando o último quadrante, enquanto sofre os castigos eternos dos pecados terrenos.
[1] quadrans ↩
Isto é, não irás a outra mulher além de tua esposa. Pois se exiges isto de tua esposa, não queres devolver isto à esposa, quando deves preceder a esposa em virtude. É torpe, porém, que o homem diga que isto não pode ser feito. Aquilo que a mulher faz, o homem não pode? Não queiras, porém, dizer: não tenho esposa, vou a uma meretriz, e não violo este preceito que diz não adulterarás; já conheces o teu valor, já sabes o que comes, o que bebes1. Abstém-te, portanto, das fornicações. Quando, pois, corrompes a imagem de Deus (que és tu) através das fornicações e inclinações da libido, o próprio Senhor, que sabe o que te é útil, isto ordena, para que não desmorone por prazeres ilícitos o templo dele, o qual começaste a ser.
[1] Nota editorial: Nicolai insere aqui, do original, "immo quem manduces, quem bibas" ("ou melhor, a quem comes, a quem bebes"). ↩
Mas como os fariseus pensavam que somente a união corporal ilícita com uma mulher era chamada de adultério, o Senhor demonstrou que tal concupiscência não é outra coisa, dizendo: "Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já cometeu adultério com ela em seu coração". Quanto ao que a lei prescreve: "Não cobiçarás a mulher do teu próximo"(Êxodo 20,17), parecia aos judeus que devia ser entendido como o ato de tomá-la, não de ter relações com ela.
Porque há três coisas que completam o pecado: a saber, a sugestão que ocorre pela memória ou pelos sentidos do corpo; e se se deleitou em fruir, esse deleite ilícito deve ser refreado; mas se tiver havido consentimento, o pecado é completo. Contudo, o deleite antes do consentimento ou é nulo ou é tênue; consentir com ele é pecado. Mas se também tiver procedido ao ato, parece que a concupiscência é saciada e extinguida. Porém, depois, quando a sugestão se repete, acende-se um deleite maior, que ainda é menor do que aquele que se converte em hábito; o qual é difícil de vencer.
Assim como no olho se entende corretamente a contemplação, assim na mão se entende corretamente a ação. Pelo olho, entendemos um amigo muito querido; pois costuma-se dizer por aqueles que veementemente querem expressar seu amor: "Amo-o como ao meu olho". É necessário compreender pelo olho um amigo conselheiro, porque o olho mostra o caminho. O que foi acrescentado, "direito", talvez sirva para aumentar a força do amor, pois os homens temem mais perder o olho direito. Ou, porque é o direito, entende-se o conselheiro nas coisas divinas, enquanto o olho esquerdo é o conselheiro nas coisas terrenas; de modo que o sentido é este: qualquer coisa que ames tanto a ponto de considerá-la como teu olho direito, se te escandaliza, isto é, se é impedimento para tua verdadeira bem-aventurança, arranca-o e lança-o para longe de ti. Sobre o escandalizar do esquerdo, seria supérfluo dizer, já que nem mesmo o direito deve ser poupado. A mão direita é entendida como o querido auxiliar nas obras divinas; a esquerda, nas obras que são necessárias para esta vida e para o corpo.
O que aqui ordena o Senhor sobre não repudiar a esposa não é contrário ao que a lei prescreve, como dizia o Maniqueu; pois a lei não diz: "quem quiser repudie sua esposa", ao que seria contrário não repudiar; mas certamente não queria que a esposa fosse repudiada pelo marido, que interpôs este obstáculo, para que o ânimo precipitado ao dissídio fosse refreado pela redação do documento, principalmente porque, como se afirma entre os Hebreus, a ninguém era permitido escrever letras hebraicas senão somente aos Escribas, que professavam uma ciência superior. A estes, portanto, a lei quis enviar aquele a quem ordenou dar o libelo de repúdio, se repudiasse a esposa, os quais, agindo pacificamente entre ele e a esposa, persuadiriam à concórdia, e não escreveriam o libelo a não ser quando o conselho de concórdia não tivesse valor em um ânimo demasiadamente perverso. Assim, portanto, nem completou a lei dos primeiros homens por meio de adições de palavras, nem destruiu aquela que foi dada por Moisés como se opusesse a ela coisas contrárias, como dizia o Maniqueu; mas antes recomendou de tal modo todas as coisas comemoradas a partir da lei dos Hebreus, que qualquer coisa que falasse adicionalmente por sua própria pessoa, ou serviria para buscar a explicação, se aquela tivesse apresentado algo obscuramente, ou para observar com maior segurança o que aquela teria querido.
Aquele, portanto, que buscou um meio de retardar o divórcio, manifestou quanto pôde, mesmo aos homens de coração endurecido, que não desejava a separação. Por isso, o Senhor, para confirmar que a esposa não seja facilmente repudiada, excetuou apenas a causa da fornicação, dizendo: exceto por causa de fornicação; quanto a todas as outras moléstias, se porventura surgirem, ordena que sejam fortemente suportadas em consideração à fidelidade conjugal.
Além disso, ele ainda chama de adúltero o homem que desposar aquela que foi repudiada pelo marido, ou seja, por meio do certificado de divórcio; e por isso acrescenta: "e quem desposar a repudiada, comete adultério".
O Apóstolo mostra o termo desta matéria, dizendo que deve ser observado enquanto o marido vive. Mas, morto ele, dá licença à mulher para casar-se. Se, porém, não se concede à mulher casar-se com outro homem enquanto vive o marido de quem se separou, muito menos é lícito cometer estupros ilícitos com quaisquer outros; pois não age contra este preceito, pelo qual o Senhor proíbe repudiar a esposa, aquele que vive com ela não carnalmente, mas espiritualmente, uma vez que não a repudia. De fato, mais bem-aventurados são os matrimônios daqueles que, entre si, por mútuo consentimento, preservam a continência. Surge aqui, porém, uma questão: quando o Senhor permite, por causa da fornicação, repudiar a esposa, como deve ser entendida esta fornicação: se devemos crer que é dita aquela fornicação que se comete por estupros, ou se, como as Escrituras costumam chamar de fornicação toda corrupção ilícita, como é a idolatria, ou a avareza, e já toda transgressão da lei por concupiscência ilícita. Mas, se é lícito, segundo o Apóstolo, repudiar o cônjuge infiel, embora seja melhor não repudiá-lo, e, contudo, não é lícito, segundo o preceito do Senhor, repudiar o cônjuge, exceto por causa da fornicação, então a própria infidelidade é também fornicação. Além disso, se a infidelidade é fornicação, e a idolatria é infidelidade, e a avareza é idolatria, não se deve duvidar que a avareza também é fornicação. Quem, portanto, poderá separar corretamente qualquer concupiscência ilícita do gênero da fornicação, se a avareza é fornicação?
Não quero, contudo, que o leitor pense que esta nossa discussão deve ser suficiente em assunto tão difícil: pois nem todo pecado é fornicação espiritual; nem Deus destrói todo pecador, já que diariamente atende aos seus santos que dizem: "perdoai-nos as nossas dívidas", enquanto destrói todo aquele que fornica afastando-se dele. Se por causa desta fornicação é permitido repudiar a esposa, é questão extremamente obscura; mas não há questão alguma de que é permitido por causa daquela fornicação que se comete nos adultérios.
Se alguém afirma que a única fornicação que o Senhor admite como causa para abandonar o cônjuge é aquela que se perpetra por concúbito ilícito, pode-se dizer que o Senhor falou sobre ambos os fiéis, para que a nenhum seja lícito deixar o outro, a não ser por causa de fornicação.
Não é permitido apenas repudiar a esposa que comete fornicação, mas quem quer que repudie também a esposa pela qual ele mesmo é compelido a fornicar, por causa da fornicação certamente a repudia, não apenas pela fornicação dela, mas também pela sua própria: a dela, porque ela fornica; a sua, para que ele não fornique.
Da mesma maneira, ele a repudia com toda razão, se ela disser ao seu marido: "Não serei tua esposa a menos que acumules riquezas por meio de roubo", ou se lhe pedir qualquer outra coisa criminosa ou vergonhosa que tenha notado em seu marido. Então, aquele a quem a esposa diz tal coisa, se é verdadeiramente penitente, cortará o membro que o escandaliza.
Nada é mais iníquo do que repudiar uma esposa por causa de fornicação, se ele próprio é convencido de fornicar; pois ocorre aquilo: "naquilo em que julgas o outro, condenas a ti mesmo." Sobre o que diz "e quem se casar com a repudiada, comete adultério", pode-se questionar se, assim como comete adultério aquele que se casa com ela, também ela com quem ele se casa: pois o apóstolo ordena que ela permaneça sem se casar, ou que se reconcilie com o marido. Mas, no entanto, se ela se afastar do marido, muito importa se é ela quem abandona ou é abandonada: pois se ela própria abandonar o marido e se casar com outro, parece que por desejo de mudar de cônjuge deixou o primeiro marido; o que é um pensamento adúltero. Mas se for abandonada pelo marido, não se pode descobrir como, quando homem e mulher se unem por mútuo consentimento, um deles comete adultério, e não o outro. A isto acrescenta-se que, se aquele comete adultério ao se casar com a que foi repudiada pelo marido, ela mesma o faz cometer adultério; o que aqui o Senhor proíbe.
Porque o perjúrio é um grave pecado, e está mais distante do perjúrio quem não costuma jurar do que aquele que é propenso a jurar com verdade, o Senhor preferiu que nós, não jurando, não nos afastássemos da verdade, a que, jurando com verdade, nos aproximássemos do perjúrio; por isso acrescenta: "Mas eu vos digo: não jurar de modo algum".
Nisto confirma a justiça dos fariseus, que consiste em não perjurar; pois não pode perjurar aquele que não jura. Mas como jura aquele que apresenta Deus como testemunha, deve-se considerar se o Apóstolo não parece ter agido contra este preceito do Senhor, pois frequentemente jurou desta maneira quando disse: "O que vos escrevo, eis que diante de Deus, não minto". E: "Deus, a quem sirvo em meu espírito, é minha testemunha". A não ser que alguém diga que se deve evitar o juramento quando se diz algo pelo qual se jura: como se não tivesse jurado porque não disse "por Deus", mas disse "Deus é minha testemunha". É ridículo pensar isto; mas saiba-se também que o Apóstolo jurou deste modo quando disse: "Cada dia morro pela vossa glória, irmãos". E para que ninguém entenda isto como se dissesse: "vossa glória me faz morrer diariamente", os exemplares gregos esclarecem, nos quais o que está escrito, "ni tin kauchisin himeteran", isto é, "pela vossa glória", não é dito senão por quem jura.
Mas não podendo compreender muitas coisas nas palavras, recolhemos nos feitos dos santos de que modo convém entender o que facilmente seria conduzido para outro sentido, se não fosse reconsiderado por exemplos. O Apóstolo jurou em suas epístolas, e assim mostrou como deve ser entendido o que foi dito mas eu vos digo para não jurar de modo algum, para que, evidentemente, ao jurar, não se chegue à facilidade de jurar, e da facilidade de jurar se chegue ao hábito, e do hábito se caia no perjúrio. E por isso não se encontra que tenha jurado senão ao escrever, onde a consideração mais cautelosa não tem a língua precipitada. E todavia o Senhor diz absolutamente não jurar: pois não concedeu que isso fosse lícito aos que escrevem. Mas como é um sacrilégio dizer que Paulo é réu de um preceito violado, especialmente nas epístolas escritas, deve-se entender que aquele de modo algum que foi colocado, foi posto para que, tanto quanto estiver em ti, não afetes, ou como se fosse por um bem, não desejes o juramento com alguma delectação.
Portanto, nos escritos, onde há maior consideração, encontra-se que o Apóstolo jurou em vários lugares, para que ninguém pensasse que se peca jurando o verdadeiro, mas antes entendesse que os corações da fragilidade humana são melhor preservados do perjúrio abstendo-se completamente de jurar.
Ou por isso foi acrescentado nem pelo céu, porque os judeus não achavam que estavam obrigados pelo juramento, se jurassem por essas coisas; como se dissesse: quando juras pelo céu e pela terra, não julgues que não deves ao Senhor o teu juramento, porque te convences de jurar por Aquele cujo trono é o céu e cujo escabelo é a terra; o que não é dito como se Deus tivesse membros colocados no céu e na terra, como nós quando nos sentamos, mas aquele assento de Deus significa julgamento. E visto que neste universo do corpo do mundo o céu possui a máxima beleza, diz-se que Deus está sentado no céu, como se a força divina fosse superior pela excelente beleza; e diz-se que pisa a terra porque ordena a menor beleza nas extremidades. Espiritualmente, pelo nome de céu significa as almas santas, e de terra, as pecadoras, pois: "o espiritual julga todas as coisas"(1 Coríntios 2,15). Ao pecador, porém, foi dito: "terra és e à terra irás"(Gênesis 3,19). E quem quisesse permanecer na lei, é posto sob a lei; e por isso convenientemente diz escabelo de seus pés. Segue-se nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande rei; o que é melhor dito do que se dissesse "minha", embora se entenda que tenha dito isso. E porque Ele mesmo é certamente o Senhor, ao Senhor deve o juramento quem jura por Jerusalém. Segue-se nem jurarás pela tua cabeça. Pois o que poderia alguém julgar pertencer mais a si mesmo do que sua própria cabeça? Mas como é nossa, onde não temos poder de fazer um único cabelo branco ou preto? Por isso se diz porque não podes fazer um cabelo branco ou preto. Logo, deve juramento a Deus quem quiser jurar por sua própria cabeça. E a partir disso, entendem-se também as demais coisas.
Por conseguinte, quem entende que o juramento não deve ser tido entre as coisas boas, mas entre as necessárias, refreie-se o quanto puder, para não usá-lo senão por necessidade, quando vê que os homens são lentos em crer naquilo que é útil crer, a menos que seja confirmado com juramento. Isto, portanto, é bom e desejável, o que aqui se diz: "seja o vosso falar: sim, sim, não, não". Mas o que excede a isto vem do mal, isto é, se és forçado a jurar, saibas que isso provém da necessidade da fraqueza daqueles a quem persuades de algo; fraqueza esta que certamente é um mal. Assim, não disse: "o que é mais é mau"; pois tu não fazes o mal quando usas bem o juramento para persuadir a outro daquilo que utilmente persuades; mas vem do mal daquele cuja fraqueza te obriga a jurar.
Isso de fato foi ordenado para reprimir as chamas dos ódios que se inflamam mutuamente e para refrear os ânimos imoderados. Pois quem facilmente se contenta em retribuir apenas tanto de vingança quanto recebeu de injúria? Porventura não vemos homens levemente ofendidos planejarem assassinatos, sedentos de sangue, e mal encontrarem nos males do inimigo com que se satisfaçam? A esta vingança imoderada e injusta, a lei, fixando um modo justo, instituiu a pena de talião; isto é, para que qualquer injúria que alguém tenha causado, tal suplício retribua; o que não é incentivo, mas limite do furor; não para que aquilo que estava adormecido fosse aceso, mas para que aquilo que já ardia não se estendesse além; foi imposta uma justa vingança, que justamente é devida àquele que sofreu a injúria. O que é devido, ainda que benignamente se perdoe, não injustamente se reclama. Assim, como peca quem quer vingar-se imoderadamente, mas não peca quem quer vingar-se justamente, mais distante do pecado está aquele que não quer vingar-se de modo algum; e por isso acrescenta: eu, porém, vos digo que não resistais ao mal. Eu também poderia colocar assim: foi dito aos antigos: não te vingarás injustamente; eu, porém, vos digo: não vos vingueis, o que é cumprimento, se por estas palavras me parecesse que o que faltava à lei fosse acrescentado por Cristo; e não antes que aquilo que a lei queria realizar, que ninguém se vingasse injustamente, se conserva mais seguramente se não houver vingança alguma.
A justiça dos fariseus é menor, não excedendo o modo da vingança: e isto é o princípio da paz; mas a paz perfeita é não querer absolutamente tal vingança. Portanto, entre aquele primeiro modo que está além da lei, como retribuir um mal maior por um mal menor, e aquilo que o Senhor diz aos discípulos para torná-los perfeitos, que não se retribua mal algum por mal, há um lugar intermediário para que se retribua tanto quanto foi recebido; por meio disto se faz a transição da suma discórdia para a suma concórdia. Pois quem primeiro inflige o mal, está maximamente distante da justiça; quem, porém, não causou mal a ninguém primeiro, mas, sendo lesado, retribui mais gravemente, afastou-se um tanto da suma iniquidade; já aquele que devolve tanto quanto recebeu, já concede algo: pois é justo que aquele que lesou primeiro seja lesado mais gravemente. Esta justiça inicial e mínima, portanto, é aperfeiçoada por Aquele que veio cumprir a lei. Os dois graus que se interpõem, Ele deixa para serem entendidos: pois há quem não retribua tanto, mas menos; e daqui se eleva aquele que não retribui absolutamente nada; o que parece pouco ao Senhor, a não ser que também esteja preparado para suportar mais. Por isso não diz não retribuir mal por mal, mas não resistir ao mal; para que não somente não retribuas o que te foi infligido, mas também não resistas a que outro mal te seja imposto. Isto é o que convenientemente se expõe: "se alguém te ferir na face direita, oferece-lhe também a outra"; o que sentem pertencer à misericórdia, maximamente, aqueles que servem àqueles a quem muito amam, quer perversos quer frenéticos, dos quais frequentemente muito padecem; e se a saúde deles o exige, oferecem-se também para padecer mais. Ensina, portanto, o Senhor, médico das almas, que seus discípulos tolerem com ânimo equilibrado as fraquezas daqueles cuja salvação quisessem atender. Pois toda improbidade vem da fraqueza da alma; porque nada é mais inocente do que aquele que é perfeito na virtude.
As coisas que no novo testamento foram feitas pelos santos servem como exemplos para a compreensão das Escrituras, que foram organizadas em preceitos, como quando lemos no Evangelho de São Lucas: "recebeste uma bofetada" e o resto. Porém não encontramos exemplo mais excelente de paciência que o do próprio Senhor; e quando Ele foi golpeado com uma bofetada, não disse: "eis a outra face", mas disse: "Se falei mal, dá testemunho do mal; mas, se falei bem, por que me feres?" Onde mostra que aquela preparação da outra face deve ser feita no coração.
O Senhor estava disposto não somente a ser esbofeteado na outra face pela salvação de todos, mas a ser crucificado em todo o seu corpo. Pode-se perguntar, porém, o que seja a face direita. Mas como a face é aquilo pelo qual cada um é reconhecido, ser golpeado na face, segundo o Apóstolo, é ser desprezado e desdenhado. Mas como não se pode falar em face direita e face esquerda, e todavia há nobreza segundo Deus e segundo o mundo, assim se distribui como que em face direita e esquerda, para que qualquer discípulo de Cristo que seja desprezado por ser cristão, esteja muito mais preparado para ser desprezado em si mesmo, se tiver alguma honra deste mundo. Todas as coisas nas quais sofremos alguma afronta dividem-se em dois gêneros: um deles é o que não pode ser restituído, o outro é o que pode. Mas naquele que não pode ser restituído, costuma-se buscar o consolo da vingança. Pois de que adianta que, sendo golpeado, golpeies de volta? Acaso por isso se restaura o que foi lesado no corpo? Mas o ânimo inflado deseja tais remédios.
Eis porque o Senhor julga que é melhor suportar misericordiosamente a enfermidade de outrem, do que mitigar a sua com o suplício alheio; contudo, não proíbe aqui a vingança que serve para a correção: pois esta pertence à misericórdia, e não impede aquele propósito pelo qual alguém está preparado para suportar muitas coisas daquele a quem deseja corrigir. Requer-se, porém, que vingue aquele a quem foi dado o poder pela ordem das coisas, e que vingue com aquela vontade com que um pai castiga um filho pequeno, a quem não pode odiar. Os santos varões, com efeito, puniram alguns pecados com a morte, para que se incutisse um temor útil aos vivos, e para que, àqueles que eram punidos com a morte, não fosse a própria morte que os prejudicasse, mas o pecado que poderia aumentar se vivessem. Daí que Elias afligiu muitos com a morte; quando os discípulos seguiram este exemplo, o Senhor repreendeu neles não o exemplo do profeta, mas a ignorância na forma de vingar, percebendo que eles desejavam a vingança não por amor à correção, mas por ódio. Mas depois que Ele lhes ensinou a amar o próximo, tendo também infundido o Espírito Santo, não faltaram tais vinganças: pois às palavras de Pedro, Ananias e sua esposa caíram sem vida; e o apóstolo Paulo entregou alguém a Satanás para a destruição da carne; e por isso alguns, não sei com que cegueira, se enfurecem contra as vinganças corporais que estão no Antigo Testamento, ignorando com que ânimo foram feitas.
Quem, estando em são juízo, dirá aos reis: não vos compete cuidar de quem queira ser religioso ou sacrílego? Não se pode dizer a eles: não vos compete, em vosso reino, cuidar de quem queira ser pudico ou impudico. Certamente é melhor que os homens sejam conduzidos a adorar a Deus pela doutrina do que compelidos pela pena; no entanto, a muitos aproveitou, como comprovamos pela experiência, serem primeiro coagidos pela dor ou pelo temor, para que depois possam ser ensinados, ou para que coloquem em prática o que já aprenderam por palavras. Assim como são melhores aqueles que o amor dirige, também são mais numerosos aqueles que o temor corrige. Reconheçam no apóstolo São Paulo, primeiramente Cristo coagindo, e depois ensinando.
Os cristãos, portanto, neste tipo de injúrias que são reparadas por vingança, observarão esta medida: que, uma vez recebida a injúria, não surja o ódio, mas esteja o ânimo preparado para suportar mais coisas, e não se negligencie a correção quem pode usar de conselho ou de autoridade.
Há outro gênero de injúrias e que pode ser restituído integralmente: do qual há duas espécies: uma pertence ao dinheiro, a outra às obras; por isso, sobre a primeira destas duas, acrescenta "e àquele que quer contender contigo em juízo e tomar tua túnica, cede-lhe também o manto". Assim como o que foi estabelecido sobre a bofetada na face significa todas as coisas que são infligidas pelos ímprobos de tal modo que não podem ser restituídas senão pela vingança, assim o que foi estabelecido sobre a vestimenta significa todas as coisas que podem ser restituídas sem vingança; e também isto se entende corretamente como preceito à preparação do coração, não à ostentação da obra. E o que foi dito da túnica e da vestimenta, deve ser feito em todas as coisas que por algum direito dizemos serem temporalmente nossas. Se, pois, isto foi ordenado a respeito das coisas necessárias, quanto mais convém desprezar as supérfluas? E isto mesmo significa quando diz "quem quer contender contigo em juízo"; portanto, entende-se tudo aquilo sobre o que se pode contender conosco em juízo. Mas se isto deve ser aceito também a respeito dos servos, é uma grande questão: pois não convém ao cristão possuir um servo do mesmo modo que um cavalo, embora possa acontecer que o cavalo valha mais em preço que o servo. Mas se o servo é governado mais retamente por ti do que por aquele que deseja tomá-lo de ti, não sei se alguém ousaria dizer que ele deve ser desprezado como uma vestimenta.
E por isso o Senhor proibiu aqui aos seus de ter juízo com outros sobre coisas seculares. Porém, como o Apóstolo permite que tais juízos sejam resolvidos na Igreja entre irmãos, sendo irmãos os que julgam, e o proíbe terminantemente fora da Igreja; é manifesto que isto se concede aos fracos por condescendência.
O terceiro tipo de injúrias, que se refere ao trabalho, é composto de ambos os anteriores e pode ser restituído com vingança ou sem vingança. Pois aquele que constrange um homem e o obriga a ajudá-lo indevidamente contra sua vontade, pode tanto sofrer a pena por sua improbidade quanto restituir o trabalho. Neste tipo de injúrias, portanto, o Senhor ensina que a alma cristã deve ser extremamente paciente e estar preparada para suportar ainda mais; por isso acrescenta: "E quem te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele outros dois". E isto certamente nos exorta não tanto a fazê-lo com os pés, mas a estar preparado em espírito.
Assim, portanto, pensamos que foi dito "vai com ele outros dois", isto é, mais dois mil passos, a fim de que quisesse que se completasse três mil, número pelo qual se significa a perfeição, para que aquele que faz isto se lembre que está cumprindo a justiça perfeita; razão pela qual também insinuou este preceito com três exemplos, e neste terceiro exemplo, ao simples adiciona-se o dobro, para que se complete o triplo. Ou por isto entende-se que ao ordenar, como que começando pelo mais tolerável, aumentou paulatinamente; pois primeiro quis que se oferecesse a outra face, quando a direita fosse golpeada, para que estejas preparado a suportar menos do que já suportaste. Depois, àquele que quer tirar a túnica, manda que se deixe também o manto, ou o vestido, segundo outra versão; o que ou é o mesmo, ou não muito mais. Em terceiro lugar, aos mil passos, aos quais diz que se devem acrescentar dois mil, conduz até o dobro. Mas como é pouco não fazer mal, se não prestares também um benefício, consequentemente acrescenta e diz: "ao que te pede, dá".
Diz, portanto: dá a todo aquele que te pede, não todas as coisas àquele que pede, mas aquilo que podes dar honesta e justamente. Pois o que dizer se alguém pedir dinheiro com o qual pretenda oprimir um inocente? O que dizer se pedir um ato impuro? Deve-se dar, portanto, o que não prejudique nem a ti nem a outrem, conforme se pode humanamente discernir; e quando negares o que pede, deves explicar a justiça da recusa, para que não o deixes partir de mãos vazias, e algumas vezes darás algo melhor, quando corrigires aquele que pede injustamente.
É mais útil tirar o pão ao faminto, se este, estando seguro do alimento, negligencia a justiça, do que partir o pão para o faminto, se ele, seduzido pela força da injustiça, aquiesce.
Quanto ao que diz: "E ao que quer te pedir emprestado, não te afastes", deve ser referido à alma; pois Deus ama ao que dá com alegria (2 Coríntios 9,7). Pois toma emprestado todo aquele que recebe, ainda que ele próprio não vá restituir, porque Deus restitui muito mais aos misericordiosos. Ou, se não te agrada considerar mutuante senão aquele que recebe para restituir, deve-se entender que o Senhor abrangeu ambos os tipos de empréstimo: pois ou doamos, ou confiamos a quem vai restituir. Corretamente, portanto, exortando a este tipo de benefício, diz "não te afastes", isto é, não afastes tua vontade por esta razão, como se Deus não fosse restituir quando o homem tiver restituído. Pois quando fazes por preceito de Deus, não pode ser infrutífero.
Alguns objetam que esta doutrina de Cristo não se harmoniza de modo algum com os costumes da república, pois quem, dizem eles, permitiria que algo lhe fosse tirado por um inimigo, ou não desejaria devolver, segundo o direito de guerra, o mal aos saqueadores das províncias romanas? Todavia, estes preceitos de paciência devem ser mantidos sempre na preparação do coração, e a própria benevolência, de não retribuir o mal com o mal, deve ser sempre cumprida na vontade. Contudo, muitas coisas devem ser feitas mesmo com aqueles que não as querem, castigando-os com uma certa aspereza benigna. E por isso, se a república terrena guardar os preceitos cristãos, até mesmo as guerras não serão travadas sem benevolência, para que aos vencidos mais facilmente se possa garantir uma sociedade pacífica de piedade e justiça; pois aquele a quem se tira a licença da iniquidade, é vencido utilmente, pois nada é mais infeliz que a felicidade dos pecadores, pela qual se nutre a impunidade penal, e a má vontade, como um inimigo interior, se fortalece.
Que o Senhor não excluiu nenhum homem quando ordenou amar ao próximo, ele o demonstrou na parábola do homem deixado meio morto, chamando de próximo àquele que foi misericordioso para com ele, para que entendamos que próximo é todo aquele a quem se deve prestar o serviço de misericórdia, se necessitar: e quem não vê que isto não deve ser negado a ninguém? Dizendo o Senhor: "Fazei bem aos que vos odeiam".
Entende-se que havia um grau na justiça dos fariseus, que pertencia à lei antiga, pelo fato de que muitos até odeiam aqueles pelos quais são amados. Sobe, portanto, algum grau aquele que ama o próximo, embora ainda odeie o inimigo; por isso, para designar isto, acrescenta-se: "e odiarás o teu inimigo"; esta expressão não deve ser tomada como uma ordem para o justo, mas uma permissão para o fraco.
Pergunto, porém, aos maniqueus, por que querem considerar próprio da lei de Moisés o que foi dito aos antigos: "Odiarás o teu inimigo". Não disse também São Paulo que certos homens são odiosos a Deus? Deve-se, portanto, indagar como se entende que, seguindo o exemplo de Deus, a quem São Paulo disse serem alguns odiáveis, devemos odiar os inimigos; e, igualmente, seguindo o exemplo de Deus, que faz nascer o seu sol sobre bons e maus, devemos amar os inimigos. Esta é, portanto, a regra pela qual tanto odiamos o inimigo por aquilo que nele é mau, isto é, a iniquidade, quanto amamos o inimigo por aquilo que nele é bom, isto é, a criatura racional. Tendo ouvido, pois, sem compreender, o que fora dito aos antigos, "odiarás o teu inimigo", os homens eram levados ao ódio contra o homem, quando deveriam odiar apenas o vício. A estes, portanto, o Senhor corrige quando acrescenta: "Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos"; como quem já havia dito: "Não vim para abolir a lei, mas para cumpri-la", ordenando certamente que amemos os inimigos, obrigando-nos a compreender como podemos, ao mesmo tempo, odiar um homem por sua culpa e amá-lo por sua natureza.
Mas estas coisas pertencem aos perfeitos filhos de Deus: para o qual, certamente, todo fiel deve estender-se, e conduzir o espírito humano a este afeto, orando a Deus e lutando consigo mesmo. Contudo, este tão grande bem não pertence a tantos quantos cremos serem ouvidos, quando na oração se diz: "perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores".
Surge aqui uma questão, pois a este preceito do Senhor no qual nos exorta a orar pelos inimigos, muitas outras partes das Escrituras parecem adversas: porque nos profetas encontram-se muitas imprecações contra os inimigos, como aquela do Salmo 108, 9: "Fiquem órfãos os seus filhos". Mas deve-se saber que os profetas costumam predizer o futuro sob a figura de quem faz imprecações. Mas o que mais causa perplexidade é o que diz São João: "Há um pecado para a morte, não digo que se ore por ele"; pois mostra claramente que existem alguns irmãos pelos quais não nos é ordenado orar, quando diz anteriormente: "Se alguém vir seu irmão pecar, etc.", enquanto o Senhor nos manda orar até mesmo pelos perseguidores. Nem essa questão pode ser resolvida, a menos que confessemos que há alguns pecados nos irmãos que são mais graves que a perseguição dos inimigos. Pois São Estêvão ora por aqueles que o apedrejam, porque ainda não haviam crido em Cristo; e o apóstolo São Paulo não ora por Alexandre, porque era irmão e, por inveja, havia pecado atacando a fraternidade. Mas por quem não oras, já não oras contra ele. Mas o que diremos daqueles contra os quais aprendemos que os santos oraram, não para que fossem corrigidos (pois deste modo se teria orado mais por eles), mas para sua condenação final, não como contra o traidor do Senhor por meio do profeta (pois aquilo foi predição de coisas futuras, não desejo de suplício), mas como lemos no Apocalipse que os mártires oram para que sejam vingados? Mas não devemos nos perturbar com isto. Pois quem ousaria afirmar se pediram contra os próprios homens ou contra o reino do pecado? Pois esta é a vingança de justiça e misericórdia dos mártires, para que seja derrubado o reino do pecado, sob cujo domínio sofreram tantas coisas. E é destruído em parte pela correção dos homens, em parte pela condenação dos que perseveram no pecado. Não te parece que São Paulo vingou em si mesmo a São Estêvão quando diz: "Castigo meu corpo e o reduzo à servidão"?
Ou as almas dos que foram mortos clamam, postulando vingança; assim como o sangue de Abel clamou da terra não pela voz, mas pela razão1. Pois também se diz que a obra louva o artífice pelo próprio fato de que deleita a quem a vê; com efeito, os santos não são tão impacientes a ponto de urgir que seja feito aquilo que sabem que acontecerá no tempo prefixado.
[1] ratione ↩
De acordo com aquela regra, deve ser entendido o que aqui se diz, pela qual também São João diz: "Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus". Pois um só é Filho por natureza; nós, porém, tendo recebido o poder, tornamo-nos filhos, na medida em que cumprimos aquelas coisas que por Ele são ordenadas. Assim, Ele não diz: "Fazei isto porque sois filhos", mas: "Fazei isto para que sejais filhos". Quando nos chama para isto, chama-nos à sua semelhança; donde segue "que faz nascer o seu sol sobre os bons e os maus, e chover sobre os justos e os injustos". Pode-se entender por sol não este visível, mas aquele de quem se diz: "Para vós que temeis o nome do Senhor, nascerá o sol da justiça", e por chuva a irrigação da doutrina da verdade, porque tanto aos bons como aos maus Cristo apareceu e foi evangelizado.
Também pode-se entender este sol visível, e a chuva pela qual os frutos nascem, pois os ímpios lamentam no livro da Sabedoria: "O sol não nasceu para nós"(Sabedoria 5,6). E sobre a chuva espiritual é dito: "Ordenarei às minhas nuvens que não chovam sobre ela"(Isaías 5,6). Mas seja isto ou aquilo, é obra da grande bondade de Deus, que nos é apresentada para imitação. Ele não diz apenas "que faz nascer o sol", mas acrescenta "seu", isto é, aquele que Ele mesmo fez; para que disto sejamos admoestados com quanta liberalidade devemos oferecer aquelas coisas que não criamos, mas recebemos como dádiva Dele.
Mas assim como louvamos estes dons Seus, assim também devemos considerar os castigos para aqueles a quem Ele ama. Pois nem todo aquele que poupa é amigo, nem todo aquele que castiga é inimigo; é melhor amar com severidade do que enganar com brandura1.
[1] Veja Provérbios 27,6: "Leais são as feridas feitas pelo que ama, mas os beijos do que odeia são enganosos". ↩
Pois o homem bom não se enaltece com os bens temporais, nem se abate com os males. O mau, porém, é punido por essa infelicidade temporal, porque é corrompido pela felicidade. Ou por isso quis que estes bens e males temporais fossem comuns a ambos, para que nem os bens sejam desejados com avidez, visto que se observa que os maus os possuem, nem os males sejam torpemente evitados, pois por eles também os bons são afligidos.
Sobre os Sermões do Senhor. Nisto, porém, que ele diz: "para que sejais vistos por eles", nada acrescentando, ele parece ter proibido que coloquemos nisso o fim do nosso propósito. Pois também o Apóstolo que diz: "Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo"(Gálatas 1,10), diz em outro lugar: "Eu agrado a todos em todas as coisas"(1 Coríntios 10,33). O que ele não faz para agradar aos homens, mas a Deus, para cujo amor ele queria converter os corações dos homens através do agrado que lhes causava; assim como não falaria absurdamente quem dissesse: neste trabalho em que busco um navio, não é o navio que busco, mas a pátria.
Ele diz "para que sejais vistos por eles", porque existem alguns que fazem suas obras de justiça diante dos homens, não para serem vistos por eles, mas para que as próprias obras sejam vistas, e seja glorificado o Pai que está nos céus; pois não contam com sua própria justiça, mas com a daquele em cuja fé vivem.
Quanto a isso, Ele também acrescenta: "De outro modo não tereis recompensa junto a vosso Pai que está nos céus", com o que não demonstra nada mais senão que devemos ter cuidado para não buscarmos o louvor humano como recompensa por nossas obras.
De modo geral, acima o Senhor nomeou a justiça quando disse: "Atentai para que não pratiqueis a vossa justiça" etc.; agora, porém, ele a executa por partes.
Assim, portanto, o que diz "não toques a trombeta diante de ti", refere-se ao que disse anteriormente: "cuidai de não fazer vossa justiça diante dos homens".
Assim como os hipócritas, isto é, os simuladores, enquanto imitadores de outras pessoas, desempenham papéis daquilo que não são - pois aquele que desempenha o papel de Agamenão não é verdadeiramente ele mesmo, mas o simula -, assim também nas Igrejas e em toda vida humana, qualquer um que queira parecer ser o que não é, é um hipócrita: pois simula ser justo e não o demonstra, aquele que coloca todo o seu fruto no louvor dos homens.
Mas aqueles que pecam por simulação não recebem recompensa de Deus, que examina os corações, senão o castigo pela falsidade; e por isso acrescenta: em verdade vos digo, receberam sua recompensa.
Isto refere-se àquilo que acima foi posto: "de outro modo não tereis recompensa junto a vosso Pai". Assim, pois, não te orienta como faças esmola como aqueles, mas como ela deve ser feita, convenientemente, quando diz: "Mas tu, quando fazes esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz tua direita".
Mas segundo este modo, parecerá não haver culpa alguma em querer agradar aos fiéis, ainda que se nos proíba estabelecer o fim da boa obra no louvor de quaisquer homens. Porém, para que te imitem aqueles a quem tuas obras agradaram, deves mostrá-las não apenas aos fiéis, mas também aos infiéis. Se, porém (como outros dizem), consideras a mão esquerda como o inimigo, de modo que teu inimigo não saiba quando fazes esmola, por que o próprio Senhor, estando os judeus inimigos ao redor, curou misericordiosamente os homens? Além disso, como agiremos com o próprio inimigo, para cumprir aquele preceito: "se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer"? A terceira opinião é ridícula, a daqueles que dizem que pelo nome da esquerda se significa a esposa; como se, por serem as mulheres geralmente mais apegadas ao dinheiro nos assuntos familiares, convém esconder delas quando os maridos gastam algo com os outros, a fim de evitar disputas domésticas. Mas este preceito não foi dado somente aos homens, mas também às mulheres; a qual esquerda, pois, se ordena à mulher ocultar sua obra de misericórdia? Acaso também o marido será a esquerda da mulher? E se alguém pensa isso, sendo preceituado a tais pessoas que se ganhem mutuamente pelos bons costumes, não devem ocultar uns aos outros suas boas obras: nem se devem cometer furtos para merecer a Deus. Porém, se algo deve ser ocultado enquanto a fraqueza do outro não pode suportá-lo com ânimo equânime, embora não se faça ilicitamente, não parece fácil que a mulher seja significada pela esquerda pelo sentido de todo o capítulo; e também pelo que chama de esquerda. Pois o que nos hipócritas é culpado, a saber, que buscam os louvores dos homens, isso te é proibido fazer; pelo que a esquerda parece significar o deleite do louvor, enquanto a direita significa a intenção de cumprir os preceitos divinos. Quando, pois, à consciência de quem faz esmola se mistura o apetite do louvor humano, a consciência esquerda se faz da direita. Que a esquerda não saiba, isto é, não se misture à tua consciência o apetite do louvor humano. Nosso Senhor, porém, proíbe muito mais que somente a esquerda opere em nós, do que ela se misture às obras da direita. E com que fim disse isso, mostra quando acrescenta: "para que vossa esmola esteja em oculto", isto é, na própria boa consciência, que não pode ser demonstrada aos olhos humanos, nem aberta por palavras, uma vez que muitos mentem sobre muitas coisas. Basta-te para merecer o prêmio a própria consciência, se esperas o prêmio daquele que é o único inspetor da consciência. E isto é o que se acrescenta: "e teu Pai, que vê em oculto, te recompensará". Muitos exemplares latinos têm "te recompensará publicamente".
Mas nos exemplares gregos, que são os originais, não encontramos a palavra "claramente".
Ele não nos manda, agora, orar, mas instrui-nos como devemos orar; assim como anteriormente não ordenou que déssemos esmola, mas mostrou a maneira de fazê-lo.
Não é pecado ser visto pelos homens, mas fazer isso com o fim de ser visto pelos homens.
Da mesma forma, deve-se evitar o conhecimento dos homens, se algo for feito com a intenção de esperar o fruto de agradar às pessoas; por isso acrescenta: "Em verdade vos digo, já receberam sua recompensa".
Ou, por nossos aposentos devem ser entendidos nossos corações, acerca dos quais se diz: "o que dizeis em vossos corações, compungi-vos em vossos aposentos"(Salmo 4,4). A porta é o sentido carnal; fora estão todas as coisas temporais, que penetram em nossos pensamentos através dos sentidos, e a multidão de vãs fantasias que perturbam os que oram.
Deve-se, portanto, fechar a porta, isto é, resistir ao sentido carnal, para que a oração espiritual seja dirigida ao Pai, a qual se faz no íntimo do coração, onde se ora ao Pai em segredo; de onde segue "e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará".
Assim como é próprio dos hipócritas oferecerem-se para serem vistos na oração, cujo fruto é agradar aos homens, assim também é próprio dos étnicos, isto é, dos gentios, pensar que serão ouvidos pelo muito falar; e por isso acrescenta: "quando orardes, não useis muitas palavras".
Não é orar utilizando muitas palavras, como alguns pensam, orar por muito tempo. Uma coisa é falar muito, outra é um afeto duradouro. Pois do próprio Senhor está escrito que passou a noite em oração e que orou mais prolongadamente, para nos dar exemplo. Diz-se que os irmãos no Egito têm orações frequentes, porém brevíssimas, e lançadas, por assim dizer, rapidamente, para que aquela intensidade, que é muito necessária ao que ora, não seja enfraquecida por demoras prolongadas; e assim eles mesmos mostram suficientemente que esta intensidade, como não deve ser forçada se não pode perdurar, assim também se perdurar, não deve ser interrompida rapidamente. Afaste-se, pois, da oração o muito falar; mas não falte a muita súplica, se uma intenção fervorosa persevera. Pois falar muito é, ao orar, tratar um assunto necessário com palavras supérfluas. Mas suplicar muito é tocar Aquele a quem suplicamos com excitação prolongada do coração; porque frequentemente este negócio é mais realizado com gemidos do que com discursos, mais com lágrimas do que com palavras.
E na verdade todo multiloquium (excesso de palavras) provém dos gentios, que se dedicam mais a exercitar a língua do que a purificar a alma, e este tipo de empenho tentam transferir até mesmo para dobrar a Deus pela oração.
Pois se muitas palavras são proferidas para instruir o ignorante, que necessidade há delas para o Criador de todas as coisas? Por isso segue: "Sabe vosso Pai do que necessitais, antes que vós lho peçais"
Nem tampouco devemos usar palavras quando nos dirigimos a Deus, para obter o que desejamos, mas sim com as coisas que cultivamos na alma, com a intenção de nossos pensamentos, com amor puro e afeto suplicante.
Mas, por isso, em determinados intervalos de tempo, também rogamos a Deus com palavras, para que através destes sinais das coisas nós mesmos nos aconselhemos, e tomemos conhecimento de quanto progredimos neste desejo, e para aumentá-lo, nos estimulemos mais intensamente, para que pelas várias preocupações aquilo que começou a esfriar não se esfrie completamente, e não se extinga totalmente, a menos que seja inflamado com mais frequência. Para nós, portanto, são necessárias as palavras pelas quais sejamos movidos e examinemos o que pedimos, não para que acreditemos que o Senhor deva ser instruído ou persuadido por elas.
Mas, pode-se novamente questionar, quer se ore com fatos ou com palavras, qual a necessidade da própria oração, se Deus já sabe o que nos é necessário, a não ser porque a própria intenção da oração serena e purifica nosso coração, e o torna mais capaz de receber os dons divinos, que nos são infundidos espiritualmente. Pois Deus não nos ouve pela ambição das preces, Ele que está sempre pronto a dar sua luz; mas nós nem sempre estamos prontos a recebê-la, quando nos inclinamos a outras coisas. Realiza-se, portanto, na oração, a conversão do corpo a Deus e a purificação do olho interior, quando aquelas coisas que se cobiçavam temporalmente são excluídas, para que a visão do coração simples possa suportar a luz simples, e nela permanecer com alegria, pela qual se aperfeiçoa a vida bem-aventurada.
Como em toda súplica se deve primeiro conciliar a benevolência daquele a quem rogamos, e depois dizer o que pedimos. A benevolência costuma ser conciliada por meio do louvor daquele a quem a oração é dirigida, e isto costuma ser colocado no princípio da oração; no qual Nosso Senhor não nos mandou dizer nada além de: "Pai nosso que estais nos céus". Muitas coisas foram ditas em louvor a Deus; contudo, nunca se encontra preceito dado ao povo de Israel para que dissessem "Pai nosso"; mas lhes foi insinuado o Senhor como a servos. Porém, sobre o povo Cristão, o Apóstolo diz que recebeu o espírito de adoção, no qual clamamos "Abba, Pai", o que não é de nossos méritos, mas da graça, a qual mencionamos na oração quando dizemos "Pai". Com este nome excita-se a caridade: pois o que deve ser mais caro aos filhos do que o pai? E um afeto suplicante, quando os homens dizem a Deus "Pai nosso"; e certa presunção de alcançar: pois o que não dará aos filhos que pedem, quando isto mesmo antes concedeu que fossem filhos? Finalmente, quão grande cuidado toca a alma, para que aquele que diz "Pai nosso" não seja indigno de tão grande Pai! Por isto também são admoestados os ricos e os nobres de nascimento, quando se tornam cristãos, a não se encherem de soberba contra os pobres ou de nascimento humilde, pois igualmente dizem a Deus "Pai nosso"; o que não podem dizer piedosa e verdadeiramente, a não ser que reconheçam que são irmãos.
Ou diz-se estar nos céus, isto é, nos santos e nos justos; pois Deus não está contido em espaços físicos. Os céus são, de fato, os corpos mais excelentes do universo; e se acreditarmos que neles está o lugar de Deus, seriam de maior mérito as aves, cuja vida está mais próxima de Deus. Porém, não está escrito: o Senhor está próximo dos homens elevados, ou daqueles que habitam nos montes; mas dos contritos de coração. Mas assim como é chamado terra o pecador, a quem foi dito: terra és e à terra voltarás, assim, ao contrário, o justo pode ser chamado céu. Portanto, corretamente se diz que estás nos céus: pois tanta diferença parece haver espiritualmente entre os justos e os pecadores, quanto corporalmente entre o céu e a terra. Para significar isso, ao orarmos, voltamo-nos para o oriente, de onde surge o céu; não porque Deus esteja ali, abandonando as outras partes do mundo, mas para que o espírito seja advertido a voltar-se para uma natureza mais excelente, isto é, para Deus, quando seu corpo, que é terreno, volta-se para um corpo mais excelente, isto é, para o corpo celeste. Convém também que todos os sentidos, tanto dos pequenos quanto dos grandes, sintam bem a respeito de Deus; e por isso, para aqueles que ainda não podem conceber o incorpóreo, é mais tolerável a opinião de que Deus está mais no céu do que na terra.
Foi dito quem é aquele que é solicitado e onde habita; vejamos agora quais coisas devem ser pedidas. Mas a primeira de todas as coisas que se pedem é esta: "santificado seja o teu nome", o que não se pede como se o nome de Deus não fosse santo, mas para que seja tido como santo pelos homens; isto é, que Deus seja conhecido de tal modo que nada seja considerado mais santo.
Mas por que esta perseverança é pedida a Deus, se, como dizem os pelagianos, ela não é dada por Deus? Acaso não é uma petição irrisória, quando se pede a Ele aquilo que se sabe que Ele não dá, mas que está no poder do homem conceder a si mesmo, ainda que Deus não o dê?
Isso não foi dito como se Deus não reinasse agora na terra, ou como se não tivesse sempre reinado sobre ela. Portanto, "venha" deve ser entendido como "seja manifestado aos homens". Pois ninguém poderá ignorar o reino de Deus, quando o seu Unigênito não somente de modo inteligível, mas também de forma visível, vier julgar os vivos e os mortos. O Senhor ensina que este dia do juízo há de vir quando o Evangelho tiver sido pregado a todas as nações; o que pertence à santificação do nome de Deus.
Pois o reino de Deus virá, quer queiramos quer não queiramos. Mas excitamos nosso desejo para aquele reino, para que venha a nós, e para que nele reinemos.
Quando, porém, se pede "venha o teu reino", o que suplicam aqueles que já são santos, senão que perseverem naquela santidade que já lhes foi dada? Pois não virá de outra maneira o reino de Deus, o qual, para aqueles que perseveram até o fim, é certo que há de vir.
Naquele reino de bem-aventurança a vida feliz se aperfeiçoará nos santos, assim como agora nos Anjos celestiais. E por isso, após aquela petição na qual dizemos venha a nós o vosso reino, segue-se seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu; isto é, assim como nos Anjos, que estão no céu, a tua vontade é feita, de modo que desfrutam plenamente de ti, sem que nenhum erro obscureça sua sabedoria, nem nenhuma miséria impeça sua felicidade, assim seja feita nos teus santos, que estão na terra e foram feitos da terra, quanto ao que diz respeito ao corpo. Igualmente, seja feita a vossa vontade entende-se corretamente como: obedeça-se aos teus preceitos; assim na terra como no céu, isto é, assim como pelos Anjos, também pelos homens: não que eles façam para que Deus queira, mas porque fazem o que Ele quer; isto é, fazem segundo a vontade dele.
Ou "assim como no céu e na terra", isto é, assim como nos justos, assim também nos pecadores; como se dissesse: assim como os justos fazem a tua vontade, que também os pecadores a façam, para que se convertam a ti, ou, para que a cada um seja dado o que lhe é devido, o que ocorrerá no juízo final. Ou por céu e terra, entendamos o espírito e a carne. E o que diz o Apóstolo: "com a mente sirvo à lei de Deus", vejamos cumprida a vontade de Deus no espírito. Naquela mudança que é prometida aos justos, "faça-se a tua vontade assim na terra como no céu", isto é, assim como o espírito não resiste a Deus, também o corpo não resista ao espírito. Ou "assim no céu como na terra", isto é, assim como no próprio Jesus Cristo, também na Igreja; como no varão, que cumpriu a vontade do Pai, assim também na mulher, que lhe foi desposada. Pois céu e terra podem ser convenientemente entendidos como homem e mulher, visto que a terra se torna fecunda quando fertilizada pelo céu.
Por isso, evidentemente se demonstra contra os pelagianos que o início da fé é um dom de Deus, quando a santa Igreja reza pelos infiéis, para que comecem a ter fé. E visto que nos santos já se cumpriu a vontade de Deus, por que pedem ainda que se cumpra, senão para que perseverem naquilo que começaram a ser?
Estas três coisas, portanto, que foram pedidas nas petições anteriores, aqui são iniciadas, e quanto mais progredimos, mais são aumentadas em nós; mas perfeitamente, o que se deve esperar na outra vida, serão sempre possuídas. Nas quatro restantes que se seguem, pedem-se coisas temporais, que são necessárias para se alcançar as eternas; pois o pão, que convenientemente se pede aqui, é necessário: segue-se, pois, o nosso pão supersubstancial dai-nos hoje.
Os santos, portanto, pedem a perseverança ao Senhor, quando suplicam que não sejam separados do corpo de Cristo, mas permaneçam naquela santidade, para que não cometam nenhum crime.
Mas contra isso, levantam questão aqueles que nas partes Orientais não comungam diariamente na Ceia do Senhor: os quais defendem sua opinião sobre este assunto pela própria autoridade eclesiástica, pois fazem isto sem escândalo, e não são proibidos de fazê-lo por aqueles que presidem as Igrejas. Mas para que não discutamos nada sobre estes em qualquer sentido, certamente deve ocorrer aos que refletem que recebemos do Senhor uma regra para orar, a qual não convém transgredir. Quem, pois, ousará dizer que devemos rezar a oração dominical apenas uma vez, ou se duas e três vezes, somente até aquela hora em que comungamos o corpo do Senhor? Pois depois não poderemos dizer "dá-nos hoje" o que já recebemos. Ou poderá alguém nos obrigar a celebrar aquele sacramento na última parte do dia?
Ou que recebamos o pão cotidiano espiritual, isto é, os preceitos divinos, que convém meditar e executar todos os dias.
Assim, pois, aqui pedimos a suficiência da parte que excede, isto é, significando tudo com o nome de pão
Talvez alguém se pergunte por que rezamos para obter as coisas necessárias a esta vida, como o alimento e a vestimenta, quando o Senhor diz: "Não vos preocupeis com o que haveis de comer ou com o que haveis de vestir"; entretanto, não é possível que alguém não esteja preocupado com aquilo que ora para conseguir.
Mas qualquer um que deseja apenas o suficiente para a vida, não deseja incorretamente; porém esta suficiência não é desejada por si mesma, mas pela saúde do corpo e por uma aparência adequada à pessoa do homem, que, uma vez obtida, não seja inconveniente para aqueles com quem se deve viver honestamente. Por isso, quando estas coisas são possuídas, deve-se orar para mantê-las; quando não são possuídas, deve-se orar para obtê-las.
Com esta arma, os hereges pelagianos são traspassados, os quais ousam dizer que o homem justo não tem, nesta vida, absolutamente nenhum pecado, e que já existe, no tempo presente, a Igreja em tais homens, não tendo mácula ou ruga.
Isto não se diz do dinheiro, mas de todas as coisas nas quais alguém peca contra nós, e, por isso, também do dinheiro; pois peca contra ti aquele que, tendo com o que pagar, não te devolve o dinheiro devido; e se não perdoares este pecado, não poderás dizer: "Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores".
Contudo, porque este bem tão grande, a saber, perdoar as dívidas e amar os inimigos, não é próprio de tão grande multidão quanto acreditamos ouvir quando na oração se diz "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores"; sem dúvida as palavras desta promessa são cumpridas se o homem ainda não progrediu tanto a ponto de amar o inimigo; contudo, quando lhe roga o homem que pecou contra ele para que o perdoe, perdoa de coração, aquele que também quer que lhe seja perdoado quando ele próprio roga. Já aquele que roga àquele contra quem pecou, se é movido por seu pecado a rogar, não deve ser considerado ainda como inimigo, de modo que seja difícil amá-lo, como era difícil quando exercia inimizades.
Alguns códices têm "e não nos leves à tentação"1, o que julgo ter o mesmo valor, pois ambas as expressões foram traduzidas de uma única palavra grega εισενενχεις. Muitos, ao interpretar, dizem assim: "não permitas que sejamos levados à tentação", explicando como deve ser entendido o termo "leves". Pois Deus não induz por si mesmo, mas permite ser induzido aquele a quem abandonou de seu auxílio.
[1] inferas ↩
Porém, uma coisa é ser conduzido à tentação, outra é ser tentado; pois sem tentação ninguém pode ser provado, seja para si mesmo, seja para outro; mas para Deus qualquer um é perfeitamente conhecido antes de todas as tentações. Não se roga aqui, portanto, para que não sejamos tentados, mas para que não sejamos levados à tentação; como se alguém a quem fosse necessário ser examinado pelo fogo não rogasse para não ser tocado pelo fogo, mas para não ser queimado. Pois somos induzidos quando nos sobrevêm tentações tais que não podemos suportar.
Quando, pois, dizemos "não nos induzas em tentação", somos advertidos a pedir isto: que, não sendo abandonados por seu auxílio, não consintamos a alguma tentação, seja por sermos enganados, seja por cedermos quando afligidos.
Quando os santos pedem "não nos induzas à tentação", o que mais rogam senão perseverarem na santidade? Uma vez concedido isto (que mostra ser um dom de Deus, quando é pedido a Ele), nenhum dos santos deixa de manter a perseverança na santidade até o fim; pois ninguém desiste de perseverar no propósito cristão, a menos que primeiro seja induzido à tentação. Por isso pedimos para não sermos induzidos à tentação, para que isso não aconteça; e se não acontece, é porque Deus não permite que aconteça: nada ocorre senão o que Ele mesmo faz ou permite que se faça. Ele é, portanto, poderoso para inclinar as vontades do mal para o bem, para converter o caído e dirigir seus passos naquilo que Lhe é agradável, a quem não em vão se diz "não nos induzas à tentação"; pois quem não é induzido à tentação por sua própria má vontade, a nenhuma tentação é induzido: cada um é tentado por sua própria concupiscência. Deus quis, então, que Lhe pedíssemos para não sermos induzidos à tentação - o que poderia ser-nos dado mesmo sem orarmos - porque quis nos advertir sobre de quem recebemos os benefícios. Atente, portanto, a Igreja para suas orações diárias: ela ora para que os incrédulos creiam; portanto, é Deus quem converte à fé; ela ora para que os crentes perseverem; portanto, Deus concede a perseverança até o fim.
Devemos orar, não somente para que não sejamos induzidos ao mal de que atualmente estamos livres, mas também para que sejamos libertados daquele em que já fomos induzidos; e por isso segue: "mas livra-nos do mal".
E esta última petição que está colocada na oração dominical tem tão amplo alcance, que o homem cristão, em qualquer tribulação que se encontre, nela pode proferir gemidos, nela derramar lágrimas, nela iniciar e nela terminar a oração; por isso segue-se o amém, pelo qual se expressa o intenso desejo daquele que ora.
Quaisquer outras palavras que digamos, as quais o afeto do orante ou precedendo forma para que se esclareça, ou, consequentemente, acende para que cresça, nada mais dizemos do que aquilo que está colocado nesta oração dominical, se oramos reta e convenientemente. Pois quem diz: "Sê glorificado em todas as nações assim como és glorificado entre nós", o que mais diz senão "santificado seja o teu nome"? Quem diz: "Mostra a tua face e seremos salvos", o que mais diz senão "venha a nós o teu reino"? Quem diz: "Dirige os meus passos segundo a tua palavra", o que mais diz senão "seja feita a tua vontade"? Quem diz: "Não me dês pobreza nem riquezas", o que mais diz senão "o pão nosso de cada dia nos dá hoje"? Quem diz: "Lembra-te, Senhor, de Davi e de toda a sua mansidão" e "se paguei com mal aos que me fizeram mal", o que mais diz senão "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores"? Quem diz: "Afasta de mim as concupiscências do ventre", o que mais diz senão "não nos deixes cair em tentação"? Quem diz: "Livra-me dos meus inimigos, meu Deus", o que mais diz senão "livra-nos do mal"? E se percorreres todas as palavras das santas orações, nada encontrarás que não esteja contido nesta oração dominical. Qualquer um, porém, que diga algo que não possa pertencer a esta prece evangélica, ora carnalmente; o que não sei como não se diria ilicitamente, quando o Senhor ensina aos renascidos a orar apenas espiritualmente. Quem, porém, diz em sua oração: "Senhor, multiplica as minhas riquezas e aumenta as minhas honras", e isto diz tendo concupiscência destas coisas, não atentando para que, por meio delas, possa ser útil aos homens segundo Deus, penso que ele não encontrará na oração dominical onde possa adaptar estes votos. Por isso, tenha ao menos vergonha de pedir aquilo que não tem vergonha de desejar. Ou, se também disto tem vergonha, e a cobiça venceu, melhor pedirá que também deste mal da cobiça o liberte Aquele a quem dizemos "livra-nos do mal".
Parece também que este número de petições corresponde ao septenário das bem-aventuranças. Se o temor de Deus é aquilo pelo qual são bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus, peçamos que seja santificado entre os homens o nome de Deus, permanecendo o temor casto pelos séculos dos séculos. Se a piedade é aquilo pelo qual são bem-aventurados os mansos, peçamos que venha o seu reino, para que nos tornemos mansos e não lhe resistamos. Se a ciência é aquilo pelo qual são bem-aventurados os que choram, oremos para que seja feita a sua vontade assim na terra como no céu: porque se o corpo, como terra, concordar com o espírito, como céu, não choraremos. Se a fortaleza é aquilo pelo qual são bem-aventurados os que têm fome, oremos para que o nosso pão cotidiano nos seja dado hoje, para que possamos chegar à mais plena saciedade. Se o conselho é aquilo pelo qual são bem-aventurados os misericordiosos, pois eles alcançarão misericórdia, perdoemos as dívidas para que as nossas dívidas nos sejam perdoadas. Se o entendimento é aquilo pelo qual são bem-aventurados os puros de coração, oremos para não sermos induzidos em tentação, para que não tenhamos o coração dividido, seguindo as coisas temporais e terrenas, das quais surgem as tentações em nós. Se a sabedoria é aquilo pelo qual são bem-aventurados os pacíficos, pois serão chamados filhos de Deus, oremos para que sejamos libertados do mal: pois esta mesma libertação nos fará livres filhos de Deus.
Aqui não se deve passar em silêncio que, de todas as sentenças com as quais o Senhor nos ordenou orar, Ele julgou mais digna de recomendação especial aquela que se refere à remissão dos pecados, na qual quis que fôssemos misericordiosos, o que é o único conselho para escapar das misérias.
Mas todo aquele que não perdoa ao que roga e está arrependido de coração do seu pecado, de modo algum considere que seus pecados são perdoados pelo Senhor; e por isso acrescenta: "Se, porém, não perdoardes aos homens, nem vosso Pai perdoará vossos pecados".
Neste capítulo, deve-se especialmente notar que não apenas no brilho e na pompa das coisas corporais, mas também nas próprias misérias dignas de lamentação pode haver jactância, e esta é tanto mais perigosa quanto engana sob o nome de serviço a Deus. Assim, aquele que brilha pelo cuidado imoderado do corpo e das vestes ou pelo esplendor de outros ornamentos, facilmente se comprova pelas próprias coisas que é seguidor das pompas do mundo, e a ninguém engana com a aparência enganosa de santidade; mas aquele que, na profissão do Cristianismo, com extraordinária desmazelo e sordidez, faz com que os olhos dos homens se fixem nele, quando o faz por vontade própria e não por sofrer necessidade, pode ser conhecido por suas outras obras se o faz por desprezo do luxo supérfluo ou por alguma ambição.
Costuma-se perguntar qual é o significado do que aqui se diz: pois ninguém corretamente ordenaria (embora lavemos o rosto por costume diário) que devemos estar com as cabeças ungidas quando jejuamos; o que todos reconhecem como muito impróprio.
Ou; pela cabeça entendemos corretamente a razão, pois ela é preeminente na alma, e governa os demais membros do homem. Portanto, ungir a cabeça se refere à alegria. Que se alegre interiormente pelo seu jejum aquele que, ao jejuar, afasta-se da vontade do mundo para submeter-se a Cristo.
Pois se alguém realizar algo com o coração visando obter um benefício terreno, como poderá ter um coração puro aquele que se revolve na terra? Porque algo se torna impuro quando se mistura com uma natureza inferior, ainda que essa natureza não seja impura em seu próprio gênero, pois até o ouro se contamina quando misturado com prata pura. Assim também nossa alma se contamina pela cobiça das coisas terrenas, embora a terra seja pura em sua própria ordem.
Neste lugar, eu não compreenderia o céu como algo corpóreo, porque todo corpo deve ser considerado como terra. Pois aquele que acumula tesouro naquele céu do qual foi dito: "O céu do céu pertence ao Senhor", isto é, no firmamento espiritual, deve desprezar o mundo inteiro. Pois o céu e a terra passarão; não devemos, portanto, colocar nosso tesouro naquilo que passa, mas naquilo que permanece para sempre.
Ou de outro modo. Por olho aqui devemos entender nossa intenção; a qual, se for pura e reta, todas as nossas obras, que realizamos segundo ela, são boas; a cujo conjunto chamou todo o corpo, porque também o Apóstolo chama membros nossos a certas obras, quando diz: "mortificai os vossos membros, a fornicação e a imundícia"(Colossenses 3,5). Não se deve, portanto, considerar o que cada um faz, mas com que intenção o faz. Esta é, pois, a luz em nós, porque isto nos é manifesto, que fazemos com boa intenção o que fazemos. "Pois tudo o que se manifesta é luz"(Efésios 5,13). Mas as próprias ações que se estendem à sociedade humana têm para nós um resultado incerto; e por isso chamou-as trevas: pois não sei, quando dou dinheiro a um necessitado, o que ele fará com ele. Se, portanto, a própria intenção do coração, que te é conhecida, está manchada pelo desejo das coisas temporais, tanto mais a própria ação, cujo resultado é incerto, será imunda; porque ainda que alguém se beneficie do que tu fazes com intenção não reta, ser-te-á imputado como o fizeste, não como resultou para ele. Mas se com intenção simples, isto é, com o fim da caridade, realizamos nossas obras, então são puras e agradam aos olhos de Deus.
Mas as coisas que são sabidamente pecados não devem ser praticadas como tendo um bom propósito; pois aquelas obras dos homens, se tiverem causas boas ou más, ora são boas, ora são más, as quais não são pecados por si mesmas; como alimentar os pobres é bom, se for feito por causa da misericórdia; mas é mau se for feito por causa da ostentação. Mas quando as próprias obras são pecados, como furtos, estupros e similares, quem dirá que devem ser feitas por boas causas, ou que não são pecados? Quem dirá: roubemos dos ricos, para que tenhamos o que dar aos pobres?
Quem serve a mamona, isto é, às riquezas, serve certamente àquele que, posto à frente destas coisas terrenas por causa da sua perversidade, é chamado pelo Senhor "príncipe deste mundo". Ou de outro modo: Quais são os dois senhores, mostra quando diz "não podeis servir a Deus e a mamona", ou seja, a Deus e ao Diabo. Pois ou o homem odiará a um e amará o outro, isto é, a Deus; ou suportará um e desprezará o outro. Pois suporta um duro senhor quem serve a mamona: enredado por sua própria cobiça, submete-se ao Diabo e não o ama. Como alguém que, unido à serva de outro homem por concupiscência, sofre uma dura servidão, mesmo não amando aquele cuja serva ama. Disse, porém, "desprezará" o outro, não "odiará"; pois ninguém com verdadeira consciência pode odiar a Deus. Mas despreza, isto é, não O teme, como se estivesse seguro de Sua bondade.
Porque antes o Senhor havia ensinado que aquele que quer amar a Deus e cuidar para não ofendê-lo, não deve considerar que pode servir a dois senhores, para que não aconteça que, embora já não se busquem as coisas supérfluas, por causa das próprias coisas necessárias o coração se divida e a intenção se desvie e torça para elas, acrescenta dizendo: "Por isso vos digo: não vos preocupeis com vossa alma, sobre o que comereis, nem com vosso corpo, sobre o que vestireis".
Ou podemos entender que, neste lugar, alma é colocada pela vida animal.
São chamados de Euquitas1 certos hereges, que opinam que não é lícito ao monge, para sustentar sua vida, realizar qualquer trabalho, e assim declaram-se de tal modo que se abstêm completamente das obras.
[1] Os Euquitas, que eram assim chamados por sua profissão de oração, foram propriamente monges fanáticos do quarto século e seguintes, mas seu nome é frequentemente tomado como sinônimo de Místicos. Eles eram de origem oriental e menosprezavam, se não negavam, a eficácia do Batismo. ↩
Dizem, pois: o Apóstolo não ordenou acerca deste trabalho corporal, no qual laboram agricultores ou artesãos, quando disse: "quem não quer trabalar, não coma". Pois não poderia ser contrário ao Evangelho, onde diz o Senhor: "por isso vos digo: não estejais inquietos". Na referida palavra do Apóstolo, devemos compreender as obras espirituais, sobre as quais diz em outro lugar: "eu plantei, Apolo regou". E assim consideram obedecer ao preceito apostólico, quando creem que o Evangelho ordenou não ter preocupação com a indigência corporal desta vida, e que o Apóstolo falou da obra e do alimento espiritual: "quem não quer trabalhar, não coma". Primeiramente, pois, demonstremos que o Apóstolo quis que os servos de Deus executassem trabalhos corporais. Ele havia dito anteriormente: "vós mesmos sabeis como deveis nos imitar, pois não estivemos inquietos entre vós, nem comemos o pão de graça de alguém; mas trabalhando com labor e fadiga, dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vós; não porque não tivéssemos poder, mas para darmos nós mesmos o exemplo, a fim de que nos imitásseis. Pois quando estávamos entre vós, isto vos anunciávamos: que se alguém não quer trabalhar, não coma". O que se pode dizer a isto, quando com seu próprio exemplo ensinou o que ordenou, a saber, trabalhar corporalmente? Pois que trabalhava corporalmente mostra-se nos Atos, onde se diz que permaneceu com Áquila e sua esposa Priscila, trabalhando junto a eles: "pois eram fabricantes de tendas". E, no entanto, para o Apóstolo, como pregador do Evangelho, soldado de Cristo, plantador da vinha e pastor do rebanho, o Senhor havia determinado que vivesse do Evangelho; ele, contudo, não exigiu o estipêndio que lhe era devido, para dar-se como exemplo àqueles que desejavam exigir o indevido. Ouçam, portanto, aqueles que não têm este poder que ele tinha, para que trabalhando apenas espiritualmente comam o pão gratuitamente, sem trabalho corporal. Mas se são Evangelistas, se são ministros do altar, se são dispensadores dos sacramentos, têm este poder; ou se ao menos possuíam algo no mundo, com o que facilmente pudessem sustentar esta vida sem ofício, e que ao se converterem a Deus repartiram entre os necessitados, deve-se acreditar em sua fraqueza e suportá-la. Nem se deve atentar para o lugar onde gastaram o que tinham, visto que há uma só república de todos os cristãos. Mas aqueles que vêm à profissão do serviço de Deus da vida rústica, do exercício de artesãos e do trabalho plebeu, não podem ser desculpados se não trabalharem. De modo algum convém que naquela vida onde os senadores se tornam trabalhadores, aí os artesãos se tornem ociosos; e para onde vêm, deixadas as suas delícias, os que foram senhores de propriedades, aí os camponeses se tornem delicados. Mas quando o Senhor diz "não estejais inquietos", não diz isto para que não procurem as coisas que são necessárias, quanto à necessidade, donde honestamente poderão viver; mas para que não olhem para estas coisas e não façam por causa delas o que é ordenado fazer na pregação do Evangelho: pois esta intenção ele chamara pouco antes de olho.
Alguns dizem que não devem trabalhar, pelo motivo de que as aves do céu não semeiam nem colhem. Por que então não prestam atenção ao que se segue: "nem recolhem em celeiros"? Por que então estes querem ter as mãos ociosas e os depósitos cheios? Por que, enfim, moem e cozem? Isto as aves não fazem. Ou se encontram alguns a quem persuadam disto, para que lhes tragam todos os dias alimentos já preparados, ao menos trazem água das fontes para si mesmos e a armazenam, o que as aves não fazem. Mas se nem sequer são obrigados a encher vasos de água para si, então já ultrapassaram com um novo grau de justiça aqueles que naquele tempo estavam em Jerusalém1, que com o trigo que lhes foi enviado por graça faziam pão, ou cuidavam para que fosse feito; o que as aves não fazem. Não podem, porém, observar estas coisas, isto é, não guardar nada para o dia seguinte, aqueles que por muitos dias se separam da vista dos homens e, não permitindo a ninguém o acesso a eles, encerram-se a si mesmos, vivendo com grande intensidade de orações. Porventura quanto mais santos são, tanto mais diferentes das aves se tornam? Portanto, o que diz sobre as aves do céu, diz para este fim: para que ninguém pense que Deus não cuida das necessidades de seus servos, quando veem que sua providência chega até ao governo destas coisas. Pois não é verdade que Ele não alimenta aqueles que trabalham com as mãos; e também porque Deus disse: "invoca-me no dia da tribulação, e eu te livrarei", não deveria o Apóstolo ter fugido, mas esperar ser preso, e que Deus o livrasse, como aos três jovens, do meio das chamas. Assim como aqueles que, quando os santos fugiam, levantavam tal questão, responderam que não lhes convinha tentar a Deus, mas que então Deus, se quisesse, faria tais coisas para libertá-los, como libertou Daniel dos leões e Pedro das correntes, quando eles mesmos não tinham o que fazer; mas quando lhes deu a fuga em seu poder, mesmo que fossem libertados por ela, não seriam libertados senão por Ele mesmo: assim os servos de Deus capazes de ganhar seu sustento com suas mãos, se alguém lhes levantasse uma questão do Evangelho sobre as aves do céu, que não semeiam nem colhem, facilmente responderiam: se por alguma enfermidade ou ocupação não podemos trabalhar, ele nos alimentará como às aves, que nada fazem. Porém, quando podemos, não devemos tentar a Deus, porque estas coisas que podemos, podemos por sua dádiva; e enquanto aqui vivemos, vivemos por sua generosidade, que nos concedeu o poder de viver; e ele nos alimenta por quem as aves são alimentadas, como se diz: "e vosso Pai celestial as alimenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas?"
[1] Veja Atos 11,29. ↩
Isto é, vós valeis mais; porque o animal racional, como é o homem, está ordenado em posição mais elevada na natureza das coisas do que os irracionais, como são as aves.
Na verdade, frequentemente se paga um preço mais alto por um cavalo do que por um escravo, por uma joia do que por uma criada, não por uma avaliação racional, mas pela necessidade da pessoa que o requer, ou melhor, pelo prazer de quem o deseja.
Ou pode-se referir ao que segue; como se dissesse: não foi por nosso cuidado que nosso corpo chegou à estatura que tem, e disso pode-se entender que, se quisésseis acrescentar um côvado, não poderíeis. Deixai, portanto, o cuidado de cobrir o corpo Àquele por cujo cuidado foi feito para que tivesse tal estatura.
Mas se Cristo ressuscitou com a mesma estatura corporal com a qual morreu, é impiedade dizer que, quando chegar o tempo da ressurreição de todos, acrescentar-se-á ao seu corpo uma grandeza que não tinha quando, naquela em que era conhecido, apareceu a seus discípulos, para que possa ser igualado aos homens de maior estatura. Se, no entanto, dissermos que os corpos de todos, sejam pequenos ou grandes, serão reduzidos à medida do corpo do Senhor, perecerá muitíssimo de muitos corpos, quando Ele mesmo prometeu que nem um cabelo perecerá. Resta, portanto, que cada um receba sua própria medida, a qual ou teve na juventude, se morreu velho, ou teria, se faleceu antes. E por isso o apóstolo não disse: "na medida da estatura", mas: "na medida da idade da plenitude de Cristo"; porque os corpos dos mortos ressuscitarão na idade juvenil e no vigor, a qual sabemos que Cristo alcançou1.
[1] Nota do editor: Por isso os Católicos Romanos ensinam que "os homens ressuscitarão em idade perfeita, que é trinta e três anos"; vide Doutrina Cristã do Bispo Doyle. ↩
Estes ensinamentos não devem ser analisados de maneira tão alegórica a ponto de buscarmos o que significam as aves do céu ou os lírios do campo; foram apresentados para que, a partir das coisas menores, sejam persuadidas as maiores.
Deus, no entanto, não conheceu estas coisas a partir de algum tempo, mas conhece todas as coisas futuras temporais; e entre elas, também o que e quando iríamos pedir-Lhe, sem início, previu antecipadamente.
Quanto ao que alguns dizem, que a ciência de Deus não pode compreender estas coisas porque são infinitas, resta-lhes dizer que Deus não conhece todos os números, os quais certamente são infinitos. A infinidade do número não é incompreensível para Aquele cuja inteligência não tem número. Portanto, se tudo o que é compreendido pela ciência é limitado pela compreensão daquele que possui o conhecimento, então toda infinidade, de certo modo inefável, é finita para Deus, porque não é incompreensível à Sua ciência.
A saber, os bens temporais; os quais aqui claramente mostra não serem tais bens nossos pelos quais devamos fazer o bem; mas que, contudo, são necessários. O Reino de Deus e sua justiça, por outro lado, é nosso bem, onde deve ser estabelecido o fim. Mas porque nesta vida militamos para que possamos chegar àquele reino, vida esta que não pode ser conduzida sem estas coisas necessárias, diz "serão acrescentadas a vós". Quando, porém, disse "primeiramente", significou que isto deve ser buscado posteriormente não em tempo, mas em dignidade; aquilo como nosso bem, isto como necessário. Nem devemos, por exemplo, evangelizar para comer, porque assim teríamos o Evangelho como algo mais vil que o alimento, mas por isso comemos para evangelizar. Aos que buscam primeiramente o Reino de Deus e sua justiça, isto é, aos que antepõem isto às demais coisas, de modo que isto busquemos por causa das outras coisas, não deve estar sujeita a preocupação de que faltem as coisas necessárias; e por isso diz "todas estas coisas vos serão acrescentadas", isto é, consequentemente, sem qualquer impedimento vosso: para que, enquanto buscais estas coisas, não vos desvieis dali, ou estabeleçais dois fins.
Mas quando lemos que o Apóstolo sofreu fome e sede, não pensemos que aqui as promessas do Senhor vacilaram; visto que estas coisas são auxílios. Este Médico, a quem nos entregamos inteiramente, sabe quando dar e quando retirar, conforme julga ser mais conveniente para nós. Se alguma vez nos faltarem (o que Deus frequentemente permite para nosso exercício), isso não enfraquece nosso propósito, mas antes o confirma quando posto à prova.
Não se diz o dia de amanhã senão no tempo, onde ao passado sucede o futuro. Portanto, quando fizermos algo de bom, não pensemos nas coisas terrenas, mas nas eternas. Pois o dia de amanhã terá cuidado de si mesmo, isto é, quando for oportuno, tomemos alimento e coisas semelhantes, a saber, quando a necessidade começar a urgir. Pois basta ao dia a sua própria malícia; isto é, basta que a necessidade nos impulsione a tomar estas coisas; à qual chama de malícia, porque é penal para nós: pois pertence à mortalidade, que merecemos pelo pecado. Portanto, a esta pena de necessidade temporal não queiras acrescentar algo mais grave: para que não somente a sofras, mas também por causa dela, quando satisfeita, sirvas a Deus. Aqui deve-se tomar cuidado para que, quando virmos algum servo de Deus providenciar que estas coisas necessárias não faltem nem a si mesmo nem àqueles cujo cuidado lhe foi confiado, não o julguemos agir contra os preceitos do Senhor e estar ansioso pelo amanhã: pois o próprio Senhor (a quem os Anjos serviam) dignou-se ter bolsas para dar exemplo. E nos Atos dos Apóstolos está escrito que foram providenciadas as coisas necessárias para o sustento, para o futuro, por causa da fome iminente. Portanto, o Senhor não repreende isto, se alguém providenciar estas coisas segundo o costume humano; mas se alguém por causa destas coisas não servir a Deus.
Porque quando esses bens temporais são procurados para o futuro, é incerto com que intenção se faz, pois pode ser feito com coração simples ou duplicado, oportunamente neste lugar acrescentou: "não julgueis". Ou de outro modo
Ou de outro modo. Neste lugar, nada mais julgo estar sendo ordenado senão que interpretemos na melhor parte aqueles atos cuja intenção é duvidosa. Mas acerca daquelas coisas que não podem ser feitas com boa intenção, como são os estupros, as blasfêmias e semelhantes, nos é permitido julgar; porém, sobre os atos intermediários, que podem ser feitos com boa ou má intenção, é temerário julgar, sobretudo para condenar. Há duas coisas nas quais devemos evitar o juízo temerário: quando é incerto com que intenção algo foi feito, ou quando é incerto como será no futuro aquele que agora parece bom ou mau. Não repreendamos, portanto, aquelas coisas que não sabemos com que intenção foram feitas; nem repreendamos de tal modo as coisas que são manifestas, a ponto de desesperarmos da correção. Pode, porém, causar perplexidade o que diz: "com o juízo com que julgardes, sereis julgados". Porventura, se julgarmos com juízo temerário, Deus também nos julgará temerariamente? Ou, porventura, se medirmos com medida injusta, também em Deus há uma medida injusta com a qual nos será medido de volta? Pois pelo nome de medida, julgo estar significado o próprio juízo. Mas isto foi dito porque a temeridade com a qual castigas a outrem, necessariamente te castiga a ti mesmo. A iniquidade, muitas vezes, em nada prejudica àquele que sofre a injúria, mas àquele que a comete, necessariamente prejudica.
Alguns dizem: "Como pode ser verdade o que Cristo afirma, que com a medida com que tiverdes medido, vos será medido também, se o pecado temporal é punido com suplício eterno?" E não atentam que não é por causa de um espaço igual de tempo, mas por causa da reciprocidade do mal (isto é, para que quem fizer o mal, sofra o mal) que se diz ser a mesma medida: embora neste assunto isso possa ser propriamente entendido a respeito daquilo de que o Senhor estava falando quando disse isto, isto é, dos juízos e condenações. Por conseguinte, quem julga e condena injustamente, se é julgado e condenado justamente, recebe na mesma medida, embora não seja o mesmo que deu: pois pelo juízo fez o que é iníquo, pelo juízo sofre o que é justo.
Tendo o Senhor nos admoestado acerca do juízo temerário e iníquo, e especialmente aqueles que julgam temerariamente sobre o que é incerto e facilmente repreendem, os quais amam mais vituperar e condenar do que emendar e corrigir, vício este que nasce ou da soberba ou da inveja, consequentemente acrescenta e diz: "Por que vês o argueiro no olho de teu irmão e não vês a trave no teu próprio olho?"
Portanto, em primeiro lugar, pensemos, quando a necessidade nos obrigar a repreender alguém, se tal vício é um que nunca tivemos; e então consideremos que também somos humanos, e poderíamos tê-lo tido; ou se é um vício que tivemos, mas já não temos; e então que a lembrança da fragilidade comum nos toque, para que a misericórdia, e não o ódio, preceda aquela correção. Mas se descobrirmos que estamos no mesmo vício, não censuremos, mas gemamos juntos, e convidemos a um esforço mútuo. Raramente, porém, e por grande necessidade, devem-se empregar repreensões; nas quais insistamos não para que sirvamos a nós mesmos, mas ao Senhor.
Pois acusar os vícios é dever dos bons; quando os maus o fazem, representam um papel alheio; como os hipócritas, que ocultam sob a pessoa o que são, e mostram na pessoa o que não são.
Pois removendo do nosso olho a trave da inveja, da malícia ou da hipocrisia, veremos claramente como tirar a palha do olho do nosso irmão.
Como o nome da simplicidade, à qual os havia induzido pelas palavras anteriores, pode enganar a alguns, de modo que se julgue vicioso às vezes ocultar a verdade, da mesma forma que é vicioso dizer o falso, oportunamente acrescenta: "Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis vossas pérolas diante dos porcos".
Deve-se buscar o que é o santo, o que são os cães, o que são as pérolas, o que são os porcos. Santo é aquilo que não é lícito corromper; crime cuja intenção já é considerada culpada, ainda que aquilo permaneça incorruptível. As pérolas, por sua vez, são todas as coisas espirituais que devem ser grandemente estimadas. Assim, embora uma mesma coisa possa ser chamada tanto de santa quanto de pérola, é chamada santa porque não deve ser corrompida, e pérola porque não deve ser desprezada.
Por cães, não incongruentemente entendemos os que atacam a verdade, e por porcos, os que a desprezam. Por isso, visto que os cães lançam-se para dilacerar, e não permitem que o que dilaceram permaneça íntegro, disse: "Não deis o que é santo aos cães"; porque, quanto a eles, se fosse possível, se esforçariam por destruir a verdade. Os porcos, embora não ataquem mordendo como os cães, contudo sujam tudo ao pisotearem indiscriminadamente; e por isso diz: "Nem lanceis vossas pérolas diante dos porcos".
Diz-se que é pisoteado tudo aquilo que é desprezado: e por isso diz "para que não as pisem com seus pés".
O que diz em seguida, "e convertidos vos despedacem", Ele não se refere às próprias pérolas, pois estas eles pisam, e quando se voltam para ouvir algo mais, despedaçam aquele que lançou as pérolas que eles haviam pisado. Pois não encontrarás facilmente algo que possa agradar àquele que desprezou coisas encontradas com grande trabalho. Portanto, aqueles que se propõem a ensinar a tais pessoas, não vejo como não sejam despedaçados pela indignação e pelo descontentamento daqueles a quem ensinam.
Deve-se tomar cuidado, pois, para que não se revele algo àquele que não compreende; porque é melhor que busque aquilo que está oculto do que aquilo que está aberto: ou ataca com ódio, como um cão, ou despreza com menosprezo, como um porco. Não se segue, porém, que se a verdade é ocultada, também a falsidade seja dita: porque o Senhor, embora jamais tenha mentido, ocultou por vezes algumas verdades, segundo aquilo de São João: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não podeis suportá-lo agora". Mas se alguém não compreende por causa de suas impurezas, deve ser purificado ou por palavra ou por obra, tanto quanto pudermos fazê-lo. Porém, como o Senhor se vê ter dito certas coisas que muitos dos que estavam presentes não receberam, ou por resistência ou por desprezo, não se deve pensar que ele deu o que é santo aos cães, ou lançou pérolas diante dos porcos. Deu àqueles que podiam entender, e que estavam presentes ao mesmo tempo, os quais não deveriam ser negligenciados por causa da impureza dos outros; e embora aqueles que o tentavam se consumissem nas respostas que ele lhes dava, outros, contudo, que podiam compreender, por ocasião daqueles, ouviam muitas coisas úteis. Quem, portanto, sabe o que responder, deve responder, ao menos por causa daqueles em quem surge o desespero, se acreditarem que a questão proposta não pode ser resolvida; e isto nas coisas concernentes à instrução para a salvação. Quanto às coisas supérfluas e nocivas, nada se deve dizer; mas isto mesmo deve ser explicado, por que não convém responder a tais questões.
Ou de outro modo. Tendo sido ordenado que não se desse o que é santo aos cães, e que não se lançassem pérolas diante dos porcos, o ouvinte consciente de sua própria ignorância poderia dizer: por que me proíbes dar o que é santo aos cães, quando ainda não vejo que eu tenha algo santo? E por isso oportunamente acrescentou dizendo: "Pedi e recebereis".
A petição tem por objeto impetrar a saúde da alma, para que possamos cumprir aquilo que nos é ordenado; a busca, porém, refere-se a encontrar a verdade. Mas quando alguém encontra o verdadeiro caminho, chegará à própria posse, a qual somente será aberta a quem bate.
Com grande trabalho acreditei que estes três pontos, no que diferem entre si, deviam ser assim expostos; mas é muito melhor que todos se refiram à petição insistente: por isso depois conclui dizendo que dará bens aos que lhe pedem.
Portanto, Deus ouve os pecadores. Pois se Ele não ouvisse os pecadores, em vão o publicano teria dito: "Senhor, sê propício a mim, pecador"(São Lucas 18,13), e por esta confissão mereceu a justificação.
Bom é o Senhor, que frequentemente não concede o que desejamos, para que possa conceder o que deveríamos preferir.
A perseverança também é necessária para que recebamos aquilo que pedimos.
Quando Deus às vezes concede tardiamente, valoriza seus dons, não os nega: o que é longamente desejado é obtido com maior doçura; mas aquilo que é dado rapidamente torna-se vulgar. Pede, portanto, e busca o que é justo. Pois pedindo e buscando, cresce o apetite para receber: Deus reserva para ti aquilo que não quer dar rapidamente, para que aprendas a desejar grandemente as coisas grandes; por isso convém sempre orar e não desfalecer.
Assim como nos parágrafos anteriores tratou das aves do céu e dos lírios do campo, para que a esperança se elevasse das coisas menores para as maiores, assim também faz neste lugar, quando diz: "Ou qual homem dentre vós?"
Ou Ele chama "maus" aqueles que são amantes deste século1; por isso também as coisas boas que eles dão devem ser chamadas boas de acordo com o entendimento deles, pois as consideram como boas; além disso, mesmo na natureza das coisas elas são bens, isto é, bens temporais, e tais que pertencem a esta vida frágil.
[1] Efésios 5,16 ↩
Pois o bem que faz as pessoas boas é Deus. O ouro e a prata são bens, não porque te façam bom, mas porque através deles podes fazer o bem. Portanto, sendo nós maus, e tendo um Pai que é bom, não permaneçamos sempre maus.
Se, portanto, sendo nós maus, sabemos dar o que pedimos, quanto mais se deve esperar que Deus nos dará bens quando lhe pedirmos?
A firmeza e valentia de caminhar pela via da sabedoria está constituída nos bons costumes, pelos quais os homens são conduzidos até a purificação e simplicidade de coração; depois de falar longamente sobre isso, assim conclui: "Tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles". Pois não há ninguém que queira que alguém trate com ele com duplo coração.
Ou de outro modo. O Senhor havia prometido que concederia bens àqueles que o pedissem. Mas para que Ele reconheça aos seus mendigos, reconheçamos também nós aos nossos. Pois, excetuando-se a substância das faculdades, aqueles que pedem são iguais àqueles a quem pedem. Que semblante tens para pedir ao teu Deus, tu que não reconheces o teu semelhante? Por isso é que se diz nos Provérbios: "quem tapa seu ouvido ao clamor do pobre, também ele clamará e não será ouvido"(Provérbios 21,13). O que devemos conceder ao próximo quando nos pede, para que também nós sejamos ouvidos por Deus, podemos considerar a partir daquilo que queremos que os outros nos concedam. E por isso disse "todas as coisas, portanto, que quereis".
Alguns códices latinos têm acrescentado "boas"; acréscimo que julgo ter sido feito para esclarecer o sentido. Pois poderia ocorrer que alguém desejasse que algo vergonhoso fosse feito em relação a si mesmo, e aplicasse a esta sentença de modo a fazer primeiro ao outro aquilo que deseja que lhe seja feito; seria ridículo pensar que tal pessoa cumpriu esta sentença. Deve-se entender, porém, que a sentença é perfeita, mesmo que isso não seja acrescentado. Pois o que foi dito "todas as coisas que quiserdes" não deve ser tomado no sentido comum e genérico, mas em seu sentido próprio. A vontade, com efeito, só existe para o bem; nos males, chama-se propriamente cobiça, não vontade; não porque as Escrituras sempre falem assim, mas onde é necessário, elas mantêm inteiramente o termo próprio, para que não se entenda outra coisa.
Parece que este preceito pertence ao amor do próximo, e não ao amor de Deus, quando em outro lugar diz que há dois preceitos nos quais estão fundamentados a lei e os profetas. Mas quando aqui não acrescenta: toda a lei
, o que lá acrescentou, reservou lugar para o outro preceito, que é sobre o amor a Deus.
Ou de outro modo. Por isso a Escritura somente faz menção ao amor ao próximo, quando diz "todas as coisas que quereis"; porque quem ama ao próximo, consequentemente ama também ao próprio amor acima de tudo; mas Deus é amor; portanto, é consequente que ame principalmente a Deus.
O Senhor havia advertido anteriormente para ter um coração simples e puro, no qual se busca a Deus; mas como isto é próprio de poucos, já começa a falar sobre a investigação da sabedoria, para cuja investigação e contemplação tal olhar foi conduzido por todos os preceitos anteriores, pelo qual já se pode ver o caminho áspero e a porta estreita; donde acrescenta: "Entrai pela porta estreita".
Ou de outra forma. Tendo o Senhor dito que poucos são os que encontram a porta estreita e o caminho apertado, para que os hereges, que frequentemente se recomendam sob o nome de pequeno número, não se coloquem em nosso lugar, logo acrescenta dizendo: "Acautelai-vos dos falsos profetas".
Por isso, com toda razão se questiona quais frutos ele queria que observássemos. Muitos, de fato, consideram entre os frutos algumas coisas que pertencem à vestimenta das ovelhas, e deste modo são enganados a respeito dos lobos: seguem jejuns ou esmolas ou orações que exibem diante dos homens, desejando agradar àqueles a quem essas coisas parecem difíceis. Estes, portanto, não são os frutos pelos quais ele nos adverte a conhecê-los. Pois estas coisas, quando feitas com boa intenção, são propriamente as vestes das ovelhas; mas quando feitas com má intenção, não fazem outra coisa senão encobrir os lobos. Contudo, as ovelhas não devem odiar a sua própria vestimenta pelo fato de que frequentemente os lobos se ocultam nela. Quais são, então, os frutos pelos quais conhecemos a árvore má? Diz o Apóstolo: "Manifestas são as obras da carne, que são: fornicação, impureza", etc. E quais são os frutos pelos quais conhecemos a árvore boa? O mesmo Apóstolo mostra, dizendo: "O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz".
Mas pelas obras pode-se deduzir se praticam o culto exterior com alguma ambição. Pois quando começarem a ser provados por algumas tentações, nas quais lhes sejam subtraídas ou negadas as mesmas coisas que sob este véu já conseguiram ou desejam conseguir, então necessariamente ficará manifesto se é um lobo em pele de ovelha, ou uma ovelha em sua própria pele.
Neste lugar, deve-se evitar o erro daqueles1 que julgam que as duas árvores representam duas naturezas distintas; uma sendo de Deus, e a outra não. Mas deve-se afirmar que essas duas árvores não lhes oferecem qualquer apoio, pois será evidente para qualquer um que ler o contexto anterior e posterior que Ele está falando aqui de homens.
[1] Maniqueus ↩
Aos homens mencionados, porém, desagradam as próprias naturezas, não as considerando segundo sua utilidade; contudo, não é por nossa conveniência ou inconveniência, mas considerada por si mesma, que a natureza dá glória ao seu Artífice. Todas as naturezas, portanto, porque existem e, por isso, têm seu próprio modo, sua própria forma e certa paz consigo mesmas1, são certamente boas.
[1] pacem (paz) ↩
Por causa dessa palavra, os maniqueus pensam que nem uma alma má pode tornar-se boa por mudança para melhor, nem uma boa pode mudar-se para pior; como se fosse dito: não pode uma árvore boa tornar-se má, nem uma má tornar-se boa; mas foi dito que uma árvore boa não pode produzir frutos maus, nem vice-versa. A árvore é a própria alma, isto é, o próprio homem; os frutos são as obras do homem. Portanto, o homem mau não pode realizar boas obras, nem o bom, más. Logo, se o mau quer produzir boas obras, primeiro torne-se bom. Enquanto alguém for mau, não pode produzir frutos bons. Assim como pode acontecer que aquilo que foi neve não seja mais neve, mas não pode a neve ser quente, assim pode acontecer que aquele que foi mau não seja mais mau; contudo, não pode acontecer que o mau faça o bem: porque, ainda que algumas vezes seja útil, não é ele quem faz isso, mas ocorre por meio dele pela divina providência que procura.
Mas, assim como é manifesto que da má vontade, como de uma árvore má, são produzidos todos os frutos maus, assim também, de onde dirás que surgiu a própria má vontade, senão porque a má vontade do Anjo surgiu do Anjo, e a do homem surgiu do homem? E o que eram estes dois antes que neles surgissem estes males, senão uma boa obra de Deus, e uma natureza boa e louvável? Eis, portanto, que do bem surge o mal; e não havia absolutamente de onde pudesse surgir, senão do bem; refiro-me à própria vontade má, pois nenhum mal a precedeu, não às obras más, que não existem senão a partir da vontade má, como de uma árvore má: nem por isso se pode dizer que a vontade má pôde surgir do bem porque o bem foi feito pelo bom Deus; mas porque foi feito do nada, não de Deus.
Devemos ter cuidado para que, no próprio nome de Cristo, não sejamos enganados pelos herejes, ou por quaisquer que entendem mal e amam este mundo; e por isso Ele diz: "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor". Mas com razão pode surgir a dúvida sobre como esta sentença concorda com aquela do Apóstolo: "Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo". Pois não podemos dizer que aqueles que não entram no reino dos céus possuem o Espírito Santo. Mas o Apóstolo usou propriamente a palavra "dizer", para significar a vontade e o entendimento de quem fala. Pois propriamente diz aquele que manifesta sua vontade e mente pelo som da voz. O Senhor, porém, aqui empregou de modo geral o verbo "dizer": pois parece que também diz aquele que nem quer nem entende o que diz.
Não pensemos, portanto, que pertence àqueles frutos dos quais Ele falara acima, quando alguém diz ao nosso Senhor, "Senhor, Senhor", e por isso nos pareça ser uma árvore boa; mas aqueles frutos são fazer a vontade de Deus; por isso segue: "Mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus".
Isto também serve para que não sejamos enganados não só pelo nome de Cristo por aqueles que têm o nome e não praticam as obras, mas também por certos feitos e milagres, tais como os que o Senhor fez por causa dos infiéis, contudo nos advertiu para que não sejamos enganados por tais coisas, julgando que ali exista sabedoria invisível onde vemos milagre visível; donde acrescenta e diz: "Muitos me dirão naquele dia".
Eles leem também quão grandes coisas fizeram os magos dos egípcios resistindo a Moisés.
Abstenha-se, porém, de pensar que, segundo os maniqueus, o Senhor tenha dito isto acerca dos santos profetas; mas foi dito acerca daqueles que, após a pregação de seu Evangelho, parecem falar em seu nome, sem saber o que dizem.
Ou de outro modo. A chuva, quando colocada como símbolo de algum mal, entende-se como a superstição nebulosa; já os rumores dos homens são comparados aos ventos; o rio significa as concupiscências carnais, como que fluindo sobre a terra; e quem é induzido pela prosperidade, é quebrantado pela adversidade: nada disso teme aquele que tem sua casa fundada sobre a pedra, isto é, quem não somente ouve o preceito do Senhor, mas também o pratica. E em todas estas coisas submete-se ao perigo aquele que ouve e não pratica; pois ninguém firma em si o que o Senhor ordena, ou ele mesmo ouve, senão praticando. Deve-se considerar, porém, que quando disse "quem ouve estas minhas palavras", indica suficientemente que este sermão é completo em todos os preceitos pelos quais se forma a vida cristã, para que, com razão, aqueles que desejarem viver segundo eles sejam comparados a quem edifica sobre a pedra.
A partir do que é dito aqui, pode-se ver que ele havia deixado a multidão de discípulos, dentre os quais elegera aqueles doze no monte, a partir de muitos, aos quais nomeou apóstolos, o que São Mateus omitiu aqui. Pois parece que Jesus proferiu este sermão no monte somente para os discípulos, sermão que São Mateus incluiu e São Lucas omitiu. E depois, quando desceu a um lugar plano, proferiu outro semelhante, sobre o qual São Mateus silencia e São Lucas não silencia. Embora também possa ocorrer, como foi dito acima, que estando presentes os apóstolos e as demais multidões, proferiu um só sermão, que São Mateus e São Lucas narraram de modo diverso, mas com a mesma verdade de sentenças; e assim se explica claramente o que aqui se diz sobre a admiração da multidão.
Isto é o que se significa no Salmo II: agirei com confiança nele. As palavras do Senhor são palavras castas, prata provada pelo fogo, purificada da terra, refinada sete vezes. Por esse número fui admoestado a relacionar todos estes preceitos com aquelas sete sentenças que Ele colocou no princípio deste sermão, isto é, sobre as bem-aventuranças. Porque alguém irar-se contra seu irmão sem causa, ou dizer-lhe racha, ou chamá-lo de tolo, é cometido com extrema soberba; contra o que há um só remédio, que com espírito suplicante busque perdão, e não se encha com espírito de jactância. Bem-aventurados, portanto, os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Consente ao seu adversário, isto é, mostrando reverência à palavra de Deus, aquele que vai abrir o testamento de seu Pai não com contendas de lei, mas com mansidão de religião; bem-aventurados, portanto, os mansos, porque eles herdarão a terra. Também, quem sente os deleites carnais rebelarem-se contra sua reta vontade, exclamará: Ó homem infeliz que sou! quem me livrará do corpo desta morte? E assim, lamentando, implorará o auxílio do consolador; por isso, bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. O que pode ser pensado mais laborioso do que, ao superar um hábito vicioso, cortar dentro de si aqueles membros que impedem o reino dos céus, e não ser quebrantado pela dor de assim fazê-lo? Tolerar no matrimônio fiel todas as coisas, por mais penosas que sejam, evitando toda acusação de fornicação. Falar a verdade, e aprová-la não por frequentes juramentos, mas pela probidade de vida. Mas quem ousaria suportar tais trabalhos, a não ser que arda com o amor da justiça como com uma fome e sede veementes? Bem-aventurados, portanto, os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados. Quem pode estar pronto para suportar injúrias dos fracos, oferecer-se a qualquer que lhe peça, amar seus inimigos, fazer o bem aos que o odeiam, orar pelos que o perseguem, exceto aquele que é perfeitamente misericordioso? Bem-aventurados, portanto, os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. Tem o olho do coração puro aquele que não coloca o fim de suas boas obras em agradar aos homens, nem em obter aquelas coisas que são necessárias para esta vida, e que não condena temerariamente o coração de homem algum; e qualquer coisa que oferece a outro, oferece com aquela intenção com a qual gostaria que outros lhe oferecessem. Bem-aventurados, portanto, os puros de coração, porque eles verão a Deus. É necessário também que pelo coração puro se encontre o caminho estreito da sabedoria, ao qual os enganos dos homens perversos se opõem; evitar os quais é chegar à paz da sabedoria. Bem-aventurados, portanto, os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus. Mas, seja esta ordem a ser considerada, ou outra, devemos fazer o que ouvimos do Senhor, se queremos edificar sobre a pedra.
São Lucas também menciona a cura deste leproso, certamente não nesta mesma ordem, mas como costumam recordar coisas omitidas, antecipando os fatos posteriores, conforme lhes eram divinamente sugeridos, para que escrevessem novamente, ao recordar depois, aquilo que conheceram antes.
Este centurião era dos gentios: pois a nação judaica já possuía soldado do império romano.
Ao declarar-se indigno, mostrou-se digno, não de que Cristo, o Verbo de Deus, entrasse entre as paredes de sua casa, mas em seu coração. E não poderia ter dito isto com tanta fé e humildade se não trouxesse já em seu coração Aquele a quem temia receber em sua casa. E, de fato, não seria grande felicidade que Jesus entrasse em suas paredes, se não tivesse já entrado em seu peito.
Se eu, que estou sob autoridade, tenho o poder de comandar, quanto podes tu, a quem servem todos os poderes?
Contudo, àquilo que aqui se diz, parece opor-se o que diz São Lucas: "Tendo ouvido falar de Jesus, o centurião enviou-lhe os anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse e salvasse o seu servo"; e mais adiante: "Não estando longe da casa, o centurião enviou-lhe amigos, dizendo: Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres debaixo do meu teto".
São Mateus, portanto, quis relatar de forma resumida o acesso do centurião ao Senhor, realizado por meio de outros, porque ele louvou a fé dele, pela qual verdadeiramente se aproxima de Deus, para dizer "Não encontrei tamanha fé em Israel". São Lucas, porém, por isso expôs tudo como aconteceu, para que a partir disso fôssemos obrigados a entender de que modo São Mateus, que não podia mentir, disse que o centurião o havia encontrado.
Mas quem havia criado aquela fé nele, senão o próprio que se admirava? E se outro a tivesse feito, por que se admiraria aquele que é conhecedor de todas as coisas? O fato de que o Senhor se admira significa que nós devemos nos admirar, pois ainda precisamos ser movidos assim: todos estes movimentos nele não são sinais de um ânimo perturbado, mas ensinamento de um mestre.
Ele louva a fé daquele; porém não lhe ordenou abandonar sua profissão de soldado.
Ele diz, não "todos", mas muitos; contudo, estes do oriente e do ocidente; pois por estas duas partes designa-se todo o mundo.
Assim como vemos os cristãos chamados ao convite celestial, onde está o pão da justiça e a bebida da sabedoria, também vemos os judeus reprovados; por isso segue: "Os filhos do reino, porém, serão lançados nas trevas exteriores": isto é, os judeus, que receberam a Lei, que celebram as figuras de todas as coisas futuras, mas que, no entanto, não reconheceram as realidades quando presentes.
Se, portanto, Moisés não recomendou ao povo de Israel outro Deus senão o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, e o próprio Cristo recomenda o mesmo, não houve esforço para afastar aquele povo do seu Deus; mas por isso ameaçou que iriam para as trevas exteriores, porque os via afastados do seu Deus, em cujo reino diz que as nações chamadas de todo o orbe da terra se reclinarão com Abraão, Isaac e Jacó: não por outro motivo senão porque mantiveram a fé do Deus de Abraão, Isaac e Jacó: aos quais o Senhor não dá testemunho como se tivessem sido corrigidos na morte, ou justificados depois da sua paixão.
Assim como o Senhor não entrou corporalmente na casa do centurião, mas ausente em corpo, presente em majestade, curou o servo, assim também esteve corporalmente apenas entre o povo judeu; mas entre as outras nações, nem nasceu da Virgem, nem padeceu, nem suportou sofrimentos humanos, nem realizou milagres divinos; e no entanto cumpriu-se o que foi dito: "O povo que não conheci me serviu, ao ouvir-me me obedeceu"(Salmo 17,43). Pois a nação judaica conheceu-o e crucificou-o; o mundo inteiro ouviu e acreditou.
Quando este fato aconteceu, isto é, depois de quê ou antes de quê, São Mateus não o expressou: pois o que é narrado depois, não necessariamente deve-se entender que também aconteceu depois. Claramente, entende-se que ele aqui recordou o que antes havia omitido. Pois São Marcos narra isto antes de mencionar aquilo sobre a purificação do leproso, que parece ter sido intercalado após o sermão realizado no monte, sobre o qual ele mesmo silenciou. E assim também São Lucas narra este fato sobre a sogra de Pedro, depois do mesmo que São Marcos: também antes do sermão que inseriu prolongadamente, que pode parecer ser o mesmo que São Mateus diz ter sido proferido no monte. Mas que importa quem coloca o quê em qual lugar, seja o que inseriu em ordem, seja o que recorda depois de ter omitido, seja o que, tendo ocorrido depois, antecipa, desde que não contradiga ao narrar os mesmos fatos, nem a si mesmo nem a outro? Pois como não está no poder de ninguém lembrar-se das coisas oportunamente conhecidas em qualquer ordem, é bastante provável que cada um dos Evangelistas acreditasse que deveria narrar na ordem em que Deus quis sugerir à sua memória aquelas coisas que narrava. Por isso, onde a ordem dos tempos não aparece, nada nos deve interessar qual ordem de narração qualquer um deles tenha seguido.
Por isto que diz "E sendo já tarde", indica suficientemente que isto se refere ao tempo do mesmo dia, embora não seja necessário que, quando se diz "E sendo já tarde", se entenda a tarde desse mesmo dia.
É manifesto, porém, que o dia em que ordenou ir para o outro lado do lago era outro dia, e não aquele que segue ao dia em que a sogra de Pedro foi curada, dia em que São Marcos e São Lucas afirmam que Ele saiu para o deserto.
Ou de outro modo. O Filho do homem não tem onde reclinar sua cabeça, isto é, na tua fé. Pois as raposas têm tocas, no teu coração, porque és enganador; as aves do céu têm ninhos, no teu coração, porque és orgulhoso. Enganador e orgulhoso não me seguirás: pois como pode o enganador seguir a simplicidade?
Entende-se, pois, que movido pelos milagres, ele quis segui-lo por vanglória, que é significada pelas aves; mas fingiu a submissão de discípulo, cuja ficção é significada pelo nome de raposas.
O Senhor, quando prepara os homens para o Evangelho, não quer que nenhuma desculpa desta piedade carnal e temporal seja interposta; e, por isso, segue-se: "Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos".
Como se dissesse: Teu pai está morto, mas há também outros mortos que sepultarão seus mortos, porque estão na incredulidade.
Quanto ao que São Mateus diz, que isto aconteceu quando ordenou que fossem para o outro lado do mar, enquanto São Lucas relata que ocorreu enquanto caminhavam pelo caminho, não há contradição; porque certamente caminhavam pelo caminho para chegar ao mar.
Ao passo que São Mateus relata que eram dois os que sofriam com demônios, porém São Marcos e São Lucas mencionam apenas um, deve-se entender que um deles era pessoa de alguma distinção e fama, por quem toda aquela região sofria, e sobre cuja recuperação havia muito cuidado, de onde a fama deste milagre se espalhou mais notavelmente.
Deus se deu a conhecer a eles tanto quanto quis; e quis tanto quanto era necessário. Deu-se a conhecer a eles, portanto, não enquanto é vida eterna e luz que ilumina os piedosos; mas por meio de certos efeitos temporais de sua virtude e sinais muito ocultos de sua presença, os quais podem ser mais perceptíveis aos espíritos angélicos, ainda que malignos, do que à fragilidade humana.
Quanto ao fato de os demônios clamarem "que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?", deve-se crer que o disseram mais por suspeita do que por conhecimento. Pois se o tivessem conhecido, nunca teriam permitido que o Senhor da glória fosse crucificado.
Seja porque lhes sobreveio subitamente o que, de fato, esperavam que haveria de acontecer, mas que supunham ser mais tardio; seja porque consideravam esta mesma como sua perdição, pois ocorria que o conhecimento deles fosse desprezado; e isto era antes do tempo do juízo, quando seriam punidos com a condenação eterna.
Que as palavras dos demônios tenham sido relatadas de modos diversos pelos Evangelistas, não apresenta qualquer dificuldade, uma vez que podem ser reunidas em um único sentido, ou pode-se entender que todas foram ditas. Nem porque em São Mateus eles falem no plural, e nos outros no singular, há contradição, pois eles mesmos narram que, quando perguntado qual era seu nome, respondeu que era Legião, porque eram muitos demônios. Segue: "Não longe deles havia uma manada de muitos porcos pastando. Os demônios, porém, rogavam-lhe, dizendo: Se nos expulsas daqui, envia-nos para os porcos".
Ou de outra maneira. O que São Mateus aqui escreve sobre a cidade do Senhor, e São Marcos sobre Cafarnaum, seria mais difícil de explicar se São Mateus nomeasse Nazaré; mas, como a própria Galileia poderia ser chamada cidade de Cristo, porque Nazaré estava na Galileia, assim como todo o reino Romano, constituído de tantas cidades, era chamado cidade Romana1; quem duvidaria que, vindo à Galileia, o Senhor fosse corretamente descrito como tendo vindo à sua própria cidade, em qualquer povoado da Galileia que estivesse, especialmente porque a própria Cafarnaum era exaltada na Galileia, sendo considerada como a metrópole?
[1] civitas. ↩
E segundo isto, dizemos que São Mateus omitiu as coisas que foram feitas depois que Jesus veio à sua cidade até que chegou a Cafarnaum, e aqui acrescentou sobre a cura do paralítico; assim como em muitos casos fazem, omitindo os acontecimentos intermediários; como se isto seguisse continuamente, que sem qualquer indicação de omissão acrescentam: e deste modo aqui se acrescenta "E eis que lhe apresentaram um paralítico, deitado em um leito".
Ou, parece mais provável que São Mateus aqui recorda algo que havia omitido anteriormente: pois se deve crer que o chamado de Mateus ocorreu antes do sermão na montanha; visto que naquele monte, como São Lucas comemora, todos os doze foram escolhidos, aos quais ele nomeia Apóstolos. Com efeito, São Mateus relata sua vocação entre os milagres: pois foi um grande milagre que um publicano se tornasse apóstolo.
Aqui São Mateus não expressou em qual casa Jesus estava reclinado à mesa; donde poderia parecer que ele não acrescentou isto seguindo a ordem, mas que, recordando-se do que fora feito em outro tempo, o interpôs; se não fosse porque São Marcos e São Lucas, que narram isto de modo inteiramente semelhante, manifestaram que Jesus reclinara-se à mesa na casa de Levi, isto é, de São Mateus.
Lucas, porém, parece ter comemorado isto de modo algo diferente, segundo o qual os fariseus dizem aos discípulos: "Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?"(São Lucas 5,30) Insinuando esta objeção tanto a Cristo como aos seus discípulos. Mas quando isto era dito aos discípulos, mais ainda era objetado ao mestre, a quem eles seguiam e imitavam. Uma só é, portanto, a sentença: e tanto melhor insinuada quanto, permanecendo a verdade, é expressa com palavras diferentes.
Lucas adicionou: "para a penitência"; o que serve para explicar o sentido, para que ninguém pense que os pecadores são amados por Cristo pelo próprio fato de serem pecadores; uma vez que aquela comparação com os enfermos explica bem o que Deus quer ao chamar os pecadores. Como um médico aos doentes, certamente para que sejam salvos da iniquidade, como de uma enfermidade; o que se faz pela penitência.
Mas visto que São Mateus testemunha que apenas os discípulos de São João disseram isso, as palavras que se leem em São Marcos indicam melhor que alguns disseram isso a respeito de outros, isto é, os convivas a respeito dos discípulos de São João e dos fariseus; o que São Lucas expressou de maneira mais evidente, que narra que uns falaram de outros. De onde, pois, São Mateus diz "então os discípulos de São João aproximaram-se dele", a não ser porque também eles estavam presentes, e todos competitivamente, conforme cada um podia, lhe fizeram esta objeção?
Ou de outra maneira. Todo aquele que jejua corretamente, ou humilha sua alma no gemido da oração e na mortificação do corpo, ou suspende os atrativos carnais pela deleitação da sabedoria espiritual. E sobre ambos os tipos de jejum o Senhor aqui responde: pois sobre o primeiro, que possui a humilhação da alma, diz: "não podem os filhos do esposo chorar"; sobre aquele que é banquete da mente, falou a seguir, dizendo: "ninguém põe remendo de pano novo". Depois, como certamente o esposo nos foi tirado, devemos chorar. E choramos corretamente, se ardemos em desejo dele. Bem-aventurados aqueles a quem foi permitido tê-lo presente antes da paixão, interrogá-lo como queriam, ouvir como deveriam. Os pais antes de sua vinda desejaram ver aqueles dias, e não os viram, porque foram ordenados em outra dispensação, através dos quais seria anunciada sua vinda, não por aqueles pelos quais, ao vir, seria ouvido; em nós, porém, cumpriu-se aquilo que ele mesmo diz: "virão dias quando desejareis ver um destes dias, e não podereis". Quem, pois, aqui não chorará? Quem não dirá: "minhas lágrimas tornaram-se meu pão de dia e de noite, enquanto me dizem diariamente: onde está o teu Deus?" Merecidamente, portanto, o Apóstolo desejava ser dissolvido e estar com Cristo.
O que, portanto, São Mateus descreveu como chorar, onde São Marcos e São Lucas dizem jejuar, significa que o Senhor falou de tal jejum que pertence à humildade da tribulação; de modo que se entenda que, com as comparações posteriores, Ele indicou aquele outro tipo de jejum que pertence à alegria da mente elevada às coisas espirituais e, por isso, afastada dos alimentos corporais; mostrando que, para aqueles ocupados com o corpo e que, por isso, mantêm o antigo modo de pensar, este tipo de jejum não é adequado.
São Marcos e São Lucas também relatam isso, mas já se afastam desta ordem: pois inserem isso no lugar onde, após expulsar os demônios que foram enviados aos porcos, Ele retorna atravessando o mar da região dos Gerasenos. E pelo que São Marcos diz, deve-se entender que isto aconteceu depois que Ele voltou novamente através do mar; mas quanto tempo depois, não fica claro. A menos que houvesse algum intervalo, não haveria quando acontecesse o que São Mateus narra no banquete em sua casa. Após este fato, segue-se imediatamente a respeito da filha do chefe da sinagoga. Pois se enquanto Ele falava sobre o pano novo, o príncipe se aproximou, nada mais de suas ações ou palavras foi interposto; mas na narrativa de São Marcos, há um lugar onde outras coisas poderiam ser inseridas. Semelhantemente, São Lucas não contradiz São Mateus: pois o que ele acrescenta: "e eis que um homem chamado Jairo", não deve ser tomado como tendo acontecido imediatamente após o que foi relatado antes, mas após aquele banquete com os publicanos, como São Mateus narra: "enquanto Ele falava estas coisas a eles, eis que um príncipe", a saber, Jairo, chefe da sinagoga, "aproximou-se e o adorava, dizendo: Senhor, minha filha acaba de morrer". Deve-se considerar, para que não pareça haver contradição, que os outros dois Evangelistas dizem que ela estava próxima da morte, mas ainda não morta, tanto que dizem que depois vieram alguns que anunciaram que ela estava morta, e por isso não deveriam incomodar o Mestre. Pois deve-se entender que, por brevidade, São Mateus quis dizer antes que o Senhor foi solicitado a fazer o que claramente Ele fez, isto é, ressuscitar a morta. Pois ele considera não as palavras do pai sobre sua filha, mas, o que é mais importante, a vontade. Pois ele estava tão desesperado que preferia que ela revivesse, não acreditando que pudesse encontrá-la viva, a qual deixara morrendo. Assim, dois relataram o que Jairo disse; São Mateus, porém, relatou o que ele quis e pensou. Certamente, se qualquer um daqueles dois tivesse mencionado que o próprio pai disse que não incomodassem Jesus, porque a menina estava morta, as palavras que São Mateus colocou entrariam em conflito com seu pensamento. Mas não se lê que ele concordou com os que lhe anunciaram. Daqui aprendemos algo muito necessário: não devemos considerar nada nas palavras de alguém senão sua vontade, à qual as palavras devem servir; nem alguém mente se disser com outras palavras o que aquele quis, cujas palavras não são citadas.
O que aqui se diz sobre os dois cegos e o demônio mudo, somente São Mateus registrou. Aqueles dois cegos dos quais os outros narram não são estes, mas um fato semelhante aconteceu; de tal modo que, se o próprio São Mateus não recordasse também daquele acontecimento, poderia pensar-se que isto que agora narra fora também dito pelos outros dois. Isto devemos confiar diligentemente à memória: que existem alguns fatos semelhantes, o que se prova não ser o mesmo, quando o próprio Evangelista lembra de ambos; de modo que, quando encontrarmos tais coisas isoladamente em cada um, e se nos deparar com algum elemento contrário que não possa ser resolvido, percebamos que não é o mesmo fato, mas outro semelhante, ou ocorrido de modo semelhante.
Alguns códices têm Lebbaeum; mas quem alguma vez proibiu o mesmo homem de ser chamado por dois ou até três nomes diferentes?
Elegeu, portanto, estes para discípulos, aos quais também nomeou Apóstolos, humildemente nascidos, sem honra, iletrados, para que tudo o que fossem e fizessem de grande, fosse Ele mesmo neles e o fizesse. Tinha entre eles um que era mau, do qual, usando-o bem, cumpriria o plano de Sua paixão e proporcionaria à Sua Igreja um exemplo de como tolerar os homens maus.
O Evangelho, portanto, não é algo venal, para que seja pregado por recompensas temporais. Pois se assim o vendem, vendem uma grande coisa por um preço vil. Recebam, pois, os pregadores o sustento necessário do povo, e de Deus a recompensa de seu trabalho. Pois não é pelo povo que se recompensa, como se fosse salário, àqueles que o servem na caridade do Evangelho; mas antes se lhes dá como estipêndio, pelo qual, para que possam trabalhar, são sustentados.
Ou de outra maneira. Quando o Senhor disse aos apóstolos "não possuais ouro", imediatamente acrescentou "digno é o operário de seu alimento"; onde demonstra claramente por que não quis que eles possuíssem ou levassem estas coisas: não porque não fossem necessárias para o sustento desta vida, mas porque os enviava de tal modo que mostrasse que isto lhes era devido por aqueles a quem anunciavam o Evangelho, como pagamento aos que militam. Parece também que o Senhor não ordenou que vivessem do Evangelho de tal maneira que não devessem viver de outro modo, senão daquilo que lhes fosse provido por aqueles a quem anunciavam o Evangelho; de outro modo, Paulo teria agido contra este preceito, ele que se sustentava do trabalho de suas próprias mãos. Mas parece que concedeu poder aos apóstolos, para que essas coisas lhes fossem devidas pela casa em que estivessem. Quando, porém, algo é ordenado pelo Senhor, se não for feito, há culpa de desobediência; mas quando o poder é dado pelo Senhor, é lícito a qualquer um não usá-lo e, por assim dizer, renunciar a seu direito. Portanto, ao ordenar o Senhor que aqueles que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho, falava aos apóstolos para que, seguros, não possuíssem nem levassem as coisas necessárias para esta vida, nem grandes nem pequenas; por isso disse "nem cajado", mostrando que tudo é devido por seus fiéis aos seus ministros que não requerem superfluidades. Este poder, pois, significou pelo nome de cajado, quando disse, segundo São Marcos, "que não levassem nada pelo caminho senão somente um cajado". Mas também quando São Mateus diz que calçados não devem ser levados pelo caminho, proibiu a preocupação pela qual se pensa em levá-los para que não faltem. Isto também deve ser entendido sobre as duas túnicas, para que ninguém deles, além daquela com a qual estivesse vestido, pensasse em levar outra, preocupado que pudesse precisar; uma vez que por aquele poder poderia receber outra. Por conseguinte, São Marcos, ao dizer que deviam ser calçados com sandálias, adverte que este tipo de calçado tem algum significado místico, para que o pé não esteja coberto por cima, nem nu sobre a terra; isto é, que o Evangelho não seja ocultado, nem se apoie em comodidades terrenas. E porque proíbe não levar duas túnicas, mas mais expressamente vesti-las, adverte a não caminhar de modo duplicado, mas simplesmente. Assim, de modo algum se deve duvidar que o Senhor disse todas estas coisas, em parte propriamente, em parte figuradamente; mas os Evangelistas inseriram em seus escritos umas coisas este, outras coisas aquele. Qualquer um, porém, que pense que o Senhor não pôde, em um só sermão, colocar algumas palavras figuradamente e outras propriamente, que examine outras partes de seus discursos, e verá quão temerária e inculta é sua opinião; pois quando o Senhor adverte que a mão esquerda não saiba o que faz a direita, pensará que as próprias esmolas e qualquer outra coisa que aqui ordena devem ser tomadas figuradamente.
Porque perseverar em Cristo, é permanecer em Sua fé, que opera por meio da caridade.
Não que o Salvador fosse incapaz de proteger os seus discípulos, quando lhes ordena fugir e Ele mesmo lhes dá um exemplo disso; mas instruía a fraqueza humana, para que não ousasse tentar a Deus quando tem algo que possa fazer por si mesma, mas que evite todos os males que convém evitar.
Ele poderia ter-lhes aconselhado a usar suas próprias mãos contra si mesmos, para que não caíssem nas mãos dos perseguidores. Porém, se Ele não ordenou nem aconselhou que deste modo os seus partissem desta vida, para os quais, ao partirem, prometeu preparar uma mansão eterna: quaisquer exemplos que os gentios que não conhecem a Deus possam apresentar, é manifesto que isto não é lícito para aqueles que creem no único Deus verdadeiro.
Façam, pois, os servos de Cristo o que Ele ordenou ou permitiu: assim como Ele fugiu para o Egito, fujam também eles de cidade em cidade, quando qualquer um deles for especificamente procurado pelos perseguidores, para que a Igreja não seja abandonada por aqueles que não são igualmente procurados; mas forneçam alimento aos seus conservos, que sabem não poder viver de outro modo. Quando, porém, o perigo for comum a todos, isto é, bispos, clérigos e leigos, aqueles que necessitam de outros não sejam abandonados por aqueles de quem necessitam. Ou todos se dirijam a lugares fortificados, ou aqueles que têm necessidade de permanecer não sejam deixados pelos que devem suprir suas necessidades eclesiásticas, para que juntos vivam ou juntos sofram o que o Pai de família quiser que padeçam.
Isto, porém, não acontecerá antes que a alma esteja unida ao corpo, de modo que não sejam separados por nenhuma ruptura; e, contudo, então corretamente se chama morte da alma, porque não vive de Deus; e morte do corpo, porque na última condenação, embora o homem não deixe de sentir, todavia, porque o próprio sentimento não é nem agradável por vontade, nem salubre por quietude, mas penoso por dor, chama-se antes morte do que vida.
Embora também se possa indagar acerca dos próprios cabelos, se retornará tudo o que cai ao serem cortados: e se isso fosse retornar, quem não se horrorizaria com aquela deformidade? Mas uma vez entendido que nada perecerá do corpo, de modo que nada seja disforme no corpo, entende-se simultaneamente que aquelas coisas que causariam uma deformidade excessiva, serão adicionadas à própria massa, não aos lugares onde a forma dos membros seria perturbada: como se de barro se fizesse um vaso que, novamente reduzido ao mesmo barro, fosse inteiramente refeito; não seria necessário que aquela parte do barro que estivera na asa voltasse à asa; ou a que havia formado o fundo, novamente fizesse o fundo; contanto que o todo retornasse ao todo; isto é, todo aquele barro voltasse ao vaso inteiro, sem perda de qualquer parte sua. Por isso, se os cabelos tantas vezes cortados retornassem deformemente aos seus lugares, não retornarão, porque serão convertidos na mesma carne, para que ocupem qualquer lugar do corpo ali, preservada a congruência das partes, transformados em utilidade da matéria. Embora o que Ele diz: "nem um cabelo da vossa cabeça perecerá", poderia ser entendido não do comprimento, mas do número dos cabelos: por isso aqui se diz "os cabelos da vossa cabeça estão todos contados".
Ou de outra maneira. Vim separar o homem contra seu pai, porque renuncia ao Diabo aquele que foi seu filho; e a filha contra sua mãe, isto é, o povo de Deus contra a cidade mundana, que é a perniciosa sociedade do gênero humano, que a Escritura designa ora como Babilônia, ora como Egito, ora como Sodoma, ora com outros diversos nomes. A nora contra sua sogra: a Igreja contra a sinagoga, que segundo a carne gerou Cristo, esposo da Igreja. Dividem-se, porém, pela espada do espírito, que é a palavra de Deus. E os inimigos do homem são os seus próprios domésticos, com os quais antes estava implicado por costume.
Em todas estas coisas não é o uso das coisas que se censura, mas a concupiscência dos que as usam. Pois quem quer que use as coisas de maneira mais restrita do que os costumes daqueles com quem vive, ou é temperante, ou é supersticioso. Quem, porém, as usa de tal modo que excede os limites do costume dos bons entre os quais vive, ou significa alguma coisa1, ou é dissoluto.
[1] aliquid ↩
O herege1 argumenta a partir disto, como raciocinando, como se João não pertencesse ao reino dos céus, e por este motivo muito menos os outros profetas daquele povo, em relação aos quais João é maior. Estas palavras do Senhor podem ser entendidas de dois modos: ou bem por reino dos céus designou aquilo que ainda não recebemos, sobre o qual no final dirá: "vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino"; e porque ali estão os Anjos, qualquer um dentre eles que seja menor é maior do que qualquer justo que carrega um corpo que se corrompe. Ou, se por reino dos céus se quiser entender a Igreja, da qual são filhos, desde a instituição do gênero humano até agora, todos os justos, o Senhor designou a si mesmo: que pelo tempo de nascimento era menor que João, mas maior pela eternidade da divindade e pelo poder dominical. Por conseguinte, segundo a primeira exposição, distingue-se assim: "aquele que é menor no reino dos céus", e depois se acrescenta "é maior do que ele". Já segundo esta posterior, assim: "aquele que é menor", e depois se acrescenta "no reino dos céus é maior do que ele".
[1] Maniqueu ou Marcionita. ↩
Gostaria, pois, que os maniqueus me dissessem o que comia e o que bebia Cristo, que, em comparação com João, que não comia nem bebia, disse ser ele próprio quem comia e bebia. Pois não foi dito que João absolutamente não bebia, mas que não bebia vinho nem bebida fermentada; portanto, bebia água. Seu alimento não era absolutamente nenhum, mas sim gafanhotos e mel silvestre. Por que, então, foi chamado de "não comendo nem bebendo", senão porque não usava daquela alimentação que os judeus utilizavam? Se, portanto, o Senhor não a utilizasse, não seria chamado, em comparação com João, de quem come e bebe. É admirável que aquele que come gafanhotos e mel seja chamado de não comendo, e aquele que se contenta com pão e verduras seja chamado de comendo.
Ou, "a sabedoria foi justificada por seus filhos", porque os santos apóstolos entenderam que o reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas na equanimidade de suportar; a eles nem a abundância eleva, nem a escassez abate; por isso São Paulo dizia: "sei viver na abundância e sei sofrer na penúria"(Filipenses 4,12).
Não é verdade, portanto, que o seu Evangelho não foi pregado nestes tempos e lugares, nos quais Ele previu que todos seriam como muitos foram na Sua presença corporal, que mesmo quando Ele ressuscitava os mortos não quiseram crer Nele. Pois eis que o Senhor atesta que os de Tiro e Sidon teriam feito penitência de grande humildade, se neles tivessem sido realizados os sinais de Seu poder divino. Além disso, se também os mortos são julgados segundo as obras que teriam feito se vivessem, então porque estes teriam sido fiéis, se a eles tivesse sido pregado o Evangelho com tão grandes milagres, certamente não deveriam ser punidos, e no entanto no dia do juízo serão punidos; pois segue-se: "Contudo, digo-vos", etc. Aqueles, portanto, serão punidos mais severamente, estes com mais clemência.
Certo comentador católico de renome expôs este trecho do Evangelho da seguinte maneira, dizendo que o Senhor sabia de antemão que os de Tiro e Sidon haveriam de se afastar da fé, depois de terem acreditado pelos milagres realizados entre eles; e que, por misericórdia, Ele não realizou ali esses milagres, uma vez que ficariam sujeitos a pena mais grave se tivessem abandonado a fé que haviam abraçado, do que se nunca a tivessem abraçado em momento algum. Ou de outro modo: certamente Deus conheceu de antemão os benefícios pelos quais Ele se digna nos libertar. Esta é a predestinação dos santos, isto é, a presciência e preparação dos benefícios de Deus, pelos quais são libertados com toda certeza todos aqueles que são libertados. Os demais, porém, são deixados na massa de perdição pelo justo juízo divino, onde foram deixados os de Tiro e Sidon, que também poderiam ter acreditado se tivessem visto muitos sinais de Cristo; mas como não lhes foi dado que acreditassem, também lhes foi negado aquilo pelo qual poderiam acreditar. Disso fica evidente que alguns possuem em sua própria natureza um dom divino de inteligência, pelo qual são movidos à fé, se ouvirem palavras ou virem sinais adequados às suas mentes. E, contudo, se por um juízo mais alto de Deus não foram separados da massa de perdição pela predestinação da graça, não lhes são apresentadas nem as palavras nem as obras divinas, pelas quais poderiam acreditar, se ouvissem ou vissem tais coisas. Na mesma massa de perdição foram deixados também os judeus, que não puderam acreditar apesar dos grandes e claros poderes realizados à vista deles. Por que, pois, não podiam acreditar? O Evangelho não se calou, dizendo: "Tendo ele realizado tantos sinais diante deles, não podiam acreditar, porque Isaías disse: ceguei os olhos deles e endureci o coração deles". Os olhos dos de Tiro e Sidon não estavam tão cegos nem o coração tão endurecido, pois teriam acreditado se tivessem visto os sinais que estes viram. Mas nem àqueles aproveitou o fato de que podiam acreditar, porque não eram predestinados, nem a estes prejudicou o fato de que não podiam acreditar, se tivessem sido predestinados de tal modo que o Senhor iluminasse os cegos e quisesse tirar deles o coração de pedra.
Lucas também comemora o que aqui se diz, unindo-o continuamente a certo sermão do Senhor, conectando isto diretamente da boca do mesmo; por isso parece mais que ele comemora aquelas coisas na ordem em que foram ditas pelo Senhor; Mateus, entretanto, seguiu a ordem de sua recordação. Ou aquilo que Mateus diz "então começou a censurar as cidades", pensam que deve ser entendido como se ele quisesse expressar exatamente aquele momento do tempo, nisso que é "então"; não porém o mesmo tempo um pouco mais extenso no qual aqui muitas coisas eram feitas e ditas. Portanto, quem crê nisso, creia que isto foi dito duas vezes. Como, pois, em um só Evangelista encontram-se algumas coisas que o Senhor disse duas vezes, como em Lucas sobre não levar bolsa pelo caminho; que admiração há se algo outro dito duas vezes é dito separadamente por cada um na mesma ordem em que foi dito? E por isso aparece uma ordem diversa em cada um: porque foi dito tanto quando um quanto quando o outro comemora.
Se Cristo disse "confesso", Ele, de quem todo pecado está distante, então a confissão não é somente do pecador, mas por vezes também de quem louva. Confessamos, portanto, seja louvando a Deus, seja acusando a nós mesmos. Quando Ele disse "confesso-Te", significa "eu Te louvo", não "eu me acuso".
Sob o nome de sábios e prudentes, pode-se entender os soberbos, como Ele mesmo explicou quando disse: "revelaste estas coisas aos pequeninos"; pois o que significa "pequeninos", senão os humildes?
Pois se Ele tem menos poder que o Padre, não são suas todas as coisas que o Pai tem; porque ao gerá-lo, o Pai deu poder ao Filho, assim como ao gerá-lo, deu todas as coisas que tem em Sua substância Àquele que gerou de Sua substância.
E finalmente, por causa da inseparabilidade da substância, basta algumas vezes nomear somente o Pai ou somente o Filho; nem por isso se separa de ambos o Espírito, que propriamente é chamado Espírito de verdade.
O Pai é revelado pelo Filho, isto é, por seu Verbo. Pois se essa palavra que nós proferimos, temporal e transitória, tanto mostra a si mesma quanto aquilo sobre o que falamos, quanto mais o Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, que assim mostra o Pai como Ele é Pai, porque o próprio Verbo é assim e é isso que o Pai é?
Quando, porém, disse "ninguém conhece o Filho senão o Pai", não disse: "e aquele a quem o Pai quiser revelar o Filho"; mas quando disse "ninguém conhece o Pai senão o Filho", acrescentou "e aquele a quem o Filho o quiser revelar": o que não deve ser entendido como se o Filho não pudesse ser conhecido por ninguém exceto pelo Pai somente, enquanto o Pai pode ser conhecido não só pelo Filho, mas também por aqueles a quem o Filho o revelar. Mas foi antes expresso assim para que compreendamos que tanto o Pai quanto o próprio Filho são revelados pelo Filho, pois Ele é a luz de nossa mente; e o que depois acrescentou, "e aquele a quem o Filho o quiser revelar", deve ser entendido como referindo-se tanto ao Filho quanto ao Pai, e referir-se a tudo o que foi dito. Pois o Pai declara-se a Si mesmo por Seu Verbo; mas o Verbo não declara apenas aquilo que pretende declarar, mas ao declarar isso, declara-se a Si mesmo.
Por que, pois, todos nós trabalhamos, senão porque somos homens mortais, portando vasos de barro, que causam angústias uns aos outros? Mas se os vasos da carne são estreitados, que se dilatem os espaços da caridade. Para que, então, diz "Vinde a mim, todos vós que trabalhais", senão para que não trabalheis?
Não construir o mundo, nem fazer milagres neste mundo; mas porque "sou manso e humilde de coração". Queres ser grande? Começa pelo menor. Pensas em erguer uma grande estrutura de magnificência? Primeiro pensa no fundamento da humildade. E quanto mais alto alguém quiser erguer o edifício, tanto mais profundamente deve cavar o fundamento. E até onde chegará o cume do nosso edifício? Até a contemplação de Deus.
Os que submeteram com pescoço intrépido o jugo do Senhor experimentam perigos tão difíceis, que parecem ser chamados não do trabalho para o descanso, mas do descanso para o trabalho. Mas certamente estava presente o Espírito Santo, que na corrupção do homem exterior renovava o interior dia após dia; e tendo provado o descanso espiritual na abundância das delícias de Deus, na esperança da bem-aventurança futura, suavizava todas as asperezas presentes e aliviava todos os fardos. Os homens submetem-se a serem cortados e queimados, para que dores não eternas, mas de uma ferida um pouco mais duradoura, sejam redimidas pelo preço de dores mais agudas. A quais tempestades ou sofrimentos se submetem os mercadores para adquirir riquezas perecíveis? Mas aqueles que não as amam sofrem as mesmas dificuldades; porém os que as amam suportam as mesmas coisas, mas não as consideram dificuldades. Pois o amor torna fáceis e quase nulas todas as coisas severas e terríveis; quanto mais facilmente, portanto, a caridade faz para a verdadeira bem-aventurança o que a cobiça fez, tanto quanto pôde, para a miséria?
Este, porém, que aqui se segue, é narrado por São Marcos e por São Lucas sem qualquer questão de discrepância; mas eles não dizem "naquele tempo", de modo que talvez São Mateus tenha preservado aqui a ordem do tempo, e eles a de suas recordações; a não ser que se tome em um sentido mais amplo o que foi dito, "naquele tempo", isto é, no tempo em que estas muitas e diversas coisas eram feitas; de onde se entende que todas estas coisas foram completadas após a morte de São João. Pois acredita-se que ele foi decapitado pouco depois de ter enviado seus discípulos a Cristo; de modo que quando diz "naquele tempo", parece indicar um tempo indeterminado.
Os judeus acusaram os discípulos do Senhor mais pela violação do sábado do que pelo furto, porque foi ordenado ao povo de Israel pela Lei1 que não prendessem ninguém como ladrão em seus campos, a não ser que quisesse levar consigo alguma coisa; mas aquele que não tocasse em nada além do que comesse, permitiam que se fosse livre e impune.
[1] Deuteronômio 23,25 ↩
Deve-se notar que um exemplo foi apresentado do poder real de Davi, e outro do poder sacerdotal, daqueles que por causa do ministério do templo violam o sábado; de modo que muito menos o crime de arrancar espigas no sábado possa ser atribuído àquele que é verdadeiro rei e verdadeiro sacerdote.
Ele não proibiu seus discípulos de colher espigas no sábado, para desse modo convencer tanto os judeus presentes quanto os futuros maniqueus, que não arrancam ervas para não cometerem homicídio.
Mas ninguém passa para o corpo de Cristo, se não tiver sido despojado das vestiduras carnais, segundo aquilo do Apóstolo: "Despojai-vos do homem velho"(Efésios 4,22).
Poder-se-ia pensar que no mesmo dia foram realizados o episódio das espigas e o da cura deste homem, uma vez que também aqui se menciona o sábado; a não ser que São Lucas tivesse esclarecido que isto aconteceu em outro sábado. Por isso, quando São Mateus diz "e tendo partido dali, veio à sinagoga deles", não significa senão que ele veio após ter partido dali; mas não é explicitado quantos dias depois ele veio à sinagoga deles depois de ter partido daquele campo, ou se foi para lá imediatamente e sem interrupção. E assim, há lugar para a narrativa de São Lucas, que diz que a cura desta espécie de paralisia ocorreu em outro sábado.
Mas pode-se questionar como São Mateus disse que eles interrogaram ao Senhor se era lícito curar no sábado, visto que São Marcos e São Lucas afirmam que, pelo contrário, foi o Senhor quem os interrogou, dizendo: "É lícito no sábado fazer o bem ou fazer o mal?" Portanto, deve-se entender que primeiro eles interrogaram ao Senhor se era lícito curar no sábado. Depois, compreendendo os pensamentos deles, que buscavam ocasião para acusá-lo, colocou no meio aquele que iria curar, e interrogou o que São Marcos e São Lucas recordam que Ele perguntou. E então, permanecendo eles em silêncio, propôs a comparação da ovelha e concluiu que é lícito fazer o bem no sábado. Por isso segue: "Ele, porém, disse-lhes: Quem dentre vós, tendo uma só ovelha?"
Depois de proposta a comparação sobre a ovelha, Ele conclui que é lícito fazer o bem no dia de sábado, dizendo: "Portanto, é lícito fazer o bem nos sábados".
A saber, porque anunciou o juízo futuro, que estava oculto para os gentios.
Por isso, Ele não esmagou nem extinguiu os perseguidores judeus, que foram comparados à cana rachada, que perdeu sua integridade, e ao pavio fumegante, que perdeu sua luz; mas os poupou, porque não viera para julgá-los, mas para ser julgado por eles.
No linho que fumega deve-se notar que, quando a luz se extingue, ele produz mau cheiro.
Mas isto último já vemos cumprido: e assim, por meio disto que não pode ser negado, crê-se também naquilo que imprudentemente é negado por alguns: o juízo final, que se realizará na terra quando Ele vier do céu. Pois quem esperaria que as nações depositariam sua esperança no nome de Cristo quando Ele era preso, amarrado, açoitado, escarnecido e crucificado; quando até mesmo os seus discípulos haviam perdido a esperança que nele já tinham começado a ter? Aquilo que na cruz apenas um ladrão esperou, agora esperam as nações dispersas por toda parte. E para que não morram eternamente, são marcadas com a mesma cruz na qual Ele morreu. Portanto, ninguém duvide que o juízo final acontecerá por meio de Jesus Cristo.
Pois aquele que não crê, e está submetido ao Diabo, que não compreende nem confessa a própria fé, ou não dá louvor a Deus, está endemoniado, cego e mudo.
Lucas, porém, menciona isto não nesta ordem, mas depois de muitas outras coisas; e diz que era apenas mudo e não cego. Mas não se deve pensar que ele fala de outro homem porque silencia sobre esta particularidade; pois no que segue, ele próprio tece a mesma sequência que São Mateus.
Donde pode também este ser o sentido: se eu expulso os demônios em Beelzebub, também segundo vosso juízo chegou a vós o reino de Deus: porque o reino do Diabo não pode subsistir, o qual confessais estar dividido contra si mesmo. Pois chama aqui reino de Deus àquele pelo qual os ímpios são condenados, e são separados dos fiéis que agora fazem penitência por seus pecados.
Os quais certamente ele mantinha presos, para que os homens não pudessem libertar-se dele por suas próprias forças, mas pela graça de Deus. Seus vasos, ele chama todos os infiéis. Amarrou o forte, porque lhe retirou o poder de impedir a vontade dos fiéis de seguir a Cristo e de obter o reino de Deus.
Pois qual é a diferença para o assunto se é dito, "o espírito de blasfêmia não será perdoado", ou "quem blasfemar contra o Espírito Santo não lhe será perdoado", como diz São Lucas(São Lucas 12,10), a não ser, talvez, que a mesma sentença é expressa mais claramente deste modo do que daquele; e um Evangelista não contradiz o outro, mas o explica? Pois "o espírito de blasfêmia" é dito de forma obscura, porque não está expresso de qual espírito se trata; e por isso, para explicar tal expressão, acrescenta-se "e qualquer que disser uma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado". Assim, após a menção universal de toda blasfêmia, Ele quis expressar de maneira mais proeminente a blasfêmia que é dita contra o Filho do homem, a qual no Evangelho segundo São João mostra ser muito grave, onde diz sobre o Espírito Santo: "Ele convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo; do pecado, porque não creem em mim"(São João 16,8). Segue-se "mas aquele que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro". Portanto, isto não é dito porque na Trindade o Espírito Santo é maior que o Filho, o que nenhum herege jamais afirmou.
Mas se isso fosse dito por esta razão, certamente se silenciaria sobre toda blasfêmia, e somente esta pareceria remissível, a que é dita contra o Filho do homem, como se Ele fosse considerado apenas homem. Mas como foi dito anteriormente que todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens, sem dúvida também aquela blasfêmia que é dita contra o Pai está incluída nessa generalidade; e, no entanto, só esta é definida como irremissível, a que é dita contra o Espírito Santo. Acaso o Pai também assumiu a forma de servo, de modo que o Espírito Santo seja maior? Quem também não é convencido de ter dito uma palavra contra o Espírito Santo antes de se tornar cristão ou católico? Primeiramente, os próprios pagãos, quando dizem que Cristo realizou milagres por artes mágicas, não são semelhantes àqueles que disseram que Ele expulsava os demônios pelo príncipe dos demônios? Também os judeus e quaisquer hereges que confessam o Espírito Santo, mas negam que Ele esteja no corpo de Cristo, que é a Igreja Católica, são semelhantes aos fariseus, que negavam que o Espírito Santo estivesse em Cristo. Alguns hereges também afirmam que o próprio Espírito Santo é uma criatura, como os arianos, eunomianos e macedonianos; ou o negam completamente, negando que Deus seja Trindade, mas asseveram que somente o Pai é Deus; e que o mesmo às vezes é chamado Filho, às vezes Espírito Santo, como os sabelianos. Os fotinianos também, dizendo que somente o Pai é Deus, e que o Filho não é mais que um homem, negam completamente que haja uma terceira pessoa, o Espírito Santo. É evidente, portanto, que o Espírito Santo é blasfemado pelos pagãos, judeus e hereges. Porventura, então, devem ser abandonados e considerados sem nenhuma esperança? Se a palavra que disseram contra o Espírito Santo não lhes for perdoada, em vão lhes é prometido que no Batismo ou na Igreja receberão a remissão dos pecados. Pois não foi dito: "não lhe será perdoado no Batismo"; mas "nem neste século nem no futuro": e assim devem ser considerados livres da culpa deste gravíssimo pecado somente aqueles que são católicos desde a infância. Alguns, porém, pensam que somente pecam contra o Espírito Santo aqueles que, tendo sido lavados pelo banho da regeneração na Igreja, e tendo recebido o Espírito Santo, como ingratos a tão grande dom do Salvador, mergulham depois em algum pecado mortal, como adultérios, homicídios, ou a própria separação do nome cristão ou da Igreja Católica. Mas de onde se possa provar este sentido, eu ignoro; uma vez que o lugar para a penitência de quaisquer crimes não é negado na Igreja, e o próprio Apóstolo diz que os hereges devem ser corrigidos para este fim: para que "porventura Deus lhes conceda a penitência para conhecerem a verdade". Por último, o Senhor não diz: "quem sendo fiel católico disser uma palavra contra o Espírito Santo"; mas "quem disser", isto é, qualquer que disser, "não lhe será perdoado nem neste século nem no futuro".
Ou de outro modo. O apóstolo São João diz: "Há um pecado para a morte, pelo qual não digo que alguém rogue"(1 João 5,16). Digo que é pecado do irmão para a morte quando, após o conhecimento de Deus pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, alguém combate a fraternidade, ou contra a própria graça pela qual foi reconciliado com Deus, é agitado pelas chamas da inveja. Tão grande é a mancha deste pecado que não pode submeter-se à humildade da súplica, ainda que a má consciência o obrigue a reconhecer e a confessar seu pecado. Deve-se crer que, pela magnitude deste pecado, alguns já têm uma disposição mental própria da condenação: e este, talvez, seja o pecar contra o Espírito Santo; isto é, por malícia e inveja, combater a caridade fraterna depois de recebida a graça do Espírito Santo; pecado que o Senhor diz que não será perdoado nem neste século, nem no século futuro. Por isso pode-se perguntar se os judeus pecaram contra o Espírito Santo quando disseram que o Senhor expulsava os demônios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios. Deveríamos entender isso como dito contra o próprio Senhor, já que Ele diz em outro lugar: "Se ao pai de família chamaram Belzebu, quanto mais aos seus familiares?"(São Mateus 10,25) Ou porventura, como falaram com grande inveja, ingratos a tão evidentes benefícios, embora ainda não fossem cristãos, devemos crer que, pela própria magnitude de sua inveja, pecaram contra o Espírito Santo? Isso não se deduz das palavras do Senhor. Parece, contudo, que Ele ainda os advertia para que se aproximassem da graça e, depois de recebida a graça, não pecassem como agora pecaram. Pois não proferiram palavra iníqua contra o Filho do homem; e pode ser-lhes perdoado, se se converterem e crerem nele. Mas se depois de receberem o Espírito Santo, quiserem invejar a fraternidade e combater a graça que receberam, não lhes será perdoado nem neste século, nem no futuro. Pois se Ele os tivesse como já condenados, de modo que não lhes restasse nenhuma esperança, não os advertiria ainda, quando acrescentou dizendo: "Ou fazei a árvore boa"
Porém, não afirmei isto com certeza, ao dizer que assim o penso; contudo, deveria ter acrescentado: Se ele terminar esta vida nesta ímpia perversidade da mente; pois não devemos de forma alguma desesperar de quem quer que seja, por mais perverso que seja, enquanto estiver nesta vida, nem tampouco é imprudente orar por aquele de quem não desesperamos.
É, porém, um grande mistério o que se esconde nesta questão. Que se busque, portanto, a luz da exposição no Senhor. Digo à vossa caridade que talvez em todas as Sagradas Escrituras não se encontre questão maior nem mais difícil. Primeiro, portanto, para que vos deis conta, advirto que o Senhor não disse: toda blasfêmia contra o Espírito não será perdoada; nem disse: quem disser qualquer palavra contra o Espírito Santo; mas quem disser a palavra. Pelo que não é necessário que alguém considere que toda blasfêmia e toda palavra que for dita contra o Espírito Santo não tenha remissão; mas é necessário, obviamente, que haja alguma palavra que, se for dita contra o Espírito Santo, não mereça remissão alguma.
Costumam, de fato, as Escrituras falar assim, de modo que quando algo é dito não de modo total, nem parcial, não é necessário que se possa fazer totalmente, nem que não se entenda parcialmente, como quando o Senhor disse aos judeus: Se eu não tivesse vindo, e não lhes tivesse falado, não teriam pecado(São João 15,22). Isso não foi dito como se Ele quisesse dar a entender que os judeus estariam sem nenhum pecado; mas que há algum pecado que eles não teriam se Cristo não tivesse vindo.
A ordem exige que digamos qual é esse modo de falar contra o Espírito Santo. Pois nos é insinuado que no Pai está a autoridade, no Filho a natividade, e no Espírito Santo a comunhão do Pai e do Filho. O que, portanto, é comum ao Pai e ao Filho, e por isso quiseram que tivéssemos comunhão tanto entre nós quanto com eles. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado(Romanos 5,5), e porque pelos pecados nos afastávamos da posse dos verdadeiros bens, a caridade cobre a multidão de pecados(1 Pedro 4,8).
Que Cristo perdoa os pecados no Espírito Santo, pode-se entender pelo fato de que, tendo dito aos discípulos: Recebei o Espírito Santo, acrescentou imediatamente: Se perdoardes os pecados a alguém, ser-lhes-ão perdoados(São João 20,22-23). Por isso, o primeiro benefício dos que creem é a remissão dos pecados no Espírito Santo. Contra este dom gratuito fala o coração impenitente: esta impenitência é, pois, a blasfêmia do espírito, que não será perdoada nem neste século nem no futuro.
Pois contra o Espírito Santo, pelo qual os pecados são perdoados, diz uma palavra muito má, seja pelo pensamento, seja por sua língua, aquele que segundo a dureza de seu coração e um coração impenitente, acumula para si a ira no dia da ira(Romanos 2,5). Esta impenitência não tem absolutamente remissão nem neste século nem no futuro, porque a penitência obtém remissão neste século, que vale para o futuro.
Mas esta impenitência, enquanto alguém viver nesta carne, não pode ser julgada: de ninguém se deve desesperar enquanto a paciência de Deus o conduzir à penitência. Pois, que aconteceria se estes que notais em qualquer tipo de erro e condenais como desesperados, antes de terminarem esta vida, fizessem penitência e encontrassem a verdadeira vida no futuro?
Esta blasfêmia, embora seja prolixa e composta de muitas palavras, a Escritura costuma chamar mesmo muitas palavras de palavra: pois o Senhor não disse uma só palavra ao profeta; e, no entanto, lê-se: a palavra que foi dirigida a este ou àquele profeta.
Aqui, porém, talvez alguém pergunte se somente o Espírito Santo perdoa os pecados, ou também o Pai e o Filho. Respondemos que também o Pai e o Filho: pois o próprio Filho diz do Pai: vosso Pai vos perdoará vossos pecados(São Mateus 6,14); e diz de si mesmo: o Filho do homem tem poder na terra para perdoar pecados(São Mateus 9,6).
Por que, então, aquela impenitência que nunca é perdoada, diz-se pertencer somente à blasfêmia contra o Espírito Santo? Como se aquele que estiver obrigado a este pecado de impenitência parecesse resistir ao dom do Espírito Santo, porque por esse dom se realiza a remissão dos pecados.
Mas os pecados, porque fora da Igreja não são perdoados, deveriam ser perdoados naquele Espírito pelo qual a Igreja se congrega em unidade. A remissão dos pecados, que toda a Trindade realiza, diz-se propriamente pertencer ao Espírito Santo: ele é, com efeito, o espírito de adoção dos filhos, no qual clamamos: Abba, Pai(Romanos 8,15), para que possamos dizer-lhe: perdoa-nos as nossas dívidas(São Mateus 6,12). E nisto conhecemos, como diz São João, que Cristo permanece em nós, pelo Espírito que nos deu(1 João 4,13). A ele também pertence a sociedade pela qual nos tornamos um só corpo do Filho único de Deus: porque de certo modo a sociedade do Pai e do Filho é o próprio Espírito Santo.
Portanto, quem for réu de impenitência contra o Espírito Santo, no qual se congrega a unidade e a sociedade da comunhão da Igreja, nunca lhe será perdoado.
Ou, neste ponto, o Senhor nos admoestou para que sejamos boas árvores, a fim de que possamos produzir bons frutos; onde diz "Fazei a árvore boa e o seu fruto bom", é um preceito salutar, ao qual a obediência é necessária. Mas quando diz "Fazei a árvore má e o seu fruto mau", não é um preceito para que o façais, mas uma advertência para que o eviteis; pois Ele falou contra aqueles que pensavam que, mesmo sendo maus, podiam falar coisas boas ou ter boas obras; o Senhor diz que isso não é possível. Pois primeiro é preciso mudar o homem, para que as obras sejam mudadas; porque se o homem permanece naquilo que é mau, não pode ter boas obras; se permanece naquilo que é bom, não pode ter obras más. Cristo, portanto, encontrou todas as árvores más; mas deu poder de se tornarem filhos de Deus aos que creem em Seu nome.
Alguns, porém, desconhecendo o modo de expressão da Escritura, quiseram considerar como noite aquelas três horas desde a sexta até a nona, nas quais o sol foi obscurecido; e como dia as outras três horas, nas quais novamente foi devolvido à terra, isto é, da nona até seu ocaso. Segue-se, pois, a noite futura do sábado que, computada com seu dia, serão já duas noites e dois dias. Além disso, depois do sábado segue-se a noite do primeiro dia da semana, isto é, do amanhecer do dia domingo, no qual então o Senhor ressuscitou. Serão, portanto, duas noites e dois dias e uma noite, ainda que pudesse ser entendida por completo; nem mostraríamos que aquela aurora é sua parte extrema; pelo que, nem mesmo contando aquelas seis horas, das quais três esteve em trevas e três iluminou, constará a razão de três dias e três noites. Resta, pois, que isto seja encontrado naquele modo habitual de falar das Escrituras, pelo qual se entende o todo pela parte.
A própria Escritura testemunha que aquele tríduo não foi completo e inteiro, mas o primeiro dia foi contado inteiro a partir de sua parte final; o terceiro dia, por sua vez, também foi contado inteiro a partir de sua parte inicial; o dia intermediário entre eles, isto é, o segundo dia, foi absolutamente inteiro com suas vinte e quatro horas, doze noturnas e doze diurnas: pois a noite até o amanhecer, quando a ressurreição do Senhor foi manifestada, pertence ao terceiro dia. Assim como os primeiros dias, por causa da futura queda do homem, foram computados da luz para a noite, assim estes, por causa da restauração do homem, são computados das trevas para a luz.
Pelo que por estas palavras o Senhor indica que alguns hão de crer de tal modo que não poderão suportar o trabalho da continência, e voltarão ao mundo. Quando diz "toma consigo outros sete", entende-se que quando alguém cai da justiça, também terá a simulação. Pois a concupiscência da carne, expulsa pela penitência das obras habituais, quando não encontra em quais deleites repousar, volta mais avidamente e de novo ocupa a mente do homem, se sobreveio a negligência, e não foi introduzida como habitante da casa limpa a palavra de Deus através da sã doutrina; e como não só terá aqueles sete vícios que são contrários às sete virtudes espirituais, mas também simulará por meio da hipocrisia ter as próprias virtudes, por isso, tomando consigo outros sete mais perversos, isto é, a própria simulação sétupla, retorna a mesma concupiscência, para que os últimos estados daquele homem sejam piores que os primeiros.
Isto sem dúvida devemos entender que aconteceu adequadamente: pois precedera, ao passar a narrar este fato, dizendo "ainda enquanto ele falava às multidões". E o que significa "ainda", senão quando ele falava aquilo? Pois também São Marcos, depois daquilo que relatara sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo, disse: "e vêm sua mãe e seus irmãos" (São Marcos 3,31). São Lucas, porém, não manteve a ordem deste acontecimento, mas o antecipou e, recordando-se, narrou-o antes.
Mas, seja qual for a opinião sobre os irmãos, em relação à santa virgem Maria, pelo respeito a Cristo, não quero absolutamente levantar qualquer questão quando se trata de pecados. Pois sabemos que lhe foi concedida mais graça para vencer o pecado em todos os aspectos, porque mereceu conceber e dar à luz Aquele que, como sabemos, não teve pecado algum. Segue-se: "Então lhe disse alguém: Eis que tua mãe e teus irmãos estão lá fora, procurando-te."
Quando diz "naquele dia", indica suficientemente que isso ou foi realizado consecutivamente após o que foi mencionado anteriormente, ou que não muito poderia ter sido interposto, a não ser talvez que a palavra "dia" signifique tempo, segundo o costume das Escrituras.
Ou de outra maneira. Fecharam seus olhos, para não verem com os olhos; isto é, eles mesmos foram a causa de Deus lhes fechar os olhos. Pois outro Evangelista diz: "cegou os olhos deles". Mas é para que nunca vejam, ou para que de alguma forma eventualmente vejam, descontentes com sua cegueira e lamentando-se, humilhando-se e comovendo-se a confessar seus pecados e buscar piedosamente a Deus? Pois se Marcos diz: "para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados", se entende que por seus pecados mereceram não compreender; e todavia, isto mesmo foi feito por misericórdia para que reconhecessem seus pecados e, convertidos, merecessem o perdão.
Mas quando João diz: "Por isso não podiam crer, porque Isaías disse novamente: cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos e não entendam com o coração, e se convertam e eu os cure", isto parece contradizer esta interpretação e nos obriga a entender o que foi dito aqui, "para que não vejam com os olhos", não como se eventualmente pudessem ver, mas que absolutamente não vejam: visto que diz claramente: "para que não vejam com os olhos". E quando diz: "por isso não podiam crer", mostra claramente que a cegueira não foi infligida para que, comovidos por ela e arrependidos de não entenderem, se convertessem alguma vez pela penitência: pois não poderiam fazer isso sem antes crer, para que crendo se convertessem, e pela conversão fossem curados, e curados entendessem; mas antes foram cegados para que não cressem, pois diz muito claramente: "por isso não podiam crer".
E se é assim, quem não se levantaria em defesa dos judeus, proclamando que não tiveram culpa por não crerem? Pois "por isso não podiam crer, porque lhes cegou os olhos". Mas como devemos entender que Deus está isento de culpa, somos forçados a confessar que por outros pecados eles mereceram ser cegados de tal modo que não podiam crer por causa dessa cegueira. Pois estas são as palavras de João: "não podiam crer, porque Isaías disse novamente: cegou-lhes os olhos".
É, portanto, em vão que tentam entender que foram cegados para que se convertessem; pois não podiam se converter porque não criam, e não podiam crer porque estavam cegados. Ou talvez não seja absurdo dizer que alguns dos judeus eram passíveis de cura; mas estavam em perigo por tanta soberba que foi melhor para eles primeiro não crer, para não entenderem o Senhor falando em parábolas; não as entendendo, não creriam nEle; não crendo, o crucificariam com os demais desesperados; e assim, após Sua ressurreição, se converteriam, quando, já mais humilhados pela culpa da morte do Senhor, O amariam e se regozijariam por tão grande crime lhes ter sido perdoado: porque tamanha era a soberba deles que só poderia ser abatida com tal humilhação?
Ninguém considere isto incongruente, pois é manifesto nos Atos dos Apóstolos1 que assim aconteceu. Portanto, não se opõe o que João diz: "por isso não podiam crer, porque lhes cegou os olhos para que não vejam", ao entendimento de que foram cegados para que se convertessem; isto é, que por causa da obscuridade das parábolas as sentenças do Senhor lhes foram ocultadas, para que após Sua ressurreição se arrependessem mais saudavelmente; porque, cegados pela obscuridade do discurso, não entenderam as palavras do Senhor; e não as entendendo, não creram nEle; não crendo, o crucificaram; e assim, após a ressurreição, aterrorizados pelos milagres que eram feitos em Seu nome, foram tomados de compunção pelo reato de um crime maior, e prostraram-se em penitência; então, recebida a indulgência, converteram-se à obediência com ardentíssima dileção. Mas para alguns, aquela cegueira não serviu para a conversão.
[1] Atos 2,37. ↩
O que o Evangelista narrou, de fato aconteceu, a saber, que o Senhor proferiu tais palavras; mas a própria narração do Senhor foi uma parábola, da qual nunca se exige que as coisas expressas em palavras tenham realmente acontecido ao pé da letra.
Alguns pensam que isto deve ser entendido assim: que os santos, de acordo com a diversidade de seus méritos, uns libertem trinta pessoas, outros sessenta, outros cem; o que costumam supor que acontecerá no dia do juízo, não depois do juízo. Diante desta opinião, como alguém percebesse que os homens prometiam de maneira muito perversa a impunidade, posto que todos pareciam poder, por este meio, alcançar a libertação, respondeu que é melhor viver bem, para que cada um se encontre entre aqueles que hão de interceder pela libertação de outros; para que não sejam tão poucos que, chegando rapidamente ao seu número, muitos permaneçam sem poder ser livrados das penas por sua intercessão, e entre estes se encontre qualquer um que, com temeridade vaníssima, promete a si mesmo a esperança do fruto alheio.
Ou de outro modo. O fruto centuplicado é o dos mártires pela santidade de vida, ou pelo desprezo da morte; o sexagenário é o das virgens por causa do repouso interior, pois não lutam contra os costumes da carne: costuma-se conceder descanso aos sexagenários após o serviço militar, ou após os cargos públicos; e o trigésimo é o dos casados, porque esta é a idade dos combatentes, e eles têm um conflito mais árduo, para que não sejam vencidos pelos desejos carnais. Ou de outro modo. É preciso lutar contra o amor dos bens temporais, para que a razão vença; ou também deve estar domado e submetido, para que quando começar a surgir, seja facilmente reprimido; ou tão extinto que não se mova em absoluto por nenhuma parte. Disto resulta que a própria morte, por causa da verdade, alguns a desprezem com coragem, outros com equanimidade, outros com alegria: estes são os três tipos de fruto da terra, o trigésimo, o sexagésimo e o centésimo. Em algum destes tipos deve-se encontrar no momento de sua morte, se alguém pensa em partir corretamente desta vida.
Diz, porém, "enquanto os homens dormiam": porque quando os prepostos da Igreja agiam com negligência, ou quando os apóstolos recebiam o sono da morte, veio o Diabo e semeou sobre eles, os quais o Senhor interpreta como filhos maus. Mas com razão se pergunta se são hereges ou católicos que vivem mal. Mas porque diz que foram semeados no meio do trigo, parecem ser significados aqueles que são de uma mesma comunhão. Contudo, como o próprio campo não é interpretado como a Igreja, mas este mundo, bem se entendem os hereges, que neste mundo se misturam com os bons; de modo que aqueles que são maus na mesma fé, são considerados mais como palha do que como joio: porque a palha também tem fundamento com o frumento e raiz comum. Os cismáticos, porém, parecem mais semelhantes às espigas corrompidas ou às palhas com arestas quebradas ou rasgadas e rejeitadas da seara. Todavia, não é consequência que todo herege ou cismático seja corporalmente separado da Igreja: pois a Igreja suporta muitos, porque não defendem a falsidade de sua sentença de modo a formar uma multidão decidida; o que se fizessem, então seriam expulsos. Quando, portanto, o Diabo, tendo espalhado erros depravados e falsas opiniões, semeou por cima, isto é, tendo precedido o nome de Cristo, lançou as heresias por cima, ele mais se escondeu e se tornou ocultíssimo: pois isto é o que diz "e foi-se embora"; ainda que nesta parábola o Senhor, como concluiu na exposição, não alguns, mas todos os escândalos, e aqueles que praticam a iniquidade, entende-se que significou com o nome de joio.
Ou de outro modo. Quando o homem começa a ser espiritual, julgando todas as coisas, então começam a aparecer-lhe os erros: pois discerne quando o que ouve ou lê se afasta da regra da verdade; mas enquanto não se aperfeiçoa nas mesmas coisas espirituais, pode ser perturbado pela razão de tantas falsidades dos hereges terem surgido sob o nome cristão; donde se segue "E chegando os servos do pai de família, disseram-lhe: Senhor, porventura não semeaste boa semente no teu campo? Como, pois, tem joio?" Se estes servos são os mesmos a quem depois chama ceifeiros, posto que na exposição da parábola diz que os ceifeiros são os Anjos, e ninguém facilmente ousaria dizer que os Anjos ignoravam quem tinha semeado o joio por cima; é mais oportuno compreender que são os próprios homens fiéis que estão designados neste lugar pelo nome de servos. E não é de admirar que também eles sejam chamados de boa semente: pois a partir de diferentes significações, uma mesma coisa pode receber diversas comparações: como Ele diz a respeito de si mesmo, que Ele é a porta, que Ele é o pastor.
Quando, porém, os servos de Deus reconheceram que o Diabo tinha excogitado esta fraude, pois, sentindo que nada podia contra o autor de tão grande nome, ocultava suas falácias sob o mesmo nome; pode surgir neles a vontade de afastar tais homens das coisas humanas, caso tenham alguma oportunidade temporal; mas se devem fazê-lo, consultam a justiça de Deus: donde segue "os servos, porém, disseram: queres que vamos e os arranquemos?"
AI:Quando, porém, os servos de Deus reconheceram que o Diabo tinha excogitado esta fraude, pois, sentindo que nada podia contra o autor de tão grande nome, ocultava suas falácias sob o mesmo nome; pode surgir neles a vontade de afastar tais homens das coisas humanas, caso tenham alguma oportunidade temporal; mas se devem fazê-lo, consultam a justiça de Deus: donde segue "os servos, porém, disseram: queres que vamos e os arranquemos?"
No que ele os torna pacientíssimos e tranquilíssimos: isto é dito porque os bons, enquanto ainda são fracos, necessitam em algumas coisas da mistura com os maus; seja para serem exercitados por meio deles, seja para que, pela comparação com eles, recebam grande exortação e sejam convidados ao melhor. Ou talvez o trigo seja arrancado juntamente quando se retiram as cizânias: porque muitos primeiro são cizânia e depois se tornam trigo; os quais, a menos que sejam tolerados pacientemente quando são maus, não chegam à louvável transformação. Assim, se forem arrancados, simultaneamente será arrancado o trigo que viriam a ser, se fossem poupados. Por isso diz que tais pessoas não devem ser retiradas desta vida, para que, ao tentar eliminar os maus, não elimine os bons que possam vir a ser; ou prejudique os bons, aos quais, mesmo contra a vontade destes, são úteis. Mas então oportunamente isto se fará quando já no fim não restar tempo para mudar de vida, ou para avançar em direção à verdade por ocasião e comparação do erro alheio: e por isso acrescenta "deixai crescer ambos até a colheita", isto é, até o juízo.
Quando qualquer cristão estabelecido dentro da Igreja for surpreendido em algum pecado tal que seja considerado digno de anátema, que isto se faça (onde não se teme o perigo de cisma) com amor, não para erradicar, mas para corrigir. Mas se ele não se reconhecer, nem se corrigir pela penitência, ele mesmo sairá, e por sua própria vontade será separado da comunhão da Igreja: por isso o Senhor, quando disse "deixai crescer ambos até a colheita", acrescentou a razão, dizendo "para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo"; onde mostra claramente que, quando este temor não existe, mas permanece uma segurança certeira sobre a estabilidade do trigo, isto é, quando o crime de alguém é tão conhecido e aparece tão execrável a todos que não tem absolutamente nenhum defensor ou não tem tais defensores pelos quais possa acontecer um cisma, não deve adormecer a severidade da disciplina: na qual a correção da perversidade é tanto mais eficaz quanto mais diligente tiver sido a observância da caridade.
Mas quando a mesma doença tiver tomado muitos, nada mais de bom resta senão a dor e o gemido. Assim, pois, o homem corrija misericordiosamente o que pode; e o que não pode, suporte pacientemente, e gema e lamente com amor, até que Aquele do alto emende e corrija; e difira até à colheita arrancar o joio e joeirar a palha. Porém, a multidão dos iníquos, quando há oportunidade de proferir a palavra nos povos, deve ser ferida com uma repreensão geral; e principalmente se algum flagelo do Senhor vindo do alto oferecer ocasião e oportunidade, pelo qual pareça que eles são castigados por seus próprios méritos: pois então a calamidade dos ouvintes apresenta ouvidos humildes à palavra de quem os corrige, e mais facilmente os corações aflitos são impelidos ao gemido da confissão do que aos murmúrios da resistência; ainda que, se nenhuma calamidade de tribulação oprime, quando se dá a oportunidade, utilmente se repreende a multidão na multidão: pois assim como separada costuma enfurecer-se, assim na própria congregação, quando repreendida, costuma gemer.
Esta era, primeiramente, minha opinião, que ninguém deveria ser compelido à unidade de Cristo: pois deve-se agir pela palavra, combater pela disputa, vencer pela razão, para que não tenhamos católicos fingidos que reconhecíamos como hereges declarados. Mas esta minha opinião não foi superada por palavras de contradição, mas por exemplos demonstrativos: pois o terror destas leis, para cuja promulgação os reis servem ao Senhor com temor, foi tão proveitoso que agora alguns dizem: já queríamos isto, mas graças a Deus, que nos proporcionou a ocasião e eliminou as demoras de adiamentos. Outros dizem: já sabíamos que isto era verdade, mas éramos retidos por não sei qual costume; graças a Deus que rompeu nossos vínculos. Outros dizem: desconhecíamos que isto fosse a verdade, e nem queríamos aprendê-la, mas o medo nos fez atentos a ela; graças ao Senhor, que afastou nossa negligência com o estímulo do terror. Outros dizem: estávamos aterrorizados por falsos rumores para entrar, os quais não saberíamos que eram falsos se não entrássemos, e não entraríamos se não fôssemos compelidos; graças a Deus que removeu nossa hesitação com o flagelo, e nos ensinou pela experiência quão vãs e inúteis eram as mentiras que falsa fama propalou sobre sua Igreja. Outros dizem: pensávamos, de fato, que não importava onde mantivéssemos a fé de Cristo; mas graças ao Senhor, que nos reuniu da divisão, e mostrou que convém ao único Deus que em unidade seja adorado. Portanto, sirvam os reis da terra a Cristo, promulgando leis em favor de Cristo.
Quem dentre vós desejaria não somente que algum herege pereça, mas ainda que perca algo? Mas não de outro modo mereceu ter paz a casa de Davi, a não ser que Absalão, seu filho, fosse morto na guerra que travava contra seu pai; embora este, com grande preocupação, tivesse ordenado aos seus que o mantivessem, tanto quanto pudessem, vivo e a salvo, e houvesse a quem, arrependido, o afeto paterno perdoasse. Mas o que lhe restou senão chorar o perdido e, adquirida a paz de seu reino, consolar sua tristeza? Assim, pois, a mãe Igreja Católica, se com a perdição de alguns reúne muitos outros, alivia a dor do coração materno e a cura com a libertação de tantos povos. Onde está, porém, aquilo que estes costumam clamar: é livre crer ou não crer? A quem Cristo fez violência? A quem forçou? Eis que têm o apóstolo Paulo: reconheçam nele primeiro Cristo forçando, e depois ensinando; primeiro ferindo, e depois consolando. É admirável, porém, como aquele que entrou no Evangelho coagido por uma pena corporal, trabalhou no Evangelho mais do que todos aqueles que foram chamados apenas pela palavra1. Por que, pois, a Igreja não constrangeria os filhos perdidos a regressar, se os filhos perdidos constrangeram outros a perecer? Segue: "E no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: colhei primeiro o joio e atai-o em feixes para queimá-lo".
[1] 1 Coríntios 15,10 ↩
Pode-se perguntar por que Ele não mandou fazer um só feixe ou um só monte de joio; talvez por causa da variedade dos hereges que diferem não apenas do trigo, mas também entre si mesmos, cada heresia separadamente, em que estão afastados uns dos outros pela sua própria comunhão, são designados pelo nome de feixes: de modo que começam a ser atados para serem queimados quando, separados da comunhão católica, começam a ter suas próprias igrejas, por assim dizer, para que a sua queima seja no fim do mundo, não o atar dos feixes. Mas se assim fosse, não seriam tantos os que, voltando a si e retornando à Igreja Católica, abandonariam o erro. Por isso, o atar dos feixes no fim será proveitoso, para que não seja punida confusamente, mas segundo o modo da sua perversidade, a obstinação do erro de cada um.
O grão de mostarda refere-se ao fervor da fé, ou porque se diz que expele venenos. Segue-se que um homem tomou-o e o semeou em seu campo.
Os dogmas são as decisões das seitas1, isto é, conforme o que agradou às seitas.
[1] placita sectarum ↩
Ou também, o fermento significa a caridade, porque faz ferver e excita; por mulher, entende-se a sabedoria. Nas três medidas de farinha entende-se ou aquelas três coisas no homem, de todo o coração, de toda a alma e de toda a mente; ou aqueles três graus de frutificação, o cêntuplo, o sexagésimo e o trigésimo; ou aqueles três gêneros de homens: Noé, Daniel e Jó.
Ou isto é dito não porque Ele não tenha falado nada em sentido próprio, mas porque quase nenhum discurso explicou onde não significasse algo por meio de parábola; embora nisto tenha dito algumas coisas também em sentido próprio: de modo que frequentemente se encontra todo o seu discurso explicado por parábolas, mas nenhum se encontra inteiramente dito em sentido próprio. Chamo de discursos explicados quando, a partir de alguma ocasião, começa a falar de certas coisas até que termine tudo o que pertence àquele assunto e passe a outro. Certamente, às vezes, um Evangelista reúne o que outro indica ter sido dito em tempos diversos: pois não ordenaram a narração que iniciaram totalmente segundo a ordem dos acontecimentos, mas segundo a faculdade da recordação de cada um. Por que, porém, falava em parábolas, o Evangelista manifesta quando acrescenta: "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, que diz: abrirei em parábolas a minha boca, pronunciarei coisas escondidas desde a fundação do mundo".
O Senhor explica que o joio não se refere, como interpreta Maniqueu, a certas falsidades inseridas nas verdadeiras Escrituras, mas a todos os filhos do maligno, isto é, os imitadores da falsidade diabólica; donde se segue: "o joio são os filhos do maligno", pelos quais Ele quer que entendamos todos os ímpios e malignos.
Toda impureza na seara é chamada de joio. Segue-se: "O inimigo, porém, que o semeou, é o Diabo".
Porventura daquele reino onde não há escândalos? De seu reino, portanto, que está aqui, isto é, da Igreja, serão recolhidos
Que as ervas daninhas sejam primeiramente separadas, isso significa que, por meio da tribulação, os ímpios serão separados dos justos: o que se entende como sendo realizado pelos bons Anjos, porque os bons podem cumprir funções de punição com bom ânimo, como um juiz ou como a Lei; mas os maus não podem cumprir ofícios de misericórdia.
Este tesouro, porém, disse estar escondido no campo, isto é, os dois testamentos na Igreja; que quando alguém os alcança pelo entendimento, percebe que grandes coisas estão ocultas ali; e vai, e vende tudo o que tem, e o compra; ou seja, pelo desprezo das coisas temporais, obtém para si o ócio, para que se torne rico no conhecimento de Deus.
Ou também, o homem quando busca boas pérolas, encontra uma preciosa: porque buscando homens bons, com os quais possa viver utilmente, encontra um só sem pecado, Jesus Cristo; ou buscando preceitos, cujo cumprimento permita conviver retamente com os homens, encontra o amor ao próximo (no qual, diz o Apóstolo1, tudo está contido); ou buscando bons entendimentos, encontra aquele Verbo no qual todos estão contidos: "No princípio era o Verbo", que é luminoso pelo esplendor da verdade, e sólido pela firmeza da eternidade, e por toda parte semelhante a si mesmo pela beleza da verdade; e que deve ser compreendido como Deus quando penetrada a concha da carne. Seja qual for dessas três coisas, ou se outra coisa puder ocorrer que seja significada pelo nome da pérola preciosa única; o seu preço somos nós mesmos, que não somos livres para possuí-la, a não ser desprezando por nossa libertação tudo o que é possuído temporalmente. Pois, vendidas as nossas coisas, não recebemos outro preço maior que nós mesmos (porque envolvidos em tais coisas, não éramos nossos), para que novamente nos entreguemos por aquela pérola: não porque valemos tanto, mas porque não podemos dar mais.
[1] Romanos 13,9 ↩
Ele não disse: "coisas velhas e novas", o que certamente teria dito se não preferisse preservar a ordem dos méritos à dos tempos. Os Maniqueus, enquanto pensam que devem manter apenas as novas promessas de Deus, permanecem na velha natureza da carne e introduzem uma novidade de erro.
Se, no entanto, com essa conclusão quis expor o que havia dito sobre o tesouro escondido no campo (já que se entende as Sagradas Escrituras, que estão compreendidas sob o nome dos dois testamentos, novo e antigo); ou se quis mostrar que deve ser considerado douto na Igreja aquele que também tenha entendido as Escrituras antigas explicadas em parábolas, recebendo destas novas as regras, porque também o Senhor anunciou muitas coisas por parábolas; de modo que se Ele mesmo, em quem aquelas se cumprem e se manifestam, ainda fala por parábolas, até que sua paixão rasgue o véu, para que nada fique oculto que não seja revelado; muito mais reconhecemos que aquelas coisas que foram escritas sobre Ele há tanto tempo estão cobertas de parábolas: as quais, como os judeus as tomam ao pé da letra, não quiseram ser doutos no reino dos céus.
Do discurso anterior dessas parábolas, ele passa de tal modo que não mostra a necessidade de uma ordem consequente; especialmente porque São Marcos, a partir dessas parábolas, não segue para o que São Mateus segue, mas para outro assunto, para o qual também segue São Lucas, e assim contextualizou a narração para mostrar como mais crível que o que aconteceu consequentemente é antes aquilo que ambos consequentemente acrescentam, a saber, sobre o navio no qual Jesus dormia, e sobre o milagre da expulsão dos demônios; estes fatos São Mateus, recordando anteriormente, interpôs.
Ora, o pai de Cristo é o Artífice Deus, que fabricou todas as obras do mundo, dispôs a arca de Noé, ordenou o tabernáculo de Moisés e instituiu a Arca da Aliança. Chamo de Artífice Aquele que aplaina a mente rígida e elimina os pensamentos soberbos.
Não é de admirar, portanto, que tenham sido chamados irmãos do Senhor, devido ao parentesco materno, quaisquer parentes; visto que também pelo parentesco com José podiam ser chamados seus irmãos por aqueles que julgavam que ele era o pai do Senhor.
Disse, porém, São Mateus "naquele tempo", não: "naquele dia", ou "naquela mesma hora"; pois São Marcos, com efeito, diz isto do mesmo modo, mas não na mesma ordem; mas depois que enviou os discípulos para pregar; contudo, sem que haja necessidade alguma que nos faça entender que isto tenha acontecido como consequência. São Lucas também mantém a mesma ordem narrativa que São Marcos; e nem ele nos leva a crer que a ordem dos eventos ocorridos tenha sido a mesma.
São Lucas, porém, diz: "E disse Herodes: João eu decapitei. Quem é este de quem ouço tais coisas?"(São Lucas 9,9) Uma vez que São Lucas mencionou Herodes como hesitante, deve-se entender que, ou após esta hesitação ele confirmou em seu ânimo o que era dito pelos outros, quando disse aos seus servos, como aqui São Mateus narra: "Este é João Batista"; ou estas palavras devem ser pronunciadas de tal modo que ainda indiquem hesitação: pois podem ser pronunciadas de ambos os modos: de maneira que ou o entendamos como convencido pelas palavras dos outros, ou ainda hesitante, como São Lucas menciona.
São Lucas não refere este fato na mesma ordem, mas relaciona-o ao batismo pelo qual o Senhor foi batizado; de onde se entende que ele antecipou o relato do que aconteceu muito depois. Pois tendo recordado as palavras de São João acerca do Senhor, que o ventilabro está em sua mão, imediatamente acrescentou isto, que São João Evangelista expõe que não aconteceu imediatamente, pois ele recorda que, depois que Jesus foi batizado, foi para a Galileia, e depois voltou para a Judeia, e ali batizou perto do Jordão, antes que São João fosse lançado na prisão. Mas nem São Mateus nem São Marcos colocaram em sua narrativa a prisão de São João na ordem em que parece ter ocorrido em seus escritos: pois eles também disseram que, após São João ser entregue, o Senhor foi para a Galileia; e depois de fazer muitas coisas ali, a partir da ocasião da fama de Cristo que chegou a Herodes, narram tudo o que aconteceu com São João preso e morto. A causa pela qual foi posto na prisão, mostra quando diz "por causa de Herodias, esposa de seu irmão. Pois São João lhe dizia: não te é lícito tê-la".
O Evangelista comemora que isto aconteceu logo após a paixão de São João: onde depois destas coisas, foram feitas aquelas que foram narradas primeiro; pelas quais movido, Herodes disse: "Este é João". De fato, aquelas coisas posteriores devem ser entendidas como o que a fama levou a Herodes, para que se movesse e hesitasse sobre quem seria este de quem ouvia tais coisas, tendo ele mesmo matado São João.
Pode suscitar dúvida como, se o Senhor, segundo a narração de São João, tendo observado as multidões, perguntou a Felipe de onde poderiam ser-lhes dadas as comidas, como pode ser verdade o que São Mateus narra aqui, que primeiro os discípulos disseram ao Senhor que despedisse as multidões, para que pudessem comprar alimentos nos lugares próximos. Entende-se, portanto, que depois destas palavras o Senhor examinou a multidão e disse a Felipe o que São João comemora, mas que São Mateus e os outros omitiram. E de modo algum deve alguém perturbar-se com tais questões, quando por algum dos Evangelistas é dito o que por outro é omitido.
Pode parecer contraditório que São Mateus diga que, havendo despedido as multidões, Ele subiu a um monte para orar sozinho; enquanto São João diz que Ele estava no monte quando alimentou essas mesmas multidões. Mas como o próprio São João diz que, após aquele milagre, Ele fugiu para o monte, para que não fosse retido pelas multidões que queriam fazê-lo rei, certamente é manifesto que Ele havia descido do monte para as planícies, quando os pães foram distribuídos a eles. Nem contraria isto o que São Mateus disse: "subiu ao monte sozinho para orar"; porque São João diz: "quando soube que viriam para fazê-lo rei, fugiu novamente para o monte, Ele mesmo só"; pois a causa da oração não é contrária à causa da fuga, visto que também nisto o Senhor nos ensina que temos grande motivo para orar quando há motivo para fugir. Nem é contraditório que São Mateus disse primeiro que Ele ordenou aos discípulos que subissem ao barco, e depois, tendo despedido as multidões, subiu ao monte sozinho para orar; enquanto São João primeiro menciona que Ele fugiu sozinho para o monte, e depois diz: "quando se fez tarde, seus discípulos desceram ao mar, e tendo embarcado", etc.; pois quem não percebe que São João, recapitulando, disse posteriormente o que foi feito pelos discípulos, o que Jesus já havia ordenado antes de fugir para o monte?
Pois eu não posso isto em mim, mas em Ti. Pedro reconheceu o que procedia de si mesmo e o que procedia Daquele por cuja vontade ele acreditava poder fazer o que nenhuma fraqueza humana poderia.
Pedro, pois, presumiu do Senhor, vacilou como homem, mas retornou ao Senhor; por isso segue: e, quando começou a afundar, clamou dizendo: Senhor, salva-me. Acaso o Senhor abandonaria aquele que vacilava, a quem ouvira invocando? Por isso segue: e imediatamente Jesus, estendendo a mão, segurou-o.
Misticamente, o monte é elevação. Mas o que há mais alto que os céus neste mundo? Quem, na verdade, subiu ao céu, nossa fé o sabe. Por que, porém, subiu sozinho ao céu? Porque ninguém sobe ao céu senão aquele que desceu do céu: embora também quando vier no fim dos tempos, e nos elevar ao céu, mesmo então subirá sozinho, porque a cabeça com o seu corpo é um único Cristo; agora, porém, somente a cabeça ascendeu. Subiu para orar, porque subiu para interceder por nós junto ao Pai.
Contudo, enquanto Cristo ora nas alturas, a barca é perturbada por grandes ondas nas profundezas; e porque as ondas se levantam, esta barca pode ser agitada; mas porque Cristo ora, não pode afundar. Considerai, pois, esta barca como a Igreja, e o mar turbulento como este século.
Pois, quando alguém de vontade ímpia e de grande poder proclama uma perseguição contra a Igreja, então é que uma grande onda se levanta contra a barca de Cristo.
O Senhor veio visitar seus discípulos, que estavam conturbados no mar, na quarta vigília da noite, isto é, na última parte da noite: pois uma vigília tem três horas, e por isso a noite tem quatro vigílias.
Portanto, na quarta vigília da noite, isto é, quando a noite está quase terminada, Ele virá, no fim do mundo, quando a noite da iniquidade tiver passado, para julgar os vivos e os mortos. Mas a sua vinda foi com um prodígio. As ondas se erguiam, mas eram pisadas. Assim, por mais que os poderes deste mundo se inflem, a nossa Cabeça há de esmagar a cabeça deles.
Ou, o que os discípulos disseram ser um fantasma, significa que alguns que se entregaram ao Demônio duvidarão da vinda de Cristo. E que Pedro implora auxílio ao Senhor para não submergir, significa que por algumas tribulações, mesmo após a última perseguição, a Igreja será purificada: o que também Paulo significa ao dizer: "será salvo, contudo, como que pelo fogo"(1 Coríntios 3,15)
Em um só apóstolo, isto é, Pedro, primeiro e principal na ordem dos apóstolos, no qual figurava-se a Igreja, ambos os tipos deveriam ser significados; isto é, os firmes no fato de que andou sobre as águas, e os fracos no fato de que duvidou: pois para cada um sua própria cobiça é uma tempestade. Amas a Deus? Andas sobre o mar: sob teus pés está o temor do mundo. Amas o mundo? Ele te absorve. Mas quando teu coração flutua pela cobiça, para que venças a cobiça, invoca a divindade de Cristo.
Pois aqui é indicado que Sua glória será então manifestada claramente, para aqueles que agora veem por meio da fé e que então O contemplarão face a face.
Assim o Evangelista entrelaça a ordem de sua narração, dizendo então se aproximaram: para que, do mesmo modo que indica a passagem, seja mantida também a ordem das coisas que se seguem.
Claramente, Cristo demonstra aqui, tanto que aquela é a lei de Deus da qual o herege blasfema, quanto que os judeus tinham suas tradições alheias aos livros proféticos e legítimos; as quais o apóstolo chama de fábulas profanas e vis.
Muitas coisas aqui o Senhor nos ensina: que Ele não afastou os judeus de seu Deus, e que não somente não infringiu os mandamentos, mas repreendeu aqueles que os infringiam, e que Ele não havia ordenado senão aqueles dados por meio de Moisés.
Ou de outra maneira: "O donativo, qualquer que seja, que provenha de mim, te aproveitará"; isto é, o donativo que ofereces por minha causa, a ti já pertencerá. Com estas palavras, os filhos significam que já não lhes era necessária a oferta dos pais por eles, pois haviam chegado à idade em que podiam já oferecer por si mesmos. Aos que estavam constituídos nesta idade, de modo que podiam dizer isto a seus pais, quando o diziam, os fariseus negavam que fossem culpados se não prestassem honra aos pais.
Ao Antigo Testamento não é contrária esta sentença, pela qual o Senhor diz que não é o que entra na boca; nem aquela do apóstolo: "Tudo é puro para os puros" e "toda criatura de Deus é boa". Se podem, compreendam os maniqueus que o apóstolo disse isto das próprias naturezas; aquelas Escrituras, porém, por causa de certas prefigurações convenientes ao tempo, chamaram alguns animais de imundos não por natureza, mas por significação. Assim, por exemplo, se se perguntar sobre o porco e o cordeiro, ambos são puros por natureza, porque toda natureza de criatura de Deus é boa; porém, por certa significação, o cordeiro é puro e o porco imundo; como se dissesses "tolo" e "sábio", ambas estas palavras, pela natureza do som, das letras e das sílabas que as compõem, são certamente puras; mas pela significação, uma destas palavras, que se diz "tolo", pode ser chamada de impura, não por sua natureza, mas porque significa algo impuro. E talvez o que é o porco nas figuras das coisas, isto é o tolo no gênero humano; e tanto aquele animal quanto estas duas sílabas, que se diz "tolo", significam uma mesma coisa. Aquele animal foi posto como impuro na lei porque não rumina; mas isto não é um defeito seu, mas sua natureza. Existem, porém, homens, que são significados por este animal, imundos pelo próprio vício, não pela natureza; que embora ouçam com prazer as palavras da sabedoria, depois não pensam nelas de modo algum. Pois o que ouviste de útil, como que do intestino da memória, trazer de volta à boca do pensamento com a doçura da recordação, o que é isto senão ruminar espiritualmente? O que aqueles que não fazem são figurados pelo gênero daqueles animais. Estas semelhanças das coisas nas locuções ou observâncias figuradas movem as mentes racionais útil e suavemente; mas ao povo primitivo muitas coisas semelhantes foram ordenadas não apenas para serem ouvidas, mas também para serem observadas. Era tempo em que convinha profetizar não apenas com palavras, mas também com fatos, aquelas coisas que seriam reveladas em tempo posterior; as quais, reveladas por Cristo e em Cristo, não foram impostos à fé dos gentios os fardos das observâncias, mas foi recomendada a autoridade da profecia. Pergunto, porém, aos maniqueus, se esta sentença do Senhor, pela qual disse que o homem não se contamina com o que entra em sua boca, é verdadeira ou falsa. Se dizem que é falsa, por que seu doutor Adimanto, dizendo que foi proferida por Cristo, a apresentou como objeção para combater o Antigo Testamento? Se, porém, é verdadeira, por que creem, contra ela, que se contaminam?
Os alimentos da carne corrompidos, isto é, perdendo sua forma, migram para a estrutura dos membros e, corrompidos, renovam, passando para outra forma por adequação, e pelo movimento vital são distinguidos de certo modo, para que deles, na estrutura desta bela visibilidade, sejam incorporados os que são aptos, enquanto os não aptos são expelidos pelos canais apropriados: dentre os quais, um, o mais impuro, retorna à terra para assumir outras formas, outro é exalado por todo o corpo, e outro recebe as energias ocultas de todo o animal e é destinado à prole.
E o Senhor compreendeu duas bocas do homem: uma do corpo, outra do coração. Pois quando diz "tudo o que entra na boca não contamina o homem", demonstra clarissimamente a boca do corpo; mas no que segue, mostra a boca do coração, dizendo "mas o que procede da boca, sai do coração, e isto contamina o homem".
Ele traz uma questão de contradição, pois São Marcos diz que o Senhor estava em casa quando a mulher veio rogando por sua filha, enquanto São Mateus poderia ter sido entendido como tendo omitido menção à casa, e ainda assim estar relatando o mesmo evento. Mas quando ele diz que os discípulos sugeriram ao Senhor: "Despede-a, pois ela clama após nós", parece indicar claramente que a mulher elevou sua voz em súplica, seguindo o Senhor que caminhava. Devemos entender, então, que, como São Marcos escreve, ela entrou onde Jesus estava, isto é, como ele havia notado acima, na casa; então, como São Mateus escreve, "Ele não lhe respondeu palavra", e durante este silêncio de ambas as partes, Jesus saiu da casa; e então o restante segue sem qualquer discordância.
O fato de que Ele cure o servo do centurião e a filha da mulher cananeia, não indo às suas casas, significa que os gentios, aos quais Ele não veio, serão salvos por Sua palavra. O fato de que estes são curados mediante as súplicas de seus pais, deve-se entender na pessoa da Igreja, que é ao mesmo tempo mãe e filhos: pois todos juntos, de quem se compõe a Igreja, são chamados mãe; e cada um deles individualmente é chamado filho.
Certamente não é fora de propósito advertir sobre este milagre; porque se algum dos Evangelistas tivesse mencionado isto e não tivesse falado dos cinco pães, seria considerado contrário aos demais. Mas como aqueles que narraram o milagre dos sete pães também não calaram sobre o dos cinco, isto não causa perplexidade a ninguém, e todos compreendem que ambos os fatos aconteceram. Dizemos isto para que, onde quer que se encontre algo feito pelo Senhor, no qual as narrativas de dois Evangelistas pareçam contradizer-se de tal modo que não possam ser conciliadas, compreenda-se que ambos os fatos ocorreram, sendo um deles mencionado por um Evangelista e o outro por outro.
Marcos, porém, diz que foi em Dalmanuta; nem deve haver dúvida de que é o mesmo lugar com nomes diferentes: pois muitos códices, mesmo segundo Marcos, não contêm senão Magedán.
Também se pode entender o que o Senhor disse: "Quando é noite, dizeis: Fará tempo sereno, porque o céu está vermelho": isto é, pelo sangue da paixão de Cristo, na primeira vinda é dada a indulgência dos pecados. "E pela manhã: Hoje haverá tempestade, pois o céu está vermelho e triste"; isto significa que na segunda vinda ele virá precedido pelo fogo.
Isto, porém, São Mateus já disse em outro lugar: pelo qual deve ser mantido em mente que o Senhor frequentemente disse as mesmas coisas; para que, quando existir uma contradição que não possa ser resolvida, entenda-se que o mesmo dito foi proferido em duas ocasiões diferentes.
Ninguém, contudo, suponha que Pedro recebeu seu nome aqui; ele não recebeu este nome senão onde São João relata que lhe foi dito: "Tu serás chamado Cefas", que se interpreta Pedro(São João 1,42).
Eu disse em certo lugar sobre o apóstolo Pedro, que nele como em uma pedra foi edificada a Igreja; mas sei que depois, muito frequentemente, expus o que foi dito pelo Senhor "tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja", de modo que se entendesse [edificada] sobre aquele a quem Pedro confessou dizendo "tu és o Cristo, filho de Deus vivo"; como se Pedro, chamado a partir desta pedra, representasse a pessoa da Igreja, que é edificada sobre esta pedra; pois não lhe foi dito: tu és a pedra, mas "tu és Pedro"; e a pedra era Cristo, a quem Simão confessou, assim como toda a Igreja o confessa, [e por isso Simão] foi chamado Pedro. Entre estas duas interpretações, escolha o leitor qual seja a mais provável.
Se na pessoa de Pedro não estivesse figurada a Igreja, o Senhor não lhe diria: "'Dar-te-ei as chaves do reino dos céus'". (...) Ora, se foi a Pedro apenas que isto se disse, a Igreja não o faz. Mas se este poder se exerce na Igreja, Pedro, ao receber as chaves, representava a Igreja santa.
Ou restituirá todas as coisas, isto é, aqueles que a perseguição do Anticristo tiver perturbado; ou então para que ele mesmo restitua morrendo o que deve.
Ou o fogo pertence à ira, porque busca as alturas; a água aos prazeres da carne.
Ou de outro modo. Para que os discípulos não se exaltassem em soberba ao realizar milagres, foram advertidos a, pela humildade da fé, como por um grão de mostarda, cuidar de remover toda a elevação terrena, que é significada pelo monte neste lugar.
Porque Ele diz que em todo reino os filhos são livres, isto é, não estão sujeitos a tributos. Com muito mais razão, portanto, devem ser livres em qualquer reino terreno os filhos daquele mesmo reino sob o qual estão todos os reinos da terra.
Ou de outro modo. Quem escandalizar um destes pequeninos, isto é, dos humildes, quais quer que sejam os discípulos que o Senhor deseja ter, não obedecendo, ou até mesmo contradizendo (como o Apóstolo diz de Alexandre1), convém-lhe que uma pedra de moinho seja pendurada em seu pescoço, e seja precipitado no profundo do mar, isto é, convém-lhe que a cobiça das coisas temporais, à qual os tolos e cegos estão ligados, o conduza, estando ele preso pelo seu próprio peso, à destruição.
[1] 2 Timóteo 4,15. ↩
Ou são chamados nossos Anjos os que são Anjos de Deus. São de Deus, porque não abandonaram a Deus; são nossos, porque começaram a nos ter como seus concidadãos. Assim como agora eles veem a Deus, assim também nós O veremos face a face; sobre esta visão diz São João: "Nós O veremos como Ele é"(1 São João 3,2). Pois por face de Deus deve-se entender a manifestação d'Ele mesmo; não algum membro ou feição do corpo, como os que temos em nosso corpo e designamos por esse nome.
Nosso Senhor nos adverte a não negligenciarmos os pecados uns dos outros, não buscando o que devamos repreender, mas observando o que possamos corrigir. Pois devemos corrigir por amor, não com avidez de fazer mal, mas com zelo de emendar. Se negligenciares, tornaste-te pior do que ele. Ele, cometendo injúria, feriu a si mesmo com grave ferida; tu desprezas a ferida do teu irmão: és pior calando-te do que ele injuriando.
Muitas vezes, de fato, dissimula-se mal ao deixar de ensinar e admoestar os maus, e às vezes também ao deixar de repreendê-los e corrigi-los; seja porque nos pesa o trabalho, seja porque evitamos sua inimizade, para que não nos impeçam e prejudiquem nas coisas temporais, sejam aquelas que nossa cobiça ainda deseja adquirir, sejam aquelas que nossa fraqueza teme perder. Se, porém, alguém poupa de repreender e corrigir os que agem mal porque busca momento mais oportuno, ou porque teme que se tornem piores por causa disso, ou que impeçam outros fracos de serem instruídos para uma vida boa e piedosa, ou os oprimam e afastem da fé; não parece ser ocasião de cobiça, mas conselho de caridade. Muito mais grave causa têm os superiores das Igrejas, que foram constituídos nas Igrejas para não pouparem da repreensão os pecados; nem, contudo, está totalmente isento desta culpa aquele que, embora não seja superior, sabe de muitas coisas que deveria admoestar ou repreender naqueles a quem está unido pela necessidade desta vida, e as negligencia; evitando ofendê-los por causa daquelas coisas que nesta vida usa não indevidamente, mas nas quais se deleita mais do que deveria.
Quando, portanto, alguém peca contra nós, tenhamos grande cuidado, não por nós mesmos, pois é glorioso esquecer uma injúria; mas esquece a tua injúria, não a ferida do teu irmão. Portanto, repreende-o entre ti e ele só, esforçando-te pela correção e poupando-lhe a vergonha. Pois talvez, por vergonha, ele comece a defender seu pecado, e a quem desejas tornar corrigido, torna-o pior.
Mas o Apóstolo diz: "Repreende publicamente os que pecam, para que também os outros tenham temor". Algumas vezes, portanto, deves saber que o irmão deve ser corrigido entre ti e ele somente, outras vezes, porém, diante de todos. Atentai e vede o que devemos fazer primeiro. "Se teu irmão", diz ele, "pecar contra ti, repreende-o entre ti e ele somente". Por quê? Porque pecou contra ti? O que significa: "pecou contra ti"? Tu sabes que ele pecou; pois assim como foi em segredo quando pecou contra ti, busca o segredo quando corriges o que ele pecou. Porque se só tu sabes que ele pecou contra ti, e queres repreendê-lo diante de todos, não és corretor, mas traidor. Portanto, teu irmão pecou contra ti; mas se só tu sabes, então verdadeiramente ele pecou contra ti somente. Contudo, se em presença de muitos ele te causou injúria, também pecou contra aqueles a quem fez testemunhas de sua iniquidade. Portanto, devem ser corrigidos diante de todos aqueles pecados que são cometidos diante de todos; e devem ser corrigidos secretamente aqueles pecados que são cometidos secretamente. Distingui os tempos, e concordareis com as Escrituras. Por que, então, corriges o próximo? Porque te dói que ele tenha pecado contra ti? De modo algum. Se o fazes por amor a ti mesmo, nada fazes; se o fazes por amor a ele, ages otimamente. Enfim, atenta para as palavras por cujo amor deves fazer isso: se por amor a ti ou a ele; pois segue: "se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão". Portanto, faze-o por causa dele, para que o ganhes. Reconhece que ao pecar contra o homem, tu te perdeste; pois se não estivesses perdido, como ele te teria ganho? Que ninguém, portanto, despreze quando peca contra o irmão.
Isto é, não o consideres mais no número de teus irmãos; mas nem por isso deve ser negligenciada a sua salvação: pois também aos próprios gentios, isto é, os pagãos, não os contamos no número de nossos irmãos, mas, contudo, sempre buscamos a salvação deles.
Ou de outra maneira. Começaste a ter o teu irmão como um publicano, ligando-o na terra: mas para que o ligues justamente, observa: pois a justiça rompe os laços injustos. Quando, porém, o tiveres corrigido e entrares em acordo com o teu irmão, tu o soltaste na terra: e quando o tiveres soltado na terra, ele será solto também no céu. Muito benefício concedes não a ti, mas a ele, porque muito prejudicou não a ti, mas a si mesmo.
Ouso dizer: mesmo que peque setenta e oito vezes, perdoe-lhe; e mesmo que cem vezes; e em suma, quantas vezes pecar, perdoe. Pois se Cristo encontrou milhares de pecados, e ainda assim perdoou todos, não retire a misericórdia. Pois diz o apóstolo: "perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outrem, assim como Deus em Cristo nos perdoou"(Colossenses 3,13)
Não foi, contudo, sem motivo que o Senhor disse setenta vezes sete; pois a lei é conhecida por dez preceitos: a lei, com efeito, é significada pelo número dez, e o pecado pelo número onze, porque é a transgressão do denário. O número sete costuma ser tomado pela totalidade, porque em sete dias se completa o tempo. Multiplicando onze por sete, resulta em setenta e sete. Portanto, Ele quis que todos os pecados fossem perdoados, pois os prefigurou com o número setenta e sete.
Por isso, deve-se dizer que, como a lei é recomendada em dez preceitos, ele devia dez mil talentos: pelo qual se significam todos os pecados que são cometidos segundo a lei.
Por isso, portanto, é significado que o transgressor do Decálogo, por causa da cobiça e das más obras, como se fossem sua esposa e filhos, devia pagar penas; o que é o seu preço: pois o preço do que é vendido é o suplício do condenado.
Quanto ao que se diz que "ele devia cem denários", esse número deriva do mesmo número, a saber, dez, que é o número da Lei: pois também cem vezes cem fazem dez mil, e dez vezes dez são cem; e aqueles dez mil talentos e aqueles dez vezes dez não se afastam do número legítimo: em ambos encontramos pecados. Portanto, ambos são devedores, ambos suplicantes de perdão: pois todo homem é devedor de Deus e tem seu irmão como seu devedor.
Mas aquele servo ingrato, iníquo, não quis conceder o que lhe foi concedido, embora indigno: pois segue e agarrando-o, o sufocava, dizendo: paga o que deves.
Isto é, manteve contra ele tal disposição, que desejava sua punição. Mas ele foi embora.
Pelos conservos se entende a Igreja, que liga a um e desliga a outro.
Diz Deus: "Perdoai, e vos será perdoado"; mas eu primeiro perdoei; perdoai vós pelo menos depois: pois se não perdoardes, eu vos chamarei de volta, e tudo o que vos perdoei, vos cobrarei novamente: pois Cristo não engana nem é enganado, que acrescentou, dizendo: "Assim também fará convosco meu Pai celestial, se não perdoardes, cada um a seu irmão, de vossos corações". É melhor, pois, que clameis com a boca e perdoeis no coração, do que serdes suaves na boca e cruéis no coração. Por isso o Senhor acrescenta "de vossos corações", para que, se por caridade impondes disciplina, a brandura não se afaste do coração. Pois o que há de mais piedoso que o médico portando o instrumento de ferro? Ele age com rigor sobre a ferida, para que o homem seja curado; porque se a ferida for apenas apalpada, o homem perece.
Embora a Escritura testemunhe que estas palavras foram ditas pelo primeiro homem, o Senhor, no entanto, declara aqui que Deus as pronunciou, para que entendêssemos por isto que, devido ao êxtase que precedera em Adão, ele pôde dizer isto divinamente como profeta.
Também eles são chamados uma só coisa, seja por causa da união, seja por causa da origem da mulher, que foi criada do lado do homem.
Eis que os judeus são convencidos pelos livros de Moisés de que não se deve repudiar a esposa, eles que pensavam agir conforme a vontade da lei de Moisés quando repudiavam. Ao mesmo tempo, aqui, pelo próprio testemunho de Cristo, reconhecemos que foi Deus quem fez e uniu o homem e a mulher, o que os maniqueus, ao negarem, são condenados, resistindo ao Evangelho de Cristo.
Quão grande era, pois, aquela dureza, que nem pela interposição do libelo, onde se concedia aos homens justos e prudentes ocasião para dissuadir, podia se abrandar e dobrar para receber ou resgatar o amor conjugal? Além disso, com que astúcia os maniqueus repreendem Moisés, como se estivesse rompendo os casamentos pelo libelo de repúdio, e louvam Cristo como quem confirma o vínculo matrimonial? Quando, segundo sua ciência sacrílega, deveriam louvar Moisés por separar o que o Diabo havia unido, e vituperar Cristo por reforçar os laços do Diabo.
Contudo, não será vergonhosa nem difícil, mesmo após cometidos e purgados os adultérios, a reconciliação do matrimônio, onde pelas chaves do reino dos céus não se duvida ocorrer a remissão dos pecados: não para que depois do divórcio do marido a adúltera seja chamada de volta, mas para que depois da união com Cristo não seja mais chamada adúltera.
Pode-se notar alguma divergência, pois aqui segundo São Mateus é dito "por que me interrogas sobre o bem?" Segundo os outros, porém: "por que me chamas bom?" Pois "por que me interrogas sobre o bem?" pode ser referido mais propriamente àquilo que disse o que perguntava: "que bem farei?" Pois ali ele mencionou o bem e fez uma interrogação. "Bom Mestre", por sua vez, ainda não é uma interrogação. Assim, entende-se muito apropriadamente que ambas as frases foram ditas: "por que me chamas bom?" e "interrogas sobre o bem?"
Ou porque ele buscava a vida eterna (pois a vida eterna consiste naquela contemplação em que Deus é visto não para punição, mas para o gozo sempiterno) e não compreendia com quem falava, uma vez que o considerava somente filho do homem; por isso diz: "por que me interrogas sobre o bem", e me chamas, segundo o que vês, bom mestre? Esta forma do filho do homem aparecerá no juízo, não somente aos justos, mas também aos ímpios; e a própria visão será má para eles, porque será penal. Porém existe a visão da minha forma, na qual sou igual a Deus. Portanto, aquele único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, este só é bom; porque ninguém o vê para luto e pranto, mas tão somente para salvação e verdadeira alegria.
E Ele não disse: "Se queres vir para a vida eterna"; mas, "Se queres entrar na vida", definindo-a simplesmente como vida, aquela que será vida eterna. Aqui, portanto, deve-se considerar como se deve amar a vida eterna, quando esta vida miserável e finita é tão amada.
E não se deve considerar em quais mosteiros ou em que lugar alguém tenha dispensado aos irmãos necessitados aquilo que possuía, pois todos os cristãos formam uma única comunidade. Por isso, qualquer cristão que tenha proporcionado o necessário em qualquer lugar, onde quer que ele próprio receba o que lhe é necessário, recebe daquilo que é de Cristo.
Nem, contudo, somente aqueles que, para serem perfeitos, vendem ou abandonam todos os seus bens pertencem ao reino dos céus; mas a esta milícia cristã, por causa de certo vínculo de caridade, une-se também certa multidão subsidiária; a quem se dirá no fim: "Tive fome e me destes de comer"(São Mateus 25,35): pelo que não queira Deus que julguemos que estes, alheios aos mandamentos evangélicos, devam ser separados da vida eterna.
Não sei, porém, de que modo, quando se amam os bens terrenos supérfluos, prendem mais fortemente uma vez obtidos do que quando desejados; pois por que este jovem se retirou triste, senão porque possuía grandes riquezas? Porque uma coisa é não querer incorporar o que nos falta, outra é arrancar o que já está incorporado: no primeiro caso, rejeitam-se como coisas estranhas, no segundo, cortam-se como membros. Segundo a história, este adolescente é certamente louvável, porque não matou, não cometeu adultério; mas é repreensível porque se entristeceu com as palavras de Cristo que o chamavam à perfeição. Era, de fato, jovem segundo a alma e, por isso, deixando a Cristo, foi embora.
Sendo, porém, poucos os ricos em comparação com a multidão dos pobres, deve-se entender que os discípulos consideram que todos aqueles que desejam riquezas estão incluídos no número dos ricos.
Assim, a nossa carne será regenerada pela incorrupção, do mesmo modo que a nossa alma será regenerada pela fé.
A partir deste trecho aprendemos que Jesus julgará com seus discípulos, por isso em outro lugar diz aos judeus: "por isso eles serão vossos juízes". E quando diz que se sentarão em doze tronos, não devemos pensar que apenas doze homens julgarão com Ele. Pois pelo número doze é significada toda uma multidão de juízes, devido às duas partes do número sete, que geralmente representa a totalidade; estas duas partes, isto é, três e quatro, multiplicadas uma pela outra formam doze. Do contrário, posto que em lugar de Judas, o traidor, lemos que foi ordenado o apóstolo Matias, o apóstolo Paulo, que trabalhou mais que todos eles, não teria onde sentar-se para julgar; ele que, certamente, com outros santos, demonstra pertencer ao número dos juízes, quando diz: "Não sabeis que julgaremos os anjos?"
No número dos que julgarão estão compreendidos todos aqueles que, por causa do Evangelho, deixaram todas as suas coisas e seguiram o Senhor.
Também sobre aqueles que devem ser julgados, neste número doze há semelhante causa: pois não porque foi dito "julgando as doze tribos de Israel", a tribo de Levi, que é a décima terceira, não será julgada por eles; ou julgarão somente aquele povo, e não também as demais nações.
Isto que aqui se diz "receberá o cêntuplo", o apóstolo, explicando de certo modo, afirma: "Como nada tendo, e possuindo tudo"(2 Coríntios 6,10). Pois cem, algumas vezes, é colocado para significar a própria universalidade.
Ou por isso os menores são considerados primeiros, porque os menores foram enriquecidos. Segue-se: "Quando vieram aqueles que haviam chegado por volta da hora undécima".
Porque a própria vida eterna será igualmente para todos os santos, um denário foi atribuído a todos, que é a recompensa de todos; mas como na própria vida eterna brilharão distintamente as luzes dos méritos, há muitas moradas na casa do Pai; e no denário igual ninguém viverá mais tempo que o outro, mas nas muitas moradas um é honrado com mais esplendor que outro.
Pela paixão mostrou o que devemos suportar pela verdade, pela ressurreição o que devemos esperar na Trindade: por isso é dito: "E ao terceiro dia ressuscitará".
Porque uma morte, isto é, a do Salvador segundo o corpo, foi para nós salvação de duas mortes, a saber, da alma e do corpo; e uma só ressurreição sua nos concedeu duas ressurreições. Esta razão do simples para o duplo origina-se do número ternário, pois um e dois são três.
O que São Mateus expressou aqui como tendo sido dito pela mãe, São Marcos relata que os dois filhos de Zebedeu falaram eles mesmos, quando ela apresentou o desejo deles diante do Senhor; de modo que pela breve referência de São Marcos1, parece antes que foram eles, e não ela, que disseram o que foi dito.
[1] São Marcos 10,35 ↩
Ou de outro modo. Segundo a forma de servo o Senhor responde aos discípulos: sentar-se à minha direita ou à esquerda não me pertence a Mim o dar-vos. Mas aquilo que está preparado pelo Pai, também está preparado pelo próprio Filho, porque Ele e o Pai são um só.
Isto, porém, Marcos recorda ter acontecido, mas com um só cego: questão que assim se resolve: pois de dois cegos que Mateus introduziu, um era na cidade muito famoso, o que bastante se evidencia pelo fato de que Marcos mencionou o nome dele e o de seu pai: Bartimeu, filho de Timeu, que tendo sido derrubado de uma grande felicidade, era muito conhecido; ele não apenas estava cego, mas também sentava-se como mendigo. Daqui resulta, portanto, que apenas este Marcos quis recordar, cuja iluminação procurou para este milagre uma fama tão clara quão notória era a sua desgraça. Mas Lucas, embora descreva um fato inteiramente do mesmo modo, deve-se entender que comemora um milagre semelhante em outro cego. Este, de fato, diz que isto aconteceu quando se aproximava de Jericó1; os outros, quando se retiravam de Jericó. Segue-se: "E a multidão os repreendia para que se calassem".
[1] Lucas 18,35 ↩
Os cristãos maus e indiferentes impedem que os bons cristãos cumpram os preceitos de Deus; contudo, estes clamam sem desistir. Pois quando um cristão começa a viver bem e a desprezar o mundo, em sua própria novidade de vida, sofre reprovações de cristãos frios; mas se perseverar, esses mesmos que antes o proibiam, agora o respeitarão.
Portanto, Jesus, que disse: "A quem bate, será aberto", ao ouvi-los, detém-se, toca-os e os ilumina: pois como a fé na encarnação temporal nos prepara para compreender as coisas eternas, ao passar Jesus foram advertidos para que fossem iluminados, e por Ele que permanece foram iluminados: pois as coisas temporais passam, as eternas permanecem.
Neste testemunho profético, há alguma diversidade na linguagem dos Evangelistas. Mateus utiliza-o de tal modo que menciona que o profeta falou da jumenta: porém, não é assim que se encontra no que São João interpõe, nem nos códices da interpretação eclesiástica dos Setenta. A causa disto me parece ser que se afirma que São Mateus escreveu o Evangelho em língua hebraica; é manifesto, porém, que aquela interpretação que se chama dos Setenta, em algumas passagens é diferente do que encontram no hebraico aqueles que conhecem aquela língua, e aqueles que traduziram individualmente os mesmos livros hebraicos. Se for questionada a causa desta diferença, não creio haver nada mais provável do que estes Setenta terem traduzido com o mesmo espírito com que foram ditas as coisas que interpretavam, o que se confirma pela admirável concordância entre eles, que é proclamada. Portanto, também eles, variando algumas coisas na expressão, mas não se afastando da vontade de Deus, cujas palavras eram, não quiseram demonstrar outra coisa senão isto mesmo que é narrado na concordância dos Evangelistas com certa diversidade; o que nos mostra não ser mentira se alguém narrar algo de modo diverso, desde que não se afaste da vontade daquele com quem deve concordar; o que é útil conhecer nos costumes para evitar mentiras e também para a própria fé, para que não pensemos que a verdade está protegida por sons como que consagrados, como se Deus nos recomendasse as palavras que devem ser ditas por causa dela, assim como recomenda a própria coisa; sendo que, antes, a coisa é expressa por palavras de tal modo que não deveríamos absolutamente buscar estas, se pudéssemos conhecer a coisa sem elas, como a conhece Deus e, nele, os seus Anjos. Segue-se: "Indo, pois, os discípulos, fizeram como Jesus lhes ordenou, e trouxeram a jumenta e o jumentinho". Os outros Evangelistas nada dizem sobre a jumenta. Não deveria perturbar o leitor nem se Mateus tivesse silenciado sobre o jumentinho, assim como eles silenciaram sobre a jumenta: quanto menos deve causar perturbação que um tenha mencionado a jumenta, sobre a qual os outros silenciaram, de modo a não silenciar sobre o jumentinho, sobre o qual eles falaram? Pois onde se pode entender que ambas as coisas aconteceram, não há nenhuma contradição, nem se um mencionasse uma coisa e outro, outra; quanto menos onde um menciona uma coisa, e outro, ambas? Segue-se: "E colocaram sobre eles as suas vestes, e o fizeram sentar em cima".
Ninguém, portanto, faça nada no oratório, senão aquilo para o qual foi feito, de onde também recebeu o nome. Segue-se: "Mas vós fizestes dela uma cova de ladrões".
É manifesto que isto não foi feito uma vez só pelo Senhor, mas duas vezes; sendo que a primeira é narrada por São João, e esta última pelos outros três evangelistas.
Deve-se considerar que os discípulos ficaram admirados com o fato de que a árvore havia secado, e que o Senhor lhes respondeu o que foi dito sobre a fé, não no segundo dia em que amaldiçoou a árvore, mas no terceiro dia, como diz São Marcos: pois no segundo dia São Marcos mencionou a expulsão dos vendedores do templo, o que ele havia omitido no primeiro dia; portanto, no segundo dia ele diz que, caída a tarde, saiu da cidade; e quando de manhã passaram, os discípulos viram a figueira já seca. São Mateus, no entanto, fala como se tudo isso tivesse acontecido no segundo dia; donde se entende que quando São Mateus disse "a figueira secou imediatamente", omitindo o restante referente ao segundo dia, acrescentou logo "e vendo isso os discípulos se admiraram"; porém, de tal modo que em um dia o Senhor viu a figueira, e em outro dia os discípulos se admiraram: pois entende-se que ela não secou quando a viram seca, mas imediatamente quando foi amaldiçoada; porque viram-na não em processo de secar, mas completamente seca, e assim compreenderam que ela secou imediatamente à palavra do Senhor.
Ou, o servo de Deus deve dizer isso a si mesmo a respeito do monte da soberba, para afastá-la de si. Ou, porque por meio deles o Evangelho foi pregado, o próprio Senhor, que é chamado monte, pelos judeus é lançado entre os gentios como em um mar.
São João recebeu o poder de batizar d'Aquele a quem posteriormente batizou; e o batismo que lhe foi confiado é aqui chamado batismo de São João. Somente ele recebeu tal dom: nenhum justo antes dele, nenhum após ele recebeu um batismo que pudesse ser chamado pelo seu próprio nome. Pois São João veio batizar na água da penitência, preparando o caminho para o Senhor, não purificando interiormente, o que um simples homem não pode fazer.
Marcos, porém, lembra que isto não foi respondido por eles, mas que o Senhor falou isto em seguida, após sua pergunta, respondendo de algum modo a si mesmo. Mas facilmente pode-se entender que, ou a voz deles foi assim acrescentada sem que fosse interposto que "eles responderam", mas ainda assim foi compreendida; ou, portanto, esta resposta foi atribuída ao Senhor, porque quando disseram a verdade, também sobre eles respondeu aquele que é a verdade.
Mas o que mais chama a atenção é que São Lucas não só não diz que eles responderam isso, mas até relata uma resposta contrária. Assim ele narra: "Ao ouvirem isso" (a saber, esta sentença proferida pela boca do Senhor) "disseram: De maneira nenhuma!". Resta, portanto, que entendamos que, na multidão que ouvia, alguns responderam o que São Mateus menciona, e outros o que São Lucas diz, isto é, "De maneira nenhuma!". E não cause estranheza que São Mateus tenha dito que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se aproximaram do Senhor, e que assim, sem a interposição de qualquer outra pessoa, o discurso continue até a parte em que se faz menção da vinha arrendada aos lavradores. Pode-se considerar que Ele falou todas estas coisas com os príncipes dos sacerdotes; mas São Mateus, por brevidade, omitiu o que São Lucas não omitiu: que esta parábola não foi dirigida somente àqueles que o interrogavam sobre a sua autoridade, mas também à multidão, na qual havia alguns que diziam "Ele os destruirá e entregará a sua vinha a outros". Esta declaração deve ser entendida corretamente como sendo do próprio Senhor, seja por causa da verdade, seja por causa da unidade dos seus membros com a sua cabeça. Também havia aqueles que respondiam aos que assim falavam: "De maneira nenhuma!", porque entendiam que a parábola foi dita contra eles mesmos.
Ou fala daqueles que caem sobre Ele, que o desprezam de algum modo ou o injuriam: estes não perecem completamente, mas são quebrantados, de modo que não caminham retamente: sobre estes Ele cairá, quando vier de cima no juízo com a pena da perdição: por isso disse que os esmagará, para que os ímpios sejam como o pó que o vento lança da face da terra(Salmo 1,4).
Esta parábola é narrada somente por São Mateus; São Lucas menciona uma semelhante, mas não é esta, como o próprio ordenamento indica.
Ou, aquele que vai às núpcias sem veste nupcial é quem busca ali sua própria glória, não a glória do Esposo.
O emaranhado das vontades perversas e distorcidas é um vínculo pelo qual é atado aquele que age de tal modo que é lançado nas trevas exteriores.
A matéria terrena, da qual é criada a carne dos mortais, não perece diante de Deus; mas em qualquer pó ou cinza que se dissolva, em quaisquer hálitos ou ares que se disperse, em qualquer substância de outros corpos ou nos próprios elementos que se transforme, em alimento de quaisquer animais ou mesmo de homens que se converta e em carne que se mude, à alma humana em um instante de tempo é restituída aquela que primeiramente a animou para que se tornasse homem, vivesse e crescesse.
Por estes sete irmãos entende-se misticamente os homens ímpios, que não puderam produzir o fruto da justiça na terra durante todas as sete idades do mundo, durante as quais esta terra existe; pois depois também a própria terra passará, pela qual todos aqueles sete passaram esterilmente. Segue-se: Respondendo, Jesus lhes disse: Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus.
Mas parece-me melhor compreender que não se deve duvidar que ambos os sexos ressuscitarão; pois ali não haverá luxúria, que é a causa da confusão; porque antes de pecarem, estavam nus; a natureza, porém, será preservada, a qual, naquele momento, estará livre tanto da união carnal quanto do parto: existirão, contudo, os membros femininos, não adaptados ao uso antigo, mas a uma nova dignidade; pela qual não se atrai a concupiscência de quem olha, que não existirá mais, mas louva-se a sabedoria e a clemência de Deus, que fez o que não existia e libertou da corrupção o que fez.
Oportunamente, portanto, os maniqueus são agora confundidos pela mesma voz com que antes haviam sido confundidos os saduceus; pois eles negam a própria ressurreição, ainda que de modo diferente, mas, contudo, também a negam.
Por isso, Deus é chamado especialmente o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, porque nestes três estão representados todos os modos de geração dos filhos de Deus. Pois Deus engendra muitas vezes, por meio de um bom pregador, um bom filho, e por meio de um mau, um mau filho: o que é significado por Abraão, que de sua esposa livre teve um filho fiel, e da escrava gerou um infiel. Algumas vezes, porém, engendra por meio de um bom pregador tanto um filho bom quanto um mau: o que é significado em Isaac, que de sua esposa livre gerou um bom e outro mau. Outras vezes, engendra bons filhos por meio de um pregador bom e de um mau; o que é significado por Jacó, que gerou bons filhos tanto das livres quanto das escravas.
Não vos inquiete que São Mateus aqui diga que era um tentador aquele por quem o Senhor foi interrogado; São Marcos, porém, omite isto, e conclui no final, assim, que o Senhor Jesus lhe disse, que sabiamente respondera: "não estás longe do reino de Deus". É possível, pois, que, embora tenha se aproximado para tentar, tenha sido corrigido pela resposta do Senhor. Ou certamente essa mesma tentação, sobre a qual fala São Tiago, não a tomemos por má, como de um inimigo que deseja enganar, mas antes como cautelosa, como de quem deseja conhecer mais amplamente o desconhecido; e não está escrito em vão: "quem acredita facilmente é leviano de coração". O que ele pergunta, segue-se: "Mestre, qual é o grande mandamento na lei?"
Ou de outro modo. É-te ordenado amar a Deus de todo o coração, para que lhe consagres todos os teus pensamentos; de toda a tua alma, para que lhe consagres toda a tua vida; de toda a tua mente, para que consagres todo o teu entendimento Àquele de quem recebeste estas coisas que ofereces. Portanto, não deixou parte alguma de nossa vida que deva ficar ociosa e, por assim dizer, dar lugar para querer desfrutar de outra coisa. Mas qualquer outra coisa que venha ao pensamento para ser amada, que seja conduzida para onde corre todo o ímpeto do amor: pois então o homem é ótimo quando toda a sua vida se dirige para o bem imutável.
É manifesto, porém, que todo homem deve ser considerado como próximo, porque não se deve fazer mal a ninguém. E se chamamos corretamente de próximo tanto àquele a quem devemos prestar quanto àquele de quem devemos receber o dever da misericórdia, é evidente que neste preceito, pelo qual somos obrigados a amar ao próximo, estão incluídos também os santos Anjos, dos quais recebemos tantos deveres de misericórdia, como podemos facilmente observar nas Escrituras. Por isso, o próprio Senhor quis ser chamado nosso próximo, quando o próprio Senhor Jesus se apresenta como aquele que socorreu o homem meio morto caído no caminho.
Aquele, pois, que ama os homens, deve amá-los ou porque são justos, ou para que sejam justos; assim também deve amar a si mesmo, ou porque é justo, ou para que se torne justo: deste modo ama ao próximo como a si mesmo sem perigo algum.
Se, contudo, não deves amar a ti mesmo por ti mesmo, mas por causa daquele onde está o fim mais correto do teu amor, não se agaste algum homem, se também a ele amas por causa de Deus. Portanto, quem ama corretamente ao próximo, deve proceder com ele de modo que também ele mesmo ame a Deus com todo o coração.
Sendo, pois, dois os preceitos nos quais dependem a Lei e os Profetas - o amor de Deus e do próximo - não sem razão a Escritura frequentemente apresenta um pelo outro: seja o amor de Deus, como naquela passagem: "Sabemos que para aqueles que amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem"; seja o amor do próximo, como nesta: "Toda a lei se cumpre em uma só palavra: amarás o teu próximo como a ti mesmo". Mas isso porque quem ama o próximo, consequentemente também ama a Deus; pois de uma mesma e única caridade amamos a Deus e ao próximo; mas a Deus por Deus mesmo, e a nós mesmos e ao próximo por Deus.
Mas, no entanto, como a substância divina é mais excelente e superior à nossa natureza, o preceito pelo qual amamos a Deus é distinto do amor ao próximo; e se compreenderes a ti mesmo por inteiro, isto é, alma e corpo, e ao teu próximo, isto é, alma e corpo, nenhum tipo de amor devido foi omitido nestes dois preceitos. Pois, uma vez que precede o amor a Deus, segue-se o amor ao próximo, e o modo deste amor é prescrito para que o ames como a ti mesmo; simultaneamente, também o amor a ti mesmo não foi omitido.
Ele disse isto, não porque eram circuncidados, mas porque imitavam os costumes daqueles, os quais havia proibido de imitar, dizendo: "Sobre a cátedra de Moisés", etc. Nestas palavras, duas coisas devem ser observadas: tanto a grande honra conferida à doutrina de Moisés, em cuja cátedra mesmo os maus, ao se sentarem, eram obrigados a ensinar coisas boas; quanto o fato de que o prosélito tornava-se filho da Geena, não por ouvir as palavras da Lei, mas por seguir as ações deles. Por isso, duas vezes mais do que eles, porque ele negligenciava cumprir aquilo que havia assumido por sua própria vontade, não tendo nascido judeu, mas tendo-se tornado judeu espontaneamente.
Também entendemos pelo templo e altar o próprio Cristo; pelo ouro e dádivas, os louvores e sacrifícios de orações que nele e por meio dele oferecemos. Pois não é Ele que é santificado por meio destes, mas estes são santificados por Ele.
Esta espécie de animais tem grande afeição pelos seus filhos, de tal modo que, afetada pela enfermidade deles, ela própria também adoece; e, o que dificilmente encontrarás nos outros animais, protegendo os filhos com suas asas, luta contra o milhafre; assim também nossa mãe, a Sabedoria de Deus, tornando-se de certo modo enferma pela assunção da carne, segundo aquilo do Apóstolo: "o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens"(1 Coríntios 1,25), protege nossa fraqueza e resiste ao Diabo, para que não nos arrebate.
Onde está, pois, aquela onipotência pela qual fez nos céus e na terra todas as coisas que quis, se desejou reunir os filhos de Jerusalém e não o fez? Ou acaso não teria sido que ela não quis que seus filhos fossem reunidos por Ele, mas Ele, mesmo contra a vontade dela, reuniu aqueles filhos dela que Ele quis?
Interrogados pelos discípulos, o Senhor respondeu aquelas coisas que, a partir daquele tempo, haveriam de suceder, seja sobre a destruição de Jerusalém, donde surgiu a ocasião da própria interrogação; seja sobre o seu advento pela Igreja, na qual não cessa de vir até o fim; pois reconhece-se que Ele vem para os seus, quando seus membros nascem diariamente; seja sobre o próprio fim, em que aparecerá para julgar os vivos e os mortos. Uma vez que menciona sinais que pertencem a estas três coisas, devemos considerar cuidadosamente qual dos três sinais deve ser referido a cada uma delas, para que não pensemos que aquilo que pertence a um deva ser referido a outro.
Mas quem pensa que este dito "será pregado o Evangelho do reino em todo o mundo" foi realizado pelos próprios apóstolos, não há documentos confiáveis que provem tal afirmação. Existem na África inúmeras nações bárbaras, nas quais ainda não foi pregado o Evangelho, como se pode facilmente aprender daqueles que de lá são trazidos como cativos. Tampouco se pode dizer corretamente que estes não pertencem à promessa de Deus. Pois o Senhor prometeu com juramento não somente aos romanos, mas a todas as nações como descendência de Abraão. Portanto, nas nações em que ainda não existe a Igreja, é necessário que ela venha a existir, não para que todos os que ali estiverem venham a crer; pois como se cumpriria aquilo "sereis odiados por todas as nações por causa do meu nome", a não ser que em todas as nações existam tanto os que odeiam quanto os que são odiados? Não foi, portanto, completada pelos apóstolos esta pregação, uma vez que ainda existem nações nas quais o cumprimento desta palavra sequer começou. Quanto àquilo que disse o Apóstolo: "Por toda a terra saiu o som deles", embora seja uma expressão no tempo passado, ele disse com palavras o que era futuro, não o que já tinha sido feito e completado; assim como o próprio profeta1, do qual ele utilizou como testemunho, disse que o Evangelho frutificaria e cresceria em todo o mundo, para assim indicar até onde ele chegaria ao crescer. Se, portanto, está oculto quando o Evangelho preencherá todo o mundo, sem dúvida está oculto quando será o fim; pois antes disso não acontecerá.
[1] Salmo 19,4. ↩
Lucas, para mostrar que a abominação da desolação, que foi predita por Daniel, aconteceu quando Jerusalém foi conquistada, recorda neste mesmo lugar estas palavras do Senhor: "Quando virdes Jerusalém cercada por um exército, então sabei que se aproxima a sua desolação"(São Lucas 21,20).
Em São Lucas, lê-se assim: "Haverá grande aflição sobre a terra, e ira contra este povo; e cairão ao fio da espada, e serão levados cativos para todas as nações". Pois também Josefo1, que escreveu a história judaica, diz que tais males aconteceram ao povo naquele tempo que parecem quase inacreditáveis. Por isso, não sem razão foi dito que tal tribulação não existiu desde o princípio da criação, nem existirá; mas ainda que no tempo do Anticristo talvez venha a ser igual ou maior, deve-se entender que foi dito sobre aquele povo, que para eles não voltará a existir tal tribulação. Pois se eles hão de ser os primeiros e principais a receber o Anticristo, então esse mesmo povo causará tribulação, mais do que a sofrerá.
[1] B. J. vii (Bellum Judaicum, livro 7). ↩
De fato, alguns me parecem ter entendido convenientemente que pelos próprios males está significado o nome de dias, assim como são chamados dias maus em outros lugares da Sagrada Escritura; pois os dias em si não são maus, mas aquilo que neles acontece. Diz-se que os mesmos serão abreviados para que, concedendo Deus tolerância, sejam menos sentidos; de modo que, ainda que sejam graves, sejam percebidos como breves.
Não devemos duvidar que, quando Jerusalém foi destruída, havia naquele povo eleitos de Deus, que haviam acreditado pela circuncisão ou que haveriam de acreditar, eleitos antes da constituição do mundo, por causa dos quais aqueles dias seriam abreviados, para que os males se tornassem toleráveis. Não faltam, porém, os que consideram que aqueles dias serão mais breves pelo curso mais célere do sol, como foi mais longo o dia quando orou Josué, filho de Nun.
Não devemos, contudo, pensar que as semanas de Daniel foram perturbadas por causa do encurtamento dos dias, ou que naquele tempo já não estavam completas, mas que serão completadas no fim dos tempos: com absoluta clareza Lucas testifica que a profecia de Daniel foi então cumprida quando Jerusalém foi destruída.
Pois nas tribulações deve-se tomar cuidado para que ninguém, sendo vencido, desça da sublimidade espiritual para a vida carnal; ou que aquele que havia progredido, estendendo-se para o que está adiante, olhe para trás ao fraquejar.
Ou, grávida é aquele que cobiça as coisas alheias; amamentando é aquele que já roubou o que cobiçava: para estes haverá desgraça no dia do juízo. Quanto ao que o Senhor disse orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno, ou no sábado
Isto é, que ninguém seja encontrado naquele dia na alegria ou na tristeza pelas coisas temporais.
Aqui o Senhor nos adverte que compreendamos que alguns homens ímpios podem fazer certos milagres que os santos não podem fazer; contudo, nem por isso devem ser considerados como tendo um lugar mais elevado diante de Deus. Pois os magos do Egito não eram mais aceitáveis a Deus do que o povo de Israel, porque aquele povo não podia fazer o que eles faziam; embora Moisés, pelo poder de Deus, pudesse fazer coisas maiores. Mas tais coisas não são atribuídas a todos os santos, para que os mais fracos não sejam enganados por erro perniciosíssimo, supondo que em tais feitos há dons maiores do que nas obras de justiça, pelas quais se obtém a vida eterna. Quando, portanto, os magos fazem coisas semelhantes às que às vezes fazem os santos, elas são feitas com finalidade diversa e por direito diverso: estes as fazem buscando sua própria glória, aqueles buscando a glória de Deus; e aqueles as fazem por meio de certos poderes concedidos em sua ordem, como se fossem negócios ou benefícios privados1: mas estes as fazem na administração pública por ordem daquele a quem toda criatura está sujeita2. Pois de um modo se obriga o proprietário a dar seu cavalo ao soldado, de outro modo o entrega ao comprador, ou a quem quer que o dê ou empreste; e assim como muitos soldados maus, que a disciplina imperial condena, aterrorizam alguns proprietários com os símbolos de seu imperador, e deles extorquem algo que não é ordenado publicamente; assim também alguns maus cristãos, pelo nome de Cristo ou por palavras ou sacramentos cristãos, exigem algo dos poderes; quando, porém, cedem à vontade dos maus que ordenam, cedem para seduzir os homens, em cujo erro se alegram. Por isso, de um modo fazem milagres os magos, de outro os bons cristãos, e de outro os maus cristãos: os magos por contratos privados, os bons cristãos pela justiça pública, os maus cristãos pelos sinais da justiça pública3. Nem isto devemos admirar; porque todas as coisas que visivelmente se fazem, mesmo pelas potências inferiores deste ar, não é absurdo crer que possam ser feitas.
[1] nota: al. veneficia ↩
[2] nota editorial: veja acima sobre o capítulo vii, 22 ↩
[3] nota: non occ. ↩
Não se deve pensar, entretanto, que a matéria destas coisas visíveis serve à vontade dos anjos transgressores, mas antes a Deus, por quem lhes é dado o poder; nem, certamente, aqueles anjos maus devem ser chamados criadores: mas, por sua sutileza, conhecem as sementes destas coisas que para nós são mais ocultas, e as espalham secretamente por meio de combinações adequadas dos elementos, e assim proporcionam ocasiões tanto para a geração das coisas quanto para a aceleração de seu crescimento. Pois também muitos homens conhecem de quais ervas, ou carnes, ou sucos, ou humores, ocultos ou misturados, costumam nascer animais; mas estas coisas são tanto mais difíceis para os homens quanto lhes faltam a sutileza dos sentidos e a mobilidade dos corpos em membros terrenos e pesados.
Pelos nomes do Oriente e do Ocidente, quis designar todo o mundo, pelo qual haveria de existir a Igreja. E segundo aquele sentido no qual disse: "de agora em diante vereis o Filho do homem vindo nas nuvens", convenientemente também agora mencionou o relâmpago, que costuma brilhar mais intensamente das nuvens. Estabelecida, pois, a autoridade da Igreja pelo mundo de forma clara e manifesta, convenientemente adverte os discípulos e todos os fiéis para que não acreditem nos cismáticos e nos hereges. Cada cisma ou cada heresia tem o seu lugar no mundo, dominando alguma parte, ou enganando a curiosidade dos homens em conventículos obscuros e ocultos; ao que se refere quando diz: "se alguém vos disser: eis que o Cristo está aqui ou ali", o que significa partes da terra ou das províncias; "ou nos lugares mais retirados da casa, ou no deserto", o que significa os conventículos secretos e obscuros dos hereges.
Então o sol escurecerá e a lua não dará a sua luz, porque a Igreja não aparecerá, quando os ímpios perseguidores se enfurecerem além da medida. Então as estrelas cairão do céu, e as virtudes dos céus serão abaladas: pois muitos que pareciam brilhar pela graça de Deus, cederão aos perseguidores e cairão; e certamente os fiéis mais fortes serão perturbados. Diz-se que isto acontecerá depois da tribulação daqueles dias, não porque tais coisas ocorram depois de passada toda aquela perseguição, mas porque a tribulação precederá, para que se siga a defecção de alguns: e porque em todos aqueles dias assim acontecerá, por isso depois da tribulação daqueles dias, mas contudo, nos mesmos dias, acontecerá.
O sentido mais próprio disto é que, quando alguém ouvir ou ler isso, entenda que se trata daquela vinda na qual há de vir para julgar os vivos e os mortos em seu corpo; corpo no qual está sentado à direita do Pai, no qual também morreu e ressuscitou, e subiu ao céu; e como se lê nos Atos dos Apóstolos: "Uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos"; e porque ali foi dito pelos Anjos: "Assim virá, como o vistes ir ao céu", deve-se crer com razão que virá não somente no mesmo corpo, mas também na nuvem.
Mas, visto que as Escrituras devem ser escrutinadas, e não devemos nos contentar com sua superfície, devemos examinar com diligência o que segue: pois logo depois continua "quando virdes todas estas coisas acontecerem, sabei que está próximo, já às portas"; portanto, sabemos que está próximo quando virmos não alguma das coisas preditas, mas todas elas, entre as quais está isto que se verá o Filho do homem vindo. E enviará os seus Anjos aos quatro cantos do mundo, isto é, de toda a redondeza da terra congregará os seus eleitos: todas estas coisas Ele faz na hora derradeira, vindo em seus membros como nas nuvens, ou em toda a própria Igreja como em uma grande nuvem, assim como agora não cessa de vir; mas, por isso, com grande poder e majestade, porque maior poder e majestade d'Ele aparecerá aos santos, aos quais dará grande virtude, para que não sejam vencidos por tão grande perseguição.
Que nós devemos esperar a vinda próxima do Senhor a partir dos sinais evangélicos e proféticos que vemos acontecer, quem o negaria? Certamente a cada dia ela se torna mais e mais próxima; mas quanto ao intervalo com que se aproxima, sobre isto foi dito: "não vos compete saber os tempos ou os momentos"(Atos 1,7). Vede quando disse o Apóstolo: "agora está mais próxima a nossa salvação do que quando cremos"(Romanos 13,11); e eis que tantos anos se passaram, e no entanto o que ele disse não é falso; quanto mais agora se deve dizer que se aproxima a vinda do Senhor, quando tanto se avançou para o fim!
Ou, pela figueira entenda o gênero humano, por causa do prurido da carne. "Quando o seu ramo está tenro", isto é, quando os filhos dos homens, pela fé em Cristo, avançarem para produzir frutos espirituais, e neles brilhar a honra da adoção como filhos de Deus.
Quando Ele diz: "não sabe", deve-se entender que faz com que outros não saibam; isto é, que Ele não sabia de modo a revelar então aos seus discípulos: como foi dito a Abraão: "Agora conheci que temes a Deus"; isto é, agora fiz com que conhecesses: pois também ele próprio se deu a conhecer a si mesmo naquela provação.
Quando diz que o Pai sabe, disse isso porque no Pai também o Filho sabe. Pois o que pode haver no dia que não tenha sido feito pelo Verbo, por quem o dia foi feito?
Certamente se entende bem o que foi dito, que somente o Pai sabe, segundo o modo de saber já mencionado, porque faz o Filho saber; mas diz-se que o Filho não sabe, porque não faz os homens saberem.
Assim, portanto, o Evangelho diz: "Daquele dia e hora ninguém sabe"; tu, porém, dizes: "Eu, contudo, digo que nem o mês nem o ano da sua vinda pode ser conhecido". Isto parece soar como se não se pudesse saber em que ano ele virá, mas que se pudesse saber em que semana de anos, ou em que década; como se pudesse ser dito e definido entre aqueles sete anos, ou dez, ou cem, ou qualquer outro número, seja maior ou menor. Se, porém, não presumes ter compreendido isto, pensas o mesmo que eu.
Não somente para aqueles a quem então falava diretamente disse vigiai, mas também para aqueles que existiram depois daqueles anos, e para nós mesmos, e para aqueles que virão depois de nós até a sua última vinda, porque a todos diz respeito de certo modo. Pois aquele dia virá para cada um, quando vier o seu dia de partir deste mundo do modo como será julgado naquele dia; e por isso deve vigiar todo cristão, para que o advento do Senhor não o encontre desprevenido; pois aquele dia encontrará desprevenido a quem o último dia de sua vida encontrar desprevenido.
O espírito deste servo manifesta-se nos seus comportamentos, os quais, embora brevemente, o bom Mestre cuidou de expressar; isto é, sua soberba, quando diz: "e começar a espancar seus conservos"; e sua luxúria, quando diz: "e comer e beber com os ébrios"; para que quando ele dissesse: "meu senhor tarda em vir", não se pensasse que falava por desejo de seu senhor, como ardia aquele que disse: "minha alma tem sede de Deus vivo: quando virei?" Pois ao dizer: "quando virei?", expressava que suportava com dificuldade a demora, porque mesmo o que é acelerado no tempo, ao desejo parece demorado.
Deixando de lado este servo mau, que, sem dúvida, odeia a vinda de seu Senhor, ponhamos diante de nossos olhos três servos bons, que ansiosamente esperam a vinda de seu Senhor. Um espera que sua vinda seja mais cedo, outro mais tarde, o terceiro confessa sua ignorância sobre o assunto. Vejamos qual está mais de acordo com o Evangelho. Um diz: vigiemos e oremos, porque o Senhor virá rapidamente. Outro diz: vigiemos e oremos, porque esta vida é breve e incerta, ainda que a vinda do Senhor seja tardia. O terceiro diz: vigiemos, porque esta vida é breve e incerta, e não sabemos o tempo em que o Senhor virá. O que mais diz este homem senão o que ouvimos o Evangelho dizer: "vigiai, porque não sabeis a hora em que o Senhor virá"? Todos, de fato, por anseio do reino de Deus, desejam que seja verdade aquilo que pensa o primeiro; e se assim acontecer, o segundo e o terceiro se alegrarão com ele; mas se não acontecer, é de temer que, durante a própria espera, fiquem perturbados aqueles que acreditavam no que o primeiro havia dito, e comecem a pensar que a vinda do Senhor não é tardia, mas inexistente. Aquele que crê no que diz o segundo, que o Senhor virá mais tarde, se isso for falso, ninguém ficará perturbado na fé, mas desfrutarão de uma alegria inesperada. E aquele que confessa ignorar qual dessas coisas é verdadeira, deseja a primeira, tolera a segunda, e não erra em nenhuma delas, porque não afirma nem nega nenhuma.
Ou, as lâmpadas que carregam nas mãos são as obras; pois foi dito acima: "Brilhem vossas obras diante dos homens"(São Mateus 5,16).
Ou, pelas cinco virgens, indica-se a continência de cinco partes em relação aos atrativos da carne: pois deve-se conter o apetite da alma quanto ao desejo dos olhos, dos ouvidos, do olfato, do paladar e do tato. Mas como esta continência é praticada em parte diante de Deus para agradá-Lo com a alegria interior da consciência, e em parte apenas diante dos homens para captar a glória humana, cinco são chamadas sábias e cinco néscias; ambas, porém, são virgens, porque ambas praticam a continência, embora se alegrem por diferentes estímulos.
Ou, pelo óleo julgo que se significa a alegria, conforme aquilo: "ungiu-te Deus, teu Deus, com o óleo da exultação". Aquele que não se alegra porque agrada interiormente a Deus, não tem óleo consigo: pois não têm alegria, enquanto vivem continentemente, a não ser nos louvores dos homens. As prudentes, porém, tomaram óleo com as lâmpadas, isto é, colocaram a alegria das boas obras em seus vasos, ou seja, no coração e na consciência, como o Apóstolo adverte: "Prove-se a si mesmo o homem, e então terá glória em si mesmo, e não em outro".
Pois de ambos os gêneros de homens morrem neste intervalo de tempo, até que sob o advento do Senhor ocorra a ressurreição dos mortos.
Ou à meia-noite, isto é, quando ninguém o sabe nem o espera.
Ou, quando diz que somente as virgens vão ao encontro do esposo, creio que deve ser entendido de modo que da reunião destas mesmas virgens se forma aquela que é chamada esposa; assim como quando todos os cristãos acorrem à Igreja, diz-se que os filhos correm para a mãe, embora esta mesma mãe seja formada pela reunião destes mesmos filhos. Pois agora a Igreja está desposada, e é virgem para ser conduzida às núpcias naquele tempo em que, tendo passado toda a mortalidade nela, seja mantida em união imortal.
Prepararam as suas lâmpadas, isto é, as razões a serem prestadas de suas obras.
Por costume, o ânimo sempre busca aquilo com que costuma alegrar-se. Assim, os homens, que não veem os corações, querem ter testemunho diante de Deus, que é conhecedor do coração. Mas as obras que se sustentam no louvor alheio, quando este é retirado, desfalecem: daí que suas lâmpadas se apagam. Ou as virgens que se queixam de que suas lâmpadas se apagam mostram que elas em parte brilham; e, contudo, não possuem luz incessante, nem obras perpétuas. Se, portanto, alguém tem alma virginal e é amante da castidade, não deve contentar-se mediocremente com aquelas coisas que rapidamente se extinguem e, ao nascer do calor, secam-se; mas deve seguir as virtudes perfeitas, para que tenha luz sempiterna.
Ou não se deve pensar que elas deram um conselho; mas que indiretamente lembraram sua falta. Pois vendem óleo os aduladores, que, louvando coisas falsas ou ignoradas, conduzem as almas ao erro, e aconselhando-lhes vãs alegrias como a néscios, recebem deles alguma recompensa de benefício temporal. Diz-se, portanto, ide aos vendedores e comprai para vós; isto é, vejamos agora como vos ajudam aqueles que costumam vender-vos louvores. Dizem, porém, para que não falte para nós e para vós, porque ninguém é ajudado diante de Deus pelo testemunho alheio, pois a Ele são manifestos os segredos do coração; e dificilmente alguém tem suficiente testemunho que lhe dê sua própria consciência.
Ou de outro modo. Enquanto iam comprar, isto é, enquanto se inclinavam para as coisas exteriores e buscavam alegrar-se como costumavam, porque não conheciam os gozos interiores, veio aquele que julga; e as que estavam preparadas, isto é, aquelas cujas consciências davam testemunho diante de Deus, entraram com ele para as núpcias; isto é, onde a alma pura é unida, fecunda, à palavra pura e perfeita de Deus.
Recebidos aqueles que foram transformados para a vida angélica, fecha-se a entrada para os reinos dos céus; pois após o juízo não há mais lugar para preces ou méritos1.
[1] 1 Coríntios 15,51. ↩
Não foi dito, porém, que compraram óleo; e assim deve-se entender que, não restando mais nenhuma alegria de louvores alheios, voltam em angústias e grandes aflições a implorar a Deus. Mas grande é a severidade d'Ele após o juízo, cuja inefável misericórdia foi prodigalizada antes do juízo; por isso segue-se: "Mas ele, respondendo, disse: em verdade vos digo, não vos conheço": segundo aquela regra de que a arte de Deus, isto é, a sua sabedoria, não admite que entrem em seu gozo aqueles que, não diante de Deus, mas para agradar aos homens, esforçaram-se em realizar algo segundo os seus preceitos.
Ora, não somente desconhecemos aquele tempo futuro em que virá o esposo, mas também cada um ignora o dia e a hora de seu próprio adormecimento, para o qual, quem estiver preparado, será encontrado também preparado quando soar aquela voz pela qual todos haverão de despertar.
Não faltaram aqueles que quiseram ensinar que estas cinco e cinco virgens pertencem àquela vinda de Cristo, que agora ocorre através da Igreja; mas isso não deve ser afirmado temerariamente, para que não surja algo que validamente o contradiga.
Este será nosso gozo pleno, maior que o qual não existe, fruir de Deus Trindade, a cuja imagem fomos feitos.
Na forma humana os ímpios O verão, verão também os postos à direita: pois no juízo aparecerá na forma que tomou de nós; mas depois ocorrerá que seja visto na forma de Deus, a qual todos os fiéis anseiam ver.
Descerá, pois, com os Anjos, os quais convocará dos lugares celestiais para realizar o juízo; donde se diz: e todos os seus Anjos com Ele.
Ou pelo nome dos Anjos designou os homens que julgarão com Cristo; pois os Anjos são mensageiros, e com razão consideramos como mensageiros todos aqueles que anunciaram aos homens a salvação celestial. Segue-se: "E serão congregadas diante dele todas as nações".
Esta reunião será feita pelo ministério dos anjos, aos quais se diz: "Congregai a Ele os seus santos"(Salmo 50,5).
Excetuando-se aquele reino, sobre o qual no fim dirá "possuí o reino preparado para vós", ainda que de modo bem inferior, a presente Igreja também é chamada Seu reino, no qual ainda se está em conflito com o inimigo, até que se chegue àquele pacificadíssimo reino, onde se reinará sem inimigo.
Mas alguém dirá: Não quero reinar, basta-me ser salvo. Nisso se enganam, primeiro, porque não há salvação alguma para aqueles cuja iniquidade persevera; depois, se há alguma diferença entre os que reinam e os que não reinam, convém que todos estejam em um mesmo reino, para que não sejam contados entre os inimigos ou de outro grupo, e pereçam enquanto os outros reinam. Pois todos os romanos possuem o reino romano, embora nem todos reinem nele.
Disto se torna claro que o mesmo fogo será destinado para suplício dos homens e dos demônios. Se, porém, este fogo for nocivo ao toque corporal, de modo que possa atormentar os corpos, de que maneira nele estará a pena dos espíritos malignos, a não ser porque os demônios têm certos corpos, como alguns pensaram, formados deste ar denso e úmido? Entretanto, se alguém afirmar que os demônios não têm corpo algum, não se deve disputar sobre esta questão com contenciosa discussão. Por que não diríamos que, embora de modos admiráveis, contudo verdadeiros, mesmo os espíritos incorpóreos podem ser afligidos pela pena do fogo corporal, se os espíritos dos homens, também eles certamente incorpóreos, puderam agora estar encerrados em membros corporais, e então poderão estar insolúvel e fixamente ligados aos vínculos de seus corpos? Aderirão, portanto, os demônios, ainda que incorpóreos, aos fogos corporais para serem atormentados, recebendo dos fogos a pena, não dando aos fogos a vida. Aquele fogo, porém, será corpóreo, e atormentará corpos deste tipo juntamente com seus espíritos; já os demônios são espíritos sem corpos.
Agora, porém, trata-se do último juízo, quando Cristo há de vir do céu para julgar os vivos e os mortos. Chamamos a este dia do juízo divino o último dia, isto é, o tempo novíssimo; pois é incerto por quantos dias se estenderá este juízo; mas segundo o costume das Sagradas Escrituras, costuma-se pôr dia no lugar de tempo. Por isso, pois, dizemos o último juízo ou novíssimo, porque também agora julga, e julgou desde o início do gênero humano, separando os primeiros homens da árvore da vida e não poupando os Anjos que pecaram; mas naquele juízo final, tanto os homens quanto os Anjos serão julgados simultaneamente: pois acontecerá pelo poder divino que a cada um sejam trazidas à memória todas as suas obras, tanto boas quanto más, e sejam vistas pelo olhar da mente com admirável rapidez, para que o conhecimento acuse ou escuse a consciência.
Alguns enganam-se a si mesmos, dizendo que o fogo é chamado eterno, mas não o castigo. Prevendo isso, o Senhor concluiu sua sentença dizendo: E irão estes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna.
A vida eterna é, pois, nosso sumo bem, e o fim da cidade de Deus; sobre este fim diz o Apóstolo: "e por fim a vida eterna"(Romanos 6,22). Mas, por outro lado, como a vida eterna pode ser entendida por aqueles que não têm familiaridade com as Sagradas Escrituras também como a vida dos maus, por causa da imortalidade da alma, ou por causa das penas intermináveis dos ímpios; certamente o fim desta cidade, na qual se terá o sumo bem, deve ser chamado ou paz na vida eterna, ou vida eterna na paz, para que possa ser compreendido por todos.
Aquilo que o Senhor disse ao seu servo Moisés: "Eu sou aquele que sou"(Êxodo 3,14), isto contemplaremos quando vivermos na eternidade. Pois assim diz o Senhor: "Esta é a vida eterna, que conheçam a ti, verdadeiro Deus"(São João 17,3). Esta contemplação nos é prometida como o fim de todas as ações e a eterna perfeição das alegrias, da qual diz São João: "Nós o veremos como ele é"(1 São João 3,2).
A justiça de nenhuma lei determina que qualquer um seja punido por tanto tempo quanto aquele em que cometeu algo passível de punição. Pois não há quem tenha decidido que os tormentos dos culpados devam acabar tão rapidamente quanto foi cometido o homicídio ou o adultério. De fato, aquele que é punido com a morte por algum crime grave, por acaso as leis consideram como suplício dele o tempo que leva para morrer, e não o fato de que o afastam para sempre da sociedade dos vivos? E os castigos, a ignomínia, o exílio, a servidão, quando muitas vezes são infligidos sem que nenhuma indulgência os abrande, acaso não parecem semelhantes às penas eternas conforme o modo desta vida? Certamente não podem ser eternos porque nem a própria vida, que por eles é castigada, se estende para a eternidade. Mas dizem: como, então, é verdadeiro o que diz Cristo: "com a medida com que medirdes, vos medirão a vós", se o pecado temporal é punido com suplício eterno? E não consideram que essa medida foi dita, não pelo período de tempo igual, mas pela reciprocidade do mal; isto é, para que quem fez o mal, sofra o mal. O homem tornou-se, portanto, digno do mal eterno, aquele que destruiu em si o bem que poderia ser eterno.
Mas não existe, dizem eles, um corpo que possa sofrer e não possa morrer. É necessário que viva aquele que sofre, mas não é necessário que a dor mate, porque nem toda dor mata estes corpos mortais. E se alguma dor pode matar, a causa é que a alma está unida a este corpo de tal modo que cede aos maiores sofrimentos e se separa; mas então a alma estará unida a tal corpo e de tal modo que aquele vínculo não será superado por nenhuma dor. Portanto, não será nenhuma morte, mas será uma morte sempiterna, quando a alma não poderá viver sem ter a Deus, nem ficar livre das dores corporais morrendo. Entre os que negam a eternidade de tal suplício, o mais misericordioso foi Orígenes, que acreditava que o próprio Diabo e seus Anjos, depois de graves e prolongados suplícios proporcionais aos seus méritos, seriam removidos daqueles tormentos e associados aos santos Anjos. Mas a Igreja, não sem razão, o reprovou por isso e por algumas outras coisas, porque mesmo esta aparente misericórdia ele perdeu, ao criar verdadeiras misérias, pelas quais pagariam suas penas, e falsas bem-aventuranças, nas quais não teriam alegria segura e sempiterna do bem. Muito diferente é o erro de misericórdia de outros que, por afeição humana, pensam que as misérias dos homens condenados naquele juízo serão temporais, mas que a felicidade daqueles que são libertados, mais cedo ou mais tarde, será eterna. Mas por que esta misericórdia se estende a toda a natureza humana e, quando chega à natureza angélica, logo se seca?
Também existem outros que prometem a libertação do suplício eterno não a todos os homens, mas somente àqueles que foram lavados pelo Batismo de Cristo, que participam do seu corpo, não importando como tenham vivido, baseados naquilo que o Senhor diz: "Se alguém comer deste pão, não morrerá eternamente"(São João 6,51). Do mesmo modo, há outros que não prometem isso a todos os que recebem o sacramento de Cristo, mas somente aos católicos, ainda que vivam mal, que não apenas pelo sacramento, mas de fato comeram o corpo de Cristo, estando estabelecidos em seu corpo que é a Igreja, mesmo que depois tenham caído em alguma heresia ou idolatria dos gentios. Há também os que, por causa do que está escrito acima: "Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo"(São Mateus 24,13), prometem isso somente àqueles que perseveram na Igreja Católica, que pelo mérito do fundamento, isto é, da fé, serão salvos pelo fogo, pelo qual serão punidos os maus no juízo final. Mas a todos esses contradiz o Apóstolo dizendo: "Manifestas são as obras da carne, que são a impureza, a fornicação e coisas semelhantes; das quais vos previno, como já vos preveni, que os que praticam tais coisas não possuirão o reino de Deus"(Gálatas 5,19-21). Se, porém, alguém prefere em seu coração as coisas temporais a Cristo, ainda que pareça ter a fé de Cristo, não tem Cristo como fundamento, ao qual outras coisas são preferidas; quanto mais se cometer atos ilícitos, fica convencido não de ter preferido, mas de ter posposto Cristo! Descobri também que alguns pensam que somente arderão na eternidade do suplício aqueles que negligenciam fazer esmolas dignas pelos seus pecados; por isso julgam que o próprio juiz não quis mencionar outra coisa que diria, senão as esmolas feitas ou não feitas. Mas quem faz esmolas dignas pelos seus pecados, começa primeiro a fazê-las para si mesmo: pois é indigno que não faça para si mesmo quem faz ao próximo, quando ouve Deus dizendo: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo"(São Mateus 22,39); e também ouve: "Tem piedade da tua alma, agradando a Deus"(Eclesiástico 30,24). Esta esmola, isto é, agradar a Deus, não fazendo à sua própria alma, como poderá ser considerado alguém que faz esmolas dignas pelos seus pecados? Por isso, portanto, devem-se fazer esmolas, para que quando suplicamos pelos pecados passados, sejamos ouvidos; não para que, perseverando neles, acreditemos obter pela esmola a licença de fazer o mal. Por isso, o Senhor predisse que consideraria as esmolas feitas pelos que estão à direita, e as não feitas pelos que estão à esquerda, para mostrar quanto valem as esmolas para apagar os pecados passados, não para cometer impunemente pecados perpétuos.
São Lucas, ainda que mencione um evento semelhante ao que aqui se afirma, e coincida o nome daquele em cuja casa o Senhor estava sendo servido, pois também o chama de Simão; todavia, visto que não é contrário à natureza ou ao costume dos homens que duas pessoas tenham o mesmo nome, é mais crível que aquele fosse outro Simão, não leproso, em cuja casa estes eventos ocorriam em Betânia. Portanto, não considero que fosse outra mulher, que como pecadora então se aproximou dos pés de Jesus, senão a mesma Maria que fez isto duas vezes: uma vez, certamente, como São Lucas narrou; pois também São João, ao falar de Maria, menciona-a antes que viesse a Betânia: "estava enfermo Lázaro em Betânia, no povoado de Maria e de Marta, sua irmã. E Maria era aquela que ungiu o Senhor com unguento e enxugou seus pés com seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava enfermo". Assim, Maria já havia feito isso. Mas o que novamente fez em Betânia é outro evento que não pertence à narração de São Lucas, mas é igualmente narrado pelos três, a saber, São João, São Mateus e São Marcos. Quanto ao fato de que São Mateus e São Marcos dizem que a cabeça do Senhor foi ungida com aquele unguento, enquanto São João menciona os pés, mostra-se não haver contradição se aceitarmos que a mulher ungiu não só a cabeça, mas também os pés do Senhor; a não ser que alguém seja tão caviloso que negue ter podido permanecer algo no vaso quebrado com que também ungisse os pés do Senhor, uma vez que São Marcos relata que, quebrado o vaso de alabastro, ungiu a cabeça. Porém, aquele que assim calunia, aceite primeiro que os pés foram ungidos antes que o vaso fosse quebrado, para que restasse intacto o suficiente para ungir também a cabeça, quando a quebra derramou todo o conteúdo.
Ninguém, de modo algum, acreditaria que os pés do Senhor foram perfumados por uma mulher com um unguento precioso do modo como costumam fazer os homens luxuriosos e ímpios. Pois em todas essas coisas, não é o uso das coisas, mas o desejo de quem as utiliza que está em falta. Quem quer que use as coisas de tal modo que exceda os limites dos costumes dos bons entre os quais vive, ou significa algo1, ou é vicioso. Assim, o que em outras pessoas geralmente é um vício, em uma pessoa divina ou profética é sinal de algo grandioso. Pois o bom odor é a boa fama, que quem quer que a possua pelas obras de boa vida, enquanto segue os passos de Cristo, como que perfuma seus pés com o mais precioso perfume.
[1] aliquid significat ↩
Mas isto pode parecer contrário ao que São Mateus e São Marcos, depois de terem dito que a Páscoa aconteceria dali a dois dias, em seguida mencionaram que Jesus estava em Betânia, onde São João, ao narrar sobre o mesmo unguento, diz: "seis dias antes da Páscoa". Mas aqueles que se inquietam com isso não compreendem que São Mateus e São Marcos colocaram o evento do unguento em Betânia por meio de recapitulação. Pois nenhum deles, após ter dito que a Páscoa seria dali a dois dias, acrescentou de modo a dizer: "depois disso, estando em Betânia".
Pode-se também entender que os outros discípulos ou sentiram isto, ou disseram, ou foram persuadidos pelo que Judas disse, e que São Mateus e São Marcos expressaram a vontade de todos; mas Judas o disse porque era ladrão, enquanto os outros por causa do cuidado com os pobres: São João, porém, quis mencionar apenas aquele cuja inclinação ao furto, nesta ocasião, julgou que deveria ser revelada.
Assim o discurso é dirigido, ao dizer o Senhor: "Sabeis que depois de dois dias será feita a Páscoa" (...) "então se reuniram os príncipes dos sacerdotes" (...) "então partiu um dos doze". Pois entre aquilo que foi dito: "para que não houvesse tumulto no povo", e isto que é dito: "então partiu um dos doze", foi interposto aquilo sobre Betânia, que foi dito à maneira de recapitulação.
Que o Senhor foi vendido por trinta moedas de prata, significou por meio de Judas os judeus iníquos que, perseguindo as coisas carnais e temporais que pertencem aos cinco sentidos do corpo, não quiseram ter Cristo; e porque fizeram isso na sexta era do mundo, foi simbolizado que receberam seis vezes cinco como que o preço do Senhor vendido, e porque a palavra do Senhor é prata, mas eles entenderam também a própria Lei carnalmente, haviam, por assim dizer, gravado na prata a imagem do principado secular que mantiveram quando perderam o Senhor. Segue-se: "E desde então buscava oportunidade para entregá-lo".
A saber, aquele a quem São Marcos e São Lucas chamam pai de família ou senhor da casa. Pois o que São Mateus interpôs, "a um certo homem", quis insinuar isto em compêndio por seu estudo de brevidade: pois quem não sabe que ninguém fala assim, dizendo "ide a um certo homem"? E por isso, tendo São Mateus posto as palavras do Senhor que dizia "ide à cidade", ele mesmo interpôs "a um certo homem"; não porque o próprio Senhor tenha dito isto, mas para que ele mesmo nos insinuasse, calando o nome, que havia na cidade um certo homem a quem os discípulos do Senhor foram enviados para que preparassem a Páscoa: pois é manifesto que os discípulos não foram enviados pelo Senhor a qualquer um, mas a um certo homem, isto é, a alguém determinado.
E se alguém argumenta que existe alguma vida antes desta, fica demonstrado que não apenas para Judas, mas para ninguém é conveniente nascer. Acaso diz que não convém ao demônio nascer, isto é, para o pecado? Ou também não seria bom para ele não ter nascido para Cristo pela vocação, para que não se tornasse apóstata?
No qual se vê claramente que os discípulos, quando receberam pela primeira vez o corpo e o sangue do Senhor, não o receberam em jejum. Contudo, deve-se por isso censurar o rito da Igreja universal, pelo qual sempre se recebe em jejum? Pois agradou ao Espírito Santo que, em honra de tão grande sacramento, o corpo do Senhor entrasse na boca do cristão antes dos demais alimentos. Porque o Salvador, querendo recomendar mais veementemente a sublimidade deste mistério, quis gravar isto por último nos corações e na memória dos discípulos, dos quais estava prestes a separar-se para a Paixão; e por isso não prescreveu em que ordem deveria ser tomado posteriormente, para reservar este lugar aos apóstolos, por meio dos quais haveria de organizar a Igreja.
O Senhor confiou o Seu Corpo e Sangue àquelas coisas que são reduzidas a uma unidade a partir de muitos elementos. Pois o pão é confeccionado a partir de muitos grãos em um só, e o vinho converge em um só a partir de muitas uvas: assim o Senhor Jesus Cristo nos assinalou, e consagrou em Sua mesa o mistério da nossa paz e unidade.
Assim como, portanto, pelo Espírito Santo a verdadeira carne é criada sem coito, assim também pela mesma substância do pão e do vinho, isto é, o corpo de Cristo e o sangue são consagrados; e, portanto, porque pela palavra do Senhor se faz a referida consagração, acrescenta-se "bendisse"1
[1] Nota do editor: Esta passagem é citada no MS Bodl. e nas primeiras edições do Cat., como 'Augustinus in Verb. Dom.' Graciano também (de Cons. d. ii. 72.) a atribui a Agostinho, mas o autor mais antigo em que ela se encontra é Pascásio Radberto, Abade de Corbey, e um conhecido escritor do século IX, 'De Corpore et Sanguine Dom.' 4. ↩
Quando a hóstia é partida, enquanto o sangue do cálice é derramado na boca dos fiéis, que outra coisa se designa senão a imolação do Corpo do Senhor na cruz e o derramamento do Seu Sangue de Seu lado?1
[1] Isto é citado nas primeiras edições e em Graciano, de Cons. ii. 37, como Agostinho 'in Libro Sent. Prosper', mas não ocorre naquela coleção de Próspero como a temos. Encontra-se em Lanfranco cont. Bereng. 13. ↩
Pedro e Judas receberam do mesmo pão, mas Pedro para a vida, Judas para a morte.
O Senhor convida seus servos para preparar a si mesmo como alimento para eles. Mas quem ousaria comer o seu Senhor? E certamente quando é comido, ele fortalece, mas não diminui; vive depois de ser comido, porque ressuscitou depois de ser morto; nem quando é comido, fazemos dele partes; e isto é verdadeiramente o que acontece no sacramento. Os fiéis sabem como comem a carne de Cristo: cada um recebe sua parte. Por partes é comido no sacramento, e permanece íntegro: todo inteiro no céu, todo inteiro no teu coração. Por isso, estas coisas são chamadas sacramentos, porque neles uma coisa é vista e outra é entendida: o que se vê tem aparência corporal; o que se compreende tem fruto espiritual.
Não comamos a carne de Cristo somente no sacramento, o que fazem muitos maus; mas comamos até à participação do espírito, para que permaneçamos como membros no corpo do Senhor, para que sejamos vivificados pelo Seu Espírito.
Ou de outra maneira. Quando diz beberei novo, quer que se entenda que este é velho. Pois como da descendência de Adão, que é chamado homem velho, assumiu um corpo, que na paixão haveria de entregar à morte (donde também pelo sacramento do vinho recomendou o seu sangue), que outra coisa devemos entender por vinho novo senão a imortalidade dos corpos que serão renovados? Quando diz beberei convosco, também lhes promete a ressurreição dos corpos para se revestirem da imortalidade: pois convosco não deve ser tomado como referência ao mesmo tempo, mas à mesma renovação: pois o apóstolo diz que nós ressuscitamos com Cristo, para que a esperança da coisa futura já traga uma alegria presente. Quanto ao que diz sobre este fruto da videira ser também novo, significa certamente que os mesmos corpos ressuscitarão segundo a renovação celestial, os quais agora segundo a vetustez terrena hão de morrer.
Pode, porém, causar perplexidade o fato de que os Evangelistas apresentem afirmações tão diversas, não apenas em palavras, mas também em sentenças, sobre as quais, sendo Pedro advertido, proferiu aquela presunção de morrer com o Senhor ou pelo Senhor; a ponto de nos obrigarem a entender que ele expressou sua presunção em diferentes momentos do discurso de Cristo, e três vezes o Senhor lhe respondeu que ele o negaria três vezes antes do canto do galo; assim como também após a ressurreição, por três vezes Ele o interroga se o ama, e por três vezes lhe confia o mandado de apascentar as ovelhas. Pois, que semelhança têm estas palavras ou sentenças de São Mateus com aquelas nas quais, segundo São João, ou segundo São Lucas, Pedro manifestou sua presunção? São Marcos, por sua vez, recorda isto quase com as mesmas palavras que São Mateus, exceto que expressa mais claramente como aconteceria, dizendo que o Senhor falou: "Em verdade te digo que tu, hoje, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes". Daí que, para alguns que prestam pouca atenção, São Marcos parece não estar de acordo com os outros: pois toda a negação de Pedro é tríplice; se ela começasse após o primeiro canto do galo, pareceriam ter falado falsamente os três Evangelistas que dizem ter o Senhor declarado que, antes que o galo cantasse, Pedro o negaria. Por outro lado, se ele tivesse completado toda a tríplice negação antes que o galo começasse a cantar, São Marcos seria surpreendido dizendo superfluamente da parte do Senhor: "Antes que o galo dê voz duas vezes, me negarás três vezes". Mas como aquela tríplice negação começou antes do primeiro canto do galo, os três Evangelistas atentaram não para quando Pedro a completaria, mas para quão grande seria, e quando começaria, isto é, antes do canto do galo: embora em sua alma, toda a negação possa ser entendida como ocorrida mesmo antes do primeiro canto do galo, já que antes do canto do galo um temor tão grande havia dominado sua mente, capaz de conduzi-lo até a terceira negação. Muito menos, portanto, deve causar perplexidade o fato de que a tríplice negação, manifestada também por três declarações do negador, começou antes do canto do galo, embora não tenha sido concluída antes do primeiro canto do galo; como se alguém dissesse a outrem: "Antes que o galo cante, escrever-me-ás uma carta, na qual me injuriarás três vezes". Com efeito, se ele começasse a escrevê-la antes de qualquer canto do galo, e a terminasse após o primeiro canto do galo, não se deveria por isso dizer que a predição foi falsa.
Temos, na verdade, as narrativas dos Evangelistas, pelas quais conhecemos que Cristo nasceu da bem-aventurada Virgem Maria, e foi preso pelos judeus, e flagelado e crucificado e morto, e sepultado em um sepulcro: coisas estas que ninguém pode entender terem acontecido sem um corpo; nem mesmo o mais demente diria que devem ser entendidas figurativamente, visto que foram ditas por aqueles que narraram os acontecimentos conforme os recordavam. Assim, pois, estes testemunham que Ele teve um corpo, assim como indicam que Ele teve uma alma aqueles afetos que não podem existir senão na alma; os quais, não obstante, lemos narrados pelos mesmos Evangelistas: Jesus se admirou, e se irou, e se entristeceu.
Já que, pois, tais coisas são narradas nos Evangelhos, certamente não são narradas falsamente; mas aquele, por graça de uma certíssima dispensação, recebeu estes movimentos em sua alma humana quando quis, assim como quando quis fez-se homem. Nós, de fato, temos tais afetos devido à enfermidade da nossa condição humana; mas não assim o Senhor Jesus, cuja enfermidade procedia do seu poder.
E para que ninguém pensasse que Ele havia diminuído o poder do Pai, não disse: se podes fazer; mas se pode ser feito, ou se é possível; como se dissesse: se queres. Pois pode ser feito o que Ele quiser; por isso São Lucas expressou isto mais claramente; porque não diz, se pode ser feito, mas: se queres.
Assim, pois, Cristo, sendo homem, mostra uma determinada vontade privada do homem; na qual representou tanto a sua como a nossa, Ele que é nossa cabeça, quando diz "passe de mim". Esta era, com efeito, a vontade humana querendo algo próprio como privado. Mas porque quer que o homem seja reto e se dirija a Deus, acrescenta "contudo, não como eu quero, mas como tu queres"; como se dissesse: vê-te em mim, pois podes querer algo próprio; e se Deus quer outra coisa, isto é concedido à fragilidade humana.
Não é absurdo também entender que por causa da tríplice tentação da paixão, o Senhor orou três vezes. Pois assim como a tentação da cobiça é tríplice, assim também a tentação do temor é tríplice. À cobiça que está na curiosidade, opõe-se o temor da morte: pois assim como naquela há avidez de conhecer as coisas, assim nesta há medo de perder tal conhecimento. À cobiça de honra ou louvor opõe-se o temor da ignomínia e das afrontas. À cobiça do prazer opõe-se o temor da dor.
Parece que este discurso, segundo São Mateus, é contraditório em si mesmo. Pois como Ele disse "Dormi agora e descansai", e em seguida acrescenta "Levantai-vos, vamos"? Diante desta aparente contradição, alguns se esforçam para interpretá-lo pronunciando as palavras "Dormi agora e descansai" como se fossem ditas por quem reprova, não por quem permite; o que seria correto se fosse necessário. Mas como São Marcos relata que, tendo dito "Dormi agora e descansai", acrescentou "Basta", e depois prosseguiu: "Chegou a hora; eis que o Filho do homem será entregue", entende-se claramente que, depois daquilo que lhes disse "Dormi e descansai", o Senhor silenciou por algum tempo, para que se cumprisse o que havia prometido; e agora acrescentou "Eis que se aproxima a hora". Por isso, segundo São Marcos, foi dito: "Basta", isto é, já descansastes suficientemente.
Diz, porém: "A que vieste?" Como se dissesse: Tu me beijas e armas ciladas; sei por que vieste; finges ser meu amigo, quando és traidor.
Isto é, todo aquele que usar a espada. Aquele usa a espada que, sem nenhuma autoridade superior ou poder legítimo que ordene ou conceda, arma-se para derramar o sangue de alguém. Pois certamente o Senhor havia ordenado que seus discípulos levassem espada, mas não havia ordenado que ferissem. O que há, portanto, de indigno se Pedro, após este pecado, tornou-se pastor da Igreja, assim como Moisés, após ferir o egípcio, tornou-se governante e príncipe da sinagoga? Ambos excederam a regra não por detestável desumanidade, mas por animosidade corrigível; ambos por ódio à improbidade alheia, um por amor fraterno, o outro por amor ao Senhor, embora ainda carnal, pecaram.
Mas, contudo, primeiramente foi levado a Anás, sogro de Caifás, como diz São João: foi, pois, levado amarrado, estando presentes naquela multidão o tribuno e a coorte, como São João comemora.
Significa-se também que a Igreja seguirá, isto é, imitará, a paixão do Senhor, mas de modo muito diferente: pois a Igreja padece por si mesma, mas Ele pela Igreja. Segue: "E tendo entrado, sentou-se com os ministros para ver o fim".
O que foi dito "cuspiram em seu rosto", significa aqueles que rejeitam a presença da sua graça. Da mesma forma, dão bofetadas contra Ele aqueles que preferem suas próprias honras às de Deus; e dão tapas em seu rosto aqueles que, cegados pela perfídia, afirmam que Cristo não veio, como se quisessem exterminar e repelir a sua presença.
Entre as mencionadas afrontas ao Senhor, ocorreu a tripla negação de Pedro, a qual nem todos os Evangelistas narram na mesma ordem. São Lucas explica primeiro a tentação de Pedro, e depois as afrontas ao Senhor; mas São Mateus e São Marcos as mencionam primeiro, e depois a tentação de Pedro. Assim, segue-se: "Pedro, porém, estava sentado fora no átrio".
Entende-se, porém, que depois que saiu para fora, tendo já negado uma vez, o galo cantou pela primeira vez, o que São Marcos diz.
Não negou a segunda vez estando fora diante da porta, mas quando voltou para junto do fogo; pois ainda não havia saído nem a outra criada o havia visto lá fora, mas o viu quando ele estava saindo; isto é, quando ele se levantou para sair, ela o notou e disse àqueles que estavam ali, ou seja, aos que juntos estavam ao fogo no átrio: "Este também estava com Jesus Nazareno". Ele, porém, que havia saído, tendo ouvido isto, voltou, para justificar-se por meio da negação. Ou, o que é mais crível, não ouviu o que sobre ele havia sido dito quando saía, e depois que voltou, foi-lhe dito o que São Lucas recorda. Segue-se "e negou outra vez com juramento: que não conhecia o homem".
Vejamos agora sobre a terceira negação; segue-se, pois: "E pouco depois, aproximaram-se os que estavam presentes e disseram a Pedro: Verdadeiramente tu também és um deles". São Lucas, porém, disse: "Passado o intervalo de quase uma hora"(São Lucas 22,59); e para convencê-lo, consequentemente acrescentam: "pois também a tua fala te torna manifesto".
Também Pedro negou três vezes: pois o erro dos hereges acerca de Cristo limita-se a três tipos: pois ou erram quanto à divindade, ou quanto à humanidade, ou quanto a ambas.
O Evangelista havia tecido anteriormente sua narração naquilo que foi feito com o Senhor até a madrugada; mas depois retornou para narrar a negação de Pedro, terminada a qual, voltou à manhã para continuar o restante da narrativa. E isto é o que se diz: "Pela manhã, porém, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo entraram em conselho contra Jesus, para entregá-lo à morte".
Mas, ocupados os príncipes dos sacerdotes na morte do Senhor desde a manhã até a hora nona, como se prova que Judas lhes devolveu o preço do sangue que havia recebido, antes da cruz do Senhor, e lhes disse no templo "pequei, traindo sangue inocente"? Sendo evidente que todos os príncipes e anciãos antes da paixão do Senhor não estavam no templo, visto que, quando estava posto na cruz, o insultavam. Nem se pode provar que isso tenha sido relatado antes da paixão do Senhor, uma vez que há muitas coisas que, embora feitas anteriormente, são ordenadas por último. Mas talvez tenha acontecido depois da hora nona, quando, vendo Judas que o Salvador havia sido morto e que por isso o véu do templo havia sido rasgado, a terra tremido, as pedras fendidas e os elementos apavorados, foi tomado pelo próprio medo e se arrependeu. Mas depois da hora nona estavam ocupados, como suponho, os anciãos e os príncipes dos sacerdotes na celebração da Páscoa; e no sábado, segundo a lei, não é permitido carregar dinheiro; assim, para mim, não está provado em que dia ou mesmo em que momento Judas terminou sua vida pelo laço.
Creio que foi pela providência de Deus que o preço do Salvador não servisse para o abuso dos pecadores, mas para proporcionar repouso aos peregrinos; para que, a partir de então, Cristo resgatasse os vivos pela paixão do seu sangue e acolhesse os mortos pela sua preciosa paixão. Assim, com o preço do sangue do Senhor compra-se o campo do oleiro. Lemos nas Escrituras que a salvação de todo o gênero humano foi redimida pelo sangue do Salvador. Este campo, portanto, é todo este mundo. O oleiro, que pode ter o domínio do mundo, é o mesmo que fez os vasos de nossos corpos do barro. Assim, o campo deste oleiro foi comprado com o sangue de Cristo: para os peregrinos, digo, que sem casa e pátria, vagavam exilados por todo o mundo, o repouso é proporcionado pelo sangue de Cristo. Chamamos peregrinos àqueles cristianíssimos devotos que, renunciando ao século, nada possuindo no mundo, descansam no sangue de Cristo: pois a sepultura de Cristo nada mais é que o repouso do cristão: fomos, com efeito, sepultados com ele pelo Batismo na morte(Romanos 6,4). Nós, portanto, somos peregrinos neste mundo, e como hóspedes vivemos nesta luz.
Se alguém, portanto, pensa que por isso deve-se diminuir a credibilidade do Evangelista, primeiramente saiba que nem todos os códices dos Evangelhos contêm que foi dito por Jeremias, mas simplesmente pelo profeta. A mim, porém, não agrada esta defesa: porque muitos códices, e os mais antigos, trazem o nome de Jeremias; e não havia motivo para acrescentar este nome, criando um erro. Mas havia, certamente, um motivo para retirá-lo, e isto foi feito por uma ignorância audaciosa, perturbada pela questão apresentada. Pôde acontecer, também, que à mente de São Mateus, ao escrever o Evangelho, ocorresse Jeremias em vez de Zacarias, como costuma acontecer: o que, no entanto, sem dúvida alguma, ele teria corrigido ao ser advertido por aqueles que puderam ler isto enquanto ele ainda vivia na carne, se não tivesse considerado que à sua memória, a qual era regida pelo Espírito Santo, não ocorreu um nome em vez de outro, senão porque o Senhor assim determinou que fosse escrito. E por que Ele assim determinou, a primeira causa é que dessa maneira se insinua que todos os profetas falaram por um só espírito, constando entre si de admirável consenso, de tal modo que isto é muito mais amplo do que se todas as palavras dos profetas fossem demonstradas pela boca de um só homem; e, portanto, deve-se aceitar sem dúvida qualquer coisa que o Espírito Santo falou por meio deles, sendo cada uma de todos e todas de cada um. Se, pois, hoje alguém querendo indicar as palavras de outra pessoa, dissesse o nome de uma pessoa diferente daquela que as disse, que no entanto fosse muito amiga daquele cujas palavras quis dizer, e imediatamente, lembrando-se, corrigisse dizendo ter mencionado um em vez do outro, todavia dissesse: "falei bem", não considerando outra coisa senão a concordância entre ambos: quanto mais isto devia ser recomendado acerca dos santos profetas? Há também outra causa, pela qual este nome de Jeremias foi permitido permanecer no testemunho de Zacarias: ou melhor, foi ordenado pela autoridade do Espírito Santo. Há em Jeremias que ele comprou um campo do filho de seu irmão, e deu-lhe prata, não certamente sob este nome de preço, que está posto em Zacarias, trinta moedas de prata. Mas que o Evangelista interpretou a profecia sobre as trinta moedas de prata referindo-a ao que agora se cumpriu no Senhor, é manifesto; mas que a isto também pertence aquilo sobre o campo comprado que Jeremias disse, daí pode ser misticamente significado, para que aqui não fosse posto o nome de Zacarias, que falou das trinta moedas de prata, mas de Jeremias, que falou sobre o campo comprado; para que, lido o Evangelho, e encontrado o nome de Jeremias, e lido também Jeremias, e não encontrado o testemunho sobre as trinta moedas de prata, mas encontrado o campo comprado, o leitor fosse advertido a comparar ambos, e daí esclarecer o sentido da profecia, como ele se refere ao que se cumpriu no Senhor. Pois aquilo que São Mateus acrescentou a este testemunho quando diz "a quem apreciaram dos filhos de Israel, e deram por um campo de oleiro, assim como me ordenou o Senhor", não se encontra nem em Zacarias, nem em Jeremias; por isso, deve-se entender mais como da pessoa do Evangelista e inserido misticamente, porque ele soube isto por revelação do Senhor, e que a este evento que aconteceu acerca do preço de Cristo, pertencia profecia deste tipo.
Terminado o que São Mateus intercalou sobre Judas, o traidor, retorna à ordem da narração, dizendo: "Jesus, porém, apresentou-se diante do governador".
São Lucas, porém, expôs os próprios crimes que os acusadores imputaram, pois diz: "Começaram a acusá-lo, dizendo: encontramos este homem subvertendo a nossa nação, e proibindo dar tributos a César, e dizendo ser ele mesmo Cristo rei"(São Lucas 23,2). Nada, entretanto, importa para a verdade a ordem pela qual estas coisas foram relatadas, assim como não importa se alguém omite o que outro menciona.
Assim, pois, o juiz é aterrorizado por causa de sua esposa; e para não consentir à acusação dos judeus no julgamento, ele mesmo sofreu julgamento na aflição de sua esposa; é julgado aquele mesmo que julga, e é atormentado antes de atormentar.
Pilatos muitas vezes tratou com os judeus, querendo que Jesus fosse libertado, o que São Mateus atesta em pouquíssimas palavras quando acrescenta: "Vendo Pilatos que nada adiantava, mas que mais tumulto se fazia". O que não diria, se ele não tivesse se esforçado muito, embora tenha calado quantas vezes tentou livrar Jesus do furor deles. Segue-se: "Tomando água, lavou as mãos diante do povo, dizendo: inocente sou eu do sangue deste justo".
Eis que o Senhor é preparado para os açoites, eis que já é ferido: a violência dos flagelos rompe a sua santa pele; os golpes repetidos dos cruéis açoites dilaceram as costas dos seus ombros. Que dor! Deus jaz estendido diante do homem, e sofre o suplício de um réu Aquele em quem nenhum vestígio de pecado pôde ser encontrado.
Depois das acusações de Cristo, consequente é que vejamos a própria paixão do Senhor, a qual São Mateus assim inicia: "Então os soldados do governador, tomando Jesus para o pretório, reuniram ao redor dele toda a coorte".
Por isto se entende que São Marcos disse que foi vestido de púrpura. Pois, em vez da púrpura real, aquela clâmide escarlate foi usada pelos que o escarneciam; e existe uma púrpura vermelha muito semelhante ao escarlate. Também pode ser que São Marcos tenha mencionado a púrpura que a clâmide continha, embora sua cor fosse escarlate.
Parece que São Mateus menciona isto recapitulando, não que tivesse acontecido quando Pilatos o entregou para ser crucificado. Pois São João, antes de dizer que Pilatos o entregou para ser crucificado, já havia mencionado estes fatos.
O fato de que durante a paixão despiram o Senhor de sua própria veste, e o vestiram com uma roupa colorida, significa os hereges, que dizem que Ele não teve um corpo verdadeiro, mas fictício.
Entende-se que isto foi feito no final, quando já era conduzido à crucificação; isto é, depois que Pilatos o entregou aos judeus.
Marcos narra isto assim: "E davam-lhe para beber vinho misturado com mirra". São Mateus, de fato, usou "fel" para expressar amargura; pois o vinho misturado com mirra é amaríssimo; ainda que possa ocorrer que o fel e a mirra tornassem o vinho amaríssimo.
O que São Marcos diz: "e não aceitou", entende-se: não aceitou para beber; contudo provou, como São Mateus testifica; e o que o mesmo São Mateus diz: "não quis beber"; isto São Marcos disse: "não aceitou". Calou-se também quanto ao fato de que provou; mas que tendo provado não quis beber, isto indica que Ele provou por nós a amargura da morte, mas ao terceiro dia ressuscitou.
A sabedoria de Deus tomou sobre si o homem como exemplo para que vivêssemos retamente. Pertence à vida reta não temer aquelas coisas que não devem ser temidas. Há, porém, homens que, embora não temam a própria morte, horrorizam-se com o tipo de morte. Para que nenhum tipo de morte seja temido pelo homem que vive retamente, foi necessário demonstrar pela cruz daquele homem. Pois não havia entre todos os tipos de morte nenhum que fosse mais execrável e mais temível do que este.
Observe vossa santidade qual é o valor da virtude da cruz. Adão desprezou o preceito, tomando o fruto da árvore; mas tudo o que Adão perdeu, Cristo encontrou na cruz. Do dilúvio das águas, uma arca de madeira salvou o gênero humano; quando o povo de Deus partiu do Egito, Moisés dividiu o mar com a vara, prostrou o Faraó e remiu o povo de Deus. O mesmo Moisés lançou um madeiro na água e transformou a água amarga em doce. De uma vara de madeira, da pedra espiritual, jorrou a onda salutar; e para que Amalec fosse vencido, Moisés, com as mãos estendidas, se apoiou sobre a vara; a lei de Deus foi confiada à arca de madeira do testamento; para que, por todos estes meios, como por certos degraus, se chegasse ao madeiro da cruz.
Isto foi dito brevemente por São Mateus; mas São João explica mais detalhadamente como aconteceu: "Os soldados, tendo-o crucificado, tomaram suas vestes e fizeram quatro partes, uma parte para cada soldado, e a túnica. Era, porém, a túnica inconsútil"(São João 19,23).
Pode parecer que São Lucas contradiz o que aqui se diz, quando afirma que um dos ladrões blasfemava contra Ele, sendo repreendido pelo outro, a não ser que entendamos que São Mateus, resumindo brevemente este assunto, empregou o número plural em vez do singular, como lemos na Epístola aos Hebreus, onde está dito no plural: "fecharam as bocas dos leões" (Hebreus 11,33), embora se entenda que somente Daniel é referido. E o que é mais comum do que alguém dizer: "Vejam como os camponeses me insultam", mesmo quando apenas um o faz? Seria contraditório se São Mateus tivesse dito que ambos os ladrões injuriaram o Senhor; mas quando se diz "os ladrões", sem acrescentar "ambos", podemos considerar como aquele modo comum de expressão no qual o singular é significado pelo plural.
Assim, o que fornece as fontes é dado a beber vinagre, o doador de mel é alimentado com fel, o perdão é flagelado, a absolvição é condenada, a majestade é escarnecida, a virtude é ridicularizada, o dispensador de chuvas é coberto de escarros.
Como nada mais restava a Cristo dos sofrimentos, a morte se detém, porque nada sente ali de seu domínio. A novidade é suspeita para o que é antigo. Este é o primeiro, este é o único homem que ela viu ignorante do pecado, livre de culpa, não devendo nada às leis de sua jurisdição. Contudo, a morte, confederada ao furor judaico, aproxima-se e, desesperada, invade o autor da vida; por isso segue: Jesus, clamando novamente com grande voz, entregou o espírito. Por que desagrada se Cristo veio do seio do Pai para nossa servidão, a fim de nos restituir à sua liberdade; aceitou nossa morte para que sejamos libertados por sua morte, quando Ele, pelo desprezo da morte, transformou os mortais em deuses, e estimou dignos do céu os que são da terra? Pois quanto mais a virtude divina brilhava na contemplação de suas obras, tanto mais padecer pelos súditos, morrer pelos servos, é sinal de imensa caridade. Esta é, portanto, a primeira causa da paixão do Senhor, porque quis que se soubesse o quanto Deus amava o homem, preferindo ser amado a ser temido. A segunda causa é para que abolisse com mais justiça a sentença de morte que justamente havia dado. Porque assim como o primeiro homem, por sentença de Deus, incorrera na morte por sua culpa, e a transmitiu aos pósteros, veio do céu o segundo homem, ignorante do pecado, para que a morte fosse condenada, a qual, tendo ordem de arrebatar os réus, presumiu invadir o próprio autor da inocência. E não é de admirar que tenha dado por nós o que tomou de nós, a saber, a alma, quem por nós fez tão grandes coisas e nos concedeu tantos bens.
Longe, pois, dos fiéis tal suspeita, de que Cristo tenha sentido nossa morte de modo que, enquanto em si mesmo, a vida perdesse a vida. Pois se isso fosse assim, como poderíamos dizer que algo viveu durante aquele tríduo, se se diz que a fonte da vida secou? Portanto, a divindade de Cristo sentiu a morte pela participação humana, ou do afeto humano que voluntariamente assumira, mas não perdeu o poder de sua natureza, pela qual vivifica todas as coisas. Na nossa morte, sem dúvida, o corpo privado de vida não destrói nossa alma, pois a alma ao partir não perde sua própria virtude, mas abandona aquilo que vivificava e, enquanto está em si mesma, causa a morte de outro, mas ela própria não a recebe. Sobre a alma do Salvador agora diremos que, para não mencionar a divindade que nela habitava e a justiça singular, certamente devido à comum condição da morte, pôde deixar o corpo naquele tríduo, de forma que ela mesma não pudesse perecer completamente. Creio, pois, que o Filho de Deus morreu, não segundo a pena da injustiça, que não possuía absolutamente, mas segundo a lei da natureza, que aceitou para a redenção do gênero humano.
São Lucas declara o que Jesus disse com voz alta: "e clamando Jesus com voz alta, disse: Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito".
No qual mostra suficientemente que o véu foi rasgado quando emitiu o espírito. Se, porém, não tivesse acrescentado "e eis que", mas simplesmente tivesse dito "e o véu do templo se rasgou", seria incerto se ele mesmo e São Marcos tivessem recordado isso recapitulando; enquanto São Lucas teria mantido a ordem, que tendo dito: "o sol se obscureceu", julgou dever acrescentar logo em seguida: "e o véu do templo se rasgou", ou se São Lucas teria recapitulado o que aqueles haviam colocado em ordem.
Não é contraditório que São Mateus, diante do terremoto, diga que o centurião e aqueles que estavam com ele ficaram admirados, enquanto São Lucas afirma que ele admirou-se de que Jesus tivesse expirado emitindo um grande brado: pois quando São Mateus não apenas disse "vendo o terremoto", mas também acrescentou "e o que acontecia", demonstrou que o texto de São Lucas estava completo, ao dizer que o centurião admirou-se da própria morte do Senhor, porque isto também estava entre aquelas coisas que então se realizaram maravilhosamente.
Poderíamos dizer que algumas mulheres estavam "ao longe", como afirmam três Evangelistas, e outras "junto à cruz", como diz São João, se São Mateus e São Marcos não tivessem nomeado Maria Madalena entre as que estavam ao longe, a qual São João mencionou entre as que estavam junto à cruz. Como isso pode ser entendido, senão pelo fato de que estavam a uma distância tal que podiam ser consideradas tanto próximas, porque estavam presentes à vista dele, quanto longe em comparação com a multidão que estava mais próxima ao redor com o centurião e os soldados? Podemos também compreender que aquelas que estavam junto com a mãe do Senhor, depois que ele a confiou ao discípulo, já haviam começado a afastar-se para livrar-se da densidade da multidão, e observar de mais longe as demais coisas que aconteceram; de modo que os Evangelistas, que as mencionaram após a morte do Senhor, as descrevem como estando ao longe.
Por isso o Salvador é colocado em sepultura alheia, porque morria pela salvação dos outros. Ora, por que estaria em sepultura própria quem não possuía em si morte própria? Por que para ele um túmulo na terra, quando sua sede permanecia nos céus? Por que teria sepultura própria aquele que, pelo espaço de apenas três dias, não tanto jazia morto no sepulcro, mas como que descansava em um leito? O sepulcro, porém, é habitação necessária da morte: logo não era habitação da morte para Cristo, porque ele é a vida; nem tinha necessidade, aquele que sempre vive, da morada dos defuntos.
Se o sepulcro estivesse na terra, poderiam dizer: escavaram a terra e o roubaram. Se fosse uma pedra pequena sobreposta, poderiam dizer: enquanto dormíamos, levaram-no; por isso segue: e rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e foi-se embora.
Ele ressuscitou depois de três dias, para que na paixão do Filho se manifestasse o assentimento de toda a Trindade; os três dias se lêem de forma figurativa, porque a mesma Trindade que no princípio fez o homem, no fim restaura o homem pela paixão de Cristo. Segue: "Ordena, pois, que o sepulcro seja guardado até o terceiro dia".
Depois das ilusões e açoites, depois das bebidas misturadas de vinagre e fel, depois dos suplícios da cruz e das feridas, e finalmente após a própria morte e os Infernos, ressurgiu de seu sepulcro uma carne nova, retornou do ocidente a vida que estava oculta, e a salvação reservada na morte ressurge, para voltar mais bela após o túmulo.
A respeito da hora em que as mulheres vieram ao sepulcro, surge uma questão que não deve ser desprezada. Pois quando Mateus aqui diz "na tarde do sábado, que amanhece para o primeiro dia da semana", o que significa o que diz Marcos: "e muito cedo, no primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria vieram ver o sepulcro"? Claramente, pela primeira parte da noite, que é a tarde, Mateus quis significar toda a noite, em cujo fim vieram ao sepulcro; portanto, como no sábado estavam impedidas de fazê-lo antes, ele denominou a noite a partir do momento em que lhes começou a ser lícito fazer o que quisessem durante aquela mesma noite. Assim, portanto, está dito "na tarde do sábado", como se dissesse, "na noite do sábado", isto é, na noite que segue o dia do sábado: o que as próprias palavras dele suficientemente indicam; pois assim diz "que amanhece para o primeiro dia da semana": o que não pode acontecer a não ser que entendamos que com a expressão "tarde" se designa somente a primeira parte da noite, isto é, apenas o início da noite. Pois o próprio início da noite não amanhece para o primeiro dia da semana; mas a própria noite que começa a terminar na luz; e é modo usual de falar da Sagrada Escritura significar o todo pela parte. Pela "tarde", portanto, significou a noite, cujo extremo é o alvorecer: pois ao alvorecer vieram ao sepulcro.
Pode causar inquietação a questão de como, segundo São Mateus, o Anjo estava sentado sobre a pedra depois de ter sido removida do sepulcro, enquanto São Marcos diz que as mulheres, tendo entrado no sepulcro, viram um jovem sentado à direita. A menos que entendamos que São Mateus silenciou sobre o Anjo que elas viram ao entrar, e São Marcos sobre aquele que elas viram sentado sobre a pedra, de modo que tenham visto dois, e ouvido separadamente de ambos o que os Anjos disseram sobre Jesus; ou certamente quando São Marcos diz "entrando no sepulcro", devemos entender que se refere a algum recinto murado, que provavelmente cercava o local naquela época, isto é, algum espaço diante da pedra, na qual havia sido escavado o lugar para a sepultura, de modo que tenham visto nesse mesmo espaço, sentado à direita, aquele que São Mateus descreve como sentado sobre a pedra. Segue-se: "E seu aspecto era como um relâmpago, e suas vestes como a neve".
Diz-se que saíram do sepulcro, isto é, daquele lugar onde havia o espaço do jardim diante da pedra escavada.
Concluímos que elas tiveram comunicação com os Anjos duas vezes junto ao sepulcro; quando viram um Anjo, de quem São Mateus e São Marcos falam; e novamente quando depois viram dois Anjos, como São Lucas e São João relatam. E semelhantemente, do próprio Senhor duas vezes: uma vez naquele lugar quando Maria julgou ser Ele o jardineiro; e agora, novamente, quando Ele as encontrou no caminho, para confirmá-las pela repetição e para restaurá-las do temor.
Que o Senhor não havia de mostrar-se onde primeiro se havia deixado ver, mas na Galileia (onde depois foi visto), e onde ordenou que poderia ser visto, tanto pelo Anjo como por si mesmo, torna qualquer fiel atento a buscar em que mistério isto é dito. Com efeito, Galileia se interpreta como transmigração ou revelação1. Primeiramente, segundo o significado de transmigração, que outra coisa ocorre entender, senão que a graça de Cristo haveria de transmigrar do povo de Israel para os gentios, aos quais os apóstolos, pregando o Evangelho, de modo algum os fariam crer, se o próprio Senhor não preparasse para eles o caminho nos corações dos homens? E isso se entende como "irá adiante de vós para a Galileia". E o que se acrescenta: "ali o vereis", assim se entende: isto é, ali encontrareis os seus membros; ali reconhecereis o seu corpo vivo naqueles que vos receberem. Segundo, porém, a interpretação de Galileia como revelação, deve-se entender que Ele não estará mais na forma de servo, mas naquela em que é igual ao Pai. Aquela será a revelação como a verdadeira Galileia, quando seremos semelhantes a Ele e o veremos como Ele é. Essa será também a mais feliz transmigração deste século para aquela eternidade.
[1] Conforme os dois sentidos diferentes da raiz hebraica, 'migrar de um país', ou 'revelar', ambos derivando da noção primitiva de 'desnudar'. ↩
Mas deve-se considerar como o Senhor poderia ser visto corporalmente na Galileia: pois é manifesto que não foi no mesmo dia em que ressuscitou; pois naquele dia foi visto em Jerusalém no início da noite, como São Lucas e São João concordam muito claramente; nem mesmo nos oito dias seguintes, após os quais diz São João que o Senhor apareceu aos discípulos, onde primeiramente Tomé o viu, o qual não o havia visto no dia de sua ressurreição: a não ser que alguém diga que não foram aqueles onze que já então eram chamados apóstolos, mas que onze dos discípulos estavam lá, de entre o grande número de discípulos. Mas surge outra dificuldade; pois São João, quando relata que o Senhor foi visto não no monte pelos onze, mas junto ao mar de Tiberíades por sete que pescavam, diz: "Esta foi já a terceira vez que Jesus se manifestou a seus discípulos"; o que se deve entender como referindo-se ao número de dias, não ao número de manifestações. Mas se entendermos que dentro daqueles oito dias, antes que Tomé o visse, o Senhor foi visto por quaisquer onze discípulos, esta não será a terceira manifestação no mar de Tiberíades, mas a quarta; e por isto somos obrigados a entender que aconteceu depois de todas estas coisas o que os onze discípulos viram no monte da Galileia. Encontramos, portanto, nos quatro Evangelistas, mencionado dez vezes que o Senhor foi visto pelos homens após a ressurreição: uma vez junto ao sepulcro pelas mulheres; novamente pelas mesmas saindo do sepulcro no caminho; terceiro a Pedro; quarto a dois que iam para uma aldeia; quinto a muitos em Jerusalém, onde Tomé não estava; sexto onde Tomé o viu; sétimo junto ao mar de Tiberíades; oitavo no monte da Galileia segundo São Mateus; nono, como diz São Marcos, quando finalmente reclinavam-se à mesa, pois já não iriam banquetear com ele na terra; décimo no mesmo dia, não mais na terra, mas elevado numa nuvem, quando subia ao céu: o que São Marcos e São Lucas mencionam. Mas nem tudo foi escrito, como São João confessa: pois frequente era a sua convivência com eles durante os quarenta dias, antes que subisse ao céu.
Por estas duas palavras, chamados e separados, Paulo distingue entre a Igreja, que é aceita por Deus, e a sinagoga, cuja glória se esvaneceu. A Igreja (isto é, ecclesia) assim se chama porque "convoca"; a sinagoga, porque "ajunta".
Os profetas surgiram do povo judeu, e Paulo testifica que o evangelho, no qual os crentes são justificados pela fé, fora prometido anteriormente por meio deles.... Pois há também profetas dentre os gentios, nos quais igualmente se encontram algumas coisas que ouviram acerca de Cristo e profetizaram. Coisa semelhante se diz até mesmo da Sibila [Virgílio, Éclogas]... mas os escritos dos gentios, tão repletos de supersticiosa idolatria, não devem ser tidos por sagrados apenas porque dizem algo acerca de Cristo.
Segundo esta predestinação, Cristo foi glorificado antes da fundação do mundo, para que, em consequência da sua ressurreição dentre os mortos, tivesse glória à direita do Pai, onde agora está assentado. Assim, quando viu que chegara o tempo da sua predestinada glorificação, a fim de que aquilo que já fora realizado pela predestinação viesse agora também a acontecer de fato, orou: "Pai, glorifica-me junto de ti mesmo com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse."
Jesus foi predestinado, para que aquele que havia de ser Filho de Davi segundo a carne fosse, não obstante, em poder, Filho de Deus, segundo o Espírito de santificação, pois nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria. Este é aquele ato singular, realizado de modo inefável, a assunção de um homem pelo Verbo de Deus, de sorte que Ele pudesse verdadeira e propriamente ser chamado a um só tempo Filho de Deus e Filho do Homem — Filho do Homem por causa do homem que foi assumido, Filho de Deus por causa do Deus unigênito que o assumiu.
Cristo é filho de Davi na fraqueza segundo a carne, mas Filho de Deus em poder segundo o Espírito de santificação (...). A fraqueza refere-se a Davi, mas a vida eterna, ao poder de Deus.
Teve Paulo de opor-se à incredulidade daqueles que acolhem o nosso Senhor Jesus Cristo apenas segundo o homem de que se revestiu, mas não compreendem a sua divindade, que o distingue de toda criatura.
Paulo preserva muito bem o ponto principal de sua causa, de modo que ninguém ouse dizer que foi conduzido ao evangelho por méritos de sua vida anterior. Como poderia alguém afirmar isto, quando nem mesmo os próprios apóstolos... puderam receber o seu apostolado sem que antes... recebessem a graça, que purifica e justifica os pecadores? Exposição Rudimentar da Epístola aos Romanos
Aqui Paulo ensina que esta salvação viera não somente aos judeus, como alguns cristãos judaizantes pensavam.
Em vez de dizer "saudações", Paulo diz "graça a vós e paz". A graça, pois, provém de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, pela qual são perdoados os nossos pecados, que nos haviam desviado de Deus; e destes provém também esta paz, pela qual somos reconciliados com Deus. Pois, pela graça, dissolvem-se as hostilidades uma vez remitidos os pecados, para que agora possamos apegar-nos em paz a Ele, de quem somente os nossos pecados nos haviam separado…. Mas quando estes pecados forem perdoados pela fé em nosso Senhor Jesus Cristo, teremos paz, sem separação alguma entre nós e Deus.
Aqui, novamente, Paulo pôs em relevo a graça de Deus, e não o mérito dos santos, pois não diz "aos que amam a Deus", mas antes "aos amados de Deus".
Esta justiça é a graça do Novo Testamento, pela qual os fiéis são justos enquanto vivem pela fé, até que, pela perfeição da justiça, sejam conduzidos à visão face a face, assim como são conduzidos também à imortalidade do próprio corpo, pela perfeição da salvação.
O que é hoje a Igreja, antes do aparecimento daquilo que há de ser, vive em labores e aflições, e nela os justos vivem pela fé.
Quem afirma ser justo sem a fé é mentiroso. Sermões para a Festa da Natividade, Homilia
Aqueles a quem o apóstolo repreendeu conheciam, mas não deram graças e, dizendo-se sábios, tornaram-se de fato loucos e caíram na idolatria. Pois, quando o apóstolo falava aos atenienses, mostrou claramente que os sábios entre os gentios haviam descoberto o Criador [...]. Condenou primeiro a incredulidade dos gentios, a fim de mostrar que poderiam obter a graça se se convertessem. Pois seria injusto que sofressem a pena da incredulidade sem, contudo, obter a recompensa da fé.
Como quer Paulo dizer que estão sem desculpa, senão por referência a uma espécie de desculpa que costuma inspirar à soberba humana protestos tais como: "Se ao menos eu soubesse, não o teria feito"?... Este gênero de desculpa lhes é retirado quando um preceito é dado, ou quando o conhecimento de como evitar o pecado lhes é claramente manifestado.
Notai que Paulo não os chama de ignorantes da verdade, mas diz que detinham a verdade em iniquidade, e não deixa de responder à pergunta óbvia: como poderiam aqueles a quem Deus não dera a lei ter conhecimento da verdade? Pois ele diz que, através das coisas visíveis da criação, chegaram ao entendimento das coisas invisíveis do Criador.
As coisas invisíveis são vistas de um modo peculiar e próprio. Quando vistas, são muito mais certas que os objetos do sentido corporal; contudo, dizem-se invisíveis porque não podem ser vistas por olhos mortais.
Se tivessem dado graças a Deus, que lhes deu esta sabedoria, não teriam reivindicado para si nenhum mérito por suas próprias ideias. Por isso foram entregues pelo Senhor aos desejos de seus próprios corações, e fizeram coisas indecorosas.
Certamente aquele escurecimento do coração já era pena e castigo, e por essa pena, isto é, pela cegueira do coração em razão do abandono da luz da sabedoria, caíram em pecados cada vez mais graves.
É a soberba que afasta o homem da sabedoria, e a insensatez é a consequência de se apartar da sabedoria.
Aqui o Apóstolo tem em mente os romanos, os gregos e os egípcios, todos jactanciosos de sua fama de sabedoria.
Muitos são deixados a si mesmos, para sua própria desgraça… Um homem que pediu grandes riquezas pode tê-las recebido para sua própria desgraça. Enquanto delas carecia, pouco tinha a temer; tão logo entrou em sua posse, tornou-se presa do mais forte.
Quando a vontade má recebe poder para executar seu propósito, isto provém do juízo de Deus, em quem não há iniquidade alguma. É assim, tanto quanto de outros modos, que se executa a Sua punição. Ela não é menos justa pelo fato de ser oculta. O ímpio somente sabe que está sendo punido quando alguma pena manifesta o faz sentir, contra sua vontade, o mal do pecado que cometeu de livre vontade.
Isto significa que Deus os abandonou aos desejos de seus próprios corações. Pois diz Paulo que receberam de Deus o que mereciam.
Pois, ao adorarem e servirem à criatura mais do que ao Criador, não quiseram ser templo do único Deus verdadeiro. Ao desejarem tê-lO juntamente com muitas outras coisas, lograram antes não O ter de modo algum do que tê-lO juntamente com muitos falsos deuses.
Quem segue o pernicioso atrativo de suas concupiscências e procura afastar os que o impediriam, precipita-se diretamente no pecado.
Tudo quanto fizeram, fizeram-no sem coação. Pois, ao darem seu consentimento às más ações, aprovam até mesmo aquilo que eles próprios não fizeram.
Fala aqui Paulo de pecados já cometidos. E quando diz «ó homem, quem quer que sejas», inclui não somente o gentio, mas também o judeu que queria julgar os gentios segundo a lei.
Porventura o fato de alguns perseverarem em sua maldade prova que Deus não persevera em Sua paciência, punindo pouquíssimos pecados neste mundo, para que não deixemos de crer em Sua divina providência e, reservando muitos para o juízo final, para justificar o Seu futuro decreto? Carta
Sempre que Paulo fala da ira de Deus, entende-a como significando castigo.
É geralmente aceite que "juízo" é a expressão habitual para a condenação eterna.
O apóstolo não pretendeu dizer que aqueles que pecam na ignorância sofrerão punição pior do que os que conhecem a lei. Parece que é pior perecer do que ser julgado. Antes, o apóstolo aqui apenas distinguia entre judeus e gentios.
Compare com João [:]: "Amados, se o nosso próprio coração nos condena, Deus é maior do que a nossa consciência."
Se o judeu se gloria em Deus segundo o modo que a graça requer — a qual não é dada segundo os méritos das obras, mas gratuitamente —, o seu louvor seria de Deus, e não dos homens... Mas eles julgavam ter cumprido esta lei de Deus por sua própria justiça, sendo, contudo, transgressores dela. E assim, para eles, ela operou a ira, à medida que se multiplicava o pecado, cometido por aqueles que sabiam o que era pecado. Os que faziam o que a lei ordenava sem o auxílio do Espírito da graça, faziam-no por temor da pena, e não por amor da justiça.
O apóstolo não disse isto como se favorecesse forçar os gentios a permanecerem incircuncisos, ou os judeus a não aderirem às tradições de seus pais. Antes, exortava a que nenhum dos dois grupos fosse forçado à prática do outro, mas que cada pessoa tivesse o direito, não a obrigação, de aderir ao seu próprio costume.
Os gentios tornam-se membros da casa de Israel quando sua incircuncisão é contada como circuncisão, na medida em que não exibem a justiça da lei pelo corte da carne, mas a guardam na caridade do coração.
Isto significa que a lei deve ser entendida segundo o Espírito, e não segundo o que diz a letra. Isto se aplica especialmente àqueles que interpretaram a circuncisão mais segundo a carne do que segundo o Espírito.
Este Deus, em si mesmo, é verdadeiro; tu, em ti mesmo, és mentiroso — nEle podes ser verdadeiro! A Santa Epístola de Santo .
Alguns pensam que afirmações como esta constituem um ataque à lei. Mas devem ser lidas com muito cuidado, de modo que nem a lei seja condenada pelo apóstolo, nem o livre-arbítrio seja retirado do homem. Distingamos, pois, os seguintes quatro estados da existência humana: antes da lei, sob a lei, sob a graça e no repouso. Antes da lei, seguimos a concupiscência da carne. Sob a lei, somos arrastados por ela. Sob a graça, nem a seguimos nem somos arrastados por ela. No repouso, não há concupiscência da carne. Antes de sermos interpelados pela lei, não lutamos, porque não somente cobiçamos e pecamos, mas até aprovamos o pecado. Sob a lei, lutamos, mas somos derrotados. Reconhecemos que o que fazemos é mau e que não queremos fazê-lo, mas, como ainda não há graça, somos vencidos. Neste estado, descobrimos quão profundamente jazemos, e, quando queremos levantar-nos e, no entanto, caímos, somos ainda mais gravemente afligidos. A lei é boa, porque proíbe o que deve ser proibido e exige o que deve ser exigido. Mas quando alguém julga poder cumprir a lei por suas próprias forças, e não mediante a graça do seu Libertador, esta presunção em nada o beneficia, antes o prejudica de tal modo que é tomado por um desejo ainda mais forte de pecar e, por seus pecados, acaba por tornar-se transgressor. Assim, quando o homem caído reconhece que não pode levantar-se por si mesmo, que clame ao seu Libertador em busca de socorro. Então vem a graça, que pode perdoar os pecados anteriores, prestar auxílio ao que luta, suplementar a justiça com a caridade e afastar o temor. Quando isto se dá, ainda que os desejos carnais continuem, nesta vida, a combater contra o nosso espírito e a tentar arrastar-nos ao pecado, o nosso espírito, contudo, não cede a estes desejos, porquanto está enraizado na graça e no amor de Deus, e cessa de pecar. Pois não pecamos por termos estes desejos perversos, mas por cedermos a eles. Estes desejos nascem da mortalidade da carne, que herdamos do primeiro pecado do primeiro homem, razão pela qual nascemos carnais. Nem cessarão até que, pela ressurreição do corpo, obtenhamos a transformação que nos foi prometida. Então estaremos no quarto estado, no qual há paz perfeita. A paz perfeita é o estado em que nada nos há de resistir, porque não resistimos a Deus. O livre-arbítrio existiu perfeitamente no primeiro homem; mas em nós, antes da graça, não há livre-arbítrio que nos permita não pecar, senão apenas o bastante para que não queiramos pecar. A graça, porém, torna possível não somente que queiramos fazer o que é reto, mas que de fato o façamos, não por nossas próprias forças, mas pelo auxílio do nosso Libertador, o qual, na ressurreição, nos dará aquela paz perfeita que é a consequência da boa vontade.
A justiça de Deus não é aquela pela qual Deus é justo, mas aquela com que Ele reveste o homem quando justifica o ímpio. A esta dão testemunho a Lei e os Profetas…. A justiça de Deus não se manifesta fora da lei, pois, do contrário, não poderia ter sido por ela testemunhada. É justiça de Deus à parte da lei, porque Deus a confere ao crente por meio do Espírito da graça, sem o auxílio da lei.
Como poderia Paulo ter prometido glória, honra e paz às boas obras dos gentios à parte da graça do evangelho? Porque, do contrário, não haveria acepção de pessoas diante de Deus. E, porque não são os ouvintes, mas os cumpridores da lei que são justificados, ele argumenta que todos, quer judeus quer gentios, terão igualmente a salvação no evangelho.
Isto não se deve entender de modo que se diga que o homem que recebeu a fé e continua a viver é justo, ainda que leve uma vida perversa.
A diferença de preposição ("com base em" versus "por meio de") não indica diferença alguma de sentido, mas serve apenas para variar a expressão.
Anulamos, pois, o livre-arbítrio pela graça? De modo algum! Antes, estabelecemos o livre-arbítrio. Assim como a lei não é anulada pela fé, também o livre-arbítrio não é anulado, mas estabelecido, pela graça. O livre-arbítrio é necessário ao cumprimento da lei. Mas pela lei vem o conhecimento do pecado; pela fé vem a obtenção da graça contra o pecado; pela graça vem a cura da alma da enfermidade do pecado; pela cura da alma vem o livre-arbítrio; pelo livre-arbítrio vem o amor da justiça; pelo amor da justiça vem a operação da lei. Assim, como a lei não é anulada, mas estabelecida pela fé, visto que a fé obtém a graça pela qual a lei pode ser cumprida, também o livre-arbítrio não é anulado, mas estabelecido pela graça, visto que a graça cura a vontade pela qual a justiça pode livremente ser amada.
A lei é confirmada pela fé. Sem a fé, a lei apenas ordena, e tem por culpados os que não cumprem os seus mandamentos, a fim de que, depois, se voltassem para a graça do Libertador aqueles que gemem sob a incapacidade de fazer o que é ordenado.
Como se manteria a lei senão pela justiça? E por uma justiça, ademais, que é da fé, pois o que não pôde ser cumprido pela lei é cumprido pela fé.
Visto que Abraão, sem a lei, obteve glória não pelas obras da lei (como se pudesse cumprir a lei por suas próprias forças), pois a lei ainda não havia sido dada, a glória pertence a Deus, e não a ele. Pois foi justificado não por mérito próprio, como que pelas obras, mas pela graça de Deus mediante a fé.
Falava aqui Paulo do modo como se dão os salários. Mas Deus deu por graça, porque deu aos pecadores para que, pela fé, vivessem justamente, isto é, praticassem boas obras. Assim, as boas obras que fazemos depois de termos recebido a graça não devem ser atribuídas a nós, mas antes Àquele que nos justificou por Sua graça. Pois, se Deus tivesse querido dar-nos a recompensa que nos era devida, ter-nos-ia dado a punição devida aos pecadores.
Deus torna piedoso o homem ímpio, a fim de que este persevere nesta piedade e justiça. Pois o homem é justificado para que seja justo, e não para que julgue lícito persistir no pecado.
Disse Paulo isto porque a ira de Deus é mais severa para com o transgressor que conhece o pecado por meio da lei e, ainda assim, o comete.
Isto se aplica ao segundo estado do homem, quando ele está sob a lei.
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Tudo o que Deus não gerou de si mesmo, mas fez por meio do seu Verbo, Ele o fez não a partir de coisas já existentes, mas a partir do que absolutamente não existia, isto é, a partir do nada.
Isto significa que a fé está no homem interior, à vista de Deus, e não em ostentação humana, que é o que a circuncisão da carne representa.
Diz Paulo que Abraão "deu glória a Deus" quando atacava aqueles que buscavam a sua própria glória à vista dos homens, praticando as obras da lei.
Deus opera a fé dos gentios, porquanto é capaz de cumprir o que prometeu. Se é Deus quem produz a nossa fé, agindo de modo admirável em nossos corações para que creiamos, certamente não devemos temer que Ele não possa realizar a obra inteira.
Paulo diz isto a fim de conduzir-nos gradualmente ao amor de Deus, o qual, segundo diz, temos pelo dom do Espírito. Mostra-nos que todas aquelas coisas que poderíamos atribuir a nós mesmos devem ser atribuídas a Deus, que Se aprouve em dar-nos o Seu Espírito Santo por meio da graça.
É pelo amor que somos conformados a Deus, e, sendo assim conformados e feitos semelhantes a Ele, e apartados do mundo, já não somos confundidos por aquelas coisas que nos deveriam estar sujeitas. Esta é a obra do Espírito Santo.
Quem pode ferir tal homem? Quem pode subjugá-lo? Na prosperidade, progride moralmente; e na adversidade, aprende a conhecer o progresso que fez. Quando possui em abundância os bens mutáveis, não põe neles a sua confiança; e quando lhe são retirados, vem a saber se, de fato, o haviam ou não tomado cativo.
Para que Deus seja amado, o amor de Deus é derramado em nossos corações, não pelo livre-arbítrio cuja fonte está em nós mesmos, mas pelo Espírito Santo, que nos é dado.
Não é por nós mesmos, mas pelo Espírito Santo que nos é dado, que esta caridade — mostrada pelo Apóstolo como dom de Deus — é a razão pela qual a tribulação não destrói a paciência, mas antes a faz nascer.
Se as almas de todos os homens derivam daquela que foi insuflada no primeiro homem... ou a alma de Cristo não derivou daquela, visto que ele não teve pecado de espécie alguma... ou, se a sua alma derivou daquela primeira, ele a purificou ao assumi-la para si, a fim de nascer da virgem e vir até nós sem vestígio algum de pecado, quer cometido, quer transmitido.
Quando o homem nasce, já nasce com a morte, porquanto contrai o pecado a partir de Adão.
Assim como os infantes não podem evitar descender de Adão, tampouco podem evitar ser tocados pelo mesmo pecado, a menos que sejam libertados de sua culpa pelo batismo de Cristo.
Todos, até mesmo as criancinhas, romperam a aliança de Deus, não em virtude de ação pessoal alguma, mas em virtude da origem comum da humanidade naquele único ancestral no qual todos pecaram.
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Todos os homens por quem Cristo morreu morreram no pecado do primeiro Adão, e todos os que são batizados em Cristo morrem para o pecado.
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Paulo disse isto contra aqueles que pensavam que o pecado poderia ser removido pela lei. Ele diz que os pecados foram tornados manifestos pela lei, não abolidos. Não diz que não havia pecado, mas apenas que não era imputado. Uma vez dada a lei, o pecado não foi removido, mas passou a ser imputado.
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Isto pode ser entendido de dois modos: ou "à semelhança da transgressão de Adão, reinou a morte", ou (como certamente deve ser lido) "a morte reinou até mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, mas pecaram antes que a lei fosse dada". Assim, os que receberam a lei podem ser entendidos como tendo pecado à semelhança da transgressão de Adão, porque também Adão pecou depois de haver recebido uma lei a obedecer... Adão é a figura daquele que havia de vir, mas de modo inverso, pois assim como pela morte veio Adão, assim pela vida veio nosso Senhor.
Adão é figura de Cristo, mas de modo inverso, porque o bem feito por Cristo aos regenerados é maior do que o mal feito por Adão a seus descendentes.
O dom sobreleva de duas maneiras: primeiro, porque a graça abunda muito mais, visto que confere a vida eterna, ainda que a morte reine na esfera temporal por causa da morte de Adão; segundo, porque pela condenação de um só pecado adveio, por meio de Adão, a morte de muitos, ao passo que, pela remissão de muitos pecados, mediante nosso Senhor Jesus Cristo, foi dada a graça para a vida eterna.
Eis a diferença: em Adão foi condenado um só pecado, mas pelo Senhor foram perdoados muitos pecados.
"Muito mais reinarão aqueles" refere-se à vida eterna; "os que recebem a abundância da graça" refere-se ao perdão de muitos pecados.
Deus quer que todos aqueles a quem a graça chega mediante a justiça do Único, para a justificação da vida, sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.
Ninguém nasce sem a intervenção da concupiscência carnal, que é herdada do primeiro homem, que é Adão, e ninguém renasce sem a intervenção da graça espiritual, que é dada pelo segundo homem, que é Cristo.
Aqui Paulo retoma o argumento original, interrompido [a partir do versículo].
Esta é a figura do Adão futuro.
Com isto demonstrou Paulo claramente que os judeus não sabiam por qual desígnio a lei fora dada. Não foi dada para trazer a vida, pois é a graça que traz a vida pela fé; mas a lei foi dada para mostrar com quão grandes e apertadas cadeias estavam presos aqueles que julgavam poder cumprir toda a justiça por suas próprias forças. Assim o pecado abundou, tanto porque o desejo se tornava mais ardente à luz da proibição, quanto porque o crime da transgressão recaía sobre os que pecavam contra a lei. Quem considerar o segundo dos quatro estados do homem entenderá isto.
A proibição aumentou a concupiscência. Fê-la invicta, de modo que se acrescentasse a transgressão, a qual não existia sem a lei, ainda que já existisse o pecado.
A graça significa que as boas obras são agora realizadas por aqueles que antes praticavam o mal; ela não os faz permanecer no mal na crença de que o bem lhes será dado em troca.
Nada mais breve ou melhor se poderia dizer. Pois que dom mais útil nos confere a graça de Deus do que fazer-nos morrer para o pecado? Carta
Aqui Paulo assinala que os pecados passados foram perdoados e que, neste perdão, a graça sobreabundou de tal modo que também os pecados anteriores foram remitidos. Assim, quem quer que procure aumentar o pecado a fim de sentir um aumento da graça não compreende que, ao agir desse modo, faz com que a graça nada possa operar nele. Pois a obra da graça é que morramos para o pecado.
Ser batizado na morte de Cristo não é outra coisa senão morrer para o pecado, assim como Ele morreu na carne.
Isto se refere a Deuteronômio [:]: "Maldito todo homem pendurado num madeiro." Pois, assim como a crucifixão do velho homem é simbolizada na cruz do Senhor, assim também o renascimento do novo homem é significado na ressurreição. É evidente que, segundo Paulo, ocupamos o lugar do velho homem, que é amaldiçoado. Ninguém duvida que foi por causa dele que o Senhor foi chamado "pecado", pois "Ele levou os nossos pecados" e "foi feito pecado por nós", e "pelo pecado condenou o pecado".
Devemos travar um combate constante e diário para não obedecermos àqueles desejos que são proibidos ou impróprios. Pois desta espécie de falta acontece que o olho se volta para onde não deveria olhar, e, se esta falta cresce e prevalece, comete-se até o adultério corporal, o qual se consuma no coração tanto mais rapidamente quanto o pensamento é mais veloz que a ação e nada tem que o detenha ou retarde.
O reinado do pecado é derrubado e destruído, em parte por tal emenda da parte dos homens, de modo que a carne seja submetida ao espírito, e em parte pela condenação daqueles que perseveram no pecado, a fim de que sejam justamente refreados, não podendo perturbar os justos, que reinam com Cristo. Comentário ao Sermão da Montanha.
Não é que a lei seja má, mas ela torna culpados os que estão sob ela, ao dar mandamentos sem prover o auxílio para cumpri-los. Com efeito, a graça ajuda alguém a tornar-se cumpridor da lei, pois, sem tal graça, quem vive sob a lei não será mais do que um ouvinte da lei.
Isto se refere ao terceiro estado do homem, quando em sua mente serve à lei de Deus, ainda que em sua carne ainda sirva à lei do pecado. Pois ele não obedece ao desejo de pecar, ainda que as concupiscências continuem a cortejá-lo e a incitá-lo a render-se, até que o corpo seja ressuscitado para a vida nova e a morte seja tragada pela vitória. Porque não cedemos aos desejos maus, estamos sob a graça, e o pecado não reina em nossos corpos mortais. Mas o homem que é dominado pelo pecado, ainda que queira resistir-lhe, ainda está sob a lei e ainda não sob a graça.
A graça faz com que o pecado não tenha poder sobre ti. Portanto, não confies em ti mesmo, para que o pecado não tenha, assim, muito mais poder sobre ti.
Observai como esta analogia difere daquilo a que se refere. Paulo diz que o marido morre, para que a mulher, livre da lei de seu marido, possa casar-se com quem lhe aprouver. Paulo compara a alma à mulher e considera o marido como as paixões do pecado que operam em nossos membros para produzir os frutos da morte, os quais são a prole digna de tal casamento. A lei não foi dada para tirar o pecado nem para nos libertar dele, mas para revelar o que é o pecado antes que a graça viesse. O resultado é que aqueles que estão colocados sob a lei são tomados por um desejo ainda mais forte de pecar e pecam ainda mais por causa da transgressão. Mas, ao estabelecer esta tríplice analogia — a alma como a mulher, as paixões do pecado como o homem e a lei como a lei do marido —, Paulo não conclui que a alma é libertada quando seus pecados são postos à morte da mesma maneira que a mulher é libertada quando seu marido morre. Antes, ele diz que a própria alma morre para o pecado e é libertada da lei a fim de pertencer a outro marido, que é Cristo. A alma morreu para o pecado, mas em certo sentido o pecado ainda está vivo. Assim acontece que, embora os desejos e certas incitações ao pecado permaneçam em nós, não lhes obedecemos nem cedemos a eles, porque morremos para o pecado e agora servimos à lei de Deus.
O Apóstolo diz que, enquanto o homem vive no pecado, vive sob a lei, assim como a mulher vive sob a lei de seu marido enquanto ele estiver vivo.
A lei é apenas um código escrito para aqueles que não a cumprem no espírito da caridade, ao qual pertence o Novo Testamento.
Nesta passagem [até o v. ], parece-me que o apóstolo se retrata a si mesmo como um homem posto sob a lei, e que fala nesse papel. A lei foi dada não para introduzir o pecado nem para extirpá-lo, mas simplesmente para torná-lo conhecido; para, pela demonstração do pecado, dar à alma humana o senso de sua culpa, em lugar da segurança de sua inocência. O pecado não pode ser vencido sem a graça de Deus; por isso a lei foi dada para converter a alma por meio da ansiedade acerca de sua culpa, a fim de que estivesse pronta para receber a graça…. A concupiscência não lhe foi implantada pela lei, mas lhe foi dada a conhecer.
Nem toda espécie de concupiscência existia antes que a proibição a aumentasse. Pois, uma vez que a proibição aumenta a concupiscência quando falta a graça do Libertador, é evidente que nem toda ela existia previamente. Mas quando, na ausência da graça, a concupiscência foi proibida, ela cresceu tanto que atingiu sua própria espécie de plenitude, a ponto de aparecer em oposição à lei e acrescentar ofensa criminosa à transgressão. Quando Paulo diz: "Sem a lei, o pecado jazia morto", não quer dizer que ele não existisse, mas antes que jazia oculto. Ele o deixa claro [no versículo]. A lei, portanto, é boa, mas sem a graça apenas revela os pecados; não os remove.
Por "o pecado jaz morto", Paulo quer dizer que ele está "latente" em nós.
Por "o pecado está morto", o apóstolo quer dizer que ele não nos é "imputado".
Quando diz "morri", Paulo quer dizer que percebeu que já estava morto, porque aquele que vê por meio da lei o que deve fazer, mas não o faz, peca com transgressão.
Nada se pode dizer reviver, se antes não estivera vivo.
Paulo quer dizer, ou que a persuasão do prazer para o pecado é mais poderosa quando algo é proibido, ou então que, ainda que um homem tenha feito algo em conformidade com as exigências da lei, se não há ainda fé assente na graça, então ele se esforça por atribuir isto a si mesmo e não a Deus, e peca ainda mais por causa da soberba.
Paulo quer dizer com isto que o fruto de um desejo proibido é mais doce. Por esta razão, os pecados cometidos em segredo são mais doces, ainda que esta doçura seja mortífera…. Ela nos engana e se converte em amargura gravíssima.
Era necessário mostrar ao homem a torpeza de sua enfermidade. Contra a sua maldade, nem mesmo um mandamento santo e bom podia prevalecer; por ele, a maldade antes se aumentava do que diminuía.
Aqui Paulo desenvolve o que disse [no versículo]. Não é que uma coisa boa (isto é, a lei) se tenha tornado morte para ele, mas antes que o pecado, por meio da bondade da lei, operou a morte, isto é, que se tornou manifesto aquilo que, sem a lei, permanecera oculto. Pois todo homem reconhece que está morto se não pode cumprir um preceito que reconhece como justo, e, por causa da ofensa criminosa da transgressão, peca ainda mais do que pecaria se aquilo não tivesse sido proibido. Antes da vinda da lei, a ofensa era menor, porque sem lei não há transgressão.
A lei somente pode ser cumprida pelos homens espirituais, e somente a graça de Deus pode produzi-los. Pois o homem que foi feito espiritual, tal como a lei, fará com facilidade o que ela ordena. Não estará sob a lei, mas em uníssono com ela. Será também alguém que não se deixa enredar pelos bens temporais, nem se deixa aterrorizar pelos males temporais.
Isto pode parecer, aos menos perspicazes, contradizer [o versículo]. Como pode o pecado ser manifestado se não é entendido? Mas aqui "não entendo" significa "não aprovo". Por exemplo, as trevas não podem ser vistas, mas são percebidas em contraste com a luz; ou seja, perceber as trevas não é vê-las. Do mesmo modo, o pecado, porque não é iluminado pela luz da justiça, é discernido por não se entender, à maneira como as trevas são percebidas por não se ver. "Quem entende as suas próprias transgressões?" — Sobre a Epístola aos Romanos
A lei é defendida contra toda acusação, mas devemos guardar-nos de pensar que estas palavras neguem o nosso livre-arbítrio, o que não é verdade. O homem aqui descrito está sob a lei, antes da vinda da graça. O pecado o subjuga quando ele tenta viver justamente por suas próprias forças, sem o auxílio da graça libertadora de Deus. Pois, por seu livre-arbítrio, o homem é capaz de crer no Libertador e de receber a graça. Assim, com a libertação e o auxílio daquele que a concede, não pecará e cessará de estar sob a lei. Antes, estando em uníssono com a lei, ou na lei, cumpri-la-á pelo amor de Deus, o que não poderia ter feito por temor.
Diz Paulo que o mal da carne não é bom, mas que, quando este mal houver cessado de existir, a carne ainda subsistirá; porém... então não será defeituosa nem corrupta.
É possível realizar-se um bem quando não há concessão à concupiscência má, mas o bem se completa ou se aperfeiçoa somente quando a própria concupiscência má já não existe.
Vede em que somos livres, em que nos comprazemos na lei de Deus. A liberdade compraz. Pois enquanto fazes o que é justo por medo, Deus não te compraz. Enquanto o fazes ainda como escravo, Ele não te compraz. Que Ele te compraza, e serás livre.
Paulo vê outra lei em seus membros, guerreando contra a lei de sua mente. Ele vê que ela está ali, não se lembra de que ela esteve ali. Ele é pressionado por aquilo que é presente, não relembrando aquilo que é passado. E não somente vê esta lei guerreando contra ele, mas também levando-o cativo à lei do pecado, que está (não estava) em seus membros.
Vede que combate travamos contra os nossos pecados mortos, como demonstra aquele ativo soldado de Cristo e fiel doutor da Igreja. Pois como está morto o pecado, se opera em nós muitas coisas enquanto contra ele lutamos? Que são estas muitas coisas senão desejos insensatos e nocivos que precipitam na morte e na ruína aqueles que a eles consentem? Ora, suportá-los pacientemente e não lhes ceder é uma luta, um conflito, uma batalha. E entre que partidos se trava esta batalha, senão entre o bem e o mal — não de natureza contra natureza, mas de natureza contra falta, a qual já está morta, mas ainda há de ser sepultada, isto é, inteiramente curada? Contra Juliano.
Vede quanto dano sofreu a natureza humana pela desobediência da vontade! Sobre a Natureza e a Graça.
Paulo percebe o cativeiro onde a justiça ainda não se cumpriu; pois quando se deleita na lei de Deus, não é prisioneiro, mas amigo da lei, e por isso livre, porque é amigo.
Todo homem está preso pelo hábito carnal à lei do pecado. Diz Paulo que esta lei guerreia contra a sua mente e o aprisiona sob a lei do pecado, pelo que se pode entender que o homem aqui descrito ainda não está sob a graça. Pois se o hábito carnal apenas guerreasse, sem triunfar, não haveria condenação. A condenação consiste em que nos submetemos livremente e servimos às depravadas concupiscências carnais. Mas se tais concupiscências existem e a elas não cedemos, então não somos por elas enredados, e estamos antes sob a graça. Desta graça fala Paulo quando invoca o Libertador e implora o seu auxílio, para que o amor realize pela graça o que o temor não pôde alcançar pela lei.
Nesta vida, a ninguém pode acontecer que esteja de todo ausente dos seus membros uma lei que guerreia contra a lei da mente, porque esta lei continuaria a guerrear ainda que o espírito do homem lhe oferecesse tal resistência a ponto de não se conformar com ela.
Aqui Paulo começa a descrever o homem renovado sob a graça, o terceiro dos quatro estados que distinguimos acima. –.
Ainda que subsistam nele os desejos carnais, o homem que é renovado pela graça, ao não ceder ao pecado, não os serve. Com a mente serve à lei de Deus, ainda que com a carne sirva à lei do pecado. Paulo chama de lei do pecado a condição mortal que decorre da transgressão de Adão, por causa da qual nascemos mortais. É porque a carne caiu que as concupiscências da carne nos seduzem. –.
Estas são as palavras de alguém que já se encontra sob a graça, mas ainda combate contra a própria concupiscência, não para que consinta e peque, mas para que experimente desejos aos quais resiste.
Não há condenação pelo simples fato de existirem desejos carnais; somos condenados apenas se a eles cedermos e pecarmos.
Que tem a carne pecaminosa? Morte e pecado. Que tem a semelhança da carne pecaminosa? Morte sem pecado. Se tivesse pecado, seria carne pecaminosa; se não tivesse morte, não seria semelhança da carne pecaminosa. Assim, pois, ele veio — veio como Salvador. Morreu, mas venceu a morte. Em si mesmo pôs fim ao que temíamos; tomou-o sobre si e o venceu — como poderoso caçador, capturou e matou o leão. Sermões para o Tempo Pascal, Homilia
Aqui Paulo ensina claramente que os preceitos da lei não foram cumpridos (embora devessem sê-lo), porque aqueles que tinham a lei antes da graça estavam entregues aos bens mundanos, dos quais procuravam extrair a felicidade. Tampouco tinham outro temor senão quando a adversidade ameaçava esses bens, e, quando isso acontecia, facilmente se afastavam dos preceitos da lei. Por isso a lei se enfraquecia à medida que seus mandamentos eram desprezados. Isso não era culpa da lei, mas provinha da carne, porque aqueles que buscavam os bens mundanos não amavam a justiça da lei, mas antepunham a ela a vantagem temporal. E assim o nosso libertador, o Senhor Jesus Cristo, assumiu a carne mortal e veio em semelhança da carne do pecado. Pois a morte é o galardão devido à carne do pecado. Certamente a morte do Senhor foi voluntária, e não algo que Ele devesse. Contudo, o apóstolo chama a assunção da carne mortal de “pecado”, ainda que ela fosse sem pecado, porque, ao morrer, o Salvador foi feito, por assim dizer, pecado. Mas “condenou o pecado na carne”, pois a morte do Senhor garantiu que a morte não fosse temida, que os bens mundanos não fossem buscados e que os males mundanos não fossem temidos por aqueles que, antes, eram sábios segundo os caminhos do mundo e, por isso, incapazes de cumprir os mandamentos da lei.
A razão pela qual a graça nos foi concedida por meio do nosso Mediador é que nós, que estávamos poluídos pela carne pecaminosa, fôssemos purificados pela “semelhança da carne pecaminosa”.
Mas, uma vez que esta sabedoria mundana foi destruída e removida no Senhor feito homem, a justiça da lei cumpre-se quando o homem anda não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Donde é dito, com toda a razão: "Não vim para abolir a lei, mas para cumpri-la. Pois o amor é o cumprimento da lei." O amor pertence àqueles que andam segundo o Espírito. Pois o amor pertence à graça do Espírito Santo. Quando não havia amor à justiça, mas somente temor, a lei não era cumprida.
Paulo explica por que disse "inimiga", para que ninguém pense haver alguma natureza derivada de um princípio oposto, que Deus não criou e que contra Ele guerreia. Inimigo de Deus é aquele que não se submete à Sua lei e que assim se comporta por causa da sabedoria da carne. Isto significa que busca os bens do mundo e teme os males do mundo. A definição própria da sabedoria é buscar o que é bom e evitar o que é mau. Por isso, com razão descreve o apóstolo a sabedoria da carne como o desejo ardente de "bens" que não permanecem com o homem, e como o temor de perder aquelas coisas que um dia, de qualquer modo, hão de ser deixadas. Uma sabedoria desta espécie não pode submeter-se à lei de Deus. É necessário que seja destruída, para que em seu lugar se estabeleça a sabedoria do Espírito, a qual não põe sua esperança nos bens do mundo, nem teme os males do mundo. Pois uma só é a natureza da alma, que tem tanto a sabedoria da carne, quando segue as coisas inferiores, quanto a sabedoria do Espírito, quando escolhe as coisas superiores, assim como uma só é a natureza da água, que se congela no frio e se derrete no calor.
Da mesma maneira, a neve não pode suportar o calor. Pois, quando a neve é aquecida, derrete-se; torna-se morna como água, mas ninguém pode então chamá-la de neve.
Paulo mostra que tanto a vida quanto a morte existem no homem que vive em seu corpo — a morte em seu corpo, a vida em seu espírito.
Paulo chama o corpo de “morto” porque ele é mortal. Além disso, é por causa desta mortalidade que a falta das coisas terrenas perturba a alma e desperta certos desejos, aos quais não se submete o homem que serve à lei de Deus em sua mente, nem ao pecado.
Este é um testemunho bastante explícito da ressurreição do corpo, e é suficientemente claro que, enquanto estivermos nesta vida, não faltarão nem os incômodos ocasionados pela carne mortal, nem certas excitações provenientes dos prazeres carnais. Pois, ainda que aquele que está estabelecido sob a graça sirva à lei de Deus com a mente e não ceda, todavia, com a carne, continua a servir à lei do pecado.
Paulo explica agora o quarto dos quatro estados que mencionamos acima. Mas este estado não se alcança nesta vida. Pertence à esperança pela qual aguardamos a redenção do nosso corpo, quando esta matéria corruptível se revestir de incorruptibilidade e imortalidade. Então haverá paz perfeita, porque a alma não mais será perturbada pelo corpo, que será revivificado e transformado em substância celeste.
Citei esta passagem a fim de me valer das palavras do apóstolo para deter vossa livre vontade do mal e exortá-la para o bem. Nem por isso deveis gloriar-vos no homem, isto é, em vós mesmos, e não no Senhor. Vós não viveis segundo a carne, mas fazeis morrer, pelo Espírito, as obras da carne.
Que façamos morrer as obras da carne pelo Espírito é exigido de nós, mas que vivamos é oferecido a nós…. Concordaremos, pois, em dizer que a mortificação da carne não é dom de Deus, e deixaremos de confessá-la como dom de Deus, uma vez que ouvimos que ela nos é exigida, sendo-nos oferecida a vida como recompensa, se a tivermos cumprido? Predestinação dos Santos
Quando, pelo nosso espírito, fazemos morrer as obras da carne, somos impelidos pelo Espírito de Deus, o qual concede a continência pela qual refreamos, dominamos e vencemos a concupiscência.
Fala Paulo do temor que foi inspirado no Antigo Testamento, para que não se perdesse o bem temporal que Deus havia prometido àqueles que ainda não eram seus filhos sob a graça, mas servos sob a lei.
O temor dos escravos, ainda que renda crença ao Senhor, não contém nenhum amor à justiça, mas somente o temor da condenação. O clamor dos filhos é: "Abba, Pai!" — duas palavras, das quais uma pertence à circuncisão e a outra à incircuncisão.
As dispensações dos dois Testamentos são claramente diferentes. O Antigo Testamento é o do temor; o Novo Testamento é o do amor. Mas, perguntarás, que é este espírito de escravidão? Se o Espírito de nossa adoção como filhos é o Espírito Santo, o espírito de escravidão para o temor é aquele que tem o poder da morte. É por causa deste temor que os que viviam sob a lei, e não sob a graça, foram condenados à escravidão durante toda a vida. Nem é de admirar que os que buscavam os bens mundanos recebessem o espírito de escravidão por divina providência… pois este espírito de escravidão não tem poder sobre ninguém, a não ser que lhe tenha sido entregue por ordem da divina providência, visto que a justiça de Deus dá a cada homem o que lhe é devido.
Pela regeneração espiritual, tornamo-nos, pois, filhos e somos adotados no reino de Deus, não como estranhos, mas como suas criaturas e sua prole.
Os humildes e santos servos de Deus, que padecem duplamente quando lhes sobrevêm os males temporais, porquanto padecem tanto juntamente com os ímpios quanto às mãos deles, têm suas próprias consolações e a esperança do século futuro.
Toda criatura está representada no homem, não porque todos os anjos... estejam nele, nem o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há, mas porque a criatura humana é em parte espírito, em parte alma e em parte corpo.
Isto não deve ser entendido simplesmente no sentido de que as árvores, as hortaliças, as pedras e coisas semelhantes se entristecem e suspiram — este é o erro dos maniqueus — nem devemos pensar que os santos anjos estão sujeitos à vaidade ou que serão libertados da escravidão da morte, uma vez que são imortais. Aqui, "a criação" significa o gênero humano.
Paulo fala agora daqueles de nós que já cremos. Pois, embora sirvamos à lei de Deus com o nosso espírito (isto é, a nossa mente), a nossa carne ainda serve à lei do pecado enquanto padecemos dores e angústias mortais…. A adoção já está garantida para os que creem, mas foi realizada apenas espiritualmente, não corporalmente. O corpo ainda não recebeu a sua transformação celestial, ainda que o espírito, que se converteu de seus erros a Deus, já tenha sido transformado pela reconciliação da fé. Portanto, até mesmo os que creem ainda aguardam a revelação que virá na ressurreição do corpo. Este é o quarto estado, quando tudo estará em perfeita paz no repouso eterno, completamente livre de corrupção maligna ou de tormento importuno.
A paciência educa o desejo. Espera, pois Ele espera. Caminha com firmeza para que alcances o termo. Ele não abandonará o lugar para onde te diriges.
É claro, pelo que se segue, que Paulo fala aqui do Espírito Santo... "Não sabemos orar como convém" por duas razões. Primeira, porque ainda não é manifesto qual futuro esperamos ou para onde nos dirigimos; segunda, porque muitas coisas nesta vida podem parecer boas e na verdade são más, e vice-versa. A tribulação, por exemplo, quando sobrevém a um servo de Deus para prová-lo ou corrigi-lo, pode parecer inútil aos que têm menos entendimento... Mas Deus muitas vezes nos socorre por meio da tribulação, ao passo que a prosperidade, a qual pode ser nociva se aprisiona a alma no deleite e no amor desta vida, é buscada em vão. O Espírito suspira fazendo-nos suspirar, suscitando em nós, por seu amor, o desejo da vida futura. "O Senhor teu Deus te tenta, para saber se O amas", isto é, para te fazer saber, pois nada escapa ao conhecimento de Deus.
O Espírito que intercede não é senão a própria caridade que o Espírito operou em vós... A própria caridade geme na oração, e Aquele que a deu não pode fechar os ouvidos à sua voz. Lança fora o cuidado, deixa que a caridade suplique, e os ouvidos de Deus estão prontos para ouvir. A resposta vem — não o que queres, mas o que te é proveitoso.
O Espírito Santo, que intercede junto de Deus em favor dos santos, não geme como quem está em necessidade e experimenta aflição. Antes, move-nos a orar quando gememos, e por isso se diz que Ele faz o que nós fazemos, quando é Ele quem nos move.
Não devemos daí deduzir que o apóstolo, ou aqueles a quem ele se dirigia, ignorassem a Oração do Senhor. Pensamos que a razão pela qual Paulo diz que não sabemos como devemos orar... é que as provações e tribulações temporais são frequentemente úteis para curar a soberba, ou para provar e experimentar a nossa paciência, e, por meio dessa prova e experimentação, granjear-lhe uma recompensa mais gloriosa e preciosa; ou ainda para castigar e apagar certos pecados, ao passo que nós, ignorantes destes benefícios, desejamos ser livres de toda tribulação.
Há, na presciência de Deus, um limite e um número predeterminados de santos que amam a Deus segundo Ele lhes concedeu fazê-lo por meio do Espírito Santo derramado em seus corações, e para estes todas as coisas cooperam para o bem.
Nem todos os que são chamados o são segundo o propósito de Deus, pois o propósito se relaciona à presciência e à predestinação de Deus. Deus predestinou apenas aqueles que sabia que haveriam de crer e seguir o chamado. Paulo os designa como os "eleitos". Pois muitos não vêm, ainda que tenham sido chamados, mas ninguém vem que não tenha sido chamado. Devemos entender o nosso Senhor como "unigênito" em um sentido e como "primogênito" em outro. Cristo é chamado "unigênito" porque não tem irmãos e é Filho de Deus por natureza, o Verbo que estava no princípio, por quem todas as coisas foram feitas. Mas, pela sua assunção da humanidade e pela dispensação da encarnação, mediante a qual até mesmo nós, que não somos filhos por natureza, fomos chamados à adoção de filhos, Ele é dito "primogênito" entre muitos irmãos. Pois, antes dEle, não houve ressurreição dos mortos... mas agora, depois dEle, vem a ressurreição de muitos santos, aos quais Ele não hesita em chamar "irmãos", porque partilha da sua comum humanidade.
Há alguns que pensam que, na ressurreição, todos serão homens e que as mulheres perderão o seu sexo. Esta opinião nasce deste texto e do de Efésios: "Até que todos alcancemos a perfeita varonilidade." ... Quanto a mim, penso que são mais sensatos os que creem que haverá dois sexos na ressurreição.
Serão justificados todos os que são chamados? "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos." Mas, uma vez que os eleitos foram certamente chamados, é evidente que não foram justificados sem terem sido chamados. Contudo, nem todo chamado o é para a justificação; somente aqueles "que são chamados segundo o Seu propósito".
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Deus elegeu os crentes para que cressem, não porque já criam.
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Paulo exorta seus ouvintes a não se deixarem abater pela perseguição, pois talvez estivessem vivendo segundo a sabedoria da carne.
Diz Paulo que está certo, não apenas que é de sua opinião... que nem a morte, nem a promessa da vida temporal, nem qualquer das outras coisas que enumera podem separar o crente do amor de Deus. Ninguém pode separar o crente de Deus: não aquele que ameaça com a morte, porque quem crê em Cristo viverá ainda que morra; nem aquele que oferece a vida terrena, porque Cristo nos dá a vida eterna. Um anjo não pode separar-nos, pois "se um anjo descer do céu e vos anunciar coisa diversa da que recebestes, seja anátema." Tampouco pode separar-nos um principado, isto é, uma potestade adversa, porque Cristo... venceu-os em si mesmo.
Frequentemente, a vã curiosidade acerca de coisas que não podem ser conhecidas... seja no céu, seja no inferno, nos separa de Deus, a menos que o amor triunfe. Pois o amor nos chama a um certo conhecimento espiritual, não pela vaidade das coisas exteriores, mas por uma luz interior. "Nem qualquer outra criatura" pode ser entendido de dois modos. Primeiro, como criatura visível.... Por esta interpretação, Paulo quer dizer que nenhuma outra criatura, isto é, nenhum amor dos corpos, nos separa de Deus. Ou, sem dúvida, pode também significar que nenhuma outra criatura... se interpõe entre nós e Deus, opondo-se a nós e impedindo-nos do abraço divino. Pois, além das mentes humanas, que são racionais, não há outra criatura — senão o próprio Deus.
Os judeus, que sustentavam apenas a primeira parte desta confissão, são refutados pelo Senhor. Pois, quando lhes perguntou de quem diziam ser filho o Cristo, responderam: "De Davi". Isto é verdadeiro segundo a carne. Mas acerca de sua divindade... nada responderam. Por isso disse-lhes o Senhor: "Como, pois, Davi, no Espírito, o chama Senhor?", a fim de que se dessem conta de que apenas haviam confessado que Cristo é filho de Davi, e não haviam dito que Cristo é Senhor deste mesmo Davi. O primeiro é verdadeiro segundo a sua assunção da carne; o segundo, segundo a eternidade de sua divindade.
Esta passagem [até o v. ] é bastante obscura.
Isso leva algumas pessoas a supor que o apóstolo Paulo tivesse suprimido a liberdade da vontade, pela qual ou agradamos a Deus pelo bem da fidelidade, ou O ofendemos pelo mal da infidelidade. Essas pessoas dizem que Deus amou a um e odiou o outro antes que qualquer um deles tivesse nascido ou pudesse ter feito o bem ou o mal. Mas respondemos que Deus fez isso por presciência, pela qual conhece como será, no futuro, mesmo aquele que ainda não nasceu. Mas ninguém diga que Deus escolheu as obras do homem que amou, embora essas obras ainda não existissem, pelo fato de tê-las conhecido de antemão. Se Deus elegeu as obras, por que diz o Apóstolo que a eleição não é segundo as obras? Devemos, pois, entender que fazemos boas obras por meio da caridade, e temos a caridade pelo dom do Espírito Santo, como o próprio Apóstolo diz: "O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Ninguém, portanto, deve gloriar-se de suas obras como se fossem próprias, pois as realiza pelo dom de Deus, uma vez que é a própria caridade que nele opera o bem. Que foi, então, o que Deus elegeu? Se Ele dá o Espírito Santo, por meio de quem a caridade opera o bem, a quem quiser, como escolhe a quem há de dá-lo? Se não escolhe segundo o mérito, não é eleição, pois todos são iguais antes do mérito, e é impossível escolher entre coisas totalmente iguais. Mas, uma vez que o Espírito Santo é dado somente aos que creem, Deus não escolhe as obras (que Ele mesmo concede), pois dá o Espírito Santo para que, pela caridade, possamos fazer boas obras. Antes, Ele escolhe a fé. Pois, a menos que cada um creia n'Ele e persevere em sua disposição de recebê-lo, não recebe o dom de Deus (isto é, o Espírito Santo), pelo qual, mediante o derramamento da caridade, é capacitado a fazer boas obras. Portanto, Deus não escolheu por presciência as obras de ninguém (as quais Ele mesmo há de dar), mas por presciência escolheu a fé. Escolheu aquele que sabia de antemão que n'Ele haveria de crer, e a este deu o Espírito Santo, a fim de que, fazendo boas obras, alcançasse a vida eterna. Crer é obra nossa, mas as boas obras pertencem Àquele que dá o Espírito Santo aos que creem. Este argumento foi usado contra certos judeus que, tendo crido em Cristo, se gloriavam das obras que haviam feito antes de receber a graça. Alegavam ter merecido a graça do Evangelho por essas obras anteriores, ainda que só possa fazer boas obras quem já recebeu a graça. Além disso, a graça é tal que o chamado vem ao pecador quando este não tem mérito algum, e o impede de ir diretamente à sua condenação. Mas, se ele segue o chamado de Deus por livre vontade, merecerá também o Espírito Santo, pelo qual poderá fazer boas obras. E, permanecendo no Espírito (também por livre vontade), merecerá a vida eterna, que não pode ser maculada por corrupção alguma.
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Sabemos que os filhos ainda não nascidos nada fizeram, em sua própria vida, seja de bem, seja de mal, nem possuem méritos provenientes de uma vida anterior, a qual nenhum indivíduo pode ter como própria. Eles vêm às misérias desta vida, e seu nascimento carnal segundo Adão os envolve, no momento mesmo de sua natividade, no contágio da morte primordial, e não são libertados da pena da morte eterna — que, por justa sentença, de um só passa a todos — a não ser que renasçam em Cristo pela graça.
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Ninguém crê se não é chamado. Deus chama por sua misericórdia, e não como quem recompensa os méritos da fé. Os méritos da fé seguem o seu chamado; não o precedem... A não ser que a misericórdia de Deus no chamado preceda a fé, ninguém pode sequer crer e, assim, começar a ser justificado e a receber o poder de fazer boas obras. Logo, a graça precede todo mérito. Cristo morreu pelos ímpios. O mais jovem recebeu, do Deus que o chamou, a promessa de que o mais velho o serviria — e não de nenhuma obra meritória sua.
Ninguém poderia dizer que Jacó havia conciliado a Deus por obras meritórias antes de nascer, de modo que Deus dissesse isto a respeito dele… Tampouco Isaque havia conciliado a Deus por quaisquer obras meritórias anteriores, de modo que o seu nascimento devesse ter sido prometido… As boas obras não produzem a graça, mas são produzidas pela graça.
Se Deus odiou Esaú porque este era um vaso feito para a desonra, como poderia ser verdade que Deus nada odeia do que fez? Pois, nesse caso, Deus odiou Esaú, ainda que o tivesse feito como vaso para a desonra. Esta difícil questão se resolve se entendermos que Deus é o Criador de todas as criaturas. Toda criatura de Deus é boa. Todo homem é criatura enquanto homem, mas não enquanto pecador. Deus é o Criador tanto do corpo quanto da alma do homem. Nenhum dos dois é mau, e Deus não odeia nenhum dos dois. Ele nada odeia do que fez. Mas a alma é mais excelente que o corpo, e Deus é mais excelente que a alma e o corpo, sendo o autor e formador de ambos. No homem, Ele nada odeia senão o pecado. O pecado no homem é perversidade e falta de ordem, isto é, um afastar-se do Criador, que é mais excelente, e um voltar-se para as criaturas, que Lhe são inferiores. Deus não odeia Esaú o homem, mas odeia Esaú o pecador.
Que dizer, então, das crianças que recebem o sacramento da graça cristã, como é costume naquela idade, e que assim, sem dúvida, têm direito à vida eterna e ao reino dos céus se morrem logo em seguida, ao passo que, se lhes é permitido crescer, algumas se tornam até apóstatas? Por que isto se dá, senão porque não estão incluídas naquela predestinação e vocação segundo o Seu propósito, que é sem arrependimento? Por que algumas são incluídas e outras não pode ter uma razão oculta, mas não injusta.
Deus foi misericordioso conosco em primeiro lugar ao nos chamar quando ainda éramos pecadores… e continua a ter misericórdia de nós agora que cremos. Como tem Deus misericórdia uma segunda vez? Ele dá o Seu Espírito Santo ao homem que crê e O pede. E, tendo dado o Espírito, Deus então terá compaixão daqueles a quem já mostrou compaixão. Isto é, tornará o crente compassivo, para que ele faça boas obras por amor. Que ninguém se atribua o mérito de agir compassivamente, visto que foi pelo Espírito Santo que Deus lhe deu este amor, sem o qual ninguém pode ser compassivo. Deus não elegeu aqueles que haviam feito boas obras, mas os que creram, a fim de capacitá-los a fazer boas obras. Cabe-nos a nós crer e querer, e cabe a Ele dar àqueles que creem e querem a capacidade de fazer boas obras por meio do Espírito Santo, pelo qual o amor de Deus é derramado em nossos corações, para nos tornar compassivos.
Paulo não retira a liberdade da vontade, mas afirma que a nossa vontade não é suficiente, a menos que Deus nos ajude, tornando-nos compassivos, a fim de que possamos realizar boas obras pelo dom do Espírito Santo... Não podemos querer, a menos que sejamos chamados, e quando queremos após o nosso chamado, nem a nossa vontade nem o nosso esforço bastam, a menos que Deus dê força ao nosso esforço e nos conduza aonde Ele chama. É, pois, manifesto que não é pelo querer nem pelo esforçar-se, mas pela misericórdia de Deus que realizamos boas obras, ainda que a nossa vontade — a qual por si mesma nada pode — também esteja presente.
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Lemos em Êxodo que o coração de Faraó foi endurecido, de modo que ele não se comoveu nem sequer com sinais manifestos. Portanto, porque Faraó não obedeceu aos mandamentos de Deus, foi castigado. Ninguém pode dizer que esse endurecimento de coração veio sobre Faraó sem que o merecesse; veio pelo juízo de Deus, que lhe dava justo castigo pela sua incredulidade. Nem se deve pensar que Faraó não obedeceu porque não podia, sob o pretexto de que seu coração já havia sido endurecido. Pelo contrário, Faraó merecera o seu endurecimento de coração pela sua incredulidade anterior. Pois, naqueles a quem Deus escolheu, não são as obras, mas a fé, o começo do mérito, para que façam boas obras pelo dom de Deus. E naqueles a quem Ele condena, a incredulidade e a infidelidade são o começo da punição, de modo que, por essa mesma punição, lhes é permitido fazer o que é mau. Sobre Romanos. Em segundo lugar, há os que dizem que Faraó foi endurecido pela paciência de Deus, pois, depois que uma praga de Deus cessava, Faraó se tornava mais endurecido, e, embora Deus soubesse que Faraó não se arrependera, quis, não obstante, mostrar a sua longanimidade até mesmo para com ele. Comentário de Pelágio sobre Romanos.
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Ele capacita para o bem aquele de quem tem misericórdia, e abandona ao mal aquele a quem endurece. Mas essa misericórdia é fruto do mérito prévio da fé, e esse endurecimento é fruto da incredulidade prévia, de modo que praticamos boas obras pelo dom de Deus, e obras más por causa do seu castigo. Contudo, em ambos os casos, o livre-arbítrio não é retirado do homem, seja para crer em Deus, a fim de que a misericórdia sobre nós se siga, seja para descrer d'Ele, a fim de que o castigo sobre nós seja a consequência.
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Deves crer que o homem a quem Deus permite errar e endurecer-se mereceu esse mal; ao passo que, no caso do homem de quem tem misericórdia, deves reconhecer, com fé inabalável, que se trata da graça de Deus, que não retribui o mal com o mal, mas o mal com o bem.
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Por que não ensina o Pai a todos os homens, para que venham a Cristo, senão porque a todos aqueles a quem ensina, ensina por misericórdia, ao passo que aqueles a quem não ensina, não ensina por juízo? Da Predestinação dos Santos
Tendo apresentado sua conclusão [no versículo anterior], Paulo assume o papel de advogado do diabo, propondo uma pergunta retórica... Ele responde a essa pergunta de modo sensato, para que compreendamos que as recompensas fundamentais da fé e da incredulidade só se manifestam claramente aos espirituais, e não àqueles que vivem segundo o homem terreno. Do mesmo modo se dá com a maneira pela qual Deus, em sua presciência, elege os que hão de crer e condena os incrédulos. Ele não elege uns por causa de suas obras, nem condena os outros por causa das suas, mas concede à fé dos primeiros a capacidade de realizar boas obras, e endurece a incredulidade dos demais, abandonando-os, para que pratiquem o mal. Esse entendimento, como disse, é dado somente aos espirituais e é bem diverso da sabedoria da carne. Assim, Paulo confronta seu interlocutor para que compreenda que primeiro deve despojar-se do homem de barro, a fim de tornar-se digno de investigar estas coisas pelo Espírito.
Enquanto fores mera criatura, diz Paulo, como esta massa de barro, e não tiveres sido conduzido às coisas espirituais, de modo que, como homem espiritual, possas julgar todas as coisas e não seres julgado por ninguém, convém que te abstenhas deste gênero de indagação e não repliques a Deus. Pois todo aquele que deseja conhecer o desígnio de Deus deve primeiro ser recebido em sua amizade, o que só é possível aos espirituais, que já trazem em si a imagem do celestial.
Se esta massa de barro fosse de valor tão indiferente que não merecesse mais o bem do que merecesse o mal, haveria motivo para nela se ver injustiça ao fazê-la vaso para desonra. Mas, uma vez que, pelo livre-arbítrio do primeiro homem somente, a condenação se estendeu a toda a massa de barro, é sem dúvida certo que, se dela se fazem vasos para honra, não se trata de justiça que a graça não antecipe, mas de misericórdia de Deus. Se, porém, dela se fazem vasos para desonra, isto se há de atribuir à justiça de Deus, não à sua injustiça — conceito que dificilmente pode existir em Deus! Carta
Pareceria injusto que se fizessem vasos de ira para a perdição, se toda a massa de barro não tivesse sido condenada em Adão. O fato de os homens se tornarem vasos de ira ao nascer deve-se à pena que merecem; mas o fato de se tornarem vasos de misericórdia em seu segundo nascimento deve-se a uma graça imerecida.
Dado que nossa natureza pecou no paraíso, somos agora formados por uma geração mortal segundo a mesma divina providência, não segundo o céu, mas segundo a terra, isto é, não segundo o espírito, mas segundo a carne, e todos nos tornamos uma só massa de barro, ou seja, uma massa de pecado.
Primeiro vem o barro que só serve para ser lançado fora. Devemos começar por ele, mas não precisamos nele permanecer. Depois vem o que é próprio para o uso, no qual podemos ser gradualmente moldados e no qual, uma vez moldados, podemos permanecer. Isso não significa que todo aquele que é mau se tornará bom, mas que ninguém se torna bom que não tenha sido antes mau. O que é verdade é que, quanto mais cedo o homem opera em si mesmo uma mudança para melhor, mais cedo tem direito a ser chamado pelo que se tornou.
Enquanto fores vaso de oleiro, deves primeiro ser quebrado pela vara de ferro da qual se disse: "Tu os regerás com vara de ferro, e como vaso de oleiro os despedaçarás." Então, quando o homem exterior for destruído e o homem interior renovado, poderás, arraigado e fundado na caridade, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer também a sobreexcelente ciência do amor de Deus. Porquanto, da mesma massa de barro fez Deus alguns vasos para honra e outros para desonra, não é para ti, quem quer que sejas que ainda vives segundo esta massa (isto é, que és sábio segundo o senso terreno e a carne), disputar o que Deus decretou.
Paulo demonstrou suficientemente que a dureza de coração que sobreveio a Faraó lhe adveio como justo merecimento de sua incredulidade anterior. Contudo, Deus suportou pacientemente sua incredulidade até que chegasse o tempo de lhe infligir o castigo. Fê-lo Deus a fim de corrigir aqueles que decidira libertar do erro e conduzi-los, chamando-os de volta à reverência e à piedade, oferecendo seu auxílio às suas orações e a seus gemidos.
Ao dar a alguns o que não mereciam, quis Deus manifestamente que a sua graça fosse gratuita e, por isso, verdadeiramente graça; e, ao não a dar a todos, mostrou o que todos mereciam. Ele é bom no benefício concedido a alguns e justo na punição de outros, mas bom em todas as coisas, pois é bom quando se dá o que é merecido, e justo em todas as coisas, como é justo quando se dá, sem injúria a ninguém, o que não é merecido.
Deus não chamou todos os judeus, mas apenas alguns deles. Tampouco chamou todos os gentios, mas apenas alguns deles. De Adão procedeu uma só massa de pecadores e de ímpios, na qual, à parte da graça de Deus, tanto judeus quanto gentios pertencem a uma única massa. Se o oleiro, de uma só massa de barro, faz um vaso para honra e outro para desonra, é evidente que Deus fez, dos judeus, alguns vasos para honra e outros para desonra, e do mesmo modo dos gentios.
O sentido de todo o argumento conduz a esta conclusão. Paulo ensinou que fazemos o bem pela misericórdia de Deus e que os judeus que haviam recebido o evangelho não deveriam gloriar-se em suas obras, pensando que a isso haviam feito por merecimento próprio, e não querendo que fosse dado aos gentios. No pensamento de Paulo, os judeus deveriam cessar de tal soberba e compreender que, se somos chamados à fé não por obras nossas, mas pela misericórdia de Deus, e se é dado aos que creem fazer o bem, então não deveriam invejar aos gentios essa misericórdia, como se ela tivesse sido dada aos judeus com base em mérito prévio, o qual não é nada.
Se por remanescente... devemos entender não a eleição dos já justificados para a vida eterna, mas a eleição daqueles que hão de ser justificados, esse gênero de eleição é verdadeiramente oculto e não pode ser conhecido por nós, que devemos considerar todos os homens como partes de uma só massa de barro. Se alguns afirmam poder conhecê-lo, devo confessar minha própria fraqueza nesta matéria.
Isto mostra que o Senhor é a pedra angular, unindo em si mesmo ambos os muros. O testemunho de Oseias é proferido acerca dos gentios, mas o Senhor une tanto judeus quanto gentios, segundo o que Ele disse no evangelho a respeito destes últimos: "Tenho outras ovelhas que não são deste redil; a estas também me é necessário conduzir, e elas ouvirão a minha voz. Assim haverá um rebanho e um pastor."
Aqui Paulo começa a falar de sua esperança quanto aos judeus, para que os gentios, por sua vez, não se tornassem condescendentes para com eles. Pois, assim como era necessário refrear o orgulho dos judeus, que se gloriavam em suas obras, assim também era necessário refrear o dos gentios, para que não se ensoberbecessem por terem sido preferidos aos judeus.
Disse Paulo isto acerca dos judeus que, por causa de sua autoconfiança, rejeitaram a graça e, em consequência, não creram em Cristo. Os judeus, diz ele, buscam estabelecer uma justiça própria que provém da lei, não que a lei tenha sido por eles estabelecida, mas antes que tivessem posto sua justiça na lei que vem de Deus, supondo que fossem capazes de cumprir por si mesmos esta lei. Pois ignoravam a justiça de Deus, não aquela justiça pela qual Deus é justo, mas aquela que vem a Deus até o homem.
O Credo edifica em ti aquilo que deves crer e confessar para seres salvo. Sermões aos Recém-Convertidos, Homilia
Os inumeráveis e múltiplos ritos pelos quais o povo judeu fora oprimido foram removidos, para que, pela misericórdia de Deus, alcancemos a salvação pela simplicidade de uma confissão de fé.
Nós que esperamos reinar na justiça eterna só podemos ser salvos deste mundo perverso se, enquanto professamos com os lábios, para a salvação do próximo, a fé que trazemos em nosso coração, exercermos uma piedosa e cuidadosa vigilância para que esta fé em nós não seja maculada em ponto algum de crença pelas ciladas enganosas dos hereges.
Não guardaram quase todos aqueles que renegaram Cristo diante de seus perseguidores, em seus corações, aquilo que criam a respeito dEle? Contudo, por não fazerem com a boca a profissão de fé para a salvação, pereceram, exceto aqueles que se arrependeram e viveram novamente.
Esta profissão de fé é o símbolo que revolvereis em vossos pensamentos e repetireis de memória.
Esta condição se cumpre no momento do batismo, quando a fé e a profissão de fé são tudo quanto se exige para que alguém seja batizado.
Pela fé em Jesus Cristo nos é concedida tanto a posse do pequeno início da salvação quanto o seu aperfeiçoamento, o qual aguardamos em esperança.
Deus envia os seus anjos e reúne os seus eleitos dos quatro ventos, isto é, do mundo inteiro. Portanto, é necessário que a Igreja se encontre entre as nações onde ainda não existe, mas disso não se segue necessariamente que todos os que ali vivem hão de crer. A promessa foi feita a todas as nações, mas não a todos os homens de todas as nações, pois nem todos têm fé.
A pregação da predestinação não deve impedir a pregação da perseverança e do progresso na fé, de modo que aqueles a quem foi dado obedecer ouçam o que devem ouvir. Pois como ouvirão sem pregador? Do Dom da Perseverança
Os que creem retamente creem para poderem invocar aquele em quem creram e para serem fortes a fim de cumprir o que aprenderam nos preceitos da lei, visto que a fé alcança aquilo que a lei ordena.
Ao chamar um povo de "insensato", Paulo explicou o que entendia por "aqueles que não são povo", a saber, que um povo insensato não deveria sequer ser chamado povo. Mas ele diz que o povo judeu será provocado a ciúme pela fé dos gentios, porque estes receberam o que os judeus rejeitaram... Ainda que povos inteiros fossem insensatos idólatras, todavia, ao crer, deixaram de lado o seu paganismo. Por isso Paulo disse: "Se um homem incircunciso guarda os preceitos da lei, não será a sua incircuncisão reputada como circuncisão?" Assim ele quer dizer: "Eu vos farei ciumentos daqueles que outrora não eram povo, mas foram feitos povo", porque, embora fossem outrora um povo insensato e idólatra, puseram de lado o seu paganismo pela fé em Cristo.
Isto se refere ao que Paulo disse acima. Somente aqueles judeus que creram no Senhor serão contados como descendentes.
O "resto" refere-se aos judeus que creram em Cristo. Muitos deles, de fato, creram nos dias dos apóstolos, e ainda hoje há alguns convertidos, embora bem poucos.
A eleição de que fala o apóstolo é segundo a graça, não segundo o mérito.
A graça é dada não porque tenhamos feito boas obras, mas para que tenhamos poder de as fazer; não porque tenhamos cumprido a lei, mas para que possamos cumpri-la.
Eis a misericórdia e o juízo — misericórdia para com os eleitos, que alcançaram a justiça de Deus, mas juízo sobre os demais, que foram cegados. E, contudo, os primeiros creram porque o quiseram, ao passo que os segundos não creram porque não o quiseram. Donde a misericórdia e o juízo se executaram nas próprias vontades deles.
Diz Paulo que os judeus não caíram, mas antes que a sua queda não foi vã, pois conduziu à salvação dos gentios. Os judeus não pecaram apenas para caírem como castigo, mas para que a sua queda servisse à salvação dos gentios. Paulo chega mesmo a louvar o povo judeu por esta queda de incredulidade, para que os gentios não se ensoberbecessem, vendo quão importante foi a queda dos judeus para a própria salvação deles. Pelo contrário, devem os gentios ser tanto mais cautelosos, para que também eles não venham a ensoberbecer-se e a cair igualmente.
Nem todos os judeus foram cegados; alguns deles reconheceram a Cristo. Mas a plenitude dos gentios entra entre aqueles que foram chamados segundo o desígnio, e surge um Israel de Deus mais verdadeiro... os eleitos, tanto dentre os judeus quanto dentre os gentios.
Que Deus disponha suas obras futuras em sua presciência, a qual não pode ser enganada nem mudada, é inteiramente — e nada outra coisa senão — predestinar. Mas assim como aquele que Deus previu que seria casto, ainda que isto lhe seja obscuro, age de modo a ser casto, também aquele que Deus predestinou a ser casto, ainda que isto lhe seja obscuro, não deixa, pelo simples fato de ouvir que, por dom de Deus, será o que será, de agir de modo a ser casto. Com efeito, sua caridade se compraz, e ele não se ensoberbece como se não a tivesse recebido. Não apenas não é impedido da obra da caridade pela pregação da predestinação, mas, ao contrário, é auxiliado nesta tarefa, para que, quando se gloriar, se glorie no Senhor.
Não quis o Apóstolo dizer com estas palavras que Deus não haveria de condenar a ninguém. O que ele quis dizer torna-se claro pelo contexto. Falava Paulo daqueles judeus que um dia haveriam de crer.
Paulo refere-se à Trindade ao dizer isto.
Se o corpo, que é menor que a alma e do qual a alma se serve como de um servo ou instrumento, é um sacrifício quando bem e retamente empregado no serviço de Deus, quanto mais o é a alma quando a si mesma se oferece a Deus? Deste modo, abrasada no fogo do amor divino, e dissolvida a escória do desejo mundano, é remodelada na forma imutável de Deus e se torna bela a seus olhos em razão da generosidade da beleza que Ele lhe outorgou.
Aqueles que são movidos... a voltar-se novamente para o Senhor, saindo daquele estado de deformidade em que os desejos mundanos os conformavam a este mundo, devem receber do Senhor a sua reforma.
Alegramo-nos na esperança a fim de aguardarmos o repouso vindouro e assim conduzirmo-nos jubilosamente em meio às fadigas.
Isto pode parecer a muitos contradizer o que o Senhor ensina, que devemos amar os nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem, ou as próprias afirmações do Apóstolo acima. Pois de que modo poderia ser amor alimentar e nutrir alguém apenas para amontoar brasas de fogo sobre a sua cabeça, supondo-se que "brasas de fogo" signifiquem algum castigo grave? Devemos, portanto, entender que isto significa que devemos provocar ao arrependimento aquele que nos faz mal, fazendo-lhe um bem. Pois as brasas de fogo servem para queimar, isto é, para trazer angústia ao seu espírito, que é como que a cabeça da alma, na qual toda malícia é queimada quando alguém é transformado para melhor pelo arrependimento. Estas brasas de fogo são mencionadas nos Salmos: "Que te será dado, ou que se te acrescentará, ó língua enganadora? Agudas flechas de guerreiro, com brasas devoradoras."
O homem mau que é vencido pelo bem é libertado, não de um mal exterior e alheio, mas de um mal interior e próprio, pelo qual é devastado mais gravemente e mais ruinosamente do que seria pela inumanidade de qualquer inimigo de fora.
Mui retamente admoesta Paulo contra aquele que se ensoberbece por ter sido chamado por seu Senhor à liberdade e se ter feito cristão, e por isso julga não dever guardar a condição que lhe foi dada no curso desta vida, nem submeter-se às potestades superiores a quem foi confiado, por certo tempo, o governo das coisas temporais. Pois, sendo nós compostos de alma e corpo, e enquanto estivermos nesta vida fazendo uso das coisas temporais como meio de vivê-la, convém que, no que respeita a esta vida, sejamos sujeitos às autoridades, isto é, aos homens que, com algum reconhecimento, administram os negócios humanos. Mas, no que respeita à parte espiritual, na qual cremos em Deus e somos chamados ao seu reino, não é lícito sermos sujeitos a homem algum que procure subverter em nós justamente aquilo que Deus se dignou conceder-nos para que alcançássemos a vida eterna. Se, pois, alguém julga que, por ser cristão, não deve pagar tributos ou impostos, nem mostrar a devida reverência às autoridades que cuidam dessas coisas, incorre em erro gravíssimo. Do mesmo modo, se alguém julga que deve submeter-se a ponto de admitir que aquele que lhe é superior nos negócios temporais tenha também autoridade sobre a sua fé, cai em erro ainda maior. Mas deve-se guardar a medida que o próprio Senhor prescreveu: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." Pois, ainda que sejamos chamados àquele reino em que não haverá poder algum deste mundo, contudo, enquanto estamos a caminho, e até alcançarmos aquele estado em que todo principado e potestade será destruído, suportemos a nossa condição em atenção aos negócios humanos, nada fazendo falsamente, e nisto mesmo obedecendo a Deus, que no-lo ordena, antes que aos homens.
Isto pode perturbar alguns, quando consideram que os cristãos amiúde sofreram perseguição por parte destas autoridades. Dizem: "Acaso não estavam estes cristãos fazendo o bem, visto que as autoridades não somente não os louvaram, mas os castigaram e mataram?" Devem-se considerar cuidadosamente as palavras do apóstolo. Ele não diz: "Faze o bem e as autoridades te louvarão," mas: "Faze o bem e terás louvor da parte dela." Quer alguém que exerce a autoridade aprove o que fazes, quer te persiga, "terás louvor da parte dela," seja quando o conquistas por tua obediência a Deus, seja quando alcanças a tua coroa pela perseguição.
Quando Paulo diz: "Ele é ministro de Deus para o teu bem", ainda que isso se dê por sua própria malícia, deve-se entender do mesmo modo que o exposto acima.
Isto é útil para se entender que, por causa desta vida, devemos estar sujeitos e não oferecer resistência se alguém quiser tomar-nos algo, se estiver em seu poder fazê-lo, porque lhe foi dada autoridade sobre as coisas temporais, as quais hão de passar. Não devemos estar sujeitos naqueles bens que permanecem para sempre, mas somente nas necessidades deste século. Mas, quando diz "é necessário estar sujeito", para que ninguém se submeta às autoridades de modo tíbio e não por puro amor, Paulo acrescenta: "não somente para evitar... a ira, mas também por causa da consciência." Isto é, não deves submeter-te apenas para evitar a ira da autoridade, o que se pode fazer por fingimento, mas para que estejas seguro em tua consciência de que fazes isto por amor a ele. Pois te sujeitas por mandamento do teu Senhor.
O único modo de aderirmos a esse padrão é pelo amor. Se amamos a outrem que cremos justo, não podemos deixar de amar o próprio padrão, que nos mostra o que é a alma justa, a fim de que também nós nos tornemos justos. Com efeito, se não amássemos nele a imagem de Deus, não teríamos amor algum pela pessoa, visto que o nosso amor por ele se funda no padrão. Contudo, enquanto nós mesmos não formos justos, o nosso amor ao padrão não basta para nos tornar justos.
Mostra Paulo que o cumprimento da lei se encontra no amor, isto é, na caridade. Assim também diz o Senhor que de dois preceitos dependem toda a lei e os profetas: o amor de Deus e do próximo. Por isso, aquele que veio para cumprir a lei deu o amor por meio do Espírito Santo, a fim de que a caridade realizasse aquilo que o temor não pôde.
Ninguém ama o seu próximo se não ama a Deus e, amando-o como a si mesmo, na medida das suas forças, derrama sobre ele o seu amor, a fim de que também ele venha a amar a Deus. Mas, se não ama a Deus, não ama nem a si mesmo nem ao seu próximo.
Esta lei não está escrita em tábuas de pedra, mas é derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
A regra do amor é que cada um deseje ao seu amigo todos os bens que deseja para si mesmo, e não deseje que sobrevenham ao amigo os males que deseja evitar para si. Esta benevolência Ele a manifesta para com todos os homens. A nenhum se deve fazer mal algum. O amor ao próximo não opera o mal. Amemos, pois, também os nossos inimigos, como nos foi ordenado, se quisermos ser verdadeiramente invictos.
Isto se relaciona com Coríntios [:]: "Eis agora o tempo aceitável, eis agora o dia da salvação." Paulo entende por isto o tempo do evangelho e a oportunidade de salvar todos os que creem em Deus.
Paulo disse isto, e no entanto vede quantos anos se passaram desde então! Contudo, o que ele disse não era falso. Quanto mais provável é, pois, que a vinda do Senhor esteja agora próxima, quando já se somou tanto tempo em direção ao fim! Carta
A provisão para a carne não é de se condenar quando diz respeito às necessidades da saúde corporal. Mas se se trata de deleites ou luxos desnecessários, aquele que goza dos deleites da carne é justamente castigado. Pois nesse caso ele faz provisão para as concupiscências da carne, e "quem semeia na carne, da carne colherá corrupção".
Diz Paulo que devemos receber o fraco, a fim de que sustentemos a sua fraqueza com a nossa fortaleza. Tampouco devemos censurar as suas opiniões, ousando julgar o coração alheio, que não vemos.
Naquele tempo, muitos que eram fortes na fé e conheciam o ensinamento do Senhor — de que é o que sai da boca, e não o que nela entra, que contamina o homem — comiam o que lhes aprazia com a consciência tranquila. Mas alguns, mais fracos, abstinham-se de carne e de vinho, a fim de não comerem, sem o saberem, alimentos que haviam sido sacrificados aos ídolos. Naquele tempo, os gentios vendiam nos açougues toda a carne sacrificada, derramavam as primícias do vinho como libação aos seus ídolos e faziam ainda algumas oferendas nos lagares.
Instruiu o apóstolo aos que comiam tais alimentos com a consciência tranquila que não desprezassem a fraqueza dos que se abstinham (...). E disse aos fracos que não condenassem como contaminados os que consumiam tal carne e tal vinho (...). Pois os fortes insistiam em desprezar os fracos, e os fracos não hesitavam em condenar os fortes.
Quis Paulo manter o equilíbrio, pelo qual se evitam os escândalos, entre os que jejuam no sábado e os que não jejuam, de modo que o que come não desprezasse o que não come, e o que jejua não julgasse o que come.
Diz isto o Apóstolo para que, quando algo puder ser feito por motivos bons ou maus, deixemos o juízo a Deus, e não presumamos julgar o coração alheio, que não vemos. Mas quando se trata de coisas que manifestamente não poderiam ter sido feitas com intenção boa e inocente, não é ilícito que passemos juízo. Assim, no tocante ao alimento, onde não se sabe qual seja o motivo de quem o come, não quer Paulo que sejamos juízes, mas Deus. Mas no caso daquela abominável impureza em que um homem tomara para si a própria madrasta, ensinou-nos Paulo a julgar. Pois de modo algum poderia aquele homem alegar que cometera ato tão grave de indecência com boa intenção. Devemos, pois, passar juízo sobre as coisas que são manifestamente más.
Estavam estes homens dispostos a passar juízo acerca de coisas que, na verdade, tanto podem ser feitas com má intenção quanto com motivo reto, simples e magnânimo. Embora fossem homens, quiseram julgar os segredos do coração — segredos dos quais só Deus é juiz.
Por ora, e sem consideração mais profunda, parece-me que isto se diz de Deus e do homem, não de dois homens. Quem julga em dias alternados é o homem, que pode julgar hoje de um modo e amanhã de outro… Mas Aquele cujo juízo é o mesmo todos os dias é o Senhor… Ouse, porém, cada um julgar somente na medida em que isso é concedido à inteligência humana, ou ao menos à sua própria.
Quando alguém observa bem o dia, guarda o dia para o Senhor. Julgar bem o dia significa que não deves desesperar da futura correção daquele cuja culpa agora pareça estar limpa.
Por "o reino de Deus", Paulo entende a Igreja, na qual Deus reina.
Isto deve ser lido em conexão com o versículo acima…. Façamos bom uso do que temos, para que não pequemos contra nossos irmãos, criando uma pedra de tropeço para os mais fracos. Pois, quando ofendemos os fracos, condenamo-nos pelo mesmo bem pelo qual nos aprovamos, quando esta fé nos compraz.
Disse Paulo isto para que os gentios entendessem que o Senhor Cristo fora enviado aos judeus, e para que não se ensoberbecessem. Visto que os judeus rejeitaram o que lhes fora enviado, sucedeu que o evangelho fosse também pregado aos gentios, como está escrito com toda clareza nos Atos dos Apóstolos, quando os apóstolos dizem aos judeus: "Era necessário que a Palavra de Deus vos fosse anunciada primeiro a vós. Já que vos… julgais indignos… eis que nos voltamos para os gentios." Isto concorda também com o próprio testemunho do Senhor, quando disse: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" e: "Não é justo tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães." Se os gentios pensarem com cuidado, hão de perceber, por sua própria fé — pela qual agora creem que para os puros todas as coisas são puras —, que não devem escandalizar aqueles convertidos judeus que, talvez por fraqueza, não ousam tocar em certos tipos de carne, temendo que tenha havido contato com ídolos.
Os gentios são oferecidos a Deus como sacrifício aceitável quando creem em Cristo e são santificados pelo evangelho.
Paulo trata aqui das mesmas pessoas sobre as quais escreveu a Timóteo e a Tito. Veja também Filipenses [:].
1. «Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios» (v. 1). Isto deve ser entendido de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor Homem. «Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios», como fez «o homem terreno», que consentiu à sua esposa enganada pela serpente em transgredir o mandamento de Deus. «Nem parou no caminho dos pecadores.» Pois Ele veio, na verdade, pelo caminho dos pecadores, por ter nascido como nascem os pecadores; porém não «parou» nele, porquanto os atrativos do mundo não O retiveram. «E não se assentou na cátedra da pestilência.» Não desejou um reino terreno com soberba, o que bem se interpreta por «cátedra da pestilência»; pois dificilmente existe alguém que seja livre do amor do mando e não almeje a glória humana. Pois «pestilência» é doença amplamente difundida, que acomete a todos ou a quase todos. Contudo, «a cátedra da pestilência» pode ser compreendida mais propriamente como doutrina perniciosa; «cuja palavra se espalha como gangrena.» Convém também considerar a ordem das palavras: «andou, parou, assentou.» Pois «andou», quando se apartou de Deus. «Parou», quando tomou prazer no pecado. «Assentou», quando, confirmado em sua soberba, não podia mais retroceder, a não ser que fosse libertado por Aquele que «nem andou no conselho dos ímpios, nem parou no caminho dos pecadores, nem se assentou na cátedra da pestilência.»
2. «Mas o seu deleite está na lei do Senhor, e na Sua lei meditará de dia e de noite» (v. 2). «A lei não foi instituída para o justo», diz o Apóstolo. Porém, uma coisa é estar na lei, outra é estar sob a lei. Quem está na lei, age segundo a lei; quem está sob a lei, é regido segundo a lei: o primeiro é, pois, livre, o segundo, escravo. Ademais, uma coisa é a lei que é escrita e imposta ao servo; outra é a lei que é interiormente apreendida por aquele que não necessita da sua «letra». «Meditará de dia e de noite» há de entender-se ou como sem cessar; ou «de dia» na alegria, «de noite» nas tribulações. Pois está dito: «Abraão viu o meu dia e alegrou-se»; e acerca da tribulação está dito: «os meus rins também me instruíram, até durante a noite».
3. "E ele será como árvore plantada junto às correntes das águas" (v. 3); isto é, a própria Sabedoria, que Se dignou assumir a natureza humana para nossa salvação — para que, enquanto homem, Ele fosse "a árvore plantada junto às correntes das águas"; pois nesse sentido pode também ser entendido o que se diz em outro Salmo: "o rio de Deus está repleto de água." Ou pelas águas entende-se o Espírito Santo, de quem está escrito: "Ele vos batizará no Espírito Santo"; e ainda: "Se alguém tem sede, venha a Mim e beba"; e ainda: "Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te pede água, tu Lhe pedirias, e Ele te daria água viva, da qual quem beber não terá jamais sede, mas ela se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna." Ou então, "junto às correntes das águas" pode significar junto aos pecados do povo, porquanto as águas são primeiramente chamadas de "povos" no Apocalipse; e ainda, por "corrente" entende-se, não sem razão, "queda", que tem relação com o pecado. Essa "árvore", portanto, isto é, o nosso Senhor, junto às correntes das águas, atraindo o povo pecador pelo caminho até as raízes de Sua disciplina, "dará fruto", isto é, estabelecerá as Igrejas; "a seu tempo", isto é, depois de ter sido glorificado por Sua Ressurreição e Ascensão ao céu. Pois foi então, pelo envio do Espírito Santo aos Apóstolos, pela confirmação de sua fé n'Ele e pelo envio deles ao mundo, que Ele fez as Igrejas "darem fruto." "A sua folha também não cairá", isto é, a Sua Palavra não será vã. Pois: "toda carne é como a erva, e a glória do homem como a flor da erva; a erva seca e a flor cai, mas a palavra do Senhor permanece para sempre." "E tudo quanto Ele fizer prosperará" — isto é, tudo quanto essa árvore produzir; o que tudo há de ser entendido como fruto e folhas, isto é, obras e palavras.
4. "Os ímpios não são assim," não são assim, "mas são como a poeira que o vento arremessa da face da terra" (v. 4). "A terra" deve aqui ser entendida como aquela estabilidade em Deus, em vista da qual se diz: "O Senhor é a porção da minha herança; sim, tenho uma herança excelente." Em vista disto se diz: "Espera no Senhor e guarda os Seus caminhos, e Ele te exaltará para herdares a terra." Em vista disto se diz: "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra" (Mt 5,5). Deriva-se daí também uma comparação: pois assim como esta terra visível sustenta e contém o homem exterior, assim aquela terra invisível sustenta o homem interior. "Da face" desta "terra o vento arremessa os ímpios," isto é, o arremessa o orgulho, enquanto o incha. Acautelando-se contra tal, aquele que ficara embriagado pela riqueza da casa do Senhor e inebriantado da torrente de suas delícias, diz: "Não venha contra mim o pé do orgulho." Desta terra o orgulho lançou fora aquele que disse: "Colocarei meu trono no norte, e serei semelhante ao Altíssimo." Da face da terra lançou fora também aquele que, depois de haver consentido e provado da árvore proibida para ser como Deus, se escondeu da Face de Deus. Que esta terra se refere ao homem interior, e que o homem é lançado fora dela pelo orgulho, pode ver-se com toda a particularidade naquilo que está escrito: "Por que se enorgulhe a terra e a cinza? Porque, em vida, lançou fora as suas entranhas" (Eclo 10,9). Pois, daquele lugar de onde foi lançado fora, não sem razão se diz que se lançou a si mesmo.
5. «Portanto os ímpios não ressurgirão no juízo» (v. 5): «portanto», a saber, porque «como pó são lançados para fora da face da terra». E bem disse que lhes seria tirado aquilo que em seu orgulho cobiçam, a saber, o julgar; de modo que essa mesma ideia é expressa com maior clareza na sentença seguinte: «nem os pecadores no conselho dos justos». Pois é habitual que o que precede seja assim repetido com maior clareza. De sorte que por «pecadores» deve-se entender os «ímpios»; e o que antes se dizia em «no juízo» deve ser entendido aqui em «no conselho dos justos». Ou se de fato os ímpios são uma coisa e os pecadores outra, de tal modo que, embora todo ímpio seja pecador, nem todo pecador seja ímpio; então «os ímpios não ressurgirão no juízo», isto é, ressurgirão de fato, mas não para serem julgados, pois já estão destinados à punição mais certa. Os «pecadores», porém, não ressurgem «no conselho dos justos» para julgar, mas porventura para serem julgados; como se a respeito destes fosse dito: «O fogo provará a obra de cada um, qual seja. Se a obra de alguém permanecer, receberá recompensa. Se a obra de alguém for queimada, sofrerá então perda; mas ele mesmo será salvo, porém como que pelo fogo.»
6. "Porque o Senhor conhece o caminho dos justos" (v. 6). Como se diz que a medicina conhece a saúde, mas não conhece a doença, e contudo a doença é reconhecida pela arte da medicina — do mesmo modo pode dizer-se que "o Senhor conhece o caminho dos justos," mas o caminho dos ímpios Ele não conhece. Não que o Senhor ignore coisa alguma, e todavia diz Ele aos pecadores: "Nunca vos conheci." "Mas o caminho dos ímpios perecerá" equivale ao que se diria: o caminho dos ímpios o Senhor não conhece. Porém exprime-se de modo mais claro que não ser conhecido do Senhor corresponde a "perecer," e ser conhecido do Senhor corresponde a "permanecer;" de sorte que o ser pertença ao conhecimento de Deus, e ao Seu não-conhecer pertença o não-ser. Pois diz o Senhor: "Eu Sou o que Sou," e "Eu Sou me enviou."
1. "Por que as nações se agitam, e os povos meditam coisas vãs?" (v. 1). "Os reis da terra se levantaram, e os príncipes deliberaram juntos contra o Senhor e contra o Seu Cristo" (v. 2). Diz-se "por quê?" como se dissesse: em vão. Pois o que desejavam — a saber, a destruição de Cristo — não o obtiveram; porquanto este passo trata dos perseguidores de Nosso Senhor, dos quais igualmente se faz menção nos Atos dos Apóstolos.
2. «Rompamos os seus laços e sacudamos de nós o seu jugo» (v. 3). Ainda que admita outra acepção, entende-se todavia de modo mais conveniente como proferido na voz daqueles que se diz «meditarem coisas vãs». De sorte que «rompamos os seus laços e sacudamos de nós o seu jugo» equivale a: esforcemo-nos para que a religião cristã não nos vincule nem nos seja imposta.
3. «Aquele que habita nos céus os escarnecerá, e o Senhor os terá em derrisão» (v. 4). A sentença é repetida; pois «Aquele que habita nos céus» é posto adiante como «o Senhor»; e por «os escarnecerá» é posto adiante «os terá em derrisão». Nada disto, porém, deve ser tomado de modo carnal, como se Deus risse com as bochechas ou escarnecesse pelas narinas; mas deve ser entendido como referente àquele poder que Ele outorga aos Seus santos, para que eles, vendo as coisas futuras, a saber, que o Nome e o domínio de Cristo há de penetrar a posteridade e possuir todas as nações, compreendam que aqueles homens «meditam coisa vã». Pois este poder pelo qual tais coisas são pré-conhecidas é o «riso» e a «derrisão» de Deus. «Aquele que habita nos céus os escarnecerá.» Se por «céus» entendemos almas santas, por meio destas Deus, como Aquele que pré-conhece o que há de vir, «os escarnecerá e os terá em derrisão».
4. "Então Ele lhes falará na Sua ira, e os perturbará na Sua intensa indignação" (v. 5). Pois, para demonstrar com maior clareza de que modo Ele "lhes falará," o salmista acrescentou que Ele os "perturbará;" de sorte que "na Sua ira" equivale a "na Sua intensa indignação." Porém, pela "ira e intensa indignação" do Senhor Deus não se deve entender qualquer perturbação de ânimo, mas o poder pelo qual Ele vinga com suma justiça, mediante a sujeição de toda a criação ao Seu serviço. Pois cumpre observar e ter bem presente o que está escrito na Sabedoria de Salomão: "Mas Vós, Senhor do poder, julgais com tranquilidade, e com grande benevolência nos governais." A "ira" de Deus é, portanto, uma comoção que se produz na alma que conhece a lei de Deus, quando esta vê a mesma lei ser transgredida pelo pecador. Pois por essa comoção das almas justas muitas coisas são vingadas. Ainda que a "ira" de Deus possa igualmente ser compreendida como aquele obscurecimento da mente que acomete os que transgridem a lei de Deus.
5. "Contudo, fui constituído por Ele como Rei sobre Sião, Seu santo monte, proclamando o Seu decreto" (v. 6). Isto é dito claramente na Pessoa do próprio Senhor nosso Salvador Cristo. Mas se Sião significa, como alguns interpretam, contemplação, não devemos entendê-la de coisa alguma senão da Igreja, onde quotidianamente se eleva o desejo de contemplar a resplandecente glória de Deus, conforme aquilo do Apóstolo: "mas nós, com o rosto descoberto, contemplamos a glória do Senhor." O sentido disto é, portanto: Contudo, fui constituído por Ele como Rei sobre Sua santa Igreja; a qual, por sua eminência e estabilidade, Ele denomina monte. "Contudo, fui constituído por Ele como Rei." Eu, a saber, Aquele cujos "laços" meditavam "romper" e cujo "jugo" pretendiam "lançar fora." "Proclamando o Seu decreto." Quem não percebe o sentido disto, vendo que é praticado quotidianamente?
6. "O Senhor me disse: Tu és Meu Filho; Eu hoje Te gerei" (v. 7). Embora esse dia possa também parecer ser proferido profeticamente acerca daquele em que Jesus Cristo nasceu segundo a carne, na eternidade nada há de passado como se tivesse cessado de ser, nem de futuro como se ainda não existisse, mas somente de presente, pois tudo o que é eterno, sempre é; contudo, como "hoje" expressa presencialidade, uma interpretação divina é conferida a essa expressão, "Eu hoje Te gerei", pela qual a fé incorrupta e católica proclama a geração eterna do Poder e da Sabedoria de Deus, que é o Filho Unigênito.
7. "Pede-Me, e Eu Te darei as nações por herança" (v. 8). Isto possui ao mesmo tempo um sentido temporal com referência à Humanidade que Ele assumiu — Ele que Se ofereceu como Sacrifício em lugar de todos os sacrifícios, e que também intercede por nós; de sorte que as palavras "pede-Me" podem ser referidas a toda esta dispensação temporal, que foi instituída em favor do gênero humano, a saber, que as "nações" sejam unidas ao Nome de Cristo e assim sejam resgatadas da morte e possuídas por Deus. "Eu Te darei as nações por herança" — que as possui assim para a salvação delas e para que deem a Ti fruto espiritual. "E os confins da terra por Tua possessão." O mesmo se repete: "os confins da terra" está posto no lugar de "as nações", porém de modo mais explícito, para que entendamos todas as nações. E "Tua possessão" equivale a "Tua herança".
8. "Tu os governarás com vara de ferro," com justiça inflexível, "e os despedaçarás como vaso de oleiro" (v. 9); isto é, "despedaçarás" neles as concupiscências terrenas, e as obras imundas do homem velho, e tudo quanto foi derivado e enraizado da argila pecaminosa. "E agora entendei, ó reis" (v. 10). "E agora;" isto é, sendo agora renovados, consumido o vosso revestimento de argila, a saber, os vasos carnais do erro que pertencem à vossa vida passada, "agora entendei," vós que agora sois "reis;" isto é, capazes agora de governar tudo quanto há de servil e bestial em vós, capazes agora também de combater, não como "aqueles que golpeiam o ar, mas castigando os vossos corpos e reduzindo-os à sujeição." "Instruí-vos, todos vós que julgais a terra." Isto é novamente uma repetição; "Instruí-vos" está em lugar de "entendei;" e "vós que julgais a terra," em lugar de "ó reis." Pois Ele significa os espirituais por "aqueles que julgam a terra." Com efeito, tudo quanto julgamos está abaixo de nós; e tudo quanto está abaixo do homem espiritual é com razão chamado "terra;" porquanto está maculado pela corrupção terrena.
9. «Servi ao Senhor com temor»; para que o que se diz, «Vós, reis e juízes da terra», não se converta em soberba: «E regozijai-vos com tremor» (v. 11). Com grande excelência se acrescenta «regozijai-vos», para que «servi ao Senhor com temor» não parecesse tender à miséria. Mas, de novo, para que esse mesmo regozijo não se precipitasse em irreflexão desmedida, acrescenta-se «com tremor», a fim de que servisse de advertência e de guarda cuidadosa da santidade. Pode também ser entendido assim: «E agora, reis, entendei»; isto é, agora que Eu fui constituído Rei, não vos entristeçais, reis da terra, como se a vossa excelência vos houvesse sido arrebatada, mas antes «entendei e sede instruídos». Pois é conveniente para vós que estejais sob Aquele por quem o entendimento e a instrução vos são outorgados. E isto é conveniente para vós: que não domineis com temeridade, mas que «sirvais ao Senhor» de todos «com temor», e «vos regozijeis» numa bem-aventurança soberanamente segura e pura, com toda a cautela e diligência, para que daí não caiais na soberba.
10. "Recebei a disciplina, para que em algum tempo o Senhor não se ire, e vós pereçais do caminho justo" (v. 12). Isto equivale a "compreendei" e "sede instruídos". Pois compreender e ser instruído é o mesmo que receber a disciplina. Contudo, pelo fato de se dizer "recebei", indica-se com suficiente clareza que há uma proteção e defesa contra tudo o que poderia causar dano, a menos que com tão grande cuidado seja acolhida. "Para que em algum tempo o Senhor não se ire" está expresso com uma dúvida — não quanto à visão do profeta, para quem é algo certo, mas quanto àqueles que são advertidos; pois estes, a quem não foi revelado abertamente, costumam pensar com hesitação acerca da ira de Deus. Deveriam, portanto, dizer a si mesmos: recebamos a disciplina, "para que em algum tempo o Senhor não se ire, e pereçamos do caminho justo". Ora, de que modo se deve entender "o Senhor se irar", foi dito acima. E "pereçais do caminho justo" — este é um castigo grave, e temido por aqueles que tiveram alguma percepção da suavidade da justiça; pois quem perece do caminho da justiça vagará em grande miséria pelos caminhos da injustiça.
11. "Quando a Sua ira se inflamar em breve, bem-aventurados todos os que nEle confiam" — isto é, quando vier a vingança que está preparada para os ímpios e para os pecadores, não somente ela não recairá sobre aqueles "que confiam" no Senhor, mas até lhes servirá de fundamento e de elevação de um reino. Pois não disse: "Quando a Sua ira se inflamar em breve", salvos "estão todos os que nEle confiam", como se apenas obtivessem por isso a isenção do castigo; mas disse "bem-aventurados" — no qual se encontra a soma e acumulação de todos os bens. Ora, o sentido de "em breve" julgo ser este: que será algo súbito, enquanto os pecadores o reputarão ainda distante e tardio.
1. As palavras "Eu dormi e repousei; e me levantei, pois o Senhor me há de acolher" levam-nos a crer que este Salmo deve ser entendido na Pessoa de Cristo; pois soam mais aplicáveis à Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor do que àquela história na qual se descreve a fuga de Davi da face de seu filho rebelde. E, visto que está escrito acerca dos discípulos de Cristo: "Os filhos do esposo não jejuam enquanto o esposo está com eles;" não é de admirar que por seu filho ingrato se entenda aqui aquele discípulo ingrato que O traiu. De cuja face, embora se possa compreender historicamente que Ele fugiu, quando, ao partir, Se recolheu com os demais ao monte; contudo, em sentido espiritual, quando o Filho de Deus, isto é, o Poder e a Sabedoria de Deus, abandonou a mente de Judas; quando o Diabo o ocupou por inteiro; conforme está escrito: "O Diabo entrou em seu coração," pode-se compreender com acerto que Cristo fugiu de sua face; não que Cristo cedesse lugar ao Diabo, mas que, com a partida de Cristo, o Diabo tomou posse. Tal partida, suponho eu, é chamada de fuga neste Salmo em razão de sua celeridade; o que também é indicado pela palavra de Nosso Senhor, quando diz: "O que fazes, faze-o depressa." Assim também na linguagem comum dizemos de algo que não nos vem à mente que nos fugiu; e de um homem de grande saber dizemos que nada lhe foge. Por conseguinte, a verdade fugiu da mente de Judas quando cessou de o iluminar. Ora, Absalão, conforme alguns interpretam, na língua latina significa *Patris pax*, paz do pai. E pode parecer estranho — seja na história dos reis, quando Absalão moveu guerra contra seu pai; seja na história do Novo Testamento, quando Judas se fez traidor de Nosso Senhor — como se possa entender "paz do pai." Todavia, tanto naquele primeiro caso os que leem com atenção percebem que Davi estava em paz com seu filho naquela guerra, ele que, com profundo pesar, lamentou sua morte, dizendo: "Ó Absalão, meu filho, oxalá eu houvesse morrido em teu lugar!" quanto, na história do Novo Testamento, por aquela tão grande e tão admirável longanimidade de Nosso Senhor — pelo fato de Ele o ter suportado por tanto tempo como se fosse bom, não ignorando os seus pensamentos; de o ter admitido à Ceia na qual confiou e entregou a Seus discípulos a figura de Seu Corpo e Sangue; finalmente, de ter recebido o ósculo da paz no próprio momento de Sua traição — compreende-se facilmente como Cristo manifestou paz a Seu traidor, ainda que este estivesse devastado pela guerra intestina de tão abominável ardil. E por isso Absalão é chamado "paz do pai," porque o pai possuía a paz que ele não possuía.
Salmo de Davi, quando fugiu da face de Absalão, seu filho.
2. "Ó Senhor, como se multiplicaram os que me atribulam!" (v. 1). Tão multiplicados eram, com efeito, que nem mesmo faltou um dentre o número dos Seus discípulos, o qual foi acrescentado ao número dos Seus perseguidores. "Muitos se levantam contra mim; muitos dizem à minha alma: Não há salvação para ele em seu Deus" (v. 2). É manifesto que, se houvessem tido qualquer ideia de que Ele ressuscitaria, certamente não O teriam matado. A este propósito são aquelas palavras: "Desça da cruz, se é o Filho de Deus"; e ainda: "Salvou a outros; a Si mesmo não pode salvar." Por conseguinte, também Judas não O teria traído, se não houvesse sido do número daqueles que desprezavam a Cristo, dizendo: "Não há salvação para Ele em seu Deus."
3. "Mas Tu, ó Senhor, és o meu Acolhedor." Diz-se a Deus na natureza do homem, pois o acolhimento do homem é o Verbo feito Carne. "Minha glória." Até Ele chama a Deus de sua glória — Ele, a quem o Verbo de Deus de tal modo tomou que Deus Se fez uno com Ele. Que o aprendam os soberbos, os quais ouvem de má vontade quando se lhes diz: "Pois que tens tu que não hajas recebido? E se o recebeste, por que te glorias como se não o houveras recebido?" "E o levantador da minha cabeça" (ver. 3). Penso que isto deva ser entendido aqui acerca da mente humana, que não sem razão é chamada a cabeça da alma; a qual de tal modo se radicou em, e de certo modo coalesceu com, a excelência supereminente do Verbo que assumiu o homem, que não foi deposta pela tão grande humilhação da Paixão.
4. "Com a minha voz clamei ao Senhor" (v. 4) — não com a voz do corpo, que se prolonga pelo som da reverberação do ar; mas com a voz do coração, que aos homens não fala, porém a Deus ressoa como um clamor. Por essa voz foi Susana ouvida; e com essa voz o próprio Senhor ordenou que a oração se fizesse nos cubículos, isto é, nos recessos interiores do coração, sem ruído. Nem facilmente se diria que a oração não é feita com essa voz, quando nenhum som de palavras sai do corpo; pois mesmo quando em silêncio oramos no interior do coração, se pensamentos estranhos à mente do orante se interpõem, ainda não se pode dizer: "Com a minha voz clamei ao Senhor." Tampouco se diz isso com propriedade, senão quando a alma sozinha, sem tomar para si nada da carne nem nada dos intentos da carne, fala a Deus na oração, onde somente Ele ouve. Ora, mesmo isso é chamado clamor por razão da intensidade de sua intenção. "E Ele me ouviu desde o Seu santo monte." Temos o próprio Senhor chamado monte pelo Profeta, como está escrito: "A pedra cortada sem mãos cresceu até tornar-se um grande monte." Contudo, isso não pode ser entendido da Sua Pessoa, a menos que por ventura Ele quisesse dizer assim: desde mim mesmo, como desde o Seu santo monte, Ele me ouviu, quando habitou em mim, isto é, nesse mesmo monte. Porém é mais claro e isento de embaraço entender que Deus ouviu segundo a Sua justiça. Pois era justo que Ele ressuscitasse dentre os mortos o Inocente que havia sido morto, e a quem o mal fora retribuído pelo bem, e que désse ao perseguidor a justa recompensa, o qual Lhe havia retribuído o mal pelo bem. Pois lemos: "A Tua justiça é como os montes de Deus."
5. «Eu dormi e repousei» (v. 5). Não é inconveniente observar que se diz expressamente «eu», para significar que Ele se submeteu à morte por Sua própria vontade, conforme aquilo: «Por isso meu Pai Me ama, porque Eu dou a Minha vida para depois a retomar. Ninguém Ma tira; tenho poder para dá-la e tenho poder para retomá-la.» Portanto, diz Ele: não Me tomastes como que à revelia e Me matastes; mas «Eu dormi e repousei; e ressuscitei, porque o Senhor Me há de recolher.» As Escrituras encerram incontáveis exemplos do sono posto em lugar da morte; como diz o Apóstolo: «Não quero, irmãos, que ignoreis a condição dos que dormem.» Nem cumpre indagar por que se acrescenta «repousei», visto que já se havia dito «dormi». Repetições desta natureza são frequentes nas Escrituras, como assinalamos muitas no segundo Salmo. Algumas cópias, porém, trazem: «Eu dormi e fui lançado em profundo sono.» E as distintas cópias exprimem-no de modos variados, conforme as possíveis versões das palavras gregas, egw de ekokoimhQhn kei upnwse. A não ser que talvez o dormir se refira ao que morre, e o sono ao que está morto: de sorte que o dormir seria a transição para o sono, assim como o despertar é a transição para a vigília. Não tenhamos estas repetições nos escritos sagrados por ornamentos vãos do discurso. «Eu dormi e repousei» entende-se, pois, oportunamente como «Entreguei-Me à Minha Paixão, e sobreveio a morte.» «E ressuscitei, porque o Senhor Me há de recolher.» Tanto mais é de notar como, numa só sentença, o Salmista empregou um verbo no tempo passado e outro no futuro. Com efeito, disse tanto «ressuscitei», que é o passado, como «há de Me recolher», que é o futuro; porquanto a ressurreição certamente não podia realizar-se sem aquele recolhimento. Mas na profecia une-se bem o futuro ao passado, pelos quais ambos são significados. Pois as coisas que se profetizam como ainda por vir relativamente ao tempo são futuras; relativamente, porém, ao conhecimento dos que profetizam, devem ser consideradas como já consumadas. Mesclam-se ainda verbos no tempo presente, os quais serão tratados no lugar que lhes compete, quando ocorrerem.
6. "Não temerei os milhares de pessoas que me cercam" (v. 6). Está escrito nos Evangelhos quão grande era a multidão que se postava ao redor dEle enquanto padecia, e na cruz. "Levanta-Te, ó Senhor, salva-me, ó meu Deus" (v. 7). Não se diz a Deus "Levanta-Te" como se Ele estivesse adormecido ou reclinado, mas é uso na Sagrada Escritura atribuir a Deus o que Ele opera em nós — não de modo universal, decerto, mas onde tal atribuição pode ser feita com propriedade; como quando se diz que Ele fala, quando, por Seu dom, falam os Profetas, os Apóstolos ou quaisquer mensageiros da verdade. Daí aquele texto: "Quereis a prova de que é Cristo quem fala em mim?" (2 Cor 13,3). Pois ele não diz: de Cristo, por cuja iluminação ou ordem eu falo; mas atribui imediatamente o próprio falar àquele por cujo dom falava.
7. "Pois Tu feriste, sem motivo, a todos os que se me opõem." Não se deve pontuar como se fosse uma única oração: "Levanta-Te, ó Senhor, salva-me, ó meu Deus; pois Tu feriste, sem motivo, a todos os que se me opõem." Porque não foi por ter ferido Seus inimigos que Ele O salvou; mas antes, sendo Ele salvo, os feriu. Pertence, portanto, ao que se segue, de modo que o sentido é este: "Pois Tu feriste, sem motivo, a todos os que se me opõem, Tu quebraste os dentes dos pecadores" — isto é, por isso quebraste os dentes dos pecadores, porquanto feriste todos os que se me opõem. É, com efeito, o castigo dos opositores pelo qual os seus dentes foram quebrados, a saber, as palavras dos pecadores que, com suas maldições, despedaçavam o Filho de Deus, reduzidas ao nada, como a pó; de sorte que possamos entender "dentes" como palavras de maldição. Desses dentes fala o Apóstolo: "Se vos mordeis uns aos outros, tende cuidado para não vos destruirdes mutuamente" (Gál 5,15). Os dentes dos pecadores podem também ser entendidos como os chefes dos pecadores, por cuja autoridade cada um é cortado da comunhão dos que vivem piedosamente e, por assim dizer, incorporado aos que vivem no mal. A esses dentes se opõem os dentes da Igreja, por cuja autoridade os fiéis são separados do erro dos gentios e das diversas opiniões, e transferidos para aquela comunhão que é o Corpo de Cristo. Com esses dentes foi dito a Pedro que comesse os animais depois de abatidos — isto é, matando nos gentios o que eles eram e transformando-os no que ele próprio era. Desses dentes da Igreja também se diz: "Os teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho, das quais cada uma gera gêmeos, e não há estéril entre elas" (Cân 4,2). São aqueles que ensinam com retidão e, conforme ensinam, vivem; que cumprem o que está escrito: "Brilhem as vossas obras diante dos homens, para que glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mt 5,16). Pois, movidos pela autoridade deles, creem em Deus, que fala e opera por meio desses homens; e, separados do mundo ao qual outrora se conformavam, passam para os membros da Igreja. E com razão, portanto, aqueles por meio de quem tais coisas se realizam são chamados dentes semelhantes a ovelhas tosquiadas; pois depuseram os fardos dos cuidados terrenos e, subindo do banho, da lavagem da imundície do mundo pelo Sacramento do Batismo, cada um gera gêmeos. Com efeito, cumprem os dois mandamentos dos quais se diz: "Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas" (Mt 22,40) — amando a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente, e ao próximo como a si mesmos. "Não há estéril entre elas," porque abundante fruto rendem a Deus. Segundo este sentido, deve-se entender assim: "Tu quebraste os dentes dos pecadores" — isto é, Tu reduziste ao nada os chefes dos pecadores, ferindo todos os que se Me opõem sem motivo. Pois os chefes, segundo a história evangélica, O perseguiam, ao passo que o povo comum O honrava.
8. "A salvação é do Senhor; e sobre o Teu povo seja a Tua bênção" (v. 8). Em uma só sentença o Salmista prescreveu aos homens o que devem crer e orou pelos que creem. Pois quando se diz "A salvação é do Senhor," as palavras são dirigidas aos homens. E não se segue "E sobre o Teu povo seja a Tua bênção" de tal modo que tudo seja dito aos homens, mas há uma mudança para a oração dirigida ao próprio Deus, em favor do mesmo povo ao qual foi dito "A salvação é do Senhor." Que outro sentido tem isto senão este? Que nenhum homem presuma de si mesmo, visto que é do Senhor salvar da morte do pecado; pois "Homem miserável que sou, quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por meio de Jesus Cristo nosso Senhor." Mas Tu, ó Senhor, abençoa o Teu povo, que busca a salvação em Ti.
9. Este Salmo pode ser interpretado na Pessoa de Cristo de outro modo, a saber, que o Cristo total fale. Por total entendo com o Seu corpo, do qual Ele é a Cabeça, segundo o Apóstolo, que diz: "Vós sois o corpo de Cristo e os seus membros." Ele, portanto, é a Cabeça deste corpo; razão pela qual noutro lugar se diz: "Mas, professando a verdade em caridade, cresçamos nEle em todas as coisas, Ele que é a Cabeça, Cristo, do qual todo o corpo está ajustado e compaginado." No Profeta, portanto, a Igreja e a sua Cabeça falam ao mesmo tempo — a Igreja plantada no meio das tempestades de perseguição por todo o mundo, o que já sabemos ter se cumprido —, dizendo: "Senhor, como se multiplicaram os que me atribulam! muitos se levantam contra mim;" desejando exterminar o nome cristão. "Muitos dizem à minha alma: Não há salvação para ele no seu Deus." Pois de nenhuma outra forma esperariam poder destruir a Igreja, que se ramifica tão extensamente por toda a parte, a menos que cressem que Deus não tinha cuidado dela. "Mas Tu, ó Senhor, és aquele que me acolhe;" em Cristo, sem dúvida. Pois a Igreja também foi acolhida naquela carne pelo Verbo, "que Se fez carne e habitou em nós;" porquanto "nos fez assentar juntamente com Ele nos lugares celestiais." Quando a Cabeça vai adiante, os demais membros se seguirão; pois "Quem nos separará do amor de Cristo?" Justamente, pois, diz a Igreja: "Tu és aquele que me acolhe. Minha glória;" pois ela não atribui a si mesma a sua excelência, sabendo por cuja graça e misericórdia ela é o que é. "E o que levanta a minha cabeça," ou seja, dAquele que, "o Primogênito dentre os mortos," subiu aos céus. "Com minha voz clamei ao Senhor, e Ele me ouviu do Seu santo monte." Esta é a oração de todos os Santos, o odor de suavidade, que sobe perante o Senhor. Pois agora a Igreja é ouvida deste monte, que é também a sua Cabeça; ou, desta justiça de Deus, pela qual tanto os Seus eleitos são libertados quanto os seus perseguidores punidos. Diga também o povo de Deus: "Dormi e repousei; e me levantei, pois o Senhor me acolherá;" para que se unam e se adhiram à sua Cabeça. Pois a este povo é dito: "Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te tomará." Pois são tirados dentre os pecadores, dos quais se diz em geral: "Mas os que dormem, dormem de noite." Digam também: "Não temerei os milhares de povos que me cercam;" dos gentios, a saber, que me rodeiam para extinguir por toda a parte, se pudessem, o nome cristão. Mas como deveriam ser temidos, quando pelo sangue dos mártires em Cristo, como por azeite, o ardor do amor é inflamado? "Levanta-Te, Senhor, salva-me, ó meu Deus." O corpo pode dirigir estas palavras à sua própria Cabeça. Pois pela ressurreição da Cabeça o corpo foi salvo; Ele "que subiu ao alto, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens." Pois isto é dito pelo Profeta, no oculto desígnio de Deus, até aquela messe madura de que se fala no Evangelho, cuja salvação está na Sua Ressurreição, que Se dignou morrer por nós, derramando o nosso Senhor sobre a terra. "Pois Tu feres todos os que me resistem sem causa; Tu quebraste os dentes dos pecadores." Agora, enquanto a Igreja governa, os inimigos do nome cristão são feridos de confusão; e, quer as suas maldições quer os seus chefes, são reduzidos ao nada. Crê, portanto, ó homem, que "a salvação é do Senhor: e," Tu, ó Senhor, que "a Tua bênção" seja "sobre o Teu povo."
10. Cada um de nós também pode dizer, quando uma multidão de vícios e de concupiscências arrasta a mente que resiste na lei do pecado: "Senhor, como se multiplicaram os que me atribulam! muitos se levantam contra mim." E, dado que o desespero de recuperação geralmente se insinua pela acumulação dos vícios, como se os próprios vícios escarnecessem da alma, ou mesmo como se o Diabo e os seus anjos, por meio de suas sugestões venenosas, trabalhassem para nos lançar no desespero, diz-se com suma verdade: "Muitos dizem à minha alma: Não há salvação para ele no seu Deus." "Mas Tu, ó Senhor, és aquele que me acolhe." Pois esta é a nossa esperança: que Ele Se dignou tomar a natureza do homem em Cristo. "Minha glória;" segundo aquela regra de que ninguém deve atribuir algo a si mesmo. "E o que levanta a minha cabeça;" ora dAquele que é a Cabeça de todos nós, ora do espírito de cada um de nós, que é a cabeça da alma e do corpo. Pois "a cabeça da mulher é o homem, e a cabeça do homem é Cristo." Mas a mente é elevada quando já se pode dizer: "Com a mente sirvo a lei de Deus;" para que o restante do homem seja reduzido à submissão pacífica, quando na ressurreição da carne "a morte for absorvida pela vitória." "Com a minha voz clamei ao Senhor;" com aquela voz mais íntima e intensíssima. "E Ele me ouviu do Seu santo monte;" por meio dAquele pelo qual nos socorreu, por cuja mediação nos ouve. "Dormi e repousei; e me levantei, pois o Senhor me acolherá." Qual dos fiéis não é capaz de dizer isto, quando recorda a morte dos seus pecados e o dom da regeneração? "Não temerei os milhares de povos que me cercam." Além daquelas que a Igreja universalmente suportou e suporta, cada um também tem tentações, pelas quais, quando cercado, pode pronunciar estas palavras: "Levanta-Te, Senhor; salva-me, ó meu Deus:" isto é, faze-me levantar. "Pois Tu feres todos os que me resistem sem causa:" é com razão dito, no desígnio determinado de Deus, do Diabo e dos seus anjos; que se enfurecem não somente contra todo o corpo de Cristo, mas também contra cada um em particular. "Tu quebraste os dentes dos pecadores." Cada homem tem os que o injuriam; tem também os primeiros promotores do vício, que se esforçam por separá-lo do corpo de Cristo. Mas "a salvação é do Senhor." Deve-se guardar do orgulho, e cumpre dizer: "Minha alma se apegou a Ti." "E sobre o Teu povo" seja "a Tua bênção:" isto é, sobre cada um de nós.
2. «Quando invoquei, o Deus da minha justiça me ouviu» (v. 1). Quando invoquei, Deus me ouviu, diz o Salmista, de quem procede a minha justiça. «Na tribulação me dilataste.» Tu me conduziste das estreitezas da tristeza aos caminhos largos da alegria. Pois «tribulação e angústia recaem sobre toda alma de homem que pratica o mal». Mas aquele que diz: «Gloriamo-nos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência», até chegar àquilo em que afirma: «Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» — este não tem estreiteza de coração; as aflições lhe são impostas exteriormente por aqueles que o perseguem. Ora, a mudança de pessoa — porquanto da terceira pessoa, onde diz «Ele ouviu», passa de súbito à segunda, onde diz «Tu me dilataste» — se não se faz por variedade e graça de estilo, causa estranheza que o Salmista queira primeiro declarar aos homens que fora ouvido, e em seguida se dirija Àquele que o ouviu. A não ser, porventura, que, tendo declarado como foi ouvido, nessa mesma dilatação do coração preferiu falar com Deus, para que também por este modo mostrasse o que é ser dilatado no coração, isto é, ter já Deus derramado no coração, com quem pudesse conversar interiormente. O que retamente se entende como dito na pessoa daquele que, crendo em Cristo, foi iluminado; mas na pessoa do próprio Senhor Homem, que a Sabedoria de Deus assumiu, não vejo como possa convir. Pois Ele nunca foi abandonado por Ela. Mas assim como a Sua própria oração contra a tribulação é antes sinal da nossa enfermidade, assim também daquela súbita dilatação do coração o mesmo Senhor pode falar pelos Seus fiéis, que Ele também personificou quando disse: «Tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber», e assim por diante. Pelo que também aqui Ele pode dizer «Tu me dilataste», por um dos menores dos Seus, que conversa com Deus, cujo «amor derramou no coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado». «Tem piedade de mim e ouve a minha oração.» Por que pede de novo, quando já declarara que fora ouvido e dilatado? É por nossa causa, de quem se diz: «Se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos»; ou será que naquele que creu, o que foi começado há de ser aperfeiçoado?
1. «Cristo é o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê.» Pois este «fim» significa perfeição, não consumação. Ora, pode-se questionar se todo Cântico é um Salmo, ou antes se todo Salmo é um Cântico; se há alguns Cânticos que não podem ser chamados Salmos, e alguns Salmos que não podem ser chamados Cânticos. Mas deve-se atentar para a Escritura, se porventura «Cântico» não denota um tema de alegria. Chamam-se Salmos, porém, aqueles que se cantam ao Saltério, instrumento que a história, como alto mistério, declara ter sido usado pelo profeta Davi. Sobre esta matéria não é aqui o lugar para discorrer, pois requer investigação prolongada e muita discussão. Entretanto, devemos procurar ou as palavras do Senhor Homem após a Ressurreição, ou as do homem na Igreja, que Nele crê e espera.
Para o Fim, Salmo, Cântico a Davi.
3. «Ó filhos dos homens, até quando pesados de coração?» (v. 2). Que o vosso erro, diz ele, tenha durado ao menos até a vinda do Filho de Deus; por que então continuais ainda pesados de coração? Quando poreis fim às ardilosas maquinações, se agora, quando a verdade está presente, não o fazeis? «Por que amais a vaidade e buscais a mentira?» Por que quereis ser felizes pelas coisas mais baixas? Somente a Verdade, da qual procedem todas as coisas verdadeiras, torna bem-aventurado. Pois «vaidade pertence aos enganadores, e tudo é vaidade». «Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?» Por que então sois retidos pelo amor das coisas temporais? Por que seguis as últimas coisas como se fossem as primeiras — o que é vaidade e mentira? Pois vós quereríeis que elas permanecessem convosco, mas todas passam como sombra.
4. «E sabei que o Senhor magnificou o Seu Santo» (v. 3). A quem senão Àquele que Ele ressuscitou dentre os mortos e colocou nos céus à Sua destra? Por isso repreende o género humano, para que se converta enfim do amor deste mundo para Ele. Mas se a adição da conjunção (pois diz «e sabei») causa dificuldade a alguém, pode-se facilmente observar na Escritura que este modo de falar é usual naquela língua em que os Profetas falaram. Pois frequentemente se encontra este início: «E» o Senhor lhe disse; «E» a palavra do Senhor veio a ele. A qual junção por uma conjunção, quando nenhuma frase precede à qual a seguinte possa ser anexada, admiràvelmente nos transmite, porventura, que a enunciação da verdade em palavras está ligada àquela visão que se processa no coração. Embora neste lugar se possa dizer que a frase anterior — «Por que amais a vaidade e buscais a mentira?» — é como se estivesse escrito: Não ameis a vaidade e não busqueis a mentira. E sendo assim lida, segue-se na mais direta construção: «e sabei que o Senhor magnificou o Seu Santo». Mas a interposição do Diapsalma impede-nos de unir esta frase à precedente. Pois quer este seja um vocábulo hebraico, como alguns pretendem, que significa «assim seja»; quer seja um vocábulo grego que marca uma pausa na salmodia (de modo que Psalma seria o que se canta na salmodia, e Diapsalma um intervalo de silêncio na salmodia; pois assim como a junção das vozes no canto se chama Sympsalma, assim a sua separação se chama Diapsalma, onde se marca certa pausa de continuidade interrompida) — quer, digo, seja o primeiro, ou o segundo, ou outra coisa qualquer, isto ao menos é provável: que o sentido não pode retamente ser continuado e unido onde o Diapsalma intervém.
5. «O Senhor me ouvirá quando eu clamar a Ele.» Creio que aqui somos advertidos a implorar com grande ardor de coração, isto é, com um clamor interior e incorpóreo, o auxílio de Deus. Pois assim como devemos dar graças pela iluminação nesta vida, assim devemos orar pelo descanso após esta vida. Pelo que, na pessoa quer do fiel pregador do Evangelho, quer do próprio Senhor, pode tomar-se como se estivesse escrito: o Senhor vos ouvirá quando clamardes a Ele.
6. «Irai-vos e não pequeis» (v. 4). Pois ocorreu-lhe o pensamento: Quem é digno de ser ouvido? Ou como não clamará em vão ao Senhor o pecador? «Irai-vos», pois, diz ele, «e não pequeis.» O que pode tomar-se de dois modos: ou, ainda que vos ireis, não pequeis — isto é, mesmo que surja na alma uma emoção que agora, por razão do castigo do pecado, não está em nosso poder, ao menos a razão e a mente, que segundo Deus foi regenerada interiormente para que com a mente sirvamos a lei de Deus, ainda que com a carne sirvamos a lei do pecado, não consinta nisso; ou, arrependei-vos, isto é, irai-vos contra vós mesmos pelos vossos pecados passados e doravante cessai de pecar. «O que dizeis nos vossos corações»: subentende-se «dizei-o». De modo que a frase completa é: «O que dizeis nos vossos corações, dizei-o»; isto é, não sejais o povo de quem se diz: «Com os seus lábios Me honram, mas o coração deles está longe de Mim». «Nos vossos aposentos sede compungidos.» Isto é o que já foi expresso «no coração». Pois este é o aposento de que nosso Senhor nos adverte que devemos orar no seu interior, com as portas fechadas. «Sede compungidos», porém, refere-se ou à dor do arrependimento, para que a alma em castigo se compunja a si mesma, a fim de que não seja condenada e atormentada no juízo de Deus; ou ao despertar, para que despertemos a contemplar a luz de Cristo, como se se fizesse uso de aguilhões. Alguns dizem, porém, que não «sede compungidos», mas «sede abertos» é a melhor leitura, porque no Saltério grego se encontra katanughte, que se refere àquela dilatação do coração, a fim de que se receba a efusão do amor pelo Espírito Santo.
7. «Oferecei sacrifício de justiça e esperai no Senhor» (v. 5). Diz o mesmo noutro Salmo: «O sacrifício para Deus é o espírito atribulado.» Pelo que não é irrazoável entender aqui que este é o sacrifício de justiça que se oferece por meio do arrependimento. Pois que há de mais justo do que cada um irar-se contra os próprios pecados, antes que contra os alheios, e no autocastigo sacrificar-se a si mesmo a Deus? Ou serão as obras justas após o arrependimento o sacrifício de justiça? Pois a interposição do Diapsalma não irracionalmente sugere, porventura, uma transição da vida antiga para a nova, de sorte que, destruído ou debilitado o homem velho pelo arrependimento, o sacrifício de justiça, segundo a regeneração do homem novo, seja oferecido a Deus; quando a alma já purificada se oferece e se coloca sobre o altar da fé, para ser envolvida pelo fogo celeste, isto é, pelo Espírito Santo. De modo que este seja o sentido: «Oferecei sacrifício de justiça e esperai no Senhor» — isto é, vivei retamente e esperai o dom do Espírito Santo, para que a verdade em que crestes resplandeça sobre vós.
8. Mas «esperai no Senhor» é dito ainda sem explicação. Ora, o que se espera senão coisas boas? Mas posto que cada um desejaria obter de Deus aquele bem que ama, e não se encontram facilmente os que amam os bens interiores — isto é, os que pertencem ao homem interior, os quais somente devem ser amados, enquanto os demais devem ser usados por necessidade, não fruídos por deleite — excelentemente acrescentou, após ter dito «esperai no Senhor» (v. 6): «Muitos dizem: Quem nos mostrará coisas boas?» Este é o discurso e esta a indagação quotidiana de todos os insensatos e iníquos; quer daqueles que anseiam pela paz e sossego da vida mundana e, pela perversidade dos homens, não os encontram — os quais, mesmo em sua cegueira, ousam censurar a ordem dos acontecimentos, quando, envolvidos nos próprios merecimentos, julgam os tempos piores que os passados; quer daqueles que duvidam e desesperam daquela vida futura que nos é prometida, e que amiúde dizem: Quem sabe se é verdade? Ou: quem jamais voltou de lá para nos contar?
Muito requintada e brevemente, pois, mostra ele (àqueles que têm a vista interior) quais são os bens a buscar, respondendo à pergunta dos que dizem: «Quem nos mostrará coisas boas?» «A luz do Vosso rosto», diz ele, «está impressa sobre nós, ó Senhor.» Esta luz é o verdadeiro e completo bem do homem, que não se vê com o olho, mas com a mente. Diz, porém, «impressa sobre nós», como a moeda é cunhada com a efígie do rei. Pois o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, a qual desfigurou pelo pecado; portanto, o seu verdadeiro e eterno bem consiste em ser novamente cunhado por um novo nascimento. E creio ser este o alcance daquilo que alguns entendem com perspicácia — refiro-me ao que o Senhor disse ao ver a moeda do tributo de César: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.» Como se houvesse dito: Do mesmo modo que César exige de vós a impressão da sua imagem, assim também Deus, para que, como a moeda do tributo lhe é entregue, assim a alma seja entregue a Deus, iluminada e cunhada com a luz do Seu rosto. (v. 7) «Puseste alegria no meu coração.» A alegria, pois, não deve ser buscada fora por aqueles que, sendo ainda pesados de coração, «amam a vaidade e buscam a mentira»; mas dentro, onde a luz do rosto de Deus está impressa. Pois Cristo habita no homem interior, como diz o Apóstolo; a Ele pertence ver a verdade, pois Ele disse: «Eu sou a verdade.» E ainda, quando falou no Apóstolo, dizendo: «Quereis uma prova de Cristo, que fala em mim?» — não falou, decerto, de fora para ele, mas no seu próprio coração, isto é, naquele aposento onde devemos orar.
9. Mas os homens (que sem dúvida são muitos), que seguem as coisas temporais, não sabem dizer outra coisa senão: «Quem nos mostrará coisas boas?», quando o verdadeiro e certo bem, dentro de si mesmos, não conseguem ver. Destes, pois, com toda a justiça se diz o que ele acrescenta a seguir: «Desde o tempo do Seu trigo, do vinho e do azeite, foram eles multiplicados.» A adição de «Seu» não é supérflua. Pois o trigo é de Deus, porquanto Ele é «o pão vivo que desceu do céu». O vinho também é de Deus, pois «inebriados serão», diz, «com a abundância da Tua casa». O azeite também é de Deus, de quem se diz: «Ungiste a minha cabeça com óleo.» Mas aqueles muitos que dizem «Quem nos mostrará coisas boas?» e que não veem que o reino dos céus está dentro deles — estes «desde o tempo do Seu trigo, do vinho e do azeite, foram multiplicados». Pois a multiplicação nem sempre significa abundância, e não raro significa escassez: quando a alma, entregue aos prazeres temporais, arde sempre de desejo e não pode ser saciada; e, distraída por pensamentos múltiplos e ansiosos, não lhe é permitido ver o bem simples. Tal é a alma de quem se diz: «Pois o corpo corruptível oprime a alma, e o tabernáculo terrestre pesa sobre a mente que medita em muitas coisas.» Uma alma assim, pela partida e sucessão dos bens temporais — isto é, «desde o tempo do Seu trigo, vinho e azeite» — repleta de inúmeras fantasias vãs, é de tal modo multiplicada que não pode cumprir o que é mandado: «Pensai no Senhor na bondade e na simplicidade de coração buscai-O.» Pois esta multiplicidade opõe-se fortemente àquela simplicidade.
E portanto, deixando estes que são muitos, multiplicados, isto é, pelo desejo das coisas temporais, e que dizem «Quem nos mostrará coisas boas?» — coisas que devem ser buscadas não com os olhos de fora, mas com simplicidade de coração por dentro — o homem fiel se alegra e diz: «Em paz, juntamente, dormirei e descansarei» (v. 8). Pois tais homens justamente esperam todo tipo de alheamento da mente das coisas mortais e esquecimento das misérias deste mundo; o que bela e profèticamente se significa sob o nome de sono e descanso, onde a mais perfeita paz não pode ser interrompida por tumulto algum. Mas isto não se tem agora nesta vida, e sim deve esperar-se após esta vida. Isto as próprias palavras, que estão no tempo futuro, no-lo mostram. Pois não se diz «dormi e descansei», nem «durmo e descanso», mas «dormirei e descansarei». Então «este corruptível revestir-se-á de incorrupção, e este mortal revestir-se-á de imortalidade; então a morte será absorvida na vitória». Daí se dizer: «Mas se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.»
10. Pelo que, em coerência com isto, acrescenta as últimas palavras e diz: «Pois Tu, ó Senhor, na singularidade me fizeste habitar na esperança.» Aqui não diz «farás», mas «fizeste». Naquele, pois, em quem esta esperança já existe, certamente existirá aquilo que se espera. E bem diz «na singularidade». Pois isto pode referir-se em oposição àqueles muitos que, multiplicados desde o tempo do Seu trigo, vinho e azeite, dizem: «Quem nos mostrará coisas boas?» Pois esta multiplicidade perece, e a singularidade é observada entre os santos, de quem se diz nos Actos dos Apóstolos: «E da multidão dos que creram, era uma só alma e um só coração.» Na singularidade, pois, e na simplicidade — removidos, isto é, da multidão e turba das coisas que nascem e morrem — devemos ser amantes da eternidade e da unidade, se desejamos aderir ao único Deus e Senhor nosso.
1. O título do Salmo é: «Para aquela que recebe a herança.» Significa, pois, a Igreja, que recebe por herança a vida eterna por nosso Senhor Jesus Cristo, para que possua o próprio Deus, em cuja adesão possa ser bem-aventurada, conforme aquilo: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.» Que terra, senão aquela de que se diz: «Tu és a minha esperança, a minha porção na terra dos viventes»? E mais claramente ainda: «O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice.» E inversamente diz-se que a Igreja é herança de Deus, conforme aquilo: «Pede-Me e dar-Te-ei as nações por herança.» Diz-se, portanto, que Deus é a nossa herança, porque nos alimenta e sustenta; e diz-se que nós somos herança de Deus, porque Ele nos ordena e governa. Pelo que é a voz da Igreja neste Salmo, chamada à sua herança, para que ela própria também se torne herança do Senhor.
2. «Ouve as minhas palavras, ó Senhor» (v. 1). Sendo chamada, ela invoca o Senhor, para que, com o auxílio do mesmo Senhor, possa atravessar a maldade deste mundo e chegar até Ele. «Entende o meu clamor.» O Salmista bem mostra o que é este clamor — como, do interior, do aposento do coração, sem a emissão da voz corpórea, ele chega a Deus. Pois a voz corpórea é ouvida, mas a espiritual é entendida. Embora também este ouvir possa ser de Deus, não com ouvido carnal, mas na omnipresença da Sua Majestade.
3. «Atende à voz da minha súplica» — isto é, àquela voz cuja compreensão ele suplica a Deus; de cuja natureza já deu a entender quando disse: «Entende o meu clamor.» «Atende à voz da minha súplica, meu Rei e meu Deus» (v. 2). Embora tanto o Filho seja Deus quanto o Pai seja Deus, e o Pai e o Filho juntos sejam um só Deus; e embora, se interrogados acerca do Espírito Santo, não devamos dar outra resposta senão que Ele é Deus; e quando o Pai, o Filho e o Espírito Santo são mencionados juntos, nada mais devamos entender que um só Deus — todavia, a Escritura costuma dar a denominação de Rei ao Filho. Segundo, pois, aquilo que se diz: «Por Mim se vai ao Pai», retamente se diz primeiro «meu Rei» e depois «meu Deus». E contudo o Salmista não disse «Atendei Vós», mas «Atende Tu». Pois a fé católica não prega dois ou três deuses, mas a própria Trindade como um só Deus. Não que a mesma Trindade possa ser conjuntamente ora o Pai, ora o Filho, ora o Espírito Santo, como Sabélio cria; mas que o Pai não deve ser senão o Pai, e o Filho não deve ser senão o Filho, e o Espírito Santo não deve ser senão o Espírito Santo, e esta Trindade um só Deus. Daí que o Apóstolo, tendo dito: «Dele são todas as coisas, por Ele são todas as coisas, Nele são todas as coisas», crê-se ter dado a entender a própria Trindade; e contudo não acrescentou «a Eles seja a glória», mas «a Ele seja a glória».
5. «De manhã estarei diante de Ti e verei» (v. 3). Que significa «estarei de pé» senão «não estarei prostrado»? Ora, que é estar prostrado senão repousar na terra, que é buscar a felicidade nos prazeres terrenos? «Estarei diante de Ti», diz, «e verei.» Não devemos, pois, apegar-nos às coisas terrenas se desejamos ver a Deus, que é contemplado pelo coração puro. «Pois Tu não és um Deus que Te comprazes na iniquidade. O maligno não habitará junto a Ti, nem os injustos subsistirão diante dos Teus olhos. Odiaste todos os que praticam a iniquidade, destruirás todos os que falam mentira. O homem de sangue e o fraudulento, o Senhor os abominará» (vv. 4-6). Iniquidade, malícia, mentira, homicídio, fraude e tudo o semelhante são a noite de que falamos; ao passar da qual amanhece a manhã, para que Deus possa ser visto. Expôs, pois, a razão pela qual estará de pé de manhã e verá: «Pois», diz, «Tu não és um Deus que Te comprazes na iniquidade.» Porque se fosse um Deus que Se comprazesse na iniquidade, poderia ser visto mesmo pelos iníquos, de sorte que não seria visto de manhã, isto é, passada a noite da iniquidade.
6. «O maligno não habitará junto a Ti» — isto é, não verá de modo a aderir a Ti. Donde se segue: «Nem os injustos subsistirão diante dos Teus olhos.» Pois os seus olhos, isto é, a sua mente, são repelidos pela luz da verdade por causa das trevas dos seus pecados; pelo costume habitual dos quais não são capazes de sustentar o fulgor da reta inteligência. Por isso, mesmo aqueles que veem às vezes, isto é, que entendem a verdade, sendo contudo ainda injustos, não permanecem nela por amor daquelas coisas que desviam da verdade. Pois carregam consigo a sua noite, isto é, não só o hábito, mas até o amor do pecado. Mas se esta noite passar, isto é, se cessarem de pecar, e este amor e hábito dele for posto em fuga, amanhece a manhã, de modo que não somente entendam, mas também adiram à verdade.
7. «Odiaste todos os que praticam a iniquidade.» O ódio de Deus pode entender-se por aquela forma de expressão pela qual todo pecador odeia a verdade. Pois parece que ela também odeia aqueles a quem não permite subsistir em si. Ora, não subsistem aqueles que não podem suportar a verdade. «Destruirás todos os que falam mentira.» Pois isto é o oposto da verdade. Mas para que ninguém suponha que alguma substância ou natureza é oposta à verdade, entenda que «a mentira» se refere àquilo que não é, não àquilo que é. Pois se se fala o que é, fala-se a verdade; mas se se fala o que não é, é mentira. Portanto diz: «Destruirás todos os que falam mentira», porque, afastando-se daquilo que é, desviam-se para aquilo que não é. Muitas mentiras, de facto, parecem servir para a segurança ou vantagem de alguém, ditas não por malícia, mas por benevolência — como aquela das parteiras no Êxodo, que deram falso testemunho a Faraó para que os meninos dos filhos de Israel não fossem mortos. Mas mesmo estas são louvadas não pelo facto em si, mas pela disposição demonstrada; pois as que mentem apenas deste modo alcançarão com o tempo a liberdade de toda mentira. Pois nos perfeitos, nem mesmo estas mentiras se encontram. A estes se diz: «Seja na vossa boca sim, sim; não, não; o que passa disso vem do mal.» Nem é sem razão que está escrito noutro lugar: «A boca que mente mata a alma» — para que ninguém imagine que o homem perfeito e espiritual deva mentir por esta vida temporal, na morte da qual nenhuma alma é morta, nem a própria nem a alheia. Mas posto que uma coisa é mentir, outra é ocultar a verdade (se de facto é uma coisa dizer o que é falso, outra não dizer o que é verdadeiro), se porventura alguém não quer entregar um homem nem mesmo a esta morte visível, deve estar preparado para ocultar o que é verdadeiro, não para dizer o que é falso — de modo que nem o entregue, nem minta, para que não mate a própria alma pelo corpo de outrem. Mas se ainda não pode fazer isto, admita ao menos apenas mentiras de tal necessidade, para que possa alcançar ser livre mesmo destas, se somente estas restam, e receba a força do Espírito Santo pela qual possa desprezar tudo o que se deve sofrer pela verdade. Em suma, há dois géneros de mentiras nos quais não há grande culpa, embora não sejam sem culpa: quando estamos a brincar, ou quando mentimos para fazer o bem. O primeiro, em brincadeira, é por esta razão pouco nocivo, porque não há engano — pois aquele a quem se diz sabe que se diz por brincadeira. O segundo é por esta razão mais inofensivo, porque leva consigo alguma intenção benévola. E, para dizer a verdade, aquilo que não tem duplicidade não pode sequer chamar-se mentira. Como se, por exemplo, uma espada for confiada a alguém e ele prometer devolvê-la quando quem lha confiou a exigir: se este por acaso exigir a sua espada quando num acesso de loucura, é claro que não deve ser devolvida então, para que não mate a si mesmo ou a outros, até que lhe seja restituída a sanidade da mente. Aqui não há duplicidade, porque aquele a quem a espada foi confiada, quando prometeu que a devolveria ao pedido do outro, não imaginou que ele pudesse exigi-la em acesso de loucura. Mas mesmo o Senhor ocultou a verdade quando disse aos discípulos, ainda não suficientemente fortes: «Tenho muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar agora»; e o Apóstolo Paulo quando disse: «Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais.» Donde é claro que não é censurável por vezes não dizer o que é verdadeiro. Mas dizer o que é falso não se encontra que tenha sido permitido aos perfeitos.
4. «Porque a Ti orarei (v. 3), ó Senhor; de manhã ouvirás a minha voz.» Que significa aquilo que disse acima — «Ouve» — como se desejasse ser ouvido imediatamente? Mas agora diz: «De manhã ouvirás» e não «ouve»; e «orarei a Ti» e não «oro a Ti»; e, como se segue, «de manhã estarei diante de Ti e verei» e não «estou diante de Ti e vejo». A não ser, porventura, que a sua oração anterior marque a própria invocação; mas, estando nas trevas em meio às tempestades deste mundo, percebe que não vê o que deseja, e contudo não cessa de esperar — «pois a esperança que se vê não é esperança». Todavia, compreende por que não vê: porque a noite ainda não passou, isto é, as trevas que os nossos pecados mereceram. Diz portanto: «Porque a Ti orarei, ó Senhor» — isto é, porque Tu és tão poderoso a quem farei a minha oração — «de manhã ouvirás a minha voz». Tu não és, diz, aquele que pode ser visto por aqueles de cujos olhos a noite dos pecados ainda não se retirou; quando, pois, a noite do meu erro houver passado e as trevas se dissiparem, que pelos meus pecados trouxe sobre mim, então «ouvirás a minha voz». Por que então disse acima não «ouvirás» mas «ouve»? Será que, depois que a Igreja clamou «ouve» e não foi ouvida, percebeu o que era preciso que passasse para que pudesse ser ouvida? Ou será que foi ouvida acima, mas ainda não compreende que foi ouvida, porque ainda não vê por quem foi ouvida; e o que agora diz «de manhã ouvirás» quisera ser entendido assim: de manhã compreenderei que fui ouvida? Tal é aquela expressão: «Levanta-Te, Senhor», isto é, faz-me levantar. Mas esta última toma-se da ressurreição de Cristo; porém, com certeza, aquela Escritura: «O Senhor vosso Deus vos prova, para que saiba se O amais», não pode tomar-se em outro sentido senão: para que vós por Ele saibais e para que se torne evidente a vós mesmos que progresso fizestes no Seu amor.
8. «O homem de sangue e o fraudulento, o Senhor os abominará.» O que disse acima — «Odiaste todos os que praticam a iniquidade, destruirás todos os que falam mentira» — bem pode parecer repetido aqui, de modo que se pode referir «o homem de sangue» ao «praticante de iniquidade» e «o fraudulento» à «mentira». Pois é fraude quando se faz uma coisa e se finge outra. Usou também uma palavra apta ao dizer «abominará». Pois os deserdados costumam ser chamados abominados. Ora, este Salmo é «para aquela que recebe a herança»; e ela acrescenta a alegria exultante da sua esperança ao dizer: «Mas eu, na multidão da Tua misericórdia, entrarei na Tua casa» (v. 7). «Na multidão da misericórdia» — talvez signifique na multidão dos homens aperfeiçoados e bem-aventurados de que consistirá aquela cidade, da qual a Igreja agora está em trabalho de parto, dando à luz pouco a pouco. Que muitos homens regenerados e aperfeiçoados são rectamente chamados a multidão da misericórdia de Deus, quem o pode negar? Quando é veríssimo o que se diz: «Que é o homem para que dele Te lembres, ou o filho do homem para que o visites?» «Entrarei na Tua casa» — como pedra numa construção, suponho, é o significado. Pois que outra coisa é a casa de Deus senão o Templo de Deus, de que se diz: «Porque o templo de Deus é santo, o qual sois vós»? Dessa construção é pedra angular Aquele que a Virtude e Sabedoria de Deus, coeterna com o Pai, assumiu.
9. «Adorarei junto ao Teu santo templo, no Teu temor.» «Junto ao templo» entendemos como «perto do» templo. Pois não diz «adorarei no Teu santo templo», mas «adorarei junto ao Teu santo templo». Deve entender-se também como dito não da perfeição, mas do progresso rumo à perfeição, de modo que as palavras «entrarei na Tua casa» signifiquem a perfeição. Mas para que isto chegue a bom termo, «adorarei» primeiro, diz, «junto ao Teu santo templo». E talvez por esta razão acrescentou «no Teu temor», que é grande defesa para os que avançam rumo à salvação. Mas quando alguém tiver chegado lá, nele se cumpre o que está escrito: «O amor perfeito lança fora o temor.» Pois não temem Aquele que é agora seu amigo, a quem se diz: «Doravante não vos chamarei servos, mas amigos», quando houverem sido conduzidos àquilo que foi prometido.
10. «Senhor, guia-me na Tua justiça por causa dos meus inimigos» (v. 8). Declarou aqui com suficiente clareza que está no seu caminho, isto é, em progresso rumo à perfeição, não ainda na perfeição mesma, quando ardentemente deseja ser conduzido. «Na Tua justiça», porém — não naquela que parece tal aos homens. Pois retribuir o mal pelo mal parece justiça; mas não é a Sua justiça, de quem se diz: «Ele faz nascer o Seu sol sobre bons e maus.» Pois mesmo quando Deus castiga os pecadores, não lhes inflige o Seu mal, mas abandona-os ao mal deles próprios. «Eis que», diz o Salmista, «ele concebeu a iniquidade, gerou o trabalho e deu à luz a injustiça: abriu uma cova e cavou-a, e caiu na fossa que fez. O seu trabalho se voltará sobre a sua cabeça e a sua iniquidade descerá sobre a sua fronte.» Quando, pois, Deus castiga, castiga como juiz aqueles que transgridem a lei, não trazendo-lhes o mal de Si mesmo, mas impelindo-os para aquilo que escolheram, para perfazer a soma da sua miséria. Mas o homem, quando retribui o mal pelo mal, fá-lo com vontade má; e por esta razão é ele próprio primeiro mau, quando quer punir o mal.
11. "Dirige diante de Ti o meu caminho." Nada há mais claro do que isto, que aqui ele expõe o tempo pelo qual caminha avante. Pois este é um caminho que não se percorre em regiões algumas da terra, mas nos afetos do coração. "Diante de Ti", diz ele, "dirige o meu caminho": isto é, onde nenhum homem vê; os quais não são de confiar-se, seja em seu louvor, seja em sua censura. Pois eles de nenhum modo podem julgar a consciência alheia, na qual se percorre o caminho para Deus. Donde se acrescenta: "porque não há verdade em sua boca" (v. 9). A cujo juízo, por certo, não se deve dar crédito algum, e por isso devemos refugiar-nos interiormente na consciência e no olhar de Deus. "O seu coração é vão." Como, pois, poderia haver verdade na boca daqueles cujo coração é enganado pelo pecado, e pela pena do pecado? Donde os homens são chamados de volta por aquela voz: "Por que amais a vaidade, e buscais a mentira?"
12. "A sua garganta é um sepulcro aberto." Pode-se referir isto para significar a gula, por causa da qual muitas vezes os homens mentem por adulação. E admiravelmente disse ele: "um sepulcro aberto": pois esta gula está sempre a boquejar com a boca aberta, não como os sepulcros, que, uma vez recebidos os cadáveres, se fecham. Também se pode entender por isto que, com mentira e cega adulação, os homens atraem a si aqueles a quem seduzem para o pecado; e como que os devoram, quando os convertem ao seu próprio modo de viver. E quando isto lhes acontece, visto que pelo pecado morrem, com razão são chamados sepulcros abertos aqueles por quem são conduzidos: pois também eles mesmos estão, de certo modo, sem vida, destituídos que são da vida da verdade; e recebem em si mesmos homens mortos, os quais, tendo matado com palavras mentirosas e coração vão, convertem a si. "Com as suas próprias línguas agiram enganosamente": isto é, com línguas más. Pois isto parece ser significado quando diz "as suas próprias". Porque os maus têm más línguas, isto é, falam o mal, quando falam com engano. A quem o Senhor diz: "Como podeis vós, sendo maus, falar coisas boas?"
13. "Julga-os, ó Deus: caiam eles pelos seus próprios pensamentos" (v. 10). É uma profecia, não uma maldição. Pois ele não deseja que isto aconteça; mas percebe o que há de acontecer. Pois isto lhes sucede não porque ele pareça tê-lo desejado, mas porque eles são tais que merecem que isto lhes suceda. Assim também o que diz depois — "alegrem-se todos os que em Ti esperam" — di-lo por modo de profecia, uma vez que percebe que se hão de alegrar. Igualmente se diz profeticamente: "Desperta a Tua fortaleza, e vem": pois via que Ele haveria de vir. Ainda que as palavras "caiam eles pelos seus próprios pensamentos" possam também ser entendidas assim, que se creia antes ser um desejo do Salmista pelo bem deles, enquanto caem de seus maus pensamentos, isto é, que não pensem mais o mal. Mas o que se segue, "expulsa-os", proíbe esta interpretação. Pois de nenhum modo se pode tomar em sentido favorável que alguém seja expulso por Deus. Por isso se entende que isto se diz profeticamente, e não por má vontade; quando se diz aquilo que necessariamente há de suceder aos que escolheram perseverar naqueles pecados que foram mencionados. "Caiam eles", pois, "pelos seus próprios pensamentos" é: caiam pelos pensamentos que a si mesmos acusam, "dando testemunho também a sua própria consciência", como diz o Apóstolo, "e os seus pensamentos acusando-os ou também desculpando-os, na revelação do justo juízo de Deus."
14. "Segundo a multidão das suas impiedades, expulsa-os": isto é, expulsa-os para longe. Pois isto é "segundo a multidão das suas impiedades", que sejam expulsos para bem longe. Os ímpios, portanto, são expulsos daquela herança que se possui conhecendo e vendo a Deus: assim como os olhos doentes são expulsos do resplendor da luz, quando o que para outros é alegria, para eles é dor. Não estarão eles, pois, na manhã, nem verão. E esta expressão é tão grande castigo quanto é grande recompensa aquilo que se diz: "mas para mim, bom é apegar-me ao Senhor." A este castigo se opõe: "Entra tu no gozo do teu Senhor"; pois semelhante a esta expulsão é: "Lançai-o nas trevas exteriores."
15. "Porquanto Te amargaram, ó Senhor": Eu sou, diz Ele, "o Pão que desceu do céu"; e ainda: "Trabalhai pelo alimento que não perece"; e ainda: "Provai e vede que o Senhor é doce." Mas para os pecadores o pão da verdade é amargo. Donde odeiam a boca daquele que fala a verdade. Estes, pois, amargaram a Deus, os quais pelo pecado caíram em tal estado de enfermidade que o alimento da verdade, no qual as almas sãs se deleitam, não podem suportar, como se fosse amargo qual fel.
16. "E alegrem-se todos os que em Ti esperam"; aqueles, sem dúvida, a cujo paladar o Senhor é doce. "Exultarão para sempre, e Tu habitarás neles" (v. 11). Esta será a exultação para sempre, quando os justos se tornarem o Templo de Deus, e Ele, seu Habitante interior, for a sua alegria. "E todos os que amam o Teu nome se gloriarão em Ti": como quando aquilo que amam está presente para que dele desfrutem. E bem se diz "em Ti", como que na posse da herança de que fala o título do Salmo: quando eles também são a Sua herança, o que se indica por "Tu habitarás neles". Deste bem são afastados aqueles a quem Deus, segundo a multidão de suas impiedades, expulsa.
17. "Pois Tu abençoarás o justo" (v. 12). Esta é a bênção: gloriar-se em Deus, e ser habitado por Deus. Tal santificação é dada aos justos. Mas para que sejam justificados, precede um chamado: o qual não é de mérito, mas da graça de Deus. "Pois todos pecaram, e carecem da glória de Deus." "Pois aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou." Visto, pois, que o chamado não é de nosso mérito, mas da bondade e misericórdia de Deus, prossegue ele dizendo: "Ó Senhor, como que com o escudo de Tua boa vontade nos coroaste." Pois a boa vontade de Deus precede a nossa boa vontade, para chamar os pecadores ao arrependimento. E estas são as armas com que se vence o inimigo, contra quem se diz: "Quem trará acusação contra os eleitos de Deus?" E ainda: "se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós." "Pois se, quando éramos inimigos, Cristo morreu por nós; muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos da ira por Ele." Este é aquele escudo invencível, pelo qual se repele o inimigo, quando este sugere o desespero de nossa salvação por causa da multidão das tribulações e tentações.
18. Todo o conteúdo do Salmo, portanto, é uma oração para que ela seja ouvida, desde as palavras "ouve as minhas palavras, ó Senhor" até "meu Rei e meu Deus". Segue-se depois uma visão daquelas coisas que impedem a visão de Deus, isto é, o conhecimento de que ela é ouvida, desde as palavras "porque a Ti orarei, Senhor; pela manhã ouvirás a minha voz" até "ao homem de sangue e ao enganador o Senhor abominará". Em terceiro lugar, ela espera que, devendo ser a casa de Deus, já agora comece a aproximar-se dEle com temor, antes daquela perfeição que lança fora o temor, desde as palavras "mas eu, pela multidão de Tua misericórdia" até "adorarei no Teu santo templo, no Teu temor". Em quarto lugar, à medida que progride e avança em meio às próprias coisas que sente impedi-la, ela ora para que seja assistida interiormente, onde nenhum homem vê, para que não seja desviada por línguas más, pelas palavras "Senhor, conduze-me em Tua justiça, por causa dos meus inimigos" até "com as suas línguas agiram enganosamente". Em quinto lugar, há uma profecia de qual castigo aguarda os ímpios, quando o justo apenas com dificuldade se salvará; e de qual recompensa obterão os justos, os quais, tendo sido chamados, vieram, e suportaram tudo varonilmente, até serem levados ao fim, desde as palavras "julga-os, ó Deus" até o fim do Salmo.
Para o Fim, nos Hinos do Oitavo, Salmo a Davi.
1. "Do oitavo" parece aqui obscuro, pois o restante deste título é mais claro. Ora, pareceu a alguns que isto significasse o dia do juízo, isto é, o tempo da vinda de nosso Senhor, quando Ele há de vir julgar os vivos e os mortos. Vinda esta que se crê há de ser, computando-se os anos desde Adão, sete mil anos: de modo que sete mil anos passassem como sete dias, e depois viesse aquele tempo como se fosse o oitavo dia. Mas, uma vez que foi dito pelo Senhor: "Não vos cabe saber os tempos, que o Pai reservou em Seu próprio poder"; e: "Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos, nem as Potestades, nem o Filho, senão só o Pai"; e ainda o que está escrito, que "o dia do Senhor vem como um ladrão", mostra claramente o bastante que ninguém deve arrogar-se o conhecimento daquele tempo por nenhum cômputo de anos. Pois, se aquele dia há de vir depois de sete mil anos, qualquer homem poderia conhecer a sua vinda calculando os anos. Que significa, pois, não saber o Filho isto mesmo? O que, sem dúvida, é dito neste sentido: que os homens não aprendem isto pelo Filho, e não que Ele mesmo o ignore; segundo aquela forma de falar: "O Senhor teu Deus te prova, para que saiba"; isto é, para que te faça saber; e: "levanta-te, Senhor"; isto é, faze-nos levantar. Quando, pois, se diz que o Filho não sabe este dia, não é porque Ele o ignore, mas porque faz com que não o saibam aqueles a quem não convém sabê-lo, isto é, não lho revela. Que significa, pois, aquela estranha presunção que, por um cômputo de anos, espera o dia do Senhor como certíssimo depois de sete mil anos?
3. Temendo esta condenação, a Igreja ora neste Salmo e diz: "Não me repreendas, Senhor, na Tua ira" (v. 1). Também o Apóstolo menciona a ira do juízo: "Tu entesouras para ti mesmo", diz ele, "ira para o dia da ira do justo juízo de Deus." Nesta, não quereria ser repreendido quem quer que anseie ser curado nesta vida. "Nem me castigues no Teu furor." "Castigar" parece palavra demasiado branda, pois aproveita para a emenda. Quanto àquele que é repreendido, isto é, acusado, há de temer-se que o seu fim seja a condenação. Mas, como "furor" parece mais que "ira", pode surgir a dificuldade de por que aquilo que é mais brando, a saber, o castigo, se une àquilo que é mais severo, a saber, o furor. Suponho, porém, que uma só e mesma coisa é significada pelas duas palavras. Pois em grego thymós, que está no primeiro versículo, significa o mesmo que orgé, que está no segundo versículo. Mas, quando os próprios latinos quiseram usar duas palavras distintas, buscaram o que fosse aparentado a "ira", e usou-se "furor". Daí variarem os exemplares: pois em alguns se encontra primeiro "ira" e depois "furor"; em outros, em lugar de "furor", usa-se "indignação" ou "cólera". Mas, seja qual for a leitura, é uma emoção da alma que impele à imposição do castigo. Contudo, esta emoção não se deve atribuir a Deus como a uma alma, de quem se diz: "mas Tu, Senhor do poder, julgas com tranquilidade." Ora, o que é tranquilo não se perturba. A perturbação, pois, não se aplica a Deus como juiz; mas aquilo que é feito por Seus ministros, por ser feito segundo as Suas leis, chama-se a Sua ira. Nesta ira, a alma que agora ora não somente não seria repreendida, mas nem sequer castigada, isto é, emendada ou instruída. Pois em grego está paideúsēs, isto é, instruir. Ora, no dia do juízo, são "repreendidos" todos os que não retêm o fundamento, que é Cristo. Mas são emendados, isto é, purgados, os que "sobre este fundamento edificam madeira, feno, palha. Pois sofrerão dano, mas se salvarão, como que pelo fogo." Que pede, pois, quem não quereria ser nem repreendido nem emendado na ira do Senhor? Que outra coisa senão ser curado? Pois onde há sã saúde, não se há de temer nem a morte, nem a mão do médico com cautérios ou com o bisturi.
2. Sejamos, pois, voluntariamente ignorantes daquilo que o Senhor não quis que soubéssemos, e indaguemos o que significa este título, "do oitavo". O dia do juízo pode, na verdade, ser entendido pelo oitavo mesmo sem nenhum temerário cômputo de anos, porquanto, imediatamente após o fim deste mundo, alcançada a vida eterna, as almas dos justos já não estarão sujeitas aos tempos; e, como todos os tempos têm a sua revolução na repetição destes sete dias, talvez se chame oitavo dia aquele que não terá esta variedade. Há ainda outra razão, que aqui não sem motivo se pode aceitar, para que o juízo se chame o oitavo, a saber, que ele há de suceder-se depois de duas gerações, uma pertencente ao corpo, outra à alma. Pois, de Adão até Moisés, o gênero humano viveu do corpo, isto é, segundo a carne, o que se chama o homem exterior e velho, e ao qual foi dado o Antigo Testamento, para que prefigurasse, por operações embora religiosas, contudo carnais, as coisas espirituais que haviam de vir. Durante todo este tempo, quando os homens viviam segundo o corpo, "reinou a morte", como diz o Apóstolo, "até mesmo sobre os que não haviam pecado". Ora, reinou "à semelhança da transgressão de Adão", como diz o mesmo Apóstolo; pois isto se há de entender do período até Moisés, até quando as obras da lei, isto é, aqueles sacramentos de observância carnal, mantinham presos, por causa de certo mistério, ainda aqueles que estavam sujeitos ao Deus Único. Mas, a partir da vinda do Senhor, por quem se fez a passagem da circuncisão da carne para a circuncisão do coração, fez-se o chamado para que o homem vivesse segundo a alma, isto é, segundo o homem interior, o qual também se chama "homem novo" por causa do novo nascimento e da renovação do trato espiritual. Ora, é evidente que o número quatro tem relação com o corpo, pelos quatro conhecidos elementos de que ele se compõe, e pelas quatro qualidades de seco, úmido, quente e frio. Daí também ser ele governado por quatro estações: primavera, verão, outono, inverno. Tudo isto é bastante conhecido, pois do número quatro relativo ao corpo já tratamos em outro lugar com alguma sutileza, mas obscuramente, o que se deve evitar neste discurso, que quisemos acomodar aos indoutos. Mas que o número três tenha relação com a mente pode entender-se disto, que nos é ordenado amar a Deus de modo tríplice: com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente; de cada um dos quais havemos de tratar em particular, não nos Salmos, mas nos Evangelhos; por ora, para prova da relação do número três com a mente, penso que basta o que se disse. Passados, pois, aqueles números do corpo que se referem ao homem velho e ao Antigo Testamento, e passados também os números da alma que se referem ao homem novo e ao Novo Testamento, passado por assim dizer um septenário — porque tudo se faz no tempo, distribuindo-se quatro ao corpo e três à mente —, virá o oitavo, o dia do juízo, o qual, atribuindo aos merecimentos o que lhes é devido, há de transferir de uma vez o santo, não para obras temporais, mas para a vida eterna; e há de condenar o ímpio ao castigo eterno.
4. Prossegue, pois, dizendo: "Tem piedade de mim, ó Senhor, porque sou fraco: sara-me, ó Senhor, porque os meus ossos estão perturbados" (v. 2), isto é, o sustentáculo de minha alma, ou a sua força: pois este é o sentido de "ossos". A alma, portanto, diz que a sua força está perturbada, quando fala de ossos. Pois não se há de supor que a alma tenha ossos, tais como os que vemos no corpo. Donde o que se segue tende a explicá-lo: "e a minha alma está perturbada em extremo" (v. 3), para que, por ter mencionado ossos, não se entendam estes como do corpo. "E Tu, ó Senhor, até quando?" Quem não vê aqui representada uma alma que luta com as suas enfermidades, mas que por longo tempo é retida pelo médico, para que se convença de quantos males se lançou a si mesma pelo pecado? Pois o que facilmente se cura, não muito se evita: mas pela dificuldade da cura, haverá maior cuidado em conservar a saúde recobrada. Não se há de julgar, pois, que Deus, a quem se diz "E Tu, ó Senhor, até quando?", seja cruel: mas antes um benigno convencedor da alma acerca de quanto mal ela procurou para si. Pois esta alma ainda não ora tão perfeitamente que se lhe possa dizer: "Enquanto ainda falares, Eu direi: Eis-me aqui." Para que ao mesmo tempo venha também a conhecer, se os que se convertem encontram tamanha dificuldade, quão grande castigo está preparado para os ímpios, que não hão de converter-se a Deus: como está escrito em outro lugar: "Se o justo apenas se salva, onde aparecerá o pecador e o ímpio?"
5. "Volta-Te, ó Senhor, e livra a minha alma" (v. 4). Voltando-se ela, roga que também Deus se volte para ela: como se diz, "Voltai-vos para Mim, e Eu Me voltarei para vós, diz o Senhor." Ou se há de entender segundo aquele modo de falar, "Volta-Te, ó Senhor", isto é, faze-me voltar, visto que a alma, nesta sua conversão, sente dificuldade e labor? Pois a nossa conversão, quando perfeita, encontra a Deus pronto, como diz o Profeta: "Havemo-Lo de encontrar pronto como a alva." Uma vez que não foi a Sua ausência — Ele que está presente em toda parte — mas a nossa conversão de costas o que nos fez perdê-Lo; "Ele estava neste mundo", diz-se, "e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu." Se, pois, Ele estava neste mundo, e o mundo não O conheceu, a nossa impureza não suporta a Sua vista. Mas, enquanto nos convertemos, isto é, mudando a velha vida vamos formando o nosso espírito, sentimos como duro e laborioso sermos arrancados das trevas das concupiscências terrenas para a serena, quieta e tranquila luz divina. E em tal dificuldade dizemos: "Volta-Te, ó Senhor", isto é, ajuda-nos, para que se aperfeiçoe em nós aquela conversão que Te encontra pronto, e a Ti mesmo oferecendo-Te para fruição daqueles que Te amam. E por isso, depois de haver dito "Volta-Te, ó Senhor", acrescentou "e livra a minha alma": como que presa aos laços deste mundo, e sofrendo, no próprio ato de converter-se, os espinhos, por assim dizer, dos desejos que a rasgam e dilaceram. "Sara-me", diz ele, "por causa de Tua piedade." Sabe ele que não é por seus próprios méritos que é curado: pois a ele, que pecou e transgrediu um mandamento dado, era devida a justa condenação. Sara-me, portanto, diz ele, não por meu mérito, mas por causa de Tua piedade.
6. "Pois na morte não há quem se lembre de Ti" (v. 5). Sabe ele também que agora é o tempo de converter-se a Deus: pois, quando esta vida houver passado, resta apenas a retribuição de nossos merecimentos. "Mas no inferno quem Te confessará?" Aquele rico, de quem fala o Senhor, o qual viu a Lázaro em repouso, mas a si mesmo se lamentava em tormentos, confessou no inferno, a ponto de desejar até que os seus irmãos fossem avisados, para que se guardassem do pecado, por causa do castigo que não se crê existir no inferno. Ainda que, portanto, em vão, todavia confessou que aqueles tormentos justamente lhe haviam sobrevindo; visto que até desejou que os seus irmãos fossem instruídos, para que não caíssem no mesmo. Que é, pois, "Mas no inferno quem Te confessará?" Há de entender-se o inferno como aquele lugar aonde os ímpios serão lançados depois do juízo, quando, por causa daquela treva mais profunda, não mais verão luz alguma de Deus, a quem possam confessar coisa alguma? Pois ainda aquele rico, levantando os olhos, embora um vasto abismo se interpusesse, podia ainda ver a Lázaro estabelecido em repouso: comparando-se com o qual, foi levado a confessar os seus próprios merecimentos. Pode-se também entender como se o Salmista chamasse de morte o pecado, isto é, o que se comete em desprezo da lei de Deus: de modo que devêssemos dar o nome de morte ao aguilhão da morte, porque este procura a morte. "Pois o aguilhão da morte é o pecado." Nesta morte, esquecer-se de Deus é isto: desprezar a Sua lei e os Seus mandamentos: de sorte que por inferno o Salmista quereria significar aquela cegueira de alma que assalta e envolve o pecador, isto é, o que está morrendo. "Como não julgaram bem", diz o Apóstolo, "reter a Deus em seu conhecimento, entregou-os Deus a um sentimento reprovado." Desta morte, e deste inferno, roga a alma insistentemente que seja guardada em segurança, enquanto se esforça por converter-se a Deus, e sente as suas dificuldades.
7. Por isso prossegue dizendo: "Trabalhei em meu gemido." E como se isto pouco aproveitasse, acrescenta: "Lavarei cada noite o meu leito" (v. 6). Chama-se aqui leito aquele lugar onde repousa a alma doente e fraca, isto é, no deleite corporal e em todo prazer mundano. Prazer este que, quem se esforça por dele afastar-se, lava com lágrimas. Pois vê que já condena as concupiscências carnais; e todavia a sua fraqueza é retida pelo prazer, e nele se deita de boa vontade, de onde só a alma que já foi curada pode levantar-se. Quanto ao que diz, "cada noite", talvez quisesse que assim se entendesse: que aquele que, pronto em espírito, percebe alguma luz da verdade, e todavia, pela fraqueza da carne, repousa por algum tempo no prazer deste mundo, é obrigado a suportar como que dias e noites em alternância de sentimento: como quando diz, "com a mente sirvo à lei de Deus", sente como que dia; e de novo, quando diz "mas com a carne, à lei do pecado", declina para a noite: até que toda a noite passe, e venha aquele único dia, do qual se diz: "Pela manhã Te apresentarei, e verei." Pois então estará de pé, mas agora se deita, quando está em seu leito; o qual lavará cada noite, para que, com tão grande abundância de lágrimas, obtenha o mais seguro remédio da misericórdia de Deus. "Inundarei de lágrimas o meu leito." É uma repetição. Pois quando diz "com lágrimas", mostra com que sentido disse acima "lavarei". Porquanto tomamos aqui "leito" pelo mesmo que "leito" acima. Ainda que "inundarei" seja algo mais do que "lavarei": pois qualquer coisa se pode lavar superficialmente, mas o inundar penetra até as partes mais internas; o que aqui significa chorar até o mais fundo do coração. Ora, a variedade dos tempos verbais que usa — o passado, quando disse "trabalhei em meu gemido"; e o futuro, quando disse "lavarei cada noite o meu leito"; de novo o futuro, "inundarei de lágrimas o meu leito" — isto mostra o que todo homem deve dizer a si mesmo, quando trabalha em gemido sem proveito. Como se dissesse: Não me aproveitou o haver feito isto; farei, pois, o outro.
8. "Turbou-se de ira o meu olho" (v. 7): será pela sua própria ira, ou pela ira de Deus, na qual ele suplica para não ser repreendido, ou castigado? Mas se a ira, nesse lugar, significa o dia do juízo, como se pode entender isso agora? Será um começo dele, o fato de os homens sofrerem aqui dores e tormentos, e sobretudo a perda do entendimento da verdade; como já citei o que está dito: "Deus os entregou a um sentimento reprovado"? Pois tal é a cegueira da mente. Quem quer que a ela seja entregue é excluído da luz interior de Deus; mas não totalmente ainda, enquanto está nesta vida. Pois há "trevas exteriores", que se entende pertencerem antes ao dia do juízo; de modo que estará totalmente sem Deus aquele que, enquanto há tempo, recusa a correção. Ora, estar totalmente sem Deus, que outra coisa é senão estar em extrema cegueira? Se, de fato, Deus "habita numa luz inacessível", na qual entram aqueles a quem se diz: "Entra no gozo do teu Senhor". É, pois, o começo desta ira, que nesta vida todo pecador sofre. No temor, portanto, do dia do juízo, ele está em provação e aflição; para que não seja conduzido àquilo cujo funesto começo já experimenta agora. E por isso não disse: meu olho se extinguiu, mas: "meu olho se turbou de ira". Mas, se ele quer dizer que seu olho se turbou pela sua própria ira, também nisso não há motivo de espanto algum. Pois talvez por isso se diga: "Não se ponha o sol sobre a vossa ira"; porque a mente que, por sua própria perturbação, não é permitida ver a Deus, supõe que o sol interior, isto é, a sabedoria de Deus, sofre nela como que um ocaso.
9. "Envelheci entre todos os meus inimigos." Ele havia falado apenas da ira (se ainda era de sua própria ira que falava): mas, pensando em seus outros vícios, encontrou-se cercado por todos eles. Vícios estes que, pertencendo à vida velha e ao homem velho, que devemos despir para revestir o homem novo, bem se diz: "Envelheci". Mas "entre todos os meus inimigos", quer dizer: ou no meio destes vícios, ou no meio dos homens que não se converterão a Deus. Pois estes, ainda que não os conheçam, ainda que os suportem, ainda que usem as mesmas mesas, casas e cidades, sem que entre eles surja contenda, e em frequente convívio com aparente concórdia, todavia, pela contrariedade de seus intentos, são inimigos daqueles que se voltam para Deus. Pois, visto que uns amam e desejam este mundo, e os outros desejam ser libertos deste mundo, quem não vê que os primeiros são inimigos dos últimos? Pois, se puderem, arrastam os outros consigo para o castigo. E é grande graça conviver diariamente com suas palavras e não se apartar do caminho dos mandamentos de Deus. Pois muitas vezes a mente que se esforça por avançar para Deus, sendo rudemente tratada no próprio caminho, se alarma; e geralmente não cumpre seu bom propósito, para não ofender aqueles com quem vive, os quais amam e buscam outros bens perecíveis e transitórios. Destes, todo aquele que é são se separa, não no espaço, mas na alma. Pois o corpo é contido no espaço, mas o espaço da alma é o seu afeto.
10. Por isso, depois do labor, e do gemido, e das mui frequentes chuvas de lágrimas, visto que não pode ser ineficaz o que se pede com tanta veemência Àquele que é a Fonte de todas as misericórdias, e é dito com toda verdade: "O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado": depois de dificuldades tão grandes, a alma piedosa, pela qual também podemos entender a Igreja, indicando que foi ouvida, vede o que acrescenta: "Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade; porque o Senhor ouviu a voz do meu choro" (v. 8). Isto é dito ou proféticamente, visto que eles se apartarão, isto é, os ímpios serão separados dos justos quando chegar o dia do juízo, ou para o tempo presente. Pois, embora ambos se encontrem igualmente nas mesmas assembleias, contudo, na eira exposta, o trigo já está separado da palha, ainda que esteja oculto entre a palha. Podem, pois, estar associados juntos, mas não podem ser levados juntos pelo vento.
11. "Porque o Senhor ouviu a voz do meu choro; o Senhor ouviu a minha súplica; o Senhor acolheu a minha oração" (v. 9). A frequente repetição dos mesmos sentimentos não mostra, por assim dizer, as necessidades de quem narra, mas o ardente sentimento da sua alegria. Pois os que se alegram costumam falar assim, de modo que não lhes basta declarar uma só vez o objeto de sua alegria. Este é o fruto daquele gemido em que há labor, e daquelas lágrimas com que se lava o leito e se rega o catre: pois "o que semeia em lágrimas, em alegria ceifará"; e: "bem-aventurados os que choram, porque serão consolados".
12. "Envergonhem-se e turbem-se todos os meus inimigos" (v. 10). Disse acima: "Apartai-vos de mim, todos vós": o que pode acontecer, como já foi explicado, ainda nesta vida; mas quanto ao que diz, "envergonhem-se e turbem-se", não vejo como possa acontecer, senão naquele dia em que se manifestarem as recompensas dos justos e os castigos dos pecadores. Pois, no presente, tão longe estão os ímpios de se envergonharem, que não cessam de nos insultar. E, na maior parte, seus escárnios têm tal poder, que fazem os fracos se envergonharem do nome de Cristo. Por isso se diz: "Todo aquele que se envergonhar de Mim diante dos homens, dele também Me envergonharei diante de Meu Pai". Mas agora, quem quer que cumprisse aqueles sublimes mandamentos, de dispersar, de dar aos pobres, para que sua justiça permaneça para sempre; e, vendendo todos os seus bens terrenos e gastando-os com os necessitados, seguisse a Cristo, dizendo: "Nada trouxemos a este mundo, e é certo que nada podemos levar dele; tendo, pois, sustento e vestimenta, contentemo-nos com isso"; incorre no escárnio profano desses homens, e, por aqueles que não querem ser curados, é chamado de louco; e muitas vezes, para evitar ser assim chamado por homens desesperados, teme fazer, e adia, o que o mais fiel e poderoso de todos os médicos ordenou. Não é, pois, no presente que estes se possam envergonhar, dos quais devemos desejar não ser envergonhados, para não sermos chamados de volta da jornada que nos propusemos, ou impedidos, ou retardados. Mas virá o tempo em que se envergonharão, dizendo, como está escrito: "Estes são aqueles que outrora tivemos por escárnio e por parábola de opróbrio: nós, insensatos, reputamos a vida deles como loucura, e o seu fim sem honra: como é que são contados entre os filhos de Deus, e sua sorte está entre os santos? Logo, erramos do caminho da verdade, e a luz da justiça não brilhou sobre nós, nem o sol nasceu para nós: fartamo-nos do caminho da maldade e da destruição, e caminhamos por desertos escabrosos, mas o caminho do Senhor não conhecemos. Que nos aproveitou a soberba, ou que nos trouxe a jactância das riquezas? Todas essas coisas passaram como sombra."
13. Mas quanto ao que diz, "sejam voltados e confundidos", quem não julgaria ser castigo muitíssimo justo que tenham uma conversão para a confusão os que não quiseram tê-la para a salvação? Depois disto, acrescentou: "sobremaneira depressa". Pois, quando já não se esperar mais o dia do juízo, quando disserem: "Paz", então lhes sobrevirá súbita destruição. Ora, sempre que ele venha, vem muito depressa aquilo cuja vinda já se havia deixado de esperar; e nada faz sentir a extensão desta vida senão a esperança de viver. Pois nada parece mais rápido do que tudo o que nela já passou. Quando, pois, vier o dia do juízo, então os pecadores sentirão como toda a vida que passa não é longa. Nem lhes poderá parecer de modo algum ter vindo tardiamente aquilo que virá sem que o desejassem, ou antes, sem que nele acreditassem. Ainda que também se possa tomar aqui deste modo: que, visto ter Deus ouvido, por assim dizer, seus gemidos e suas longas e frequentes lágrimas, se entenda que ela está livre de seus pecados, e que domou todo ímpeto desordenado do afeto carnal: como diz: "Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o Senhor ouviu a voz do meu choro": e, tendo tido este ditoso desfecho, não é de admirar que já seja tão perfeita a ponto de orar por seus inimigos. As palavras, pois, "Envergonhem-se e turbem-se todos os meus inimigos", podem ter este sentido: que se arrependam de seus pecados, o que não se pode efetuar sem confusão e aflição. Nada, pois, nos impede de tomar também o que se segue neste sentido: "sejam voltados e envergonhados", isto é, sejam voltados para Deus, e se envergonhem de que outrora se gloriaram nas antigas trevas de seus pecados; como diz o Apóstolo: "Que fruto, pois, tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais?" Mas quanto ao que acrescentou, "sobremaneira depressa", deve-se referir ou ao ardente afeto de seu desejo, ou ao poder de Cristo, que converte à fé do Evangelho em tão breve tempo as nações que, pela causa de seus ídolos, perseguiam a Igreja.
Salmo do próprio Davi, que ele cantou ao Senhor, por causa das palavras de Chusi, filho de Jemini.
1. Ora, a história que deu ocasião a esta profecia pode ser facilmente reconhecida no segundo livro dos Reis. Pois ali Chusi, amigo do rei Davi, passou para o lado de Abessalão, seu filho, que movia guerra contra seu pai, com o propósito de descobrir e relatar os desígnios que este tramava contra o pai, por instigação de Aquitofel, que se revoltara da amizade de Davi, e instruía com seu conselho, tanto quanto podia, o filho contra o pai. Mas, como não é a própria história que há de ser objeto de consideração neste Salmo, do qual o profeta tirou um véu de mistérios, se já passamos a Cristo, tire-se o véu. E primeiramente indaguemos a significação dos próprios nomes, o que significam. Pois não faltaram intérpretes que, investigando estas mesmas palavras, não carnalmente segundo a letra, mas espiritualmente, nos declaram que Chusi deve interpretar-se silêncio; e Gemini, destro; Aquitofel, ruína do irmão. Entre estas interpretações, Judas, aquele traidor, novamente se nos apresenta, de modo que Abessalão traria sua imagem, segundo aquela interpretação de "paz do pai"; visto que seu pai estava cheio de pensamentos de paz para com ele: embora ele, em seu engano, tivesse guerra no coração, como se tratou no terceiro Salmo. Ora, assim como encontramos nos Evangelhos que os discípulos de nosso Senhor Jesus Cristo são chamados filhos, assim também nos mesmos Evangelhos os encontramos chamados irmãos. Pois o Senhor, na ressurreição, diz: "Ide e dizei a Meus irmãos". E o Apóstolo O chama "o primogênito entre muitos irmãos". A ruína, pois, daquele discípulo que O traiu é retamente entendida como ruína de um irmão, o que dissemos ser a interpretação de Aquitofel. Ora, quanto a Chusi, a partir da interpretação de silêncio, entende-se retamente que nosso Senhor combateu aquele engano em silêncio, isto é, naquele segredo profundíssimo pelo qual "aconteceu a Israel, em parte, o endurecimento", quando perseguiam o Senhor, para que entrasse a plenitude dos gentios, e "assim todo o Israel fosse salvo". Quando o Apóstolo chegou a este profundo segredo e silêncio, exclamou, como que tocado por certo temor reverente da própria profundidade: "Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Pois quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?" Assim, aquele grande silêncio ele não tanto o revela por explicação, quanto expõe sua grandeza em admiração. Neste silêncio, o Senhor, ocultando o sacramento de Sua adorável paixão, converte a ruína voluntária do irmão, isto é, a ímpia maldade de Seu traidor, na ordem de Sua misericórdia e providência: de modo que aquilo que ele, com mente perversa, tramou para a destruição de um só Homem, Ele o dispusesse, por providencial disposição, para a salvação de todos os homens. A alma perfeita, pois, que já é digna de conhecer o segredo de Deus, canta um Salmo ao Senhor; canta "pelas palavras de Chusi", porque chegou a conhecer as palavras daquele silêncio: pois entre os incrédulos e perseguidores há aquele silêncio e segredo. Mas entre os seus, a quem se diz: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vos dei a conhecer": entre seus amigos, digo, não há o silêncio, mas as palavras do silêncio, isto é, o sentido daquele silêncio exposto e manifestado. Este silêncio, isto é, Chusi, é chamado filho de Gemini, isto é, destro. Pois o que se fez pelos Santos não devia ser-lhes ocultado. E, contudo, Ele diz: "Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita". A alma perfeita, pois, a quem foi revelado aquele segredo, canta em profecia "pelas palavras de Chusi", isto é, pelo conhecimento desse mesmo segredo. O qual segredo Deus operou à direita dela, isto é, sendo-lhe favorável e propício. Por isso este silêncio é chamado filho da direita, o qual é: "Chusi, filho de Gemini".
2. "Senhor, meu Deus, em ti esperei: salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me" (v. 1). Como alguém já aperfeiçoado, tendo sido vencida toda a guerra e inimizade do vício, a quem não resta outro inimigo senão o invejoso diabo, diz: "Salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me (v. 2): para que ele não arrebate a minha alma como leão." Diz o Apóstolo: "O vosso adversário, o diabo, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa devorar." Por isso, quando o Salmista disse no plural: "Salva-me de todos os que me perseguem": introduziu depois o singular, dizendo: "para que ele não arrebate a minha alma como leão." Pois não diz: para que eles não arrebatem: sabia qual inimigo e adversário violento restava à alma perfeita. "Não havendo quem resgate, nem quem salve": isto é, para que ele não me arrebate, enquanto tu não resgatas, nem salvas. Pois, se Deus não resgata, nem salva, ele arrebata.
3. E, para que ficasse claro que é a alma já perfeita, a qual deve precaver-se apenas contra as insidiosíssimas ciladas do diabo, quem diz isto, vede o que se segue. "Senhor, meu Deus, se eu fiz isto" (v. 3). Que é isto que ele chama "isto"? Visto que não menciona o pecado pelo nome, devemos entender o pecado em geral? Se este sentido nos desagrada, podemos tomar o que se segue como o que se quer dizer: como se perguntássemos, que é isto que dizes, "isto"? Ele responde: "Se há iniquidade nas minhas mãos." Ora, então é claro que se diz de todo pecado: "Se retribuí aos que me recompensam com o mal" (v. 4). O que ninguém pode dizer com verdade, senão o perfeito. Pois assim diz o Senhor: "Sede perfeitos, como vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o Seu sol sobre bons e maus, e chove sobre justos e injustos." Aquele, pois, que não retribui aos que lhe recompensam o mal, é perfeito. Quando, portanto, a alma perfeita ora "pelas palavras de Chusi, filho de Jemini", isto é, pelo conhecimento daquele segredo e silêncio, que o Senhor, favorável e misericordioso para conosco, operou para nossa salvação, de modo a suportar, e com toda paciência tolerar, os enganos deste traidor: como se dissesse a esta alma perfeita, explicando o desígnio deste segredo: Por ti, ímpio e pecador, para que as tuas iniquidades fossem lavadas pelo derramamento do Meu sangue, em grande silêncio e grande paciência suportei o Meu traidor; não Me imitarás tu, para que também não retribuas mal por mal? Considerando, pois, e entendendo o que o Senhor fez por ele, e avançando para a perfeição por seu exemplo, diz o Salmista: "Se retribuí aos que me recompensam com o mal": isto é, se não fiz o que me ensinaste pelo teu exemplo: "caia eu, pois, vazio diante dos meus inimigos." E diz bem, não: Se retribuí aos que me fazem o mal; mas: aos que "recompensam". Pois quem assim recompensa, já havia recebido algo antes. Ora, é sinal de maior paciência não retribuir sequer o mal àquele que, tendo recebido benefícios, retribui o mal pelo bem, do que se, sem ter recebido nenhum benefício prévio, tivesse tido a intenção de prejudicar. Se, portanto, diz: "Retribuí aos que me recompensam com o mal": isto é, se não te imitei naquele silêncio, isto é, na tua paciência, que operaste por mim, "caia eu vazio diante dos meus inimigos." Pois é um jactancioso vazio aquele que, sendo ele mesmo homem, deseja vingar-se de um homem; e, enquanto abertamente busca vencer um homem, é secretamente vencido pelo diabo, tornado vazio pela vã e soberba alegria de não ter podido, por assim dizer, ser vencido. Sabe, pois, o Salmista onde se pode obter maior vitória, e onde "o Pai que vê em secreto recompensará". Para que, pois, não retribua aos que lhe recompensam o mal, vence antes a sua própria ira do que a outro homem, instruído também por aqueles escritos, onde está escrito: "Melhor é o que vence a sua ira, do que aquele que toma uma cidade." "Se retribuí aos que me recompensam com o mal, caia eu, pois, vazio diante dos meus inimigos." Parece jurar por via de imprecação, que é o gênero mais grave de juramento, como quando alguém diz: Se fiz tal coisa, que eu sofra tal coisa. Mas jurar na boca de quem jura é uma coisa; no propósito de um profeta, outra. Pois aqui ele menciona o que realmente há de suceder aos homens que retribuem aos que lhes recompensam o mal; não o que, como que por juramento, imprecaria sobre si mesmo ou sobre outrem.
Que "o inimigo", pois, "persiga a minha alma e a tome" (v. 5). Nomeando novamente o inimigo no singular, indica ele cada vez mais claramente aquele a quem, acima, chamou de leão. Pois este persegue a alma, e, se a enganou, a tomará. Porque o limite da fúria dos homens é a destruição do corpo; mas a alma, depois desta morte visível, não podem eles retê-la em seu poder: ao passo que as almas que o diabo houver tomado por suas perseguições, essas ele reterá. "E pisoteie em terra a minha vida": isto é, pisando-a, faça da minha vida terra, a saber, seu alimento. Pois não só de leão é chamado, mas também de serpente, a quem foi dito: "Terra comerás." E ao pecador foi dito: "Terra és, e à terra irás." "E reduza a pó a minha glória." Este é o pó que "o vento lança da face da terra", a saber, a vã e insensata jactância dos soberbos, inchados, não de sólido peso, como nuvem de pó levada pelo vento. Justamente, pois, falou aqui da glória, a qual não quereria que se reduzisse a pó. Pois quereria tê-la solidamente estabelecida na consciência diante de Deus, onde não há jactância. "Aquele que se gloria", diz o Apóstolo, "glorie-se no Senhor." Esta solidez reduz-se a pó quando alguém, por soberba, desprezando o segredo da consciência, onde só Deus prova o homem, deseja gloriar-se diante dos homens. Daí vem o que o salmista diz noutro lugar: "Deus quebrará os ossos daqueles que agradam aos homens." Ora, aquele que bem aprendeu ou experimentou os degraus na superação dos vícios sabe que este vício da glória vã deve ser, sozinho ou mais que todos, evitado pelos perfeitos. Pois aquilo por que a alma primeiro caiu, é o que ela vence por último. "Porque o princípio de todo pecado é a soberba": e ainda: "O princípio da soberba do homem é apartar-se de Deus."
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5. "Levanta-te, Senhor, na tua ira" (v. 6). Por que, porém, incita à ira de Deus aquele a quem dizemos ser perfeito? Não devemos, acaso, ver se antes não é perfeito aquele que, sendo apedrejado, disse: "Senhor, não lhes imputes este pecado"? Ou reza o salmista assim não contra os homens, mas contra o diabo e seus anjos, cuja posse são os pecadores e os ímpios? Não ora, pois, contra ele com ira, mas com misericórdia, quem quer que reze para que aquela posse lhe seja tirada por aquele Senhor "que justifica o ímpio". Pois, quando o ímpio é justificado, de ímpio se faz justo, e de posse do diabo passa ao templo de Deus. E, visto que é castigo que uma posse, na qual alguém deseja ter domínio, lhe seja tirada, este castigo — que deixe de possuir aqueles que agora possui — chama o salmista de ira de Deus contra o diabo. "Levanta-te, Senhor, na tua ira." "Levanta-te" (usou-o como "aparece"), em palavras, isto é, humanas e obscuras; como se Deus dormisse, quando não é reconhecido e está oculto em suas obras secretas. "Ergue-te sobre os confins de meus inimigos." Por confins entende a própria posse, na qual deseja que Deus seja exaltado, isto é, honrado e glorificado, e não o diabo, enquanto os ímpios são justificados e louvam a Deus. "E levanta-te, Senhor meu Deus, no mandamento que ordenaste": isto é, já que ordenaste a humildade, aparece em humildade; e primeiro cumpre o que ordenaste, para que os homens, vencendo a soberba por teu exemplo, não sejam possuídos pelo diabo, que, contra teus mandamentos, aconselhou à soberba, dizendo: "Comei, e vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses."
6. "E a congregação dos povos te rodeará." Pode isto entender-se de dois modos. Pois a congregação dos povos pode tomar-se, ou dos que creem, ou dos que perseguem, ambos os quais se deram na mesma humilhação de nosso Senhor: em desprezo da qual a multidão dos que perseguem o rodeou; a respeito da qual se diz: "Por que se enfureceram as gentes, e os povos meditaram coisas vãs?" Mas dos que creem por sua humilhação, a multidão de tal modo o rodeou, que se pôde dizer com verdade máxima: "Aconteceu a Israel cegueira em parte, para que entrasse a plenitude dos gentios"; e ainda: "Pede-me, e eu te darei as gentes por herança, e os confins da terra por tua possessão." "E, por causa deles, retorna às alturas": isto é, por causa desta congregação, retorna às alturas: o que se entende ter Ele feito por sua ressurreição e ascensão ao céu. Pois, assim glorificado, deu o Espírito Santo, o qual, antes de sua exaltação, não podia ser dado, como está escrito no Evangelho: "porque ainda não havia Espírito Santo, pois Jesus ainda não fora glorificado." Tendo, pois, retornado às alturas por causa da congregação dos povos, enviou o Espírito Santo: por quem, cheios os pregadores do Evangelho, encheram o mundo inteiro de Igrejas.
7. Pode tomar-se também neste sentido: "Levanta-te, Senhor, na tua ira, e ergue-te sobre os confins de meus inimigos": isto é, levanta-te na tua ira, e que meus inimigos não te entendam; de modo que "erguer-se" seja isto: tornar-se alto, para que não sejas entendido; o que se refere ao silêncio de que acima se falou. Pois desta exaltação assim se diz noutro Salmo: "E subiu sobre os querubins, e voou"; e: "Fez das trevas o seu esconderijo." Nesta exaltação, ou ocultamento — quando, pelo merecimento de seus pecados, não te entenderem aqueles que te crucificarão —, "a congregação" dos crentes te rodeará. Pois em sua própria humilhação foi exaltado, isto é, não foi entendido. De modo que: "E levanta-te, Senhor meu Deus, no mandamento que ordenaste", pode referir-se a isto: quando te mostrares, sê alto ou profundo, para que meus inimigos não te entendam. Ora, os pecadores são inimigos do justo, e os ímpios do piedoso. "E a congregação dos povos te rodeará": isto é, por esta mesma circunstância — que os que te crucificam não te entendem —, as gentes crerão em ti, e assim "a congregação dos povos te rodeará". Mas o que se segue, se esta for a verdadeira interpretação, tem em si mais dor, por começar já a perceber-se, que alegria por ser entendido. Pois segue-se: "e, por causa deles, retorna às alturas", isto é, e por causa desta congregação do gênero humano, de que estão apinhadas as Igrejas, retorna às alturas, isto é, cessa novamente de ser entendido. Que é, pois, "e por causa deles", senão que também esta congregação te ofenderá, de modo que podes com toda verdade predizer e dizer: "Cuidas que, quando vier o Filho do homem, achará fé sobre a terra?" E ainda, dos falsos profetas, entendidos como os hereges, diz: "Por causa da iniquidade, esfriará o amor de muitos." Visto, pois, que mesmo nas Igrejas, isto é, nesta congregação de povos e nações onde mais amplamente se espalhou o nome cristão, haverá tão grande abundância de pecadores — o que já em grande parte se percebe —, não é esta a fome da palavra aqui predita, que também por outro profeta foi ameaçada? Não é também por causa desta congregação, que, por seus pecados, aparta de si aquela luz da verdade, que Deus retorna às alturas, isto é, para que a fé, pura e purificada da corrupção de todas as opiniões perversas, seja mantida e recebida, ou de modo nenhum, ou pelos pouquíssimos de quem se disse: "Bem-aventurado aquele que perseverar até o fim, esse será salvo"? Não sem razão, pois, se diz: "e por causa desta" congregação "retorna às alturas": isto é, retira-te de novo à profundeza de teu segredo, mesmo por causa desta congregação dos povos que tem o teu nome, e...
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9. "Mas consume-se a maldade dos pecadores" (v. 9). Diz "consume-se", complete-se, segundo aquilo do Apocalipse: "Que o justo se torne mais justo, e o imundo continue imundo." Pois a maldade daqueles homens parece consumada, que crucificaram o Filho de Deus; mas maior é a daqueles que não querem viver retamente e odeiam os preceitos da verdade, por quem o Filho de Deus foi crucificado. "Consume-se, pois, a maldade dos pecadores", diz ele, isto é, chegue ao cúmulo da maldade, para que o justo juízo possa vir de uma só vez. Mas, visto que não só se diz: "que o imundo continue imundo", mas se diz também: "que o justo se torne mais justo", acrescenta as palavras: "E tu dirigirás o justo, ó Deus, que sondas os corações e os rins." Como, pois, pode o justo ser dirigido senão em segredo? Quando até por meio daquelas coisas que, no início das eras cristãs, quando ainda os santos eram oprimidos pela perseguição dos homens deste mundo, pareciam maravilhosas aos homens, agora que o nome cristão começou a ter tamanha alta dignidade, cresceu a hipocrisia, isto é, o fingimento; falo daqueles que, pela profissão cristã, preferem agradar aos homens antes que a Deus. Como, pois, é o justo dirigido em tão grande confusão de fingimento, senão enquanto Deus sonda os corações e os rins; vendo todos os pensamentos dos homens, que se entendem pela palavra coração, e seus deleites, que se entendem pela palavra rins? Pois o deleite nas coisas temporais e terrenas com razão se atribui aos rins; porquanto é tanto a parte inferior do homem, como a região onde habita o prazer da geração carnal, por meio do qual se transfere a natureza humana para esta vida de cuidado e alegria enganosa, pela sucessão da linhagem. Deus, pois, sondando o nosso coração, e percebendo que ali está onde está o nosso tesouro, isto é, no céu; sondando também os rins, e percebendo que não consentimos com a carne e o sangue, mas nos deleitamos no Senhor, dirige o justo em sua consciência íntima diante dele, onde ninguém vê, senão só aquele que percebe o que cada um pensa, e no que cada um se deleita. Pois o deleite é o fim do cuidado; porque para este fim cada um se esforça por cuidado e pensamento, para alcançar o seu deleite. Ele, pois, vê os nossos cuidados, aquele que sonda o coração. Vê também os fins dos cuidados, isto é, os deleites, aquele que estritamente sonda os rins; para que, quando encontrar que os nossos cuidados não se inclinam nem à concupiscência da carne, nem à concupiscência dos olhos, nem à soberba da vida — todas as quais passam como sombra —, mas que se elevam para cima, para os gozos das coisas eternas, que nenhuma mudança corrompe, possa dirigir o justo, ele mesmo, o Deus que sonda os corações e os rins. Pois as nossas obras, que fazemos em atos e palavras, podem ser conhecidas dos homens; mas com que ânimo se fazem, e a que fim por meio delas pretendemos chegar, só ele o sabe, o Deus que sonda os corações e os rins.
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10. "Meu justo auxílio vem do Senhor, que salva os retos de coração" (v. 10). Duplos são os ofícios da medicina: um, curar a enfermidade; outro, preservar a saúde. Segundo o primeiro, foi dito no Salmo precedente: "Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou fraco"; segundo o segundo, diz-se neste Salmo: "Se há iniquidade em minhas mãos, se paguei aos que me retribuíram com mal, caia eu, então, vazio, diante de meus inimigos." Pois ali o fraco reza para ser libertado; aqui, já são, para que não venha a piorar. Segundo o primeiro, ali se diz: "Sara-me, por tua misericórdia"; segundo o outro, aqui se diz: "Julga-me, Senhor, segundo minha justiça." Pois ali pede-se um remédio para escapar da doença; mas aqui, proteção para não cair na doença. Segundo o primeiro, diz-se: "Sara-me, Senhor, segundo tua misericórdia"; segundo o segundo, diz-se: "Meu justo auxílio vem do Senhor, que salva os retos de coração." Tanto um quanto o outro sara os homens; mas o primeiro os retira da enfermidade para a saúde, o segundo os preserva nesta saúde. Portanto, ali o auxílio é misericordioso, porque o pecador não tem mérito, ele que ainda deseja ser justificado, "crendo naquele que justifica o ímpio"; mas aqui o auxílio é justo, porque é dado a quem já é justo. Diga, pois, primeiro o pecador que disse: "Sou fraco": "Sara-me, Senhor, por tua misericórdia"; e diga aqui o justo, que disse: "Se paguei aos que me retribuíram com mal": "Meu justo auxílio vem do Senhor, que salva os retos de coração." Pois, se ele apresenta o remédio pelo qual podemos ser curados quando fracos, quanto mais aquele pelo qual podemos ser mantidos em saúde. Pois, se "quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós, quanto mais, agora justificados, seremos por ele preservados da ira."
11. "Meu justo auxílio vem do Senhor, que salva os retos de coração." Deus, que sonda os corações e os rins, dirige o justo; mas com justo auxílio salva os retos de coração. Não faz, ao sondar os corações e os rins, o mesmo que ao salvar os retos de coração e rins; pois os pensamentos são tanto maus num coração depravado, quanto bons num coração reto; mas os deleites que não são bons pertencem aos rins, por serem mais baixos e terrenos; ao passo que os bons não pertencem aos rins, mas ao próprio coração. Por isso, os homens não podem ser chamados retos nos rins, como são chamados retos no coração, visto que onde está o pensamento, ali logo está também o deleite; o que não pode ser, senão quando se pensam as coisas divinas e eternas. "Deste", diz ele, "alegria em meu coração", tendo dito antes: "A luz de tua face foi gravada sobre nós, Senhor." Pois, embora os fantasmas das coisas temporais, que a mente falsamente representa a si mesma, quando agitada por vã e mortal esperança, tragam muitas vezes à imaginação vã uma alegria delirante e insana; contudo, este deleite deve atribuir-se não ao coração, mas aos rins; pois todas estas imaginações foram tiradas das coisas inferiores, isto é, terrenas e carnais. Daí vem que Deus, que sonda os corações e os rins, e percebe no coração pensamentos retos, nos rins nenhum deleite, concede justo auxílio aos retos de coração, onde os deleites celestiais se unem a pensamentos puros. E, por isso, quando noutro Salmo havia dito: "Além disso, ainda esta noite meus rins me repreenderam", prosseguiu, quanto ao auxílio: "Previ sempre o Senhor diante de mim, pois está à minha direita, para que eu não seja abalado." Onde mostra que sofreu apenas sugestões dos rins, não também deleites; pois, se estes tivesse sofrido, certamente seria abalado. Mas disse: "O Senhor está à minha direita, para que eu não seja abalado"; e depois acrescenta: "Por isso se alegrou meu coração"; de modo que os rins puderam repreender, não deleitar. O deleite, pois, produziu-se não nos rins, mas ali, onde, contra a repreensão dos rins, Deus foi previsto estar à direita, isto é, no coração.
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12. "Deus é justo juiz, forte e paciente" (v. 11). Que Deus é juiz senão o Senhor, que julga os povos? Ele é justo; que "retribuirá a cada um segundo as suas obras". Ele é forte (em sofrimento); que, sendo poderosíssimo, por nossa salvação suportou até os perseguidores ímpios. Ele é paciente; que não se apressou logo, após sua ressurreição, a castigar sequer aqueles que o perseguiam, mas os suportou, para que finalmente se convertessem daquela impiedade à salvação: e ainda os suporta, reservando a pena última para o juízo final, e até o presente convidando os pecadores ao arrependimento. "Não trazendo ira todo dia." Talvez "trazer ira" seja expressão mais significativa que estar irado (e assim o encontramos nos exemplares gregos); de modo que a ira, com que castiga, não esteja nele, mas nas mentes daqueles ministros que obedecem aos mandamentos da verdade, por meio dos quais se dão ordens até aos ministérios inferiores, chamados anjos da ira, para punir o pecado: aos quais nem mesmo agora o castigo dos homens deleita por causa da justiça, na qual não têm prazer, mas por malícia. Deus, pois, não "traz ira todo dia", isto é, não convoca seus ministros para a vingança todo dia. Pois agora a paciência de Deus convida ao arrependimento: mas no tempo final, quando os homens, "por sua dureza e coração impenitente, tiverem entesourado para si ira no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, então brandirá sua espada."
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13. "Se não vos converterdes", diz ele, "brandirá sua espada" (v. 12). O próprio Senhor Homem pode tomar-se por espada de dois gumes de Deus, isto é, sua lança, a qual, em sua primeira vinda, não brandirá, mas oculta, por assim dizer, na bainha da humilhação: mas a brandirá quando, na segunda vinda para julgar os vivos e os mortos, no esplendor manifesto de sua glória, lançar luz sobre seus justos, e terror sobre os ímpios. Pois em outros exemplares, em vez de "brandirá sua espada", está escrito: "aguçará sua lança": palavra pela qual julgo estar mui apropriadamente significada a última vinda da glória do Senhor: visto que se entende de sua pessoa aquilo que outro Salmo tem: "Livra, Senhor, a minha alma dos ímpios, tua lança dos inimigos de tua mão. Ele armou seu arco, e o preparou." Não se devem de todo passar por alto os tempos verbais das palavras: como falou da "espada" no futuro — "brandirá" —, e do "arco" no pretérito — "armou": e a estas palavras no pretérito seguem-se as demais.
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14. "E nele preparou os instrumentos da morte: fez suas flechas para o incêndio" (v. 13). Este arco, pois, de bom grado tomaria por a Sagrada Escritura, na qual, pela força do Novo Testamento, como que por uma espécie de corda, foi curvada e subjugada a dureza do Antigo. Dali são enviados os Apóstolos como flechas, ou disparadas as pregações divinas. Estas flechas "fez para o incêndio", flechas, isto é, pelas quais, sendo feridos, se inflamassem de amor celestial. Pois por que outras flechas foi ferida aquela que diz: "Levai-me à casa do vinho, ponde-me entre perfumes, amontoai-me entre mel, porque fui ferida de amor"? Por que outras flechas se acende aquele que, desejoso de voltar a Deus, e regressando do erro, pede socorro contra as línguas astutas, e a quem se diz: "Que se te dará, ou que se te acrescentará, contra a língua astuta? Flechas agudas do poderoso, com brasas devastadoras": isto é, brasas, pelas quais, ferido e inflamado, possas arder em tão grande amor do reino dos céus, que desprezes as línguas de todos os que te resistem e quereriam fazer-te recuar de teu propósito, e escarneças de suas perseguições, dizendo: "Quem me separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Pois estou persuadido", diz ele, "de que nem a morte, nem a vida, nem anjo, nem principado, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem potestade, nem altura, nem profundidade, nem outra criatura poderá separar-me do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." Assim, para o incêndio fez suas flechas. Pois nos exemplares gregos assim se encontra: "Fez suas flechas para o incêndio." Mas a maioria dos exemplares latinos traz "flechas incendiárias". Mas quer as próprias flechas ardam, quer façam arder a outros — o que, sem dúvida, não podem fazer sem antes arderem elas mesmas —, o sentido está completo.
15. Mas, visto que disse que o Senhor preparou, no arco, não só flechas, mas também "instrumentos de morte", pode-se perguntar: que são "instrumentos de morte"? Serão, porventura, os hereges? Pois também estes, saindo do mesmo arco, isto é, das mesmas Escrituras, atingem almas não para inflamá-las de amor, mas para destruí-las com veneno: o que não acontece senão segundo os seus merecimentos: pelo que também esta disposição há de atribuir-se à divina Providência, não porque faça os homens pecadores, mas porque os ordena depois de terem pecado. Pois, atingindo-as o pecado com mau propósito, são forçados a entendê-las mal, para que isto mesmo seja castigo do pecado: por cuja morte, contudo, os filhos da Igreja Católica, como que por certos espinhos, por assim dizer, são despertados do sono, e progridem para o entendimento das santas Escrituras. "Pois é necessário que também haja heresias, para que os aprovados", diz ele, "se manifestem entre vós": isto é, entre os homens, visto que já são manifestos a Deus. Ou terá, porventura, ordenado as mesmas flechas para serem ao mesmo tempo instrumentos de morte para a destruição dos incrédulos, e feitas incendiárias, ou para o incêndio, para o exercício dos fiéis? Pois não é falso o que diz o Apóstolo: "Para uns somos cheiro de vida para a vida, para outros cheiro de morte para a morte; e quem é suficiente para estas coisas?" Não é de estranhar, pois, se os mesmos Apóstolos sejam ao mesmo tempo instrumentos de morte naqueles de quem sofreram perseguição, e flechas ardentes para inflamar os corações dos crentes.
16. Ora, depois desta disposição virá o justo juízo: do qual assim fala o salmista, de modo que entendamos que o castigo de cada um é forjado do seu próprio pecado, e sua iniquidade convertida em vingança: para que não suponhamos que aquela tranquilidade e inefável luz de Deus produza de si mesma os meios de punir o pecado; mas que ela assim ordena os pecados, que aquilo que foi deleite ao homem em pecar seja instrumento ao Senhor que vinga. "Eis que", diz ele, "esteve em trabalho de parto com a injustiça." Ora, que concebera ele, para estar em trabalho de parto com a injustiça? "Concebeu", diz, "fadiga." Daí, pois, vem aquilo: "Com fadiga comerás o teu pão." Daí também: "Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, porque meu jugo é suave e meu fardo leve." Pois a fadiga nunca cessará, a menos que se ame o que não pode ser tirado contra a vontade. Pois, quando se amam as coisas que podemos perder contra nossa vontade, é preciso fatigar-se miseravelmente por elas; e, para as obter, em meio às estreitezas dos cuidados terrenos, enquanto cada um deseja arrebatá-las para si, e adiantar-se a outro, ou arrancá-las dele, é preciso tramar injustiça. Devidamente, pois, e em toda ordem, esteve em trabalho de parto com a injustiça quem concebeu fadiga. Ora, que dá à luz senão aquilo mesmo com que esteve em trabalho de parto, ainda que não tenha estado em trabalho de parto com o que concebeu? Pois não nasce o que não se concebe; mas concebe-se a semente, e nasce o que da semente se forma. A fadiga é, pois, a semente da iniquidade, mas o pecado a concepção da fadiga, isto é, aquele primeiro pecado de "apartar-se de Deus". Esteve, pois, em trabalho de parto com a injustiça quem concebeu fadiga. "E deu à luz a iniquidade." "Iniquidade" é o mesmo que "injustiça": deu à luz, pois, aquilo com que esteve em trabalho de parto. Que se segue agora?
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17. "Abriu uma cova, e a escavou" (v. 15). Abrir uma cova é, nas coisas terrenas, isto é, como que na terra, preparar o engano, para que nele caia outro, a quem o injusto deseja enganar. Ora, esta cova se abre quando se dá consentimento à má sugestão das concupiscências terrenas: mas se escava quando, depois do consentimento, avançamos para a obra efetiva do engano. Mas como pode ser que a iniquidade fira antes ao justo, contra quem se dirige, do que ao coração injusto de onde procede? Assim, o ladrão de dinheiro, por exemplo, enquanto deseja infligir dano penoso a outro, fica ele mesmo mutilado pela ferida da avareza. Ora, quem, ainda que fora de si, não vê quão grande é a diferença entre estes homens, quando um sofre a perda do dinheiro, o outro a da inocência? "Cairá", pois, "na cova que fez." Como se diz noutro Salmo: "Conhece-se o Senhor executando juízos; o pecador é apanhado nas obras de suas próprias mãos."
18. "O seu trabalho se voltará sobre a sua cabeça, e a sua iniquidade descerá sobre o seu alto da cabeça" (v. 16). Pois ele não tinha em mente escapar do pecado; antes, foi trazido sob o pecado como escravo, por assim dizer, como diz o Senhor: "Todo aquele que peca é escravo." A sua iniquidade, pois, estará sobre ele, quando estiver sujeito à sua iniquidade; pois não poderia dizer ao Senhor o que dizem os inocentes e retos: "Minha glória, e o que exalta a minha cabeça." Ele estará, portanto, de tal modo abaixo, que a sua iniquidade estará acima e descerá sobre ele; pois esta o abate e o oprime, e não lhe permite voar de volta ao repouso dos santos. Isto sucede quando, no homem mal ordenado, a razão é escrava, e a concupiscência domina.
19. "Confessarei ao Senhor segundo a Sua justiça" (v. 17). Esta não é a confissão do pecador; pois assim diz aquele que acima disse, com toda verdade: "Se há iniquidade em minhas mãos"; mas é uma confissão da justiça de Deus, na qual dizemos assim: Verdadeiramente, ó Senhor, Tu és justo, porquanto tanto proteges os justos, iluminando-os por Ti mesmo, quanto ordenas os pecadores, de modo que sejam punidos não por Tua malícia, mas pela sua própria. Esta confissão louva de tal modo ao Senhor, que de nada podem valer as blasfêmias dos ímpios, os quais, querendo desculpar os seus maus feitos, não querem atribuir à sua própria culpa o fato de pecarem, isto é, não querem atribuir a culpa à sua culpa. Por isso encontram ou a fortuna ou o fado para acusar, ou o demônio, a quem Aquele que nos fez quis que estivesse em nosso poder recusar o consentimento; ou introduzem uma outra natureza, que não é de Deus: míseros vacilantes e errantes, em vez de confessar a Deus, para que Ele os perdoe. Pois não convém que ninguém seja perdoado, senão aquele que diz: Pequei. Aquele, pois, que vê os merecimentos das almas de tal modo ordenados por Deus, que, dando-se a cada um o que lhe é próprio, a bela formosura do universo em nenhuma parte é violada, em todas as coisas louva a Deus; e esta não é a confissão dos pecadores, mas dos justos. Pois não é confissão de pecador quando o Senhor diz: "Eu Te confesso, ó Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios, e as revelaste aos pequeninos." Igualmente no Eclesiástico se diz: "Confessai ao Senhor em todas as Suas obras; e na confissão direis isto: Todas as obras do Senhor são sobremaneira boas." O que se pode ver neste Salmo, se alguém, com ânimo piedoso e com o auxílio do Senhor, distinguir entre as recompensas dos justos e as penas dos pecadores, como nestas duas coisas toda a criação, que Deus fez e governa, é ornada de uma beleza admirável e conhecida de poucos. Assim, pois, diz: "Confessarei ao Senhor segundo a Sua justiça", como quem via que as trevas não foram feitas por Deus, mas ainda assim ordenadas. Pois Deus disse: "Faça-se a luz, e a luz se fez." Não disse: Façam-se as trevas, e as trevas se fizeram; e, contudo, Ele as ordenou. E por isso se diz: "Deus separou a luz das trevas; e Deus chamou à luz dia, e às trevas chamou noite." Esta é a distinção: uma Ele fez e ordenou; a outra Ele não fez, mas, ainda assim, também a ordenou. Ora, que os pecados sejam significados pelas trevas, vê-se no Profeta, que diz: "E as tuas trevas serão como o meio-dia"; e no Apóstolo, que diz: "Aquele que odeia o seu irmão está nas trevas"; e sobretudo naquele texto: "Rejeitemos as obras das trevas, e vistamo-nos da armadura da luz." Não que exista alguma natureza das trevas. Pois toda natureza, enquanto natureza, é constrangida a existir. Ora, o ser pertence à luz; o não-ser, às trevas. Aquele, pois, que abandona Aquele por quem foi feito e se inclina para aquilo de que foi feito, isto é, para o nada, é neste pecado obscurecido; e, contudo, não perece de todo, mas é ordenado entre as coisas ínfimas. Por isso, depois que o Salmista disse: "Confessarei ao Senhor", para que não o entendêssemos como confissão de pecados, acrescenta por fim: "E cantarei ao nome do Senhor altíssimo." Ora, o cantar tem relação com o gozo, mas o arrependimento dos pecados, com a tristeza.
20. Este Salmo também pode ser tomado na pessoa do Senhor Homem, contanto que aquilo que ali se diz em humilhação seja referido à nossa fraqueza, que Ele carregou.
4. Por isso se diz: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o Teu nome em toda a terra!" (v. 1). Pergunto: como é admirável o Seu nome em toda a terra? A resposta é: "Pois a Tua glória foi elevada acima dos céus." De modo que o sentido é este: Ó Senhor, que és o nosso Senhor, como Te admiram todos os que habitam a terra! Pois a Tua glória foi elevada da humilhação terrena acima dos céus. Pois daí apareceu quem eras Tu que descestes, quando, por alguns visto e pelos demais crido, se soube aonde era que subias.
2. Há outra interpretação acerca dos lagares, mantendo-se ainda assim o sentido das Igrejas. Pois também o Verbo Divino pode ser entendido pelo cacho de uvas: pois o Senhor mesmo foi chamado Cacho de uvas, o qual aqueles que foram enviados adiante pelo povo de Israel trouxeram da terra da promissão, pendurado num madeiro, como que crucificado. Assim, pois, quando o Verbo Divino se serve, pela necessidade de manifestar-Se, do som da voz, por meio do qual Se comunica aos ouvidos dos ouvintes; nesse mesmo som da voz, como que em cascas, está encerrado o conhecimento, como o vinho: e assim este cacho chega aos ouvidos, como às máquinas prensadoras dos que pisam o vinho. Pois ali se faz a separação, de modo que o som chegue até o ouvido; mas o conhecimento seja recebido na memória daqueles que ouvem, como que numa espécie de tina; de onde passa para a disciplina da conduta e para o hábito da mente, como da tina para a adega: onde, se por negligência não azedar, adquirirá solidez com o tempo. Pois azedou entre os judeus, e este vinagre azedo deram eles a beber ao Senhor. Pois aquele vinho que, do fruto da videira do Novo Testamento, o Senhor há de beber com os Seus santos no reino de Seu Pai, necessariamente há de ser suavíssimo e saníssimo.
1. Parece que ele nada diz acerca de lagares no texto do Salmo cujo é este o título. Por onde se vê que uma só e mesma coisa é frequentemente significada na Escritura por muitas e variadas semelhanças. Podemos, pois, tomar os lagares como as Igrejas, pelo mesmo princípio pelo qual entendemos também pela eira a Igreja. Pois quer na eira, quer no lagar, nada mais se faz senão livrar o fruto de seu invólucro; o que é necessário tanto para o seu primeiro crescimento e aumento, quanto para a chegada à maturidade, seja da messe, seja da vindima. Destes invólucros ou sustentáculos, pois, isto é, da palha, na eira, é despojado o trigo; e das cascas, nos lagares, é despojado o vinho: assim como nas Igrejas, da multidão dos homens mundanos, que se ajunta com os bons, sendo tal multidão necessária para o nascimento e a adaptação destes à palavra divina, isto se realiza: que pelo amor espiritual sejam separados pela operação dos ministros de Deus. Pois agora sucede que os bons estão, por certo tempo, separados dos maus, não no espaço, mas no afeto, ainda que convivam nas Igrejas quanto à presença corporal. Mas outro tempo virá, em que o trigo será guardado à parte nos celeiros, e o vinho nas adegas. "O trigo", diz Ele, "recolherá nos celeiros; mas a palha queimará com fogo inextinguível." A mesma coisa pode ser assim entendida por outra semelhança: o vinho recolherá nas adegas, mas as cascas lançará ao gado; de modo que, pelos ventres do gado, nos seja permitido entender, por via de semelhança, as penas do inferno.
3. Os "lagares" também costumam ser tomados pelos martírios, como se aqueles que confessaram o nome de Cristo, quando foram pisados pelos golpes da perseguição, tivessem seus restos mortais permanecido na terra como cascas, mas suas almas fluído para o repouso de uma morada celestial. Nem por esta interpretação nos afastamos da fecundidade das Igrejas. Canta-se, pois, "pelos lagares", pelo estabelecimento da Igreja; quando o nosso Senhor, depois da Sua ressurreição, subiu ao céu. Pois então enviou o Espírito Santo, por quem os discípulos, sendo preenchidos, pregaram com confiança a Palavra de Deus, para que as Igrejas fossem congregadas.
Para o Fim, pelos Lagares, Salmo do Próprio Davi.
5. "Da boca dos pequeninos e dos que mamam Tu aperfeiçoaste o louvor, por causa dos Teus inimigos" (v. 2). Não posso tomar os pequeninos e os que mamam por outros senão aqueles a quem o Apóstolo diz: "Como a pequeninos em Cristo, vos dei leite a beber, não alimento sólido." Estes foram significados por aqueles que iam adiante do Senhor, louvando-O, dos quais o próprio Senhor se serviu como testemunho, quando respondeu aos judeus que Lhe pediam que os repreendesse: "Não lestes: Da boca dos pequeninos e dos que mamam Tu aperfeiçoaste o louvor?" Ora, com boa razão Ele não diz: Tu fizeste, mas: "Tu aperfeiçoaste o louvor." Pois há também nas Igrejas aqueles que já não bebem mais leite, mas comem alimento sólido, os quais o mesmo Apóstolo aponta, dizendo: "Falamos sabedoria entre os perfeitos"; mas não somente por estes são as Igrejas aperfeiçoadas; pois se houvesse somente estes, pouca consideração se teria pelo gênero humano. Mas há consideração, quando também aqueles que ainda não são capazes do conhecimento das coisas espirituais e eternas são nutridos pela fé da história temporal, a qual, para a nossa salvação, depois dos Patriarcas e Profetas, foi administrada pelo excelentíssimo Poder e Sabedoria de Deus, mesmo no Sacramento da humanidade assumida, na qual há salvação para todo aquele que crê; a fim de que, movido por sua autoridade, cada um obedeça aos seus preceitos, pelos quais, sendo purificado e "arraigado e fundado na caridade", possa correr com os Santos, não mais criança no leite, mas jovem no alimento sólido, "para compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer também a sobreexcelente ciência da caridade de Cristo."
6. "Da boca dos pequeninos e dos que mamam Tu aperfeiçoaste o louvor, por causa dos Teus inimigos." Por inimigos desta economia, que se operou por meio de Jesus Cristo e Este crucificado, devemos entender de modo geral todos os que proíbem a crença nas coisas desconhecidas e prometem conhecimento certo: como fazem todos os hereges, e os que, na superstição dos gentios, são chamados filósofos. Não que a promessa do conhecimento seja de censurar-se; mas porque estimam que se deva negligenciar o passo mais salutar e necessário da fé, pelo qual necessariamente devemos ascender a algo certo, o que nada pode ser senão aquilo que é eterno. Donde se manifesta que eles não possuem sequer este conhecimento, que, em desprezo da fé, prometem; visto que não conhecem um passo tão útil e necessário do mesmo. "Da boca", pois, "dos pequeninos e dos que mamam Tu aperfeiçoaste o louvor", Tu, Senhor nosso, declarando primeiro pelo Apóstolo: "Se não crerdes, não entendereis"; e dizendo por Tua própria boca: "Bem-aventurados os que não viram, e crerão." "Por causa dos inimigos": contra os quais também se diz aquilo: "Eu Te confesso, ó Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios, e as revelaste aos pequeninos." "Aos sábios", diz ele, não aos verdadeiramente sábios, mas aos que a si mesmos se estimam tais. "Para que destruas o inimigo e o defensor." A quem senão ao herege? Pois ele é ao mesmo tempo inimigo e defensor, o qual, ao querer assaltar a fé cristã, parece defendê-la. Ainda que também os filósofos deste mundo possam bem ser tomados como os inimigos e defensores; porquanto o Filho de Deus é o Poder e a Sabedoria de Deus, pelo qual é iluminado todo aquele que é feito sábio pela verdade, da qual eles professam ser amantes, donde também lhes vem o nome de filósofos; e por isso parecem defendê-la, sendo, contudo, seus inimigos, pois não cessam de recomendar supersticiões nocivas, para que os elementos deste mundo sejam adorados e reverenciados.
7. "Pois verei os Teus céus, obras dos Teus dedos" (v. 3). Lemos que a lei foi escrita com o dedo de Deus, e dada por meio de Moisés, Seu santo servo: pelo qual dedo de Deus muitos entendem o Espírito Santo. Por isso, se pelos dedos de Deus temos razão em entender estes mesmos ministros preenchidos do Espírito Santo, por causa deste mesmo Espírito que neles opera, visto que por eles toda a Sagrada Escritura nos foi completada; entendemos, consequentemente com isto, que, neste lugar, os livros de ambos os Testamentos são chamados "os céus". Ora, diz-se também do próprio Moisés, pelos magos do rei Faraó, quando por ele foram vencidos: "Este é o dedo de Deus." E o que está escrito: "Os céus se enrolarão como um livro." Ainda que isto se diga deste céu etéreo, contudo, naturalmente, segundo esta mesma imagem, os céus dos livros são nomeados por alegoria. "Pois verei", diz ele, "os céus, obras dos Teus dedos"; isto é, discernirei e entenderei as Escrituras, que Tu, pela operação do Espírito Santo, escreveste por meio dos Teus ministros.
8. Assim, também os céus nomeados acima podem ser interpretados como os mesmos livros, quando diz: "Pois a Tua glória foi elevada acima dos céus"; de modo que o sentido completo seja este: "Pois a Tua glória foi elevada acima dos céus"; pois a Tua glória excedeu as declarações de todas as Escrituras: "Da boca dos pequeninos e dos que mamam Tu aperfeiçoaste o louvor", para que começassem pela crença nas Escrituras aqueles que haveriam de chegar ao conhecimento da Tua glória, a qual foi elevada acima das Escrituras, porquanto ultrapassa e transcende os anúncios de todas as palavras e línguas. Por isso Deus rebaixou as Escrituras até mesmo à capacidade dos pequeninos e dos que mamam, como se canta em outro Salmo: "E abaixou o céu, e desceu"; e isto fez Ele por causa dos inimigos, os quais, pela soberba da loquacidade, sendo inimigos da cruz de Cristo, ainda quando dizem alguma verdade, contudo não podem aproveitar aos pequeninos e aos que mamam. Assim é destruído o inimigo e defensor, o qual, quer pareça defender a sabedoria, quer mesmo o nome de Cristo, contudo, a partir deste passo da fé, assalta aquela verdade que tão prontamente promete. Pelo que também se prova não a possuir; visto que, assaltando o seu passo, isto é, a fé, não sabe como se deva por ele subir. Daqui, pois, é destruído o temerário e cego prometedor da verdade, que é o inimigo e defensor, quando se veem os céus, obras dos dedos de Deus, isto é, quando são entendidas as Escrituras, rebaixadas até mesmo à lentidão dos pequeninos; e por meio da humildade da fé da história, que se operou no tempo, os elevam, bem nutridos e fortalecidos, até a grande altura do entendimento das coisas eternas, até aquelas coisas que eles estabelecem. Pois estes céus, isto é, estes livros, são as obras dos dedos de Deus; pois pela operação do Espírito Santo nos Santos foram completados. Pois aqueles que atenderam mais à própria glória que à salvação dos homens, falaram sem o Espírito Santo, no qual estão as entranhas da misericórdia de Deus.
9. "Pois verei os céus, obras dos Teus dedos, a lua e as estrelas, que Tu ordenaste." A lua e as estrelas são ordenadas nos céus; pois tanto a Igreja universal, para significar a qual frequentemente se põe a lua, quanto as Igrejas em cada um dos lugares particularmente, as quais imagino serem indicadas pelo nome de estrelas, são estabelecidas nas mesmas Escrituras, que cremos serem expressas pela palavra céus. Mas por que a lua justamente significa a Igreja, será mais oportunamente considerado em outro Salmo, onde se diz: "Os pecadores entesaram o seu arco, para que atirem na lua obscura os retos de coração."
10. "Que é o homem, para que Dele Te lembres? ou o filho do homem, para que o visites?" (v. 4). Pode-se perguntar qual seja a distinção entre homem e filho do homem. Pois, se não houvesse nenhuma, não se teria expressado assim, "homem, ou filho do homem", disjuntivamente. Porque, se estivesse escrito assim: "Que é o homem, para que Dele Te lembres, e o filho do homem, para que o visites?", poderia parecer uma repetição da palavra "homem". Mas, sendo a expressão "homem ou filho do homem", indica-se mais claramente uma distinção. Isto, por certo, se há de reter: que todo filho do homem é homem, ainda que nem todo homem se possa tomar por filho do homem. Adão, por exemplo, foi homem, mas não filho do homem. Donde podemos, a partir daqui, considerar e distinguir qual seja a diferença, neste lugar, entre homem e filho do homem; a saber, que aqueles que trazem a imagem do homem terreno, que não é filho do homem, se significassem pelo nome de homens; mas que aqueles que trazem a imagem do Homem celestial fossem antes chamados filhos dos homens; pois aquele novamente se chama homem velho, e este, o novo; mas o novo nasce do velho, uma vez que a regeneração espiritual se inicia por uma mudança de vida terrena e mundana; e por isso este se chama filho do homem. "Homem", pois, neste lugar, é o terreno; mas "filho do homem", o celestial; e aquele está longe removido de Deus, mas este presente a Deus; e por isso Ele Se lembra daquele, como de longe distante Dele; mas a este visita, junto de quem, estando presente, o ilumina com Seu semblante. Pois "longe está dos pecadores a salvação"; e "a luz de Teu semblante foi gravada sobre nós, ó Senhor". Assim, em outro Salmo, diz que os homens, em conjunção com os animais, são salvos juntamente com estes animais, não por alguma iluminação interior presente, mas pela multiplicação da misericórdia de Deus, pela qual a Sua bondade alcança até as coisas mais baixas; pois a saúde dos homens carnais é carnal, como a dos animais; mas, separando os filhos dos homens daqueles que, sendo homens, uniu ao gado, proclama que estes são feitos bem-aventurados por um modo bem mais elevado, pela iluminação da própria verdade, e por certa inundação da fonte da vida. Pois assim diz: "Homens e animais salvarás, Senhor, conforme se multiplicou a Tua misericórdia, ó Deus. Mas os filhos dos homens confiarão sob a cobertura de Tuas asas. Serão embriagados com a riqueza de Tua casa, e da torrente de Teus deleites os farás beber. Porque contigo está a fonte da vida, e em Tua luz veremos a luz. Estende Tua misericórdia aos que Te conhecem." Pela multiplicação da misericórdia, pois, Ele Se lembra do homem, como dos animais; pois aquela misericórdia multiplicada alcança até os que estão longe; mas visita o filho do homem, sobre quem, posto sob a cobertura de Suas asas, estende a misericórdia, e em Sua luz dá luz, e o faz beber de Seus deleites, e o embriaga com a riqueza de Sua casa, para que esqueça as tristezas e os errores de sua conversação anterior. Este filho do homem, isto é, o homem novo, o arrependimento do homem velho o gera com dor e lágrimas. Este, ainda que novo, contudo se chama ainda carnal, enquanto é alimentado com leite; "Eu não vos falaria como a espirituais, mas como a carnais", diz o Apóstolo. E, para mostrar que já estavam regenerados, diz: "Como a infantes em Cristo, vos dei de beber leite, não alimento sólido." E quando recai, como frequentemente acontece, na vida velha, ouve em repreensão que é homem; "Não sois vós homens", diz ele, "e andais segundo o homem?"
11. Foi, portanto, o filho do homem primeiramente visitado na pessoa do próprio Senhor Homem, nascido da Virgem Maria. Do qual, por razão da própria fraqueza da carne, que a Sabedoria de Deus se dignou assumir, e da humilhação da Paixão, com justiça se diz: "Tu O fizeste um pouco menor que os Anjos" (v. 5). Mas se acrescenta aquela glorificação, na qual Ele ressuscitou e subiu ao céu; "com glória", diz, "e com honra O coroaste; e o constituíste sobre as obras de Tuas mãos" (v. 6). Uma vez que até os Anjos são obras das mãos de Deus, entendemos que sobre os próprios Anjos foi constituído o Filho Unigênito; a quem ouvimos e cremos ter sido, pela humilhação da geração e da paixão carnais, feito um pouco menor que os Anjos.
12. "Puseste", diz ele, "todas as coisas em sujeição sob Seus pés." Quando diz "todas as coisas", nada exclui. E, para que não se pudesse entender de outro modo, o Apóstolo determina que assim se creia, quando diz: "Exceto Aquele que Lhe sujeitou todas as coisas." E, aos Hebreus, ele se serve deste mesmo testemunho deste Salmo, quando quer que se entenda que todas as coisas foram de tal modo submetidas a nosso Senhor Jesus Cristo, que nada se excetuasse. E, contudo, não parece, como que, acrescentar coisa de grande monta, quando diz: "Todas as ovelhas e bois, e ainda mais, os animais do campo, as aves do céu, e os peixes do mar, que percorrem as veredas do mar" (v. 7). Pois, deixando as excelências e potestades celestiais, e todas as hostes dos Anjos, deixando até o próprio homem, parece ter-Lhe submetido apenas os animais; a menos que por ovelhas e bois entendamos as almas santas, ou produzindo o fruto da inocência, ou até mesmo trabalhando para que a terra dê fruto, isto é, para que os homens terrenos sejam regenerados para a riqueza espiritual. Por estas almas santas, pois, devemos entender não somente as dos homens, mas também as de todos os Anjos, se quisermos concluir daqui que todas as coisas estão submetidas a nosso Senhor Jesus Cristo. Pois não haverá criatura alguma que não Lhe esteja submetida, a Quem estão submetidos os espíritos preeminentes, por assim dizer. Mas donde provaremos que as ovelhas se podem entender até mesmo, não dos homens, mas dos espíritos bem-aventurados das criaturas angélicas do alto? Talvez do dito do Senhor de que deixara noventa e nove ovelhas nos montes, isto é, nas regiões mais altas, e descera por uma só? Pois, se tomarmos a ovelha perdida como sendo a alma humana em Adão, já que até Eva foi feita do seu lado — para o exame espiritual e a consideração de tudo isto não é este o momento — resta que, pelas noventa e nove deixadas nos montes, se entendam espíritos não humanos, mas angélicos. Pois, quanto aos bois, esta questão se resolve facilmente; visto que os próprios homens não são chamados bois por outra razão senão porque, pregando o Evangelho da palavra de Deus, imitam os Anjos, como onde se diz: "Não atarás a boca ao boi que trilha o grão." Quanto mais facilmente, pois, tomamos os próprios Anjos, mensageiros da verdade, por bois, quando os Evangelistas, pela participação de seu título, são chamados bois? "Puseste, pois, sob" ele diz, "todas as ovelhas e bois", isto é, toda a santa criação espiritual; na qual incluímos aquela dos homens santos, que estão na Igreja, naqueles lagares, a saber, que se intimam sob a outra similitude da lua e das estrelas.
13. "E ainda mais", diz ele, "os animais do campo." O acréscimo de "ainda mais" não é de modo algum ocioso. Primeiramente, porque por animais da planície se podem entender tanto ovelhas quanto bois: de sorte que, se os cabritos são os animais das regiões rochosas e montanhosas, as ovelhas bem se podem tomar como os animais do campo. Consequentemente, se estivesse escrito assim mesmo: "todas as ovelhas e bois e animais do campo", poder-se-ia razoavelmente perguntar o que significassem os animais da planície, já que até ovelhas e bois se poderiam tomar como tais. Mas o acréscimo, além disso, de "ainda mais" nos obriga, sem dúvida, a reconhecer alguma diferença ou outra. Mas sob esta palavra, "ainda mais", não somente "os animais do campo", mas também "as aves do céu, e os peixes do mar, que percorrem as veredas do mar" (v. 8), devem ser compreendidos. Qual é, pois, esta distinção? Trazei à memória os "lagares", que contêm bagaço e vinho; e a eira, que contém palha e grão; e as redes, nas quais se encerravam peixes bons e maus; e a arca de Noé, na qual havia tanto animais imundos quanto limpos: e vereis que as Igrejas, por certo tempo, agora neste tempo, até o último tempo do juízo, contêm não somente ovelhas e bois, isto é, santos leigos e santos ministros, mas "ainda mais animais do campo, aves do céu, e aves do mar, que percorrem as veredas do mar." Pois os animais do campo se entendem muito aptamente como os homens que se comprazem no prazer da carne, onde não sobem a coisa alguma elevada, nada laborioso. Pois o campo é também "o caminho largo, que conduz à perdição": e num campo é morto Abel. Pelo que há motivo para temer que alguém, descendo dos montes da justiça de Deus ("pois a Tua justiça", diz ele, "é como os montes de Deus"), escolhendo os caminhos largos e fáceis do prazer carnal, seja morto pelo demônio. Vede agora também "as aves do céu", os soberbos, dos quais se diz: "Puseram sua boca contra o céu." Vede como são levados ao alto pelo vento, "os que dizem: Engrandeceremos nossa língua, nossos lábios são nossos, quem é nosso senhor?" Vede também os peixes do mar, isto é, os curiosos; que percorrem as veredas do mar, isto é, buscam nas profundezas as coisas temporais deste mundo: as quais, como veredas no mar, se desvanecem e perecem tão depressa quanto a água torna a se juntar, depois de haver dado lugar, em sua passagem, aos navios, ou a quanto quer que ande ou nade. Pois não disse apenas que andam pelas veredas do mar; mas "percorrem", disse ele; mostrando a própria decidida diligência daqueles que buscam coisas vãs e fugazes. Ora, estes três gêneros de vício, a saber, o prazer da carne, e a soberba, e a curiosidade, compreendem todos os pecados. E parecem-me enumerados pelo apóstolo João, quando diz: "Não ameis o mundo; pois tudo o que há no mundo é a concupiscência da carne, e a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida." Pois, sobretudo pelos olhos, prevalece a curiosidade. A que pertence o restante é claro. E aquela tentação do Senhor Homem foi tríplice: pelo alimento, isto é, pela concupiscência da carne, onde se sugere: "manda que estas pedras se façam pães"; pela vanglória, onde, colocado sobre um monte, se lhe mostram todos os reinos desta terra, e se lhe prometem, se O adorasse; pela curiosidade, onde, do pináculo do templo, é aconselhado a lançar-se abaixo, a fim de experimentar se seria sustido pelos Anjos. E, consequentemente, depois que o inimigo não pôde prevalecer contra Ele por nenhuma destas tentações, isto se diz dele: "Havendo o demônio acabado toda a tentação." Com referência, pois, ao sentido dos lagares, não somente o vinho, mas também o bagaço são postos sob Seus pés; a saber, não somente as ovelhas e os bois, isto é, as santas almas dos fiéis, quer entre os leigos, quer no ministério; mas ainda mais tanto os animais do prazer, quanto as aves da soberba, quanto os peixes da curiosidade. Todas estas classes de pecadores vemos agora misturadas nas Igrejas com os bons e santos. Que Ele opere, pois, em Suas Igrejas, e separe o vinho do bagaço: atentemos para que sejamos vinho, e ovelhas ou bois; não bagaço, nem animais do campo, nem aves do céu, nem peixes do mar, que percorrem as veredas do mar. Não que estes nomes se possam entender e explicar somente deste modo, mas a explicação deles há de ser conforme o lugar em que se encontram. Pois, alhures, têm outros sentidos. E esta regra se há de guardar em toda alegoria, que o que se exprime pela similitude se considere segundo o sentido do lugar particular: pois este é o modo de ensinar do Senhor e dos Apóstolos. Repitamos, pois, o último versículo, que também se põe no início do Salmo, e louvemos a Deus, dizendo: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o Teu nome em toda a terra!" Pois convenientemente, depois da matéria do discurso, se faz o retorno ao cabeçalho, aonde todo aquele discurso se deve referir.
2. "Eu Te confessarei, Senhor, com todo o meu coração" (v. 1). Não confessa a Deus com todo o coração aquele que duvida de Sua Providência em alguma coisa particular; mas aquele que já vê as coisas ocultas da sabedoria de Deus, quão grande seja a sua recompensa invisível, o qual diz: "Nos gloriamos nas tribulações"; e como todos os tormentos, que se infligem ao corpo, ou servem para o exercício dos que se convertem a Deus, ou para advertência a fim de que se convertam, ou para justa preparação dos obstinados para a última condenação: e assim, agora, todas as coisas se referem ao governo da Divina Providência, o que os néscios julgam feito como que por acaso e ao léu, e sem nenhuma ordenação divina. "Contarei todas as Tuas maravilhas." Conta todas as maravilhas de Deus quem as vê realizadas não somente abertamente no corpo, mas invisivelmente também na alma, e de modo bem mais sublime e excelente. Pois os homens terrenos, e guiados inteiramente pelos olhos, mais se admiram de que o Lázaro morto ressuscitasse no corpo, do que de que Paulo, o perseguidor, ressuscitasse na alma. Mas, como o milagre visível chama a alma para a luz, ao passo que o invisível ilumina a alma que vem quando chamada, conta todas as maravilhas de Deus aquele que, crendo no visível, passa ao entendimento do invisível.
Pois a notícia de dois juízos nos é transmitida por toda a Escritura, se alguém a eles atentar, um oculto, outro manifesto. O oculto está passando agora, do qual diz o Apóstolo Pedro: "É chegado o tempo em que o juízo comece pela casa do Senhor." O juízo oculto, portanto, é a dor, pela qual agora cada homem, ou se exercita para a purificação, ou se adverte para a conversão, ou, se despreza o chamado e a disciplina de Deus, se cega para a condenação. Mas o juízo manifesto é aquele em que o Senhor, em Sua vinda, julgará os vivos e os mortos, confessando todos os homens que é Ele por quem se hão de atribuir tanto os prêmios aos bons, quanto os castigos aos maus. Mas então aquela confissão não aproveitará ao remédio dos males, mas ao acréscimo da condenação. Destes dois juízos, um oculto, outro manifesto, parece-me que falou o Senhor, quando diz: "Quem crê em Mim passou da morte para a vida, e não virá a juízo"; ao juízo manifesto, a saber. Pois aquilo que passa da morte para a vida por meio de alguma aflição, pela qual "Ele açoita a todo filho que recebe", é o juízo oculto. "Mas quem não crê", diz Ele, "já está julgado": isto é, por este juízo oculto já foi preparado para aquele manifesto. Estes dois juízos lemos também na Sabedoria, donde está escrito: "Por isso, a eles, como a crianças sem uso de razão, deste um juízo para os escarnecer; mas os que não foram corrigidos por este juízo sentiram um juízo digno de Deus." Aqueles, pois, que não são corrigidos por este juízo oculto de Deus, serão dignissimamente punidos por aquele manifesto...
1. A inscrição deste Salmo é: "Até o fim, pelas coisas ocultas do Filho, Salmo do próprio Davi." Quanto às coisas ocultas do Filho, pode-se perguntar; mas, como não acrescentou de quem, deve-se entender o próprio Filho unigênito de Deus. Pois, onde um Salmo foi inscrito do filho de Davi, "Quando", diz, "fugia da face de Absalão, seu filho"; embora até o nome se mencionasse, e por isso não pudesse haver obscuridade de quem se falava, contudo não se diz apenas: da face do filho Absalão; mas se acrescenta "seu". Mas aqui, tanto porque não se acrescenta "seu", quanto porque muito se diz das gentes, não se pode propriamente entender de Absalão. Pois a guerra que aquele réprobo travou com seu pai de modo algum se relaciona com as gentes, já que ali somente o povo de Israel estava dividido contra si mesmo. Este Salmo, pois, se canta pelas coisas ocultas do Filho unigênito de Deus. Pois o próprio Senhor também, quando, sem acréscimo, usa a palavra Filho, quer que se entenda a Si mesmo, o Unigênito; como onde diz: "Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." Pois não disse: o Filho de Deus; mas, dizendo apenas Filho, dá-nos a entender de quem é filho. Forma de expressão que nada admite, senão a excelência daquele de quem falamos, de modo que, ainda que não O nomeemos, se possa entender. Pois assim dizemos: chove, aclara, troveja, e expressões semelhantes; e não acrescentamos quem faz tudo isso; porque a excelência de quem o faz se apresenta espontaneamente às mentes de todos, e não carece de palavras. Que são, pois, as coisas ocultas do Filho? Por cuja expressão devemos primeiramente entender que há algumas coisas do Filho manifestas, das quais se distinguem as que se chamam ocultas. Pelo que, como cremos em duas vindas do Senhor, uma passada, que os judeus não entenderam; outra futura, que nós esperamos; e como aquela que os judeus não entenderam aproveitou às gentes, "pelas coisas ocultas do Filho" não se entende inconvenientemente que se fale desta vinda, na qual "cegueira em parte sucedeu a Israel, para que entrasse a plenitude das gentes."
3. "Eu me alegrarei e exultarei em Ti" (v. 2). Não mais neste mundo, não no prazer da brandura corporal, não no gosto do paladar e da língua, não na doçura dos perfumes, não na alegria dos sons passageiros, não nas formas de variadas cores das figuras, não nas vaidades do louvor dos homens, não no matrimônio e na prole perecível, não na superfluidade das riquezas temporais, não na aquisição deste mundo, seja que se estenda por lugar e espaço, seja que se prolongue na sucessão do tempo: mas "eu me alegrarei e exultarei em Ti", a saber, nas coisas ocultas do Filho, onde "a luz de Teu semblante foi gravada sobre nós, ó Senhor": pois "Tu os esconderás", diz ele, "no esconderijo de Teu semblante." Alegrar-se-á, pois, e exultará em Ti, aquele que conta todas as Tuas maravilhas. E contará todas as Tuas maravilhas (visto que agora se fala profeticamente) "aquele que não veio para fazer a Sua própria vontade, mas a vontade Daquele que O enviou."
4. Pois já agora começa a aparecer a Pessoa do Senhor falando neste Salmo. Pois segue-se: "Cantarei ao Teu Nome, ó Altíssimo, ao voltar meu inimigo para trás." Seu inimigo, pois, onde foi ele voltado para trás? Foi quando lhe foi dito: "Vai-te para trás de mim, Satanás"? Pois então aquele que, tentando, desejava colocar-se adiante, foi voltado para trás, por falhar em enganar Aquele que era tentado, e por nada prevalecer contra Ele. Pois os homens terrenos estão atrás; mas o homem celestial é preferido diante, ainda que viesse depois. Pois "o primeiro homem é da terra, terreno; o segundo Homem é do céu, celestial." Mas, desta estirpe, veio Aquele por quem se disse: "Aquele que vem depois de mim é preferido diante de mim." E o Apóstolo esquece "as coisas que ficam atrás, e se estende para as que estão adiante." O inimigo, portanto, foi voltado para trás, depois que não pôde enganar o Homem celestial sendo tentado; e voltou-se para os homens terrenos, onde pode ter domínio... Pois, na verdade, o demônio se volta para trás até mesmo na perseguição dos justos, e ele, muito mais para proveito destes, é perseguidor, do que se fosse adiante como guia e príncipe. Devemos, pois, cantar ao Nome do Altíssimo ao voltar o inimigo para trás: já que devemos antes escolher fugir dele como perseguidor, do que segui-lo como guia. Pois temos para onde fugir e esconder-nos, nas coisas ocultas do Filho; visto que "o Senhor se fez refúgio para nós."
5. "Serão enfraquecidos, e perecerão diante da Tua face" (v. 3). Quem se enfraquecerá e perecerá, senão o injusto e o ímpio? "Serão enfraquecidos", enquanto de nada lhes aproveitará; "e perecerão", porque o ímpio deixará de ser; "diante da face" de Deus, isto é, diante do conhecimento de Deus, como pereceu aquele que disse: "Mas agora não vivo eu, mas Cristo vive em mim." Mas por que perecerá o ímpio, enfraquecido "diante da Tua face"? "Porque", diz ele, "Tu fizeste o meu juízo e a minha causa": isto é, o juízo no qual eu parecia ser julgado, Tu o fizeste meu; e a causa na qual os homens me condenaram, justo e inocente, Tu a fizeste minha. Pois tais coisas serviram a Ele para a nossa libertação, assim como também os marinheiros chamam de seu o vento de que se aproveitam para uma navegação próspera.
6. "Assentaste-Te sobre o trono, Tu que julgas com equidade" (v. 4). Quer o Filho diga isto ao Pai — que também disse: "Nenhum poder terias contra Mim, se não te fosse dado do alto", referindo isto mesmo, que o Juiz dos homens foi julgado em proveito dos homens, à equidade do Pai e aos Seus próprios mistérios ocultos —; quer o homem diga a Deus: "Assentaste-Te sobre o trono, Tu que julgas com equidade", dando o nome de trono de Deus à sua alma, de modo que o seu corpo seja porventura a terra, que é chamada "escabelo" de Deus (pois "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo"); quer a alma da Igreja, agora perfeita e sem mácula nem ruga, digna, isto é, dos mistérios ocultos do Filho — porquanto "o Rei a introduziu em Sua câmara" —, diga ao seu Esposo: "Assentaste-Te sobre o trono, Tu que julgas com equidade", porquanto ressuscitaste dos mortos, e subiste ao céu, e Te assentas à direita do Pai: qualquer que seja, digo, dentre essas opiniões, à qual se refira este versículo, a que se preferir não transgride a regra da fé.
7. "Repreendeste os gentios, e o ímpio pereceu" (v. 5). Tomamos isto como dito mais apropriadamente ao Senhor Jesus Cristo do que dito por Ele. Pois quem mais repreendeu os gentios, e fez perecer o ímpio, senão Aquele que, depois de haver subido ao céu, enviou o Espírito Santo, a fim de que, cheios dEle, os Apóstolos pregassem a palavra de Deus com ousadia, e livremente reprovassem os pecados dos homens? Nessa repreensão pereceu o ímpio, porque o ímpio foi justificado e feito piedoso. "Apagaste o nome deles para o século, e para o século do século." O nome do ímpio foi apagado. Pois não se chamam ímpios os que creem no verdadeiro Deus. Ora, o nome deles é apagado "para o século", isto é, enquanto durar o curso do mundo temporal. "E para o século do século." Que é o "século do século", senão aquele de que este século possui, por assim dizer, a imagem e a sombra? Pois a mudança das estações, sucedendo-se umas às outras, enquanto a lua mingua e novamente cresce, enquanto o sol a cada ano retorna ao seu quadrante, enquanto a primavera, ou o verão, ou o outono, ou o inverno passa apenas para retornar, é em certo modo uma imitação da eternidade. Mas o século do século é aquele que permanece na eternidade imutável. Como um verso na mente e um verso na voz — aquele é entendido, este é ouvido; e aquele plasma este; donde aquele subsiste na arte e permanece, e este soa no ar e passa —, assim a figura deste século mutável é definida por aquele século imutável, que se chama o século do século. E daí um permanece na arte, isto é, na Sabedoria e no Poder de Deus; mas o outro é feito passar no governo da criação. Contudo, se não for uma repetição, de modo que, depois de se ter dito "para o século", para que não se entendesse deste século que passa, se acrescentasse "para o século do século" — pois nos exemplares gregos está assim: eis ton aiona, kai eis ton aiona tou aionos, o que os latinos, na maior parte, verteram não como "para o século, e para o século do século", mas como "para sempre, e para o século do século", de modo que, nas palavras "para o século do século", se explicassem as palavras "para sempre". "O nome", pois, "do ímpio Tu apagaste para sempre", porque doravante o ímpio jamais será. E, se o nome deles não se prolonga até este século, muito menos até o século do século.
8. "As espadas do inimigo falharam até o fim" (v. 6). Não "dos inimigos", no plural, mas deste inimigo, no singular. Ora, de que inimigo falharam as espadas, senão do diabo? Entendem-se estas por diversas opiniões errôneas, com as quais, como que com espadas, ele destrói as almas. Para vencer estas espadas e levá-las ao fracasso, emprega-se aquela espada de que se diz no Salmo sétimo: "Se não vos converterdes, Ele brandirá a Sua espada." E porventura este é o fim contra o qual falham as espadas do inimigo, visto que até ele ainda têm alguma valia. Ora, ela age agora secretamente, mas no juízo final será brandida abertamente. Por ela são destruídas as cidades. Pois assim segue: "As espadas do inimigo falharam até o fim: e Tu destruíste as cidades." Cidades, sim, nas quais o diabo reina, onde os conselhos astutos e enganosos ocupam, por assim dizer, o lugar de uma corte, à qual soberania assistem, como oficiais e ministros, os serviços de todos os membros: os olhos para a curiosidade, os ouvidos para a lascívia, ou para tudo o mais que se ouça de bom grado e que se relacione com o mal, as mãos para a rapina ou qualquer outra violência ou poluição, e todos os demais membros, deste modo, servindo à soberania tirânica, isto é, aos conselhos perversos. Desta cidade a plebe, por assim dizer, são todos os afetos débeis e as perturbações da mente, suscitando diariamente sedições no homem. Assim, pois, onde se acham um rei, uma corte, ministros e uma plebe, ali está uma cidade. Ora, tais coisas não existiriam nas cidades más, se antes não existissem nos homens individuais, que são, por assim dizer, os elementos e as sementes das cidades. Estas cidades Ele destrói quando, expulso dali o príncipe de quem se disse que "o príncipe deste mundo" foi "lançado fora", estes reinos são devastados pela palavra da verdade, os maus conselhos são adormecidos, os afetos vis são domados, os ministérios dos membros e dos sentidos são feitos cativos e transferidos ao serviço da justiça e das boas obras, para que, como diz o Apóstolo, "o pecado não mais reine" em nosso "corpo mortal", e assim por diante. Então a alma está em paz, e o homem se dispõe a receber o repouso e a bem-aventurança. "A memória deles pereceu com alvoroço": com o alvoroço, isto é, dos ímpios. Mas se diz "com alvoroço" ou porque, quando a impiedade é derrubada, faz-se alvoroço — pois ninguém passa ao lugar mais alto, onde há o mais profundo silêncio, senão aquele que primeiro tiver guerreado com muito alvoroço contra os seus próprios vícios —; ou se diz "com alvoroço" para que a memória dos ímpios pereça no perecer do próprio alvoroço em que a impiedade se compraz.
9. "Mas o Senhor permanece para sempre" (v. 7). "Por que", pois, "se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs contra o Senhor e contra o Seu Ungido"? Pois "o Senhor permanece para sempre. Ele preparou o Seu trono para o juízo, e julgará o mundo com equidade." Preparou o Seu trono quando foi julgado. Pois, por aquela paciência, o Homem comprou o céu, e Deus, no Homem, aproveitou aos crentes. E este é o juízo oculto do Filho. Mas, uma vez que Ele há de vir também abertamente, e à vista de todos, para julgar os vivos e os mortos, preparou o Seu trono no juízo oculto; e há de também abertamente "julgar o mundo com equidade": isto é, há de distribuir os dons proporcionados ao mérito, pondo as ovelhas à Sua direita e os cabritos à Sua esquerda. "Julgará os povos com justiça" (v. 8). Isto é o mesmo que se disse acima: "julgará o mundo com equidade." Não como julgam os homens, que não veem o coração, pelos quais muitas vezes são absolvidos os piores e condenados os melhores; mas "com equidade" e "com justiça" julgará o Senhor, "dando a consciência testemunho, e os pensamentos, ora acusando, ora também desculpando."
10. "E o Senhor se fez refúgio do pobre" (v. 9). Sejam quais forem as perseguições daquele inimigo, que foi lançado para trás, que mal fará ele àqueles de quem o Senhor se fez refúgio? Mas isto se dará, se, neste mundo, no qual aquele tem certo ofício de poder, escolherem ser pobres, nada amando do que aqui ou abandona o homem enquanto vive e ama, ou é por ele abandonado quando morre. Pois a tal pobre o Senhor se fez refúgio, "socorredor a tempo, na tribulação." Eis que Ele faz pobre, pois "açoita a todo filho que recebe." E o que seja "socorredor a tempo", Ele o explicou acrescentando "na tribulação." Pois a alma não se converte a Deus senão quando se aparta deste mundo; nem se aparta deste mundo mais oportunamente senão quando aos seus prazeres frívolos, nocivos e destrutivos se misturam fadigas e dores.
11. "E esperem em Ti os que conhecem o Teu nome" (v. 10), quando houverem cessado de esperar nas riquezas e nas demais seduções deste mundo. Pois a alma que busca onde fixar a sua esperança, quando é arrancada deste mundo, recebe oportunamente o conhecimento do Nome de Deus. Pois o mero nome de Deus já foi divulgado por toda parte; mas o conhecimento do nome se dá quando é conhecido Aquele de quem é o nome. Pois o nome não é nome por si mesmo, mas por aquilo que significa. Ora, foi dito: "O Senhor é o Seu nome." Por isso, quem voluntariamente se submete a Deus como Seu servo conheceu este nome. "E esperem em Ti os que conhecem o Teu nome" (v. 10). Diz ainda o Senhor a Moisés: "Eu Sou o que Sou; e dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou." "Esperem", pois, "em Ti os que conhecem o Teu nome", para que não esperem naquelas coisas que fluem na rápida revolução do tempo, não tendo senão o "será" e o "foi". Pois o que nelas é futuro, ao chegar, logo se torna passado; espera-se com ânsia, perde-se com dor. Mas na natureza de Deus nada será, como se ainda não fosse; nem foi, como se já não fosse: há apenas o que é, e isto é a eternidade. Cessem, pois, de esperar e de amar as coisas temporais, e apliquem-se à esperança eterna aqueles que conhecem o nome dAquele que disse: "Eu Sou o que Sou", e de quem se disse: "Eu Sou me enviou." "Pois Tu não abandonaste, Senhor, os que Te buscam." Quem O busca, já não busca as coisas transitórias e perecíveis; "pois ninguém pode servir a dois senhores."
12. "Cantai ao Senhor, que habita em Sião" (v. 11), é dito àqueles a quem o Senhor não abandona quando O buscam. Ele habita em Sião, que se interpreta "vigilância", e que traz a semelhança da Igreja que agora é; assim como Jerusalém traz a semelhança da Igreja que há de vir, isto é, a cidade dos Santos já desfrutando da vida angélica; pois Jerusalém, por interpretação, é a visão da paz. Ora, a vigilância precede a visão, assim como esta Igreja precede aquela que é prometida, a cidade imortal e eterna. Mas precede no tempo, não na dignidade, porque mais honrosa é aquela a que nos esforçamos por chegar, do que aquilo que praticamos para conseguirmos chegar; ora, praticamos a vigilância para chegarmos à visão. Mas, ainda, esta mesma Igreja que agora é, se o Senhor não a habitasse, a mais diligente vigilância poderia cair em qualquer erro. E a esta Igreja foi dito: "Pois o templo de Deus é santo, o qual sois vós"; e ainda: "que Cristo habite, pela fé, no homem interior, em vossos corações." Ordena-se-nos, pois, que cantemos ao Senhor que habita em Sião, que, em concórdia, louvemos ao Senhor, Habitante da Igreja. "Anunciai as Suas maravilhas entre os gentios." Isto já foi feito, e não deixará de ser feito.
"Pois, ao exigir o sangue deles, Ele se lembrou" (v. 12). Como se aqueles que foram enviados a pregar o Evangelho respondessem àquela ordem que já foi mencionada, "Anunciai as Suas maravilhas entre os gentios", e dissessem: "Ó Senhor, quem creu em nosso anúncio?" e ainda: "Por causa de Ti somos mortos todo o dia" — o Salmista, com razão, prossegue dizendo que os cristãos, não sem grande recompensa de eternidade, morrerão na perseguição, "pois, ao exigir o sangue deles, Ele se lembrou". Mas por que preferiu dizer "o sangue deles"? Seria como se alguém de conhecimento imperfeito e fé menor perguntasse: Como hão de "anunciá-las", vendo que a infidelidade dos gentios há de enfurecer-se contra eles? E a esse se responderia: "Pois, ao exigir o sangue deles, Ele se lembrou", isto é, virá o juízo final, no qual se manifestará tanto a glória dos que foram mortos quanto o castigo dos que os mataram. Mas ninguém suponha que "Ele se lembrou" seja usado como se o esquecimento pudesse acometer a Deus; mas, porque o juízo virá depois de longo intervalo, usa-se essa expressão segundo o sentimento dos homens fracos, que pensam que Deus Se esqueceu, porque Ele não age tão depressa quanto eles desejam. A esses se diz também o que se segue: "Ele não Se esqueceu do clamor dos pobres" — isto é, Ele não Se esqueceu, como supondes. Como se, ao ouvirem "Ele se lembrou", dissessem: Logo, Ele Se havia esquecido. Não, diz o Salmista: "Ele não Se esqueceu do clamor dos pobres."
Mas pergunto: qual é esse clamor dos pobres, do qual Deus não Se esquece? Será aquele clamor cujas palavras são estas: "Tem piedade de mim, ó Senhor; vê a minha humilhação da parte dos meus inimigos" (v. 13)? Por que, então, não disse: Tem piedade de "nós", ó Senhor, vê a nossa humilhação da parte dos "nossos" inimigos, como se muitos pobres estivessem clamando; mas como se fosse um só: Tem piedade de "mim", ó Senhor? Será porque Um só intercede pelos santos, "o qual" primeiro "por amor de nós Se fez pobre, sendo rico"; e é Ele quem diz: "Tu que me exaltas das portas da morte" (v. 14), "para que eu anuncie todos os Teus louvores nas portas da filha de Sião"? Pois o homem é exaltado n'Ele, não apenas aquele Homem que Ele traz consigo, que é a Cabeça da Igreja; mas também qualquer de nós que esteja entre os demais membros, e seja exaltado de todos os desejos depravados, os quais são as portas da morte, pois por elas passa o caminho até a morte. Mas o gozo na fruição é, ao mesmo tempo, a própria morte, quando alguém alcança aquilo que, em vontade abandonada, cobiçou; pois "a cobiça é a raiz de todos os males"; e por isso é porta da morte, pois "a viúva que vive em prazeres está morta". A esses prazeres chegamos através dos desejos, como que através das portas da morte. Mas todos os mais elevados propósitos são as portas da filha de Sião, através das quais chegamos à visão da paz na Santa Igreja... Ou talvez as portas da morte sejam os sentidos corporais e os olhos, que se abriram quando o homem provou da árvore proibida... e sejam as portas da filha de Sião os sacramentos e os rudimentos da fé, que se abrem aos que batem, para que cheguem às coisas ocultas do Filho?...
Segue-se então: "Exultarei na Tua salvação" — isto é, com bem-aventurança serei sustentado pela Tua salvação, que é o nosso Senhor Jesus Cristo, o Poder e a Sabedoria de Deus. Por isso diz a Igreja, que aqui está em aflição e é salva pela esperança, enquanto perdura o juízo oculto do Filho; em esperança ela diz: "Exultarei na Tua salvação"; pois agora ela é consumida ora pelo rugido da violência ao seu redor, ora pelos erros dos gentios. "Os gentios ficaram presos na corrupção que fizeram" (v. 15). Considerai como o castigo é reservado ao pecador a partir das suas próprias obras; e como aqueles que quiseram perseguir a Igreja foram presos naquela mesma corrupção que pensavam infligir. Pois desejavam matar o corpo, enquanto eles mesmos estavam morrendo na alma. "Naquele laço que ocultaram, ficou preso o seu pé." O laço oculto é a astuta maquinação. O pé da alma bem se entende que é o seu amor, o qual, quando depravado, se chama cobiça ou concupiscência; mas, quando reto, se chama amor ou caridade... E diz o Apóstolo: "Que, arraigados e fundados no amor, sejais capazes de compreender." O pé dos pecadores, pois, isto é, o seu amor, fica preso no laço que ocultam; pois, quando o deleite houver seguido o trato enganoso, quando Deus os houver entregado à concupiscência do seu coração, esse deleite logo os prende, de modo que não ousam arrancar dali o seu amor para aplicá-lo a objetos proveitosos; pois, quando o tentarem, sofrerão no coração, como se desejassem libertar o pé de um grilhão; e, cedendo a essa dor, recusam-se a afastar-se dos deleites perniciosos. "No laço", pois, "que ocultaram", isto é, no conselho enganoso, "ficou preso o seu pé", isto é, o seu amor, que através do engano alcança aquele vão gozo pelo qual se compra a dor.
"O Senhor é conhecido executando juízos" (v. 16). Estes são os juízos de Deus. Não é daquela tranquilidade da Sua bem-aventurança, nem dos lugares secretos da sabedoria, onde são recebidas as almas bem-aventuradas, que se produzem a espada, o fogo, a fera, ou qualquer coisa semelhante, pela qual os pecadores possam ser atormentados; mas como são atormentados, e como o Senhor executa o juízo? "Nas obras", diz Ele, "das suas próprias mãos foi apanhado o pecador."
Aqui se interpõe: "O cântico do diapsalma" (v. 16) — como que a alegria oculta, tanto quanto podemos imaginar, da separação que agora se faz, não em lugar, mas nos afetos do coração, entre pecadores e justos, como do trigo em relação à palha, ainda na eira. E depois se segue: "Que os pecadores sejam volvidos ao inferno" (v. 17) — isto é, que sejam entregues às suas próprias mãos, quando são poupados, e que fiquem enredados em mortífero deleite. "Todas as nações que se esquecem de Deus." Porque, "quando não tiveram por bem reter a Deus em seu conhecimento, Deus os entregou a um sentimento reprovado."
"Pois não haverá esquecimento do pobre para sempre" (v. 18); ele que agora parece estar no esquecimento, quando se pensa que os pecadores florescem na felicidade deste mundo, e que os justos estão em tribulação; mas "a paciência", diz Ele, "dos pobres não perecerá para sempre". Por isso há necessidade de paciência agora, para suportar os maus, que já estão separados na vontade, até que sejam também separados no juízo final.
"Levanta-Te, ó Senhor; que o homem não prevaleça" (v. 19). Pede-se o juízo futuro; mas, antes que ele venha, "que os gentios", diz Ele, "sejam julgados diante da Tua face" — isto é, em segredo, o que se chama diante da face de Deus, com o conhecimento de poucos santos e justos. "Põe sobre eles um legislador, ó Senhor" (v. 20). Parece-me que Ele aponta para o Anticristo, do qual diz o Apóstolo: "Quando o homem do pecado for revelado." "Que os gentios saibam que são homens." Para que aqueles que serão libertados pelo Filho de Deus, e pertencerão ao Filho do Homem, e serão filhos dos homens, isto é, homens novos, possam servir ao homem, isto é, ao homem velho, o pecador, "pois são homens".
20. E porque se crê que ele há de chegar a tamanho cúmulo de vazia glória, e lhe será permitido fazer coisas tão grandes, tanto contra todos os homens quanto contra os santos de Deus, que então alguns fracos hão de pensar que Deus não Se importa com as coisas humanas, o Salmista, interpondo um diapsalma, acrescenta como que a voz dos homens que gemem e perguntam por que o juízo é diferido.
"Por que, ó Senhor", diz ele, "Te retiraste para longe?" (v. 1). Então aquele que assim perguntava, como se de repente compreendesse, ou como se perguntasse, embora soubesse, a fim de ensinar, acrescenta: "Tu desprezas em tempos oportunos, nas tribulações" — isto é, Tu desprezas oportunamente, e fazes com que as tribulações inflamem os ânimos dos homens de desejo pela Tua vinda. Pois aquela fonte de vida é mais doce para os que têm muita sede. Por isso ele indica a razão do adiamento, dizendo: "Enquanto o ímpio se vangloria, o pobre se inflama" (v. 2). Maravilhoso é, e verdadeiro, com que ardor de boa esperança se inflamam os pequeninos para uma vida reta, por comparação com os pecadores. Nesse mistério acontece que até as heresias são permitidas existir; não que os próprios hereges o desejem, mas porque a Divina Providência produz esse resultado a partir dos seus pecados, a qual tanto faz quanto ordena a luz; mas apenas ordena as trevas, para que, por comparação com elas, a luz seja mais agradável, assim como, por comparação com os hereges, a descoberta da verdade é mais doce. Pois assim, por essa comparação, os aprovados, que são conhecidos de Deus, se tornam manifestos entre os homens.
"Apanham-se em seus pensamentos, os que pensam": isto é, seus maus pensamentos se lhes tornam cadeias. Mas como se tornam cadeias? "Pois o pecador é louvado", diz ele, "nos desejos de sua alma" (v. 3). As línguas dos aduladores atam as almas no pecado. Pois há prazer em fazer aquilo em que não só não se teme repreensor, mas até se ouve aprovador. "E o que pratica obras iníquas é bendito." Por isso "são apanhados em seus pensamentos, os que pensam."
"O pecador irritou o Senhor" (v. 4). Ninguém felicite o homem que prospera em seu caminho, a cujos pecados não se acerca vingador algum, mas antes lhe assiste um aprovador. Esta é a maior ira do Senhor. Pois o pecador irritou o Senhor, para que padeça estas coisas, isto é, para que não padeça o açoite da correção. "O pecador irritou o Senhor: segundo a multidão de Sua ira, Ele não o investigará." Grande é a Sua ira, quando não investiga, quando como que Se esquece e não assinala o pecado, e o homem, por fraude e maldade, alcança riquezas e honras: o que se dará sobretudo naquele Anticristo, que parecerá aos homens tão bem-aventurado que até será tido por Deus. Mas quão grande seja esta ira de Deus, ensina-no-lo o que se segue.
"Deus não está diante de seus olhos, seus caminhos estão poluídos em todo tempo" (v. 5). Aquele que sabe o que na alma dá alegria e regozijo, sabe quão grande mal é ser abandonado pela luz da verdade: visto que os homens reputam grande mal a cegueira dos olhos corporais, pela qual esta luz lhes é subtraída. Quão grande, pois, é o castigo que sofre aquele que, pelo próspero êxito de seus pecados, é levado a tal ponto que Deus não está diante de seus olhos, e que seus caminhos são poluídos em todo tempo, isto é, seus pensamentos e conselhos são impuros! "Teus juízos são tirados de diante de sua face." Pois a mente consciente do mal, enquanto lhe parece não sofrer nenhum castigo, crê que Deus não julga, e assim lhe são tirados os juízos de Deus de diante da face; sendo que isto mesmo é grande condenação. "E terá domínio sobre todos os seus inimigos." Pois assim está revelado, que ele vencerá todos os reis, e sozinho obterá o reino; pois também, segundo o Apóstolo que dele profetiza, "assentar-se-á no templo de Deus, exaltando-se sobre tudo o que é adorado e que se chama Deus."
E visto que, entregue à concupiscência de seu próprio coração e predestinado à extrema condenação, ele há de chegar, por artes ímpias, a essa altura e domínio vãos e vazios, segue-se por isso: "Pois disse em seu coração: Não me moverei de geração em geração sem mal" (v. 6): isto é, minha fama e meu nome não passarão desta geração à geração da posteridade, a não ser que, por más artes, eu adquira um principado tão elevado que a posteridade não possa calar-se acerca dele. Pois uma mente abandonada e vazia de boas artes, e alheia à luz da justiça, por más artes maquina para si uma passagem a uma fama tão duradoura, que se celebre até na posteridade. E os que não podem ser conhecidos pelo bem desejam que os homens falem deles ainda que pelo mal, contanto que seu nome se espalhe longe e largamente. E isto, penso, é o que aqui se significa: "Não me moverei de geração em geração sem mal." Há também outra interpretação, se uma mente vã e cheia de erro supõe que não pode passar da geração mortal à geração da eternidade senão por más artes: o que de fato também se relatou de Simão, quando este julgou que ganharia o céu por artes ímpias, e passaria da geração humana à geração divina por magia. Onde está, pois, a maravilha, se também aquele homem do pecado, que há de encher toda a maldade e impiedade que todos os falsos profetas começaram, e de fazer tais "grandes sinais que, se possível fosse, enganaria até os próprios eleitos", disser em seu coração: "Não me moverei de geração em geração sem mal"?
"Cuja boca está cheia de maldição, e de amargura, e de engano" (v. 7). Pois é grande maldição buscar o céu por artes tão abomináveis, e ajuntar tais ganhos para adquirir o assento eterno. Mas desta maldição está cheia a sua boca. Pois este desejo não terá efeito, mas apenas dentro de sua boca valerá para destruir aquele que ousou prometer-se tais coisas com amargura e engano, isto é, com ira e insídia, pelas quais há de trazer a multidão para o seu lado. "Debaixo de sua língua há labor e tristeza." Nada há mais laborioso que a iniquidade e a impiedade: sobre a qual o labor é seguido de tristeza; pois o labor não é só sem fruto, mas até para a destruição. O qual labor e tristeza se referem ao que disse em seu coração: "Não serei movido de geração em geração sem mal." E por isso "debaixo de sua língua", não sobre sua língua, porque há de maquinar estas coisas em silêncio, e aos homens dirá outras, para que pareça bom e justo, e filho de Deus.
"Ele está de espreita com os ricos" (v. 8). Que ricos, senão aqueles a quem há de carregar com os dons deste mundo? E por isso se diz que está de espreita com eles, porque há de exibir a sua falsa felicidade para enganar os homens; os quais, quando com vontade pervertida desejarem ser como eles, e não buscarem os bens eternos, cairão em suas ciladas. "Para que nas trevas mate o inocente." "Nas trevas", suponho, se diz onde não se entende facilmente o que se deve buscar, ou o que evitar. Ora, matar o inocente é, de um inocente, fazer um culpado.
Este título não requer nova consideração: pois o sentido de "até o fim" já foi suficientemente tratado. Olhemos, pois, para o próprio texto do Salmo, que a mim me parece ser cantado contra os hereges, os quais, repetindo e exagerando os pecados de muitos na Igreja, como se todos ou a maioria entre eles fossem justos, se esforçam por nos desviar e arrebatar dos seios da única e verdadeira Mãe Igreja: afirmando que Cristo está com eles, e advertindo-nos como que com piedade e zelo, que, passando para eles, passaremos para Cristo, que falsamente afirmam ter. Ora, sabe-se que, na profecia, Cristo, entre os muitos nomes pelos quais dele se dá notícia em alegoria, é também chamado monte. Devemos, pois, responder a estes, e dizer: "No Senhor confio: como dizeis à minha alma: Passa aos montes como um pardal?" (v. 1). Eu me atenho a um só monte em que confio; como dizeis que eu deva passar para vós, como se houvesse muitos Cristos? Ou, se por soberba dizeis que sois montes, eu de fato precisaria ser um pardal alado com as virtudes e mandamentos de Deus: mas isto mesmo me impede de voar a estes montes, e de pôr a minha confiança em homens soberbos. Tenho uma casa onde possa repousar, no fato de confiar no Senhor. Pois também "o pardal achou casa para si", e "o Senhor se fez refúgio para o pobre". Digamos, pois, com toda confiança, para que, buscando a Cristo entre os hereges, não O percamos: "No Senhor confio: como dizeis à minha alma: Passa aos montes como um pardal?"
Para o Fim, Salmo do Próprio Davi.
2. "Pois eis que os pecadores armaram o arco, prepararam suas flechas na aljava, para que, na lua obscura, atirem sobre os retos de coração" (v. 2). Estes são os terrores dos que nos ameaçam a respeito dos pecadores, para que passemos a eles como aos justos. "Eis", dizem eles, "os pecadores armaram o arco": as Escrituras, suponho, das quais, por interpretação carnal, emitem sentenças envenenadas. "Prepararam suas flechas na aljava": isto é, as mesmas palavras que hão de disparar sob a autoridade da Escritura, prepararam no lugar secreto do coração. "Para que, na lua obscura, atirem sobre os retos de coração": para que, quando virem que, obscurecida a luz da Igreja pela multidão dos indoutos e carnais, não podem ser refutados, corrompam os bons costumes com más conversações. Mas contra todos estes terrores devemos dizer: "No Senhor confio."
3. Ora, lembro-me de que prometi considerar neste Salmo com que propriedade a lua significa a Igreja. Há duas opiniões prováveis acerca da lua: mas destas, qual seja a verdadeira, suponho que seja impossível, ou muito difícil, ao homem decidir. Pois, quando perguntamos donde tem a lua a sua luz, dizem alguns que é própria sua, mas que de seu globo metade é luminosa e metade escura: e que, ao girar em sua própria órbita, aquela parte em que é luminosa se volta gradualmente para a terra, de modo que possa ser vista por nós; e que por isso, a princípio, seu aspecto é como se fosse cornígera. ...Segundo esta opinião, a lua significa alegoricamente a Igreja, porque, em sua parte espiritual, a Igreja é luminosa, mas em sua parte carnal é escura: e às vezes a parte espiritual se vê pelas boas obras, mas às vezes se oculta na consciência, e só é conhecida de Deus, visto que só no corpo é vista pelos homens. ...Mas, segundo a outra opinião também, entende-se que a lua é a Igreja, porque não tem luz própria, mas é iluminada pelo Filho unigênito de Deus, que em muitos lugares da sagrada Escritura é alegoricamente chamado Sol. A este, certos hereges, ignorando-o e não podendo discerni-lO, esforçam-se por desviar as mentes dos simples para este sol corpóreo e visível, que é a luz comum da carne dos homens e das moscas, e a alguns pervertem, os quais, enquanto não puderem contemplar com a mente a luz interior da verdade, não se contentarão com a simples fé católica; a qual é a única segurança para os pequeninos, e pela qual, só com o leite, podem chegar, em firme robustez, ao apoio sólido de um alimento mais consistente. Qualquer que seja, pois, destas duas opiniões a verdadeira, a lua é aptamente entendida, em alegoria, como a Igreja. Ou, se em tais dificuldades, mais trabalhosas que edificantes, não houver nem satisfação nem lazer para exercitar a mente, ou se a própria mente não for capaz disso, basta olhar para a lua com olhos comuns, e não buscar causas obscuras, mas, com todos os homens, perceber seus crescimentos, plenitudes e minguantes; e, se míngua para que se renove, ela apresenta, mesmo a esta multidão rude, a imagem da Igreja, na qual se crê a ressurreição dos mortos.
4. Em seguida, devemos indagar o que neste Salmo se entende por "a lua obscura", na qual os pecadores prepararam para atirar sobre os retos de coração. Pois não de um só modo se pode dizer obscura a lua: pois, quando se completa seu curso mensal, e quando sua claridade é interrompida por uma nuvem, e quando se eclipsa na plenitude, pode a lua chamar-se obscura. Pode-se, pois, entender primeiro dos perseguidores dos Mártires, porquanto quiseram, na lua obscura, atirar sobre os retos de coração; seja ainda no tempo da juventude da Igreja, porque ainda não havia resplandecido em grandeza sobre a terra, nem vencido as trevas das superstições pagãs; seja pelas línguas dos blasfemos e dos que difamavam o nome cristão, quando a terra estava como que enublada, e a lua, isto é, a Igreja, não podia ser vista com clareza; seja quando, pela matança dos próprios Mártires e por tão grande efusão de sangue, como que por aquele eclipse e obscurecimento, em que a lua parece exibir um rosto sangrento, os fracos eram desviados do nome cristão; em cujo terror os pecadores dispararam palavras astutas e sacrílegas para pervertar até os retos de coração. E, em segundo lugar, pode-se entender destes pecadores que a Igreja contém, porque, naquele tempo, aproveitando a ocasião desta obscuridade da lua, cometeram muitos crimes, os quais agora nos são zombeteiramente objetados pelos hereges, quando se diz que deles foram culpados os fundadores destes. Mas, seja como for o que se fez na lua obscura, agora que o nome católico está espalhado e celebrado por todo o mundo, que me importa ser perturbado por coisas desconhecidas? Pois "no Senhor confio"; nem dou ouvidos aos que dizem à minha alma: "Passa aos montes como um pardal. Pois eis que os pecadores armaram o arco, para que, na lua obscura, atirem sobre os retos de coração." Ou, se a lua ainda lhes parece obscura, porque querem tornar incerto qual seja a Igreja Católica, e se esforçam por convencê-la pelos pecados daqueles muitos homens carnais que ela contém; que importa isto a quem diz em verdade: "No Senhor confio"? Por esta palavra, cada um mostra que é ele mesmo trigo, e suporta a palha com paciência até o tempo da joeira.
5. "No Senhor", portanto, "confio". Temam os que confiam no homem, e não podem negar que são do partido do homem, por cujos cabelos brancos juram; e quando, em conversa, se lhes pergunta de que comunhão são, a menos que digam que são do seu partido, não podem ser reconhecidos. ...Ou talvez direis que está escrito: "Pelos seus frutos os conhecereis"? Vejo, na verdade, obras maravilhosas: as diárias violências dos Circunceliões, com os bispos e presbíteros para
Diga então a alma católica: "No Senhor confio; como dizeis à minha alma: Retira-te para os montes como um pardal? Pois eis que os pecadores armaram o arco, prepararam as suas flechas na aljava, para atirarem, na lua obscura, contra os retos de coração:" e, voltando destes o seu discurso para o Senhor, diga: "Porque destruíram o que Tu aperfeiçoaste" (v. 3). E isto não o diga somente contra estes, mas contra todos os hereges. Pois todos eles, quanto está em si, destruíram o louvor que Deus aperfeiçoou da boca dos pequeninos e dos que mamam, quando perturbam os pequenos com questões vãs e escrupulosas, e não os deixam nutrir-se com o leite da fé. Como se, pois, se dissesse a esta alma: por que te dizem eles: "Retira-te para os montes como um pardal"; por que te atemorizam com os pecadores, que "armaram o arco, para atirarem, na lua obscura, contra os retos de coração"? Ela responde: Por isso é que me atemorizam, "porque destruíram o que Tu aperfeiçoaste". Onde, senão nos seus conventículos, onde não nutrem com leite, mas matam com veneno os pequeninos e ignorantes da luz interior? "Mas que fez o Justo?" Se Macário, se Ceciliano vos ofendem, que vos fez Cristo, que disse: "A minha paz vos dou, a minha paz vos deixo"; a qual vós, com as vossas abomináveis dissensões, violastes? Que vos fez Cristo, que suportou com tamanha paciência o seu traidor, a ponto de lhe dar, como aos demais Apóstolos, a primeira Eucaristia consagrada com as suas próprias mãos e abençoada com a sua própria boca? Que vos fez Cristo, que enviou este mesmo traidor — a quem chamou demônio, que antes de trair o Senhor não pôde mostrar boa-fé nem sequer com a bolsa do Senhor — juntamente com os demais discípulos, a pregar o reino dos céus; para mostrar que os dons de Deus chegam àqueles que com fé os recebem, ainda que aquele por quem os recebem seja tal qual foi Judas.
7. "O Senhor está no seu templo santo" (v. 4), sim, do modo como diz o Apóstolo: "Porque o templo de Deus é santo, o qual" templo "sois vós". "Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá." Viola o templo de Deus quem viola a unidade: pois este "não retém a cabeça, da qual todo o corpo, bem ajustado e ligado por todas as juntas de subsídio, segundo a operação na medida de cada parte, promove o crescimento do corpo para a sua edificação em amor". O Senhor está neste seu templo santo, que se compõe dos seus muitos membros, cumprindo cada um o seu próprio dever, edificados em amor num só edifício. Viola este templo quem, por causa de sua própria preeminência, se separa da sociedade católica. "O Senhor está no seu templo santo; o Senhor tem no céu o seu trono." Se tomares o céu pelo homem justo, como tomas a terra pelo pecador, a quem foi dito: "Terra és, e à terra voltarás", entenderás que se repetem as palavras "O Senhor está no seu templo santo", quando se diz: "O Senhor tem no céu o seu trono."
8. "Os seus olhos contemplam o pobre." D'Aquele a quem o pobre foi confiado, e que se fez refúgio do pobre. E por isso todas as sedições e tumultos dentro destas redes, até que sejam puxadas para a praia — a respeito das quais os hereges nos increpam para sua própria ruína e nossa correção —, são causados por aqueles homens que não querem ser os pobres de Cristo. Mas acaso desviam de Deus os olhos daqueles que o quereriam ser? "Pois os seus olhos contemplam o pobre." Haverá que temer que, na multidão dos ricos, Ele não possa ver os poucos pobres que cria em segura guarda no seio da Igreja Católica? "As suas pálpebras interrogam os filhos dos homens." Aqui, por aquela regra, gostaria de entender por "filhos dos homens" aqueles que, de velhos, foram regenerados pela fé. Estes, por certas passagens obscuras da Escritura, como que pelos olhos fechados de Deus, são exercitados para que busquem; e, de novo, por certas passagens claras, como que pelos olhos abertos de Deus, são iluminados para que se alegrem. E este frequente fechar e abrir nos Livros santos são como que as pálpebras de Deus, que interrogam, isto é, que provam os "filhos dos homens": os quais não se cansam com a obscuridade da matéria, mas se exercitam; nem se ensoberbecem com o conhecimento, mas se confirmam.
9. "O Senhor interroga o justo e o ímpio" (v. 5). Por que, pois, tememos que os ímpios nos possam causar algum dano, ainda que participem conosco dos sacramentos com coração insincero, visto que Ele "interroga o justo e o ímpio"? "Mas quem ama a iniquidade odeia a sua própria alma": isto é, não àquele que crê em Deus e não põe a sua esperança no homem, mas somente à sua própria alma fere o amante da iniquidade.
10. "Fará chover laços sobre os pecadores" (v. 6). Se por nuvens se entendem os profetas em geral, sejam bons ou maus — os quais também são chamados falsos profetas —, os falsos profetas são de tal modo ordenados pelo Senhor Deus, que por meio deles Ele faça chover laços sobre os pecadores. Pois ninguém, senão o pecador, cai em segui-los, seja como preparação para o castigo derradeiro, se escolher perseverar no pecado, seja para dissuadi-lo da soberba, se com o tempo vier a buscar a Deus com intenção mais sincera. Mas se por nuvens se entendem somente os profetas bons e verdadeiros, também por estes é claro que Deus faz chover laços sobre os pecadores, ainda que por eles também regue os piedosos para a fecundidade. "Para uns", diz o Apóstolo, "somos odor de vida para vida; para outros, odor de morte para morte." Pois não somente os profetas, mas todos os que com a palavra de Deus regam as almas, podem ser chamados nuvens. Quando são mal entendidos, Deus faz por eles chover laços sobre os pecadores; mas quando são bem entendidos, faz fecundos os corações dos piedosos e crentes. Assim, por exemplo, a passagem "e os dois serão uma só carne": se alguém a interpreta tendo em vista a luxúria, Deus faz chover um laço sobre o pecador. Mas se a entendes como aquele que diz: "Mas eu falo a respeito de Cristo e da Igreja", Deus faz cair uma chuva sobre o solo fértil. Ora, ambos os efeitos são produzidos pela mesma nuvem, isto é, a santa Escritura. De novo, diz o Senhor: "Não é o que entra na vossa boca que vos contamina, mas o que sai." O pecador ouve isto e prepara o seu paladar para a gula; o justo ouve isto e se guarda da distinção supersticiosa quanto às comidas. Também aqui, pois, da mesma nuvem da Escritura, segundo o merecimento próprio de cada um, sobre o pecador se derrama a chuva dos laços, sobre o justo a chuva da fecundidade.
11. "Fogo, enxofre e vento tempestuoso são a porção do seu cálice." Esta é a punição e o fim daqueles por quem o nome de Deus é blasfemado: que primeiro sejam consumidos pelo fogo das suas próprias concupiscências; depois, pelo mau odor das suas más obras, sejam lançados fora da companhia dos bem-aventurados; por fim, arrebatados e submergidos, sofram penas inefáveis. Pois esta é a porção do seu cálice: como se diz dos justos, "Quão excelente é o teu cálice que inebria! Pois serão inebriados com a fartura da tua casa." Suponho, ora, que se menciona um cálice por esta razão: para que não julguemos que algo se faz pela providência de Deus, mesmo nos próprios castigos dos pecadores, além da moderação e da medida. E por isso, como que dando a razão de por que assim há de ser, acrescentou: "Porque o Senhor é justo, e amou as justiças" (v. 7). O plural não é sem sentido, mas apenas porque fala dos homens, de modo que se entenda que "justiças" está posto por "homens justos". Pois em muitos homens justos parece haver, por assim dizer, justiças, ao passo que há uma só justiça de Deus, da qual todos participam. Como quando um só rosto se contempla em muitos espelhos: o que nele é uno, por aqueles muitos espelhos se reflete multiplicado. Por isso, ele volta ao singular, dizendo: "O seu rosto viu a equidade." Talvez "o seu rosto viu a equidade" seja como se dissesse: a equidade foi vista no seu rosto, isto é, no conhecimento d'Ele. Pois o rosto de Deus é o poder pelo qual Ele se faz conhecido aos que são dignos. Ou, ao menos, "o seu rosto viu a equidade", porque Ele não se permite ser conhecido pelo mau, mas pelo bom; e isto é a equidade.
12. Mas se alguém quiser entender a lua como a sinagoga, refira o Salmo à paixão do Senhor, e diga dos judeus: "Porque destruíram o que Tu aperfeiçoaste"; e do próprio Senhor: "Mas que fez o Justo?" — a quem eles acusavam como destruidor da Lei, cujos preceitos, pela sua vida corrupta, por os desprezarem e por instituírem os seus próprios, tinham eles destruído; de modo que o próprio Senhor pode falar como Homem, como costuma, dizendo: "No Senhor confio; como dizeis à minha alma: Retira-te para os montes como um pardal?" — por causa, isto é, do temor daqueles que desejavam prendê-lO e crucificá-lO. Visto que não é sem razão a interpretação de que os pecadores desejavam "atirar contra os retos de coração", isto é, contra os que criam em Cristo, "na lua obscura", isto é, a Sinagoga cheia de pecadores. A isto também convêm as palavras: "O Senhor está no seu templo santo; o Senhor tem no céu o seu trono", isto é, o Verbo no Homem, ou o próprio Filho do Homem que está no céu. "Os seus olhos contemplam o pobre": seja n'Aquele que assumiu como Deus, seja por quem padeceu como Homem. "As suas pálpebras interrogam os filhos dos homens." O fechar e abrir dos olhos, que provavelmente se significa pela palavra pálpebras, podemos entender como a sua morte e ressurreição, pelas quais provou os filhos dos homens, seus discípulos, aterrados pela sua paixão e alegrados pela ressurreição. "O Senhor interroga o justo e o ímpio", ainda agora, desde o Céu, governando a Igreja. "Mas quem ama a iniquidade odeia a sua própria alma." Por que assim é, ensina-nos o que se segue. Pois "fará chover laços sobre os pecadores": o que se deve tomar segundo a exposição acima dada, e assim por diante até o fim do Salmo.
2. "Salva-me, Senhor, porque faltou o santo"; isto é, não se encontra: como falamos quando dizemos que falta o trigo, ou que falta o dinheiro. "Porque as verdades foram diminuídas dentre os filhos dos homens" (v. 1). A verdade é uma só, pela qual as almas santas são iluminadas; mas, como há muitas almas, pode-se dizer que nelas há muitas verdades: assim como em muitos espelhos se veem muitos reflexos de um só rosto.
1. Já se disse a respeito do sexto Salmo que "o oitavo" pode ser tomado como o dia do juízo. Pois "o oitavo" também pode ser tomado "pela era eterna"; porquanto, depois do tempo presente, que é um ciclo de sete dias, ele há de ser dado aos Santos.
AO Fim, PELO Oitavo, Salmo DE Davi.
3. "Falou vaidade cada um ao seu próximo" (v. 2). Por próximo devemos entender todo homem: pois não há ninguém com quem devamos praticar o mal; "e o amor do próximo não obra o mal". "Lábios enganosos, com coração e coração falaram coisas más." A repetição "com coração e coração" significa um coração duplo.
4. "Que o Senhor destrua todos os lábios enganosos" (v. 3). Diz "todos", para que ninguém julgue estar isento: como diz o Apóstolo, "sobre toda alma de homem que faz o mal, do judeu primeiro, e também do grego". "A língua que fala grandes coisas": a língua soberba.
5. "Os que disseram: Engrandeceremos a nossa língua, os nossos lábios são nossos, quem é senhor sobre nós?" (v. 4). Entendem-se os soberbos hipócritas, que põem confiança em seu discurso para enganar os homens, e não se submetem a Deus.
6. "Por causa da miséria dos necessitados e do gemido dos pobres, agora me levantarei, diz o Senhor" (v. 5). Pois assim o próprio Senhor, no Evangelho, teve compaixão de Seu povo, porque não tinha quem o governasse, quando bem poderia obedecer. Donde também se diz no Evangelho: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos". Mas isto deve ser entendido como dito na pessoa de Deus Pai, que, por causa dos necessitados e dos pobres, isto é, dos que na necessidade e na pobreza careciam dos bens espirituais, dignou-Se enviar o Seu próprio Filho. Daí começa o Seu sermão do monte, em Mateus, onde diz: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". "Porei em salvação." Não diz o que poria: mas "em salvação" deve entender-se como, em Cristo; segundo aquilo: "Pois os meus olhos viram a Tua salvação". E daí se entende que pôs Nele o que concerne a tirar a miséria dos necessitados, e a consolar o gemido dos pobres. "Falarei com confiança Nele": segundo aquilo no Evangelho, "Pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os seus escribas".
7. "As palavras do Senhor" são "palavras puras" (v. 6). Isto é dito na pessoa do próprio Profeta: "As palavras do Senhor" são "palavras puras". Diz "puras", sem a liga da simulação. Pois muitos pregam a verdade impuramente; pois a vendem pela recompensa das vantagens desta vida. Destes diz o Apóstolo que anunciavam a Cristo não puramente. "Prata provada pelo fogo, purgada da terra." Estas palavras do Senhor são aprovadas aos pecadores por meio das tribulações. "Purificada sete vezes": pelo temor de Deus, pela piedade, pela ciência, pela fortaleza, pelo conselho, pelo entendimento, pela sabedoria. Pois há também sete graus de bem-aventurança, pelos quais o Senhor passa, segundo Mateus, no mesmo sermão que proferiu no Monte: "Bem-aventurados" os "pobres de espírito, bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os que choram, bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os limpos de coração, bem-aventurados os pacificadores". Destas sete sentenças, pode-se observar como todo aquele longo sermão foi proferido. Pois a oitava, onde se diz "Bem-aventurados" os "que padecem perseguição por causa da justiça", denota o próprio fogo, pelo qual a prata é provada sete vezes. E ao termo deste sermão diz-se: "Pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os seus escribas." O que se refere ao que se diz neste Salmo: "Falo com confiança Nele".
1. "Pois Cristo é o fim da lei para todo o que crê." "Até quando, ó Senhor, Te esquecerás de mim até o fim?" (v. 1), isto é, me adiarás quanto a entender espiritualmente a Cristo, que é a Sabedoria de Deus, e o verdadeiro fim de toda a aspiração da alma. "Até quando desviarás de mim o Teu rosto?" Assim como Deus não esquece, tampouco desvia o Seu rosto: mas a Escritura fala segundo o nosso modo. Ora, diz-se que Deus desvia o Seu rosto quando não dá à alma, que ainda não tem o olho puro da mente, o conhecimento de Si mesmo.
AO Fim, Salmo DE Davi.
2. "Até quando porei conselhos na minha alma?" (v. 2). Não há necessidade de conselho senão na adversidade. Portanto, "Até quando porei conselhos na minha alma?" é como se se dissesse: Até quando estarei na adversidade? Ou, ao menos, é uma resposta, de modo que o sentido é este: Até tanto, ó Senhor, Te esquecerás de mim até o fim, e até tanto desviarás de mim o Teu rosto, até que eu ponha conselho na minha própria alma: de sorte que, a menos que o homem ponha conselho em sua própria alma para operar a misericórdia perfeitamente, Deus não o dirigirá até o fim, nem lhe dará aquele pleno conhecimento de Si mesmo, que é "face a face". "Terei dor no meu coração todo o dia?" Entende-se: Até quando terei. E "todo o dia" significa continuidade, de modo que o dia é tomado por tempo: do qual, como cada um deseja ver-se livre, tem dor no coração, fazendo súplica para elevar-se às coisas eternas, e não suportar o dia do homem.
3. "Até quando se exaltará o meu inimigo sobre mim?" seja o demônio, seja o hábito carnal.
4. "Olha para mim, e ouve-me, ó Senhor meu Deus" (v. 3). "Olha para mim" refere-se ao que foi dito, "Até quando" desviarás "o Teu rosto de mim". "Ouve" refere-se ao que foi dito, "Até quando Te esquecerás de mim até o fim?" "Ilumina os meus olhos, para que eu não adormeça na morte." Devem entender-se os olhos do coração, para que não se fechem pelo eclipse aprazível do pecado.
5. "Para que nunca diga o meu inimigo: Prevaleci contra ele" (v. 4). Deve-se temer o escárnio do demônio. "Os que me atribulam exultarão, se eu for abalado": o demônio e os seus anjos; os quais não exultaram sobre aquele justo, Jó, quando o atribulavam; porque ele não foi abalado, isto é, não retrocedeu da firmeza da sua fé.
"Mas eu esperei em Tua misericórdia" (v. 5). Pois isto mesmo, que o homem não seja abalado e que permaneça firme no Senhor, não o deve atribuir a si mesmo: para que, ao gloriar-se de não ter sido abalado, não seja abalado por esta mesma soberba. "Meu coração exultará em Tua salvação"; em Cristo, na Sabedoria de Deus. "Cantarei ao Senhor que me deu bens"; bens espirituais, que não pertencem ao dia do homem. "E salmodiarei ao nome do Senhor altíssimo" (v. 6); isto é, dou graças com alegria, e em ordem mui devida emprego o meu corpo, que é o cântico da alma espiritual. Mas, se aqui se há de marcar alguma distinção, "cantarei" com o coração, "salmodiarei" com as minhas obras; "ao Senhor", aquilo que só Ele vê, mas "ao nome do Senhor", aquilo que é conhecido entre os homens, o qual não é útil para Ele, mas para nós.
"Disse o insensato em seu coração: Não há Deus" (v. 1). Pois nem mesmo certos filósofos sacrílegos e abomináveis, que sustentam noções perversas e falsas acerca de Deus, ousaram dizer: "Não há Deus." Por isso é que ele o disse "em seu coração"; pois ninguém ousa dizê-lo, ainda que tenha ousado pensá-lo. "Corromperam-se e tornaram-se abomináveis em suas afeições": isto é, enquanto amam este mundo e não amam a Deus; estas são as afeições que corrompem a alma e assim a cegam, de modo que o insensato pode até dizer, "em seu coração, Não há Deus. Pois, como não quiseram reter a Deus em seu conhecimento, Deus os entregou a uma mente reprovada." "Não há quem faça o bem, não há sequer um até um." "Até um" pode ser entendido tanto como referindo-se a esse mesmo um, de sorte que nenhum homem seja entendido; quanto como "afora um", de modo que se exceptue o Senhor Cristo. Assim como dizemos: Este campo vai até o mar; não contamos, por certo, o mar juntamente com o campo. E esta é a melhor interpretação, de modo que se entenda que ninguém fez o bem até Cristo; pois nenhum homem pode fazer o bem, a menos que Ele o tenha mostrado. E isto é verdadeiro; pois, até que o homem conheça o único Deus, não pode fazer o bem.
O que significa "até o fim" não se deve repetir demasiadas vezes. "Pois Cristo é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê", como diz o Apóstolo. Cremos Nele, quando começamos a entrar no bom caminho: hemos de vê-Lo, quando chegarmos ao fim. E, por isso, é Ele o fim.
"O Senhor, desde o céu, olhou para os filhos dos homens, para ver se havia algum que entendesse, ou que buscasse a Deus" (v. 2). Pode-se interpretar como referindo-se aos judeus; visto que lhes pôde ter dado o nome mais honroso de filhos dos homens, em razão de seu culto ao Deus único, em comparação com os gentios; dos quais suponho que se disse acima: "Disse o insensato em seu coração: Não há Deus", etc. Ora, o Senhor olha para que veja, por meio de Suas santas almas: o que é o sentido de "desde o céu". Pois, por Si mesmo, nada Lhe é oculto.
"Todos se desviaram do caminho, tornaram-se juntamente inúteis": isto é, os judeus tornaram-se como os gentios, dos quais se falou acima. "Não há quem faça o bem, não há sequer um até um" (v. 3), deve-se interpretar como acima. "Sua garganta é um sepulcro aberto." Ou se significa a voracidade do palato sempre aberto; ou, alegoricamente, aqueles que matam e, por assim dizer, devoram os que mataram, nos quais instilam o mal de sua própria conversação. Ao qual, em sentido contrário, se assemelha o que foi dito a Pedro: "Mata e come"; para que convertesse os gentios à sua própria fé e boa conversação. "Com suas línguas usaram de astúcia." A lisonja é companheira dos gananciosos e de todos os maus. "O veneno das víboras está debaixo de seus lábios." Por "veneno" ele entende o engano; e "das víboras", porque não hão de ouvir os preceitos da lei, assim como as víboras "não ouvirão a voz do encantador", o que se diz mais claramente em outro Salmo. "Cuja boca está cheia de maldição e amargura": isto é, "o veneno das víboras." "Seus pés são velozes para derramar sangue." Aqui mostra o hábito de mal fazer. "Destruição e infelicidade" estão "em seus caminhos." Pois todos os caminhos dos maus estão cheios de labuta e de miséria. Donde o Senhor clama: "Vinde a Mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração. Pois o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve." "E o caminho da paz não conheceram": aquele caminho, a saber, que o Senhor, como disse, menciona, no jugo suave e no fardo leve. "Não há temor de Deus diante de seus olhos." Estes não dizem: "Não há Deus"; mas, ainda assim, não temem a Deus.
"Acaso não hão de saber todos os que praticam a iniquidade?" (v. 4). Ameaça o juízo. "Que devoram o meu povo como alimento de pão": isto é, diariamente. Pois o alimento de pão é o alimento de cada dia. Ora, devoram o povo aqueles que dele se servem para seus próprios fins, não referindo o seu ministério à glória de Deus e à salvação daqueles sobre os quais estão postos.
"Não invocaram o Senhor." Pois não invoca a Ele verdadeiramente quem anseia por coisas que Lhe são desagradáveis. "Ali tremeram de medo, onde não havia medo" (v. 5): isto é, pela perda das coisas temporais. Pois disseram: "Se O deixarmos assim, todos os homens crerão Nele; e virão os romanos, e nos tirarão tanto o lugar quanto a nação." Temeram perder um reino terreno, onde não havia temor a haver; e perderam o reino dos céus, o qual deveriam ter temido. E isto se há de entender de todos os bens temporais, cuja perda, quando os homens temem, não chegam às coisas eternas.
Quanto a este título, não há questão. "Senhor, quem peregrinará em Teu tabernáculo?" (v. 1). Ainda que tabernáculo se use por vezes até mesmo para uma habitação sempiterna, contudo, quando tabernáculo se toma em seu sentido próprio, é coisa de guerra. Donde os soldados são chamados companheiros de tenda, por terem suas tendas juntas. A este sentido dá apoio a pergunta: "Quem peregrinará?" Pois guerreamos contra o diabo por um tempo, e depois necessitamos de um tabernáculo em que possamos reconfortar-nos. O que aponta especialmente para a fé da Dispensação temporal, a qual foi operada para nós no tempo mediante a Encarnação do Senhor. "E quem repousará em Teu santo monte?" Aqui, talvez, significa ao mesmo tempo a própria habitação eterna, de modo que devamos entender por "monte" a supereminência do amor de Cristo na vida eterna.
2. "O que anda sem mácula, e obra justiça" (v. 2). Aqui estabeleceu a proposição; no que se segue, expõe-a em pormenor.
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3. "Que fala a verdade em seu coração." Pois há os que têm a verdade nos lábios, e não no coração. Como se alguém, enganosamente, indicasse um caminho, sabendo que ali havia salteadores, e dissesse: Se fores por este caminho, estarás seguro dos salteadores; e sucedesse que, de fato, nenhum salteador ali se encontrasse: este falou a verdade, mas não a teve no coração. Pois supunha que fosse de outro modo, e falou a verdade por ignorância. Portanto não basta falar a verdade, se não o for também no coração. "Que não praticou engano em sua língua" (v. 3). Pratica-se o engano com a língua, quando uma coisa se professa com a boca, e outra se oculta no peito. "Nem fez mal a seu próximo." Bem se sabe que por "próximo" se deve entender todo homem. "E não acolheu calúnia contra o seu próximo," isto é, não deu crédito, pronta ou temerariamente, a um acusador.
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4. "O maligno foi reduzido a nada em seus olhos" (v. 4). Esta é a perfeição: que o maligno não tenha força contra o homem; e que isto se dê "em seus olhos," isto é, que ele saiba com toda a certeza que o maligno nada é, senão quando a mente se aparta da forma eterna e imutável de seu próprio Criador para a forma da criatura, a qual foi feita do nada. "Mas aos que temem ao Senhor, Ele glorifica:" o próprio Senhor, isto é. Ora, "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria." Assim como, pois, as coisas acima pertencem aos perfeitos, também o que agora vai dizer pertence aos principiantes.
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5. "Que jura ao seu próximo, e não o engana." "Que não deu o seu dinheiro à usura, nem aceitou recompensas contra o inocente" (v. 5). Não são estas coisas grandes; mas quem nem sequer isto é capaz de fazer, muito menos capaz é de falar a verdade em seu coração, e de não praticar engano em sua língua, mas, assim como a verdade está no coração, assim professá-la e tê-la na boca, "sim, sim; não, não;" e não fazer mal ao seu próximo, isto é, a nenhum homem; e não acolher calúnia contra o seu próximo: todas estas são virtudes dos perfeitos, em cujos olhos o maligno foi reduzido a nada. Contudo, até estas coisas menores ele as conclui assim: "Quem fizer estas coisas jamais será abalado:" isto é, alcançará aquelas coisas maiores, nas quais há grande e inabalável firmeza. Pois até mesmo os tempos verbais são, talvez não sem razão, assim variados, de modo que na conclusão acima se usasse o tempo passado, mas nesta o futuro. Pois ali se disse: "O maligno foi reduzido a nada em seus olhos:" mas aqui, "jamais será abalado."
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1. O nosso Rei fala neste Salmo segundo o caráter da natureza humana que assumiu, cujo título régio foi eminentemente proclamado no tempo de Sua paixão.
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Inscrição DO Título, DE Davi Mesmo.
2. Ora, Ele diz o seguinte: "Guarda-me, ó Senhor, pois em Ti esperei" (v. 1): "Disse ao Senhor: Tu és o meu Deus, pois não necessitas dos meus bens" (v. 2): pois com os meus bens não esperas Tu vir a ser bem-aventurado.
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3. "Aos santos que estão em Sua terra" (v. 3): aos santos que puseram sua esperança na terra dos vivos, cidadãos da Jerusalém celeste, cuja conversação espiritual está, pela âncora da esperança, fixada naquela pátria, a qual justamente se chama a terra de Deus; ainda que, até agora, também nesta terra andem eles na carne. "Ele cumpriu maravilhosamente em eles todos os Meus desejos." A esses santos, pois, Ele cumpriu maravilhosamente todos os Meus desejos no progresso deles, pelo qual perceberam de que modo tanto a humanidade da Minha divindade lhes aproveitou, para que Eu morresse, quanto a divindade da humanidade, para que Eu ressuscitasse.
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4. "Suas enfermidades multiplicaram-se" (v. 4): as enfermidades deles multiplicaram-se, não para sua destruição, mas para que desejassem ardentemente o Médico. "Depois se apressaram." Assim, depois de multiplicadas as enfermidades, apressaram-se, para que fossem curados. "Não reunirei as suas assembleias por sangue." Pois as assembleias deles não serão carnais, nem Eu as reunirei como quem é propiciado pelo sangue do gado. "Nem Me lembrarei de seus nomes com os Meus lábios." Mas, por uma mudança espiritual, o que foram será esquecido; nem por Mim serão eles mais chamados nem pecadores, nem inimigos, nem homens; mas justos, e Meus irmãos, e filhos de Deus por Minha paz.
"O Senhor é a porção da Minha herança e do Meu cálice" (v. 5). Pois juntamente Comigo hão de possuir a herança, o próprio Senhor. Escolham outros para si porções, terrenas e temporais, para delas gozarem: a porção dos Santos é o Senhor eterno. Bebam outros dos prazeres mortíferos, a porção do Meu cálice é o Senhor. Ao dizer "Minha", incluo a Igreja: pois onde está a Cabeça, ali está também o corpo. Pois na herança congregarei as suas assembleias, e pela embriaguez do cálice esquecerei os seus nomes antigos. "Tu és Aquele que há de restituir-Me a Minha herança": para que também a estes, a quem liberto, seja conhecida "a glória em que Eu estava Convosco antes que o mundo fosse feito". Pois não hás de restituir-Me aquilo que jamais perdi, mas hás de restituir a estes, que a perderam, o conhecimento daquela glória: nos quais, porque Eu estou, hás de restituí-la a Mim.
"As linhas caíram para mim em lugares gloriosos" (v. 6). Os limites da minha possessão caíram na Tua glória como que por sorte, assim como Deus é a possessão dos Sacerdotes e dos Levitas. "Pois a Minha herança é gloriosa para Mim." "Pois a Minha herança é gloriosa", não para todos, mas para os que veem; nos quais, porque Eu estou, "ela é para Mim".
"Bendirei ao Senhor, que Me deu entendimento" (v. 7): pelo qual esta herança pode ser vista e possuída. "Sim, além disso, até a noite os meus rins Me castigaram." Sim, além do entendimento, até a morte, a Minha parte inferior, a assunção da carne, Me instruiu, para que Eu experimentasse a escuridão da mortalidade, a qual aquele entendimento não possui.
"Eu previa o Senhor diante de Mim sempre" (v. 8). Mas, vindo às coisas que passam, não retirei o Meu olhar Daquele que permanece sempre, prevendo isto: que a Ele Eu haveria de retornar depois de passar pelas coisas temporais. "Pois Ele está à Minha direita, para que Eu não seja abalado." Pois Ele Me favorece, para que Eu permaneça firme n'Ele.
"Por isso Se alegrou o Meu coração, e a Minha língua exultou" (v. 9). Por isso, tanto nos Meus pensamentos há alegria, quanto nas Minhas palavras exultação. "Além disso, a Minha carne também repousará em esperança." Além disso, a Minha carne não perecerá para a destruição, mas dormirá na esperança da ressurreição.
"Pois não deixarás a Minha alma no inferno" (v. 10). Pois não hás de entregar a Minha alma como possessão àquelas regiões inferiores. "Nem permitirás que o Teu Santo veja a corrupção." Nem hás de sofrer que aquele corpo santificado, pelo qual outros também hão de ser santificados, veja a corrupção. "Fizeste-Me conhecer os caminhos da vida" (v. 11). Fizeste conhecer, por Meu intermédio, os caminhos da humilhação, para que os homens retornassem à vida, de onde caíram pela soberba; nos quais, porque Eu estou, "Tu Me fizeste conhecer". "Hás de encher-Me de alegria com o Teu rosto." Hás de enchê-los de alegria, para que nada mais busquem, quando Te virem "face a face"; nos quais, porque Eu estou, "hás de encher-Me". "O prazer está à Tua direita até o fim." O prazer está no Teu favor e na Tua misericórdia nesta jornada da vida, conduzindo até o fim da glória do Teu rosto.
Esta oração deve ser atribuída à Pessoa do Senhor, com o acréscimo da Igreja, que é o Seu corpo.
Oração DE Davi Mesmo.
"Ouve a Minha justiça, ó Deus, atenta à Minha súplica" (v. 1). "Escuta a Minha oração, não em lábios enganosos": não saindo a Ti em lábios enganosos. "Saia o Meu juízo da Tua face" (v. 2). A partir da iluminação do conhecimento de Ti, que Eu julgue a verdade. Ou, ao menos, saia o Meu juízo, não em lábios enganosos, da Tua face, isto é, que Eu não profira, ao julgar, outra coisa senão o que entendo em Ti. "Vejam os Meus olhos a equidade": os olhos, é claro, do coração.
3. "Tu provaste e visitaste meu coração na noite" (v. 3). Pois este meu coração foi provado pela visitação da tribulação. "Examinaste-me pelo fogo, e não se achou iniquidade em mim." Ora, não somente a noite, porquanto costuma perturbar, mas também o fogo, porquanto queima, deve ser chamada esta tribulação; pela qual, sendo eu examinado, fui achado justo.
4. "Para que minha boca não fale as obras dos homens" (v. 4). Para que nada saia de minha boca senão o que se refere à Tua glória e louvor; não às obras dos homens, as quais fazem à margem da Tua vontade. "Por causa das palavras dos Teus lábios." Por causa das palavras da Tua paz, ou dos Teus profetas. "Guardei caminhos árduos." Guardei os caminhos laboriosos da mortalidade e do sofrimento humanos.
5. "Para aperfeiçoar meus passos em Tuas veredas" (v. 5). Para que o amor da Igreja fosse aperfeiçoado nos caminhos estreitos, pelos quais ela chega ao Teu repouso. "Para que meus passos não vacilassem." Para que os sinais do Meu caminho, os quais, como pegadas, foram impressos nos Sacramentos e nos escritos apostólicos, não se movessem, a fim de que assinalassem aqueles que Me quisessem seguir. Ou, ao menos, para que Eu permaneça ainda fixamente na eternidade, depois que tiver cumprido os caminhos árduos e tiver terminado Meus passos nas estreitezas de Tuas veredas.
6. "Eu clamei, porque Tu me ouviste, ó Deus" (v. 6). Com esforço livre e forte dirigi Minhas orações a Ti: pois, para que eu tivesse este poder, Tu me ouviste quando orava mais fracamente. "Inclina para mim o Teu ouvido, e ouve as Minhas palavras." Que a Tua audiência não abandone a Minha humilhação.
7. "Faze maravilhosas as Tuas misericórdias" (v. 7). Que as Tuas misericórdias não sejam desprezadas, para que não sejam amadas de menos.
8. "Que salvas os que esperam em Ti daqueles que resistem à Tua destra:" daqueles que resistem ao favor com que Tu me favoreces. "Guarda-me, ó Senhor, como a menina dos Teus olhos" (v. 8): a qual parece muito pequena e minúscula; contudo, por ela se dirige a visão do olho, pela qual a luz se distingue das trevas; assim como, pela humanidade de Cristo, a divindade do Juízo distingue entre os justos e os pecadores. "Sob a cobertura de Tuas asas protege-me." Na defesa do Teu amor e misericórdia protege-me. "Da face dos ímpios que me afligiram" (v. 9).
9. "Meus inimigos cercaram a minha alma;" "encerraram a sua própria gordura" (v. 10). Cobriram-se de sua própria alegria grosseira, depois que o seu desejo se saciou de maldade. "Sua boca falou soberba." E por isso a sua boca falou soberba, dizendo: "Salve, Rei dos judeus," e outras palavras semelhantes.
10. "Lançando-me fora, agora me cercaram" (v. 11). Lançando-me fora da cidade, agora me cercaram na Cruz. "Determinaram inclinar seus olhos para a terra." A inclinação do seu coração determinaram voltar para estas coisas terrenas: julgando que Aquele que foi morto sofria um grande mal, e que eles, que O mataram, nenhum.
11. "Como leão pronto para a presa, apoderaram-se de mim" (v. 12). Apoderaram-se de mim, como aquele adversário que "anda em derredor, buscando a quem possa devorar." "E como filhote de leão que habita em lugares secretos." E como seu filhote, o povo a quem foi dito: "Vós sois do vosso pai, o diabo:" meditando nas ciladas pelas quais pudessem circunvir e destruir o Justo.
12. "Levanta-Te, ó Senhor, previne-os, e derruba-os" (v. 13). Levanta-Te, ó Senhor, Tu a quem supõem adormecido e indiferente às iniquidades dos homens; sejam eles primeiro cegados pela sua própria malícia, para que a vingança previna o seu feito; e assim os derruba.
13. "Livra a Minha alma dos ímpios." Livra a Minha alma, restaurando-Me após a morte que os ímpios Me infligiram. "A Tua espada: dos inimigos da Tua mão" (v. 14). Pois a Minha alma é a Tua espada, que a Tua mão, isto é, o Teu eterno Poder, tomou para com ela subjugar os reinos da iniquidade, e separar os justos dos ímpios. Esta espada, pois, "livra dos inimigos da Tua mão", isto é, do Teu Poder, dos Meus inimigos. "Destrói-os, ó Senhor, de sobre a terra, dispersa-os em sua vida." Ó Senhor, destrói-os de sobre a terra que habitam, dispersa-os por todo o mundo nesta vida, que só eles julgam ser a sua vida, os que desesperam da vida eterna. "E das Tuas coisas ocultas se encheu o seu ventre." Ora, não somente este castigo visível há de os alcançar, mas também a sua memória se encheu de pecados, os quais, como trevas, se ocultam da luz da Tua verdade, para que se esqueçam de Deus. "Encheram-se de carne de porco." Encheram-se de imundície, calcando aos pés as pérolas das palavras de Deus. "E deixaram o resto aos seus filhinhos:" clamando: "Este pecado caia sobre nós e sobre nossos filhos."
14. "Mas eu aparecerei diante de Ti na Tua justiça" (v. 15). Mas Eu, que não Me manifestei àqueles que, com o seu coração imundo e obscurecido, não podem ver a luz da sabedoria, "aparecerei diante de Ti na Tua justiça."
"Serei saciado, quando se manifestar a Tua glória." E quando eles se tiverem saciado da sua imundície, de sorte que não puderam conhecer-Me, Eu serei saciado quando se manifestar a Tua glória naqueles que Me conhecem. Naquele versículo, com efeito, onde se diz "cheios de carne de porco", alguns códices trazem "cheios de filhos": pois da ambiguidade do grego resultou uma dupla interpretação. Ora, por "filhos" entendemos as obras; e assim como pelos bons filhos se entendem as boas obras, pelos maus se entendem as más.
2. Cristo, pois, e a Igreja, isto é, o Cristo total, Cabeça e Corpo, diz aqui: "Eu Te amarei, ó Senhor, minha fortaleza" (v. 1). Eu Te amarei, ó Senhor, por quem sou forte.
1. Isto é, para o forte de mão, Cristo em Sua Humanidade. "As palavras deste cântico que ele falou ao Senhor no dia em que o Senhor o livrou das mãos de seus inimigos, e da mão de Saul; e disse: No dia em que o Senhor o livrou das mãos de seus inimigos e da mão de Saul": a saber, o rei dos judeus, que eles haviam reclamado para si. Pois assim como se diz que "Davi", por interpretação, significa forte de mão, assim se diz que "Saul" significa o que reclama. Ora, é bem sabido como aquele Povo reclamou para si um rei, e o recebeu como seu rei, não segundo a vontade de Deus, mas segundo a sua própria vontade.
AO Fim, PELO Servo DO Senhor, Davi Mesmo.
3. "Ó Senhor, meu apoio, e meu refúgio, e meu libertador" (v. 2). Ó Senhor, que me sustentaste, porque busquei refúgio em Ti; e busquei refúgio, porque Tu me livraste. "Meu Deus é meu ajudador; e nEle esperarei." Meu Deus, que primeiro me concedeste o auxílio do Teu chamado, para que eu pudesse esperar em Ti. "Meu defensor, e o poder da minha salvação, e meu redentor." Meu defensor, porque não me apoiei em Mim mesmo, erguendo como que o chifre da soberba contra Ti; mas Te achei verdadeiramente um poder, isto é, a segura altura da salvação: e para que eu a achasse, Tu me redimiste.
4. "Com louvor invocarei o Senhor, e estarei a salvo dos Meus inimigos" (v. 3). Não buscando a Minha própria glória, mas a glória do Senhor, invocá-Lo-ei, e não haverá meio algum pelo qual os erros da impiedade possam ferir-Me.
5. «As dores da morte», isto é, da carne, «Me cercaram. E os transbordamentos da impiedade Me conturbaram» (v. 4). Tribulações ímpias, suscitadas por um tempo, à semelhança de torrentes de chuva que em breve hão de cessar, sobrevieram para Me conturbar.
6. «As dores do inferno Me cercaram» (v. 5). Entre os que Me cercavam para destruir-Me, havia dores de inveja, as quais obram a morte e conduzem ao inferno do pecado. «Os laços da morte Me anteciparam.» Anteciparam-se a Mim, querendo ferir-Me primeiro, o que lhes será depois retribuído. Ora, eles arrebatam para a perdição aqueles homens a quem malignamente persuadiram pela jactância da justiça: em cujo nome, mas não em cuja realidade, se gloriam contra os Gentios.
7. "E na Minha opressão invoquei o Senhor, e clamei ao Meu Deus. E Ele ouviu a Minha voz do Seu santo templo" (v. 6). Ele ouviu do Meu coração, no qual Ele habita, a Minha voz. "E o Meu clamor na Sua presença entrou nos Seus ouvidos;" e o Meu clamor, o qual profiro não nos ouvidos dos homens, mas interiormente perante Ele mesmo, "entrou nos Seus ouvidos."
8. "E a terra se moveu e tremeu" (v. 7). Quando o Filho do Homem foi assim glorificado, os pecadores se moveram e tremeram. "E os fundamentos dos montes foram perturbados." E as esperanças dos soberbos, que residiam nesta vida, foram perturbadas. "E foram movidos, porque Deus Se irou contra eles." Isto é, para que a esperança dos bens temporais não tivesse mais qualquer firmeza nos corações dos homens.
9. "Subiu fumaça na Sua ira" (v. 8). A súplica lacrimosa dos penitentes subiu, quando estes vieram a conhecer as ameaças de Deus contra os ímpios. "E fogo arde diante da Sua face." E o ardor do amor após o arrependimento inflama-se pelo conhecimento d'Ele. "Brasas foram acesas por Ele." Aqueles que já estavam mortos, abandonados pelo fogo do bom desejo e pela luz da justiça, e que permaneciam na frieza e nas trevas, reacendidos e iluminados, tornaram a viver.
10. "E Ele inclinou os céus, e desceu" (v. 9). E humilhou o Justo, a fim de que descesse à enfermidade dos homens. "E as trevas sob os Seus pés." E os ímpios, que saboreiam as coisas terrenas, nas trevas da sua própria malícia, não O conheceram: pois a terra sob os Seus pés é como que o Seu escabelo.
11. "E Ele subiu acima dos querubins, e voou" (v. 10). E foi exaltado acima da plenitude do conhecimento, para que ninguém pudesse chegar a Ele senão pelo amor: pois "o amor é o cumprimento da lei." E mui brevemente Se revelou aos Seus amantes como incompreensível, para que não supusessem que Ele pudesse ser apreendido por imaginações corpóreas. "Ele voou acima das asas dos ventos." Ora, aquela celeridade, pela qual Se manifestou como incompreensível, está acima das potências das almas, sobre as quais, qual asas, estas se elevam dos temores terrenos ao ar da liberdade.
12. "E fez das trevas o Seu esconderijo" (v. 11). E assentou a obscuridade dos Sacramentos e a esperança oculta no coração dos crentes, onde pode permanecer oculto sem os abandonar. Nessas trevas também, nas quais "ainda andamos pela fé e não pela visão", enquanto "esperamos o que não vemos e com paciência o aguardamos." "Em redor d'Ele está o Seu tabernáculo." Contudo, os que N'Ele creem voltam-se para Ele e O rodeiam; porquanto Ele está no meio deles, sendo igualmente amigo de todos, em quem, como em tabernáculo, habita neste tempo. "Água tenebrosa nas nuvens do ar." Nem por isso ninguém, ainda que entenda a Escritura, imagine que já se encontra naquela luz que existirá quando tivermos passado da fé para a visão: pois nos profetas e em todos os pregadores da palavra de Deus há um ensinamento obscuro.
13. «No que respeita ao resplendor diante da Sua face» (v. 12): em comparação com o esplendor que está na presença da Sua manifestação. «As Suas nuvens passaram.» Os pregadores da Sua palavra não estão mais circunscritos aos confins da Judeia, mas passaram para os gentios. «Granizo e brasas de fogo.» São aqui figuradas as repreensões, pelas quais, à semelhança do granizo, os corações endurecidos são golpeados; porém, se um solo cultivado e benigno — isto é, uma mente piedosa — as acolher, a dureza do granizo dissolve-se em água, isto é, o terror da repreensão prenhe de raios e, por assim dizer, congelada, dissolve-se em doutrina saciante; e os corações acesos pelo fogo do amor revivem. Todas estas coisas, nas Suas nuvens, passaram para os gentios.
14. "E o Senhor trovejou desde o céu" (v. 13). E na confiança do Evangelho, o Senhor fez soar a Sua voz do coração do Justo. "E o Altíssimo deu a Sua voz;" para que a acolhêssemos, e, na profundidade das coisas humanas, ouvíssemos as coisas celestiais.
15. "E Ele enviou as Suas flechas, e os dispersou" (v. 14). E Ele enviou os Evangelistas, que percorriam caminhos retos nas asas da força, não em poder próprio, mas no poder d'Aquele por quem foram enviados. E "os dispersou", àqueles a quem foram enviados, de tal sorte que para alguns deles fossem "o cheiro de vida para a vida, e para outros o cheiro de morte para a morte." "E Ele multiplicou os relâmpagos, e os perturbou." E Ele multiplicou os milagres, e os perturbou.
16. "E as fontes das águas foram vistas. E as fontes das águas que manam para a vida eterna," as quais foram constituídas nos pregadores, foram vistas. "E os fundamentos do orbe terrestre foram revelados" (v. 15). E os Profetas, que não eram compreendidos, e sobre os quais havia de ser edificado o mundo dos que creem no Senhor, foram revelados. "À Tua repreensão, ó Senhor:" clamando: "O reino de Deus se aproximou de vós." "Ao sopro do hálito da Tua indignação;" dizendo: "Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis."
2. "Os céus narram a glória de Deus" (v. 1). Os justos Evangelistas, nos quais, como nos céus, Deus habita, proclamam a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou a glória com que o Filho glorificou o Pai sobre a terra. "E o firmamento anuncia as obras das Suas mãos." E o firmamento anuncia os feitos do poder do Senhor, o qual agora se tornou céu pela certeza do Espírito Santo, sendo antes terra pelo temor.
1. É um título assaz conhecido; nem pronuncia o Senhor Jesus Cristo o que se segue, antes é dito a respeito d'Ele.
"O dia ao dia profere a palavra" (ver. 2). Aos espirituais, o Espírito comunica a plenitude da imutável Sabedoria de Deus, o Verbo que no princípio é Deus junto a Deus. "E a noite à noite anuncia o conhecimento." E aos carnais, como àqueles que se encontram ao longe, a mortalidade da carne, ao transmitir a fé, anuncia o conhecimento futuro.
4. "Não há fala nem língua em que as suas vozes não sejam ouvidas" (v. 3). Em que as vozes dos Evangelistas não foram ouvidas, porquanto o Evangelho foi pregado em toda língua.
5. "Por toda a terra se propagou o seu som, e até aos confins do mundo as suas palavras" (ver. 4).
No sol estabeleceu Ele o Seu tabernáculo." Ora, para que pudesse guerrear contra os poderes do erro temporal, o Senhor, estando prestes a lançar não a paz, mas a espada sobre a terra, no tempo, ou na manifestação, estabeleceu, por assim dizer, a Sua habitação militar, isto é, a dispensação da Sua encarnação. "E Ele, como esposo que sai do seu tálamo" (v. 5). E Ele, saindo do seio da Virgem, onde Deus Se uniu à natureza do homem como um esposo à esposa. "Alegrou-Se como gigante para percorrer o Seu caminho." Alegrou-Se como Aquele que é soberanamente forte e que supera em poder incomparável todos os demais homens, não para habitar, mas para percorrer o Seu caminho. Pois, "não ficou no caminho dos pecadores.
7. "O Seu proceder é desde o mais alto dos céus" (v. 6). Do Pai é o Seu proceder, não aquele que se dá no tempo, mas desde a eternidade, pelo qual Ele foi gerado do Pai. "E o Seu encontro chega até à altura do céu." E na plenitude da Divindade, Ele Se encontra até à igualdade com o Pai. "E não há quem possa ocultar-se do Seu calor." Mas visto que "o Verbo Se fez carne e habitou entre nós", assumindo a nossa mortalidade, não permitiu que homem algum se eximisse da sombra da morte; pois o calor do Verbo penetrou até ela.
8. «A lei do Senhor é imaculada, convertendo as almas» (v. 7). A lei do Senhor é, portanto, Ele mesmo, que veio para cumprir a lei e não para destruí-la; uma lei imaculada, «Que não cometeu pecado, nem dolo algum foi encontrado em Sua boca», não oprimindo as almas com o jugo da servidão, mas convertendo-as para que O imitem na liberdade. «O testemunho do Senhor é fidedigno, dando sabedoria aos pequeninos.» «O testemunho do Senhor é fidedigno»; pois «ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar», coisas estas que foram ocultadas dos sábios e reveladas aos pequeninos; pois «Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.»
9. "Os estatutos do Senhor são retos, alegrando o coração" (v. 8). Todos os estatutos do Senhor são retos nEle que não ensinou senão o que praticou; a fim de que aqueles que deveriam imitá-Lo se alegrassem no coração naquelas coisas que haveriam de fazer livremente pelo amor, e não servilmente pelo temor. "O mandamento do Senhor é límpido, iluminando os olhos." "O mandamento do Senhor é límpido", sem véu algum de observâncias carnais, iluminando a vista do homem interior.
10. «O temor do Senhor é casto, permanecendo para sempre» (v. 9). «O temor do Senhor;» não aquele temor angustiante sob a lei, que teme sobremaneira a retirada dos bens temporais, pelo amor dos quais a alma fornica; mas aquele temor casto pelo qual a Igreja, quanto mais ardentemente ama o seu Esposo, tanto mais cuidadosamente se guarda de O ofender, e portanto «o amor perfeito» não «lança fora» este «temor», mas ele perdura para sempre.
11. «Os juízos do Senhor são verdadeiros, todos justificados em conjunto.» Os juízos Daquele que «não julga ninguém, mas confiou ao Filho todo o julgamento,» são justificados em verdade de maneira imutável. Pois nem em Suas ameaças nem em Suas promessas engana Deus qualquer homem, nem pode alguém subtrair dos ímpios o Seu castigo ou dos piedosos a Sua recompensa. «Mais desejáveis do que o ouro e muita pedra preciosa» (v. 10). Seja «ouro e a própria pedra em grande quantidade,» seja «muito preciosa,» seja «muito desejável;» em qualquer caso, os juízos de Deus são mais desejáveis do que a pompa deste mundo; por cujo desejo sucede que os juízos de Deus não sejam desejados, mas temidos, ou desprezados, ou descreidos. Mas se alguém for ele mesmo ouro e pedra preciosa, para que não seja consumido pelo fogo, mas recebido no tesouro de Deus, mais do que a si mesmo deseja os juízos de Deus, cuja vontade prefere à sua própria. «E mais doces do que o mel e o favo.» E quer alguém seja já agora mel — quem, liberto já das cadeias desta vida, aguarda o dia em que possa subir ao banquete de Deus —; quer seja ainda como o favo, envolto nesta vida como que em cera, não misturado e tornado uno com ela, mas preenchendo-a, necessitando de alguma pressão da mão de Deus, não para oprimi-la, mas para exprimi-la, pela qual da vida temporal possa ser coado para a vida eterna: a tal, os juízos de Deus são mais doces do que ele mesmo é para si mesmo, pois são «mais doces do que o mel e o favo.»
2. «Ouça-Te o Senhor no dia da tribulação» (v. 1). Ouça-Te o Senhor no dia em que disseste: «Pai, glorifica o Teu Filho.» «O nome do Deus de Jacó Te proteja.» Pois a Ti pertence o povo mais novo. Porquanto «o mais velho servirá ao mais novo.»
1. Este é um título bem conhecido; e não é Cristo que fala; antes, o profeta fala a Cristo, sob a forma de um voto, predizendo as coisas que hão de vir.
AO Fim, Salmo DE Davi.
3. «Envie-Te socorro do Santuário, e de Sião Te defenda» (v. 2). Preparando para Ti um Corpo santificado — a Igreja —, pela vigilância resguardada, a qual aguarda quando Tu virás das núpcias.
4. "Lembra-Te de todo o Teu sacrifício" (v. 3). Faze-nos recordar de todas as injúrias e dos tratamentos ignominiosos que Tu suportastes por nós. "E seja engordado o Teu holocausto inteiro." E converte a cruz, sobre a qual fostes inteiramente oferecido a Deus, na alegria da ressurreição.
5. «Diapsalma.» «O Senhor Te retribua segundo o Teu coração» (v. 4). O Senhor Te retribua, não segundo o coração daqueles que julgavam poder destruir-Te pela perseguição; mas segundo o Teu coração, no qual conhecias o proveito que Tua Paixão haveria de produzir. «E cumpra todos os Teus desígnios.» «E cumpra todos os Teus desígnios», não somente aquele pelo qual depuseste a vida pelos Teus amigos, a fim de que o grão corrompido ressurgisse em maior abundância; mas também aquele pelo qual «a cegueira em parte sobreveio a Israel, para que a plenitude dos gentios entrasse, e assim um Israel fosse salvo.»
6. "Exultaremos na Tua salvação" (v. 5). Exultaremos em que a morte de modo algum Te ferirá; pois assim também mostrarás que ela não nos pode ferir a nós. "E no nome do Senhor nosso Deus seremos engrandecidos." E a confissão do Teu nome não somente não nos destruirá, mas antes nos engrandecerá.
7. «Que o Senhor cumpra todas as Tuas petições.» Que o Senhor cumpra não somente as petições que fizeste na terra, mas também aquelas pelas quais intercedes por nós no céu. «Agora conheci que o Senhor salvou o Seu Cristo» (v. 6). Agora me foi revelado em profecia que o Senhor há de ressuscitar o Seu Cristo. «Ele O ouvirá do Seu santo céu.» Ele O ouvirá não somente da terra, onde Ele orou para ser glorificado; mas também do céu, onde, intercedendo por nós à Direita do Pai, dali derramou o Espírito Santo sobre os que Nele crêem. «Na força está a salvação da Sua destra.» A nossa força reside na salvação do Seu favor, quando até da tribulação Ele nos concede auxílio, a fim de que «quando somos fracos, então sejamos fortes». «Pois vã é» «aquela» «salvação do homem», que não provém da Sua destra, mas da Sua sinistra: pois por ela se enchem de grande soberba todos quantos, em seus pecados, alcançaram uma salvação temporal.
8. "Uns em carros, e outros em cavalos" (v. 7). Uns são seduzidos pela incessante sucessão dos bens temporais; e outros são elevados a honras soberbas, e nelas exultam: "Mas nós exultaremos no nome do Senhor nosso Deus." Mas nós, fixando a nossa esperança nas coisas eternas, e não buscando a nossa própria glória, exultaremos no nome do Senhor nosso Deus.
9. «Foram atados e caíram» (v. 8). E por isso foram atados pela concupiscência das coisas temporais, receando poupar o Senhor, não fosse que perdessem o seu lugar junto «aos romanos»; e precipitando-se violentamente contra a pedra de escândalo e rocha de tropeço, caíram da esperança celeste — a eles aconteceu a cegueira em parte de Israel, que, ignorando a justiça de Deus, desejavam estabelecer a própria. «Nós, porém, nos levantamos e estamos de pé.» Nós, porém, para que o povo gentio pudesse entrar, das pedras levantadas como filhos a Abraão, que não perseguiu a justiça e todavia a alcançou, nos levantamos; e não pela nossa própria força, mas justificados pela fé, estamos de pé.
10. "Ó Senhor, salva o Rei:" para que Ele, que em Sua Paixão nos mostrou um exemplo de combate, ofereça também os nossos sacrifícios, o Sacerdote ressuscitado dos mortos e constituído nos céus. "E ouve-nos no dia em que clamarmos a Vós" (v. 9). E assim como Ele agora oferece por nós, "ouve-nos no dia em que clamarmos a Vós."
2. "Ó Senhor, o Rei se regozijará em Tua força" (v. 1). Ó Senhor, em Tua força, pela qual o Verbo Se fez carne, o Homem Cristo Jesus se regozijará. "E exultará sobremaneira em Tua salvação." E naquilo pelo qual Tu vivificas todas as coisas, exultará sobremaneira.
1. O título é conhecido; o Salmo é acerca de Cristo.
3. «Tu Lhe deste o desejo de Sua alma» (v. 2). Ele desejou comer a Páscoa, e depor Sua vida quando quisesse, e novamente quando quisesse retomá-la; e Tu Lho concedeste. «E não O privaste do beneplácito de Seus lábios.» «A minha paz», diz Ele, «vos deixo»: e assim se cumpriu.
4. "Porque Lhe apresentaste as bênçãos da suavidade" (v. 3). Porquanto havia Ele primeiro sorvido a bênção da Vossa suavidade, o fel dos nossos pecados não Lhe causou dano. "Diapsalma. Puseste sobre a Sua cabeça uma coroa de pedra preciosa." No início do Seu magistério, pedras preciosas foram trazidas e O circundaram: os Seus discípulos, de quem deveria partir o começo da Sua pregação.
5. «Ele pediu a vida, e Tu Lha deste:» pediu a ressurreição, dizendo: «Pai, glorifica Teu Filho;» e Tu Lha concedeste, «comprimento de dias para sempre e sempre» (v. 4). As dilatadas idades deste mundo que a Igreja havia de ter, e após elas uma eternidade, mundo sem fim.
6. "Grande é a Sua glória na Tua salvação" (v. 5). Grande é, com efeito, a Sua glória na salvação pela qual Tu O ressuscitastes. "Glória e grande honra lhe conferirás." Tu lhe acrescentarás ainda glória e grande honra, quando O assentares no céu, à Tua destra.
7. «Pois Tu Lhe darás bênção pelos séculos dos séculos.» Esta é a bênção que Tu Lhe darás pelos séculos dos séculos: «Tu O alegrarás com júbilo junto da Tua face» (v. 6). Segundo a Sua humanidade, Tu O alegrarás junto da Tua face, a qual Ele ergueu a Ti.
8. «Porque o Rei espera no Senhor.» Pois o Rei não é soberbo, mas humilde de coração; ele espera no Senhor. «E na misericórdia do Altíssimo não será abalado» (v. 7). E na misericórdia do Altíssimo, a Sua obediência até à morte da Cruz não perturbará a Sua humildade.
9. "Seja a Tua mão achada por todos os Teus inimigos." Seja o Teu poder, ó Rei, quando vieres ao juízo, achado por todos os Teus inimigos; os quais, na Tua humilhação, não o discerniram. "Ache a Tua destra a todos os que Te odeiam" (v. 8). Ache a glória, na qual reinas à destra do Pai, para castigo, no dia do juízo, a todos os que Te odeiam; pois agora não a acharam.
10. "Tu os farás como um forno de fogo:" Tu os farás arder por dentro, pela consciência da sua impiedade: "No tempo do Teu rosto:" no tempo da Tua manifestação. "O Senhor os perturbará em Sua ira, e o fogo os devorará" (v. 9). E então, perturbados pela vingança do Senhor, após a acusação da sua consciência, serão entregues ao fogo eterno, para serem devorados.
"O fruto deles destruirás da terra." O fruto deles, porquanto é terreno, destruirás da terra. "E a sua semente dentre os filhos dos homens" (v. 10). E as suas obras; ou, a todos quantos hajam seduzido, não contarás entre os filhos dos homens, os quais chamaste à herança eterna.
"Porquanto tramaram males contra Ti." Ora, este castigo lhes será retribuído, porquanto os males que supunham lhes haveriam de sobrevir pelo Teu reinado, eles os voltaram contra Ti até a Tua morte. "Imaginaram um ardil, que não puderam estabelecer" (v. 11). Imaginaram um ardil, dizendo: "Convém que um morra por todos"; o qual não puderam estabelecer, não sabendo o que diziam.
"Pois Tu os porás abaixo." Pois Tu os colocarás entre aqueles dos quais, em degradação e desprezo, hás de apartar-Te. "Nos Teus restos prepararás o rosto deles" (v. 12). E nestas coisas que deixas, isto é, nos desejos de um reino terreno, prepararás a desfaçatez deles para a Tua paixão.
"Exalta-Te, Senhor, na Tua fortaleza" (v. 13). Exalta-Te, Senhor, a quem na humilhação não discerniram, na Tua fortaleza, que julgaram fraqueza. "Cantaremos e louvaremos o Teu poder." De coração e de obra celebraremos e daremos a conhecer as Tuas maravilhas.
"Até o fim," por sua própria ressurreição, fala o próprio Senhor Jesus Cristo. Pois pela manhã, no primeiro dia da semana, deu-se a Sua ressurreição, pela qual foi assunto à vida eterna, "sobre quem a morte não terá mais domínio." Ora, o que se segue é dito na pessoa do Crucificado. Pois do início deste Salmo são as palavras que Ele bradou, ao pender na Cruz, sustentando também a pessoa do velho homem, cuja mortalidade Ele carregou. Pois o nosso velho homem foi pregado juntamente com Ele à Cruz.
"Deus, meu Deus, olha para mim; por que me desamparaste, longe da minha salvação?" (v. 1). Longe removido da minha salvação: pois "longe dos pecadores está a salvação." "As palavras dos meus pecados." Pois estas não são as palavras da justiça, mas dos meus pecados. Pois é o velho homem pregado à Cruz quem fala, ignorante inclusive da razão por que Deus o desamparou; ou, de outro modo, pode ser assim: As palavras dos meus pecados estão longe da minha salvação.
Até o fim, pela acolhida da manhã, um Salmo de Davi.
"Meu Deus, clamarei a Ti de dia, e não me ouvirás" (v. 2). Meu Deus, clamarei a Ti nas circunstâncias prósperas desta vida, para que não se mudem; e não me ouvirás, porque clamarei a Ti com as palavras dos meus pecados. "E de noite, e não para a minha loucura." E assim, nas adversidades desta vida, clamarei a Ti por prosperidade; e igualmente não me ouvirás. E isto não o fazes para a minha loucura, mas antes para que eu tenha sabedoria de conhecer o que Tu queres que eu clame, não com as palavras dos pecados por saudade da vida temporal, mas com as palavras da conversão a Ti pela vida eterna.
"Mas Tu habitas no lugar santo, ó Tu, louvor de Israel" (v. 3). Mas Tu habitas no lugar santo, e por isso não hás de ouvir as palavras imundas dos pecados. O "louvor" daquele que Te vê; não daquele que buscou o seu próprio louvor ao provar do fruto proibido, de sorte que, abertos os olhos corporais, procurasse esconder-se da Tua vista.
5. "Nossos pais em Ti esperaram." Todos os justos, a saber, que não buscaram o próprio louvor, mas o Vosso. "Em Ti esperaram, e Tu os livraste" (v. 4).
6. "A Ti clamaram, e foram salvos." A Ti clamaram, não com palavras de pecados, dos quais a salvação está longe; e por isso foram salvos. "Em Ti esperaram, e não foram confundidos" (v. 5). "Em Ti esperaram," e a esperança deles não os enganou. Pois não a puseram em si mesmos.
7. "Mas eu sou verme, e não homem" (v. 6). Mas Eu, falando agora não na pessoa de Adão, mas Eu em Minha própria pessoa, Jesus Cristo, nasci sem geração humana na carne, para que Eu fosse, enquanto homem, além dos homens; a fim de que ao menos a soberba humana se dignasse imitar a Minha humildade. "O opróbrio dos homens, e o rejeitado do povo." Em cuja humildade fui feito o opróbrio dos homens, de modo que se dissesse, como ultraje injurioso: "Sê tu Seu discípulo"; e que o povo Me desprezasse.
1. A Igreja fala a Cristo: "O Senhor me apascenta, e nada me faltará" (v. 1). O Senhor Jesus Cristo é o meu Pastor, "e nada me faltará."
2. "Em lugar de pasto ali me colocou Ele" (v. 2). Em lugar de pasto fresco, conduzindo-me à fé, ali me colocou Ele para ser nutrido. "Pela água do refrigério me criou." Pela água do batismo, pela qual são refrigerados os que perderam a saúde e a força, me criou Ele.
3. "Converteu a minha alma: guiou-me pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome" (v. 3). Conduziu-me pelos caminhos estreitos, nos quais poucos caminham, da Sua justiça; não por causa do meu merecimento, mas por amor do Seu nome.
4. "Ainda que eu ande no meio da sombra da morte" (v. 4). Ainda que eu ande no meio desta vida, que é a sombra da morte. "Não temerei mal algum, porque Tu estás comigo." Não temerei mal algum, porque Tu habitas em meu coração pela fé; e Tu estás agora comigo, para que, depois da sombra da morte, eu também esteja Contigo. "A Tua vara e o Teu cajado me consolaram." A Tua disciplina, como vara para um rebanho de ovelhas, e como cajado para crianças já crescidas, que vão saindo da vida natural para a espiritual, não me foram penosos; antes me consolaram, porque Te lembras de mim.
"Preparaste uma mesa à minha vista, contra aqueles que me atribulam" (v. 5). Ora, depois da vara, pela qual, enquanto pequenino ainda, e vivendo a vida natural, era eu criado entre o rebanho nos pastos; depois daquela vara, digo, quando comecei a estar sob o cajado, preparaste uma mesa à minha vista, para que eu não mais fosse alimentado como criancinha com leite, mas, tornado mais adulto, tomasse alimento sólido, fortalecido contra aqueles que me atribulam. "Ungiste com óleo a minha cabeça." Alegraste a minha mente com o gozo espiritual. "E o teu cálice inebriante, quão excelente é!" E o teu cálice, que concede o esquecimento dos vãos deleites de outrora, quão excelente é!
"E a tua misericórdia me seguirá todos os dias da minha vida:" isto é, enquanto eu viver nesta vida mortal, não Tua, mas minha. "Para que eu habite na casa do Senhor por longura de dias" (v. 6). Ora, a tua misericórdia não somente me seguirá aqui, mas também para que eu habite na casa do Senhor eternamente.
Salmo do próprio Davi, acerca da glorificação e ressurreição do Senhor, a qual se deu bem cedo pela manhã no primeiro dia da semana, o qual agora se chama Dia do Senhor.
Salmo do próprio Davi, no primeiro dia da semana.
"Do Senhor é a terra, e a sua plenitude, o orbe do mundo, e todos os que nele habitam" (v. 1); quando o Senhor, sendo glorificado, é anunciado para a fé de todas as nações; e todo o orbe do mundo se torna a sua Igreja. "Ele a fundou sobre os mares." Ele a estabeleceu mui firmemente sobre todas as ondas deste mundo, para que por ela fossem subjugadas, e não a pudessem ferir. "E a preparou sobre os rios" (v. 2). Os rios deságuam no mar, e os homens de concupiscência resvalam para o mundo: também estes a Igreja, a qual, vencidas pela graça de Deus as concupiscências mundanas, foi preparada pelo amor para a recepção da imortalidade, subjuga.
"Quem subirá ao monte do Senhor?" Quem subirá à altura da justiça do Senhor? "Ou quem estará no seu lugar santo?" (v. 3). Ou quem permanecerá naquele lugar, aonde Ele há de subir, fundado sobre os mares, e preparado sobre os rios?
"O inocente de mãos, e o puro de coração" (v. 4). Quem, pois, subirá até ali, e ali permanecerá, senão o inculpável em obra, e puro em pensamento? "Que não recebeu em vão a sua alma." Que não contou a sua alma entre as coisas que passam, mas, sentindo-a imortal, ansiou por uma eternidade firme e imutável. "E não jurou com engano ao seu próximo." E, por isso, sem engano, como são simples e sem engano as coisas eternas, assim se houve para com o seu próximo.
"Este receberá bênção do Senhor, e misericórdia do Deus da sua salvação" (v. 5).
6. "Esta é a geração dos que buscam o Senhor" (v. 6). Pois assim nascem os que O buscam. "Dos que buscam a face do Deus de Jacó. Diapsalma." Ora, buscam a face de Deus aqueles a quem foi dada a precedência, sendo o mais jovem gerado.
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7. "Levantai, ó príncipes, as vossas portas" (v. 7). Todos vós, que buscais o domínio entre os homens, removei, para que não obstruam, as entradas que fizestes, de cobiça e de temor. "E levantai-vos, ó portas eternas." E levantai-vos, ó entradas da vida eterna, da renúncia do mundo, e da conversão a Deus. "E entrará o Rei da glória." E entrará o Rei, em quem podemos gloriar-nos sem soberba: Ele que, havendo vencido as portas da morte, e havendo aberto para Si os lugares celestiais, cumpriu o que disse: "Tende bom ânimo, pois Eu venci o mundo."
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8. "Quem é este Rei da glória?" A natureza mortal se sobressalta em espanto, e pergunta: "Quem é este Rei da glória?" "O Senhor forte e poderoso." Aquele a quem julgaste fraco e derrotado. "O Senhor poderoso na batalha" (v. 8). Apalpai as cicatrizes, e as encontrareis curadas, e a fraqueza humana restituída à imortalidade. A glorificação do Senhor, que era devida à terra, onde Ele guerreou contra a morte, foi paga.
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9. "Levantai, ó príncipes, as vossas portas." Vamos, pois, daqui diretamente para o céu. Que a trombeta do Profeta clame novamente em voz alta: "Levantai também vós, ó príncipes do ar, as portas que tendes nas mentes dos homens que `adoram a milícia do céu.'" "E levantai-vos, ó portas eternas." E levantai-vos, ó portas da justiça eterna, do amor e da castidade, pelas quais a alma ama o Único Deus Verdadeiro, e não se prostitui com os muitos que se chamam deuses. "E entrará o Rei da glória" (v. 9). "E entrará o Rei da glória," para que, à direita do Pai, interceda por nós.
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10. "Quem é este Rei da glória?" Que! Tu também, príncipe da potestade deste ar, te admiras e perguntas: "Quem é este Rei da glória?" "O Senhor das potestades, Ele é o Rei da glória" (v. 10). Sim, já vivificado o Seu Corpo, Aquele que foi tentado marcha acima de ti; Aquele que foi tentado pelo anjo, o enganador, vai acima de todos os anjos. Que nenhum de vós se antecipe a nós e detenha o nosso caminho, para que seja por nós adorado como deus: nem principado, nem anjo, nem potestade, nos separa do amor de Cristo. Bom é confiar no Senhor, antes que confiar num príncipe; que aquele que se gloria, se glorie no Senhor. Estas, na verdade, são potestades na administração deste mundo, mas "o Senhor das potestades, Ele é o Rei da glória."
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1. Cristo fala, mas na pessoa da Igreja: pois o que é dito refere-se antes ao Povo Cristão voltado para Deus.
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2. "A Ti, ó Senhor, levantei a minha alma" (v. 1): com espiritual anelo levantei a alma, que estava calcada na terra sob os anelos carnais. "Meu Deus, em Ti confio, não serei confundido" (v. 2). Meu Deus, de confiar em mim mesmo fui trazido até esta fraqueza da carne; e eu, que ao abandonar Deus quis ser como Deus, temendo a morte de um ínfimo inseto, fui, em escárnio, envergonhado por causa da minha soberba; agora, pois, "em Ti confio, não serei confundido."
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3. "E não me escarneçam os meus inimigos." E que não me escarneçam aqueles que, enredando-me com sugestões sorrateiras e serpentinas, e instigando-me com "Bem feito, bem feito," me trouxeram a isto. "Pois todos os que esperam em Ti não serão confundidos" (v. 3).
Que sejam confundidos os que praticam a iniquidade em vão. Que sejam confundidos os que agem injustamente para adquirir coisas que passam. "Faze-me conhecer os Teus caminhos, ó Senhor, e ensina-me as Tuas veredas" (v. 4): não aquelas largas, que conduzem à perdição a muitos; mas as Tuas veredas, estreitas, e conhecidas de poucos, ensina-mas Tu.
"Guia-me na Tua verdade": evitando o erro. "E ensina-me": pois por mim mesmo nada sei, senão a falsidade. "Porque Tu és o Deus da minha salvação; e em Ti esperei todo o dia" (v. 5). Pois, despedido por Ti do Paraíso, e havendo empreendido a minha jornada para uma região distante, por mim mesmo não posso voltar, se Tu não saíres ao encontro do errante; pois o meu retorno, por todo o curso do tempo deste mundo, esperou pela Tua misericórdia.
"Lembra-Te das Tuas compaixões, ó Senhor" (v. 6). Lembra-Te das obras da Tua misericórdia, ó Senhor; pois os homens julgam de Ti como se Te tivesses esquecido. "E que as Tuas misericórdias são desde a eternidade." E lembra-Te disto, que as Tuas misericórdias são desde a eternidade. Pois nunca estiveste sem elas, Tu que sujeitaste até o homem pecador à vaidade, é certo, mas em esperança; e não o privaste de tantas e tão grandes consolações da Tua criação.
"Não Te lembres dos delitos da minha mocidade e da minha ignorância" (v. 7). Os delitos da minha presunçosa ousadia e da minha ignorância não reserves para a vingança, mas sejam eles como se por Ti esquecidos. "Segundo a Tua misericórdia, lembra-Te de mim, ó Deus." Lembra-Te de mim, com efeito, não segundo a ira de que sou digno, mas segundo a Tua misericórdia, que é digna de Ti. "Por causa da Tua bondade, ó Senhor." Não pelos meus merecimentos, mas por causa da Tua bondade, ó Senhor.
"Bondoso e reto é o Senhor" (v. 8). O Senhor é bondoso, pois até dos pecadores e ímpios de tal modo Se apiedou, que perdoou tudo quanto é passado; mas o Senhor é também reto, pois, depois da misericórdia da vocação e do perdão, que é de graça sem mérito, há de exigir méritos convenientes para o último juízo. "Por isso estabelecerá uma lei para os que falham no caminho." Pois primeiro concedeu a misericórdia para introduzi-los no caminho.
"Guiará os mansos no juízo." Guiará os mansos, e não confundirá no juízo aqueles que seguem a Sua vontade, e que, não Lhe resistindo, não preferem a própria. "Aos brandos ensinará os Seus caminhos" (v. 9). Ensinará os Seus caminhos, não aos que desejam correr adiante, como se fossem mais capazes de reger-se a si mesmos; mas aos que não levantam a cerviz, nem alçam o calcanhar, quando sobre eles é posto o jugo suave e o leve fardo.
"Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade" (v. 10). E que caminhos há de ensinar-lhes, senão a misericórdia, na qual Ele é aplacável, e a verdade, na qual Ele é incorrupto? Da qual exibiu uma no perdoar os pecados, a outra no julgar os merecimentos. E por isso "todos os caminhos do Senhor" são os dois adventos do Filho de Deus, um em misericórdia, outro em juízo. Alcança-O, pois, aquele que se atém aos Seus caminhos, o qual, vendo-se livre por nenhum mérito próprio, deixa de lado a soberba, e doravante se acautela da severidade do Seu julgamento, tendo experimentado a clemência do Seu auxílio. "Aos que buscam o Seu testamento e os Seus testemunhos." Pois estes entendem o Senhor como misericordioso no Seu primeiro advento, e como Juiz no segundo, os quais, em mansidão e brandura, buscam o Seu testamento, quando com o Seu próprio Sangue nos remiu para uma vida nova; e, nos Profetas e Evangelistas, os Seus testemunhos.
"Por amor do Teu Nome, ó Senhor, serás propício ao meu pecado; porque é multiplicado" (v. 11). Não apenas perdoaste os meus pecados, que cometi antes de crer; mas também ao meu pecado, que é multiplicado, pois nem mesmo no caminho falta a queda, serás feito propício pelo sacrifício de um espírito atribulado.
"Quem é o homem que teme ao Senhor?" — deste temor ele começa a chegar à sabedoria. "Ele lhe estabelecerá uma lei no caminho que escolheu" (v. 12). Ele lhe estabelecerá uma lei no caminho que, em sua liberdade, ele tomou para si, a fim de que não peque agora impunemente.
"Julga-me, ó Senhor, pois tenho andado em minha inocência" (v. 1). Julga-me, ó Senhor, pois, depois da misericórdia que primeiro me mostraste, tenho algum mérito de inocência, cujo caminho guardei. "E confiando no Senhor não serei abalado." E, no entanto, não confiando assim nem sequer em mim mesmo, mas no Senhor, permanecerei Nele.
Pode-se atribuir isto ao próprio Davi, não ao Mediador, o Homem Cristo Jesus, mas a toda a Igreja agora perfeitamente constituída em Cristo.
"Prova-me, ó Senhor, e experimenta-me" (v. 2). Para que, porém, nenhum de meus pecados ocultos me fique escondido, prova-me, ó Senhor, e experimenta-me, dando-me a conhecer — não a Ti, de quem nada está oculto, mas a mim mesmo e aos homens. "Queima os meus rins e o meu coração." Aplica uma purgação medicinal, como que um fogo, aos meus prazeres e pensamentos. "Porque a Tua misericórdia está diante dos meus olhos" (v. 3). Pois, para que eu não seja consumido por esse fogo, é diante de meus olhos não os meus méritos, mas a Tua misericórdia, pela qual me trouxeste a tal vida. "E fui agradável na Tua verdade." E, uma vez que a minha própria falsidade me foi desagradável, mas a Tua verdade agradável, também eu me tornei agradável com ela e nela.
"Não me assentei com o conselho da vaidade" (v. 4). Não escolhi entregar meu coração àqueles que se esforçam por prover — o que é impossível — como poderiam ser bem-aventurados no gozo das coisas transitórias. "E não entrarei com os que praticam a iniquidade." E, visto que esta é a própria causa de toda iniquidade, portanto não terei minha consciência oculta com os que praticam a iniquidade.
"Odiei a congregação dos maus." Mas para se chegar a este conselho de vaidade, formam-se congregações de malfeitores, as quais odiei. "E não me assentarei com os ímpios" (v. 5). E, portanto, com tal conselho, com os ímpios, não me assentarei, isto é, não lhes darei o meu consentimento. "E não me assentarei com os ímpios."
"Lavarei as minhas mãos entre os inocentes" (v. 6). Tornarei limpas as minhas obras entre os inocentes: entre os inocentes lavarei as minhas mãos, com as quais abraçarei os Teus gloriosos dons. "E rodearei o Teu altar, ó Senhor."
"Para que eu ouça a voz do Teu louvor." Para que eu aprenda a louvar-Te. "E para que eu anuncie todas as Tuas maravilhas" (v. 7). E, depois de haver aprendido, exponha todas as Tuas maravilhas.
Ó Senhor, amei a formosura da tua casa: de tua Igreja. E o lugar da habitação de tua glória (v. 8): onde Tu habitas, e és glorificado.
Não destruas a minha alma com os ímpios (v. 9). Não destruas, pois, juntamente com os que Te odeiam, a minha alma, que amou a formosura de tua casa. E a minha vida com os homens de sangue. E com os que odeiam o seu próximo. Pois a tua casa é formosa com os dois mandamentos.
Em cujas mãos há maldade. Não me destruas, pois, com os ímpios e os homens de sangue, cujas obras são iníquas. A sua direita está cheia de dádivas (v. 10). E aquilo que lhes foi dado para alcançarem a salvação eterna, converteram-no em receber os dons deste mundo, supondo que a piedade é um negócio.
Mas eu tenho andado na minha inocência: livra-me, e tem misericórdia de mim (v. 11). Que tão grande preço do Sangue de meu Senhor aproveite para a minha inteira libertação: e nos perigos desta vida não me abandone a Tua misericórdia.
O meu pé se firmou na retidão. O meu amor não se apartou de tua justiça. Nas Igrejas Te bendirei, ó Senhor (v. 12). Não ocultarei a tua bênção, ó Senhor, daqueles a quem chamaste; pois, depois do amor a Ti, ajunto o amor ao meu próximo.
O jovem soldado de Cristo fala, ao chegar à fé. O Senhor é a minha luz e a minha salvação: a quem temerei? (v. 1). O Senhor me dará tanto o conhecimento de Si mesmo quanto a salvação: quem me arrebatará dEle? O Senhor é o protetor da minha vida: de quem terei medo? O Senhor repelirá todos os assaltos e ciladas do meu inimigo: de homem algum terei temor.
Do próprio Davi, antes de ser ungido.
Enquanto os culpados se aproximam de mim para devorar a minha carne (v. 2). Enquanto os culpados se aproximam para me reconhecer e me insultar, a fim de se exaltarem acima de mim em minha mudança para melhor; para que, com seu dente injurioso, consumam não a mim, mas antes os meus desejos carnais. Os meus inimigos que me atribulam. Não somente os que me atribulam, censurando-me com intento amigável e desejando reclamar-me de meu propósito, mas também os meus inimigos. Enfraqueceram-se e caíram. Enquanto, pois, fazem isto com o desejo de defender a sua própria opinião, enfraqueceram-se para crer em coisas melhores, e começaram a odiar a palavra da salvação, pela qual faço o que lhes desagrada.
Se acampamentos se levantarem juntos contra mim, o meu coração não temerá. Mas, se a multidão dos contraditores conspirar para se levantar junta contra mim, o meu coração não temerá, a ponto de passar para o seu lado. Se a guerra se erguer contra mim, nesta esperarei (v. 3). Se a perseguição deste mundo se levantar contra mim, nesta súplica, que estou ponderando, colocarei a minha esperança.
4. "Uma coisa pedi ao Senhor, esta buscarei." Pois uma só petição pedi ao Senhor, esta buscarei. "Que eu habite na casa do Senhor todos os dias da minha vida" (v. 4). Que, enquanto eu estiver nesta vida, nenhuma adversidade me exclua do número daqueles que mantêm a unidade e a verdade da fé do Senhor por todo o mundo. "Que eu contemple a doçura do Senhor." Com este fim, a saber, que, perseverando na fé, a visão deleitosa me apareça, a qual eu contemplarei face a face. "E serei protegido, Seu templo." E, tragada a morte na vitória, serei revestido de imortalidade, feito Seu templo.
5. "Pois Ele me escondeu em Seu tabernáculo no dia dos meus males" (v. 5). Pois Ele me escondeu na dispensação de Seu Verbo encarnado no tempo das tentações, às quais está exposta a minha vida mortal. "Ele me protegeu no lugar secreto de Seu tabernáculo." Ele me protegeu, crendo o coração para a justiça.
6. "Sobre uma rocha Ele me exaltou." E, para que o que eu cri se manifestasse para a salvação, Ele fez com que minha confissão se tornasse conspícua em Sua própria força. "E agora, eis que Ele exaltou minha cabeça acima de meus inimigos" (v. 6). Que me reserva Ele, por fim, quando já agora, estando o corpo morto por causa do pecado, eis que sinto que minha mente serve à lei de Deus, e não é levada cativa sob a lei rebelde do pecado? "Rodeei e ofereci em Seu tabernáculo o sacrifício de júbilo." Considerei o circuito do mundo, crendo em Cristo; e, porque por nós Deus foi humilhado no tempo, louvei-O com júbilo: pois com tal sacrifício Ele Se compraz. "Cantarei e darei louvores ao Senhor." De coração e de obra me alegrarei no Senhor.
7. "Ouve, Senhor, minha voz, com que clamei a Ti" (v. 7). Ouve, Senhor, minha voz interior, que com forte intenção dirigi aos Teus ouvidos. "Tem misericórdia de mim, e ouve-me." Tem misericórdia de mim, e ouve-me nisto.
8. "Meu coração Te disse: Busquei o Teu rosto" (v. 8). Pois não me exibi aos homens; mas em segredo, onde só Tu ouves, meu coração Te disse; não busquei de Ti, como recompensa, coisa alguma fora de Ti, senão o Teu rosto. "O Teu rosto, Senhor, buscarei." Nesta busca perseverarei constantemente: pois não algo comum, mas o Teu rosto, Senhor, buscarei, para que Te ame gratuitamente, já que nada mais precioso encontro.
9. "Não desvies de mim a Tua face" (v. 9): para que eu encontre o que busco. "Não Te apartes com ira de Teu servo": para que, buscando-Te, eu não venha a deparar com outra coisa. Pois que há de mais penoso que este castigo para quem ama e busca a verdade de Teu rosto? "Sê Tu meu Auxílio." Como o encontrarei, se Tu não me ajudares? "Não me deixes, nem me desprezes, ó Deus meu Salvador." Não desdenhes que um mortal ouse buscar o Eterno, pois Tu, ó Deus, curas a ferida do meu pecado.
1. É a voz do próprio Mediador, forte de mão no combate da Paixão. Ora, o que Ele parece desejar contra Seus inimigos não é desejo de malevolência, mas o anúncio do castigo destes; como no Evangelho, a respeito das cidades nas quais, embora tivesse realizado milagres, todavia não haviam crido n'Ele, Ele não deseja, em nenhuma má vontade, o que diz, mas prediz o que sobre elas está iminente.
2. "A Ti, Senhor, clamei; meu Deus, não emudeças para comigo" (v. 1). A Ti, Senhor, clamei; meu Deus, não separes a unidade de Teu Verbo daquilo que, como Homem, eu sou. "Para que, em algum tempo, não emudeças para comigo, e eu seja semelhante aos que descem à cova." Pois é disto, que a Eternidade de Teu Verbo não cessa de unir-Se a Mim, que provém não ser Eu tal homem como os demais homens, que nascem na profunda miséria deste mundo: onde, como se Tu emudecesses, Teu Verbo não é reconhecido. "Ouve, Senhor, a voz de minha súplica, enquanto Te suplico, enquanto ergo as minhas mãos ao Teu santo templo" (v. 2). Enquanto sou crucificado pela salvação daqueles que, crendo, se tornam Teu santo templo.
"Não arrebates minha alma juntamente com os pecadores, nem me destruas com os que praticam a iniquidade, com os que falam paz com seus próximos" (v. 3). Com aqueles que dizem a Mim: "Sabemos que és Mestre vindo de Deus." "Mas há maldade em seus corações." Ora, falam o mal em seus corações.
4. "Dá-lhes segundo as suas obras" (v. 4). Dá-lhes segundo as suas obras, pois isto é justo. "E segundo a malícia de suas afeições." Pois, visando o mal, não podem descobrir o bem. "Segundo as obras de suas mãos, dá-lhes Tu." Ainda que o que fizeram possa aproveitar à salvação de outros, dá-lhes Tu, contudo, segundo as obras de suas vontades. "Paga-lhes a sua recompensa." Porquanto, pela verdade que ouviram, quiseram recompensar com engano; que o seu próprio engano os engane.
5. "Porque não tiveram entendimento nas obras do Senhor" (v. 5). E de onde se manifesta que isto lhes sobreveio? Certamente disto: "porque não tiveram entendimento nas obras do Senhor." Esta mesma coisa, em verdade, foi, ainda agora, sua recompensa: que naquele a quem tentaram maliciosamente como Homem, não reconhecessem Deus, nem com que desígnio o Pai O enviou na Carne. "E as obras de Suas mãos." Nem se comovessem com aquelas obras visíveis, que se acham postas diante dos seus próprios olhos. "Tu os destruirás, e não os edificarás." Que não Me façam dano algum; nem tampouco, em seu empenho de erguer máquinas contra a Minha Igreja, algo lhes aproveite.
6. "Bendito seja o Senhor, porque ouviu a voz da minha súplica" (v. 6).
7. "O Senhor é o Meu Ajudador e o Meu Protetor" (v. 7). O Senhor ajudando-Me em tão grandes sofrimentos, e protegendo-Me com a imortalidade em Minha ressurreição. "Nele confiou o Meu Coração, e fui ajudado." "E a Minha Carne floresceu de novo:" isto é, e a Minha Carne ressuscitou. "E de bom grado O confessarei." Por isso, destruído agora o temor da morte, não pela necessidade do temor sob a Lei, mas com vontade livre sob a Lei, aqueles que crerem em Mim O confessarão; e porque estou neles, Eu confessarei.
8. "O Senhor é a força do Seu povo" (v. 8). Não daquele povo "ignorante da justiça de Deus, e querendo estabelecer a sua própria." Pois não se julgavam fortes em si mesmos: porquanto o Senhor é a força do Seu povo, lutando nas dificuldades desta vida contra o demônio. "E o protetor da salvação do Seu Cristo." Para que, tendo-os salvo por Seu Cristo depois da força da guerra, Ele os proteja por fim com a imortalidade da paz.
9. "Salva o Teu povo, e abençoa a Tua herança" (v. 9). Intercedo, pois, depois que Minha Carne floresceu de novo, porque Tu disseste: "Pede-Me, e Eu te darei os gentios por herança;" "Salva o Teu povo, e abençoa a Tua herança:" pois "tudo o que é Meu é Teu." "E rege-os, e ergue-os para sempre." E rege-os nesta vida temporal, e ergue-os daqui para a vida eterna.
1. Salmo do próprio Mediador, forte de mão, acerca da perfeição da Igreja neste mundo, onde ela guerreia no tempo contra o demônio.
Salmo do próprio Davi, sobre a consumação do tabernáculo.
2. Fala o Profeta: "Trazei ao Senhor, ó filhos de Deus, trazei ao Senhor as crias dos carneiros" (v. 1). Trazei ao Senhor a vós mesmos, a quem os Apóstolos, os condutores dos rebanhos, geraram pelo Evangelho. "Trazei ao Senhor glória e honra" (v. 2). Por vossas obras seja o Senhor glorificado e honrado. "Trazei ao Senhor glória ao Seu nome." Que Ele seja dado a conhecer gloriosamente por todo o mundo. "Adorai ao Senhor em Seu átrio santo." Adorai ao Senhor em vosso coração dilatado e santificado. Pois vós sois a Sua régia e santa habitação.
3. "A Voz do Senhor está sobre as águas" (v. 3). A Voz de Cristo está sobre o povo. "O Deus da majestade trovejou." O Deus da majestade, desde a nuvem da carne, pregou temivelmente a penitência. "O Senhor está sobre muitas águas." O próprio Senhor Jesus, depois que enviou a Sua Voz sobre o povo, e assim...
4. "A Voz do Senhor está em poder" (v. 4). A Voz do Senhor, agora neles mesmos, tornando-os poderosos. "A Voz do Senhor está em grande potência." A Voz do Senhor operando grandes coisas neles.
5. "A Voz do Senhor quebrando os cedros" (v. 5). A Voz do Senhor humilhando os soberbos em contrição de coração. "O Senhor quebrará os cedros do Líbano." O Senhor, pela penitência, quebrará aqueles que se elevam pelo esplendor da nobreza terrena, quando, para confundi-los, houver "escolhido as coisas vis deste mundo", nas quais manifestar a Sua Divindade.
6. "E os fará saltar como o bezerro do Líbano" (v. 6). E, cortada a sua soberba exaltação, Ele os abaterá à imitação da Sua própria humildade, Ele que, como um bezerro, foi levado ao matadouro pela nobreza deste mundo. "Pois os reis da terra se levantaram, e os príncipes conspiraram juntos contra o Senhor e contra o Seu Cristo." "E o Amado é como a cria dos unicórnios." Pois também Ele, o Amado, e o Único do Pai, "esvaziou-Se" da Sua glória, e foi feito homem, como um filho dos judeus, os quais "ignoravam a justiça de Deus" e soberbamente se gloriavam da sua própria justiça como algo que lhes fosse peculiar.
7. "A Voz do Senhor que corta em pedaços a chama de fogo" (v. 7). A Voz do Senhor, sem qualquer dano para Si mesmo, atravessando todo o ardor excitado daqueles que O perseguem, ou dividindo a furiosa cólera dos Seus perseguidores, de modo que uns dissessem: "Não será este porventura o próprio Cristo?"; outros: "Não; antes Ele engana o povo"; e assim cortando em pedaços o seu tumulto insensato, de tal maneira que a uns fizesse passar para o Seu amor, e a outros deixasse na sua malícia.
8. "A Voz do Senhor que abala o deserto" (v. 8). A Voz do Senhor movendo à fé os gentios, outrora "sem esperança, e sem Deus no mundo", onde nenhum profeta, nenhum pregador da palavra de Deus, por assim dizer, nenhum homem havia habitado. "E o Senhor abalará o deserto de Cades." E então o Senhor fará plenamente conhecida a santa palavra das Suas Escrituras, a qual fora abandonada pelos judeus, que não a entenderam.
9. "A Voz do Senhor aperfeiçoando os cervos" (v. 9). Pois a Voz do Senhor primeiro aperfeiçoou aqueles que venceram e repeliram as línguas envenenadas. "E revelará os bosques." E então Ele lhes revelará as trevas dos livros divinos, e as profundezas sombrias dos mistérios, onde se apascentam com liberdade. "E no Seu templo todo homem fala da Sua glória." E na Sua Igreja, todos os que renasceram para uma esperança eterna louvam a Deus, cada qual pelo seu próprio dom, que recebeu do Espírito Santo.
10. "O Senhor habita o dilúvio" (v. 10). O Senhor, portanto, primeiro habita o dilúvio deste mundo nos Seus Santos, guardados a salvo na Igreja, como na arca. "E o Senhor se assentará como Rei para sempre." E depois Ele se assentará reinando neles para sempre.
"O Senhor dará fortaleza ao Seu povo" (v. 11). Pois o Senhor dará fortaleza ao Seu povo, que combate contra as tempestades e turbilhões deste mundo, porquanto a paz neste mundo Ele não lhes prometeu. "O Senhor abençoará o Seu povo na paz." E o mesmo Senhor abençoará o Seu povo, concedendo-lhes a paz em Si mesmo; pois, diz Ele, "A Minha paz vos dou, a Minha paz vos deixo."
2. É, pois, o Cristo total que fala. "Eu Te exaltarei, ó Senhor, porque Me tomaste" (v. 1). Louvarei a Tua alta Majestade, ó Senhor, porque Me tomaste. "Não permitiste que os Meus inimigos se regozijassem sobre Mim." E aqueles que tantas vezes se esforçaram por oprimir-Me com várias perseguições por todo o mundo, Tu não permitiste que se regozijassem sobre Mim.
1. Até o fim, Salmo do gozo da Ressurreição, e da mudança, da renovação do corpo a um estado imortal, e não somente do Senhor, mas também de toda a Igreja. Pois no Salmo anterior foi concluído o tabernáculo, no qual habitamos no tempo da guerra; mas agora é dedicada a casa, que permanecerá na paz eterna.
Até o Fim, Salmo do Cântico da Dedicação da Casa, do próprio Davi.
3. "Ó Senhor, meu Deus, a Ti clamei, e Tu me curaste" (v. 2). Ó Senhor, meu Deus, a Ti clamei, e já não ouço falar de um corpo enfraquecido e enfermo pela mortalidade.
4. "Ó Senhor, trouxeste de volta a Minha alma do inferno, e Me salvaste dentre os que descem à cova" (v. 3). Salvaste-Me da condição de profundas trevas, e do mais baixo lamaçal da carne corruptível.
5. "Cantai ao Senhor, ó vós, santos Seus." O profeta, vendo estas coisas futuras, regozija-se, e diz: "Cantai ao Senhor, ó vós, santos Seus. E fazei confissão à lembrança da Sua santidade" (v. 4). E fazei-Lhe confissão de que Ele não Se esqueceu da santificação com que vos santificou, ainda que todo este período intermediário pertença aos vossos desejos.
6. "Pois na Sua indignação há ira" (v. 5). Pois Ele vingou contra vós o primeiro pecado, pelo qual pagastes com a morte. "E vida na Sua vontade." E a vida eterna, à qual não poderíeis retornar por força alguma vossa, Ele vos deu, porque assim o quis. "À tarde pousará o choro." A tarde começou quando a luz da sabedoria se retirou do homem pecador, quando ele foi condenado à morte: desde esta tarde o choro há de pousar, enquanto o povo de Deus estiver, em meio a labores e tentações, aguardando o dia do Senhor. "E a exultação pela manhã." Até a manhã, quando haverá a exultação da ressurreição, que resplandeceu por antecipação na ressurreição matinal do Senhor.
7. "Mas eu disse na minha abundância: Não serei jamais abalado" (v. 6). Mas eu, o povo que desde o princípio falava, disse na minha abundância, não padecendo já nenhuma necessidade: "Não serei jamais abalado."
8. "Senhor, na Tua vontade concedeste força à minha formosura" (v. 7). Mas que esta minha abundância, Senhor, não provém de mim mesmo, e sim que na Tua vontade concedeste força à minha formosura, aprendi-o disto: "Afastaste de mim o Teu rosto, e fiquei perturbado"; pois Tu por vezes afastaste o Teu rosto do pecador, e eu fiquei perturbado, quando de mim se retirava a iluminação do Teu conhecimento.
9. "A Ti, Senhor, clamarei, e ao meu Deus suplicarei" (v. 8). E trazendo à memória aquele tempo da minha tribulação e miséria, e como que nele estabelecido, ouço a voz do Teu Primogênito, minha Cabeça, prestes a morrer por mim, dizendo: "A Ti, Senhor, clamarei, e ao meu Deus suplicarei."
10. Que proveito há no derramamento do Meu sangue, enquanto desço à corrupção? "Acaso o pó Te confessará?" Pois se Eu não ressuscitar imediatamente, e o Meu corpo se corromper, "acaso o pó Te confessará?" — isto é, a multidão dos ímpios, a quem hei de justificar pela Minha ressurreição? "Ou anunciará a Tua verdade?" Ou anunciará a Tua verdade para a salvação dos demais?
11. "O Senhor ouviu, e teve misericórdia de Mim; o Senhor fez-Se meu auxiliador." Nem "permitiu que o Seu Santo visse a corrupção" (v. 10).
12. "Tu transformaste o meu pranto em alegria para mim" (v. 11). A Ti, tendo eu — a Igreja — recebido o Primogênito dentre os mortos, digo agora, na dedicação da Tua casa: "Tu transformaste o meu pranto em alegria para mim. Despiste-me do meu cilício, e cingiste-me de alegria." Rasgaste o véu dos meus pecados, a tristeza da minha mortalidade, e cingiste-me com a primeira veste, com a imortal alegria.
13. "Para que a minha glória Te cante, e eu não seja traspassado" (v. 12). Para que agora, não a minha humilhação, mas a minha glória não se lamente, e sim Te cante, porquanto agora da humilhação Tu me exaltaste; e para que eu não seja traspassado pela consciência do pecado, pelo temor da morte, pelo temor do juízo. "Senhor, meu Deus, Te confessarei para sempre." E esta é a minha glória, Senhor meu Deus: que Te confesse para sempre, que nada tenho de mim mesmo, mas que todo o meu bem provém de Ti, que és "Deus, tudo em todos."
1. Até o fim, Salmo do próprio Davi, sobre o Mediador, forte de mão nas perseguições. Pois a palavra êxtase, que se acrescenta ao título, significa um arrebatamento da mente, produzido ou por um pânico, ou por alguma revelação. Mas neste Salmo vê-se principalmente o pânico do povo de Deus, perturbado pela perseguição de todos os gentios, e pelo desfalecimento da fé em todo o mundo. Mas primeiro fala o próprio Mediador; depois o Povo, redimido pelo Seu Sangue, dá graças; por fim, na tribulação, fala longamente, o que pertence ao êxtase; porém a pessoa do próprio Profeta interpõe-se duas vezes, perto do fim, e no fim.
2. "Em Ti, Senhor, esperei; que eu nunca seja confundido" (v. 1). Em Ti, Senhor, esperei; que Eu nunca seja confundido, enquanto Me escarnecerem como a um qualquer dos homens. "Na Tua justiça livra-Me, e resgata-Me." E na Tua justiça livra-Me da cova da morte, e resgata-Me da companhia deles.
Até o fim, um Salmo do próprio Davi, um êxtase.
3. "Inclina para Mim o Teu ouvido" (v. 2). Ouve-Me em Minha humilhação, estando Tu perto de Mim. "Apressa-Te em livrar-Me." Não adies até o fim do mundo, como com todos os que creem em Mim, a Minha separação dos pecadores. "Sê para Mim um Deus que Me proteja." Sê para Mim Deus, e Protetor. "E casa de refúgio, para que Me salves." E como uma casa, na qual, refugiando-Me, eu seja salvo.
4. "Pois Tu és a Minha fortaleza, e o Meu refúgio" (v. 3). Pois Tu és para Mim a Minha fortaleza para suportar os Meus perseguidores, e o Meu refúgio para escapar deles. "E, por causa do Teu Nome, Tu serás o Meu guia, e Me alimentarás." E para que por Mim sejas conhecido de todos os gentios. Eu seguirei em tudo a Tua vontade; e, reunindo a Mim, pouco a pouco, os santos, cumprirás o Meu corpo, e a Minha estatura perfeita.
5. "Tu Me tirarás desta armadilha, que ocultaram para Mim" (v. 4). Tu Me tirarás destes laços, que ocultaram para Mim. "Pois Tu és o Meu Protetor."
6. "Em Tuas mãos encomendo o Meu Espírito" (v. 5). Ao Teu poder encomendo o Meu Espírito, prestes a recebê-lo de volta. "Tu me redimiste, ó Senhor Deus da verdade?" Que o povo também, redimido pela Paixão do seu Senhor, e jubiloso na glorificação da sua Cabeça, diga: "Tu me redimiste, ó Senhor Deus da verdade."
7. "Tu odeias os que se apegam à vaidade inutilmente" (v. 6). Tu odeias os que se apegam à falsa felicidade do mundo. "Mas eu confiei no Senhor."
8. "Eu me alegrarei, e exultarei na Tua misericórdia:" que não me engana. "Pois Tu olhaste para a Minha humilhação:" na qual me sujeitaste à vaidade em esperança. "Tu salvaste a minha alma das necessidades" (v. 7). Tu salvaste a minha alma das necessidades do temor, para que, com um amor livre, ela Te sirva.
9. "E não me encerraste nas mãos do inimigo" (v. 8). E não me encerraste, de modo que eu não tivesse abertura para recobrar a liberdade, e fosse entregue para sempre ao poder do demônio, que me enlaça com o desejo desta vida, e me aterroriza com a morte. "Puseste os meus pés em lugar espaçoso." Conhecida a ressurreição do meu Senhor, e prometida a mim a minha própria, o meu amor, tendo sido tirado dos apertos do temor, caminha livremente, na largueza da liberdade.
9. "Tem misericórdia de mim, ó Senhor, pois estou atribulado" (v. 9). Mas que é esta inesperada crueldade dos perseguidores, que fere em mim tal pavor? "Tem misericórdia de mim, ó Senhor." Pois já não me alarmo com a morte, mas com os tormentos e torturas. "Meu olho foi perturbado pela ira." Eu tinha o meu olho posto em Ti, para que não me abandonasses: Tu estás irado, e o perturbaste. "A minha alma, e o meu ventre." Pela mesma ira foi perturbada a minha alma, e a minha memória, pela qual eu retinha o que o meu Deus sofreu por mim, e o que Ele me prometeu.
11. "Pois a minha vida se consumiu em dor" (v. 10). Pois a minha vida é confessar-Te, mas ela se consumiu em dor, quando o inimigo disse: Que sejam torturados até que O neguem. "E os meus anos em gemidos." O tempo que passo neste mundo não me é tirado pela morte, mas permanece, e se gasta em gemidos. "A minha força se enfraqueceu pela carência." Careço da saúde deste corpo, e vêm sobre mim dores lacerantes: careço da dissolução do corpo, e a morte tarda em vir: e nesta carência a minha confiança se enfraqueceu. "E os meus ossos foram perturbados." E a minha constância foi perturbada.
12. "Fui feito objeto de opróbrio acima de todos os meus inimigos" (v. 11). Todos os ímpios são meus inimigos; e, no entanto, eles, por suas maldades, são torturados somente até que confessem: eu, pois, ultrapassei o seu opróbrio, eu, a cuja confissão não se segue a morte, mas se seguem as dores lacerantes. "E demasiadamente para os meus vizinhos." Isto pareceu demasiado para aqueles que já se aproximavam para Te conhecer, e para reter a fé que eu retenho. "E um temor para os meus conhecidos." E até nos meus próprios conhecidos infundi temor pelo exemplo da minha pavorosa tribulação. "Os que me viam fugiam de mim para fora." Porque não compreendiam a minha esperança íntima e invisível, fugiram de mim para as coisas exteriores e visíveis.
1. Ao próprio Davi; para o entendimento; pelo qual se entende que não pelos méritos das obras, mas pela graça de Deus, é o homem livrado, confessando os seus pecados.
Ao próprio Davi; para o entendimento.
2. "Bem-aventurados aqueles cuja iniquidade é perdoada, e cujos pecados são cobertos" (v. 1): e cujos pecados estão sepultados no esquecimento. "Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa pecado, e em cuja boca não há engano" (v. 2): nem tem ele em sua boca jactâncias de justiça, quando a sua consciência está cheia de pecados.
3. "Porque me calei, envelheceram os meus ossos:" porque não fiz com a minha boca "confissão para a salvação", toda firmeza em mim envelheceu na enfermidade. "Pelo meu bramido todo o dia" (v. 3): quando eu era ímpio e blasfemo, clamando contra Deus, como que defendendo e desculpando os meus pecados.
4. "Porque de dia e de noite a Tua mão pesava sobre mim:" porque, pelo castigo contínuo dos Teus açoites, "fui reduzido à miséria, enquanto um espinho me traspassava" (v. 4): fui feito miserável ao conhecer a minha miséria, sendo picado por uma má consciência.
5. "Reconheci o meu pecado, e a minha iniquidade não escondi:" isto é, a minha iniquidade não ocultei. "Disse eu: Confessarei contra mim mesmo a minha iniquidade ao Senhor:" disse eu, confessarei, não contra Deus (como no meu ímpio clamor, quando me calava), mas contra mim mesmo, a minha iniquidade ao Senhor. "E Tu perdoaste a iniquidade do meu coração" (v. 5); ouvindo a palavra da confissão no coração, antes que fosse proferida com a voz.
6. "Por isso todo aquele que é santo Te orará em tempo aceitável:" por causa desta maldade do coração, todo aquele que é justo Te orará. Pois não pelos seus próprios méritos serão santos, mas por aquele tempo aceitável, isto é, na Sua vinda, o qual nos redimiu do pecado. "Todavia, na inundação das grandes águas, não chegarão a Ele" (v. 6): todavia, ninguém pense, quando o fim tiver chegado subitamente, como nos dias de Noé, que resta ainda lugar de confissão, pelo qual possa aproximar-se de Deus.
7. "Tu és o meu refúgio contra as angústias que me cercaram:" Tu és o meu refúgio contra a angústia dos meus pecados, que cercou o meu coração. "Ó Tu, meu Regozijo, livra-me dos que me cercam" (v. 7): em Ti está a minha alegria: livra-me da tristeza que os meus pecados trazem sobre mim.
8. Diapsalma. A resposta de Deus: "Dar-te-ei entendimento, e te porei no caminho em que deves andar;" dar-te-ei entendimento depois da confissão, para que não te apartes do caminho em que deves andar; para que não queiras estar em teu próprio poder. "Fixarei os Meus olhos sobre ti" (v. 8); assim tornarei certo sobre ti o Meu amor.
9. "Não sejais como o cavalo e a mula, que não têm entendimento": e por isso quereriam governar-se a si mesmos. Mas diz o Profeta: "Refreia-os com freio e cabresto." Faze Tu, pois, ó Deus, àqueles "que não se querem aproximar de Ti" (v. 9), o que o homem faz ao cavalo e à mula, para que por açoites os faças suportar o Teu governo.
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10. "Muitos são os açoites do pecador": muito é açoitado aquele que, não confessando os seus pecados a Deus, quer ser seu próprio governante. "Mas aquele que confia no Senhor, a misericórdia o cercará" (v. 10); mas aquele que confia no Senhor, e submete a si mesmo ao Seu governo, a misericórdia o cercará.
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11. "Alegrai-vos no Senhor, e exultai, vós justos": alegrai-vos, e exultai, vós justos, não em vós mesmos, mas no Senhor. "E gloriai-vos, todos vós que sois retos de coração" (v. 11): e gloriai-vos Nele, todos vós que entendeis que é reto estar sujeitos a Ele, para que assim possais ser postos acima de todas as demais coisas.
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1. "Alegrai-vos no Senhor, ó justos": alegrai-vos, ó justos, não em vós mesmos, pois isso não é seguro; mas no Senhor. "Pois aos retos convém o louvor" (v. 1): estes louvam o Senhor, os que se submetem ao Senhor; do contrário, são distorcidos e perversos.
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2. "Louvai ao Senhor com a harpa": louvai ao Senhor, apresentando-Lhe os vossos corpos como sacrifício vivo. "Cantai-Lhe com o saltério de dez cordas" (v. 2): sejam os vossos membros servos do amor de Deus e do próximo, no qual se guardam tanto os três quanto os sete mandamentos.
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3. "Cantai-Lhe um cântico novo": cantai-Lhe um cântico da graça da fé. "Cantai-Lhe habilmente com júbilo" (v. 3): cantai-Lhe habilmente com exultação.
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4. "Pois a Palavra do Senhor é reta": pois a Palavra do Senhor é reta, para vos fazer aquilo que por vós mesmos não podeis ser. "E todas as Suas obras são feitas em fé" (v. 4): para que ninguém pense que pelo mérito das obras chegou à fé, quando é na fé que se realizam todas as obras que o próprio Deus ama.
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5. "Ele ama a Misericórdia e o Juízo": pois ama a Misericórdia, a qual agora primeiro mostra; e o Juízo, com o qual exige aquilo que primeiro mostrou. "A terra está cheia da Misericórdia do Senhor" (v. 5): por todo o mundo são perdoados aos homens os pecados pela Misericórdia do Senhor.
Pela Palavra do Senhor foram os céus consolidados: pelo Senhor foram os justos fortalecidos. "E toda a força deles pelo Sopro de Sua Boca" (v. 6). E toda a fé deles pelo Seu Espírito Santo.
"Ele ajunta as águas do mar como num odre:" ajuntou os povos do mundo, para a confissão do pecado mortificado, para que não se derramassem demais pelo orgulho. "Põe os abismos em depósitos" (v. 7): e neles guarda os Seus segredos como riquezas.
"Tema toda a terra ao Senhor:" tema todo pecador, para que assim cesse de pecar. "Assombrem-se diante dEle todos os habitantes do mundo" (v. 8): não dos terrores dos homens, nem de nenhuma criatura, mas diante dEle se assombrem.
"Pois Ele falou, e foram feitas:" pois nenhum outro fez as coisas que devem ser temidas; mas Ele falou, e foram feitas. "Ele ordenou, e foram criadas" (v. 9): Ele ordenou por Sua Palavra, e foram criadas.
"O Senhor reduz a nada o conselho dos gentios;" daqueles que não buscam o Seu Reino, mas reinos próprios. "Ele frustra os desígnios dos povos:" daqueles que cobiçam a felicidade terrena. "E reprova os conselhos dos príncipes" (v. 10): daqueles que buscam dominar sobre tais povos.
"Mas o conselho do Senhor permanece para sempre;" mas o conselho do Senhor, pelo qual Ele não faz bem-aventurado senão aquele que a Ele se submete, permanece para sempre. "Os pensamentos do Seu Coração de geração em geração" (v. 11): os pensamentos da Sua Sabedoria não são mutáveis, mas permanecem por todas as gerações.
"Bem-aventurada a nação cujo Deus é o Senhor:" bem-aventurada é uma só nação, pertencente à cidade celeste, a qual não escolheu senão o Senhor por seu Deus: "E o povo que Ele escolheu para Sua própria herança" (v. 12): e que não por si mesmo, mas pelo dom de Deus, foi escolhido, para que Ele, possuindo-o, não permita que fique desamparado e miserável.
"O Senhor olha desde o Céu; Ele contempla todos os filhos dos homens" (v. 13). Desde as almas dos justos, o Senhor olha misericordiosamente sobre todos os que se ergueriam para a novidade de vida.
14. "Da Sua morada preparada:" da Sua morada de Humanidade assumida, a qual Ele preparou para Si mesmo. "Ele contempla todos os habitantes da terra" (v. 14): Ele contempla misericordiosamente todos os que vivem na carne, para que esteja sobre eles, governando-os.
15. "Ele forma singularmente os seus corações:" Ele dá espiritualmente aos seus corações os dons próprios, de modo que nem todo o corpo seja olho, nem todo ele seja audição; mas que um, deste modo, e outro, daquele modo, sejam incorporados a Cristo. "Ele entende todas as suas obras" (v. 15). Diante d'Ele são entendidas todas as suas obras.
16. "Um rei não será salvo por muita força:" não será salvo aquele que governa a própria carne, se presumir demasiado da sua própria força. "Nem um gigante será salvo por muita força" (v. 16): nem será salvo quem quer que guerreie contra o hábito da própria concupiscência, ou contra o demônio e os seus anjos, se confiar demasiado no seu próprio poder.
17. "O cavalo é coisa enganosa para a salvação:" engana-se quem julga que, por meio dos homens, alcança a salvação recebida entre os homens, ou que, pela impetuosidade da própria coragem, está defendido da destruição. "Na abundância da sua força não será salvo" (v. 17).
18. "Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que O temem:" porque, se buscas a salvação, eis que o amor do Senhor está sobre os que O temem. "Sobre os que esperam na Sua misericórdia" (v. 18): que não esperam na própria força, mas na Sua misericórdia.
19. "Para livrar as suas almas da morte, e para os conservar vivos na fome" (v. 19). Para lhes dar o alimento do Verbo e da Verdade Eterna, o qual perderam ao presumirem da própria força, e por isso não têm sequer a sua própria força, por falta de justiça.
20. "A minha alma esperará pacientemente no Senhor:" para que doravante seja preenchida com iguarias incorruptíveis; entretanto, enquanto aqui permanecer, a minha alma esperará pacientemente no Senhor. "Porque Ele é o nosso Auxílio e Defensor" (v. 20): Ele é o nosso Auxílio, enquanto nos esforçamos em direção a Ele; e o nosso Defensor, enquanto resistimos ao adversário.
21. "Porque o nosso coração se alegrará n'Ele:" pois não em nós mesmos, em quem, sem Ele, há grande carência; mas n'Ele mesmo se alegrará o nosso coração. "E confiamos no Seu santo Nome" (v. 21); e por isso confiamos que chegaremos a Deus, porque a nós, ausentes, enviou Ele, por meio da fé, o Seu próprio Nome.
"Seja sobre nós, Senhor, a Vossa misericórdia, assim como esperamos em Vós" (v. 22): seja sobre nós, Senhor, a Vossa misericórdia; pois a esperança não confunde, porque esperamos em Vós.
2. "Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o Seu louvor estará sempre em minha boca" (v. 1). Assim fala Cristo, assim fale também o cristão; pois o cristão está no Corpo de Cristo; e por isso Cristo Se fez Homem, para que aquele cristão pudesse tornar-se um anjo, ele que diz: "Bendirei ao Senhor em todo o tempo." Quando bendirei ao Senhor? Quando Ele te abençoa? Quando os bens deste mundo abundam? Quando tens grande abundância de trigo, azeite e vinho, de ouro e prata, de servos e de gado; quando esta saúde mortal permanece incólume e sã; quando todos os que te nasceram crescem, nada é subtraído por morte prematura, a felicidade reina inteiramente em tua casa, e todas as coisas transbordam ao teu redor; então bendirás ao Senhor? Não; mas "em todo o tempo." Portanto, tanto então, como quando, segundo o tempo, ou segundo os açoites do Senhor nosso Deus, estas coisas se perturbam, são retiradas, raramente te nascem, e nascidas perecem. Pois estas coisas acontecem, e daí se seguem penúria, necessidade, labor, dor e tentação. Mas tu, que cantaste: "Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o Seu louvor estará sempre em minha boca," tanto quando Ele os dá, bendize; como quando Ele os tira, bendize. Pois é Ele quem dá, é Ele quem tira; mas a Si mesmo Ele não tira daquele que O bendiz.
3. Mas quem é que bendiz ao Senhor em todo o tempo, senão o humilde de coração? Pois a própria humildade ensinou o nosso Senhor em Seu próprio Corpo e Sangue: porque quando Ele recomenda o Seu próprio Corpo e Sangue, recomenda a Sua Humildade, naquilo que está escrito nesta história, naquela aparente loucura de Davi, pela qual já passamos: "E a sua saliva escorria sobre a sua barba." Quando se leu o Apóstolo, ouvistes a mesma saliva, mas escorrendo sobre a barba. Alguém dirá talvez: Que saliva ouvimos? Não se leu agora mesmo, onde o Apóstolo diz: "Os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria"? Mas agora se leu: "Mas nós pregamos," diz ele, "Cristo crucificado" (pois então Ele tangeu o tambor), "para os judeus, escândalo; e para os gregos, loucura; mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, Poder de Deus, e Sabedoria de Deus. Porque a Loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a Fraqueza de Deus é mais forte que os homens." Pois a saliva significa a loucura; a saliva significa a fraqueza. Mas se a Loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a Fraqueza de Deus é mais forte que os homens, não te ofenda a saliva, mas observa que ela escorre sobre a barba: pois assim como pela saliva se significa a fraqueza, assim pela barba se significa a força. Cobriu, pois, a Sua Força pelo corpo da Sua Fraqueza, e o que por fora era fraco, aparecia como que na saliva; mas por dentro a Sua Força Divina estava coberta como uma barba. Portanto nos é recomendada a humildade. Sê humilde, se quiseres bendizer ao Senhor em todo o tempo, e que o Seu louvor esteja sempre em tua boca. ...
1. Porque ali houve um sacrifício segundo a ordem de Arão, e depois Ele, de Seu próprio Corpo e Sangue, instituiu um sacrifício segundo a ordem de Melquisedeque; mudou, pois, o Seu Semblante no Sacerdócio, e despediu o reino dos judeus, e veio aos gentios. Que é, pois, "afetou-se"? Estava cheio de afeto. Pois que há tão cheio de afeto quanto a Misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, que, vendo a nossa fraqueza, para nos livrar da morte eterna, suportou a morte temporal com tão grande injúria e contumélia? "E tangeu o tambor:" porque o tambor não se faz senão quando uma pele é estendida sobre a madeira; e Davi tangeu o tambor para significar que Cristo havia de ser crucificado. Mas, "tangeu sobre as portas da cidade:" que são "as portas da cidade" senão os nossos corações, que havíamos fechado contra Cristo, e que Ele, pelo tambor de Sua Cruz, abriu os corações dos mortais? "E foi levado em Suas próprias mãos:" como "levado em Suas próprias mãos"? Porque, quando recomendou o Seu próprio Corpo e Sangue, tomou em Suas mãos aquilo que os fiéis conhecem; e de certo modo carregou a Si mesmo, quando disse: "Este é o Meu Corpo." "E caiu junto às portas da entrada;" isto é, humilhou-Se. Pois isto é cair já no próprio início da nossa fé. Porque a porta da entrada é o começo da fé, de onde a Igreja começa e chega enfim até à visão: para que, como crê naquilo que não vê, mereça gozar dessas coisas, quando houver começado a ver face a face. Assim é o título do Salmo; brevemente o ouvimos; ouçamos agora as próprias palavras Daquele que Se afeta e tange o tambor às portas da cidade.
Salmo DE Davi, Quando ELE Mudou o Seu Semblante Diante de Abimeleque, e ELE o Despediu, e ELE se Retirou.
4. Mas por que bendiz o homem ao Senhor em todo o tempo? Porque é humilde. Que é ser humilde? Não tomar louvor para si. Quem quiser ser louvado por si mesmo é soberbo; quem não é soberbo é humilde. Não queres, pois, ser soberbo? Para que sejas humilde, dize o que aqui está escrito: "No Senhor se gloriará a minha alma; ouçam-no os humildes e se alegrem" (v. 2). Aqueles, pois, que não quiserem ser louvados no Senhor, não são humildes, mas ferozes, ásperos, altivos, soberbos. Gado manso quer o Senhor; sê tu o jumento do Senhor, isto é, sê humilde. Ele senta-Se sobre ti, Ele te governa: não temas tropeçar e cair de cabeça; isso, na verdade, é a tua fraqueza; mas considera Quem se senta sobre ti. Tu és um jumentinho, mas carregas Cristo. Pois também Ele, sobre um jumentinho, entrou na cidade; e aquele animal era manso. ... "Não sejais como o cavalo e como a mula, que não têm entendimento." Pois o cavalo e a mula às vezes levantam o pescoço, e por sua própria fereza derrubam o seu cavaleiro. São domados com o freio, com a rédea, com açoites, até que aprendam a submeter-se e a carregar o seu dono. Mas tu, antes que as tuas mandíbulas sejam feridas pelo freio, sê humilde, e carrega o teu Senhor: não desejes louvor para ti, mas seja louvado Aquele que se senta sobre ti, e dize: "No Senhor se gloriará a minha alma; ouçam-no os humildes e se alegrem." ...
5. Segue-se agora: "Engrandecei ao Senhor comigo" (v. 3). Quem é este que nos exorta a que engrandeçamos ao Senhor com ele? Quem quer que esteja, irmãos, no corpo de Cristo, deve empenhar-se nisto, que o Senhor seja engrandecido com ele. Pois ama ao Senhor, quem quer que seja. E como O ama? De modo a não invejar o seu companheiro de amor. ... Envergonhem-se aqueles que amam a Deus de tal modo que invejam os outros. Homens perdidos amam um cocheiro, e quem quer que ame um cocheiro ou um caçador deseja que todo o povo ame com ele, e exorta, dizendo: Amai comigo este pantomimo, amai comigo esta ou aquela torpeza. Ele chama entre o povo para que a torpeza seja amada com ele; e não chamará o cristão na Igreja, para que a Verdade de Deus seja amada com ele? Despertai, pois, em vós o amor, irmãos; e chamai a cada um dos vossos, e dizei: "Engrandecei ao Senhor comigo." Haja em vós esse fervor. Por que se recitam e se explicam estas coisas? Se amais a Deus, trazei depressa ao amor de Deus todos os que estão ligados a vós, e todos os que estão em vossa casa; se o Corpo de Cristo é amado por vós, isto é, se a unidade da Igreja o é, trazei-os depressa a gozá-la, e dizei: "Engrandecei ao Senhor comigo."
6. "E exaltemos juntos o Seu Nome." Que quer dizer "exaltemos juntos o Seu Nome"? Isto é, em um. Pois muitos exemplares assim o trazem: "Engrandecei ao Senhor comigo; e exaltemos o Seu Nome em um." Quer se diga "juntos," quer "em um," é a mesma coisa. Trazei, pois, depressa a quem puderdes, exortando, transportando, suplicando, disputando, dando razão, com mansidão, com brandura. Trazei-os depressa ao amor; para que, se engrandecerem o Senhor, O engrandeçam em um. ...
7. "Busquei ao Senhor, e Ele me ouviu" (v. 4). Onde ouve o Senhor? Interiormente. Onde dá Ele? Interiormente. Ali oras, ali és ouvido, ali és abençoado. Oraste, és ouvido, és abençoado; e não o sabe quem está a teu lado: tudo se processa em segredo, como diz o Senhor no Evangelho: "Entra no teu quarto, e, tendo fechado a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará abertamente." Quando, pois, entras no teu aposento, entras no teu coração. Bem-aventurados os que se alegram quando entram no seu coração e nele nada encontram de mal. ...
8. "Busquei ao Senhor, e Ele me ouviu." Aqueles, pois, que não são ouvidos, não buscam o Senhor. Atendei, santos irmãos: ele não disse, busquei ouro do Senhor, e Ele me ouviu; busquei do Senhor longa vida, e Ele me ouviu; busquei do Senhor isto ou aquilo, e Ele me ouviu. Uma coisa é buscar algo do Senhor, outra é buscar o próprio Senhor. "Busquei," diz ele, "ao Senhor, e Ele me ouviu." Mas tu, quando oras dizendo, mata o meu inimigo, não buscas o Senhor, mas, por assim dizer, fazes-te juiz sobre o teu inimigo, e fazes do teu Deus um carrasco. Como sabes que não é melhor que tu aquele cuja morte buscas? Nisto mesmo talvez o seja, em não buscar a tua. Portanto, não busques do Senhor coisa alguma exterior, mas busca o próprio Senhor, e Ele te ouvirá, e enquanto ainda falas, dirá: "Eis-Me aqui." ...
9. Já disse quem era o exortador, a saber, aquele amante que não quisera abraçar sozinho o que ama, e diz: "Aproximai-vos dEle, e sereis iluminados" (v. 5). Pois diz o que ele mesmo provou. Porque alguma pessoa espiritual no Corpo de Cristo, ou mesmo o nosso Senhor Jesus Cristo mesmo, segundo a carne, a Cabeça exortando os Seus próprios Membros, diz; o quê? "Aproximai-vos dEle, e sereis iluminados." Ou antes, algum cristão espiritual nos convida a aproximar-nos do próprio nosso Senhor Jesus Cristo. Mas aproximemo-nos dEle e sejamos iluminados; não como os judeus se aproximaram dEle, para serem escurecidos; pois se aproximaram dEle para O crucificarem: aproximemo-nos dEle para recebermos o Seu Corpo e Sangue. Eles, por Ele crucificado, foram escurecidos; nós, comendo e bebendo O Crucificado, somos iluminados. "Aproximai-vos dEle, e sereis iluminados." Eis que isto é dito aos gentios. Cristo foi crucificado em meio aos judeus enfurecidos e vendo; os gentios estavam ausentes; eis que se aproximaram os que estavam nas trevas, e os que não viram são iluminados. Por onde se aproximam os gentios? Seguindo com fé, anelando com o coração, correndo com caridade. Teus pés são a tua caridade. Tem dois pés, não sejas coxo. Quais são os teus dois pés? Os dois mandamentos do amor: de teu Deus, e do teu Próximo. Com estes pés corre para Deus, aproxima-te dEle, pois Ele tanto te exortou a correr, quanto Ele mesmo derramou a Sua própria Luz, como magnífica e divinamente prosseguiu. "E os vossos rostos não serão envergonhados." "Aproximai-vos," diz ele, "dEle, e sereis iluminados; e os vossos rostos não serão envergonhados." Nenhum rosto se envergonhará, senão o do soberbo. Por quê? Porque quis ser exaltado, e quando sofreu insulto, ou ignomínia, ou desgraça neste mundo, ou qualquer aflição, se envergonha. Mas tu não temas, aproxima-te dEle, e não serás envergonhado. ...
Como testemunha o Profeta: "Este pobre clamou, e o Senhor o ouviu" (v. 6). Ele te ensina como podes ser ouvido. Não és ouvido, portanto, porque és rico. Para que porventura não digas que clamaste e não foste ouvido, ouve por quê: "Este pobre clamou, e o Senhor o ouviu." Clama tu como pobre, e o Senhor te ouvirá. E como clamarei como pobre? Não presumindo, se tiveres algo, de tua própria força a partir disso; entendendo que és necessitado; entendendo que enquanto não tiveres Aquele que te faz rico, permaneces pobre. Mas como o Senhor o ouviu? "E o salvou de todas as suas angústias." E como salva Ele os homens de todas as suas angústias? "O Anjo do Senhor enviará ao redor dos que O temem, e os livrará" (v. 7). Assim está escrito, irmãos, não como trazem alguns códices defeituosos: "O Senhor enviará o Seu Anjo ao redor dos que O temem, e os livrará"; mas assim: "O Anjo do Senhor enviará ao redor dos que O temem, e os livrará." A quem chamou Ele aqui de Anjo do Senhor, que enviará ao redor dos que O temem, e os livrará? O próprio Senhor nosso Jesus Cristo é chamado na Profecia o Anjo do grande Conselho, o Mensageiro do grande Conselho; assim O chamaram os Profetas. Ele mesmo, pois, o Anjo do grande Conselho, isto é, o Mensageiro, enviará aos que temem o Senhor, e os livrará. Não temas, pois, que sejas escondido: onde quer que tenhas temido o Senhor, ali te conhece aquele Anjo, que enviará para te socorrer, e te livrará.
Agora falará Ele abertamente do mesmo Sacramento, pelo qual foi carregado em Suas próprias Mãos. "Provai e vede que o Senhor é bom" (v. 8). Não se abre agora o Salmo, e não te mostra aquela aparente insânia e constante loucura, aquela mesma insânia e sóbria embriaguez daquele Davi, que sob uma figura mostrou não sei o quê, quando na pessoa do rei Aquis lhe disseram: Como é isto? Pois o Senhor disse: "Se alguém não comer a Minha Carne e não beber o Meu Sangue, não terá vida em si"? E aqueles em quem reinava Aquis, isto é, o erro e a ignorância, disseram — que disseram eles? "Como pode este dar-nos a sua carne a comer?" Se és ignorante, "Provai e vede que o Senhor é bom"; mas se não entendes, és o rei Aquis: Davi mudará o Seu Semblante e se apartará de ti, e te deixará, e partirá.
12. "Bem-aventurado o homem que confia n'Ele." Por que é necessário explicar isto detidamente? Quem quer que não confie no Senhor é miserável. Quem é aquele que não confia no Senhor? Aquele que confia em si mesmo. ...
"Temei ao Senhor, vós todos os Seus santos, pois nada falta aos que O temem" (v. 9). Muitos, portanto, não temerão a Deus, o Senhor, para não sofrerem fome. Diz-se-lhes: Não defraudeis; e eles dizem: De onde poderei sustentar-me? Nenhuma arte pode existir sem impostura; nenhum negócio pode existir sem fraude. Mas a fraude Deus a pune: teme a Deus. Mas se eu temer a Deus, não terei de onde viver. "Temei ao Senhor, vós todos os Seus santos, pois nada falta aos que O temem." Ele promete fartura àquele que treme, e duvida, temendo que porventura, se temer a Deus, venha a perder as coisas supérfluas. O Senhor te alimentou quando O desprezavas, e te desamparará quando O temeres? Atende, e não digas: Fulano é rico, e eu sou pobre. Eu temo ao Senhor — ele, por não temer, quanto ganhou, e eu, por temer, estou despojado! Vê o que se segue: "Os ricos passam necessidade e sofrem fome, mas os que buscam ao Senhor não terão falta de nenhum bem" (v. 10). Se o tomares segundo a letra, parece que Ele te engana, pois vês que muitos ricos ímpios morrem em suas riquezas, e não se tornam pobres enquanto vivem; vês que envelhecem, e chegam mesmo ao fim da vida em meio a grande abundância e riquezas. Vês celebrar-se sua pompa fúnebre com grande fausto, o próprio homem levado rico até o sepulcro, tendo expirado em leitos de marfim, sua família chorando ao redor; e dizes em teu coração, se porventura conheces alguns pecados e crimes por ele cometidos: Sei o que este homem fez; eis que envelheceu, morreu em seu leito, seus amigos o acompanham até a sepultura, seu funeral se celebra com toda esta pompa; sei o que ele fez; a Escritura me enganou, e falou falsamente, onde ouço e canto: "Os ricos passam necessidade e sofrem fome." Quando esteve este homem em necessidade? Quando sofreu fome? "Mas os que buscam ao Senhor não terão falta de nenhum bem." Diariamente me levanto para ir à Igreja, diariamente dobro o joelho, diariamente busco ao Senhor, e nada de bom tenho: este homem não buscou ao Senhor, e morreu no meio de todos estes bens! Pensando assim, o laço do escândalo o sufoca; pois busca alimento mortal na terra, e não busca uma verdadeira recompensa no céu, e assim mete a cabeça no laço do diabo, suas mandíbulas são atadas, e o diabo o retém firmemente para o mal, para que assim imite os maus, os quais vê morrer em tal fartura.
14. Entende-o, pois, não assim. ...Quando estás repleto de riquezas espirituais, podes ser pobre? E era ele, pois, rico, porque tinha um leito de marfim; e és tu pobre, que tens a câmara do teu coração repleta de tal joalheria de virtudes — justiça, verdade, caridade, fé, perseverança? Desdobra tuas riquezas, se as tens, e compara-as com as riquezas do rico. Mas tal homem encontrou no mercado mulas de grande valor, e as comprou. Se pudesses encontrar a fé à venda, quanto darias por aquilo que Deus quer que tenhas de graça, e tu és ingrato? Aqueles ricos, pois, carecem, carecem, e o que é mais grave, carecem de pão. ...Pois Ele disse: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu." E ainda: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados." "Mas os que buscam ao Senhor não terão falta de nenhum bem"; mas de que espécie de bem, já o disse.
"Vinde, filhos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor" (v. 11). Pensais, irmãos, que sou eu quem diz isto: pensai que é Davi quem o diz; pensai que é um Apóstolo quem o diz; antes, pensai que é o próprio Senhor nosso Jesus Cristo quem o diz: "Vinde, filhos, ouvi-Me." Ouçamo-Lo juntos: ouvi-O através de nós. Pois Ele quis ensinar-nos; Ele, o Humilde, Ele que bate, Ele que afaga, quis ensinar-nos. ...
"Quem é o homem que deseja a vida, e ama ver dias bons?" (v. 12). Ele propõe uma questão. Não responde cada um de vós: Eu? Há algum homem entre vós que não ame a vida, isto é, que não deseje a vida, e não ame ver dias bons? Não murmurais diariamente assim, e assim falais: Até quando sofreremos estas coisas? Cada dia piores e piores: no tempo de nossos pais eram dias mais alegres, eram dias melhores. Ó, se pudesses interrogar a esses mesmos, teus pais, do mesmo modo te murmurariam eles a respeito de seus próprios dias. Nossos pais foram felizes, miseráveis somos nós, maus dias temos; tal homem reinou sobre nós, pensávamos que após sua morte nos seria dado algum alívio; coisas piores vieram: ó Deus, mostra-nos dias bons! "Quem é o homem que deseja a vida, e ama ver dias bons?" Que não os busque aqui. Uma coisa boa busca, mas não no lugar certo a busca. Assim como, se buscasses algum homem justo numa região onde ele não viveu, te seria dito: Buscas um homem bom, buscas um grande homem, busca-o ainda, mas não aqui; em vão o buscas aqui, jamais o encontrarás. Dias bons buscas; busquemo-los juntos, não os busques aqui. ...Lede as Escrituras. ...
Não murmure, pois, o cristão; veja de quem segue os passos: mas se ama os dias bons, ouça a Ele ensinando e dizendo: "Vinde, filhos, ouvi-Me; eu vos ensinarei o temor do Senhor." Que queres tu? Vida e dias bons. Ouve, e faze. "Guarda a tua língua do mal" (v. 13). Faze isto. Não quero, diz um homem miserável, não quero guardar minha língua do mal, e contudo desejo a vida e dias bons. Se um trabalhador teu te dissesse: Eu, na verdade, devasto esta vinha, mas exijo de ti minha recompensa; trouxeste-me à vinha para podá-la e cultivá-la, eu corto toda a madeira útil, cortarei também os próprios troncos das videiras, para que nada tenhas ali que colher, e, tendo eu feito isto, tu me pagarás o meu trabalho. Não o chamarias louco? Não o expulsarias de tua casa antes que pusesse a mão na foice? Tais são aqueles homens que querem ao mesmo tempo fazer o mal, e jurar falsamente, e falar blasfêmia contra Deus, e murmurar, e defraudar, e embriagar-se, e disputar, e cometer adultério, e usar encantamentos, e consultar adivinhos, e ainda assim ver dias bons. A estes se diz: não podes, fazendo o mal, buscar uma boa recompensa. Se és injusto, será também Deus injusto? Que farei, pois? Que desejas? A vida desejo, dias bons desejo. "Guarda a tua língua do mal, e teus lábios para que não falem engano", isto é, não defraudes a ninguém, não mintas a ninguém.
Mas o que é: "Aparta-te do mal"? (v. 14). Pouco é que não prejudiques a ninguém, não mates a ninguém, não furtes, não cometas adultério, não faças injustiça, não digas falso testemunho; "Aparta-te do mal." Tendo-te apartado, dizes: Agora estou seguro, fiz tudo, terei a vida, verei dias bons. Não disse ele somente: "Aparta-te do mal", mas também: "e faze o bem." Nada é que não espolies: veste o nu. Se não espoliaste, apartaste-te do mal; mas não farás o bem, a menos que recebas o estrangeiro em tua casa. Assim, pois, aparta-te do mal, de modo a fazer o bem. "Busca a paz, e segue-a." Não disse: Terás a paz aqui; busca-a, e segue-a. Para onde a seguirei? Para onde ela foi adiante. Pois o Senhor é a nossa paz, ressuscitou, e subiu ao Céu. "Busca a paz, e segue-a"; porque quando também tu ressuscitares, este ser mortal se transformará, e abraçarás a paz ali onde ninguém te perturbará. Pois ali há paz perfeita, onde não terás fome. ...
"Os Olhos do Senhor estão sobre os justos": não temas, pois; labuta; os olhos do Senhor estão sobre ti. "E os Seus Ouvidos estão atentos às suas orações" (v. 15). Que mais queres? Se um pai de família numa grande casa não ouvisse um servo que murmura, este se queixaria, e diria: Que dificuldade sofremos aqui, e ninguém nos ouve. Podes tu dizer isto de Deus: Que dificuldades sofro, e ninguém me ouve? Se Ele me ouvisse, dizes talvez, tiraria minha tribulação: clamo a Ele, e ainda tenho tribulação. Guarda tão somente os Seus caminhos, e quando estiveres em tribulação, Ele te ouve. Mas Ele é Médico, e ainda tens algo de podridão; clamas, mas Ele ainda corta, e não retira Sua Mão, até que tenha cortado tanto quanto Lhe apraz. Pois cruel é aquele médico que ouve um homem, e poupa sua ferida e podridão. Como as mães esfregam seus filhos nos banhos para a saúde deles. Não choram os pequeninos em suas mãos? São elas, então, cruéis, porque não os poupam, nem atendem às suas lágrimas? Não estão cheias de afeto? E contudo os filhos choram, e não são poupados. Assim também o nosso Deus está cheio de caridade, mas por isso parece não ouvir, para que possa poupar-nos e curar-nos para sempre.
20. Porventura dizem os ímpios: seguramente faço o mal, porque os Olhos do Senhor não estão sobre mim: Deus atenta para os justos, a mim não me vê, e tudo quanto faço, faço com segurança. Imediatamente acrescentou o Espírito Santo, vendo os pensamentos dos homens, e disse: "Mas a Face do Senhor está contra os que fazem o mal; para exterminar da terra a memória deles" (v. 16).
21. "Clamaram os justos, e o Senhor os ouviu, e os livrou de todas as suas tribulações" (v. 17). Justos foram os Três Meninos; do meio da fornalha clamaram ao Senhor, e em seus louvores esfriaram as chamas. Não pôde a chama aproximar-se nem ferir os inocentes e justos meninos que louvavam a Deus, e Ele os livrou do fogo. Diz alguém: Eis que verdadeiramente justos eram aqueles que foram ouvidos, como está escrito: "Clamaram os justos, e o Senhor os ouviu, e os livrou de todas as suas tribulações"; mas eu clamei, e Ele não me livra; ou não sou justo, ou não faço as coisas que Ele me ordena, ou porventura Ele não me vê. Não temas: faze somente o que Ele ordena; e se não te livrar corporalmente, livrar-te-á espiritualmente. Pois Aquele que tirou do fogo os Três Meninos, tirou do fogo também os Macabeus? Não cantaram os primeiros hinos nas chamas, e estes últimos nas chamas expiraram? O Deus dos Três Meninos, não era Ele também o Deus dos Macabeus? A uns Ele livrou, a outros não livrou. Ora, Ele livrou a ambos: mas os Três Meninos livrou de tal modo que até os carnais ficaram confundidos; os Macabeus, porém, não livrou dessa maneira, para que aqueles que os perseguiam fossem lançados em tormentos ainda maiores, enquanto julgavam ter vencido os Mártires de Deus. Livrou a Pedro, quando o Anjo veio a ele estando no cárcere, e disse: "Levanta-te, e sai", e subitamente se soltaram suas cadeias, e ele seguiu o Anjo, e Ele o livrou. Teria Pedro perdido a justiça quando não o livrou da cruz? Não o livrou então? Até mesmo então o livrou. Sua longa vida o tornou injusto? Porventura o ouviu mais ao fim do que ao princípio, quando verdadeiramente o livrou de todas as suas tribulações. Pois quando primeiro o livrou, quantas coisas ainda depois padeceu! Pois para lá enfim o enviou, onde já não poderia padecer mal algum.
22. "Perto está o Senhor dos que têm quebrantado o coração; e salva os humildes de espírito" (v. 18). Deus é Altíssimo: seja o cristão humilde. Se quer que o Deus Altíssimo se aproxime dele, seja humilde. Grande mistério, Irmãos. Deus está acima de tudo: tu te elevas, e não O tocas: tu te humilhas, e Ele desce até ti. "Muitas são as tribulações do justo" (v. 19): diz Ele acaso: "Portanto, sejam os cristãos justos, portanto ouçam a Minha Palavra, para que não sofram tribulação alguma"? Não promete isto; mas diz: "Muitas são as tribulações do justo." Antes, se são injustos, têm menos tribulações; se justos, têm muitas. Mas depois de poucas tribulações, ou de nenhuma, estes hão de chegar à tribulação eterna, de onde jamais serão livres: os justos, porém, depois de muitas tribulações, hão de chegar à paz eterna, onde jamais padecerão mal algum. "Muitas são as tribulações do justo: mas o Senhor o livra de todas."
23. "O Senhor guarda todos os seus ossos: nenhum deles será quebrado" (v. 20): isto também, Irmãos, não o recebamos carnalmente. Os ossos são os firmes sustentáculos dos fiéis. Pois assim como na carne os ossos nos dão firmeza, assim no coração do cristão é a fé que dá firmeza. A paciência, pois, que está na fé, é como que os ossos do homem interior: esta é a que não pode ser quebrada. "O Senhor guarda todos os seus ossos: nenhum deles será quebrado." Se de nosso Senhor Deus Jesus Cristo tivesse dito isto — "O Senhor guarda todos os ossos de Seu Filho; nenhum deles será quebrado" —, como Nele também se prefigura noutro lugar, quando se falava do cordeiro que havia de ser morto, e dele se disse: "Nenhum osso dele quebrareis": então isso se cumpriu no Senhor, porque, quando pendia na Cruz, expirou antes que chegassem à Cruz, e encontraram Seu Corpo já sem vida, e não quiseram quebrar-Lhe as pernas, para que se cumprisse o que estava escrito. Mas Ele deu esta promessa também a outros cristãos: "O Senhor guarda todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado." Portanto, Irmãos, se virmos algum Santo padecer tribulação, e porventura ou por algum médico assim cortado, ou por algum perseguidor assim dilacerado, que tenha os ossos quebrados; não digamos: Este homem não era justo, pois isto prometeu o Senhor aos seus justos, dos quais disse: "O Senhor guarda todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado." Queres ver que falou de outros ossos, aqueles que chamamos os firmes sustentáculos da fé, isto é, a paciência e a perseverança em todas as tribulações? Pois estes são os ossos que não se quebram. Ouvi, e vede na própria Paixão de nosso Senhor o que digo. O Senhor estava no meio, Crucificado; perto dEle, dois ladrões: um zombava, o outro creu: um foi condenado, o outro justificado: um teve seu castigo tanto neste mundo quanto no que há de vir, mas ao outro disse o Senhor: "Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso"; e, no entanto, os que vieram não quebraram os ossos do Senhor, mas os dos ladrões quebraram: tanto se quebraram os ossos do ladrão que blasfemava, quanto os do ladrão que creu. Onde está, pois, o que se diz: "O Senhor guarda todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado"? Eis que a quem disse: "Hoje estarás comigo no Paraíso", pôde guardar todos os seus ossos? Responde-te o Senhor: Sim, os guardei: pois o firme sustentáculo de sua fé não pôde ser quebrado por aqueles golpes com que se lhe quebraram as pernas.
24. "A morte dos pecadores é péssima" (v. 21). Atendei, Irmãos, por causa das coisas que disse. Verdadeiramente Grande é o Senhor, e Sua Misericórdia; verdadeiramente Grande é Aquele que nos deu a comer o Seu Corpo, no qual padeceu tão grandes coisas, e a beber o Seu Sangue. Como olha Ele para aqueles que pensam mal e dizem: "Tal homem morreu mal, foi devorado por feras: não era homem justo, por isso pereceu mal; pois de outro modo não teria perecido." Será então justo aquele que morre em sua própria casa e em sua própria cama? Isto é, então (dizes tu), o que me admira; porque conheço os pecados e os crimes deste mesmo homem, e, no entanto, morreu bem; em sua própria casa, dentro de suas próprias portas, sem nenhum incômodo de viagem, sem nenhum sequer em idade avançada. Ouvi: "A morte dos pecadores é péssima." O que te parece uma boa morte é péssima, se pudesses ver por dentro. Vês por fora este homem deitado em seu leito; vês por dentro que é levado ao inferno? Ouvi, Irmãos, e aprendei do Evangelho qual é a "péssima morte" dos pecadores. Não havia, naquele tempo, dois homens: um rico, que se vestia de púrpura e linho fino, e se banqueteava esplendidamente todos os dias; outro, um pobre, que jazia à sua porta cheio de chagas, e vinham os cães e lambiam-lhe as chagas, e ele desejava fartar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico? Ora, aconteceu que o pobre morreu (justo era aquele pobre), e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Aquele que viu o corpo dele jazendo à porta do rico, e ninguém para sepultá-lo, que porventura disse? Assim morra quem é meu inimigo; e quem quer que me persiga, assim eu o veja. Seu corpo é maldito de escarros, suas feridas fedem; e, no entanto, no seio de Abraão repousa. Se somos cristãos, creiamos: se não cremos, Irmãos, ninguém finja ser cristão. A fé nos conduz ao termo. Assim como o Senhor disse estas coisas, assim elas são. Fala, pois, um astrólogo, e é verdade, e fala Cristo, e é mentira? Mas de que morte morreu o rico? De que morte não deveria ser, em púrpura e linho fino, quão suntuosa, quão pomposa! Que cerimônias fúnebres houve ali! Em que aromas foi sepultado aquele corpo! E, no entanto, estando no inferno, em tormentos, do dedo daquele desprezado pobre desejou que se derramasse uma gota de água sobre sua língua ardente, e não a obteve. Aprendei, pois, o que significa "A morte dos pecadores é péssima"; e não busqueis leitos cobertos de vestes preciosas, nem que a carne seja envolta em muitas coisas ricas, amigos exibindo aparência de pranto, uma família batendo no peito, uma multidão de acompanhantes precedendo e seguindo quando o corpo é levado para fora, mármores e memoriais dourados. Pois, se buscardes estas coisas, elas vos respondem o que é falso: que de muitos, não pecadores leves, mas de todo ímpios, a morte é ótima, os quais mereceram ser assim pranteados, assim embalsamados, assim cobertos, assim levados, assim sepultados. Mas perguntai ao Evangelho, e ele mostrará à vossa fé a alma do rico ardendo em tormentos, à qual de nada aproveitaram todas aquelas honras e exéquias, que ao seu corpo morto a vaidade dos vivos prestou.
25. Mas porque há muitas espécies de pecadores, e não ser pecador é difícil, ou talvez nesta vida impossível, acrescentou logo de que espécie de pecadores é péssima a morte. "E os que odeiam o justo" (diz ele) "perecerão." Que justo, senão "Aquele que justifica o ímpio"? Quem, senão nosso Senhor Jesus Cristo, que é também "a propiciação por nossos pecados"? Os que O odeiam, pois, têm a péssima morte; porque morrem em seus pecados, os que não são por Ele reconciliados com nosso Deus. "Pois o Senhor resgata as almas de Seus servos." Mas segundo a alma se há de entender a morte, ou péssima ou ótima, não segundo o corpo, seja desonra, sejam honras que os homens veem. "E nenhum dos que confiam nEle perecerá" (v. 22); esta é a condição da justiça humana, que a vida mortal, por mais avançada que seja, porque sem pecado não pode existir, nisto não perece, enquanto confia nAquele em quem está a remissão dos pecados. Amém.
1. ...O título dele não nos causa demora, pois é breve, e não difícil de entender, especialmente para os que se nutrem na Igreja de Deus. Pois assim é: "Ao próprio Davi." O Salmo, pois, é ao próprio Davi: ora, Davi se interpreta "Forte de mão", ou "Desejável". O Salmo, pois, é ao Forte de mão, e Desejável, Àquele que por nós venceu a morte, que a nós prometeu a vida: pois nisto é Ele Forte de mão, que venceu a morte por nós; nisto é Ele Desejável, que nos prometeu a vida eterna. Pois que mais forte que aquela Mão que tocou o esquife, e o morto se levantou? Que mais forte que aquela Mão que venceu o mundo, não armada de aço, mas trespassada de madeira? Ou que mais desejável que Aquele a quem, não O tendo visto, os Mártires desejavam até morrer, para serem dignos de vir a Ele? Portanto, a Ele é o Salmo: a Ele o nosso coração, a Ele a nossa língua cante dignamente: se Ele mesmo se dignar dar-nos algo que cantar. ...
2. "Julga Tu, ó Senhor" (diz ele), "os que me fazem mal, e combate Tu contra os que combatem contra mim" (v. 1). "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" E como faz Deus isto por nós? "Toma" (diz ele) "as armas e o escudo, e levanta-Te em meu auxílio" (v. 2). Grande espetáculo é ver a Deus armado por ti. E qual é Seu Escudo, quais são Suas Armas? "Senhor," diz noutro lugar o mesmo homem que aqui também fala, "como com o escudo de Tua benevolência nos tens cercado." Mas Suas Armas, com que Ele possa não somente a nós defender, mas também ferir Seus inimigos, se bem tivermos progredido, seremos nós mesmos. Pois assim como dEle recebemos isto, que sejamos armados, assim Ele é armado por nós. Mas Ele é armado por aqueles que fez; nós somos armados com as coisas que recebemos dAquele que nos fez: estas nossas armas o Apóstolo, em certo lugar, chama "o escudo da Fé, o elmo da Salvação, e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus." Armou-nos Ele com tais armas quais ouvistes, armas admiráveis, e invencíveis, insuperáveis e resplandecentes; espirituais na verdade e invisíveis, porque temos também de combater contra inimigos invisíveis. Se vês teu inimigo, vejam-se as tuas armas. Somos armados com a fé naquelas coisas que não vemos, e derrubamos inimigos que não vemos. ...
3. "Lançai fora a arma, e detende o caminho contra os que me perseguem" (v. 3). Quem são os que te perseguem? Talvez teu próximo, ou aquele a quem ofendeste, ou a quem fizeste injúria, ou que quer tomar o que é teu, ou contra quem pregas a verdade, ou cujo pecado repreendes, ou a quem, vivendo mal, ofendes por bem viveres. Há, com efeito, também estes inimigos para nós, e eles nos perseguem: mas outros inimigos somos ensinados a conhecer, aqueles contra os quais lutamos invisivelmente, dos quais o Apóstolo nos adverte, dizendo: "Não temos que lutar contra a carne e o sangue", isto é, contra os homens; não contra os que vedes, mas contra os que não vedes; "contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes do mundo, desta escuridão." ... "Todo o mundo jaz no maligno"; por isso o Apóstolo explicou de que mundo eram príncipes, disse: "desta escuridão." Os príncipes deste mundo, digo, são os príncipes desta escuridão. ...
4. E que se segue? "Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha alma" (v. 4): pois para isto a buscam, para destruí-la. Oxalá a buscassem para o bem! pois em outro Salmo ele censura isto nos homens, que não havia quem buscasse a sua alma: "Faltou-me o refúgio: não havia quem buscasse a minha alma." Quem é este que diz: "Não havia quem buscasse a minha alma"? Não é acaso Aquele de quem, tão antecipadamente, foi predito: "Traspassaram as Minhas Mãos e os Meus Pés, contaram todos os Meus Ossos, olharam e me contemplaram, repartiram entre si as Minhas Vestes, e sobre a Minha Túnica lançaram sortes"? Ora, todas estas coisas foram feitas diante dos seus olhos, e não houve quem buscasse a Sua Alma. ...
5. ...Muitos foram confundidos para sua saúde: muitos, envergonhados, passaram da perseguição a Cristo para a sociedade de Seus membros com piedade devotada; e isto não teria sido, se não tivessem sido confundidos e envergonhados. Por isso ele lhes desejou o bem. ...Que não vão adiante, mas sigam; que não dêem conselho, mas o recebam. Pois Pedro quis ir adiante do Senhor, quando o Senhor falava da Sua futura Paixão: quis dar-Lhe, por assim dizer, conselho para a Sua saúde. O doente dar conselho ao Salvador para a Sua saúde! E que disse ele ao Senhor, ao ouvir afirmada a Sua futura Paixão? "Longe de Ti, Senhor. Tem compaixão de Ti mesmo. Isto não Te acontecerá." Quis ir adiante, para que o Senhor o seguisse; e que lhe disse Ele? "Vai-te para trás de Mim, Satanás." Indo adiante és Satanás, seguindo serás discípulo. O mesmo, pois, se diz também a estes: "Sejam voltados atrás e cobertos de confusão os que pensam mal contra mim." Pois, quando tiverem começado a seguir, já não pensarão mal contra mim, mas desejarão o meu bem.
6. E quanto aos outros? Pois nem todos são assim vencidos, a ponto de se converterem e crerem: muitos permanecem na obstinação, muitos conservam no coração o espírito de ir adiante, e, se não o exercem, contudo com ele labutam, e, achando ocasião, o manifestam. Destes, que se segue? "Sejam como pó diante do vento" (v. 5). "Não assim os ímpios, não assim; mas como o pó que o vento arrebata da face da terra." O vento é a tentação; o pó são os ímpios. Quando vem a tentação, o pó se levanta, não está firme nem resiste. "Sejam como pó diante do vento, e o Anjo do Senhor os aflija." "Seja o seu caminho trevas e escorregadio" (v. 6). Caminho horrível! Só as trevas, quem não teme? Só o caminho escorregadio, quem não evita? Em caminho tenebroso e escorregadio, como hás de andar? onde pôr o pé? Estes dois males são os grandes castigos dos homens: as trevas, a ignorância; o caminho escorregadio, a luxúria. "E o Anjo do Senhor os persiga"; para que não possam permanecer firmes. Pois qualquer um, em caminho tenebroso e escorregadio, quando vê que, se mover o pé, cairá, e não há luz diante dos seus pés, talvez se resolva a esperar até que venha a luz; mas aqui está o Anjo do Senhor a persegui-los. Estas coisas ele predisse que lhes viriam, não como quem desejasse que acontecessem. Ainda que o Profeta, no Espírito de Deus, assim diga estas coisas, tal como o próprio Deus o faz, com juízo certo, com juízo bom, justo, santo, tranquilo; não movido por ira, não por amarga inveja, não por desejo de vingar inimizades, mas de punir com justiça a maldade; não obstante, é uma profecia.
7. Mas por que tão grandes males? Por que mérito? Ouve por qual mérito. "Pois sem causa me esconderam a corrupção do seu laço" (v. 7). Pois foi a Ele, que é nossa Cabeça, observai bem, que os judeus fizeram isto: esconderam a corrupção do seu laço. Para quem esconderam o seu laço? Para Aquele que via os corações dos que o escondiam. Mas era Ele, contudo, entre eles, como quem ignora, como se fosse enganado, ao passo que eles é que estavam enganados nisto, em pensarem que Ele era enganado. Pois por isso Ele era como que enganado, vivendo entre eles, porque nós, entre tais homens, devemos assim viver, como quem, sem dúvida, é enganado. Ele viu o Seu traidor, e o escolheu, ainda mais, para uma obra necessária. Por sua maldade, Ele operou um grande bem: e, contudo, entre os doze foi ele escolhido, para que nem mesmo o pequeno número dos doze estivesse sem um mau. Isto foi um exemplo de paciência para nós, porque era necessário que vivêssemos entre os maus: era necessário que suportássemos os maus, conhecendo-os ou não os conhecendo: um exemplo de paciência Ele te deu, para que não desfalecesses, quando tivesses começado a viver entre os maus. E, porque aquela Escola de Cristo, nos doze, não falhou, quanto mais devemos nós ser firmes, quando na grande Igreja se cumpre o que foi predito acerca da mistura dos maus. ...
8. Mas, contudo, que se há de fazer? "Sem causa me esconderam a corrupção do seu laço." Que significa "Sem causa"? Nenhum mal lhes fiz, em nada os prejudiquei. "Em vão ultrajaram a minha alma." Que é "Em vão"? Falando falsamente, nada provando. "Venha sobre eles o laço que não conhecem" (v. 8). Magnífica retribuição, nada mais justo! Esconderam um laço para que eu não o soubesse: venha sobre eles um laço que eles não conhecem. Pois eu conheço o laço deles. Mas qual laço está vindo sobre eles? Aquele que não conhecem. Ouçamos, para que ele não fale, porventura, daquele mesmo. "Venha sobre eles o laço que não conhecem." Talvez aquele seja o que esconderam para ele, e este, outro, o que virá sobre eles mesmos. Não é assim: mas que é? "O ímpio será enlaçado pelas cordas dos seus próprios pecados." Por aí são enganados, por onde queriam enganar. Dali lhes virá o mal, de onde procuraram o mal. Pois se segue: "E que a rede que esconderam os prenda a eles mesmos, e caiam na sua própria armadilha." Como se alguém preparasse um cálice de veneno para outro, e, esquecendo-se, o bebesse ele mesmo: ou como se alguém cavasse uma cova, para que nela caísse o seu inimigo nas trevas, e ele mesmo, esquecido do que cavara, primeiro andasse por aquele caminho, e nela caísse. ...
9. Isto, pois, para os ímpios que quisessem me prejudicar: e para mim, que? "Mas a minha alma se alegrará no Senhor" (v. 9); como n'Aquele de quem ouviu: "Eu sou a tua salvação"; como quem não busca outras riquezas de fora; como quem não busca abundar em prazeres e bens da terra; mas amando livremente o verdadeiro Esposo, não d'Ele desejando receber algo que a deleite, mas propondo-se somente a Ele, por quem possa ser deleitada. Pois que coisa melhor do que Deus me será dada? Deus me ama: Deus te ama. Vê que Ele te propôs: Pede o que quiseres. Se o imperador te dissesse: Pede o que quiseres, que ordens, que dignidades não irromperias em pedir! Que grandes coisas te proporias, tanto a receber como a conceder! Quando Deus te diz: Pede o que quiseres, que pedirás? Esvazia a tua mente, exerce a tua avareza, estende-te o quanto puderes, e alarga o teu desejo: não é alguém qualquer, mas o Deus Todo-Poderoso que disse: Pede o que quiseres. Se és amante das posses, desejarás toda a terra, para que todos os que nascem sejam teus lavradores ou teus escravos. E que, quando tiveres possuído toda a terra? Pedirás o mar, no qual, contudo, não podes viver. Nesta ganância os peixes te levarão vantagem. Mas talvez possuas as ilhas. Ultrapassa também estas; pede o ar, ainda que não possas voar; estende o teu desejo até os céus, chama de teu o sol, a lua e as estrelas, porque Aquele que fez todas as coisas disse: Pede o que quiseres: contudo, nada acharás mais precioso, nada acharás melhor, do que Aquele mesmo que fez todas as coisas. A Ele busca, que fez todas as coisas, e n'Ele e d'Ele terás todas as coisas que Ele fez. Todas as coisas são preciosas, porque todas são belas; mas que mais belo do que Ele? Fortes são elas; mas que mais forte do que Ele? E nada Ele te daria antes de Si mesmo. Se algo melhor achaste, pede-o. Se pedires outra coisa qualquer, farás injúria a Ele, e dano a ti mesmo, ao preferires a Ele o que Ele fez, quando Ele te daria a Si mesmo, que fez todas as coisas. ...
"Mas a minha alma se alegrará no Senhor; exultará na Sua salvação." A salvação de Deus é Cristo: "Pois os meus olhos viram a Tua salvação."
10. "Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é semelhante a Ti" (v. 10). Quem pode dizer algo digno destas palavras? Penso que elas apenas devem ser proferidas, não expostas. Por que buscas isto ou aquilo? Que há semelhante ao teu Senhor? Tu O tens diante de ti. "Os injustos me anunciaram deleites, mas não segundo a Tua lei, ó Senhor!" Houve perseguidores que disseram: Adora Saturno, adora Mercúrio. Não adoro os ídolos (diz ele): "Senhor, quem é semelhante a Ti? Eles têm olhos, e não veem; têm ouvidos, mas não ouvem." "Senhor, quem é semelhante a Ti," que fizeste o olho para ver, o ouvido para ouvir? Mas eu (diz ele) não adoro os ídolos, pois a eles um artífice os fez. Adora uma árvore ou um monte; acaso um artífice os fez também? Também aqui, Senhor, quem é semelhante a Ti? Coisas terrenas me são mostradas; Tu és o Criador da terra. E destas, talvez, se voltem para a criação mais alta, e me digam: Adora a Lua, adora este Sol, que com a sua luz, como grande lâmpada nos Céus, faz o dia. Também aqui claramente digo: "Senhor, quem é semelhante a Ti?" A Lua e as Estrelas Tu as fizeste, o Sol para reger o dia Tu o acendeste, os Céus Tu os construíste. Há muitas coisas invisíveis melhores. Mas talvez também aqui me digam: Adora os Anjos, venera os Anjos. E também aqui direi: "Senhor, quem é semelhante a Ti?" Até os Anjos Tu os criaste. Os Anjos nada são, senão por Te verem. É melhor, com eles, possuir-Te, do que, adorando-os, decair de Ti.
11. Ó Corpo de Cristo, Santa Igreja, digam todos os teus ossos: "Senhor, quem é semelhante a Ti?" E se a carne, sob a perseguição, tiver decaído, digam os ossos: "Senhor, quem é semelhante a Ti?" Pois dos justos se diz: "O Senhor guarda todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado." De quantos justos, sob a perseguição, foram os ossos quebrados? Enfim, "o justo viverá pela fé," e "Cristo justifica o ímpio." Mas como justifica Ele a alguém, senão o que crê e confessa? "Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação." Por isso também aquele ladrão, embora do seu roubo conduzido ao juiz, e do juiz para a cruz, contudo, na própria cruz foi justificado: com o coração creu, com a boca confessou. Pois nem a um homem injusto e ainda não justificado teria o Senhor dito: "Hoje estarás comigo no Paraíso," e, no entanto, os seus ossos foram quebrados. Pois, quando vieram tirar os corpos, por causa do sábado que se aproximava, o Senhor foi achado já morto, e os Seus Ossos não foram quebrados. Mas dos que ainda viviam, para que fossem tirados, quebraram-se-lhes as pernas, para que, mortos por esta dor, pudessem ser sepultados. Não foram, pois, quebrados os ossos de um ladrão, que persistiu na sua impiedade sobre a cruz, e não também os do outro, que com o coração creu, e com a boca fez confissão para a salvação? Onde está, pois, o que foi dito: "O Senhor guarda todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado," senão que, no Corpo do Senhor, o nome de ossos é dado a todos os justos, os firmes de coração, os fortes, que não cedem a nenhuma perseguição, a nenhuma tentação, a ponto de consentir no mal? ...
12. "Que livras o pobre daquele que é mais forte do que ele; sim, o pobre e o necessitado daquele que o espolia." ...Quem é este que livras, senão Aquele que é Forte de mão? Este mesmo Davi livrará o pobre daquele que é mais forte do que ele. Pois o demônio era mais forte do que tu, e te retinha, porque te venceu, quando consentiste com ele. Mas que fez o Forte de mão? "Ninguém entra na casa do homem forte para saquear os seus bens, sem primeiro amarrar o homem forte." Por Seu próprio Poder, santíssimo, magnificentíssimo, amarrou Ele o demônio, lançando fora a arma para deter o caminho contra ele, a fim de livrar o pobre e o necessitado, a quem não havia quem socorresse. Pois quem é o teu socorro, senão o Senhor, a quem dizes: "Ó Senhor, minha Força e meu Redentor"? Se presumires da tua própria força, por aí mesmo hás de cair, do que presumiste: se de força alheia, ela quererá dominar-te, não socorrer-te. Só Ele, pois, deve ser buscado, que os redimiu, e os fez livres, e deu o Seu Sangue para os resgatar, e dos Seus servos fez Seus Irmãos. ...
13. Diga, pois, a nossa Cabeça: "Levantaram-se falsas testemunhas, imputaram-me coisas que eu não sabia" (v. 11). Mas digamos nós à nossa Cabeça: Senhor, que não sabias Tu? Não sabias Tu, na verdade, coisa alguma? Não conhecias Tu os corações dos que Te acusavam? Não previas Tu os seus enganos? Não Te entregaste Tu, sabendo-o, nas suas mãos? Não tinhas Tu vindo para que padecesses por eles? Que, pois, não sabias Tu? Ele não sabia o pecado, e por isso não sabia o pecado, não por não o julgar, mas por não o cometer. Há também frases desta espécie no uso diário, como quando dizes de alguém: Ele não sabe estar de pé, isto é, ele não está de pé; e: Ele não sabe fazer o bem, porque não faz o bem; e: Ele não sabe fazer o mal, porque não faz o mal. ...Que não sabia Cristo, senão blasfemar? Por isso foi Ele posto em questão pelos Seus perseguidores, e, porque falava a verdade, foi julgado ter falado blasfêmia? Mas por quem? Por aqueles de quem se segue: "Pagaram-me o mal pelo bem, e a esterilidade à minha alma" (v. 12). Eu lhes dei fecundidade, pagaram-me com esterilidade; dei vida, deram morte; dei honra, deram desonra; dei remédio, deram feridas; e, em tudo isto que me pagaram, houve verdadeiramente esterilidade. Esta esterilidade na árvore Ele amaldiçoou, quando, buscando fruto, não o achou. Folhas havia, e fruto não havia: palavras havia, e obras não havia. Vede a abundância de palavras, e a esterilidade de obras. "Tu que pregas que o homem não deve furtar, furtas: tu que dizes que o homem não deve cometer adultério, cometes adultério." Tais eram os que acusavam a Cristo de coisas que Ele não sabia.
14. "Mas eu, quando me perturbavam, vesti-me de saco, e humilhei minha alma com jejum, e minha oração voltará ao meu próprio seio" (v. 13)... Irmãos, se por um pequeno espaço, com piedosa curiosidade, levantarmos o véu, e perscrutarmos com o olhar atento do coração o íntimo desta Escritura, encontramos que também isto o Senhor fez. Ao saco, talvez Ele chame Sua carne mortal. Por que saco? Pela semelhança da carne do pecado. Pois diz o Apóstolo: "Deus enviou Seu Filho em semelhança de carne de pecado, para que, mediante o pecado, condenasse o pecado na carne": isto é, revestiu Seu próprio Filho de saco, para que, mediante o saco, condenasse os bodes. Não que houvesse pecado, não digo no Verbo de Deus, mas nem sequer naquela santa Alma e Mente de Homem, que o Verbo e a Sabedoria de Deus a Si tão unira que fosse Uma só Pessoa. Nem tampouco em Seu próprio Corpo houve qualquer pecado, mas a semelhança da carne de pecado havia no Senhor; porque a morte não existe senão pelo pecado, e certamente aquele Corpo era mortal. Pois, se não fosse mortal, não teria morrido; se não tivesse morrido, não teria ressuscitado; se não tivesse ressuscitado, não nos teria mostrado exemplo de vida eterna. Assim, pois, a morte, que é causada pelo pecado, é chamada pecado; como dizemos a língua grega, a língua latina, entendendo não o próprio membro da carne, mas o que é feito pelo membro da carne. Pois a língua, entre nossos membros, é uma dentre outras, como os olhos, o nariz, os ouvidos e os demais: mas a língua grega são as palavras gregas, não que a língua seja palavras, mas que as palavras se façam pela língua... Assim, pois, o pecado do Senhor é o que foi causado pelo pecado; porque Ele assumiu a carne, da mesma massa que, por pecado, merecera a morte. Pois, para dizê-lo mais brevemente: Maria, que era de Adão, morreu por causa do pecado; Adão morreu por causa do pecado; e a Carne do Senhor, que era de Maria, morreu para afastar o pecado. Com este saco vestiu-Se o Senhor, e por isso não foi conhecido, porque jazia oculto sob o saco. "Quando eles," diz Ele, "me perturbavam, vesti-me de saco": isto é, eles enfureciam-se, eu me ocultava. Pois, se Ele não tivesse querido ocultar-Se, tampouco teria podido morrer, já que, num só momento, uma única gota de Seu Poder — se é que se pode chamar gota — Ele exalou, quando O quiseram prender, e, à Sua única pergunta, "A quem buscais?", todos recuaram e caíram por terra. Tal poder não teria Ele podido humilhar-se na paixão, se não tivesse jazido oculto sob o saco.
15. Outrossim, se compreendemos o saco, como compreenderemos o jejum? Quis Cristo comer, quando buscou fruto na árvore, e, se o tivesse encontrado, teria comido? Quis Cristo beber, quando disse à mulher de Samaria, "Dá-me de beber"? Quando disse na Cruz, "Tenho sede"? Pois que fome, que sede tinha Cristo, senão de nossas boas obras? Porque naqueles que O crucificaram e perseguiram Ele não encontrara boas obras, jejuou; pois eles recompensaram Sua alma com esterilidade. Pois que jejum foi o Seu, que apenas um ladrão encontrou, do qual, na Cruz, pudesse provar! Pois os Apóstolos haviam fugido, e se haviam ocultado entre a multidão. E até mesmo Pedro, que até à morte de seu Senhor prometera perseverar, já O havia negado três vezes, já havia chorado, e ainda jazia oculto entre a multidão, ainda temia ser reconhecido. Por fim, tendo-O visto morto, todos eles desesperaram de sua própria salvação, e desesperados os encontrou Ele, depois de Sua ressurreição, e, quando falou com eles, achou-os aflitos e chorosos, já não esperando coisa alguma... Em grande jejum teria permanecido o Senhor, se não os houvesse restaurado para se alimentar deles. Pois Ele os restaurou, Ele os consolou, Ele os confirmou, e em Seu próprio Corpo os converteu. Deste modo, pois, também esteve nosso Senhor em jejum.
16. "E minha oração voltará ao meu próprio seio." No seio deste versículo há claramente uma grande profundidade, e conceda o Senhor que nos seja dado sondá-la. Pois no "seio" entende-se um segredo. E nós mesmos, Irmãos, aqui somos bem admoestados a orar dentro de nosso próprio seio, onde Deus vê, onde Deus ouve, onde nenhum olho humano penetra, onde ninguém vê senão Aquele que socorre; onde Susana orou, e sua voz, ainda que não fosse ouvida pelos homens, foi todavia ouvida por Deus... Lemos também que no monte Jesus orou a sós, lemos que passou a noite em oração, mesmo no tempo de Sua Paixão. Que, pois? "E minha oração voltará ao meu próprio seio." Não sei o que melhor entender acerca do Senhor: tomai entretanto o que agora ocorre; talvez algo melhor ocorra depois, ou a mim ou a algum melhor: "Minha oração voltará ao meu próprio seio": isto entendo que se diz, porque em Seu próprio Seio Ele tinha o Pai. "Pois Deus estava em Cristo reconciliando o mundo Consigo mesmo." Em Si mesmo tinha Ele Aquele a quem orava. Não estava dEle longe, pois Ele próprio dissera: "Eu estou no Pai, e o Pai está em Mim." Mas, porque a oração pertence antes ao Homem verdadeiro (pois, enquanto Cristo é o Verbo, Ele não ora, mas ouve a oração; e não busca ser socorrido por Si mesmo, mas com o Pai socorre a todos): que é, "minha oração voltará ao meu próprio seio", senão que em Mim minha Humanidade invoca em Mim minha Divindade.
1. ... "Disse o ímpio em seu coração que há de pecar: não há temor de Deus diante de seus olhos" (v. 1). Não de um só homem, mas de uma raça de homens ímpios fala, os quais lutam contra si mesmos, por não quererem entender, para que assim vivam bem; não porque não possam, mas porque não querem. Pois uma coisa é quando alguém se esforça por entender algo, e por infirmidade da carne não pode; como diz a Escritura em certo lugar, "Porque o corpo corruptível avilta a alma, e a morada terrena deprime a mente que medita sobre muitas coisas"; outra coisa é quando o coração humano age maliciosamente contra si mesmo, de modo que o que poderia entender, se tivesse boa vontade para tanto, não entende, não porque seja difícil, mas porque a vontade lhe é contrária. E assim é quando os homens amam seus próprios pecados, e odeiam os Mandamentos de Deus. Pois o Verbo de Deus é teu adversário, se és amigo de tua impiedade; mas se és adversário de tua impiedade, o Verbo de Deus é teu amigo, tanto quanto adversário de tua impiedade...
2. "Pois agiu enganosamente diante de Seus olhos" (v. 2). Diante dos olhos de quem? Diante dEle, cujo temor não estava diante dos olhos daquele que agia enganosamente. "Para descobrir sua iniquidade, e odiá-la." Agiu de modo a não descobri-la. Pois há homens que como que se esforçam por buscar sua iniquidade, e temem encontrá-la; porque, se a encontrassem, dir-se-lhes-ia: Aparta-te dela: isto fizeste antes de o saberes; praticaste a iniquidade estando em ignorância; Deus concede perdão: agora que a descobriste, abandona-a, para que a tua ignorância facilmente se conceda perdão; e para que, com rosto sereno, possas dizer a Deus: "Não te lembres dos pecados de minha juventude, e de minha ignorância." Assim a busca, assim teme encontrá-la; pois a busca enganosamente. Quando diz o homem: eu não sabia que aquilo era pecado? Quando viu que é pecado, e cessa de cometer o pecado que praticava apenas por ignorância: este, na verdade, quereria conhecer seu pecado, para descobri-lo e odiá-lo. Mas agora muitos "agem enganosamente para descobrir sua iniquidade": não agem de coração para descobri-la e odiá-la. Mas porque na própria busca da iniquidade há engano, no encontrá-la haverá defesa dela. Pois, quando alguém encontrou sua iniquidade, eis que já lhe é manifesto que é iniquidade. Não a faças, dizes-lhe tu. E aquele que agiu enganosamente para descobri-la, agora que a encontrou, não a odeia; pois que diz ele? Quantos fazem isto! Quem há que não o faça? E há de Deus destruir a todos? Ou ao menos diz isto: se Deus não quisesse que estas coisas se fizessem, viveriam os homens que cometem o mesmo? Vês que agiste enganosamente para descobrir tua iniquidade? Pois, se não enganosamente, mas sinceramente tivesses agido, já a terias descoberto, e odiado; agora a descobriste, e a defendes; logo, agiste enganosamente, quando a buscavas.
3. "As palavras de sua boca são iniquidade e engano: não quis entender, para fazer o bem" (v. 3). Vedes que atribui isto à vontade: pois há homens que quereriam entender e não podem, e há homens que não quiseram entender, e por isso não entendem. "Não quis entender, para fazer o bem."
4. "Meditou a iniquidade em seu leito." Que disse Ele, "em seu leito"? (v. 4). "Disse o ímpio em seu coração que há de pecar": o que acima disse "em seu coração", aqui disse "em seu leito". Nosso leito é nosso coração: ali sofremos a agitação de uma má consciência; e ali repousamos quando nossa consciência é boa. Quem ama o leito de seu coração, faça ali algo de bom. Ali está nosso leito, onde o Senhor Jesus Cristo nos manda orar. "Entra em teu quarto, e fecha tua porta." Que é "fecha tua porta"? Não esperes de Deus coisas que são de fora, mas as que são de dentro; "e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará abertamente." Quem é aquele que não fecha a porta? Aquele que pede a Deus muitas dessas coisas, e de tal modo dirige todas as suas orações, que possa receber os bens que são deste mundo. Tua porta está aberta, a multidão vê quando oras. Que é fechar tua porta? Pedir a Deus aquilo que só Deus sabe como se dá. Qual é aquilo por que oras, quando fechaste a porta? Aquilo que "olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem". E talvez não tenha ainda entrado em teu próprio leito, isto é, em teu coração. Mas Deus sabe o que há de dar: mas quando será isto? Quando o Senhor se revelar, quando o Juiz aparecer...
5. "Firmou-se em todo caminho que não é bom." Que é, "firmou-se"? Pecou perseverantemente. Donde também de certo homem pio e bom se diz: "Não se deteve no caminho dos pecadores." Como este "não se deteve", assim aquele "firmou-se". "Mas a maldade não odiou." Aí está o fim, aí o fruto: se o homem não pode deixar de ter maldade, que ao menos a odeie. Pois, quando a odeias, dificilmente te ocorre praticar alguma maldade. Pois o pecado está em nosso corpo mortal, mas que diz o Apóstolo? "Não reine o pecado em vosso corpo mortal, para que lhe obedeçais em suas concupiscências." Quando deixará de estar nele? Quando se cumprir em nós aquilo que ele diz: "Quando este corruptível se revestir da incorruptibilidade, e este mortal se revestir da imortalidade." Antes que isto se cumpra, há um deleite no pecado do corpo, mas maior é o deleite e o prazer no Verbo da Sabedoria, no Mandamento de Deus. Vence o pecado e sua concupiscência. Odeia o pecado e a iniquidade, para que te unas a Deus, que também as odeia como tu. Ora, unido em mente à Lei de Deus, em mente serves à Lei de Deus. E se na carne, por isso, serves à lei do pecado, porque há em ti certos deleites carnais, então não haverá nenhum quando já não mais lutares. Uma coisa é não lutar, e estar em verdadeira e duradoura paz; outra é lutar e vencer; outra é lutar e ser vencido; outra é não lutar de modo algum, mas ser arrebatado...
6. "Tua misericórdia, Senhor, está nos céus, e Tua verdade alcança até as nuvens" (v. 5). Não sei qual Misericórdia Sua ele quer dizer, que está nos céus. Pois a Misericórdia do Senhor também está na terra. Tens escrito: "A terra está cheia da Misericórdia do Senhor." De que Misericórdia, pois, fala, quando diz, "Tua Misericórdia, Senhor, está nos céus"? Os dons de Deus são em parte temporais e terrenos, em parte eternos e celestiais. Quem, por isto, adora a Deus, para receber aqueles bens temporais e terrenos, que são abertos a todos, é ainda como que semelhante aos irracionais: goza, na verdade, da Misericórdia de Deus, mas não daquela que é exceção, que não será dada, senão somente aos justos, aos santos, aos bons. Quais são os dons que a todos abundam? "Faz nascer Seu sol sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos." Quem não tem esta Misericórdia de Deus, primeiramente porque tem o ser, porque se distingue dos irracionais, porque é animal racional, de modo a entender a Deus; em segundo lugar, porque goza desta luz, deste ar, da chuva, dos frutos, da diversidade das estações, e de todos os consolos terrenos, da saúde do corpo, do afeto dos amigos, da segurança de sua família? Todos estes são bens, e são dons de Deus...
7. Mas este homem entendeu corretamente qual misericórdia deveria pedir a Deus. "Tua Misericórdia, Senhor, está nos Céus; e Tua Verdade alcança até as nuvens." Isto é, a Misericórdia que dás a Teus Santos é Celestial, não terrena; é Eterna, não temporal. E como poderias declará-la aos homens? Porque "Tua Verdade alcança até as nuvens." Pois quem poderia conhecer a Misericórdia Celestial de Deus, se Deus não a declarasse aos homens? Como a declarou? Enviando Sua verdade até as nuvens. Que são as nuvens? Os Pregadores da Palavra de Deus... A Verdade alcançou até as nuvens: por isso pôde ser-nos declarada a Misericórdia de Deus, que está no Céu e não na terra. E, na verdade, Irmãos, as nuvens são os Pregadores da Palavra da Verdade. Quando Deus ameaça por meio de Seus Pregadores, troveja pelas nuvens. Quando Deus opera milagres por meio de Seus Pregadores, relampeja pelas nuvens, aterroriza pelas nuvens, e rega pela chuva. Aqueles Pregadores, pois, por quem é pregado o Evangelho de Deus, são as nuvens de Deus. Esperemos, pois, a Misericórdia, mas aquela que está nos Céus.
8. "Tua Justiça é como os montes de Deus: Teus Juízos são um grande abismo" (v. 6). Quem são os montes de Deus? Aqueles que se chamam nuvens, esses mesmos são também os montes de Deus. Os grandes Pregadores são os montes de Deus. E assim como, ao nascer o sol, primeiro reveste de luz os montes, e dali a luz desce às partes mais baixas da terra: assim nosso Senhor Jesus Cristo, quando veio, primeiro irradiou a altura dos Apóstolos, primeiro iluminou os montes, e assim Sua Luz desceu ao vale do mundo. E por isso diz Ele em certo Salmo: "Levantei meus olhos aos montes, de onde vem o meu socorro." Mas não penses que os próprios montes te darão socorro: pois recebem o que podem dar, não dão do que é seu. E se permaneceres nos montes, tua esperança não será firme: mas naquEle que ilumina os montes deve estar tua esperança e presunção. Teu socorro, na verdade, virá a ti através dos montes, porque as Escrituras te são administradas através dos montes, através dos grandes Pregadores da Verdade: mas não fixes neles tua esperança. Ouve o que diz em seguida: "Levantei meus olhos aos montes, de onde vem o meu socorro." Que, pois? Dão-te os montes socorro? Não; ouve o que se segue: "Meu socorro vem do Senhor, que fez o Céu e a terra." Através dos montes vem o socorro, mas não dos montes. De quem, pois? "Do Senhor, que fez o Céu e a terra"...
9. "Teus Juízos são como o grande abismo." Ao abismo chama a profundeza do pecado, aonde chega todo aquele que despreza a Deus; como em certo lugar se diz, "Deus os entregou às concupiscências de seus próprios corações, para fazerem coisas que não convêm"... Porque então eram soberbos e ingratos, foram julgados dignos de ser entregues às concupiscências de seus próprios corações, e se tornaram um grande abismo, de modo que não somente pecaram, mas também agiram astutamente, para não entenderem sua iniquidade, e odiá-la. Essa é a profundeza da maldade: não querer descobri-la e odiá-la. Mas como se chega a essa profundeza, vê: "Teus Juízos são o grande abismo." Assim como os montes se formam pela Justiça de Deus, os quais, por Sua Graça, se tornam grandes: assim também por Seus Juízos chegam à profundeza os que mais afundam. Por isto, pois, que os montes te deleitem, por isto afasta-te do abismo, e volta-te para aquilo de que se diz, "Meu socorro vem do Senhor." Mas por qual meio? "Levantei meus olhos aos montes." Que significa isto? Falarei claramente. Na Igreja de Deus encontras um abismo, encontras também montes; encontras ali poucos bons, porque os montes são poucos, o abismo largo; isto é, encontras muitos vivendo mal segundo a ira de Deus, porque de tal modo agiram que foram entregues às concupiscências de seu próprio coração; assim agora defendem seus pecados e não os confessam; mas dizem: Por quê? Que fiz eu? Fulano fez isto, e fulano fez aquilo. Agora chegam até a defender o que a Palavra Divina reprova. Este é o abismo. Por isso, em certo lugar, diz a Escritura (ouvi este abismo): "O pecador, quando chega à profundeza do pecado, despreza." Vede: "Teus Juízos são como o grande abismo." Mas ainda não és montanha; ainda não estás no abismo; foge do abismo, tende para os montes; mas ainda não permaneças nos montes. "Pois teu socorro vem do Senhor, que fez o Céu e a terra."
10. Porque disse, Tua Misericórdia está nos Céus, para que se saiba que também está na terra, disse: "Senhor, Tu salvas homens e animais, quanto se multiplica Tua Misericórdia, ó Deus" (v. 7). Grande é Tua Misericórdia, e multiforme é Tua Misericórdia, ó Deus; e isto mostras Tu tanto ao homem quanto ao animal. Pois de quem vem a salvação dos homens? De Deus. Não vem também de Deus a salvação dos animais? Pois Aquele que fez o homem, fez também os animais; Aquele que fez ambos, salva a ambos; mas a salvação dos animais é temporal. Há, porém, os que como grande coisa pedem a Deus isto que Ele deu aos animais. "Tua Misericórdia, ó Deus, é multiplicada," de modo que não somente aos homens, mas também aos animais é dada a mesma salvação que é dada aos homens, uma salvação carnal e temporal.
11. Não têm, pois, os homens algo reservado junto a Deus, que os animais não merecem, e aonde os animais não chegam? Têm, evidentemente. E onde está aquilo que têm? "Os filhos dos homens confiam à sombra de Tuas asas." Atendei, meus Amados, a esta sentença deveras aprazível: "Tu salvas homens e animais." Primeiro, falou de "homem e animal", depois de "filhos dos homens"; como se "homens" fosse uma coisa, "filhos dos homens" outra. Às vezes, na Escritura, filhos dos homens se diz de modo geral de todos os homens; às vezes, de modo próprio, com significação própria, de sorte que nem todos os homens se entendem; principalmente quando há distinção. Pois não sem razão está aqui posto: "Senhor, Tu salvas homens e animais: mas os filhos dos homens"; como que, deixando de lado os primeiros, mantém à parte os filhos dos homens. À parte de quem? Não somente dos animais, mas também dos homens que pedem a Deus a salvação dos animais, e isto desejam como grande coisa. Quem são, pois, os filhos dos homens? Aqueles que confiam à sombra de Suas asas. Pois aqueles homens, juntamente com os animais, se alegram na posse; mas os filhos dos homens se alegram na esperança: aqueles buscam os bens presentes junto com os animais; estes esperam os bens futuros junto com os Anjos...
Serão saciados com a fartura da Tua Casa" (v. 8). Ele nos promete algo grande. Quis dizê-lo, e não o diz. Não pode Ele, ou não somos nós capazes de recebê-lo? Ouso, meus Irmãos, dizer, mesmo das línguas e corações santos pelos quais a Verdade nos é anunciada, que não pode ser dito o que eles anunciaram, nem sequer pensado. Pois é coisa grande e inefável; e mesmo eles viram por espelho em enigma, como diz o Apóstolo: "Porque agora vemos por espelho, em enigma; mas então, face a face." Eis que aqueles que viram por espelho em enigma assim prorromperam. Que seremos, pois, nós, quando virmos face a face? Aquilo com que eles se afligiam no coração e não podiam trazer à luz com a língua, para que os homens o recebessem. Pois que necessidade havia de dizer: "Serão saciados com a fartura da Tua Casa"? Buscou uma palavra com que exprimisse, a partir das coisas humanas, o que queria dizer; e porque via que os homens que se afogam na embriaguez recebem, na verdade, o vinho sem medida, mas perdem os sentidos, viu o que dizer; pois quando for recebida aquela alegria inefável, então se perderá de certo modo a alma humana, tornar-se-á divina, e será saciada com a fartura da Casa de Deus. Por isso também em outro Salmo se diz: "O teu cálice inebriante, quão excelente é!" Com este cálice foram saciados os Mártires, que, indo ao seu suplício, não conheciam a si mesmos. Que coisa tão inebriada, que não reconhecesse esposa que chorava, nem filhos, nem pais? Não os conheciam, não pensavam que estivessem diante de seus olhos. Não te admires: estavam embriagados. Com que se embriagaram assim? Eis que haviam recebido um cálice com que foram saciados. Por isso ele também dá graças a Deus, dizendo: "Que darei ao Senhor por todos os Seus benefícios para comigo? Tomarei o cálice da Salvação, e invocarei o Nome do Senhor." Portanto, Irmãos dos homens, sejamos filhos, e confiemos sob a sombra de Suas asas, e sejamos saciados com a fartura de Sua Casa. Como pude, falei; e quanto posso, vejo; e quanto vejo, não posso dizer. "E do torrente de Teu Deleite Tu os farás beber." Chamamos torrente à água que vem com uma cheia. Haverá uma cheia da Misericórdia de Deus para transbordar e inebriar aqueles que agora confiam sob a sombra de Suas asas. Que é esse Deleite? Como que um torrente a inebriar os sedentos. Que aquele, pois, que agora tem sede, deposite a esperança: quem agora tem sede, tenha esperança; quando embriagado, terá a posse; antes de possuir, tenha sede em esperança. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos."
Com que fonte, pois, serás transbordado, e donde corre tal torrente de Seu Deleite? "Porque contigo," diz ele, "está a fonte da Vida." Que é a fonte da Vida, senão Cristo? Ele veio a ti na carne, para orvalhar teus lábios sedentos: há de saciar-te confiante, Aquele que te orvalhou sedento. "Porque contigo está a fonte da Vida; em Tua Luz veremos a luz" (v. 9). Aqui, fonte é uma coisa, luz é outra: ali não assim. Pois aquilo que é a Fonte, o mesmo é também Luz: e o que quiseres, assim a chamas, pois Ela não é o que a chamas: porque não podes encontrar nome que Lhe convenha; pois Ela não permanece em um só nome. Se disseres que Ela é somente Luz, dir-se-á a ti: Então sem razão me dizem que tenha fome e sede, pois quem há que coma luz? Diz-se-me clara e diretamente: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus." Se é Luz, os olhos devo preparar. Prepara também os lábios; pois aquilo que é Luz é também Fonte: Fonte, porque sacia o sedento; Luz, porque ilumina o cego. Aqui, às vezes, a luz está num lugar, a fonte em outro. Pois às vezes as fontes correm mesmo nas trevas; e às vezes, no deserto, padeces o sol e não encontras fonte: aqui, pois, podem estas duas coisas separar-se; ali não serás fatigado, porque ali há Fonte; ali não serás obscurecido, porque ali há Luz.
Mostra a Tua Misericórdia aos que Te conhecem; e a Tua Justiça aos que são retos de coração" (v. 10). Como disse, retos de coração são aqueles que seguem nesta vida a Vontade de Deus. A vontade de Deus é, por vezes, que estejas são; por vezes, que estejas enfermo. Se, quando estás são, a Vontade de Deus te é doce, e, quando estás enfermo, a Vontade de Deus te é amarga, não és reto de coração. Por quê? Porque não queres endireitar tua vontade segundo a Vontade de Deus, mas queres dobrar a Vontade de Deus à tua. Aquela é reta, mas tu és tortuoso: tua vontade deve endireitar-se a Ela, não Ela tornar-se tortuosa para ti; e assim terás um coração reto. Vai-te bem neste mundo; seja Deus bendito, que te consola; vai-te mal neste mundo; seja Deus bendito, porque te castiga e te prova; e assim serás reto de coração, dizendo: "Bendirei ao Senhor em todo tempo: o Seu louvor estará sempre em minha boca."
Não venha contra mim o pé da soberba" (v. 11). Mas agora disse ele: os filhos dos homens confiarão sob a sombra de Tuas asas: serão saciados com a fartura de Tua Casa. Quando alguém começou a ser copiosamente transbordado por aquela Fonte, guarde-se de ensoberbecer-se. Pois isto não faltou a Adão, o primeiro homem: mas veio contra ele o pé da soberba, e a mão do pecador o removeu, isto é, a soberba mão do diabo. Como aquele que o seduziu disse de si mesmo: "Sentar-me-ei nos lados do aquilão", assim o persuadiu, dizendo: "Provai, e sereis como deuses." Por soberba, pois, caímos tanto que chegamos a esta mortalidade. E porque a soberba nos havia ferido, a humildade nos sara. Deus veio humildemente, para que de tão grande ferida da soberba pudesse curar o homem. Veio, pois "o Verbo se fez carne, e habitou entre nós." Foi tomado pelos judeus; foi por eles injuriado. Ouvistes, quando se lia o Evangelho, o que disseram, e a Quem o disseram: "Tens demônio"; e Ele não disse: Vós tendes demônio, pois ainda estais em vossos pecados, e o demônio possui vossos corações. Não disse isto, o que, se o tivesse dito, teria dito com verdade; mas não convinha que o dissesse, para que não parecesse não pregar a Verdade, mas retorquir a maledicência. Deixou passar o que ouviu, como se não o ouvisse. Pois era Médico, e para curar o louco viera. Como o médico não se importa com o que possa ouvir do louco, mas com o modo de o louco recobrar-se e tornar-se são; nem sequer, se recebe um golpe do louco, se importa; mas, enquanto lhe dá novas feridas, cura sua antiga febre: assim também o Senhor veio ao enfermo, ao louco veio, para que, o que quer que ouvisse, o que quer que padecesse, o desprezasse; ensinando-nos por isso mesmo a humildade, para que, instruídos pela humildade, fôssemos curados da soberba: da qual aqui ele ora ser livrado, dizendo: "Não venha contra mim o pé da soberba; nem a mão do pecador me remova." Pois, se vier o pé da soberba, a mão do pecador remove. Que é a mão do pecador? A operação daquele que mal aconselha. Ensoberbeceste-te? Depressa te corrompe aquele que mal aconselha. Firma-te humildemente em Deus, e não te importes muito com o que se te diz. Daí vem o que em outro lugar se diz: "Dos meus pecados ocultos me limpa Tu; e dos alheios também guarda o Teu servo." Que é "dos meus pecados ocultos"? "Não venha contra mim o pé da soberba." Que é "dos pecados alheios também guarda o Teu servo"? "Não me remova a mão do ímpio." Guarda o que está dentro, e não temerás de fora.
Mas por que tanto temes isto? Porque está dito: "Ali caíram todos os que praticam a iniquidade" (v. 12); de modo que vieram a cair naquele abismo de que se diz: "Teus juízos são como grande abismo": de modo que chegaram até àquela profundeza em que caíram os pecadores que desprezam. "Caíram." Por onde primeiro caíram? Pelo pé da soberba. Ouve o pé da soberba. "Quando conheceram a Deus, não O glorificaram como a Deus." Por isso veio contra eles o pé da soberba, pelo qual vieram à profundeza. "Deus os entregou às concupiscências de seus próprios corações, para fazerem coisas que não convêm." A raiz do pecado, e a cabeça do pecado temeu aquele que disse: "Não venha contra mim o pé da soberba." Por que disse "o pé"? Porque, andando soberbamente, o homem desertou de Deus, e dEle se apartou. Ao seu afeto chamou seu pé. "Não venha contra mim o pé da soberba: não me remova a mão do ímpio": isto é, não me removam de Ti as obras dos ímpios, para que eu queira imitá-los. Mas por que disse ele isto contra a soberba: "Ali caíram todos os que praticam a iniquidade"? Porque aqueles que agora são ímpios, por soberba caíram. Por isso, quando o Senhor quis acautelar a Sua Igreja, disse: "Ele vigiará tua cabeça, e tu vigiarás o seu calcanhar." A serpente vigia quando o pé da soberba possa vir contra ti, quando possas cair, para te derrubar. Mas vigia tu a sua cabeça: o princípio de todo pecado é a soberba. "Ali caíram todos os que praticam a iniquidade: são expulsos, e não podem estar em pé." Primeiro ele, que na Verdade não permaneceu; depois, por meio dele, aqueles a quem Deus expulsou do Paraíso. Por isso aquele, o humilde, que disse não ser digno de desatar-Lhe a correia da sandália, não é expulso, mas permanece em pé e O ouve, e se alegra grandemente por causa da voz do Esposo; não por causa da sua própria, para que não venha contra ele o pé da soberba, e seja expulso, e não possa estar em pé. ...
É isto que te perturba, tu que és cristão: vês homens de vida má prosperarem, e cercados de abundância de coisas como estas; vês que gozam de saúde, distinguidos por honras soberbas; vês que sua família não é visitada pela desgraça; a felicidade de seus parentes, o obséquio de seus dependentes, sua influência mais dominante, sua vida ininterrupta por qualquer acontecimento triste; vês que seus costumes são mui dissolutos, seus recursos externos mui opulentos; e teu coração diz que não há juízo Divino; que todas as coisas são levadas de cá para lá pelo acaso, e são agitadas de modo desordenado e irregular. Pois, se Deus, dizes tu, atentasse para as coisas humanas, floresceria a sua iniquidade, e padeceria a minha inocência? Toda enfermidade da alma tem na Escritura seu próprio remédio. Aquele, pois, cuja enfermidade é desta espécie, que diz em seu coração coisas semelhantes a estas, beba este Salmo como poção. ...
Com terror ouvem falar da vinda do último dia aqueles que não se hão de assegurar por viverem bem: e que de bom grado viveriam mal, por longo tempo. Mas foi para fins úteis que Deus quis que aquele dia permanecesse desconhecido; para que o coração esteja sempre pronto a esperar aquilo que sabe que há de vir, mas não sabe quando há de vir. Vendo, porém, que o nosso Senhor Jesus Cristo nos foi enviado para ser nosso "Mestre", disse Ele que "daquele dia nem mesmo o Filho do Homem sabia", porque não fazia parte do Seu ofício de Mestre que por Ele nos fosse dado a conhecer. Pois, na verdade, o Pai nada sabe que o Filho não saiba; visto que aquela é a própria Ciência do Pai, que é a Sua Sabedoria; ora, o Seu Filho, o Seu Verbo, é "a Sua Sabedoria". Mas, porque não nos convinha saber aquilo que, todavia, era sabido por Aquele que veio, na verdade, ensinar-nos, ainda que não para nos ensinar o que não nos convinha saber, Ele não só, como Mestre, nos ensinou algo, mas também, como Mestre, deixou algo por ensinar. Pois, como Mestre, sabia tanto ensinar-nos o que nos era proveitoso, como não nos ensinar o que nos seria nocivo. Assim, pois, segundo certa forma de falar, diz-se que o Filho não sabe aquilo que não ensina: isto é, do mesmo modo que diariamente costumamos falar, diz-se que Ele não sabe aquilo que faz com que não saibamos. ...
Sobre a primeira parte do Salmo.
Não tenhas inveja dos que fazem o mal, nem sejas invejoso contra os que praticam a iniquidade" (v. 1). "Porque cedo se secarão como a erva, e murcharão como as hortaliças do prado" (v. 2). Aquilo que a ti te parece longo, é "cedo" aos olhos de Deus. Conforma-te a Deus, e te será "cedo". Aquilo que aqui ele chama "erva", entendemo-lo pelas "hortaliças do prado". São coisas de nenhum valor, que ocupam somente a superfície da terra, não têm profundidade de raiz. No inverno, pois, estão verdes; mas quando o sol do estio começar a queimar, murcharão. Pois agora é a estação do inverno. A tua glória ainda não aparece. Mas se o teu amor tiver uma raiz profunda, como a de muitas árvores durante o inverno, a geada passa, o estio (isto é, o Dia do Juízo) virá; então murchará o verdor da erva. Então aparecerá a glória das árvores. "Porque vós" (diz o Apóstolo) "estais mortos", assim como as árvores parecem estar no inverno, como que mortas, como que murchas. Qual é, então, a nossa esperança, se estamos mortos? A raiz está dentro; onde está a nossa raiz, ali está também a nossa vida, pois ali está fixado o nosso amor. "E a vossa vida está escondida com Cristo em Deus." Quando há de murchar aquele que assim está enraizado? Mas quando será a nossa primavera? Quando o nosso estio? Quando a honra da folhagem nos revestirá, e a plenitude do fruto nos enriquecerá? Quando há de suceder isto? Ouve o que se segue: "Quando Cristo, que é a nossa vida, aparecer, então vós também aparecereis com Ele em glória." E que faremos, pois, agora? "Não tenhas inveja dos que fazem o mal, nem sejas invejoso contra os que praticam a iniquidade. Porque cedo se secarão como a erva, e murcharão como as hortaliças do prado."
O que deverias fazer, então? "Confia no Senhor" (v. 3). Pois também eles confiam, mas não "no Senhor". A esperança deles é perecível. A esperança deles é breve, frágil, fugaz, transitória, sem fundamento. "Confia tu no Senhor." "Eis que", dizes tu, "eu confio; que hei de fazer?"
"E faze o bem." Não faças aquele mal que vês naqueles homens, que prosperam na iniquidade. "Faze o bem, e habita na terra." Para que porventura não estejas fazendo o bem sem "habitar na terra". Pois é a Igreja que é a terra do Senhor. É a ela que Ele, o Pai, o lavrador dela, rega e cultiva. Pois há muitos que, por assim dizer, fazem boas obras, mas contudo, por não "habitarem na terra", não pertencem ao lavrador. Faze, portanto, o teu bem, não fora da terra, mas "habita na terra". E que terei eu?
"E serás alimentado nas suas riquezas." Quais são as riquezas daquela terra? A riqueza dela é o seu Senhor! A riqueza dela é o seu Deus! É a Ele que se diz: "O Senhor é a porção da minha herança, e do meu cálice." Num discurso recente sugerimos a vós, caríssimos, que Deus é a nossa posse, e que nós somos ao mesmo tempo posse de Deus. Ouvi como Ele mesmo é a riqueza daquela terra.
"Deleita-te no Senhor" (v. 4). Como se tivesses feito a pergunta, e tivesses dito "Mostra-me as riquezas daquela terra, em que me mandas habitar", ele diz: "Deleita-te no Senhor."
5. "E Ele te dará os desejos do teu coração." Entendei em seu próprio significado, "os desejos do teu coração". Distingui os "desejos do teu coração" dos desejos da tua carne; distingui quanto puderdes. Não é sem sentido que se diz num certo Salmo: "Deus é" (a força) "do meu coração." Pois ali se diz em seguida: "E Deus é a minha porção para sempre." Por exemplo: alguém padece de cegueira corporal. Pede que recupere a vista. Que peça; pois Deus também faz isso, e concede também essas bênçãos. Mas essas coisas são pedidas até pelos ímpios. Este é um desejo da carne. Alguém está enfermo, e ora para ser curado. Do limiar da morte é restituído à saúde. Isso também é um desejo da carne, como todos os deste gênero. Que é "o desejo do coração"? Assim como o desejo da carne é querer ter a vista restaurada, para poder, isto é, ver aquela luz, que pode ser vista por tais olhos; assim "o desejo do coração" refere-se a um outro gênero de luz. Pois: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. Deleita-te tu no Senhor; e Ele te dará os desejos do teu coração."
6. "Eis que" (dizes tu), "eu anseio por isso, eu o peço, eu o desejo. Hei de então alcançá-lo?" Não. Quem, então, o fará? "Revela o teu caminho ao Senhor: confia também Nele, e Ele o fará vir a termo" (v. 5). Menciona a Ele o que sofres, menciona a Ele o que desejas. Pois que é o que tu sofres? "A carne cobiça contra o espírito, e o espírito contra a carne." Que é, então, o que tu desejas? "Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" E porque é Ele "mesmo" que "há de o fazer vir a termo", quando tiveres "revelado os teus caminhos a Ele"; ouvi o que se segue: "A graça de Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor." Que é, então, o que Ele há de fazer vir a termo, visto que se diz: "Revela o teu caminho a Ele, e Ele o fará vir a termo"? Que fará Ele vir a termo?
"E Ele fará sair a tua justiça como a luz" (v. 6). Pois agora, "a tua justiça" está oculta. Agora é coisa de fé; ainda não de visão. Crês em algo para que o pratiques. Ainda não vês aquilo em que crês. Mas quando começares a ver aquilo que antes crias, "a tua justiça será trazida à luz", porque era a tua fé que era a tua justiça. Pois "o justo vive pela fé".
7. "E Ele fará sair o teu juízo como o meio-dia." Isto é, "como a luz clara". Era pouco dizer "como a luz". Pois já chamamos de "luz" mesmo quando apenas desponta; chamamos de luz mesmo enquanto o sol está a nascer. Mas nunca a luz é mais brilhante do que ao meio-dia. Portanto, Ele não somente "fará sair a tua justiça como a luz", mas "o teu juízo será como o meio-dia". Pois agora fazes o teu "juízo" seguir a Cristo. Este é o teu propósito: esta é a tua escolha: este é o teu "juízo"...
8. "Que deveria eu fazer, então?" Ouvi o que deverias fazer. "Sujeita-te ao Senhor, e roga a Ele" (v. 7). Seja esta a tua vida: obedecer aos Seus mandamentos. Pois isto é sujeitar-te a Ele; e rogar a Ele até que Ele te dê o que prometeu. Que as boas obras "permaneçam"; que a oração "permaneça". Pois "os homens devem orar sempre, e não desfalecer". Em que mostras que estás "sujeito a Ele"? Em fazer o que Ele ordenou. Mas porventura ainda não recebes o teu salário, porque ainda não és capaz de recebê-lo. Pois Ele já é capaz de o dar; mas tu ainda não és capaz de o receber. Exercita-te tu nas obras. Trabalha na vinha; ao cair do dia, reclama o teu salário. "Fiel é Aquele" que te introduziu na vinha. "Sujeita-te ao Senhor, e roga a Ele."
9. "Eis que eu assim o faço; eu me `sujeito ao Senhor, e Lhe rogo'. Mas que pensas tu? Aquele meu vizinho é homem perverso, vivendo uma vida má, e próspero! Seus furtos, adultérios, roubos, são conhecidos de mim. Exaltado acima de todos, soberbo, e elevado às alturas pela iniquidade, não se digna a reparar em mim. Nestas circunstâncias, como hei de suportar com paciência?" Isto é uma enfermidade; bebei, como remédio: "Não te irrites por causa daquele que prospera no seu caminho." Ele prospera, mas é "no seu caminho"; tu sofres, mas é no caminho de Deus! A porção dele é a prosperidade no seu caminho, a miséria ao chegar ao seu termo; a tua, o labor no caminho, a felicidade no seu término. "O Senhor conhece o caminho dos justos; e o caminho dos ímpios perecerá." Tu caminhas por aqueles caminhos que "o Senhor conhece", e se neles sofres labor, eles não te enganam. O "caminho dos ímpios" é apenas uma felicidade transitória; ao término do caminho, também a felicidade tem seu término. Por quê? Porque aquele caminho é "a estrada larga"; seu término conduz ao poço do inferno. Ora, o teu caminho é estreito; e "poucos há" que entram por ele; mas a quão amplo campo ele desemboca por fim, deverias considerar. "Não te irrites por causa daquele que prospera no seu caminho; por causa do homem que leva a cabo desígnios ímpios."
"Cessa da ira, e abandona o furor" (v. 8). Por que estás irado? Por que é que, por essa paixão e indignação, blasfemas, ou quase blasfemas? Contra "o homem que leva a cabo desígnios ímpios, cessa da ira, e abandona o furor". Não sabes para onde aquele furor te tenta a ir? Estás prestes a dizer a Deus que Ele é injusto. É a isso que tende. "Olha! Por que é que aquele homem é próspero, e este outro está na adversidade?" Considera que pensamento isso gera: sufoca a ímpia noção. "Cessa da ira, e abandona o furor": de modo que agora, voltando a ti, possas dizer: "O meu olho está perturbado por causa do furor." Que olho é esse, senão o olho da fé? Ao olho da tua fé apelo eu. Creste em Cristo: por que creste? Que te prometeu Ele? Se foi a felicidade deste mundo que Cristo te prometeu, então murmura contra Cristo; sim! Murmura contra Ele, quando vires os ímpios florescerem. Que felicidade prometeu Ele? Que, senão na Ressurreição dos Mortos? Mas o quê nesta vida? Aquilo que foi a Sua porção. A Sua porção, digo eu! Desdenhas tu, servo e discípulo, o que o teu Senhor, o que o teu Mestre suportou?...
"Pois os que praticam o mal serão exterminados" (v. 9). "Mas eu vejo a prosperidade deles." Crê Naquele que diz: "serão exterminados"; Naquele que vê melhor do que tu, visto que o Seu olho a ira não pode obscurecer. "Pois os que praticam o mal serão exterminados. Mas os que esperam no Senhor" — não em alguém que os possa enganar; mas verdadeiramente Naquele que é a própria Verdade — "mas os que esperam no Senhor, esses herdarão a terra." Que "terra", senão aquela Jerusalém, com cujo amor quem quer que se inflame, chegará por fim à paz.
10. "Mas até quando há de o pecador florescer? Até quando terei eu de suportar?" Tu és impaciente; aquilo que te parece longo, em breve virá a acontecer. É a enfermidade que faz parecer longo aquilo que na realidade é breve, como se vê no caso dos anseios dos enfermos. Nada parece tão longo quanto a preparação da poção para aquele que tem sede. Pois, ainda que os que o assistem se apressem quanto podem, para que porventura o enfermo não se irrite; "Quando estará pronto? (clama ele). Quando estará preparado? Quando será servido?" Aqueles que te assistem apressam-se, mas a tua enfermidade imagina longo aquilo que se faz com toda a presteza. Eis, pois, o nosso Médico condescendendo com a enfermidade do doente, dizendo: "Até quando terei eu de suportar? Até quando será?"
"Ainda um pouco, e o pecador não será mais" (v. 10). É certamente entre os pecadores, e por causa do pecador, que tu murmuras? "Um pouco, e ele não será mais." Para que porventura, por eu ter dito: "Os que esperam no Senhor, esses herdarão a terra", não penses que essa espera seja de duração muito longa. Espera "um pouco", receberás sem fim aquilo por que esperas. Um pouco, um espaço moderado. Percorre os anos desde o tempo de Adão até este dia; percorre as Escrituras. Foi quase ontem que ele caiu do Paraíso! Tantas eras se mediram, e se desenrolaram. Onde estão agora as eras passadas? Assim, contudo, também hão de passar as poucas que restam. Se tivesses vivido durante todo esse tempo, desde que Adão foi banido do Paraíso até este dia presente, certamente verias que a vida, que assim se esvaíra, não fora de longa duração. Mas quão longa é a duração da vida de cada indivíduo? Acrescenta quantos anos quiseres: prolonga a velhice à sua mais longa duração: que é isso? Não é senão uma brisa matinal? Seja assim, contudo, que o Dia do Juízo esteja longe, quando há de vir a recompensa dos justos e dos ímpios: o teu último dia, ao menos, não pode estar longe. Prepara-te para isto! Pois tal como tiveres partido desta vida, assim serás restituído à outra. Ao término dessa breve vida, ainda não estarás onde estarão os Santos, a quem se dirá: "Vinde, benditos de Meu Pai: herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo." Ainda não estarás ali? Quem não sabe isso? Mas já poderás estar ali, onde aquele mendigo, outrora "coberto de chagas", foi visto ao longe, em descanso, por aquele soberbo e infrutífero "homem rico" em meio aos seus tormentos. Certamente, oculto naquele descanso, esperarás em segurança o Dia do Juízo, quando hás de receber de novo um corpo, transformado de modo a tornar-se igual a um Anjo. Quão longo é, então, aquilo por que somos impacientes, e dizemos: "Quando virá? Tardará muito?" Isto dirão ainda nossos filhos, e os filhos de nossos filhos também o dirão; e, embora cada um destes sucessivamente diga esta mesma coisa, aquele "pouco" que ainda há de vir passa, assim como tudo o que já passou já passou! Ó tu, enfermo! "Ainda um pouco, e o pecador não será mais. Sim, diligentemente considerarás o seu lugar, e não o encontrarás."...
"Mas os mansos herdarão a terra" (v. 11). Essa terra é aquela de que já frequentemente falamos, a santa Jerusalém, que há de ser libertada destas suas peregrinações, e viver para sempre com Deus, e de Deus. Portanto, "herdarão a terra". Qual será o seu deleite? "E deleitar-se-ão na abundância da paz." Deleite-se o ímpio aqui na multidão de seu ouro, na multidão de sua prata, na multidão de seus escravos, na multidão, enfim, de seus banhos, de suas rosas, de seus vinhos inebriantes, de seus banquetes sumptuosíssimos e luxuosos. É este o poder que invejas? É esta a glória que te deleita? Não seria digna de ser deplorada a sorte dele, ainda que fosse eterna? Quais serão os teus deleites? "E deleitar-se-ão na abundância da paz." A paz será o teu ouro. A paz será a tua prata. A paz será as tuas terras. A paz será a tua vida, teu Deus a Paz. A paz te será tudo quanto desejares. ...
Sobre a Segunda Parte do Salmo.
1. Seguem-se estas palavras: "O ímpio trama contra o justo, e range contra ele os dentes" (v. 12): "Mas o Senhor rirá dele" (v. 13). De quem? Certamente do pecador, que "range os dentes" contra o outro. Mas por que razão o Senhor "rirá dele"? "Porque prevê que o seu dia está chegando." Parece, com efeito, cheio de furor, enquanto, ignorante do amanhã que lhe está reservado, ameaça o justo. Mas o Senhor contempla e "prevê o seu dia". "Que dia?" Aquele em que "Ele retribuirá a cada um segundo as suas obras". Pois ele está "acumulando para si ira para o dia da ira, e revelação do justo juízo de Deus". Mas é o Senhor quem o prevê; tu não o prevês. Foi-te revelado por Aquele que o prevê. Tu não conhecias o "dia dos injustos", em que este há de sofrer o castigo. Mas Aquele que o conhece to revelou. É parte principal do conhecimento unir-se a Quem tem o conhecimento. Ele possui os olhos do conhecimento: possui tu os olhos de uma mente crente. Aquilo que Deus "vê", queiras tu crê-lo. Pois o dia do injusto, que Deus prevê, há de vir. Que dia é esse? O dia de toda vingança! Porque é necessário que se tome vingança sobre o ímpio, que se tome vingança sobre o injusto, quer ele se converta, quer não se converta. Pois, se ele se converter dos seus caminhos, isso mesmo, que a sua "injustiça chegou ao fim", é a imposição da vingança. ...
2. "Os ímpios sacaram a espada, e retesaram o seu arco, para derrubar o pobre e o necessitado, e para matar os retos de coração" (v. 14). "A sua arma entrará no seu próprio coração" (v. 15). É coisa fácil que a sua arma, isto é, a sua espada, alcance o teu corpo, assim como a espada dos perseguidores alcançou o corpo dos Mártires, mas, ferido o corpo, "o coração" permaneceu incólume; já o coração daquele que "sacou a espada contra" o corpo do justo não permaneceu, claramente, incólume. Isto o atesta este mesmo Salmo. Diz ele: A sua arma, isto é, "a sua espada", não entrará no corpo deles, mas "a sua arma entrará no seu próprio coração". Eles bem quisessem tê-lo matado no corpo. Que morram, pois, da morte da alma. Pois àqueles cujos corpos eles procuravam matar, o Senhor libertou da ansiedade, dizendo: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma." ...
3. "E os seus arcos serão quebrados." Que se entende por "e os seus arcos serão quebrados"? Que os seus planos serão frustrados. Pois acima Ele havia dito: "Os ímpios sacaram a espada e retesaram os seus arcos." Pelo "sacar da espada" quis Ele que se entendesse a hostilidade aberta; mas pelo "retesar do arco", as conspirações secretas. Vede! A sua espada destrói a si mesmo, e o armar de ciladas se frustra. Que se entende por frustrado? Que não faz mal ao justo. Como então, perguntarás, por exemplo, não fez ele mal ao homem a quem assim despojou de seus bens, a quem reduziu a circunstâncias estreitas, tirando-lhe as posses? Ainda lhe resta razão para cantar: "Pouco que o justo possui é melhor que as grandes riquezas dos ímpios" (v. 16).
4. ..."Pois os braços dos ímpios serão quebrados" (v. 17). Ora, por "os seus braços" entende-se o seu poder. Que fará ele no inferno? Será o que teve de fazer o homem rico, aquele que costumava "banquetear-se esplendidamente" no mundo de cima, e no inferno "era atormentado"? Portanto os seus braços serão quebrados; "mas o Senhor sustém os justos". Como Ele os "sustém"? Que lhes diz Ele? Aquilo mesmo que se diz em outro Salmo: "Espera no Senhor, tem bom ânimo, e fortaleça-se o teu coração. Espera, digo, no Senhor." Que se entende por isto, "Espera no Senhor"? Tu sofres apenas por um tempo; hás de repousar para sempre: a tua tribulação é breve; a tua felicidade há de ser eterna. É apenas por "um pouco" que hás de entristecer-te; a tua alegria não terá fim. Mas, em meio à tribulação, começa o teu "pé" a "vacilar"? Está posto diante de ti o exemplo mesmo dos sofrimentos de Cristo. Considera o que Ele suportou por ti, Ele em quem nenhuma causa se achou para que o suportasse. Por maiores que sejam os teus sofrimentos, não chegarás àqueles insultos, àqueles açoites, àquela veste de vergonha, àquela coroa de espinhos, e, por fim, àquela Cruz, que Ele suportou; porque esta já foi removida do número dos suplícios humanos. Pois, embora entre os antigos os criminosos fossem crucificados, no tempo presente ninguém é crucificado. Foi honrada, e chegou ao seu termo. Chegou ao termo como suplício; permanece na glória. Removeu-se do lugar do suplício para a fronte dos Imperadores. Aquele que revestiu de tal honra os seus próprios sofrimentos, que reserva Ele para os seus servos fiéis? ...
5. Mas observai se naquele se cumpriu o que o Salmo agora diz. "O Senhor fortalece os justos." Não somente isso (diz aquele mesmo Paulo, enquanto sofria muitos males), "mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência; e a paciência, a experiência; e a experiência, a esperança; e a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado." Justamente se diz dele, ora justo, ora "fortalecido". Assim como, pois, aqueles que o perseguiram não lhe fizeram nenhum mal, quando já "fortalecido", assim também ele mesmo não fez nenhum mal àqueles que perseguiu. "Mas o Senhor", diz ele, "fortalece os justos." ...
7. "E a herança deles será para sempre" (v. 18). Isto o sustentamos pela fé. Acaso o Senhor também o conhece pela fé? O Senhor conhece estas coisas com uma manifestação tão clara, que nem sequer poderemos falar dela quando formos feitos iguais aos Anjos. Pois as coisas que hão de manifestar-se a nós não nos serão manifestas de modo igual ao que já o são a Ele, que é incapaz de mudança. Contudo, mesmo a nosso respeito, que se diz? "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser; mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é." Há, portanto, certamente alguma visão bem-aventurada reservada para nós; e, se ela pode agora ser em alguma medida concebida, "obscuramente e por um espelho", não podemos, contudo, de modo algum, exprimir em palavras a arrebatadora beleza dessa bem-aventurança, que Deus reserva para os que O temem, que Ele consuma naqueles que esperam n'Ele. É para esse destino que os nossos corações estão sendo disciplinados em todas as tribulações e provações desta vida. Não te admires de que seja na tribulação que és disciplinado para ela. É para algo glorioso que és disciplinado. De onde vem aquela palavra do justo já fortalecido: "Os sofrimentos deste tempo presente não são dignos de comparação com a glória que em nós há de ser revelada"? Que há de ser essa glória prometida, senão sermos feitos iguais aos Anjos e vermos a Deus? Quão grande benefício confere Ele ao cego, aquele que torna sãos os seus olhos, a fim de que possa ver a luz desta vida. ...Que recompensa daremos, pois, àquele Médico que restitui a sanidade aos nossos olhos interiores, para que possam ver certa Luz eterna, que é Ele mesmo? ...
6. Portanto, "o Senhor fortalece os justos". De que modo Ele os fortalece? "O Senhor conhece os caminhos dos imaculados" (v. 18). Quando padecem males, são tidos por caminhantes de maus caminhos por aqueles que os ignoram, por aqueles que não têm conhecimento para discernir "os caminhos dos imaculados". Aquele que "conhece esses caminhos" sabe por qual caminho conduzir os seus, "os que são mansos", no caminho reto. Donde, em outro Salmo, disse Ele: "Os mansos Ele guiará no juízo; aos que são mansos ensinará o seu caminho." Como, pensais, era desprezado pelos que passavam aquele mendigo que jazia coberto de chagas diante da porta do rico! Como, provavelmente, tapavam eles as narinas e cuspiam sobre ele! O Senhor, porém, sabia reservar-lhe o Paraíso. Como, por outro lado, desejavam eles para si mesmos a vida daquele que se "vestia de púrpura e linho fino, e se banqueteava esplendidamente todos os dias"! Mas o Senhor, que previa que estava chegando o "dia" daquele homem, conhecia os tormentos, os tormentos sem fim, que lhe estavam reservados. Portanto, "O Senhor conhece os caminhos dos retos".
8. "Não serão envergonhados no tempo mau" (v. 19). No dia da tribulação, no dia da angústia, não serão "envergonhados", como é envergonhado aquele a quem a sua esperança engana. Quem é o homem que é "envergonhado"? Aquele que diz: "Não achei aquilo que esperava." E não imerecidamente; pois tu o esperavas de ti mesmo ou do homem, teu amigo. Mas "maldito é aquele que põe a sua confiança no homem". Envergonhas-te, porque a tua esperança te enganou; a tua esperança que estava posta numa mentira. Pois "todo homem é mentiroso". Mas, se puseres a tua esperança em teu Deus, não serás feito "envergonhado". Pois Aquele em quem puseste a tua confiança não pode ser enganado. Donde também o homem que mencionamos pouco acima, o justo já "fortalecido", ao cair em tempo mau, no dia da tribulação, que diz ele para mostrar que não foi "envergonhado"? "Gloriamo-nos na tribulação, sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência, a experiência, e a experiência, a esperança; mas a esperança não envergonha." Donde vem que a esperança "não envergonha"? Porque está posta em Deus. Segue-se, portanto, imediatamente: "Porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado." O Espírito Santo já nos foi dado: como poderia Ele enganar-nos, Ele de quem já possuímos tal "penhor"? "Não serão envergonhados no tempo mau, e nos dias de fome serão saciados." ...
9. "Pois os ímpios perecerão. Mas os inimigos do Senhor, quando começarem a se gloriar e a se exaltar, hão de se consumir de todo, como a fumaça" (v. 20). Reconhecei, a partir da própria comparação, aquilo que ele quer significar. A fumaça, irrompendo do lugar onde esteve o fogo, sobe às alturas, e pelo próprio ato de subir, incha-se em grande volume; mas quanto maior é esse volume, tanto mais inconsistente ele se torna; pois dessa mesma grandeza de volume, que não tem fundamento nem consistência, mas é apenas solta, mutável e evanescente, ela passa ao ar e se dissolve; de modo que percebeis que a própria grandeza lhe foi fatal. Pois quanto mais alto sobe, quanto mais se estende, quanto mais larga a circunferência que ocupa, tanto mais tênue, mais rarefeita, mais desgastada e evanescente ela se torna. "Mas os inimigos do Senhor, quando começarem a se gloriar e a se exaltar, hão de se consumir de todo, como a fumaça." Destes tais foi dito: "Assim como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à Verdade; homens de mente corrompida, réprobos quanto à fé." Mas de que modo resistem eles à Verdade, senão pela vã insuflação de seu orgulho intumescido, enquanto se erguem às alturas, como se fossem grandes e justos, estando eles mesmos prestes a se dissipar em vazio ar? Mas que diz ele acerca deles? Como falando da fumaça, diz: "Não irão mais adiante, pois a sua loucura será manifesta a todos os homens, como também foi a daqueles." ...
10. "O ímpio toma emprestado e não paga de volta" (v. 20). Recebe, e não quer restituir. E que é que não quer restituir? A ação de graças. Pois que é que Deus quer de ti, que é que Ele exige de ti, senão que Ele possa te fazer bem? E quão grandes são os benefícios que o pecador recebeu, e que ele não quer restituir! Recebeu o dom do ser; recebeu o dom de ser homem; e de ser um ser altamente distinguido acima dos brutos; recebeu a forma de um corpo, e a distinção dos sentidos no corpo, olhos para ver, ouvidos para ouvir, narinas para cheirar, o paladar para saborear, as mãos para tocar, e os pés para andar; e até mesmo a própria saúde e integridade do corpo. Mas até este ponto temos estas coisas em comum até com o bruto; ele recebeu ainda mais do que isto: uma mente capaz de entender, capaz da Verdade, capaz de distinguir o certo do errado; capaz de buscar, de anelar por seu Criador, de louvá-Lo e de fixar-se n'Ele. Tudo isto o ímpio recebeu, assim como os demais; mas, por não viver bem, deixa de restituir aquilo que deve. Assim é: "o ímpio toma emprestado e não paga de volta": não quer recompensar Àquele de quem recebeu; não quer render graças; antes, chega a retribuir o mal pelo bem, blasfêmias, murmuração contra Deus, indignação. Assim é que ele "toma emprestado e não paga de volta; mas o justo é misericordioso e empresta" (v. 21). Um, portanto, nada tem; o outro tem. Vede, de um lado, a destituição; vede, do outro, a riqueza. Um recebe e "não paga de volta": o "outro é misericordioso e empresta": e tem mais que o suficiente. E se é pobre? Ainda assim é rico; olhai apenas para as suas riquezas com os olhos da Religião. Pois tu olhas para a arca vazia; mas não olhas para a consciência, que está cheia de Deus. ...
12. Observai o que se segue: "Os passos do homem bom são ordenados pelo Senhor; e ele se compraz no caminho d'Ele" (v. 23). Para que o homem possa ele mesmo "comprazer-se no caminho do Senhor", os seus passos são ordenados pelo próprio Senhor. Pois se o Senhor não ordenasse os passos do homem, tão tortuosos eles são por natureza, que estariam sempre percorrendo caminhos tortuosos, e, prosseguindo por vias tortuosas, seriam incapazes de voltar atrás. Ele, porém, veio, e nos chamou, e nos redimiu, e derramou o Seu sangue; deu este resgate; fez este bem, e sofreu estes males. Considerai-O naquilo que fez: Ele é Deus! Considerai-O naquilo que sofreu: Ele é Homem! Quem é esse Deus-Homem? Não tivesses tu, ó homem, abandonado a Deus, Deus não se teria feito Homem por ti! Pois pouco seria para ti restituir, ou para Ele conceder, que te tivesse feito homem; a menos que Ele mesmo se fizesse Homem também por ti. Pois é Ele mesmo quem "ordenou os nossos passos", para que "nos comprazamos no Seu caminho". ...
13. Ora, ainda que o homem estivesse durante toda a sua vida em labuta, e em sofrimentos, em dor, em tormentos, em prisão, em açoites, em fome e em sede, todo dia e toda hora, ao longo de toda a extensão da vida, até a velhice, contudo toda a vida do homem não passa de uns poucos dias. Passada essa labuta, há de vir o Reino Eterno; há de vir a felicidade sem fim; há de vir a igualdade com os Anjos; há de vir a herança de Cristo, e há de vir Cristo, nosso "co-Herdeiro". Quão grande é a labuta, para a qual recebes tão grande recompensa? Os veteranos que servem nas guerras, e se movem em meio a feridas por tantos anos, entram no serviço militar desde a juventude, e o deixam na velhice: e para obter uns poucos dias de repouso na velhice, quando a própria idade começa a vergar aqueles a quem as guerras não quebraram, quantas durezas suportam! Que marchas, que geadas, que sóis abrasadores; que privações, que feridas, e que perigos! E, ao sofrerem todas estas coisas, fixam os seus pensamentos apenas nesses poucos dias de repouso na velhice, aos quais não sabem se algum dia chegarão. Assim é: os "passos do homem bom são ordenados pelo Senhor, e ele se compraz no caminho d'Ele." Este foi o ponto com que comecei. Se tu te "comprazes no caminho" de Cristo, e és verdadeiramente cristão (pois é verdadeiramente cristão aquele que não despreza o caminho de Cristo, mas "se compraz" em seguir o "caminho" de Cristo através dos Seus sofrimentos), não sigas por nenhum outro caminho senão aquele por onde Ele mesmo também andou. Parece penoso, mas é o próprio caminho da salvação; outro talvez seja deleitoso, mas está cheio de salteadores. "E ele se compraz no caminho d'Ele."
11. "Pois os que O bendisserem herdarão a terra" (v. 23), isto é, hão de possuir Aquele Justo: o único que verdadeiramente é justo e que justifica: que tanto foi pobre neste mundo, como trouxe a ele grandes riquezas, com as quais enriquecer aqueles que encontrou pobres. Pois é Ele quem enriqueceu os corações dos pobres com o Espírito Santo; e, tendo esvaziado as suas almas pela confissão dos pecados, encheu-as com a riqueza da justiça: Ele que foi capaz de enriquecer o pescador, o qual, deixando as suas redes, desprezou aquilo que já possuía, mas buscou alcançar aquilo que ainda não possuía. Pois "Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes." E não foi por meio de um orador que Ele ganhou para Si o pescador; mas foi por meio do pescador que Ele ganhou para Si o orador; foi por meio do pescador que ganhou o senador; foi por meio do pescador que ganhou o imperador. Pois "os que O bendisserem herdarão a terra"; serão coerdeiros com Ele, naquela "terra dos vivos", da qual se diz em outro Salmo: "Tu és a minha esperança, a minha porção na terra dos vivos." ...
2. "Senhor, não me repreendas na Tua indignação, nem me castigues no Teu ardente furor" (v. 1). Pois há de ser que alguns sejam castigados no "ardente furor" de Deus, e repreendidos na Sua "indignação". E talvez nem todos os que são "repreendidos" sejam "castigados"; contudo há alguns que hão de ser salvos no castigo. E assim há de ser, de fato, porque se chama "castigo"; mas contudo será "como que pelo fogo". Mas há de haver alguns que serão "repreendidos" e não serão "corrigidos". Pois Ele há de, em todo caso, "repreender" aqueles a quem dirá: "Tive fome, e não me destes de comer." ... "Nem me castigues no Teu ardente furor"; a fim de que me purifiques nesta vida, e me faças tal, que eu não venha depois a ter necessidade do fogo purificador, para aqueles "que hão de ser salvos, mas como que pelo fogo". Por quê? Por que, senão porque edificam sobre o fundamento madeira, palha e feno? Ora, deveriam edificar sobre ele ouro, prata e pedras preciosas; e não deveriam ter nada a temer de nenhum dos dois fogos: nem daquele que há de consumir os ímpios para sempre, nem tampouco daquele que há de purgar aqueles que hão de escapar através do fogo. Pois está dito: "ele mesmo será salvo, mas como que pelo fogo." E, porque se diz "será salvo", julga-se leviano aquele fogo. Apesar de tudo isso, ainda que sejamos "salvos pelo fogo", contudo aquele fogo será mais penoso do que qualquer coisa que o homem possa sofrer nesta vida, seja qual for. ...
3. Ora, sob que fundamento roga esta pessoa que não seja "repreendida na indignação, nem castigada no ardente furor"? (Ele fala) como se dissesse a Deus: "Já que as coisas que já sofro são em grande número, rogo-Te que estas bastem"; e começa a enumerá-las, a fim de satisfazer a Deus; oferecendo o que agora sofre, para que não tenha de sofrer males piores depois.
1. Que significa esta recordação do Sábado? Que é este Sábado? Pois é com gemido que ele "o traz à recordação". Já ouvistes, quando o Salmo foi lido, e agora o ouvireis quando o percorrermos, quão grande é o seu gemido, a sua tristeza, as suas lágrimas, a sua miséria. Mas feliz aquele que é infeliz deste modo! Donde também o Senhor, no Evangelho, chamou bem-aventurados alguns que choram. "Como poderia ser bem-aventurado, se é pranteador? Como bem-aventurado, se é infeliz?" Antes, seria infeliz se não fosse pranteador. Entendamos, pois, também aqui, alguém assim, trazendo o Sábado à recordação (a saber): algum pranteador; e quem dera fôssemos nós mesmos esse "algum"! Pois há aqui alguma pessoa a se entristecer, a gemer, a prantear, trazendo o Sábado à recordação. O Sábado é descanso. Sem dúvida estava em alguma inquietação aquele que, com gemido, trazia o Sábado à recordação. ...
Salmo A DAVI Mesmo, EM Memória DO Sábado.
4. "Pois as Tuas flechas se cravaram fundo em mim, e a Tua mão pesa sobre mim" (v. 2). "Não há sanidade na minha carne, diante da Tua ira" (v. 3). Ele começa agora a narrar estes males, que sofre aqui: e, contudo, isto mesmo já provinha da ira do Senhor, porque provinha da vingança do Senhor. "De que vingança?" Daquela que Ele tomou sobre Adão. Pois não penseis que o castigo não lhe foi infligido, ou que Deus tivesse dito em vão: "Certamente morrerás"; ou que nós sofremos algo nesta vida, senão daquela morte que ganhamos pelo pecado original. ... De onde, pois, cravam-se n'ele as Suas "flechas"? O próprio castigo, a própria vingança, e talvez as dores tanto da mente quanto do corpo, que nos é necessário sofrer aqui, estas ele descreve por estas mesmas "flechas". Pois destas flechas também o santo Jó fez menção, e disse que as flechas do Senhor se cravavam nele, enquanto padecia sob aquelas dores. Costumamos, contudo, chamar também de flechas as palavras de Deus; mas poderia ele lamentar-se de ser ferido por estas? As palavras de Deus são flechas, por assim dizer, que inflamam o amor, não a dor. ... Podemos, pois, entender as "flechas cravadas" deste modo: as Tuas palavras estão fixas no meu coração; e por meio dessas mesmas palavras é que veio a suceder que eu "trouxesse o Sábado à recordação": e essa mesma recordação do Sábado, e a não posse dele no presente, impede-me de me regozijar no presente; e faz-me reconhecer que "não há sanidade nem mesmo na minha carne", nem deveria ela ser assim chamada, quando comparo esta espécie de sanidade com aquela sanidade que hei de possuir no descanso eterno; onde "este corruptível se revestirá de incorrupção, e este mortal se revestirá de imortalidade", e vejo que, em comparação com aquela sanidade, esta presente não passa de enfermidade.
5. "Nem há descanso nos meus ossos, diante do meu pecado." Costuma-se perguntar de quem é esta fala; e alguns entendem que é de Cristo, por causa de algumas coisas aqui ditas acerca da Paixão de Cristo; às quais em breve chegaremos; e que nós mesmos reconheceremos serem ditas acerca da Sua Paixão. Mas como poderia Aquele que não tinha pecado dizer: "Não há descanso nos meus ossos, diante do meu pecado"?... Pois se disséssemos que estas não são as palavras de Cristo, também não seriam palavras de Cristo aquelas: "Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste?" Pois ali também tendes: "Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste?" "As palavras dos meus delitos estão longe da minha salvação." Assim como aqui tendes "diante do meu pecado", ali também tendes "as palavras dos meus delitos". E se, apesar de tudo, Cristo está sem "pecado" e sem "delitos", começamos a pensar que também aquelas palavras do Salmo não são d'Ele. E é sobremaneira duro e incoerente que aquele Salmo não se refira a Cristo, onde temos a Sua Paixão tão claramente exposta como se nos estivesse sendo lida do próprio Evangelho. Pois ali temos: "Repartiram entre si as Minhas vestes, e sobre a Minha túnica lançaram sortes." Para que mencionar que o primeiro versículo daquele Salmo foi pronunciado pelo próprio Senhor, pendendo na Cruz, com a Sua própria boca, dizendo: "Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste?" Que quis Ele que se inferisse disto, senão que todo aquele Salmo se refere a Ele, visto que Ele mesmo, a Cabeça do Seu Corpo, o pronunciou em Sua própria Pessoa? Ora, quando prossegue dizendo "as palavras dos meus delitos", está fora de dúvida que são palavras de Cristo. De onde vêm, pois, "os pecados", senão do Corpo, que é a Igreja? Porque tanto a Cabeça quanto o Corpo de Cristo estão falando. Por que falam como se fossem uma só pessoa? Porque "os dois", como Ele disse, "serão uma só carne". "Isto" (diz o Apóstolo) "é um grande mistério; mas eu falo a respeito de Cristo e da Igreja."... Pois por que não haveria Ele de dizer "meus pecados", quem disse: "Tive fome, e não Me destes de comer; tive sede, e não Me destes de beber; era peregrino, e não Me recolhestes. Estive enfermo e na prisão, e não Me visitastes." Certamente o Senhor não esteve na prisão. Por que não haveria Ele de dizer isto, a quem, quando Lhe foi dito: "Quando Te vimos com fome, ou com sede, ou na prisão, e não Te servimos?", respondeu que falava assim na pessoa do Seu Corpo. "Na medida em que não o fizestes a um destes Meus pequeninos, a Mim não o fizestes." Por que não haveria Ele de dizer "diante dos meus pecados", quem disse a Saulo: "Saulo, Saulo, por que Me persegues", Ele que, contudo, estando nos Céus, já não padecia de perseguidores? Mas, assim como naquela passagem a Cabeça falava pelo Corpo, assim também aqui a Cabeça fala as palavras do Corpo; enquanto ouvis ao mesmo tempo os acentos da própria Cabeça. Contudo, não separeis, ao ouvirdes a voz do Corpo, a Cabeça dele; nem o Corpo, ao ouvirdes a voz da Cabeça: porque "já não são dois, mas uma só carne."
6. "Não há sanidade na minha carne, diante da Tua ira." Mas talvez Deus esteja injustamente irado contigo, ó Adão; injustamente irado contigo, ó filho do homem; porque agora, levado a reconhecer que o teu castigo é agora que és um homem que foi colocado no Corpo de Cristo, disseste: "Não há sanidade na minha carne, diante da Tua ira." Declara a justiça da ira de Deus: para que não pareças estar a te escusar, e a acusá-Lo. Prossegue a dizer de onde procede a "ira" do Senhor. "Não há sanidade na minha carne, diante da Tua ira; nem há descanso nos meus ossos." Repete o que disse antes, "não há sanidade na minha carne"; pois "não há descanso nos meus ossos" equivale a isto. Não repete, porém, "diante da Tua ira"; mas declara a causa da ira de Deus. "Não há descanso nos meus ossos, diante do meu pecado."
7. "Pois as minhas iniquidades levantaram a minha cabeça; e são como um fardo pesado, pesado demais para eu suportar" (v. 4). Aqui também ele colocou a causa primeiro, e o efeito depois. Que consequência se seguiu, e de que causa, ele nos disse. "As minhas iniquidades levantaram a minha cabeça." Pois ninguém é soberbo senão o homem injusto, cuja cabeça é levantada. É "levantado" aquele cuja "cabeça é levantada ao alto" contra Deus. Ouvistes quando foi lida a lição do Livro do Eclesiástico: "O princípio da soberba é quando o homem se afasta de Deus." Aquele que foi o primeiro a recusar ouvir o Mandamento, "a sua iniquidade levantou a sua cabeça" contra Deus. E porque as suas iniquidades levantaram a sua cabeça, que lhe fez Deus? Elas são "como um fardo pesado, pesado demais para eu suportar"! É próprio da leviandade levantar a cabeça, como se aquele que levanta a cabeça nada tivesse a carregar. Visto, pois, que aquilo que se deixa levantar é leve, recebe um peso pelo qual possa ser abatido. Pois "a sua malícia recai sobre a sua própria cabeça, e a sua violência desce sobre o seu próprio alto da cabeça." "São como um fardo pesado, pesado demais para eu suportar."
8. "As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas" (v. 5). Ora, quem tem chagas não está perfeitamente são. Acrescenta-se ainda que as chagas "cheiram mal e estão corruptas". Por que "cheiram mal"? Porque estão "corruptas": ora, de que modo isto se explica em referência à vida humana, quem não entende? Tenha o homem apenas o olfato de sua alma são, e perceberá quão torpemente cheiram os pecados. O contrário desse mau cheiro do pecado é aquele aroma do qual diz o Apóstolo: "Somos para Deus o bom perfume de Cristo, em todo lugar, entre os que se salvam". Mas donde provém isto, senão da esperança? Donde provém isto, senão de "recordarmo-nos do Sábado"? Pois é outra coisa aquilo que pranteamos nesta vida, e outra aquilo que antecipamos na outra. Aquilo que pranteamos é fetidez; aquilo que esperamos é fragrância. Se, pois, não houvesse tal perfume a nos convidar, jamais nos recordaríamos do Sábado. Mas visto que, pelo Espírito, temos tal perfume, a ponto de dizermos ao nosso Esposo: "Por causa do aroma dos Teus bons unguentos, correremos após Ti", desviamos os nossos sentidos de nossas próprias fetidezes e, voltando-nos para Ele, ganhamos algum pequeno respiro. Mas, na verdade, se as nossas más obras não nos cheirassem também mal às narinas, jamais confessaríamos com aqueles gemidos: "As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas". E por quê? "Por causa da minha loucura". Pela mesma causa por que dissera antes: "por causa dos meus pecados", pela mesma causa diz agora: "por causa da minha loucura".
9. "Estou atribulado e encurvado até o extremo" (v. 6). Por que foi "encurvado"? Porque fora "exaltado". Se és "humilde, serás exaltado"; se te exaltas a ti mesmo, serás "encurvado"; pois Deus não há de faltar em encontrar peso com que te encurvar... Que ele gema por estas coisas, para que receba as outras; que "se recorde do Sábado", para que mereça alcançá-lo. Pois aquilo que os judeus costumavam celebrar não era senão um sinal. Sinal de que coisa? Daquilo de que se recorda quem diz: "Estou atribulado e encurvado até o extremo". Que significa "até o extremo"? Até a morte.
"Ando pranteando todo o dia". "Todo o dia", isto é, "sem interrupção". Por "todo o dia" entende-se "toda a minha vida". Mas desde quando o soube? Desde quando começou a "recordar-se do Sábado". Pois enquanto "se recorda" daquilo que já não possui, não haverias de querer que "andasse pranteando"? "Todo o dia andei pranteando".
10. "Porque a minha alma está cheia de ilusões, e não há sanidade na minha carne" (v. 7). Onde está o homem inteiro, aí está tanto a alma quanto a carne. A "alma está cheia de ilusões"; a carne "não tem sanidade". Que resta, pois, que possa dar alegria? Não é justo, então, que se ande pranteando? "Todo o dia andei pranteando". Seja o pranto a nossa porção, até que a nossa alma se despoje de suas ilusões e o nosso corpo se revista de sanidade. Pois a verdadeira sanidade não é outra senão a imortalidade. Quão grandes, porém, sejam as ilusões da alma, ainda que eu tentasse exprimi-las, quando me bastaria o tempo? Pois de quem é a alma que não lhes está sujeita? Há um breve pormenor que vos lembrarei, para mostrar como a nossa alma está cheia de ilusões. A presença dessas ilusões, às vezes, mal nos permite orar. Não sabemos pensar em objetos materiais sem imagens, e imagens que não desejamos irrompem na mente; e queremos passar desta para aquela, e deixar esta por outra. E às vezes desejais voltar àquilo em que pensáveis antes, e deixar aquilo em que pensais agora; e uma nova se apresenta; desejais evocar de novo o que havíeis esquecido, e não vos ocorre; e outra vem em seu lugar, que não desejáveis. Onde estava, entretanto, aquela que havíeis esquecido? Pois por que veio depois a vos ocorrer, quando já cessara de ser buscada, ao passo que, enquanto era buscada, inúmeras outras, que não eram desejadas, se apresentavam em seu lugar? Apresentei brevemente um fato; lancei uma espécie de indício ou sugestão a vós, irmãos, tomando o qual podereis sugerir a vós mesmos o restante, e descobrir o que é pranger as "ilusões" de nossa "alma". Recebeu, pois, a punição da ilusão; perdeu a Verdade. Pois assim como a ilusão é o castigo da alma, assim a Verdade é a sua recompensa. Mas quando estávamos postos no meio destas ilusões, a própria Verdade veio a nós, e nos encontrou tomados pelas ilusões, assumiu a nossa carne, ou antes, tomou a carne de nós, isto é, do gênero humano. Manifestou-se aos olhos da Carne, para que "pela fé" curasse aqueles a quem havia de revelar a Verdade mais tarde, a fim de que a Verdade se manifestasse ao olho já curado. Pois Ele mesmo é "a Verdade", que Ele nos prometeu naquele tempo, quando a Sua Carne havia de ser vista pelo olho, para que se lançasse o fundamento daquela Fé, cuja recompensa havia de ser a Verdade. Pois não foi a Si mesmo que Cristo mostrou na terra, mas foi a Sua Carne que mostrou. Pois se Se tivesse mostrado a Si mesmo, os judeus O teriam visto e conhecido; mas se O tivessem "conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da Glória". Mas talvez O tenham visto os Seus discípulos, quando Lhe disseram: "Mostra-nos o Pai, e basta-nos"; e Ele, para mostrar que não fora a Si mesmo que tinham visto, acrescentou: "Há tanto tempo estou convosco, e não Me conheceste, Filipe? Quem Me vê, vê também o Pai". Se, pois, viam a Cristo, por que ainda buscavam o Pai? Pois se era a Cristo que viam, teriam visto também o Pai. Não viam, portanto, ainda a Cristo, os que desejavam que o Pai lhes fosse mostrado. Para provar que ainda não O viam, ouvi que, em outro lugar, Ele o prometeu como recompensa, dizendo: "Quem Me ama, guarda os Meus mandamentos; e quem Me ama será amado de Meu Pai; e Eu o amarei, e" (como se Lhe dissessem: "que Lhe darás, já que o amas?", Ele diz): "manifestar-Me-ei a ele". Se, pois, promete isto como recompensa aos que O amam, é manifesto que a visão da Verdade, prometida a nós, é de tal natureza que, quando a tivermos visto, não mais diremos: "A minha alma está cheia de ilusões".
11. "Estou enfraquecido e encurvado sobremaneira" (v. 8). Quem se recorda da altura transcendente do Sábado vê quão "sobremaneira" está ele mesmo "encurvado". Pois quem não pode conceber qual seja aquela altura do repouso não vê onde se encontra no presente. Por isso outro Salmo disse: "Disse eu no meu êxtase: fui lançado fora da vista dos Teus olhos". Pois, sendo a sua mente arrebatada para lá, contemplou algo sublime, e ainda não estava inteiramente lá, onde estava aquilo que contemplava; e uma espécie de relâmpago, por assim dizer, se é lícito falar assim, da Luz Eterna, tendo brilhado sobre ele, quando percebeu que ainda não chegara a isto, que era capaz de certo modo entender, viu onde ele mesmo estava, e como estava constrangido e "encurvado" pelas infirmidades humanas. E diz: "Disse eu no meu êxtase: fui lançado fora da vista dos Teus olhos". Tal é aquele certo algo que vi em meu êxtase, de onde percebo quão longe estou eu, que ainda não estou lá. Já estava lá aquele que disse ter sido "arrebatado ao terceiro Céu, e ali ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem proferir". Mas foi ele recordado a nós, para que, necessitando ser aperfeiçoado, primeiro pranteasse a sua infirmidade, e depois se revestisse de fortaleza. Todavia, animado para o ministério de seu ofício por ter visto algo daquelas coisas, prossegue dizendo: "Ouvi palavras inefáveis, que não é lícito ao homem proferir". De que serve, pois, perguntar a mim ou a qualquer outro as "coisas que não é lícito ao homem proferir"? Se não lhe era lícito proferi-las, a quem é lícito ouvi-las? Lamentemos, porém, e gememos em confissão; reconheçamos onde estamos; "recordemo-nos do Sábado", e aguardemos com paciência aquilo que prometeu Aquele que, também em Sua própria Pessoa, nos mostrou um exemplo de paciência. "Estou enfraquecido e encurvado sobremaneira".
12. "Bramei com o gemido do meu coração". Observais os servos de Deus intercedendo geralmente com gemidos; e pergunta-se a razão disso, e nada aparece, senão o gemido de algum servo de Deus, se é que chega de fato aos ouvidos de alguém posto perto dele. Pois há um gemido secreto, que não é ouvido pelo homem: contudo, se o pensamento de algum forte desejo tomou tão fortemente o coração, que a ferida do homem interior se exprime em alguma exclamação proferida, pergunta-se a razão disso; e o homem diz a si mesmo: "Talvez seja esta a causa de seu gemido"; e: "Talvez isto ou aquilo lhe tenha sucedido". Quem pode determiná-lo, senão Aquele em cujos Olhos e Ouvidos ele gemeu? Por isso diz: "Bramei com o gemido do meu coração"; pois se os homens chegam a ouvir os gemidos de alguém, ouvem, na maior parte das vezes, apenas o gemido da carne; não ouvem aquele que geme "com o gemido do seu coração". A alguém roubaram os bens; ele "brama", mas não "com o gemido do seu coração"; outro porque sepultou o filho, outro a esposa; outro porque a sua vinha foi danificada por uma tempestade de granizo; outro porque o seu tonel azedou; outro porque alguém lhe furtou o animal; outro porque sofreu algum prejuízo; outro porque teme algum homem que lhe é inimigo: todos estes "bramam" com o "gemido da carne". O servo de Deus, porém, porque "brama" pela lembrança do Sábado, onde está o Reino de Deus, que a carne e o sangue não possuirão, diz: "Bramei com o gemido do meu coração".
13. E quem observou e notou a causa de seu gemido? "Todo o meu desejo está diante de Ti" (v. 9). Pois não é diante dos homens, que não podem ver o coração, mas é diante de Ti que todo o meu desejo está aberto! Esteja o teu desejo diante d'Ele; e "o Pai, que vê em secreto, te recompensará". Pois é o desejo do teu coração que é a tua oração; e se o teu desejo persevera ininterrupto, também persevera a tua oração. Pois não sem motivo disse o Apóstolo: "Orai sem cessar". Estaremos nós "sem cessar" dobrando o joelho, prostrando o corpo, ou levantando as mãos, para que diga ele: "Orai sem cessar"? Ou, se é neste sentido que dizemos que "oramos", isto, creio, não podemos fazer "sem cessar". Há outro gênero interior de oração sem cessar, que é o desejo do coração. Qualquer outra coisa que estejas fazendo, se apenas ansiares por aquele Sábado, não cessas de orar. Se nunca quisésseis cessar de orar, nunca cesseis de ansiar por ele. A continuidade do teu ansiar é a continuidade da tua oração. Cessarás de falar, se cessares de ansiar por ele. Quem são aqueles que cessaram de falar? Aqueles de quem se diz: "Porque a iniquidade há de abundar, o amor de muitos esfriará". O congelamento da caridade é o silêncio do coração; o ardor da caridade é o clamor do coração. Se o amor persevera ainda, ainda levantas a tua voz; se sempre levantas a tua voz, sempre ansiais por algo; se sempre ansiais por algo ausente, estás "recordando-te do repouso do Sábado". E importa que entendais também diante de quem está aberto o "bramido do teu coração". Considerai, pois, que espécie de desejos devem ser aqueles que estão diante dos olhos de Deus. Deveria ser o desejo da morte de nosso inimigo? Coisa que os homens se lisonjeiam de desejar licitamente? Pois às vezes oramos pelo que não devemos. Consideremos o que se lisonjeiam de orar licitamente! Pois oram para que alguma pessoa morra, e a sua herança lhes chegue. Mas ouçam também aqueles que oram pela morte de seus inimigos o Senhor dizendo: "Orai por vossos inimigos". Não orem por isto, que os seus inimigos morram; mas antes orem por isto, que sejam corrigidos; então estarão os seus inimigos mortos; pois a partir do momento em que forem corrigidos, doravante já não serão inimigos. "E todo o meu desejo está diante de Ti". E se supusermos que o nosso desejo está diante d'Ele, mas que aquele mesmo "gemido" não está diante d'Ele? Como pode ser isso, se o próprio desejo se exprime em "gemido"? Segue-se, pois: "E o meu gemido não Te é oculto".
De Ti, na verdade, não é oculto; mas de muitos homens é oculto. O servo de Deus, às vezes, parece dizer em humildade: "E o meu gemido não Te é oculto". Às vezes também parece sorrir. Estará, pois, morto aquele anseio em seu coração? Se, contudo, há o desejo interior, há também o "gemido". Nem sempre chega aos ouvidos do homem; mas nunca cessa de soar nos ouvidos de Deus.
14. "O meu coração está perturbado" (v. 10). Por que está perturbado? "E as minhas forças me faltaram". Geralmente algo nos sobrevém de repente; o "coração se perturba"; a terra treme; o trovão é enviado do Céu; um ataque formidável é feito contra nós, ou um som horrível é ouvido. Talvez se veja um leão no caminho; o "coração se perturba". Talvez ladrões nos espreitem; o "coração se perturba": somos tomados de um pavor repentino; de todo quadrante algo suscita ansiedade. Por quê? Porque "as minhas forças me faltaram". Pois que se temeria, se aquele vigor ainda permanecesse imóvel? Qualquer má notícia que fosse trazida, qualquer coisa que nos ameaçasse, qualquer som que se ouvisse, qualquer coisa que caísse, qualquer coisa que parecesse horrível, não inspiraria terror algum. Mas donde aquela perturbação? "As minhas forças me faltam". Por que me faltaram as forças? "Também a luz dos meus olhos se foi de mim". Assim também Adão não pôde ver "a luz de seus olhos". Pois a "luz de seus olhos" era o próprio Deus, a quem, tendo ofendido, fugiu para a sombra, e se escondeu entre as árvores do Paraíso. Encolheu-se em pavor diante da face de Deus, e buscou o abrigo das árvores; dali por diante, entre as árvores, já não tinha mais "a luz dos seus olhos", na qual costumava alegrar-se...
15. "Os meus amantes"; por que falaria eu doravante de meus inimigos? "Os meus amantes e os meus vizinhos se aproximaram, e se puseram diante de mim" (v. 11). Entendei isto que ele diz: "Se puseram diante de mim". Pois se se puseram diante de mim, caíram contra si mesmos. "Os meus amantes e os meus vizinhos se aproximaram e se puseram diante de mim". Reconheçamos agora as palavras da Cabeça que fala; comece agora a despontar sobre nós a nossa Cabeça em Sua Paixão. Mas, novamente, quando a Cabeça começa a falar, não separeis dela o Corpo. Se a Cabeça não quis separar-se das palavras do Corpo, ousaria o Corpo separar-se dos sofrimentos da Cabeça? Sofre tu na paixão de Cristo, pois Cristo, por assim dizer, pecou na tua infirmidade. Pois há pouco Ele falou dos teus pecados, como que falando em Sua própria Pessoa, e os chamou seus... Àqueles que desejavam estar perto de Sua exaltação, mas não pensavam em Sua humildade, respondeu e disse-lhes: "Podeis vós beber do cálice que Eu hei de beber?" Aqueles sofrimentos do Senhor são, pois, também os nossos sofrimentos: e se cada indivíduo servisse bem a Deus, guardasse verdadeiramente a fé, desse a cada um o que lhe é devido, e se conduzisse honestamente entre os homens, gostaria de ver se ele não sofre também aquilo mesmo que Cristo aqui relata na narrativa de Sua Paixão. "Os meus amantes e os meus vizinhos se aproximaram, e se puseram diante de mim".
16. "E os meus próximos ficaram longe". Quem eram os "próximos" que se aproximaram, e quem eram os que ficaram longe? Os judeus eram "próximos" porque "parentes próximos"; aproximaram-se mesmo quando O crucificaram: os Apóstolos também eram Seus "próximos"; e também eles "ficaram longe", para não terem de sofrer com Ele. Pode-se entender isto também assim: "Os meus amigos", isto é, aqueles que se fingiam "meus amigos": pois fingiam ser Seus amigos quando diziam: "Sabemos que Tu ensinas o caminho de Deus em verdade"; quando desejavam experimentá-lo, se se devia pagar tributo a César; quando Ele os convenceu por sua própria boca, quiseram parecer Seus amigos. "Mas Ele não necessitava de que alguém testemunhasse a respeito do homem, pois Ele mesmo sabia o que havia no homem"; de modo que, quando Lhe falavam palavras de amizade, Ele lhes respondia: "Por que Me tentais, hipócritas?" "Os meus amigos e os meus vizinhos" então "se aproximaram e se puseram diante de mim, e os meus próximos ficaram longe". Entendeis o que disse. Chamei de próximos aqueles que "se aproximaram" e, ao mesmo tempo, "ficaram longe". Pois "se aproximaram" no corpo, mas "ficaram longe" no coração. Quem esteve no corpo tão perto d'Ele quanto aqueles que O ergueram na Cruz? Quem no coração tão longe quanto aqueles que O blasfemaram? Ouvi esta espécie de distância descrita pelo profeta Isaías; observai esta proximidade e distância ao mesmo tempo. "Este povo Me honra com os lábios": eis que, com o corpo, se aproximam; "mas o seu coração está longe de Mim". As mesmas pessoas estão, ao mesmo tempo, "perto" e "longe" também: com os lábios estão perto, no coração longe. Contudo, porque também os Apóstolos ficaram longe, por medo, entendemo-lo mais simples e propriamente a respeito deles; de modo que entendamos por isto que alguns se aproximaram, e outros ficaram longe; visto que até Pedro, que seguira mais ousadamente do que os outros, ainda estava tão longe que, sendo interrogado e atemorizado, negou três vezes o Senhor, com quem prometera "estar pronto para morrer". Ele, que depois, para que, de longe, se fizesse aproximar, ouviu, após a ressurreição, a pergunta: "Amas-Me?", e disse: "Amo-Te"; e, ao dizer isto, foi trazido "para perto", assim como, ao negá-Lo, se fizera "longe"; até que, com a tríplice confissão de amor, afastasse de si a sua tríplice negação. "E os meus próximos ficaram longe".
17. "Também os que buscavam a minha alma preparavam violência contra mim" (v. 12). É agora manifesto quem "buscava a Sua alma"; a saber, aqueles que não tinham a Sua alma, visto que não estavam em Seu Corpo. Os que estavam "buscando a Sua alma" estavam longe removidos de Sua alma; mas "buscavam-na" para destruí-la. Pois a Sua alma pode ser "buscada" também de modo reto. Pois em outra passagem Ele repreende algumas pessoas, dizendo: "Não há quem cuide da Minha alma". Repreende alguns por não buscarem a Sua alma; e outros, novamente, por buscá-la. Quem é aquele que busca a Sua alma do modo reto? Aquele que imita os Seus sofrimentos. Quem são aqueles que buscaram a Sua alma do modo errado? Justamente aqueles que "prepararam violência contra Ele" e O crucificaram.
18. Prossegue: "Aqueles que buscavam as minhas faltas falaram vaidade". Que significa "buscavam as minhas faltas"? Buscavam muitas coisas, e não as encontraram. Talvez tenha querido dizer isto: "Buscavam acusações criminosas contra mim". Pois buscavam algo que dizer contra Ele, e "não encontraram". Pois buscavam encontrar coisas más para dizer d'Aquele que é "o Bom"; crimes do Inocente; quando as encontrariam n'Ele, que não tinha pecado? Mas, porque tinham de buscar pecados n'Aquele que não tinha pecado, restava-lhes inventar aquilo que não podiam encontrar. Por isso, "aqueles que buscavam as minhas faltas falaram vaidade", isto é, inverdade, "e imaginaram engano todo o dia"; isto é, meditavam traição sem interrupção. Sabeis quão atroz falso testemunho foi levantado contra o Senhor, antes de padecer. Sabeis quão atroz falso testemunho foi levantado contra Ele, mesmo depois de Sua ressurreição. Pois aqueles soldados que guardavam o Seu sepulcro, dos quais falou Isaías: "Designarei os ímpios para a Sua sepultura" (pois eram homens ímpios, e não haviam de falar a verdade, e, sendo subornados, disseminaram uma mentira), considerai que "vaidade" falaram. Também eles foram interrogados, e disseram: "Enquanto dormíamos, vieram os Seus discípulos e O furtaram". Isto é "falar vaidade". Pois se estavam dormindo, como poderiam saber o que fora feito?
19. Diz Ele então: "Mas eu, como surdo, não ouvia" (vers. 13). Aquele que não respondia ao que ouvia, era como se não os ouvisse. "Mas eu, como surdo, não ouvia. E era como mudo que não abre a sua boca." E repete de novo as mesmas coisas.
"E tornei-me como homem que não ouve, e em cuja boca não há repreensões" (vers. 14). Como se Ele não tivesse nada a dizer-lhes, como se não tivesse com que os repreender. Acaso não os havia já repreendido de muitas coisas? Não havia dito muitas coisas, e também dito: "Ai de vós, escribas e fariseus," e muitas outras além destas? Contudo, quando padeceu, nada disto disse; não porque não tivesse o que dizer, mas porque esperava que eles cumprissem todas as coisas, e que se cumprissem Nele todas as profecias que d'Ele haviam sido ditas, a saber: "E como ovelha diante do que a tosquia, emudeceu, e não abriu a Sua boca." Convinha-Lhe calar-Se na Sua Paixão, ainda que não devesse calar-Se depois no Juízo. Pois viera então para ser julgado Aquele que havia de vir depois para julgar; e devia vir com tão grande poder para julgar precisamente porque fora julgado em tão grande humildade.
3. "Eu disse: Guardarei os meus caminhos, para que não peque com a minha língua" (vers. 1). ...Pois não é sem razão que a língua está posta em lugar úmido, mas porque é tão propensa a escorregar. Percebendo, pois, quão difícil é ao homem estar sob a necessidade de falar e não dizer algo que depois desejará não ter dito, e tomado de repugnância por tais pecados, procura evitar coisa semelhante. A esta dificuldade está exposto aquele que busca "saltar além"... Ainda que eu tenha "saltado além" dos prazeres da terra, ainda que as paixões fugazes pelas coisas temporais não me enredem, ainda que agora despreze estas coisas de baixo e me eleve a coisas melhores que estas, contudo, mesmo nestas coisas melhores, basta-me a satisfação do conhecimento diante de Deus. De que me serve dizer o que há de ser tomado como pretexto, e dar ocasião aos que caviloso me contradizem? Por isso, "eu disse: Guardarei os meus caminhos, para que não peque com a minha língua. Guardo a minha boca com um freio." Por que razão é isto? É por causa dos religiosos, dos ponderados, dos fiéis, dos santos? Longe disso! Estes ouvem de tal modo que louvam o que aprovam; quanto ao que desaprovam, talvez, entre muito que louvam, antes o desculpem do que o caviloso contradigam; por causa de que pessoas então "guardas os teus caminhos" e pões guarda em teus lábios "para que não peques com a tua língua"? Ouve: é "enquanto o ímpio se põe diante de mim." Não é "ao meu lado" que ele toma posição, mas "contra mim." Por quê?... O próprio Senhor diz: "Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora." E o Apóstolo: "Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais." Contudo, não como a pessoas de quem se deva desesperar, mas como a quem ainda precisava ser alimentado. Pois prossegue dizendo: "Como a meninos em Cristo, alimentei-vos com leite, e não com comida sólida; pois até então não éreis capazes." Bem, dize-nos isto ainda agora. "Nem sequer agora sois capazes." Não sejas, pois, impaciente por ouvir aquilo para que ainda não estás apto; antes cresce, para que possas "suportá-lo." É assim que nos dirigimos ao pequenino, que ainda precisa ser alimentado com o leite benigno no seio da Igreja Mãe, e ser tornado apto para o "alimento sólido" da Mesa do Senhor. Mas que posso eu dizer, mesmo dessa forma, ao pecador que "se põe contra mim," que julga ou finge ser capaz daquilo que "não pode suportar"; de modo que, quando eu lhe digo algo e ele falhou em compreendê-lo, não suponha que foi ele quem falhou em compreender, mas eu quem me malogrei. Por isso, por causa deste pecador, que "se põe contra mim, guardo a minha boca como que com um freio."
2. Sabeis que alguns dos Salmos têm por título "Cânticos dos Graus"; e no grego é bastante evidente o que significa a palavra anabaqmwn. Pois anabaqmoi são graus (ou degraus) dos que sobem, não dos que descem. O latim, não podendo exprimi-lo com rigor, exprime-o pelo termo geral; e, ao chamá-los "degraus," deixou indeterminado se eram "degraus" de pessoas que sobem ou que descem. Mas porque não há "discurso nem linguagem onde não se ouçam as suas vozes entre eles," a língua anterior explica a que vem depois dela: e o que era ambíguo numa é tornado certo na outra. Assim, pois, como ali quem canta é alguém que "sobe," aqui é alguém que "salta além"... Venha, pois, ainda a nós este Iditum, salte ele "além" daqueles cujo deleite está nas coisas de baixo, e tenha ele deleite nestas coisas, e regozije-se na Palavra do Senhor; no deleite da lei do Altíssimo. ...
1. O título deste Salmo, que acabamos de cantar e propusemos discutir, é: "Para o fim, para Iditum, um Salmo do próprio Davi." Aqui, pois, devemos buscar, e devemos atender, as palavras de uma certa pessoa chamada Iditum; e se cada um de nós puder ser Iditum, naquilo que ele canta reconhece-se a si mesmo, e ouve a si mesmo falar. Pois poderás ver quem se chamava Iditum, segundo a antiga descendência do homem; procuremos, contudo, entender o que este nome traduz, e busquemos compreender a Verdade na tradução da palavra. Segundo, pois, o que temos podido descobrir por indagação naqueles nomes que foram traduzidos da língua hebraica para o latim, por aqueles que estudam as sagradas escrituras, Iditum, traduzido, é "aquele que os salta além." Quem é, pois, esta pessoa que "os salta além"? Ou quem são aqueles que ele "saltou além"?... Pois há algumas pessoas, ainda apegadas à terra, ainda curvadas até ao chão, ainda pondo o coração no que é de baixo, ainda depositando as suas esperanças em coisas que passam, as quais aquele que se chama "o que as salta além" "saltou além."
4. "Emudeci, e fui humilhado, calei-me quanto ao bem" (vers. 2). Pois esta pessoa, que "salta além," sofre certa dificuldade num estágio a que já chegou; e deseja avançar além, mesmo dali, para evitar esta dificuldade. Temi cometer pecado; de modo que não falei; impus a mim mesmo a necessidade do silêncio: pois havia dito assim: "Guardarei os meus caminhos, para que não peque com a minha língua." Enquanto temia demasiado dizer algo errado, calei-me quanto a tudo o que é bom. Pois de onde poderia eu dizer coisas boas, senão porque as ouvi? "És Tu que me farás ouvir alegria e regozijo." E "o amigo do esposo está de pé e O ouve, e alegra-se por causa da voz do esposo," não da sua própria. Para que fale coisas verdadeiras, ouve o que há de dizer. Pois é aquele que "fala mentira" que "fala do que é seu." ... Quando, pois, havia posto, por assim dizer, "um freio" em meus lábios; e me constrangi ao silêncio, porque via que em toda parte o discurso era perigoso, então, diz ele, sucedeu-me aquilo que eu não desejava: "Emudeci, e fui humilhado"; não me humilhei a mim mesmo, mas fui humilhado; "e calei-me até quanto ao bem." Enquanto temia dizer algum mal, comecei a abster-me de dizer o que é bom: e condenei a minha resolução; pois "calava-me até quanto ao bem."
"E a minha dor se renovou" (vers. 2). Visto que eu havia encontrado no silêncio uma espécie de trégua a certa "dor" que me havia sido infligida por aqueles que caviloso me criticavam as palavras e me censuravam: e essa dor que era causada pelos caviladores havia, na verdade, cessado; mas quando "me calei até quanto ao bem, a minha dor se renovou." Comecei a afligir-me mais por ter-me abstido de dizer o que devia ter dito, do que antes me havia afligido por ter dito o que não devia. "E a minha dor se renovou."
5. "E enquanto eu meditava, ateou-se o fogo" (vers. 3). ...Refleti sobre as palavras do meu Senhor: "Servo mau e negligente, deverias ter posto o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, à minha vinda, o receberia de volta com juros." E o que se segue, afaste-o Deus dos que são Seus dispenseiros! Amarrai-o de pés e mãos, e seja lançado nas trevas exteriores; o servo que não foi dissipador dos bens do seu senhor a ponto de os destruir, mas foi negligente em empregá-los para os fazer crescer. Que devem esperar aqueles que os dissiparam em luxúria, se são condenados os que, por negligência, os conservaram? "Enquanto eu meditava, ateou-se o fogo." E, estando ele neste estado de vacilante suspensão, entre falar e calar-se, entre os que estão prontos a caviloso contradizer e os que estão ansiosos por ser instruídos, ...neste estado de suspensão, ora por um lugar melhor, um lugar diferente deste seu presente ofício de dispenseiro, no qual o homem se acha em tal dificuldade e em tal perigo, e suspirando por certo "fim," quando já não há de estar sujeito a estas coisas, quando o Senhor há de dizer ao fiel dispenseiro: "Entra no gozo do teu Senhor," diz ele: "Então falei com a minha língua." Nesta flutuação, em meio a estes perigos e a estas dificuldades, porque, em consequência da abundância das ofensas, "o amor de muitos se esfria," ainda que a lei do Senhor inspire deleite, nesta flutuação então (digo eu), "então falei com a minha língua." A quem? Não ao ouvinte a quem gostaria de instruir; mas Àquele que ouve e também atende, por quem eu gostaria de ser instruído a mim mesmo. "Falei com a minha língua" a Ele, de quem interiormente ouço tudo quanto ouço de bom ou de verdadeiro. — Que disseste tu?
"Senhor, faze-me conhecer o meu fim" (v. 4). Pois algumas coisas já ultrapassei; e cheguei a certo ponto, e aquilo a que cheguei é melhor do que aquilo donde avancei até este ponto; mas ainda resta um ponto, que há de ser deixado para trás. Pois não devemos permanecer aqui, onde há provações, escândalos, onde temos de suportar pessoas que nos ouvem e nos caluniam. "Faze-me conhecer o meu fim;" o fim, do qual ainda estou distante, não o percurso que já se acha diante de mim.
6. O "fim" de que fala é aquele sobre o qual o Apóstolo fixava o olhar, em sua carreira; e confessou a própria fraqueza, percebendo em si mesmo um estado de coisas diverso daquele que buscava alhures. Pois diz: "Não que já tenha alcançado, ou que já seja perfeito. Irmãos, não julgo ter alcançado." E para que não digas: "Se o Apóstolo não alcançou, terei eu alcançado? Se o Apóstolo não é perfeito, serei eu perfeito?"...
7. "E o número dos meus dias, qual é." Pergunto pelo "número dos meus dias, qual é." Posso falar de "número" sem número, e compreender "número sem número," no mesmo sentido em que se pode falar de "anos sem anos." Pois onde há anos, há também, de algum modo, "número," em todo caso. Mas, contudo, "Tu és o mesmo, e os teus anos não terão fim." "Faze-me conhecer o número dos meus dias;" mas "conhecer qual é." Que então? Aquele número em que te encontras, cuidas tu que ele "é"? Certamente, se bem pesar a questão, ele não tem ser; se me demoro atrás, ele tem uma espécie de ser; se me elevo acima dele, não tem nenhum. Se, sacudindo os grilhões destas coisas, contemplo as coisas de cima, se comparo as coisas que passam com as que permanecem, vejo o que verdadeiramente é, e o que antes parece ser do que realmente é. Diria eu que estes meus dias "são"; e aplicarei temerariamente esta palavra tão plena de sentido a este curso de coisas que passam? A tal ponto quase deixei eu mesmo de "ser, faltando" como estou em minha fraqueza, que escapou de minha memória Aquele que disse: "Eu Sou o que Sou." Terá então algum número de dias alguma existência? Em verdade a tem, e é "número sem fim."... Tudo é arrastado por uma série de instantes, fugindo uns após outros; há uma torrente de existências sempre a fluir e fluir; uma "torrente," da qual bebeu no caminho Aquele que agora "ergueu a Cabeça." Estes dias, pois, não têm ser verdadeiro; passam quase antes de chegar; e quando chegam, não podem permanecer; empurram-se uns aos outros, seguem-se um ao outro, e não podem deter-se em seu curso. Do passado nada é chamado de volta; o que ainda há de ser, é esperado como algo que há de passar de novo: não é ainda possuído, enquanto ainda não chegou; não pode ser retido uma vez chegado. Pergunta ele, pois, acerca do "número dos seus dias, que é;" não daquele que "não é:" e (o que me confunde com dificuldade ainda maior e mais desconcertante) ao mesmo tempo "é" e "não é." Não podemos dizer que "é" aquilo que não permanece; nem que "não é," quando já chegou e está passando. É esse absoluto "É," esse verdadeiro "É," esse "É" no sentido verdadeiro da palavra, que anseio; esse "É"; que "é" naquela "Jerusalém" que é a "Esposa" do meu Senhor; onde não haverá morte, não haverá desfalecimento; haverá um dia que não passa, mas permanece: que não tem véspera que o preceda, nem manhã que o pressione de perto. Este "número dos meus dias, que é," este (digo eu), "faze-Me Tu conhecer."
8. "Para que eu saiba o que me falta." Pois enquanto luto aqui, "isto" me falta: e enquanto me falta, não me chamo perfeito. Enquanto não o recebi, digo: "não que já tenha alcançado, nem que já seja perfeito; mas prossigo para o prêmio da soberana vocação de Deus." Que eu receba isto como prêmio da minha carreira! Haverá certo lugar de repouso, para terminar o meu curso; e nesse lugar de repouso haverá uma Pátria, e não peregrinação, não dissensão, não tentação. Faze-me, pois, conhecer "este número dos meus dias, que é, para que eu saiba o que me falta;" porque ainda não estou lá; para que não me ensoberbeça do que já sou, para que "seja achado nEle, não tendo a minha própria justiça." ...
9. "Eis que fizeste envelhecer os meus dias" (v. 5). Pois estes dias vão "envelhecendo." Anseio por dias novos "que jamais hão de envelhecer," para que eu possa dizer: "As coisas velhas passaram; eis que as coisas se fizeram novas." Já novas na esperança; depois, na realidade. Pois embora, na esperança e na fé, já feitos novos, quanto ainda fazemos segundo a nossa velha natureza! Pois não estamos tão completamente "revestidos" de Cristo, que não carreguemos conosco algo derivado de Adão. Observai que Adão vai "envelhecendo" dentro de nós, e Cristo vai sendo "renovado" em nós. "Ainda que o nosso homem exterior pereça, todavia o nosso homem interior se renova de dia em dia." Portanto, enquanto fixamos o pensamento no pecado, na mortalidade, no tempo que se apressa a passar, na tristeza, na fadiga e no trabalho, nos estágios da vida que se sucedem uns aos outros, e não permanecem, passando insensivelmente da infância até a velhice; enquanto, digo eu, fixamos os olhos nestas coisas, vejamos aqui "o velho homem," o "dia que vai envelhecendo;" o Cântico que está antiquado; o Antigo Testamento; quando, porém, nos voltamos para o homem interior, para aquelas coisas que hão de ser renovadas em lugar destas que hão de ser mudadas, encontremos o "homem novo," o "dia novo," o "cântico novo," o "Novo Testamento;" e essa "novidade," amemo-la de tal modo, que não tenhamos temor de que ela "envelheça."... Este homem, pois, que se apressa em direção àquelas coisas que são novas, e "avançando para as que estão diante," diz: "Senhor, faze-me conhecer o meu fim, e o número dos meus dias, que verdadeiramente é, para que eu saiba o que me falta." Vede que ainda arrasta consigo Adão; e mesmo assim se apressa em direção a Cristo. "Eis," diz ele, "que fizeste envelhecer os meus dias." São aqueles dias derivados de Adão, aqueles dias, digo eu, que fizeste envelhecer. Vão envelhecendo dia após dia: e assim envelhecendo, a ponto de serem, um dia ou outro, também consumidos. "E a minha substância é como nada diante de Ti." "Diante de Ti, ó Senhor, a minha substância é como nada." "Diante de Ti;" que vês isto; e eu também, quando o vejo, só o vejo quando estou "diante de Ti."
"Diante dos homens" eu não o vejo. Pois que direi? Que palavras usarei para mostrar que aquilo que agora sou é nada em comparação com Aquele que verdadeiramente "É"? Mas é interiormente que isto se diz; é interiormente que se sente, na medida em que se sente. "Diante de Ti, ó Senhor," onde estão os teus olhos; e não onde estão os olhos dos homens. E onde estão os teus olhos, qual é o estado das coisas? "Aquilo que sou é como nada."
10. "Mas, na verdade, todo homem vivente é totalmente vaidade." "Mas, na verdade." Pois que dizia ele acima? Eis que já "saltei além" de todas as coisas mortais, e desprezei as coisas de baixo, pisei sob os pés as coisas da terra, alcei-me para as delícias da lei do Senhor, naveguei na dispensação do Senhor, ansiei por aquele "Fim" que Ele mesmo não há de ter fim, ansiei pelo número dos meus dias que verdadeiramente "é," porque o número de dias como estes não tem ser real. Eis que já sou tal como este; já saltei além de tanto; já anseio por aquelas coisas que permanecem. "Mas, na verdade," no estado em que me encontro aqui, enquanto aqui estou, enquanto estou neste mundo, enquanto carrego carne mortal, enquanto a vida do homem na terra é uma provação, enquanto suspiro entre ocasiões de escândalo, enquanto, "estando em pé," temo "cair," enquanto tanto o meu bem quanto o meu mal permanecem em incerteza, "todo homem vivente é totalmente vaidade."...
11. "Ainda que o homem ande na Imagem" (v. 6). Em que "Imagem," senão naquela dAquele que disse: "Façamos o homem à Nossa Imagem, conforme a Nossa Semelhança." "Ainda que o homem ande na Imagem." A razão por que diz "ainda que," é que isto é algo grande. E a este "ainda que" segue-se "todavia," de modo que o "ainda que" que já ouviste, se refira ao que está além do sol; mas este "todavia," que há de seguir-se, ao que está "debaixo do sol," e que um se refira à Verdade, o outro à "vaidade." "Ainda que," pois, "o homem ande na Imagem, todavia se inquieta em vão." Ouve a causa de sua "inquietação," e vê se não é vã; para que a pises sob os pés, para que "saltes além dela," e habites nas alturas, onde essa "vaidade" não existe. Que "vaidade" é essa? "Ele amontoa riquezas, e não sabe para quem as ajuntará." Ó vaidade insensata! "Bem-aventurado o homem que faz do Senhor a sua confiança, e não respeitou vaidades, nem mentiras enganosas." Para ti, na verdade, ó homem cobiçoso, para ti eu pareço estar fora de meu juízo, estas palavras te parecem "fábulas de velhas." Pois tu, homem de grande juízo, e de grande prudência, sem dúvida, dia a dia inventas métodos de adquirir dinheiro, pelo comércio, pela agricultura, talvez pela eloquência, tornando-te versado na lei, pela milícia, talvez acrescentes ainda a usura. Como o homem astuto que és, nada deixas por tentar, para amontoar moeda sobre moeda; e guardá-la com maior cuidado em lugar secreto. Espolias os outros; guardas-te do espoliador; temes sofrer tu mesmo a injustiça que tu mesmo praticas; e mesmo aquilo que sofres não te corrige. ...Examina o teu próprio coração, e essa prudência tua, que te leva a zombar de mim, a julgar-me fora de meu juízo por dizer estas coisas: e dize-me agora, "Amontoas tesouros; para quem os ajuntas?" Vejo o que me dirias; como se aquilo que dirias não tivesse ocorrido à pessoa aqui descrita; dirás, guardo-os para meus filhos? Esta é a voz do afeto paterno; a desculpa da injustiça. "Guardo-os" (dizes) "para meus filhos." Então guardas para teus filhos, é isso? Não sabia disto Iditum? Certamente sabia; mas contava isto entre as coisas dos "dias velhos," que envelheceram, e por isso o desprezou: porque se apressava em direção aos novos "dias."...
12. Pois Aquele "por quem todas as coisas foram feitas," edificou "moradas" para todos nós: para lá quereria Ele que fosse adiante de nós aquilo que temos; para que não o percamos na terra. Quando, porém, o guardaste na terra, dize-me para quem hás de "ajuntá-lo"? Tens filhos: acrescenta mais um ao seu número; e dá também algo a Cristo. "Ele se inquieta em vão."
13. "E agora" (v. 7). "E agora," diz este Iditum, - olhando para trás, para certo espetáculo "vão," e olhando para cima, para certa Verdade, colocado no meio, onde tem algo além de si, e algo também atrás de si, tendo abaixo de si o lugar de onde tomou o impulso, tendo acima de si aquilo para onde se estendeu; - "e agora," quando já "saltei além" de algumas coisas, quando já pisei muitas sob os pés, quando já não me deixo cativar pelas coisas temporais; mesmo agora, não sou perfeito, "ainda não alcancei." "Pois pela esperança somos salvos; mas a esperança que se vê não é esperança; pois o que o homem vê, por que ainda o espera? Mas se esperamos o que não vemos, então com paciência o aguardamos." Por isso diz: "E agora, que espero eu? Não é o Senhor?" Ele é a minha expectativa, que me deu todas essas coisas, para que eu as desprezasse. Ele me dará também a Si mesmo, Ele que está acima de todas as coisas, e "por quem todas as coisas foram feitas," e por quem também eu fui feito entre todas as coisas; Ele mesmo, o Senhor, é a minha Expectativa! Vede, irmãos, vede Iditum, vede de que modo ele O espera! Que ninguém, pois, se chame perfeito aqui; engana-se e ilude-se a si mesmo; está a lograr-se, não pode ter perfeição aqui, e de que lhe aproveita perder a humildade?...
"E a minha substância está sempre diante de Ti." Já avançando, já tendendo para Ele, e em certa medida já começando a "ser," ainda assim (diz ele) "a minha substância está sempre diante de Ti." Ora, aquela outra substância está também diante dos homens. Tens ouro, prata, escravos, propriedades, árvores, gado, servos. Estas coisas são visíveis mesmo aos homens. Há certa "substância que está sempre diante de Ti."
14. "Livra-me de todas as minhas transgressões" (v. 8). Já "saltei além" de muito terreno, de muitíssimo terreno já; mas, "se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós." Já "saltei além" de muito: mas ainda assim "firo o meu peito," e digo: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores." Tu, pois, és a "minha expectativa!" o meu "Fim." Pois "Cristo é o fim da Lei para justiça, para todo aquele que crê." De todas as minhas ofensas: não somente daquelas, para que não recaia naquelas que já "saltei além;" mas de todas, sem exceção, daquelas por causa das quais agora firo o meu peito, e digo: "Perdoa-nos as nossas dívidas." "Livra-me de todas as minhas ofensas:" estando eu assim disposto, e retendo firme o que disse o Apóstolo: "Todos quantos, pois, somos perfeitos, sintamos isto mesmo." Pois no mesmo momento em que disse que não era "ainda perfeito," logo em seguida acrescenta: "Todos quantos, pois, somos perfeitos, sintamos isto mesmo."... És tu, pois, ó Apóstolo, não perfeito, e somos nós perfeitos? Mas escapou-te que ele mesmo se chamou há pouco "perfeito"? Pois não diz: "Todos vós quantos sois perfeitos, senti isto"; mas "Todos quantos, pois, somos perfeitos, sintamos isto mesmo;" depois de ter dito pouco antes, "Não que já tenha alcançado; nem que já seja perfeito." De nenhum outro modo, pois, podes ser perfeito nesta vida, senão sabendo que não podes ser perfeito nesta vida. Esta será, pois, a tua perfeição, ter "saltado além" de algumas coisas, de modo a ainda ter algum ponto para o qual te apressas: de modo a ter ainda algo restante, para o qual haverás de saltar, quando tudo o mais tiver sido ultrapassado. É uma fé como esta que é segura; pois quem quer que julgue já ter alcançado, "se exalta a si mesmo," de modo a ser "abatido" depois. ...
15. "Fizeste-me o opróbrio dos insensatos." Assim o quiseste, que eu vivesse entre aqueles, e pregasse a Verdade entre aqueles, que amam a vaidade; e não posso deixar de ser motivo de riso para eles. "Pois fomos feitos espetáculo a este mundo, e aos anjos, e aos homens:" aos anjos que louvam, aos homens que censuram, a nós; ou antes, aos anjos, alguns dos quais louvam, alguns dos quais nos censuram: e também aos homens, alguns dos quais nos louvam, e alguns nos censuram. ...Tanto um quanto o outro são armas para nós: um "à direita," outro "à esquerda:" armas, contudo, são ambos; ambos estes gêneros de armas, tanto as "à direita," quanto as "à esquerda;" tanto os que louvam, quanto os que censuram; tanto os que nos honram, quanto os que nos cobrem de desonra; com ambos estes gêneros combato contra o demônio; com ambos o firo; derroto-o com a prosperidade, se por ela não me corrompo; com a adversidade, se por ela não me quebranto de ânimo.
16. "Emudeci, e não abri a minha boca" (v. 9). Mas foi para me guardar do "homem insensato" que "emudeci, e não abri a minha boca." Pois a quem contaria eu o que se passa dentro de mim? "Pois ouvirei o que falará em mim o Senhor Deus; porque Ele falará paz ao seu povo." Mas "não há paz," diz o Senhor, "para os ímpios." "Emudeci, e não abri a minha boca; porque Tu és quem me fizeste." Foi esta a razão por que não abriste a tua boca, "porque Deus te fez"? É estranho isto; pois não foi Deus quem fez a tua boca, para que falasses? "Aquele que plantou o ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não verá?" Deu-te Deus uma boca para falares; e dizes tu, "emudeci, e não abri a minha boca, porque Tu me fizeste"? Ou pertencerá a cláusula, "porque Tu me fizeste," ao verso que se segue? "Aparta de mim a tua praga" (v. 10). Porque és Tu quem me fizeste, não te aprouve destruir-me inteiramente; açoita, para que eu seja melhorado, não para que eu desfaleça; fere-me, para que eu seja estendido em maior extensão e largura, não para que seja reduzido a pó. "Pela severidade da tua mão desfaleci nas correções." Isto é, "desfaleci" enquanto Tu me corrigias. E que se entende por "corrigir-me"? senão o que se segue.
17. "Tu com repreensões castigaste o homem por causa da iniquidade; fizeste consumir-se a minha vida como a aranha" (v. 11). Muito há que este Iditum discerne; que discerne todo aquele que discerne como ele; que salta além como ele. Pois diz que desfaleceu nas correções de Deus; e quereria que a praga fosse afastada dele, "porque foi Ele quem o fez." Que Ele me renove, Aquele que também me fez; que Aquele que me criou, crie-me de novo. Mas, contudo, irmãos, supomos nós que não houve causa para seu desfalecimento, de modo que deseja ser "renovado," ser "criado de novo"? "É por iniquidade," diz ele, "que castigaste o homem." Tudo isto, o meu ter desfalecido, o meu estar fraco, o meu "clamar das profundezas," tudo isto é por causa da "iniquidade;" e nisto não me condenaste, mas me "castigaste." "Castigaste o homem por causa do pecado." Ouvi isto mais claramente de outro Salmo: "Bom me é ter sido afligido, para que aprendesse a tua justiça." Fui "afligido," e ao mesmo tempo "isto me é bom;" é ao mesmo tempo castigo, e ato de favor. Que tem Ele reservado para nós depois de cessado o castigo, Aquele que inflige o próprio castigo a título de favor? Pois é dEle que se disse: "Fui abatido, e Ele me sarou:" e, "bom me é ter sido afligido, para que aprendesse a tua justiça." "Castigas o homem por causa da iniquidade." E o que está escrito, "formas a minha dor ensinando-me," só poderia ser dito a Deus por alguém que estivesse "saltando além" de seus semelhantes; "formas a minha dor ensinando-me;" fazes, isto é, uma lição para mim a partir da minha tristeza. És Tu que formas essa mesma dor; não a deixas informe, mas a formas; e essa dor, que por Ti foi infligida, uma vez formada, será uma lição para mim, para que por Ti eu seja libertado. Pois o vocábulo finges é usado no sentido de "formar," como que moldando, a minha dor; não no sentido de "fingi-la"; do mesmo modo que fingit se aplica ao artista, no mesmo sentido em que figulus deriva de fingere. Tu, pois, "castigaste o homem por causa da iniquidade." Vejo-me em aflições; vejo-me sob castigo; e não vejo injustiça em Ti. Se, pois, estou sob castigo, e se não há injustiça em Ti, resta que estivesses "castigando o homem por causa da iniquidade."
18. E por que meios o "castigaste"? Dize-nos, ó Iditum, o modo do teu castigo; dize-nos de que modo foste "castigado." "E fizeste consumir-se a minha vida como a aranha." Este é o castigo! Que se consome mais depressa do que a aranha? Falo da própria criatura; embora o que possa haver mais sujeito a "consumir-se" do que as teias da aranha? Observai também quão sujeita à decadência é a própria criatura. Basta pousar-lhe levemente o dedo, e já é ruína: não há absolutamente nada mais facilmente destruído. A tal estado reduziste a minha vida, castigando-me "por causa da iniquidade." Quando o castigo nos faz fracos, há uma espécie de força que seria falta. ...Foi por certa força que o homem ofendeu, de modo a requerer ser corrigido pela fraqueza: pois foi por certo "orgulho" que ofendeu; de modo a requerer ser castigado pela humildade. Todas as pessoas soberbas se chamam a si mesmas fortes. Por isso muitos "vieram do Oriente e do Ocidente," e alcançaram "assentar-se com Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos Céus." Por que alcançaram isto? Porque não quiseram ser fortes. Que se entende por "não quiseram ser fortes"? Temeram presumir dos próprios méritos. Não "procuraram estabelecer a própria justiça," para que pudessem "submeter-se à justiça de Deus." ...Eis! és mortal; e trazes contigo um corpo de carne que se corrompe: "e caireis como um dos príncipes. Morrereis como homens," e caireis como o demônio. Que bem te faz a disciplina corretiva da mortalidade? O demônio é soberbo, por não ter corpo mortal, por ser anjo. Mas tu, que recebeste um corpo mortal, e a quem nem isto aproveita, para humilhar-te por tamanha fraqueza, "cairás como um dos príncipes." Esta é, pois, a primeira graça do dom de Deus, trazer-nos à confissão da nossa fraqueza, para que qualquer bem que possamos fazer, qualquer capacidade que tenhamos, sejamo-la nEle; para que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor." "Quando estou fraco," diz ele, "então sou forte."
19. "Mas, na verdade, todo homem vivente se inquieta em vão." Volta ao que mencionou pouco antes. Embora esteja aqui progredindo, ainda assim, "todo homem vivente se inquieta em vão;" porquanto vive em estado de incerteza. Pois quem tem alguma certeza mesmo da própria bondade? "Ele se inquieta em vão." Que lance sobre o Senhor o peso do seu cuidado; que lance sobre Ele tudo quanto lhe causa ansiedade. "Que Ele te sustente;" que Ele te guarde. Pois nesta terra que há de certo, senão a morte? Considerai toda a soma do bem ou do mal desta vida, seja o que pertence à justiça, seja o que pertence à injustiça; que há aqui de certo, senão a morte? Tens progredido na bondade? Sabes o que és hoje; o que serás amanhã, não sabes! És pecador? Sabes o que és hoje; o que serás amanhã, não sabes! Esperas riqueza; é incerto se ela te há de caber. Esperas ter esposa; é incerto se a hás de obter, ou que espécie de esposa hás de obter. Esperas filhos: é incerto se te hão de nascer. Nasceram-te? É incerto se hão de viver: se vivem, é incerto se hão de crescer em virtude, ou se hão de decair. Para qualquer lado que te voltes, tudo é incerto, só a morte é certa. És pobre? É incerto se hás de enriquecer...
20. "Ouve a minha oração, ó Senhor" (v. 12). De que hei de alegrar-me? De que devo gemer? Alegro-me por causa do que passou, gemo ansiando por aquilo que ainda não veio. "Ouve a minha oração, e dá ouvidos ao meu clamor. Não te cales diante das minhas lágrimas." Pois será que já não choro mais, porque já "passei além," já deixei para trás coisas tão grandes quanto estas? "Não choro eu ainda muito mais"? Pois, "quem aumenta o conhecimento, aumenta a tristeza." Quanto mais anseio pelo que não está aqui, não gemo eu tanto mais por isso até que venha? Não choro eu tanto mais até que venha?...
21. "Porque sou peregrino contigo." Mas com quem sou eu "peregrino"? Quando estava com o demônio, era eu "peregrino;" mas então tinha um mau hospedeiro e anfitrião; agora, porém, estou contigo; mas ainda sou "peregrino." Que se entende por peregrino? Sou "peregrino" no lugar de onde hei de partir; não no lugar onde hei de habitar para sempre. O lugar onde hei de permanecer para sempre deveria antes ser chamado o meu lar. No lugar de onde hei de partir sou "peregrino;" mas é contigo, contudo, que sou peregrino, com quem hei de permanecer depois, quando tiver chegado ao meu lar. Mas que lar é esse para o qual hás de partir desta condição de peregrino? Reconhecei aquele lar, do qual fala o Apóstolo: "Temos um edifício de Deus, casa não feita por mãos, eterna nos Céus." Se esta casa é eterna nos Céus, quando a ela chegarmos, já não seremos mais peregrinos. Pois como poderias ser peregrino num lar eterno? Mas aqui, onde o Senhor da casa há de um dia dizer-te, "Retira-te," sem que tu mesmo saibas quando o dirá, está tu preparado. E ansiando pelo teu lar eterno, te manterás preparado para ele. E não te agastes com Ele, porque te avisa para que te retires, quando a Ele aprouver. Pois Ele não fez contigo pacto algum, nem se obrigou por compromisso algum; nem entraste na posse desta casa sob estipulação certa de prazo definido: hás de partir, quando aprouver ao seu Senhor. Pois é por isso que agora habitas nela de graça. "Porque sou peregrino contigo, e estrangeiro." Ali, pois, é a minha pátria: ali é o meu lar. "Sou peregrino contigo, e estrangeiro." Também aqui se subentende "contigo." Pois muitos são estrangeiros com o demônio: mas aqueles que já creram e são fiéis, são, é verdade, "estrangeiros" ainda, porque ainda não chegaram àquela pátria e àquele lar: mas ainda assim são estrangeiros com Deus. Pois enquanto estamos no corpo, somos estrangeiros longe do Senhor, e desejamos, quer sejamos estrangeiros, quer permanecendo aqui, "sermos aceitos por Ele." Sou "peregrino contigo; e estrangeiro, como todos os meus pais o foram." Se, pois, sou como todos os meus pais foram, direi eu que não hei de partir, quando eles partiram? Hei de hospedar-me aqui em termos diversos daqueles em que também eles se hospedaram?...
22. "Concede-me alguma remissão, para que eu seja refrigerado antes que me vá daqui" (v. 13). Considera bem, Iditum, considera quais são esses nós que desejarias ver "soltos" para ti, a fim de que pudesses ser "refrigerado antes de te ires daqui". Pois tens certos ardores febris dos quais gostarias de ser refrigerado, e dizes: "para que eu seja refrigerado", e "concede-me uma remissão". Que havia Ele de remitir, ou de soltar para ti, senão aquela dificuldade sob a qual, e por causa da qual, dizes: "Perdoa-nos as nossas dívidas. Concede-me uma remissão antes que eu me vá daqui, e já não seja". Livra-me dos meus pecados, "antes que eu me vá daqui", para que não me vá daqui com os meus pecados. Remite-os a mim, para que eu seja posto em repouso na minha consciência, para que ela seja aliviada de sua ansiedade febril, a ansiedade com que "eu me entristeço por causa do meu pecado. Concede-me uma remissão, para que eu seja refrigerado" (antes de tudo o mais), "antes que eu me vá daqui, e já não seja". Pois se não me concederes uma "remissão, para que eu seja refrigerado", "ir-me-ei e já não serei". "Antes que eu vá" para lá, aonde, se for, dali por diante "já não serei. Concede-me uma remissão, para que eu seja refrigerado". Suscitou-se uma questão sobre como ele "já não será"... Que se entende, pois, por "já não será", senão que Iditum alude ao que é verdadeiro "ser", e ao que não é verdadeiro "ser"? Pois ele contemplava com a mente, com a qual o podia fazer, com "o olho da mente", pelo qual era capaz de contemplá-lo, aquele fim que desejara ver-lhe mostrado, dizendo: "Senhor, faze-me conhecer o meu fim". Contemplava "o número dos seus dias, que verdadeiramente é"; e observava que tudo o que é inferior, em comparação com aquele verdadeiro ser, não tem verdadeiro ser. Pois aquelas coisas são permanentes; estas estão sujeitas à mudança; mortais e frágeis, e o sofrimento eterno, embora cheio de corrupção, é por esta mesma razão que não há de ter fim, para que esteja sempre a acabar sem nunca acabar. Aludia, pois, àquele reino da bem-aventurança, à pátria feliz, à morada feliz, onde os Santos são partícipes da Vida eterna e da Verdade imutável; e temia "ir" aonde isso não existe, onde não há verdadeiro ser; ansiando por estar ali, onde o "Ser", no sentido mais alto, é! É por causa deste contraste, então, que, estando de pé no meio entre ambos, ele diz: "Concede-me uma remissão, para que eu seja refrigerado antes que eu me vá daqui e já não seja". Pois se Tu não me "concederes uma remissão" dos meus pecados, ir-me-ei de Ti por toda a eternidade! E de quem me irei por toda a eternidade? Daquele que disse: Eu Sou Aquele que Sou; daquele que disse: "Dize aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós". Aquele, pois, que se afasta d'Ele, indo em direção contrária, vai para o não-ser...
2. Digamos, pois, o que este Salmo diz. "Esperei pacientemente pelo Senhor" (v. 1). Esperei pacientemente pela promessa não de um mero mortal, que pode tanto enganar quanto ser ele mesmo enganado; esperei pela consolação não de um mero mortal, que pode ser consumido por sua própria tristeza antes de me dar conforto. Deveria um irmão mortal tentar consolar-me, quando ele próprio está igualmente na tristeza? Choremos em companhia; choremos juntos, "esperemos pacientemente" juntos, unamos também as nossas orações. A quem esperei senão ao Senhor? O Senhor que, ainda que adie o cumprimento de suas promessas, jamais as revoga? Ele há de cumpri-las; certamente há de cumpri-las, porque já cumpriu muitas das suas promessas; e da verdade de Deus não devemos ter temor algum, ainda que Ele não tivesse cumprido nenhuma delas até agora. Eis que pensemos assim doravante: "Ele nos prometeu tudo; ainda não nos deu posse de nada; Ele é um Prometedor responsável; um Pagador fiel: mostra-te tu apenas um devido exigidor daquilo que foi prometido; e se és "fraco", se és um dos pequeninos, reclama a promessa da sua misericórdia. Não vês os tenros cordeiros ferindo com a cabeça as tetas de suas mães, a fim de saciarem-se de leite?"... "E Ele atendeu a mim, e ouviu o meu clamor." Ele lhe atendeu, e o ouviu. Vê que não esperaste em vão. Os olhos d'Ele estão sobre ti. Os ouvidos d'Ele voltados para ti. Pois "os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos abertos ao seu clamor". Que dizer, então? Não te viu Ele, quando costumavas fazer o mal e blasfemar contra Ele? Que se torna, então, aquilo que se diz nesse mesmo Salmo: "O rosto do Senhor está sobre os que fazem o mal"? Mas para que fim? "Para que corte da terra a memória deles." Portanto, ainda quando eras ímpio, Ele "atendia a ti"; mas não "te atendia". Assim, pois, para aquele que "esperou pacientemente pelo Senhor", não bastava dizer "Ele me atendeu"; ele diz: "Ele atendeu a mim"; isto é, atendeu consolando-me, para me fazer bem. E que foi aquilo a que atendeu? "E ouviu o meu clamor."
1. De todas aquelas coisas que o nosso Senhor Jesus Cristo predisse, sabemos que parte já se cumpriu, parte esperamos que se cumpra doravante. Todas elas, contudo, hão de se cumprir, porque Ele é "a Verdade" que as fala, e requer de nós que sejamos tão "fiéis" quanto Ele mesmo as fala fielmente...
3. E que cumpriu Ele para ti? Que fez Ele por ti? "Ele me tirou também de um poço horrível, do lodo pegajoso, e pôs os meus pés sobre uma rocha, e firmou os meus passos" (v. 2). Já nos deu grandes bênçãos; e ainda assim é nosso devedor; mas que aquele que já teve esta parte da dívida paga creia que o resto também será pago, visto que devia crer mesmo antes de ter recebido coisa alguma. O nosso Senhor empregou os próprios fatos para nos persuadir de que Ele é um prometedor fiel, um dador liberal. Que fez Ele, pois, já? "Tirou-me de um poço horrível." Que poço horrível é esse? É a profundeza da iniquidade, das concupiscências da carne, pois é isto que se entende por "lodo pegajoso". De onde te tirou Ele? De uma certa profundeza, da qual clamaste noutro Salmo: "Das profundezas clamei a Ti, Senhor." E aqueles que já estão "clamando das profundezas" não estão de todo na profundeza mais baixa: o próprio ato de clamar já os está elevando. Há alguns mais profundos na profundeza, que nem sequer percebem estar na profundeza. Tais são aqueles que são soberbos desprezadores, não piedosos suplicantes de perdão; não choroso clamadores de misericórdia, mas tais como a Escritura os descreve: "O pecador, quando chega ao fundo do mal, despreza." Pois está mais profundo na profundeza aquele que não se contenta em ser pecador, senão que, em vez de confessar, ainda defende os seus pecados. Mas aquele que já "clamou das profundezas" já ergueu a cabeça para poder "clamar das profundezas", já foi ouvido, e já foi "tirado do poço horrível, e do lodo e barro". Já tem fé, que antes não tinha; tem esperança, da qual antes carecia; anda agora em Cristo, quando antes errava no diabo. Por isso mesmo diz: "Pôs os meus pés sobre uma rocha, e firmou os meus passos." Ora, "aquela Rocha era Cristo". Suposto que estejamos "sobre a rocha", e que os nossos "passos estejam ordenados", ainda assim é necessário que continuemos a andar, que avancemos para algo mais adiante. Pois que disse o Apóstolo Paulo, já sobre a Rocha, já com os seus "passos firmados"? "Não que já tenha alcançado, ou já seja perfeito: Irmãos, não considero que eu mesmo já tenha alcançado." Que se fez então por ti, se não alcançaste? Por que motivo rendes graças, dizendo: "Mas alcancei misericórdia"? Porque os seus passos já estão firmados, porque já anda sobre a Rocha?... Portanto, quando dizia: "Prossigo para o prêmio da minha soberana vocação", porque "os seus pés já estavam postos sobre a Rocha", e "os seus passos estavam ordenados", porque já andava pelo caminho reto, tinha algo por que render graças; algo ainda a pedir; rendendo graças pelo que já recebera, ao mesmo tempo em que reclamava o que ainda restava devido. Por que coisas já recebidas dava ele graças? Pela remissão dos pecados, pela iluminação da fé; pelo forte apoio da esperança, pelo fogo da caridade. Mas em que aspectos ainda tinha ele uma reivindicação de dívida para com o Senhor? "Doravante", diz ele, "está reservada para mim uma coroa de justiça." Há, pois, algo ainda a mim devido. Que é o que é devido? "Uma coroa de justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia." Ele foi primeiramente um Pai amoroso para "tirá-lo do poço horrível"; para perdoar os seus pecados, para resgatá-lo "do lodo e barro"; doravante será um "Juiz justo", retribuindo a quem anda retamente o que prometeu; a ele (digo eu), a quem primeiramente concedera esse poder de andar retamente. Ele, pois, como "Juiz justo", há de retribuir; mas a quem retribuirá? "Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo."
4. "E pôs em minha boca um cântico novo." Que cântico novo é este? "Um hino ao nosso Deus" (v. 3). Talvez costumasses cantar hinos a deuses estranhos; hinos velhos, porque proferidos pelo "homem velho", não pelo "homem novo"; que se forme o "homem novo", e cante um "cântico novo"; sendo ele mesmo feito "novo", que ame aquelas coisas "novas" pelas quais ele mesmo é feito novo. Pois que há mais Antigo que Deus, que é antes de todas as coisas, e é sem fim e sem princípio? Ele se torna "novo" para ti quando tu retornas a Ele; porque foi ao afastar-te d'Ele que envelheceste; e disseste: "Envelheci por causa de todos os meus inimigos." Proferimos, pois, "um hino ao nosso Deus"; e o próprio hino nos liberta. "Pois invocarei o Senhor, para louvá-lo, e serei salvo de todos os meus inimigos." Pois um hino é um cântico de louvor. Invoca a Deus para "louvá-lo", não para censurá-lo...
5. Se, porventura, alguém perguntar quem é a pessoa que fala neste Salmo, direi brevemente: "É Cristo." Mas como sabeis, irmãos, e como devemos dizer com frequência, Cristo fala às vezes em Pessoa própria, na Pessoa de nossa Cabeça. Pois Ele mesmo é "o Salvador do Corpo". Ele é a nossa Cabeça; o Filho de Deus, que nasceu da Virgem, sofreu por nós, "ressuscitou para a nossa justificação", está sentado "à direita de Deus", para "interceder por nós"; que também há de retribuir aos maus e aos bons, no juízo, todo o mal e o bem que fizeram. Dignou-se tornar-se nossa Cabeça; tornar-se "a Cabeça do Corpo", tomando de nós aquela carne na qual havia de morrer por nós; carne que também ressuscitou por nossa causa, para que naquela carne nos pusesse diante um exemplo da ressurreição; para que aprendêssemos a esperar aquilo de que antes desesperávamos, e doravante tivéssemos os nossos pés sobre a rocha, e andássemos em Cristo. Ele, pois, fala às vezes em nome da nossa Cabeça; fala também, às vezes, de nós, que somos os seus membros. Pois tanto quando disse: "Tive fome, e destes-me de comer", falou em nome dos seus membros, não de si mesmo; como quando disse: "Saulo, Saulo, por que me persegues?", a Cabeça clamava em nome dos seus membros; e, no entanto, não disse: "Por que persegues os meus membros?", mas: "Por que me persegues?" Se Ele sofre em nós, então também nós seremos coroados n'Ele. Tal é o amor de Cristo. Que há que se possa comparar a isto? É por isto que "pôs um hino na nossa boca", e isto Ele fala em nome dos seus membros.
6. "Os justos verão, e temerão, e confiarão no Senhor." "Os justos verão." Quem são os justos? Os fiéis; porque "é pela fé que o justo viverá." Pois há na Igreja esta ordem: uns vão adiante, outros seguem; e os que vão adiante fazem-se "exemplo" para os que seguem; e os que seguem imitam os que vão adiante. Mas então não seguem eles a ninguém, os que se exibem como exemplo aos que vêm depois? Se não seguem a ninguém, cairão em erro. Estes devem, pois, também eles seguir a alguém, isto é, ao próprio Cristo... "Os justos", portanto, "verão, e temerão." Veem, de um lado, um caminho estreito; do outro, "uma via larga": deste lado veem poucos, do outro muitos. Mas tu és homem justo; não os contes, mas pesa-os; traze "uma balança justa", não "enganosa", porque és chamado justo. "Os justos verão, e temerão" aplica-se a ti. Não contes, pois, as multidões de homens que enchem as "vias largas", que hão de encher o circo amanhã, celebrando com gritos o aniversário da Cidade, enquanto contaminam a própria Cidade com má vida. Não olhes para eles; são muitos em número, e quem os pode contar? Mas há alguns poucos caminhando pela estrada estreita. Traze a balança, digo eu. Pesa-os; vê que quantidade de palha ergues de um lado, contra alguns poucos grãos de trigo do outro. Que isto o façam "os justos", os "crentes", que hão de seguir. E que devem fazer os que precedem? Que não se ensoberbeçam, que não "se exaltem"; que não enganem os que os seguem. Como poderiam enganar os que os seguem? Prometendo-lhes salvação em si mesmos. Que devem, então, fazer os que seguem? "Os justos verão, e temerão, e confiarão no Senhor"; não naqueles que vão adiante deles. Mas na verdade fixam os olhos naqueles que vão adiante, e os seguem e imitam; mas fazem-no porque consideram de Quem receberam eles a graça de ir adiante; e porque confiam n'Ele. Ainda que, pois, tomem estes por modelos, põem a sua confiança n'Aquele de quem os outros receberam a graça pela qual são o que são. "Os justos o verão, e temerão, e confiarão no Senhor." Assim como noutro Salmo, "Levanto os meus olhos para os montes", entendemos por montes todas as pessoas espirituais distintas e grandes na Igreja; grandes em solidez, não em inchada soberba. Por estes é que toda a Escritura nos foi dispensada; são os Profetas, são os Evangelistas; são sãos Doutores: para estes "levanto os meus olhos, de onde há de vir o meu socorro". E para que não penses em mero socorro humano, prossegue dizendo: "O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra. Os justos o verão, e temerão, e confiarão no Senhor."...
7. "Bem-aventurado o homem que faz do nome do Senhor a sua confiança, e não respeitou as vaidades e as loucuras mentirosas" (v. 4). Eis o caminho pelo qual quiseras ter ido. Eis a "multidão que enche a via larga". Não é sem razão que "aquela" estrada leva ao anfiteatro. Não é sem razão que leva à morte. A "via larga" leva à morte; a sua largura deleita por um tempo; o seu fim é estreiteza por toda a eternidade. Sim; mas as multidões murmuram; as multidões se regozijam juntas; as multidões se apressam; as multidões se ajuntam em bandos! Não as imites tu; não te desvies após elas: são "vaidades, e loucuras mentirosas". Seja o Senhor teu Deus a tua esperança. Não esperes outra coisa alguma do Senhor teu Deus; mas seja o próprio Senhor teu Deus a tua esperança. Pois muitos esperam obter das mãos de Deus riquezas, e muitas honras perecíveis e transitórias; e, em suma, qualquer outra coisa esperam obter das mãos de Deus, exceto somente a Deus mesmo. Mas busca tu o teu próprio Deus: sim, na verdade, desprezando todas as demais coisas, faze o teu caminho até Ele! Esquece as outras coisas, lembra-te d'Ele. Deixa as outras coisas para trás, e "avança" até Ele. Certamente é Ele mesmo que te endireitou, quando estavas desviado do caminho reto; que, agora que estás posto no caminho reto, te guia retamente, que te guia até o teu destino. Seja Ele, pois, a tua esperança, Ele que tanto te guia quanto te guia até o teu destino. Aonde te leva a cobiça mundana? E a que ponto te conduz ela por fim? Primeiro desejaste uma quinta; depois quiseste possuir uma propriedade; quiseste excluir os teus vizinhos; tendo-os excluído, puseste o coração nas posses de outros vizinhos; e estendeste os teus desejos cobiçosos até alcançares a costa: chegando à costa, cobiças as ilhas: tendo feito a terra tua, quiçá quisesses apoderar-te do céu. Deixa todos os teus amores. Aquele que fez o céu e a terra é mais formoso que tudo.
8. "Bem-aventurado o homem que faz do nome do Senhor a sua esperança, e que não considerou as vaidades e as loucuras mentirosas." Pois por que se chama "mentirosa" a "loucura"? A insânia é coisa mentirosa, assim como é a sanidade que vê a Verdade. Pois no que vês como coisas boas, estás enganado; não estás no teu perfeito juízo: uma febre violenta te levou ao frenesi: aquilo de que estás enamorado não é realidade. Aplaudes o auriga; aclamas o auriga; estás loucamente enamorado do auriga. É "vaidade"; é "loucura mentirosa". "Não é" (ele clama). "Nada pode ser melhor; nada mais deleitoso." Que posso fazer por alguém em estado de alta febre? Orai por tais pessoas, se tendes em vós algum sentimento de compaixão. Pois o próprio médico, também em caso desesperado, geralmente se volta para os da casa, que estão ao redor chorando; que estão pendentes de seus lábios para ouvir a sua opinião sobre o doente que está enfermo e em perigo. O médico permanece em estado de dúvida: não vê bem algum que possa prometer; teme pronunciar o mal, para não excitar alarme. Concebe uma sentença bem modesta: "O bom Deus pode todas as coisas. Orai por ele." Qual, pois, destes loucos hei de repreender? Qual deles me dará ouvidos? Qual deles não nos chamaria de miseráveis? Porque supõem que perdemos prazeres grandes e variados, dos quais eles estão loucamente enamorados, por não estarmos tão loucamente enamorados deles quanto eles estão; e não veem que são prazeres "mentirosos"... "E não respeitou as vaidades, e as loucuras mentirosas." "Fulano venceu", clama ele; "atrelou tal e tal cavalo", proclama em voz alta. Gostaria de ser uma espécie de adivinho; aspira às honras da adivinhação abandonando a fonte da Divindade; e frequentemente emite uma opinião, e frequentemente se engana. Por que é isto? Justamente porque são "loucuras mentirosas". Mas por que é que o que dizem às vezes se cumpre? Para que possam desencaminhar os néscios; para que, amando ali a aparência da verdade, caiam na armadilha da falsidade: sejam eles deixados para trás, sejam "entregues", sejam "cortados fora". Se fossem membros nossos, seria preciso mortificá-los. "Mortificai", diz ele, "os vossos membros que estão sobre a terra." Seja o nosso Deus a nossa esperança. Aquele que fez todas as coisas é melhor que todas! Aquele que fez o que é formoso é mais formoso que tudo quanto é tal. Aquele que fez tudo quanto é poderoso é Ele mesmo mais poderoso. Aquele que fez tudo quanto é grande é Ele mesmo maior. Ele será para vós tudo o que amais. Aprende, na criatura, a amar o Criador; e, na obra, a Ele que a fez. Não te detenha o afeto naquilo que foi feito por Ele, de sorte que percas Aquele por quem tu mesmo também foste feito. "Bem-aventurado", então, "o homem que faz do Nome do Senhor a sua confiança, e não respeitou as vaidades e as loucuras mentirosas."...
9. Daremos a ele outros espetáculos em troca de espetáculos como estes. E que espetáculos apresentaremos ao cristão que quiséssemos desviar daqueles? Dou graças ao Senhor nosso Deus; Ele, no verso seguinte do Salmo, mostrou-nos que espetáculos devemos apresentar e oferecer aos espectadores que quisessem ter espetáculos para ver. Suponhamos agora que ele esteja desmamado do circo, do teatro, do anfiteatro; que esteja procurando, que esteja por todos os meios procurando algum espetáculo para ver; não o deixamos sem um espetáculo. Que daremos, pois, em troca daqueles? Ouve o que se segue.
"Muitas são, ó Senhor meu Deus, as obras maravilhosas que fizeste" (v. 5). Costumava contemplar as "obras maravilhosas" do homem; contemple agora as obras maravilhosas de Deus. "Muitas são as obras maravilhosas" que Deus "fez". Por que se tornaram vis aos seus olhos? Louva o auriga que guia quatro cavalos, fazendo-os correr todos sem falha e sem tropeço. Talvez o Senhor não tenha feito tais "obras maravilhosas" nas coisas espirituais. Que ele controle a concupiscência, que controle a covardia, que controle a injustiça, que controle a imprudência — refiro-me às paixões que, caindo em excesso, produzem esses vícios; que as controle e as ponha em sujeição, e segure as rédeas, e não se deixe arrebatar; que as guie pelo caminho que ele mesmo quisesse que fossem; que não seja forçado para onde não quisesse. Costumava aplaudir o auriga; ele mesmo será aplaudido pela sua própria arte de conduzir; costumava clamar para que o auriga fosse revestido de traje de honra; ele mesmo será revestido de imortalidade. Estes são os espetáculos, estas as vistas que Deus nos exibe. Ele clama do céu: "Meus olhos estão sobre vós. Lutai, e Eu vos ajudarei; triunfai, e Eu vos coroarei."
"E no Teu pensamento não há quem se assemelhe a Ti." Olha agora para o ator! Pois este homem, à custa de grande esforço, aprendeu a andar sobre uma corda; e, pendurado ali, te mantém pendurado em suspense. Volta-te para Aquele que exibe espetáculos muito mais maravilhosos. Este homem aprendeu a andar sobre a corda; mas fez ele que outro andasse sobre o mar? Esquece agora o teu teatro; contempla o nosso Pedro; não um andarilho de corda, mas, por assim dizer, um andarilho do mar. E anda tu também sobre outras águas (ainda que não sobre aquelas sobre as quais Pedro andou, para simbolizar certa verdade), pois este mundo é um mar. Tem uma amargura deletéria; tem as ondas das tribulações, as tempestades das tentações; tem nele homens que, como peixes, se comprazem na própria ruína, e se devoram uns aos outros; anda tu aqui, põe teu pé nisto. Quiseras ver espetáculos; sê tu mesmo um "espetáculo". Para que o teu espírito não se afunde, olha para Aquele que vai adiante de ti, e diz: "Fomos feitos espetáculo a este mundo, e aos anjos, e aos homens." Pisa tu sobre as águas; não te deixes afogar no mar. Não irás ali, não o "pisarás sob os pés", a menos que seja por ordem d'Aquele que foi Ele mesmo o primeiro a andar sobre o mar. Pois foi assim que Pedro falou: "Se és Tu, manda-me ir a Ti sobre as águas." E porque "Ele era", ouviu-o quando orava; concedeu-lhe o desejo ao exprimi-lo; ergueu-o quando se afundava. Estas são as "obras maravilhosas" que o "Senhor fez". Olha para elas; que a fé seja o olho de quem as quiser contemplar. E faze tu também o mesmo; pois ainda que os ventos te alarmem, ainda que as ondas se enfureçam contra ti, e ainda que a fragilidade humana te tenha inspirado alguma dúvida quanto à tua salvação, está em teu poder "clamar", podes dizer: "Senhor, pereço." Aquele que te manda andar ali não permite que pereças. Pois, andando agora "sobre a Rocha", não temes nem mesmo sobre o mar! Se estás sem "a Rocha", hás de afundar-te no mar; pois a Rocha sobre a qual deves andar é tal que não se afunda no mar.
10. Observa, pois, as "obras maravilhosas" de Deus. "Declarei, e falei; multiplicam-se além de todo número." Há "um número", há alguns que ficam além do número. Há um número fixo que pertence àquela Jerusalém celestial. Pois "o Senhor conhece os que são seus"; os cristãos que O temem, os cristãos que creem, os cristãos que guardam os mandamentos, que andam nos caminhos de Deus, que se guardam dos pecados; que, se caem, confessam: pertencem "ao número". Mas são eles os únicos? Há também alguns "além do número". Pois ainda que sejam poucos (poucos em comparação com os números da maioria mais numerosa), com quantos números as nossas Igrejas se enchem, apinhadas até às próprias paredes; a que ponto se incomodam uns aos outros pela pressão, e quase se sufocam uns aos outros pelo transbordamento dos seus números. Ora, dentre estas mesmas pessoas, quando há um espetáculo público, há números que acorrem ao anfiteatro; estes estão além "do número". Mas dizemos isto por esta razão, para que estejam "no número". Não estando presentes, não ouvem isto de nós; mas, quando vos tiverdes ido daqui, que o ouçam de vós. "Declarei", diz ele, "e falei." É Cristo quem fala. "Ele o declarou", em Pessoa própria, como nossa Cabeça. Ele mesmo o declarou por seus membros. Ele mesmo enviou aqueles que haviam de "declará-lo"; Ele mesmo enviou os Apóstolos. "O seu som saiu por toda a terra, e as suas palavras até aos confins do mundo." Quão grande o número de crentes que se ajuntam; quão grandes as multidões que acorrem; muitas delas verdadeiramente convertidas, muitas apenas em aparência: e os que são verdadeiramente convertidos são a minoria; os que o são apenas em aparência são a maioria: porque "se multiplicam além do número".
11. ...Estas são as "obras maravilhosas" de Deus; estes são os "pensamentos" de Deus, aos quais "nenhum pensamento de homem se assemelha"; para que o amante de espetáculos seja desmamado da curiosidade, e conosco busque aquelas coisas mais excelentes, mais proveitosas, nas quais, quando a elas houver chegado, se regozijará...
12. "Sacrifício e oferenda não quiseste" (v. 6), diz o Salmo a Deus. Pois os homens de antanho, quando ainda o verdadeiro Sacrifício, que é conhecido pelos fiéis, era prefigurado em figuras, costumavam celebrar ritos que eram figuras da realidade que havia de vir; muitos deles entendendo o seu significado; mas mais deles o ignorando. Pois os Profetas e os santos Patriarcas entendiam o que celebravam; mas o resto do "povo de dura cerviz" era tão carnal, que o que por eles se fazia servia apenas para simbolizar as coisas que haviam de vir depois; e sucedeu que, quando aquele primeiro sacrifício foi abolido; quando os holocaustos "de carneiros, de bodes e de bezerros", e de outras vítimas, foram abolidos, "Deus não os quis". Por que não os quis Deus? E por que os quis primeiramente? Porque todas aquelas coisas eram, por assim dizer, as palavras de alguém que faz uma promessa; e as expressões que trazem uma promessa, quando vem a coisa que prometem, já não se proferem mais... Aqueles sacrifícios, então, sendo apenas expressões de uma promessa, foram abrogados. Que é o que foi dado como seu cumprimento? Aquele "Corpo"; que conheceis; que nem todos vós conheceis; o qual, dentre vós que o conheceis, rogo a Deus que nenhum o conheça para condenação. Observai o momento em que isto foi dito; pois a pessoa é Cristo nosso Senhor, falando ora por seus membros, ora em pessoa própria. "Sacrifício e oferenda", disse Ele, "não quiseste." Que, pois? Ficamos neste tempo presente sem sacrifício? Deus nos livre!
"Mas um Corpo me perfizeste." Foi por esta razão que não quiseste os outros; para que pudesses "perfazer" este; antes de "perfazeres" este, quiseste os outros. O cumprimento da promessa aboliu as palavras que exprimiam a promessa. Pois, se ainda mantivessem uma promessa, aquilo que foi prometido ainda não estaria cumprido. Isto foi prometido por certos sinais; os sinais que trazem a promessa são abolidos; porque a Substância que foi prometida chegou. Estamos neste "Corpo". Somos partícipes deste "Corpo". Sabemos o que nós mesmos recebemos; e vós, que ainda não o sabeis, o sabereis em breve; e quando vierdes a sabê-lo, rogo que não o recebais para condenação. "Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação." Um "Corpo" foi "perfeito" para nós; sejamos nós feitos perfeitos no Corpo.
13. "Holocaustos também pelo pecado não exigiste." "Então disse eu: Eis que venho!" (v. 7). É tempo de que venha aquilo que "fora prometido"; porque os sinais, por meio dos quais eram prometidos, já foram postos de lado. E de fato, Irmãos, observai: estes foram postos de lado; aqueles, cumpridos. Mostre-me agora a nação judaica o seu sacerdote, se puder! Onde estão os seus sacrifícios? Estão extintos; estão agora postos de lado. Deveríamos nós, naquele tempo, tê-los rejeitado? Nós os rejeitamos agora; porque, se quisésseis celebrá-los agora, seria intempestivo; descabido para o tempo presente; incongruente. Vós ainda fazeis promessas; eu já recebi! Restou-lhes uma certa coisa a celebrar, para que não permanecessem de todo sem sinal algum. ...Nesta condição, pois, se encontram eles; como Caim com o seu sinal. Os sacrifícios, porém, que ali se costumavam realizar, foram postos de lado; e aquilo que lhes restou como sinal, semelhante ao de Caim, já se cumpriu; e eles não o sabem. Imolam o cordeiro; comem os pães ázimos. "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós." Eis que, no sacrifício de Cristo, reconheço o Cordeiro que foi imolado! E quanto aos pães ázimos? "Portanto," diz ele, "celebremos a festa; não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia" (mostra o que entende por "velho": é farinha "estragada"; é azeda), "mas nos ázimos da sinceridade e da verdade." Eles permaneceram na sombra; não podem suportar o Sol da Glória. Nós já estamos na luz do dia. Temos "o Corpo" de Cristo, temos o Sangue de Cristo. Se temos vida nova, "cantemos um cântico novo, um hino ao nosso Deus." "Holocaustos pelo pecado não desejaste. Então disse eu: Eis que venho!"
14. "No princípio do Livro está escrito de mim, que eu cumprisse a Tua vontade: ó meu Deus, eu quero, e a Tua Lei está dentro do meu coração" (v. 8). Eis que Ele volta o seu olhar para os seus membros. Eis que Ele mesmo "cumpriu a vontade" do Pai. Mas em que "princípio de Livro" está escrito acerca dEle? Talvez no princípio deste Livro dos Salmos. Pois por que haveríamos de buscá-lo longe, ou examinar outros livros à sua procura? Eis que está escrito no princípio deste Livro dos Salmos! "A sua vontade está na Lei do Senhor;" isto é, "'ó meu Deus, eu quero,' e 'a Tua Lei está dentro do meu coração;'" o que é o mesmo que "e na sua Lei medita dia e noite."
15. "Anunciei bem a Tua justiça na grande congregação" (v. 9). Ele agora se dirige aos seus membros. Está a exortá-los a fazer o que Ele já fez. Ele "anunciou;" anunciemos nós também. Ele padeceu; "padeçamos com Ele." Ele foi glorificado; seremos "glorificados com Ele." "Anunciei a Tua justiça na grande congregação." Quão grande é ela? Em todo o mundo. Quão grande é? Entre todas as nações mesmo. Por que entre todas as nações? Porque Ele é "a Semente de Abraão, na qual todas as nações serão abençoadas." Por que entre todas as nações? "Porque o seu som saiu por toda a terra." "Eis que não refrearei os meus lábios, ó Senhor, e isso Tu o sabes." Meus lábios falam; não os "refrearei" de falar. Meus lábios, na verdade, soam audivelmente aos ouvidos dos homens; mas "Tu conheces" o meu coração. "Não refrearei os meus lábios, ó Senhor; isso Tu o sabes." Uma coisa é o que o homem ouve; outra é o que Deus "conhece." Para que o "anunciar" não se restrinja apenas aos lábios, e para que não se diga de nós: "Tudo o que vos disserem, fazei-o; mas não façais conforme as suas obras;" ou para que não se diga ao povo: "louvando a Deus com os lábios, mas não com o coração," "Este povo Me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim;" faze tu confissão audível com os teus lábios; aproxima-te também com o teu coração. "Pois com o coração se crê para a justiça; mas com a boca se faz confissão para a salvação." Foi neste caso que se encontrou aquele ladrão que, pendendo na cruz junto do Senhor, na cruz reconheceu o Senhor. Outros haviam recusado reconhecê-lO enquanto operava milagres; este O reconheceu quando pendia na cruz. Aquele ladrão tinha todos os demais membros traspassados; suas mãos estavam presas pelos cravos; seus pés também estavam traspassados; todo o seu corpo estava preso ao madeiro; o corpo não estava livre em seus demais membros; o coração e a língua estavam livres; "com o coração" ele "creu; com a língua" fez "confissão." "Lembra-Te de mim, ó Senhor," disse ele, "quando entrares no Teu reino." Esperava a vinda da sua salvação para um tempo bem distante; contentava-se em recebê-la após longa demora; sua esperança repousava sobre um objeto bem remoto. O dia, contudo, não foi adiado! A resposta foi: "Hoje estarás comigo no Paraíso." O Paraíso tem árvores felizes! Hoje estiveste comigo sobre "a Árvore" da Cruz. Hoje estarás comigo sobre "a Árvore" da Salvação. ...
16. "Não escondi a minha justiça dentro do meu coração" (v. 10). Que se entende por "minha justiça"? Minha fé. Pois "o justo viverá pela fé." Suponhamos que o perseguidor, sob ameaça de castigo, como outrora lhes era permitido fazer, te interrogue: "Que és tu? Pagão ou cristão?" "Cristão." Essa é a sua "justiça." Ele crê; ele "vive pela fé." Não "esconde a sua justiça dentro do coração." Não disse em seu coração: "Na verdade creio em Cristo; mas não direi o que creio a este perseguidor, que se enfurece contra mim e me ameaça. Meu Deus sabe que interiormente, dentro do meu coração, eu creio. Ele sabe que não O renego." Eis que dizes ter isto interiormente, dentro do teu coração! Que tens nos teus lábios? "Não sou cristão." Teus lábios testemunham contra o teu coração. "Não escondi a minha justiça dentro do meu coração." ...
17. "Anunciei a Tua Verdade e a Tua Salvação." Anunciei o Teu Cristo. É este o sentido de "Anunciei a Tua Verdade e a Tua Salvação." Como é Cristo "a Tua Verdade"? "Eu sou a Verdade." Como é Cristo "a Sua Salvação"? Simeão reconheceu o infante nas mãos de sua Mãe, no Templo, e disse: "Pois os meus olhos viram a Tua Salvação." O ancião reconheceu o pequenino; o ancião, tendo ele mesmo "se tornado uma criancinha" naquele infante, tendo sido renovado pela fé. Pois recebera um oráculo de Deus; e este dizia que "o Senhor lhe dissera que não sairia desta vida antes de ver a Salvação de Deus." É coisa boa ter mostrado esta "Salvação de Deus" aos homens; mas clamem eles: "Mostra-nos a Tua misericórdia, ó Senhor, e concede-nos a Tua Salvação." ...
18. "Não ocultei a Tua misericórdia e a Tua Verdade à grande congregação." Estejamos ali; sejamos nós também contados entre os membros deste Corpo: não retenhamos "a misericórdia" do Senhor, nem "a Verdade" do Senhor. Queres ouvir o que é "a misericórdia do Senhor"? Aparta-te dos teus pecados; Ele perdoará os teus pecados. Queres ouvir o que é "a verdade" do Senhor? Guarda firme a justiça. A tua justiça receberá uma coroa. Pois a misericórdia te é anunciada agora; a "Verdade" te será mostrada depois. Porque Deus não é misericordioso de tal modo que deixe de ser justo, nem justo de tal modo que deixe de ser misericordioso. Parece-te pequena essa misericórdia? Ele não te imputará todos os teus pecados passados: viveste mal até este dia presente; ainda vives; vive bem a partir de hoje; então não "ocultarás" esta "misericórdia." Se isto é o que se entende por "misericórdia," que se entende por "verdade"? ...
19. "Não afastes de mim as Tuas misericórdias, ó Senhor" (v. 11). Ele volta a sua atenção para os membros feridos. Porque não "ocultei a Tua misericórdia e a Tua Verdade à grande congregação," à Unidade da Igreja Universal, olha Tu para os Teus membros aflitos, olha para os que são culpados de pecados de omissão, e para os que são culpados de pecados de comissão: e não retenhas Tu as Tuas misericórdias. "A Tua misericórdia e a Tua Verdade continuamente me preservaram." Eu não ousaria apartar-me do meu mau caminho, se não estivesse certo do perdão; eu não poderia perseverar até o fim, se não estivesse certo do cumprimento da Tua promessa. ...
"Males inumeráveis me cercaram" (v. 12). Quem pode numerar os pecados? Quem pode contar os seus próprios pecados, e os alheios? Um peso sob o qual gemia aquele que disse: "Purifica-me Tu das minhas faltas secretas; e das faltas alheias, poupa Tu o Teu servo, ó Senhor." As nossas próprias já são demasiadas; as "alheias" se acrescentam ao peso. Temo por mim mesmo; temo por um irmão virtuoso; tenho de suportar um irmão perverso; e sob tal peso, que seríamos nós, se a misericórdia de Deus viesse a faltar? "Mas Tu, Senhor, não Te afastes." Sê Tu próximo de nós! De quem está próximo o Senhor? Daqueles que têm "o coração quebrantado." Ele está longe dos soberbos: está próximo dos humildes. "Pois, ainda que o Senhor seja excelso, atenta para o humilde." Mas não pensem os soberbos que passam despercebidos: pois às coisas altas Ele "olha de longe." Olhou "de longe" para o fariseu, que se gloriava; esteve próximo para socorrer o publicano, que fez confissão. Um exaltava os seus próprios méritos e ocultava as suas chagas; o outro não se gloriava dos seus méritos, mas expunha as suas chagas. Veio ao Médico; sabia que estava enfermo, e que necessitava de ser curado; "não ousou levantar os olhos ao Céu: batia no peito." Não se poupou a si mesmo, para que Deus o poupasse; reconheceu-se culpado, para que Deus "ignorasse" a acusação contra ele. Puniu-se a si mesmo, para que Deus o livrasse do castigo. ...
20. "As minhas iniquidades se apoderaram de mim, de sorte que não pude ver." Há algo que nos cabe "ver"; o que nos impede de vê-lo? Não é a iniquidade? De contemplar esta luz o teu olho talvez seja impedido por algum humor que nele penetrou; talvez por fumaça, ou poeira, ou por alguma outra coisa que nele foi lançada: e não foste capaz de erguer o teu olho ferido para contemplar esta luz do dia. Que dizer, então? Serás capaz de erguer o teu coração ferido a Deus? Não é necessário que seja primeiro curado, para que possas ver? Não revelas a tua soberba, quando dizes: "Primeiro deixa-me ver, e então crerei"? Quem é que diz isto? Pois quem deseja realmente ver, diz: "Deixa-me ver, e então crerei"? Estou prestes a manifestar-te a Luz; ou antes, a própria Luz deseja manifestar-Se a ti! A quem? Ela não pode manifestar-Se ao cego. Ele não vê. De onde vem que ele não vê? Vem de que o olho está obstruído pela multidão dos pecados. ...
21. "São mais numerosos que os cabelos da minha cabeça." Submete a cálculo o número dos "cabelos da sua cabeça." Quem pode calcular o número dos cabelos da sua cabeça? Muito menos poderá dizer o número dos seus pecados, que excedem o número dos cabelos da sua cabeça. Parecem coisas mínimas; mas são muitos em número. Guardaste-te dos grandes; não cometes agora adultério, nem homicídio; não usurpas os bens alheios; não blasfemas; não dás falso testemunho; esses são os pecados de maior peso. Guardaste-te dos grandes pecados; que fazes quanto aos pequenos? Lançaste fora o peso; cuidado para que a areia não te sobrepuje. "E o meu coração me abandonou." Que espanto há em que o teu coração seja abandonado pelo teu Deus, se é até "abandonado" por si mesmo? Que significa "me falta," "me abandona"? Não é capaz de conhecer-se a si mesmo. Quer dizer isto: "O meu coração me abandonou." Eu desejaria ver a Deus com o meu coração, e não posso, por causa da multidão dos meus pecados: isso não basta; o meu coração nem sequer se conhece a si mesmo. Pois ninguém se conhece plenamente a si mesmo: ninguém presuma do seu próprio estado. Foi Pedro capaz de compreender, com o seu próprio coração, o estado do seu próprio coração, ele que disse: "Estarei contigo até a morte"? Havia uma falsa presunção no coração; ocultava-se ao mesmo tempo naquele coração um verdadeiro temor: e o coração não foi capaz de compreender o estado do coração. O seu estado era desconhecido ao próprio coração enfermo: era manifesto ao médico. Cumpriu-se o que dele fora predito. Deus conhecia nele aquilo que ele mesmo não conhecia em si: porque o seu coração o abandonara, o seu coração era desconhecido ao seu coração.
22. "Digna-Te, ó Senhor, de me livrar" (v. 13). Como se dissesse: "'Se Tu quiseres, podes purificar-me.' Digna-Te de me livrar. Ó Senhor, olha para mim para me ajudares." Olha, isto é, para os membros penitentes, membros que jazem em dor, membros que se contorcem sob os instrumentos do cirurgião; mas ainda em esperança.
23. "Sejam envergonhados e confundidos juntamente os que buscam a minha alma para a destruir" (v. 14). Pois em certa passagem Ele faz uma acusação, e diz: "Olhei para a minha direita, e vi; e não havia ninguém que buscasse a minha alma;" isto é, não havia ninguém que imitasse o Meu exemplo. É Cristo em Sua Paixão quem fala. "Olhei para a minha direita," isto é, não para os ímpios judeus, mas para a Minha própria direita, os Apóstolos — "e não havia ninguém que buscasse a Minha alma." De tal modo não havia ninguém que "buscasse a Minha alma," que aquele que presumira da sua própria força "negou a Minha alma." Mas porque a alma de um homem é buscada de duas maneiras, ou para que se goze da sua companhia, ou para que se o persiga; por isso fala aqui de outros, a quem quereria ver "confundidos e envergonhados," que "buscam a sua alma." Mas para que não se entenda isto do mesmo modo como quando se queixa daqueles que não "buscaram a sua alma," acrescenta: "para a destruir;" isto é, buscam a minha alma para a minha morte. ...
24. "Voltem para trás e sejam envergonhados os que me querem mal." "Voltados para trás." Não tomemos isto em mau sentido. Ele lhes deseja o bem; e é a Sua voz, aquela que disse desde a Cruz: "Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem." Por que, então, diz Ele que voltem "para trás"? Porque os que antes eram soberbos, de modo que caíram, tornam-se agora humildes, de modo que possam levantar-se. Pois quando vão adiante, desejam tomar precedência sobre o seu Senhor; ser melhores do que Ele; mas se vão atrás dEle, reconhecem que Ele é melhor do que eles; reconhecem que Ele deve ir adiante; que Ele deve preceder, e eles seguir. Por isso Ele assim repreende a Pedro, que Lhe dava mau conselho. Pois o Senhor, estando para padecer pela nossa salvação, também predisse o que havia de acontecer quanto a essa mesma Paixão; e Pedro disse: "Longe de Ti isso," "Deus não o permita!" "Isto não te acontecerá!" Ele quisera ir adiante do seu Senhor; dar conselho ao seu Mestre! Mas o Senhor, para fazê-lo não ir adiante dEle, mas segui-lO, diz: "Vai para trás de mim, Satanás!" É por esta razão que disse "Satanás," porque buscas ir adiante dAquele a quem deverias seguir; mas se estiveres atrás, se O seguires, doravante não serás "Satanás." Que segue então? "Sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja." ...
Bem-aventurado aquele que entende sobre o necessitado e pobre: no dia mau o Senhor o livrará (v. 1). Pois o dia mau há de vir: queiras ou não queiras, ele virá: o Dia do Juízo virá sobre ti, dia mau, se não "entenderes sobre o necessitado e pobre". Pois o que agora não credes há de manifestar-se ao fim. Mas nem por isso escaparás, quando se manifestar, porque não crestes quando estava oculto. És convidado a crer no que não vês, para que, quando o vires, não sejas envergonhado. "Entende, pois, sobre o necessitado e pobre", isto é, Cristo: entende n'Ele as riquezas ocultas, a quem vês pobre. "N'Ele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento". Por isso, no dia mau Ele te livrará, enquanto é Deus: mas enquanto é homem, e aquilo que n'Ele é humano Ele o ressuscitou e mudou para melhor, Ele te elevou aos céus. Mas Aquele que é Deus, que quis ser uma só pessoa no homem e com o homem, não podia nem diminuir nem crescer, nem morrer nem ressuscitar. Morreu por causa da fraqueza do homem, mas Deus não morre. ...Mas assim como dizemos com razão: Tal homem morreu, ainda que sua alma não morra; assim dizemos com razão: Cristo morreu, ainda que Sua Divindade não morra. Por que morreu? Porque era necessitado e pobre. Não te escandalize Sua morte, nem te afaste de contemplar Sua Divindade. "Bem-aventurado aquele que entende sobre o necessitado e pobre". Considera também o pobre, o necessitado, o faminto e sedento, o nu, o enfermo, os presos; entende também sobre tais pobres, pois se sobre estes entenderes, entenderás sobre Aquele que disse: "Tive fome, tive sede, fui estrangeiro, nu, enfermo, estive preso"; assim, no dia mau, o Senhor te livrará. ...
Amanheceu o dia solene dos Mártires; portanto, em honra da Paixão de Cristo, o Capitão dos Mártires, que não Se poupou a Si mesmo, ordenando Seus soldados ao combate; mas primeiro combateu, primeiro venceu, para que, com Seu exemplo, animasse o combate deles, e com Sua majestade os socorresse, e com Sua promessa os coroasse: ouçamos algo deste Salmo pertinente à Sua Paixão. Recomendo-vos muitas vezes, nem me pesa repetir, o que vos é útil reter, que Nosso Senhor Jesus Cristo fala muitas vezes de Si mesmo, isto é, em Sua própria Pessoa, que é nossa Cabeça; muitas vezes na pessoa de Seu Corpo, que somos nós e Sua Igreja; mas de tal modo que as palavras soam como da boca de um só, para que entendamos que a Cabeça e o Corpo subsistem juntos na unidade da integridade, e não se separam um do outro; como naquele matrimônio de que se diz: "Serão os dois uma só carne". Se, pois, reconhecemos dois em uma só carne, reconheçamos dois em uma só voz. Primeiro, aquilo que, respondendo ao leitor, cantamos, ainda que seja do meio do Salmo, disso tomarei o início deste Sermão.
AO Povo, NA Festa DOS Mártires.
"E não o entregues nas mãos de seu inimigo" (v. 2). O inimigo é o diabo. Ninguém, ao ouvir estas palavras, pense em algum homem como seu inimigo. Talvez alguém pensasse em seu próximo, naquele que com ele litigava em juízo, naquele que lhe tomaria a própria posse, naquele que o forçaria a vender-lhe sua casa. Não penses nisso; mas naquele inimigo pensa, de quem disse o Senhor: "um inimigo fez isto". Pois é ele quem sugere que, por coisas terrenas, seja adorado; para derrubar o Nome cristão, este inimigo não pode. Pois viu-se vencido pela fama e pelos louvores de Cristo, viu que, mesmo tendo matado os Mártires de Cristo, estes são coroados; sobre ele triunfaram. Começou a não poder persuadir os homens de que Cristo é nada; e porque, injuriando a Cristo, já dificilmente engana, tentando louvar a Cristo, procura enganar. Antes disto, que dizia ele? A quem adorais? A um judeu, morto, crucificado, homem sem importância alguma, que nem de si mesmo pôde afastar a morte. Quando viu correr atrás de Seu Nome todo o gênero humano, viu que, no Nome do Crucificado, os templos são derrubados, os ídolos quebrados, os sacrifícios abolidos; e que todas estas coisas preditas nos Profetas são consideradas pelos homens, pelos homens tomados de espanto, e que já fecham seus corações contra a injúria a Cristo; ele se reveste de louvor a Cristo, e começa a dissuadir da fé de outra maneira. Grande é a lei de Cristo, poderosa é essa lei, divina, inefável! mas quem a cumpre? Em nome de nosso Salvador, "pisai sobre o leão e o dragão". Injuriando abertamente, rugiu o leão; louvando astutamente, espreita o dragão. Venham à fé aqueles que duvidavam; e não digam: Quem a cumpre? Se confiam em suas próprias forças, não a cumprirão. Confiando na graça de Deus, creiam; confiando nela, venham; venham para serem ajudados, não para serem julgados. Assim vivem todos os fiéis no Nome de Cristo, cada um em seu grau cumprindo os mandamentos de Cristo, sejam casados, sejam celibatários e virgens, vivem tanto quanto Deus lhes concede viver; nem confiem em suas próprias forças, mas saibam que n'Ele devem gloriar-se. ...
"O Senhor o ajude" (v. 3). Mas quando? Talvez no céu, talvez na vida eterna, de modo que reste então adorar o diabo pelas necessidades terrenas, pelas necessidades desta vida. Longe disso! Tu tens "promessa da vida que agora é, e da que há de vir". Veio a ti na terra Aquele por Quem foram feitos o céu e a terra. Considera, pois, o que Ele diz: "O Senhor o ajude, em seu leito de dor". O leito de dor é a fraqueza da carne; para que não digas: Não posso sustentar, e carregar, e conter minha carne; és ajudado para que o possas. O Senhor te ajude em teu leito de dor. Teu leito te carregava, tu não carregavas teu leito, mas eras paralítico interiormente; vem Aquele que te diz: "Toma teu leito e vai para tua casa". "O Senhor o ajude em seu leito de dor". Então, ao próprio Senhor se volta, como se se perguntasse: Por que, pois, se o Senhor nos ajuda, sofremos tantos males nesta vida, tantos escândalos, tantos trabalhos, tanta inquietação da carne e do mundo? Ele se volta para Deus, e como que nos explicando o conselho de Sua cura, diz: "Tu revolveste todo o seu leito em sua enfermidade". Por leito entende-se qualquer coisa terrena. Toda alma que nesta vida é enferma busca para si algo em que repousar, porque a intensidade do trabalho, e da alma estendida para Deus, dificilmente pode suportar perpetuamente; busca algo na terra em que repousar, e como que com certa pausa reclinar-se, tais são as coisas que os inocentes amam. ...O homem inocente repousa em sua casa, sua família, sua esposa, seus filhos; em sua pobreza, sua pequena propriedade, seu pomar plantado com suas próprias mãos, em algum edifício construído com seu próprio esforço; nestas coisas repousam os inocentes. Mas, ainda assim, Deus, querendo que não tenhamos amor senão à vida eterna, mesmo a estes, ainda que inocentes prazeres, mistura amargura, para que também nestes soframos tribulação, e assim Ele revolve todo o nosso leito em nossa enfermidade. "Tu revolveste todo o seu leito em sua enfermidade". Não se queixe, pois, quando nestas coisas que possui inocentemente, sofre algumas tribulações. É ensinado a amar melhor o que é melhor, pela amargura do que é pior; para que, sendo viajante rumo à sua pátria, não escolha a hospedaria em vez de sua própria casa.
Mas por que isto? Porque Ele "açoita todo filho que recebe". Por que isto? Porque aos homens pecadores foi dito: "Com o suor do teu rosto comerás o pão". Portanto, porque todos estes castigos, nos quais todo o nosso leito é revolvido em nossa enfermidade, deve o homem reconhecer que sofre por causa do pecado; volte-se, pois, e diga o que se segue: "Eu disse: Senhor, tem misericórdia de mim; sara minha alma, porque pequei contra Ti" (v. 4). Ó Senhor, por tribulações exercita-me; a ser açoitado julgas todo filho que quiseres receber, Tu que não poupaste sequer o Unigênito. Ele, na verdade, sem pecado, foi açoitado; mas eu digo: "Pequei contra Ti". ...
"Meus inimigos falam mal de Mim: Quando Ele morrer, então perecerá Seu Nome" (v. 5). Disto já falamos, e disto começamos.
"Meus inimigos falam mal de Mim: Quando Ele morrer, então perecerá Seu Nome" (v. 5). Esta é a Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo: mas vede se aqui não se entendem também os membros. Isto foi dito também quando nosso próprio Senhor andava na carne aqui na terra. ...Quando viram o povo segui-Lo, disseram: "Quando Ele morrer, então perecerá Seu Nome"; isto é, quando O tivermos matado, então Seu Nome não mais estará na terra, nem seduzirá a ninguém, estando morto; mas pela própria morte d'Ele entenderão os homens que era apenas um homem a quem seguiam, que n'Ele não havia esperança de salvação, e abandonarão Seu Nome, e ele não mais existirá. Ele morreu, e Seu Nome não pereceu, mas Seu Nome foi semeado como semente: Ele morreu, mas era um grão, o qual, morrendo, logo brotou a espiga. Glorificado então nosso Senhor Jesus Cristo, começaram muito mais, e muito mais numerosos, a crer n'Ele; então começaram Seus membros a ouvir o que a Cabeça tinha ouvido. Agora, pois, estando nosso Senhor Jesus Cristo assentado no céu, e Ele mesmo trabalhando em nós na terra, ainda diziam Seus inimigos: "Quando Ele morrer, então perecerá Seu Nome". Pois daí o diabo suscitou perseguições na Igreja para destruir o Nome de Cristo. A menos que porventura penseis, irmãos, que aqueles pagãos, quando se enfureciam contra os cristãos, não diziam isto entre si: "apagar o Nome de Cristo da terra". Para que Cristo morresse de novo, não na Cabeça, mas em Seu Corpo, foram também mortos os Mártires. Para a multiplicação da Igreja valeu o Sangue Santo derramado, para ajudar sua semeadura veio também a morte dos Mártires. "Preciosa é aos olhos do Senhor a morte de Seus santos". Cada vez mais se multiplicavam os cristãos, nem se cumpriu o que falavam os inimigos: "Quando Ele morrer, então perecerá Seu Nome". Ainda agora também se diz isto. Sentam-se os pagãos, e computam os anos, ouvem seus fanáticos dizerem: Virá um tempo em que não haverá cristãos, e aqueles ídolos hão de ser adorados como antes eram adorados: ainda dizem: "Quando Ele morrer, então perecerá Seu Nome". Vencidos duas vezes, agora, na terceira, sede sensatos! Cristo morreu, Seu Nome não pereceu: os Mártires morreram, mais se multiplicou a Igreja, cresce por todas as nações o Nome de Cristo. Aquele que predisse de Sua própria Morte, e de Sua Ressurreição, Aquele que predisse da morte de Seus Mártires, e de sua coroa, Ele mesmo predisse de Sua Igreja coisas ainda por vir; se falou verdade duas vezes, terá Ele mentido na terceira? Vão é, pois, o que credes contra Ele; melhor é que creiais n'Ele, para que "entendais sobre o necessitado e pobre"; para que, "embora fosse rico, por vossa causa Se fez pobre, para que vós, por Sua pobreza, fôsseis ricos". ...
"E entrou para ver" (v. 6). O que Cristo padeceu, isso padece também a Igreja; o que padeceu a Cabeça, isso padecem também os Membros. "Pois o discípulo não está acima de seu mestre, nem o servo acima de seu senhor". ...
Se aos Membros de Cristo pertences, entra, apega-te à Cabeça. Suporta o joio se és trigo, suporta a palha se és grão. Suporta os maus peixes dentro da rede se és bom peixe. Por que, antes do tempo de joeirar, voas embora? Por que, antes do tempo da colheita, arrancas também a ti mesmo junto com o trigo? Por que, antes de chegares à praia, rompeste as redes? "Saem pelo mundo, e o contam".
Todos os meus inimigos sussurram contra Mim para o mesmo fim (v. 7). Contra Mim, todos para o mesmo fim. Quanto melhor seria comigo para o mesmo fim, do que contra mim "para o mesmo fim". Que significa: "Contra mim para o mesmo fim"? Com um só conselho, com uma só conjuração. Diz-te, pois, Cristo: Consentis contra Mim, consenti antes comigo: por que contra Mim? Por que não comigo? Se sempre tivésseis tido esse mesmo sentir, não vos teríeis dividido em cismas. Pois diz o Apóstolo: "Rogo-vos, irmãos, que todos digais o mesmo, e que não haja entre vós divisões." "Todos os meus inimigos sussurram contra Mim para o mesmo fim": contra Mim "tramam o mal contra Mim". Antes contra si mesmos, pois "acumularam para si a iniquidade"; mas contra Mim, porque hão de ser pesados segundo a sua intenção: pois não foi por lhes faltar o poder de nada fazer que nada em sua vontade fizeram. Pois o demônio cobiçava extinguir a Cristo, e Judas queria matar a Cristo; todavia, morto Cristo e ressuscitando, nós somos vivificados, mas ao demônio e a Judas é retribuído o galardão de sua má vontade, não o de nossa salvação... A intenção com que falaram, não o que falaram, foi o que Ele considerou, ao relatar que falaram mal dEle: "Contra Mim tramaram o mal contra Mim." E que mal fizeram a Cristo, que mal aos Mártires? Tudo Deus converteu em bem.
Uma palavra ímpia proferiram contra Mim (v. 8). Que espécie de palavra ímpia? Ouvi a própria Cabeça. "Vinde, matemo-Lo, e a herança será nossa." Insensatos! Como será vossa a herança? Porque O matastes? Eis que O matastes; e todavia não será vossa a herança. "Não acrescentará Aquele que dorme também isto, que ressuscite?" Quando vós exultastes por O terdes morto, Ele dormia; pois diz noutro Salmo: "Eu dormi." Enfureciam-se e queriam matar-Me; "Eu dormi." Se Eu não o quisesse, nem sequer teria dormido. "Dormi", porque "tenho poder para dar a minha vida, e poder para retomá-la." "Deitei-me e dormi, e me levantei outra vez." Enfureçam-se, pois, os judeus; seja "a terra entregue nas mãos do ímpio", seja a carne deixada nas mãos dos perseguidores, suspendam-na no lenho, transpassem-na com pregos, traspassem-na com a lança. "Não acrescentará Aquele que dorme também isto, que ressuscite?" Por que dormiu Ele? Porque "Adão é a figura daquele que havia de vir." E Adão dormiu, quando de seu lado foi formada Eva. Adão, figura de Cristo; Eva, figura da Igreja; donde foi chamada "mãe de todos os viventes". Quando foi criada Eva? Enquanto Adão dormia. Quando fluíram do lado de Cristo os Sacramentos da Igreja? Enquanto Ele dormia sobre a Cruz...
10. "O homem da Minha paz, em quem eu confiava, o qual comia do Meu pão, levantou contra Mim o seu calcanhar" (v. 9): ergueu o seu pé contra Mim; queria calcar-Me aos pés. Quem é este homem da Sua paz? Judas. E nele confiou Cristo, ao dizer "em quem eu confiava"? Porventura não o conhecia desde o princípio? Porventura não sabia, antes mesmo de ele nascer, que ele existiria? Porventura não dissera a todos os Seus discípulos: "Eu vos escolhi a vós doze, e um de vós é um demônio"? Como, pois, confiou Ele nele, senão porque Ele está nos Seus Membros, e porque muitos fiéis confiavam em Judas, e o Senhor transferiu isso para Si mesmo? ..."O homem da Minha paz, em quem eu confiava, o qual comia do Meu pão." Como o assinalou na Sua Paixão? Pelas palavras da Sua profecia: pelo bocado O assinalou, para que ficasse manifesto que fora dito a respeito dele: "O qual comia do Meu pão." E ainda, quando ele veio para O trair, concedeu-lhe um beijo, para que ficasse manifesto que fora dito a respeito dele: "O homem da Minha paz."
11. "Mas Tu, ó Senhor, tem misericórdia de Mim" (v. 10). Esta é a persona do servo, esta é a persona do necessitado e do pobre, pois "Bem-aventurado aquele que entende acerca do necessitado e pobre." Vede: como foi dito "tem misericórdia de Mim, e levanta-Me, e Eu os retribuirei", assim foi feito. Pois os judeus mataram Cristo para não perderem o seu lugar. Morto Cristo, perderam o seu lugar. Foram arrancados do reino, foram dispersados. Ele, ressuscitado, retribuiu-lhes a tribulação — retribuiu-lhes para admoestação, ainda não para condenação. Pois a cidade em que o povo enfureceu como leão que assalta e ruge, clamando "Crucifica-O, Crucifica-O", da qual os judeus foram arrancados, tem agora cristãos e não é habitada por um único judeu. Ali foi plantada a Igreja de Cristo, de onde foram arrancados os espinhos da sinagoga. Pois verdadeiramente este fogo ardeu "como fogo entre espinhos". Mas o Senhor era como árvore verde. Isto o próprio Ele afirmou quando certas mulheres pranteavam Cristo como se estivesse morrendo: "Pois se fazem estas coisas na árvore verde, que se fará na seca?" (Lc 23, 31). Quando pode uma árvore verde ser consumida pelo fogo dos espinhos? Pois eles arderam como fogo entre espinhos. O fogo consome os espinhos, mas qualquer árvore verde a que seja aplicado não se inflama facilmente. ...Todavia, para que não penseis que somente Deus Pai de Cristo poderia ressuscitar Cristo, isto é, a Carne de Seu Filho, e que o próprio Cristo, embora seja o Verbo igual ao Pai, não poderia ressuscitar a Sua própria Carne — ouvi o que diz o Evangelho: "Destruí este templo, e em três dias o levantarei" (Jo 2, 19). "Mas", disse o Evangelista — para que nem mesmo após isto duvidemos — "Ele falava do templo do Seu Corpo" (Jo 2, 21). Levanta-Me, e Eu os retribuirei.
12. «Por isto sei que Vós me favoreceis, que os meus inimigos não triunfarão sobre Mim» (v. 11.) Porque os judeus de facto triunfaram quando viram Cristo crucificado; julgavam haver cumprido a sua vontade de Lhe causar dano: os frutos da sua crueldade viam-nos realizados, Cristo suspenso na Cruz: meneavam a cabeça, dizendo: «Se és o Filho de Deus, desce da Cruz.» Não desceu Aquele que podia; não demonstrou a Sua Potência, mas ensinou a paciência. Pois se, ao proferir eles tais palavras, Ele tivesse descido da Cruz, pareceria como que ceder diante dos que O ultrajavam, e, por não poder suportar o opróbrio, seria tido por vencido: mais firme permaneceu Ele na Cruz do que eles no insulto; fixo estava Ele, eles vacilavam. Porque meneavam a cabeça precisamente por não aderirem à verdadeira Cabeça. Ensinou-nos Ele claramente a paciência. Pois é mais poderoso aquilo que fez Aquele que recusou fazer o que os judeus desafiavam. Porque muito mais poderoso é ressurgir do sepulcro do que descer da Cruz. «Que os meus inimigos não triunfarão sobre Mim.» Triunfaram eles naquele tempo. Cristo ressuscitou, Cristo foi glorificado. Agora veem eles em Seu Nome a raça humana convertida: agora que insultem, agora que meneiem a cabeça: antes, que agora a fixem, ou se a meneiam, que a meneiem em espanto e admiração. …
13. "Mas quanto a Mim, Tu Me sustentas por causa da Minha inocência" (v. 12). Verdadeiramente inocência: integridade sem pecado, retribuição sem dívida, flagelação sem merecimento. "Tu Me sustentas por causa da Minha inocência, e Me fizeste forte diante de Ti para sempre." Tu Me fizeste forte para a eternidade; Tu Me fizeste fraco por um tempo: Tu Me fizeste forte diante de Ti; Tu Me fizeste fraco diante dos homens. Que resta, pois? Louvor a Ele, glória a Ele. "Bendito seja o Senhor Deus de Israel." Pois Ele é o Deus de Israel, nosso Deus, o Deus de Jacó, o Deus do filho mais novo, o Deus do povo mais jovem. Que ninguém diga: "Ele disse isso acerca dos judeus; eu não sou Israel" — antes, os próprios judeus é que não são Israel. Pois o filho mais velho é o povo mais velho, reprovado; o mais novo, o povo amado. "O mais velho servirá ao mais novo:" agora se cumpre; agora, irmãos, os judeus nos servem — são como os nossos carregadores de alforjes: nós estudando, eles carregando os nossos livros. Ouvi em que nos servem os judeus, e não sem razão. ...Com eles estão a Lei e os Profetas, nos quais Lei e nos quais Profetas Cristo é pregado. Quando temos que lidar com os Pagãos e mostramos que se cumpre na Igreja de Cristo aquilo que antes fora predito acerca do Nome de Cristo, da Cabeça e do Corpo de Cristo — para que não pensem que forjamos tais predições e que, a partir de coisas já acontecidas, as tenhamos composto como se fossem futuras —, apresentamos os livros dos judeus. Com efeito, os judeus são nossos inimigos; dos livros do inimigo convencemos o adversário. ...Se algum inimigo clamar e disser: "Vós mesmos forjastes as profecias para vós;" que sejam trazidos os livros dos judeus, pois o mais velho servirá ao mais novo. Neles leiam aquelas predições que agora vemos cumpridas; e digamos todos: "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, de eternidade em eternidade, e todo o povo dirá: Assim seja, assim seja."
1. Propusemo-nos à exposição de um Salmo correspondente aos vossos próprios "anseios", sobre o qual nos propomos falar-vos. Pois o próprio Salmo tem início com um certo pio "anseio"; e aquele que assim canta diz: "Como o cervo deseja as correntes de água, assim a minha alma Te anseia, ó Deus" (v. 1). Quem é então aquele que assim fala? Somos nós mesmos, se o quisermos! E por que perguntar quem é, além de ti mesmo, quando está em teu poder ser aquilo mesmo sobre o qual interrogas? Não se trata, porém, de um único indivíduo, mas de "Um só Corpo"; e "o Corpo de Cristo é a Igreja." Semelhante "anseio", com efeito, não se encontra em todos os que entram na Igreja: todavia, todos os que "provaram" a doçura "do Senhor", e que reconhecem em Cristo aquilo pelo qual têm apetência, pensem que não são os únicos; mas que há tais sementes espalhadas por todo "o campo" do Senhor, por toda esta terra; e que existe uma certa unidade cristã, cuja voz assim fala: "Como o cervo deseja as correntes de água, assim a minha alma Te anseia, ó Deus." E com efeito não é mal entendido como o clamor daqueles que, sendo ainda Catecúmenos, apressam-se para a graça da santa Fonte. Por essa razão também este Salmo é ordinariamente entoado em tais ocasiões, a fim de que anseiem pela Fonte da remissão dos pecados, "como o cervo pelas correntes de água." Seja isso admitido; e retenha este sentido o seu lugar na Igreja; um lugar tanto verdadeiro quanto sancionado pelo uso. Não obstante, parece-me, irmãos, que tal "anseio" não é plenamente satisfeito mesmo nos fiéis no Batismo: mas que, porventura, se souberem onde estão a peregrinar e para onde daqui devem partir, o seu "anseio" se inflama com intensidade ainda maior.
2. O título deste Salmo é: "Sobre o fim: um Salmo de entendimento para os filhos de Coré." Já encontramos os filhos de Coré em outros títulos de Salmos, e lembramos ter discutido e exposto anteriormente o significado deste nome. Todavia, cumpre que mesmo agora consideremos este título de tal maneira que o que já dissemos não constitua impedimento para que o repitamos: pois nem todos estiveram presentes em todos os lugares onde o dissemos. Ora, Coré pode ter sido, como de fato foi, uma determinada pessoa definida, e ter tido filhos que poderiam ser chamados "filhos de Coré"; busquemos, porém, o segredo do qual este é o sacramento, a fim de que este nome traga à luz o mistério com o qual está prenhe. Pois há algum grande mistério no fato de que o nome "filhos de Coré" seja dado aos cristãos. Por que "filhos de Coré"? São "filhos do esposo, filhos de Cristo." Por que então "Coré" representa Cristo? Porque "Coré" equivale a "Calvária." ...Portanto, os "filhos do esposo", os filhos de Sua Paixão, os filhos remidos pelo Seu Sangue, os filhos de Sua Cruz, que trazem na fronte aquilo que Seus inimigos erigiram no Calvário, são chamados "filhos de Coré"; a eles é cantado este Salmo como um Salmo de "entendimento." Seja, pois, despertado o nosso entendimento: e se o Salmo nos é cantado, sigamo-lo com o nosso "entendimento." ...Correi às correntes; anseiai pelas correntes de água. "Com Deus está a fonte da Vida"; uma "fonte" que jamais se esgotará: na Sua "Luz" há uma Luz que jamais se obscurecerá. Anseia por esta luz: por uma certa fonte, uma certa luz, tal como os teus olhos corporais não conhecem; uma luz para ver a qual o olho interior deve ser preparado; uma fonte, para beber da qual a sede interior deve ser acendida. Corre à fonte; anseia pela fonte; mas não o faças de qualquer modo, não te satisfaças em correr como qualquer animal ordinário; corre "como o cervo." O que significa "como o cervo"? Não haja lentidão na tua corrida; corre com todas as tuas forças: anseia pela fonte com todas as tuas forças. Pois encontramos no "cervo" o emblema da velocidade.
3. Mas porventura quis a Escritura que considerássemos no cervo não apenas este ponto, mas também outro. Ouvi o que mais há no cervo. Ele destrói serpentes, e depois de matar as serpentes, inflama-se de sede ainda mais violenta; tendo destruído as serpentes, corre para "as correntes de água" com sede mais intensa do que antes. As serpentes são os teus vícios; destrói as serpentes da iniquidade; então anseiarás ainda mais pela "Fonte da Verdade." Porventura a avareza sussurra ao teu ouvido algum conselho tenebroso, sibila contra a palavra de Deus, sibila contra o mandamento de Deus. E visto que te é dito: "Despreza esta ou aquela coisa," se preferes praticar a iniquidade a desprezar algum bem temporal, escolhes ser mordido por uma serpente, em vez de a destruir. Enquanto, portanto, ainda és indulgente com o teu vício, com a tua cobiça ou o teu apetite, quando hei de encontrar em ti "um anseio" tal que te faça correr às correntes de água? ...
4. Há ainda outro ponto a ser observado no cervo. Conta-se dos veados ...que quando vagueiam em manadas, ou quando nadam para alcançar outras regiões da terra, apoiam o peso de suas cabeças uns sobre os outros, de tal maneira que um toma a dianteira, e os outros o seguem, repousando as suas cabeças sobre ele, assim como fazem os que os seguem em relação a estes, e assim sucessivamente até o fim da manada; mas aquele que tomou a dianteira no sustento do peso das suas cabeças, quando fatigado, retorna à retaguarda, e repousa de sua fadiga apoiando a sua cabeça do mesmo modo que fizeram os outros; assim sustentando por turno o que é pesado, cada um na sua vez, tanto cumprem a sua jornada quanto não se abandonam mutuamente. Não são eles uma espécie de "cervos" a quem o Apóstolo se dirige, dizendo: "Suportai uns aos outros os encargos, e assim cumprireis a Lei de Cristo" (Gl 6,2)? ...
5. "A minha alma tem sede do Deus vivo" (v. 2). O que estou dizendo — que "como o cervo anela pelas correntes de água, assim a minha alma anela por Ti, ó Deus" — significa isto: "A minha alma tem sede do Deus vivo." De que tem ela sede? "Quando virei e me apresentarei diante de Deus?" É disto que tenho sede: de "vir e de me apresentar diante dEle." Tenho sede na minha peregrinação, na minha corrida; serei saciado quando chegar. Mas "Quando virei?" E aquilo que aos olhos de Deus é breve, ao nosso "anseio" afigura-se tardio. "Quando virei e me apresentarei diante de Deus?" Também este clamor procede daquele "anseio", do qual brota, em outro lugar, aquela exclamação: "Uma coisa pedi ao Senhor; isso buscarei: que eu habite na casa do Senhor todos os dias da minha vida." Por que razão? "Para contemplar" (diz ele) "a formosura do Senhor." "Quando virei e me apresentarei diante do Senhor?" ...
6. "As minhas lágrimas foram o meu pão de dia e de noite, enquanto me dizem continuamente: Onde está o teu Deus?" (v. 3). As minhas lágrimas (diz ele) não foram amargura, mas "o meu pão." Essas mesmas lágrimas me eram doces: ardendo de sede por aquela fonte, porquanto ainda não me era dado beber dela, alimentei-me avidamente das minhas próprias lágrimas. Pois não disse: "As minhas lágrimas se tornaram a minha bebida," para não parecer que as desejava como as "correntes de água"; mas, conservando ainda a sede com a qual abraso e pela qual sou arrebatado em direção às correntes de água, "As minhas lágrimas se tornaram o meu pão," enquanto ainda não me encontro lá. E certamente tanto mais se abrasa de sede pelas correntes de água aquele que faz das suas lágrimas o seu pão. ..."E me dizem continuamente: Onde está o teu Deus?" Pois se um pagão me dissesse isso, não posso devolver-lhe a pergunta dizendo: "E onde está o teu?" — visto que ele aponta com o dedo para alguma pedra e diz: "Eis aqui o meu Deus!" Quando me rio da pedra, e aquele que a apontou cora de vergonha, levanta os olhos da pedra, contempla o céu, e talvez diga, apontando o dedo para o Sol: "Eis ali o meu Deus! Onde, pergunto-te, está o teu?" Encontrou algo que pode mostrar aos olhos da carne; ao passo que eu, não por não ter um Deus a apresentar-lhe, sou incapaz de mostrar-lhe aquilo para o qual ele não possui olhos com que ver. Pois ele, com efeito, podia apontar aos meus olhos corporais o seu Deus, o Sol; mas que olhos possui ele, para os quais eu pudesse apontar o Criador do Sol? ...
7. "Nestas coisas pensei, e derramei minha alma acima de mim mesmo" (v. 4). Quando alcançaria minha alma aquele objeto de sua busca, que está "acima de minha alma," se minha alma não se "derramasse acima de si mesma"? Pois se repousasse em si mesma, não veria nada além de si; e ao ver-se a si mesma, nem por isso veria a Deus. Digam, pois, agora os meus inimigos ultrajantes: "Onde está o teu Deus?" Sim, digam-no! Eu, enquanto não "vejo," enquanto a minha felicidade é adiada, faço das minhas lágrimas o meu "pão de dia e de noite." Digam ainda: "Onde está o teu Deus?" Busco o meu Deus em toda natureza corpórea, terrestre ou celeste, e não O encontro; busco a Sua Substância na minha própria alma, e não a encontro; todavia ainda pensei nestas coisas, e desejando "ver as coisas invisíveis do meu Deus, compreendidas pelas coisas criadas," derramei minha alma acima de mim mesmo, e não resta já nenhum ser que eu possa alcançar, senão o meu Deus. Pois é "ali" que está a "casa do meu Deus." Sua morada está acima de minha alma; de lá Ele me contempla; de lá Ele me criou; de lá Ele me governa e provê para mim; de lá Ele me interpela, e me chama, e me dirige; conduz-me no caminho e até ao fim do meu caminho. ...
8. Pois quando "derramava minha alma acima de mim mesmo," a fim de alcançar o meu Deus, por que o fazia? "Pois irei ao lugar do Teu Tabernáculo." Pois estaria em erro se buscasse o meu Deus sem "o lugar do Seu tabernáculo." "Pois irei ao lugar do Teu maravilhoso tabernáculo, até à casa de Deus."
"Irei," diz ele, "ao lugar do maravilhoso tabernáculo, até à casa de Deus!" Pois já há muitas coisas que admiro "no tabernáculo." Vede quão grandes maravilhas admiro no tabernáculo! Pois o tabernáculo de Deus na terra são os fiéis; admiro neles a obediência até dos seus membros corporais: que neles "o Pecado não reina de modo que lhe obedeçam nos seus desejos; nem entregam os seus membros como instrumentos de iniquidade ao pecado; mas ao Deus vivo em boas obras." Admiro o espetáculo dos membros corporais guerreando ao serviço da alma que serve a Deus. ...E por mais maravilhoso que seja o tabernáculo, todavia quando chego à "casa de Deus," fico mesmo emudecido de assombro. Dessa "casa" fala ele noutro Salmo, depois de haver proposto a si mesmo uma certa questão obscura e difícil (a saber, por que razão geralmente vai bem aos ímpios na terra, e mal aos bons?), dizendo: "Pensei em conhecer isto; é por demais penoso para mim, até que eu entre no santuário de Deus, e compreenda as últimas coisas." Pois é lá, no santuário de Deus, na casa de Deus, que está a fonte do "entendimento." Ali ele "compreendeu as últimas coisas;" e resolveu a questão acerca da prosperidade dos ímpios e dos sofrimentos dos justos. Como a resolve? É que os ímpios, sendo indultados aqui, são reservados para castigos sem fim; e os bons, quando sofrem aqui, são provados a fim de que ao fim obtenham a herança. E foi no santuário de Deus que compreendeu isto, e "compreendeu as últimas coisas." ...Pois nos conta o seu progresso e a sua condução até lá; como se estivéssemos a dizer: "Estás a admirar o tabernáculo aqui na terra; como chegaste ao santuário da casa de Deus?" Ele diz: "Na voz de alegria e de louvor; o som de quem celebra a festa." Aqui, quando os homens celebram a festa simplesmente para sua própria indulgência, é costume deles colocar instrumentos musicais, ou pôr um coro de cantores, diante das suas casas, ou qualquer espécie de música que serve e seduz à libertinagem. E quando estes se ouvem, o que dizemos nós, transeuntes? "O que se passa aqui?" E somos informados em resposta que é alguma festa. "É um aniversário que se celebra" (dizem eles), "há um casamento aqui;" para que essas canções não pareçam fora de lugar, mas a indulgência luxuriosa seja justificada pela ocasião festiva. Na "casa de Deus" há uma festa sem fim: pois lá não é uma ocasião celebrada uma vez e depois destinada a passar. O coro angélico faz uma "festa" eterna: a presença da face de Deus, alegria que jamais falha. Esta é uma "festa" de tal natureza que nem é inaugurada por qualquer aurora, nem encerrada por qualquer entardecer. Daquela festividade perpétua e eterna, uma certa harmonia suave e melodiosa fere os ouvidos do coração, desde que o mundo não abafe os sons. Ao caminhar neste tabernáculo e contemplar as obras maravilhosas de Deus para a redenção dos fiéis, o som daquela festividade encanta-lhe os ouvidos e arrebata o "cervo" para "as fontes das águas."
9. Mas vede, irmãos, que enquanto "estamos em casa neste corpo, estamos ausentes do Senhor;" e "o corpo corruptível oprime a alma, e o tabernáculo terrestre pesa sobre a mente que medita sobre muitas coisas;" ainda que de algum modo tenhamos dispersado as nuvens, caminhando como o "anseio" nos conduz, e por um breve momento nos tenhamos aproximado daquele som, de modo que por um esforço possamos captar algo daquela "casa de Deus," todavia pelo peso, por assim dizer, da nossa enfermidade, voltamos a afundar ao nosso nível habitual e recaímos no nosso estado ordinário. E assim como ali encontramos motivo de alegria, aqui também não faltará ocasião de tristeza. Pois aquele cervo que fazia das "lágrimas" o seu "pão de dia e de noite," levado pelo "anseio para as fontes das águas" (isto é, para os deleites espirituais de Deus), "derramando a sua alma acima de si mesmo," para que alcance o que está "acima" da sua própria alma, caminhando em direção ao "lugar do maravilhoso tabernáculo, até à casa de Deus," e conduzido pela doçura daquele som espiritual interior a desprezar todas as coisas exteriores e a ser arrebatado para as coisas espirituais, é ainda apenas um homem mortal; ainda geme aqui, ainda carrega a fragilidade da carne, ainda em perigo no meio dos "escândalos" deste mundo. Volta, pois, o olhar para si mesmo, como se viesse daquele mundo; e diz a si mesmo, agora colocado no meio dessas tristezas, comparando estas com as coisas para ver as quais havia entrado ali, e após ter visto as quais havia saído de lá;
"Por que estás abatida, ó minha alma, e por que me perturbas?" (v. 5). Eis que há pouco fomos alegrados por certas delícias interiores: com o olho da mente pudemos contemplar, ainda que por um fugaz relance, algo não suscetível de mudança; por que ainda "me perturbas, por que" ainda estás "abatida"? Pois já não tens dúvida acerca do teu Deus. Porque agora não te falta o que dizer a ti mesma em resposta àqueles que perguntam: "Onde está o teu Deus?" Tive agora a percepção de algo que é imutável; por que ainda me perturbas?
"Espera em Deus." Como se sua alma lhe respondesse em silêncio: "Por que te perturbo, senão porque ainda não estou lá, onde se encontra aquela delícia para a qual fui, por assim dizer, arrebatada por um instante? Acaso já 'bebo' desta 'fonte' sem nada a temer?" ...Ainda assim "Espera em Deus" é a sua resposta à alma que o perturba e que deseja justificar o seu desassossego pelos males de que este mundo transborda. Entretanto permanece na esperança; pois "a esperança que se vê não é esperança; mas se esperamos o que não vemos, então o aguardamos com paciência."
10. "Espera em Deus." Por que "esperança"? "Pois a Ele confessarei." Que "confessarás"? "Meu Deus é a saúde salvadora do meu rosto." A minha "saúde" (a minha salvação) não pode provir de mim mesmo; é isso o que direi, o que "confessarei." É o meu Deus que é "a saúde salvadora do meu rosto." Pois para dar conta dos seus temores, no meio das coisas que agora conhece, tendo chegado de algum modo à "compreensão" delas, voltou a olhar para trás com ansiedade, temendo que o inimigo se aproxime às ocultas; ainda não pode dizer: "Estou curado em tudo." Pois tendo apenas "as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a saber, a redenção do corpo." Quando essa "saúde" (essa salvação) se consumar em nós, então viveremos na casa de Deus para sempre, louvando eternamente Aquele a quem foi dito: "Bem-aventurados os que habitam em Vossa casa, eles Vos louvarão pelos séculos dos séculos." Isso ainda não é assim, porque a salvação que é prometida ainda não tem existência; mas é "na esperança" que confesso a Deus e digo: "Meu Deus é a saúde salvadora do meu rosto." Pois é "na esperança que somos salvos; mas a esperança que se vê não é esperança." ...
1. Este Salmo é breve; satisfaz os anseios da mente dos ouvintes, sem impor prova demasiado severa à fome dos que jejuam. Alimente-se dele a nossa alma; a nossa alma, da qual aquele que canta neste Salmo diz que está "abatida"; abatida, suponho eu, ou em razão de algum jejum, ou antes em razão de certa fome que padecia. Pois o jejum é ato voluntário; ter fome é coisa involuntária. Aquela que tem fome é a Igreja, é o Corpo de Cristo: e aquele "Homem" que se estende por todo o mundo, cuja Cabeça está no alto e os membros, embaixo — é a Sua voz que, a esta altura, já deveria ser perfeitamente conhecida e plenamente familiar a nós em todos os Salmos; ora entoando com alegria, ora lamentando; ora se regozijando na esperança, ora suspirando pela sua condição presente, como se fosse a nossa própria. Não nos cumpre, portanto, demorarmo-nos longamente em indicar-vos quem é o que aqui fala: que cada um de nós seja membro do Corpo de Cristo; e esse será o que aqui fala. ...
2. «Julga-me, ó Senhor, e separa a minha causa da nação ímpia» (v. 1). Não temo o Teu julgamento, porque conheço a Tua misericórdia. «Julga-me, ó Deus», clama ele. Ora, entretanto, neste estado de peregrinação, Vós ainda não separais o meu lugar, porque hei de viver juntamente com o «joio» até o tempo da «colheita»: Vós ainda não separais a minha chuva da deles; a minha luz da deles: «separa a minha causa.» Que se faça uma diferença entre aquele que crê em Vós e aquele que não crê em Vós. A nossa enfermidade é a mesma; mas as nossas consciências não o são: os nossos sofrimentos são os mesmos; mas os nossos anseios não o são. «O desejo dos ímpios perecerá»; mas quanto ao desejo dos justos, com razão duvidaríamos, se não fosse «certo» Aquele que prometeu. O objeto dos nossos desejos é Ele mesmo, que promete: Ele Se nos dará, porque já Se nos deu; Ele Se nos dará em Sua imortalidade a nós então imortais, assim como Se nos deu em Sua mortalidade a nós quando éramos mortais. ...
3. E visto que a paciência é necessária para suportar, até a colheita, uma certa distinção sem separação, por assim dizer — pois estão conosco, e por isso ainda não separados; sendo o joio todavia ainda joio, e o trigo ainda trigo, e por isso já distintos —; sendo então necessária uma certa fortaleza, que deve ser implorada dAquele que nos ordena ser fortes, e sem cuja ação fortalecedora em nós não seríamos o que Ele nos ordena ser; dAquele que disse: «Quem perseverar até ao fim, esse será salvo» — para que as forças da alma não se deteriorem em consequência de ela atribuir a si mesma alguma fortaleza —, ele acrescenta imediatamente,
"Pois Tu, ó Deus, és a minha força: por que me abandonaste, e por que ando eu de luto, enquanto o inimigo me acossa?" (v. 2). Ando de luto: o inimigo me acossa com tentações quotidianas, inspirando ora algum amor ilícito, ora alguma causa infundada de temor; e a alma que combate contra ambos, ainda que não feita sua prisioneira, todavia, estando em perigo por causa deles, se contrai de tristeza e diz a Deus: "Por quê?"
Que ela, pois, Lhe pergunte e ouça o "Por quê?" Pois está no Salmo indagando a causa do seu abatimento, dizendo: "Por que me abandonaste? E por que ando eu de luto?" Que ouça a Isaías; que a lição que acaba de ser lida se lhe apresente. "O espírito sairá de Mim, e todo sopro Eu o fiz. Por causa da iniquidade o afligi por um pouco; ocultei-lhe o Meu rosto, e ele se apartou de Mim contristado pelos caminhos do seu coração." Por que então perguntavas tu: "Por que me abandonaste, e por que ando eu de luto?" Ouviste: foi "por causa da iniquidade." A "iniquidade" é a causa do teu luto; que a "Justiça" seja a causa do teu regozijo! Querias pecar, e todavia querias não padecer; de sorte que te era pouco seres tu mesmo iníquo, sem também desejares que Ele fosse iníquo, ao quereres não ser por Ele punido. Considera uma sentença de qualidade superior em outro Salmo: "É bom para mim que Tu me tenhas humilhado, para que eu aprendesse as Tuas justiças." Ao ser exaltado, eu havia aprendido as minhas próprias iniquidades; ao ser "humilhado," que eu aprenda "as Tuas justiças." "Por que ando eu de luto, enquanto o inimigo me acossa?" Tu te queixas do inimigo. É verdade que ele te acossa; mas foste tu que lhe "deste lugar." E ainda agora há um caminho aberto a ti; escolhe o caminho da prudência; admite o teu Rei, fecha a porta ao tirano.
4. Mas, para que ela o faça, ouvi o que ela diz, o que ela suplica, o que ela pede em oração. Rogai pelo que ouvis; suplicai por isso ao ouvi-lo; sejam estas palavras a voz de todos nós: «Envia a Tua Luz e a Tua Verdade. Elas me guiaram e me conduziram ao Teu santo monte e aos Teus Tabernáculos» (v. 3). Pois essa mesma «Luz» e essa «Verdade» são duas apenas no nome; a realidade expressa é uma só. Com efeito, o que mais seria a «Luz» de Deus senão a «Verdade» de Deus? Ou o que mais seria a «Verdade» de Deus senão a «Luz» de Deus? E a única Pessoa de Cristo é ambas as coisas. «Eu sou a Luz do mundo; quem crê em Mim não andará nas trevas.» «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.» Ele próprio é «a Luz»; Ele próprio é «a Verdade». Venha Ele, pois, e nos liberte, e separe de pronto a nossa causa da nação ímpia; livre-nos do homem enganoso e injusto; separe o trigo do joio, pois ao tempo da colheita Ele próprio enviará Seus Anjos, para que «recolham do Seu reino tudo o que escandaliza» e o lancem no fogo ardente, enquanto reúnem o trigo no celeiro. Enviará a Sua «Luz» e a Sua «Verdade», pois estas já nos conduziram e nos guiaram ao Seu santo monte e aos Seus Tabernáculos. Possuímos o «penhor»; esperamos o prêmio. O «Seu santo Monte» é a Sua santa Igreja. É aquele monte que, segundo a visão de Daniel, cresceu de uma pequeníssima «pedra» até esmagar os reinos da terra, e cresceu a tal grandeza que «encheu a face da terra». Este é o «monte» do qual nos diz ser atendido em sua oração aquele que exclama: «Clamei ao Senhor com a minha voz, e Ele me ouviu do Seu santo monte.» Nenhum daqueles que estão fora desse monte espere ser ouvido para a vida eterna. Pois muitos são atendidos em suas preces a respeito de muitas coisas. Que não se congratulem por serem ouvidos; os demônios foram ouvidos em sua súplica, a fim de serem enviados para os porcos. Desejemos ser ouvidos para a vida eterna, em virtude do nosso anseio, pelo qual dizemos: «Envia a Tua Luz e a Tua Verdade.» Esta é uma «Luz» que exige o olho do coração. Pois «Bem-aventurados» — diz Ele — «os puros de coração, porque eles verão a Deus.» Estamos agora no Seu Monte, isto é, na Sua Igreja e no Seu Tabernáculo. O «tabernáculo» é para os que peregrinem; a casa, para os que habitam em comunidade estável. O tabernáculo é também para aqueles que se encontram longe da pátria e, ao mesmo tempo, em estado de guerra. Quando ouvirdes falar de tabernáculo, concebei a ideia de uma guerra; guardai-vos do inimigo. Mas o que será a casa? «Bem-aventurados os que habitam na Tua casa; eles Te louvarão para sempre.»
5. Ora, tendo sido conduzidos até ao «Tabernáculo» e colocados no «Seu santo Monte», que esperança levamos conosco?
"Então entrarei até o Altar de Deus" (vers. 4). Pois existe um certo Altar invisível nas alturas, ao qual o homem iníquo não se aproxima. Àquele Altar somente chega aquele que se aproxima deste sem motivo de temor. Ali encontrará a sua Vida aquele que neste "separa a sua causa." "E entrarei até o Altar de Deus." Do Seu santo Monte, e do Seu Tabernáculo, da Sua Santa Igreja, entrarei até o Altar de Deus nas Alturas. Que espécie de Sacrifício há ali? O próprio que entra é tomado como holocausto. "Entrarei até o Altar de Deus." Qual o significado daquilo que ele diz: "O Altar do meu Deus"?
"Até Deus, que alegra a minha juventude." Juventude significa novidade: como se dissesse: "Até Deus, que alegra a minha novidade." É Ele quem alegra a minha novidade, Ele que encheu o meu estado antigo de pranto. Pois agora "vou em pranto" na velhice, mas então "estarei de pé," exultando na novidade!
"Sim, com a harpa Te louvarei, ó Deus meu Deus." Qual o significado de "louvar com a harpa" e louvar com o saltério? Pois ele não o faz sempre com a harpa, nem sempre com o saltério. Esses dois instrumentos dos músicos têm, cada um, um significado distinto que lhes é próprio, digno de nossa consideração e atenção. Ambos são portados nas mãos e tocados pelo contato; e representam certas obras corporais nossas. Ambos são bons, se alguém sabe tocar o saltério ou tocar a harpa. Mas como o saltério é aquele instrumento que tem a caixa de ressonância (isto é, aquele tambor, aquela peça oca de madeira, sobre a qual, estendendo as cordas, estas ressoam) na parte superior, ao passo que a harpa tem essa mesma caixa de ressonância côncava na parte inferior, deve-se fazer uma distinção entre as nossas obras, quando estão "na harpa" e quando "no saltério:" ambas, porém, são aceitas por Deus e gratas ao Seu ouvido. Quando fazemos algo segundo os Mandamentos de Deus, obedecendo a Seus preceitos e dando-Lhe ouvidos, a fim de cumprir Suas injunções, quando somos ativos e não passivos, é o saltério que ressoa. Pois assim também fazem os Anjos: pois nada lhes cabe sofrer. Mas quando padecemos alguma tribulação, provas, ofensas nesta terra — como padecemos somente da parte inferior de nós mesmos; isto é, do fato de sermos mortais, de que devemos algo de tribulação à nossa causa original, e ainda do fato de padecer muito daqueles que não estão "acima" —, isso é "a harpa." Pois da parte de nós que está "abaixo" sobe uma melodia suave: "padecemos," e tocamos o saltério, ou melhor direi: cantamos e tocamos a harpa. ...
6. E novamente, a fim de que possa arrancar o som daquele tampo sonoro inferior, dirige-se à própria alma; diz: "Por que estás contristada, ó minha alma, e por que me perturbas?" (v. 5). Estou em tribulações, em fadiga, em luto; "Por que me perturbas, ó minha alma?" Quem é o que fala, e a quem fala? Que é à alma que se dirige, todos sabem: pois é evidente; o apelo lhe é dirigido diretamente: "Por que estás contristada, ó minha alma, e por que me perturbas?" A questão diz respeito ao falante. Certamente não é a carne que se dirige à alma, visto que a carne não pode falar sem a alma. Pois é mais conveniente que a alma se dirija à carne, do que a carne se dirija à alma. ...Percebemos então que possuímos uma certa parte em que habita "a imagem de Deus", a saber, a mente e a razão. Foi essa mesma mente que orou pela "Luz de Deus" e pela "Verdade de Deus". É pela mesma mente que apreendemos o reto e o injusto; é pela mesma que discernimos a verdade do falso. É a esta mesma que chamamos "entendimento", o qual, com efeito, falta aos animais irracionais. E este "entendimento", quem quer que o negligencie em si mesmo, e o tenha em menor conta do que as demais partes de sua natureza, e o rejeite como se não o possuísse, é interpelado no Salmo: "Não sejais como o cavalo e a mula, que carecem de entendimento." É pois o nosso "entendimento" que se dirige à nossa alma. Esta murcha-se nas tribulações, desgasta-se na angústia, é entristecida nas tentações, desfalece nos trabalhos. A mente, entrevendo a Verdade lá do alto, quer reanimar-lhe os ânimos, e diz: "Por que estás contristada, ó minha alma?" ...
7. Estas expressões, irmãos, são seguras; mas, todavia, sede vigilantes nas boas obras. Tocai "o saltério", obedecendo aos Mandamentos; tocai a harpa, suportando com paciência os vossos sofrimentos. Ouvistes de Isaías: "Reparte o teu pão com o faminto"; não penseis que o jejum por si mesmo é suficiente. O jejum mortifica a ti mesmo; não refrigera os outros. A tua privação te aproveitará, se proporcionares conforto aos outros. Vê: negaste a ti mesmo; a quem darás aquilo de que te privaste? Onde depositarás o que negaste a ti mesmo? Quantos pobres poderiam ser saciados pelo desjejum a que hoje renunciamos? Jejua de tal modo que possas alegrar-te de ter desjejuado, enquanto outro estava comendo; jejua por causa das tuas orações, para que sejas ouvido nelas. Pois Ele diz naquela passagem: "Enquanto ainda estás falando, direi: Aqui estou", contanto que com ânimo alegre "repartas o teu pão com o faminto." Pois geralmente isto é feito pelos homens a contragosto e com murmúrios, para se livrarem da molesta importunidade do mendigo, e não para refrigerar as entranhas do necessitado. Mas é "o doador alegre" que "Deus ama." Se deres o teu pão de má vontade, perdeste tanto o pão quanto o mérito da ação. Faze-o pois de coração, para que Aquele "que vê em segredo" diga: "enquanto ainda estás falando, Aqui estou." Com que presteza são atendidas as orações daqueles que praticam a justiça! E esta é a justiça do homem nesta vida: o jejum, as esmolas e a oração. Queres que a tua oração se eleve até Deus? Dá-lhe aquelas duas asas da esmola e do jejum. Que a "Luz" de Deus e a "Verdade" de Deus nos encontrem tais, que Ele nos encontre sem motivo de temor, quando vier para nos libertar da morte, Ele que já veio para sofrer a morte por nós. Amém.
2. O título, portanto, não é simplesmente «Aos filhos de Coré», mas «Para a inteligência, aos filhos de Coré». O mesmo ocorre com aquele Salmo, cujo primeiro versículo o próprio Senhor proferiu na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, olha para Mim; por que Me abandonaste?» Pois «transferindo-nos em figura» para o que dizia, e para o Seu próprio Corpo — pois somos também «Seu Corpo», e Ele é nossa «Cabeça» —, Ele pronunciou da Cruz não o Seu próprio clamor, mas o nosso. Porque Deus jamais O «abandonou»; nem tampouco Ele mesmo Se apartou alguma vez do Pai; mas foi em favor de nós que proferiu estas palavras: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» Pois segue-se: «Longe da minha saúde estão as palavras das minhas ofensas:» e isto revela na pessoa de quem Ele assim falou; porquanto o pecado não podia ser encontrado nEle. ...
1. Este Salmo é endereçado "aos filhos de Coré", como indica o seu título. Ora, Coré equivale à palavra calvície; e encontramos no Evangelho que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado "no lugar da caveira." É evidente, portanto, que este Salmo é cantado aos "filhos de Sua Paixão." Temos sobre este ponto um testemunho certíssimo e claríssimo do Apóstolo Paulo; pois que, no tempo em que a Igreja padecia sob as perseguições dos gentios, ele citou daqui um versículo, para inserir à guisa de consolação e encorajamento à paciência. Porque aquilo que ele inseriu em sua Epístola é dito aqui: "Por amor de Ti somos mortos todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro." Ouçamos, pois, neste Salmo a voz dos Mártires; e vejamos quão justa é a causa que a voz dos Mártires defende, dizendo: Por amor de Ti, etc. ...
3. "Ó Deus, ouvimos com os nossos ouvidos; nossos pais nos contaram a obra que Vós fizestes nos dias deles, e nos dias de outrora" (v. 1). Indagando por que razão, nestes dias, Ele aparentemente abandonou aqueles que lhe aprouve exercitar nos sofrimentos, eles recordam os acontecimentos passados que ouviram de seus pais; como se dissessem: Não é acerca destas coisas que padecemos que nossos pais nos falaram! Pois também naquele outro Salmo disse Ele: "Nossos pais confiaram em Vós; confiaram, e Vós os livrastes. Mas eu sou um verme e não um homem; opróbrio dos homens e abjeto do povo." Confiaram, e Vós os livrastes; terei eu então esperado, e Vós me abandonastes? E terei acreditado em Vós em vão? E é em vão que meu nome foi inscrito em Vosso Livro, e Vosso nome foi inscrito sobre mim? Eis o que nossos pais nos contaram:
"A Tua mão destruiu as nações, e as plantaste; enfraqueceste os povos, e os expulsaste" (v. 2). Quer dizer: "Expulsaste 'os povos' da sua própria terra, para que 'a eles' introduzisses e os plantasses; e pela Tua misericórdia estabelecesses o seu reino." Estas são as coisas que recebemos de nossos pais. Mas porventura era porque eram valentes, eram homens de guerra, eram invencíveis, eram bem adestrados e belicosos, que puderam realizar tais feitos. De modo algum. Não é isso o que nos transmitiram nossos pais; não é isso o que a Escritura encerra. Mas o que diz ela, senão o que se segue?
"Pois não conquistaram a terra pela sua própria espada, nem o seu próprio braço os salvou; mas a Tua mão direita, e o Teu braço, e a luz do Teu rosto" (v. 3). A Tua "mão direita" é o Teu Poder; o Teu "braço" é o próprio Teu Filho. E "a luz do Teu rosto." Que significa isto, senão que Estavas presente com eles em milagres de tal ordem que a Tua presença era percebida? Pois quando a presença de Deus conosco se manifesta por algum milagre, acaso vemos o Seu rosto com os nossos próprios olhos? Não. É pelo efeito do milagre que Ele dá a conhecer ao homem a Sua presença. Com efeito, que dizem todas as pessoas que se maravilham diante de fatos desta natureza? "Vi Deus presente." "Mas a Tua mão direita, e o Teu braço, e a luz do Teu rosto; porque em eles Te aprazeste:" isto é, os trataste de tal modo que Te tornaste neles bem-aprazível; de sorte que quem considerasse como eram tratados pudesse dizer que "Deus está com eles em verdade," e é Deus que os move.
4. "Como? Era Ele então diferente do que agora É?" Longe esteja tal suposição. Pois o que se segue?
"Tu mesmo és meu Rei e meu Deus." (v. 4). "Tu mesmo és"; pois não mudaste. Vejo que os tempos mudaram; mas o Criador dos tempos é imutável. "Tu mesmo és meu Rei e meu Deus." Tens por costume guiar-me, governar-me, salvar-me. "Tu que ordenas a salvação a Jacob." O que significa "Tu que ordenas"? Ainda que na Tua própria e peculiar Substância e Natureza, na qual és tudo o que és, Te houvesses ocultado deles; e ainda que não Te houvesses comunicado com os pais naquilo que és em Ti mesmo, de modo que pudessem ver-Te "face a face," todavia, por qualquer criatura que fosse, "ordenas a salvação a Israel." Pois aquela visão "face a face" de Ti está reservada para os que forem libertados na Ressurreição. E os próprios "pais" do Novo Testamento também, embora vissem os Teus mistérios revelados, embora pregassem as coisas secretas assim reveladas, todavia declararam que eles próprios viam apenas "por um espelho, obscuramente," mas que o "ver face a face" está reservado para um tempo futuro, quando aquilo de que o próprio Apóstolo fala houver chegado: "Quando Cristo, nossa vida, aparecer, então vós também aparecereis com Ele em glória." É, portanto, para esse tempo que a visão "face a face" está reservada para vós, da qual João também fala: "Amados, somos agora filhos de Deus; e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é." Ainda que, pois, naquele tempo os nossos pais não Te vissem como és, "face a face," ainda que aquela visão esteja reservada para a ressurreição, todavia, mesmo que fossem Anjos os que se apresentavam, és Tu "Quem ordenas a salvação a Jacob." Não és presente apenas por Ti mesmo; mas por qualquer criatura em que hajas aparecido, és Tu que "ordenas" por elas aquilo que Tu mesmo fazes para a salvação dos Teus servos: e o que fazem aqueles a quem Tu "ordenas" é feito para alcançar a salvação dos Teus servos. Sendo Tu, portanto, por Ti mesmo "meu Rei e meu Deus, e ordenando a salvação a Jacob," por que razão padecemos estas coisas?
5. Porém talvez apenas o que é passado nos haja sido descrito: e nada de semelhante nos restaria esperar para o futuro. Não, com efeito; ainda há de ser esperado. "Por Ti varreremos os nossos inimigos" (v. 5). Os nossos pais, portanto, nos declararam uma obra que Tu operastes "nos seus dias e nos dias antigos" — que a Tua mão destruiu os gentios; que Tu "lançastes fora os povos e os plantastes." Tal era o passado; mas o que há de ser doravante? "Por Ti varremos os nossos inimigos." Virá um tempo em que todos os inimigos dos cristãos serão varridos como palha, soprados como pó e arrojados da terra. …Até aqui o que diz respeito ao futuro. "Não porei a minha confiança no meu arco," assim como os nossos pais não a puseram em "sua espada. Tampouco a minha espada me socorrerá" (v. 6).
6. "Pois Tu nos salvaste de nossos inimigos" (v. 7). Isto também é dito do futuro sob a figura do passado. Mas a razão pela qual é expresso como se fosse passado está em que é tão certo quanto se fosse passado. Atentai, pois, por que razão tantas coisas são expressas pelos Profetas como se fossem passadas; ao passo que são coisas futuras, e não fatos pretéritos, o objeto da profecia. Pois a futura Paixão do próprio nosso Senhor foi predita de antemão: e contudo se diz: "Traspassaram as Minhas mãos e os Meus pés. Contaram todos os Meus ossos;" — não: "Traspassarão" e "Contarão." "Olharam e fincaram os olhos em Mim;" — não: "Olharão e fixarão os olhos em Mim." "Repartiram entre si as Minhas vestes." Não diz: "As repartirão." Todas estas coisas são expressas como se fossem passadas, conquanto ainda estivessem por vir: porque para Deus as coisas futuras também são tão certas quanto se fossem passadas. ...É por essa razão, em virtude de sua certeza, que as coisas ainda futuras são expressas como se fossem passadas. Eis, portanto, o que esperamos. Pois está dito: "Tu nos salvaste de nossos inimigos, e confundiste os que nos odiavam."
7. "Em Deus nos gloriaremos todo o dia" (v. 8). Observa como ele intercala palavras exprimindo um tempo futuro, a fim de que percebas que o que antes foi dito em tempo passado foi profetizado acerca de tempos futuros. "Em Deus nos gloriaremos todo o dia; e em Teu nome nos confessaremos para sempre." Que quer dizer "nos gloriaremos"? Que quer dizer "nos confessaremos"? Que Tu "nos salvaste dos nossos inimigos;" que Tu hás de nos dar um reino eterno: que em nós hão de cumprir-se as palavras, "Bem-aventurados os que habitam na Tua casa: eles Te louvarão eternamente."
8. Visto, pois, que temos a certeza de que tais coisas hão de advir, e visto que ouvimos de nossos pais que aquelas de que falamos existiram outrora, qual é o nosso estado no presente? «Mas agora Tu nos rejeitaste e nos cobriste de vergonha» (v. 9). Cobriste-nos de vergonha não diante de nossas próprias consciências, mas aos olhos dos homens. Pois houve um tempo em que os cristãos eram perseguidos; em que em todo lugar eram proscritos, em que em todo lugar se dizia: «Ele é cristão!», como se tal expressão carregasse insulto e opróbrio. Onde está, então, Ele, «nosso Deus, nosso Rei», que «ordena a salvação a Jacob»? Onde está Ele que realizou todas aquelas obras que «nossos pais nos contaram»? Onde está Ele que há de realizar futuramente todas aquelas coisas que nos revelou por Seu Espírito? Mudou Ele? Não. Estas coisas se fazem para «entendimento, para os filhos de Coré». Pois devemos «entender» algo da razão pela qual Ele quis que sofressemos todas estas coisas nesse ínterim. Que «todas as coisas»? «Mas agora Tu nos rejeitaste e nos cobriste de vergonha: e não marchas, ó Deus, em nossas forças.» Marchamos ao encontro de nossos inimigos, e Tu não marchas conosco. Nós os vemos: são muitíssimo fortes, e nós estamos sem força. Onde está aquela Tua potência? Onde a Tua «mão direita» e o Teu poder? Onde o mar que se abriu, e os perseguidores egípcios engolidos pelas ondas? Onde a resistência de Amalec subjugada pelo sinal da Cruz? «E Tu, ó Deus, não marchas em nossas forças.»
9. «Voltaste-nos de costas diante de nossos inimigos» (v. 10), de tal modo que eles estão, por assim dizer, à frente; nós, atrás; eles são reputados como vencedores, nós como vencidos. «E os que nos odeiam saquearam para si.» O que «saquearam», senão a nós mesmos?
10. «Entregaste-nos como ovelhas destinadas ao abate, e dispersaste-nos entre as nações» (v. 11). Fomos «devorados» pelas «nações». São referidos aqueles que, por meio dos seus sofrimentos, mediante um processo de assimilação, se tornaram parte do «corpo» do mundo gentílico. Pois a Igreja os chora como membros de seu corpo que foram devorados.
11. "Vendeste o Teu povo por nenhum preço" (v. 12). Pois vemos a quem Vós entregastes; o que recebestes, não vimos. "E não havia multidão nos seus jubileus." Pois quando os cristãos fugiam diante da perseguição dos inimigos, que eram idólatras, celebravam-se então assembleias e "jubileus" em honra de Deus? Eram então entoados em coro aqueles Hinos nas Igrejas de Deus, os quais costumam ser cantados em conjunto no tempo de paz e ressoar numa doce harmonia da fraternidade aos ouvidos de Deus?
12. "Tu nos tornaste um opróbrio para os nossos vizinhos; escárnio e zombaria para os que nos rodeiam" (v. 13). "Tu nos tornaste uma similitude entre os gentios" (v. 14). Que significa "similitude"? É quando os homens, ao imprecarem uma maldição, fazem uma "similitude" do nome daquele que detestam. "Assim morrejas tu"; "Assim sejas tu castigado!" Quantas afrontas dessa natureza foram então proferidas! "Assim sejas tu crucificado!" Ainda no tempo presente não faltam inimigos de Cristo — os próprios judeus —, contra os quais, sempre que defendemos Cristo, nos dizem: "Assim morrejas tu como Ele morreu." Pois não teriam infligido aquele gênero de morte se não tivessem um intenso horror de morrer por tal suplício, ou se tivessem sido capazes de compreender que mistério nele se continha. Quando o colírio é aplicado aos olhos do cego, ele não vê o remédio na mão do médico. Pois a própria Cruz foi feita para o benefício mesmo dos perseguidores. Por ela foram depois curados, e creram Naquele que eles mesmos haviam matado. "Tu nos tornaste uma similitude entre os gentios; um meneio de cabeça entre os povos" — um "meneio de cabeça" por via de insulto. "Falavam com os lábios e meneavam a cabeça." Isso fizeram ao Senhor; isso fizeram também a todos os Seus Santos, a quantos puderam perseguir, prender, escarnecer, trair, afligir e matar.
13. «A minha vergonha está continuamente diante de mim; e a confusão do meu rosto me cobriu» (v. 15). «Pela voz daquele que censura e blasfema» (v. 16): isto é, pela voz dos que me insultam e me acusam de que Te adoro, de que Te confesso! e me acusam de que levo aquele nome pelo qual todas as acusações contra mim serão apagadas. «Pela voz daquele que censura e blasfema», isto é, daquele que fala contra mim. «Por causa do inimigo e do perseguidor.» E qual é o «entendimento» aqui contido? As coisas que nos são narradas do tempo passado não se realizarão em nosso caso; as que se esperam por haver de vir ainda não são manifestas. As do passado: a condução do Teu povo com grande glória para fora do Egito; a sua libertação dos perseguidores; a sua orientação através das nações; a sua instalação no reino, do qual as nações haviam sido expulsas. Quais são as do futuro? A condução do povo para fora deste Egito do mundo, quando Cristo, nosso «condutor», aparecer em Sua glória; a colocação dos Santos à Sua direita e dos ímpios à Sua esquerda; a condenação dos ímpios juntamente com o diabo ao castigo eterno; o recebimento de um reino de Cristo com os Santos, para durar eternamente. Estas são as coisas que ainda hão de ser; as anteriores são as que já passaram. No intervalo, qual será a nossa sorte? Tribulações! «Por quê?» Para que se veja, no que respeita à alma que adora a Deus, até que ponto O adora; para que se veja se O adora «livremente», a Aquele de quem recebeu livremente a salvação. ...Que deste tu a Deus? Eras ímpio, e foste remido! Que deste tu a Deus? Há algo que não tenhas «recebido» dEle «livremente»? Com razão se chama «graça», porque é concedida (gratis, isto é) gratuitamente. O que de ti se exige, portanto, é isto: «que também tu O adores livremente»; não porque Ele te concede bens temporais, mas porque te propõe bens eternos. ...
14. "Tudo isso nos sobreveio; e todavia não Te olvidamos" (v. 17). Que significa "não Te olvidamos"? "Nem procedemos com contumácia em Tua aliança."
"O nosso coração não se voltou para trás; e Tu desviaste os nossos passos fora do Teu caminho" (v. 18). Eis aqui o "entendimento," nisto: que "o nosso coração não se voltou para trás;" que não "Te esquecemos, não nos portamos perversamente na Tua aliança;" postos como estamos em grandes tribulações e perseguições dos gentios. "Tu desviaste os nossos passos fora do Teu caminho." Os nossos "passos" estavam nos prazeres do mundo; os nossos "passos" estavam no meio das prosperidades temporais. Tu tomaste "os nossos passos fora do Teu caminho;" e nos mostraste quão "estreita e apertada é a via que conduz à vida." Que significa: "desviaste os nossos passos fora do Teu caminho"? É como se Ele dissesse: "Estais postos no meio da tribulação; padeceis muitas coisas; já perdestes muitas coisas que amáveis nesta vida: porém não vos abandonei no caminho, o caminho estreito que vos ensino. Vós buscáveis 'caminhos largos.' Que vos digo? Este é o caminho pelo qual vamos à vida eterna; pelo caminho que quereis trilhar, ides à morte. Quão 'larga e espaçosa é a estrada que conduz à perdição: e' quão 'muitos são os que a encontram! Quão estreita e apertada é a via que conduz à vida, e' quão 'poucos são' os que por ela caminham! Quem são os poucos? Aqueles que suportam pacientemente as tribulações, suportam pacientemente as tentações; que em todos esses sofrimentos não 'se afastam;' que não se regozijam com a palavra apenas 'por uma estação;' e que, no tempo da tribulação, não se desvanecem, como ao surgir do sol; mas que têm a 'raiz' do 'amor,' conforme o que há pouco ouvimos ler no Evangelho. ...
4. "Meu coração eructou uma boa palavra" (v. 1). Quem é o que fala? O Pai, ou o Profeta? Pois alguns entendem ser a Pessoa do Pai aquela que diz: "Meu coração eructou uma boa palavra," insinuando-nos uma geração de algum modo inefável. Para que não pensasses, porventura, que algo Lhe fosse acrescentado, do qual Deus viesse a engendrar o Filho — assim como o homem toma a si algo de que engendra filhos, a saber, a união matrimonial, sem a qual não lhe é possível gerar prole —, para que, pois, não pensasses que Deus necessitasse de qualquer união nupcial para engendrar "o Filho," diz Ele: "Meu coração eructou uma boa palavra." Neste mesmo dia teu coração, ó homem, engendra um propósito, e não necessita de esposa; por meio do propósito assim nascido de teu coração, edificas algo, e antes que essa edificação subsista, o desígnio subsiste; e o que estás prestes a produzir já existe naquilo por meio do qual o irás produzir; e louvas a obra que ainda não existe, não ainda na forma visível de um edifício, mas no traçar de um desígnio; nem alguém louva teu desígnio, a não ser que, ou tu lho mostres, ou ele veja o que fizeste. Se, pois, "pelo Verbo todas as coisas foram feitas," e o Verbo é de Deus, considera a obra erigida pelo Verbo, e aprende desse edifício a admirar os Seus desígnios! Que Verbo é esse pelo qual foram feitos o céu e a terra; todo o esplendor dos céus; toda a fertilidade da terra; a imensidão do mar; a ampla difusão do ar; o fulgor das constelações; a luz do sol e da lua? Estas são coisas visíveis: eleva-te acima delas também; pensa nos Anjos, "Principados, Tronos, Dominações e Potestades." Tudo foi feito por Ele. Como, pois, foram feitas estas coisas boas? Porque foi "eructada 'uma boa Palavra,'" pela qual deveriam ser feitas. ...
5. Prossegue: "Falo das coisas que fiz ao Rei." Fala ainda o Pai? Se ainda é o Pai quem fala, inquiramos como também isto pode ser por nós entendido, em consonância com a verdadeira Fé Católica: "Falo das coisas que fiz ao Rei." Pois se é o Pai que fala de Suas próprias obras ao Seu Filho, nosso "Rei," de que obras falará o Pai ao Filho, visto que todas as obras do Pai foram realizadas pela agência do Filho? Ou, nas palavras "Falo das minhas obras ao Rei," será que o próprio vocábulo "falo" significa a geração do Filho? Receio que isso possa jamais ser tornado inteligível aos lentos de compreensão; direi, não obstante. Que me sigam os que puderem: para que, se ficasse por dizer, até os que pudessem seguir não fossem capazes. Lemos o que está dito em outro Salmo: "Deus falou uma vez." Tantas vezes falou Ele pelos Profetas, tantas vezes pelos Apóstolos, e nestes dias pelos Seus Santos, e diz Ele: "Deus falou uma vez"? Como poderia ter falado senão "uma vez," a não ser com referência ao Seu "Verbo"? Mas assim como "Meu coração eructou uma boa Palavra" foi por nós entendido, na outra cláusula, como a geração do Filho, parece que uma espécie de repetição se faz na sentença seguinte, de modo que o "Meu coração eructou uma boa Palavra," já dito, é retomado no que Ele ora diz: "Falo." Pois que significa "Falo"? "Enuncia um Verbo." E de onde senão de Seu coração, do Seu próprio íntimo, enuncia Deus o Verbo? Tu mesmo não proferes nada senão o que trazes de teu "coração;" esta tua palavra, que soa uma vez e passa, não é trazida senão desse lugar; e te admiras de que Deus "fale" dessa maneira? Mas o "falar" de Deus é eterno. Tu falas algo no momento presente, porque antes estavas em silêncio; ou, veja bem: ainda não trouxeste à luz tua palavra; mas quando começas a trazê-la, como que "rompes o silêncio," e trazes ao ser uma palavra que antes não existia. Não foi assim que Deus gerou o "Verbo." O "falar" de Deus é sem começo e sem fim; e, contudo, o "Verbo" que Ele enuncia é apenas "Um." Que enuncie outro, se o que falou houver de passar. Mas visto que Aquele por quem é enunciado permanece, e o que é enunciado permanece; e é enunciado uma vez apenas, e não tem fim — esse mesmo "uma vez" é também dito sem começo, e não há um segundo falar, porque o que é dito uma vez não passa. As palavras "Meu coração eructou uma boa Palavra" são, portanto, a mesma coisa que "Falo das coisas que fiz ao Rei." Por que então, "Falo das coisas que fiz"? Porque no próprio Verbo estão todas as obras de Deus. Pois tudo o que Deus desejou fazer na criação já existia "no Verbo;" e não existiria na realidade, se não existisse no Verbo — assim como contigo a coisa não existiria no edifício, se não existisse no teu desígnio —, como está dito no Evangelho: "O que foi feito nEle era vida." O que foi feito então existia; mas tinha sua existência no Verbo; e todas as obras de Deus existiam ali, e contudo ainda não eram "obras." "O Verbo," porém, já era, como este "Verbo era Deus, e estava com Deus;" e era o Filho de Deus, e um só Deus com o Pai. "Falo das coisas que fiz ao Rei." Que O ouça "falar," quem apreende "o Verbo;" e contemple juntamente com o Pai o Eterno Verbo; no qual existem até mesmo as coisas que hão de vir; no qual até mesmo as coisas passadas não passaram. Essas "obras" de Deus estão "no Verbo," como no Verbo, como no Unigênito, como na "Palavra de Deus."
6. O que se segue então? "Minha língua é a pena de um escritor que escreve velozmente." Que semelhança, meus irmãos, que semelhança, pergunto, tem a "língua" de Deus com a pena de um copista? Que similitude tem "a pedra" com Cristo? Que semelhança apresenta "o cordeiro" com nosso Salvador, ou "o leão" com a força do Unigênito? No entanto, tais comparações foram feitas; e se não fossem feitas, não nos formaríamos em certa medida, por meio dessas coisas visíveis, ao conhecimento do "Invisível." Assim, pois, com esta humilde similitude da pena: não a comparemos à Sua excelsa grandeza, mas também não a rejeitemos com desprezo. Pois pergunto: por que compara Ele Sua "língua" à "pena de um escritor que escreve velozmente"? Mas, por mais velozmente que escreva o copista, ainda não é comparável àquela velocidade da qual diz outro Salmo: "Sua palavra corre mui velozmente." Parece-me, porém — se a inteligência humana pode presumir tanto —, que também isto pode ser entendido como dito na Pessoa do Pai: "Minha língua é a pena de um escritor." Na medida em que o que é proferido pela "língua" soa uma vez e passa, ao passo que o que é escrito permanece; vendo pois que Deus enuncia um "Verbo," e o Verbo que é enunciado não soa uma vez e passa, mas é enunciado e contudo persevera, Deus preferiu comparar isto a palavras escritas do que a sons. Mas o que acrescentou, dizendo "de um que escreve velozmente," estimula o espírito ao "entendimento." Que não repouse, contudo, preguiçosamente aqui, pensando em copistas, ou em alguma espécie de taquígrafos velozes: se for isso o que vê na passagem, estará ali reposando. Pense velozmente qual o significado daquela palavra "velozmente." O "velozmente" de Deus é tal que nada o supera em velocidade. Pois nos escritos, letra é escrita após letra; sílaba após sílaba; palavra após palavra; nem passamos à segunda senão quando a primeira está inteiramente escrita. Ali, porém, nada pode superar a velocidade, onde não há diversas palavras; e, no entanto, nada é omitido: pois no Um estão contidas todas as coisas.
3. Pois prossegue: "Para as coisas que serão mudadas, aos filhos de Coré para inteligência; um cântico para o Amado." Pois aquele "Amado" foi visto por Seus perseguidores, mas não com vistas à "inteligência." Pois "se O tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da Glória." Para esta "inteligência," outros olhos lhe foram requeridos quando Ele disse: "Quem Me vê, vê também Meu Pai." Que o Salmo ressoe, pois, agora a respeito dEle; regozijemo-nos no banquete nupcial, e seremos daqueles para quem o matrimônio é celebrado, que são convidados às bodas; e os próprios convidados são a Esposa mesma. Pois a Igreja é "a Esposa," Cristo o Esposo. Costumam os cultores da poesia popular entoar certos versos endereçados a Esposos e Esposas, denominados Epithalamia. Tudo quanto aí se canta, canta-se em honra da Esposa e do Esposo. Não há, pois, câmara nupcial naquele banquete para o qual somos convidados? Donde então diz outro Salmo: "Ele erigiu Seu tabernáculo no Sol; e é como um esposo que sai de seu tálamo." A união nupcial é a do "Verbo" com a carne. O tálamo desta união é o seio virginal. Pois a própria carne foi unida ao Verbo: daí também ser dito: "Doravante não são mais dois, mas uma só carne." A Igreja foi assumida por Ele da raça humana: a fim de que a própria Carne, unida ao Verbo, viesse a ser a Cabeça da Igreja; e os demais que creem, membros dessa Cabeça. ...
2. Por que precisaria eu explicar o que se entende por "para os que hão de ser mudados"? Todo aquele que é ele mesmo "mudado" reconhece o significado disso. Que aquele que ouve estas palavras, "para os que hão de ser mudados," considere o que havia antes e o que existe agora. E veja primeiramente o próprio mundo transformado: há pouco adorando ídolos, agora adorando a Deus; há pouco servindo às coisas que eles mesmos fabricaram, agora servindo a Aquele por quem eles mesmos foram feitos. Observai em que tempo foram proferidas as palavras "para os que hão de ser mudados." Já a esta altura, os pagãos que restam tremem diante do estado "mudado" das coisas; e os que não querem permitir que sejam eles próprios "mudados" veem as igrejas repletas e os templos abandonados; veem aqui multidões e ali solidão. Maravilham-se das coisas assim transformadas; que leiam que foram preditas; que prestem ouvidos a Aquele que as prometeu; que creiam Naquele que cumpre essa promessa. Mas cada um de nós, irmãos, sofre também uma mudança do "homem velho" para o "homem novo": de infiel a crente; de ladrão a dadivoso; de adúltero a homem de castidade; de malfeitor a fazedor do bem. A nós, pois, sejam entoadas as palavras "para os que hão de ser mudados;" e assim comece a descrição dAquele por quem foram mudados.
1. Este Salmo, assim como nós mesmos o temos cantado com alegria juntamente convosco, suplicamos-vos que o considereis com atenção juntamente conosco. Pois é cantado acerca do sagrado Banquete Nupcial; do Esposo e da Esposa; do Rei e do Seu povo; do Salvador e daqueles que hão de ser salvos. ...Seus filhos somos nós, enquanto somos os "filhos do Esposo;" e é a nós que este Salmo se dirige, cujo título traz as palavras: "Para os filhos de Coré, acerca das coisas que hão de ser mudadas."
7. Eis, pois, que aquela Palavra, assim eterna e eternamente proferida, o Filho Co-eterno do Eterno, virá como "o Esposo;" "Mais formoso que os filhos dos homens" (v. 2). "Do que os filhos dos homens." Pergunto: por que não também mais formoso que os Anjos? Por que disse ele "do que os filhos dos homens," senão porque Ele era homem? Para que não julgasses que "o Homem Cristo" fosse um homem qualquer, diz ele: "Mais formoso que os filhos dos homens." Ainda que Ele mesmo seja "Homem," é "mais formoso que os filhos dos homens;" posto que entre os filhos dos homens, "mais formoso que os filhos dos homens;" ainda que da estirpe dos filhos dos homens, "mais formoso que os filhos dos homens." "A graça se derramou em Teus lábios." "A Lei foi dada por Moisés. A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo." ...
8. Não faltaram os que preferiram entender toda a passagem precedente como referida à própria pessoa do Profeta; e quiseram que também este versículo, "Meu coração proferiu uma boa palavra," fosse compreendido como dito pelo Profeta, suposto estar entoando um hino. Pois quem quer que entoe um hino a Deus, o seu coração está, por assim dizer, "proferindo uma boa palavra," assim como o coração daquele que blasfema de Deus está proferindo uma palavra má. De sorte que mesmo pelo que se segue — "Falo das coisas que fiz ao Rei" —, quis ele exprimir que a obra principal do homem não é outra senão louvar a Deus. A Ele pertence satisfazer-te pela Sua beleza; a ti pertence louvá-Lo com ação de graças. ...
9. "A minha língua é a pena de um escritor que escreve com presteza." Houve quem entendesse que o Profeta estava descrevendo, deste modo, o que escrevia; e que, por isso, comparou a sua língua à "pena de um escritor que escreve com presteza;" mas que escolheu exprimir-se nas palavras "escreve com presteza" para significar que escrevia acerca das coisas que haveriam de vir "com presteza;" de modo que "escrever com presteza" devesse ser entendido como equivalente a "escrever coisas prestas;" isto é, escrever coisas que não tardariam muito. Pois Deus não tardou muito em manifestar Cristo. Quão rapidamente parece ter transcorrido aquilo que já se reconhece como pretérito! Recorda as gerações que te precederam; encontrarás que a formação de Adão não é mais do que coisa de ontem. Assim lemos que todas as coisas se sucederam desde o próprio princípio: foram, portanto, realizadas "com presteza." O dia do Juízo também chegará "com presteza." Antecipa tu a sua chegada presta. Ha de vir "com presteza;" converte-te tu com ainda maior "presteza." A face do Juiz há de aparecer: mas atenta ao que diz o Profeta: "Venhamos diante" (prevenhamos) "do Seu rosto com confissão."
10. "Cinge a Tua espada sobre a Tua coxa, ó Potentíssimo" (v. 3). Que se entende por "Tua espada" senão "Tua palavra"? Por essa espada Ele dispersou os Seus inimigos; por essa espada Ele separou o filho do pai, "a filha da mãe, a nora da sogra". Lemos essas palavras no Evangelho: "Não vim trazer paz, mas a espada." E ainda: "Em uma casa, cinco estarão divididos uns contra os outros; três contra dois, e dois contra três;" isto é, "o pai contra o filho, a filha contra a mãe, a nora contra a sogra." Por qual "espada" senão aquela que Cristo trouxe foi operada essa divisão?
E com efeito, irmãos meus, vemos isso ilustrado cotidianamente. Um jovem propõe-se a consagrar-se ao serviço de Deus; seu pai se opõe; estão "divididos uns contra os outros:" um promete uma herança terrena, o outro ama uma herança celestial; um promete uma coisa, o outro prefere outra. O pai não deve julgar-se lesado: somente Deus lhe é anteposto. E, contudo, ele está em contenda com o filho, que de bom grado se dedicaria ao serviço de Deus. Mas a espada espiritual é mais poderosa para separá-los do que os laços da natureza carnal para mantê-los unidos. O mesmo ocorre igualmente no caso da mãe contra a filha; e ainda mais no da nora contra a sogra. Pois às vezes, em uma mesma casa, encontram-se sogra e nora, uma ortodoxa e a outra herética. E onde essa espada se faz sentir com toda a força, não nos atemorizamos ante a reiteração do Batismo. Poderia a filha dividir-se contra a mãe; e não poderia a nora dividir-se contra a sogra? ...
11. O que pretende exprimir com a "coxa"? A carne. Daí aquelas palavras: "Não se apartará de Judá o príncipe, nem de seus lombos o legislador." Acaso o próprio Abraão — a quem fora prometida a semente em que "todas as nações da terra haveriam de ser abençoadas" —, quando enviou o seu servo a buscar e a conduzir para seu filho uma esposa, estando pela fé plenamente persuadido de que naquela semente, por assim dizer desprezível, estava contido o grande Nome; isto é, de que o Filho de Deus havia de provir da semente de Abraão, dentre todos os filhos dos homens; acaso não fez ele, digo, com que seu servo lhe jurasse desta maneira, dizendo: "Põe a tua mão debaixo da minha coxa", e assim jurasse; como se houvesse dito: "Põe a tua mão sobre o altar, ou sobre o Evangelho, ou sobre o Profeta, ou sobre qualquer coisa santa"? "Põe", diz ele, "a tua mão debaixo da minha coxa"; com plena confiança, não envergonhado disso como de algo indecoroso, mas nisto reconhecendo uma verdade. "Com a Tua formosura e a Tua glória." Toma para Ti aquela justiça, na qual és em todo tempo formoso e glorioso. "E apressa-Te, e prossegue prosperamente, e reina" (ver. 4). Acaso não o vemos assim? Acaso já não se cumpriu? Ele "Se apressou; prosseguiu prosperamente, e reina"; todas as nações Lhe estão sujeitas. Que coisa era ver aquilo "no Espírito", do mesmo qual agora nos é dado experimentar na realidade! No tempo em que estas palavras foram pronunciadas, Cristo ainda não "reinava" deste modo; ainda não Se havia apressado, nem "prosseguido prosperamente". Eram então proclamadas; agora foram cumpridas: em muitas coisas já temos a promessa de Deus cumprida; em algumas poucas resta-nos ainda reclamar o seu cumprimento.
12. "Por causa da verdade, da mansidão e da justiça." A Verdade nos foi restituída quando "a Verdade brotou da terra, e a Justiça se inclinou do céu". Cristo foi apresentado à expectativa da humanidade, a fim de que na Semente de Abraão "todas as nações fossem abençoadas". O Evangelho foi pregado. Ele é "a Verdade". O que significa "mansidão"? Os Mártires sofreram; e o reino de Deus avançou imensamente a partir daí e se difundiu por todas as nações; porque os Mártires sofreram, e nem "defeccionaram", nem tampouco opuseram resistência; confessando tudo, nada ocultando; prontos para tudo, recusando-se a nada. Admirável "mansidão"! Assim procedeu o corpo de Cristo, o qual pelo seu Cabeça o aprendeu. Ele foi primeiro "conduzido como ovelha ao matadouro, e como cordeiro diante do tosquiador se cala, assim também não abriu a Sua boca"; tão manso, que estando suspenso na Cruz disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Por que por causa da "justiça"? Virá também para julgar, e para "retribuir a cada um segundo as suas obras". Ele falou "a verdade"; suportou pacientemente a injustiça: há de trazer "a justiça" no futuro.
13. "E a Tua mão direita Te conduzirá maravilhosamente." Seremos guiados pela Sua mão direita; Ele, pela Sua própria. Pois Ele é Deus; nós somos homens mortais. Ele foi conduzido pela Sua própria mão direita; isto é, pelo Seu próprio poder. Pois o poder que o Pai possui, também Ele o possui; a imortalidade do Pai, também Ele a possui; possui a Divindade do Pai, a Eternidade do Pai, o Poder do Pai. Maravilhosamente O conduzirá a Sua mão direita, realizando as obras de Deus, suportando os sofrimentos humanos, derrubando pela Sua própria bondade as vontades malignas dos homens. Ainda agora, Ele é conduzido até os lugares onde ainda não está presente; e é a Sua própria mão direita que O conduz. Pois aquilo que O conduz para lá é o mesmo que Ele próprio concedeu aos Seus Santos. "A Tua mão direita Te conduzirá maravilhosamente."
14. "As Tuas flechas são agudas, são poderosíssimas" (ver. 5); palavras que traspassam o coração, que acendem o amor. Por isso, no Cântico dos Cânticos, diz-se: "Estou ferida de amor." Pois ela fala de estar "ferida de amor;" isto é, de estar enamorada, de estar inflamada de paixão, de suspirar pelo Esposo, de quem recebeu a flecha do Verbo. "As Tuas flechas são agudas, são poderosíssimas;" ao mesmo tempo penetrantes e eficazes; "agudas, poderosíssimas." "Os povos cairão sob Ti." Quem "caiu"? Os que foram "feridos" também "caíram." Vemos as nações submetidas a Cristo; não as vemos "cair." Ele explica onde "caem," a saber, "no coração." Foi ali que se ergueram contra Cristo, é ali que "caem" diante de Cristo. Saulo era blasfemador de Cristo: então estava erguido, ora a Cristo, "caiu," está prostrado diante Dele: o inimigo de Cristo é morto, para que o discípulo de Cristo viva! Por uma flecha lançada do céu, Saulo (ainda não Paulo, mas ainda Saulo), ainda erguido, ainda não prostrado, é ferido "no coração:" recebeu a flecha, caiu "no coração." Pois, embora tenha caído prostrado com o rosto em terra, não foi ali que caiu no coração; mas foi ali onde disse em voz alta: "Senhor, que queres Tu que eu faça?" Mas há pouco ias prender os cristãos e levá-los ao castigo: e agora dizes a Cristo: "Que queres Tu que eu faça?" Ó flecha aguda e poderosíssima, por cujo golpe "Saulo" caiu, de modo a tornar-se "Paulo." Assim como foi com ele, assim também foi com "os povos;" considerai as nações, observai a sua sujeição a Cristo. "Os povos cairão, pois, sob Ti no coração dos inimigos do Rei;" isto é, no coração de Teus inimigos. Pois é a Ele que chama Rei, a Ele que reconhece como Rei. "Os povos cairão sob Ti no coração dos inimigos do Rei." Eram "inimigos" antes; foram feridos pelas Tuas flechas: caíram diante de Ti. De inimigos foram feitos amigos: os inimigos estão mortos, os amigos sobrevivem. Este é o sentido de "para os que hão de ser mudados." Buscamos "compreender" cada palavra singular e cada versículo em separado; todavia, somente na medida em que não reste a ninguém dúvida de que são ditos de Cristo.
15. «O Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre» (v. 6). Porque Deus «Te abençoou» para sempre, em razão da «graça derramada sobre os Teus lábios». Ora, o trono do Reino judaico era temporal; pertencia àqueles que estavam sob a Lei, não àqueles que estavam sob a «graça»: Ele veio para «remir os que estavam sob a Lei» e para colocá-los sob a «Graça». Seu «Trono é para todo o sempre». Por quê? Pois aquele primeiro trono do Reino não passava de temporal: de onde nos vem, então, um «trono para todo o sempre»? Porque é o trono de Deus. Ó divino Atributo da Eternidade! Pois Deus não poderia ter um trono temporal. «O Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre — um cetro de direção é o cetro do Teu Reino.» «O cetro de direção» é aquele que conduz a humanidade: antes estavam tortos, distorcidos; procuravam reinar para si mesmos; amavam-se a si próprios, amavam as suas obras más; não submetiam a sua própria vontade a Deus, mas queriam dobrar a vontade de Deus à conformidade com as suas próprias concupiscências. Pois o pecador e o homem iníquo costuma encolerizar-se com Deus porque não chove! e todavia quereria que Deus não Se encolerize com ele, porque é dissoluto. E é precisamente por esta razão que os homens se assentam diariamente para disputar contra Deus: «Isto é o que Ele deveria ter feito; isto Ele não fez bem.» Tu, ao que parece, vês o que fazes; Ele não sabe o que faz! És tu que és torto! Os Seus caminhos são retos. Quando farás o que é torto coincidir com o que é reto? Não é possível fazê-los coincidir. Assim como se pusesses uma vara torta sobre um pavimento nivelado: ela não se une a ele; não adere; não se ajusta ao pavimento. O pavimento é plano em todas as partes: aquela, porém, é torta; não se encaixa no que é plano. A vontade de Deus, portanto, é «reta», a tua é «torta»: é porque não podes conformar-te a ela que te parece «torta»: rege-te por ela; não procures dobrá-la à tua própria vontade; pois não podes consegui-lo; ela é em todo tempo «reta»! Queres permanecer nEle? «Corrige-te a ti mesmo»; e assim o cetro dAquele que te governa será para ti «uma regra de direção». Daí também ser Ele chamado Rei, de «governar». Pois não é verdadeiro «governante» aquele que não corrige. Por isso o nosso Rei é Rei dos «retos». Assim como é Sacerdote (Sacerdos) ao nos santificar, assim também é nosso Rei, nosso Governante, ao «nos governar». ...
16. "Amaste a justiça e odiaste a iniquidade" (v. 7). Eis ali descrita "a vara de direção." "Amaste a justiça e odiaste a iniquidade." Aproxima-te daquela "vara;" que Cristo seja teu Rei; que Ele te "governe" com aquela vara, e não te esmague com ela. Pois aquela vara é "uma vara de ferro;" uma vara inflexível. "Governá-los-ás com vara de ferro e os despedaçarás como vasos do oleiro." A alguns Ele governa; a outros, "despedaça:" "governa" os que são espirituais; "despedaça" os que são carnais. ...Acaso Ele proclamaria tão altamente que estava prestes a te ferir, se desejasse ferir-te? Ele está, pois, retendo Sua mão do castigo das tuas ofensas; mas não o retardes tu. Converte-te ao castigo das tuas ofensas: pois ofensas impunes não podem subsistir: o castigo deve, portanto, ser executado ou por ti mesmo, ou por Ele; declara-te então culpado, para que Ele te absolva. Considera um exemplo naquele Salmo penitencial: "Esconde o Teu rosto dos meus pecados." Queria ele dizer "de mim"? Não: pois em outra passagem diz claramente: "Não escondas o Teu rosto de mim." "Afasta," pois, "o Teu rosto dos meus pecados." Quero que Tu não vejas os meus pecados. Pois o "ver" de Deus é atentar com censura punitiva. Daí também se diz que um Juiz "atenta" àquilo que pune; isto é, volta sobre isso o seu ânimo, a ele se inclina, até ao próprio castigo, porquanto é Juiz. Assim também Deus é Juiz. "Afasta o Teu rosto dos meus pecados." Mas tu mesmo, se queres que Deus afaste "o Seu rosto" deles, não afastes o teu próprio rosto deles. Observa como ele propõe isso a Deus naquele mesmo Salmo: "Reconheço," diz ele, "a minha transgressão, e o meu pecado está sempre diante de mim." Quereria ele que aquilo que deseja estar sempre diante dos seus próprios olhos não estivesse diante dos olhos de Deus. Ninguém se lisonjeie com vãs esperanças da misericórdia de Deus. Seu cetro é "um cetro de justiça." Porventura dizemos que Deus não é misericordioso? O que pode exceder a Sua misericórdia, Ele que com tanta longanimidade suporta os pecadores; que não leva em conta o passado de todos quantos se convertem a Ele? Ama-O, pois, por causa de Sua misericórdia, de tal sorte que ainda desejes que Ele seja verídico. Pois a misericórdia não Lhe pode tirar o atributo da justiça, nem a justiça o da misericórdia. Entretanto, durante o tempo em que Ele adia o teu castigo, não o adiês tu.
17. "Por isso, Deus, o teu Deus, Te ungiu." Foi por essa razão que Ele Te ungiu, para que amastes a justiça e odiasses a iniquidade. E observa de que modo ele se exprime. "Por isso, Deus, o teu Deus, Te ungiu:" isto é, "Deus ungiu a Ti, ó Deus." "Deus" é "ungido" por Deus. Pois no latim se julga ser o mesmo caso do nome repetido: no grego, porém, há uma distinção manifestíssima; sendo um o nome da Pessoa a quem se dirige a palavra, e um o dAquele que dirige a palavra, dizendo: "Deus Te ungiu." "Ó Deus, o teu Deus Te ungiu," como se Ele dissesse: "Portanto, o teu Deus, ó Deus, Te ungiu." Toma-o nesse sentido, compreende-o nesse sentido; que tal seja o sentido é manifestíssimo no grego. Quem é, pois, o Deus que é "ungido" por Deus? Digam-nos os judeus; estas Escrituras são comuns a nós e a eles. Era Deus, que foi ungido por Deus: ouves falar de um "Ungido;" entende-o como "Cristo." Pois o nome de "Cristo" provém de "crisma;" este nome pelo qual Ele é chamado "Cristo" exprime "unção:" nem foram reis e profetas ungidos em qualquer reino, em qualquer lugar, senão naquele reino onde Cristo foi profetizado, onde foi ungido, e de onde o Nome de Cristo havia de vir. Em nenhum outro lugar se encontra: em nenhuma outra nação ou reino. Deus, pois, foi ungido por Deus; com qual óleo foi Ele ungido, senão com um espiritual? Pois o óleo visível está no sinal; o óleo invisível está no mistério; o óleo espiritual está no interior. "Deus," pois, foi "ungido" para nós e enviado a nós; e o próprio Deus era homem, a fim de que pudesse ser "ungido;" mas era homem de tal modo que ainda era Deus. Era Deus de tal modo que não desdenhou ser homem. "Verdadeiro homem e verdadeiro Deus;" em nada enganoso, em nada falso, como sendo em todo lugar verdadeiro, em todo lugar "a própria Verdade." Deus, pois, é homem; e foi por esta razão que "Deus" foi "ungido," porque Deus era Homem e Se tornou "Cristo."
18. Isso foi prefigurado quando Jacó colocou uma pedra à sua cabeça e assim adormeceu. O patriarca Jacó havia colocado uma pedra à sua cabeça: dormindo com aquela pedra à sua cabeça, viu o céu aberto, e uma escada do céu à terra, e anjos subindo e descendo; após esta visão despertou, ungiu a pedra e partiu. Naquela "pedra" entendeu Cristo; por esse motivo a ungiu. Observa pelo que Cristo é pregado. Qual o significado daquela unção de uma pedra, sobretudo no caso dos Patriarcas que adoravam apenas um Deus? Foi, todavia, feita como um ato figurativo: e ele partiu. Pois não ungiu a pedra e voltou para ali adorar constantemente e oferecer sacrifício. Foi a expressão de um mistério; não o princípio de um sacrilégio. E observa o significado de "a pedra." "A Pedra que os construtores rejeitaram, esta se tornou a pedra angular." Observa aqui um grande mistério. "A Pedra" é Cristo. Pedro O chama "Pedra viva, rejeitada na verdade pelos homens, mas escolhida por Deus." E a pedra foi posta "à cabeça," porque "Cristo é a Cabeça do homem." E "a pedra" foi ungida, porque "Cristo" assim foi denominado por ter sido ungido. E na revelação de Cristo, vê-se a escada da terra ao céu, ou do céu à terra, e os anjos subindo e descendo. O que isto significa veremos mais claramente quando houvermos citado o testemunho do próprio Senhor no Evangelho. Sabeis que Jacó é o mesmo que Israel. Pois quando lutou com o Anjo e "prevaleceu," e fora abençoado por Aquele sobre quem prevaleceu, seu nome foi mudado, de tal sorte que passou a chamar-se "Israel;" assim como o povo de Israel "prevaleceu" contra Cristo, de modo a crucificá-Lo, e todavia foi (naqueles que creram em Cristo) abençoado por Aquele sobre quem prevaleceu. Mas muitos não creram; daí a claudicação de Jacó. Temos aqui, a um só tempo, bênção e claudicação. Bênção sobre aqueles que se tornaram crentes; pois sabemos que depois muitos daquele povo vieram a crer: claudicação, por outro lado, naqueles que não creram. E porque a maior parte não creu, e apenas poucos creram, para que se produzisse uma claudicação, Ele tocou "a largura da sua coxa." O que significa a largura da coxa? A grande multidão dos seus descendentes. ...
19. "Deus, o teu Deus, Te ungiu." Temos falado de Deus, que foi "ungido;" isto é, de Cristo. O nome de Cristo não poderia ser expresso mais claramente do que sendo Ele chamado "Deus o Ungido." Do mesmo modo que Ele foi "belo acima dos filhos dos homens," assim também é aqui "ungido com óleo de alegria acima dos Seus companheiros." Quem são, pois, os Seus "companheiros"? Os filhos dos homens; pois Ele mesmo (como Filho do Homem) Se tornou participante da mortalidade deles a fim de fazê-los participantes da Sua Imortalidade.
20. «Dos Teus vestimentos exala-se o odor de mirra, âmbar e cássia» (v. 8). Dos Teus vestimentos percebe-se a fragrância de aromas suaves. Por Seus vestimentos entendem-se os Seus Santos, os Seus eleitos, a Sua Igreja inteira, a qual Ele apresenta, por assim dizer, como Seu manto; a Sua túnica «sem mácula e sem ruga», que por causa de suas máculas Ele «lavou» em Seu sangue, e por causa de suas «rugas» estendeu sobre a Sua Cruz. Daí a doce fragrância que é significada por certos unguentos ali mencionados. Ouvi Paulo, «o menor dos Apóstolos» — aquela «orla desse manto» que a mulher com o fluxo de sangue tocou e foi curada —, ouvi-o dizer: «Nós somos o bom odor de Cristo, em todo lugar, tanto entre os que se salvam como entre os que se perdem.» Não disse: «Somos bom odor entre os que se salvam, e mau odor entre os que se perdem»; mas, no que nos respeita a nós mesmos, «somos bom odor tanto entre os que se salvam como entre os que se perdem.» ...Os que o amavam salvaram-se pelo odor do «bom perfume»; os que o invejavam pereceram por meio desse mesmo «bom perfume». Para os que então pereceram ele não era «mau odor», mas «bom odor». Pois foi precisamente por isso que eles tanto mais o invejavam, quanto mais excelente era a graça que nele reinava: porquanto ninguém inveja aquele que é infeliz. Era ele, portanto, glorioso na pregação da Palavra de Deus e no ordenamento de sua vida segundo a norma daquela «vara de direção»; e era amado por aqueles que amavam Cristo nele, que seguiam e perseguiam o odor do bom perfume; que amavam o amigo do Esposo: isto é, pela própria Esposa, que diz no Cântico dos Cânticos: «Correremos após o odor dos teus perfumes.» Os outros, porém, quanto mais o viam revestido da glória da pregação do Evangelho e de uma vida irrepreensível, tanto mais eram atormentados pela inveja, e percebiam que esse bom perfume se lhes tornava morte.
21. «De teus palácios de marfim, pelos quais as filhas dos reis Te alegraram.» Escolhei qual preferirdes — palácios «de marfim», ou «magníficos», ou «reais» — é desses que as filhas dos reis alegraram a Cristo. Quereis compreender o sentido espiritual dos «palácios de marfim»? Entendei por eles as casas magníficas e os tabernáculos de Deus, os corações dos Santos; e por esses mesmos «reis», aqueles que governam a própria carne; que submetem a si mesmos a turba rebelde das paixões humanas, que disciplinam o corpo e o reduzem à servidão: pois é desses que as filhas dos reis O alegraram. Pois todas as almas geradas por sua pregação e evangelização são «filhas de reis»; e as Igrejas, como filhas dos Apóstolos, são filhas de reis. Porque Ele é «Rei dos reis»; eles próprios são reis, sobre os quais foi dito: «Vós assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.» Pregaram a «Palavra da Verdade» e geraram Igrejas não para si mesmos, mas para Ele. ...Por isso, como quem «suscita descendência ao seu irmão», a todos os que geraram deram o nome não de «paulinos» ou «pedrianos», mas de «cristãos». Observai se esse sentido não é ciosamente preservado nesses versículos. Pois quando disse «de teus palácios de marfim», falava de mansões reais, amplas, honradas, pacíficas, semelhantes ao coração dos Santos; e acrescentou: «Pelas quais as filhas dos reis Te alegraram em Tua honra.» São com efeito filhas de reis, filhas de Teus Apóstolos, mas ainda assim «em Tua honra»: porquanto suscitaram descendência ao seu irmão. Por isso Paulo, ao ver aqueles que havia gerado para o seu Irmão correrem atrás de seu próprio nome, exclamou: «Paulo foi crucificado por vós?» ...Não; pois diz: «Ou fostes batizados em nome de Paulo?»
«As filhas dos reis Te alegraram em Tua honra.» Guardai, retende este «em Tua honra». Isso é o que significa ter «veste nupcial»: buscar a Sua honra, a Sua glória. Entendei ainda por «filhas dos reis» as cidades que foram fundadas por reis e receberam a fé; e dos palácios de marfim — palácios ricos, soberbos, altivos. «As filhas dos reis Te alegraram em Tua honra»: porque não buscaram a honra de seus fundadores, mas buscaram a Tua honra. Mostrai-me em Roma um templo de Rômulo que seja tido em tão grande honra quanto vos posso mostrar o Monumento de Pedro. Em Pedro, quem é honrado senão Aquele que morreu por nós? Pois somos seguidores de Cristo, não seguidores de Pedro. E ainda que houvéssemos nascido do irmão Daquele que morreu, mesmo assim seríamos nomeados com o nome Daquele que morreu. Fomos gerados por um, mas gerados para o outro. Eis que Roma, Cartago e diversas outras cidades são filhas de reis, e todavia «alegraram o Rei em Sua honra»; e todas estas formam uma única Rainha.
22. Que cântico nupcial! Eis que, no meio de cânticos repletos de júbilo, avança a própria Esposa. Pois o Esposo estava a chegar. Era Ele quem estava sendo descrito: era n'Ele que toda a nossa atenção se fixava.
"À Tua destra se pôs a Rainha" (v. 9). Aquela que se encontra à esquerda não é Rainha. Pois haverá também uma que estará "à esquerda", à qual será dito: "Ide para o fogo eterno." Mas ela estará à destra, à qual será dito: "Vinde, benditos de Meu Pai, possuí o reino que vos foi preparado desde a fundação do mundo." À Tua destra se pôs a Rainha, "vestida de ouro, adornada com cores variadas." Qual é a vestidura desta Rainha? É uma vestidura ao mesmo tempo preciosa e de múltiplas cores: são os mistérios da doutrina em todas as línguas diversas — uma africana, uma síria, uma grega, uma hebraica, esta e aquela; são estas línguas que produzem as cores variadas desta vestidura. Mas assim como todas as cores diversas da vestidura se fundem numa só vestidura, assim também todas as línguas se fundem numa única e mesma fé. Naquela vestidura, que haja diversidade, mas que não haja rasgo. Eis que "compreendemos" as cores diversas como a diversidade das línguas, e a vestidura como referência à unidade: mas nessa própria diversidade, o que significa o "ouro"? A própria Sabedoria. Que haja toda a diversidade de línguas que se queira, mas há apenas um "ouro" que é pregado: não um ouro diferente, mas uma forma diferente desse ouro. Pois é a mesma Sabedoria, a mesma doutrina e disciplina que toda língua proclama. Nas línguas há diversidade; nos pensamentos, ouro.
23. O Profeta dirige-se a esta Rainha — pois deleita-se em cantar a ela —, e igualmente a cada um de nós, contanto, porém, que saibamos em que lugar nos encontramos, e nos esforcemos por pertencer àquele Corpo, e de fato pertençamos a ele pela fé e pela esperança, unidos nos membros de Cristo. Pois é a nós que ele se dirige quando diz: "Ouve, ó filha, e contempla" (v. 10), como sendo um dos "Pais" — pois elas são "filhas de reis" —, ainda que seja um Profeta, ou ainda que seja um Apóstolo quem se dirija a ela; dirigindo-se a ela como a uma filha, porquanto soemos falar desta sorte: "Nossos pais os Profetas, nossos pais os Apóstolos;" se nos referimos a eles como "pais," podem eles referir-se a nós como filhos: e é a voz de um único pai que se dirige a uma única filha. "Ouve, ó filha, e vê." "Ouve" primeiro; depois "vê." Pois eles vieram até nós com o Evangelho; e foi-nos pregado aquilo que ainda não vemos, e em cujo anúncio cremos, e ao qual, pela fé, havemos de chegar a ver: assim como o próprio Esposo fala no Profeta: "Um povo que Eu não conhecia serviu-Me. Ao ouvir-Me com o ouvido, obedeceu-Me." Que quer dizer "ao ouvir-Me com o ouvido"? Que não "viram." Os judeus O viram e O crucificaram; os gentios não O viram e creram. Venha, pois, a Rainha que procede dos gentios "no vestido de ouro, revestida de cores várias;" venha ela do seio dos gentios ornada com todas as línguas, na unidade da Sabedoria: que lhe seja dito: "Ouve, ó filha, e vê." Se não quiseres ouvir, não haverás de "ver." ...
"E inclina o teu ouvido." Não basta "ouvir;" ouve com humildade: curva o teu ouvido. "Esquece também o teu povo e a casa de teu pai." Havia um certo "povo," e uma certa casa do teu pai, em que nasceste: o povo de Babilônia, tendo o diabo por seu rei. Donde quer que procedessem os gentios, procediam de seu pai o diabo; porém renunciaram à condição de filhos do diabo. "Esquece também o teu povo e a casa de teu pai." Ele, ao fazer de ti uma pecadora, gerou-te torpe; o Outro, porquanto "justifica o ímpio," torna a gerar-te em beleza.
24. "Pois o Rei desejou muito a tua beleza" (v. 11). Que "beleza" é essa, senão aquela que é obra Sua própria? "Desejou muito a beleza" — de quem? Daquela que era pecadora, iníqua, ímpia, tal como se encontrava junto ao seu "pai," o diabo, e no meio do seu próprio "povo"? Não, mas daquela de quem se diz: "Quem é esta que sobe alvejada?" Ela não era branca no princípio, mas foi "feita" branca depois. Pois "ainda que os teus pecados sejam como a escarlate, Eu os farei brancos como a neve." "O Rei desejou muito a tua beleza." Que Rei é Este? "Pois Ele é o Senhor teu Deus." Pondera agora se não deves renunciar àquele teu pai e ao teu próprio povo, para vir a este Rei, que é o teu Deus. O teu Deus é "o teu Rei"; o teu "Rei" é também o teu Esposo. Unes-te em matrimônio ao teu Rei, que é o teu Deus: dotada por Ele, adornada por Ele, remida por Ele e curada por Ele. Tudo quanto possuis, com que Lhe possas agradar, de Ele o recebes.
25. "E as filhas de Tiro O adorarão com dádivas" (v. 12). É esse mesmo "Rei, que é o teu Deus," que as filhas de Tiro adorarão com dádivas. As filhas de Tiro são as filhas dos gentios; a parte representando o todo. Tiro, cidade confinante com esta terra onde a profecia foi pronunciada, tipificava as nações que haveriam de crer em Cristo. Dali veio aquela mulher cananeia, que a princípio foi chamada "cão"; pois para que soubésseis que ela era dali, o Evangelho assim o diz: "Ele partiu para os lados de Tiro e Sidônia, e eis que uma mulher cananeia saiu daquelas mesmas paragens," com todo o restante que ali se narra. Ela que a princípio, na casa de seu "pai," e no meio do seu "próprio povo," não era senão "um cão," mas que, ao vir a esse "Rei" e clamar por Ele, foi tornada bela pela fé nEle — que lhe foi dado ouvir? "Ó mulher, grande é a tua fé." "O Rei desejou ardentemente a tua beleza. E as filhas de Tiro adorarão com dádivas." Com que dádivas? É desta forma que se deve aproximar deste Rei, e Ele quer que Seus tesouros se encham: e é Ele mesmo quem nos deu aquilo com que podem ser preenchidos, e podem ser preenchidos por vós. Que venham (diz Ele) e "O adorem com dádivas." Que significa "com dádivas"? ... "Dai esmolas, e todas as coisas vos serão puras." Vinde com dádivas a Aquele que diz: "Quero misericórdia, e não sacrifício." Para aquele Templo que outrora existia como sombra do que havia de vir, costumavam vir com touros, carneiros e bodes, com toda sorte de animais para o sacrifício: de modo que com aquele sangue uma coisa se fizesse, e por ele outra fosse tipificada. Agora veio aquele próprio sangue que todas essas coisas figuravam: o próprio Rei veio, e Ele mesmo quer as vossas "dádivas." Que dádivas? Esmolas. Pois Ele mesmo há de julgar no futuro, e Ele mesmo há de atribuir "dádivas" a certas pessoas: "Vinde" (diz Ele), "benditos de Meu Pai." Por quê? "Tive fome, e Me destes de comer," etc. Estas são as dádivas com que as filhas de Tiro adoram o Rei; pois quando disseram: "Quando Te vimos?" Aquele que está ao mesmo tempo acima e abaixo (de onde se fala naqueles que "sobem" e "descem") disse: "Na medida em que o fizestes a um dos menores dos Meus, a Mim o fizestes."
26. ..."Os ricos do povo suplicarão a Tua face." Tanto os que hão de suplicar àquela face, quanto Aquele cuja face hão de suplicar, são todos coletivamente uma só Esposa, uma só Rainha — mãe e filhos pertencendo todos conjuntamente a Cristo, pertencendo ao seu Cabeça. ...
2. "O nosso Deus é refúgio e fortaleza" (v. 1). Há alguns refúgios nos quais não há fortaleza alguma, para onde, quando alguém foge, sai mais enfraquecido do que fortalecido. Foges, por exemplo, para alguém de maior projeção no mundo, a fim de fazer de ti um amigo poderoso; isso te parece um refúgio. Todavia, tão grandes são as incertezas deste mundo, e tão frequentes se tornam dia a dia as ruínas dos poderosos, que, ao chegares a tal refúgio, começas a temer mais do que antes. ...O nosso refúgio não é tal; o nosso refúgio é fortaleza. Quando até lá tivermos fugido, seremos firmes.
3. "Auxílio nas tribulações, que nos alcançam em demasia." Muitas são as tribulações, e em cada tribulação devemos fugir para Deus; seja ela uma tribulação em nossa condição, seja na saúde do nosso corpo, seja acerca do perigo daqueles que nos são mais queridos, seja em qualquer outra coisa necessária à sustentação desta vida — não deve haver para o homem cristão outro refúgio além de seu Salvador, além de seu Deus, a quem, quando foge, torna-se forte. Pois não será forte em si mesmo, nem será ele para si mesmo a sua fortaleza; mas Ele será a sua fortaleza, Aquele que se tornou o seu refúgio. Porém, amados, entre todas as tribulações da alma humana, não há maior tribulação do que a consciência do pecado. Pois se não há ferida nessa região, e aquilo que se chama consciência permanece são dentro do homem, onde quer que padeça tribulação, até lá fugirá e lá encontrará a Deus. ...Vós vedes, amados, quando as árvores são abatidas e examinadas pelos carpinteiros, às vezes em sua superfície parecem como que danificadas e apodrecidas; mas o carpinteiro examina como que a medula interna da árvore, e se por dentro encontra a madeira sã, promete que ela perdurará numa construção; nem se preocupará muito com a superfície danificada, ao declarar são aquilo que está por dentro. Ora, no homem nada se encontra mais interior do que a consciência; de que aproveitará, então, que o exterior seja são, se a medula da consciência apodreceu? Estas são tribulações assaz íntimas e demasiado veementes, e como diz este Salmo, tribulações em excesso; todavia, mesmo nestas, o Senhor se tornou auxílio mediante o perdão dos pecados. Pois a consciência dos ímpios não odeia coisa alguma senão a indulgência; pois se alguém diz que padece grandes tribulações, sendo devedor confesso ao erário, quando contempla a estreiteza de sua condição e vê que não pode ser solvente; se por causa dos executores que a cada ano lhe pendem sobre a cabeça, diz que sofre grandes tribulações, e não respira livremente senão na esperança da indulgência — e isso em coisas terrenas —, quanto mais o devedor de penalidades pela abundância dos pecados: quando pagará o que deve por força de sua consciência enferma, se ao pagar perece? Pois pagar esta dívida é sofrer as penas. Resta, portanto, que pela Sua indulgência sejamos seguros, contanto que, recebida a indulgência, não tornemos a contrair dívidas. ...
Denomina-se: "Salmo, até ao fim, para os filhos de Coré, acerca das coisas secretas." É, portanto, secreto; porém Ele mesmo, que foi crucificado no lugar do Calvário — como sabeis —, rasgou o véu, para que os segredos do templo fossem revelados. E uma vez que a Cruz de nosso Senhor foi uma chave pela qual as coisas fechadas poderiam ser abertas, confiemos em que Ele estará conosco, a fim de que estes segredos sejam manifestados. O que se diz "até ao fim" deve sempre ser entendido como referência a Cristo. Pois "Cristo é o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê" (Rom 10, 4). Chama-se-Lhe, porém, o Fim, não porque consuma, mas porque aperfeiçoa. Pois dizemos que o alimento está acabado quando é comido, e que o manto está acabado quando é tecido — aquele, para consumição; este, para perfeição. Porque, portanto, não temos para onde ir além, uma vez chegados a Cristo, Ele mesmo é chamado o fim do nosso caminho. Nem devemos pensar que, ao chegarmos a Ele, devemos ainda nos esforçar por chegar também ao Pai. Assim pensava também Filipe, quando Lhe disse: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta" (João 14, 8). Ao dizer "isso nos basta", buscava ele o fim da satisfação e da perfeição. Então disse Ele: "Há tanto tempo estou convosco, e não Me conheceste, Filipe? Quem Me viu, viu o Pai" (João 14, 9). Nele, pois, possuímos o Pai, porque Ele está no Pai e o Pai Nele, e Ele e Seu Pai são Um.
4. Ora pois, tal segurança assim recebida, que dizem eles? "Portanto não temeremos, quando a terra for confundida" (v. 2). Há pouco ansiosos, subitamente seguros; tirados de tribulações demasiadas e postos em grande tranquilidade. Pois neles Cristo dormia, e por isso eram agitados: Cristo despertou — como há pouco ouvimos no Evangelho —, ordenou aos ventos, e eles sossegaram. Visto que Cristo habita no coração de cada homem pela fé, significa-se-nos que o coração daquele que esquece a sua fé é agitado como uma nau na tempestade deste mundo: é como se Cristo dormisse que ele é agitado, mas ao despertar de Cristo sobrevém a tranquilidade. Mais ainda, o próprio Senhor, que disse Ele? "Onde está a vossa fé?" Cristo despertado despertou a fé, para que o que se fizera no navio se fizesse também nos corações deles. "Auxiliador nas tribulações que sobremaneira nos acometeram." Ele fez que nelas houvesse grande tranquilidade.
5. Vede que tranquilidade: "Portanto não temeremos, quando a terra for confundida e os montes forem transportados ao coração do mar." Então não encontraremos temor. Busquemos montes transportados, e, se os pudermos encontrar, é manifesto que esta é a nossa segurança. O próprio Senhor disse a Seus discípulos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Transporta-te e lança-te ao mar, e assim se fará." Porventura ao dizer "a este monte", falou de Si mesmo; pois Ele é chamado Monte: "Nos últimos dias acontecerá que o monte do Senhor se manifestará." Mas este Monte está posto acima dos outros montes, porque também os Apóstolos são montes, sustentando este Monte. Daí se segue: "Nos últimos dias o Monte do Senhor se manifestará, estabelecido no cume dos montes." Supera, portanto, os cumes de todos os montes, e sobre o cume de todos os montes está colocado; porque os montes pregam o Monte. Ora, o mar significa este mundo, em comparação do qual mar como terra seca parecia a nação dos judeus; pois ela não estava coberta pela amargura da idolatria, mas, como terra firme, estava rodeada pela amargura dos gentios como por um mar. Era necessário que a terra fosse confundida, isto é, aquela nação dos judeus; e que os montes fossem transportados ao coração do mar, ou seja, primeiramente aquele grande Monte estabelecido no cume dos montes. Pois Ele abandonou a nação dos judeus e veio para junto dos gentios. Foi transportado da terra para o mar. Quem O transportou? Os Apóstolos, aos quais havia dito: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Transporta-te e lança-te ao mar, e assim se fará" — isto é, por meio da vossa pregação fidelíssima acontecerá que este monte, a saber, Eu mesmo, seja pregado entre os gentios, seja glorificado entre os gentios, seja reconhecido entre os gentios, e que se cumpra o que foi predito de Mim: "Um povo que não conheci Me servirá."
6. "As suas águas bramaram e se agitaram" (v. 3): quando o Evangelho foi pregado, "Que é isto? Parece ser um propagador de deuses estranhos" — assim os atenienses; mas os efésios, com que tumulto teriam querido matar os Apóstolos, quando no teatro, por causa de sua deusa Diana, promoveram tal alvoroço que bradavam: "Grande é a Diana dos efésios!" Em meio a tais ondas e ao bramido do mar, não temeram aqueles que àquele refúgio haviam fugido. Aliás, o Apóstolo Paulo queria entrar no teatro, e foi retido pelos discípulos, porque era necessário que ele permanecesse ainda na carne por causa deles. E contudo: "As suas águas bramaram e se agitaram; os montes estremeceram diante da Sua magnificência." De quem é a magnificência? Do mar? Ou antes de Deus, de quem foi dito: "refúgio e força, auxílio nas tribulações que nos acometeram em demasia"? Pois abalaram-se os montes, isto é, as potências deste mundo. Porque uma coisa são os montes de Deus, e outra os montes do mundo: os montes do mundo são aqueles cuja cabeça é o diabo; os montes de Deus são aqueles cuja Cabeça é Cristo. Mas por estes montes foram abalados aqueles montes. Então levantaram as suas vozes contra os cristãos, quando os montes foram abalados e as águas bramaram; pois os montes foram abalados, e houve grande terremoto, com o estremecimento do mar. Mas contra quem? Contra a Cidade fundada sobre a rocha. As águas bradam, os montes se agitam, o Evangelho sendo pregado. Que sucede, pois, à Cidade de Deus? Ouvi o que se segue.
7. "Os rios do rio alegram a Cidade de Deus" (v. 4). Quando os montes tremem, quando o mar se enfurece, Deus não desampara a Sua Cidade, graças aos rios do rio. Que são estes rios do rio? Aquela efusão do Espírito Santo, da qual disse o Senhor: "Se alguém tem sede, venha a Mim e beba. Aquele que crê em Mim, do seu seio correrão rios de água viva." Esses rios fluíram, pois, do seio de Paulo, de Pedro, de João, dos demais Apóstolos, dos demais fiéis Evangelistas. Posto que esses rios procederam de um único rio, muitos "rios do rio alegram a Cidade de Deus." Pois, para que soubésseis que isso era dito acerca do Espírito Santo, no mesmo Evangelho disse em seguida o Evangelista: "Mas isso O disse Ele do Espírito, que haviam de receber os que nEle cressem. Porque o Espírito Santo ainda não fora dado, porquanto Jesus ainda não havia sido glorificado." Glorificado Jesus após a Sua Ressurreição, glorificado após a Sua Ascensão, no dia de Pentecostes veio o Espírito Santo e encheu os fiéis, os quais falaram em línguas e começaram a pregar o Evangelho aos gentios. Por isso foi a Cidade de Deus alegrada, enquanto o mar era perturbado pelo bramido de suas águas, enquanto os montes se confundiam, perguntando o que haviam de fazer, como expulsar a nova doutrina, como extirpar da terra a raça dos cristãos. Contra quem? Contra os rios do rio que alegram a Cidade de Deus. Pois por isso mostrou Ele de que rio falava; que significou o Espírito Santo por "os rios do rio alegram a Cidade de Deus." E o que se segue? "O Altíssimo santificou o Seu tabernáculo:" visto que a isso se segue a menção da Santificação, é manifesto que estes rios do rio devem ser entendidos como referentes ao Espírito Santo, pelo qual é santificada toda alma piedosa que crê em Cristo, para que se torne cidadã da Cidade de Deus.
Deus está no meio dela: não será abalada (v. 5). Ruja o mar, tremam os montes; "Deus está no meio dela: não será abalada." Que significa "no meio dela"? Que Deus está fixado em algum lugar, e O cercam os que nEle creem? Seria então Deus circunscrito pelo espaço; e vasto seria o que O cerca, estreito o que é cercado? Longe tal ideia. Nada disso imagineis de Deus, que não é contido em lugar algum, cujo trono é a consciência dos piedosos; e de tal modo é o trono de Deus no coração dos homens, que, se o homem cai de Deus, Deus permanece em Si mesmo, não cai como quem não acha onde estar. Antes Ele te levanta, para que estejas nEle, do que se apoia em ti, de tal modo que, se te retirares, caísses tu com Ele. Se Ele Se retirar, cairás tu; se tu te retirares, não cairá Ele. Que significa, pois, "Deus está no meio dela"? Significa que Deus é igual para com todos, e não faz acepção de pessoas. Pois assim como o que está no centro tem distâncias iguais a todos os limites, assim se diz que Deus está no meio, porque para todos igualmente provê. "Deus está no meio dela: não será abalada." Por que não será abalada? Porque Deus está no meio dela. Ele é "o Auxiliador nas tribulações que em demasia nos alcançaram. Deus a ajudará com o Seu semblante." Que significa "com o Seu semblante"? Com a manifestação de Si mesmo. Como se manifesta Deus, de modo que vejamos o Seu semblante? Já vo-lo disse; aprendestes a presença de Deus; aprendemo-la por meio de Suas obras. Quando dEle recebemos algum auxílio, de tal modo que de modo algum podemos duvidar de que nos foi concedido pelo Senhor, então o semblante de Deus está conosco.
Os gentios se turbaram (v. 6). E como se turbaram? Por que se turbaram? Para derrubar a Cidade de Deus, em cujo meio está Deus? Para destruir o tabernáculo santificado, que Deus ajuda com o Seu semblante? Não: com uma saudável perturbação se turbam agora os gentios. Pois que se segue? "E os reinos se inclinaram." Inclinados, diz Ele, estão os reinos; não mais erguidos para que se enfureçam, mas inclinados para que adorem. Quando se inclinaram os reinos? Quando se cumpriu o que fora predito noutro Salmo: "Todos os reis se prostrarão diante dEle, todas as nações O servirão." Que causa fez inclinarem-se os reinos? Ouvi a causa. "O Altíssimo fez ouvir a Sua voz, e a terra se moveu." Os fanáticos da idolatria, como rãs nos pântanos, clamavam, tanto mais tumultuosamente quanto mais sordidamente, em lama e lodo. E que é o coaxar das rãs perante o trovão das nuvens? Pois delas "o Altíssimo fez ouvir a Sua voz, e a terra se moveu": trovejou desde as Suas nuvens. E quais são as Suas nuvens? Os Seus Apóstolos, os Seus pregadores, por meio dos quais trovejou em preceitos, relampejou em milagres. Os mesmos que são nuvens são também montes: montes por sua altura e firmeza, nuvens por sua chuva e fecundidade. Pois estas nuvens regaram a terra, da qual se disse: "O Altíssimo fez ouvir a Sua voz, e a terra se moveu." Pois é a respeito destas nuvens que Ele ameaça certa vinha estéril, donde os montes foram lançados ao coração do mar; "Ordenarei", diz Ele, "às nuvens que não derramem chuva sobre ela." Isto se cumpriu naquilo que mencionei, quando os montes foram lançados ao coração do mar; quando se disse: "Era necessário que a palavra de Deus vos fosse primeiro anunciada; mas, pois que a rejeitais, nos voltamos para os gentios"; então se cumpriu: "Ordenarei às nuvens que não derramem chuva sobre ela." A nação dos judeus permaneceu tal qual velo seco sobre o chão. Pois isto, sabeis, sucedeu em certo milagre: o chão estava seco, só o velo estava molhado, mas a chuva no velo não aparecia. Assim também o mistério do Novo Testamento não apareceu na nação dos judeus. O que ali foi o velo, aqui é o véu. Pois no velo estava velado o mistério. Mas sobre o chão, em todas as nações, jaz aberto o Evangelho de Cristo; a chuva é manifesta, a Graça de Cristo está nua, pois não está coberta de véu. Mas para que a chuva saísse dele, o velo foi comprimido. Pois por opressão excluíram de si mesmos a Cristo, e o Senhor agora, desde as Suas nuvens, chove sobre o chão; o velo permaneceu seco. Mas destes, então, "o Altíssimo fez ouvir a Sua voz", desde aquelas nuvens; por cuja voz os reinos se inclinaram e adoraram.
O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso amparo (v. 7). Não algum homem, não algum poder, nem sequer, em suma, algum Anjo, ou qualquer criatura terrena ou celeste, mas "o Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso amparo." Aquele que enviou os Anjos, veio depois dos Anjos, veio para que os Anjos O servissem, veio para tornar os homens iguais aos Anjos. Poderosa Graça! Se Deus é por nós, quem será contra nós? "O Senhor dos Exércitos está conosco." Que Senhor dos Exércitos está conosco? "Se" (digo eu) "Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós; como não nos dará também, juntamente com Ele, todas as coisas?" Estejamos, pois, seguros, e nutramos em tranquilidade de coração uma boa consciência com o Pão do Senhor. "O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso amparo." Por maior que seja a tua enfermidade, vê quem te ampara. Um enfermo é, chama-se-lhe um médico. Tomado o seu enfermo, o Médico chama o doente. Quem o tomou? Ele mesmo. Grande esperança de salvação; um grande Médico o tomou. Que Médico? Todo médico, salvo Ele, é homem: todo médico que vem a um enfermo pode noutro dia adoecer, salvo Ele. "O Deus de Jacó é o nosso amparo." Faze-te de todo como uma criancinha, tal como são tomadas nos braços por seus pais. Pois as que não são tomadas ficam expostas; as tomadas são criadas. Pensas que Deus te tomou assim, como quando infante te tomou tua mãe? Não assim, mas para a eternidade. Pois a tua voz está naquele Salmo: "Meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me tomou."
Vinde e vede as obras do Senhor (v. 8). Ora, deste amparo, que fez o Senhor? Considera o mundo inteiro, vem e vê. Pois se não vieres, não verás; se não vires, não crerás; se não creres, ficarás longe: se creres, virás; se creres, verás. Pois como viemos até aquele monte? Não a pé? É por navio? É pelo voo? É por cavalos? Pois quanto a tudo o que pertence ao espaço e ao lugar, não te preocupes, não te inquietes, Ele vem a ti. Pois de uma pequena pedra Ele cresceu, e se fez um grande monte, de sorte que encheu toda a face da terra. Por que, pois, quererias tu vir a Ele por terra, quando Ele enche todas as terras? Eis que Ele já veio: vigia tu. Ao crescer, desperta até os que dormem; se ainda não há neles sono tão profundo, que se tenham endurecido até mesmo contra o monte que vem; mas ouvem: "Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará." Pois era grande coisa para os judeus verem a pedra. Porque a pedra era ainda pequena: e pequena, mereceram desprezá-la, e desprezando tropeçaram, e tropeçando foram quebrados; resta que sejam reduzidos a pó. Pois assim se disse da pedra: "Todo aquele que cair sobre essa pedra será quebrado; mas sobre quem ela cair, será reduzido a pó." Uma coisa é ser quebrado, outra é ser reduzido a pó. Ser quebrado é menos que ser reduzido a pó: mas a ninguém reduz a pó, ao vir exaltada, senão aqueles a quem quebrou jazendo humilde. Pois agora, antes de Sua vinda, jazia humilde diante dos judeus, e eles tropeçaram nEle, e foram quebrados; depois há de vir em Seu Juízo, glorioso e exaltado, grande e poderoso, não fraco para ser julgado, mas forte para julgar, e reduzirá a pó os que foram quebrados ao tropeçar nEle. Pois "Pedra de tropeço e rocha de escândalo" é Ele para os que não creem. Não é de admirar, pois, irmãos, que os judeus não O tenham reconhecido, a Ele que, como pequena pedra jazendo diante de seus pés, desprezaram. São de admirar antes aqueles que, mesmo agora, tão grande monte não querem reconhecer. Os judeus, por não verem, tropeçaram numa pequena pedra; os hereges tropeçam num monte. Pois agora que aquela pedra cresceu, dizemos-lhes agora: Eis que agora se cumpre a profecia de Daniel: "A pedra que era pequena se fez grande monte, e encheu toda a terra." Por que, pois, tropeçais nEle, e não subis antes a Ele? Quem é tão cego que tropece num monte? Veio Ele a ti para que tivesses em que tropeçar, e não tivesses aonde subir? "Vinde, e subamos ao monte do Senhor." Isto diz Isaías: "Vinde, e subamos." Que significa: "Vinde, e subamos"? "Vinde" é: Crede. "Subamos" é: Aproveitemos. Mas eles nem querem vir, nem subir, nem crer, nem aproveitar. Ladram contra o monte. Ainda agora, de tanto tropeçarem nEle, são quebrados, e não querem subir, escolhendo sempre tropeçar. Digamos-lhes: "Vinde, e vede as obras do Senhor": que "prodígios operou sobre a terra." Chamam-se prodígios, porque prenunciam algo, aqueles sinais de milagres que se fizeram quando o mundo creu. E que sucedeu depois, e que prenunciavam eles?
Ele faz cessar as guerras até os confins da terra (v. 9). Isto ainda não vemos cumprido: ainda há guerras, guerras entre as nações pela soberania; entre seitas, entre judeus, pagãos, cristãos, hereges, há guerras, frequentes guerras, umas pela verdade, outras pela falsidade contendendo. Não está, pois, ainda cumprido isto: "Ele faz cessar as guerras até os confins da terra"; mas porventura se cumprirá. Ou já se cumpre agora? Em alguns já se cumpre; no trigo já se cumpre, no joio ainda não se cumpriu. Que significa, pois, "Ele faz cessar as guerras até os confins da terra"? Guerras chama Ele àquilo com que se guerreia contra Deus. Mas quem guerreia contra Deus? A impiedade. E que pode a impiedade contra Deus? Nada. Que faz um vaso de barro lançado contra a rocha, por mais veementemente que seja lançado? Com tanto maior dano para si mesmo vem, quanto maior for a força com que vem. Grandes foram estas guerras, frequentes foram. Contra Deus combateu a impiedade, e vasos de barro foram feitos em pedaços, homens mesmos presumindo de si, prevalecendo em demasia por suas próprias forças. É este aquele escudo de que também Job falou a respeito de certo ímpio. "Corre contra Deus, sobre a dura cerviz do seu escudo." Que significa "sobre a dura cerviz do seu escudo"? Presumir demasiadamente de sua própria proteção. Eram tais os que diziam: "Deus é o nosso refúgio e fortaleza, um Auxiliador nas tribulações que em demasia nos alcançaram"? ou noutro Salmo: "Pois não confiarei no meu arco, nem a minha espada me salvará." Quando alguém aprende que em si mesmo nada é, e que em si mesmo não tem auxílio algum, quebram-se nele as armas em pedaços, cessam as guerras. Tais guerras, pois, destruiu aquela Voz do Altíssimo desde as Suas santas nuvens, pela qual a terra se moveu, e os reinos se inclinaram. Estas guerras Ele fez cessar até os confins da terra. "Quebrará o arco, e fará em pedaços as armas, e queimará o escudo com fogo." Arco, armas, escudo, fogo. O arco são as ciladas; as armas, a guerra pública; os escudos, a vã presunção da própria proteção: o fogo com que são queimados é aquele de que falou o Senhor: "Vim lançar fogo sobre a terra"; do qual fogo diz o Salmo: "Nada se esconde do seu calor." Ardendo este fogo, nenhuma arma da impiedade permanecerá em nós; força é que todas sejam quebradas, feitas em pedaços, queimadas. Permanece tu ileso, não tendo auxílio algum de ti mesmo; e quanto mais fraco fores, não tendo armas próprias, tanto mais te tomará Aquele de quem se disse: "O Deus de Jacó é o nosso amparo"... Mas, quando Deus nos toma, acaso nos envia desarmados? Ele nos arma, mas com outras armas, armas evangélicas, armas de verdade, continência, salvação, fé, esperança, caridade. Estas armas teremos, mas não de nós mesmos: as armas, porém, que de nós mesmos tínhamos, são queimadas; mas se por aquele fogo do Espírito Santo somos acesos, do qual se disse: "Queimará os escudos com fogo"; a ti, que quiseste ser poderoso em ti mesmo, Deus te fez fraco, para que te fizesse forte nEle, porque em ti mesmo foste feito fraco.
O título do Salmo é este: "Para o fim: para os filhos de Coré: Salmo do próprio Davi." Estes filhos de Coré trazem também o título de alguns outros Salmos, e indicam um doce mistério, insinuam um grande Sacramento: nele reconheçamo-nos de bom grado a nós mesmos, e reconheçamos no título a nós que ouvimos, e lemos, e como num espelho postos diante de nós, contemplemos quem somos. Os filhos de Coré, quem são eles?... Talvez os filhos do Esposo. Pois o Esposo foi crucificado no lugar do Calvário. Recordai o Evangelho, onde crucificaram o Senhor, e O achareis crucificado no lugar do Calvário. Além disso, os que escarnecem de Sua Cruz, por demônios, como por feras, são devorados. Pois também isto significou certa Escritura. Quando o Profeta de Deus, Eliseu, subia, crianças gritavam-lhe zombando: "Sobe, calvo, sobe, calvo"; mas ele, não tanto por crueldade quanto por mistério, fez que essas crianças fossem devoradas por ursos saídos do bosque. Se aquelas crianças não tivessem sido devoradas, teriam vivido até agora? Ou não poderiam, nascidas mortais, ser levadas por uma febre? Mas assim nelas não se teria mostrado mistério algum, pelo qual a posteridade fosse posta em temor. Ninguém, pois, escarneça da Cruz de Cristo. Os judeus eram possuídos por demônios, e devorados; pois no lugar do Calvário, crucificando a Cristo, e erguendo-O na Cruz, disseram como que com sentido pueril, não entendendo o que diziam: "Sobe, calvo." Pois que significa "Sobe"? "Crucifica-O, crucifica-O." Pois a infância nos é posta como exemplo para imitar a humildade, e a infância nos é posta como aviso para nos guardarmos da tolice. Para imitar a humildade, a infância nos foi posta pelo Senhor, quando chamou a Si as crianças, e, porque eram impedidas de chegar a Ele, disse: "Deixai-as vir a Mim, porque dos tais é o Reino dos Céus." O exemplo da infância nos é posto como aviso contra a tolice pelo Apóstolo: "Irmãos, não sejais crianças no entendimento"; e de novo o propõe para imitar: "Mas na malícia sede crianças, para que no entendimento sejais homens feitos." "Para os filhos de Coré" se canta o Salmo; para os cristãos, pois, se canta. Ouçamo-lo como filhos do Esposo, a quem crianças insensatas crucificaram no lugar do Calvário. Pois elas mereceram ser devoradas por feras; nós, ser coroados pelos Anjos. Pois reconhecemos a humildade de nosso Senhor, e dela não nos envergonhamos. Não nos envergonhamos dEle chamado em mistério "o calvo" (Calvus), a partir do lugar do Calvário. Pois na própria Cruz em que foi escarnecido, não permitiu que a nossa fronte fosse calva; pois com a Sua própria Cruz a marcou. Enfim, para que saibais que estas coisas se dizem a nós, vede o que se segue.
2. "Batei palmas, todas as nações" (v. 1). Acaso o povo dos judeus era todas as nações? Não; mas cegueira em parte sobreveio a Israel, para que os filhos insensatos clamassem: "Crucifica-o," "Crucifica-o;" e assim o Senhor fosse crucificado no lugar do Calvário, para que, derramado o Seu Sangue, remisse os gentios, e se cumprisse o que diz o Apóstolo: "Cegueira em parte sobreveio a Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado." Insultem, pois, os vãos, e néscios, e insensatos, e digam: "Crucifica-o," "Crucifica-o;" mas vós, remidos pelo Seu Sangue que foi derramado no lugar do Calvário, dizei: "Batei palmas, todas as nações;" porque a vós desceu a Graça de Deus. "Batei palmas." Que é "bater palmas"? Alegrai-vos. Mas por que com as mãos? Porque com boas obras. Não vos alegreis com a boca enquanto ociosas as mãos. Se vos alegrais, "batei palmas." As mãos das nações veja Ele, que se dignou dar-lhes alegrias. Que são as mãos das nações? Os atos daqueles que praticam boas obras. "Batei palmas, todas as nações, aclamai a Deus com voz de júbilo." Tanto com a voz quanto com as mãos. Se apenas com a voz, não está bem, porque as mãos são preguiçosas; se apenas com as mãos, não está bem, porque a língua está muda. Devem concordar entre si as mãos e a língua. Que esta confesse, aquelas obrem. "Aclamai a Deus com voz de júbilo."
3. "Porque o Senhor Altíssimo é terrível" (v. 2). O Altíssimo, ao descer, feito como que ridículo, ao subir ao Céu é feito terrível. "Grande Rei sobre toda a terra." Não somente sobre os judeus; pois sobre eles também Ele é Rei. Pois deles também os Apóstolos creram, e deles muitos milhares de homens venderam seus bens, e depuseram o preço aos pés dos Apóstolos, e neles se cumpriu o que no título da Cruz estava escrito: "O Rei dos Judeus." Pois Ele é Rei também dos judeus. Mas "dos judeus" é pouco. "Batei palmas, todas as nações: porque Deus é o Rei de toda a terra." Pois não Lhe basta ter sob Si uma só nação: por isso tão grande preço deu do Seu lado, como quem compra o mundo inteiro.
4. "Ele nos sujeitou os povos, e as nações sob os nossos pés" (v. 3). Qual sujeitou, e a quem? Quem são estes que falam? Porventura Apóstolos? Certamente, se Apóstolos; certamente, se Santos. Pois sob estes Deus sujeitou os povos e as nações, que hoje são honrados entre as nações, os quais pelos seus próprios cidadãos mereceram ser mortos: como seu Senhor foi morto pelos Seus cidadãos, e é honrado entre as nações; foi crucificado pelos Seus, é adorado pelos estranhos, mas estes por um preço se fizeram Seus. Pois por isso nos comprou, para que estranhos a Ele não fôssemos. Julgas, pois, que estas são palavras de Apóstolos: "Ele nos sujeitou os povos, e as nações sob os nossos pés"? Não sei. Estranho seria que Apóstolos falassem com tal soberba, alegrando-se de que as nações fossem postas sob os seus pés, isto é, os cristãos sob os pés dos Apóstolos. Pois eles se alegram de que nós estejamos com eles sob os pés Daquele que morreu por nós. Pois sob os pés de Paulo corriam aqueles que quisessem ser de Paulo, a quem ele disse: "Acaso Paulo foi crucificado por vós?" Que é, pois, isto aqui, que devemos entender? "Ele nos sujeitou os povos, e as nações sob os nossos pés." Todos os que pertencem à herança de Cristo estão entre "todas as nações," e todos os que não pertencem à herança de Cristo estão entre "todas as nações": e vedes quão exaltada no Nome de Cristo está a Igreja de Cristo, que todos os que ainda não creem em Cristo jazem sob os pés dos cristãos. Pois quantos agora acorrem à Igreja; não sendo ainda cristãos, pedem auxílio à Igreja; ser socorridos por nós temporalmente o querem, ainda que reinar conosco eternamente ainda não o queiram. Quando todos buscam auxílio da Igreja, mesmo os que ainda não estão na Igreja, não nos sujeitou Ele "os povos, e as nações sob os nossos pés"?
5. "Ele escolheu para nós uma herança, a excelência de Jacó, a quem amou" (v. 4). Certa formosura de Jacó Ele escolheu para nossa herança. Esaú e Jacó eram dois irmãos; no ventre materno ambos lutavam, e por esta luta as entranhas da mãe se agitavam; e enquanto ambos ainda estavam ali dentro, o mais moço foi eleito e preferido ao mais velho, e foi dito: "Dois povos há em teu ventre, e o mais velho servirá ao mais moço." Entre todas as nações está o mais velho, entre todas as nações o mais moço; mas o mais moço está nos bons cristãos, eleitos, piedosos, fiéis; o mais velho nos soberbos, indignos, pecadores, obstinados, que antes defendem do que confessam os seus pecados: como era também o próprio povo dos judeus, "ignorando a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça." Mas quando se diz: "O mais velho servirá ao mais moço," é manifesto que sob os piedosos são sujeitos os ímpios, sob os humildes são sujeitos os soberbos. Esaú nasceu primeiro, e Jacó nasceu depois; mas aquele que nasceu depois foi preferido ao primogênito, que pela gula perdeu o seu direito de primogenitura. Assim o tens escrito: ele desejava o guisado, e seu irmão lhe disse: Se queres que eu to dê, dá-me a tua primogenitura. Amou mais aquilo que carnalmente desejava do que aquilo que espiritualmente, por ter nascido primeiro, tinha merecido: e deixou de lado a sua primogenitura, para comer lentilhas. Ora, encontramos que as lentilhas são o alimento dos egípcios, pois ali no Egito ela abunda. Donde é tão celebrada a lentilha de Alexandria, que chega até à nossa terra, como se aqui não crescesse lentilha alguma. Portanto, ao desejar o alimento egípcio, perdeu a primogenitura. Assim também o povo dos judeus, do qual se diz: "em seus corações voltaram-se de novo para o Egito." Desejaram, de certo modo, a lentilha, e perderam a primogenitura.
6. "Deus subiu com júbilo" (v. 5). Ele mesmo, nosso Deus, o Senhor Cristo, subiu com júbilo; "o Senhor com som de trombeta." "Subiu": para onde, senão para onde sabemos? Para onde os judeus não O seguiram, nem sequer com os olhos. Pois, exaltado na Cruz, dEle escarneceram; ascendendo aos Céus, não O viram. "Deus subiu com júbilo." Que é o júbilo, senão a admiração da alegria que não pode ser expressa em palavras? Como os discípulos, em alegria, se admiravam, vendo subir ao Céu Aquele que haviam pranteado morto; verdadeiramente, para a alegria, as palavras não bastavam: restava jubilar o que ninguém podia exprimir. Havia também a voz da trombeta, a voz dos Anjos. Pois está dito: "Levanta a tua voz como trombeta." Anjos anunciaram a ascensão do Senhor: viram os Discípulos, vendo seu Senhor ascender, demorando-se admirados, confundidos, nada dizendo, mas no coração jubilosos: e então era o som da trombeta na voz clara dos Anjos: "Varões galileus, por que estais olhando para o Céu? Este é Jesus." Como se não soubessem que era o mesmo Jesus. Não O tinham visto, pouco antes, diante de si? Não O tinham ouvido falar-lhes? Antes, não somente viram a figura dEle presente, mas também tocaram os Seus membros. De si mesmos, pois, não sabiam que era o mesmo Jesus? Mas eles, por própria admiração, pela alegria do júbilo, como que transportados em espírito, os Anjos disseram: "Este mesmo é Jesus." Como se dissessem: Se Nele credes, este é aquele mesmo Jesus, a quem crucificado tropeçaram os vossos pés, a quem, morto e sepultado, pensastes perdida a vossa esperança. Eis que este é o mesmo Jesus. Ele subiu adiante de vós; "Ele virá assim, da mesma maneira que O vistes ir para o Céu." O Seu Corpo está de fato removido dos vossos olhos, mas Deus não está separado dos vossos corações: vede-O subindo, crede nEle ausente, esperai nEle vindouro; mas ainda assim, por Sua secreta Misericórdia, senti-O presente. Pois Ele, que subiu ao Céu para que fosse removido dos vossos olhos, vos prometeu, dizendo: "Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século." Justamente, pois, o Apóstolo assim nos exortou: "O Senhor está próximo; de nada estejais cuidadosos." Cristo está sentado acima dos Céus; os Céus estão longe, Aquele que ali está sentado está próximo. ...
7. "Cantai louvores ao nosso Deus, cantai louvores" (v. 6). A Quem, como Homem, escarneceram os que de Deus estavam alheados. "Cantai louvores ao nosso Deus." Pois Ele não é somente Homem, mas Deus. Homem da semente de Davi, Deus Senhor de Davi, dos judeus tendo a carne. "Dos quais" (diz o Apóstolo) "são os pais, dos quais, segundo a carne, veio Cristo." Dos judeus, pois, é Cristo, mas segundo a carne. Mas quem é este Cristo que é dos judeus segundo a carne? "Que está sobre todos, Deus bendito para sempre." Deus antes da carne, Deus na carne, Deus com a carne. E não somente Deus antes da carne, mas Deus antes da terra donde a carne foi feita; nem somente Deus antes da terra donde a carne foi feita, mas até Deus antes do Céu, que foi primeiro feito; Deus antes do dia, que foi primeiro feito; Deus antes dos Anjos; o mesmo Cristo é Deus: pois "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."
8. "Porque Deus é o Rei de toda a terra" (v. 7). Quê? E antes não era Ele Deus de toda a terra? Não é Ele Deus tanto do céu quanto da terra, visto que por Ele certamente foram feitas todas as coisas? Quem pode dizer que Ele não é seu Deus? Mas nem todos os homens O reconheceram como seu Deus; e onde foi reconhecido, ali somente, por assim dizer, Ele era Deus. "Em Judá é Deus conhecido." Ainda não se dizia aos filhos de Corá: "Batei palmas, todas as nações." Pois aquele Deus, conhecido em Judá, é o Rei de toda a terra: agora por todos é reconhecido, pois se cumpre o que diz Isaías: "Ele é o teu Deus, que te libertou, o Deus de toda a terra será chamado." "Cantai louvores com entendimento." Ele nos ensina e nos adverte a cantar louvores com entendimento, a não buscar o som do ouvido, mas a luz do coração. Os gentios, donde fostes chamados para que fôsseis cristãos, adoravam deuses feitos por mãos, e a eles cantavam louvores, mas não com entendimento. Se tivessem cantado com entendimento, não teriam adorado pedras. Quando um homem sensível cantava a uma pedra insensível, cantava ele com entendimento? Mas agora, irmãos, não vemos com os nossos olhos Aquele a quem adoramos, e no entanto corretamente O adoramos. Muito mais nos é recomendado Deus, por não O vermos com os nossos olhos. Se com os nossos olhos O víssemos, porventura O desprezaríamos. Pois até mesmo Cristo, visto, os judeus desprezaram; não visto, os gentios O adoraram.
9. "Deus reinará sobre todas as nações" (v. 8). Aquele que reinava sobre uma nação, "reinará" (diz Ele) "sobre todas as nações." Quando isto foi dito, Deus reinava sobre uma nação. Era uma profecia, a coisa ainda não se mostrava. Graças a Deus, vemos agora cumprido o que antes foi profetizado. Uma promessa escrita Deus nos enviou antes do tempo; o tempo cumprido, Ele no-la retribuiu. "Deus reinará sobre todas as nações" é uma promessa. "Deus está sentado sobre o Seu Trono Santo." O que fora prometido para vir, agora cumprido, é reconhecido e mantido. "Deus está sentado sobre o Seu Trono Santo." Que é o Seu Trono Santo? Porventura dirá alguém: Os Céus, e entende bem. Pois Cristo subiu, como sabemos, com o Corpo em que foi crucificado, e está sentado à direita do Pai; dali esperamos que Ele venha julgar os vivos e os mortos. "Deus está sentado sobre o Seu Trono Santo." Os Céus são o Seu Trono Santo. Queres tu também ser o Seu Trono? Não penses que não o podes ser; prepara-Lhe um lugar no teu coração. Ele vem, e de bom grado se assenta. O mesmo Cristo é certamente "o Poder de Deus, e a Sabedoria de Deus:" e que diz a Escritura da própria Sabedoria? A alma do justo é o trono da Sabedoria. Se, pois, a alma do justo é o trono da Sabedoria, seja tua alma justa, e serás um trono régio da Sabedoria. E, na verdade, irmãos, todos os homens que vivem bem, que agem bem, que se conduzem na piedosa caridade, não está Deus sentado neles, e Ele mesmo a comandar? A tua alma obedece a Deus sentado nela, e ela mesma comanda os membros. Pois a tua alma comanda os teus membros, para que assim se movam o pé, a mão, o olho, o ouvido, e ela mesma comanda os membros como seus servos, mas contudo ela mesma serve ao seu Senhor sentado dentro dela. Não pode bem governar o que lhe é inferior, se não se dignou servir ao que lhe é superior.
10. "Os príncipes dos povos se congregaram ao Deus de Abraão" (v. 9). O Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó. Verdade é que Deus disse isto, e com isso os judeus se ensoberbeceram, e disseram: "Somos filhos de Abraão"; ensoberbecendo-se no nome do pai, carregando sua carne, não guardando sua fé; pela semente a Ele aderindo, nos costumes degenerando. Mas o Senhor, que lhes disse Ele a estes que assim se ensoberbeciam? "Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão." E ainda... "Os príncipes dos povos": os príncipes das nações: não os príncipes de um só povo, mas os príncipes de todos os povos se "congregaram ao Deus de Abraão". Dentre estes príncipes foi também aquele Centurião, do qual há pouco, quando se lia o Evangelho, ouvistes. Pois era ele um Centurião que tinha honra e poder entre os homens, era ele um príncipe entre os príncipes dos povos. Vindo Cristo a ele, enviou seus amigos ao Seu encontro — antes, a Cristo verdadeiramente passando a ele, enviou seus amigos — e pediu que curasse seu servo que estava gravemente enfermo. E quando o Senhor viria, enviou-Lhe esta mensagem: "Não sou digno de que entres sob meu teto, mas dize somente uma palavra, e meu servo será curado." "Pois também eu sou homem posto sob autoridade, tendo soldados sob mim." Vede como guardou sua posição! Primeiro mencionou que estava sob outro, e depois que outro estava sob ele. Estou sob autoridade, e estou em autoridade; tanto sob alguns estou, quanto sobre alguns estou... Como se dissesse: Se eu, posto sob autoridade, ordeno aos que estão sob mim, não poderias Tu, que não estás posto sob a autoridade de homem algum, ordenar à Tua criatura, visto que todas as coisas foram feitas por Ti, e sem Ti nada foi feito? "Dize", pois, disse ele, "uma palavra, e meu servo será curado. Pois não sou digno de que entres sob meu teto." ...Admirando-se de sua fé, Jesus reprova a incredulidade dos judeus. Pois sãos a si mesmos pareciam, quando estavam gravemente enfermos, quando o seu Médico, não o conhecendo, matavam. Portanto, quando reprovou e repudiou a soberba deles, que disse Ele? "Digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente", não pertencentes à linhagem de Israel: muitos virão, aos quais disse Ele: "Batei palmas, todas as nações"; "e se assentarão com Abraão, e Isaac, e Jacó, no reino dos céus." Abraão não os gerou de sua própria carne; contudo virão e se assentarão com ele no reino dos céus, e serão seus filhos. Por que seus filhos? Não como nascidos de sua carne, mas por seguirem sua fé. "Mas os filhos do reino", isto é, os judeus, "serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes." Serão condenados às trevas exteriores os que nasceram da carne de Abraão, e se assentarão com ele no reino dos céus os que imitaram a fé de Abraão.
11. E que sucedeu aos que pertenciam ao Deus de Abraão? "Pois os deuses poderosos da terra sobremaneira se ensoberbeceram." Aqueles que eram deuses, o povo de Deus, a vinha de Deus, de que se diz: "Julgai entre Mim e Minha vinha," irão para as trevas exteriores, não se assentarão com Abraão, e Isaac, e Jacó, não estão congregados ao Deus de Abraão. Por quê? "Pois os deuses poderosos da terra"; aqueles que eram poderosos deuses da terra, presumindo sobre a terra. Que terra? Eles mesmos; pois todo homem é terra. Pois ao homem foi dito: "Pó és, e ao pó voltarás." Mas o homem deve presumir sobre Deus, e dali esperar socorro, não de si mesmo. Pois a terra não chove sobre si mesma, nem brilha para si mesma; mas assim como a terra do céu espera a chuva e a luz, assim o homem deve esperar de Deus a misericórdia e a verdade. Eles então, "os deuses poderosos da terra, sobremaneira se ensoberbeceram", isto é, grandemente se enalteceram: julgaram que médico algum lhes era necessário, e por isso permaneceram em sua enfermidade, e por sua enfermidade foram levados até mesmo à morte. Os ramos naturais foram quebrados para que a humilde oliveira brava fosse enxertada. Guardemos, pois, irmãos, a humildade, a caridade, a piedade: já que fomos chamados, ao se provarem eles réprobos, que até por seu exemplo temamos ensoberbecer-nos.
2. "Grande é o Senhor, e grandemente digno de louvor" (v. 1). ...Isto é, "na cidade do nosso Deus, no Seu monte santo." Esta é a cidade posta sobre um monte, que não se pode esconder: esta é a candeia que não se esconde debaixo do alqueire, a todos conhecida, a todos proclamada. Contudo nem todos os homens são cidadãos dela, mas aqueles em quem "grande é o Senhor, e grandemente digno de louvor". Que cidade é, pois, esta: vejamos se, porventura, visto que se diz, "na cidade do nosso Deus, no Seu monte santo", não devemos indagar por este monte, onde também possamos ser ouvidos. ...Que monte é, pois este, irmãos? Um só é, com grande cuidado a ser indagado, com grande solicitude investigado, com trabalho também a ser ocupado e ascendido. Mas se em alguma parte da terra ele está, que faremos? Iremos ao estrangeiro, para fora de nossa própria pátria, para que a esse monte possamos chegar? Não; antes, então estaremos no estrangeiro, quando nele não estivermos. Pois aquela é a nossa cidade, se somos membros do Rei, que é a cabeça dessa mesma cidade. ...Pois havia certa pedra angular desprezível, na qual os judeus tropeçaram, cortada de certo monte sem mãos, isto é, vinda do reino dos judeus sem mãos, porque operação humana não concorreu com Maria, de quem nasceu Cristo. Mas se essa pedra, quando nela tropeçaram os judeus, ali tivesse permanecido, não terias tu aonde ascender. Mas o que se fez? Que diz a profecia de Daniel? Que senão que a pedra cresceu, e se tornou um grande monte? Quão grande? De modo que encheu toda a face da terra. Crescendo, pois, e enchendo toda a face da terra, esse monte veio a nós. Por que, então, buscamos o monte como se ausente, e não, como estando presente, a ele ascendemos; para que em nós o Senhor seja "grande, e grandemente digno de louvor"?
1. O título deste Salmo é: "Cântico de louvor, para os filhos de Coré, no segundo dia da semana." Acerca disto, o que o Senhor Se digna conceder, recebei-o como filhos do firmamento. Pois no segundo dia da semana, isto é, no dia seguinte ao primeiro, que chamamos dia do Senhor, o qual também se chama segundo dia da semana, foi feito o firmamento do Céu. ...O segundo dia da semana, pois, não devemos entender senão da Igreja de Cristo: mas a Igreja de Cristo nos santos, a Igreja de Cristo naqueles que estão escritos no Céu, a Igreja de Cristo naqueles que às tentações deste mundo não cedem. Pois estes são dignos do nome de "firmamento". A Igreja de Cristo, pois, naqueles que são fortes, dos quais diz o Apóstolo: "Nós que somos fortes devemos suportar as fraquezas dos fracos", é chamada firmamento. Disto se canta neste Salmo. Ouçamos, reconheçamos, associemo-nos, gloriemo-nos, reinemos. Pois a ela, chamada firmamento, ouvi também nas Epístolas Apostólicas: "coluna e firmamento da verdade." ...
3. Além disso, ...quando disse, "na cidade do nosso Deus, no Seu monte santo", que acrescentou? "Espalhando as alegrias de toda a terra, os montes de Sião" (v. 2). Sião é um só monte; por que, então, "montes"? Será que a Sião pertenciam também aqueles que vinham do outro lado, de modo a se encontrarem sobre a Pedra Angular, e se tornarem dois muros, como que dois montes, um da circuncisão, outro da incircuncisão; um dos judeus, outro dos gentios: não mais adversos, ainda que diversos, porque de lados diferentes, agora no ângulo nem sequer diversos. "Pois Ele é a nossa paz, que fez de ambos um só." A mesma Pedra Angular, "que os edificadores rejeitaram, tornou-se a Pedra angular principal." O monte uniu em si dois montes; uma casa há, e duas casas; duas, porque vindas de lados diferentes; uma, por causa da Pedra Angular, na qual ambas se unem. Ouvi também isto: "os montes de Sião: os lados do Norte são a cidade do grande Rei." ...Vede os gentios; "os lados do Norte": os lados do Norte se unem à cidade do grande Rei. O Norte costuma ser contrário a Sião: Sião, com efeito, está ao Sul, o Norte diante do Sul. Quem é o Norte, senão aquele que disse: "Sentar-me-ei nos lados do Norte, serei semelhante ao Altíssimo"? O diabo tinha domínio sobre os ímpios, e possuía as nações que serviam a imagens, adorando demônios; e tudo quanto havia de gênero humano em toda parte pelo mundo, aderindo a ele, se tornara Norte. Mas, visto que Aquele que ata o homem forte lhe tira os bens, e os faz Seus próprios bens; os homens libertos da infidelidade e da superstição dos demônios, crendo em Cristo, se ajustam a essa cidade, se encontraram no ângulo com aquele muro que vem da circuncisão, e se fez a cidade do grande Rei, que tinham sido os lados do Norte. Por isso também em outra Escritura se diz: "Do Norte vêm nuvens de cor dourada: grande é a glória e a honra do Onipotente." Pois grande é a glória do médico, quando de desenganado o enfermo se recupera. "Do Norte vêm nuvens", e não nuvens negras, não nuvens escuras, não ameaçadoras, mas "de cor dourada." De onde, senão pela graça iluminada por Cristo? Vede: "os lados do Norte são a cidade do grande Rei." ...
4. Siga-se, pois, o Salmo, e diga: "Deus será conhecido em suas casas." Ora, em suas "casas", por causa dos montes, por causa dos dois muros, por causa dos dois filhos. "Deus será conhecido em suas casas", mas ele recomenda a graça; por isso acrescentou: "quando a tomar para Si." Pois que teria sido essa cidade, se Ele não a tivesse tomado para Si? Não teria ela caído imediatamente, se não tivesse tal fundamento? Pois "nenhum outro fundamento pode alguém lançar, além do que já está posto, que é Jesus Cristo." Que ninguém, pois, se glorie em seus próprios méritos; mas "aquele que se gloriar, glorie-se no Senhor." ...O Senhor, pois, tomou para Si esta cidade, e nela é conhecido, isto é, Sua graça é conhecida nessa cidade: pois o que quer que essa cidade tenha, ela que se gloria no Senhor, não o tem de si mesma. Pois por isso se diz: "Que tens tu que não tenhas recebido?"
5. "Pois eis que os reis da terra se congregaram" (v. 3). Vede agora aqueles lados do Norte, vede como vêm, vede como dizem: "Vinde, e subamos ao monte do Senhor: e Ele nos ensinará o Seu caminho, e nós andaremos nele." "E se ajuntaram num só lugar." Em que um, senão naquela "pedra angular"? "Viram-na, e assim se maravilharam" (v. 4). Depois de se maravilharem com os milagres e a glória de Cristo, que se seguiu? "Turbaram-se, moveram-se" (v. 5), "tremor os tomou." De onde os tomou o tremor, senão da consciência dos pecados? Corram, pois, rei após rei; reis, reconheçam o Rei. Por isso diz Ele em outro lugar: "Eu, porém, fui posto por Ele Rei sobre o Seu monte santo de Sião." ...Ouviu-se, pois, falar de um Rei, constituído em Sião; a Ele foram entregues as posses até as extremidades da terra. Convinha aos reis temer que perdessem o reino, que o reino lhes fosse tirado. Como temeu o mísero Herodes, e por causa do Menino matou as crianças. Mas, temendo perder o seu reino, não mereceu conhecer o Rei. Quem dera que ele também tivesse adorado o Rei com os Magos: não que, buscando mal o reino, matasse os Inocentes, e perecesse culpado. Pois quanto a ele, destruiu os Inocentes: mas quanto a Cristo, até uma criança, as crianças que por Ele morreram, Ele as coroou. Convinha, pois, aos reis temer, quando se disse: "Eu, porém, fui posto Rei por Ele sobre o Seu monte santo de Sião", e a herança até as extremidades da terra Ele lhe dará, Aquele que O constituiu Rei. ...Daí também se lhes diz isto: "Entendei, pois, agora, ó reis; instruí-vos, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos Nele com tremor." E que fizeram eles? "Ali dores como as de mulher que está de parto." Que são as dores "como as de mulher que está de parto", senão as angústias de um penitente? Vede a mesma concepção de dor e de parto: "Do Teu temor" (diz Isaías) "concebemos, e sofremos as dores de parto do Espírito de salvação." Assim, pois, os reis conceberam do temor de Cristo, para que, sofrendo as dores do parto, dessem à luz a salvação, crendo naquele a quem haviam temido. "Ali dores como as de mulher que está de parto": quando de parto ouvires, espera um nascimento. O velho homem está em trabalho de parto, mas o novo homem nasce.
6. "Com um vento forte quebrarás os navios de Társis" (v. 6). Brevemente entendido, isto é: derrubarás a soberba das nações. Mas onde nesta história se menciona a derrubada da soberba das nações? Por causa dos "navios de Társis". Homens doutos indagaram acerca de Társis, cidade, isto é, que cidade era significada por este nome: e a alguns pareceu que a Cilícia é chamada Társis, porque sua metrópole se chama Tarso. Dessa cidade era o Apóstolo Paulo, nascido em Tarso da Cilícia. Mas alguns entenderam por ela Cartago, sendo talvez às vezes assim nomeada, ou em alguma língua assim significada. Pois no Profeta Isaías assim se encontra: "Uivai, ó navios de Cartago." Mas em Ezequiel, por alguns intérpretes a palavra é traduzida Cartago, por outros Társis: e por essa diversidade se pode entender que a mesma que era chamada Cartago é chamada Tarso. Mas é manifesto que, no início de seu reinado, Cartago floresceu com navios, e tanto floresceu, que entre as outras nações se sobressaía no comércio e na navegação. Pois quando Dido, fugindo de seu irmão, escapou às partes da África, onde edificou Cartago, os navios que tinham sido preparados para o comércio em seu país, levou-os consigo em sua fuga, consentindo nisso os príncipes daquela terra; e esses mesmos navios, também depois de edificada Cartago, não faltaram ao comércio. E daí essa cidade se tornou soberba demais, de modo que justamente por seus navios se pode entender a soberba das nações, presumindo sobre coisas incertas, como sobre o sopro dos ventos. Ora, ninguém presuma sobre velas cheias, e sobre o aparente bom estado desta vida, como do mar. Seja o nosso fundamento em Sião: ali devemos estar estabelecidos, para não sermos "levados ao redor por todo vento de doutrina." Quem, pois, pelas coisas incertas desta vida se houvesse ensoberbecido, seja derrubado, e seja toda a soberba das nações sujeita a Cristo, que "com um vento forte quebrará todos os navios de Társis": não de qualquer cidade, mas de "Társis". Como "com um vento forte"? Com temor muito forte. Pois assim toda a soberba temeu Aquele que há de julgar, como, humilde, deve crer Nele, para que, exaltada, não O tema.
7. "Como ouvimos, assim vimos" (v. 7). Bendita Igreja! Em certo tempo ouviste, em outro tempo viste. Ela ouviu nas promessas, vê no cumprimento: ouviu na Profecia, vê no Evangelho. Pois todas as coisas que agora se cumprem foram antes profetizadas. Levanta, pois, os teus olhos, e estende-os sobre o mundo; vê agora a Sua "herança até as extremidades da terra": vê que agora se cumpre o que foi dito: "Todos os reis se prostrarão diante Dele: todas as nações O servirão": vê cumprido o que foi dito: "Exalta-Te, ó Deus, acima dos céus, e a Tua glória acima de toda a terra." Vê Aquele cujos pés e mãos foram traspassados com pregos, cujos ossos, pendendo do madeiro, foram contados, sobre cuja veste se lançaram sortes: vê reinando Aquele que viram pendurado; vê assentado no Céu Aquele que desprezaram andando na terra: vê assim cumprido: "Todos os confins da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor, e todas as famílias das nações adorarão diante Dele." Vendo tudo isto, exclama com alegria: "Como ouvimos, assim vimos." Justamente a própria Igreja se chama assim, saída dentre os gentios. ...Aqueles a quem os Profetas não foram enviados, primeiro ouviram e entenderam os Profetas: aqueles que primeiro não ouviram, depois, ouvindo, se maravilharam. Ficaram para trás aqueles a quem foram enviados, carregando os livros, não entendendo a verdade: tendo as tábuas do Testamento, e não retendo a herança. Mas nós... "Como ouvimos, assim vimos." E onde ouves? Onde vês? "Na cidade do Senhor dos Exércitos, na cidade do nosso Deus. Deus a fundou para sempre." Não insultem os hereges, divididos em partidos, não se exaltem os que dizem: "Eis aqui está Cristo, ou eis ali." Quem diz: "Eis aqui está Cristo, ou eis ali", convida a partidos. A unidade Deus prometeu. Os reis se congregam num só lugar, não dissipados por cismas. Mas porventura aquela cidade que tem possuído o mundo há de alguma vez ser derrubada? Longe tal pensamento! "Deus a fundou para sempre." Se, pois, Deus a fundou para sempre, por que temes que o firmamento venha a cair?
8. "Recebemos a Tua misericórdia, ó Deus, no meio do Teu povo" (v. 8). Quem recebeu, e onde recebeu? Não recebeu o mesmo Teu povo a Tua misericórdia? Se o Teu povo recebeu a Tua misericórdia, como, então, "no meio do Teu povo"? Como se os que recebiam fossem um partido, e aqueles em cujo meio recebiam, outro. Grande mistério, mas contudo bem conhecido. Quando daqui também, isto é, destes versículos, se houver extraído e trazido à luz o que sabeis, não será mais rude, mas mais doce. Ora, por certo, todos são contados como povo de Deus, os que trazem os Seus Sacramentos, mas nem todos pertencem à Sua Misericórdia. Todos, por certo, recebendo o Sacramento do Batismo de Cristo, são chamados cristãos, mas nem todos vivem dignamente desse Sacramento. Há alguns dos quais diz o Apóstolo: "Tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder." Contudo, por causa dessa aparência de piedade, são contados entre o povo de Deus. Assim como na eira, até que o trigo seja debulhado, não só o trigo pertence a ela, mas também a palha. Mas pertencerá também ao celeiro? No meio, pois, de um povo mau há um povo bom, que recebeu a Misericórdia de Deus. Vive dignamente da Misericórdia de Deus aquele que ouve, e guarda, e faz o que diz o Apóstolo: "Rogamo-vos que não recebais a Graça de Deus em vão." Quem, pois, não recebe a Graça de Deus em vão, esse recebe não somente o Sacramento, mas também a Misericórdia de Deus igualmente. ...Assim, aqueles que têm os Sacramentos, e não têm bons costumes, tanto se diz que são de Deus, quanto que não são de Deus; tanto se diz que são Seus, quanto que são estranhos: Seus por causa dos Seus próprios Sacramentos, estranhos por causa de seu próprio vício. Assim também filhas estranhas: filhas, por causa da aparência de piedade; estranhas, por causa da perda de sua virtude. Esteja ali o lírio; receba a Misericórdia de Deus: guarde firme a raiz de uma boa flor, não seja ingrato para a chuva branda que vem do céu. Sejam os espinhos ingratos, cresçam pelas chuvas: pois para o fogo crescem, não para o celeiro. No meio do Teu povo, que não recebe a Tua misericórdia, nós recebemos a Tua misericórdia. Pois "veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam", contudo, no meio deles, "a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus." ...
9. Pois quando disse: "Recebemos a tua misericórdia no meio do teu povo", significou que há um povo que não recebe a misericórdia de Deus, no meio do qual alguns recebem a misericórdia de Deus: e então, para que não ocorresse aos homens que são tão poucos a ponto de quase não existirem, como os consolou Ele nas palavras seguintes? "Segundo o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor até os confins da terra" (v. 9). Que é isto?... Isto é, assim como és conhecido em toda a terra, assim também és louvado em toda a terra, nem faltam os que agora Te louvam por toda a terra. Mas Te louvam os que vivem bem. Pois, "segundo o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor", não em uma parte, mas "até os confins da terra". "A tua destra está cheia de justiça." Isto é, muitos são também os que hão de estar à tua destra. Não somente serão muitos os que estarão à tua sinistra, mas ali também haverá uma plena messe posta à tua destra.
10. "Alegre-se o monte Sião, e regozijem-se as filhas de Judá, por causa dos teus juízos, ó Senhor" (v. 10). Ó monte Sião, ó filhas de Judá, vós labutais agora entre o joio, entre a palha, entre os espinhos labutais: contudo alegrai-vos por causa dos juízos de Deus. Deus não erra em julgar. Vivei separados, ainda que não tenhais nascido separados; não em vão saiu de vossa boca e de vosso coração uma voz: "Não destruas minha alma com os pecadores, nem minha vida com os homens sanguinários." Ele há de joeirar com tal arte, trazendo na mão uma pá, que nem um só grão de trigo cairá no monte de palha preparado para ser queimado, nem uma só aresta de palha passará ao monte a ser recolhido no celeiro. Alegrai-vos, ó filhas de Judeia, por causa dos juízos de Deus, que não erra, e não julgueis vós ainda temerariamente. A vós pertença recolher, a Ele pertença separar. Mas não penseis que as "filhas de Judá" sejam as judias. Judá é confissão; todos os filhos da confissão são todos os filhos de Judá. Pois "a salvação vem dos judeus" não é senão que Cristo vem dos judeus. Isto diz também o Apóstolo: "Não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que é exterior na carne; mas é judeu o que o é interiormente, e a circuncisão é a do coração, no espírito, e não na letra, cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus." Sê tu tal judeu; gloria-te na circuncisão do coração, ainda que não tenhas a circuncisão da carne. Alegrem-se as filhas de Judá, por causa dos teus juízos, ó Senhor.
11. "Rodeai Sião, e abraçai-a" (v. 11). Seja isto dito aos que vivem mal, no meio dos quais está o povo que recebeu a misericórdia de Deus. No meio de vós há um povo que vive bem: "Rodeai Sião." Mas como? "Abraçai-a." Não com escândalos, mas com amor rodeai-a: para que assim aos que vivem bem no meio de vós possais imitar, e por sua imitação, incorporar-vos a Cristo, de quem eles são membros. "Rodeai Sião, ide ao redor dela: falai em suas torres." Na altura de seus baluartes, proclamai os seus louvores.
12. "Ponde vosso coração na sua fortaleza" (v. 12). Não para que tenhais a aparência da piedade e neguéis o seu poder, mas: "Ponde na sua fortaleza vosso coração. Falai em suas torres." Qual é a fortaleza desta cidade? Quem quiser compreender a fortaleza desta cidade, compreenda a força do amor. Esta é uma virtude que ninguém vence. A chama do amor nenhuma onda do mundo, nenhuma torrente de tentação a extingue. Disto se diz: "O amor é forte como a morte." Pois assim como, quando a morte vem, não se lhe pode resistir; com quaisquer artes, quaisquer remédios que a enfrentes, a violência da morte ninguém que nasça mortal pode evitar; assim contra a violência do amor nada pode o mundo. Pois de modo contrário se faz a semelhança com a morte; pois assim como a morte é violentíssima para arrebatar, assim o amor é violentíssimo para salvar. Por meio do amor, muitos morreram para o mundo, para viver para Deus; inflamados por este amor, os mártires — não os fingidos, não os inchados de vanglória, não os semelhantes àqueles de quem está escrito: "Ainda que eu entregue meu corpo para ser queimado, e não tenha caridade, nada me aproveita" — mas homens a quem verdadeiramente um amor de Cristo e da verdade conduziu a este padecer; que lhes eram as tentações dos algozes? Maior violência tinham os olhos de seus amigos que choravam, que as perseguições dos inimigos. Pois quantos foram retidos por seus filhos, para que não sofressem? A quantos suas esposas caíram de joelhos, para que não ficassem viúvas? Quantos tiveram seus pais a proibir-lhes a morte, como sabemos e lemos na Paixão da Bem-aventurada Perpétua! Tudo isto se fez; mas as lágrimas, por maiores que fossem, e com qualquer força que corressem, quando extinguiram o ardor do amor? Esta é a fortaleza de Sião, à qual em outro lugar se diz: "Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro de teus palácios."
13. Que entendemos aqui: "Ponde vosso coração na sua fortaleza, e distribuí suas casas"? Isto é, distingui casa de casa. Não confundais. Pois há uma casa que tem a aparência da piedade, e não tem a piedade; mas há uma casa que tem ambas, a aparência e a piedade. Distribuí, não confundais. Mas então distribuís e não confundis, quando "ponde vosso coração na sua fortaleza"; isto é, quando pelo amor vos fazeis espirituais. Então não julgareis temerariamente, então vereis que o mal não prejudica o bem enquanto estivermos nesta eira. "Distribuí suas casas." Pode haver também outro entendimento. As duas casas, uma vinda da circuncisão, outra da incircuncisão, é ordenado aos Apóstolos que as distribuam. Pois quando Saulo foi chamado, e feito o Apóstolo Paulo, concordando em unidade com seus companheiros Apóstolos, assim com eles determinou, que estes fossem à circuncisão, ele à incircuncisão. Por essa dispensação de seu apostolado, distribuíram as casas da cidade do grande Rei; e encontrando-se no ângulo, dividiram o Evangelho na dispensação, na caridade o uniram. E verdadeiramente é isto antes o que se deve entender; pois se segue e mostra que aqui se diz aos pregadores: "distribuí suas casas: para que o anuncieis à geração seguinte"; isto é, que também até nós, que havíamos de vir depois deles, chegasse a sua dispensação do Evangelho. Pois não somente por aqueles trabalharam, com quem viveram na terra; nem o Senhor somente por aqueles Apóstolos a quem se dignou mostrar-se vivo depois de sua Ressurreição, mas também por nós. Pois a eles falou, e a nós significou quando disse: "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do século." Estariam eles, pois, aqui sempre, até a consumação do século? Também disse: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que hão de crer em mim por sua palavra." Portanto, Ele nos considera, porque padeceu por nossa causa. Justamente, pois, se diz: "Para que o anuncieis à geração seguinte."
14. Anunciar o quê? "Porque este é Deus, o nosso Deus" (v. 13). A terra foi vista, o Criador da terra não foi visto; a carne foi tida, Deus na carne não foi reconhecido. Pois a carne foi tida por aqueles de quem fora tomada a mesma carne, pois da semente de Abraão era a Virgem Maria. Na carne se detiveram, a Divindade não compreenderam. Ó Apóstolos, ó poderosa cidade, prega tu nas torres, e dize: "Este é Deus, o nosso Deus." Assim, ainda assim, como foi desprezado, como jazeu qual pedra diante dos pés dos que tropeçam, para que humilhasse os corações dos que confessam; ainda assim: "Este é Deus, o nosso Deus." Certamente foi visto, como se disse: "Depois se mostrou sobre a terra, e conversou com os homens." "Este é Deus, o nosso Deus." Ele é também Homem, e quem há de conhecê-Lo? "Este é Deus, o nosso Deus." Mas porventura por um tempo, como os falsos deuses. Pois porque podem ser chamados deuses, mas não podem sê-lo, por um tempo são até assim chamados. Pois que diz o Profeta, ou que Ele adverte que se lhes diga? Isto lhes direis: "Os deuses que não fizeram os céus e a terra, esses hão de perecer da terra, e dos que estão debaixo dos céus." Ele não é tal deus: pois o nosso Deus está acima de todos os deuses. Acima de quais deuses? "Pois todos os deuses das nações são ídolos, mas o Senhor fez os céus." Este mesmo é, pois, o nosso Deus. "Este é Deus, o nosso Deus." Por quanto tempo? "Pelos séculos dos séculos: Ele nos governará para sempre." Se Ele é nosso Deus, é também nosso Rei. Protege-nos, sendo nosso Deus, para que não morramos; governa-nos, sendo nosso Rei, para que não caiamos. Mas ao governar-nos, não nos quebra; pois a quem Ele não governa, quebra. "Tu os governarás", diz Ele, "com vara de ferro, e os despedaçarás como vaso de oleiro." Mas há aqueles a quem Ele não governa; a estes não poupa, como um vaso de oleiro, despedaçando-os. Por Ele, pois, queiramos ser governados e libertados, "pois Ele é o nosso Deus pelos séculos dos séculos, e Ele nos governará para sempre."
1. ..."Ouvi isto, todas as nações" (v. 1). Não somente vós, portanto, que estais aqui. Pois que poder tem nossa voz para clamar de tal modo que todas as nações a ouçam? Mas Nosso Senhor Jesus Cristo o proclamou por meio dos Apóstolos, proclamou-o em tantas línguas quantas enviou; e vemos este Salmo, que antes era recitado somente em uma nação, na Sinagoga dos judeus, agora recitado por todo o mundo, por todas as Igrejas; e cumprido aquilo que aqui se diz: "Ouvi estas palavras, todas as nações."... De quem sois vós: "Com os ouvidos ponderai, todos os que habitais no mundo." Isto parece que repetiu uma segunda vez, para que não parecesse pouco dizer somente "ouvi" antes. O que digo, diz Ele, "ouvi, com os ouvidos ponderai", isto é, não ouçais superficialmente. Que é "com os ouvidos ponderai"? É o que disse o Senhor: "quem tem ouvidos para ouvir, ouça"; pois, como todos os que estavam em sua presença deviam ter ouvidos, que ouvidos requeria Ele senão os do coração, quando disse: "quem tem ouvidos para ouvir, ouça"? Os mesmos ouvidos também este Salmo fere. "Com os ouvidos ponderai, todos os que habitais no mundo." Talvez haja aqui alguma distinção. Não devemos, na verdade, estreitar nossa visão, mas não há dano em explicar também este entendimento do sentido. Talvez haja alguma diferença entre dizer "todas as nações" e dizer "todos os que habitais no mundo". Pois talvez Ele quisesse que entendêssemos a expressão "habitar" com um sentido mais amplo, de modo a tomar todas as nações por todos os ímpios, mas os habitantes do mundo por todos os justos. Pois habita quem não está preso; mas quem é ocupado é habitado, e não habita. Assim como possui tudo o que tem quem é senhor de sua propriedade: mas senhor é aquele que não está retido nas malhas da cobiça: enquanto que quem é retido pela cobiça é o possuído, e não o possuidor. ...
2. Portanto, ouçam também os ímpios: "Ouvi isto, todas as nações." Ouçam também os justos, que não ouviram em vão, e que antes governam o mundo do que são governados pelo mundo: "com os ouvidos ponderai, todos os que habitais no mundo."
3. E de novo diz: "assim os filhos da terra como os filhos dos homens" (v. 2). A expressão "filhos da terra" refere-se aos pecadores; a expressão "filhos dos homens" aos fiéis e justos. Vedes, pois, que se observa esta distinção. Quem são os "filhos da terra"? Os filhos da terra. Quem são os filhos da terra? Os que desejam heranças terrenas. Quem são os "filhos dos homens"? Os que pertencem ao Filho do Homem. Já antes explicamos esta distinção à vossa Santidade, e concluímos que Adão era homem, mas não filho do homem; que Cristo era o Filho do Homem, mas era também Deus. Pois todos os que pertencem a Adão são "filhos da terra": todos os que pertencem a Cristo são "filhos dos homens". Contudo, ouçam todos, não retenho meu discurso de ninguém. Se alguém é "filho da terra", ouça, por causa do juízo; outro é "filho do homem", ouça por causa do reino. "O rico e o pobre juntamente." De novo se repetem as mesmas palavras. A expressão "rico" refere-se aos "filhos da terra"; mas a palavra "pobre" aos "filhos dos homens". Por "ricos" entendei os soberbos, por "pobres" os humildes. ...Diz Ele em outro Salmo: "Os pobres comerão e se fartarão." Como louvou Ele os pobres? "Os pobres comerão e se fartarão." Que comem eles? Aquele Alimento que os fiéis conhecem. Como se fartarão? Imitando a Paixão de seu Senhor, e não sem causa recebendo sua recompensa. "Os pobres comerão e se fartarão, e louvarão o Senhor os que O buscam." E os ricos? Também eles comem. Mas como comem? "Todos os ricos da terra comeram e adoraram." Não disse: "comeram e se fartaram"; mas: "comeram e adoraram." Adoram, na verdade, a Deus, mas não quererão mostrar humanidade fraterna. Estes comem e adoram: aqueles comem e se enchem: contudo ambos comem. Do que come, exige-se o que come: que não lhe seja proibido comer pelo distribuidor, mas que seja admoestado a temer Aquele que há de exigir sua conta. Ouçam, pois, estas palavras os pecadores e os justos, as nações e os que habitam o mundo, "filhos da terra e filhos dos homens, o rico e o pobre juntamente": não divididos, não separados. Isto é para o tempo da ceifa fazer, a mão do joeirador fará isso. Agora, juntamente, ouçam rico e pobre, apascentem-se cabras e ovelhas no mesmo pasto, até que venha Aquele que há de separar um à sua direita, outro à sua esquerda. Ouçam todos juntos o mestre, para que, separados uns dos outros, não ouçam a voz do Juiz.
4. E que é isto que agora hão de ouvir? "Minha boca falará de sabedoria, e a meditação de meu coração, de inteligência" (v. 3). E esta repetição talvez se faça, para que, se acaso tivesse dito somente "minha boca", não suponhas que te falava alguém que tinha inteligência apenas nos lábios. Pois muitos têm inteligência nos lábios, mas não a têm no coração, dos quais diz a Escritura: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim." Que diz, pois, aquele que te fala? Quando disse: "Minha boca falará de sabedoria", para que saibas que o que se derrama da boca flui do fundo do coração, acrescentou: "E a meditação de meu coração, de inteligência."
5. "Inclinarei o meu ouvido à parábola, mostrarei ao som da harpa a minha proposição" (v. 4). ... E por que "à parábola"? Porque "agora vemos por espelho, em enigma", como diz o Apóstolo; "enquanto estamos peregrinos no corpo, estamos ausentes do Senhor". Pois a nossa visão ainda não é aquela face a face, onde já não há parábolas, onde já não há enigmas nem comparações. Tudo quanto agora entendemos, contemplamo-lo por enigmas. O enigma é uma parábola obscura, difícil de entender. Por mais que o homem cultive o coração e se aplique a apreender os mistérios, enquanto vemos através da corrupção desta carne, vemos apenas em parte. ... Mas, assim como Ele foi visto por aqueles que creram e por aqueles que O crucificaram, quando foi julgado, assim será visto, quando começar a ser juiz, tanto por aqueles a quem há de condenar quanto por aqueles a quem há de coroar. Mas aquela visão da divindade, que prometeu aos que O amam, quando diz: "Quem me ama será amado de meu Pai, e quem me ama guarda os meus mandamentos, e eu o amarei e me manifestarei a ele" — esta os ímpios não a verão. Esta manifestação é, de certo modo, familiar: Ele a reserva para os seus, não a mostrará aos ímpios. De que natureza é essa mesma visão? De que natureza é Cristo? Igual ao Pai. De que natureza é Cristo? "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." Por esta visão suspiramos agora, e gememos enquanto aqui peregrinamos; a esta visão seremos, por fim, conduzidos à pátria; esta visão, agora, vemo-la apenas obscuramente. Se, pois, agora vemos obscuramente, "inclinemos o nosso ouvido à parábola", e depois "mostremos ao som da harpa a nossa proposição": ouçamos o que dizemos, façamos o que ordenamos.
6. E que disse ele? "E por que temerei no dia mau? A iniquidade do meu calcanhar me cercará" (v. 5). Começa por algo obscuro. Portanto, deveria antes temer, se a iniquidade do seu calcanhar houver de cercá-lo. Mas não; pois que não tema, diz ele, o homem que não tem poder de escapar. Por exemplo, aquele que teme a morte, que fará para escapar da morte? Diga-me ele como há de escapar do que Adão deve, aquele que nasce de Adão. Mas considere que nasceu de Adão, e seguiu a Cristo, e deve pagar o que Adão deve, e alcançar o que Cristo prometeu. Portanto, quem teme a morte de modo algum pode escapar; mas quem teme a condenação que os ímpios hão de ouvir — "Ide para o fogo eterno" — tem como escapar. Que não tema, pois. Pois por que temeria? Há de cercá-lo a iniquidade do seu calcanhar? Se, pois, evitar "a iniquidade do seu calcanhar", e andar nos caminhos de Deus, não chegará ao dia mau: o dia mau, o último dia, não lhe será mau. ... Ora, enquanto vivem, acautelem-se a si mesmos, afastem a iniquidade do seu calcanhar; andem naquele caminho, andem no caminho do qual Ele mesmo diz: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"; e não temam no dia mau, pois lhes dá segurança Aquele que se fez "o Caminho". Evitem, pois, a iniquidade do seu calcanhar. Pelo calcanhar o homem escorrega. Observe a vossa Caridade. Que foi dito por Deus à serpente? "Ela vigiará a tua cabeça, e tu vigiarás o seu calcanhar." O diabo vigia o teu calcanhar, para que, quando escorregares, ele te derrube. Ele vigia o teu calcanhar; vigia tu a cabeça dele. Que é a cabeça dele? O início de uma sugestão má. Quando ele começa a sugerir pensamentos maus, repele-o tu antes que nasça o prazer, e se lhe siga o consentimento; e assim evitarás a cabeça dele, e ele não agarrará o teu calcanhar. Mas por que disse Ele isto a Eva? Porque é pela carne que o homem escorrega. A nossa carne é uma Eva dentro de nós. "Quem ama a sua mulher", diz ele, "ama a si mesmo." Que significa "a si mesmo"? Prossegue, e diz: "Pois nunca ninguém odiou a sua própria carne." Porque, pois, o diabo nos faria escorregar pela carne, assim como fez escorregar aquele homem, Adão, por meio de Eva; a Eva é ordenado que vigie a cabeça do diabo, porque o diabo vigia o seu calcanhar. "Se, pois, a iniquidade do nosso calcanhar houver de nos cercar, por que temeremos no dia mau", visto que, convertidos a Cristo, podemos não cometer iniquidade; e nada haverá que nos cerque, e nos alegraremos, e não nos entristeceremos, no último dia?
7. Mas quem são aqueles a quem "a iniquidade do seu calcanhar há de cercar"? "Os que confiam na sua virtude, e na abundância das suas riquezas se gloriam" (v. 6). Tais pecados, pois, evitarei eu, e a "iniquidade do meu calcanhar" jamais me cercará. Que é evitar tais pecados? Não confiemos na nossa própria virtude, não nos gloriemos na abundância das nossas próprias riquezas, mas glorifiquemo-nos naquele que nos prometeu, sendo humildes, a exaltação, e que ameaçou de condenação os homens exaltados; e então a iniquidade do nosso calcanhar jamais nos cercará.
8. Há alguns que confiam nos amigos, outros que confiam na virtude, outros nas riquezas. Esta é a presunção do gênero humano que não se apoia em Deus. Falou da virtude, falou das riquezas, fala agora dos amigos. "O irmão não redime; redimirá o homem?" (v. 7). Esperas tu que o homem te redima da ira que há de vir? Se o irmão não te redime, redimir-te-á o homem? Quem é o irmão que, se Ele não te redimiu, nenhum homem te redimirá? É Aquele que disse, após a sua ressurreição: "Ide, dizei a meus irmãos." Quis Ele ser o nosso Irmão: e quando dizemos a Deus "Pai nosso", isto se manifesta em nós. Pois quem diz a Deus "Pai nosso" diz a Cristo "Irmão". Que aquele, pois, que tem Deus por Pai e Cristo por Irmão, não tema no dia mau. "Pois a iniquidade do seu calcanhar não o cercará"; pois não se apoia na sua virtude, nem se gloria na abundância das suas riquezas, nem se vangloria dos seus amigos poderosos. Apoie-se n'Aquele que morreu por ele, para que não morresse eternamente; que por sua causa foi humilhado, a fim de que ele fosse exaltado; que o buscou ímpio, para que fosse buscado por ele fiel. Portanto, se Ele não redime, redimirá o homem? Redimirá algum homem, se o Filho do homem não redime? Se Cristo não redime, redimirá Adão? "O irmão não redime; redimirá o homem?"
9. "Não dará a Deus a sua propiciação, nem o preço da redenção da sua alma" (v. 8). Confia na sua virtude, e na abundância das suas riquezas se gloria, quem "não dará a Deus a sua propiciação": isto é, a satisfação com que possa prevalecer junto a Deus pelos seus pecados; "nem o preço da redenção da sua alma", quem se apoia na sua virtude, e nos seus amigos, e nas suas riquezas. Mas quem são os que dão o preço da redenção das suas almas? Aqueles a quem o Senhor diz: "Fazei para vós amigos com o Mamom da iniquidade, para que vos recebam nos tabernáculos eternos." Dão o preço da redenção da sua alma os que não cessam de fazer esmolas. Assim, aqueles a quem o Apóstolo ordena por meio de Timóteo, não queria que fossem soberbos, para que não se gloriassem na abundância das suas riquezas. Enfim, não queria que aquilo que possuíam envelhecesse em suas mãos, mas que algo se fizesse disso, para que fosse o preço da redenção das suas almas. Pois diz: "Ordena aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem confiem nas riquezas incertas, mas em Deus vivo, que nos dá abundantemente todas as coisas para delas gozarmos." E, como se tivessem dito: "Que faremos, pois, das nossas riquezas?", prossegue: "Sejam ricos em boas obras, prontos a repartir, dispostos a comunicar", e não as perderão. Como o sabemos? Ouçamos o que se segue. "Que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que alcancem a verdadeira vida." Assim darão o preço da redenção da sua alma. E o Senhor nosso aconselha isto: "Fazei para vós bolsas que não envelhecem, tesouro nos céus que não falta, onde não se aproxima o ladrão, nem a traça corrompe." Deus não quer que percas a tua riqueza, mas te deu o conselho de mudares o lugar dela. Entenda a vossa caridade. Suponde que o vosso amigo entrasse agora na vossa casa, e encontrasse que havíeis colocado a vossa provisão de grão em lugar úmido, e ele conhecesse a natural propensão do grão a apodrecer, o que porventura tu não sabias; ele te daria um conselho deste tipo, dizendo: "Irmão, estás perdendo o que com grande trabalho ajuntaste; colocaste-o em lugar úmido, em poucos dias este grão apodrecerá." "E que hei de fazer, irmão?" "Levanta-o para um lugar mais alto." Ouvirias o teu amigo sugerindo que levantasses o grão de uma câmara inferior para uma superior, e não ouves a Cristo, que te ordena que levantes o teu tesouro da terra para o céu, onde não te seja pago o que guardas em depósito, mas onde possas guardar em depósito a terra, e receber o céu, guardar em depósito as coisas mortais, e receber as eternas, de modo que, emprestando a Cristo para receberes de tuas mãos apenas um pequeno empréstimo na terra, Ele te retribua uma grande recompensa no Céu? Contudo, aqueles a quem "a iniquidade do seu calcanhar há de cercar", porque confiam na sua virtude, e na abundância das suas riquezas se gloriam, e se apoiam em amigos humanos que em nada podem ajudá-los, "não darão a Deus a sua propiciação, nem o preço da redenção das suas almas."
10. E que disse ele de tal homem? "Sim, trabalhou para sempre, e viverá até o fim" (v. 9). O seu trabalho será sem fim, a sua vida terá fim. Por que diz ele: "viverá até o fim"? Porque tais homens pensam que a vida não é senão os prazeres cotidianos. Assim, quando muitos pobres e necessitados dos nossos tempos, instáveis, e não atentando para o que Deus lhes promete pelos seus trabalhos, veem os ricos em banquetes diários, no esplendor e no brilho do ouro e da prata, que dizem? "Só estes são gente; estes é que vivem de fato!" Isto é um dito que já não se diga mais: nós vos advertimos, e nos resta advertir-vos, para que seja dito por menos pessoas do que seria dito, se não vos tivéssemos advertido. Pois não presumimos dizer estas palavras de modo que não sejam ditas de forma alguma, mas que sejam ditas por menos pessoas: pois se dirão até o fim do mundo. É pouco que diga: "ele vive"; acrescenta e diz, troveja — pensas tu que só ele vive? Que viva! A sua vida terá fim; porque não dá o preço da redenção da sua alma, a sua vida terá fim, o seu trabalho não terá fim. "Trabalhou para sempre, e viverá até o fim." Como viverá até o fim? Como viveu aquele que "se vestia de púrpura e de linho fino, e se banqueteava esplendidamente todos os dias", o qual, soberbo e inchado, desprezava o homem cheio de chagas que jazia diante do seu portão, cujas chagas os cães lambiam, e que ansiava pelas migalhas que caíam da sua mesa. De que lhe aproveitaram aquelas riquezas? Ambos trocaram de lugar: um foi levado da porta do rico para o seio de Abraão, o outro dos seus fartos banquetes foi lançado no fogo; um estava em paz, o outro ardia; um estava saciado, o outro tinha sede; um trabalhara até o fim, mas viveu para sempre; o outro vivera até o fim, mas trabalhou para sempre. E de que aproveitou ao rico, que pediu, jazendo em tormentos no inferno, que uma gota de água lhe fosse derramada sobre a língua do dedo de Lázaro, dizendo: "Pois ardo aqui nesta chama", e não lhe foi concedido? Um ansiava pela gota do dedo, como o outro pelas migalhas da mesa do rico; mas o trabalho de um tem fim, e a vida do outro tem fim: o trabalho deste é para sempre, a vida daquele é para sempre. Nós, que porventura trabalhamos aqui na terra, não temos aqui a nossa vida, e não estaremos assim colocados depois, pois a nossa vida será Cristo para sempre: enquanto aqueles que "quiserem" ter a sua vida aqui, trabalharão para sempre e viverão até o fim.
11. "Pois não verá a morte, ainda que tenha visto morrer os sábios" (v. 10). O homem que trabalhou para sempre e viverá até o fim "não verá a morte, ainda que tenha visto morrer os sábios." Que é isto? Não compreenderá o que é a morte, ainda quando tiver visto morrer os sábios. Pois diz consigo mesmo: "este, com toda a sua sabedoria, e por ter vivido com a sabedoria, e adorado a Deus com piedade, acaso não morreu? Portanto, gozarei enquanto viver; pois se os que noutros aspectos são sábios pudessem fazer algo, não teriam morrido." Assim como os judeus viram Cristo pendente na cruz e O desprezaram, dizendo: "Se este é o Filho de Deus, desça da cruz" — não vendo o que é a morte. Se tivessem visto o que é a morte; se tivessem visto, digo, que Ele morreu por um tempo, para viver de novo para sempre; eles viveram por um tempo, para morrer para sempre. Mas porque O viram morrer, não viram a morte, isto é, não entenderam o que era, na verdade, a morte. Que dizem eles, mesmo no livro da Sabedoria? "Condenemo-lo a uma morte vergonhosíssima, pois, pelas suas próprias palavras, será respeitado"; pois se ele é de fato o Filho de Deus, O livrará das mãos dos seus adversários: não permitirá que o seu Filho morra, se é verdadeiramente seu Filho. Mas quando se viram a insultá-lo na cruz, e Ele não descia da cruz, disseram: Era, de fato, apenas um homem. Assim foi dito: e certamente Ele poderia ter descido da cruz, Ele que pôde ressuscitar do sepulcro; mas nos ensinou a suportar aqueles que nos insultam; ensinou-nos a ser pacientes com as línguas dos homens, a beber agora o cálice da amargura, e depois receber a salvação eterna. ...
12. "O imprudente e o insensato perecerão juntos." Quem é "o imprudente"? Aquele que não provê para si o futuro. Quem é "o insensato"? Aquele que não percebe em que má situação se encontra. Percebe tu, porém, em que má situação te encontras agora, e provê para que estejas em boa situação no futuro. Percebendo em que má situação te encontras, não serás insensato; provendo para ti mesmo o futuro, não serás imprudente. Quem é aquele que provê para si mesmo? Aquele servo a quem o seu senhor deu o que devia despender, e depois lhe disse: "Não podes mais ser meu administrador, presta contas da tua administração"; e que respondeu: "Que farei? Cavar não posso, mendigar tenho vergonha"; e que, contudo, mesmo com os bens do seu senhor, fez para si amigos, que o pudessem receber quando fosse destituído da sua administração. Ora, ele enganou o seu senhor a fim de conseguir para si amigos que o recebessem; não temas tu enganar assim, pois o próprio Senhor te exorta a isso: Ele mesmo te diz: "Fazei para vós amigos com o mamom da iniquidade." Talvez o que possuis, o tenhas obtido da iniquidade; ou talvez isto mesmo seja iniquidade, que tu tenhas e outro não tenha, que tu abundes e outro necessite. Deste mamom da iniquidade, destas riquezas que os iníquos chamam riquezas, faze para ti amigos, e serás prudente: estás ganhando para ti, e não enganando. Pois agora parece que o perdes. Perdê-lo-ás, se o colocares num tesouro? Pois os meninos, meus irmãos, mal encontram algum dinheiro com que comprar algo, logo o põem num cofre, que não abrem senão depois: acaso, porque não veem o que obtiveram, o perdem por isso? Não temas: os meninos põem num cofre, e estão seguros: e tu, colocando-o na mão de Cristo, temes? Sê prudente, e provê para ti mesmo, para o futuro, no Céu. Sê, pois, prudente, imita a formiga, como diz a Escritura: "Ajunta no verão, para que não tenhas fome no inverno"; o inverno é o último dia, o dia da tribulação; o inverno é o dia das ofensas e da amargura: ajunta o que ali te há de servir para o futuro; mas, se não o fizeres, perecerás, imprudente e insensato.
13. Mas também aquele rico morreu, e semelhante funeral se lhe fez. Vede a que ponto os homens se reduziram: não atentam para a vida perversa que ele levou enquanto viveu, mas para a pompa que o seguiu quando morreu! Ó feliz aquele que tantos choram! Mas o outro viveu de tal modo, que poucos o choram. Quando, na verdade, todos deveriam chorar um homem que vive tão tristemente. Mas eis o cortejo fúnebre; é recebido em túmulo custoso, é envolto em vestes preciosas, é sepultado em perfumes e especiarias. Além disso, que monumento ele tem! Quão marmóreo! Acaso vive nesse mesmo monumento? Nele está morto. Os homens, julgando que estas são coisas boas, desviaram-se de Deus, e não buscaram os verdadeiros bens, e foram enganados pelos falsos. Para isto, vede o que se segue. Aquele que não deu o preço da redenção da sua alma, que não compreendeu a morte, porque viu morrer os sábios, tornou-se imprudente e insensato, para morrer juntamente com eles. E como hão de perecer aqueles que "deixarão as suas riquezas a estranhos"? ...
14. Mas acaso servem-nos de fato esses mesmos estranhos, que são chamados seus? Ouvi em que os servem, observai como são escarnecidos; por que disse ele "a estranhos"? Porque não lhes podem fazer bem algum. Contudo, em que lhes parece a si mesmos fazer bem? "E os seus túmulos serão a sua casa para sempre" (v. 11). Ora, porque estes túmulos são erguidos, os túmulos são uma casa. Pois muitas vezes ouves um rico dizer: tenho uma casa de mármore, que hei de deixar, e não penso, para mim, numa casa eterna, onde hei de estar sempre. Quando pensa em fazer para si um monumento de mármore ou de escultura, está, por assim dizer, cogitando de uma casa eterna: como se ali este rico houvesse de permanecer! Se ali houvesse de permanecer, não arderia no inferno. Devemos considerar que o lugar onde permanece o espírito do malfeitor não é aquele onde é depositado o corpo mortal: mas "os seus túmulos serão a sua casa para sempre. As suas moradas são de geração em geração." As "moradas" são aquelas em que habitaram por algum tempo; a "casa" é aquela em que hão de permanecer como que para sempre, isto é, os seus túmulos. Assim, deixam as suas moradas, onde habitaram enquanto viveram, às suas famílias, e passam, por assim dizer, para casas eternas, para os seus túmulos. De que lhes aproveitam "as suas moradas, de geração em geração"? Suponhamos que uma geração e outra geração são filhos; haverá netos, e bisnetos; de que lhes servem as suas moradas, de que lhes aproveitam? De quê? Ouvi: "invocarão os seus nomes nas suas terras." Que é isto? Levarão pão e vinho aos seus túmulos, e ali invocarão os nomes dos mortos. Consideras tu quão alto foi invocado o nome do rico depois da sua morte, quando os homens se embriagavam junto ao seu monumento, e não caía uma só gota sobre a sua própria língua ardente? Os homens servem ao seu próprio ventre, não aos espíritos dos seus amigos. Nada alcança as almas dos mortos, senão o que elas mesmas fizeram enquanto vivas: mas, se nada fizeram de si mesmas enquanto vivas, nada as alcança depois de mortas. Mas que fazem os sobreviventes? Apenas "invocarão os seus nomes nas suas terras."
"E o homem, posto que estivesse em honra, não o compreendeu; foi comparado aos animais irracionais, e feito semelhante a eles" (v. 12). ...Deviam, ao contrário, ter preparado para si uma casa eterna em boas obras, ter preparado para si a vida eterna, ter enviado adiante de si os seus gastos, ter feito seguir as suas obras, ter ministrado a um companheiro necessitado, ter dado àquele com quem caminhavam, não ter desprezado a Cristo coberto de chagas diante de seu portão, Ele que disse: "Na medida em que o fizestes a um destes meus menores irmãos, a Mim o fizestes." Contudo, "o homem, estando em honra, não compreendeu." Que significa "estar em honra"? Feito à imagem e semelhança de Deus, o homem é preferido aos animais. Pois Deus não fez o homem como fez o animal; mas Deus fez o homem para que os animais o servissem — será, pois, quanto à força, e não quanto ao entendimento? De modo algum. Mas ele "não compreendeu"; e aquele que foi feito à imagem de Deus "é comparado aos animais irracionais, e feito semelhante a eles." Donde se diz noutro lugar: "Não sejais como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento."
16. "Este seu próprio caminho lhes é escândalo" (v. 13). Que seja escândalo para eles, não para ti. Mas quando o será também para ti? Se pensares que tais homens são bem-aventurados. Se percebes que não são bem-aventurados, o seu próprio caminho será escândalo para eles mesmos; não para Cristo, não para o Seu Corpo, não para os Seus membros. "E depois bendirão com sua boca." Que significa "depois bendirão com sua boca"? Ainda que se tenham tornado tais que nada buscam senão os bens temporais, tornam-se, contudo, hipócritas: e quando bendizem a Deus, bendizem com os lábios, e não com o coração. Cristãos como estes, quando lhes é recomendada a vida eterna, e lhes é dito que, em nome de Cristo, devem ser desprezadores das riquezas, fazem trejeitos em seus corações: e, se não ousam fazê-lo a face descoberta, por vergonha, ou por temor de serem repreendidos pelos homens, fazem-no todavia no coração, e escarnecem; e permanece em sua boca a bênção, e em seu coração a maldição.
A Segunda Parte.
1. "Como ovelhas postas no inferno, a morte é o seu pastor" (v. 14). De quem? Daqueles cujo caminho lhes é tropeço a si mesmos. De quem? Daqueles que só se importam com as coisas presentes, e não pensam nas coisas futuras: daqueles que não pensam em nenhuma vida, senão naquela que deve chamar-se morte. Não sem razão, pois, como ovelhas no inferno, têm a morte por pastor. Que significa "têm a morte por pastor"? Pois é a morte alguma coisa, ou algum poder? Sim: a morte é ou a separação da alma do corpo, ou a separação da alma de Deus; e aquilo que os homens temem é, de fato, a separação da alma do corpo; mas a verdadeira morte, que os homens não temem, é a separação da alma de Deus. E amiúde, quando os homens temem aquilo que separa a alma do corpo, caem naquilo em que a alma se separa de Deus. Esta, pois, é a morte. Mas como "a morte é seu pastor"? Se Cristo é a vida, o diabo é a morte. Mas lemos em muitos lugares da Escritura que Cristo é a vida. O diabo, porém, é a morte, não porque ele mesmo seja a morte, mas porque por meio dele vem a morte. Pois quer aquela morte na qual Adão caiu lhe tenha sido dada a beber por persuasão dele, quer aquela em que a alma se separa do corpo, ainda assim o têm por autor dela, ele que, primeiro caindo pela soberba, invejou aquele que estava firme, e derrubou, com morte invisível, aquele que se mantinha firme, a fim de fazê-lo pagar a morte visível. Aqueles que lhe pertencem têm a morte por pastor: mas nós, que pensamos na futura imortalidade, e não sem razão trazemos na fronte o sinal da Cruz de Cristo, não temos outro pastor senão a vida. Dos incrédulos, a morte é o pastor; dos crentes, a vida é o pastor. Se, pois, no inferno estão as ovelhas cujo pastor é a morte, no céu estão as ovelhas cujo pastor é a vida. Que, pois? Estamos nós já agora no céu? No céu estamos pela fé. Pois se não no céu, onde está o "Elevai o coração"? Se não no céu, donde vem, com o Apóstolo Paulo, "Pois a nossa conversação está nos céus"? No corpo caminhamos na terra, no coração habitamos no céu. Ali habitamos, se para ali enviarmos algo que ali nos retenha. Pois ninguém habita no coração, senão onde está o pensamento; e o seu pensamento está ali onde está o seu tesouro. Se tesourizou na terra, o seu coração não se aparta da terra; se tesourizou no céu, o seu coração do céu não desce; pois o Senhor diz claramente: "Onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração."
2. Aqueles, pois, cujo pastor é a morte, parecem florescer por um tempo, e os justos parecem labutar: mas por quê? Porque ainda é noite. Que significa "é noite"? Os méritos dos justos ainda não aparecem, e a felicidade dos injustos tem, por assim dizer, um nome. Enquanto é inverno, a erva parece mais verde que a árvore. Pois a erva floresce durante o inverno, a árvore está como que seca durante o inverno: quando, no verão, o sol vier com maior ardor, a árvore, que parecia seca no inverno, irrompe em folhas e dá frutos, mas a erva murcha: verás a honra da árvore, a erva estará seca. Assim também agora os justos labutam, antes que venha o verão. Há vida na raiz, ainda não aparece nos ramos. Ora, a nossa raiz é a caridade. E que diz o Apóstolo? Que devemos ter a nossa raiz no alto, a fim de que a vida seja o nosso pastor, porque a nossa morada não deve deixar o céu, porque nesta terra devemos caminhar como que mortos; de modo que, vivendo no alto, embaixo estejamos mortos; não de modo que, estando mortos no alto, vivamos embaixo. ...O nosso labor aparecerá pela manhã, e haverá fruto pela manhã: de sorte que os que agora labutam hão de reinar depois, e os que agora se ufanam e se ensoberbecem hão de ser depois subjugados. Pois que se segue? "Como ovelhas postas no inferno, a morte é o seu pastor; e os justos reinarão sobre eles pela manhã."
3. Suporta tu a noite, anseia pela manhã. Não penses que, porque a noite tem vida, a manhã não a tenha. Pois vive aquele que dorme, e não vive aquele que se levanta? Não é aquele que dorme mais semelhante à morte? E quem são os que dormem? Aqueles a quem o Apóstolo Paulo desperta, se apenas quiserem acordar. Pois a alguns diz: "Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará." Aqueles, pois, que são iluminados por Cristo velam agora, mas o fruto de suas vigílias ainda não aparece: pela manhã aparecerá, isto é, quando as coisas duvidosas deste mundo tiverem passado. Pois estas são a própria noite: acaso não te parecem trevas? ...Mas aqueles sobre quem os homens pisaram, e que foram escarnecidos por crer, ouvirão da própria Vida, que têm por pastor: "Vinde, benditos de Meu Pai, recebei o reino que vos foi preparado desde a fundação do mundo." Portanto, os justos "reinarão sobre eles," não agora, mas "pela manhã." Ninguém diga: Por que sou cristão? Não domino a ninguém, eu quereria dominar os ímpios. Não te apresses, hás de reinar, mas "pela manhã." "E o socorro deles envelhecerá no inferno, longe da sua glória." Agora têm glória; no inferno hão de envelhecer. Que é "o socorro deles"? Socorro do dinheiro, socorro dos amigos, socorro do seu próprio poder. Mas quando o homem morrer, "naquele dia perecerão todos os seus pensamentos." Quão grande glória parecia ter entre os homens enquanto viveu, tão grande decrepitude e decadência de castigos há de ter, quando estiver morto no inferno.
4. "Contudo, Deus remirá a minha alma" (v. 15). Eis a voz daquele que espera no futuro: "Contudo, Deus remirá a minha alma." Talvez seja a voz de alguém que ainda deseja ser livre da opressão. Alguém está no cárcere, diz ele: "Deus remirá a minha alma"; alguém está preso, "Deus remirá a minha alma"; alguém sofre perigo no mar, é açoitado pelas ondas e por tempestades furiosas, que diz ele? "Deus remirá a minha alma." Estes desejariam ser livres por causa desta vida. Não é tal a voz deste homem. Ouve o que se segue: "Deus remirá a minha alma da mão do inferno, quando me houver recebido." Fala ele desta redenção, que Cristo agora mostra em Si mesmo. Pois desceu ao inferno, e subiu aos céus. O que vimos na Cabeça, encontramo-lo no Corpo. Pois o que cremos na Cabeça, aqueles que o viram no-lo disseram, e por eles nós o vimos: "Porque somos" todos "um só corpo." Mas são eles melhores por ouvirem, e piores nós, a quem foi dito? Não é assim que diz a própria Vida, o próprio Pastor. Pois Ele repreende certo discípulo Seu, que duvidava e desejava tocar as Suas chagas, e, depois que tocou as chagas e exclamou dizendo: "Meu Senhor e meu Deus," vendo o Seu discípulo duvidar, e olhando para o mundo inteiro que estava para crer: "Porque Me viste," diz Ele, "creste: bem-aventurados os que não veem, e creem." "Mas Deus remirá a minha alma da terra do inferno, quando me houver recebido." Que há, pois, aqui? Labor, opressão, tribulação, tentação: não esperes outra coisa. Onde está o gozo? Na esperança futura. ...
5. ...Talvez diga o teu coração: Miserável de mim, suponho que em vão cri, Deus não olha para as coisas humanas. Deus, pois, nos desperta: e que diz Ele? "Não temas, ainda que um homem se tenha enriquecido" (v. 16). Pois por que temias, porque um homem se enriqueceu? Temias que houvesses crido em vão, que talvez perdesses o fruto de tua fé e a esperança de tua conversão: porque, talvez, te tenha vindo ao caminho um ganho com culpa, e pudesses ter-te enriquecido, se te apoderasses desse mesmo ganho com a culpa, e não tivesses necessidade de labutar; e tu, lembrando-te do que Deus ameaçou, te abstiveste da culpa, e desprezaste o ganho: vês outro homem que fez ganho por meio da culpa, e não sofreu dano algum; e temes ser bom. "Não temas," diz-te o Espírito de Deus, "ainda que um homem se tenha enriquecido." Quererias não ter olhos senão para as coisas presentes? As coisas futuras prometeu Aquele que ressuscitou; paz neste mundo, e repouso nesta vida, Ele não prometeu. Todo homem busca o repouso; uma coisa boa está ele buscando, mas não na sua devida região a está buscando. Não há paz nesta vida; no Céu foi prometido aquilo que na terra buscamos: no mundo vindouro foi prometido aquilo que neste mundo buscamos.
6. "Não temas, ainda que um homem se enriqueça, e ainda que se multiplique a glória de sua casa." Por que "não temas"? "Porque, quando morrer, nada levará consigo" (v. 17). Vês-lo vivo, considera-o morrendo. Notas o que ele tem aqui, nota o que leva consigo. Que leva ele consigo? Tem abundância de ouro, tem abundância de prata, numerosas propriedades, escravos: morre, estas coisas ficam, e ele não sabe para quem. Pois, ainda que as deixe a quem quiser, não as guarda para quem quiser. Pois muitos ganharam mesmo o que não lhes foi deixado, e muitos perderam o que lhes foi deixado. Todas estas coisas, pois, ficam, e ele leva consigo o quê? Talvez alguém diga: Leva consigo aquilo em que é envolto, e aquilo que se gasta com ele num túmulo custoso e de mármore; erguer um monumento, isto leva consigo. Digo eu: nem isto sequer. Pois estas coisas lhe são oferecidas sem que ele as sinta. Se enfeitas um homem que dorme e não está acordado, ele tem os enfeites consigo no leito; talvez os enfeites repousem sobre o corpo dele, ali deitado, e talvez ele se veja em trapos durante o sono. O que ele sente vale mais para ele do que o que não sente. Ainda que isto, quando despertar, já não será; mas para ele, dormindo, aquilo que viu em sonho valia mais do que aquilo que não sentia. Por que, pois, irmãos, dizem os homens a si mesmos: Que se gaste dinheiro à minha morte; por que deixo ricos os meus herdeiros? Muitas coisas terão eles do que é meu, tenha também eu algo meu para o meu corpo. Que terá um corpo morto? Que terá a carne apodrecendo? Que terá a carne que já não sente? Se aquele rico tinha algo, cuja língua estava seca, então o homem tem algo seu. Meus irmãos, lemos nós no Evangelho que este rico apareceu no fogo com cobertas de seda finíssima e de linho? Era ele tal no inferno como era nos banquetes à mesa? Quando tinha sede e desejava uma gota, todas aquelas coisas ali não estavam. Portanto, o homem não leva consigo coisa alguma, nem o morto leva consigo o que o sepultamento leva. Pois onde há sentimento, ali está o homem; onde não há sentimento, ali não está o homem. Ali jaz caído o vaso que continha o homem, a casa que abrigava o homem. Ao corpo chamemos a casa, ao espírito chamemos o habitante da casa. O espírito é atormentado no inferno: que lhe aproveita que o corpo jaza em especiarias e perfumes, envolto em linhos custosos? É como se o senhor da casa fosse mandado para o exílio, e tu enfeitasses as paredes da sua casa. Ele, no exílio, está em necessidade, e desfalece de fome, mal encontra para si um casebre onde possa roubar um sono, e tu dizes: "Feliz é ele, pois a sua casa foi enfeitada." Quem não julgaria que ou estavas brincando ou estavas louco? Enfeitas o corpo, o espírito é atormentado. Dá algo ao espírito, e terás dado algo ao morto. Mas que lhe darás tu, quando ele desejou uma gota e não a recebeu? Pois o homem desdenhou de enviar algo adiante de si. Por que desdenhou? "Porque este seu caminho lhes é escândalo." Não se importava senão com a vida presente, não pensava senão em como seria sepultado, envolto em vestes custosas. A sua alma lhe foi tirada, como diz o Senhor: "Louco, esta noite te será tirada a tua alma, e de quem serão as coisas que preparaste?" E cumpre-se o que diz este Salmo: "Não temas, ainda que um homem se enriqueça, e ainda que se multiplique a glória de sua casa: porque, quando morrer, nada levará consigo, nem descerá com ele a sua glória."
7. Observe a vossa caridade: "Pois a sua alma será bendita em sua vida" (v. 18). Enquanto viveu, fez bem a si mesmo. Isto dizem todos os homens, mas dizem-no falsamente. É uma bênção que vem da mente de quem bendiz, não da própria verdade. Pois que dizes tu? Porque comeu e bebeu, porque fez o que quis, porque banqueteou-se suntuosamente, portanto fez bem a si mesmo. Digo eu: fez mal a si mesmo. Não sou eu que o digo, mas Cristo. Fez mal a si mesmo. Pois aquele rico, quando se banqueteava suntuosamente todos os dias, supunha-se que fazia bem a si mesmo: mas quando começou a arder no inferno, então aquilo que se supunha bem se revelou mal. Pois o que havia comido com os homens no alto, digeriu-o no inferno embaixo. Falo da iniquidade, irmãos, de que ele costumava banquetear-se. Comia banquetes custosos com a boca da carne; com a boca do coração comia iniquidade. O que comia com a boca do coração, entre os homens no alto, digeriu-o entre aqueles castigos nos lugares de baixo. E, na verdade, comera por um tempo, digeriu mal por toda a eternidade. Come-se, pois, a iniquidade? Talvez alguém diga: que é isto que ele diz? Iniquidade comida? Não sou eu que o digo: ouvi a Escritura: "Como a uva verde é tormento para os dentes, e a fumaça para os olhos, assim é a iniquidade para os que dela usam." Pois aquele que houver comido a iniquidade, isto é, aquele que houver tido a iniquidade de bom grado, não poderá comer a justiça. Pois a justiça é pão. Quem é o pão? "Eu sou o pão vivo que desceu do céu." Ele mesmo é o pão do nosso coração. ...Come-se, pois, também a justiça? Se não se comesse, o Senhor não teria dito: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça." Portanto, "pois a sua alma será bendita na vida," na vida "será" bendita, na morte será atormentada. ...
8. "Ele te confessará, quando lhe fizeres bem." Não sejais tais, irmãos: vede como, para isto dizemos estas palavras, para isto cantamos, para isto tratamos, para isto labutamos — não façais estas coisas. O vosso negócio vos põe à prova: às vezes, em vossos negócios, ouvis a verdade, e blasfemais. Blasfemais da Igreja. Por quê? Porque sois cristãos. "Se assim é, passo-me para o partido de Donato: serei pagão." Por quê? Porque comeste o pão, e os dentes doem. Quando viste o próprio pão, louvaste; começas a comer, e os dentes doem; isto é, quando ouvias a Palavra de Deus, louvavas: quando te é dito "Faze isto," blasfemas: não faças tão mal; dize antes: "O pão é bom, mas não posso comê-lo." Mas agora, se vês com os olhos, louvas: quando começas a cerrar os dentes, dizes: "Mau é este pão, e semelhante a quem o fez." Assim acontece que confessas a Deus, quando Deus te faz bem, e mentes quando cantas: "Bendirei sempre a Deus, o seu louvor estará sempre em minha boca." Como sempre? Se sempre há ganho, sempre Ele é bendito; se algumas vezes há perda, Ele não é bendito, mas blasfemado. Na verdade bendizes sempre, na verdade o seu louvor está sempre em tua boca! Serás tal como agora mesmo ele descreve: "Ele te confessará, quando lhe fizeres bem."
9. "Entrará até às gerações de seus pais" (v. 19): isto é, imitará seus pais. Pois os ímpios que agora existem têm irmãos, têm pais. Os ímpios de outrora são os pais dos de agora; e os que agora são ímpios são os pais da posteridade ímpia: assim como os pais dos justos, os justos de outrora, são os pais dos justos que agora são; e os que agora são, são os pais dos que hão de ser. O Espírito Santo quis mostrar que a justiça não é má, ainda que os homens murmurem contra ela: mas estes homens têm o seu pai desde o princípio, até a geração de seus pais. Dois homens gerou Adão, e num havia iniquidade, noutro havia justiça: iniquidade em Caim, justiça em Abel. Parecia a iniquidade prevalecer sobre a justiça, porque Caim, o iníquo, matou a Abel, o justo, na noite. Será assim também pela manhã? Não, "mas os justos reinarão sobre eles pela manhã." Virá a manhã, e ver-se-á onde está Abel, e onde está Caim. Assim todos os homens que vêm depois de Caim, e assim todos os que vêm depois de Abel, até o fim do mundo. "Entrará até às gerações de seus pais: para sempre não verá a luz." Porque, mesmo quando aqui estava, estava nas trevas, comprazendo-se em falsos bens, e não amando os verdadeiros bens: assim também há de ir daqui para o inferno: das trevas dos seus sonhos, hão de recebê-lo as trevas dos tormentos. Portanto, "para sempre não verá a luz."
Mas por que isto? O que ele escreveu no meio do Salmo, o mesmo também escreveu no final: "O homem, posto que estivesse em honra, não entendeu; foi comparado às bestas insensatas, e feito semelhante a elas" (v. 20). Vós, porém, irmãos, considerai que sois homens feitos à imagem e semelhança de Deus. A imagem de Deus está dentro, não está no corpo; não está nestes ouvidos que vedes, nem nos olhos, nem nas narinas, nem no paladar, nem nas mãos, nem nos pés; mas está feita, contudo, naquilo em que há o intelecto, naquilo em que há a mente, naquilo em que há o poder de descobrir a verdade, naquilo em que há a vossa fé, naquilo em que há a vossa esperança, naquilo em que há a vossa caridade; ali tem Deus a Sua Imagem: ali ao menos percebeis e vedes que estas coisas passam; pois assim disse ele em outro Salmo: "Ainda que o homem ande em uma imagem, contudo se inquieta em vão: amontoa tesouros, e não sabe para quem os há de ajuntar." Não vos inquieteis, pois de qualquer natureza que sejam estas coisas, são transitórias, se sois homens que, estando em honra, entendeis. Pois se, sendo homens em honra, não entendeis, sois comparados às bestas insensatas, e feitos semelhantes a elas.
1. Quanto vale a Palavra de Deus para nós na correção de nossa vida, tanto quanto às recompensas a serem esperadas como quanto às penas a serem temidas, meça cada um em si mesmo; e ponha diante dos seus olhos a sua consciência sem engano, e não se lisonjeie a si mesmo em perigo tão grande: pois vedes que nem mesmo o próprio Senhor nosso Deus lisonjeia a ninguém: ainda que nos console prometendo as Suas bênçãos, e fortalecendo a nossa esperança; contudo, aos que vivem mal e desprezam a Sua palavra, certamente não poupa. Examine-se cada um enquanto é tempo, e veja onde está, e ou persevere no bem, ou se mude do mal. Pois, como diz neste Salmo, não qualquer homem, nem qualquer anjo, mas: "O Senhor, o Deus dos deuses, falou" (v. 1). Mas, ao falar, que fez Ele? "Chamou a terra desde o nascente do sol até o poente." Aquele que "chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente" é o Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, "o Verbo feito Carne," a fim de que habitasse em nós. O Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, é o "Deus dos deuses"; porque por Ele mesmo foram feitas todas as coisas, e sem Ele nada foi feito. O Verbo de Deus, se Ele é Deus, é verdadeiramente o Deus dos deuses; mas se Ele é Deus, o Evangelho responde: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." E se todas as coisas foram feitas por Ele mesmo, como diz na sequência, então, se alguns foram feitos deuses, por Ele mesmo foram feitos. Pois o único Deus não foi feito, e Ele mesmo, só, é verdadeiramente Deus. Mas o próprio único Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, é um só Deus.
2. Mas então, quem são esses deuses, ou onde estão, dos quais Deus é o verdadeiro Deus? Outro Salmo diz: "Deus se pôs de pé na sinagoga dos deuses, mas no meio julga os deuses." Ainda não sabemos se, porventura, alguns deuses estejam congregados no céu, e em sua congregação — pois isto é "na sinagoga" — Deus se pôs de pé para julgar. Vede, no mesmo Salmo, aqueles a quem diz: "Eu disse: Vós sois deuses, e filhos do Altíssimo todos vós; mas morrereis como homens, e caireis como um dos príncipes." É evidente, então, que chamou de deuses os homens que são deificados por Sua Graça, não nascidos de Sua Substância. Pois Ele justifica, que é justo por Si mesmo, e não por outro; e Ele deifica, que é Deus por Si mesmo, não pela participação de outro. Mas Aquele que justifica, o próprio deifica, porquanto, justificando, faz filhos de Deus. "Pois Ele lhes deu poder para se tornarem filhos de Deus." Se fomos feitos filhos de Deus, também fomos feitos deuses: mas isto é efeito da Graça que adota, não da natureza que gera. Pois o único Filho de Deus, Deus, e um só Deus com o Pai, o Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, era no princípio o Verbo, e o Verbo com Deus, o Verbo Deus. Os demais que são feitos deuses são feitos por Sua própria Graça, não nascidos de Sua Substância, para que fossem o mesmo que Ele, mas para que por favor viessem a Ele, e fossem co-herdeiros de Cristo. Pois tão grande é o amor n'Ele, o Herdeiro, que quis ter co-herdeiros. Que homem cobiçoso quereria isto, ter co-herdeiros? Mas mesmo o que se acha querer assim, partilhará com eles a herança, tendo o partilhante menos para si do que se a possuísse sozinho: mas a herança na qual somos co-herdeiros de Cristo não é diminuída pela multidão de possuidores, nem se torna mais estreita pelo número de co-herdeiros: mas é tão grande para muitos quanto para poucos, tão grande para cada um quanto para todos. "Vede," diz o Apóstolo, "que amor nos concedeu Deus, que fôssemos chamados, e sejamos, filhos de Deus." E em outro lugar: "Amadíssimos, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser." Estamos, pois, em esperança, ainda não em substância. "Mas sabemos," diz ele, "que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, pois O veremos como Ele é." O Único Filho é semelhante a Ele por geração; nós, semelhantes por visão. Pois não somos semelhantes da mesma maneira que Ele, que é o mesmo que Aquele por quem foi gerado: pois nós somos semelhantes, não iguais: Ele, porque é igual, por isso é semelhante. Ouvimos quem são os deuses que, sendo feitos, são justificados, porque são chamados filhos de Deus: e quem são os deuses que não são deuses, para quem o Deus dos deuses é terrível? Pois outro Salmo diz: "Ele é terrível sobre todos os deuses." E como se perguntasses, que deuses? Ele diz: "Pois todos os deuses das nações são demônios." Aos deuses das nações, aos demônios, é terrível; aos deuses feitos por Ele mesmo, aos filhos, é amável. Além disso, acho ambos confessando a Majestade de Deus: os demônios confessaram a Cristo, e os fiéis confessaram a Cristo. "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo," disse Pedro. "Sabemos quem Tu és, Tu és o Filho de Deus," disseram os demônios. Uma confissão semelhante ouço, mas amor semelhante não acho; antes, aqui amor, ali temor. Àqueles a quem, pois, é amável, esses são filhos; àqueles a quem é terrível, não são filhos; àqueles a quem é amável, esses fez deuses; àqueles a quem é terrível, prova que não são deuses. Pois estes são feitos deuses, aqueles são reputados deuses; estes a Verdade faz deuses, aqueles o erro assim os considera.
3. "O Deus," portanto, "dos deuses, o Senhor falou" (v. 1). Falou de muitas maneiras. Por Anjos falou Ele mesmo, por Profetas falou Ele mesmo, por Sua própria boca falou Ele mesmo, por Seus fiéis fala Ele mesmo, por nossa pequenez, quando dizemos algo verdadeiro, fala Ele mesmo. Vede, pois, que, falando diversamente, de muitas maneiras, por muitos vasos, por muitos instrumentos, contudo Ele mesmo ressoa em toda parte, tocando, moldando, inspirando: vede o que fez. Pois "falou, e chamou o mundo." Que mundo? A África, talvez! por causa daqueles que dizem que a Igreja de Cristo é a porção de Donato. A África, na verdade, sozinha Ele não chamou, mas tampouco a África separou. Pois Aquele que "chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente," não deixando de fora nenhuma parte que não tenha chamado, em Seu chamado achou a África. Regozije-se, pois, na unidade, não se orgulhe na divisão. Dizemos bem que a voz do Deus dos deuses chegou até mesmo à África, não permaneceu na África. Pois "chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente." Não há lugar onde possam esconder-se as conspirações dos hereges; não têm lugar onde se ocultem sob a sombra da falsidade; pois "não há quem se possa esconder do seu calor." Aquele que chamou o mundo, chamou até mesmo o mundo inteiro: Aquele que chamou o mundo, chamou tanto quanto formou. Por que se levantam contra mim falsos cristos e falsos profetas? por que se esforçam por enredar-me com palavras capciosas, dizendo: "Eis aqui está o Cristo, eis ali está Ele!" Não escuto os que apontam porções: o Deus dos deuses apontou o todo: Aquele "que chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente" redimiu o todo; mas condenou os que falsamente reclamam porções.
4. Mas ouvimos o mundo chamado desde o nascente do sol até o poente: donde começa a chamar Aquele que chamou? Ouvi também isto: "De Sião é o resplendor de Sua beleza" (v. 2). Evidentemente o Salmo concorda com o Evangelho, que diz: "Por todas as nações, começando por Jerusalém." Ouvi: "Por todas as nações": "chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente." Ouvi: "Começando por Jerusalém": "De Sião é o resplendor de Sua beleza." Portanto, "chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente" concorda com as palavras do Senhor, que diz: "Convinha que o Cristo padecesse, e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia; e que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados por todas as nações." Pois todas as nações são desde o nascente do sol até o poente. Mas isto, "De Sião é o resplendor de Sua beleza," que dali começa a beleza de Seu Evangelho, que dali começou a ser pregado, sendo "belo em formosura mais que os filhos dos homens," concorda com as palavras do Senhor, que diz: "Começando por Jerusalém." As coisas novas concordam com as antigas, as antigas com as novas: os dois Serafins dizem um ao outro: "Santo, santo, santo, Senhor Deus dos Exércitos." Os dois Testamentos concordam ambos, e os dois Testamentos têm uma só voz: ouça-se a voz concorde dos Testamentos, não a dos pretensiosos deserdados. Isto, pois, fez o Deus dos deuses: "chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente, indo adiante Seu resplendor desde Sião." Pois naquele lugar estavam Seus discípulos, que receberam o Espírito Santo enviado do céu no quinquagésimo dia após Sua ressurreição. Dali o Evangelho, dali a pregação, dali o mundo inteiro se encheu, e isto na Graça da Fé.
5. Pois quando o próprio Senhor tinha vindo, porque veio para padecer, veio oculto: e ainda que fosse forte em Si mesmo, apareceu na carne fraco. Pois convinha que aparecesse para que não fosse percebido; que fosse desprezado, para que fosse morto. Havia semelhança de glória na divindade, mas jazia oculta na carne. "Pois se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória." Assim, pois, andava oculto entre os judeus, entre Seus inimigos, fazendo maravilhas, sofrendo males, até que foi pendurado no madeiro, e os judeus, vendo-O pendurado, tanto mais O desprezavam, e diante da Cruz, meneando as cabeças, diziam: "Se Ele é o Filho de Deus, desça da Cruz." Oculto, pois, estava o Deus dos deuses, e proferiu palavras mais por compaixão de nós do que por Sua própria majestade. Pois donde, senão assumidas de nós, vieram aquelas palavras: "Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste"? Mas quando abandonou o Pai o Filho, ou o Filho o Pai? Não são o Pai e o Filho um só Deus? Donde, então, "Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste," senão porque na Carne da fraqueza se reconhecia a voz do pecador? Pois, como tomou sobre Si a semelhança da carne do pecado, por que não tomaria sobre Si a voz do pecado? Oculto, pois, estava o Deus dos deuses, tanto quando andava entre os homens, quanto quando teve fome, e quando teve sede, e quando, fatigado, se assentou, e quando, com o corpo cansado, dormiu, e quando foi preso, e quando foi açoitado, e quando esteve diante do juiz, e quando lhe respondeu, em sua soberba: "Nenhum poder terias contra Mim, se não te fosse dado do alto"; e enquanto era levado como vítima, "diante do que o tosquia, não abriu a boca," e enquanto era crucificado, e enquanto era sepultado, era sempre o oculto Deus dos deuses. O que aconteceu depois que ressuscitou? Os discípulos se maravilharam, e a princípio não creram, até que tocaram e apalparam. Mas a carne tinha ressuscitado, porque a carne tinha morrido: a Divindade, que não podia morrer, ainda jazia oculta na carne d'Aquele que ressuscitava. A forma podia ser vista, os membros segurados, as cicatrizes apalpadas: o Verbo, por quem todas as coisas foram feitas, quem O vê? quem O segura? quem O apalpa? E, contudo, "o Verbo se fez carne, e habitou entre nós." E Tomé, que segurava o Homem, entendeu a Deus tanto quanto pôde. Pois, tendo apalpado as cicatrizes, exclamou: "Meu Senhor, e meu Deus." Contudo, o Senhor mostrava aquela forma, e aquela carne, que tinham visto na Cruz, que tinha sido posta no sepulcro. Permaneceu com eles quarenta dias. ...Mas o que se disse a Tomé, ao apalpar? "Porque viste, creste; bem-aventurados os que não veem, e creem." Fomos preditos. Aquele mundo chamado desde o nascente do sol até o poente não vê, e crê. Oculto, pois, é o Deus dos deuses, tanto para aqueles entre os quais andava, quanto para aqueles por quem foi crucificado, quanto para aqueles diante de cujos olhos ressuscitou, quanto para nós, que cremos n'Ele, assentado no céu, a quem não vimos andando na terra. Mas ainda que víssemos, não veríamos acaso o que os judeus viram e crucificaram? É maior mérito não ver e crer que Cristo é Deus, do que, vendo, julgá-lo apenas homem, como eles fizeram. Eles, em suma, pensando mal, mataram; nós, crendo bem, somos vivificados.
8. "E grande tempestade ao redor d'Ele" (v. 3). "Grande tempestade," para joeirar tão grande eira. Nesta tempestade haverá aquela joeira pela qual dos santos será afastado tudo o que é impuro, dos fiéis toda irrealidade; dos homens piedosos e dos que temem a Palavra de Deus, todo escarnecedor e todo soberbo. Pois agora jaz ali uma espécie de mistura, desde o nascente do sol até o poente. Vejamos, pois, como fará Aquele que há de vir, o que fará com aquela tempestade que "será grande tempestade ao redor d'Ele." Sem dúvida, esta tempestade há de fazer uma espécie de separação. É aquela separação que não esperaram aqueles que romperam as redes, antes de chegarem à terra. Mas nesta separação faz-se uma espécie de distinção entre homens bons e maus. Há alguns que agora seguem a Cristo com ombros aliviados, sem a carga dos cuidados do mundo, que não ouviram em vão: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá aos pobres, e terás tesouro no céu: e vem, segue-Me"; aos quais se diz: "Vós vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel." Alguns, pois, hão de julgar com o Senhor: mas outros hão de ser julgados, mas colocados à direita. Pois que haverá alguns julgando com o Senhor, temos testemunho evidentíssimo, que ainda agora citei: "Vós vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel." ...
9. Mas o que o Senhor fez depois de Sua ressurreição significou o que há de ser para nós depois de nossa ressurreição, naquele número do reino dos céus, onde não haverá homem mau. ...Por fim, aqueles sete mil, dos quais se respondeu a Elias: "Deixei-me sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal," excedem em muito aquele número de peixes. Portanto, os cento e cinquenta e três peixes não expressam apenas tal número de santos, mas a Escritura expressa o número total de santos e justos por número tão grande, por razão particular: a saber, a fim de que naqueles cento e cinquenta e três se entenda tudo o que pertence à ressurreição para a vida eterna. Pois a Lei tem dez mandamentos: mas o Espírito da Graça, pelo qual somente a Lei se cumpre, é chamado sétuplo. O número, pois, deve ser examinado, o que significam dez e sete: dez nos mandamentos, sete na graça do Espírito Santo: por cuja graça os mandamentos se cumprem. Dez e sete, pois, contêm tudo o que pertence à ressurreição, à direita, ao reino dos céus, à vida eterna, isto é, os que cumprem a Lei pela Graça do Espírito, não como que por obra própria ou por mérito próprio. Mas dez e sete, se contares de um até dezessete, somando todos os números por graus, de modo que a um acrescentes dois, acrescentes três, acrescentes quatro, para que se tornem dez, acrescentando cinco para que se tornem quinze, acrescentando seis para que se tornem vinte e um, acrescentando sete para que se tornem vinte e oito, acrescentando oito para que se tornem trinta e seis, acrescentando nove para que se tornem quarenta e cinco, acrescentando dez para que se tornem cinquenta e cinco, acrescentando onze para que se tornem sessenta e seis, acrescentando doze para que se tornem setenta e oito, acrescentando treze para que se tornem noventa e um, acrescentando catorze para que se tornem cento e cinco, acrescentando quinze para que se tornem cento e vinte, acrescentando dezesseis para que se tornem cento e trinta e seis, acrescentando dezessete, perfaz cento e cinquenta e três; acharás que um vasto número de todos os santos pertence a este número de poucos peixes. Do mesmo modo, pois, como em cinco virgens, virgens incontáveis; como em cinco irmãos daquele que era atormentado no inferno, milhares do povo dos judeus; como no número de cento e cinquenta e três peixes, milhares de milhares de santos: assim em doze tronos, não doze homens, mas é grande o número dos perfeitos.
10. Mas vejo o que a seguir se nos requer; do mesmo modo que no caso das cinco virgens se deu razão de por que muitas haveriam de pertencer a cinco, e por que a essas cinco muitos judeus, e por que a cento e cinquenta e três muitos perfeitos — mostrar por que e como aos doze tronos não doze homens, mas muitos pertencem. Que significam os doze tronos, que significam todos os homens em toda parte que puderam ser tão perfeitos quanto devem ser perfeitos, a quem se diz: "Vos assentareis sobre as doze tribos de Israel"? E por que todos os homens em toda parte pertencem ao número doze? Porque o próprio "em toda parte" que dizemos, dizemo-lo do mundo inteiro: mas a extensão das terras se contém em quatro partes particulares, Oriente, Ocidente, Sul e Norte: de todas estas partes, sendo chamados na Trindade e feitos perfeitos na fé e no preceito da Trindade — pois três vezes quatro são doze —, percebeis por que os santos pertencem ao mundo inteiro; os que se assentarão sobre doze tronos para julgar as doze tribos de Israel, visto que as doze tribos de Israel são também as doze tribos de todo o Israel. Pois assim como os que hão de julgar são de todo o mundo, assim também os que hão de ser julgados são de todo o mundo. O Apóstolo Paulo, quando repreendia leigos crentes, porque não levavam suas causas à Igreja, mas as arrastavam com aqueles com quem tinham questões perante o público, disse de si mesmo: "Não sabeis que havemos de julgar os anjos?" Vede de que modo Ele Se fez juiz: não somente a si mesmo, mas também a todos os que julgam retamente na Igreja.
6. Que, pois, irmãos? Este Deus dos deuses, tanto então oculto quanto agora oculto, há de ser sempre oculto? Evidentemente não: ouvi o que se segue: "Deus virá manifesto" (v. 3). Aquele que veio oculto virá manifesto. Oculto veio para ser julgado, manifesto virá para julgar: oculto veio para estar diante de um juiz, manifesto virá para ser juiz mesmo dos juízes: "virá manifesto, e não se calará." Mas por quê? Está Ele agora calado? E donde vêm todas as palavras que dizemos? donde aqueles preceitos? donde aquelas admoestações? donde aquela trombeta de terror? Não se cala, e se cala: não se cala quanto à admoestação, cala-se quanto à vingança: não se cala quanto ao preceito, cala-se quanto ao juízo. Pois suporta diariamente os pecadores fazendo coisas más, sem cuidar de Deus, nem em sua consciência, nem no céu, nem na terra: todas estas coisas não Lhe escapam, e universalmente admoesta a todos; e sempre que castiga alguém na terra, é admoestação, ainda não condenação. Cala-se, pois, quanto ao juízo, está oculto no céu, ainda intercede por nós: é longânimo para com os pecadores, não desferindo Sua ira, mas aguardando a penitência. Diz em outro lugar: "Calei-me, hei de calar-Me sempre?" Quando, pois, não mais Se calar, "Deus virá manifesto." Que Deus? "Nosso Deus." E o próprio Deus, que é nosso Deus: pois não é Deus quem não é nosso Deus. Pois os deuses das nações são demônios: o Deus dos cristãos é o verdadeiro Deus. Ele mesmo virá, mas "manifesto," não mais para ser escarnecido, não mais para ser esbofeteado e açoitado: virá, mas "manifesto," não mais para ser ferido com uma cana na cabeça, não mais para ser crucificado, morto, sepultado: pois todas estas coisas, Deus oculto quis sofrer. "Virá manifesto, e não se calará."
7. Mas que virá para o juízo, ensinam as palavras seguintes. "O fogo irá adiante d'Ele." Temeremos? Mudemo-nos, e não temeremos. Tema a palha o fogo: que faz ele ao ouro? O que podes fazer está agora em teu poder, para que não experimentes, por falta de correção, o que há de vir mesmo contra tua vontade. Pois se pudéssemos assim conseguir, irmãos, que o dia do juízo não viesse; penso que nem ainda assim nos conviria viver mal. Se o fogo do dia do juízo não houvesse de vir, e sobre os pecadores impendesse apenas a separação da face de Deus, em qualquer abundância de delícias em que estivessem, não O vendo, por quem foram criados, e separados daquela doçura de Seu inefável semblante, em qualquer eternidade e impunidade do pecado, deveriam lamentar-se. Mas que direi, ou a quem direi? Isto é castigo para os que amam, não para os que desprezam. Os que começaram a sentir em algum grau a doçura da sabedoria e da verdade sabem o que digo, quão grande castigo é ser apenas separado da face de Deus: mas os que não provaram aquela doçura, se ainda não anseiam pela face de Deus, temam ao menos o fogo; aterrem os castigos aqueles a quem as recompensas não ganham. De nada te vale o que Deus promete, treme diante do que Ele ameaça. A doçura de Sua presença virá; tu não te mudas, não despertas, não suspiras, não almejas: abraças teus pecados e as delícias de tua carne, amontoas para ti a palha, o fogo virá. "O fogo arderá diante d'Ele." Este fogo não será como o fogo de teu lar, no qual, contudo, se fores compelido a lançar tua mão, farás tudo o que quiser aquele que te ameaça com esta alternativa. Se ele te disser: "escreve contra a vida de teu pai, escreve contra a vida de teus filhos, pois se não o fizeres, lançarei tua mão em teu fogo": tu o farás para que tua mão não se queime, para que teu membro não se queime por um tempo, ainda que não haja de estar sempre em dor. Teu inimigo, pois, ameaça mal tão leve, e fazes o mal; Deus ameaça mal eterno, e não farás o bem? A fazer o mal, nem mesmo ameaças te deveriam compelir: de fazer o bem, nem mesmo ameaças te deveriam deter. Mas pelas ameaças de Deus, pelas ameaças do fogo eterno, és dissuadido do mal, convidado ao bem. Por que te aflige isto, senão porque não crês? Examine, pois, cada um o seu coração, e veja o que a fé ali sustém. Se cremos em um juízo por vir, irmãos, vivamos bem. Agora é tempo de misericórdia, então será tempo de juízo. Ninguém dirá: "Chama-me de volta aos meus anos passados." Ainda então os homens se arrependerão, mas se arrependerão em vão: agora haja arrependimento, enquanto há fruto de arrependimento; agora se aplique às raízes da árvore um cesto de esterco, dor de coração e lágrimas; para que Ele não venha e arranque pelas raízes. Pois quando Ele tiver arrancado, então há de se esperar o fogo. Agora, ainda que os ramos tenham sido quebrados, podem novamente ser enxertados; então, "toda árvore que não dá bom fruto será cortada, e lançada no fogo." "O fogo arderá diante d'Ele."
11. Sendo, pois, evidente que muitos hão de julgar com o Senhor, mas que outros hão de ser julgados, não porém em igualdade, mas segundo seus merecimentos; virá Ele com todos os Seus Anjos, quando diante d'Ele se ajuntarem todas as nações, e entre todos os Anjos hão de contar-se aqueles que foram feitos tão perfeitos que, assentados sobre doze tronos, julgam as doze tribos de Israel. Pois os homens são chamados anjos: o Apóstolo diz de si mesmo: "Como a um anjo de Deus me recebestes." De João Batista se diz: "Eis que envio Meu Anjo diante de Tua face, que preparará Teu caminho diante de Ti." Portanto, vindo com todos os Anjos, terá consigo também os Santos. Pois claramente diz também Isaías: "Virá a juízo com os anciãos do povo." Aqueles "anciãos do povo," pois, aqueles há pouco chamados Anjos, aqueles milhares de muitos homens feitos perfeitos, vindos de todo o mundo, são chamados Céu. Mas os outros são chamados terra, contudo fecunda. Qual é a terra que é fecunda? Aquela que há de ser posta à direita, à qual se dirá: "Tive fome, e Me destes de comer": verdadeiramente terra fecunda, na qual o Apóstolo se alegra, quando lhe enviaram para suprir suas necessidades: "Não porque peça um dom," diz ele, "mas porque requeiro fruto." E dá graças, dizendo: "Porque, enfim, reflorescestes em cuidar de mim." Diz: "Reflorescestes," como que a árvores que haviam murchado com uma espécie de esterilidade. Portanto, vindo o Senhor ao juízo (para que agora ouçamos o Salmo, irmãos), que fará? "Chamará o céu do alto" (v. 4). O céu, todos os Santos, aqueles feitos perfeitos que hão de julgar, a esses chamará do alto, para que se assentem com Ele a julgar as doze tribos de Israel. Pois como "chamará o céu do alto," se o céu está sempre no alto? Mas aqueles a quem aqui chama céu, aos mesmos, em outro lugar, chama céus. Que céus? Os que contam a glória de Deus: pois "os céus contam a glória de Deus": dos quais se diz: "Por toda a terra saiu o seu som, e até os confins do mundo as suas palavras." Vede, pois, o Senhor separando no juízo: "Chamará o céu do alto e a terra, para separar o Seu povo." De quem, senão dos maus? Dos quais aqui, depois, não se faz menção, agora como que condenados ao castigo. Vede estes bons, e distingui. "Chamará o céu do alto, e a terra, para separar o Seu povo." Chama também a terra, não, porém, para ser associada, mas para ser dissociada. Pois primeiro os chamou juntos, "quando o Deus dos deuses falou e chamou o mundo desde o nascente do sol até o poente," ainda não tinha separado: aqueles servos tinham sido enviados para convidar às núpcias, os quais haviam ajuntado bons e maus. Mas quando o Deus dos deuses vier manifesto e não guardar silêncio, chamará o "céu do alto" de modo que julgue com Ele. Pois o que é o céu, os próprios céus o são; assim como o que é a terra, as próprias terras o são; assim como o que é a Igreja, as próprias Igrejas o são: "Chamará o céu do alto, e a terra, para separar o Seu povo." Ora, com o céu separa a terra, isto é, o céu com Ele separa a terra. Como separa a terra? De tal modo que põe alguns à direita, outros à esquerda. Mas à terra separada, que diz Ele? "Vinde, benditos de Meu Pai, recebei o reino que vos foi preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e Me destes de comer," e assim por diante. Mas eles dizem: "Quando Te vimos com fome?" E Ele: "Porquanto o fizestes a um destes Meus pequeninos, a Mim o fizestes." "Chamará, pois, o céu do alto, e a terra, para separar o Seu povo."
12. "Ajuntai-Lhe os Seus justos" (v. 5). A voz divina e profética, vendo as coisas futuras como se presentes, exorta os Anjos que ajuntam. Pois Ele enviará os Seus Anjos, e diante d'Ele se ajuntarão todas as nações. Ajuntai-Lhe os Seus justos. Que justos, senão aqueles que vivem da fé e fazem obras de misericórdia? Pois aquelas obras são obras de justiça. Tens o Evangelho: "Guardai-vos de fazer a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos por eles." E como se perguntassem: Que justiça? "Quando, pois, deres esmola," diz Ele. Portanto, significou que as esmolas são obras de justiça. Essas mesmas pessoas ajuntam para os Seus justos: ajuntam aqueles que tiveram compaixão do "necessitado," que consideraram o necessitado e o pobre: ajuntai-os, "o Senhor os preserve, e os faça viver"; "Ajuntai-Lhe os Seus justos: que ordenam Sua aliança acima dos sacrifícios": isto é, que pensam nas Suas promessas mais do que nas coisas que operam. Pois aquelas coisas são sacrifícios, dizendo Deus: "Misericórdia quero, e não sacrifício." "Que guardam Sua aliança mais do que sacrifício."
"E os céus anunciarão a sua justiça" (v. 6). Verdadeiramente esta justiça de Deus para conosco os "céus a anunciaram", os Evangelistas a predisseram. Por meio deles ouvimos que alguns estarão à direita, aos quais o Pai de família diz: "Vinde, benditos de Meu Pai, recebei." Receber o quê? "Um reino." Em troca de quê? "Tive fome, e destes-Me de comer." Que coisa há tão sem valor, tão terrena, como repartir o pão ao faminto? Por tanto se avalia o reino dos céus. "Reparte o teu pão ao faminto, e recolhe em tua casa o necessitado sem abrigo; se vires um nu, veste-o." Se não tens com que repartir o pão, se não tens casa em que possas recolhê-lo, se não tens veste com que possas cobri-lo: dá um copo de água fria, lança duas moedas no tesouro. Tanto compra a viúva com duas moedas, quanto compra Pedro deixando as redes, quanto compra Zaqueu dando a metade de seus bens. De tanto vale tudo quanto possuis. "Os céus anunciarão a sua justiça, porque Deus é o Juiz." Verdadeiramente Juiz que não confunde, mas separa. Pois "o Senhor conhece os que são Seus." Ainda que os grãos jazam ocultos na palha, são conhecidos do lavrador. Que ninguém tema ser grão ainda que entre a palha; os olhos do nosso joeirador não se enganam. Não temas que aquela tempestade, que estará em torno d'Ele, te confunda com a palha. Certamente poderosa será a tempestade; contudo nem um só grão arrebatará do lado do trigo para o da palha: porque não é rústico algum com forcado de três dentes, mas Deus, Três em Um, é o Juiz. E os céus anunciarão a sua justiça: porque Deus é o Juiz. Que vão os céus, que os céus o anunciem, que a todas as terras saia o seu som, e até os confins do mundo as suas palavras: e que aquele corpo diga: "Desde os confins do mundo a Ti clamei, quando o meu coração estava em angústia." Pois agora, misturado, geme; separado, se alegrará. Que clame, pois, e diga: "Não destruas a minha alma com os ímpios, nem a minha vida com os homens de sangue." Ele não destrói em conjunto, porque Deus é o Juiz. Que clame a Ele e diga: "Julga-me, ó Senhor, e separa a minha causa da nação ímpia": que diga: Ele o fará: junto a Ele se congregarão os Seus justos. Chamou a terra para que separe o Seu povo.
14. "Ouve, meu povo, e Eu falarei a ti" (v. 7). Ele virá e não guardará silêncio; vede como, já agora, se ouvis, Ele não se cala. Ouve, meu povo, e Eu falarei a ti. Pois se não ouves, não falarei a ti. "Ouve, e Eu falarei a ti." Pois se não ouves, ainda que Eu fale, não será a ti. Quando, pois, falarei a ti? Se ouvires. Quando ouves? Se és meu povo. Pois: "Ouve, meu povo": não ouves se és povo estranho. "Ouve, meu povo, e Eu falarei a ti: Israel, e Eu testificarei a ti." ...Pois "teu Deus" propriamente se diz àquele homem a quem Deus guarda mais como a um dos Seus, como que em Sua própria casa, como que em Sua peculiar posse: "Teu Deus sou Eu." Que mais queres? Requeres de Deus uma recompensa, de modo que Deus te dê algo, de modo que o que te tiver dado seja teu próprio? Eis que o próprio Deus, que há de dar, é teu próprio. Que há mais rico do que Ele? Dons desejavas, tens o próprio Doador. "Deus, teu Deus, sou Eu."
15. Que Ele requer do homem, vejamos; que tributo o nosso Deus, o nosso Imperador e o nosso Rei nos impõe; visto que quis ser o nosso Rei, e quis que fôssemos a Sua província? Ouçamos os Seus preceitos. Não trema o pobre sob o preceito de Deus: o que Deus preceitua que se dê a Si mesmo, Ele mesmo, que o preceitua, primeiro o deu: sede vós somente devotos. Deus não exige o que não deu, e a todos os homens deu o que exige. Pois que exige Ele? Ouçamos agora: "Não te repreenderei por causa dos teus sacrifícios" (v. 8). Não te direi: Por que não Me imolaste um touro gordo? Por que não escolheste o melhor bode do teu rebanho? Por que aquele carneiro anda solto entre as tuas ovelhas, e não é posto sobre o Meu altar? Não direi: Examina os teus campos e o teu aprisco e os teus muros, buscando o que possas dar-Me. "Não te repreenderei por causa dos teus sacrifícios." Que, pois? Não aceitas os meus sacrifícios? "Mas os teus holocaustos estão sempre diante de Mim" (v. 9). Certos holocaustos acerca dos quais se diz em outro Salmo: "Se desejasses sacrifício, decerto o teria dado; com holocaustos não Te comprazerás:" e novamente se volta: "Sacrifício a Deus é o espírito atribulado, o coração contrito e humilhado Deus não despreza." Quais são, pois, os holocaustos que Ele não despreza? Quais holocaustos que estão sempre diante d'Ele? "Benignamente, ó Senhor," diz ele, "age em Tua boa vontade com Sião, e sejam edificados os muros de Jerusalém, então aceitarás o sacrifício de justiça, as oblações e os holocaustos." Diz que certos holocaustos Deus aceitará. Mas que é um holocausto? Um todo consumido pelo fogo: causis é queimar, holon é todo: mas "holocausto" é um todo consumido pelo fogo. Há um certo fogo do mais ardente amor: que a mente se inflame de amor, que esse mesmo amor arraste os membros ao seu uso, que não lhes permita servir à cupidez, a fim de que inteiramente ardamos com o fogo do amor divino, que oferecerá a Deus um holocausto. Tais "holocaustos teus estão diante de Mim sempre."
16. Ainda talvez aquele Israel não entenda quais sejam os holocaustos que Ele tem sempre diante de Si, e ainda pense em bois, em ovelhas, em bodes: não pense assim: "Não aceitarei os bezerros da tua casa." Nomeei holocaustos; logo, em mente e pensamento, para os rebanhos terrenos corrias, deles selecionando para Mim alguma coisa gorda: "Não aceitarei os bezerros da tua casa." Está predizendo o Novo Testamento, no qual todos aqueles sacrifícios cessaram. Pois eles então prediziam um certo Sacrifício que havia de ser, com cujo Sangue seríamos purificados. "Não aceitarei os bezerros da tua casa, nem os bodes dos teus rebanhos."
17. "Pois meus são todos os animais do bosque" (v. 10). Por que Eu haveria de pedir-te o que Eu fiz? É mais teu, a quem dei para possuir, do que Meu, que o fiz? "Pois meus são todos os animais do bosque." Mas talvez aquele Israel diga: Os animais são de Deus, aquelas feras que não encerro no meu aprisco, que não prendo ao meu estábulo; mas este boi e a ovelha e o bode — estes são meus próprios. "Gado no monte, e bois." Meus são os que não possuis, meus são estes que possuis. Pois se és Meu servo, toda a tua propriedade é Minha. Pois não pode ser que seja propriedade do senhor o que o servo adquiriu para si, e no entanto não seja propriedade do Senhor o que o próprio Senhor criou para o servo. Portanto, Meus são os animais do bosque que não tomaste; Meus são também os gados nos montes que são teus, e os bois que estão no teu estábulo: todos são Meus próprios, pois Eu os criei.
18. "Conheço todas as aves do céu" (v. 11). Como conhece Ele? Pesou-as, contou-as. Qual de nós conhece todas as aves do céu? Mas ainda que a algum homem Deus dê o conhecimento de todas as aves do céu, Ele mesmo não conhece do mesmo modo como faz o homem conhecer. Uma coisa é o conhecimento de Deus, outra o do homem: do mesmo modo que uma é a posse de Deus, outra a do homem: isto é, uma coisa é o possuir de Deus, outra o do homem. Pois o que possuis não tens inteiramente em teu poder, do contrário teu boi, enquanto vive, estaria em teu poder; de modo que ou não morresse, ou não precisasse ser alimentado. Onde há o poder supremo, aí há o supremo e mais secreto conhecimento. Atribuamos isto a Deus, louvando a Deus. Não ousemos dizer: Como conhece Deus? Não espereis de mim, irmãos, vos peço, que vos desvende como Deus conhece: isto somente digo, Ele não conhece como o homem conhece, não conhece como o Anjo conhece: e como conhece, não ouso dizê-lo, porque tampouco o posso perceber. Uma coisa, contudo, percebo: que já antes que todas as aves do céu existissem, Deus conhecia o que havia de criar. Que conhecimento é esse? Ó homem, tu começas a ver depois de teres sido formado, depois de teres recebido o sentido da visão. Estas aves surgiram da água à palavra de Deus, que disse: "Que as águas produzam aves." Por onde conheceu Deus as coisas que ordenou à água que produzisse? Ora, certamente Ele conhecia o que havia criado, e antes de criar, já conhecia. Tão grande é, pois, o conhecimento de Deus, que consigo mesmo elas estavam, de certo modo inefável, antes de serem criadas: e de ti espera Ele receber o que já tinha, antes de criar? "Conheço todas as aves do céu," que tu a Mim não podes dar. As coisas que estavas para Me imolar, conheço-as todas: não porque as fiz é que as conheço, mas para que as fizesse. "E a beleza do campo está Comigo." A formosura do campo, a abundância de todas as coisas que germinam sobre a terra, "está Comigo," diz Ele. Como está com Ele? Estavam elas assim já antes de serem feitas? Sim, pois com Ele estavam todas as coisas futuras, e com Ele estão todas as coisas passadas: futuras de tal modo, que não se lhe subtraiam todas as coisas passadas. Com Ele estão todas as coisas por um certo conhecimento da inefável sabedoria de Deus que reside no Verbo, e o próprio Verbo é todas as coisas. Não está de certo modo a beleza do campo com Ele, visto que Ele está em toda parte, e Ele mesmo disse: "Encho o céu e a terra"? O que não está com Ele, de quem se diz: "Se subir ao céu, lá estás Tu; e se descer ao inferno, ali estás presente"? Com Ele está o todo: mas não está com Ele de modo que sofra alguma contaminação daquilo que criou, ou alguma falta delas. Pois contigo, talvez, há uma coluna junto à qual estás, e quando estás cansado, te encostas a ela. Tu precisas do que está contigo; Deus não precisa do campo que está com Ele. Com Ele está o campo, com Ele a beleza da terra, com Ele a beleza do céu, com Ele todas as aves, porque Ele mesmo está em toda parte. E por que estão todas as coisas próximas d'Ele? Porque, ainda antes que todas as coisas fossem, ou fossem criadas, todas as coisas Lhe eram conhecidas.
19. Quem pode explicar, quem pode expor o que Lhe é dito em outro Salmo: "Pois dos meus bens não precisas"? Disse que não precisa de nós de nenhuma coisa necessária. "Se tiver fome, não to direi" (v. 12). Aquele que guarda Israel não terá fome nem sede, nem se cansará, nem adormecerá. Mas eis que falo segundo a tua carnalidade: porque tu sofres fome quando não comeste, talvez penses que também Deus tem fome para que coma. Ainda que tivesse fome, não to diria: todas as coisas estão diante d'Ele, donde quer que Ele toma o que Lhe é necessário. Estas palavras se dizem para convencer o pouco entendimento; não que Deus tenha declarado a Sua fome. Ainda que, por nossa causa, este Deus dos deuses se dignou até ter fome. Veio para ter fome, e para saciar; veio para ter sede, e dar de beber; veio para se revestir de mortalidade, e revestir de imortalidade; veio pobre, para enriquecer. Pois não perdeu as Suas riquezas ao tomar sobre Si a nossa pobreza, pois "nEle estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento." "Se tiver fome, não to direi. Pois Meu é o mundo inteiro, e a sua plenitude." Não te afadigues, pois, para achar o que Me dar, sem cuja ajuda tenho o que quero.
20. Por que, então, ainda pensas nos teus rebanhos? "Comerei Eu a carne de touros, ou beberei o sangue de bodes?" (v. 13). Ouvistes o que Ele não requer de nós, Ele que quer impor-nos algo. Se em tais coisas pensáveis, retirai agora os vossos pensamentos de tais coisas: não penseis oferecer a Deus coisa alguma assim. Se tens um touro gordo, mata-o para os pobres: que comam a carne dos touros, ainda que não hão de beber o sangue dos bodes. O que, quando o tiveres feito, Aquele que disse "Se tiver fome, não to direi" to atribuirá a bem: e te dirá: "Tive fome, e Me deste de comer." "Comerei Eu a carne de touros, ou beberei o sangue de bodes?"
21. Dize, pois, Senhor nosso Deus, que impões ao Teu povo, ao Teu Israel? "Imola a Deus o sacrifício de louvor" (v. 14). Digamos também nós a Ele: "Em mim, ó Deus, estão os teus votos, os quais Te renderei em prosa." Eu temia que talvez me impusesses algo que estivesse fora do meu poder, algo que eu contava ter no meu aprisco, e que agora, talvez, um ladrão já tivesse levado. Que me impões Tu? "Imola a Deus o sacrifício de louvor." Deixa-me voltar a mim mesmo, onde possa achar o que hei de imolar: deixa-me voltar a mim mesmo; em mim mesmo possa eu achar a imolação do louvor: seja a minha consciência o Teu altar. Estamos sem ansiedade, não vamos à Arábia em busca de incenso: nenhuma bolsa de mercador cobiçoso peneiramos: Deus requer de nós o sacrifício de louvor. Zaqueu tinha o sacrifício de louvor no seu patrimônio; a viúva o tinha na sua bolsa; algum pobre hospedeiro ou outro o teve no seu vaso; outro, nem no patrimônio, nem na bolsa, nem no vaso, tinha coisa alguma, tinha-o inteiramente no coração: a salvação veio à casa de Zaqueu; e mais lançou esta pobre viúva do que aqueles ricos: este homem, que oferece um copo de água fria, não perderá a sua recompensa: mas há também "paz na terra aos homens de boa vontade." "Imola a Deus o sacrifício de louvor: e rende ao Altíssimo as tuas preces." Com este odor o Senhor se compraz.
22. "E invoca-Me tu no dia da tua tribulação: e Eu te arrancarei dela, e tu Me glorificarás" (v. 15). Pois não deves confiar em tuas próprias forças; todos os teus auxílios são enganosos. "A Mim invoca tu no dia da tribulação: Eu te arrancarei, e tu Me glorificarás." Pois para isto permiti que o dia da tribulação viesse a ti: porque talvez, se não fosses atribulado, não Me invocarias; mas quando és atribulado, Me invocas; quando Me invocas, Eu te arrancarei; quando te arrancar, tu Me glorificarás, para que não mais te apartes de Mim. Certo homem havia se tornado tíbio e frio no fervor da oração, e disse: "Tribulação e aflição encontrei, e o Nome do Senhor invoquei." Encontrou a tribulação como algo proveitoso; apodrecera no lodaçal de seus pecados; permanecera insensível, e encontrou na tribulação algo como um cáustico e cortante. "Encontrei", diz ele, "tribulação e aflição, e o Nome do Senhor invoquei." E, na verdade, irmãos, as tribulações são conhecidas de todos os homens. Vede as aflições que abundam entre a humanidade; um, atingido pela perda, se lamenta; outro, ferido pelo luto, chora; outro, exilado da pátria, se aflige e deseja voltar, julgando intolerável o desterro; a vinha de outro é atingida pelo granizo, e ele contempla seus trabalhos e todo o seu labor gasto em vão. Quando pode um ser humano não se entristecer? Encontra um inimigo num amigo. Que maior miséria há entre os homens? Todas estas coisas os homens deploram e lamentam, e estas são tribulações: em todas elas invocam o Senhor, e fazem bem. Invoquem a Deus, que é capaz tanto de ensinar como suportá-las, quanto de curá-las quando suportadas. Ele sabe como não nos deixar ser tentados acima do que podemos suportar. Invoquemos a Deus mesmo nessas tribulações: mas estas tribulações nos encontram; como está escrito em outro Salmo: "Auxiliador nas tribulações que em demasia nos encontraram": há certa tribulação que devemos nós encontrar. Que estas tribulações nos encontrem; há certa tribulação que devemos buscar e encontrar. Qual é ela? A já mencionada felicidade neste mundo, a abundância das coisas temporais: isto não é, na verdade, tribulação, mas os consolos de nossa tribulação. De que tribulação? Da nossa peregrinação. Pois o próprio fato de ainda não estarmos com Deus, o próprio fato de vivermos em meio a provações e dificuldades, de não podermos estar sem temor, isto é tribulação: pois não há ainda aquela paz que nos foi prometida. Aquele que não tiver encontrado esta tribulação em sua peregrinação, não pensa em voltar à sua pátria. Esta é a tribulação, irmãos. Certamente agora fazemos boas obras, quando repartimos o pão ao faminto, a casa ao estrangeiro, e coisas semelhantes: também isto é tribulação. Pois encontramos objetos dignos de piedade sobre os quais mostramos piedade; e o caso lastimável dos objetos lastimáveis nos torna compassivos. Quanto melhor seria então contigo naquele lugar, onde não encontras faminto algum a quem alimentar, onde não encontras estrangeiro algum a quem acolher, nenhum nu a quem cobrir, nenhum doente a quem visitar, nenhum litigante a quem reconciliar! Pois todas as coisas ali são altíssimas, são verdadeiras, são santas, são eternas. Nosso pão ali é a justiça, nossa bebida ali é a sabedoria, nossa vestimenta ali é a imortalidade, nossa casa é eterna nos céus, nossa firmeza é a imortalidade: sobrevém ali a enfermidade? Pesa ali o cansaço ao sono? Nenhuma morte, nenhum litígio: ali paz, quietude, alegria, justiça. Nenhum inimigo ali tem entrada, nenhum amigo ali decai. Qual é a quietude ali? Se pensamos e observamos onde estamos, e onde Aquele que não pode mentir prometeu que havemos de estar, da própria promessa Dele descobrimos em que tribulação nos achamos. Esta tribulação ninguém a encontra, senão aquele que a tiver buscado. Estás são; vê se és miserável; pois é fácil para o que está enfermo achar-se miserável: quando estás são, vê se és miserável; isto é, se ainda não estás com Deus. "Tribulação e aflição encontrei, e o Nome do Senhor invoquei." "Imola", pois, "a Deus o sacrifício de louvor." Louva-O quando promete, louva-O quando invocas, louva-O quando exortas, louva-O quando ajudas: e entende em que tribulação estás colocado. Invoca (a Ele), serás arrancado, glorificarás, permanecerás.
23. Mas vede o que se segue, meus irmãos. Pois agora alguém, porque Deus lhe havia dito: "Imola a Deus o sacrifício de louvor", e lhe havia de certo modo imposto este tributo, meditou consigo e disse: Levantar-me-ei diariamente, irei à Igreja, direi um hino nas matinas, outro nas vésperas, um terceiro ou quarto em minha casa; diariamente ofereço o sacrifício de louvor, e imolo ao meu Deus. Bem fazes, na verdade, se fazes isto: mas toma cuidado, para que não te tornes agora descuidado, porque agora fazes isto: e talvez tua língua bendiga a Deus, e tua vida amaldiçoe a Deus. Ó povo Meu, diz-te o Deus dos deuses, o Senhor que falou, "convocando a terra desde o nascer do sol até o seu ocaso", ainda que estejas colocado em meio ao joio, "Imola o sacrifício de louvor ao teu Deus, e presta-Lhe as tuas orações": mas toma cuidado para não viveres mal, e cantares bem. Por quê isto? Porque, "Ao pecador, diz Deus, por que anuncias tu os Meus juízos, e tomas na tua boca a Minha Aliança?" (v. 16). Vede, irmãos, com que tremor dizemos estas palavras. Tomamos a Aliança de Deus em nossa boca, e vos pregamos a instrução e o juízo de Deus. E que diz Deus ao pecador? "Por que fazes tu isto?" Proíbe Ele, então, os pregadores que sejam pecadores? E onde está aquilo: "O que dizem, fazei; mas o que fazem, não façais"? Onde está aquilo: "Seja em verdade, seja por ocasião, Cristo é anunciado"? Mas estas palavras foram ditas para que não temessem os que ouvem, de quem quer que ouçam: não para que estivessem sem cuidado os que falam boas palavras, e praticam más obras. Agora, pois, irmãos, estais sem cuidado: se ouvis boas palavras, ouvis a Deus, por meio de quem quer que as ouçais. Mas Deus não quis dispensar sem repreensão os que falam: para que não, apenas falando, sem cuidado consigo mesmos, adormeçam numa vida má, e digam a si mesmos: "Pois Deus não nos entregará à perdição, por cuja boca quis Ele que tantas boas palavras fossem ditas ao Seu povo." Não, mas ouve o que falas, quem quer que sejas tu que falas: e tu que hás de ser ouvido, ouve primeiro a ti mesmo; e dize o que certo homem diz em outro Salmo: "Ouvirei o que em mim fala o Senhor Deus, pois Ele falará paz ao Seu povo." Que sou eu, pois, que não ouço o que em mim Ele fala, e quero que outro ouça o que por mim Ele fala? Ouvirei primeiro, ouvirei, e principalmente ouvirei o que em mim fala o Senhor Deus, pois Ele falará paz ao Seu povo. Ouça eu, e "castigue o meu corpo, e o sujeite à servidão, para que, pregando talvez a outros, eu mesmo não seja reprovado." "Por que anuncias tu os Meus juízos?" Por que, pois, aquilo que não te aproveita a ti? Ele o admoesta a ouvir: não a deixar a pregação, mas a assumir a obediência. "Mas tu, por que tomas a Minha Aliança na tua boca?"
24. "Mas tu odeias a instrução" (v. 17). Odeias a disciplina. Quando poupo, tu cantas e louvas: quando castigo, murmuras: como se, quando poupo, Eu fosse o teu Deus, e, quando castigo, não fosse o teu Deus. "Repreendo e castigo aqueles que amo." "Mas tu odeias a instrução, e lançaste as Minhas palavras para trás de ti." As palavras que são ditas por meio de ti, tu as lanças para trás de ti. "E lançaste as Minhas palavras para trás de ti": para um lugar onde não sejam vistas por ti, mas te sobrecarreguem. "E lançaste as Minhas palavras para trás de ti."
25. "Se vias um ladrão, consentias com ele, e com os adúlteros fazias a tua parte" (v. 18). Para que talvez não digas: Não cometi furto, não cometi adultério. E se te comprazeu aquele que o cometeu? Não consentiste tu mesmo com o próprio comprazer? Não fizeste a tua parte com aquele que o cometeu, pela aprovação? Pois isto é, irmãos, consentir com um ladrão, e fazer a tua parte com um adúltero: pois ainda que não o cometas, mas aprovas o que é cometido, és cúmplice no feito: pois "o pecador é louvado nos desejos de sua alma, e o que comete a iniquidade será bendito." Tu não fazes as coisas más, mas louvas os que as fazem. Pois é isto pouco mal? "Fizeste a tua parte com os adúlteros."
26. "A tua boca abundou em malícia, e a tua língua abraçou o engano" (v. 19). Da malevolência e do engano, irmãos, de certos homens ele fala, os quais, por adulação, ainda que saibam ser mau o que ouvem, contudo, para não ofenderem aqueles de quem ouvem, não apenas por não repreender, mas por calar, consentem. É pouco que não digam: Fizeste mal: mas dizem até: Fizeste até bem: e sabem que é mal: mas a boca deles abunda em malícia, e a língua deles abraça o engano. Engano é uma espécie de astúcia nas palavras, de dizer uma coisa, pensando outra. Não diz que a tua língua cometeu engano ou perpetrou engano, mas, a fim de apontar em ti uma espécie de prazer tomado no próprio mau feito, disse: "Abraçou." É pouco que o faças, tu ainda te deleitas; louvas abertamente, ris para contigo. Empurras à destruição um homem que, incauto, expõe as suas faltas, e não sabe se são faltas: tu, que sabes ser falta, não dizes: "Para onde te precipitas?" Se o vires caminhar incauto na escuridão, onde sabias haver um poço, e te calares, de que espécie serias tu? Não serias tido por inimigo da sua vida? E, no entanto, se ele caísse num poço, não morreria na alma, mas no corpo. Ele cai de cabeça nos seus vícios, expõe diante de ti as suas más obras: tu sabes que são más, e louvas e ris para contigo. Oxalá enfim ele se voltasse para Deus, de quem tu ris, e a quem não quiseste repreender, e dissesse: "Sejam confundidos os que me dizem: Bem, bem."
27. "Assentado, falavas mal do teu irmão" (v. 20). E este "assentar-se" pertence àquilo de que ele falou acima, em "abraçou". Pois aquele que faz algo estando de pé ou passando, não o faz com prazer: mas, se para isto se assenta, quanto lazer busca para fazê-lo! Aquele mesmo mau detratar tu o fazias com diligência, o fazias assentado; nisto te ocuparias por inteiro; abraçavas o teu mal, beijavas a tua astúcia. "E contra o filho de tua mãe puseste um tropeço." Quem é "filho da mãe"? Não é o irmão? Ele repetiria, pois, o mesmo que dissera acima, "teu irmão". Terá ele indicado que devemos perceber alguma distinção? Evidentemente, irmãos, penso que se deve fazer uma distinção. Irmão contra irmão detrai, por exemplo, como se, digamos, um forte, e já doutor e mestre de algum peso, detraísse de seu irmão, um que talvez ensine bem e ande bem: mas outro é fraco, contra ele ele põe um tropeço ao detrair do primeiro. Pois quando os bons são detraídos por aqueles que parecem ter algum peso e serem doutos, os fracos caem sobre o tropeço, os quais ainda não sabem julgar. Por isto este fraco é chamado "filho da mãe", ainda não do pai, precisando ainda de leite, e pendurado ao peito. Ele é ainda carregado no seio de sua mãe, a Igreja, não é ainda forte o bastante para se aproximar do alimento sólido da mesa de seu Pai, mas do peito materno extrai o sustento, inábil para julgar, visto que ainda é animal e carnal. "Pois o homem espiritual julga todas as coisas", mas "o homem animal não percebe as coisas que são do Espírito de Deus; pois lhe são loucura." A tais homens diz o Apóstolo: "Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo vos dei leite a beber, não alimento sólido; pois não éreis capazes, mas nem agora ainda o sois." Uma mãe fui eu para vós: como se diz em outro lugar, "Tornei-me criança entre vós, como uma ama que acalenta os seus próprios filhos." Não uma ama que amamenta filhos alheios, mas uma ama que acalenta os seus próprios filhos. Pois há mães que, tendo dado à luz, entregam às amas: as que deram à luz não acalentam os seus filhos, porque os entregaram para serem amamentados; mas as que acalentam, não acalentam os seus próprios, mas os de outras: mas ele mesmo havia dado à luz, ele mesmo estava acalentando, a nenhuma ama confiou o que havia gerado; pois dissera: "Dos quais de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós." Ele os acalentava, e dava leite. Mas havia alguns, como que doutos e espirituais, que detraíam de Paulo. "As suas cartas, na verdade, dizem eles, são graves e poderosas; mas a presença do seu corpo é fraca, e a sua palavra desprezível": ele mesmo diz em sua Epístola que certos detratores seus haviam dito estas palavras. Estavam assentados, e detraíam do seu irmão, e contra aquele filho de sua mãe, que precisava ser alimentado com leite, punham um tropeço. "E contra o filho de tua mãe puseste um tropeço."
28. "Estas coisas fizeste, e Eu me calei" (v. 21). Portanto o Senhor nosso Deus virá, e não guardará silêncio. Ora, "Estas coisas fizeste, e Eu me calei." Que significa "Eu me calei"? Da vingança me abstive, adiei a Minha severidade, prolonguei para ti a paciência, esperei por longo tempo o teu arrependimento... "Imaginaste a iniquidade, que Eu seria semelhante a ti"; Imaginaste que Eu seria semelhante a ti, ao passo que tu não queres ser semelhante a Mim. Pois, "Sede", diz Ele, "perfeitos, como vosso Pai, que está nos céus, que faz o Seu sol nascer sobre bons e maus." A Ele não quiseste imitar, que dá coisas boas até aos maus, a ponto de tu, assentado, detraíres até dos bons. "Eu te repreenderei", quando "vier Deus manifesto, o nosso Deus, e não guardar silêncio", "Eu te repreenderei." E que te farei Eu, ao te repreender? Que te farei? Ora, a ti mesmo não te vês, Eu te farei ver a ti mesmo. Porque, se te visses a ti mesmo, e te desagradasses de ti mesmo, agradarias a Mim: mas porque, não te vendo, te agradaste de ti mesmo, desagradarás tanto a Mim quanto a ti mesmo; a Mim, quando fores julgado; a ti mesmo, quando arderes. Mas que te farei Eu? Diz Ele: "Porei diante da tua face." Pois por que quererias escapar de ti mesmo? Às tuas costas estás para ti mesmo, não te vês a ti mesmo: Eu te faço ver a ti mesmo: o que puseste atrás das tuas costas, diante da tua face porei; verás a tua imundícia, não para que te emendes, mas para que te envergonhes. ...
1. Nem se deve fraudar esta multidão numerosa, nem sobrecarregar a sua fraqueza. Pedimos silêncio e quietude, a fim de que a nossa voz, depois do labor de ontem, possa durar com algum pequeno vigor. Deve-se crer que a vossa caridade se reuniu hoje em maior número por nada mais, senão para que possais orar por aqueles a quem uma inclinação estranha e perversa mantém afastados. Pois não falamos de pagãos nem de judeus, mas de cristãos: nem daqueles que ainda são catecúmenos, mas de muitos que já são até batizados, dos quais, pelo Lavacro, em nada diferis, e, contudo, no coração lhes sois dessemelhantes. Pois hoje quantos irmãos nossos consideramos, e deploramos o seu ir às vaidades e às insânias mentirosas, em detrimento daquilo para que foram chamados. Os quais, se por algum motivo se assustam no próprio circo, imediatamente se persignam, e permanecem trazendo-A na fronte, no próprio lugar de onde se haviam retirado, se A tivessem trazido no coração. Deve-se implorar a misericórdia de Deus, para que dê entendimento para condenar estas coisas, inclinação para fugir delas, e misericórdia para as perdoar. Oportunamente, pois, hoje se cantou um Salmo de penitência. Falemos até com os ausentes: haverá para eles, em lugar da nossa voz, a vossa memória. Não negligencieis os feridos e débeis, mas, para que mais facilmente os saneis, deveis vós permanecer sãos. Corrigi repreendendo, confortai exortando, dai exemplo vivendo bem; estará com eles Aquele que esteve convosco. Pois agora que ultrapassastes estes perigos, a fonte da misericórdia de Deus não está fechada: onde chegastes, chegarão eles; onde passastes, passarão eles. Coisa grave é, na verdade, e sobremodo perigosa, e até ruinosa, e certamente mortal, que pequem sabendo. Pois de um modo corre a estas vaidades aquele que despreza a voz de Cristo; de outro modo, aquele que sabe de que foge. Mas que nem mesmo destes homens devemos desesperar, isto o mostra este Salmo.
5. Mas foi feito; eu diria estas palavras àqueles que não fizeram coisa semelhante, a fim de que velem por guardar sua incorruptibilidade, e que, enquanto atentam para como caiu um grande, temam os pequenos. Mas se algum que já caiu ouve estas palavras, e que tem em sua consciência algum mal; que atente para as palavras deste Salmo; que atente para a grandeza da ferida, mas não desespere da majestade do Médico. Pecar com desespero é morte certa. Ninguém, pois, diga: Se já cometi algum mal, já estou condenado: Deus não perdoa tais males, por que não hei de acrescentar pecados a pecados? Gozarei desta palavra no prazer, na lascívia, na cupidez perversa: perdida já a esperança de emenda, tenha eu ao menos o que vejo, se não posso ter o que creio. Este Salmo, pois, ao mesmo tempo que torna precavidos os que ainda não creram, não quer que se desespere dos que caíram. Quem quer que sejas tu que pecaste, e hesitas em exercer penitência por teu pecado, desesperando de tua salvação, ouve Davi gemendo. A ti não foi enviado o profeta Natã; o próprio Davi te foi enviado. Ouve-o clamando, e clama com ele; ouve-o gemendo, e geme com ele; ouve-o chorando, e mistura tuas lágrimas; ouve-o emendado, e alegra-te com ele. Se de ti o pecado não pôde ser excluído, não seja de ti excluída a esperança do perdão. A este homem foi enviado o profeta Natã; observai a humildade do rei. Ele não rejeitou as palavras daquele que o admoestava, não disse: Ousas tu falar-me, a mim, que sou rei? Um rei exaltado ouviu um profeta; ouça o Seu povo humilde a Cristo.
4. Admoesta-nos, ademais, por tal exemplo, que ninguém deve exaltar-se nas circunstâncias prósperas. Pois muitos temem as circunstâncias adversas, não temem as prósperas. Mais perigosa é a prosperidade para a alma do que a adversidade para o corpo. Primeiro, a prosperidade corrompe, para que a adversidade encontre algo a quebrar. Meus irmãos, guarda mais estrita se há de manter contra a felicidade. Por isso, vede de que modo a palavra de Deus, em meio à nossa própria felicidade, nos tira a segurança: "Servi", diz Ele, "ao Senhor com temor, e exultai a Ele com tremor." Em exultação, para que rendamos graças; em tremor, para que não caiamos. Este pecado não o cometeu Davi quando suportava Saul como perseguidor. Quando o santo Davi suportava Saul, seu inimigo, quando era vexado por suas perseguições, quando fugia por diversos lugares para não cair em suas mãos, não cobiçou aquela que era de outro, não matou o marido depois de cometer adultério com a esposa. Estava ele, na fraqueza de sua tribulação, tanto mais íntimo de Deus quanto mais miserável parecia. Algo de útil há na tribulação; útil é o bisturi do cirurgião, mais do que a tentação do diabo. Tornou-se seguro quando seus inimigos foram derrubados, removida a pressão, cresceu o inchaço. Este exemplo, pois, vale para isto: que devemos temer a felicidade. "Tribulação", diz ele, "e dor encontrei, e o nome do Senhor invoquei."
3. Do que os homens devem guardar-se, já dissemos; mas o que devem imitar, se acaso tiverem caído, ouçamo-lo agora. Pois muitos homens querem cair com Davi, e não querem levantar-se com Davi. Não é, pois, para cair que se propõe o exemplo, mas para que, se tiveres caído, te levantes. Guarda-te de cair. Não seja o deleite do mais jovem a queda do mais velho, mas seja a queda do mais velho o temor do mais jovem. Para isto foi proposto, para isto foi escrito, para isto na Igreja é frequentemente lido e cantado: ouçam os que não caíram, para que não caiam; ouçam os que caíram, para que se levantem. O pecado de tão grande homem não é silenciado, é proclamado na Igreja. Ali ouvem homens que são maus ouvintes, e buscam para si desculpa para pecar: procuram meios pelos quais possam defender o que já se prepararam para cometer, não como possam guardar-se do que ainda não cometeram, e dizem a si mesmos: Se Davi, por que não também eu? Por isso, aquela alma é mais iníqua que, porque o fez porque Davi o fez, por isso fez pior que Davi. Direi isto mesmo, se puder, mais claramente. Davi não se propôs a si mesmo nenhum precedente como tu tens: caíra ele por queda da concupiscência, não pelo exemplo da santidade: tu pões diante de teus olhos, por assim dizer, um homem santo, para que peques: não copias a sua santidade, mas copias a sua queda. Amas naquilo em Davi o que o próprio Davi em si odiou: preparas-te para pecar, inclinas-te ao pecado: para que peques, consultas o livro de Deus: as Escrituras de Deus para isto ouves, para que faças o que desagrada a Deus. Isto não fez Davi; foi repreendido por um profeta, não tropeçou num profeta. Mas outros, ouvindo para sua saúde, pela queda de um homem forte medem sua própria fraqueza: e, desejando evitar o que Deus condena, por descuidado olhar refreiam seus olhos. Estes não os fixam na beleza de carne alheia, nem se fazem cúmplices com perversa simpleza; não dizem: "Com boa intenção observei, por bondade observei, por caridade longamente olhei." Pois põem diante de si a queda de Davi, e veem que este grande homem caiu para isto: para que os pequenos não queiram olhar aquilo pelo qual possam cair. Por isso refreiam seus olhos da lascívia, não facilmente se ajuntam em companhia, não se misturam com mulheres estranhas, não erguem olhos complacentes a varandas estranhas, a terraços estranhos. Pois de longe Davi viu aquela por quem foi cativado. A mulher, ao longe; a luxúria, perto. O que ele viu estava alhures; em si mesmo estava aquilo pelo qual caiu. Esta fraqueza da carne deve, pois, ser considerada, recordadas as palavras do Apóstolo: "Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal." Não disse: que não haja; mas: "que não reine." Há pecado em ti, quando tomas prazer; reina, se tiveres consentido. O prazer carnal, sobretudo se dirigido a objetos ilícitos e estranhos, deve ser refreado, não solto: pelo governo deve ser domado, não posto para governar. Olha e está sem cuidado, se nada tens pelo que possas ser movido. Mas respondes: "Contenho-me com forte resolução." És tu, de algum modo, mais forte que Davi?
6. Ouve, pois, estas palavras, e dize tu com ele: "Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a Tua grande misericórdia" (v. 1). Aquele que implora grande misericórdia, confessa grande miséria. Busquem um pouco de misericórdia de Ti aqueles que pecaram por ignorância: "Tem piedade", diz ele, "de mim, segundo a Tua grande misericórdia." Alivia uma ferida profunda segundo Tua grande cura. Profunda é a que tenho, mas no Onipotente me refugio. Da minha própria ferida tão mortal desesperaria, se não pudesse encontrar tão grande Médico. "Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a Tua grande misericórdia; e segundo a multidão de Tuas piedades, apaga a minha iniquidade." O que ele diz, "Apaga a minha iniquidade," é isto: "Tem piedade de mim, ó Deus." E o que ele diz, "Segundo a multidão de Tuas piedades," é isto: "Segundo a Tua grande misericórdia." Porque grande é a misericórdia, muitas são as misericórdias; e de Tua grande misericórdia, muitas são as Tuas piedades. Olhas para os zombadores para os emendar, olhas para os ignorantes para os ensinar, olhas para os que confessam para os perdoar. Fez ele isto por ignorância? Certo homem havia feito algumas, sim, muitas coisas más havia feito; "Misericórdia," diz ele, "alcancei, porque ignorante o fiz na incredulidade." Isto Davi não podia dizer: "Ignorante o fiz." Pois não ignorava quão grande mal era tocar a mulher alheia, e quão grande mal era matar o marido, que disso não sabia, e nem sequer se irou. Alcançam, pois, a misericórdia do Senhor os que por ignorância o fizeram; e os que, sabendo, o fizeram, não alcançam uma misericórdia qualquer, mas "grande misericórdia."
2. Pois está escrito sobre ele o seu título: "Salmo do próprio Davi, quando veio a ele o profeta Natã, depois que ele entrara a Bersabé." Bersabé era uma mulher, esposa de outro. Com dor, na verdade, falamos, e com tremor; mas ainda assim Deus não quis que se calasse o que Ele quis que fosse escrito. Direi, pois, não o que quero, mas o que sou obrigado; direi não como quem exorta à imitação, mas como quem te instrui à realidade. Cativado pela beleza desta mulher, esposa de outro, o rei e profeta Davi, de cuja descendência segundo a carne havia de vir o Senhor, cometeu adultério com ela. Isto não se lê neste Salmo, mas em seu título aparece; porém no livro dos Reis se lê mais plenamente. Ambas as Escrituras são canônicas, a ambas sem dúvida alguma devem os cristãos dar crédito. O pecado foi cometido, e foi escrito. Além disso, fez ele matar o marido dela na guerra: e depois deste feito foi-lhe enviado o profeta Natã; enviado pelo Senhor, para repreendê-lo por tão grande ultraje.
7. "Lava-me mais e mais da minha iniquidade" (v. 2). Que quer dizer: "Lava mais e mais"? De um muito manchado. Lava mais e mais os pecados de quem sabe. Tu que lavaste os pecados de quem ignorava. Nem ainda assim se há de desesperar de Tua misericórdia. "E do meu delito purifica-me Tu." Segundo o modo em que Ele é médico, oferece uma recompensa. Ele é Deus, oferece sacrifício. Que darás para que sejas purificado? Pois vê a quem invocas; a um Justo invocas. Ele odeia os pecados, se é justo; Ele castiga os pecados, se é justo; não poderás tirar do Senhor Deus a Sua justiça: implora a misericórdia, mas observa a justiça: há misericórdia para perdoar o pecador, há justiça para punir o pecado. Que, pois? Pedes misericórdia; ficará o pecado impune? Responda Davi, respondam os que caíram, respondam com Davi, e digam: Não, Senhor, não ficará impune pecado algum meu; conheço a justiça daquele cuja misericórdia peço: não ficará impune, mas por isto não quero que Tu me punas, porque eu puno o meu pecado: por isto peço que perdoes, porque eu reconheço.
8. "Pois reconheço a minha iniquidade, e o meu delito está sempre diante de mim" (v. 3). Não pus atrás de minhas costas o que fiz, não olho para os outros, esquecido de mim mesmo, não finjo tirar um argueiro do olho de meu irmão, quando há uma trave no meu olho; o meu pecado está diante de mim, não atrás de mim. Pois estava atrás de mim quando me foi enviado o Profeta, e me foi posta diante a parábola das ovelhas do pobre. Pois diz o profeta Natã a Davi: "Havia certo homem rico, que tinha muitíssimas ovelhas; mas um pobre, seu vizinho, tinha uma única ovelhinha, que em seu seio e de seu próprio alimento nutria: veio um estranho ao rico, nada tomou do seu rebanho, pois cobiçou a ovelhinha do pobre, seu vizinho; matou-a para o estranho: que merece ele?" Mas o outro, irado, pronuncia a sentença: então o rei, evidentemente não sabendo em que fora apanhado, declarou o rico merecedor de morte, e que a ovelha fosse restituída em quádruplo. Muito severa e muito justamente. Mas o seu pecado ainda não estava diante dele, atrás de suas costas estava o que ele fizera: a sua própria iniquidade ainda não reconhecia, e por isso a de outrem não perdoava. Mas o Profeta, para isto enviado, tirou-lhe das costas o pecado, e diante dos seus olhos o colocou, de modo que ele visse que sentença tão severa fora pronunciada contra si mesmo. Pois, para cortar e curar a ferida de seu coração, fez de sua língua um bisturi. ...
9. "Contra Ti só pequei, e diante de Ti fiz o mal" (v. 4). Que é isto? Pois não foi diante dos homens que a mulher alheia foi violada e o marido morto? Não sabiam todos os homens o que Davi fizera? Que é: "Contra Ti só pequei, e diante de Ti fiz o mal"? Porque só Tu és sem pecado. Justo punidor é aquele que nada tem em Si que deva ser punido; justo repreensor é aquele que nada tem em Si que deva ser repreendido. "Para que sejas justificado em Tuas palavras, e venças quando fores julgado." A quem ele fala, irmãos, a quem ele fala, é difícil entender. A Deus certamente fala, e é evidente que Deus Pai não é julgado. Que é: "E venças quando fores julgado"? Vê ele o futuro Juiz ser julgado, um justo ser julgado por pecadores, e nisso vencendo, porque nEle nada havia que devesse ser julgado. Pois só entre os homens pôde verdadeiramente dizer o Deus-Homem: "Se achastes em Mim pecado, dizei-o." Mas talvez houvesse o que escapou aos homens, e eles não encontraram o que realmente havia, mas não era manifesto. Em outro lugar diz Ele: "Eis que vem o Príncipe do mundo," sendo agudo observador de todos os pecados; "Eis," diz Ele, "que vem o Príncipe deste mundo," afligindo com a morte os pecadores, presidindo sobre a morte: pois, "Pela malícia do diabo entrou a morte no mundo." "Eis," diz Ele, "que vem o Príncipe do mundo": — disse Ele estas palavras já próximo de Sua Paixão: — "e em Mim nada encontrará," nada de pecado, nada digno de morte, nada digno de condenação. E como se Lhe fosse dito: Por que, pois, morres Tu? Continua Ele e diz: "Mas para que todos saibam que Eu faço a vontade de Meu Pai; levantai-vos, vamo-nos daqui." Eu sofro, diz Ele, sem merecer, por homens merecedores, para que os torne merecedores de Minha Vida, por quem, sem merecer, sofro a morte deles. A Ele, pois, que não tem pecado, diz nesta ocasião o profeta Davi: "Contra Ti só pequei, e diante de Ti fiz o mal, para que sejas justificado em Tuas palavras, e venças quando fores julgado." Pois Tu vences todos os homens, todos os juízes; e aquele que se julga justo, diante de Ti é injusto: só Tu julgas justamente, tendo sido injustamente julgado, Tu que tens poder para dar Tua vida, e poder para de novo tomá-la. Vences, pois, quando és julgado. A todos os homens vences, porque Tu és mais que os homens, e por Ti foram os homens feitos.
10. "Pois eis que fui concebido em iniquidades" (v. 5). Como se dissesse: São vencidos aqueles que fizeram o que tu, Davi, fizeste; pois não é pequeno mal nem pequeno pecado, a saber, o adultério e o homicídio. E quanto àqueles que, desde o dia em que nasceram do ventre de sua mãe, não cometeram tal coisa? Também a estes atribuis alguns pecados, a fim de que Ele vença a todos os homens quando começar a ser julgado. Davi tomou sobre si a pessoa do gênero humano, e considerou os laços de todos os homens, ponderou a descendência da morte, atentou para a origem da iniquidade, e disse: "Pois eis que fui concebido em iniquidades." Acaso Davi nasceu de adultério, sendo filho de Jessé, homem justo, e de sua própria esposa? Que quer dizer, então, ao afirmar que foi concebido em iniquidade, senão que a iniquidade é trazida de Adão? Não é mesmo o próprio laço da morte entranhado com a própria iniquidade? Nenhum homem nasce sem trazer consigo a pena, sem trazer o merecimento da pena. Diz também um Profeta em outro lugar: "Ninguém é puro diante de Ti, nem mesmo o infante cuja vida é de um só dia sobre a terra." Pois sabemos, tanto pelo Batismo de Cristo, que os pecados são desatados, quanto que o Batismo de Cristo é eficaz para a remissão dos pecados. Se os infantes são inocentes em todo sentido, por que as mães correm com eles, quando doentes, à Igreja? O que é removido por esse Batismo, o que é removido por essa remissão? Vejo que o inocente antes chora do que se ira. Que lava o Batismo? Que desata essa Graça? Ali se desata a descendência do pecado. Pois se aquele infante pudesse falar-te, e se tivesse o entendimento que Davi tinha, responder-te-ia: Por que atentas para mim, um infante? Não vês, na verdade, minhas ações; mas eu em iniquidade fui concebido, "e em pecados me nutriu minha mãe no ventre."
Fora deste laço da concupiscência mortal nasceu Cristo, sem varão, de uma virgem que concebeu pelo Espírito Santo. Não se pode dizer que Ele foi concebido em iniquidade, não se pode dizer que em pecados Sua mãe O nutriu no ventre, a Ele a quem foi dito: "O Espírito Santo virá sobre ti, e a Virtude do Altíssimo te cobrirá com Sua sombra." Não é, pois, porque seja pecado ter relação conjugal que os homens são concebidos em iniquidade e nutridos em pecados no ventre por sua mãe, mas porque aquilo que é feito é certamente feito de carne merecedora de pena. Pois a pena da carne é a morte, e nela há decerto sujeição à própria morte. Donde o Apóstolo não falou do corpo como que a morrer, mas como já morto: "O corpo, na verdade, está morto", diz ele, "por causa do pecado, mas o Espírito é vida por causa da justiça." Como, pois, sem laço de pecado nasceria aquilo que é concebido e semeado de um corpo morto por causa do pecado? Esta operação casta na pessoa casada não tem pecado, mas a origem do pecado traz consigo a pena condigna. Pois não há esposo que, por ser esposo, não esteja sujeito à morte, nem que esteja sujeito à morte por qualquer outra razão senão por causa do pecado. Pois também o Senhor esteve sujeito à morte, mas não por causa do pecado: tomou sobre Si a nossa pena, e assim desata a nossa culpa. Com razão, pois, "em Adão todos morrem, mas em Cristo todos serão vivificados." Pois, "por um homem", diz o Apóstolo, "entrou o pecado neste mundo, e pelo pecado a morte, e assim passou a todos os homens, porquanto todos pecaram." Definida é a sentença: "Em Adão", diz ele, "todos pecaram." Só poderia, pois, ser inocente tal infante que não tivesse nascido da obra de Adão.
11. "Pois eis que amaste a verdade; as coisas incertas e ocultas de Tua sabedoria me manifestaste" (v. 6). Isto é, não deixaste impunes sequer os pecados daqueles a quem perdoas. "Amaste a verdade": assim concedeste primeiro a misericórdia, de modo que também guardasses a verdade. Perdoas ao que confessa, perdoas, mas somente se ele mesmo se pune: assim se guardam misericórdia e verdade; misericórdia, porque o homem é liberto; verdade, porque o pecado é punido. "As coisas incertas e ocultas de Tua sabedoria me manifestaste." Que "coisas ocultas"? Que "coisas incertas"? Porque Deus perdoa até mesmo tais coisas. Nada há tão oculto, nada tão incerto. Por essa incerteza se arrependeram os ninivitas, pois disseram, ainda que depois das ameaças do Profeta, ainda depois daquele clamor: "Dentro de três dias Nínive será destruída" — disseram entre si: A misericórdia deve ser implorada; disseram assim, raciocinando entre si: "Quem sabe se Deus não mudará para melhor Sua sentença, e terá piedade?" "Incerto" era, quando se diz: "Quem sabe?" Sobre uma incerteza, arrependeram-se; certa misericórdia mereceram: prostraram-se em lágrimas, em jejuns, em saco e cinza se prostraram, gemeram, choraram, e Deus poupou. Nínive permaneceu: acaso Nínive foi destruída? De um modo, na verdade, parece aos homens, e de outro modo pareceu a Deus. Mas penso que se cumpriu o que o Profeta havia predito. Considera o que era Nínive, e vê como foi destruída: destruída no mal, edificada no bem; assim como Saulo, o perseguidor, foi destruído, e Paulo, o pregador, foi edificado. Quem não diria que esta cidade em que agora estamos foi felizmente destruída, se todos aqueles insensatos, deixando suas frivolidades, corressem juntos à Igreja com coração contrito, e invocassem a misericórdia de Deus por suas obras passadas? Não diríamos: Onde está aquela Cartago? Porque não existe o que existia, está destruída; mas se existe o que não existia, está edificada. Assim se diz a Jeremias: "Eis que te dou para arrancar, para escavar, para destruir, para arruinar", e ainda, "para edificar e para plantar." Daí vem aquela voz do Senhor: "Ferirei e sararei." Fere a podridão da obra, sara a dor da ferida. Assim fazem os médicos quando cortam: ferem e sararam; armam-se para golpear, trazem o ferro, e vêm para curar. Mas porque grandes eram os pecados dos ninivitas, disseram: "Quem sabe?" Esta incerteza havia Deus revelado a Seu servo Davi. Pois quando este disse, estando o Profeta diante dele e o convencendo: "Pequei" — logo ouviu do Profeta, isto é, do Espírito de Deus que estava no Profeta: "Teu pecado te foi tirado." As "coisas incertas e ocultas" de Sua sabedoria lhe manifestou.
12. "Aspergir-me-ás", diz ele, "com hissopo, e serei purificado" (v. 7). Sabemos que o hissopo é erva humilde, porém medicinal: diz-se que adere à rocha com suas raízes. Daí, em mistério, foi tomada a semelhança da purificação do coração. Toma tu também, com a raiz de teu amor, a tua Rocha; sê humilde no teu Deus humilde, a fim de que sejas exaltado no teu Deus glorificado. Serás aspergido com hissopo, a humildade de Cristo te purificará. Não desprezes a erva, atende à eficácia do remédio. Direi ainda algo mais, que costumamos ouvir dos médicos, ou experimentar nos enfermos. O hissopo, dizem, é próprio para purgar os pulmões. No pulmão costuma notar-se a soberba: pois ali há inflação, ali a respiração. Disse-se de Saulo o perseguidor, como de Saulo o soberbo, que ia atar os cristãos, respirando matança: respirava matança, respirava sangue, seu pulmão ainda não purificado. Ouve também aqui um humilhado, porque purgado com hissopo: "Lavar-me-ás", isto é, purificar-me-ás: "e mais branco que a neve serei." "Ainda que", diz ele, "os vossos pecados sejam como escarlata, como a neve os branquearei." Destes tais homens Cristo apresenta a Si mesmo uma veste sem mácula e sem ruga. Além disso, Sua veste no monte, que resplandeceu como neve alvíssima, significou a Igreja purificada de toda mácula de pecado.
13. Mas onde está a humildade do hissopo? Ouve o que se segue: "Ao meu ouvido darás exultação e alegria, e os ossos humilhados exultarão" (v. 8). Eu me alegrarei em ouvir-Te, não em falar contra Ti. Pecaste, por que te defendes? Falarás? Sofre antes; ouve, cede às palavras divinas, para que não sejas confundido, e sejas ainda mais ferido: o pecado foi cometido, que não seja defendido: que venha à confissão, não à defesa. Se te empenhas como defensor de teu pecado, és vencido: não contrataste patrono inocente, tua defesa não te aproveita. Pois quem és tu que te defendes? Convém antes que te acuses. Não digas: "Nada fiz"; ou: "Que grande coisa fiz eu?"; ou: "Também outros homens o fizeram." Se, ao pecar, dizes que nada fizeste, nada serás, nada receberás: Deus está pronto a dar indulgência, e tu fechas a porta contra ti mesmo; Ele está pronto a dar, não oponhas o ferrolho da defesa, mas abre o seio da confissão. "Ao meu ouvido darás exultação e alegria." ...
14. "Desvia Tua face de meus pecados, e apaga todas as minhas iniquidades" (v. 9). Pois agora os ossos humilhados exultam, agora, purificado com hissopo, tornei-me humilde. "Desvia Tua face", não de mim, mas "de meus pecados." Pois em outro lugar, orando, diz: "Não desvies de mim a Tua face." Aquele que não quereria que a face de Deus se desviasse de si mesmo, quereria que a face de Deus se desviasse de seus pecados. Pois para com o pecado, quando Deus não Se desvia, Ele o observa: se o observa, o pune. "E apaga todas as minhas iniquidades." Ele se ocupa com aquele pecado capital: conta com mais ainda, quereria que todas as suas iniquidades fossem apagadas: confia na mão do Médico, naquela "grande misericórdia" a que apelou no início do Salmo: "Apaga todas as minhas iniquidades." Deus desvia Sua face, e assim apaga; ao "desviar" Sua face, apaga os pecados. Ao "voltar-se para", os inscreve. Ouviste dEle apagando ao desviar-Se; ouve dEle, ao voltar-Se, fazendo o quê? "Mas o rosto do Senhor está sobre os que fazem o mal, para destruir da terra a memória deles": destruirá a memória deles, não "apagando os seus pecados." Mas aqui o que pede ele? "Desvia Tua face de meus pecados." Bem pede. Pois ele mesmo não desvia sua face de seus próprios pecados, dizendo: "Pois reconheço o meu pecado." Com razão pedes, e bem pedes, que Deus se desvie de teu pecado, se tu mesmo dali não desvias a tua face; mas se pões teu pecado às tuas costas, Deus ali põe Sua face. Põe tu o pecado diante de tua face, se queres que Deus dali desvie a Sua; e então seguramente pedes, e Ele te ouve.
15. "Cria em mim um coração puro, ó Deus" (v. 10). "Criar" — quis dizer, "como que começar algo novo." Mas, porque orava arrependido (pois havia cometido algum pecado, sendo que antes de o cometer era mais inocente), de que modo disse "criar" ele o mostra. "E um espírito reto renova em minhas entranhas." Por minha obra, diz ele, a retidão de meu espírito envelheceu e se encurvou. Pois diz em outro Salmo: "Encurvaram a minha alma." E quando o homem se abaixa às concupiscências terrenas, é de certo modo "encurvado", mas quando se ergue para as coisas do alto, reto se faz o seu coração, a fim de que Deus lhe seja propício. Pois: "Quão bom é o Deus de Israel para os retos de coração!" Além disso, irmãos, ouvi. Às vezes Deus, neste mundo, castiga por seu pecado aquele a quem perdoa no mundo vindouro. Pois até ao próprio Davi, a quem já havia sido dito pelo Profeta: "Teu pecado te foi tirado", sucederam certas coisas que Deus havia ameaçado por esse mesmo pecado. Pois seu filho Absalão moveu contra ele guerra sangrenta, e de muitos modos humilhou seu pai. Caminhava ele em pranto, na tribulação de sua humilhação, tão resignado a Deus que, atribuindo-Lhe tudo quanto era justo, confessava que nada sofria imerecidamente, tendo agora um coração reto, ao qual Deus não era desagradável. A um caluniador, e a quem lhe atirava em rosto maldições ásperas — um dos soldados do partido contrário, que estavam com seu filho desnaturado — ouviu pacientemente. E quando este amontoava maldições sobre o rei, um dos companheiros de Davi, indignado, teria ido feri-lo; mas é detido por Davi. E como é detido? Porque disse: Deus o enviou para me amaldiçoar. Reconhecendo sua culpa, abraçou sua penitência, buscando a glória não sua, louvando o Senhor naquele bem que tinha, louvando o Senhor naquilo que padecia, "bendizendo o Senhor sempre, sempre em sua boca havendo o louvor dEle." Tais são todos os retos de coração: não aqueles tortuosos que se julgam retos e a Deus tortuoso; que, quando fazem algum mal, se alegram; quando padecem algum mal, blasfemam; ou antes, se postos em tribulação e açoite, dizem, de seu coração distorcido: "Ó Deus, que Te fiz?" Na verdade, é porque nada fizeram a Deus, pois tudo fizeram a si mesmos. "E um espírito reto renova em minhas entranhas."
16. "Não me lances fora de Tua face" (v. 11). Desvia Tua face de meus pecados: e "não me lances fora de Tua face." Cuja face teme, sobre a face do Mesmo invoca. "E o Teu Espírito Santo não retires de mim." Pois em quem confessa está o Espírito Santo. Já agora, ao dom do Espírito Santo pertence que aquilo que fizeste te desagrade. Ao espírito imundo os pecados agradam; ao Santo, desagradam. Ainda que, pois, ainda imploras o perdão, já estás unido a Deus por outra parte, porque o mal que cometeste te desagrada: pois a mesma coisa desagrada tanto a ti quanto a Ele. Ora, para combater tua febre, sois dois, tu e o Médico. Pela razão de que não pode haver confissão do pecado e punição do pecado num homem por si mesmo: quando alguém se ira contra si mesmo, e a si mesmo desagrada, então isso não se dá sem o dom do Espírito Santo; nem diz ele: Dá-me o Teu Espírito Santo, mas: "Não o retires de mim."
2. Observai vós duas espécies de homens: uma dos homens que labutam, outra dos homens entre os quais labutam; uma dos que pensam na terra, outra dos que pensam no céu; uma dos que fazem gravitar seu coração para o abismo, outra dos que unem seu coração aos Anjos; uma dos que confiam nas coisas terrenas, das quais este mundo abunda, outra dos que confiam nas coisas celestes, que Deus, que não mente, prometeu. Mas mescladas estão estas espécies de homens. Vemos agora que o cidadão de Jerusalém, cidadão do reino dos céus, ocupa algum ofício na terra: a saber, um veste a púrpura, é magistrado, é edil, é procônsul, é imperador, dirige a república terrena; mas tem seu coração no alto, se é cristão, se é crente, se é piedoso, se despreza aquilo em que se encontra, e confia naquilo em que ainda não está. Desta espécie foi aquela santa mulher Ester, que, embora fosse esposa de um rei, correu o perigo de interceder por seus compatriotas; e quando orava diante de Deus, onde não podia mentir, disse em sua oração que seus ornamentos régios lhe eram apenas como o pano de uma mulher menstruada. Não desesperemos, pois, dos cidadãos do reino dos céus, quando os vemos ocupados em algum dos assuntos da Babilônia, fazendo algo terreno na república terrena; nem tampouco, ao contrário, felicitemos logo a todos os que vemos ocupados em assuntos celestiais, porque também os filhos da peste se assentam por vezes na cátedra de Moisés, dos quais se diz: "O que dizem, fazei-o: mas o que fazem, não façais: porque dizem, e não fazem." Aqueles, em meio às coisas terrenas, elevam o coração ao céu; estes, em meio a palavras celestiais, arrastam o coração pela terra. Mas virá o tempo do joeiramento, quando ambos hão de ser separados com máxima diligência, a fim de que nenhum grão passe para o monte de palha que há de ser queimada, que nem uma só palha passe para a massa que há de ser armazenada no celeiro. Enquanto, pois, agora está mesclado, ouçamos dali a nossa voz, isto é, a voz dos cidadãos do reino dos céus (pois a isto devemos aspirar, a suportar aqui os homens maus, antes que sermos suportados pelos bons): e conjunguemo-nos a esta voz, tanto com o ouvido quanto com a língua, e com o coração e a obra. O que, se houvermos feito, estamos aqui falando naquilo que ouvimos. Falemos, pois, primeiro do corpo mau do reino terreno.
Por que se gloria na malícia aquele que é poderoso?" (v. 1). Observai, irmãos meus, a glória da malignidade, a glória dos homens maus. Onde está a glória? "Por que se gloria na malícia aquele que é poderoso?" Isto é, aquele que é poderoso na malícia, por que se gloria? É necessário que o homem seja poderoso, mas na bondade, não na malícia. Acaso é grande coisa gloriar-se na malícia? Edificar uma casa pertence a poucos homens; derrubá-la, qualquer ignorante o pode fazer. Semear o trigo, cuidar da messe, esperar até que amadureça, e alegrar-se naquele fruto por cujo trabalho se penou, pertence a poucos homens: com uma só centelha, qualquer um pode queimar toda a colheita. Gerar um filho, alimentá-lo depois de nascido, educá-lo, conduzi-lo até a idade da juventude, é grande tarefa: matá-lo num só momento de tempo, qualquer um o pode fazer. Portanto, aquelas coisas que se fazem para a destruição são as mais facilmente feitas. "Quem se gloria, glorie-se no Senhor": quem se gloria, glorie-se na bondade. Tu te glorias porque és poderoso no mal. Que estás para fazer, ó homem poderoso, que estás para fazer, gabando-te tanto? Estás para matar um homem: isto também um escorpião o pode fazer, isto também uma febre, isto também um fungo venenoso. A isto se reduz o teu poderio, a ser igualado a um fungo venenoso? Isto, pois, fazem os bons cidadãos de Jerusalém, que não na malícia, mas na bondade se gloriam: primeiro, porque não em si mesmos, mas no Senhor se gloriam. Segundo, porque aquelas coisas que edificam eles as fazem com afinco, e fazem coisas que têm força para permanecer: mas as coisas que levam à destruição, podem fazê-las para a disciplina dos que progridem, não para a opressão dos inocentes. Comparado, pois, a este poderio, aquele corpo terreno, por que não poderia ouvir estas palavras: "Por que se gloria na malícia aquele que é poderoso?"
O título do Salmo diz: "Para o fim, entendimento de Davi, quando veio Doeg, o edomita, e anunciou a Saul: Davi veio à casa de Abimelec" - ao passo que lemos que ele viera à casa de Aquimelec. E pode ser que não sem razão suponhamos que, por causa da semelhança do nome e da diferença de uma sílaba, ou antes, de uma letra, os títulos tenham variado. Nos manuscritos dos Salmos, contudo, quando os examinamos, encontramos antes Abimelec do que Aquimelec. E visto que em outro lugar tens um Salmo bem evidente, indicando não uma dissimilaridade de nome, mas um nome totalmente diferente - quando, por exemplo, Davi mudou o seu semblante diante do rei Aquis, não diante do rei Abimelec, e este o despediu, e ele se retirou; e, contudo, o título do Salmo está assim escrito: "Quando mudou o seu semblante na presença de Abimelec" - a própria mudança do nome nos torna antes atentos a um mistério, para que não persigas os quase-fatos da história e desprezes os sagrados véus...
"Na iniquidade, todo o dia, sobre a injustiça pensou a tua língua" (v. 2): isto é, em todo o tempo, sem cansaço, sem intermissão, sem cessação. E quando não o fazes, o pensas; de modo que, quando algo do mal está ausente de tuas mãos, de teu coração não está ausente: ou fazes uma coisa má, ou, enquanto não podes fazê-la, dizes uma coisa má, isto é, falas mal; ou, quando nem isto podes fazer, queres e pensas uma coisa má. "Todo o dia", pois, isto é, sem intermissão. Esperamos um castigo para este homem. Acaso ele não é para si mesmo um pequeno castigo? Tu o ameaças: tu, quando o ameaças, para onde o enviarás? Para o mal? Envia-o antes para si mesmo. Para que possas desafogar muita ira, estás para entregá-lo ao poder das feras: para si mesmo ele é pior que as feras. Pois a fera pode dilacerar-lhe o corpo; ele, por si mesmo, não pode deixar íntegro o seu coração. Por dentro, contra si mesmo ele se enfurece por si mesmo, e tu, de fora, buscas açoites? Antes, ora a Deus por ele, para que seja libertado de si mesmo. Contudo, neste Salmo, irmãos meus, não há uma oração pelos maus, nem contra os maus, mas uma profecia do que há de suceder aos maus. Não penseis, pois, que o Salmo diz algo por malquerença: pois é dito no espírito de profecia.
Segue-se então o quê? Todo o teu poderio e todo o teu pensamento de iniquidade todo o dia, e a meditação de malignidade em tua língua sem intermissão, o que operou, o que fez? "Como navalha afiada, fizeste o engano" (v. 3). Vede o que fazem os homens maus aos Santos: raspam-lhes o cabelo. Que foi que eu disse? Se há tais cidadãos de Jerusalém que ouvem a voz do seu Senhor, do seu Rei, dizendo: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma"; que ouvem a voz que agora mesmo do Evangelho foi lida: "Que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e a si mesmo se arruinar" - desprezam todos os bens presentes, e acima de tudo a própria vida. E que há de fazer a navalha de Doeg a um homem nesta terra que medita no reino dos céus, e que há de estar no reino dos céus, tendo consigo Deus, e há de permanecer com Deus? Que há de fazer essa navalha? Há de raspar o cabelo, há de tornar o homem calvo. E isto pertence a Cristo, que no Lugar da Caveira foi crucificado. Faz também o filho de Coré, que se interpreta como calvície. Pois este cabelo significa o supérfluo das coisas temporais. Os quais cabelos, de fato, não são feitos por Deus como supérfluos no corpo dos homens, mas para uma espécie de ornamento: contudo, porque sem sensação são cortados, aqueles que se apegam ao Senhor com o coração assim têm estas coisas terrenas como têm o cabelo. Mas às vezes também algum bem com o "cabelo" é operado, quando partes o pão ao faminto, quando trazes para tua casa o pobre sem teto; se tiveres visto alguém nu, o cobres: enfim, os próprios Mártires também, imitando o Senhor, derramando sangue pela Igreja, ouvindo aquela voz: "Assim como Cristo deu a sua vida por nós, assim também devemos nós dar pelos irmãos" - de certo modo com seu cabelo nos fizeram bem, isto é, com aquelas coisas que essa navalha pode cortar ou raspar. Mas que também com o próprio cabelo se pode fazer algum bem, também aquela mulher pecadora o indicou, a qual, tendo chorado sobre os pés do Senhor, com seu cabelo enxugou o que com lágrimas molhara? Significando o quê? Que quando tiveres compaixão de alguém, deves também socorrê-lo se puderes. Pois quando tens compaixão, derramas como que lágrimas; quando socorres, enxugas com o cabelo. E se isto a alguém, quanto mais aos pés do Senhor. Os pés do Senhor são o quê? Os santos Evangelistas, dos quais se diz: "Quão belos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam as boas novas!" Portanto, como navalha afie Doeg a sua língua, afie o engano quanto puder: tirará as coisas temporais supérfluas; tirará porventura as coisas necessárias e eternas?
"Amaste a malícia mais que a benignidade" (v. 4). Diante de ti estava a benignidade; a ela devias amar. Pois não estavas para despender coisa alguma, nem estavas para buscar algo a amar por uma viagem distante. A benignidade está diante de ti, a iniquidade está diante de ti: compara e escolhe. Mas talvez tenhas um olho com que vês a malignidade, e não tenhas um olho com que vejas a benignidade. Ai do coração iníquo. O que é pior, ele mesmo se desvia, para não ver o que é capaz de ver. Pois de tal homem que se disse em outro lugar? "Não quis entender para fazer o bem." Pois não se disse "não pôde", mas "não quis", diz, "entender para fazer o bem"; fechou os olhos à luz presente. E que se segue? "Sobre a iniquidade meditou em seu leito"; isto é, no secreto íntimo do seu coração. Alguma reprovação deste tipo se acumula sobre este Doeg, o edomita, um corpo maligno, um movimento da terra, não permanente, não celestial. "Amaste a malignidade mais que a benignidade." Pois queres saber como um homem mau vê ambas, e a primeira antes escolhe, da outra se desvia? Por que clama quando sofre algo injustamente? Por que então exagera quanto pode a iniquidade, e louva a benignidade, censurando aquele que nele operou a malignidade acima da benignidade? Seja, pois, ele mesmo uma regra para ver: por si mesmo será julgado. Ademais, se fizer o que está escrito: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo"; e: "Tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, isso também fazei-lhes vós" - em casa tem meios de saber, porque o que não quiser que lhe seja feito, isso não deve fazer a outro. "Amaste a malícia mais que a benignidade." Iniquamente, desordenadamente, perversamente quiseste elevar a água acima do óleo: a água há de afundar-se, o óleo há de permanecer acima. Quiseste colocar sob as trevas uma luz: as trevas serão postas em fuga, a luz permanecerá. Sobre o céu quiseste colocar a terra: pelo seu peso, a terra cairá no seu lugar. Tu, pois, serás afundado por amar a malícia mais que a benignidade. Pois jamais a malícia vencerá a benignidade. "Amaste a malícia mais que a benignidade: a iniquidade mais que falar a equidade." Diante de ti está a equidade, diante de ti está a iniquidade: uma só língua tens, para onde quiseres a voltas: por que, então, antes para a iniquidade e não para a equidade? Alimento de amargura não dás ao teu ventre, e alimento de iniquidade dás à tua língua maligna? Como escolhes de que viver, assim escolhe o que hás de falar. Preferes a iniquidade à equidade, e preferes a malícia à benignidade; tu, na verdade, preferes, mas acima do que jamais pode haver senão a benignidade e a equidade? Mas tu, colocando-te de certo modo sobre aquelas coisas que é necessário que fiquem por baixo, não as farás estar acima dos bens, mas tu com elas serás afundado até os males.
Por isso se segue no Salmo: "Amaste todas as palavras de afundamento" (v. 5). Resgata-te, pois, a ti mesmo, se puderes, do afundamento. Do naufrágio foges, e abraças o chumbo! Se não queres afundar-te, agarra-te a uma tábua, sê levado pela madeira, deixa que a Cruz te transporte. Mas agora, porque és um Doeg, o edomita, um "movimento", e "da terra", que fazes? "Amaste todas as palavras de afundamento, uma língua enganosa." Isto precedeu; as palavras de afundamento seguiram-se a uma língua enganosa. O que é uma língua enganosa? Uma ministra de embuste é a língua enganosa, dos homens que trazem uma coisa no coração e outra coisa proferem pela boca. Mas nestas está o transtorno, nestas o afundamento.
8. "Portanto Deus te destruirá no fim" (v. 6): ainda que agora pareças florescer como a erva do campo diante do calor do sol. Pois "toda carne é erva, e todo o esplendor do homem como a flor da erva: secou-se a erva, e caiu a flor: mas a palavra do Senhor permanece para sempre." Eis a que podes ligar-te, àquilo que "permanece para sempre." Pois se à erva, e à flor da erva, tiveres te ligado, visto que a erva há de secar, e a flor há de cair, "Deus te destruirá no fim": e se não agora, certamente no fim há de destruir, quando vier aquela joeira, e o monte de palha houver sido separado do grão sólido. Não é o grão sólido para os celeiros, e a palha para o fogo? Não há de estar todo esse Doegue à mão esquerda, quando o Senhor há de dizer: "Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos"? Portanto "Deus te destruirá no fim: te arrancará, e te removerá da tua habitação." Ora, pois, este Doegue, o edomita, está numa habitação: "mas o servo não permanece na casa para sempre." Ele mesmo opera algo de bom, ainda que não com suas obras, ao menos com as palavras de Deus, de modo que na Igreja, quando "busca o que é seu," diria, ao menos, as coisas que são de Cristo.
"Mas Ele te removerá da tua habitação." "Em verdade, em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa." "E a tua raiz da terra dos viventes." Portanto, na terra dos viventes devemos ter raiz. Seja ali a nossa raiz. Fora da vista está a raiz: os frutos podem ser vistos, a raiz não pode ser vista. Nossa raiz é o nosso amor, nossos frutos são as nossas obras: é necessário que tuas obras procedam do amor, então está a tua raiz na terra dos viventes. Então será desarraigado esse Doegue, nem de modo algum poderá ali permanecer, porque tampouco mais profundamente ali fixou raiz: mas há de ser com ele tal como é com aquelas sementes sobre a rocha, as quais, ainda que lancem raiz, contudo, porque umidade não têm, com o sol nascente logo se secam. Mas, por outro lado, os que fixam raiz mais profundamente, ouçam do Apóstolo o quê? "Dobro os meus joelhos ao Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, para que sejais enraizados e fundados no amor." E porque ali já há raiz, "Para que possais," diz ele, "compreender qual seja a altura, e a largura, e o comprimento, e a profundidade: conhecer também o supereminente conhecimento do amor de Cristo, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus." De tais frutos digna é tão grande raiz, sendo tão una, tão brotante, para brotos tão profundamente fundados. Mas verdadeiramente a raiz deste homem será desarraigada da terra dos viventes.
9. "E o justo verá, e temerá; e sobre ele rirão" (v. 7). Temerá quando? Rirá quando? Entendamos, pois, e façamos distinção entre esses dois tempos, o de temer e o de rir, que têm seus respectivos usos. Pois enquanto estivermos neste mundo, não devemos ainda rir, para que depois não pranteemos. Lemos o que está reservado no fim para este Doegue, lemos, e porque entendemos e cremos, vemos, mas tememos. Isto, portanto, foi dito: "O justo verá, e temerá." Enquanto vemos o que há de resultar no fim aos homens maus, por que tememos? Porque o Apóstolo disse: "Com temor e tremor operai a vossa salvação"; porque foi dito num Salmo: "Servi ao Senhor com temor, e exultai a Ele com tremor." Por que "com temor"? "Por isso quem cuida estar em pé, veja que não caia." Por que "com tremor"? Porque diz em outro lugar: "Irmãos, se um homem for surpreendido em algum delito, vós que sois espirituais instruí tal um no espírito de mansidão; atentando a ti mesmo, para que não sejas também tentado." Portanto, os justos que agora são, que vivem da fé, veem de tal modo este Doegue, o que a ele há de resultar, que contudo temem também por si mesmos: pois o que são hoje, sabem; o que amanhã hão de ser, não sabem. Ora, pois, "O justo verá, e temerá." Mas quando rirão? Quando a iniquidade houver passado; quando houver voado por cima; como agora, em grande parte, já voou por cima o tempo incerto; quando houverem sido postas em fuga as trevas deste mundo, em que agora não andamos senão pela lâmpada das Escrituras, e por isso tememos como que na noite. Pois andamos pela profecia; de que diz o apóstolo Pedro: "Temos a mais segura palavra profética, à qual fazeis bem atendendo, como a uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da manhã se levante em vossos corações." Enquanto, pois, andamos por uma lâmpada, é necessário que vivamos com temor. Mas quando houver chegado o nosso dia, isto é, a manifestação de Cristo, de que o mesmo Apóstolo diz: "Quando Cristo houver aparecido, vossa vida, então também vós aparecereis com Ele em glória," então os justos rirão daquele Doegue. ...
2. "Disse o insensato em seu coração: Não há Deus" (v. 1). Tal é a espécie de homens em meio aos quais padece e geme o Corpo de Cristo. Se tal é esta espécie de homens, não são muitos por quem nos afligimos; ao que parece ocorrer aos nossos pensamentos, poucos há; e é coisa difícil encontrar um homem que diga em seu coração: "Não há Deus"; contudo, tão poucos há, que, temendo em meio aos muitos dizer isto, em seu coração o dizem, pois com a boca dizê-lo não ousam. Não é, pois, muito o que somos mandados suportar, dificilmente se encontra: incomum é aquela espécie de homens que dizem em seu coração: "Não há Deus." Mas, se examinado em outro sentido, não se encontra estar em mais homens aquilo que supúnhamos estar em poucos e incomuns, e quase em ninguém? Venham à luz os que vivem vidas más, olhemos para as ações de homens dissolutos, atrevidos e maus, dos quais há grande multidão; que fomentam dia a dia seus pecados, que, tendo seus atos se convertido em hábito, perderam até o senso de vergonha: é tão grande esta multidão de homens, que o Corpo de Cristo, posto no meio deles, mal ousa censurar aquilo a que não é constrangido a cometer, e considera grande coisa para si que a integridade da inocência seja preservada em não fazer aquilo que agora, pelo hábito, ou não ousa reprovar, ou, se tiver ousado, irrompe a censura e a recriminação dos que vivem mal, mais prontamente que a voz livre dos que vivem bem. E esses homens são os que dizem em seu coração: "Não há Deus." A tais homens estou refutando. De onde os refuto? De que suas ações agradam a Deus, eles julgam. Não afirma, pois, "alguns dizem," mas "Disse o insensato em seu coração: Não há Deus." Estes homens creem haver um Deus até tal ponto que julgam que esse mesmo Deus se agrada com o que fazem. Mas se tu, sendo sábio, percebes como "disse o insensato em seu coração: Não há Deus," se atentares, se entenderes, se examinares; aquele que pensa que as más ações agradam a Deus, a esse não pensa ser Deus. Pois se Deus existe, é justo; se é justo, a injustiça Lhe desagrada, a iniquidade Lhe desagrada. Mas tu, quando pensas que a iniquidade Lhe agrada, negas a Deus. Pois se Deus é aquele a quem a iniquidade desagrada, mas a ti não parece que Deus seja aquele a quem a iniquidade desagrada, e não há Deus senão aquele a quem a iniquidade desagrada, então, quando dizes em teu coração que Deus favorece as minhas iniquidades, não dizes outra coisa senão: "Não há Deus."
1. Deste Salmo empreendemos tratar convosco, na medida em que o Senhor no-lo conceder. Um irmão nos pede que tenhamos a vontade, e ora para que tenhamos o poder. Se algo, por acaso, apressadamente eu houver deixado passar, Aquele que até a nós se digna dar o que havemos de poder dizer, o suprirá em vós. O título dele é: "Ao fim, para Maelete, entendimento, a Davi mesmo." "Para Maelete," como encontramos nas interpretações dos nomes hebraicos, parece dizer: Para o que padece, ou está em dor. Mas quem é neste mundo que padece e está em dor, os fiéis o reconhecem, porque disso são. Cristo aqui padece, Cristo aqui está em dor: a Cabeça está acima, os membros abaixo. Pois quem não padecesse nem estivesse em dor não diria: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" Aquele com quem, ao persegui-lo, Ele padecia, convertido, fez padecer. Pois também ele mesmo depois foi iluminado, e enxertado naqueles membros que costumava perseguir; estando prenhe do mesmo amor, disse: "Meus filhinhos, dos quais de novo padeço, até que Cristo seja formado em vós." Pelos membros, portanto, de Cristo, por Seu Corpo que é a Igreja, por esse mesmo Homem Único, isto é, por essa mesma unidade, cuja Cabeça está acima, este Salmo é cantado. ...Quem são, pois, aqueles em meio aos quais padecemos e gememos, se no Corpo de Cristo estamos, se sob Ele, a Cabeça, vivemos, se entre Seus membros somos contados? Quem eles sejam, ouvi.
3. Atentemos também para aquele sentido que, acerca do próprio Cristo, nosso Senhor, nossa própria Cabeça, se apresenta. Pois quando Ele mesmo em forma de servo apareceu na terra, os que O crucificaram disseram: "Ele não é Deus." Porque Filho de Deus era, verdadeiramente Deus era. Mas os que estão corrompidos e se tornaram abomináveis, que disseram? "Ele não é Deus": matemo-Lo, "Ele não é Deus." Tens a voz desses mesmos homens no livro da Sabedoria. Pois, tendo precedido o versículo: "Disse o insensato em seu coração: Não há Deus"; como se se exigissem razões por que o insensato pudesse dizer isto, acrescentou: "Corrompidos estão, e abomináveis se tornaram em suas iniquidades" (v. 2). Ouvi esses homens corrompidos. "Pois disseram consigo mesmos, não pensando retamente": a corrupção começa pela má crença, dali procede aos costumes depravados, dali às mais flagrantes iniquidades — estes são os graus. Mas o que consigo mesmos disseram, não pensando retamente? "Coisa pequena e com tédio é a nossa vida." Desta má crença segue-se aquilo que também o Apóstolo falou: "Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos." Mas na passagem anterior mais difusamente se descreve a própria luxúria: "Coroemo-nos de rosas, antes que murchem; em todo lugar deixemos os sinais de nossa alegria." Depois da descrição mais difusa dessa luxúria, o que se segue? "Matemos o pobre justo": isto é, portanto, dizer: "Ele não é Deus." Palavras suaves pareciam dizer há pouco: "Coroemo-nos de rosas, antes que murchem." Que mais delicado, que mais suave? Esperarias, desta suavidade, cruzes, espadas? Não te admires, suaves são até as raízes dos espinheiros; se alguém as manuseia, não se fere: mas aquilo com que serás ferido dali tem seu nascimento. "Corrompidos," portanto, estão esses homens, "e abomináveis se tornaram em suas iniquidades." Dizem: "Se é Filho de Deus, desça da Cruz." Eis que abertamente dizem: "Ele não é Deus." ...
4. "O Senhor desde o Céu olhou para os filhos dos homens, para ver se há algum que entenda e busque a Deus" (v. 3). Que é isto? "Corrompidos estão," todos esses que dizem: "Não há Deus"? E quê? Escapou a Deus que se tivessem tornado tais? Ou, na verdade, a nós se abriria o pensamento íntimo deles, senão por Ele nos fosse revelado? Se, pois, Ele entendia, se Ele sabia, que é isto que foi dito, "para que visse"? Pois são palavras de quem indaga, de quem não sabe. "Deus desde o Céu olhou," etc. E como se houvesse encontrado o que buscava, olhando e olhando desde o Céu, profere a sentença: "Todos se desviaram, juntamente se tornaram inúteis: não há quem faça o bem, nem sequer um" (v. 4). Surgem duas questões um tanto difíceis: pois se Deus olha desde o Céu, a fim de ver se há algum que entenda ou busque a Deus, insinua-se ao insensato o pensamento de que Deus não sabe todas as coisas. Esta é uma questão: qual é a outra? Se não há quem faça o bem, nem sequer um; quem é aquele que padece em meio aos maus? A primeira questão, pois, se resolve assim: muitas vezes a Escritura fala de tal modo, que o que pelo dom de Deus a criatura faz, diz-se que Deus faz. ...Pois daqui foi dito também o seguinte: "Pois o Espírito perscruta todas as coisas, até a profundidade de Deus"; não porque Aquele que sabe todas as coisas perscrute, mas porque a ti foi dado o Espírito, que também te faz perscrutar: e aquilo que por dom Dele fazes, diz-se que Ele faz; porque sem Ele não o farias: portanto diz-se que Deus faz, quando tu fazes. ...E porque isto pelo dom de Deus fazes, Deus desde o céu está "olhando para os filhos dos homens." A primeira questão, pois, segundo nossa medida, assim foi resolvida.
5. Que é isto que, olhando, reconhecemos? Que é isto que, olhando, Deus reconhece? Que (porque aqui Ele o revela) reconhece Ele? Ouvi o que é: que "Todos se desviaram, juntamente se tornaram inúteis: não há quem faça o bem, nem sequer um." Qual é, pois, aquela outra questão, senão a mesma de que pouco antes fiz menção? Se "não há quem faça o bem, nem sequer um," ninguém resta para gemer em meio aos maus. Espera, diz o Senhor, não julgues apressadamente. Eu dei aos homens que fizessem bem; mas de Mim, diz Ele, não de si mesmos: pois de si mesmos são maus: filhos dos homens são, quando fazem o mal; quando o bem, Meus filhos. Pois isto faz Deus: de filhos dos homens faz filhos de Deus; porque de Filho de Deus fez Filho do Homem. Vede que participação é esta: foi-nos prometida uma participação da Divindade: mente aquele que prometeu, se primeiro não se fez partícipe da mortalidade. Pois o Filho de Deus foi feito partícipe da mortalidade, para que o homem mortal fosse feito partícipe da divindade. Aquele que prometeu que Seu bem seria compartilhado contigo, primeiro contigo compartilhou o teu mal: aquele que a ti prometeu a divindade, mostra em ti o amor. Portanto, tira que os homens são filhos de Deus, resta que são filhos dos homens: "Não há quem faça o bem, nem sequer um."
6. "Não hão de saber todos os que praticam a iniquidade, que devoram o Meu povo como quem come pão"? (v. 5). ...Há, portanto, aqui um povo de Deus que está sendo devorado. Ora, "não há quem faça o bem, nem sequer um." Respondemos pela regra acima. Mas este povo que é devorado, este povo que sofre os maus, este que geme e padece em meio aos maus, agora de filhos dos homens foram feitos filhos de Deus: por isso são devorados. Pois: "O conselho do pobre confundiste, porque o Senhor é a sua esperança." Pois muitas vezes, para que o povo de Deus seja devorado, é justamente isto nele que se despreza: que é o povo de Deus. Saquearei, diz ele, e despojarei; se é cristão, que me fará? ...Mas o que se segue? "Eu te convencerei, e te porei diante da tua face." Não saberás agora de modo que te sejas desagradável a ti mesmo, saberás de modo que possas prantear. Pois Deus não pode deixar de mostrar aos injustos sua iniquidade. Se não a mostrar, quem serão os que hão de dizer: "De que nos aproveitou a soberba, e que nos deu a jactância das riquezas?" Pois então saberão o que agora não querem saber. "Não hão de saber todos?" etc. Por que acrescentou: "como quem come pão"? Como se fosse pão, comem o Meu povo. Pois todas as outras coisas que comemos, podemos comer ora estas, ora aquelas; não sempre esta hortaliça, não sempre esta carne, não sempre estas frutas: mas sempre pão. Que é, pois, "Devoram o Meu povo como quem come pão"? Sem intermissão, sem cessação o devoram.
7. "A Deus não invocaram." Está consolando o homem que geme, e principalmente com uma admoestação, para que, imitando os maus, que muitas vezes prosperam, não se comprazam em fazer o mal. Está reservado para ti o que te foi prometido: a esperança deles é presente, a tua é futura, mas a deles é transitória, a tua segura; a deles falsa, a tua verdadeira. Pois eles "a Deus não invocaram." Não pedem tais homens diariamente a Deus? Não pedem "a Deus." Atentai, se posso dizer isto com o auxílio do próprio Deus. Deus gratuitamente quer ser adorado, gratuitamente quer ser amado, isto é, castamente amado; não que Ele seja amado pela razão de dar algo além de Si mesmo, mas porque Se dá a Si mesmo. Aquele, pois, que invoca a Deus para que se faça rico, a Deus não invoca: pois invoca aquilo que a si mesmo quer que venha. ...Mas agora quererias o cofre cheio, e a consciência vazia: Deus não enche o cofre, mas o peito. De que te aproveitam as riquezas exteriores, se a necessidade interior te oprime? Portanto, aqueles homens que, por causa dos confortos mundanos, por causa dos bens terrenos, por causa da vida presente e da felicidade terrena, invocam a Deus, não invocam a Deus.
4. "Ó Deus, salva-me em teu nome, e julga-me em tua virtude" (v. 1). Diga isto a Igreja, escondendo-se entre os zifeus. Diga isto o corpo cristão, guardando em segredo o bem de seus costumes, esperando em segredo a recompensa de seus méritos; diga isto: "Em tuas virtudes julga-me." Vieste, ó Cristo, humilde apareceste, desprezado foste, açoitado foste, crucificado foste, morto foste; mas, ao terceiro dia ressuscitaste, ao quadragésimo dia subiste ao Céu: assentas à direita do Pai, e ninguém o vê; dali enviaste o teu Espírito, o qual receberam os homens que foram dignos; cheios do teu amor, pregaram entre o mundo e as nações o louvor dessa mesma humildade tua: vejo que o teu nome se sobressai entre os homens, mas, não obstante, como fraco nos foi pregado. Pois nem mesmo aquele Doutor dos gentios disse que entre nós conheceu alguma coisa, "senão a Cristo Jesus, e este crucificado"; a fim de que dele escolhêssemos antes o opróbrio que a glória dos zifeus florescentes. Contudo, que diz ele dele? "Ainda que tenha morrido por fraqueza, todavia vive pelo poder de Deus." Veio, pois, para morrer por fraqueza; há de vir para julgar no poder de Deus: mas, pela fraqueza da Cruz, o seu nome tornou-se ilustre. Quem quer que não tiver crido no nome tornado ilustre pela fraqueza tremerá diante do Juiz, quando Ele tiver vindo em poder. Mas, para que Aquele que outrora foi fraco, quando vier forte, não nos mande com aquela pá para a esquerda, salve-nos Ele "em seu nome, e julgue-nos em sua virtude." Pois quem seria tão temerário a ponto de desejar isto, de dizer a Deus, por exemplo, "Julga-me"? Não se costuma dizer aos homens, como maldição, "Deus te julgue"? Assim, evidentemente é maldição, se Ele te julgar em sua virtude e não te tiver salvo em seu nome: mas, quando, precedendo o nome, te tiver salvo, para tua saúde, seguindo-se a virtude, Ele julgará. Fica sem cuidado: esse juízo não te será castigo, mas separação. Pois em certo Salmo assim se diz: "Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa da nação não santa." ...
3. Estes homens às vezes são observados pelos fracos filhos da luz, e vacilam os seus pés, quando veem os maus florescerem em felicidade, e dizem a si mesmos: "De que me aproveita a inocência? Que me adianta servir a Deus, guardar os seus mandamentos, não oprimir a ninguém, de ninguém saquear coisa alguma, a ninguém prejudicar, e dar o que posso? Eis que faço tudo isto, e eles florescem, e eu labuto." Mas por quê? Também tu quererias ser zifeu? Eles florescem no mundo, murcham no juízo, e, depois de murcharem, serão lançados no fogo eterno: também tu quererias escolher isto? Ignoras o que Ele te prometeu, aquele que a ti veio, o que em si mesmo aqui mostrou? Se a flor dos zifeus fosse de desejar, não teria também o teu Senhor florescido neste mundo? Ou, na verdade, faltou-lhe o poder de florescer? Não; antes preferiu Ele aqui esconder-se entre os zifeus, e dizer a Pôncio Pilatos, como a quem também fosse flor dos zifeus, e estivesse em suspeita acerca do seu reino: "O meu reino não é deste mundo." Por isso aqui Ele esteve escondido: e todos os homens bons aqui estão escondidos, porque o seu bem está dentro, está oculto, está no coração, onde está a fé, onde está a caridade, onde está a esperança, onde está o seu tesouro. Aparecem estes bens no mundo? Tanto estes bens estão ocultos, quanto oculta está a recompensa destes bens. ...
1. O título deste Salmo tem seu fruto na sua prolixidade, se for entendido: e, porque o Salmo é breve, compensemos o não termos de demorar-nos sobre o Salmo demorando-nos sobre o título. Pois dele depende cada verso que se canta. Se alguém, portanto, observar o que está fixado à frente da casa, entrará seguro; e, quando tiver entrado, não errará. Pois isto está marcado, de modo saliente, na própria entrada, a saber, de que maneira, por dentro, ele não poderá errar. O título dele está assim: "Até o fim, em hinos, inteligência de Davi mesmo, quando vieram os zifeus e disseram a Saul: Eis que não está Davi escondido entre nós?" Que Saul foi perseguidor do santo homem Davi, muito bem o sabemos: que Saul trazia a figura de um reino temporal, pertencente não à vida, mas à morte, isto também já lembramos ter comunicado à vossa Caridade. E também que o próprio Davi trazia a figura de Cristo, ou do Corpo de Cristo, deveis saber e trazer à memória, vós que já aprendestes. Que dizer, então, dos zifeus? Havia certa aldeia, Zife, cujos habitantes eram os zifeus, em cuja região Davi se havia escondido, quando Saul o queria encontrar e matar. Estes zifeus, então, tendo sabido disto, o entregaram ao rei seu perseguidor, dizendo: "Eis que não está Davi escondido entre nós?" De nenhum proveito lhes foi, na verdade, a sua traição, e a Davi mesmo nenhum dano. Pois manifestou-se a má disposição deles: mas nem mesmo depois da traição pôde Saul capturar Davi; antes, em certa caverna daquela mesma região, quando Saul foi entregue em suas mãos para que o matasse, Davi o poupou, e aquilo que tinha em seu poder não o fez. Mas o outro procurava fazer aquilo que não tinha em seu poder. Acautelem-se os que foram zifeus: vejamos aqueles que o Salmo nos apresenta para serem entendidos por ocasião destes mesmos homens.
2. Se, pois, indagarmos por que palavra se traduz "zifeus", encontramos "homens florescentes". Florescentes, pois, eram certos inimigos do santo Davi, florescentes diante dele, que se escondia. Podemos encontrá-los entre os homens, se quisermos entender o Salmo. Encontremos aqui, primeiramente, Davi escondido, e encontraremos florescentes os seus adversários. Observai Davi escondido: "Porque estais mortos," diz o Apóstolo aos membros de Cristo, "e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus." Estes homens, pois, que estão escondidos, quando estarão florescentes? "Quando Cristo," diz ele, "vossa vida, tiver aparecido, então também vós com Ele aparecereis em glória." Quando estes homens estiverem florescentes, então estarão murchando aqueles zifeus. Observai, pois, a que flor se compara a glória deles: "Toda carne é erva, e a honra da carne como a flor da erva." Qual é o fim? "A erva murchou, e a flor caiu." Onde estará, então, Davi? Vede o que se segue: "Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre." ...
5. "Ó Deus, ouve a minha oração, recebe em teus ouvidos as palavras da minha boca" (v. 2). ...A ti chegue a minha oração, impelida e lançada pelo desejo de teus eternos bens: aos teus ouvidos a envio, ajuda-a para que chegue, para que não desfaleça no meio do caminho e, como que desfalecendo, caia. Mas, ainda que não me sobrevenham agora os bens que peço, estou seguro, não obstante, de que depois hão de vir. Pois até no caso das transgressões diz-se que certo homem pediu a Deus e não foi ouvido para seu bem. Pois as privações deste mundo o haviam movido à oração, e, posto em tribulações temporais, desejara que as tribulações temporais passassem, e voltasse a flor da erva; e diz: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" É a própria voz de Cristo, mas por causa de seus membros. "As palavras," diz ele, "das minhas transgressões clamei a ti todo o dia, e não me ouviste; e de noite, e não para a minha loucura": isto é, "e de noite clamei, e não me ouviste; e, contudo, nisto mesmo em que não me ouviste, não é para a minha loucura que não me ouviste, mas antes para a minha sabedoria que não me ouviste, para que eu percebesse o que devia pedir-te. Pois pedia aquelas coisas que, para meu dano, talvez tivesse recebido." Pedes riquezas, ó homem; quantos foram arruinados por suas riquezas? De onde sabes se as riquezas te aproveitariam? Não estiveram muitos pobres mais seguros na obscuridade; e, tornando-se ricos, tão logo começaram a resplandecer, foram presa dos mais fortes? Quanto melhor teriam permanecido ocultos, quanto melhor teriam sido desconhecidos, aqueles que passaram a ser procurados não por causa do que eram, mas por causa do que tinham! Nestas coisas temporais, portanto, irmãos, vos admoestamos e exortamos no Senhor, que não peçais coisa alguma como algo já decidido, mas o que Deus sabe ser-vos conveniente. Pois o que vos é conveniente, não o sabeis de modo algum. Às vezes o que pensais ser a vosso favor é contra vós, e o que pensais ser contra vós é a vosso favor. Pois estais enfermos; não diteis ao médico os remédios que ele há de escolher para vos aplicar. Se o doutor dos gentios, o apóstolo Paulo, diz: "Pois o que devemos pedir como convém, não o sabemos," quanto mais nós? Que, contudo, quando lhe parecia orar sabiamente, a saber, que dele fosse tirado o espinho da carne, o anjo de Satanás, que o esbofeteava, para que na grandeza das revelações não se ensoberbecesse, que ouviu do Senhor? Foi feito o que ele desejava? Não; antes, para que se fizesse o que era conveniente, ouviu do Senhor, digo, o quê? "Três vezes," diz ele, "roguei ao Senhor que o tirasse de mim; e ele me disse: A minha graça te basta, pois a virtude se aperfeiçoa na fraqueza." Bálsamo apliquei à ferida; quando o apliquei, eu sei; quando deve ser tirado, eu sei. Não se retire o enfermo das mãos do médico, não dê ele conselhos ao médico. Assim é com todas estas coisas temporais. Há tribulações: se bem adoras a Deus, saberás que Ele sabe o que é conveniente a cada um; há prosperidades: acautela-te ainda mais, para que elas não corrompam a tua alma, de modo que se aparte daquele que as deu. ...
6. "Pois estranhos se levantaram contra mim" (v. 3). Que "estranhos"? Não era o próprio Davi judeu, da tribo de Judá? Mas o próprio lugar, Zife, pertencia à tribo de Judá; era dos judeus. Como, então, "estranhos"? Não na cidade, não na tribo, não na linhagem, mas na flor. ...Mas vede os zifeus, vede-os por algum tempo florescentes. Com razão, filhos "estranhos". Tu, escondendo-te entre os zifeus, que dizias? "Bem-aventurado o povo cujo Deus é o Senhor." Deste afeto é enviada esta oração aos ouvidos do Senhor, quando se diz: "pois estranhos se levantaram contra mim."
7. "E os poderosos buscaram a minha alma." Pois de um modo novo, meus irmãos, eles quereriam destruir a raça dos homens santos, e a raça daqueles que se abstêm de esperar neste mundo — todos aqueles que têm esperança neste mundo. Certamente estão misturados, certamente vivem juntos. Muito opostas uma à outra são estas duas espécies: a daqueles que não colocam esperança senão nas coisas seculares e na felicidade temporal, e a daqueles que firmemente colocam a sua confiança no Senhor Deus. E, embora concordes sejam estes zifeus, não confies demais em sua concórdia: faltam as tentações; quando tiver vindo alguma tentação, de modo que alguém seja reprovado por causa da flor do mundo, não te digo que ele brigará com o Bispo, mas nem sequer da própria Igreja se aproximará, para que não caia parte alguma da erva. Por que disse eu estas palavras, irmãos? Porque agora todos vós ouvis com alegria em nome de Cristo, e, conforme entendeis, assim aclamais à palavra; não aclamaríeis, de fato, se não entendêsseis. Este vosso entendimento deve ser frutuoso. Mas se é frutuoso, a tentação o experimenta; para que, subitamente, quando se disser que sois nossos, por meio da tentação não sejais achados estranhos, e se diga: "Estranhos se levantaram contra mim, e os poderosos buscaram a minha alma." Não se diga o que se segue: "Não puseram Deus diante de sua face." Pois quando porá Deus diante de sua face aquele diante de cujos olhos não há nada senão o mundo? A saber, como possa ter moeda sobre moeda, como possam multiplicar-se os rebanhos, como possam encher-se os celeiros, como se possa dizer à sua alma: "Tens muitos bens, alegra-te, banqueteia-te, farta-te." Põe ele diante de sua face Aquele que a um tal que se vangloria e floresce com a flor dos zifeus diz: "Insensato" (isto é, "homem que não entende", "homem néscio"), "esta noite te será tirada a tua alma; estas coisas que preparaste, de quem serão?"
8. "Pois eis que Deus me ajuda" (v. 4). Nem a si mesmos se conhecem aqueles entre os quais Eu Me oculto. Mas se também eles pusessem a Deus diante do seu rosto, achariam de que modo Deus me ajuda. Pois todos os homens santos são ajudados por Deus, mas interiormente, onde ninguém vê. Pois assim como a consciência dos ímpios é um grande castigo, assim também é um grande gozo a própria consciência dos piedosos. "Pois esta é a nossa glória", diz o Apóstolo, "o testemunho da nossa consciência." É neste interior, e não na flor exterior dos zifeus, que se gloria aquele homem que agora diz: "Pois eis que Deus me ajuda." Ainda que ao longe estejam as coisas que Ele promete, hoje tenho um doce e presente auxílio; hoje, na alegria do meu coração, acho que sem razão dizem alguns: "Quem nos mostra os bens?" Pois está gravada sobre nós a luz do Vosso rosto, ó Senhor; pusestes a alegria em meu coração. Não na minha vinha, não no meu rebanho, não no meu tonel, não na minha mesa, mas "no meu coração". "Pois eis que Deus me ajuda." Como te ajuda Ele? "E o Senhor é o sustentáculo da minha alma."
9. "Faze recair os males sobre os meus inimigos" (v. 5). Por mais verdejantes que estejam, por mais que floresçam, para o fogo estão sendo reservados. "Na Tua verdade, destrói-os." Porque, na verdade, florescem agora, porque, na verdade, brotam como a erva: não sejas homem insensato e tolo, de modo que, pensando nestas coisas, pereças para sempre e eternamente. Pois: "Faze recair os males sobre os meus inimigos." Porque, se tiveres lugar no próprio corpo de Davi, em Sua virtude Ele os destruirá. Estes homens florescem na felicidade do mundo, perecem na virtude de Deus. Não do mesmo modo como florescem também perecem: pois florescem por um tempo, perecem para sempre; florescem em bens irreais, perecem em tormentos reais. "Na Tua força destrói" a quem, na Tua fraqueza, suportaste.
10. "Voluntariamente Te sacrificarei" (v. 6). Quem pode sequer compreender este bem do coração, ao ouvir outro falar dele, se ele mesmo não o provou em si? Que é: "Voluntariamente Te sacrificarei"?... Pois que sacrifício tomarei aqui, irmãos? Ou que oferecerei dignamente ao Senhor por Sua misericórdia? Buscarei vítimas do rebanho de ovelhas, escolherei um carneiro, procurarei algum touro entre os rebanhos, trarei porventura incenso da terra dos sabeus? Que farei? Que oferecerei, senão aquilo de que Ele fala: "O sacrifício de louvor Me honrará"? Por que, então, "voluntariamente"? Porque em verdade amo aquilo que louvo. Louvo a Deus, e no próprio louvor me regozijo: no louvor dEle mesmo me regozijo, de quem, sendo louvado, não me envergonho. Pois Ele não é louvado do mesmo modo como é louvado, pelos que amam as loucuras teatrais, um auriga, ou um caçador, ou um ator qualquer, e por seus admiradores; outros admiradores são convidados, são exortados a bradar juntos: e quando todos já bradaram, muitas vezes, se o seu favorito é vencido, todos ficam envergonhados. Não assim é o nosso Deus: seja Ele louvado com a vontade, amado com a caridade; que seja gratuito (ou voluntário) que Ele seja amado e que seja louvado. Que é "gratuito"? A Si mesmo por Si mesmo, não por causa de outra coisa. Pois se louvas a Deus para que Ele te dê alguma outra coisa, já não amas gratuitamente a Deus. Envergonharias, se tua esposa, por causa das riquezas, te amasse, e, porventura, se a pobreza te sobreviesse, começasse a pensar em adultério. Visto que, portanto, quererias ser amado gratuitamente por tua companheira, amarás a Deus por causa de outra coisa? Que recompensa hás de receber de Deus, ó cobiçoso? Não a terra para ti, mas a Si mesmo guarda quem fez o céu e a terra. "Voluntariamente Te sacrificarei": não o faças por necessidade. Pois se por causa de outra coisa louvas a Deus, por necessidade louvas... Estas coisas também que Ele deu, por causa do Doador são boas. Pois Ele dá inteiramente, dá estas coisas temporais: e a uns para seu bem, a outros para seu dano, segundo a altura e a profundidade de Seus juízos... "Voluntariamente Te sacrificarei." Por que "voluntariamente"? Porque gratuitamente. Que é gratuitamente? "E confessarei o Teu nome, ó Senhor, porque é bom": por nenhuma outra razão, senão porque é "bom". Diz ele: "Confessarei o Teu nome, ó Senhor", porque me dás propriedades fecundas, porque me dás ouro e prata, porque me dás riquezas extensas, dinheiro abundante, dignidade elevadíssima? De modo algum. Mas o quê? "Porque é bom." Nada acho melhor que o Teu nome. 11. "Pois de toda tribulação me livraste" (v. 7). Por esta causa percebi quão bom é o Teu nome: pois se isto eu pudesse reconhecer antes das tribulações, talvez não me tivesse sido necessário passar por elas. Mas a tribulação foi aplicada para admoestação, a admoestação redundou em Teu louvor. Pois eu não teria entendido onde estava, se não fosse admoestado por minha fraqueza. "De todas as tribulações", portanto, "me livraste. E sobre os meus inimigos olhou para trás o meu olho": sobre aqueles zifeus "olhou para trás o meu olho". Sim, sua flor ultrapassei em altura de coração, a Ti vim, e dali olhei para trás sobre eles, e vi que "Toda carne é erva, e toda a glória do homem como a flor da erva": como também em certo lugar se diz: "Vi o ímpio exaltado e levantado como os cedros do Líbano: passei, e eis que já não era." Por que "já não era"? Porque tu passaste. Que é "porque tu passaste"? Porque não em vão ouviste "Levanta o teu coração"; porque não permaneceste na terra, onde apodrecerias; porque ergueste a tua alma a Deus, e subiste além dos cedros do Líbano, e daquela altura observaste: e "eis que já não era"; e o buscaste, e não se achou lugar para ele. Já não há trabalho diante de ti; porque entraste no santuário de Deus, e entendeste as últimas coisas. Assim também aqui ele conclui deste modo. "E sobre os meus inimigos olhou para trás o meu olho." Fazei isto, pois, irmãos, com as vossas almas; levantai os vossos corações, aguçai o gume de vossa mente, aprendei verdadeiramente a amar a Deus, aprendei a desprezar o mundo presente, aprendei a sacrificar voluntariamente as oferendas de louvor; para que, subindo além da flor da erva, possais olhar para trás sobre os vossos inimigos.
Que é, pois, "Entendimento a Davi mesmo"? Davi foi, como sabemos, santo profeta, rei de Israel, filho de Jessé: mas porque de sua semente veio, para nossa salvação segundo a carne, o Senhor Jesus Cristo, muitas vezes sob aquele nome Ele é figurado, e Davi em lugar de Cristo é posto em figura, por causa da origem da Carne do Mesmo. Pois de certo modo Ele é Filho de Davi, de certo modo Ele é Senhor de Davi; Filho de Davi segundo a carne, Senhor de Davi segundo a divindade. Pois se por Ele foram feitas todas as coisas, por Ele também o próprio Davi foi feito, de cuja semente Ele veio aos homens. Ademais, havendo o Senhor interrogado os judeus de quem afirmavam ser Cristo filho, responderam: "De Davi": ao que o Senhor repreende os judeus, quando disseram que Ele era Filho de Davi. Viu Ele que haviam parado na carne, e perdido de vista a divindade; e os reprova propondo uma questão: "Como, pois, chama-O Davi mesmo, em espírito, Senhor: 'Disse o Senhor a meu Senhor'... Se, pois, em espírito O chama Senhor, como é Ele seu Filho?" Uma questão propôs; que Ele fosse Filho não negou. Ouvistes "Senhor"; dizei vós como Ele é seu "Filho"; ouvistes "Filho"; dizei como Ele é "Senhor". Esta questão a Fé Católica a resolve. Como "Senhor"? Porque "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." Como "Filho"? Porque "o Verbo se fez carne, e habitou entre nós." Porque, então, Davi em figura é Cristo, mas Cristo, como muitas vezes temos lembrado a vossa Caridade, é tanto Cabeça quanto Corpo; nem devemos falar de nós mesmos como alheios a Cristo, de quem somos membros, nem contar-nos como se fôssemos alguma outra coisa: porque "os dois serão uma só carne." "Grande é este Sacramento," diz o Apóstolo, "mas falo com respeito a Cristo e à Igreja." Porque, então, o Cristo total é "Cabeça e Corpo"; quando ouvimos, "Entendimento a Davi mesmo," entendamo-nos também a nós mesmos em Davi. Entendam os membros de Cristo, e Cristo em seus membros entenda, e os membros de Cristo em Cristo entendam: porque Cabeça e Membros são um só Cristo. A Cabeça estava no céu, e dizia: "Por que me persegues?" Nós com Ele estamos no céu pela esperança, Ele mesmo está conosco na terra pelo amor. Portanto, "entendimento a Davi mesmo." Sejamos advertidos quando ouvimos, e entenda a Igreja: pois nos cumpre grande diligência para entender em que mal ora estamos, e de que mal desejamos ser libertos, lembrando-nos da Oração do Senhor, onde ao final dizemos: "Livrai-nos do mal." Portanto, em meio a muitas tribulações deste mundo, este Salmo se queixa em certa medida de entendimento. Não se lamenta com ele quem não tem entendimento. Mas, ademais, caríssimos, devemos lembrar que à imagem de Deus fomos feitos, e isso não em outra parte senão no próprio entendimento. Pois em muitas coisas somos superados pelos animais; mas quando o homem sabe que foi feito à imagem de Deus, nisto reconhece em si mesmo algo mais do que foi dado aos animais mudos. Mas, considerando todas as coisas que o homem tem, encontra-se ele nisto peculiarmente distinto do animal mudo, em que tem em si mesmo entendimento. Donde certos homens, desprezando em si mesmos aquela coisa peculiar e especial que de seu Criador haviam recebido, o próprio Criador os reprova, dizendo: "Não vos torneis como o cavalo e o mulo, nos quais não há entendimento." ...
"Em hinos:" em louvores. Pois quer estejamos atribulados e angustiados, quer nos regozijemos e exultemos, Ele deve ser louvado, que tanto nas tribulações instrui quanto na alegria consola. Pois o louvor de Deus, do coração e da boca do homem cristão, não deve apartar-se; não que louve na prosperidade e maldiga na adversidade; mas segundo o modo que este Salmo prescreve: "Bendirei ao Senhor em todo tempo, sempre o seu louvor está em minha boca." Regozijas-te; reconhece um Pai que te condescende; estás atribulado; reconhece um Pai que te castiga. Quer condescenda, quer castigue, está Ele instruindo aquele a quem prepara uma herança.
Deste Salmo o título é: "Ao fim, em hinos, entendimento a Davi mesmo." O que seja o "fim," brevemente o traremos à vossa lembrança, pois já o conheceis. "Pois o fim da Lei é Cristo, para justiça a todo aquele que crê." Dirija-se, pois, a atenção ao Fim, dirija-se a Cristo. Por que é Ele chamado fim? Porque tudo quanto fazemos, a Ele o referimos, e quando a Ele tivermos chegado a nossa morada, mais nada teremos a pedir. Pois há um fim de que se fala que consome, e há um fim de que se fala que aperfeiçoa. Em um sentido, por exemplo, o entendemos, quando ouvimos que se acabou o alimento que se comia; e em outro sentido o entendemos quando ouvimos que se acabou a veste que se tecia: em ambos os casos ouvimos que se acabou, mas o alimento de modo que já não existe, a veste de modo que se aperfeiçoou. O nosso fim, pois, deve ser a nossa perfeição, e nossa perfeição é Cristo. Pois nEle somos aperfeiçoados, porque dEle mesmo, a Cabeça, somos os Membros. E foi chamado "o Fim da Lei," porque sem Ele ninguém aperfeiçoa a Lei. Quando, pois, ouvirdes nos Salmos, "Ao fim," — pois muitos Salmos assim são sobrescritos —, não esteja vosso pensamento no consumir, mas na consumação.
"Ouvi Vós, ó Deus, minha súplica, e não desprezeis minha oração: atendei a mim, e ouvi-me" (v. 1). De um homem aflito, ansioso, posto em tribulação, são estas palavras. Ora, sofrendo muitas coisas, deseja ser livre do mal: resta que ouçamos em que mal ele está, e quando começar a falar, reconheçamos que ali estamos nós mesmos; a fim de que, partilhada a tribulação, unamos a oração. "Fiquei triste em meu exercício, e fui perturbado" (v. 2). Onde entristecido, onde perturbado? "Em meu exercício," diz ele. Dos homens maus, que ele sofre, fez menção, e a esse mesmo sofrer de homens maus chamou seu "exercício." Não penseis que sem proveito há homens maus neste mundo, e que nenhum bem deles faz o bom Deus. Todo homem mau ou por isto vive, para que seja corrigido, ou por isto vive, para que por meio dele um homem bom seja exercitado. Oxalá, pois, aqueles que agora nos exercitam se convertessem, e conosco juntamente fossem exercitados! Contudo, enquanto forem tais que exercitem, não os odiemos: porque naquilo em que algum deles é mau, se até o fim há de perseverar, não sabemos; e muitas vezes, quando a ti mesmo parece que odiaste um inimigo, odiaste um irmão, e não o sabes. O diabo e seus anjos, nas santas Escrituras, nos foram manifestados como destinados ao fogo eterno. Só deles se deve desesperar a emenda. ...Portanto, uma vez que esta regra do Amor está fixada para ti, que, imitando o Pai, ames um inimigo: pois, diz Ele, "amai os vossos inimigos": neste preceito como te exercitarias, se não tivesses inimigo a sofrer? Vês, pois, que ele te aproveita algo: e que Deus, poupando os maus, te aproveite, a fim de que mostres misericórdia: porque talvez tu também, se és homem bom, de homem mau foste feito homem bom: e se Deus não poupasse os maus, nem mesmo tu serias achado para dar graças. Poupe Ele, pois, também a outros, quem a ti também poupou. Pois não seria justo, tendo tu passado, fechar o caminho da piedade.
Donde, pois, ora este homem, posto entre homens maus, com cujas inimizades era exercitado? Por que diz ele: "Fiquei triste em meu exercício, e fui perturbado"? Enquanto ele estende seu amor a ponto de amar os inimigos, foi afetado de desgosto, latido por todos os lados pelas inimizades de muitos homens, pelo frenesi de muitos, e sob certa infirmidade humana afundou-se. Viu-se ele agora começar a ser trespassado por uma má sugestão do diabo, para trazer ódio contra seus inimigos: lutando contra o ódio a fim de aperfeiçoar o próprio amor, na própria luta, e na luta, foi perturbado. Pois há sua voz em outro Salmo: "Meu olho se turbou por causa da ira." E que se segue ali? "Envelheci entre todos os meus inimigos." Como se em tempestade e ondas começasse a afundar, como Pedro. Pois pisa as ondas deste mundo aquele que ama os inimigos. Cristo sobre o mar andava sem temor, de cujo coração de modo algum se poderia tirar o amor de um inimigo, o qual, pendendo na Cruz, dizia: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Pedro também quis andar. Ele como Cabeça, Pedro como Corpo: porque "Sobre esta pedra," disse Ele, "edificarei a minha Igreja." Foi-lhe ordenado andar, e ele andava pela Graça daquele que ordenava, não por sua própria força. Mas quando viu o vento forte, temeu; e então começou a afundar, perturbado em seu exercício. Por que vento forte? "Pela voz do inimigo, e pela tribulação do pecador" (v. 3). Portanto, da mesma maneira que ele clamou sobre as ondas, "Senhor, pereço, salva-me," semelhante voz deste homem precedeu: "Ouvi-me." Por que razão? Que sofres tu? De que gemes? "Fiquei triste em meu exercício." A ser exercitado, na verdade, entre homens maus me puseste, mas em demasia se ergueram, além de minhas forças: acalma Tu a um perturbado, estende a mão a um que afunda. "Pois trouxeram sobre mim a iniquidade, e em ira me ensombreciam." Ouvistes de ondas e ventos: um como que humilhado o insultavam, e ele orava: por todos os lados contra ele, com o rugido do insulto, se enfureciam, mas ele por dentro invocava Aquele a quem não viam. ...
Mas este homem, perturbado e entristecido, orava, tendo seu olho perturbado como que por causa da ira. Mas a ira de um irmão, se se tiver inveterado, é então ódio. A ira perturba o olho, o ódio o apaga: a ira é palha, o ódio é trave. Às vezes odeias e repreendes um homem irado: em ti há ódio, naquele que repreendes, ira: com razão te é dito: "Tira primeiro a trave de teu próprio olho, e então verás para tirar a palha do olho de teu irmão." Pois, para que saibais quanta diferença há entre ira e ódio: dia a dia homens se iram contra seus filhos; mostrai-me os que odeiam seus filhos! Este homem, perturbado, orava, mesmo entristecido, lutando contra todas as injúrias de todos os que injuriam; não para vencer a algum deles retribuindo injúria, mas para não odiar a nenhum deles. Daí ora, daí pede: "Da voz do inimigo e da tribulação do pecador." "Meu coração se perturbou em mim" (v. 4). Isto é o mesmo que em outro lugar foi dito: "Meu olho, por causa da ira, se turbou." E se o olho se turbou, que se segue? "E o temor da morte caiu sobre mim." Nossa vida é o amor: se a vida é amor, a morte é ódio. Quando um homem começa a temer que venha a odiar aquele que amava, é a morte que teme; e uma morte mais aguda, e uma morte mais íntima, pela qual a alma é morta, não o corpo. Lembraste de um homem enfurecendo-se contra ti; que havia ele de fazer, contra quem o próprio Senhor te deu segurança, dizendo: "Não temais os que matam o corpo"? Ele, enfurecendo-se, mata o corpo; tu, guardando ódio, mataste a alma; e ele o corpo de outro, tu a tua própria alma. "Temor," portanto, "da morte caiu sobre mim."
"Temor e tremor vieram sobre mim, e as trevas me cobriram" (v. 5). "E eu disse": "Quem odeia a seu irmão está nas trevas até agora." Se o amor é luz, o ódio é trevas. E que diz a si mesmo aquele posto naquela fraqueza e perturbado naquele exercício? "Quem me dará asas como de pomba, e voarei e descansarei?" (v. 6). Ou pela morte suspirava, ou pela solidão ansiava. Enquanto, diz ele, esta for a obra que tenho, enquanto este mandamento me é dado, que ame os inimigos, as injúrias destes homens, crescendo e me ensombrecendo, desconcertam meu olho, perturbam minha vista, penetram meu coração, matam minha alma. Quisera partir, mas fraco sou, para que, permanecendo, não acrescente pecados a pecados: ou ao menos que eu seja separado por um pequeno espaço da humanidade, para que minha ferida não sofra golpes frequentes, a fim de que, sarada, seja trazida de volta ao exercício. Isto é o que acontece, irmãos, e surge muitas vezes na mente do servo de Deus um desejo de solidão, por nenhuma outra razão senão por causa da multidão de tribulações e escândalos, e diz ele: "Quem me dará asas?" Acha-se ele sem asas, ou antes com asas atadas? Se faltam, que lhe sejam dadas; se atadas, que sejam soltas; porque também aquele que solta as asas de uma ave ou lhe dá, ou lhe devolve suas asas. Pois não as tinha ela como próprias, com que não podia voar. Asas atadas fazem um fardo. "Quem," diz ele, "me dará asas como de pomba, e voarei e descansarei?" Descansar, onde? Já disse que há aqui dois sentidos: ou, como diz o Apóstolo, "ser dissolvido e estar com Cristo, pois isto é de longe o melhor." ...Mesmo aquele que não pode ser emendado é teu, seja pela comunhão do gênero humano, seja muitas vezes pela Comunhão da Igreja; ele está dentro, que farás? Para onde irás? De onde te separarás, a fim de não sofreres estas coisas? Mas vai a ele, fala, exorta, persuade, ameaça, repreende. Fiz todas as coisas, quaisquer forças que tinha empreguei e esgotei, nada, vejo, prevaleci; todo o meu trabalho se gastou, a dor permaneceu. Como, pois, descansará meu coração de tais homens, senão dizendo: "Quem me dará asas?" "Como de pomba," porém, não como de corvo. A pomba busca fugir das tribulações, mas não perde o amor. Pois a pomba é posta como figura do amor, e nela se ama o lamento. Nada é tão dado a lamentos quanto a pomba: dia e noite se queixa, como se estivesse posta aqui onde deve queixar-se. Que diz, pois, este que ama? As injúrias dos homens não posso suportar, rugem, são arrebatados de frenesi, inflamam-se de indignação, em ira me ensombrecem; fazer-lhes bem não posso; oxalá eu descansasse em algum lugar, separado deles no corpo, não no amor; para que em mim não se perturbe o próprio amor; com minhas palavras e meu discurso nenhum bem lhes posso fazer, orando por eles talvez lhes faça bem. Estas palavras dizem os homens, mas muitas vezes estão de tal modo atados que voar não podem. Pois talvez não estejam atados por nenhum visco, mas atados pelo dever. Mas se estão atados pelo cuidado e pelo dever, e a deixá-lo não podem, digam: "Desejava ser dissolvido e estar com Cristo, pois isto é de longe o melhor: permanecer na carne é necessário por causa de vós." Uma pomba retida pelo afeto, não pela cupidez, não podia voar por causa do dever a cumprir, não por causa de pouco mérito. Contudo, um anseio no coração há de existir necessariamente; nem sofre este anseio senão aquele que começou a andar naquele caminho estreito: a fim de que saiba que não faltam à Igreja perseguições, mesmo neste tempo, quando se vê calma na Igreja, ao menos com respeito àquelas perseguições que nossos Mártires sofreram. Mas não faltam perseguições, porque verdadeiro é este dito: "Todos os que piamente quiserem viver em Cristo, sofrerão perseguição." ...
"Eis que me afastei fugindo, e habitei no deserto" (v. 7). Em que deserto? Onde quer que estejas, ali se ajuntarão outros homens; o deserto contigo buscarão, à tua vida se apegarão, não podes repelir a sociedade dos irmãos: misturam-se contigo também homens maus; ainda assim, o exercício é tua devida porção. "Eis que me afastei, e habitei no deserto." Em que deserto? É, talvez, na consciência, aonde ninguém entra, onde ninguém está contigo, onde estás tu e Deus. Pois se no deserto, em qualquer lugar, que farás com os homens que se ajuntam? Pois não poderás ser separado da humanidade, enquanto entre os homens vives. ...
9. "Eu esperava por Aquele que me salvasse da fraqueza de ânimo e da tempestade" (vv. 8). Mar há, tempestade há: nada mais te resta senão clamar: "Senhor, pereço." Estenda Ele a mão, Aquele que sem temor pisa as ondas, alivie Ele o teu pavor, confirme Ele em Si mesmo a tua segurança, fale Ele a ti interiormente e diga-te: "Atenta para Mim, para o que Eu suportei": um irmão mau porventura padeces, ou um inimigo de fora padeces; qual destes Eu não padeci? Rugiam de fora os judeus, por dentro um discípulo traía. Ali ruge, pois, a tempestade, mas Ele salva os homens da fraqueza de ânimo e da tempestade. Talvez o teu navio esteja perturbado, porque Ele em ti dorme. O mar enfurecia-se, o barco em que os discípulos navegavam era açoitado; mas Cristo dormia: por fim viram eles que entre eles dormia o Senhor e Criador dos ventos; aproximaram-se e despertaram a Cristo; Ele ordenou aos ventos, e fez-se grande bonança. Com razão, pois, talvez o teu coração esteja perturbado, porque te esqueceste d'Aquele em quem creste: além do suportável padeces, porque não te veio à mente o que por ti Cristo padeceu. Se à tua mente não vem Cristo, Ele dorme: desperta a Cristo, relembra a fé. Pois então em ti Cristo dorme, se te esqueceste das paixões de Cristo: então em ti Cristo vigia, se te lembraste das paixões de Cristo. Mas quando com coração pleno tiveres considerado o que Ele padeceu, não suportarás tu também com equanimidade? E porventura te regozijarás, por teres sido achado em alguma semelhança das paixões do teu Rei. Quando, pois, pensando nestas coisas, tiveres começado a te consolar e a te regozijar, Ele se levantou, ordenou aos ventos; por isso há grande bonança. "Eu esperava por Aquele que me salvasse da fraqueza de ânimo e da tempestade."
10. "Submerge-os, Senhor, e divide as línguas deles" (v. 9). Refere-se aos homens que o perturbavam e o cercavam de sombras, e não desejou isto por raiva, irmãos. Aqueles que perversamente se levantaram, para eles convém que sejam submersos. Aqueles que perversamente conspiraram, convém-lhes que suas línguas sejam divididas: consintam para o bem, e concordem suas línguas entre si. Mas se para um só propósito houvesse um sussurrar contra mim, diz ele, todos os meus inimigos, percam eles seu "único propósito" no mal, divididas sejam as suas línguas, não concordem entre si. "Submerge, Senhor, e divide as línguas deles." Por que "submerge"? Porque a si mesmos se elevaram. Por que "divide"? Porque para uma coisa má se uniram. Recordai aquela torre dos soberbos, feita depois do dilúvio: que disseram os soberbos? Para que não pereçamos num dilúvio, façamos uma torre elevada. Na soberba pensavam-se fortificados, edificaram uma torre elevada, e o Senhor dividiu as suas línguas. Então começaram a não se entender uns aos outros; daí surgiu o princípio das muitas línguas. Pois antes uma só língua havia: mas uma só língua para homens concordes era boa, uma só língua para homens humildes era boa: mas quando aquele ajuntamento caiu de cabeça numa união de soberba, Deus os poupou; ainda que dividisse as línguas, para que, entendendo-se uns aos outros, não fizessem uma unidade destrutiva. Por meio de homens soberbos, foram divididas as línguas; por meio de humildes Apóstolos, foram unidas as línguas. O espírito de soberba dispersou as línguas, o Espírito Santo uniu as línguas. Pois quando o Espírito Santo veio sobre os discípulos, com as línguas de todos os homens falavam, por todos os homens eram entendidos: línguas dispersas, em uma se uniram. Portanto, se ainda enfurecem e são gentios, convém-lhes ter divididas as suas línguas. Quereriam eles uma só língua; venham à Igreja; porque mesmo em meio à diversidade das línguas da carne, uma só é a língua na fé do coração.
11. "Porque vi iniquidade e contradição na cidade." Com razão este homem buscava o deserto, pois via iniquidade e contradição na cidade. Há certa cidade turbulenta: foi ela mesma que construía uma torre, foi ela mesma que se confundiu e se chamou Babel, foi ela mesma que se dispersou por inúmeras nações: dali se congrega a Igreja no deserto de uma boa consciência. Pois via contradição na cidade. "Cristo vem." — "Que Cristo?", tu contradizes. — "Filho de Deus." — "E tem Deus um Filho?", tu contradizes. — "Nasceu de uma virgem, padeceu, ressuscitou." — "E donde é possível que isto se faça?", tu contradizes. — Atenta ao menos para a glória da própria Cruz. Agora, na fronte dos reis, foi fixada aquela Cruz sobre a qual os inimigos insultavam. O efeito provou a virtude. Subjugou o mundo, não com o aço, mas com a madeira. A madeira da Cruz, digna de insultos, parecia aos inimigos, e diante da própria madeira, de pé, meneavam a cabeça, dizendo: "Se é Filho de Deus, desça Ele da Cruz." Ele estendia as suas mãos a um povo incrédulo e contraditor. Pois se justo é o que da fé vive, injusto é o que não tem fé. Por aquilo que aqui ele diz "iniquidade", entendo incredulidade. O Senhor, pois, via na cidade a iniquidade e a contradição, e estendia as suas mãos a um povo incrédulo e contraditor: e, no entanto, esperando por estes mesmos, dizia: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Ainda agora, na verdade, enfurece-se o resto daquela cidade, ainda agora contradizem. Das frontes de todos os homens agora Ele estende as mãos ao resto incrédulo e contraditor.
12. "Dia e noite a cercará sobre os seus muros a iniquidade, e o trabalho." "Sobre os seus muros"; sobre as suas fortificações, sustentando como que as suas cabeças, os seus homens nobres. Se aquele homem nobre fosse cristão, nenhum permaneceria pagão! Muitas vezes dizem os homens: "ninguém permaneceria pagão, se ele fosse cristão." Muitas vezes dizem os homens: "Se também ele se fizesse cristão, quem permaneceria pagão?" Porque, pois, ainda não se fizeram cristãos, são como que muros daquela cidade incrédula e contraditora. Até quando estarão de pé estes muros? Nem sempre estarão de pé. A Arca vai rodeando os muros de Jericó: há de vir o tempo em que, na sétima volta da Arca, todos os muros da cidade incrédula e contraditora hão de cair. Até que isto se cumpra, este homem se perturba no seu exercício; e, suportando os restos dos homens contraditores, escolheria asas para voar longe, escolheria o repouso do deserto. Mas continue ele em meio aos homens contraditores, suporte as ameaças, beba as injúrias, e espere por Aquele que o salvará da fraqueza de ânimo e da tempestade: contemple a Cabeça, o modelo para a sua vida, faça-se calmo na esperança, ainda que se perturbe de fato. "Dia e noite a cercará sobre os seus muros a iniquidade; e o trabalho em seu meio, e a injustiça." E por esta razão há ali trabalho, porque ali há iniquidade: porque ali há injustiça, por isso também há ali trabalho. Mas ouçam a Ele estendendo as mãos. "Vinde a Mim, todos vós que trabalhais." Vós clamais, contradizeis, injuriais: Ele, pelo contrário, "Vinde a Mim, todos vós que trabalhais", na vossa soberba, e repousareis na Minha humildade. "Aprendei de Mim", diz Ele, "porque sou manso e humilde de coração, e achareis repouso para as vossas almas." Pois por que trabalham eles, senão porque não são mansos e humildes de coração? Deus se fez humilde, core o homem de ser soberbo.
13. "Não faltou das suas praças a usura e o engano" (v. 11). A usura e o engano não estão ao menos ocultos, porque são coisas más, mas em público se enfurecem. Pois aquele que em sua casa faz algum mal, ao menos de seu mal se envergonha: "Nas suas praças, usura e engano." O empréstimo a juros tem até uma profissão, o empréstimo a juros também se chama uma ciência; fala-se de uma corporação, uma corporação como que necessária ao Estado, e de sua profissão paga tributo; tão inteiramente, na verdade, está nas praças o que deveria ter sido ocultado. Há também outra usura, pior, quando não perdoas o que te é devido; e o olhar se perturba naquele versículo da oração: "Perdoa-nos as nossas dívidas — assim como nós perdoamos aos nossos devedores." Pois que farás ali, quando estiveres para orar, e chegares a esse mesmo versículo? Uma palavra injuriosa ouviste: quererias exigir a pena da condenação. Consente ao menos em exigir tanto quanto deste, ó usurário de injúrias! Com o punho foste ferido, matando é que buscas. Má usura! Como irás à oração? Se tiveres deixado de orar, por qual caminho voltarás ao Senhor? Eis que dirás: "Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome, venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu." Dirás: "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje." Chegarás a: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores." Mesmo naquela cidade má abundem estas usuras; não entrem nos muros onde o peito é golpeado! Que farás? Pois ali estais tu e aquele versículo no meio? Petições para ti compôs um Advogado celestial. Aquele que sabia o que ali costumava se fazer, disse-te: "De outro modo não alcançarás." "Em verdade, em verdade vos digo, que se perdoardes aos homens os pecados, ser-vos-ão perdoados; mas se não perdoardes os pecados aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará." Quem diz isto? Aquele que sabe o que ali se está fazendo, no lugar onde estás de pé para fazer o pedido. Vede como Ele mesmo quis ser o teu Advogado; Ele mesmo o teu Conselheiro? Ele mesmo o Assessor do Pai, Ele mesmo teu Juiz disse: "De outro modo não receberás." Que farás? Não receberás, se não falares; não receberás se falsamente falares. Portanto, ou deves fazer e falar, ou então o que pedes não alcançarás; porque os que isto não fazem estão em meio àquelas más usuras. Ocupem-se nisso os que ainda os ídolos ou adoram ou desejam: não tu, ó povo de Deus, não tu, ó povo de Cristo, não tu, o Corpo d'Aquele que é a Cabeça! Atenta para o vínculo da tua paz, atenta para a promessa da tua vida. Pois de que te aproveita exigir pelas injúrias que sofreste? A vingança te reconforta? Portanto, sobre o mal alheio te regozijarás? Sofreste o mal; perdoa; não sejais dois.
2. Quem são, pois, o povo que dos homens santos foi posto à parte na inscrição do Título? Que o próprio Título nos declare esse povo. Pois foi escrito certo título na Paixão do Senhor, quando o Senhor foi crucificado: havia naquele lugar um Título inscrito em hebraico, em grego e em latim: "O Rei dos Judeus"; em três línguas, como que por três testemunhas, o Título era confirmado: porque "na boca de duas ou três testemunhas se firmará toda palavra."
4. Todos, pois, os homens santos que estão padecendo a opressão daqueles que foram postos à parte dos santos, atentem para este Salmo, percebam-se aqui a si mesmos, falem o que aqui se fala, para que padeçam o que aqui se fala. ... Que ninguém pense, pois, em inimizades privadas, ao estar para ouvir as palavras deste Salmo: "Sabei que para nós a luta não é contra a carne e o sangue, mas contra principados e potestades, e contra as coisas espirituais da maldade", isto é, contra o diabo e os seus anjos; porque mesmo quando padecemos os homens que nos afligem, é ele quem instiga, é ele quem inflama, movendo-os como que a seus vasos. Atentemos, pois, para dois inimigos, aquele que vemos e aquele que não vemos; o homem vemos, o diabo não vemos; ao homem amemos, do diabo acautelemo-nos; pelo homem oremos, contra o diabo oremos, e digamos a Deus: "Tem piedade de mim, Senhor, porque o homem me pisou" (v. 1). Não temas porque o homem te pisou: tem tu vinho, uva te fizeste para que fosses pisado. "O dia todo, guerreando, me perturbou", todo aquele que foi posto à parte dos santos. Mas por que não se poderia entender aqui também o próprio diabo? É porque se faz menção do "homem"? Erra, pois, o Evangelho, por ter dito: "Um homem que é inimigo fez isto"? Mas por uma espécie de figura pode ele também ser chamado homem, e contudo não ser homem. Quer, pois, fosse aquele a quem contemplava o que disse estas palavras, quer fosse o povo e cada um que foi posto à parte dos homens santos, por cujo meio o diabo perturba o povo de Deus, que se apega aos santos, que se apega ao Santo, que se apega ao Rei, indignados os quais com o título deste Rei foram como que repelidos e postos à parte: diga ele, "Tem piedade de mim, Senhor, porque o homem me pisou": e não desfaleça neste pisar, conhecendo Aquele a quem invoca, e por cujo exemplo foi fortalecido. O primeiro cacho no lagar prensado é Cristo. Quando aquele cacho pela paixão foi espremido, fluiu daí aquilo donde "o cálice inebriante quão formosamente passa!" Diga também o Seu Corpo, olhando para a sua Cabeça: "Tem piedade de mim, Senhor, porque o homem me pisou: o dia todo, guerreando, me perturbou." "O dia todo", em todo tempo. Ninguém diga a si mesmo: houve tribulações no tempo de nossos pais, em nosso tempo não há. Se supões não teres tribulações, ainda não começaste a ser cristão. E onde está a voz do Apóstolo: "Mas também todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo padecerão perseguições"? Se, portanto, não padeces perseguição alguma por Cristo, cuida para que ainda não tenhas começado a viver piedosamente em Cristo. Mas quando tiveres começado a viver piedosamente em Cristo, entraste no lagar; prepara-te para as prensagens: mas não sejas seco, para que da prensagem nada saia.
3. Que significa, pois, aquilo que ao próprio título ainda pertence, a saber, que "os Alófilos o detiveram em Gete"? Gete era certa cidade dos Alófilos, isto é, dos estrangeiros, a saber, do povo afastado dos homens santos. Todos os que recusam Cristo por Rei se fazem estrangeiros. Por que se fazem estrangeiros? Porque também aquela vinha, ainda que por Ele plantada, quando se azedou, que ouviu? "Por que te tornaste em azedume, ó vinha alheia?" Não se disse: Minha vinha; porque, se Minha, doce; se azeda, não Minha; se não Minha, certamente alheia. "Detiveram-no", pois, "os Alófilos em Gete." Achamos, na verdade, irmãos, que o próprio Davi, filho de Jessé, rei de Israel, esteve em terra estranha entre os Alófilos, quando por Saul era buscado, e estava naquela cidade e com o rei daquela cidade, mas que ali fosse detido não lemos. Portanto, o nosso Davi, o Senhor Jesus Cristo, da semente daquele Davi, não somente o detiveram, mas ainda O detêm os Alófilos em Gete. De Gete dissemos que é uma cidade. Mas a interpretação deste nome, se se perguntar, significa "lagar." ... Como, pois, é Ele aqui detido em Gete? Detido num lagar está o Seu Corpo, isto é, a Sua Igreja. Que é, num lagar? Em prensagens. Mas num lagar frutífera é a prensagem. Uma uva na videira não sustenta prensagem alguma, inteira parece, mas nada dali flui: é lançada num lagar, é pisada, é prensada; dano parece fazer-se à uva, mas este dano não é estéril; antes, se nenhum dano se lhe tivesse aplicado, estéril teria permanecido.
1. Assim como, quando estamos para entrar em alguma casa, olhamos o título para ver de quem é e a quem pertence, para que porventura não irrompamos inoportunamente em lugar onde não devemos; e, de novo, para que não nos retiremos por timidez daquilo em que devemos entrar: como se, em uma palavra, lêssemos: Estas propriedades pertencem a tal ou tal pessoa: assim, na inscrição deste Salmo, temos escrito: "Até o fim, para o povo que dos homens santos foi posto à parte, para o próprio Davi, na inscrição do Título, quando os Alófilos o detiveram em Gete." Tomemos, pois, conhecimento do povo que dos homens santos foi posto à parte na inscrição do Título. Pois isto pertence àquele Davi que já sabeis entender espiritualmente. Pois não se nos recomenda aqui senão Aquele de quem se disse: "O fim da Lei é Cristo, para justiça a todo aquele que crê." Portanto, quando ouvires "até o fim", atenta para Cristo, para que, demorando-te no caminho, não chegues ao fim. ...
5. "Meus inimigos me pisaram todo o dia" (v. 2). Aqueles que foram postos à parte dos homens santos, estes são meus inimigos. Todo o dia: já se disse, "Desde o auge do dia." Que significa, "desde o auge do dia"? Porventura é coisa elevada de se entender. E não é de admirar, porque é o auge do dia. Pois porventura foram por esta razão postos à parte dos homens santos, porque não puderam penetrar o auge do dia, do qual os Apóstolos são as doze horas resplandecentes. Portanto, aqueles que O crucificaram, como que homem, no dia erraram. Mas por que padeceram trevas, de modo que fossem postos à parte dos homens santos? Porque no alto brilhava o dia, e a Ele, oculto na altura, não O conheceram. "Pois se o tivessem conhecido, jamais o Senhor da Glória teriam crucificado."
6. "Pois muitos são os que guerreiam contra mim, e temerão" (v. 3). Temerão quando? Quando houver passado aquele dia em que eles se acham elevados. Pois por certo tempo são elevados; quando se acabar o tempo de sua elevação, temerão. "Mas eu em Ti esperarei, ó Senhor." Não disse: "Mas eu não temerei"; mas: "Muitos são os que guerreiam contra mim, e temerão." Quando houver chegado aquele dia do Juízo, então "se lamentarão todas as tribos da terra." Quando houver aparecido no céu o sinal do Filho do Homem, então estarão seguros todos os homens santos. Pois virá aquilo que esperavam, que anelavam, cuja vinda oravam; mas para aqueles homens não restará lugar para o arrependimento, porque naquele tempo em que o arrependimento poderia ter sido frutuoso, endureceram o coração contra um Senhor que os admoestava. Levantarão eles também um muro contra um Deus que julga? Reconhece tu, pois, a piedade deste homem, e se estás naquele Corpo, imita-o. Tendo dito: "Muitos são os que guerreiam contra mim, e temerão", não prosseguiu: "Mas eu não temerei"; para que, atribuindo o seu não temer às suas próprias forças, também ele estivesse entre as coisas altas e temporais, e por soberba temporal não merecesse chegar ao repouso eterno; antes, fez-te perceber donde não temerá. "Mas eu", diz, "em Ti esperarei, ó Senhor"; não falou de sua confiança, mas da causa de sua confiança. Pois se eu não hei de temer, também por dureza de coração posso não temer, pois muitos homens, por soberba excessiva, nada temem...
7. "Em Deus louvarei os meus discursos, em Deus tenho esperado; não temerei o que a carne me faça" (v. 4). Por quê? Porque em Deus louvarei os meus discursos. Se em ti mesmo louvas os teus discursos, não digo que não hás de temer; é impossível que não tenhas de temer. Pois ou terás os teus discursos por falsos, e por isso teus, porque falsos; ou, se os teus discursos forem verdadeiros, e julgares não os teres de Deus, mas de ti mesmo os proferires, verdadeiros serão eles, mas falso serás tu; mas se houveres reconhecido que nada podes dizer de verdadeiro na sabedoria de Deus, na fé da Verdade, senão aquilo que dEle recebeste, de quem se diz: "Pois que tens tu que não tenhas recebido?" Então em Deus estás louvando os teus discursos, para que em Deus sejas louvado pelos discursos de Deus... "Em Deus tenho esperado, não temerei o que a carne me faça." Não eras tu o mesmo que pouco antes dizias: "Tem piedade de mim, ó Senhor, pois o homem me tem pisado; combatendo o dia todo, me tem afligido"? Como, pois, aqui: "Não temerei o que a carne me faça"? Que te fará ele? Tu mesmo pouco antes disseste: "Tem-me pisado, tem-me afligido." Nada fará ele, quando estas coisas fizer? Ele atentou para o vinho que escorre do pisar, e respondeu: Evidentemente pisou, evidentemente afligiu; mas que me fará a mim? Uva eu era, vinho serei: "Em Deus tenho esperado, não temerei o que a carne me faça."
8. "O dia todo abominaram as minhas palavras" (v. 5). Assim são eles, sabeis. Fala a verdade, prega a verdade, anuncia Cristo aos gentios, anuncia a Igreja aos hereges, anuncia a todos os homens a salvação: eles contradizem, abominam as minhas palavras. Mas quando abominam as minhas palavras, quem pensais que abominam, senão Aquele em quem louvarei os meus discursos? "O dia todo abominaram as minhas palavras." Baste ao menos isto: abominem as palavras, não avancem mais, não censurem, não rejeitem! Longe deles tal coisa! Por que digo isto? Quando rejeitam as palavras, quando odeiam as palavras, aquelas palavras que da fonte da verdade brotam, que fariam Àquele por quem as próprias palavras são proferidas? Senão o que se segue: "Contra mim são todos os seus pensamentos para o mal"? Se odeiam o próprio pão, como poupariam o cesto em que é servido? "Contra mim são todos os seus pensamentos para o mal." Se assim procederam ainda contra o próprio Senhor, não desdenhe o Corpo aquilo que precedeu na Cabeça, para que o Corpo se una à Cabeça. Desprezado foi o teu Senhor, e queres tu ser honrado por aqueles homens que foram apartados dos homens santos? Não queiras reivindicar para ti aquilo que nEle não precedeu. "Não é o discípulo maior que o seu Mestre; nem o servo maior que o seu Senhor. Se ao pai de família chamaram Belzebu, quanto mais aos seus domésticos?" Contra mim são todos os seus pensamentos para o mal."
9. "Peregrinarão, e se esconderão" (v. 6). Peregrinar é estar em terra estranha. Peregrinos se chamam aqueles que vivem então num país que não é seu. Todo homem nesta vida é um estrangeiro: nesta vida, vedes, estamos envoltos pela carne, através da qual o coração não pode ser visto. Por isso diz o Apóstolo: "Não julgueis nada antes do tempo, até que venha o Senhor, e Ele iluminará as coisas ocultas das trevas, e manifestará os pensamentos dos corações; e então a cada um virá o louvor da parte de Deus." Antes que isto se faça, nesta peregrinação da vida carnal cada um carrega o seu próprio coração, e todo coração está fechado a todo outro coração. Além disso, aqueles homens cujos pensamentos são contra este para o mal "peregrinarão, e se esconderão"; porque, estando nesta morada estranha e carregando a carne, ocultam o engano no coração; tudo quanto de mal pensam, ocultam. Por quê? Porque ainda esta vida é uma vida estranha. Ocultem-se; há de aparecer aquilo que ocultam, e eles mesmos não hão de ficar ocultos. Há também neste "oculto" outra interpretação, que talvez será mais aprovada. Pois, dentre aqueles homens que foram apartados dos homens santos, insinuam-se certos falsos irmãos, e estes causam tribulações piores ao Corpo de Cristo, porque não são de todo evitados como se fossem inteiramente estranhos... Nem sequer a estes homens, contudo, temamos, irmãos: "Não temerei o que a carne me faça." Ainda que peregrinem, ainda que se introduzam, ainda que finjam, ainda que se ocultem, carne são: espera tu no Senhor, nada te fará a carne. Mas ele traz tribulação, traz o pisar. Acrescenta-se o vinho, porque a uva é prensada; a tua tribulação não será infrutuosa: outro te vê, te imita; porque tu também, para que aprendesses a suportar tal homem, olhaste para a tua Cabeça, aquele primeiro cacho, ao qual sobreveio um homem para vê-lo, peregrinou e se ocultou, a saber, o traidor Judas. A todos, pois, aqueles que com coração falso se introduzem, peregrinando e se ocultando, não temas: o pai destes mesmos homens, Judas, esteve com o teu Senhor: e Ele bem o conhecia; ainda que Judas o traidor peregrinasse e se ocultasse, contudo o coração dele estava aberto ao Senhor de todos: escolheu conscientemente um homem, para que pudesse dar-te consolo, a ti que não saberias a quem deverias evitar. Pois poderia não ter escolhido Judas, porque conhecia Judas: pois diz aos seus discípulos: "Não vos escolhi Eu a vós doze, e um de vós é um demônio?" Foi, pois, escolhido também um demônio. Ou, se não foi escolhido, como é que escolheu doze, e não antes onze? Escolhido ele foi, mas para outro propósito. Escolhidos os onze foram para a obra da provação; escolhido um, para a obra da tentação. De onde poderia dar-te um exemplo, a ti que não saberias que homens deverias evitar como maus, de que homens deverias acautelar-te como falsos e artificiosos, peregrinando e se ocultando, senão dizendo-te: Eis que Eu mesmo tive comigo um daqueles mesmos homens! Precedeu um exemplo, eu o suportei, quis sofrer aquilo que sabia, para que a ti, que não sabias, pudesse dar consolação. Aquilo que a Mim fez, o mesmo fará também a ti: para que possa fazer muito, para que possa causar muita devastação, acusará, alegará falsas acusações...
10. "Estes mesmos observarão o meu calcanhar." Pois peregrinarão e se ocultarão de tal modo que observem onde o homem escorrega. Estão atentos ao calcanhar, para ver quando pode ocorrer um deslize; a fim de deter o pé para uma queda, ou fazer tropeçar o pé para um resvalar; certamente para que encontrem algo de que acusar. E que homem anda de tal modo que em parte alguma escorregue? Por exemplo, quão depressa se comete um deslize até na língua? Pois está escrito: "Quem não tropeça na língua, esse é homem perfeito." Que homem, pergunto, ousaria chamar-se ou julgar-se a si mesmo perfeito? É necessário, pois, que todo homem tropece na língua. Mas que aqueles que hão de peregrinar e ocultar-se censurem todas as palavras, buscando por toda parte armar laços e falsas acusações capciosas, nas quais eles mesmos se enredam antes daqueles a quem se esforçam por enredar: para que eles mesmos sejam apanhados e pereçam antes de apanharem outros homens para os destruir... Toda boa coisa que disse, toda verdadeira coisa que disse, de Deus a disse, e de Deus a disse; qualquer outra coisa que porventura disse, que não devera ter dito, como homem a disse, mas sob Deus a disse. Aquele que fortalece o que anda, ameaça o que se desvia, perdoa o que reconhece, chama de volta a língua, chama de volta o que escorregou... Atenta tu para os discursos daquele a quem censuras, para ver se porventura te ensina algo para tua saúde. E que, dirá alguém, poderá ensinar-me para minha saúde aquele que assim tropeçou em palavra? Isto mesmo, porventura, te está ensinando para tua saúde: que não sejas censor de palavras, mas colhedor de preceitos. "Assim como a minha alma tem suportado." Falo daquilo que tenho suportado. Falava como quem tinha experiência: "Assim como a minha alma tem suportado. Peregrinarão e se ocultarão." Que a minha alma suporte a todos os homens, os que ladram por fora, os que se ocultam por dentro; que suporte. De fora vindo, como um rio vem a tentação: sobre a Rocha que te encontre, que golpeie, não que te derrube; a casa foi fundada sobre a Rocha. Por dentro ele está, peregrinará e se ocultará: suponde que a palha esteja perto de ti, que venha o pisar dos bois, que venha o rolo das tentações; tu és purificado, o outro é esmagado.
11. "Por nada os salvarás" (v. 7). Ensinou-nos a orar até por estes mesmos homens. Contudo, "peregrinarão e se ocultarão", por mais enganosos que sejam, por mais dissimuladores e traiçoeiros que sejam; ora tu por eles, e não digas: Corrigirá Deus até um homem assim, tão mau, tão perverso? Não desesperes: atenta para Aquele a quem pedes, não para aquele por quem pedes. A grandeza da doença vês, o poder do Médico não vês? "Peregrinarão e se ocultarão: assim como a minha alma tem suportado." Suporta, ora: e que se faz? "Por nada os salvarás." Fá-los-ás salvos de tal modo que nada te custe, isto é, que nenhum trabalho te seja. Pelos homens são tidos por desesperados, mas Tu com uma palavra os curas; Tu não hás de labutar em curar, ainda que nós fiquemos atônitos ao contemplar. Há outro sentido neste versículo, "Por nada os salvarás": sem mérito algum precedente deles Tu os salvarás... Não Te trarão bodes, carneiros, touros; não dádivas e especiarias Te trarão em Teu templo; nem coisa alguma da libação de boa consciência sobre ele derramarão; tudo neles é rude, tudo imundo, tudo detestável: e ainda que a Ti nada tragam pelo que possam ser salvos, "por nada os salvarás", isto é, pela dádiva gratuita de Tua Graça...
12. "Em ira abaterás os povos." Tu Te irritas e abates, Te enfureces e salvas, aterrorizas e chamas. Enches de tribulações todas as coisas, para que, postos em tribulações, os homens corram a Ti, para que não sejam seduzidos por prazeres e falsa segurança. De Ti se vê a ira, mas a de um pai. Um pai se ira com o filho que despreza os seus preceitos; irando-se com ele, o esbofeteia, fere, puxa-lhe a orelha, arrasta-o pela mão, leva-o à escola. Quantos homens entraram, quantos homens encheram a Casa do Senhor, na ira dEle abatidos, isto é, aterrorizados por tribulações e cheios de fé? Pois para isto suscita a tribulação: para esvaziar o vaso que está cheio de maldade, a fim de que se encha de graça.
13. "Ó Deus, a Ti tenho narrado a minha vida" (v. 8). Pois que eu vivesse foi obra Tua, e por isso Te narro a minha vida. Mas não sabia Deus aquilo que Ele mesmo tinha dado? Que é, pois, o que Lhe narras? Ensinarás tu a Deus? Longe tal coisa. Por que diz, então: "Te narrei"? Será porventura porque a Ti aproveita que eu tenha narrado a minha vida? E que aproveita isso a Deus? Em proveito de Deus aproveita. Narrei a Deus a minha vida, porque aquela vida foi obra de Deus. Do mesmo modo que a sua vida narrou o Apóstolo Paulo, dizendo: "Eu que antes era blasfemo, e perseguidor, e injuriador", narrará a sua vida. "Mas alcancei misericórdia." Narrou a sua vida, não por si mesmo, mas por Ele: porque a narrou de tal modo que nEle os homens creiam, não para vantagem própria, mas para as vantagens dEle... "Ó Deus, a Ti tenho narrado a minha vida. Puseste as minhas lágrimas diante de Ti." Ouviste-me quando Te implorava. "Assim como também na Tua promessa." Porque, assim como Tu havias prometido esta coisa, assim a fizeste. Disseste que ouvirias aquele que chora. Eu cri, chorei, fui ouvido; achei-Te misericordioso em prometer, verdadeiro em retribuir.
14. "Voltem-se para trás os meus inimigos" (v. 9). Isto mesmo é proveitoso a estes homens; nenhum mal lhes deseja. Pois querem ir adiante, e por isso não querem ser corrigidos. Adverte tu o teu inimigo a bem viver, a que se corrija: ele escarnece, rejeita a tua palavra: "Eis aquele que me aconselha; eis aquele de quem hei de ouvir os mandamentos pelos quais viverei!" Quer ir adiante de ti, e, indo adiante, não se corrige. Não se lembra de que as tuas palavras não são tuas, não se lembra de que a tua vida a Deus narras, não a ti mesmo. Indo, pois, adiante, não se corrige: bom lhe é que se volte para trás, e siga aquele a quem quis ir adiante. O Senhor falava aos seus discípulos da sua Paixão futura. Pedro estremeceu, e disse: "Longe de Ti isso, ó Senhor"; ele que pouco antes dissera: "Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo", tendo confessado a Deus, temeu que Ele morresse, como se fosse apenas homem. Mas o Senhor, que veio de tal modo para sofrer (pois não poderíamos ser salvos senão fôssemos redimidos com o Seu sangue), pouco antes louvara a confissão de Pedro... Mas logo que o Senhor começa a falar de sua Paixão, ele temeu que perecesse por aquela morte, quando, ao contrário, nós é que pereceríamos se Ele não morresse; e diz: "Longe de Ti, ó Senhor, isso não se fará." E o Senhor, a quem pouco antes dissera: "Bem-aventurado és, e sobre esta Rocha edificarei a minha Igreja", diz: "Vai para trás de mim, Satanás, escândalo me és." Por que, pois, é "Satanás" quem pouco antes era "bem-aventurado" e "Rocha"? "Pois não compreendes as coisas que são de Deus", diz Ele, "mas as que são dos homens." Pouco antes compreendia as coisas que são de Deus: porque "não to revelou a carne e o sangue, mas o Meu Pai que está nos céus." Quando em Deus louvava o seu discurso, não Satanás mas Pedro, de petra; mas quando de si mesmo e por fraqueza humana falou, amor carnal do homem, que seria impedimento para a sua própria salvação e a dos demais, Satanás é chamado. Por quê? Porque quis ir adiante do Senhor, e dar conselho terreno ao Guia celeste. "Longe de Ti, ó Senhor, isso não se fará." Dizes: "Longe de Ti", e dizes: "ó Senhor": certamente, se Senhor Ele é, com poder age; se Mestre Ele é, sabe o que faz, sabe o que ensina. Mas tu queres guiar o teu Guia, ensinar o teu Mestre, ordenar ao teu Senhor, escolher por Deus: muito vais adiante, volta para trás. Não aproveitou isto também a estes inimigos? "Voltem-se para trás os meus inimigos"; mas que não permaneçam voltados para trás. Por isto se voltem para trás, para que não vão adiante; mas para que sigam, não para que permaneçam.
15. "Em qualquer dia em que Te houver invocado, eis que reconheço que meu Deus és Tu" (v. 9). Grande conhecimento. Não diz: "Reconheço que Deus és Tu", mas: "que meu Deus és Tu." Pois Teu é ele, quando o socorres; Teu é ele, quando não lhe é estranho. Donde se diz: "Bem-aventurado o povo de quem o Senhor é o Deus." Por que "de quem é"? Pois de quem não é Ele? De todas as coisas, na verdade, Deus é; mas daqueles homens se diz que é Ele o Deus de modo peculiar, que O amam, que O possuem, que O têm, que O adoram, como pertencentes à Sua própria Casa: a grande família dEle são eles, redimidos pelo grande sangue do Filho Único. Quão grande coisa nos deu Deus, que sejamos Seus, e Ele seja nosso! Mas na verdade, os estrangeiros longe foram postos dos homens santos, filhos estranhos são eles. Vede o que deles se diz em outro Salmo: "Ó Senhor, livra-me", diz, "da mão de filhos estranhos, cuja boca falou vaidade, e cuja destra é destra de iniquidade."...
16. Amemos, pois, a Deus, irmãos, pura e castamente. Não há coração casto, se por recompensa a Deus adora. Como assim? Recompensa da adoração de Deus não teremos nós? Teremos, evidentemente, mas é o próprio Deus que adoramos. Ele mesmo para nós será a recompensa, porque "nós O veremos como Ele é." Observai que uma recompensa haveis de obter. ... Eu vos direi, irmãos: nestas alianças humanas considerai um coração casto, de que espécie é para com Deus: certamente as alianças humanas são de tal espécie, que um homem não ama sua esposa, aquele que a ama por causa do seu dote: uma mulher não ama castamente seu marido, aquela que por estas razões o ama, porque algo ele deu, ou porque muito ele deu. Tanto é marido o rico, quanto o é aquele que se tornou pobre. Quantos homens proscritos, por esposas castas foram mais amados! Provados têm sido muitos casamentos castos pelas desventuras dos maridos: para que as esposas não fossem supostas amar outro objeto mais que o marido, não somente não o abandonaram, como ainda mais lhe obedeceram. Se, portanto, um marido de carne é gratuitamente amado, se castamente é amado; e uma esposa de carne é gratuitamente amada, se castamente é amada; de que maneira deve ser amado Deus, o verdadeiro e veraz Esposo da alma, que a fecunda para a prole da vida eterna, e não permite que sejamos estéreis? A Ele, portanto, amemos assim, de modo que nenhuma outra coisa além d'Ele seja amada: e sucede em nós aquilo que dissemos, aquilo que cantamos, porque também aqui a voz é nossa: "Em qualquer dia que eu Te houver invocado, eis que conheci que meu Deus és Tu." Isto é invocar a Deus, invocá-Lo gratuitamente. Além disso, de certos homens foi dito o quê? "Ao Senhor não invocaram." O Senhor pareciam como que invocar para si mesmos — e Lhe suplicavam acerca de heranças, acerca de aumentar o dinheiro, acerca de prolongar esta vida, acerca do resto das coisas temporais: e a respeito deles a Escritura diz o quê? "Ao Senhor não invocaram." Portanto segue-se o quê? "Ali temeram com temor, onde não havia temor." Que é "onde não havia temor"? Que não lhes fosse roubado o dinheiro, que nada em sua casa fosse diminuído; enfim, que não tivessem menos anos nesta vida do que para si esperavam: mas ali estremeceram de temor, onde não havia temor. ... "Em Deus louvarei a palavra, no Senhor louvarei o discurso" (v. 10): "em Deus esperei, não temerei o que me fizer o homem" (v. 11). Ora, este é o mesmo sentido que acima foi repetido.
5. "Tende piedade de mim, ó Deus, tende piedade de mim, pois em Ti confiou minha alma" (v. 1). Cristo na Paixão diz: "Tende piedade de Mim, ó Deus." A Deus, Deus diz: "Tende piedade de Mim!" Aquele que com o Pai tem piedade de ti, em ti clama: "Tende piedade de Mim." Pois aquela parte d'Ele que clama "Tende piedade de Mim" é tua: de ti Ele a recebeu, por causa de ti, para que fosses libertado, com a carne Ele se revestiu. A própria carne clama: "Tende piedade de mim, ó Deus, tende piedade de mim": o próprio homem, alma e carne. Pois todo o homem tomou o Verbo sobre Si, e todo homem o Verbo se fez. Não se pense, portanto, que ali não houvesse alma, porque assim diz o Evangelista: "O Verbo se fez carne, e habitou entre nós." Pois o homem é chamado carne, como em outro lugar diz a Escritura: "E toda carne verá a salvação de Deus." Acaso a carne sozinha verá, e a alma ali não estará? ... Ouves o Mestre orando, aprende tu a orar. Pois para isto orou, a fim de que ensinasse como orar: porque para isto padeceu, a fim de que ensinasse como padecer; para isto ressuscitou, a fim de que ensinasse como esperar a ressurreição. "E à sombra de Tuas asas esperarei, até que a iniquidade passe." Isto agora, evidentemente, todo o Cristo o diz: aqui está também a nossa voz. Pois ainda não passou, ainda vigora a iniquidade. E no fim o próprio Senhor disse que haveria um abundar da iniquidade: "E, porquanto a iniquidade abundará, o amor de muitos esfriará; mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo." Mas quem perseverará até o fim, até que a iniquidade passe? Aquele que estiver no Corpo de Cristo, aquele que estiver nos membros de Cristo, e da Cabeça houver aprendido a paciência de perseverar. Tu passas, e eis que passaram as tuas tentações; e vais para outra vida, para onde foram os homens santos, se santo tiveres sido. Para outra vida foram os Mártires; se Mártir tiveres sido, tu também vais para outra vida. Porque "tu" daqui passaste, acaso por isso a iniquidade passou? Nascem outros ímpios, assim como morrem alguns ímpios. Da mesma maneira, portanto, como alguns ímpios morrem e outros nascem: assim alguns justos partem, e outros nascem. Até o fim do mundo nem faltará a iniquidade para oprimir, nem a justiça para padecer. ...
4. Que é, pois, "quando fugiu da face de Saul para uma caverna"? Coisa que, na verdade, também o antigo Davi fez: mas porque nele não encontramos a inscrição do título, no segundo encontremos a fuga para a caverna. Pois aquela caverna em que Davi se escondeu figurava algo. Mas por que se escondeu? Foi para que se ocultasse e não fosse encontrado. Que é esconder-se numa caverna? É esconder-se na terra. Pois aquele que foge para uma caverna, com terra se cobre para que não seja visto. Mas Jesus carregava terra, a carne que da terra havia recebido: e nela Se ocultou, para que pelos judeus não fosse descoberto como Deus. "Pois se O tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória." Por que, portanto, não encontraram o Senhor da glória? Porque numa caverna Se escondera, isto é, aos olhos deles apresentou a fraqueza da carne, mas a Majestade da divindade, na veste do corpo, como que num esconderijo da terra, escondeu. ... Mas por que quis ser paciente até a morte? Foi para que fugisse da face de Saul para uma caverna. Pois por caverna pode-se entender uma parte mais baixa da terra. E certamente, como é manifesto e certo a todos, o Seu Corpo foi posto num Sepulcro, que foi cortado numa Rocha. Este Sepulcro, portanto, era a Caverna; para ali fugiu da face de Saul. Pois até tanto O perseguiram os judeus, até que foi posto numa caverna. De onde provamos que até tanto O perseguiram, até que ali foi posto? Mesmo quando morto, e pendendo na Cruz, com lança O feriram. Mas quando amortalhado, celebradas as exéquias, foi posto numa caverna, já não tinham mais nada que à Carne pudessem fazer. Ressuscitou, pois, o Senhor daquela caverna incólume, incorrupto, daquele lugar para onde havia fugido da face de Saul: ocultando-Se dos homens ímpios, que Saul prefigurava, mas mostrando-Se a Seus membros. Pois os membros d'Ele, ressuscitando, por Seus membros foram tocados: pois os membros d'Ele, os Apóstolos, tocaram-n'O ressuscitado e creram; e eis que de nada valeu a perseguição de Saul. Ouçamos, pois, agora o Salmo; porquanto acerca do título do mesmo já bastante falamos, na medida em que o Senhor se dignou conceder.
3. "Até o fim, não corrompas, para o próprio Davi, para a inscrição do título; quando fugiu da face de Saul para uma caverna." Nós, recorrendo à sagrada Escritura, encontramos, de fato, como o santo Davi, aquele rei de Israel, do qual também o Saltério de Davi recebeu o nome, sofreu perseguição de Saul, rei de seu próprio povo, como muitos de vós sabeis, os que ou tendes lido ou tendes ouvido as Escrituras. Tinha, pois, o rei Davi por perseguidor Saul: e enquanto um era mansíssimo, o outro ferocíssimo; um brando, o outro invejoso; um paciente, o outro cruel; um beneficente, o outro ingrato: suportou-o com tanta mansidão, que quando o teve em suas mãos, não o tocou, não o feriu. ... Que relação tem isto com Cristo? Se todas as coisas que então se faziam eram figuras de coisas futuras, encontramos ali Cristo, e de longe em maior grau. Pois isto, "não corrompas, para a inscrição do título," não vejo como pertença àquele Davi. Pois nenhum "título" foi inscrito sobre o próprio Davi que Saul viesse a "corromper." Mas vemos na Paixão do Senhor que havia sido escrito um título: "Rei dos Judeus": para que este título fizesse corar a estes mesmos homens, vendo que de seu próprio Rei não retiveram as mãos. Pois neles estava Saul, em Cristo estava Davi. Pois Cristo, como diz o Evangelho apostólico, é, como sabemos, como confessamos, da estirpe de Davi segundo a carne; pois segundo a divindade Ele está acima de Davi, acima de todos os homens, acima do céu e da terra, acima dos anjos, acima de todas as coisas visíveis e invisíveis. ... E porque já se havia cantado pelo Espírito Santo: "Até o fim, não corrompas, para a inscrição do título:" respondeu-lhes Pilatos: "O que escrevi, escrevi": por que me sugeris a falsidade? Eu não corrompo a verdade.
2. Porque, pois, este Salmo canta a Paixão do Senhor, vede qual é o título que tem: "até o fim." O fim é Cristo. Por que foi chamado fim? Não como aquele que consome, mas como aquele que consuma. ...
1. Ouvimos agora mesmo no Evangelho, irmãos, como nos ama o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Deus com o Pai, Homem conosco, saído de nós mesmos, agora à direita do Pai; ouvistes quanto Ele nos ama. ...
6. "Clamarei ao Deus altíssimo" (v. 2). Se Ele é altíssimo, como ouve a ti que clamas? A confiança foi engendrada pela experiência: "ao Deus," diz ele, "que me fez o bem." Se antes que eu O buscasse, Ele me fez o bem, quando eu clamar, acaso não me há de ouvir? Pois o bem nos fez o Senhor Deus, enviando-nos o nosso Salvador Jesus Cristo, para que morresse por nossos delitos, e ressuscitasse para nossa justificação. Pois por que espécie de homens quis Ele que Seu Filho morresse? Por homens ímpios. Mas os homens ímpios não buscavam a Deus, e foram buscados por Deus. Pois Ele é Altíssimo de tal maneira, que não está longe d'Ele a nossa miséria e o nosso gemido: porque "perto está o Senhor dos que têm o coração contrito." "Deus que me fez o bem."
7. "Enviou do céu e me salvou" (v. 3). Ora, o próprio Homem, a própria Carne, o próprio Filho de Deus depois de Sua participação de nós mesmos, d'Ele é manifesto como foi salvo, e enviou do céu o Pai e O salvou, enviou do céu, e O ressuscitou: mas para que saibais que também o próprio Senhor Se ressuscitou a Si mesmo, ambas as verdades estão escritas na Escritura, tanto que o Pai O ressuscitou, quanto que Ele mesmo Se ressuscitou. Ouvi como o Pai O ressuscitou: diz o Apóstolo: "Foi feito," diz ele, "obediente até a morte, e morte de Cruz: por isso Deus também O exaltou, e Lhe deu um nome que é sobre todo nome." Ouvistes do Pai ressuscitando e exaltando o Filho; ouvi agora como Ele também ressuscitou a Sua própria carne. Sob a figura de um templo diz Ele aos judeus: "Destruí este Templo, e em três dias o levantarei." Mas o Evangelista nos explicou o que Ele quis dizer: "Mas isto," diz ele, "Ele o disse do Templo de Seu Corpo." Agora, pois, na pessoa de alguém que ora, na pessoa de um homem, na pessoa da carne, Ele diz: "Ele me salvou. Entregou ao opróbrio aqueles que me pisaram." Aqueles que O pisaram, que sobre Ele morto zombaram, que a Ele como se homem fosse crucificaram, porque a Deus não perceberam, a esses Ele entregou ao opróbrio. Vede se não foi assim que se fez. A coisa que ainda não cremos por vir, cumprida a reconhecemos. Enfureceram-se os judeus contra Cristo, foram soberbos contra Cristo. Onde? Na cidade de Jerusalém. Pois onde reinavam, ali se ensoberbeciam, ali erguiam o pescoço. Depois da Paixão do Senhor, dali foram desarraigados; e perderam o reino, no qual não quiseram reconhecer Cristo como Rei. De que maneira foram entregues ao opróbrio, vede: foram dispersos por todas as nações, em nenhuma parte tendo assentamento, em nenhuma parte morada segura. Mas por esta razão ainda são judeus, para que carreguem os nossos livros para sua própria confusão. Pois sempre que queremos mostrar a Cristo profetizado, apresentamos aos gentios estas escrituras. E para que não porventura homens duros de crer dissessem que nós, cristãos, compusemos estes livros, de modo que juntamente com o Evangelho que temos pregado forjamos o Profeta, por meio do qual pareceria predito aquilo que pregamos: por isto os convencemos; a saber, que todos os próprios escritos em que Cristo foi profetizado estão com os judeus, todos estes próprios escritos os judeus têm. Apresentamos documentos de inimigos, para confundir outros inimigos. Em que espécie de opróbrio estão, pois, os judeus? Um documento carrega o judeu, do qual um cristão pode crer. Nossos bibliotecários se tornaram, assim como os escravos costumam atrás de seus senhores carregar documentos, de tal modo que estes se cansam carregando, aqueles lucram lendo. A tal opróbrio foram entregues os judeus: e cumpriu-se aquilo que já há tanto tempo fora predito: "Entregou ao opróbrio aqueles que me pisaram." Mas quão grande opróbrio é, irmãos, que este versículo leiam, e eles mesmos, sendo cegos, olhem para o seu espelho! Pois da mesma maneira aparecem os judeus na sagrada Escritura que carregam, como aparece o rosto de um cego num espelho: por outros homens é visto, por si mesmo não é visto.
8. Talvez indagasses quando ele disse: "Enviou do céu e me salvou." Que enviou Ele do céu? A quem enviou Ele do céu? Um Anjo enviou Ele, para salvar a Cristo, e por meio de um servo é salvo o Senhor? Pois todos os Anjos são criaturas a serviço de Cristo. Para obediência poderiam ter sido enviados Anjos, para serviço poderiam ter sido enviados, não para socorro: como está escrito, "Os Anjos O serviram," não como homens misericordiosos para com um indigente, mas como súditos para com Um Onipotente. Que, pois, "enviou do céu, e me salvou"? Ora, ouvimos em outro versículo o que do céu enviou. "Enviou do céu a Sua misericórdia e a Sua verdade." Para que fim? "E tirou a minha alma do meio dos filhotes de leões." "Enviou," diz ele, "do céu a Sua misericórdia e a Sua verdade": e o próprio Cristo diz: "Eu sou a Verdade." Foi enviada, portanto, a Verdade, para que tirasse a minha alma dali do meio dos filhotes de leões: foi enviada a misericórdia. O próprio Cristo encontramos ser tanto misericórdia quanto verdade; misericórdia em padecer conosco, e verdade em nos retribuir. ... Quem são os filhotes de leões? Aquele povo menor, enganado para o mal, arrastado para o mal pelos chefes dos judeus: de tal modo que estes são leões, aqueles filhotes de leões. Todos rugiram, todos mataram. Pois havemos de ouvir também aqui a matança destes mesmos homens, logo nos versículos seguintes deste Salmo.
"E arrancou," diz ele, "minha alma do meio dos filhotes dos leões" (v. 4). Por que dizes: "E arrancou minha alma"? Pois que padecera Ele, para que Sua alma houvesse de ser arrancada? "Dormi perturbado." Cristo deu a entender Sua morte. ...
Donde "perturbado"? Quem perturbando? Vejamos de que modo ele marca a má consciência sobre os judeus, querendo estes escusar-se do assassínio do Senhor. Pois para este fim, como diz o Evangelho, ao juiz O entregaram, para que eles mesmos não parecessem havê-Lo morto. ...Interroguemo-Lo, e digamos: já que dormiste perturbado, quem Te perseguiram? quem Te mataram? foi porventura Pilatos, que aos soldados Te entregou, para ser na Cruz suspenso, com pregos traspassado? Ouvi quem foram: "Filhos dos homens" (v. 5). Deles fala, aos quais, como perseguidores, Ele suportou. Mas como O mataram, se ferro não empunharam? Aqueles que espada não desembainharam, que assalto contra Ele não fizeram para matá-Lo — donde, pois, O mataram? "Seus dentes são armas e flechas, e sua língua espada afiada." Não consideres as mãos desarmadas, mas a boca armada: dali procedeu a espada com que Cristo havia de ser morto; assim também, da boca de Cristo, aquela com que os judeus haviam de ser mortos. Pois Ele tem espada de dois gumes afiada: e ressuscitando, feriu-os, e separou deles aqueles que faria Seu povo fiel. Eles, espada má; Ele, espada boa: eles, flechas más; Ele, flechas boas. Pois Ele também tem flechas boas, palavras boas, com que traspassa o coração fiel, para que seja amado. Portanto, de uma espécie são as flechas deles, e de outra a espada deles. "Filhos dos homens, seus dentes são armas e flechas, e sua língua sabre afiado." Língua dos filhos dos homens é sabre afiado, e seus dentes, armas e flechas. Quando, pois, feriram, senão quando clamaram: "Crucifica, crucifica"?
E que Te fizeram, ó Senhor? Exulte aqui o Profeta! Pois acima, todos aqueles versículos falava o Senhor: um Profeta, na verdade, mas na pessoa do Senhor, porque no Profeta está o Senhor. ..."Sê exaltado," diz ele, "acima dos Céus, ó Deus." Homem na Cruz, e acima dos Céus, Deus. Continuem eles na terra a enfurecer-se, sê Tu no Céu o que julga. Onde estão os que se enfureciam? Onde estão seus dentes, as armas e as flechas? Não se tornaram "os golpes deles flechas de crianças"? Pois em outro lugar diz um Salmo isto, querendo provar que em vão se enfureceram, e em vão a frenesis foram precipitados: pois nada puderam fazer contra Cristo, quando por um tempo crucificado, e depois quando ressurgia, e nos Céus estava assentado. Como fazem para si as crianças flechas? De canas? Mas que flechas? ou que poderes? ou que arcos? ou que ferida? "Sê Tu exaltado acima dos Céus, ó Deus, e sobre toda a terra a Tua glória" (v. 6). Por que exaltado acima dos Céus, ó Deus? Irmãos, a Deus exaltado acima dos Céus não vemos, mas cremos; mas que sobre toda a terra está a Sua glória, não somente cremos, mas também vemos. Mas de que espécie de loucura padecem os hereges, peço-vos que observeis. Eles, cortados do vínculo da Igreja de Cristo, e a uma parte se apegando, o todo perdendo, não querem comungar com toda a terra, onde se espalha a glória de Cristo. Mas nós, católicos, estamos em toda a terra, porque com todo o mundo comungamos, onde quer que se espalhe a Glória de Cristo. Pois vemos aquilo que então se cantava, agora cumprido. Foi exaltado acima dos Céus o nosso Deus, e sobre toda a terra a Glória do Mesmo. Ó insânia herética! Aquilo que não vês, crês comigo; aquilo que vês, negas: crês comigo em Cristo exaltado acima dos Céus, coisa que não vemos; e negas Sua Glória sobre toda a terra, coisa que vemos.
...Veja vossa Caridade o Senhor falando-nos, e exortando-nos por Seu exemplo: "Um laço prepararam para meus pés, e curvaram minha Alma" (v. 7). Quiseram trazê-la para baixo, como que dos Céus, e aos lugares inferiores a fazer pesar: "Curvaram minha Alma; cavaram diante de minha face uma cova, e nela mesmos caíram." A mim feriram, ou a si mesmos? Eis que foi exaltado acima dos Céus, Deus, e eis que sobre toda a terra a Glória do Mesmo: o reino de Cristo vemos, onde está o reino dos judeus? Já que, pois, fizeram aquilo que não deviam ter feito, sucedeu-lhes aquilo que deviam padecer: eles mesmos cavaram uma vala, e eles mesmos nela caíram. Pois o perseguirem a Cristo, a Cristo dano não fez, mas a si mesmos fez dano. E não suponhais, irmãos, que a eles somente isto sucedeu. A todo aquele que prepara uma cova para o irmão, necessariamente há de ele mesmo nela cair. ...
Mas a paciência dos bons, com o coração já preparado, aceita a vontade de Deus: e gloria-se nas tribulações, dizendo o que se segue: "Preparado está meu coração, ó Deus, cantarei e tocarei" (v. 8). Que me fez ele? Preparou uma cova, meu coração está preparado. Preparou cova para enganar, não prepararei eu coração para padecer? Preparou cova para oprimir, não prepararei eu coração para suportar? Portanto, ele cairá nela, mas eu cantarei e tocarei. Ouvi o coração preparado num Apóstolo, porque imitou seu Senhor: "Gloriamo-nos," diz ele, "nas tribulações: porque a tribulação produz a paciência; a paciência, a prova; a prova, a esperança; mas a esperança não confunde: porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado." Ele estava em opressões, em cadeias, em prisões, em açoites, em fome e sede, em frio e nudez, em toda sorte de labores e dores consumidoras, e dizia: "Gloriamo-nos nas tribulações." Donde, senão porque preparado estava seu coração? Por isso cantava e tocava.
"Levanta-te, minha glória" (v. 9). Aquele que havia fugido da face de Saul para uma caverna, diz: "Levanta-te, minha glória": glorificado seja Jesus após Sua Paixão. "Levantai-vos, saltério e harpa." A que chama para que se levante? Dois instrumentos vejo: mas Corpo de Cristo, um só vejo; uma só carne ressuscitou, e dois instrumentos se levantaram. Um instrumento, pois, é o saltério, o outro a harpa. Instrumento é o nome usado para todos os instrumentos dos músicos. Não somente se chama instrumento aquele que é grande e se sopra com foles; mas tudo quanto é apto para tocar e é corpóreo, do qual o tocador se serve como de instrumento, disso se diz que é instrumento. Mas distintos entre si são estes instrumentos. ...Que representam, pois, para nós estes dois instrumentos? Pois Cristo, o Senhor nosso Deus, está despertando Seu saltério e Sua harpa; e diz: "Levantar-me-ei à aurora." Suponho que aqui já percebeis o Senhor ressuscitando. Lemos disto no Evangelho: vede a hora da Ressurreição. Por quanto tempo através de sombras se buscava a Cristo? Resplandeceu, seja Ele reconhecido; "à aurora" ressuscitou. Mas que é o saltério? que é a harpa? Através de Sua carne, duas espécies de feitos realizou o Senhor: milagres e padecimentos: os milagres foram de cima, os padecimentos foram de baixo. Mas aqueles milagres que fez eram divinos; porém através do Corpo os fez, através da carne os fez. A carne, pois, operando coisas divinas, é o saltério: a carne padecendo coisas humanas é a harpa. Soe o saltério, sejam os cegos iluminados, ouçam os surdos, sejam os paralíticos fortalecidos, andem os coxos, levantem-se os enfermos, ressuscitem os mortos; este é o som do Saltério. Soe também a harpa: tenha Ele fome, sede, durma, seja preso, açoitado, escarnecido, crucificado, sepultado. Quando, pois, vês naquela Carne certas coisas terem soado de cima, certas coisas da parte inferior, uma só carne ressuscitou, e numa só carne reconhecemos tanto o saltério quanto a harpa. E estas duas espécies de feitos cumpriram o Evangelho, e é ele pregado entre as nações: pois tanto os milagres quanto os padecimentos do Senhor são pregados.
Portanto, levantaram-se o saltério e a harpa na aurora, e ele confessa ao Senhor; e diz o quê? "Confessar-me-ei a Ti entre os povos, ó Senhor, e tocarei para Ti entre as nações: pois engrandecida até os Céus foi Tua misericórdia, e até as nuvens Tua verdade" (v. 10). Céus acima das nuvens, e nuvens abaixo dos céus: e todavia a este céu mais próximo pertencem as nuvens. Mas às vezes as nuvens repousam sobre os montes, tão perto do ar mais próximo são elas enroladas. Mas há um Céu acima, as moradas dos Anjos, Tronos, Dominações, Principados, Potestades. Isto, pois, talvez pareça ser o que se deveria ter dito: "Até os Céus a Tua verdade, e até as nuvens a Tua misericórdia." Pois no Céu os Anjos louvam a Deus, vendo a própria forma da verdade, sem escuridão alguma de visão, sem mistura alguma de irrealidade: veem, amam, louvam, não se cansam. Ali está a verdade: mas aqui, em nossa própria miséria, certamente está a misericórdia. Pois a um miserável é que se deve render misericórdia. Pois não há necessidade de misericórdia lá em cima, onde não há miserável algum. Disse isto porque parece que se poderia ter dito mais apropriadamente: "Engrandecida até os Céus foi Tua verdade, e até as nuvens Tua misericórdia." Pois por "nuvens" entendemos os pregoeiros da verdade, homens que trazem aquela carne de modo obscuro, donde Deus tanto resplandece nos milagres quanto troveja nos preceitos. ...Glória ao nosso Senhor, e à Misericórdia do Mesmo, e à Verdade do Mesmo, porque nem nos abandonou pela misericórdia de nos fazer bem-aventurados por Sua Graça, nem nos privou da verdade: porque primeiro a Verdade velada na carne veio a nós e curou, através de Sua carne, o olho interior do nosso coração, para que doravante face a face possamos vê-La. Dando-Lhe, pois, graças, digamos com o mesmo Salmo os últimos versículos, que outrora também já disse: "Sê Tu exaltado acima dos Céus, ó Deus, e sobre toda a terra a Tua glória" (v. 11). Pois isto lhe disse o Profeta tantos anos antes; isto agora vemos; isto, pois, digamos nós também.
1. As palavras que cantamos devem antes ser por nós ouvidas do que proclamadas. Pois a todos os homens, como que numa assembleia da humanidade, clama a Verdade: "Se em verdade justiça falais, julgai coisas retas, ó filhos dos homens" (v. 1). Pois a que homem injusto não é fácil coisa falar justiça? ou que homem, se interrogado sobre a justiça, quando não tem causa própria, não responderia facilmente o que é justo? Visto que a mão do nosso Criador em nossos próprios corações escreveu esta verdade: "Aquilo que a ti mesmo não quiseres que se faça, não o faças a outro." Desta verdade, mesmo antes que a Lei fosse dada, a ninguém foi permitido ignorá-la, para que houvesse alguma regra pela qual pudessem ser julgados até mesmo aqueles a quem a Lei não fora dada. Mas para que os homens não se queixassem de que algo lhes houvesse faltado, foi escrito também em tábuas aquilo que em seus corações não liam. Pois não era que não o tivessem escrito, mas que lê-lo não queriam. Foi posto diante de seus olhos aquilo que em sua consciência a ver seriam compelidos; e como se de fora lhes fosse trazida a voz de Deus, para dentro de si mesmo assim foi o homem impelido, dizendo a Escritura: "Pois nos pensamentos do homem ímpio haverá interrogação." Onde há interrogação, ali há lei. Mas porque os homens, desejando aquelas coisas que estão fora, até de si mesmos se tornaram exilados, foi dada também uma lei escrita: não porque em seus corações não estivesse escrita, mas porque tu eras desertor do teu coração, és tomado por Aquele que está em toda parte, e ao teu próprio interior és chamado de volta. Portanto, a lei escrita, que clama ela aos que desertaram da lei escrita em seus corações? "Voltai, transgressores, ao coração." Pois quem te ensinou a não quereres que outro homem se aproximasse de tua esposa? Quem te ensinou a não quereres que se cometesse um furto contra ti? Quem te ensinou a não quereres sofrer injúria, e qualquer outra coisa que, seja universal, seja particularmente, se pudesse dizer? Pois muitas são as coisas de que, se cada uma interrogada fosse, os homens em alta voz responderiam que não as quereriam sofrer. Vem: se não estás disposto a sofrer estas coisas, és tu porventura o único homem? não vives tu na comunhão da humanidade? Aquele que junto contigo foi feito é teu companheiro; e todos os homens foram feitos à imagem de Deus, a menos que com coberturas terrenas apaguem aquilo que Ele formou. Aquilo, pois, que a ti mesmo não quiseres que te seja feito, não o faças a outro. Pois julgas que há mal naquilo que, a sofrer, não estás disposto: e a isto és constrangido a saber por uma lei interior, que em teu próprio coração está escrita. Fazias tu algo, e houve um clamor levantado em tuas mãos: como és constrangido a voltar ao teu coração, quando isto mesmo sofres nas mãos de outros? É o furto coisa boa? Não! Pergunto: é o adultério coisa boa? Todos clamam: Não! É matar homem coisa boa? Todos clamam que o abominam. É cobiçar os bens do próximo coisa boa? Não! é a voz de todos os homens. Ou, se ainda não o confessas, aproxima-se alguém que cobiça os teus bens: digna-te responder o que quererás. Todos os homens, pois, quando destas coisas interrogados, clamam que estas coisas não são boas. De novo, quanto ao fazer o bem, não somente ao não prejudicar, mas também ao conferir e distribuir, qualquer alma faminta é assim interrogada: "sofres tu fome, outro homem tem pão, e há com ele abundância além do suficiente, sabe ele que tu careces, e não te dá: desagrada-te isto quando famintos, desagrade-te também quando saciados, quando da fome de outro souberes. Um estrangeiro necessitado de abrigo vem à tua terra, não é recebido: clama ele então que desumana é aquela cidade, quando entre bárbaros logo teria encontrado um lar. Sente ele a injustiça porque a padece; tu talvez não a sintas, mas convém que te imagines também estrangeiro; e que vejas de que modo te haveria de desagradar aquele que não te desse o que tu, em tua própria terra, não dás a um estrangeiro." Pergunto a todos os homens. Verdadeiras são estas coisas? Verdadeiras. Justas são estas coisas? Justas. Mas ouvi o Salmo. "Se, portanto, em verdade justiça falais, julgai coisas retas, ó filhos dos homens." Não seja ela uma justiça de lábios, mas também de obras. Pois se ages de modo diverso do que falas, coisas boas falas, e mal julgas. ...
2. Mas agora, ao caso presente venhamos, se vos aprouver. Pois a voz é aquela doce voz, tão conhecida dos ouvidos da Igreja, a voz do nosso Senhor Jesus Cristo, e a voz do Seu Corpo, a voz da Igreja que labuta, que peregrina sobre a terra, vivendo em meio aos perigos dos homens que falam mal e dos que adulam. Não temerás a quem te ameaça, se não amares a quem te adula. Ele, pois, cuja é esta voz, observou e viu que todos os homens falam justiça. Pois que homem ousa não a falar, para que não seja chamado injusto? Quando, portanto, como que ouvindo as vozes de todos os homens, e observando os lábios de todos os homens, clamou-lhes: "Se em verdade justiça falais" — se não falsamente justiça falais, se não soa uma coisa nos lábios, enquanto outra se oculta nos corações — "julgai coisas retas, ó filhos dos homens." Ouvi do Evangelho a Sua própria voz, a mesmíssima que está neste Salmo: "Hipócritas," diz o Senhor aos Fariseus, "como podeis falar coisas boas, sendo maus?" ..."Ou fazei a árvore boa, e o fruto dela bom; ou fazei a árvore má, e o fruto dela mau." Por que te queres branquear, parede de lodo? Conheço teu interior, não me engana teu revestimento: sei o que exibes, sei o que encobres. "Pois não havia necessidade de que alguém a Ele desse testemunho do homem: pois Ele mesmo sabia o que havia no homem." Pois Ele
Mas agora, que fazeis vós? Por que vos digo estas coisas? "Porque em vosso coração obrais iniquidades sobre a terra" (v. 2). Iniquidades, porventura, só no coração? Ouvi o que se segue: tanto o coração segue as mãos, quanto as mãos servem ao coração; pensa-se a coisa, e ela se faz; ou então não se faz, não porque não quiséramos, mas porque não pudemos — mas tudo quanto Tu Queres e Não Podes, Deus o Conta como Feito. "Porque em coração obrais iniquidades sobre a terra." O que se segue? "Vossas mãos tecem iniquidades." Que é "tecer"? Do pecado, pecado; e para o pecado, pecado; por causa do pecado. Que é isto? Um homem cometeu um furto, é um pecado: foi visto, procura matar aquele por quem foi visto: teceu-se pecado com pecado; Deus permitiu, em Seu juízo oculto, que matasse aquele homem a quem quis matar; percebe que a coisa é sabida, procura matar também um segundo; teceu um terceiro pecado; enquanto planeja estas coisas, para que porventura não seja descoberto, ou não seja convencido de tê-lo feito, consulta um astrólogo; acrescenta-se um quarto pecado; o astrólogo responde, porventura, com respostas duras e más; corre a um adivinho, para que se faça expiação; o adivinho responde que não pode expiar; busca-se um mago. E quem poderia enumerar os pecados que se tecem com pecados? "Vossas mãos tecem iniquidades." Enquanto teces, atas pecado sobre pecado. Solta-te dos pecados. Mas não posso, dizes tu. Clama a Ele. "Infeliz de mim, quem me livrará do corpo desta morte?" Pois virá a Graça de Deus, de modo que a justiça te seja deleite, tanto quanto te deleitaste na iniquidade; e tu, homem solto das cadeias, clamarás a Deus: "Tu rompeste as minhas cadeias." "Tu rompeste as minhas cadeias" — que é senão "remitiste os meus pecados"? Ouve por que são cadeias: responde a Escritura: "cada um está preso pelas cadeias dos seus pecados." Não só ataduras, mas também cadeias são. Cadeias são as que se fazem por entrelaçamento: isto é, porque com pecados tecias pecados. ...
4. "Alienam-se os pecadores desde o ventre, desviam-se desde o seio materno, falam mentiras" (v. 3). E, quando falam iniquidade, falam mentiras; porque a iniquidade é enganosa: e, quando falam justiça, falam mentiras; porque uma coisa professam com a boca, outra ocultam no coração. "Alienam-se os pecadores desde o ventre." Que é isto? Busquemos mais diligentemente: pois talvez esteja dizendo isto porque Deus previu os homens que haveriam de ser pecadores já nos ventres de suas mães. Pois donde, quando Rebeca ainda estava grávida, e trazia no ventre gêmeos, foi dito: "A Jacó amei, mas a Esaú odiei"? Pois foi dito: "O mais velho servirá ao mais novo." Oculto estava então o juízo de Deus; mas, ainda assim, desde o ventre, isto é, desde a própria origem, alienam-se os pecadores. Alienados de quê? Da verdade. Alienados de quê? Da pátria bem-aventurada, da vida bem-aventurada. Porventura estão alienados desde o próprio ventre. E que pecadores foram alienados desde o ventre? Pois que homens teriam nascido, se ali não tivessem sido contidos? Ou que homens hoje estariam vivos para ouvir estas palavras em vão, se não tivessem nascido? Porventura, portanto, os pecadores foram alienados de certo ventre, no qual padecia dores aquela caridade que fala pelo Apóstolo: "Dos quais de novo estou em trabalho de parto, até que Cristo seja formado em vós." Espera, pois; sê formado: não te atribuas um juízo que porventura ainda não conheces. Carnal és ainda, foste concebido: desde aquele mesmo tempo em que recebeste o nome de Cristo, por uma espécie de sacramento nasceste nas entranhas de uma mãe. Pois não só das entranhas nasce o homem, mas também nas entranhas. Primeiro nasce nas entranhas, para que depois possa nascer das entranhas. Por isso foi dito também a Maria: "Pois o que nasce em ti é do Espírito Santo." Ainda não d'Ela havia nascido, mas já n'Ela havia nascido. Portanto, nascem dentro das entranhas da Igreja certos pequeninos, e é bom que, sendo formados, saiam, para que não caiam por aborto. Que a mãe te dê à luz, não te aborte. Se fores paciente, até que sejas formado, até que em ti haja a doutrina certa da verdade, as entranhas maternas devem te reter. Mas, se por tua impaciência tiveres sacudido os flancos de tua mãe, com dor, na verdade, ela te expele, mas mais para dano teu do que dela.
5. Por esta razão, pois, desviaram-se desde o seio materno, porque "falaram mentiras"? Ou, antes, não terão falado mentiras precisamente porque se desviaram desde o seio materno? Pois no seio da Igreja habita a verdade. Todo aquele que deste seio da Igreja se tiver separado, necessariamente há de falar mentiras: necessariamente, digo, há de falar mentiras — quem, ou não devesse ter sido concebido, ou a quem, uma vez concebido, a mãe expeliu. Daí clamam os hereges contra o Evangelho (para falar de preferência daqueles que, expelidos, lamentamos). A eles repetimos: eis que Cristo disse: "Convinha que Cristo padecesse, e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia." Ali reconheço a nossa Cabeça, ali reconheço o nosso Esposo: reconhece tu também comigo a Esposa. ...
6. "Indignação a eles à semelhança da serpente" (v. 4). Grande coisa haveis de ouvir. "Indignação a eles à semelhança da serpente." Como se disséssemos: Que é isto que disseste? segue-se: "Como de uma áspide surda." Surda por quê? "E que fecha os seus ouvidos." Portanto surda, porque fecha os seus ouvidos. "E que fecha os seus ouvidos." "Que não ouvirá a voz dos encantadores, nem do medicamento preparado pelo sábio" (v. 5). Como ouvimos, porque até os homens falam o que aprenderam com a pesquisa que puderam fazer; mas, ainda assim, é coisa que o Espírito de Deus conhece muito melhor do que homem algum. Pois não é sem motivo que Ele falou disto, mas porque pode ser verdade também o que ouvimos acerca da áspide. Quando a áspide começa a ser afetada pelo encantador marso, que a chama com certos encantamentos peculiares, ouvi o que ela faz. ...Atende ao que se te diz a título de semelhança, ao que se te aponta para que o evites. Assim, pois, também aqui se deu certa semelhança tirada do marso, que faz encantamento para trazer a áspide da caverna escura; certamente à luz a traria: mas ela, amando suas trevas, nas quais, enroscada, se esconde, quando não quer sair, recusando-se, no entanto, a ouvir aquelas palavras pelas quais se sente constrangida, diz-se que aperta um ouvido contra o chão, e com a cauda tapa o outro, e assim, escapando o quanto pode daquelas palavras, não sai ao encantador. A isto, como semelhante, referiu-se o Espírito de Deus, falando de certas pessoas que não ouvem a Palavra de Deus, e não somente não a praticam, mas de todo, para que não a pratiquem, recusam-se a ouvi-la.
7. Isto se deu já nos primeiros tempos da fé. Estêvão, o Mártir, pregava a Verdade, e a mentes como que escuras, para trazê-las à luz, fazia encantamento: quando chegou a mencionar Cristo, a quem de modo algum queriam ouvir, deles a Escritura diz o quê? deles relata o quê? "Fecharam", diz ele, "os seus ouvidos." Mas o que fizeram depois, o relato da paixão de Estêvão o publica. Não eram surdos, mas se fizeram surdos. ...Isto fizeram no ponto em que Cristo foi nomeado. A indignação destes homens era como a indignação de uma serpente. Por que fechais os ouvidos? Esperai, ouvi, e, se puderdes, enfurecei-vos. Porque não quiseram fazer senão enfurecer-se, não quiseram ouvir. Mas, se tivessem ouvido, porventura teriam cessado de se enfurecer. A indignação deles era como a indignação de uma serpente. ...
8. "Deus quebrantou de todo os dentes deles em sua própria boca" (v. 6). De quem? Daqueles cuja indignação é como a semelhança de uma serpente, e de uma áspide que fecha os seus ouvidos, de modo que não ouve a voz dos encantadores, nem do medicamento preparado pelo sábio. O Senhor fez a eles o quê? "Quebrantou de todo os dentes deles em sua própria boca." Isto se fez, isto ao princípio se fez, e agora se faz. Mas bastaria, irmãos meus, que se tivesse dito: "Deus quebrantou de todo os dentes deles." Os fariseus não queriam ouvir a Lei, não queriam ouvir os preceitos da verdade da parte de Cristo, sendo semelhantes àquela serpente e áspide. Pois em seus pecados passados se deleitavam, e não queriam perder a vida presente, isto é, os gozos terrenos pelos gozos celestiais. ...Que é "em sua própria boca"? De tal modo que, com a própria boca, contra si mesmos fizessem declaração: Ele os obrigou, com a boca deles, a dar sentença contra si mesmos. Tê-lo-iam caluniado por causa do tributo: Ele não disse "É lícito pagar tributo", nem "Não é lícito pagar tributo". E quis quebrantar de todo os dentes deles, com os quais se abriam para morder; mas na própria boca deles o faria. Se dissesse: Que se pague a César o tributo, tê-lo-iam caluniado, por ter falado mal da nação dos judeus, fazendo-a tributária. Pois por causa do pecado pagavam tributo, tendo sido humilhados, conforme na Lei lhes fora predito. Temo-lo, dizem, como maldizente de nossa nação, se nos mandar pagar o tributo: mas, se disser que não paguemos, temo-lo por dizer que não devemos estar sujeitos a César. Tal laço duplo, por assim dizer, armaram para apanhar o Senhor. Mas a quem tinham vindo? Àquele que sabia quebrantar de todo os dentes deles em sua própria boca. "Mostrai-me a moeda", diz Ele. "Por que Me tentais, hipócritas? No pagar o tributo pensais? Fazer justiça quereis? O conselho da justiça buscais?" "Se de fato falais justiça, julgai retamente, filhos dos homens." Mas agora, porque de um modo falais, de outro julgais, hipócritas sois: "Por que Me tentais, hipócritas?" Agora quebrantarei de todo os vossos dentes em vossa boca: "mostrai-me a moeda." E mostraram-Lha. E Ele não diz que é de César, mas pergunta de quem é? para que os dentes deles, em sua própria boca, fossem de todo quebrantados. Pois, ao perguntar de quem tinha a imagem e a inscrição, disseram: de César. Agora mesmo o Senhor quebrantará de todo os dentes deles em sua própria boca. Agora respondestes, agora foram de todo quebrantados os vossos dentes em vossa boca. "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." César busca a sua imagem; dai-lha: Deus busca a Sua imagem; dai-Lha. Não perca César em vós a sua moeda: não perca Deus em vós a Sua moeda. E não acharam o que responder. Pois tinham sido enviados para caluniá-Lo; e voltaram, dizendo que ninguém Lhe podia responder. Por quê? Porque de todo tinham sido quebrantados os dentes deles em sua própria boca. Deste gênero é também o que se segue: "Com que poder fazes estas coisas? Também Eu vos perguntarei uma coisa; respondei-Me." E perguntou-lhes acerca de João, donde era o batismo de João, do céu ou dos homens? de modo que, o que quer que respondessem, se voltasse contra eles mesmos. ...
9. Desagradou o Senhor àquele fariseu que O convidara para jantar, porque uma mulher pecadora se aproximou de Seus pés, e ele murmurou contra Ele, dizendo: "Se este fosse profeta, saberia que mulher é a que se aproxima de Seus pés." Ó tu que não és profeta, donde sabes que Ele não sabia que mulher se aproximava de Seus pés? Porque, de fato, Ele não guardava a purificação dos judeus, que exteriormente era como que guardada na carne, e estava longe do coração, isto suspeitou ele do Senhor. E, para que eu não me alongue neste ponto, também na boca dele Ele quis quebrantar de todo os dentes. Pois lhe propôs: "Certo usurário tinha dois devedores; um devia quinhentos denários, o outro cinquenta: não tendo ambos com que pagar, perdoou a ambos. Qual O amará mais?" Para isto pergunta um, para que o outro responda: para isto responde, para que os dentes dele em sua boca sejam de todo quebrantados. ...
10. "As queixadas dos leões o Senhor quebrantou de todo." Não só das áspides. Que se dirá das áspides? As áspides desejam traiçoeiramente lançar o seu veneno, e espalhá-lo, e assobiam. Mais abertamente se enfureceram as nações, e rugiram como leões. "Por que se enfureceram as nações, e os povos meditaram coisas vãs?" Quando armavam ciladas ao Senhor. É lícito dar tributo a César, ou não é lícito? Áspides eram, serpentes eram, de todo foram quebrantados os dentes deles em sua própria boca. Depois clamaram: "Crucifica-o, crucifica-o." Já não há língua de áspide, mas rugido de leão. Mas também "as queixadas dos leões o Senhor quebrantou de todo". Porventura aqui não há necessidade daquilo que não acrescentou, a saber, "em sua boca". Pois os que armavam ciladas com perguntas capciosas foram forçados a ser vencidos com sua própria resposta: mas aqueles que abertamente se enfureciam, seriam de algum modo confundidos com perguntas? Contudo, também as suas queixadas foram de todo quebrantadas: tendo sido crucificado, ressuscitou, subiu ao céu, foi glorificado como o Cristo, é adorado por todas as nações, adorado por todos os reis. Enfureçam-se agora os judeus, se puderem. Temos também no caso dos hereges esta advertência e precedente, porque também a eles achamos serem serpentes ensurdecidas pela indignação, não querendo ouvir "o medicamento preparado pelo sábio": e em sua própria boca o Senhor quebrantou de todo os dentes deles. ...
11. "Serão desprezados como água que escorre" (v. 7). Não vos aterrorizeis, irmãos, por certas correntes, que se chamam torrentes: enchem-se com as águas do inverno; não temais; depois de pouco tempo passa, aquela água escorre; por um tempo brame, logo se acalmará: não podem durar muito. Muitas heresias já estão de todo mortas: correram em seus canais quanto puderam, escorreram, secos estão os canais, apenas se acha delas a memória, ou de que existiram. "Serão desprezados como água que escorre." Mas não somente elas; todo este século, por um tempo, brame, e busca a quem arrastar. Que todos os ímpios, todos os soberbos, ressoando contra as rochas de sua soberba como que com águas precipitadas e confluentes, não vos aterrorizem: águas de inverno são, não podem correr sempre; é necessário que escorram até seu lugar, até seu fim. E, contudo, desta torrente do mundo o Senhor bebeu. Pois padeceu aqui, a própria torrente bebeu, mas de caminho a bebeu, na passagem: porque no caminho dos pecadores não parou. Mas dEle diz a Escritura o quê? "Da torrente no caminho beberá, por isso levantará a Cabeça"; isto é, por esta razão foi glorificado, porque morreu; por esta razão ressuscitou, porque padeceu. ...
12. "Como cera derretida serão levados" (v. 8). Pois estavas para dizer: nem todos os homens se enfraquecem assim, como eu, para que creiam: muitos homens perseveram em sua maldade, e em sua malícia. E disto mesmo nada temas: "Como cera derretida serão levados." Contra ti não hão de resistir, não hão de continuar: com uma espécie de fogo de suas próprias concupiscências hão de perecer. Pois há aqui uma espécie de castigo oculto, do qual o Salmo está agora para falar, até o seu fim. São poucos versículos; estai atentos. Há certo castigo futuro, fogo do inferno, fogo eterno. Pois o castigo futuro tem dois gêneros: ou é dos lugares inferiores, onde ardia aquele rico que desejava para si uma gota de água a cair-lhe sobre a língua, do dedo do pobre que diante de sua porta desprezara, quando diz: "Pois sou atormentado nesta chama." E o segundo é aquele do fim, do qual hão de ouvir os que à esquerda hão de ser postos: "Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos." Estes castigos hão de manifestar-se naquele tempo, quando tivermos partido desta vida, ou quando, no fim do mundo, os homens tiverem chegado à ressurreição dos mortos. Agora, pois, não há castigo, e sofre Deus os pecados de todo impunes até aquele dia? Há também aqui uma espécie de castigo oculto, do qual ele agora trata. ...Vemos, contudo, às vezes, com estes castigos, os justos serem afligidos, e a estes castigos os injustos serem estranhos: por cuja razão vacilaram os pés daquele que depois, alegrando-se, diz: "Quão bom é o Deus de Israel para os retos de coração! Mas os meus próprios pés quase vacilaram, porque tive inveja no caso dos pecadores, vendo a paz dos pecadores." Pois vira a felicidade dos maus, e lhe agradara ser mau, vendo os maus reinarem, vendo que lhes ia bem, que abundavam em fartura de todas as coisas temporais, tais como ele mesmo, sendo ainda apenas um menino, desejava do Senhor: e os seus pés vacilaram, até que viu o que, ao final, ou se deve esperar ou se deve temer. Pois diz no mesmo Salmo: "Isto é um trabalho diante de mim, até que entre no santuário de Deus, e entenda quanto às últimas coisas." Não são, pois, os castigos dos lugares inferiores, nem os castigos daquele fogo eterno depois da ressurreição, nem aqueles castigos que ainda neste mundo são comuns a justos e injustos, e muitas vezes mais pesados são os dos justos que os dos injustos; mas algum outro castigo da vida presente é o que o Espírito de Deus quer recomendar à nossa atenção. Atende, ouvi-me falar do que já sabeis: mas coisa mais doce é quando se declara num Salmo o que, antes de ser declarado, se tinha por obscuro. Pois eis que trago à luz o que já sabíeis: mas, porque estas coisas são trazidas de um lugar onde nunca as vistes, acontece que até as coisas conhecidas, como se fossem novas, vos deleitam. Ouvi o castigo dos ímpios: "Como cera", diz ele, "derretida serão levados." Disse que por suas concupiscências isto lhes acontece. A má concupiscência é como um incêndio e um fogo. Acaso o fogo consome uma veste, e a concupiscência do adultério não consome a alma? Falando do adultério premeditado, disse a Escritura: "Acaso alguém amarrará fogo em seu seio, e as suas vestes não se queimarão?" Trazes em teu seio brasas acesas; queimada está a tua veste; trazes em pensamento o adultério, e ainda assim está inteira a tua alma? Mas estes castigos poucos os veem: por isso o Espírito de Deus os recomenda tão insistentemente à nossa atenção. Ouvi o Apóstolo dizer: "Deus os entregou às concupiscências de seu coração." Eis o fogo, ante cuja face, como cera, se derretem. Pois se soltam de certa continência de castidade; por isso mesmo estes homens, indo atrás de suas concupiscências, são chamados soltos e derretidos. Derretidos de quê? Soltos de quê? Do fogo das concupiscências. "Deus os entregou às concupiscências de seu coração, de modo que fazem o que não convém, cheios de toda iniquidade." ...
13. "Caiu sobre eles fogo, e não viram o sol." Vede de que modo fala de certo castigo de escurecimento. "Caiu sobre eles fogo" — fogo da soberba, fogo fumegante, fogo da concupiscência, fogo da ira. Quão grande é este fogo? Aquele sobre quem tiver caído não verá o sol. Por isso foi dito: "Não se ponha o sol sobre a vossa ira." Portanto, irmãos, temei o fogo da má concupiscência, se não quereis derreter-vos como cera, e perecer da face de Deus. Pois cai sobre vós aquele fogo, e o sol não vereis. Que sol? Não aquele que, juntamente contigo, veem tanto os animais e os insetos, quanto os homens bons e os maus: porque "Ele faz nascer o Seu sol sobre bons e maus." Mas há outro sol, do qual hão de dizer aqueles homens: "E o sol não nasceu para nós, passaram todas aquelas coisas como uma sombra. Por isso nos desviamos do caminho da verdade, e a luz da justiça não nos iluminou, e o sol não nasceu para nós." ...
14. "Antes que o espinheiro produza os vossos espinhos: como que vivos, como que em ira, os tragará" (v. 9). Que é o espinheiro? É uma espécie de planta espinhosa, sobre a qual se dizem existir espinhos dos mais cerrados. No princípio é erva; e, enquanto é erva, é macia e bela: mas dela, contudo, hão de sair espinhos. Agora, pois, os pecados são agradáveis, e como que não picam. Erva é o espinheiro; ainda assim, contudo, já há um espinho. "Antes que o espinheiro produza os espinhos": é antes que, dos miseráveis deleites e prazeres, saiam à luz os tormentos evidentes. Interroguem-se a si mesmos os que amam algum objeto e a ele não podem chegar; vejam se não são atormentados pelo desejo: e, quando tiverem alcançado aquilo que ilicitamente desejam, notem se não são atormentados pelo medo. Vejam, pois, aqui os seus castigos; antes que venha aquela ressurreição, em que, ressurgindo na carne, não hão de ser transformados. "Pois todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados." Pois hão de ter a corrupção da carne em que padecer, não aquela em que morrer: de outro modo, também aquelas dores teriam fim. Então os espinhos daquele espinheiro, isto é, todas as dores e picadas dos tormentos, hão de sair à luz. Tais espinhos hão de sofrer os que hão de dizer: "Estes são os que outrora tivemos em zombaria": espinhos da picada do arrependimento, mas de um arrependimento tardio e sem fruto, como a esterilidade dos espinhos. O arrependimento deste tempo é dor que cura: o arrependimento daquele tempo é dor penal. Se não queres sofrer aqueles espinhos, sê aqui picado pelos espinhos do arrependimento; de tal modo que faças o que foi dito: "Voltei-me em dor, quando o espinho picava: conheci o meu pecado, e não encobri a minha iniquidade: disse: Declararei ao Senhor contra mim a minha falta, e Tu remitiste a impiedade do meu coração." Faze isto agora, sê agora traspassado, não se dê em ti o que foi dito de certos homens execráveis: "Foram fendidos ao meio, e não foram traspassados." Observai os que foram fendidos ao meio e não foram traspassados. Vedes homens fendidos ao meio, e os vedes não traspassados. Eis que estão fora da Igreja, e não se arrependem, de modo que voltem para onde foram fendidos. O espinheiro há de produzir depois os seus espinhos. Não terão agora uma picada que cura, hão de ter depois uma penal. Mas, mesmo antes que o espinheiro produza espinhos, já caiu sobre eles fogo, que não lhes permite ver o sol, isto é, a ira de Deus os está tragando ainda vivos: fogo das más concupiscências, das honras vãs, da soberba, de sua cobiça: e tudo quanto os oprime, para que não conheçam a verdade, de modo que não pareçam ser vencidos, de modo que não sejam submetidos nem mesmo pela própria verdade. Pois que coisa mais gloriosa há, irmãos, do que ser submetido e vencido pela verdade? Que a verdade te vença de boa vontade: pois, ainda que não queiras, ela mesma te vencerá. ...
15. Ainda não vieram os castigos dos lugares inferiores, ainda não veio o fogo eterno: aquele que está crescendo em Deus compare-se agora com o ímpio, o coração cego com o coração iluminado: comparai vós dois homens, um que vê e outro que não vê na carne. E que coisa tão grande é a visão da carne? Acaso Tobias tinha olhos carnais? Seu próprio filho os tinha, e ele não; e o caminho da vida um cego a quem via mostrava. Portanto, quando virdes aquele castigo, alegrai-vos, porque nele não estais.
Por isso diz a Escritura: "O justo se alegrará quando vir a vingança" (v. 10). Não aquele castigo futuro; pois vede o que se segue: "lavará as suas mãos no sangue do pecador." Que é isto? Atenda a vossa caridade. Quando os homicidas são feridos, deveriam de algum modo os homens inocentes ir até lá e lavar as suas mãos? Mas que é "no sangue do pecador lavará as suas mãos"? Quando o justo vê o castigo do pecador, cresce ele mesmo; e a morte de um é a vida de outro. Pois, se espiritualmente corre sangue daqueles que estão mortos por dentro, tu, vendo tal vingança, lava nele as tuas mãos; para o futuro vive mais puramente. E como lavará as suas mãos, se é justo? Pois que tem ele nas mãos para lavar, se é justo? "Mas o justo viverá da fé." Justos, pois, chamou aos crentes: e, desde que creste, logo começas a ser chamado justo. Pois se fez uma remissão dos pecados. Ainda que, do restante desta vida, alguns pecados sejam teus, os quais não podem deixar de afluir, como água do mar para o porão do navio; contudo, porque creste, quando vires aquele que de todo se desviou de Deus ser morto naquela cegueira, caindo sobre ele aquele fogo de modo que não veja o sol — então tu, que agora pela fé vês a Cristo, para que O vejas em substância (porque o justo vive da fé), observa o ímpio morrendo, e purifica-te dos pecados. Assim lavarás, de certo modo, as tuas mãos no sangue do pecador.
16. "E dirá o homem: Se há, pois, fruto para o justo" (v. 10). Eis que, antes que venha o que é prometido, antes que se dê a vida eterna, antes que os ímpios sejam lançados no fogo eterno, já aqui nesta vida há fruto para o justo. Que fruto? "Na esperança alegrando-se, na tribulação perseverando." Que fruto para o justo? "Gloriamo-nos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência; e a paciência, a provação; e a provação, a esperança; e a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Acaso se alegra o ébrio, e não se alegra o justo? No amor há fruto para o justo. Miserável é aquele, mesmo quando se embriaga; bem-aventurado é este, mesmo quando tem fome e sede. Aquele se farta de vinho, este se alimenta de esperança. Veja, pois, este a punição daquele, a sua própria alegria, e pense em Deus. Aquele que já agora tem dado tal alegria de fé, de esperança, de caridade, da verdade de suas Escrituras, que alegria não está preparando para o fim? No caminho assim o alimenta; em sua casa, como não há de saciá-lo? "E dirá o homem: Se há, pois, fruto para o justo." Vejam os que creem, e vejam, e percebam. Alegrar-se-á o justo quando houver visto a vingança. Mas se não tem olhos com que veja a vingança, entristecer-se-á, e por isso não será corrigido. Mas se a vê, vê que diferença há entre o olho escurecido do coração e o olho iluminado do coração; entre a frieza da castidade e a chama da luxúria; entre a segurança da esperança e o temor que há no crime. Quando houver visto isto, aparte-se, e lave as mãos no sangue do mesmo. Aproveite-se da comparação, e diga: "Portanto há fruto para o justo; portanto há um Deus que os julga na terra." Não ainda naquela vida, não ainda no fogo eterno, não ainda nos lugares inferiores, mas aqui na terra. ...
17. Se um pouco prolixos temos sido, perdoai-nos. Exortamo-vos, em nome de Cristo, a meditar proveitosamente sobre o que ouvistes. Porque também pregar a verdade é nada, se o coração dissente da língua; e ouvir a verdade nada aproveita, se o homem não edifica sobre a rocha. Aquele que edifica sobre a Rocha é o mesmo que ouve e faz; mas aquele que ouve e não faz edifica sobre a areia; aquele que nem ouve nem faz não edifica nada. ...
4. "Livra-me dos meus inimigos, ó meu Deus, e dos que se levantam contra mim, redime-me Tu" (v. 1). Isto se cumpriu na carne de Cristo, e cumpre-se também em nós. Pois nossos inimigos, a saber, o diabo e seus anjos, não cessam de se levantar contra nós todos os dias, e de querer escarnecer de nossa fraqueza e de nossa fragilidade, por enganos, por sugestões, por tentações, e por laços de toda sorte para nos enredar, enquanto ainda vivemos na terra. Mas vigie a nossa voz para com Deus, e clame nos membros de Cristo, sob a Cabeça que está nos céus: "Livra-me dos meus inimigos, ó meu Deus, e dos que se levantam contra mim, redime-me Tu."
3. Ouçamos, pois, o que se segue: "Quando Saul enviou e guardou a sua casa a fim de matá-lo." Isto, embora não pertença à Cruz do Senhor, pertence contudo à Paixão do Senhor. Pois Crucificado foi Cristo, e morto, e sepultado. Aquele sepulcro era, portanto, como que a casa: para guardá-la enviou o governo dos judeus, quando foram postas guardas ao sepulcro de Cristo. Há, na verdade, uma história na Escritura dos Reinados acerca da ocasião em que Saul enviou para guardar a casa a fim de matar Davi. ...Mas do mesmo modo que Saul não conseguiu executar seu propósito de matar Davi, assim também não pôde o governo dos judeus conseguir que o testemunho de guardas adormecidas valesse mais do que o dos Apóstolos vigilantes. Pois que foram os guardas instruídos a dizer? Damo-vos, dizem, tanto dinheiro quanto quiserdes; e dizei vós que, enquanto dormíeis, vieram os discípulos dele e o levaram. Eis que tipo de testemunhas de falsidade contra a verdade e a Ressurreição de Cristo produziram os inimigos dEle, prefigurados por Saul. Pergunta, ó incredulidade, a testemunhas adormecidas; que te respondam elas o que se fez no túmulo. Se dormiam, como o souberam? Se vigiavam, por que não detiveram os ladrões? Diga, pois, o que se segue.
2. Nem é este o único Salmo que tem inscrição de tal sorte que o Título não seja corrompido. Vários Salmos assim se assinalam à face, mas contudo em todos se prediz a Paixão do Senhor. Portanto também aqui percebamos a Paixão do Senhor, e fale a nós Cristo, Cabeça e Corpo. Assim sempre, ou quase sempre, ouçamos as palavras de Cristo no Salmo, de modo que não olhemos somente para aquela Cabeça, o único mediador entre Deus e os homens, o Homem Cristo Jesus. ...Mas pensemos em Cristo, Cabeça e Corpo todo, como que um só Homem inteiro. Pois a nós é dito: "Mas vós sois o Corpo de Cristo e membros," pelo Apóstolo Paulo. Se, pois, Ele é Cabeça, nós somos Corpo; todo Cristo é Cabeça e Corpo. Pois às vezes encontras palavras que não convêm à Cabeça, e, a menos que as tenhas atribuído ao Corpo, tua compreensão vacilará; outras vezes encontras palavras que são próprias do Corpo, e Cristo, contudo, é quem fala. Nesse ponto não devemos temer que alguém se engane, pois logo procede a adaptar à Cabeça aquilo que vê não ser próprio do Corpo. ...
1. Como a Escritura costuma pôr mistérios dos Salmos nos títulos, e ornar a fronte de um Salmo com o elevado anúncio de um Mistério, para que nós, que estamos para entrar, saibamos (quando, como que na ombreira da porta, tivermos lido o que dentro se faz) de quem é a casa, ou quem é o dono daquela propriedade: assim também neste Salmo foi escrito um título, de um título. Pois tem: "Até o fim, não corrompas, para o próprio Davi, para a inscrição do título." Isto é o que eu disse, título do Título. Pois o que seja a inscrição deste título, que ele proíbe que se corrompa, o Evangelho no-lo indica. Pois, quando o Senhor estava sendo crucificado, um título por Pilatos foi inscrito e posto: "Rei dos Judeus," em três línguas, hebraica, grega e latina, línguas que na maior parte do mundo mais prevalecem. ...Portanto, "não corrompas" é muitíssimo próprio e profético; pois de fato até mesmo aqueles judeus fizeram naquele tempo sugestão a Pilatos, e disseram: "Não escrevas Rei dos Judeus, mas escreve que ele mesmo disse que era Rei dos Judeus"; pois este título, dizem, o estabeleceu Rei sobre nós. E Pilatos: "O que escrevi, escrevi." E cumpriu-se: "não corrompas."
5. "Livra-me dos homens que praticam a iniquidade, e dos homens de sangues, salva-me Tu" (v. 2). Eram, na verdade, homens de sangues os que mataram o Justo, em quem nenhuma culpa acharam: eram homens de sangues, porque, quando o estrangeiro lavou as mãos e queria soltar a Cristo, clamaram: "Crucifica, crucifica"; eram homens de sangues aqueles a quem, quando se lhes imputava o crime do sangue de Cristo, responderam, dando-o a beber à sua posteridade: "Caia o seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos." Mas nem contra o Seu Corpo cessaram de se levantar homens de sangues; pois mesmo depois da Ressurreição e Ascensão de Cristo, a Igreja sofreu perseguições, e ela mesma, primeiramente aquela que brotou do povo judaico, do qual também eram os nossos Apóstolos. Ali primeiro Estêvão foi apedrejado, e recebeu aquilo de que tinha o nome. Pois Estêvão significa coroa. Humildemente apedrejado, mas altamente coroado. Em segundo lugar, entre os gentios levantaram-se reinos dos gentios, antes que neles se cumprisse o que fora predito: "Adorá-lo-ão todos os reis da terra, todas as nações O servirão"; e ali rugiu a ferocidade daquele reino contra as testemunhas de Cristo; ali se derramou larga e frequentemente o sangue dos Mártires; com o qual, uma vez derramado, sendo como que semeado, o campo da Igreja mais fecundamente floresceu, e encheu o mundo inteiro, como agora contemplamos. Destes, pois, homens de sangues, é livre Cristo, não somente a Cabeça, mas também o Corpo. Dos homens de sangues é livre Cristo, tanto dos que foram, como dos que são, como dos que hão de ser; é livre Cristo, tanto o que precedeu, como o que é, como o que há de vir. Pois Cristo é todo o Corpo de Cristo; e quaisquer bons cristãos que agora existem, e que existiram antes de nós, e que hão de existir depois de nós, são um Cristo inteiro, que é livre dos homens de sangues; nem é vã esta voz: "E dos homens de sangues salva-me Tu."
6. "Pois eis que caçaram a minha alma. ...Investiram contra mim homens fortes" (v. 3). Não devemos, porém, passar adiante destes homens fortes; diligentemente devemos rastrear quem são os homens fortes que se levantam. Homens fortes, sobre quem senão sobre homens fracos, sobre homens impotentes, sobre homens não fortes? E louvados, contudo, são os homens fracos, e condenados são os homens fortes. Se se quiser perceber quem são homens fortes, primeiramente ao próprio diabo o Senhor chamou de homem forte: "Ninguém," diz Ele, "pode entrar na casa do homem forte e roubar-lhe os vasos, a menos que primeiro haja amarrado o homem forte." Amarrou, pois, o homem forte com as cadeias de Seu domínio; e roubou-lhe os vasos, e fê-los Seus próprios vasos. Pois todos os homens injustos eram vasos do diabo. ...Mas há entre os homens certos homens fortes de uma força censurável e condenável, que são confiantes, na verdade, mas na felicidade temporal. Não vos parece que tenha sido forte aquele homem de quem agora se leu nos Evangelhos: como a sua propriedade produziu abundância de frutos, e ele, perturbado, concebeu o desígnio de reconstruir, de modo que, tendo derrubado seus antigos celeiros, construísse outros mais capazes, e, uma vez terminados estes, dissesse à sua alma: "Tens muitos bens, alma, banqueteia-te, alegra-te, farta-te." ...Há também outros homens fortes, não por causa das riquezas, não por causa das forças do corpo, não por causa de qualquer poder temporalmente preeminente de posição, mas confiando na sua própria justiça. Este tipo de homens fortes deve ser evitado, temido, repelido, não imitado: homens que confiam, digo, não no corpo, não nos recursos, não na linhagem, não na honra; pois quem não veria que todas essas coisas são temporais, fugazes, cadentes, voláteis? mas confiando na sua própria justiça. ..."Por que," dizem eles, "come o vosso Mestre com publicanos e pecadores?" Ó homens fortes, a quem não é necessário um Médico! Esta força não pertence à sanidade, mas à insânia. Pois nada pode ser mais forte do que os frenéticos; são mais poderosos do que os sãos; mas quanto maiores são as suas forças, tanto mais próxima está a sua morte. Afaste, pois, Deus estes homens fortes de nossa imitação. ...Estes são, portanto, os homens fortes que assaltaram a Cristo, louvando a própria justiça. Ouvi estes homens fortes: quando certos homens de Jerusalém falavam, tendo sido enviados por eles para prender a Cristo, e não ousando prendê-Lo (porque quando Ele quis, então foi preso, aquele que verdadeiramente era forte): "Por que, pois," dizem eles, "não pudestes prendê-Lo?" E responderam: "Nunca homem algum falou assim como este homem." E estes homens fortes: "Acaso creu nEle algum dos fariseus, ou algum dos escribas, senão este povo que não conhece a Lei?" Preferiram-se eles mesmos à multidão enferma que corria ao Médico; donde senão porque eles mesmos eram fortes? e, o que é pior, com a sua força também arrastaram a si toda a multidão, e mataram o Médico de todos. ...
7. Que mais? "Nem a iniquidade é minha, nem o pecado é meu, ó Senhor" (v. 4). Precipitaram-se, com efeito, homens fortes, confiando na própria justiça, precipitaram-se, mas pecado em mim não encontraram. Pois, na verdade, aqueles homens fortes, isto é, como que homens justos, por que motivo poderiam perseguir a Cristo, senão como a um pecador? Mas, todavia, vejam eles quão fortes são, no furor da febre, e não no vigor da saúde: vejam eles quão fortes são, e como, como que contra um injusto, se enfureceram. Mas, todavia, "nem a iniquidade é minha, nem o pecado é meu, ó Senhor. Sem iniquidade corri, e fui guiado." Aqueles homens fortes, portanto, não puderam seguir-me na corrida: por isso me julgaram pecador, porque não viram os meus passos.
8. "Sem iniquidade corri, e fui guiado; levanta-Te ao meu encontro, e vê." A Deus se diz isto. Mas por quê? Se Ele não vier ao encontro, é incapaz de ver? É como se tu caminhasses por um caminho, e de longe alguém não pudesse reconhecer-te, tu o chamarias e lhe dirias: Vem ao meu encontro, e vê como caminho; pois quando de longe me avistas, meus passos não podes ver. Assim também, a menos que Deus viesse ao encontro, não veria Ele como sem iniquidade era guiado, e como sem pecado corria? Esta interpretação, na verdade, também podemos aceitar, a saber, "Levanta-Te ao meu encontro", como se dissesse "ajuda-me". Mas o que acrescentou, "e vê", deve ser entendido como: faze que se veja que corro, faze que se veja que sou guiado; segundo aquela figura em que também isto foi dito a Abraão: "Agora sei que temes a Deus." Deus diz "Agora sei": donde, senão porque te fiz saber? Pois desconhecido de si mesmo está cada um antes do interrogatório da tentação: assim como de si mesmo Pedro, em sua confiança, era ignorante, e negando aprendeu de que espécie eram os seus poderes; em seu próprio tropeço percebeu que falsamente havia confiado: chorou, e chorando mereceu proveitosamente conhecer o que era, e ser o que não era. Portanto Abraão, provado, tornou-se conhecido a si mesmo: e foi dito por Deus, "Agora sei", isto é, agora te fiz saber. Do mesmo modo como alegre é o dia porque faz alegres os homens; e amarga é a amargura porque faz triste o que dela prova: assim o ver de Deus é fazer ver. "Levanta-Te, portanto", diz ele, "ao meu encontro, e vê" (v. 5). Que é "e vê"? E ajuda-me, isto é, naqueles homens, para que vejam o meu curso, sigam-me; que não lhes pareça tortuoso o que é reto, que não lhes pareça curvo o que guarda a regra da verdade.
9. Algo mais sou admoestado a dizer neste lugar acerca da grandeza de nossa própria Cabeça: pois Ele se fez fraco até a morte, e tomou sobre Si a fraqueza da carne, a fim de recolher sob as Suas asas os pintainhos de Jerusalém, como uma galinha que se mostra fraca com os seus filhotes. Pois não observamos nós isto em alguma ave, alguma vez, mesmo naquelas que constroem ninhos diante de nossos olhos, como os pardais domésticos, como as andorinhas, por assim dizer nossas hóspedes anuais, como as cegonhas, como as várias espécies de aves, que diante de nossos olhos constroem ninhos, e chocam ovos, alimentam filhotes, como as próprias pombas que diariamente vemos; e alguma ave tornar-se fraca com os seus filhotes, não o conhecemos, não o contemplamos, não o vimos? De que maneira experimenta a galinha esta fraqueza? Certamente de um fato conhecido estou falando, que diante de nossos olhos diariamente sucede. Como a sua voz se torna rouca, como todo o seu corpo se faz lânguido? As asas pendem, as penas se soltam, e vês em torno dos filhotes algo enfermo, e este é o amor materno que se encontra como fraqueza. Por que foi, portanto, senão por esta razão, que o Senhor quis ser como uma Galinha, dizendo na Sagrada Escritura: "Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus filhotes sob as asas, e não o quiseste." Mas Ele ajuntou todas as nações, como a galinha os seus filhotes...
10. "E Tu, Senhor Deus das virtudes, Deus de Israel." Tu, Deus de Israel, que és tido por Deus de uma só nação, a qual Te adora, quando todas as nações adoram ídolos, Tu, Deus de Israel, "Atende à visitação de todas as nações." Cumpra-se aquela profecia em que Isaías, em Tua pessoa, fala à Tua Igreja, Tua santa Cidade, aquela estéril de quem são muito mais os filhos da que foi abandonada do que da que tem marido. A Ela, na verdade, foi dito: "Alegra-te, estéril, que não davas à luz", etc., mais do que à nação judaica, que tem marido, que recebeu a Lei, mais do que aquela nação que tinha um rei visível. Pois o teu rei está oculto, e mais filhos tens por um Esposo oculto... Acrescenta o Profeta: "Alarga o lugar do Teu tabernáculo, e os Teus átrios estende: não há razão para que poupes, alonga mais as tuas cordas, e estacas fortes finca outra vez à direita e à esquerda." À direita conserva os bons, à esquerda conserva os maus, até que venha o joeiro: ocupa, todavia, todas as nações; convidados às núpcias sejam bons e maus, encha-se o banquete de convidados; ofício dos servos é convidar, do Senhor é separar. "Cidades que haviam sido abandonadas habitarás": abandonadas de Deus, abandonadas de Profetas, abandonadas de Apóstolos, abandonadas do Evangelho, cheias de demônios. Pois hás de prevalecer; e não te envergonhes por teres sido abominável. Portanto, ainda que se tenham levantado contra ti homens fortes, não te envergonhes: quando contra o nome de Cristo se promulgavam leis, quando ignomínia e infâmia era ser cristão. "Não te envergonhes por teres sido abominável: pois a confusão eterna esquecerás, da ignomínia da tua viuvez não te lembrarás"...
11. "Não tenhas piedade de todos os que praticam a iniquidade." Aqui evidentemente Ele aterroriza. A quem não aterrorizaria? Que homem, voltando-se sobre a própria consciência, não tremeria? A qual, ainda que a si mesma seja consciente de piedade, estranho seria se de algum modo não fosse também consciente de iniquidade. Pois todo aquele que comete pecado, também comete iniquidade. "Pois se marcares as iniquidades, ó Senhor, quem poderá subsistir?" E, no entanto, verdadeira é a sentença, e não dita sem propósito, e nem é nem será possível que seja vã: "Não tenhas piedade de todos os que praticam a iniquidade." Mas Ele teve piedade até de Paulo, que a princípio, como Saulo, praticava a iniquidade. Pois que bem fez ele, por onde pudesse merecer de Deus? Não odiou ele os Seus Santos até a morte? não levava ele cartas dos príncipes dos sacerdotes, a fim de que, onde quer que encontrasse cristãos, os levasse ao suplício? Estando empenhado nisto, indo para isso, respirando
14. "Convertam-se à tarde" (v. 6). De certos homens está falando, que outrora foram operários da iniquidade, e outrora trevas, convertendo-se à tarde. Que é "à tarde"? Depois. Que é "à tarde"? Mais tarde. Pois antes, antes que crucificassem a Cristo, deveriam ter reconhecido o seu Médico. Por isso, depois que Ele foi crucificado — ressuscitando, subindo aos Céus — depois que enviou o Seu Espírito Santo, com o qual foram cheios os que estavam numa só casa, e começaram a falar nas línguas de todas as nações, temeram os crucificadores de Cristo; foram traspassados por suas próprias consciências, pediram aos Apóstolos conselho de salvação, ouviram: "Arrependei-vos, e sede batizados cada um de vós em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, e vossos pecados vos serão remitidos." Depois da morte de Cristo, depois do derramamento do sangue de Cristo, são remitidos os vossos pecados... "Convertam-se, pois, estes" também "à tarde." Ansiem pela graça de Deus, reconheçam-se pecadores; tornem-se fracos aqueles homens fortes, tornem-se pobres aqueles ricos, reconheçam-se pecadores aqueles justos, tornem-se cães aqueles leões. "Convertam-se à tarde, e padeçam fome como cães. E rodearão a cidade." Que cidade? Aquele mundo, que em certos lugares a Escritura chama "a cidade do cerco em redor": isto é, porque em todas as nações, por toda parte, o mundo havia cercado a única nação dos judeus, onde tais palavras estavam sendo ditas, e foi chamada "a cidade do cerco em redor." Em torno desta cidade andarão aqueles homens, agora tornados cães famintos. De que modo hão de rodeá-la? Pregando. Saulo, de lobo, foi feito cão à tarde, isto é, sendo tardiamente convertido pelas migalhas do seu Senhor, correu na Sua graça, e rodeou a cidade.
15. "Eis que eles mesmos falarão com sua boca, e uma espada está em seus lábios" (v. 7). Eis aquela espada duas vezes afiada, da qual diz o Apóstolo: "E a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus." Por que duas vezes afiada? Por que, senão porque fere de ambos os Testamentos? Com esta espada foram mortos aqueles de quem se disse a Pedro: "Mata, e come." "E uma espada está em seus lábios. Pois quem ouviu?" Todos falam com sua boca: "Quem ouviu?" Isto é, hão de irar-se contra os homens que são tardios em crer. Aqueles que pouco antes eles mesmos não queriam crer, sentem desgosto dos homens que não creem. E, na verdade, irmãos, assim é. Vês um homem tardio antes de fazer-se cristão; clamas a ele diariamente, dificilmente se converte: supõe-se que se converta, e então ele quereria que todos os homens fossem cristãos, e se espanta de que ainda não o sejam. Aconteceu-lhe converter-se à tarde: mas porque foi feito faminto como cão, tem também em seus lábios uma espada; diz ele: "Quem ouviu?" Que é "Quem ouviu?" "Quem creu no que ouvimos de nós, e a quem foi revelado o braço do Senhor?" "Pois quem ouviu?" Os judeus não creem: voltaram-se eles às nações, e pregaram. Os judeus não creram; e, no entanto, por meio de judeus crentes, o Evangelho rodeou a cidade, e eles diziam: "Pois quem ouviu?" "E Tu, Senhor, os escarnecerás" (v. 8). Todas as nações hão de ser cristãs, e vós dizeis: "Quem ouviu?" Que é "os escarnecerás"? "Como a nada estimarás todas as nações." Nada será para Ti; porque coisa facílima será que todas as nações creiam em Ti.
16. "A minha fortaleza guardarei para Ti" (v. 9). Pois aqueles homens fortes caíram por esta razão: porque a sua fortaleza não guardaram para Ti: isto é, aqueles que contra mim se levantaram e se precipitaram, em si mesmos confiaram. Mas eu "a minha fortaleza guardarei para Ti:" porque se me retiro, caio; se me aproximo, mais forte me faço. Pois vede, irmãos, o que há numa alma humana. Não tem de si mesma luz, não tem de si mesma poderes: mas tudo o que é belo numa alma é virtude e sabedoria; porém ela não é sábia por si mesma, nem forte por si mesma, nem é luz para si mesma, nem é virtude para si mesma. Há uma certa origem e fonte da virtude, há uma certa raiz da sabedoria, há uma certa, por assim dizer, se também isto deve ser dito, região da verdade imutável: desta, a alma que se afasta se faz escura, aproximando-se se faz luminosa. "Aproximai-vos d'Ele, e sede iluminados": porque, afastando-vos, vos fazeis escuros. Portanto, "a minha fortaleza guardarei para Ti": não me afastarei de Ti, não confiarei em mim mesmo. "A minha fortaleza, para Ti guardarei: porque, ó Deus, Tu és o meu sustentáculo." Pois onde estava eu, e onde estou? Donde me tomaste? Que iniquidades minhas remitiste? Onde jazia eu? A que fui elevado? Devia eu recordar estas coisas: porque em outro Salmo se diz: "Pois meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me tomou para Si."
17. "Meu Deus, a Sua misericórdia virá adiante de mim" (v. 10). Eis o que é: "A minha fortaleza guardarei para Ti": em mim mesmo de modo nenhum confiarei. Pois que bem trouxe eu, para que Tu tivesses misericórdia de mim, e me justificasses? Que encontraste em mim, senão pecados somente? De Ti não há outra coisa senão a natureza que criaste: as outras coisas são meus próprios males, que Tu apagaste. Não me levantei eu primeiro a Ti, mas para me despertar Tu vieste: pois "a Sua misericórdia virá adiante de mim." Antes que eu faça algo de bom, "a Sua misericórdia virá adiante de mim." Que resposta dará aqui o infeliz Pelágio? "Meu Deus me mostrou entre os meus inimigos" (v. 11). Quão grande misericórdia Ele manifestou para comigo, entre os meus inimigos mostrou. Compare-se aquele que foi reunido com os homens abandonados, e o eleito com os rejeitados: compare-se o vaso de misericórdia com os vasos de ira; e veja como de uma só massa Deus fez um vaso para honra, outro para desonra. "Pois assim Deus, querendo mostrar a ira, e manifestar o Seu poder, trouxe, com muita paciência, os vasos de ira, que foram preparados para a perdição." E por que isto? "A fim de que fizesse conhecidas as Suas riquezas sobre os vasos de misericórdia." Se, portanto, os vasos de ira Ele trouxe, para que fizesse conhecidas as Suas riquezas sobre os vasos de misericórdia, mui retamente foi dito: "A Sua misericórdia virá adiante de mim: Meu Deus me mostrou entre os meus inimigos": isto é, quão grande misericórdia teve para comigo, a mim mo mostrou entre estes homens para com os quais não teve misericórdia. Pois a menos que o devedor esteja em suspenso, é menos grato àquele por quem a dívida foi perdoada. "Meu Deus me mostrou entre os meus inimigos."
18. Mas dos próprios inimigos, que? "Não os mates, para que não se esqueçam alguma vez da Tua lei." Ele está intercedendo por seus inimigos, está cumprindo o mandamento... Não mates aqueles cujos pecados matas. Mas que é ser morto? Esquecer a lei do Senhor. Verdadeira morte é ir para a cova do pecado; isto, na verdade, também se pode entender dos judeus. Por que dos judeus, "Não os mates, para que não se esqueçam alguma vez da Tua lei"? A estes mesmos inimigos meus, que me mataram, não os mates Tu. Permaneça a nação dos judeus: certamente foi vencida pelos romanos, certamente apagada está a cidade deles, judeus não são admitidos em sua cidade, e todavia judeus existem. Pois todas aquelas províncias foram subjugadas pelos romanos. Quem agora pode distinguir as nações no império romano umas das outras, visto que todas se tornaram romanas e todas se chamam romanas? Os judeus, todavia, permanecem com um sinal; nem de tal modo foram vencidos, que pelos vencedores fossem tragados. Não sem razão há aquele Caim, sobre quem, depois que matou o seu irmão, Deus pôs um sinal para que ninguém o matasse. Este é o sinal que os judeus têm: aferram-se ao resto da sua lei, são circuncidados, guardam os sábados, sacrificam a Páscoa, comem pães ázimos. Estes, portanto, são judeus, não foram mortos, são necessários às nações crentes. Por que assim? Para que Ele nos mostre entre os nossos inimigos a Sua misericórdia. "Meu Deus me mostrou nos meus inimigos." Ele mostra a Sua misericórdia à oliveira brava enxertada sobre os ramos que foram cortados por causa da soberba. Vede onde jazem aqueles que foram soberbos, vede onde foste tu enxertado, que jazias: e não te ensoberbeças, para que não mereças ser cortado.
19. "Dispersa-os pelo Teu poder" (v. 11). Ora, esta coisa se cumpriu: por todas as nações foram dispersos os judeus, testemunhas da sua própria iniquidade e da nossa verdade. Têm eles mesmos escritos, dos quais foi profetizado Cristo, e nós possuímos a Cristo. E se, alguma vez, porventura algum pagão houver duvidado, quando lhe dissermos as profecias de Cristo, com cuja clareza se maravilha, e admirando-se supôs que foram escritas por nós mesmos, então, a partir dos exemplares dos judeus, provamos como esta coisa, tanto tempo antes, havia sido predita. Vede de que modo, por meio de nossos inimigos, confundimos outros inimigos. "Dispersa-os pelo Teu poder": tira-lhes o "poder", tira-lhes a sua força. "E abate-os, meu protetor, ó Senhor." "As transgressões da sua boca, o discurso dos seus lábios: e sejam apanhados na sua soberba: e por causa da maldição e da mentira se hão de declarar consumações, na ira da consumação, e não serão" (v. 12). Palavras obscuras são estas, e temo que não sejam bem transmitidas...
A Segunda Parte.
1. Pois, eis que os judeus são inimigos, os quais este Salmo parece implicar; a lei de Deus eles guardam, e por isso deles foi dito: "Não os mates, para que não se esqueçam alguma vez da Tua lei": a fim de que a nação dos judeus permanecesse, e permanecendo ela, o número dos cristãos aumentasse. Por todas as nações permanecem certamente, e judeus são, nem deixaram de ser o que eram: isto é, esta nação não se rendeu de tal modo às instituições romanas, que houvesse perdido a forma de judeus; mas foi submetida aos romanos de tal modo que ainda retém as suas próprias leis, que são as leis de Deus. Mas o que se fez no seu caso? "Dizimais a hortelã e o cominho, e abandonastes as coisas mais importantes da lei, a misericórdia e o juízo, coando um mosquito, mas engolindo um camelo." Isto lhes diz o Senhor. E, na verdade, assim são; guardam a lei, guardam os Profetas; leem todas as coisas, cantam todas as coisas: a luz dos Profetas, porém, nisso não veem, que é Cristo Jesus. Não somente agora não O veem, quando Ele está assentado nos Céus: mas nem sequer naquele tempo O viram, quando entre eles humilde andava, e se tornaram culpados derramando o Seu sangue; mas não todos. Isto ainda hoje recomendamos à atenção da vossa Caridade. Não todos: porque muitos deles se voltaram para Aquele que mataram, e crendo n'Ele, obtiveram perdão até mesmo pelo derramamento do Seu sangue: e deram exemplo para os homens, de como não devem desesperar de que aquele pecado, de qualquer espécie que seja, lhes seja remitido, visto que até mesmo o assassínio de Cristo lhes foi remitido ao o confessarem...
2. Que hás de matar neles? O Crucifica-o, Crucifica-o, que clamaram, não a eles que clamaram. Pois quiseram apagar, cortar, destruir a Cristo: mas Tu, ressuscitando a Cristo, a quem quiseram destruir, matas as "transgressões da sua boca, o discurso dos seus lábios." Pois, ao verem que Aquele a quem clamaram para ser destruído vive, são tomados de pavor: e que Aquele a quem na terra desprezaram, no céu é adorado por todas as nações, se admiram: assim são mortas as transgressões deles, e o discurso dos seus lábios. Que é "sejam apanhados na sua soberba"? Porque em vão se precipitaram os homens fortes, e lhes sucedeu como que pensar terem feito algo, e terem prevalecido contra o Senhor. Puderam crucificar um homem, a fraqueza pôde prevalecer e a virtude ser morta; e pensaram-se algo, como que homens fortes, como que homens poderosos, como que prevalecentes, como que um leão preparado para a presa, como que touros gordos, como deles noutro lugar ele faz menção: "Touros gordos me cercaram." Mas que fizeram eles no caso de Cristo? Não a vida, mas a morte mataram... E que sucedeu agora naqueles homens que se converteram? Pois lhes foi dito que Aquele a quem mataram ressuscitou. Creram que Ele havia ressuscitado, porque viram que Ele, estando nos Céus, dali enviou o Espírito Santo, e encheu aos que n'Ele creram; e se encontraram por não terem condenado coisa alguma, e por nada terem feito. O seu feito redundou em vazio, o pecado permaneceu. Porque, portanto, o feito se anulou, mas o pecado permaneceu sobre os que o fizeram; foram apanhados na sua soberba, viram-se sob a sua iniquidade. Restava-lhes, portanto, confessar o pecado, e a Ele perdoar, que Se entregara aos pecadores, e perdoar a Sua morte, tendo sido morto por homens mortos, e vivificando homens mortos. Foram, pois, apanhados na sua soberba.
3. "E por causa da maldição e da mentira se hão de declarar consumações, na ira da consumação, e não serão." Isto também é difícil de entender, a que se liga o "e não serão." Que não serão eles? Examinemos, pois, o contexto acima: quando forem apanhados na sua soberba, "se hão de declarar, por causa da maldição e da mentira, consumações." Que são consumações? Perfeições: pois ser consumado é ser aperfeiçoado. Uma coisa é ser consumado, outra coisa é ser consumido. Pois consumada é a coisa que é acabada de tal modo que é aperfeiçoada: consumida é a coisa que é acabada de tal modo que deixa de ser. A soberba não deixaria o homem ser aperfeiçoado, nada impede tanto a perfeição. Pois atenda a vossa Caridade um pouco ao que estou dizendo; e vede um mal muito pernicioso, muito a ser evitado. Que espécie de mal pensais que seja este? Quanto tempo poderia eu discorrer sobre quanto mal há na soberba? O demônio, só por isso, deve ser punido. Certamente ele é o chefe de todos os pecadores: certamente ele é o tentador ao pecado: a ele não se atribui adultério, não embriaguez, não fornicação, não o roubo de bens alheios: pela soberba somente caiu. E como a companheira da soberba é a inveja, é necessário...
E saberão como Deus terá domínio sobre Jacó e sobre os confins da terra (v. 13). Pois antes se julgavam homens justos, porque a nação judaica havia recebido a Lei, porque guardara os mandamentos de Deus: prova-se-lhes que não os guardou, uma vez que nos próprios mandamentos de Deus não reconheceu a Cristo, porquanto "endurecimento em parte sobreveio a Israel". Até os próprios judeus veem que não deviam desprezar os gentios, que reputavam como cães e pecadores. Pois assim como igualmente foram achados na iniquidade, assim igualmente alcançarão a salvação. "Não somente aos judeus", diz o Apóstolo, "mas também aos gentios." Pois para isto a Pedra que os edificadores rejeitaram foi feita cabeça do ângulo, para que a dois em si Ela unisse: pois um ângulo une duas paredes. Os judeus julgavam-se exaltados e grandes: dos gentios pensavam como fracos, como pecadores, como servos dos demônios, como adoradores de ídolos, e todavia em ambos havia iniquidade. Até os judeus foram provados pecadores; porque "não há quem faça o bem, não há sequer um só": depuseram sua soberba, e não invejaram a salvação dos gentios, porque conheceram que a sua própria fraqueza era igual; e, unidos na Pedra Angular, juntos adoraram o Senhor. ...
Converter-se-ão à tarde (v. 14): isto é, ainda que tarde, isto é, depois da morte de nosso Senhor Jesus Cristo: "Converter-se-ão à tarde: e depois disso sofrerão fome como cães." Mas "como cães", não como ovelhas ou bezerros: "como cães", como gentios, como pecadores; porque também eles conheceram o seu pecado, eles que se julgavam justos. ...É coisa boa, portanto, que o pecador seja humilhado; e ninguém é mais incurável do que aquele que se julga são. "E rodearão a cidade." Já explicamos "cidade"; é a "cidade do círculo em redor"; todas as nações.
Que é "até o fim" já sabeis. Pois "o fim da lei é Cristo". Aqueles que são mudados já sabeis quem são. Pois quem senão aqueles que passam da vida velha para a nova? ..."Pois éreis outrora trevas, mas agora luz no Senhor." Mas são mudados "para a inscrição do título", ...aqueles que para o reino de Cristo passam do reino do diabo. Bem é que sejam mudados para esta inscrição do título. Mas são mudados, como segue, "para o ensino". Acrescentou: "pois para o próprio Davi, para o ensino": isto é, são mudados não por si mesmos, mas pelo próprio Davi, e são mudados para o ensino. ...Quando, pois, teria Cristo nos mudado, senão porque fez o que disse: "Fogo vim lançar sobre a terra"? Se, portanto, Cristo veio lançar fogo sobre o mundo, a saber, para sua saúde e proveito, devemos indagar não como há de lançar o mundo no fogo, mas como no mundo o fogo. Visto, pois, que veio lançar fogo no mundo, indaguemos que é a Mesopotâmia que foi queimada, que é a Síria de Sobal. Examinemos, pois, as interpretações dos nomes segundo a língua hebraica, na qual primeiramente esta Escritura foi escrita. Mesopotâmia, dizem, interpreta-se "vocação exaltada". Ora, o mundo inteiro pela vocação foi exaltado. Síria interpreta-se "elevada". Mas ela, que era elevada, foi queimada e humilhada. Sobal interpreta-se "antiguidade vazia". Graças a Cristo que a queimou. Sempre que velhos arbustos são queimados, sucedem-lhes lugares verdejantes; e mais depressa, e mais abundantemente, e mais plenamente verdes, brotam os novos rebentos, quando o fogo os precedeu na queima do velho. Não se tema, pois, o fogo de Cristo, ainda que consuma o feno. "Pois toda carne é feno, e toda glória do homem como flor do feno." Ele queima, pois, aquelas coisas com aquele fogo. "E converteu Joabe." Joabe interpreta-se inimigo. Converteu-se um inimigo, como hás de entender. Se convertido à fuga, é o diabo; se convertido à fé, é um cristão. Como à fuga? Do coração de um cristão: "O príncipe deste mundo", diz Ele, "já foi lançado fora." Mas como pode um cristão convertido ao Senhor ser um inimigo convertido? Porque se fez crente aquele que fora inimigo. "Feriu Edom." Edom interpreta-se "terreno". Aquele terreno deveria ser ferido. Pois por que viveria terrenamente aquele que deveria viver celestialmente? Foi morta, pois, a vida terrena, viva a vida celeste. "Pois assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem daquele que é do Céu." Vede-a morta: "Mortificai os vossos membros que estão sobre a terra." Mas quando feriu Edom, feriu "doze mil no vale das salinas". Doze mil é um número perfeito, ao qual número perfeito também se atribui o número dos doze Apóstolos: pois não é sem propósito, mas porque por todo o mundo havia de ser enviado o Verbo. Ora, o Verbo de Deus, que é Cristo, está nas nuvens, isto é, nos pregadores da verdade. Mas o mundo consta de quatro partes. As suas quatro partes são sobremaneira conhecidas de todos, e frequentemente nas Escrituras são mencionadas: são as mesmas do nome dos quatro ventos, Oriente, Ocidente, Norte e Sul. A todas estas quatro partes foi enviado o Verbo, para que na Trindade todos fossem chamados. O número doze fazem quatro vezes três. Com razão, pois, foram feridas doze mil coisas terrenas, foi ferido o mundo inteiro: pois de todo o mundo foi escolhida a Igreja, mortificada da vida terrena. Por que "no vale das salinas"? Um vale é humildade: as salinas significam sabor. Pois muitos homens se humilham, mas vazia e tolamente, em vazia velhice se humilham. Um sofre tribulação por dinheiro, sofre tribulação por honra temporal, sofre tribulação pelos confortos desta vida; ele há de sofrer tribulação e ser humilhado: por que não por causa de Deus, por que não por causa de Cristo, por que não pelo sabor do sal? Não sabes que a ti foi dito: "Vós sois o sal da terra", e "Se o sal se corromper, para nada mais servirá, senão para ser lançado fora"? Coisa boa é, pois, ser sabiamente humilhado. Eis que agora não estão os hereges sendo humilhados? Não foram feitas até leis pelos homens para condená-los, contra os quais reinam as leis divinas, que já antes os haviam condenado? Eis que são humilhados, eis que são postos em fuga, eis que perseguição sofrem, mas sem sabor; por tolice, por vaidade. Pois agora o sal se corrompeu: por isso foi lançado fora, para ser pisado pelos homens. Ouvimos o título do Salmo, ouçamos também as palavras do Salmo.
Ó Deus, Tu nos repeliste, e nos destruíste (v. 1). É Davi que fala, ele que feriu, que queimou, que derrotou, e não aqueles a quem Ele fez estas coisas, isto é, o serem feridos e repelidos, os que eram maus, e novamente o serem vivificados e voltarem a fim de que fossem bons? Aquela destruição, na verdade, que Davi fez, forte de mão, o nosso Cristo, cuja figura aquele homem trazia; Ele fez aquelas coisas, Ele fez esta destruição com a sua espada e com o seu fogo: pois ambos Ele trouxe a este mundo. Ambos: "Fogo vim lançar sobre a terra", tens no Evangelho: e "Espada vim lançar sobre a terra", tens no Evangelho. Trouxe o fogo, pelo qual pudesse ser queimada a Mesopotâmia na Síria, e a Síria de Sobal: trouxe a espada pela qual pudesse ser ferido Edom. Ora, novamente esta destruição foi feita por causa "daqueles que são mudados para a inscrição do título". Ouçamos, pois, a voz deles: para a sua saúde foram feridos, sendo levantados, falem eles. Digam, pois, os que são mudados para algo melhor, mudados para a inscrição do título, mudados para o ensino para o próprio Davi; digam: "Tiveste misericórdia de nós." Destruíste-nos, a fim de que nos edificasses; destruíste-nos, que estávamos mal edificados, destruíste a vazia velhice; a fim de que haja uma edificação para um homem novo, edificação para permanecer eternamente. ...
Davi, o rei, era um homem, mas não figurava um só homem; ora, com efeito, figurava a Igreja composta de muitos homens, estendida até os confins da terra: mas ora figurava um só Homem, figurava Aquele que é Mediador de Deus e dos homens, o Homem Cristo Jesus. Neste Salmo, pois, ou antes, no título deste Salmo, são referidas certas ações vitoriosas de Davi: ..."Até o fim, em favor daqueles homens que hão de ser mudados para a inscrição do título, para o ensino para o próprio Davi, quando queimou a Mesopotâmia na Síria, e a Síria de Sobal, e converteu Joabe, e feriu Edom, no vale das salinas, doze mil." Lemos estas coisas nos livros dos Reinados, que todas aquelas pessoas que ele nomeou foram derrotadas por Davi, isto é, a Mesopotâmia na Síria, e a Síria de Sobal, Joabe, Edom. Estas coisas foram feitas, e assim como foram feitas, assim ali foram escritas, assim são lidas: leia-as quem quiser. Todavia, como o Espírito Profético nos títulos dos Salmos costuma afastar-se um tanto da expressão dos fatos ocorridos, e dizer algo que na história não se encontra, e por isso antes nos admoestar de que títulos deste gênero foram escritos não para que conheçamos os fatos ocorridos, mas para que sejam prefigurados os fatos futuros. ...Mas aqui esta coisa é inserida por esta razão especial, que ali não está escrito que ele queimou a Mesopotâmia na Síria, e a Síria de Sobal. Mas agora comecemos a examinar estas coisas segundo as significações dos fatos futuros, e a trazer a escuridão das sombras para a luz da palavra.
Moveste a terra, e a perturbaste (v. 2). Como foi perturbada a terra? Na consciência dos pecadores. Para onde vamos? Para onde fugimos, quando esta espada foi brandida: "Arrependei-vos, pois perto está o reino dos Céus"? "Sara as suas fendas, pois foi abalada." Indigna é de ser sarada, se não foi abalada: mas tu falas, pregas, ameaças-nos com Deus, do juízo vindouro não te calas, do mandamento de Deus admoestas, destas coisas não te abténs; e aquele que ouve, se não teme, se não é abalado, não é digno de ser sarado. Outro ouve, é abalado, é picado, fere o peito, derrama lágrimas. ...
O primeiro trabalho é que sejas desagradável a ti mesmo, que combatas os pecados, que sejas mudado para algo melhor: o segundo trabalho, em troca de teres sido mudado, é suportar as tribulações e tentações deste mundo, e no meio delas perseverar até o fim. Destas coisas, pois, quando falava, ao apontar tais coisas, que acrescenta? "Mostraste ao teu povo coisas duras" (v. 3): ao teu povo agora, feito tributário depois da vitória de Davi. "Mostraste ao teu povo coisas duras." Em quê? Nas perseguições que a Igreja de Cristo suportou, quando tanto sangue de mártires foi derramado. "Deste-nos a beber do vinho da compunção." "Da compunção" é o quê? Não do matar. Pois não era um matar que destrói, mas um remédio que dói. "Deste-nos a beber do vinho da compunção."
Por que isto? "Deste aos que te temem um sinal, para que fugissem da face do arco" (v. 4). Por meio das tribulações temporais, diz ele, significaste aos teus que fugissem da ira do fogo eterno. Pois, diz o Apóstolo Pedro, "tempo é que o Juízo comece pela Casa de Deus." E exortando os Mártires à perseverança, quando o mundo se enfurecesse, quando matanças se fizessem às mãos dos perseguidores, quando por toda parte se derramasse o sangue dos crentes, quando em cadeias, em prisões, em tormentos, muitas coisas duras os cristãos sofressem, nestas coisas duras, digo, para que não desfalecessem, Pedro lhes diz: "Tempo é que o Juízo comece pela Casa de Deus", etc. Que há de ser, pois, no Juízo? O arco está retesado, ainda em postura ameaçadora está, ainda não em mira. E vede o que há no arco: não há aí uma flecha a ser disparada adiante? A corda, porém, está estendida para trás, em direção contrária àquela para onde há de ser disparada; e quanto mais o seu estender foi para trás, com tanto maior rapidez ela dispara para diante. Que é isto que disse? Quanto mais o Juízo é adiado, com tanto maior rapidez há de vir. Portanto, até pelas tribulações temporais demos graças a Deus, porque deu ao seu povo um sinal, "para que fugissem da face do arco": a fim de que os seus fiéis, exercitados nas tribulações temporais, sejam dignos de evitar a condenação do fogo eterno, o qual há de descobrir todos os que não creem estas coisas.
7. "Para que se livre o Teu amado: salva-me com a Tua destra, e escuta-me" (v. 5). Com a Tua destra salva-me, Senhor: salva-me de tal modo que à direita eu possa estar. Não peço nenhuma segurança temporal; nisto seja feita a Tua vontade. Pois quanto ao tempo, o que nos é bom ignoramos totalmente: porque "o que devemos pedir como convém não sabemos"; mas "salva-me com a Tua destra", de modo que, ainda que neste tempo eu padeça várias tribulações, uma vez passada a noite de todas as tribulações, à direita eu seja encontrado entre as ovelhas, e não à esquerda entre os cabritos. "E escuta-me." Porque agora sou merecedor daquilo que Tu és disposto a dar; não é "com as palavras das minhas transgressões" que clamo durante o dia, de modo que não me escutes, nem "durante a noite, de modo que não me escutes", e isto não para minha loucura, mas verdadeiramente para minha advertência, acrescentando o sabor do vale das minas de sal, para que na tribulação eu saiba o que pedir: mas peço a vida eterna; portanto escuta-me, porque peço a Tua destra. ...
8. "Deus falou no Seu Santo" (v. 6). ...Em qual Santo Seu? "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo." Naquele Santo, do qual em outro lugar ouvistes: "Ó Deus, no Santo está o Teu caminho." "Exultarei e dividirei Siquém... e o vale dos tabernáculos medirei." Siquém interpreta-se ombros. Mas segundo a história, Jacó, retornando de Labão, seu sogro, com toda a sua parentela, escondeu em Siquém os ídolos que trouxera da Síria, onde por longo tempo havia habitado, e de onde finalmente vinha. Mas tabernáculos ali fez por causa de suas ovelhas e rebanhos, e chamou o lugar Tabernáculos. E estes dividirei, diz a Igreja. Que é isto, "dividirei Siquém"? Se à história, onde os ídolos foram escondidos, se faz referência, significa os gentios; divido os gentios. Divido, é o quê? "Pois nem em todos os homens há fé." Divido, é o quê? Uns crerão, outros não crerão. ...Os ombros são divididos, para que os pecados oprimam a uns, enquanto outros tomem sobre si o fardo de Cristo. Pois ombros piedosos Ele buscava quando disse: "Porque o Meu jugo é suave, e o Meu fardo é leve." Outro fardo te oprime e te sobrecarrega, mas o fardo de Cristo te alivia: outro fardo tem peso, o fardo de Cristo tem asas. Pois ainda que arranques as asas de uma ave, removes uma espécie de peso; e quanto mais peso tiveres tirado, tanto mais ela permanecerá em terra. Aquela que escolheste desonerar jaz ali: não voa, porque lhe tiraste um peso; que se lhe devolva o peso, e ela voa. Tal é o fardo de Cristo; carreguem-no os homens, e não sejam ociosos: não se dê ouvidos aos que não quiserem carregá-lo; carreguem-no os que quiserem, e hão de achar quão leve é, quão doce, quão agradável, quão arrebatador para o Céu, e quão transportador desde a terra. ...Talvez, por causa das ovelhas de Jacó, "o vale dos Tabernáculos" deva entender-se da nação dos judeus, e a mesma é dividida: pois já passaram dali os que creram, os demais permaneceram de fora.
9. "Meu é Galaad" (v. 7). Estes nomes se leem nas Escrituras de Deus. Galaad tem a voz de uma interpretação própria e de um grande Mistério: pois se interpreta "o monte de testemunho". Quão grande monte de testemunho nos Mártires? "Meu é Galaad", meu é um monte de testemunho, meus são os verdadeiros Mártires. ...Então pouco estimada era a Igreja entre os homens, então o opróbrio sobre Ela, Viúva, era lançado, porque de Cristo Ela era, porque o sinal da Cruz na fronte Ela trazia: ainda não havia honra, censura havia então: quando, pois, não havia honra, mas censura, então se fez um monte de testemunho; e por meio do monte de testemunho se dilatou o Amor de Cristo; e por meio da dilatação do Amor de Cristo, foram possuídos os gentios. Segue-se: "E meu é Manassés", que se interpreta esquecido. Pois a Ela fora dito: "A confusão eterna esquecerás, e do opróbrio da Tua viuvez não te lembrarás." Houve, portanto, uma confusão da Igreja outrora, que agora foi esquecida: pois de Sua confusão e do "opróbrio" de Sua viuvez agora Ela não se lembra. Pois quando havia certa confusão entre os homens, um monte de testemunho se fez. Agora ninguém mais sequer se lembra daquela confusão, de quando era opróbrio ser cristão; agora ninguém se lembra, agora todos esqueceram, agora "Meu é Manassés, e Efraim a força da minha cabeça." Efraim se interpreta fecundidade. Minha, diz Ele, é a fecundidade, e esta fecundidade é a força da Minha Cabeça. Pois Minha Cabeça é Cristo. E de onde é a fecundidade a força d'Ele? Porque, a menos que um grão caísse na terra, não se multiplicaria, só permaneceria. Caiu, pois, à terra Cristo em Sua Paixão, e seguiu-se a frutificação na Ressurreição. Ele pendia e era desprezado: o grão estava dentro, tinha poder para atrair a si todas as coisas. Assim como num grão se escondem números de sementes, algo abjeto parece aos olhos, mas oculta-se um poder que converte em si a matéria e produz fruto; assim na Cruz de Cristo a virtude estava oculta, aparecia a fraqueza. Ó grão poderoso! Sem dúvida fraco é Aquele que pende, sem dúvida diante d'Ele aquele povo meneava a cabeça, sem dúvida diziam: "Se é Filho de Deus, desça da Cruz." Ouve a força d'Ele: aquilo que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Com razão tamanha fecundidade se seguiu: é minha, diz a Igreja.
10. "Judá é o meu rei: Moabe a panela da minha esperança" (v. 7). Qual Judá? Aquele que é da tribo de Judá. Qual Judá, senão Aquele a quem o próprio Jacó disse: "Judá, teus irmãos te louvarão"? Que devo, pois, temer, quando Judá meu rei diz: "Não temais os que matam o corpo"? "Moabe a panela da minha esperança." Por que "panela"? Por causa da tribulação. Por que "da minha esperança"? Porque adiante foi Judá meu rei. ...Moabe se percebe nos gentios. Pois aquela nação nasceu do pecado, aquela nação nasceu das filhas de Ló, que se deitaram com o pai embriagado, abusando de um pai. Melhor teria sido permanecer estéreis, do que assim se terem feito mães. Mas isto era uma espécie de figura dos que abusam da lei. Pois não atenteis a que a lei, na língua latina, é do gênero feminino: em grego é do gênero masculino: mas quer seja do gênero feminino na fala, quer do masculino, a expressão nada altera à verdade. Pois a lei tem antes força masculina, porque governa, não é governada. Mas, além disso, que diz o Apóstolo Paulo? "Boa é a lei, se alguém dela usa legitimamente." Mas aquelas filhas de Ló usaram ilegitimamente do pai. Mas do mesmo modo que boas obras começam a crescer quando alguém usa bem da lei: assim surgem obras más, quando alguém usa mal da lei. Além disso, elas, usando mal do pai, isto é, usando mal da lei, engendraram os moabitas, pelos quais se significam as obras más. Daí a tribulação da Igreja, daí a panela a ferver. Desta panela, em certo lugar da profecia, se diz: "Uma panela aquecida pelo vento do Norte." De onde, senão das regiões do diabo, que disse: "Porei meu trono ao Norte"? As maiores tribulações, portanto, contra a Igreja surgem senão daqueles que usam mal da lei. ...
11. "Sobre a Idumeia estenderei o meu calçado" (v. 8). A Igreja fala: "Chegarei mesmo até à Idumeia." Que as tribulações se enfureçam, que o mundo ferva de escândalos, mesmo até àquelas pessoas que levam uma vida terrena (pois Idumeia se interpreta terrena), mesmo até essas mesmas, "mesmo até à Idumeia estenderei o meu calçado." De que coisa é o calçado, senão do Evangelho? "Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas", e "os pés calçados com a preparação do Evangelho da paz." ...Nestes tempos vemos, irmãos, quantos homens terrenos perpetram fraudes por causa do ganho, e por causa das fraudes, perjúrios; por causa de seus temores consultam adivinhos, astrólogos: todos estes homens são edomitas, terrenos; e no entanto todos estes homens adoram a Cristo, estão sob o Seu próprio calçado; agora mesmo até à Idumeia se estende o Seu calçado. "A Mim os Alófilos foram submetidos." Quem são os "Alófilos"? Homens de outra raça, não pertencentes à Minha raça. "Foram submetidos", porque muitos homens adoram a Cristo, e não hão de reinar com Cristo.
12. "Quem me conduzirá à cidade da circunvalação?" (v. 9). Que é a cidade da circunvalação? Se já vos lembrais, dela fiz menção em outro Salmo, onde se disse: "E cercarão a cidade em redor." Pois a cidade da circunvalação é o cerco dos gentios, o qual cerco dos gentios, no meio de si, tinha a única nação dos judeus, adorando um só Deus: o restante do cerco dos gentios a ídolos fazia súplica, a demônios servia. E misticamente se chamava a cidade da circunvalação; porque de todos os lados os gentios se haviam derramado ao redor, e haviam cercado aquela nação que adorava um só Deus. ..."Quem me conduzirá mesmo até à Idumeia?"
1. O título dele não nos detém. Pois é "Para o fim, em hinos, ao próprio Davi." "Em hinos", isto é, em louvores. "Para o fim", isto é, para Cristo. ...Mas a voz neste Salmo (se somos dos membros d'Ele, e no Corpo, tal como, por Sua exortação, temos a ousadia de confiar) devemos reconhecer que é nossa própria, não de algum estranho. Mas não a chamei nossa de modo que fosse apenas daqueles que agora estão presentes; mas nossa, como sendo de nós que estamos por todo o mundo, que somos do Oriente mesmo até ao Ocidente. E para que saibais que esta é a nossa voz, Ele fala aqui como se fosse um só Homem: mas não é um só Homem; mas como um só, a Unidade está falando. Mas em Cristo todos nós somos um só homem: porque deste um só Homem a Cabeça está no Céu, e os membros ainda labutam na terra: e porque labutam, vede o que Ele diz.
2. "Escuta, ó Deus, a minha súplica, atende à minha oração" (v. 1). Quem diz isto? Ele, como que Um só. Vede se é um só: "Desde os confins da terra a Ti clamei, enquanto o meu coração estava sendo afligido" (v. 2). Agora, portanto, não é um só: mas por esta razão é um só, porque Cristo é Um só, do qual todos nós somos membros. Pois que homem, sendo um só, clama desde os confins da terra? Não clama desde os confins da terra senão aquela herança, da qual foi dito ao próprio Filho: "Pede-Me, e Eu te darei as nações por Tua herança, e por Tua possessão os limites da terra." Esta, portanto, possessão de Cristo, esta herança de Cristo, este Corpo de Cristo, esta única Igreja de Cristo, esta Unidade que somos, é a que clama desde os confins da terra. ...Mas por que clamei esta coisa? "Enquanto o meu coração estava sendo afligido." Ele mostra-se a si mesmo estar por todas as nações, em todo o círculo do mundo, em grande glória, mas em grande tribulação. Pois a nossa vida nesta peregrinação não pode existir sem tentação: porque o nosso progresso se faz por meio da nossa tentação, nem se torna o homem conhecido a si mesmo se não for tentado, nem pode ser coroado a não ser que tenha vencido, nem pode vencer a não ser que tenha lutado, nem pode lutar a não ser que tenha experimentado um inimigo, e tentações. Este Homem, portanto, está sendo afligido, Aquele que desde os confins da terra clama, mas contudo não é abandonado. Pois a nós mesmos, que somos o Seu Corpo, quis prefigurar também naquele Seu Corpo em que já morreu e ressuscitou, e ao Céu subiu, para que, aonde a Cabeça precedeu, ali os membros tenham a certeza de que O hão de seguir. Portanto, a nós Ele transferiu por uma figura para dentro de Si mesmo, quando quis ser tentado por Satanás.
3. Mas agora se lia no Evangelho como o Senhor Jesus Cristo, no deserto, estava sendo tentado pelo diabo. Cristo inteiramente foi tentado pelo diabo. Pois em Cristo tu estavas sendo tentado, porque Cristo, de ti, tomou para Si a carne, de Si, para ti, a salvação; de ti, para Si, a morte, de Si, para ti, a vida; de ti, para Si, os ultrajes, de Si, para ti, as honras; portanto, de ti, para Si, a tentação, de Si, para ti, a vitória. Se n'Ele fomos tentados, n'Ele vencemos o diabo. ..."Sobre a Rocha me exaltaste." Agora, portanto, aqui percebemos quem é o que clama desde os confins da terra. Recordemos o Evangelho: "Sobre esta Rocha edificarei a Minha Igreja." Portanto clama desde os confins da terra Aquela que Ele quis fosse edificada sobre uma Rocha. Mas para que a Igreja pudesse ser edificada sobre a Rocha, quem se fez Rocha? Ouve Paulo dizendo: "Mas a Rocha era Cristo." Sobre Ele, portanto, fomos edificados. Por esta razão, aquela Rocha sobre a qual fomos edificados, primeiro foi ferida por ventos, inundação, chuva, quando Cristo pelo diabo estava sendo tentado. Eis sobre que firmeza quis estabelecer-te. Com razão a nossa voz não é em vão, mas é ouvida: pois em grande esperança fomos postos: "Sobre a Rocha me exaltaste." ...
Levaste-me a descer, porque Tu foste feito minha esperança: torre de fortaleza diante da face do inimigo (v. 3). Meu coração está aflito, diz aquela Unidade desde os confins da terra, e labuto em meio a tentações e escândalos: os pagãos invejam, porque foram vencidos; os hereges espreitam, ocultos sob o manto do nome cristão: dentro da própria Igreja, o trigo padece violência da palha: em meio a tudo isso, quando meu coração está aflito, clamarei desde os confins da terra. Mas não me abandona Aquele mesmo que me exaltou sobre a Rocha, a fim de me conduzir a descer até Ele mesmo, porque, ainda que eu labute, enquanto o diabo por tantos lugares, tempos e ocasiões me espreita, Ele me é torre de fortaleza, a quem, quando eu me tiver refugiado, não só escaparei aos dardos do inimigo, mas até contra ele mesmo, seguramente, lançarei os dardos que me aprouver. Pois o próprio Cristo é a torre, Ele mesmo foi feito para nós torre diante da face do inimigo, Ele que é também a Rocha sobre a qual foi edificada a Igreja. Cuidas de não seres ferido pelo diabo? Foge para a Torre; jamais até essa torre chegarão os dardos do diabo: ali estarás protegido e firme. Mas de que modo fugirás para a Torre? Não busque o homem, posto porventura em tentação, aquela Torre no corpo, e, não a tendo encontrado, se canse ou desfaleça na tentação. Diante de ti está a Torre: recorda-te de Cristo, e entra na Torre. ...
Peregrino serei em Teu tabernáculo até aos séculos (v. 4). Vede como aquele de quem falamos é quem clama. Qual de nós é peregrino até aos séculos? Pois por poucos dias aqui vivemos, e passamos: peregrinos aqui somos, habitantes no Céu havemos de ser. Peregrino és naquele lugar onde hás de ouvir a voz do Senhor teu Deus: "Retira-te." Pois daquela Morada eterna nos Céus ninguém te mandará retirar-te. Aqui, pois, peregrino és. Donde também se diz noutro Salmo: "Peregrino sou contigo e estrangeiro, como todos os meus pais foram." Aqui, pois, peregrinos somos; ali o Senhor nos dará moradas eternas: "Muitas são," diz Ele, "as moradas na casa de Meu Pai." Aquelas moradas não como a peregrinos as dará, mas como a cidadãos, para nelas permanecerem eternamente. Aqui, porém, irmãos, porque não por pouco tempo a Igreja havia de estar nesta terra, mas porque aqui há de estar a Igreja até o fim do mundo: por isso aqui disse Ele: "Habitante serei em Teu tabernáculo até aos séculos." ...Ora, por poucos dias quiseras tu que fossem as tentações: mas como reuniria Ela todos os Seus filhos, se não estivesse aqui por longo tempo, se não se prolongasse até o próprio fim? Não invejes o resto da humanidade que há de vir depois: não queiras, porque já passaste, cortar a ponte da misericórdia: que seja aqui até para sempre. E que dizer das tentações, que necessariamente hão de abundar, quanto mais vierem os escândalos? Pois Ele mesmo diz: "Porque a iniquidade há de abundar, o amor de muitos esfriará." Mas aquela Igreja, que clama desde os confins da terra, está nas circunstâncias de que fala em seguida. "Mas aquele que houver perseverado até o fim, esse será salvo." Mas de onde perseverarás? ..."Serei coberto sob o véu de Tuas asas." Eis a razão por que estamos em segurança em meio a tão grandes tentações, até que venha o fim do mundo, e os séculos eternos nos recebam; a saber, porque somos cobertos sob o véu de Suas Asas. Há calor no mundo, mas há grande sombra sob as asas de Deus.
Porque Tu, ó Deus, atendeste à minha oração (v. 5). Que oração? Aquela com que começa: "Atende, ó Deus, à minha súplica." ..."Deste herança aos que temem o Teu nome." Perseveremos, pois, no temor do nome de Deus: o Pai eterno não nos engana. Os filhos labutam para receber a herança de seus pais, a quem, uma vez mortos, hão de suceder: e não labutamos nós para receber uma herança daquele Pai, a quem, sem Ele morrer, sucedemos; mas juntamente com Ele, na própria herança, havemos de viver eternamente?
Dias sobre dias do Rei acrescentarás aos anos Dele (v. 6). Este é, pois, o Rei de quem somos membros. Rei é Cristo, nossa Cabeça, nosso Rei. Deste-Lhe dias sobre dias; não somente aqueles dias naquele tempo que tem fim, mas dias sobre esses dias sem fim. "Habitarei," diz ele, "na casa do Senhor, por longura de dias." Mas por que longura de dias, senão porque agora há a brevidade dos dias? Pois tudo o que tem fim é breve: mas deste Rei são dias sobre dias, de modo que não só enquanto estes dias passam Cristo reina em Sua Igreja, mas os Santos hão de reinar juntamente com Ele naqueles dias que não têm fim. ...Pois também se falou de anos de Deus: "Mas Tu és o mesmíssimo, e os Teus anos não faltarão." Da mesma maneira que anos, assim dias, assim um dia. O que quiseres dizes acerca da eternidade. O que quiseres dizes por esta razão, porque, o que quer que tenhas dito, é pouco o que disseste. Pois necessário te é dizer algo, a fim de que haja algo sobre que medites aquilo que não pode ser dito. "Até o dia da geração e da geração." Desta geração e da geração que há de ser: desta geração que é comparada à lua, porque, assim como a lua é nova, cresce, se enche, mingua e desaparece, assim são estas gerações mortais; e da geração em que nascemos de novo ressuscitando, e havemos de permanecer eternamente com Deus, quando já não formos como a lua, mas como aquilo de que diz o Senhor: "Então os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai." Pois a lua, por figura nas Escrituras, é posta pela mutabilidade deste estado mortal. ...
Permanecerá eternamente diante da face de Deus (v. 7); segundo quê, ou por causa de quê? "Quem buscará por Ele Sua misericórdia e verdade?" Diz também noutro lugar: "Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade, para os que buscam Seu testamento e Seus testemunhos." Vasto é o discurso sobre a verdade e a misericórdia, mas brevidade prometemos. Ouvi brevemente o que é verdade e misericórdia: porque não é pouca coisa o que foi dito: "Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade." Fala-se de misericórdia, porque Deus não atentou aos nossos méritos, mas à Sua própria bondade, a fim de nos perdoar todos os pecados, e prometer-nos a vida eterna: mas fala-se de verdade, porque Ele não falha em cumprir aquilo que prometeu. Reconheçamo-lo aqui, e façamo-lo; de modo que, assim como para nós Deus manifestou Sua misericórdia e Sua verdade, misericórdia em perdoar nossos pecados, verdade em manifestar Suas promessas; assim também, digo, exerçamos misericórdia e verdade, misericórdia para com os fracos, para com os necessitados, para com os próprios inimigos; verdade em não pecar, e em não acrescentar pecado sobre pecado. ...Quem é, pois, aquele que faz isto, senão algum daqueles poucos de quem se diz: "Aquele que houver perseverado até o fim, esse será salvo"? Com razão também aqui: "Quem buscará por Ele Sua misericórdia e verdade?" Por que "por Ele"? "Quem buscará" bastaria. Por que acrescentou "por Ele", senão porque muitos homens buscam conhecer Sua misericórdia e verdade em Seus livros? E, quando as aprendem, vivem para si mesmos, não para Ele; buscam as coisas que são suas, não as coisas que são de Jesus Cristo: pregam a misericórdia e a verdade, e não fazem misericórdia e verdade. Mas, pregando-a, conhecem-na: pois não a pregariam, se não a conhecessem. Mas aquele que ama a Deus e a Cristo, ao pregar a misericórdia e a verdade Dele, ele mesmo a busca por Ele, não por si mesmo: isto é, não para que ele mesmo tenha, por essa pregação, vantagens temporais, mas para que faça bem aos Seus membros, isto é, aos Seus fiéis, ministrando com verdade aquilo que conhece: a fim de que aquele que vive não viva mais para si, mas para Aquele que por todos morreu.
Assim tocarei música ao Teu nome, para que eu cumpra meus votos de dia em dia (v. 8). Se tocas música ao nome de Deus, não toques por um tempo. Tocarás para sempre? Tocarás eternamente? Cumpre-Lhe os teus votos de dia em dia. Que é: cumpre-Lhe os teus votos de dia em dia? Deste dia até aquele dia. Continua a cumprir votos neste dia, até que chegues àquele dia: isto é: "Aquele que houver perseverado até o fim, esse será salvo."
O título dele é: "Até o fim, em favor de Iditum, um Salmo do próprio David." Recordo-me de que já vos foi explicado quem é Iditum. ...Vejamos até onde ele saltou, e a quem ele "saltou por cima," e em que lugar, ainda que tenha saltado por cima de certos homens, está ele situado, donde, como de uma espécie de posição espiritual e segura, possa contemplar o que está abaixo. ...Ele, posto, digo eu, num certo lugar fortificado, diz: "Não estará minha alma sujeita a Deus?" (v. 1). Pois havia ouvido: "Aquele que se exalta será humilhado; e aquele que se humilha será exaltado": e, receoso de que, ao saltar por cima, se tornasse soberbo, não elevado por aquelas coisas que estavam abaixo, mas humilde por causa Daquele que estava acima; aos homens invejosos, como que ameaçando-o de queda, que se afligiam por ele ter saltado por cima, respondeu ele: "Não estará minha alma sujeita a Deus?" ..."Pois d'Ele mesmo é a minha salvação." "Pois Ele mesmo é meu Deus e tua salvação, meu amparo, não serei mais abalado" (v. 2). Sei quem está acima de mim, sei quem estende Sua misericórdia aos que O conhecem, sei sob a cobertura de cujas asas devo esperar: "Não serei mais abalado." ...
Portanto, do lugar mais alto, fortificado e protegido, aquele para quem o Senhor se fez refúgio, aquele para quem o próprio Deus é lugar fortificado, atenta para aqueles a quem saltou por cima, e, olhando-os de cima, fala como que de uma torre elevada: pois também isto foi dito Dele: "Torre de fortaleza diante da face do inimigo": atenta, pois, para eles, e diz: "Até quando carregareis sobre um homem?" (v. 3). Insultando, lançando injúrias, armando ciladas, perseguindo, carregais sobre um homem fardos, carregais sobre um homem quanto um homem pode suportar: mas, para que um homem suporte, está debaixo dele Aquele que fez o homem. Se a um homem olhais, "matai-o, todos vós." Eis que carregai, enfurecei-vos, "matai-o, todos vós." "Como a um muro inclinado, e a uma cerca abalada"; encostai-vos, golpeai, como que para derrubar. E onde está: "Não serei mais abalado"? Mas por quê? "Não serei mais abalado." Porque Ele mesmo é Deus meu Salvador, meu amparo, portanto vós, homens, podeis carregar fardos sobre um homem; podeis, de algum modo, carregar sobre Deus, que protege o homem? "Matai-o, todos vós." Que tamanho de corpo há num só homem, tão grande, que possa ser morto por todos? Mas devemos perceber nossa pessoa, a pessoa da Igreja, a pessoa do Corpo de Cristo. Pois um só Homem, com Sua Cabeça e Corpo, é Jesus Cristo, o Salvador do Corpo e dos Membros do Corpo: dois numa só Carne, e numa só voz, e numa só paixão, e, quando a iniquidade houver passado, num só repouso. As paixões, pois, de Cristo não estão somente em Cristo; antes, não há nenhuma senão em Cristo. Pois, se por Cristo entendes a Cabeça e o Corpo, as paixões de Cristo não estão senão em Cristo: mas, se por Cristo entendes somente a Cabeça, as paixões de Cristo não estão somente em Cristo. Pois, se as paixões de Cristo estão somente em Cristo, a saber, somente na Cabeça; donde diz um certo membro Seu, Paulo Apóstolo: "Para que eu complete o que falta das aflições de Cristo em minha carne"? Se, pois, tu és dos membros de Cristo, seja quem fores, homem, que ouves estas palavras, quem quer que sejas que ouves estas palavras (mas, todavia, tu ouves, se estás nos membros de Cristo): tudo o que sofreres daqueles que não estão nos membros de Cristo, faltava às paixões de Cristo. Por isso se acrescenta, porque faltava: tu enches a medida, não a fazes transbordar: sofres tanto quanto havia de ser contribuído de teus sofrimentos para todo o sofrimento de Cristo, que sofreu em nossa Cabeça, e sofre em Seus membros, isto é, em nós mesmos. A esta nossa república comum, como que cada um de nós, segundo nossa medida, paga o que devemos, e, segundo as forças que temos, como que uma quota de sofrimentos contribuímos. O tesouro dos sofrimentos de todos os homens não estará completamente formado, senão quando o mundo tiver findado. ...Toda aquela Cidade, pois, está falando, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias. Dali também, doravante, desde o sangue de João, através do sangue dos Apóstolos, através do sangue dos Mártires, através do sangue dos fiéis de Cristo, uma só Cidade fala, um só homem diz: "Até quando carregareis sobre um homem? Matai-o, todos vós." Vejamos se apagais, vejamos se extinguis, vejamos se removeis da terra o nome dela, vejamos se vós, povos, não meditais coisas vãs, dizendo: "Quando morrerá Ela, e quando perecerá o nome Dela?" "Como se Ela fosse um muro inclinado, e uma cerca abalada," encostai-vos a Ela, golpeai-A. Ouvi do alto: "Meu amparo, não serei mais abalado": pois, como um monte de areia, fui golpeado para que eu caísse, e o Senhor me tomou consigo.
3. "Contudo, pensaram em repelir a minha honra" (v. 4). Vencidos enquanto matam homens que cedem, pelo sangue dos mortos multiplicando os fiéis, cedendo a estes e já não podendo matar; "contudo, pensaram em repelir a minha honra." Ora, porque um cristão não pode ser morto, esforçam-se para que um cristão seja desonrado. Pois agora, pela honra dos cristãos, são atormentados os corações dos ímpios: agora aquele José espiritual, depois de vendido por seus irmãos, depois de removido de sua casa para o Egito como que para os gentios, depois da humilhação de um cárcere, depois da história forjada de uma falsa testemunha, depois que se cumpriu o que dele fora dito, "o ferro traspassou-lhe a alma": agora é honrado, agora não está sujeito aos irmãos que o venderam, mas fornece trigo aos que têm fome. Vencido pela sua humildade e castidade, incorruptibilidade, tentações, sofrimentos, agora o veem honrado, e pensam em coibir a sua honra. ...É tudo contra um só homem, ou um só homem contra todos; ou todos contra todos, ou um contra um? Entretanto, quando diz "vós vos lançais sobre um homem", é como que sobre um só homem: e quando diz "matai-o todos vós", é como se todos os homens estivessem contra um só homem: mas, contudo, é também todos contra todos, porque também todos são cristãos, mas em Um só. Mas por que devem ser ditos como todos juntos aqueles diversos erros hostis a Cristo? São eles também um só? Verdadeiramente, também a eles ouso chamar de um só: porque há uma só Cidade e uma só cidade, um só Povo e um só povo, um Rei e um rei. Que é essa Cidade e essa cidade, uma e outra? Babilônia é uma, Jerusalém é outra. Por quaisquer outros nomes místicos que sejam chamadas, contudo há uma só Cidade e uma só cidade; sobre esta reina o diabo, sobre aquela reina Cristo. ...
4. Atendei, irmãos, atendei, eu vos suplico. Pois me apraz ainda dizer-vos algumas palavras acerca desta amada Cidade. Pois "coisas gloriosíssimas foram ditas de ti, Cidade de Deus." E, "se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha destra." Pois cara é a única Pátria, e verdadeiramente uma só Pátria, a única Pátria: além Dela, o que quer que tenhamos é uma peregrinação em terra estranha. Direi, pois, aquilo que podeis reconhecer, aquilo de que podeis aprovar: trarei à vossa mente aquilo que sabeis, não ensinarei aquilo que não sabeis. "Não primeiro", diz o Apóstolo, "o que é espiritual, mas o que é natural, depois o que é espiritual." Portanto, a primeira cidade é maior em idade, porque primeiro nasceu Caim, e depois Abel: mas nestes o mais velho servirá ao mais moço. A primeira, maior em idade; a segunda, maior em dignidade. Por que é a primeira maior em idade? Porque "não primeiro o que é espiritual, mas o que é natural." Por que é a segunda maior em dignidade? Porque "o mais velho servirá ao mais moço." ...Caim primeiro edificou uma cidade, e naquele lugar edificou onde não havia cidade. Mas quando Jerusalém estava sendo edificada, não foi edificada em lugar onde não havia cidade, mas havia ali de início uma cidade chamada Jebus, donde os jebuseus. Capturada esta, vencida, sujeitada, edificou-se uma cidade nova, como se a antiga fosse derrubada; e foi chamada Jerusalém, visão de paz, Cidade de Deus. Cada um, pois, que nasce de Adão, ainda não pertence a Jerusalém: pois traz consigo o rebento da iniquidade e a pena do pecado, tendo sido consignado à morte, e pertence de certo modo a uma espécie de cidade antiga. Mas se há de estar no povo de Deus, o seu homem velho será derrubado, e ele será edificado de novo. Por esta razão, pois, Caim edificou uma cidade onde não havia cidade. Pois da mortalidade e da maldade cada um parte, a fim de que depois se torne bom. "Pois assim como pela desobediência de um homem muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de Um só Homem muitos serão feitos justos." E todos nós em Adão morremos: e cada um de nós nasceu de Adão. Que ele passe a Jerusalém, será derrubado velho, e será edificado novo. Como que aos jebuseus vencidos, para que se edifique Jerusalém, é dito: "Despojai-vos do velho homem, e revesti-vos do novo." E agora, aos edificados em Jerusalém, e que resplandecem à luz da Graça, é dito: "Fostes outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor." A cidade má, pois, corre desde o princípio até o fim, e a boa Cidade se edifica pela mudança dos maus homens. E estas duas cidades estão entretanto misturadas, para ao fim serem separadas; combatendo mutuamente uma contra a outra, uma pela iniquidade, a outra pela verdade. E às vezes esta própria mistura temporal faz com que certos homens pertencentes à cidade de Babilônia disponham as coisas pertencentes a Jerusalém, e novamente certos homens pertencentes a Jerusalém disponham as coisas pertencentes a Babilônia. Algo difícil pareço ter proposto. Sede pacientes, até que se prove por exemplos. "Pois todas as coisas" no antigo povo, como escreve o Apóstolo, "lhes sucediam em figura: mas foram escritas para nossa correção, sobre quem chegou o fim dos séculos." Considerai, pois, aquele povo também posto para significar um povo posterior; e vede então o que digo. Havia grandes reis em Jerusalém: é fato conhecido, são enumerados, são nomeados. Todos eles eram, digo, ímpios cidadãos de Babilônia, e dispunham as coisas de Jerusalém: todos os que dali hão de ser separados ao fim não pertencem senão ao diabo. Novamente encontramos cidadãos de Jerusalém que dispuseram certas coisas pertencentes a Babilônia. Pois aqueles três meninos, Nabucodonosor, vencido por um milagre, os fez ministros de seu reino, e os pôs sobre os seus sátrapas; e assim havia cidadãos de Jerusalém dispondo as coisas de Babilônia. Observai agora como isto se cumpre e se realiza na Igreja, e nestes tempos. ...Toda república terrena, algum dia certamente [truncado]
7. Que fazes Tu, ó Iditum, Corpo de Cristo, saltando sobre eles? Que fazes Tu em meio a todas estas coisas? Que quererás? Desfalecerás? Não perseverarás até o fim? Não ouvirás: "quem tiver perseverado até o fim, esse será salvo", ainda que, por abundar a iniquidade, o amor de muitos se esfrie? E onde é que Tu saltaste sobre elas? Onde é que a tua conversação está nos Céus? Mas eles se apegam às coisas terrenas, como que nascidos da terra pensam na terra, e são terra, alimento da serpente. Que fazes tu em meio a estas coisas? ..."Contudo, a Deus será sujeita a minha alma" (v. 5). E quem suportaria tão grandes coisas, quer guerras abertas, quer ciladas secretas? Quem suportaria tão grandes coisas em meio a inimigos declarados, em meio a falsos irmãos? Quem suportaria tão grandes coisas? Acaso um homem? E se um homem o fizesse, faria por si mesmo? Não saltei sobre elas de tal modo que eu me exaltasse e caísse: "A Deus será sujeita a minha alma: pois dEle mesmo vem a minha paciência." Que paciência há em meio a tão grandes escândalos, senão que "se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos"? Ali vem a minha dor, ali virá também o meu descanso; ali vem a minha tribulação, ali virá também a minha purificação. Pois acaso o ouro reluz na fornalha do refinador? No colar reluzirá, no ornamento reluzirá: sofra, porém, a fornalha, a fim de que, purificado da escória, venha à luz. Esta é a fornalha, ali está a palha, ali o ouro, ali o fogo, nesta sopra o refinador: na fornalha arde a palha, e o ouro se purifica; uma se converte em cinzas, o outro se purifica da escória. A fornalha é o mundo, a palha os homens injustos, o ouro os homens justos; o fogo é a tribulação, o refinador é Deus: aquilo, pois, que o refinador quer, eu faço; onde quer que o Criador me ponha, eu suporto. Sou mandado suportar, Ele sabe como purificar. Ainda que a palha arda para me incendiar, e como que para me consumir; aquela se reduz a cinzas, eu me purifico da escória. Por quê? Porque "a Deus será sujeita a minha alma: pois dEle mesmo vem a minha paciência."
8. "Pois Ele mesmo é o meu Deus e o meu Salvador, o meu Amparo, não me removerei daqui" (v. 6). Porque "Ele mesmo é o meu Deus", por isso Ele me chama: "e o meu Salvador", por isso Ele me justifica: "e o meu Amparo", por isso Ele me glorifica. Pois aqui sou chamado e sou justificado, mas ali serei glorificado; e daquele lugar onde sou glorificado, "não me removerei." Pois peregrino sou contigo na terra, como o foram todos os meus pais. Portanto, da minha estada me removerei; da minha morada celestial não me removerei. "Em Deus está a minha salvação e a minha glória" (v. 7). Salvo serei em Deus, glorioso serei em Deus: pois não somente salvo, mas também glorioso; salvo, porque de ímpio fui feito justo, por Ele justificado; mas glorioso, porque não somente justificado, mas também honrado. Pois "aos que Ele predestinou, a esses também chamou." Chamando-os, que fez Ele aqui? "Aos que chamou, a esses também justificou; mas aos que justificou, a esses também glorificou." A justificação, pois, pertence à salvação, a glorificação pertence à honra. Como a glorificação pertence à honra, não é preciso discutir. Como a justificação pertence à salvação, busquemos alguma prova. Eis que vem à mente algo do Evangelho: havia alguns que a si mesmos pareciam ser homens justos, e censuravam o Senhor porque admitia ao banquete pecadores, e comia com publicanos e pecadores; a tais homens, pois, que se orgulhavam, homens fortes da terra muito exaltados, muito se gloriando da própria sanidade, tal como a contavam, não tal como a tinham, o Senhor respondeu o quê? "Os sãos não precisam de médico, mas os que estão enfermos." A quem chama são, a quem chama enfermo? Continua e diz: "Não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento." Chamou, pois, "sãos" os justos, não porque os fariseus o fossem, mas porque a si mesmos assim se julgavam; e por isso eram soberbos, e invejavam aos enfermos o médico, e, mais enfermos que aqueles, mataram o Médico. Chamou, porém, sãos os justos, enfermos os pecadores. O meu ser justificado, pois, diz aquele que salta por cima, dEle mesmo o tenho: o meu ser glorificado, dEle mesmo o tenho: "Pois Deus é a minha salvação e a minha glória." "A minha salvação", de modo que sou salvo: "a minha glória", de modo que sou honrado. Isto ainda há de vir: agora o quê? "Deus do meu socorro, e a minha esperança está em Deus"; até que eu alcance a perfeita justificação e salvação. "Pois pela esperança somos salvos: mas a esperança que se vê, não é esperança." ...
9. "Esperai nEle, todo o conselho do povo" (v. 8). Imitai a Iditum, saltai sobre os vossos inimigos; homens que combatem contra vós, que obstruem o vosso caminho, homens que vos odeiam, saltai sobre eles: "Esperai nEle, todo o conselho do povo: derramai diante dEle os vossos corações:" ...Implorando, confessando, esperando. Não retenhais os vossos corações dentro dos vossos corações: "Derramai diante dEle os vossos corações." Não perece o que derramais. Pois Ele é o meu Amparo. Se Ele ampara, por que temes derramar? "Lança sobre o Senhor o teu cuidado, e espera nEle." Que temeis em meio aos murmuradores, caluniadores odiosos a Deus, onde, podendo, vos atacam abertamente, onde, não podendo, vos armam ciladas secretamente, falsamente louvando, verdadeiramente inimigos, em meio a eles que temeis? "Deus é o nosso Ajudador." Igualam-se eles em algo a Deus? São eles em algo mais fortes que Ele? "Deus é o nosso Ajudador", ficai sem cuidado. "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" "Derramai diante dEle os vossos corações", saltando para Ele, erguendo as vossas almas: "Deus é o nosso ajudador." ..."Contudo, vãos são os filhos dos homens, e mentirosos são os filhos dos homens nas balanças, para que enganem, sendo unânimes por causa da vaidade" (v. 9). Certamente há muitos homens: eis que há aquele um homem, aquele um homem que foi lançado fora da multidão de convidados. Conspiram, todos buscam as coisas temporais, e os que são carnais buscam coisas carnais, e para o futuro as esperam, quaisquer que esperem: mesmo que, por causa da diversidade de opiniões, estejam em divisão, contudo, por causa da vaidade, são unânimes. Diversos são, na verdade, os erros e de muitas formas, e o reino dividido contra si mesmo não subsistirá: mas semelhante em todos é a vontade vã e mentirosa, pertencente a um só rei, com quem no fogo eterno há de ser lançado de cabeça — "estes homens, por causa da vaidade, são unânimes." E por eles, vede como Ele tem sede, vede como Ele corre com sede.
10. Volta-se, pois, Ele para eles, com sede deles: "Não espereis na iniquidade" (v. 10). Pois a minha esperança está em Deus. Vós que não quereis aproximar-vos e passar, "não espereis na iniquidade." Pois eu, que saltei por cima, a minha esperança está em Deus; e há acaso alguma iniquidade com Deus? Façamos isto, façamos aquilo, pensemos naquilo, assim ajustemos as nossas ciladas; "por causa da vaidade sendo unânimes." Tens sede: os que pensam essas coisas contra ti são entregues por aqueles a quem bebes, "não espereis na vaidade." Vã é a iniquidade, nada é a iniquidade, poderosa não é senão a justiça. A verdade pode ocultar-se por algum tempo, vencida não pode ser. A iniquidade pode florescer por algum tempo, permanecer não pode. "Não espereis sobre a iniquidade: e para a rapina não sejais cobiçosos." Tu não és rico, e roubarás? Que achas? Que perdes? Ó lucro que é perda! Achas dinheiro, perdes a justiça. "Para a rapina não sejais cobiçosos." ...Portanto, vãos filhos dos homens, mentirosos filhos dos homens, nem roubeis, nem, se as riquezas fluírem, ponhais nelas o coração: já não ameis a vaidade, e não busqueis a mentira. Pois "bem-aventurado o homem que tem o Senhor Deus por sua esperança, e que não teve respeito às vaidades, e às loucuras mentirosas." Quereríeis enganar, quereríeis cometer uma fraude, que trazeis para poder trapacear? Balanças enganosas. Pois "mentirosos", diz ele, "são os filhos dos homens nas balanças", para que trapaceiem trazendo balanças enganosas. Por uma balança falsa iludis os homens que olham: não sabeis que um é aquele que pesa, Outro é Aquele que julga do peso? Ele não vê aquele para quem pesas, mas vê Aquele que te pesa, a ti e a ele. Portanto, nem a fraude nem a rapina cobiceis mais, nem naquelas coisas em que pusestes a vossa esperança: adverti, predisse, diz este Iditum.
11. Que se segue? "Uma vez falou Deus, estas duas coisas ouvi, que o poder é de Deus" (v. 11), "e a Ti, ó Senhor, pertence a misericórdia, pois Tu hás de retribuir a cada um segundo as suas obras" (v. 12). ..."Uma vez falou Deus." Que dizes, ó Iditum? Se tu, que saltaste sobre elas, dizes: "uma vez falou Ele"; volto-me para outra Escritura, e ela me diz: "Em muitas ocasiões e de muitos modos falou Deus antigamente aos pais pelos profetas." Que é: "Uma vez falou Deus"? Não é Ele o Deus que no princípio da humanidade falou a Adão? Não falou o Mesmo a Caim, a Noé, a Abraão, a Isaque, a Jacó, a todos os Profetas, e a Moisés? Um só homem era Moisés, e quantas vezes lhe falou Deus? Eis que mesmo a um só homem, não uma vez, mas muitas vezes falou Deus. Em segundo lugar, falou ao Filho quando aqui presente: "Tu és o Meu Filho amado." Deus falou aos Apóstolos, falou a todos os Santos, ainda que não com voz ressoando através da nuvem, contudo no coração onde Ele mesmo é Mestre. Que é, pois, "uma vez falou Deus"? Muito saltou aquele homem para chegar àquele lugar onde uma vez falou Deus. Eis que brevemente falei à vossa Caridade. Aqui, entre os homens, aos homens, muitas vezes, de muitos modos, em muitas ocasiões, através de criaturas de muitas formas falou Deus: por Si mesmo, uma vez falou Deus, porque um só Verbo Deus gerou. ...Pois não poderia ser senão que Deus mesmo conhecesse aquilo que pelo Verbo fez: mas se aquilo que fez Ele conhecia, nEle estava aquilo que foi feito antes que fosse feito. Pois se nEle não estava aquilo que foi feito antes que fosse feito, como conheceu Ele aquilo que fez? Pois não podes dizer que Deus fez coisas que não conhecia. Deus, pois, conheceu aquilo que fez. E como conheceu antes de fazer, se nada pode ser conhecido senão as coisas feitas? Mas pelas coisas feitas não se pode conhecer senão as coisas antes feitas, por ti, a saber, que és homem feito em lugar inferior, e posto em lugar inferior: mas antes que todas estas coisas fossem feitas, eram conhecidas por Aquele por quem foram feitas, e aquilo que Ele conhecia, fazia. Portanto, naquele Verbo pelo qual fez todas as coisas, antes que fossem feitas, estavam todas as coisas; e depois de feitas, são todas as coisas; mas de um modo ali, de outro modo aqui — de um modo na própria natureza em que foram feitas, de outro modo na arte pela qual foram feitas. Quem poderia explicar isto? Podemos tentar: ide com Iditum, e vede.
12. ...Pois até o Senhor diz: "Muitas coisas tenho a dizer-vos, mas não podeis suportá-las agora." Que é, pois, "estas duas coisas eu ouvi"? Estas duas coisas que estou para vos dizer, não de mim mesmo vo-las digo, mas o que ouvi, digo. "Uma vez falou Deus": um só Verbo tem Ele, o Unigênito Deus. Nesse Verbo estão todas as coisas, porque pelo Verbo foram feitas todas as coisas. Um só Verbo tem Ele, "no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento." Um só Verbo tem Ele, "uma vez falou Deus." "Estas duas coisas", que estou para vos dizer, estas eu ouvi: não de mim mesmo falo, não de mim mesmo digo: a isto pertence o "eu ouvi." Mas o amigo do Esposo está de pé e O ouve, para que fale a verdade. Pois O ouve, para que, falando mentira, não fale de si mesmo: para que não digas: quem és tu que me dizes isto? Donde me dizes isto? Ouvi estas duas coisas, e eu, que te digo que ouvi estas duas coisas, sou um que também sabe que uma vez falou Deus. Não desprezeis um ouvinte que vos diz certas duas coisas tão necessárias para vós; a ele, digo, que, saltando sobre toda a criação, alcançou o Verbo Unigênito de Deus, onde aprendeu que "uma vez falou Deus."
13. Diga ele, pois, agora certas duas coisas. Pois grandemente nos pertencem estas duas coisas. "Pois o poder é de Deus, e a Ti, ó Senhor, pertence a misericórdia." São estas as duas coisas, poder e misericórdia? Estas duas, evidentemente: percebei vós o poder de Deus, percebei vós a misericórdia de Deus. Nestas duas coisas contêm-se quase todas as Escrituras. Por causa destas duas coisas existem os Profetas, por causa destas duas, os Patriarcas, por causa destas a Lei, por causa destas o próprio Senhor nosso Jesus Cristo, por causa destas os Apóstolos, por causa destas toda a pregação e propagação da palavra de Deus na Igreja, por causa destas duas, por causa do poder de Deus e da Sua misericórdia. O Seu poder temei, a Sua misericórdia amai. Nem confieis tanto na Sua misericórdia que desprezeis o Seu poder: nem temais tanto o poder que desespereis da misericórdia. Com Ele está o poder, com Ele a misericórdia. A este humilha, e a esse exalta: a este humilha com poder, a esse exalta em misericórdia. "Pois se Deus, querendo mostrar a ira e provar o Seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, aperfeiçoados para a perdição" — ouviste do poder: buscai a misericórdia — "e para que desse a conhecer", diz Ele, "as Suas riquezas aos vasos de misericórdia." Pertence, pois, ao Seu poder condenar os homens injustos. E a Quem diria: que fizeste? "Pois tu, ó homem, quem és tu que respondas a Deus?" Temei, pois, e tremei diante do Seu poder: mas esperai na Sua misericórdia. O diabo é uma espécie de poder; muitas vezes, porém, quer ferir e não pode, porque esse poder está sob poder. Pois se o diabo pudesse ferir tanto quanto quisesse, nenhum dos justos permaneceria, nem poderia nenhum dos fiéis estar sobre a terra. O mesmo, por meio dos seus vasos, golpeia como que um muro já inclinado: mas apenas golpeia, na medida em que recebe poder. Mas para que o muro não caia, o Senhor o sustentará: pois Aquele que dá poder ao tentador, ao tentado estende a Sua misericórdia. Pois segundo a medida é permitido ao diabo tentar. E: "Tu nos darás a beber em lágrimas, com medida." Não temais, pois, ao tenta[truncado]
2. "Deus, meu Deus, para Ti, desde a aurora, eu vigio" (v. 1). Que é vigiar? É não dormir. Que é dormir? Há um sono da alma; há um sono do corpo. O sono do corpo todos devemos ter: porque, se o sono do corpo não é tomado, o homem desfalece, o próprio corpo desfalece. Pois o nosso corpo frágil não pode sustentar por longo tempo uma alma vigilante e tensa em obras ativas; se por longo tempo a alma estiver intenta nas ocupações ativas, o corpo, sendo frágil e terreno, não a retém, não a sustenta para sempre em atividade, e desfalece e cai. Por isso, Deus concedeu o sono ao corpo, pelo qual se restauram os membros do corpo, a fim de que possam sustentar a alma vigilante. Mas quanto a isto tenhamos cuidado, a saber, que a nossa própria alma não durma: pois mau é o sono da alma. Bom é o sono do corpo, pelo qual se restaura a saúde do corpo. Mas o sono da alma é esquecer-se do seu Deus. Toda alma que se tiver esquecido do seu Deus, dorme. Por isso o Apóstolo diz a certas pessoas que se esqueceram do seu Deus, e estando como que em sono, praticavam as loucuras do culto aos ídolos — o Apóstolo, digo, diz a certas pessoas: "Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará." Estava o Apóstolo despertando alguém que dormia no corpo? De modo algum, mas despertava uma alma adormecida, visto que a despertava para que fosse iluminada por Cristo. Por isso, quanto a estas mesmas vigílias, diz este homem: "Deus, meu Deus, para Ti, desde a aurora, eu vigio." Pois tu não vigiarias de ti mesmo, se não se levantasse a tua Luz, para despertar-te do sono. Pois Cristo ilumina as almas, e as faz vigiar: mas se retira a Sua luz, elas adormecem. Por esta razão, a Ele se diz em outro salmo: "Ilumina os meus olhos, para que eu nunca adormeça na morte." ...
1. Este salmo tem por título: "Do próprio Davi, quando estava no deserto de Idumeia." Pelo nome de Idumeia entende-se este mundo. Pois Idumeia era certa nação de homens errantes, onde se adoravam ídolos. Não em bom sentido se põe esta Idumeia. Se não em bom sentido se põe, deve entender-se que esta vida, na qual sofremos tão grandes fadigas, e na qual a tão grandes necessidades somos submetidos, pelo nome de Idumeia é significada. Também aqui há um deserto onde há muita sede, e haveis de ouvir a voz de Alguém que agora tem sede no deserto. Mas se reconhecemos que temos sede, reconheceremos também que beberemos. Pois aquele que tem sede neste mundo, no mundo por vir será saciado, segundo a palavra do Senhor: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados." Portanto, neste mundo não devemos amar a fartura. Aqui devemos ter sede, noutro lugar seremos saciados. Mas agora, para que não desfaleçamos neste deserto, Ele aspersa sobre nós o orvalho de Sua palavra, e não nos deixa secar por completo, para que não haja em nosso caso uma busca de nós outra vez, mas para que tenhamos sede de tal modo que possamos beber. Mas para que bebamos, com algo de Sua Graça somos aspergidos; contudo, temos sede. E que diz nossa alma a Deus?
3. "Minha alma teve sede de Ti" (v. 2). Vede este deserto de Idumeia. Vede como aqui ele tem sede; mas vede que bem há aqui: "Teve sede de Ti." Pois há os que têm sede, mas não de Deus. Pois todo aquele que quer que lhe seja concedido algo, está no ardor do anelo; o próprio anelo é a sede da alma. E vede quantos anelos há nos corações dos homens: um anela ouro, outro anela prata, outro anela posses, outro herança, outro abundância de dinheiro, outro muitos rebanhos, outro uma esposa, outro honrarias, outro filhos. Vedes esses anelos, como estão nos corações dos homens. Todos os homens estão inflamados de anelo, e apenas se encontra alguém que diga: "Minha alma teve sede de Ti." Pois os homens têm sede do mundo, e não percebem que estão no deserto de Idumeia, onde suas almas deveriam ter sede de Deus. ...
4. Portanto, deve-se ter sede da sabedoria, deve-se ter sede da justiça. Com ela não seremos saciados, com ela não seremos fartos, senão quando esta vida tiver acabado, e tivermos chegado àquilo que Deus prometeu. Pois Deus prometeu igualdade com os Anjos; e agora os Anjos não têm sede como nós, não têm fome como nós; mas eles têm a plenitude da verdade, da luz, da imortal sabedoria. Portanto, bem-aventurados são eles, e a partir de tão grande bem-aventurança, porque estão naquela Cidade, a Jerusalém Celeste, longe de onde agora peregrinamos em terra estranha, eles observam a nós, peregrinos, e têm piedade de nós, e por mandado do Senhor nos ajudam, para que a esta pátria comum algum dia retornemos, e ali com eles algum dia com a fonte de verdade e eternidade do Senhor sejamos saciados. Agora, pois, que nossa alma tenha sede: donde também nossa carne tem sede, e isto de muitos modos? "De muitos modos por Ti," diz ele, "também minha carne." Porque à nossa carne também é prometida a Ressurreição. Assim como à nossa alma é prometida a bem-aventurança, assim também à nossa carne é prometida a ressurreição. ... Pois se Deus nos fez que não éramos, é coisa grande para Ele refazer-nos que fomos? Portanto, não vos pareça isto incrível, porque vedes os homens mortos como que apodrecendo, e passando a cinzas e a pó. Ou se algum morto for queimado, ou se os cães o despedaçarem, pensais que por isso ele não ressuscitará? Todas as coisas que se desmembram, e em uma espécie de pó se desfazem, estão íntegras diante de Deus. Pois passam para aqueles elementos do mundo, de onde primeiramente vieram, quando fomos feitos: não os vemos; mas contudo Deus os trará à luz, Ele sabe donde, porque mesmo antes de sermos, Ele nos criou de onde soube. Tal ressurreição da carne, pois, nos é prometida, que, ainda que seja a mesma carne que agora trazemos que há de ressuscitar, contudo não terá a corrupção que agora tem. Pois agora, por causa da corrupção da fragilidade, se não comemos, desfalecemos e temos fome; se não bebemos, desfalecemos e temos sede; se por muito tempo velamos, desfalecemos e dormimos; se por muito tempo dormimos, desfalecemos, e por isso velamos. ... Em segundo lugar, vede como sem nenhuma estabilidade é nossa carne: pois a infância passa para a puerícia, e buscas a infância, e a infância não existe, pois agora em vez da infância há puerícia; e esta mesma também passa para a juventude, buscas a puerícia e não a encontras; o jovem torna-se homem de meia-idade, buscas o jovem e ele não existe; o homem de meia-idade torna-se ancião, buscas o homem de meia-idade e não o encontras; e o ancião morre, buscas o ancião e não o encontras: nossa idade, pois, não permanece estável; em toda parte há cansaço, em toda parte desfalecimento, em toda parte corrupção. Observando que esperança de ressurreição Deus nos promete, em todos esses nossos múltiplos desfalecimentos temos sede daquela incorrupção; e assim nossa carne de múltiplos modos tem sede de Deus.
5. Contudo, meus irmãos, a carne de um bom cristão e crente, mesmo neste mundo, tem sede de Deus: pois se a carne tem necessidade de pão, se tem necessidade de água, se tem necessidade de vinho, se tem necessidade de dinheiro, se esta carne tem necessidade de um animal, de Deus deve buscá-lo, não dos demônios e ídolos e não sei que potências deste mundo. Pois há alguns que, quando sofrem fome neste mundo, deixam Deus e pedem a Mercúrio ou pedem a Júpiter que lhes deem, ou àquela a quem chamam "Celeste," ou a quaisquer outros demônios semelhantes: não por Deus tem sede a carne deles. Mas os que têm sede de Deus, em toda parte devem ter sede Dele, tanto a alma como a carne: pois também à alma Deus dá o Seu pão, que é o Verbo da Verdade; e à carne Deus dá as coisas que são necessárias, pois Deus fez tanto a alma como a carne. Por causa de tua carne pedes aos demônios: acaso Deus fez a alma, e os demônios fizeram a carne? Aquele que fez a alma, o Mesmo fez também a carne; Aquele que fez ambas, o Mesmo alimenta ambas. Que cada uma das nossas partes tenha sede de Deus, e depois de múltiplo labor cada uma simplesmente seja saciada.
6. Mas onde tem sede nossa alma, e nossa carne de múltiplos modos, não de qualquer coisa, mas de Ti, ó Senhor, isto é, de nosso Deus tem sede, onde? "Em terra deserta, e sem caminho, e sem água." Deste mundo temos falado, este é a Idumeia, este é o deserto da Idumeia, de onde o Salmo recebeu seu título. "Em terra deserta." Pouco é dizer "deserta," onde nenhum homem habita; é além disso, tanto "sem caminho, como sem água." Oxalá esse mesmo deserto tivesse ao menos um caminho! Oxalá, correndo nele, o homem soubesse ao menos por onde poderia sair! ... Mau é o deserto, horrível, e temível; e contudo Deus se apiedou de nós, e nos fez um caminho no deserto, Ele mesmo nosso Senhor Jesus Cristo; e nos fez uma consolação no deserto, enviando-nos pregadores de Sua Palavra; e nos deu água no deserto, enchendo com o Espírito Santo os Seus pregadores, para que se criasse ali...
7. "Assim em lugar santo Te apareci, para que visse Teu poder e Tua glória" (v. 3). ... A menos que primeiro o homem tenha sede naquele deserto, isto é, no mal em que se encontra, jamais chega ao bem, que é Deus. Mas "Te apareci," diz ele, "em lugar santo." Ora, em lugar santo há grande consolação. "Te apareci," o que significa? Para que Tu me visses; e por esta razão me viste, para que eu Te visse. "Te apareci, para que eu visse." Não disse ele: "Te apareci, para que Tu visses"; mas: "Te apareci, para que eu visse Teu poder e Tua glória." Donde também o Apóstolo: "Mas agora," diz ele, "conhecendo a Deus, ou antes, tendo sido conhecidos por Deus." Primeiro apareceste a Deus, para que a ti Deus pudesse aparecer. "Para que eu visse Teu poder e Tua glória." Em verdade, naquele lugar abandonado, isto é, naquele deserto, se, como que a partir do deserto, o homem se esforça por obter o suficiente para o seu sustento, jamais verá o poder do Senhor, e a glória do Senhor, mas permanecerá para morrer de sede, e não encontrará nem caminho, nem consolação, nem água, com que possa suportar no deserto. Mas quando se tiver elevado a Deus, de modo a dizer-Lhe do fundo de todo o seu íntimo: "Minha alma teve sede de Ti; de quantos modos também minha carne!" para que porventura não peça a outros as coisas necessárias à carne, e não a Deus, ou então não anele aquela ressurreição da carne, que Deus nos prometeu: quando, digo, se tiver elevado, terá não pequenas consolações.
8. ... Mas ouvistes agora, quando se lia o Evangelho, em que termos Ele notificou Sua Majestade: "Eu e o Pai somos Um." Vede quão grande Majestade e quão grande Igualdade com o Pai desceu à carne por causa de nossa fraqueza. Vede quão grandemente fomos amados, antes que amássemos a Deus. Se antes que amássemos a Deus, tanto fomos amados por Ele, que a Seu Filho, Igual a Si mesmo, fez Homem por nossa causa, que reserva Ele agora para nós que O amamos? Por isso muitos homens julgam ser coisa muito pequena que o Filho de Deus tenha aparecido na terra; porque não estão no Santo, a eles não apareceu o poder do Mesmo e a glória do Mesmo: isto é, ainda não têm coração feito santo, donde possam perceber a eminência daquela virtude, e render graças a Deus, nem aquilo pelo qual, por causa deles, tão grande Um veio, a que nascimento, a que Paixão, não podem ver, Sua glória e Seu poder.
9. "Pois melhor é Tua misericórdia que as vidas." Muitas são as vidas dos homens, mas uma só vida Deus promete; e não a dá a nós como que por nossos méritos, mas por Sua misericórdia. ... Pois que coisa é tão justa quanto que um pecador seja punido? Ainda que seja coisa justa que um pecador seja punido, pertenceu à misericórdia d'Ele não punir o pecador, mas justificá-lo, e de um pecador fazer um homem justo, e de um ímpio fazer um piedoso. Portanto, "Sua misericórdia é melhor que as vidas." Que vidas? Aquelas que os homens escolheram para si. Um escolheu para si uma vida de negócios, outro uma vida no campo, outro uma vida de usura, outro uma vida militar; um esta, outro aquela. Diversas são as vidas, mas "melhor é Tua" vida "que" nossas "vidas." ... "Meus lábios Te louvarão." Meus lábios não Te louvariam, se antes de mim não fosse Tua misericórdia. Por Teu dom Te louvo, por Tua misericórdia Te louvo. Pois eu não poderia louvar a Deus, se Ele não me desse o poder de louvá-Lo.
10. "Assim Te bendirei em minha vida, e em Teu nome levantarei minhas mãos" (v. 5). Ora, em minha vida que Tu me deste, não naquela que escolhi segundo o mundo entre as demais, entre tantas vidas, mas naquela que Tu me deste por Tua misericórdia, para que Te louve. "Assim Te bendirei em minha vida." O que é "assim"? Que a Tua misericórdia atribua eu minha vida na qual Te louvo, não aos meus méritos. "E em Teu nome levantarei minhas mãos." Levantai, pois, as mãos em oração. Nosso Senhor levantou por nós Suas mãos na Cruz, e estendidas foram Suas mãos por nós, e por isso foram estendidas Suas mãos na Cruz, para que nossas mãos se estendessem para as boas obras: porque Sua Cruz nos trouxe a misericórdia. Vede, Ele levantou as mãos, e ofereceu por nós a Si mesmo como Sacrifício a Deus, e por meio daquele Sacrifício foram apagados todos os nossos pecados. Levantemos também nós as mãos a Deus em oração; e nossas mãos, levantadas a Deus, não serão confundidas, se forem exercitadas em boas obras. Pois que faz aquele que levanta as mãos? De onde foi ordenado que com as mãos levantadas orássemos a Deus? Pois diz o Apóstolo: "Levantando mãos puras, sem ira e sem contenda." É para que, quando levantas as mãos a Deus, te venha à mente as tuas obras. Pois, uma vez que essas mãos se levantam para que obtenhas o que queres, essas mesmas mãos deves pensar em exercitar em boas obras, para que não se envergonhem de serem levantadas a Deus. "Em Teu nome levantarei minhas mãos." Estas são nossas orações nesta Idumeia, neste deserto, nesta terra sem água e sem caminho, onde para nós Cristo é o Caminho, mas não o caminho desta terra.
11. ... Já nossos pais estão mortos, mas Deus vive: aqui não pudemos ter sempre pais, mas ali teremos sempre um Pai vivo, quando tivermos nossa pátria. ... Que espécie de pátria é essa? Mas tu amas aqui as riquezas. O próprio Deus será para ti tuas riquezas. Mas tu amas uma boa fonte. Que coisa é mais transparente que essa sabedoria? Que mais brilhante? Tudo aquilo que aqui é objeto de amor, em lugar de tudo terás Aquele que fez todas as coisas, "como que com tutano e gordura minha alma será saciada: e lábios de exultação louvarão Teu nome." Neste deserto, em Teu nome levantarei minhas mãos: que minha alma seja saciada como que com tutano e gordura, "e meus lábios com exultação louvarão Teu nome." Pois agora é tempo de oração, enquanto há sede; quando a sede tiver passado, passa a oração e sucede o louvor. "E lábios de exultação louvarão Teu nome."
12. "Se me lembrei de Ti em meu leito, nas madrugadas meditei em Ti (v. 7); porque Te fizeste meu ajudador" (v. 8). Seu "leito" ele chama de seu repouso. Quando alguém está em repouso, que se lembre de Deus; quando alguém está em repouso, que não se dissolva pelo repouso, e se esqueça de Deus: se se lembra de Deus quando está em repouso, em suas ações medita em Deus. Pois à madrugada ele chamou as ações, porque todo homem, à madrugada, começa a fazer algo. Que disse ele, pois? Se, pois, não me lembrei em meu leito, também na madrugada não meditei em Ti. Pode aquele que não pensa em Deus quando está ocioso, em suas ações pensar em Deus? Mas aquele que se lembra d'Ele quando está em repouso, no Mesmo medita quando está agindo, para que na ação não venha a faltar. Por isso acrescentou o quê? "Porque Te fizeste meu ajudador." Pois, se Deus não ajuda nossas boas obras, elas não podem ser realizadas por nós. E coisas dignas devemos trabalhar: isto é, como que na luz, já que por Cristo, mostrando o caminho, trabalhamos. Quem quer que trabalhe coisas más, na noite trabalha, não na madrugada; segundo o Apóstolo, que diz: "Os que se embriagam, de noite se embriagam; e os que dormem, de noite dormem; nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios." Ele nos exorta a que, segundo o dia, andemos honestamente: "Como no dia, honestamente andemos." E ainda: "Vós," diz ele, "sois filhos da luz, e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas." Quem são filhos da noite, e filhos das trevas? Os que trabalham todas as coisas más. A tal ponto são filhos da noite, que temem que as coisas que fazem sejam vistas. ... Ninguém, pois, trabalha na madrugada, senão aquele que trabalha em Cristo. Mas aquele que, estando ocioso, se lembra de Cristo, no Mesmo medita em todas as suas ações, e Ele lhe é ajudador na boa obra, para que por sua fraqueza não venha a falhar. "E ao abrigo de Tuas asas exultarei." Estou alegre nas boas obras, porque sobre mim está o abrigo de Tuas asas. Se Tu não me proteges, visto que sou um pintainho, o gavião me apanhará. Pois nosso próprio Senhor diz em certo lugar àquela Jerusalém, certa cidade, onde foi crucificado: "Jerusalém," diz Ele, "Jerusalém, quantas vezes quis eu reunir teus filhos, como uma galinha reúne seus pintainhos, e tu não o quiseste." Pequeninos somos: que Deus, pois, nos proteja sob a sombra de Suas asas. Que dizer quando tivermos crescido mais? Coisa boa é para nós que ainda então Ele nos proteja, de modo que, sob Ele, o maior, sempre sejamos pintainhos. Pois Ele é sempre maior, por mais que tenhamos crescido. Ninguém diga: que Ele me proteja enquanto sou pequeno, como se algum dia eu alcançasse tal grandeza, que me bastasse a mim mesmo. Sem a proteção de Deus, nada és. Sempre por Ele desejemos ser protegidos: então sempre n'Ele teremos poder para ser grandes, se sempre sob Ele formos pequenos. "E ao abrigo de Tuas asas exultarei."
14. "Mas em vão buscaram eles minha alma. Irão às partes mais baixas da terra" (v. 9). Não queriam perder a terra, quando crucificaram Cristo: às partes mais baixas da terra foram. Que são as partes mais baixas da terra? As concupiscências terrenas. Melhor é caminhar sobre a terra, do que pela concupiscência ir abaixo da terra. Pois todo aquele que, em prejuízo de sua salvação, deseja as coisas terrenas, está abaixo da terra: porque a terra pôs diante de si, a terra pôs sobre si, e a si mesmo colocou por baixo. Eles, pois, temendo perder a terra, disseram o quê acerca do Senhor Jesus Cristo, quando viram grandes multidões segui-Lo, porquanto Ele fazia coisas maravilhosas? "Se O deixarmos viver, virão os romanos, e tomarão de nós tanto o lugar quanto a nação." Temeram perder a terra, e foram abaixo da terra: aconteceu-lhes até aquilo que temiam. Pois quiseram matar a Cristo, para não perder a terra; e a terra, por isso, perderam, porque a Cristo mataram. Pois, tendo Cristo sido morto, porque o próprio Senhor lhes havia dito: "O reino vos será tirado, e será dado a uma nação que faz justiça" — seguiram-se-lhes grandes calamidades de perseguições: venceram-nos os imperadores romanos, e os reis das nações; foram excluídos daquele mesmo lugar onde crucificaram Cristo, e agora aquele lugar está cheio de louvadores cristãos: não tem judeu, foi limpo dos inimigos de Cristo, foi preenchido com os louvadores de Cristo. Vede, perderam às mãos dos romanos o lugar, porque mataram a Cristo, o qual para este fim mataram, para que não perdessem o lugar às mãos dos romanos. Por isso, "Irão às partes mais baixas da terra."
13. "Minha alma se colou atrás de Ti" (v. 9). Vede alguém que anela, vede alguém que tem sede, vede como ele se apega a Deus. Que nasça em vós este afeto. Se já está brotando, que seja regado e cresça: que chegue a tal força, que também vós possais dizer de todo o coração: "Minha alma se colou atrás de Ti." Onde está essa mesma cola? A própria cola é o amor. Tem tu o amor, com o qual, como com cola, tua alma se cole atrás de Deus. Não com Deus, mas atrás de Deus; para que Ele vá adiante, e tu O sigas. Pois aquele que quiser ir adiante de Deus, por seu próprio conselho viveria, e não seguiria os mandamentos de Deus. Por isso mesmo Pedro foi repreendido, quando quis dar conselho a Cristo, que ia sofrer por nós. ... "Longe de Ti esteja isso, Senhor; sê misericordioso contigo mesmo." E o Senhor: "Volta para trás de Mim, Satanás: pois não compreendes as coisas que são de Deus, mas as que são dos homens." Por que, as coisas que são dos homens? Porque desejas ir adiante de Mim, volta para trás de Mim, para que possas seguir-Me: de modo que, seguindo agora a Cristo, pudesse dizer: "Minha alma se colou atrás de Ti." Com razão acrescenta: "A mim Tua destra tomou." Isto Cristo o disse em nós: isto é, no Homem que Ele carregava por nós, que Ele oferecia por nós, disse isto. A Igreja também disse isto em Cristo, ela o diz em sua Cabeça: pois também ela sofreu aqui grandes perseguições, e por seus membros individuais ainda hoje sofre. ...
15. "Serão entregues nas mãos da espada" (v. 10). Em verdade, assim visivelmente lhes aconteceu: foram tomados de assalto por inimigos que irromperam. "Porções de raposas serão." Raposas ele chama os reis do mundo, que então havia quando a Judeia foi vencida. Ouvi, para que saibais e percebais, que a estes ele chama raposas. Herodes, o rei, o próprio Senhor chamou de raposa. "Ide," diz Ele, "e dizei a essa raposa." Vede e observai, meus irmãos: a Cristo como Rei não O quiseram ter, e porções de raposas se fizeram. Pois quando Pilatos, o governador da Judeia, matou a Cristo às vozes dos judeus, disse aos mesmos judeus: "A vosso Rei crucificarei?" Porque Ele era chamado Rei dos Judeus, e Ele era o verdadeiro Rei. E eles, rejeitando a Cristo, disseram: "Não temos rei senão César." Rejeitaram um Cordeiro, escolheram uma raposa: merecidamente porções de raposas se fizeram.
16. "O Rei em verdade," assim está escrito, porque escolheram uma raposa, um Rei em verdade não quiseram ter. "O Rei em verdade": isto é, o verdadeiro Rei, a quem o título foi inscrito, quando padeceu. Pois Pilatos pôs este título inscrito sobre Sua cabeça: "O Rei dos Judeus," nas línguas hebraica, grega e latina: para que todos os que passassem pudessem ler a glória do Rei, e a infâmia dos próprios judeus, que, rejeitando o verdadeiro Rei, escolheram a raposa César. "O Rei em verdade se alegrará em Deus." Foram feitos porções de raposas. ... "Fechada está a boca dos que falam coisas injustas." Ninguém ousa agora falar abertamente contra Cristo, agora todos os homens temem a Cristo. "Pois fechada está a boca dos que falam coisas injustas." Quando na fraqueza estava o Cordeiro, até as raposas eram ousadas contra o Cordeiro. Venceu ali o Leão da tribo de Judá, e as raposas foram silenciadas.
Digamos, portanto, também nós mesmos: "Ouve, ó Deus, a minha oração, enquanto estou atribulado; do temor do inimigo livra a minha alma" (v. 1). Os inimigos se enfureceram contra os Mártires: pois que voz era essa do Corpo de Cristo orando? Isto orava ele: ser livre dos inimigos, e que os inimigos não tivessem poder de matá-los. Não foram, pois, ouvidos, porque foram mortos; e acaso Deus abandonou os Seus servos de coração contrito, e desprezou os homens que N'Ele esperavam? Longe disso. Pois "quem invocou a Deus, e foi abandonado; quem esperou N'Ele, e foi desamparado?" Foram, portanto, ouvidos, e foram mortos; e, contudo, dos inimigos foram libertados. Outros, com medo, consentiram, e viveram, e, no entanto, esses mesmos foram devorados pelos inimigos. Os mortos foram libertados, os vivos foram devorados. Daí vem também aquela voz de ação de graças: "Talvez vivos nos teriam devorado." Por isso ora a voz dos Mártires: "Do temor do inimigo livra Tu a minha alma": não para que o inimigo não me mate, mas para que eu não tema o inimigo que mata. Pois isto, para que se cumprisse no Salmo, orava o servo, o que há pouco no Evangelho o Senhor estava ordenando. Que estava há pouco o Senhor ordenando? "Não temais os que matam o corpo, mas a alma não podem matar; temei antes Aquele que tem poder de matar tanto o corpo quanto a alma no inferno de fogo." E repetiu: "Sim, Eu vos digo, temei-O." Quem são os que matam o corpo? Os inimigos. Que estava o Senhor ordenando? Que não fossem temidos. Seja, pois, oferecida a oração, para que Ele conceda o que ordenou. "Do temor do inimigo livra a minha alma." Livra-me do temor do inimigo, e faze-me submisso ao temor de Ti. Eu não temeria aquele que mata o corpo, mas temeria Aquele que tem poder de matar tanto o corpo quanto a alma no inferno de fogo. Pois não do temor eu quereria estar livre: mas, livre do temor do inimigo, ser servo sob o temor do Senhor.
Embora principalmente a Paixão do Senhor seja notada neste Salmo, tampouco os Mártires teriam sido fortes, se não tivessem contemplado Aquele que primeiro padeceu; nem tais coisas teriam suportado no padecimento, como Ele padeceu, se não tivessem esperado tais coisas na Ressurreição, como Ele mostrou de Si mesmo: mas a vossa Santidade sabe que a nossa Cabeça é o Senhor nosso Jesus Cristo, e que todos os que a Ele se apegam são membros d'Ele, a Cabeça... E ninguém diga que hoje em dia não estamos em tribulação de paixões. Pois sempre ouvistes este fato: como naqueles tempos toda a Igreja em conjunto era, por assim dizer, golpeada, mas agora, através de indivíduos, ela é provada. Preso está, na verdade, o diabo, para que não faça tanto quanto poderia, para que não faça tanto quanto quisesse: contudo, é-lhe permitido tentar tanto quanto convém aos homens que avançam. Não nos convém estarmos sem tentações: nem devemos suplicar a Deus que não sejamos tentados, mas que não sejamos "levados à tentação."
"Protegeste-me da conjuração dos malignos, e da multidão dos que praticam a iniquidade" (v. 2). Voltemos agora o olhar para a nossa Cabeça. Coisas semelhantes padeceram muitos Mártires: mas nada resplandece com tanto brilho quanto a Cabeça dos Mártires; N'Ele, antes, contemplemos o que eles atravessaram. Protegido foi Ele da multidão dos malignos, protegendo-Se a Si mesmo como Deus, o próprio Filho e a Humanidade que trazia protegendo a Sua carne: porque Filho do Homem Ele é, e Filho de Deus Ele é; Filho de Deus por causa da forma de Deus, Filho do Homem por causa da forma de servo: tendo em Seu poder depor a Sua vida, e retomá-la de novo. A Ele que poderiam fazer os inimigos? Mataram o corpo, a alma não mataram. Observai. Pouco seria, portanto, para o Senhor exortar os Mártires com a palavra, se não o tivesse confirmado com o exemplo. Sabeis quão grande foi a conjuração dos judeus malignos, e quão grande foi a multidão dos que praticavam a iniquidade. Que iniquidade? Aquela com que quiseram matar o Senhor Jesus Cristo. "Tantas boas obras", diz Ele, "vos mostrei; por qual delas quereis matar-Me?" Suportou todas as suas enfermidades, curou todos os seus doentes, pregou o Reino dos Céus, não se calou diante dos seus vícios, de modo que estes mesmos lhes eram desagradáveis, mais do que o Médico por quem estavam sendo curados: pois, sendo todos estes remédios recebidos com ingratidão, como delirantes em febre alta a delirar contra o médico, tramaram o plano de destruir Aquele que viera para curá-los; como se com isso quisessem provar se Ele era, na verdade, um homem, que podia morrer, ou se era algo acima dos homens, e não se deixaria morrer. A palavra desses mesmos homens percebemo-la na sabedoria de Salomão: "com morte vilíssima", dizem, "condenemo-Lo; interroguemo-Lo, pois haverá consideração nos Seus discursos; pois, se verdadeiramente Filho de Deus Ele é, que Ele o livre." Vejamos, pois, o que se fez.
"Pois afiaram como espada as suas línguas" (v. 3). O que diz também outro Salmo: "Filhos dos homens; os seus dentes são armas e flechas, e a sua língua é espada afiada." Não digam os judeus que não matamos a Cristo. Pois para isso mesmo O entregaram a Pilatos, o juiz, a fim de que eles próprios parecessem, por assim dizer, inocentes da Sua morte... Mas, se ele é culpado por tê-lo feito ainda que contra a vontade, são inocentes os que o compeliram a fazê-lo? De modo algum. Mas ele proferiu sentença contra Ele, e ordenou que fosse crucificado: e de certo modo ele próprio O matou; vós também, ó judeus, O matastes. De onde O matastes? Com a espada da língua: pois afiastes as vossas línguas. E quando golpeastes, senão quando clamastes: "Crucifica-O, crucifica-O"?
5. Mas por isso não devemos passar sem notar o que veio à mente, para que porventura a leitura das Escrituras Divinas não perturbe a ninguém. Um Evangelista diz que o Senhor foi crucificado à hora sexta, e outro à hora terceira: se não o entendermos, ficamos perturbados. E, quando já começava a hora sexta, diz-se que Pilatos se assentou no tribunal: e, na realidade, quando o Senhor foi levantado sobre o madeiro, era a hora sexta. Mas outro Evangelista, atentando à intenção dos judeus, de como eles próprios desejavam parecer inocentes da morte do Senhor, pelo seu relato os prova culpados, dizendo que o Senhor foi crucificado à hora terceira. Mas, considerando toda a circunstância da história, quantas coisas poderiam ter sido feitas, quando o Senhor estava sendo acusado diante de Pilatos, a fim de que fosse crucificado; achamos que poderia ter sido a hora terceira, quando clamaram: "Crucifica-O, crucifica-O." Portanto, com mais verdade, mataram no momento em que clamaram. Os ministros do magistrado, à hora sexta, crucificaram; os transgressores da lei, à hora terceira, clamaram: o que aqueles fizeram com as mãos à hora sexta, estes fizeram com a língua à hora terceira. Mais culpados são os que, clamando, se enfureciam, do que os que, obedecendo, ministravam. Esta é toda a sagacidade dos judeus, isto é o que buscavam como algo grande. Matemos, e não matemos: matemos assim, de modo que não sejamos nós mesmos julgados como tendo matado.
"Entesaram o arco, coisa amarga, a fim de atirarem em segredo contra o Imaculado" (v. 4). Ao arco chama ele as ciladas. Pois aquele que com espada luta corpo a corpo, luta abertamente: aquele que atira uma flecha engana, a fim de golpear. Pois a flecha fere antes que se preveja que venha a ferir. Mas a quem poderiam escapar as ciladas do coração humano? Escapariam elas ao nosso Senhor Jesus Cristo, que não tinha necessidade de que alguém Lhe testemunhasse acerca do homem? "Pois Ele mesmo sabia o que havia no homem", como testifica o Evangelista. Contudo, ouçamo-los, e observemo-los em seus feitos, como se o Senhor não soubesse o que tramavam. A expressão que usou, "Entesaram o arco", é o mesmo que "em segredo": como se enganassem por ciladas. Pois sabeis com que artifícios fizeram isso, como com dinheiro subornaram um discípulo que a Ele se apegava, a fim de que fosse entregue a eles, como procuraram falsas testemunhas; com que ciladas e artifícios operaram, "a fim de atirarem em segredo contra o Imaculado." Grande iniquidade! Eis que de um lugar secreto vem uma flecha, que fere ao Imaculado, que nem sequer tinha tanto de mancha que pudesse ser perfurada por uma flecha. Cordeiro é Ele, na verdade, imaculado, inteiramente imaculado, sempre imaculado; não Aquele de quem as manchas foram removidas, mas que não contraiu mancha alguma. Pois Ele fez muitos imaculados, perdoando os pecados, sendo Ele mesmo imaculado por não ter pecados. "Subitamente O atirarão, e não temerão." Ó coração endurecido, querer matar um Homem que ressuscitava os mortos! "Subitamente": isto é, insidiosamente, como que inesperadamente, como que não previsto. Pois o Senhor era como alguém que não sabia, estando entre os homens, não sabendo o que não sabia e o que sabia: sim, não sabendo que não havia nada que Ele não soubesse, e que Ele sabia todas as coisas, e para isto viera, a fim de que fizessem o que pensavam fazer por seu próprio poder.
"Confirmaram para si um discurso maligno" (v. 5). Faziam-se tão grandes milagres, não se moviam, persistiam no desígnio do discurso malvado. Foi entregue ao juiz: o juiz treme, e não tremem os que O entregaram ao juiz: treme o poder, e não treme a ferocidade: ele lavaria as mãos, e eles mancham as suas línguas. Mas por que isto? "Confirmaram para si um discurso maligno." Quantas coisas fez Pilatos, quantas coisas para que fossem contidos! Que disse ele? Que fez ele? Mas "confirmaram para si um discurso maligno: Crucifica-O, crucifica-O." A repetição é a confirmação do "discurso maligno." Vejamos de que modo "confirmaram para si um discurso maligno." "Ao vosso Rei crucificarei Eu?" Disseram: "Não temos rei senão só César." Ele lhes oferecia por Rei o Filho de Deus: a um homem se voltaram: dignos eram de ter um, e não ter o Outro. "Não acho neste Homem coisa alguma", diz o juiz, "por que seja digno de morte." E os que "confirmaram o discurso maligno" disseram: "O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos." "Confirmaram o discurso maligno", não ao Senhor, mas "a si mesmos." Pois como não a si mesmos, quando dizem: "Sobre nós e sobre nossos filhos"? O que, portanto, confirmaram, a si mesmos confirmaram: porque a mesma voz está em outro lugar: "Cavaram diante da minha face uma cova, e nela caíram." A morte não matou o Senhor, mas Ele à morte: mas a eles a iniquidade matou, porque não quiseram matar a iniquidade...
"Disseram, a fim de que ocultassem as armadilhas: disseram, Quem as verá?" (v. 5). Pensavam que escapariam Àquele a quem estavam matando, que escapariam a Deus. Eis que, suponde que Cristo fosse um homem, como os demais homens, e não soubesse o que se tramava contra Ele: acaso também Deus não sabe? Ó coração do homem! Por que disseste a ti mesmo: Quem me vê? quando te vê Aquele que te fez? "Disseram, Quem as verá?" Deus via, Cristo também via: porque Cristo é também Deus. Mas por que pensavam que Ele não via? Ouvi as palavras seguintes.
"Investigaram a iniquidade, fracassaram, investigando investigações" (v. 6): isto é, desígnios mortais e agudos. Que não seja Ele traído por nós, mas pelo Seu discípulo: que não seja Ele morto por nós, mas pelo juiz: façamos tudo, e pareçamos não ter feito nada...
10. Mas que lhes sobreveio? "Fracassaram investigando investigações." De onde? Porque diz: "Quem as verá?", isto é, que ninguém as via. Isto diziam, isto entre si pensavam: que ninguém os via. Vede o que sobrevém a uma alma má: aparta-se da luz da verdade, e, porque ela mesma não vê a Deus, pensa que ela mesma não é vista por Deus...
11. Pois que se segue? "Aproximar-se-á um homem e um coração profundo." Disseram: Quem nos verá? Fracassaram investigando investigações, conselhos maus. Aproximou-se um homem a esses mesmos conselhos, Ele Se deixou ter por homem. Pois não teria sido tido, se não fosse homem, nem teria sido visto, se não fosse homem, nem teria sido ferido, se não fosse homem, nem teria sido crucificado ou tivesse morrido, se não fosse homem. Aproximou-se, portanto, um homem a todos aqueles sofrimentos, os quais N'Ele de nada teriam valido, se não fosse Homem. Mas, se Ele não fosse Homem, não haveria libertação para o homem. Aproximou-Se um Homem "e um coração profundo", isto é, um "coração" secreto: apresentando diante dos rostos humanos o Homem, guardando dentro de Si Deus: ocultando a "forma de Deus", na qual Ele é igual ao Pai, e apresentando a forma de servo, na qual Ele é menor que o Pai. Pois Ele mesmo falou de ambas: mas uma coisa é o que diz na forma de Deus, outra o que diz na forma de servo. Disse na forma de Deus: "Eu e o Pai somos um": disse na forma de servo: "Pois o Pai é maior do que Eu." Donde, na forma de Deus, diz Ele: "Eu e o Pai somos um"?...
12. "Setas de crianças se fizeram os golpes deles" (v. 7). Onde está aquela ferocidade? Onde aquele bramido do leão, do povo que bramia e dizia: "Crucifica-o, crucifica-o"? Onde estão as ciladas dos homens que retesam o arco? Não se fizeram "os golpes deles setas de crianças"? Sabeis de que modo as crianças fazem para si setas de pequenas canas. Que feriram elas, ou de onde feriram? Qual é a mão, ou qual a arma? Quais são os braços, ou quais os membros?
13. "E as línguas deles se fizeram fracas sobre eles" (v. 8). Afiem eles agora as suas línguas como espada, confirmem para si discurso malicioso. Merecidamente para si o confirmaram, porque "as línguas deles se fizeram fracas sobre eles". Poderia isto ser forte contra Deus? "A iniquidade", diz ele, "mentiu a si mesma"; "as línguas deles se fizeram fracas sobre eles". Eis que ressuscitou o Senhor, que fora morto... Que pensas tu daquele que da cruz não desceu, e do sepulcro ressuscitou? Que efetuaram, pois, eles? Mas ainda que o Senhor não tivesse ressuscitado, que teriam efetuado, senão o que efetuaram também os perseguidores dos mártires? Pois os mártires ainda não ressuscitaram, e, no entanto, nada efetuaram; deles, que ainda não ressuscitaram, celebramos agora as natividades. Onde está o furor da sua raiva? A que trouxeram aquelas suas investigações, nas quais investigações fracassaram, de modo que até, estando o Senhor morto e sepultado, puseram guardas junto ao sepulcro? Pois disseram a Pilatos: "Aquele enganador" — por este nome era chamado o Senhor Jesus Cristo, para consolação dos seus servos quando são chamados enganadores; dizem, pois, a Pilatos: "Aquele enganador disse, ainda vivo: Depois de três dias ressuscitarei"... Puseram soldados como guardas junto ao sepulcro. Tremendo a terra, ressuscitou o Senhor: tais prodígios se fizeram junto ao sepulcro, que até os mesmos soldados que ali tinham vindo como guardas foram feitos testemunhas, se quisessem dizer a verdade; mas a mesma cobiça que levara cativo um discípulo, companheiro de Cristo, levou cativo também o soldado que guardava o sepulcro. Damos-vos, dizem eles, dinheiro; e dizei vós: enquanto vós mesmos dormíeis, vieram os seus discípulos e o levaram... Testemunhas adormecidas apresentais: verdadeiramente tu mesmo adormeceste, tu que, ao investigar tais artifícios, fracassaste. Se estavam dormindo, que podiam ver? Se nada viram, como são testemunhas? Mas "fracassaram ao investigar investigações": fracassaram da luz de Deus, fracassaram na própria consumação dos seus desígnios; quando aquilo que quiseram de nenhum modo puderam completar, certamente fracassaram. Por que isto? Porque "aproximou-se um homem e um coração profundo, e Deus foi exaltado"...
14. "E todo homem temeu" (v. 9). Os que não temeram, nem sequer eram homens. "Todo homem temeu"; isto é, todo aquele que usa da razão para perceber as coisas que se fizeram. Donde os que não temeram devem antes ser chamados gado, antes feras selvagens e cruéis. Leão que ruge e brama é ainda aquele povo. Mas na verdade todo homem temeu: isto é, aqueles que haveriam de crer, que tremeram diante do juízo futuro. "E todo homem temeu, e anunciaram as obras de Deus"... "E todo homem temeu, e anunciaram as obras de Deus, e perceberam os feitos dele". Que é: "perceberam os feitos dele"? Foi porque Tu, ó Senhor Jesus Cristo, te calaste, e como ovelha para a vítima eras conduzido, e não abriste diante do tosquiador a tua boca, e nós te reputávamos posto em aflição e dor, e sabendo suportar a fraqueza? Foi porque escondias a tua formosura, ó Tu, formoso em figura mais que os filhos dos homens? Foi porque não parecias ter formosura nem graça? Suportaste na cruz homens que te ultrajavam e diziam: "Se é Filho de Deus, desça da cruz"... Isto os que quiseram que descesse da cruz não perceberam; mas quando ressuscitou, e, glorificado, subiu ao céu, perceberam as obras de Deus.
15. "O justo se alegrará no Senhor" (v. 10). Ora, o justo não é triste. Pois tristes estavam os discípulos por ter sido o Senhor crucificado; vencidos pela tristeza, partiram entristecidos, julgaram ter perdido a esperança. Ele ressuscitou, e mesmo aparecendo-lhes os achou tristes. Reteve os olhos de dois homens que caminhavam pelo caminho, de modo que por eles não fosse reconhecido, e os achou gemendo e suspirando, e os reteve até que lhes expôs as Escrituras, e pelas mesmas Escrituras mostrou que assim convinha que se fizesse o que se fez. Pois mostrou nas Escrituras como, depois do terceiro dia, convinha que o Senhor ressuscitasse. E como, ao terceiro dia, teria ressuscitado, se da cruz tivesse descido?... Alegremo-nos, pois, todos no Senhor, sejamos todos, segundo a fé, um só Homem Justo, e tenhamos todos, num só Corpo, uma só Cabeça, e alegremo-nos no Senhor, não em nós mesmos; porque o nosso bem não somos nós para nós mesmos, mas Aquele que nos fez. Ele mesmo é o nosso bem para nos alegrar. E ninguém se alegre em si mesmo, ninguém confie em si mesmo, ninguém desespere de si mesmo: ninguém confie em nenhum homem, que deve trazer consigo como partícipe da sua própria esperança, não como doador da esperança.
16. Ora, porque o Senhor ressuscitou, porque subiu ao céu, porque mostrou que há outra vida, porque é evidente que os seus desígnios, nos quais jazia oculto em coração profundo, não foram vãos, porque para isto foi derramado aquele Sangue, para ser o preço dos redimidos; agora que todas as coisas são evidentes, porque todas foram pregadas, porque todas foram cridas debaixo de todo o céu, "o justo se alegrará no Senhor, e nele esperará; e serão louvados todos os retos de coração"... Deus te desagrada, e tu agradas a ti mesmo, de coração perverso e tortuoso és: e isto é o pior, que o coração de Deus tu queiras corrigir pelo teu coração, para fazê-lo fazer o que tu queres, quando deverias tu fazer o que Ele quer. Que, pois? Queres tornar torto o coração de Deus, que é sempre reto, segundo a depravação do teu próprio coração? Quanto melhor corrigir o teu coração pela retidão de Deus? Não te ensinou isto o teu Senhor, de cuja Paixão há pouco falávamos? Não estava Ele carregando a tua fraqueza, quando disse: "Triste está a minha alma até a morte"? Não estava figurando a ti mesmo em si, quando dizia: "Pai, se é possível, passe de mim este cálice"? Pois os corações do Pai e do Filho não eram dois e diferentes: mas na forma de servo carregou o teu coração, para ensiná-lo pelo seu exemplo. Eis que a tribulação encontrou, por assim dizer, outro coração teu, que quis que passasse aquilo que ameaçava: mas Deus não quis. Deus não consente com o teu coração; consente tu com o coração de Deus.
17. Que se segue? Se "serão louvados todos os retos de coração", serão condenados os tortos de coração. Duas coisas te são propostas agora; escolhe enquanto há tempo... Se de coração torto te fizeste, virá aquele Juízo, aparecerão todas as razões pelas quais Deus faz todas estas coisas; e tu, que não quiseste nesta vida corrigir o teu coração pela retidão de Deus, e preparar-te para a direita, onde "serão louvados todos os retos de coração", estarás à esquerda, onde então ouvirás: "Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos". E haverá então tempo para corrigir o coração? Corrigi, pois, agora, irmãos, corrigi agora. Quem o impede? Salmo se canta, Evangelho se lê, o Leitor clama, o Pregador clama; longânimo é o Senhor; tu pecas, e Ele perdoa; ainda pecas, ainda Ele perdoa, e ainda acrescentas pecado a pecado. Até quando será Deus longânimo? Hás de achar Deus também justo. Aterrorizamos porque tememos; ensinai-nos a não temer, e não mais aterrorizaremos. Mas melhor é que Deus nos ensine a temer, do que qualquer homem nos ensine a não temer... Produzes grão, o celeiro espera; produzes espinhos, o fogo espera. Mas ainda não chegou nem o tempo do celeiro nem o tempo do fogo: agora haja preparação, e não haverá temor. Em nome de Cristo, tanto nós que falamos vivemos, quanto vós a quem falamos viveis: pois para emendar o propósito, e mudar a vida má em vida boa, não há lugar, não há tempo? Não se pode, se quiseres, fazer hoje? Não se pode, se quiseres, fazer agora? Que precisas comprar para o fazer, que remédios precisas buscar? A que Índias precisas navegar? Que navio preparar? Eis que, enquanto falo, muda o coração; e está feito o que tantas vezes e por tanto tempo se clama que se faça, e que traz castigo eterno se não se fizer.
3. "A ti convém o hino, ó Deus, em Sião" (v. 1). Aquela pátria é Sião: Jerusalém é a mesma coisa que Sião; e da interpretação deste nome deveis ter conhecimento. Assim como Jerusalém se interpreta visão de paz, assim Sião, Contemplação, isto é, visão e contemplação. Alguma grande visão inexplicável nos é prometida: e este é o próprio Deus, que edificou a cidade. Bela e graciosa a cidade, quanto mais belo o seu Edificador! "A ti convém o hino, ó Deus", diz ele. Mas onde? "Em Sião"; em Babilônia não convém. Pois quando o homem começa a ser renovado, já com o coração em Jerusalém canta, dizendo com o Apóstolo: "A nossa conversação está nos céus". Pois, "andando ainda na carne", diz ele, "não militamos segundo a carne". Já em desejo lá estamos, já para aquela terra a esperança, como que uma âncora, enviamos adiante, para que, sendo agitados neste mar, não soframos naufrágio. Do mesmo modo, pois, que de um navio que está ancorado dizemos com razão que já chegou à terra, pois ainda oscila, mas à terra de certo modo já foi trazido a salvo, a despeito dos ventos e a despeito das tempestades; assim, contra as tentações desta peregrinação, a nossa esperança, fundada naquela cidade de Jerusalém, faz com que não sejamos arrastados contra os rochedos. Aquele, pois, que segundo esta esperança canta, naquela cidade canta: diga, pois: "A ti convém o hino, ó Deus, em Sião"...
4. "E a ti se pagará o voto em Jerusalém". Aqui votamos, e é bom que ali paguemos. Mas quem são os que aqui votam e não pagam? Os que não perseveram até o fim naquilo que votaram. Donde diz outro Salmo: "Votai, e pagai ao Senhor vosso Deus"; e: "a ti se pagará em Jerusalém". Pois ali estaremos íntegros, isto é, inteiros na ressurreição dos justos: ali se pagará todo o nosso voto, não a alma somente, mas a própria carne também, já não corruptível, porque já não em Babilônia, mas agora corpo celeste e transformado. Que espécie de mudança se promete? "Pois todos ressuscitaremos", diz o Apóstolo, "mas nem todos seremos transformados"... "Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" Pois agora, enquanto começam a estar em uso as primícias da mente, de onde procede o desejo de Jerusalém, muitas coisas da carne corruptível lutam contra nós, coisas que não lutarão quando a morte houver sido tragada na vitória. A paz vencerá, e a guerra terá fim. Mas quando a paz vencer, vencerá aquela cidade que se chama visão de paz. Da parte da morte, pois, não haverá contenda. Ora, com quão grande morte lutamos agora! Pois dali vêm os prazeres carnais, que a nós, mesmo ilicitamente, sugerem muitas coisas; às quais não damos consentimento, mas, contudo, ao não dar consentimento, lutamos...
1. A voz da santa profecia deve ser reconhecida no próprio título deste Salmo. Está inscrito: "Até o fim, Salmo de Davi, cântico de Jeremias e Ezequiel, por causa do povo da transmigração, quando começavam a partir". De que modo isto se acendeu entre os nossos pais no tempo da transmigração para a Babilônia não é conhecido de todos, mas somente daqueles que diligentemente estudam as Sagradas Escrituras, seja ouvindo, seja lendo. Pois o povo cativo de Israel, da cidade de Jerusalém, foi conduzido à escravidão até a Babilônia. Mas o santo Jeremias profetizou que, depois de setenta anos, o povo voltaria do cativeiro, e reedificaria a própria cidade de Jerusalém, a qual haviam pranteado como destruída pelos inimigos. Mas naquele tempo havia profetas naquele cativeiro do povo que habitava na Babilônia, entre os quais estava também o profeta Ezequiel. E aquele povo esperava até que se cumprisse o espaço de setenta anos, segundo a profecia de Jeremias. Sucedeu que, completados os setenta anos, foi restaurado o templo que fora derrubado, e voltou do cativeiro grande parte daquele povo. Mas, uma vez que diz o Apóstolo: "estas coisas lhes aconteceram em figura, mas foram escritas para nós, sobre quem chegou o fim dos séculos", devemos nós também conhecer primeiramente o nosso cativeiro, depois a nossa libertação; devemos conhecer a Babilônia em que somos cativos, e a Jerusalém para cujo retorno suspiramos. Pois estas duas cidades, segundo a letra, na realidade são duas cidades. E a antiga Jerusalém, na verdade, já não é habitada pelos judeus. Pois, depois da crucifixão do Senhor, foi tomada vingança sobre eles com grande flagelo, e, sendo arrancados daquele lugar onde, com ímpia licenciosidade enfurecidos, insanamente se enfureceram contra o seu Médico, foram dispersos por todas as nações, e aquela terra foi dada aos cristãos: e cumpriu-se o que o Senhor lhes dissera: "Portanto, o reino vos será tirado, e será dado a uma nação que faça justiça". Mas quando viram grandes multidões seguindo então o Senhor, pregando o reino dos céus e fazendo coisas admiráveis, disseram os príncipes daquela cidade: "Se o deixarmos, todos irão após ele, e virão os romanos, e nos tomarão o lugar e a nação". Para que não perdessem o seu lugar, mataram o Senhor; e o perderam, precisamente porque o mataram. Portanto, aquela cidade, sendo uma cidade terrena, trazia a figura de certa cidade eterna nos céus: mas quando aquilo que era significado começou a ser pregado mais evidentemente, a sombra pela qual era significado foi derrubada; por esta razão, naquele lugar já não há mais templo, o qual fora construído como imagem do futuro Corpo do Senhor. Nós temos a luz, a sombra já passou: e, contudo, ainda estamos em certo cativeiro: "Enquanto estamos", diz ele, "no corpo, estamos peregrinando longe do Senhor".
2. E vede os nomes destas duas cidades, Babilônia e Jerusalém. Babilônia interpreta-se confusão, Jerusalém visão de paz. Observai agora a cidade da confusão, para que possais perceber a visão de paz; para que suporteis aquela, suspireis por esta. Por que meio podem estas duas cidades distinguir-se? Podemos nós, de algum modo, agora separá-las uma da outra? Elas estão misturadas, e desde o próprio início da humanidade, misturadas, correm até o fim do mundo. Jerusalém teve princípio por Abel, Babilônia por Caim: pois as edificações das cidades foram erigidas depois. Aquela Jerusalém foi edificada na terra dos jebuseus: pois a princípio se chamava Jebus, de onde foi expulsa a nação dos jebuseus, quando o povo de Deus foi libertado do Egito e conduzido à terra da promessa. Mas Babilônia foi edificada nas regiões mais interiores da Pérsia, a qual por longo tempo levantou a sua cabeça sobre as demais nações. Estas duas cidades, pois, em tempos particulares foram edificadas, de modo que se mostrasse a figura de duas cidades iniciadas desde antigo, e que haveriam de permanecer até o fim neste mundo, mas ao fim serem separadas. Por que meio, pois, podemos agora mostrá-las, estando misturadas? Naquele tempo o Senhor as mostrará, quando puser uns à direita, outros à esquerda. Jerusalém estará à direita, Babilônia à esquerda... Dois amores compõem estas duas cidades: o amor de Deus faz Jerusalém, o amor do mundo faz Babilônia. Interrogue-se, pois, cada um a si mesmo sobre o que ama: e achará de qual é cidadão: e se se tiver achado cidadão de Babilônia, extirpe a cupidez, implante a caridade; mas se se tiver achado cidadão de Jerusalém, suporte o cativeiro, espere a liberdade... Ouçamos, pois, agora, irmãos, ouçamos, e cantemos, e desejemos aquela cidade da qual somos cidadãos. E quais são as alegrias que nos são cantadas? De que modo se forma novamente em nós o amor da nossa cidade, o qual, por longa peregrinação, havíamos esquecido? Mas o nosso Pai nos enviou de lá cartas, Deus nos supriu as Escrituras, pelas quais cartas se operasse em nós um desejo de retorno: porque, amando a nossa peregrinação, havíamos voltado o rosto para os inimigos, e as costas para a nossa pátria. Que é, pois, que aqui se canta?
5. "Escuta", diz ele, "a minha oração; a ti virá toda carne" (v. 2). E temos o Senhor dizendo que lhe fora dado "poder sobre toda carne". Aquele Rei, pois, começou já então a aparecer, quando se dizia: "A ti virá toda carne". "A ti", diz ele, "virá toda carne". Por que virá a Ele "toda" carne? Porque tomou para si a carne. Aonde virá toda carne? Tomou as suas primícias do ventre da Virgem; e agora que as primícias foram tomadas para Ele, seguirá o resto, para que se complete o holocausto. Donde, pois, "toda carne"? Todo homem. E donde todo homem? Foram todos preditos, como havendo de crer em Cristo? Não foram preditos muitos ímpios, que também hão de ser condenados? Não morrem diariamente homens que não creem, na sua própria incredulidade? De que modo, pois, entendemos: "A ti virá toda carne"? Por "toda carne" significou "carne de toda espécie": de toda espécie de carne virão a ti. Que é, de toda espécie de carne? Vieram pobres, e não vieram ricos? Vieram humildes, e não vieram soberbos? Vieram indoutos, e não vieram doutos? Vieram homens, e não vieram mulheres? Vieram senhores, e não vieram servos? Vieram velhos, e não vieram jovens; ou vieram jovens, e não vieram adolescentes; ou vieram adolescentes, e não vieram meninos; ou vieram meninos, e não foram trazidos os pequeninos? Em suma, vieram judeus (pois de lá foram os Apóstolos, de lá muitos milhares de homens, primeiro traidores, depois crentes), e não vieram gregos; ou vieram gregos, e não vieram romanos; ou vieram romanos, e não vieram bárbaros? E quem poderia enumerar todas as nações que vêm a Ele, a quem foi dito: "A ti virá toda carne"?
6. "Os discursos dos homens injustos prevaleceram sobre nós, e as nossas iniquidades Tu propiciarás" (v. 3). ...Todo homem, em qualquer lugar que nasça, aprende a língua daquela mesma terra, região ou cidade, e se habitua aos costumes e ao modo de vida daquele lugar. Que faria um menino nascido entre os pagãos, para evitar adorar uma pedra, visto que seus pais lhe sugeriram essa adoração, sendo essas as primeiras palavras que ouviu deles, e tendo sugado esse erro com o leite? E porque os que costumavam falar eram os anciãos, e o menino que aprendia a falar era uma criancinha, que poderia o pequenino fazer senão seguir a autoridade dos anciãos e considerar bom aquilo que eles recomendavam? Portanto, as nações que depois se convertem a Cristo, e que tomam a peito as impiedades de seus pais, dizendo agora o que o próprio profeta Jeremias disse: "Verdadeiramente mentira adoraram nossos pais, vaidade que não lhes aproveitou" — quando, digo, agora dizem isto, renunciam às opiniões e blasfêmias de seus pais injustos. ...Homens que ensinavam coisas más nos desviaram, fizeram-nos cidadãos da Babilônia; abandonamos o Criador, adoramos a criatura; abandonamos Aquele por quem fomos feitos, adoramos aquilo que nós mesmos fizemos. Pois "os discursos dos homens injustos prevaleceram sobre nós"; mas, apesar disso, não nos esmagaram. Por quê? "As nossas iniquidades Tu propiciarás" não se diz senão a algum sacerdote que oferece algo, pelo qual a iniquidade possa ser expiada e propiciada. Pois diz-se que a iniquidade é propiciada quando Deus se torna propício à iniquidade. Que é Deus tornar-se propício à iniquidade? É Ele tornar-se clemente e conceder o perdão. Mas para que se obtenha o perdão de Deus, faz-se a propiciação por meio de algum sacrifício. Saiu, pois, enviado por Deus o Senhor, um único Sacerdote nosso; Ele tomou de nós aquilo que havia de oferecer ao Senhor — falamos daquelas mesmas primícias da carne, do ventre da Virgem. Este holocausto Ele ofereceu a Deus. Estendeu as mãos na Cruz, a fim de poder dizer: "Seja dirigida a minha oração como incenso diante de Ti, e a elevação das minhas mãos, sacrifício vespertino." Como sabeis, o Senhor, por volta da tarde, pendeu na Cruz; e as nossas impiedades foram propiciadas; do contrário, teriam nos devorado: os discursos dos homens injustos teriam prevalecido sobre nós; ter-nos-iam desviado os pregoeiros de Júpiter, e de Saturno, e de Mercúrio: "os discursos dos homens ímpios prevaleceram sobre nós." Mas que farás Tu? "As nossas iniquidades Tu propiciarás." Tu és o sacerdote, Tu a vítima; Tu o que oferece, Tu a oferenda. ...
7. "Bem-aventurado aquele a quem Tu escolheste e tomaste para Ti" (v. 4). Quem é este que é escolhido por Ele e tomado para Ele? Foi alguém escolhido por nosso Salvador Jesus Cristo, ou foi Ele mesmo, segundo a carne, porque é homem, escolhido e tomado para Si? ...Ou não terá antes o próprio Cristo tomado para Si algum bem-aventurado, e este que Ele tomou para Si não é dito no plural, mas no singular? Pois um único homem Ele tomou para Si, porque a unidade Ele tomou para Si. Os cismas Ele não tomou para Si, as heresias Ele não tomou para Si: fizeram de si mesmos uma multidão, não há um só a ser tomado para Ele. Mas os que permanecem no vínculo de Cristo e são seus membros fazem, de certo modo, um único homem, do qual diz o Apóstolo: "Até que todos cheguemos ao conhecimento do Filho de Deus, ao homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo." Portanto, um único homem é tomado para Ele, cuja Cabeça é Cristo; porque "a cabeça do homem é Cristo." O mesmo é aquele homem bem-aventurado que "não se afastou no conselho dos ímpios," e as demais coisas ali ditas: o mesmo é Aquele que é tomado para Ele. Ele não está sem nós; em seus próprios membros estamos, sob uma só Cabeça somos governados, por um só Espírito todos vivemos, uma só pátria todos desejamos. ...E a nós, que dará Ele? "Habitará," diz, "em teus átrios." Jerusalém, isto é, à qual cantam os que começam a sair da Babilônia: "Habitará em teus átrios: seremos saciados dos bens da tua Casa." Quais são os bens da Casa de Deus? Irmãos, ponhamos diante de nós alguma casa rica, de quantos bens numerosos está repleta, quão abundantemente está provida, quantos vasos há ali de ouro e também de prata; quão grande o corpo de servos, quantos cavalos e animais, em suma, quanto a própria casa nos deleita com pinturas, mármores, tetos, colunas, recantos, aposentos: todas essas coisas são, na verdade, objetos de desejo, mas ainda assim pertencem à confusão da Babilônia. Corta todos esses desejos, ó cidadão de Jerusalém, corta-os; se queres voltar, que o cativeiro não te deleite. Mas já começaste a sair? Não olhes para trás, não te demores no caminho. Ainda não faltam inimigos para te recomendar o cativeiro e a permanência: que não prevaleçam mais contra ti os discursos dos ímpios. Pela Casa de Deus suspira, e pelos bens dessa Casa suspira: mas não desejes as coisas que costumavas desejar, seja em tua casa, seja na casa de teu vizinho, seja na casa de teu patrono. ...
9. "Ouve-nos, ó Deus, nosso Salvador" (v. 5). Revelou agora a Quem chama de Deus. O "Salvador," especialmente, é o Senhor Jesus Cristo. Apareceu agora mais abertamente de Quem havia dito: "A Ti virá toda carne." Aquele Único Homem que é tomado para Ele, no Templo de Deus, é ao mesmo tempo muitos e é Um. Na pessoa do Um disse: "Ouve, ó Deus," isto é, "à minha fome:" e porque este mesmo Um se compõe de muitos, diz agora: "Ouve-nos, ó Deus, nosso Salvador." Ouvi-O agora pregado mais abertamente: "Ouve-nos, ó Deus, nosso Salvador, Esperança de todos os confins da terra, e no mar, ao longe." Eis por que se disse: "A Ti virá toda carne." De toda parte vêm. "Esperança de todos os confins da terra," não esperança de um só recanto, não esperança apenas da Judeia, não esperança apenas da África, não esperança da Panônia, não esperança do Oriente ou do Ocidente: mas "Esperança de todos os confins da terra, e no mar, ao longe:" dos próprios confins da terra. "E no mar, ao longe:" e porque no mar, por isso ao longe. Pois o mar, por figura, designa este mundo, amargo de salsugem, perturbado por tempestades; onde os homens de apetites perversos e depravados se tornaram como peixes que se devoram uns aos outros. Observai o mar mau, o mar amargo, de ondas violentas; observai de que tipo de homens está repleto. Quem deseja uma herança senão pela morte de outrem? Quem deseja lucro senão pela perda de outrem? Pela queda de outros, quantos homens desejam ser exaltados? Quantos, para que possam comprar, desejam que outros vendam seus bens? Como se oprimem mutuamente, e como os que podem devoram! E quando um peixe devorou, o maior ao menor, ele mesmo também é devorado por algum maior. ...Porque disseram que não suportariam os peixes maus apanhados nas redes; eles mesmos se tornaram mais maus que aqueles que diziam não poder suportar. Pois aquelas redes apanhavam peixes tanto bons quanto maus. Diz o Senhor: "O reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, que ajunta de toda espécie; a qual, estando cheia, puxando-a para fora e sentando-se na praia, ajuntaram os bons em vasos, mas os maus lançaram fora: assim será," diz Ele, "na consumação do mundo." Mostra o que é a praia, mostra qual é o fim do mar. "Sairão os anjos, e separarão os maus do meio dos justos, e os lançarão na fornalha de fogo: ali haverá choro e ranger de dentes." Ah! vós, cidadãos de Jerusalém, que estais dentro das redes e sois bons peixes; suportai os maus, não rompais as redes: juntamente com eles estais num mar, mas não juntamente com eles estareis nos vasos. Pois Ele é "Esperança dos confins da terra," Ele mesmo é Esperança "também no mar, ao longe." Ao longe, porque também no mar.
8. "O teu santo Templo é admirável em justiça" (v. 5). Estes são os bens dessa Casa. Não disse: Teu santo Templo é admirável em colunas, admirável em mármores, admirável em tetos dourados; mas é "admirável em justiça." Fora, tens olhos com que podes ver mármores e ouro; dentro, há um olho com que se pode ver a beleza da justiça. Se não há beleza na justiça, por que se ama um velho justo? Que traz ele no corpo que possa agradar aos olhos? Membros encurvados, fronte enrugada, cabeça embranquecida de cãs, uma senilidade por toda parte cheia de queixas. Mas talvez, ainda que aos teus olhos não agrade este velho decrépito, agrade aos teus ouvidos: com que palavras, com que canto? Ainda que porventura, quando jovem, cantasse bem, tudo isso se perdeu com a idade. Acaso o som de suas palavras agrada aos teus ouvidos, ele que mal consegue articular palavras inteiras por falta de dentes? Contudo, se é justo, se não cobiça os bens alheios, se distribui aos necessitados do que possui, se dá bons conselhos e julga com sensatez, se crê a fé inteira, se por sua crença na fé está pronto a despender até mesmo esses membros já quebrantados — pois muitos mártires são até mesmo velhos — por que o amamos? Que bem vemos nele com os olhos da carne? Nenhum. Há, portanto, uma espécie de beleza na justiça, que vemos com o olho do coração, e amamos, e nos inflamamos de afeto: quanto encontraram os homens para amar naqueles mesmos mártires, ainda que as feras lhes despedaçassem os membros! Seria possível que, quando o sangue manchava todas as partes, quando pelos dentes de monstros as entranhas jorravam, os olhos não tivessem senão motivos de horror? Que havia ali para ser amado, senão que, naquele hediondo espetáculo de membros dilacerados, íntegra permanecia a beleza da justiça? Estes são os bens da Casa de Deus; com estes preparai-vos para serdes saciados. ..."Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados." "O teu santo Templo é admirável em justiça." E esse mesmo templo, irmãos, não penseis que seja outra coisa senão vós mesmos. Amai a justiça, e sereis o Templo de Deus.
10. "Preparando os montes na sua força" (v. 6). Não na força deles. Pois Ele preparou grandes pregadores, e a esses mesmos chamou montes; humildes em si mesmos, exaltados n'Ele. "Preparando os montes na sua força." Que diz um desses mesmos montes? "Nós mesmos, em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus que ressuscita os mortos." Aquele que confia em si mesmo, e não confia em Cristo, não é um daqueles montes que Ele preparou na sua força. "Preparando os montes na sua força: cingido de poder." "Poder," compreendo: "cingido," que é? Aqueles que põem Cristo no meio, a Ele "cingem," isto é, o rodeiam por todos os lados. Todos O temos em comum, por isso está Ele no meio: todos nós O cingimos, os que n'Ele cremos: e porque a nossa fé não provém da nossa força, mas do seu poder, por isso está Ele cingido no seu poder, não na nossa própria força.
11. "Que perturbas o fundo do mar" (v. 7). Isto Ele fez: vê-se o que fez. Pois preparou os montes na sua força, enviou-os a pregar: cingido está Ele pelos crentes em poder: e se agita o mar, se agita o mundo, e começa a perseguir os seus santos. "Cingido de poder: que perturbas o fundo do mar." Não disse: que perturbas o mar; mas "o fundo do mar." O fundo do mar é o coração dos homens ímpios. Pois assim como do fundo mais completamente tudo se agita, e o fundo mantém tudo firme: assim tudo quanto saiu — pela língua, pelas mãos, por diversos poderes, para a perseguição da Igreja — do fundo saiu. Pois se não houvesse a raiz da iniquidade no coração, todas essas coisas não teriam saído contra Cristo. O fundo Ele perturbou, talvez a fim de também esvaziar o fundo: pois no caso de certos homens maus, esvaziou o mar a partir do fundo, e fez do mar um lugar deserto. Outro Salmo diz isto: "Que transforma o mar em terra seca." Todos os homens ímpios e pagãos que creram eram mar, e foram feitos terra; com ondas salgadas a princípio estéreis, depois produtivas com o fruto da justiça. "Que perturbas o fundo do mar: o ruído de suas ondas, quem o suportará?" "Quem suportará," que é? Que homem suportará o ruído das ondas do mar, as ordens dos altos poderes do mundo? Mas de onde são suportadas? Porque Ele prepara os montes na sua força. Naquilo, pois, que disse "quem suportará," diz assim: nós mesmos, por nós mesmos, não poderíamos suportar essas perseguições, se Ele não desse a força.
12. "As nações se perturbarão" (v. 8). No princípio se perturbarão: mas aqueles montes preparados na força de Cristo, perturbam-se? Perturba-se o mar, contra os montes se arremessa: o mar se quebra, inabaláveis permanecem os montes. "As nações se perturbarão, e todos os homens temerão." Eis que agora todos temem: os que antes se perturbaram, agora todos temem. Os cristãos não temeram, e agora os cristãos são temidos. Todos os que perseguiam agora temem. Pois venceu Aquele que está cingido de poder; a Ele veio toda carne, de tal modo que os demais, pela sua própria diminuição, agora temem. E temerão todos os que habitam os confins da terra, por causa dos teus sinais. Pois milagres os Apóstolos fizeram, e por isso todos os confins da terra temeram e creram. "As saídas da manhã e da tarde Tu deleitarás:" isto é, Tu as tornas deleitáveis. Já nesta vida, o que nos é prometido? Há saídas pela manhã, há saídas pela tarde. Pela manhã, significa a prosperidade do mundo; pela tarde, significa a tribulação do mundo. ...No princípio, quando te prometia o lucro, era manhã para ti: mas agora se aproxima a tarde, e te tornaste triste. Mas Aquele que te deu uma saída pela manhã, dar-te-á também uma pela tarde. Do mesmo modo que desprezaste a manhã do mundo pela luz do Senhor, despreza também a tarde pelos sofrimentos do Senhor, dizendo à tua alma: Que mais me fará este homem, do que meu Senhor sofreu por mim? Que eu conserve a justiça, que não consinta na iniquidade. Que ele desafogue sua fúria na carne; o laço se romperá, e eu voarei para o meu Senhor, que me diz: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma." E quanto ao próprio corpo, Ele deu segurança, dizendo: "Um cabelo da vossa cabeça não perecerá." Nobremente aqui estabeleceu: "Tu deleitarás as saídas da manhã e da tarde." Pois se não te deleitas na própria saída, não te esforçarás para dela sair. Lanças tua cabeça no lucro prometido, se não te deleitas com a promessa do Salvador. E, de novo, cedes a quem te tenta e te aterroriza, se não encontras deleite Naquele que sofreu antes de ti, a fim de te fazer uma saída.
13. "Visitaste a terra, e a inebriaste" (v. 9). De onde inebriaste a terra? "O teu cálice inebriante, quão glorioso é!" "Visitaste a terra, e a inebriaste." Enviaste as tuas nuvens, choveram a pregação da verdade, inebriada está a terra. "Multiplicaste para a enriquecer." De onde? "O rio de Deus está cheio de água." Que é o rio de Deus? O povo de Deus. O primeiro povo foi cheio de água, com a qual o resto da terra pudesse ser regado. Ouvi-O prometendo água: "Se alguém tem sede, venha a Mim e beba: quem crê em Mim, rios de água viva correrão do seu ventre:" se rios, um só rio também; pois, em razão da unidade, muitos são um. Muitas Igrejas e uma só Igreja, muitos fiéis e uma só Esposa de Cristo: assim, muitos rios e um só rio. Muitos israelitas creram, e foram repletos do Espírito Santo; dali foram espalhados entre as nações, começaram a pregar a verdade, e do rio de Deus que estava cheio de água, foi regada toda a terra. "Preparaste alimento para eles: porque assim é o teu preparar." Não porque tenham merecido de Ti, a quem perdoaste os pecados: os méritos deles eram maus, mas Tu, por causa da tua misericórdia, "porque assim é o teu preparar," assim "preparaste alimento para eles."
14. "Embriaga Tu os seus sulcos" (v. 10). Que se façam, pois, primeiramente os sulcos, para que sejam embriagados: que a dureza do nosso peito se abra com a relha da palavra de Deus, "Embriaga Tu os seus sulcos: multiplica as suas gerações." Vemos: eles creem, e por eles crendo outros homens creem, e por causa destes outros creem; e não basta a um só homem que, tendo-se ele mesmo tornado crente, ganhe um. Assim se multiplica também a semente: poucos grãos se espalham, e campos se levantam. "Em suas gotas se alegrará, quando se erguer." Isto é, antes que porventura se dilate ao volume de um rio, "quando se erguer, em suas gotas", isto é, naquelas que lhe são próprias, "se alegrará". Pois sobre os que ainda são pequeninos, e sobre os fracos, gotejam-se algumas porções dos sacramentos, porque não podem receber a plenitude da verdade. Ouve de que modo goteja sobre os pequeninos, enquanto se erguem, isto é, em seu recente erguer-se, tendo pequena capacidade: diz o Apóstolo: "A vós não pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a pequeninos em Cristo." Quando diz "pequeninos em Cristo", fala deles como já erguidos, mas ainda não capazes de receber aquela copiosa sabedoria, da qual diz: "Falamos sabedoria entre os perfeitos." Que se alegre em suas gotas, enquanto se ergue e cresce, quando, fortalecido, receberá também a sabedoria: da mesma maneira que o infante é alimentado com leite, e se torna apto para o alimento sólido, e, contudo, a princípio, do próprio alimento sólido, para o qual não era apto, é que se faz o leite.
15. "Abençoarás a coroa do ano da Tua bondade" (v. 11). Semeia-se agora a semente, o que foi semeado cresce, haverá também a colheita. E agora, sobre a semente, o inimigo semeou joio; e levantaram-se maus entre os bons, falsos cristãos, tendo folha semelhante, mas não fruto semelhante. Pois propriamente se chamam joio aqueles que brotam à maneira do trigo, como o joio, como a aveia-brava, e todos os que têm a primeira folha igual. Por isso, da semeadura do joio assim diz o Senhor: "Veio um inimigo, e semeou sobre eles joio"; mas que fez ele ao grão? O trigo não é sufocado pelo joio; antes, pela tolerância do joio, aumenta-se o fruto do trigo. Pois o próprio Senhor disse a certos trabalhadores que desejavam arrancar o joio: "Deixai crescer ambos até a ceifa." ...Vence o diabo, e terás uma coroa. "Abençoarás a coroa do ano da Tua bondade." De novo faz referência à bondade de Deus, para que ninguém se glorie de seus próprios méritos. "Tuas planícies se encherão de abundância."
16. "Os confins do deserto engordarão, e os montes se cingirão de exultação" (v. 12). Planícies, montes, confins do deserto, os mesmos são também os homens. Planícies, por causa da igualdade: por causa da igualdade, digo, dali foram chamados planícies os povos justos. Montes, por causa da elevação: porque Deus eleva em Si mesmo os que se humilham. Confins do deserto são todas as nações. Por que confins do deserto? Desertas estavam, a elas nenhum Profeta havia sido enviado; achavam-se em situação semelhante à do deserto por onde ninguém passa. Nenhuma palavra de Deus foi enviada às nações: só ao povo de Israel pregaram os Profetas. Viemos ao Senhor; o trigo creu entre esse mesmo povo dos judeus. Pois disse Ele então aos discípulos: "Vós dizeis: longe está a ceifa; olhai para trás, e vede como estão brancas as terras para a ceifa." Houve, portanto, uma primeira colheita; haverá uma segunda na última era. A primeira colheita foi dos judeus, porque a eles foram enviados Profetas anunciando um Salvador que havia de vir. Por isso disse o Senhor a Seus discípulos: "Vede como estão brancas as terras para a ceifa": as terras, a saber, da Judeia. "Outros", diz Ele, "trabalharam, e vós entrastes nos seus trabalhos." Os Profetas trabalharam semeando, e vós, com a foice, entrastes nos seus trabalhos. Terminou-se, portanto, a primeira colheita, e dali, com esse mesmo trigo então purificado, foi semeado o mundo inteiro; de modo que se ergue outra colheita, que ao fim há de ser ceifada. Na segunda colheita foi semeado o joio; agora aqui há trabalho. Assim como naquela primeira colheita trabalharam os Profetas até que o Senhor viesse, assim nesta segunda colheita trabalharam os Apóstolos, e trabalham todos os pregadores da verdade, até que enfim o Senhor envie à colheita os Seus Anjos. Outrora, digo, havia um deserto, "mas os confins do deserto engordarão." Eis que, onde os Profetas nenhum som haviam dado, foi recebido o Senhor dos Profetas: "Os confins do deserto engordarão, e com exultação se cingirão os montes."
17. "Vestidos foram os carneiros das ovelhas" (v. 13): deve-se entender "com exultação". Pois com a mesma exultação com que se cingem os montes, com essa mesma são vestidos os carneiros das ovelhas. Os carneiros são os mesmos que os montes. Pois são montes por causa de graça mais eminente; carneiros, porque são guias dos rebanhos. ..."Clamarão": dali abundarão em trigo, porque clamarão. Que clamarão? "Um hino dirão." Pois uma coisa é clamar contra Deus, outra é dizer um hino; uma coisa é clamar iniquidades, outra é clamar os louvores de Deus. Se clamas em blasfêmia, produziste espinhos; se clamas em hino, abundas em trigo.
1. Este Salmo tem no título a inscrição: "Para o fim, um cântico de Salmo de Ressurreição." Quando ouvirdes "para o fim", sempre que os Salmos se repetem, entendei "para Cristo": dizendo o Apóstolo: "Pois o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê." De que modo, pois, aqui se canta a Ressurreição, ouvireis, e de quem é a Ressurreição, na medida em que Ele mesmo se digna dar e revelar. Pois a Ressurreição já sabemos nós, cristãos, que se cumpriu em nossa Cabeça, e nos membros há de ser. A Cabeça da Igreja é Cristo; os membros de Cristo são a Igreja. O que precedeu na Cabeça seguir-se-á no Corpo. Esta é a nossa esperança; por esta cremos, por esta suportamos e perseveramos em meio a tão grande perversidade deste mundo, confortando-nos a esperança, antes que essa esperança se torne realidade. ...Os judeus tinham a esperança da ressurreição dos mortos: e esperavam que só eles ressuscitariam para uma vida bem-aventurada, por causa da obra da Lei, e por causa das justificações das Escrituras, que só os judeus tinham, e os gentios não tinham. Crucificado foi Cristo; "cegueira em parte sobreveio a Israel, a fim de que entrasse a plenitude dos gentios", como diz o Apóstolo. A ressurreição dos mortos começa a ser prometida também aos gentios que creem em Jesus Cristo, que Ele ressuscitou. Por isso este Salmo é contra a presunção e o orgulho dos judeus, para consolo dos gentios que hão de ser chamados a essa mesma esperança da ressurreição.
2. ...Por isso começa: "Alegrai-vos em Deus." Quem? "Toda a terra" (v. 1). Não, portanto, somente a Judeia. Vede, irmãos, de que modo se expõe a universalidade da Igreja espalhada pelo mundo inteiro: e chorai não somente pelos judeus, que invejaram aos gentios essa graça, mas ainda mais pelos hereges lamentai. Pois se hão de ser chorados os que não foram reunidos, quanto mais os que, tendo sido reunidos, foram divididos? "Jubilai em Deus, toda a terra." Que é "jubilar"? Irrompei na voz dos regozijos, se não podeis na das palavras. Pois a "jubilação" não é feita de palavras, mas apenas se profere o som dos que se alegram, como de um coração que trabalha e traz à voz o prazer de uma coisa imaginada que não pode ser expressa. "Alegrai-vos em Deus, toda a terra": que ninguém jubile em uma parte; que toda a terra se alegre, que a Igreja Católica jubile. A Igreja Católica abraça o todo: quem quer que retenha uma parte e do todo esteja cortado, deve uivar, não jubilar.
3. "Mas cantai ao Seu nome" (v. 2). Que disse ele? Que por vosso "cantar" seja bendito o Seu nome. Mas o que é "cantar" (tanger)? Tanger é também tomar um instrumento chamado saltério, e, pelo tocar e ação das mãos, acompanhar as vozes. Se, portanto, jubilais para que Deus ouça, tangei também algo para que os homens vejam e ouçam: mas não para vosso próprio nome. ...Pois se, para que vós mesmos sejais glorificados, fazeis boas obras, damos a mesma resposta que Ele deu a certos homens tais: "Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa"; e ainda: "De outro modo, nenhuma recompensa tereis junto a vosso Pai que está nos Céus." Dirás: devo, então, esconder minhas obras, para não as fazer diante dos homens? Não. Mas que diz Ele? "Que brilhem vossas obras diante dos homens." Em dúvida, pois, permanecerei. De um lado me dizes: "Guardai-vos de não fazer vossa justiça diante dos homens"; de outro lado me dizes: "Que brilhem vossas boas obras diante dos homens"; que guardarei, que farei, que deixarei de fazer? Um homem tanto pode servir a dois senhores que ordenam coisas diferentes quanto a um só que ordena coisas diferentes. Não ordeno, diz o Senhor, coisas diferentes. Observa o fim, para o fim canta: com que fim o fazes, vê tu. Se por esta razão o fazes, para que sejas glorificado, eu o proibi; mas se por esta razão, para que Deus seja glorificado, eu o ordenei. Tangei, pois, não a vosso próprio nome, mas ao nome do Senhor vosso Deus. Tangei vós, seja Ele louvado; vivei bem, seja Ele glorificado. Pois de onde tendes esse mesmo viver bem? Se o tivésseis de vós mesmos para sempre, jamais teríeis vivido mal; se de vós mesmos o tivésseis, jamais teríeis feito senão viver bem. "Dai glória ao Seu louvor." Toda a nossa atenção Ele dirige ao louvor de Deus, nada nos deixa donde sejamos louvados. Gloriemo-nos, pois, tanto mais nisso, e alegremo-nos: a Ele nos apeguemos, nEle sejamos louvados. Ouvistes quando se lia o Apóstolo: "Vede a vossa vocação, irmãos, como não muitos sábios segundo a carne, não muitos poderosos, não muitos nobres, mas as coisas loucas do mundo escolheu Deus para confundir os sábios." ...Mas o Senhor escolheu depois também oradores; mas estes teriam sido soberbos, se Ele não tivesse primeiro escolhido pescadores; escolheu homens ricos; mas estes teriam dito que por causa de suas riquezas haviam sido escolhidos, se antes Ele não tivesse escolhido pobres; escolheu depois Imperadores; mas melhor é que, quando um Imperador tiver vindo a Roma, deponha ele a sua coroa, e chore junto ao monumento de um pescador, do que um pescador chore junto ao monumento de um Imperador. "Pois as coisas fracas do mundo escolheu Deus para confundir as fortes", etc. ...E que se segue? Concluiu o Apóstolo: "Para que nenhuma carne se glorie diante de Deus." Vede como Ele de nós tirou, para dar glória; tirou o que era nosso, para dar o que é Seu; tirou o vazio, para dar o pleno; tirou o inseguro, para dar o sólido. ...
4. "Dizei a Deus: Quão temíveis são as Tuas obras!" (v. 3). Por que temíveis, e não amáveis? Ouve tu outra voz de um Salmo: "Servi ao Senhor com temor, e exultai a Ele com tremor." Que significa isto? Ouve a voz do Apóstolo: "Com temor", diz ele, "e tremor, operai a vossa própria salvação." Por que com temor e tremor? Acrescentou a razão: "pois é Deus quem opera em vós tanto o querer quanto o operar, segundo a boa vontade." Se, portanto, Deus opera em ti, pela Graça de Deus operas bem, não por tua força. Portanto, se te alegras, teme também: para que porventura não seja tirado de um soberbo o que foi dado a um humilde. ...Irmãos, se contra os judeus de outrora, cortados da raiz dos Patriarcas, não devemos exaltar-nos, mas antes temer e dizer a Deus: "Quão temíveis são as Tuas obras": quanto menos devemos exaltar-nos contra as feridas recentes do corte! Antes haviam sido cortados judeus, enxertados gentios; do próprio enxerto foram cortados hereges; mas nem contra estes devemos exaltar-nos; para que porventura não mereça ser cortado aquele que se compraz em ultrajar os que foram cortados. Meus irmãos, uma voz de bispo, ainda que indigna, vos soou: rogamo-vos que vos acauteleis, quem quer que sejais na Igreja, não ultrajeis os que não estão dentro; mas antes orai, para que também eles estejam dentro. Pois Deus é capaz de novamente enxertá-los. Dos próprios judeus disse isto o Apóstolo, e assim se fez no caso deles. O Senhor ressuscitou, e muitos creram: não perceberam quando O crucificaram, contudo depois creram nEle, e foi-lhes perdoada tão grande transgressão. O derramamento do sangue do Senhor foi perdoado aos homicidas, para não dizer deicidas: "pois se o tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória." Ora, aos homicidas foi perdoado o derramamento do sangue dEle, o Inocente: e esse mesmo sangue que por loucura derramaram, por graça o beberam. ...Ó plenitude dos gentios, dize tu a Deus: "Quão temíveis são as Tuas obras!" e alegra-te de tal modo que temas, não te exaltes acima dos ramos cortados.
5. "Na multidão do Teu poder, Teus inimigos Te mentirão." Por isso diz: "a Ti mentirão os teus inimigos", a fim de que grande seja o Teu poder. Que é isto? Com mais atenção ouve. O poder de nosso Senhor Jesus Cristo apareceu mui principalmente na Ressurreição, de onde este Salmo recebeu o seu título. E, ressuscitando, apareceu a Seus discípulos. Não apareceu aos Seus inimigos, mas a Seus discípulos. Crucificado, apareceu a todos os homens; ressuscitado, aos que creem: de modo que depois também aquele que quisesse pudesse crer, e a quem cresse fosse prometida a ressurreição. Muitos homens santos operaram muitos milagres; nenhum deles, morto, ressuscitou: porque até mesmo aqueles que por eles foram trazidos à vida, foram trazidos à vida para morrer. ...Porque, pois, os judeus poderiam dizer, quando o Senhor fazia milagres, que Moisés fizera estas coisas, que Elias as fizera, que Eliseu as fizera: poderiam dizer para si estas palavras, porque também esses homens ressuscitaram mortos, e fizeram muitos milagres: por isso, quando dEle se exigiu um sinal, fazendo Ele menção do sinal peculiar que somente nEle mesmo haveria de ser, diz: "Esta geração perversa e provocadora busca um sinal, e não lhe será dado sinal, senão o sinal do profeta Jonas: pois assim como Jonas esteve no ventre da baleia três dias e três noites, assim estará também o Filho do Homem no coração da terra três dias e três noites." De que modo esteve Jonas no ventre da baleia? Não foi de tal modo que depois, vivo, fosse vomitado? O inferno foi para o Senhor o que a baleia foi para Jonas. Este sinal, peculiar a Si mesmo, Ele mencionou; este é o mais poderoso sinal. É mais poderoso viver de novo depois de ter morrido, do que não ter morrido. A grandeza do poder do Senhor, feito Homem, aparece na virtude da Ressurreição. ...
6. Observai também a própria mentira das falsas testemunhas no Evangelho, e vede como é acerca da Ressurreição. Pois quando ao Senhor se disse: "Que sinal nos mostras Tu, para que faças estas coisas?", além do que Ele havia dito acerca de Jonas, por outra semelhança falou também desta mesma coisa, para que soubésseis que este sinal peculiar havia sido especialmente indicado: "Destruí este Templo", diz Ele, "e em três dias o levantarei." E disseram eles: "Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e Tu o levantarás em três dias?" E o evangelista, explicando o que era, diz: "Mas isto Jesus dizia do Templo do Seu Corpo." Eis que este poder Seu disse Ele que mostraria aos homens na mesma coisa de onde havia dado a semelhança de um Templo, por causa da Sua carne, que era o Templo da Divindade nela oculta. Donde os judeus viam exteriormente o Templo, mas a Divindade que dentro habitava não viam. Dessas palavras do Senhor as falsas testemunhas forjaram uma mentira para dizer contra Ele, a partir daquelas mesmas palavras em que Ele mencionou a Sua futura Ressurreição, falando do Templo. Pois as falsas testemunhas, quando foram interrogadas sobre o que O tinham ouvido dizer, alegaram contra Ele: "Ouvimo-Lo dizer: Destruirei este Templo, e depois de três dias o levantarei." "Depois de três dias o levantarei", tinham ouvido; "destruirei", não tinham ouvido; mas tinham ouvido "destruí". Uma palavra mudaram, e algumas letras, a fim de sustentar o seu falso testemunho. Mas para quem mudas uma palavra, ó vaidade humana, ó fraqueza humana? Pelo Verbo, o Imutável, mudas tu uma palavra? Mudas a tua palavra; mudas a Palavra de Deus? ...Por que disseram eles que Tu havias dito: "Destruirei"; e não disseram o que Tu disseste: "destruí"? Foi, por assim dizer, para que se defendessem da acusação de destr[uncado]
Permaneçam os judeus em suas mentiras: para Ti, porque na multidão de Teu poder mentiram, cumpra-se o que se segue: "Adore-Te toda a terra, e salmodie a Ti, salmodie ao Teu nome, ó Altíssimo" (v. 4). Pouco antes, Baixíssimo, agora Altíssimo: Baixíssimo nas mãos de inimigos mentirosos; Altíssimo acima da cabeça dos Anjos que O louvam. Ó gentios, ó nações mais distantes, deixai os judeus mentirosos, vinde confessando. "Vinde e vede as obras do Senhor: terrível em conselhos sobre os filhos dos homens" (v. 5). Filho do Homem também Ele foi chamado, e verdadeiramente Filho do Homem se fez: verdadeiro Filho de Deus na forma de Deus; verdadeiro Filho do Homem na forma de servo: mas não julgueis essa forma pela condição dos demais homens semelhantes: "terrível" Ele é "em conselhos sobre os filhos dos homens". Os filhos dos homens tomaram conselho para crucificar a Cristo; sendo crucificado, Ele cegou os crucificadores. Que fizestes, pois, ó filhos dos homens, ao tomardes conselhos agudos contra vosso Senhor, em quem estava oculta a Majestade, e à vista mostrada a fraqueza? Vós tomáveis conselhos para destruir; Ele, para cegar e salvar: para cegar os soberbos, para salvar os humildes; mas para cegar esses mesmos soberbos a fim de que, cegados, se humilhassem; humilhados, confessassem; tendo confessado, fossem iluminados. "Terrível em conselhos sobre os filhos dos homens." Terrível, deveras. Eis que em parte sucedeu a cegueira a Israel: eis que os judeus, dos quais nasceu Cristo, estão fora; eis que os gentios, que eram contrários à Judeia, em Cristo estão dentro. "Terrível em conselhos sobre os filhos dos homens."
9. Que fez Ele, pois, pelo terror de Seu conselho? Converteu o mar em terra seca. Pois segue-se isto: "Que converteu o mar em terra seca" (v. 6). Mar era o mundo, amargo de salsugem, perturbado pela tempestade, enfurecido com as ondas das perseguições; mar era ele: verdadeiramente em terra seca o mar foi convertido; agora tem sede de água doce o mundo que de água salgada estava repleto. Quem fez isto? Aquele "que converteu o mar em terra seca". Ora, que diz a alma de todos os gentios? "Minha alma é para Ti como terra sem água." "Que converteu o mar em terra seca. No rio passarão a pé." Essas mesmas pessoas que foram convertidas em terra seca, embora antes fossem mar, "no rio a pé passarão". Que é o rio? O rio é toda a mortalidade do mundo. Observai um rio: umas coisas vêm e passam, outras que hão de passar sucedem-lhes. Não é assim com a água de um rio, que da terra brota e flui? Todo aquele que nasce há de necessariamente dar lugar a outro que há de nascer: e toda essa ordem de coisas que rola adiante é como que um rio. Nesse rio não se lance avidamente a alma; não se lance, mas fique quieta. E como há de passar por sobre os prazeres das coisas destinadas a perecer? Creia em Cristo, e passará a pé: passa tendo-O por Guia; a pé passa.
10. "Ali nos alegraremos nEle." Ó judeus, de vossas próprias obras vos gloriais: deixai de lado o orgulho de gloriar-vos de vós mesmos, tomai a Graça de vos alegrardes em Cristo. Pois nisso nos alegraremos, mas não em nós mesmos: "ali nos alegraremos nEle." Quando nos alegraremos? Quando tivermos passado o rio a pé. Vida eterna é prometida, ressurreição é prometida; ali nossa carne já não será rio: pois rio é agora, enquanto é mortalidade. Observai se há alguma idade que permaneça estável. Os meninos desejam crescer; e não sabem como, pelos anos que se sucedem, o prazo de sua vida se diminui. Pois os anos não se lhes acrescentam, mas se lhes subtraem à medida que crescem: assim como a água de um rio sempre se aproxima, mas da nascente se retira. E os meninos desejam crescer para escapar ao jugo dos maiores; eis que crescem, isso se dá rapidamente, chegam à juventude: guardem os que saíram da meninice, se puderem, sua juventude: também essa passa. Sucede a velhice: seja também a velhice eterna; com a morte é ela removida. Há, pois, um rio da carne que nasce. Esse rio da mortalidade, para que não o mine e arraste pela concupiscência das coisas mortais, facilmente o passa aquele que humildemente, isto é, a pé, o passa, sendo-lhe Guia Aquele que primeiro o passou, que da corrente no caminho até a morte bebeu, e por isso levantou a cabeça. Passando, pois, a pé esse rio, isto é, passando facilmente essa mortalidade que desliza, "ali nos alegraremos nEle." Mas agora em que, senão nEle, ou na esperança dEle? Pois ainda que agora nos alegremos, na esperança nos alegramos; mas então nEle nos alegraremos. E agora nEle, mas por esperança: "mas então face a face." "Ali nos alegraremos nEle."
11. Em quem? "Naquele que reina em Sua virtude para sempre" (v. 7). Pois que virtude temos nós, e é ela eterna? Se eterna fosse nossa virtude, não teríamos resvalado, não teríamos caído em pecado, não teríamos merecido a mortalidade penal. Ele, por Seu beneplácito, assumiu aquilo para onde nosso merecimento nos precipitou. "Que reina em Sua virtude para sempre." DEle sejamos feitos participantes, em cuja virtude seremos fortes, mas Ele na Sua própria. Nós, iluminados; Ele, luz que ilumina: nós, afastando-nos dEle, estamos nas trevas; afastar-se de Si mesmo Ele não pode. Com o calor dEle nos aquecemos; dali nos retirando, tínhamos esfriado; a Ele novamente nos aproximando, nos aquecemos. Falemos-Lhe, pois, para que nos conserve em Sua virtude, porque "nEle nos alegraremos, que reina em Sua virtude para sempre."
12. Mas essa coisa não é concedida somente aos judeus crentes. ... "Os olhos dEle olham para as nações." E que fazemos nós? Os judeus murmurarão; os judeus dirão: "o que a nós Ele deu, o mesmo a eles também; a nós, o Evangelho, a eles, o Evangelho; a nós, a Graça da Ressurreição, e a eles, a Graça da Ressurreição; de nada nos aproveita termos recebido a Lei, e termos vivido nas justificações da Lei, e termos guardado os mandamentos dos pais? De nada valerá? O mesmo a eles como a nós." Não contendam eles, não disputem. "Não se exaltem em si mesmos os amargurados." Ó carne miserável e que se desfaz, não és pecadora? Por que clama tua língua? Ouça-se a consciência. "Pois todos pecaram e necessitam da glória de Deus." Conhece-te a ti mesma, fraqueza humana. Recebeste a Lei, para que também transgressora da Lei pudesses ser: pois não guardaste nem cumpriste aquilo que recebeste. Chegou a ti, por causa da Lei, não a justificação que a Lei ordena, mas a transgressão que cometeste. Se, pois, abundou o pecado, por que invejas a Graça, que mais abundou? Não sejas amarga, pois "não se exaltem em si mesmos os amargurados." Parece, de certo modo, ter proferido uma maldição em "não se exaltem os amargurados"; sim, exaltem-se, mas não "em si mesmos." Sejam eles humilhados em si mesmos, exaltados em Cristo. Pois "quem se humilha será exaltado, e quem se exalta será humilhado." "Não se exaltem em si mesmos os amargurados."
1. Lembra-se vossa Caridade de que, em dois Salmos já tratados, excitamos nossa alma a bendizer ao Senhor, e com piedoso cântico dissemos: "Bendize, ó minha alma, ao Senhor." Se, pois, naqueles Salmos excitamos nossa alma a bendizer ao Senhor, neste Salmo bem se diz: "Tenha Deus piedade de nós, e nos abençoe" (v. 1). Bendiga nossa alma ao Senhor, e abençoe-nos Deus. Quando Deus nos abençoa, crescemos; e quando bendizemos ao Senhor, crescemos: a nós ambas as coisas aproveitam. Ele não é aumentado por nossa bênção, nem diminuído por nossa maldição. Aquele que amaldiçoa ao Senhor, a si mesmo se diminui; aquele que bendiz ao Senhor, a si mesmo se aumenta. Primeiro há em nós a bênção do Senhor, e a consequência é que também nós bendizemos ao Senhor. Aquela é a chuva; esta, o fruto. Rende-se, pois, como que fruto a Deus, o Lavrador, que sobre nós chove e nos cultiva. Cantemos estas palavras não com estéril devoção, não com voz vazia, mas com verdadeiro coração. Pois mui evidentemente Deus Pai foi chamado Lavrador. Diz o Apóstolo: "Lavoura de Deus sois, edifício de Deus sois." Nas coisas visíveis deste mundo, a vinha não é edifício, e o edifício não é vinha: mas nós somos a vinha do Senhor, porque Ele nos cultiva para o fruto; edifício de Deus somos, pois quem nos cultiva, em nós habita. E que diz o mesmo Apóstolo? "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. De modo que nem o que planta é algo, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento." Ele, pois, é quem dá o crescimento. São, porventura, aqueles os lavradores? Pois lavrador se chama aquele que planta, aquele que rega: mas o Apóstolo disse: "Eu plantei, Apolo regou." Perguntamos donde ele mesmo fez isso? Responde o Apóstolo: "Todavia não eu, mas a Graça de Deus comigo." Portanto, para onde quer que te voltes, seja pelos Anjos, encontrarás Deus teu Lavrador; seja pelos Profetas, o Mesmo é teu Lavrador; seja pelos Apóstolos, reconhece que o Mesmo é teu Lavrador. Que, pois, de nós? Porventura somos nós os operários daquele Lavrador, e isso também com forças a nós outorgadas por Ele mesmo, e por Graça concedida por Ele mesmo. ...
2. "Faça resplandecer Seu rosto sobre nós." Estarias porventura para perguntar o que é "abençoar-nos"? De muitas maneiras querem os homens ser abençoados por Deus: um quer ser abençoado, de modo a ter casa cheia das coisas necessárias desta vida; outro deseja ser abençoado, de modo a obter saúde de corpo sem defeito; outro quer ser abençoado, se porventura está enfermo, de modo a alcançar a saúde; outro, desejando filhos, e talvez entristecido porque nenhum lhe nasce, quer ser abençoado de modo a ter posteridade. E quem poderia enumerar os diversos desejos dos homens que querem ser abençoados pelo Senhor Deus? Mas qual de nós diria que não era bênção de Deus, se a lavoura lhe desse fruto, ou se a casa de algum homem abundasse em fartura das coisas temporais, ou se a própria saúde corporal fosse de tal modo mantida que não se perdesse, ou, se perdida, se recuperasse?...
3. "Toda alma que é abençoada é simples," não se apegando às coisas terrenas nem, com as asas coladas, rastejando; mas resplandecendo com o brilho das virtudes, nas gêmeas asas do gêmeo amor lança-se ao ar livre; e vê como lhe é retirado aquilo sobre que pisava, não aquilo sobre que repousava; e diz com segurança: "O Senhor deu, o Senhor tirou; como aprouve ao Senhor, assim se fez; seja bendito o nome do Senhor." ...Mas não diga porventura algum homem fraco: quando serei eu de tão grande virtude, como foi o santo Jó? A grandeza da árvore te admira, porque apenas há pouco nasceste: essa grande árvore, de que te admiras, sob cujos ramos e sombra te refrescas, foi uma vara. Mas temes, porventura, que te sejam tiradas essas coisas, quando tal te tiveres tornado? Observa que também dos maus elas são tiradas. Por que, pois, tardas a converter-te? Aquilo que temes perder sendo bom, talvez, se mau, o percas ainda assim. Se, sendo bom, as tiveres perdido, há junto de ti o Consolador que as tirou: o cofre se esvazia de ouro; o coração se enche de fé: por fora, pobre és; mas por dentro, rico és: tuas riquezas contigo levas, as quais não perderias, ainda que nu de um naufrágio escapasses. Por que não te encontra bom a perda que, porventura, se mau, hás de perder, visto que vês também os maus sofrerem perda? Mas com maior perda são feridos: vazia é a casa, mais vazia é a consciência. Todo mau que tiver perdido essas coisas nada tem a que se apegar por fora, nada tem por dentro em que possa repousar. Foge, quando sofreu a perda, do lugar onde antes, aos olhos dos homens, com a ostentação das riquezas costumava vangloriar-se; agora, aos olhos dos homens, vangloriar-se não pode: a si mesmo, por dentro, não retorna, porque nada tem. Não imitou a formiga, não recolheu para si grãos enquanto era verão. Que quis eu dizer com "enquanto era verão"? Enquanto tinha quietude de vida, enquanto tinha a prosperidade deste mundo, quando tinha lazer, quando feliz era chamado por todos os homens, esse era o seu verão. Devera ter imitado a formiga, devera ter ouvido a Palavra de Deus, devera ter recolhido grãos, e devera tê-los armazenado por dentro. Veio a prova da tribulação, veio sobre ele um inverno de entorpecimento, tempestade de temor, o frio da tristeza, seja perda, seja algum perigo à sua segurança, seja algum luto de sua família; ou alguma desonra e humilhação; era inverno; a formiga recorre àquilo que no verão recolheu; e [truncado]
5. "Para que conhecamos na terra o Teu caminho" (v. 2). "Na terra," isto é, nesta vida, "conheçamos o Teu caminho." Que é "o Teu caminho"? Aquele que a Ti conduz. Que reconheçamos para onde vamos, reconheçamos onde estamos enquanto caminhamos; nem nas trevas o podemos fazer. Longe estás Tu dos homens peregrinos; um caminho nos apresentaste, por meio do qual devemos retornar a Ti. "Reconheçamos na terra o Teu caminho." Qual é Sua via, que desejamos, "que conheçamos na terra o Teu caminho"? Vamos nós mesmos indagar isso, não aprendê-lo de nós mesmos. Podemos aprendê-lo do Evangelho: "Eu sou o Caminho," diz o Senhor: Cristo disse: "Eu sou o Caminho." Mas temes, porventura, extraviar-te? Acrescentou Ele: "E a Verdade." Quem se extravia na Verdade? Extravia-se aquele que se apartou da Verdade. A Verdade é Cristo, o Caminho é Cristo: caminha nEle. Temes morrer antes de a Ele chegares? "Eu sou a Vida: Eu sou," diz Ele, "o Caminho, e a Verdade, e a Vida." Como se dissesse: "Que temes? Por Mim caminhas, a Mim caminhas, em Mim repousas." Que significa, pois, "conheçamos na terra o Teu Caminho," senão "conheçamos na terra o Teu Cristo"? Mas responda o próprio Salmo: para que não penseis que de outras Escrituras se deva trazer testemunho, o qual porventura aqui falta: por repetição mostrou o que significava "que conheçamos na terra o Teu Caminho": e como se perguntasses: "Em que terra, que caminho?" — "Em todas as nações a Tua Salvação." Em que terra, perguntas? Ouve: "Em todas as nações." Que caminho buscas? Ouve: "A Tua Salvação." Não é, porventura, Cristo a sua Salvação? E que é aquilo que disse o velho Simeão, esse ancião, digo, no Evangelho, conservado cheio de anos até a infância do Verbo? Pois aquele ancião tomou em suas mãos o Verbo de Deus infante. Recusaria Aquele que dignou-Se estar no ventre, estar nas mãos de um ancião? O Mesmo estava no ventre da virgem como esteve nas mãos do ancião, infante fraco tanto nas entranhas como na mão do ancião, para nos dar fortaleza, Ele por quem foram feitas todas as coisas; e, se todas as coisas, até mesmo Sua própria mãe. Veio humilde, veio fraco, mas revestido de uma fraqueza destinada a mudar-se em fortaleza, porque, "ainda que tenha sido crucificado por fraqueza, todavia vive pela virtude de Deus," diz o Apóstolo. Estava, pois, nas mãos de um ancião. E que diz aquele ancião? Alegrando-se de que agora devia ser desligado deste mundo, vendo como em sua própria mão era tido Aquele por quem e em quem sua Salvação era sustentada; que diz ele? "Agora despedes," diz ele, "ó Senhor, o Teu servo em paz, pois meus olhos viram a Tua Salvação." Portanto, "Abençoe-nos Deus, e tenha piedade de nós; faça resplandecer Seu rosto sobre nós, para que conheçamos na terra o Teu Caminho!" Em que terra? "Em todas as nações?" Que Caminho? "A Tua Salvação."
6. Que se segue, porque a Salvação de Deus é conhecida em todas as nações? "Confessem-Te os povos, ó Deus" (v. 3); "confessem-Te," diz ele, "todos os povos." Levanta-se um herege, e diz: Na África tenho povos: e outro, de outra parte: E eu, na Galácia, tenho povos. Tu na África, ele na Galácia: exijo, pois, um que os tenha em toda parte. Vós ousastes, deveras, exultar naquela voz, quando ouvistes: "Confessem-Te os povos, ó Deus." Ouvi o versículo seguinte, como não fala de uma parte: "Confessem-Te todos os povos." Caminhai vós no Caminho juntamente com todas as nações; caminhai no Caminho juntamente com todos os povos, ó filhos da paz, filhos da Una Igreja Católica; caminhai no Caminho, vendo enquanto caminhais. Isto fazem os viandantes para enganar seu cansaço. Cantai neste Caminho; eu vos imploro por esse mesmo Caminho, cantai neste Caminho: cântico novo cantai, que ninguém ali cante os velhos: cantai as canções de amor de vossa pátria, que ninguém cante as velhas. Novo Caminho, novo viandante, novo cântico. Ouve o Apóstolo exortando-te a um cântico novo: "Se, pois, alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas passaram, eis que se fizeram novas." Cântico novo cantai no caminho, o qual aprendestes "na terra." Em que terra? "Em todas as nações." Portanto, também o cântico novo não pertence a uma parte. Aquele que numa parte canta, canta um cântico velho: seja o que for que queira cantar, canta um cântico velho, o homem velho canta: dividido está, carnal está. Verdadeiramente, na medida em que é carnal, é velho; e na medida em que é espiritual, é novo. Vede o que diz o Apóstolo: "Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais." Donde os proverbializa carnais? "Pois enquanto um diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo: não sois," diz ele, "carnais?" Portanto, no Espírito, canta tu um cântico novo no caminho seguro. Assim como os viandantes cantam, e muitas vezes de noite cantam. Coisas terríveis soam ao redor de tudo, ou antes, não soam ao redor, mas estão silenciosas ao redor; e quanto mais silenciosas, mais terríveis; contudo, mesmo os que temem os salteadores cantam. Quanto mais seguramente cantas tu em Cristo! Esse caminho não tem salteador, a não ser que, abandonando o caminho, caias nas mãos de um salteador. ...Por que temeis confessar, e em vossa confissão cantar um cântico novo juntamente com toda a terra; em toda a terra, na paz Católica, temes confessar a Deus, para que não te condene por teres confessado? Se, não tendo confessado, permaneces oculto, tendo confessado serás condenado. Temes confessar, tu que, por não confessares, não podes permanecer oculto: serás condenado se tiveres calado, quando poderias ter sido libertado por teres confessado. "Ó Deus, confessem-Te todos os povos."
7. E porque essa confissão não conduz ao castigo, continua ele e diz: "Alegrem-se e exultem as nações" (v. 4). Se os salteadores, depois de feita a confissão, lamentam diante do homem, alegrem-se os fiéis depois de confessarem diante de Deus. Se um homem é juiz, o algoz e o temor dele exigem do salteador uma confissão; sim, às vezes o temor arranca a confissão, a dor a extorque: e aquele que geme em tormentos, mas teme ser morto se confessar, suporta os tormentos quanto pode: e se for vencido pela dor, dá sua voz para a morte. De nenhum modo, pois, está alegre; de nenhum modo exultando: antes de confessar, a garra o dilacera; depois de ter confessado, o carrasco o conduz como réu condenado: miserável em todo caso. Mas "alegrem-se e exultem as nações." De onde? Por meio dessa mesma confissão. Por quê? Porque bom é Aquele a quem confessam: Ele exige a confissão, a fim de libertar o humilde; condena o que não confessa, a fim de punir o soberbo. Sê, pois, triste antes de confessares; depois de ter confessado, exulta, agora serás curado. Tua consciência havia acumulado maus humores, com tumor havia inchado, te atormentava, não te deixava repousar: o Médico aplica os fomentos das palavras, e às vezes a lanceta, aplica o bisturi do cirurgião pelo castigo da tribulação: reconhece tu a mão do Médico, confessa, saia todo mau humor e flua na confissão: agora exulta, agora alegra-te, o que restar será fácil de curar. ..."Alegrem-se e exultem as nações, pois julgas os povos com equidade." E para que os injustos não temam, acrescentou: "e diriges as nações sobre a terra." Depravadas eram as nações, e tortuosas eram as nações, perversas eram as nações; pelo mau merecimento de sua depravação, tortuosidade e perversidade, temiam a vinda do Juiz: vem a mão do Mesmo, estende-se misericordiosamente aos povos, são guiados para que caminhem pela via reta; por que temeriam o Juiz que há de vir, aqueles que primeiro O reconheceram como Corretor? A Sua mão entreguem-se eles; o próprio Ele dirige as nações sobre a terra. Mas as nações guiadas caminham na Verdade, exultam nEle, praticam boas obras; e se porventura entra alguma água (pois navegam no mar) pelos pequeníssimos furos, pelas frestas para dentro do porão, esgotando-a com boas obras, para que, entrando cada vez mais, não se acumule e afunde o navio, esgotando-a diariamente, jejuando, orando, fazendo esmolas, dizendo com puro coração: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" — dizendo tais palavras, caminha tu seguro, e exulta no caminho, canta no caminho. Não temas o Juiz: antes de seres crente, encontraste um Salvador. A ti, ímpio, Ele buscou para te redimir; a ti, redimido, abandonará Ele para te destruir? "E diriges as nações sobre a terra."
8. Exulta, alegra-se, exorta, repete esses mesmos versículos em exortação. "A terra deu o seu fruto" (v. 6). Que fruto? "Confessem-Te todos os povos." Terra era ela, cheia de espinhos; veio a mão de Alguém que os arrancou, veio um chamado por Sua majestade e misericórdia, a terra começou a confessar; agora a terra dá o seu fruto. Daria ela o seu fruto, se antes não fosse chovida? Daria ela o seu fruto, se antes não tivesse vindo do alto a misericórdia de Deus? Leiam-me eles, dizes tu, como a terra, sendo chovida, deu o seu fruto. Ouve o Senhor chovendo sobre ela: "Arrependei-vos, pois o reino dos céus está próximo." Ele chove, e essa mesma chuva é trovão; aterroriza: teme-O trovejando, e recebe-O chovendo. Eis que, depois dessa voz de um Deus que troveja e chove, depois dessa voz, vejamos algo tirado do próprio Evangelho. Eis aquela mulher de má fama na cidade que irrompeu em casa estranha, para a qual não fora convidada pelo anfitrião, mas por Um convidado fora chamada; chamada não com a língua, mas pela Graça. A enferma sabia que ali tinha um lugar, onde sabia que seu Médico estava sentado à mesa. Entrou ela, que era pecadora; não ousa aproximar-se senão aos pés: chora a Seus pés, lava-os com lágrimas, enxuga-os com os cabelos, unge-os com unguento. Por que te admiras? A terra deu o seu fruto. Essa coisa, digo, aconteceu por chover ali o Senhor por Sua própria boca; aconteceram as coisas de que lemos no Evangelho; e, chovendo Ele por Suas nuvens, pelo envio dos Apóstolos e por sua pregação da verdade, mais abundantemente a terra deu o seu fruto, e essa colheita agora encheu o orbe inteiro.
9. O fruto da terra foi primeiro em Jerusalém. Pois dali começou a Igreja: ali veio o Espírito Santo, e encheu por completo os homens santos reunidos num só lugar; fizeram-se milagres, com as línguas de todos os homens falavam. Foram cheios do Espírito de Deus, converteu-se o povo que ali estava, temendo e recebendo a chuva divina, pela confissão produziram tanto fruto, que puseram todos os seus bens em comum, fazendo distribuição aos pobres, a fim de que ninguém chamasse a si algo como próprio, mas todas as coisas lhes fossem comuns, e tivessem uma só alma e um só coração para com Deus. Pois lhes fora perdoado o sangue que haviam derramado, perdoara-o o Senhor por Sua clemência, a fim de que agora aprendessem até mesmo a beber aquilo que haviam derramado. Grande naquele lugar é o fruto: a terra deu o seu fruto, fruto grande, e fruto excelentíssimo. Deveria, por acaso, aquela terra sozinha dar o seu fruto? "Que Deus nos abençoe, o Deus nosso, que Deus nos abençoe" (v. 7). Ainda há de Ele nos abençoar: pois a bênção costuma perceber-se sobretudo e propriamente na multiplicação. Provemo-lo no Gênesis; vede as obras de Deus: Deus fez a luz, e Deus fez separação entre a luz e as trevas: à luz chamou dia, e às trevas chamou noite. Não se diz que abençoou a luz. Pois essa mesma luz retorna e se transmuda por dias e noites. Chama ao céu firmamento entre as águas e as águas: não se diz que abençoou o céu: separou o mar da terra seca, e nomeou ambos, à terra seca chamou terra, e ao ajuntamento das águas chamou mar: nem aqui se diz que Deus abençoou. ...
10. Como havemos de querer que a nós Ele venha? Vivendo bem, obrando bem. Não nos comprazam as coisas passadas; não nos retenham as presentes; não fechemos, por assim dizer, o ouvido com a cauda, não apertemos o ouvido contra o chão; para que pelas coisas passadas não sejamos retidos de ouvir, para que pelas presentes não fiquemos enredados e impedidos de meditar nas coisas futuras; estendamo-nos para o que está diante, esqueçamos as coisas passadas. E aquilo pelo qual agora labutamos, pelo qual agora gememos, pelo qual agora suspiramos, do qual agora falamos, que em parte, por menor que seja, já percebemos, e ainda não podemos receber, havemos de recebê-lo, havemos de gozá-lo plenamente na ressurreição dos justos. Renovar-se-á a nossa juventude como a da águia, contanto que quebremos o nosso homem velho contra a Rocha de Cristo. Sejam verdadeiras, irmãos, as coisas que se dizem da serpente, ou as que se dizem da águia, ou seja antes fábula de homens do que verdade, a verdade contudo está nas Escrituras, e não sem razão as Escrituras falaram disto: façamos o que quer que isso signifique, e não nos afadiguemos em descobrir até que ponto é isso verdadeiro. Sê tu tal, que a tua juventude possa renovar-se como a da águia. E sabe que ela não pode renovar-se, senão que o teu homem velho na Rocha se tenha quebrado: isto é, senão pelo auxílio da Rocha, senão pelo auxílio de Cristo, não poderás renovar-te. Não sejas, por causa do prazer da vida passada, surdo à palavra de Deus: não te deixes tanto reter e enredar pelas coisas presentes, que digas: Não tenho tempo para ler, não tenho tempo para ouvir. Isto é apertar o ouvido contra o chão. Não sejas, pois, tal: mas sê tal como do outro lado achas que deves ser, isto é, de modo que esqueças as coisas passadas, estendas-te para as que estão diante, a fim de que possas quebrar o teu homem velho na Rocha. E se algumas comparações te tiverem sido feitas, se as tiveres achado nas Escrituras, crê nelas: se não as tiveres achado ditas senão por boato, não creias muito nelas. A coisa em si talvez seja assim, talvez não seja assim. Aproveita-te tu disso, aproveite essa comparação para a tua salvação. Não queres aproveitar-te desta comparação, aproveita-te de outra qualquer, não importa, contanto que o faças: e, estando seguro, espera o Reino de Deus, para que a tua oração não contenda contigo. Pois, ó homem cristão, quando dizes: Venha o teu Reino, como o dizes, "venha o teu Reino"? Examina o teu coração: vê, eis que "venha o teu Reino": Ele te clama: "Eu venho": não temes? Muitas vezes dissemos à vossa Caridade: nada é pregar a verdade, se o coração dissente da língua; e nada é ouvir a verdade, se o fruto não segue à audição. Deste lugar elevado, por assim dizer, vos falamos: mas quanto estamos abaixo dos vossos pés em temor, Deus o sabe, que é propício aos humildes; pois as vozes dos homens que louvam não nos dão tanto prazer quanto a devoção dos homens que confessam, e os feitos dos homens já justos. E como não temos prazer senão nos vossos progressos, mas por esses louvores quanto estamos em perigo, Ele o sabe, a quem rogamos que nos livre de todos os perigos, e se digne conhecer-nos e coroar-nos juntamente convosco, salvos de toda provação, em Seu Reino.
2. "Levante-se Deus, e sejam dispersos os Seus inimigos" (v. 1). Já isto se cumpriu: Cristo ressuscitou, "que é sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre," e os Seus inimigos foram dispersos por todas as nações, a saber, os judeus; naquele mesmo lugar onde exerciam as suas inimizades, sendo vencidos na guerra, e dali dispersos por todos os lugares: e agora odeiam, mas temem, e nesse mesmo temor fazem o que se segue: "E fujam de Sua face os que O odeiam." A fuga da mente é, de fato, o temor. Pois na fuga carnal, para onde fogem eles da face Daquele que em toda parte mostra a eficácia de Sua presença? "Para onde", diz ele, "me apartarei do teu Espírito, e para onde fugirei da tua face?" Com a mente, portanto, não com o corpo, fogem; a saber, por temerem, não por se esconderem; e não daquela face que não veem, mas daquela que são obrigados a ver. Pois face d'Ele foi chamada a Sua presença em Sua Igreja. ...
1. Deste Salmo, o título não parece necessitar de discussão trabalhosa: pois simples e fácil se mostra. Pois assim está posto: "Para o fim, para o próprio Davi, Salmo de um Cântico." Mas em muitos Salmos já vos lembramos o que significa "para o fim: pois o fim da Lei é Cristo para justiça a todo aquele que crê:" Ele é o fim que aperfeiçoa, não o que consome ou destrói. Contudo, se alguém se esforçar por indagar o que significa "Salmo de um Cântico": por que não "Salmo" ou "Cântico" somente, mas ambos; ou qual seja a diferença entre Salmo de Cântico e Cântico de Salmo, porque assim mesmo estão inscritos os títulos de alguns Salmos: achará porventura algo que deixamos para homens mais agudos e de mais vagar do que nós. ...
3. "Como se desfaz a fumaça, desfaçam-se eles" (v. 2). Pois se ergueram, dos fogos do seu ódio, até à vaporosa soberba, e contra o Céu pondo a sua boca, e clamando: "Crucifica-O, crucifica-O", a Ele, feito cativo, escarneceram, a Ele, pendente na cruz, zombaram: e, logo vencidos por Aquele mesmo contra quem se inchavam vitoriosos, se dissiparam. "Como se derrete a cera diante do fogo, assim pereçam os pecadores diante da face de Deus." Ainda que porventura, nesta passagem, se tenha referido àqueles homens cuja dureza de coração se dissolve em lágrimas de penitência: pode também isto entender-se, que ameaça o juízo futuro; porque, ainda que neste mundo, como fumaça, ao se erguerem, isto é, ao se ensoberbecerem, se dissiparam, virá a eles por fim a condenação derradeira, de modo que da Sua face perecerão para sempre, quando em Sua própria glória houver aparecido, como fogo, para castigo dos ímpios, e luz dos justos.
4. Segue-se, por último: "E alegrem-se os justos, e exultem diante de Deus, deleitem-se em alegria" (v. 3). Pois então hão de ouvir: "Vinde, benditos de Meu Pai, recebei o reino." "Alegrem-se", portanto, os que trabalharam, "e exultem diante de Deus." Pois não haverá nessa exultação, como se fosse diante dos homens, qualquer vã jactância; mas (será) diante Daquele que sem erro olha para aquilo que Ele concedeu. "Deleitem-se em alegria": já não exultando com tremor como neste mundo, enquanto "a vida humana sobre a terra é uma provação." Em segundo lugar, volta-se ele para as mesmas pessoas a quem deu tão grande esperança, e a elas, enquanto aqui vivem, fala e exorta: "Cantai a Deus, salmodiai ao Seu nome" (v. 4). Já sobre isto, na exposição do Título, dissemos antes o que nos pareceu conveniente. Canta a Deus quem vive para Deus: salmodia ao Seu nome quem opera para Sua Glória. Cantando assim, salmodiando assim, isto é, vivendo assim, operando assim, "abri-Lhe caminho", diz ele, "a Ele que subiu acima do poente." Abri caminho a Cristo: para que, pelos formosos pés dos que anunciam boas novas, os corações dos que creem, muitos tenham caminho aberto a Ele. Pois o Mesmo é Ele que subiu acima do "poente": ou porque a vida nova de quem a Ele se converte não O recebe, senão que a vida velha se tenha posto pelo renunciar a este mundo, ou porque subiu acima do poente, quando, ressuscitando, venceu a queda do corpo. "Pois O Senhor é o Seu nome." O qual, se o tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória.
5. "Exultai diante d'Ele", ó vós a quem foi dito: "Cantai a Deus, salmodiai ao nome d'Ele, abri-Lhe caminho a Ele que subiu acima do poente", também "exultai diante d'Ele": como quem está "triste, mas sempre a alegrar-se." Pois enquanto abris caminho a Ele, enquanto preparais o caminho por onde Ele venha e possua as nações, haveis de sofrer, diante dos homens, muitas coisas dolorosas. Mas não somente não desfaleçais, mas até exultai, não diante dos homens, mas diante de Deus. "Alegrando-vos na esperança, sofrendo na tribulação": "exultai diante d'Ele." Pois os que diante dos homens vos atribulam, "serão atribulados pela face d'Ele, o Pai dos órfãos e Juiz das viúvas" (v. 5). Pois julgam-nos desolados, a esses dos quais, muitas vezes, pela espada da Palavra de Deus, tanto os pais são apartados dos filhos, como os maridos das esposas: mas as pessoas destituídas e enviuvadas têm a consolação "do Pai dos órfãos e Juiz das viúvas": têm a consolação Daquele a quem dizem: "Pois meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me tomou a si": e os que esperaram no Senhor, perseverando em orações noite e dia: pela face de quem serão atribulados aqueles homens, quando houverem visto que nada lhes aproveita, porque o mundo inteiro se foi após Ele. Pois desses órfãos e viúvas, isto é, das pessoas destituídas de participação na esperança deste mundo, edifica o Senhor para Si um Templo: sobre o que, continuando, diz: "O Senhor está em Seu lugar santo."
6. Pois qual seja o Seu lugar, ele o revelou, quando disse: "Deus, que faz habitar os homens de um só modo numa casa" (v. 6): homens de um só ânimo, de um só sentimento: este é o lugar santo do Senhor. Pois, tendo dito: "O Senhor está em Seu lugar santo": como se perguntássemos em que lugar, já que Ele está por inteiro em toda parte, e nenhum lugar de espaço corpóreo O contém; logo acrescentou algo, para que não O buscássemos fora de nós mesmos, mas antes, sendo de um só ânimo, habitando numa casa, merecêssemos que também Ele mesmo Se dignasse habitar entre nós. Este é o lugar santo do Senhor, aquilo que a maioria dos homens busca ter, um lugar onde, na oração, sejam ouvidos. ... Pois assim como, na grande casa de um homem, o senhor dela não permanece em qualquer lugar indistintamente, mas em algum lugar sem dúvida mais reservado e honroso: assim Deus não habita em todos os homens que estão em Sua casa (pois não habita nos vasos de desonra), mas Seu lugar santo são aqueles a quem "Ele faz habitar de um só modo", ou "de uma só maneira, numa casa." Pois o que em grego se chamam tropoi, tanto por modi quanto por mores (modos e costumes), em latim pode traduzir-se. Nem o escritor grego tem "Quem faz habitar", mas somente "faz habitar." "O Senhor", pois, "está em Seu lugar santo." ...
7. Mas, para provar que por Sua Graça edifica para Si este lugar, não por causa de méritos precedentes daqueles de quem o edifica, vede o que se segue: "Que conduz para fora os homens algemados, em fortaleza." Pois solta os pesados grilhões dos pecados, com que estavam algemados de modo que não podiam andar no caminho dos mandamentos: mas os conduz para fora "em fortaleza", a qual antes de Sua Graça não tinham. "Semelhantemente os provocadores que habitam nos sepulcros": isto é, de todo modo mortos, absortos em obras mortas. Pois estes O provocam à ira, resistindo à justiça: pois aqueles algemados talvez quisessem andar, e não podem, e estão rogando a Deus que o possam, e Lhe dizem: "Das minhas necessidades conduze-me para fora." Sendo ouvidos, dão graças, dizendo: "Quebraste as minhas cadeias." Mas estes provocadores que habitam nos sepulcros são daquele gênero que, noutra passagem, a Escritura assinala, dizendo: "Do morto, como daquele que não é, perece a confissão." Donde vem este dito: "Quando o pecador chegar ao fundo dos males, despreza." Pois uma coisa é anelar, outra é lutar contra a justiça: uma coisa é desejar libertar-se do mal, outra é defender antes as próprias más ações do que confessá-las: ambos os gêneros, contudo, a Graça de Cristo conduz para fora em fortaleza. Com que fortaleza, senão aquela com que hão de lutar contra o pecado até ao sangue? Pois de cada gênero se fazem pessoas aptas, com que construir o Seu lugar santo: uns sendo desatados, outros sendo ressuscitados. Pois também da mulher que Satanás mantivera atada por dezoito anos, por Seu mandado desatou as cadeias; e a morte de Lázaro, por Sua voz, venceu. Aquele que fez estas coisas nos corpos, pode fazer coisas mais admiráveis nos caracteres, e fazer que homens de um só modo habitem numa casa: "conduzindo para fora os homens algemados em fortaleza, semelhantemente os provocadores que habitam nos sepulcros."
8. "Ó Deus, quando saías diante do teu povo" (v. 7). Percebe-se a Sua saída, quando Ele Se manifesta em Suas obras. Mas não Se manifesta a todos os homens, senão àqueles que sabem espreitar as Suas obras. Pois não falo agora daquelas obras que são conspícuas a todos os homens, o Céu e a terra e o mar e todas as coisas que neles há; mas das obras com que conduz para fora os homens algemados em fortaleza, semelhantemente os provocadores que habitam nos sepulcros, e faz que de um só modo habitem numa casa. Assim sai Ele diante de Seu povo, isto é, diante daqueles que percebem esta Sua Graça. Segue-se, por fim: "Quando passavas pelo deserto, a terra se moveu" (v. 8). Um deserto eram as nações, que não conheciam a Deus: um deserto eram, onde por Deus mesmo nenhuma lei fora dada, onde nenhum profeta habitara, e predissera o Senhor que havia de vir. "Quando", pois, "passavas pelo deserto", quando eras pregado nas nações; "a terra se moveu", à fé foram movidos os homens terrenos. Mas donde se moveu? "Pois os céus destilaram diante da face de Deus." Porventura aqui alguém se recorde daquele tempo, quando no deserto Deus ia adiante de Seu povo, diante dos filhos de Israel, de dia na coluna de nuvem, de noite no resplendor de fogo; e determina que assim é que "os céus destilaram diante da face de Deus", pois chovera o maná sobre Seu povo: que a mesma coisa é também o que se segue, "o monte Sinai diante da face do Deus de Israel", "com chuva voluntária separando Deus para a tua herança" (v. 9), a saber, o Deus que no monte Sinai falou a Moisés, quando deu a Lei, de modo que o maná é a chuva voluntária, que Deus separou para Sua herança, isto é, para Seu povo; porque a eles somente assim alimentou, não também às outras nações: de modo que o que a seguir diz, "e se enfraqueceu", entende-se da própria herança enfraquecida; pois eles, murmurando, desdenhosamente aborreciam o maná, ansiando por alimentos de carne, e por aquelas coisas com que se haviam acostumado a viver no Egito. ... Por fim, todos aqueles homens foram derrubados no deserto, nem se achou nenhum deles, exceto dois, digno de entrar na terra da promessa. Ainda que, mesmo que nos filhos deles se diga ter-se aperfeiçoado aquela herança, devemos mais prontamente ater-nos a um sentido espiritual. Pois todas essas coisas lhes aconteceram em figura; até que rompesse o dia, e se removessem as sombras.
9. Abra-nos, pois, o Senhor àquele que bate; e sejam revelados os segredos de Seus mistérios, tanto quanto Ele mesmo se dignar. Pois para que a terra se movesse à Verdade, quando ao deserto dos gentios passava o Evangelho, "os Céus destilaram diante da face de Deus." Estes são os Céus, dos quais em outro Salmo se canta: "Os Céus proclamam a glória de Deus." ... Assim também aqui, "os Céus destilaram"; mas "diante da face de Deus." Pois também estas mesmas pessoas foram "salvas pela fé, e isto não vem de si mesmas, mas é dom de Deus, não das obras, para que ninguém porventura se ensoberbeça. Pois somos feitura Sua", "que faz que os homens de um só modo habitem numa casa."
10. Mas o que é isto que se segue, "o monte Sinai diante da face do Deus de Israel"? Deve entender-se "destilaram"; de modo que aquilo que chamou pelo nome de Céus, o mesmo quis que se entendesse sob o nome de monte Sinai também; assim como dissemos que se chamam montes aqueles que se chamaram Céus? Nem, neste sentido, nos deve mover que diga "monte", não montes, ao passo que ali se chamaram "Céus", não Céu: pois também em outro Salmo, depois de se ter dito: "Os Céus proclamam a glória de Deus": à maneira da Escritura, que repete o mesmo sentido em palavras diferentes, diz-se em seguida: "E o firmamento anuncia as obras de Suas mãos." Primeiro disse "Céus", não "Céu": e contudo depois não "firmamentos", mas "firmamento." Pois Deus chamou ao firmamento Céu, como no Gênesis está escrito. Assim, pois, Céus e Céu, montes e monte, não são coisa diferente, mas a mesmíssima coisa: assim como Igrejas, muitas, e a Igreja Una, não são coisa diferente, mas a mesmíssima coisa. Por que, pois, "monte Sinai, que gera para a servidão"? como diz o Apóstolo. Deve porventura entender-se no monte Sinai a própria Lei, como aquilo que "os Céus destilaram diante da face de Deus", a fim de que a terra se movesse? E é este o próprio movimento da terra, quando os homens se turbam, porque não podem cumprir a Lei? Mas, se assim é, esta é a chuva voluntária, sobre a qual, em confirmação, diz: "Chuva voluntária, separando Deus para a tua herança": porque "não fez assim a nenhuma nação, e os Seus juízos não lhes manifestou." Separou, pois, Deus esta chuva voluntária para Sua herança, porque deu a Lei. "E se fez fraca", ou a Lei, ou a herança. Pode entender-se que a Lei se fez fraca, porque não foi cumprida; não que em si mesma seja fraca, mas porque faz fracos os homens, ameaçando castigo, e não auxiliando pela graça. Pois também a própria palavra usou o Apóstolo, quando diz: "Pois o que era impossível à Lei, naquilo em que se fez fraca pela carne": querendo dar a entender que pelo Espírito se cumpre: contudo, ele mesmo disse que se fez fraca, porque pelos homens fracos não pode ser cumprida. Mas a herança, isto é, o povo, sem dúvida alguma se entende ter-se feito fraca pelo lhes ter sido dada a Lei. Pois "a Lei entrou, para que a transgressão abundasse." Mas o que se segue, "Mas Tu a aperfeiçoaste", refere-se assim à Lei, enquanto se aperfeiçoa, isto é, se cumpre, segundo o que diz o Senhor no Evangelho: "Não vim para revogar a Lei, mas para cumprir." ... Há nestas palavras ainda outro sentido: que me parece mais de aprovar...
"Teus animais habitarão nela" (v. 10). "Teus", não os deles próprios; a Ti sujeitos, não livres para si mesmos; de Ti necessitados, não a si mesmos suficientes. Por fim, ele prossegue: "Preparaste em Tua doçura para o necessitado, ó Deus." "Em Tua doçura", não no merecimento dele. Pois é necessitado aquele que foi feito fraco, a fim de que seja aperfeiçoado: reconheceu-se indigente, para que fosse repleto. Esta é aquela doçura de que em outro lugar se diz: "O Senhor dará doçura, e nossa terra dará o seu fruto"; a fim de que a boa obra se faça não por temor, mas por amor; não por pavor da pena, mas por amor da justiça. Pois esta é a verdadeira e sã liberdade. Mas o Senhor a preparou para o que carece, não para o que abunda, cujo opróbrio é essa mesma pobreza: da qual, de modo semelhante, em outro lugar se diz: "Opróbrio a estes homens que abundam, e desprezo aos homens soberbos." Pois chamou de soberbos aqueles a quem chamou de abundantes.
12. "O Senhor dará a Palavra" (v. 11): a saber, alimento para os Seus animais que habitarão nela. Mas o que hão de operar esses animais a quem Ele dará a palavra? Senão o que se segue: "Aos que anunciam o Evangelho com muita virtude." Com que virtude, senão com aquela força com que conduz os homens acorrentados? Talvez também aqui fale daquela virtude com que, ao pregar o Evangelho, operaram sinais admiráveis. Quem, pois, "dará a Palavra aos homens que anunciam o Evangelho com muita virtude"? "O Rei", diz ele, "das virtudes do Amado" (v. 12). O Pai, portanto, é Rei das virtudes do Filho. Pois pelo Amado, quando não se especifica pessoa alguma que seja amada, por substituição de nome entende-se o Filho Único. Não é o próprio Filho Rei das Suas virtudes, a saber, das virtudes que a Ele servem? Porque com muita virtude o Rei das Virtudes dará a Palavra aos homens que pregam o Evangelho, daquele de quem se disse: "O Senhor das Virtudes, Ele é o Rei da Glória"? Mas o não ter dito Rei das Virtudes, e sim "Rei das Virtudes do amado", é expressão bastante frequente nas Escrituras, se alguém observar: coisa que principalmente aparece naqueles casos em que já se exprimiu o próprio nome da pessoa, de modo que não se pode de modo algum duvidar que é a mesma pessoa de quem algo se diz. Desse gênero é também o que no Pentateuco em muitas passagens se encontra: "E Moisés o fez, como o Senhor ordenou a Moisés." Não disse aquilo que é usual em nossas expressões, E Moisés fez, como o Senhor lhe ordenou; mas: "Moisés fez como o Senhor ordenou a Moisés", como se uma pessoa fosse o Moisés a quem ordenou, e outra pessoa o Moisés que fez, quando é a própria e mesma pessoa. No Novo Testamento tais expressões são dificílimas de encontrar. ... "O Rei", portanto, "das virtudes do Amado" assim pode ser entendido, como se se dissesse o Rei de Suas virtudes, porque tanto Rei das Virtudes é Cristo, quanto o Amado é o próprio mesmo Cristo. Contudo, este sentido não tem tão grande necessidade que nenhum outro possa ser aceito: porque também o Pai pode ser entendido como Rei das virtudes de Seu Filho Amado, a quem o próprio Amado diz: "Tudo o que é Meu é Teu, e o que é Teu é Meu." Mas se porventura se perguntar se Deus Pai do Senhor Jesus Cristo pode também ser chamado Rei, não sei se alguém ousaria negar-Lhe este nome, na passagem em que o Apóstolo diz: "Mas ao Rei dos séculos, imortal, invisível, o único Deus." Porque ainda que isto se diga da própria Trindade, nela está também Deus Pai. Mas se não entendermos carnalmente: "Ó Deus, dá Teu juízo ao Rei, e Tua justiça ao Filho do Rei": não sei se se disse outra coisa senão "a Teu Filho." Rei, portanto, é também o Pai. Donde aquele verso deste Salmo, "Rei das virtudes do Amado", pode ser entendido de ambos os modos. Quando, pois, disse: "O Senhor dará a Palavra aos homens que anunciam o Evangelho com muita virtude": porque a própria virtude por Ele é governada, e serve a quem por Ele lhe é dada; o próprio Senhor, diz ele, que dará a Palavra aos homens que pregam o Evangelho com muita virtude, é o Rei das virtudes do Amado.
13. Em seguida, segue-se: "Do Amado, e da beleza da Casa, para dividir os despojos." A repetição pertence ao elogio. ... Mas quer seja repetida, quer seja recebida como dita uma só vez, a palavra que foi posta, a saber, "Amado", suponho que assim deve ser entendido o que se segue: "e da beleza de uma casa para dividir os despojos", como se se dissesse: "Escolhido até para dividir os despojos da beleza de uma casa", isto é, escolhido até para dividir os despojos. Pois belo fez Cristo a Sua Casa, isto é, a Igreja, dividindo-Lhe os despojos: da mesma maneira que o corpo é belo na distribuição dos membros. "Despojos", ademais, chamam-se os que são arrancados dos inimigos vencidos. O que isto seja, o Evangelho nos ensina na passagem em que lemos: "Ninguém entra na casa do forte para saquear os seus vasos, se antes não houver amarrado o forte." Cristo, portanto, amarrou o demônio com laços espirituais, vencendo a morte e ascendendo do Inferno acima dos Céus: amarrou-o pelo Sacramento de Sua Encarnação, porque, embora nada encontrasse Nele digno de morte, contudo lhe foi permitido matar: e daquele assim amarrado tomou os vasos como se fossem despojos. Pois ele operava nos filhos da desobediência, de cuja incredulidade se servia para operar sua própria vontade. Estes vasos, o Senhor, purificando-os pela remissão dos pecados, santificando estes despojos arrancados do inimigo prostrado e amarrado, os dividiu para a beleza de Sua Casa; fazendo uns apóstolos, outros profetas, outros pastores e doutores, para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo. Pois assim como o corpo é um só, e tem muitos membros, e ainda que todos os membros do corpo sejam muitos, o corpo é um só: assim também é Cristo. "Acaso são todos apóstolos? São todos profetas? São todos poderes? Têm todos os dons de curas? Falam todos em línguas? Interpretam todos?" "Mas todas estas coisas as opera um só e mesmo Espírito, dividindo a cada um os seus próprios dons, como Ele quer." E tal é a beleza da casa, à qual se dividem os despojos, que um amante dela, inflamado por esta formosura, exclama: "Ó Senhor, amei a graça de Tua Casa."
14. Ora, no que se segue, ele se volta a falar aos próprios membros de que se compõe a beleza da Casa, dizendo: "Se dormis no meio das sortes, asas de pomba prateadas, e entre os seus ombros no frescor do ouro" (v. 13). Primeiro, devemos examinar aqui a ordem das palavras, de que modo a sentença se conclui; a qual certamente aguarda, quando se diz: "Se dormis": em segundo lugar, naquilo que diz, a saber, "asas de pomba prateadas", se no número singular deve ser entendido como sendo "desta asa" dela, ou no plural, como "estas asas". Mas o número singular o grego exclui, onde sempre no plural o lemos escrito. Mas ainda é incerto se sejam estas asas; ou se, "ó asas", de modo que pareça falar às próprias asas. Se, pois, pelas palavras que precederam, aquela sentença se conclui, de modo que a ordem é: "O Senhor dará a Palavra aos homens que anunciam o Evangelho com muita virtude, se dormis no meio das sortes, ó asas de pomba prateadas": ou pelas que se seguem, de modo que a ordem é: "Se dormis no meio das sortes, as asas de pomba prateada com neve se embranquecerão em Selmon": isto é, as próprias asas se embranquecerão, se dormirdes no "meio das sortes": de modo que se entenda que ele diz isto àqueles que são divididos para a beleza da Casa, como que despojos; isto é, se dormis no "meio das sortes", ó vós que sois divididos para a beleza da Casa, "pela manifestação do Espírito para proveito", de modo que "a um, na verdade, é dado pelo Espírito a palavra da sabedoria, a outro a palavra da ciência", etc., se, pois, dormis no meio das sortes, então as asas de pomba prateada com neve se embranquecerão em Selmon. Pode também ser assim: "Se vós, sendo as asas de pomba prateadas, dormis no meio das sortes, com neve se embranquecerão em Selmon", de modo que se entendam aqueles homens que, pela graça, recebem a remissão dos pecados. Donde também da própria Igreja se diz no Cântico dos Cânticos: "Quem é esta que sobe embranquecida?" Pois esta promessa de Deus se estende através do Profeta, dizendo: "Se os vossos pecados forem como o escarlate, como a neve os embranquecerei." Pode também assim ser entendido, de modo que naquilo que foi dito, "asas de pomba prateadas", se entenda "sereis", de modo que este é o sentido: ó vós que, como que despojos para a beleza da casa, sois divididos, se dormis no "meio das sortes", asas de pomba prateadas sereis: isto é, a lugares mais altos sereis elevados, aderindo, contudo, ao vínculo da Igreja. Pois penso que nenhuma outra pomba prateada pode aqui ser melhor percebida do que aquela de que se disse: "Uma só é a Minha pomba." E prateada é ela porque com os divinos ditos foi instruída: pois os ditos do Senhor, em outro lugar, são chamados "prata refinada pelo fogo, purgada sete vezes." Grande bem, portanto, é dormir no meio das sortes, as quais alguns querem que sejam os Dois Testamentos, de modo que "dormir no meio das sortes" é repousar na autoridade destes Testamentos, isto é, aquiescer no testemunho de um ou de outro Testamento: de modo que, sempre que algo deles se produz e se prova, toda contenda se encerra em pacífica aquiescência. ...
15. "Entre os ombros", contudo. Esta é, na verdade, uma parte do corpo, é uma parte na região do coração, nas partes posteriores, contudo, isto é, nas costas: parte esta daquela pomba prateada de que ele diz estar "no verdor do ouro", isto é, no vigor da sabedoria, vigor este que penso não poder ser melhor entendido do que pelo amor. Mas por que nas costas, e não no peito? Ainda que me admire em que sentido esta palavra é posta em outro Salmo, onde se diz: "Entre os Seus ombros te dará sombra, e sob Suas asas esperarás": porquanto sob as asas nada se pode fazer sombra senão o que estiver sob o peito. E em latim, na verdade, "entre os ombros" talvez em algum grau possa ser entendido de ambas as partes, tanto diante quanto atrás, de modo que tomemos os ombros como as partes que têm a cabeça entre si; e em hebraico talvez a palavra seja ambígua, que também deste modo pode ser entendida: mas a palavra que está no grego, metafrena, não significa outra coisa senão o que está nas costas, que é "entre os ombros". Estará por isso ali o verdor do ouro, isto é, a sabedoria e o amor, porque naquele lugar estão, de certo modo, as raízes das asas? Ou porque naquele lugar é carregado aquele leve fardo? Pois que são as próprias asas, senão os dois mandamentos do amor, dos quais depende toda a Lei e os Profetas? Que é este mesmo leve fardo, senão este mesmo amor que nestes dois mandamentos se cumpre? Pois o que quer que seja difícil num mandamento é leve para quem ama. Nem por outra razão se entende retamente o dito: "Meu fardo é leve", senão porque Ele dá o Espírito Santo, por meio do qual o amor é derramado em nossos corações, a fim de que no amor façamos livremente o que aquele que o faz por temor faz servilmente; nem é amante do que é reto aquele que preferiria, se possível fosse, que o que é reto não fosse ordenado.
16. Pode também indagar-se, quando não se disse "se dormis nas sortes", mas "no meio das sortes", o que seja isto, "no meio das sortes". Esta expressão, na verdade, se mais exatamente fosse traduzida do grego, significaria "no meio, entre as sortes", o que não se encontra em nenhum dos intérpretes que li: suponho, portanto, que o que foi dito significa quase o mesmo, a saber, a expressão "no meio das sortes". Daqui, pois, explicarei o que me parece. Muitas vezes esta palavra costuma ser usada para unir e pacificar uma coisa e outra, de modo que não discordem mutuamente: como quando Deus está estabelecendo...
18. "Enquanto Aquele que está acima dos céus distingue reis sobre Ela, com neve se embranquecerão em Selmon" (v. 14). Enquanto Ele, "acima dos céus" — Ele que ascendeu sobre todos os céus para que cumprisse todas as coisas — "enquanto Ele distingue reis sobre Ela", isto é, sobre esta mesma "Pomba prateada". Pois o Apóstolo prossegue e diz que "Ele mesmo deu uns como Apóstolos, e outros como Profetas, e outros como Evangelistas, e outros como Pastores e Doutores." Pois que outra razão há para distinguir reis sobre Ela, senão para a obra do Ministério, para a edificação do Corpo de Cristo, quando Ela mesma é o Corpo de Cristo? Mas são chamados reis por reinar: e o que mais senão sobre as concupiscências da carne, para que o pecado não reine em seu corpo mortal, obedecendo aos desejos dele, para que não entreguem os seus membros como instrumentos de iniquidade ao pecado, mas se entreguem a Deus, como que vivos dentre os mortos, e os seus membros como instrumentos de justiça a Deus? Pois assim se distinguirão os reis dos estrangeiros, porque não puxam o jugo com os incrédulos: em segundo lugar, distinguindo-se pacificamente uns dos outros pelos próprios dons. Pois nem todos são Apóstolos, nem todos Profetas, nem todos Doutores, nem todos têm dons de curas, nem todos falam em línguas, nem todos interpretam. "Mas todas estas coisas as opera um só e mesmo Espírito, dividindo a cada um os próprios dons, como Ele quer." Ao dar este Espírito, Aquele que está acima dos Céus distingue reis sobre a Pomba prateada. Deste Espírito Santo, quando, enviado a Sua Mãe cheia de graça, o Anjo falava, a ela perguntando de que modo poderia acontecer que fosse anunciada como havendo de gerar, visto que não conhecia varão... ele diz: "O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te fará sombra", isto é, te cobrirá de sombra, "pelo que aquele Santo que de ti há de nascer será chamado Filho de Deus." Aquela "sombra", de novo, se entende como defesa contra o ardor das concupiscências carnais: donde não em concupiscência carnal, mas em crença espiritual, a Virgem concebeu a Cristo. Mas a sombra consiste de luz e corpo: e além disso, o "Verbo" que "era no princípio", aquela verdadeira Luz, a fim de que uma sombra meridiana se fizesse para nós; "o Verbo", digo, "se fez Carne, e habitou entre nós."
19. Mas a este monte chama de "monte de Deus, monte fecundo, monte cheio de coalhada" (v. 15), ou "monte pingue". Mas aqui, que outra coisa chamaria de pingue senão fecundo? Pois há também um monte chamado por este nome, a saber, Selmon. Mas que monte devemos entender por "o monte de Deus, monte fecundo, monte cheio de coalhada", senão o próprio Senhor Cristo? De quem também outro Profeta diz: "Manifestar-se-á, nos últimos tempos, o monte do Senhor preparado no cume dos montes"? Ele mesmo é o "Monte cheio de coalhada", por causa dos pequeninos que hão de ser nutridos com a graça como se fosse com leite; monte rico para fortalecê-los e enriquecê-los pela excelência dos dons; pois até o próprio leite, de onde se faz a coalhada, de modo admirável significa a graça; pois flui do transbordamento das entranhas maternas, e de uma doce compaixão é derramado livremente para os pequeninos. Mas em grego o caso é duvidoso, se seja nominativo ou acusativo: pois naquela língua monte é de gênero neutro, não masculino: por isso alguns tradutores latinos não o traduziram "ao Monte de Deus", mas "o Monte de Deus". Eu, porém, penso que "a Selmon, o Monte de Deus" é melhor, isto é, "ao" Monte de Deus que se chama Selmon: conforme a interpretação que, como melhor pudemos, expusemos acima.
20. Em segundo lugar, na expressão "Monte de Deus, monte cheio de coalhada", monte "fecundo", que ninguém ouse a partir daqui comparar o Senhor Jesus Cristo com o restante dos Santos, que também eles são chamados montes de Deus. ... Pois não faltaram homens que O chamassem, uns João Batista, outros Elias, outros Jeremias, ou um dos Profetas; ele se volta para eles e diz: "Por que imaginais montes cheios de coalhada, um monte", diz ele, "no qual aprouve a Deus habitar"? (v. 16). "Por que imaginais?" Pois assim como eles são luz, porque também a eles foi dito: "Vós sois a Luz do mundo", mas algo diferente foi chamado "a verdadeira Luz que ilumina todo homem". Assim são eles montes; mas bem diferente é o Monte "preparado no cume dos montes". Estes montes, portanto, ao suportarem aquele Monte, são gloriosos: um dos quais montes diz: "mas longe de mim esteja gloriar-me, senão na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo": de modo que "não se glorie em si mesmo, mas se glorie no Senhor". "Por que", então, "imaginais montes cheios de coalhada", aquele "Monte no qual aprouve a Deus habitar"? Não porque nos demais homens Ele não habite, mas porque neles habita através d'Ele. "Pois n'Ele habita toda a plenitude da Divindade", não em sombra, como no templo edificado pelo rei Salomão, mas "corporalmente", isto é, solidamente e em verdade. ... "Pois há um só Deus, e um só Mediador de Deus e dos homens, o Homem Cristo Jesus", Monte dos montes, como Santo dos santos. Donde diz: "Eu neles, e Tu em Mim." "Por que, então, imaginais montes cheios de coalhada, o monte no qual aprouve a Deus habitar nele?" Pois aqueles montes cheios de coalhada, aquele Monte, o Senhor há de habitar até o fim, para que algo sejam eles, a quem diz: "pois sem Mim nada podeis fazer."
21. Assim se cumpre também o que se segue: "O Carro de Deus é de dez mil, multiplicado": ou "de dezenas de milhares, multiplicado": ou "dez vezes mil vezes multiplicado" (v. 17). Pois uma palavra grega, que ali foi usada, murioplasion, cada intérprete latino a verteu como melhor pôde, mas em latim não se pôde exprimir adequadamente: pois mil, entre os gregos, se chama xilia, e as miríades são um número de dezenas de milhares: pois uma miríade são dez mil. Assim, uma vasta multidão de santos e crentes, que, carregando a Deus, se tornam de certo modo o carro de Deus, ele significou sob este nome. Permanecendo n'Ele e guiando-o, Ele o conduz, como se fosse Seu Carro, até o fim, como que a algum lugar determinado. Pois "o princípio é Cristo; em segundo lugar, os que são de Cristo, na Sua vinda; depois o fim." Esta é a Santa Igreja: que é o que se segue, "milhares de homens exultantes". Pois eles se alegram em esperança, até que sejam conduzidos ao fim, o qual agora aguardam com paciência. Pois admiravelmente, quando disse "milhares de homens exultantes", imediatamente acrescentou: "O Senhor está neles." Para que não nos admiremos do porquê se alegram, "O Senhor está neles." Pois por muitas tribulações nos convém entrar no reino de Deus, mas "o Senhor está neles". Portanto, ainda que estejam como que tristes, contudo sempre exultantes, embora não agora naquele mesmo fim, ao qual ainda não chegaram, contudo em esperança se alegram, e na tribulação são pacientes: pois "o Senhor está neles, em Sina, no lugar santo." Nas interpretações dos nomes hebraicos, encontramos Sina interpretado como mandamento: e tem também outras interpretações, mas penso que esta é mais conforme à presente passagem. Pois, dando a razão pela qual aqueles milhares se alegram, dos quais consta o Carro de Deus, "O Senhor", diz ele, "está neles, em Sina, no lugar santo": isto é, o Senhor está neles, no mandamento; o qual mandamento é santo, como diz o Apóstolo: "Portanto, a lei, na verdade, é santa, e o mandamento é santo, e justo, e bom." ...
22. Em seguida, voltando o seu discurso ao próprio Senhor, "Subiste", diz ele, "ao alto, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons nos homens" (v. 18). Disto o Apóstolo assim faz menção, assim expõe, falando do Senhor Cristo: "Mas a cada um de nós", diz ele, "foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo: pelo que diz: Ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens." ... E não nos perturbe que o Apóstolo, fazendo menção deste mesmo testemunho, não diga "recebeste dons nos homens", mas "deu dons aos homens". Pois ele, com autoridade apostólica, assim falou segundo a fé de que o Filho é Deus com o Pai. Pois quanto a isto Ele deu dons aos homens, enviando-lhes o Espírito Santo, que é o Espírito do Pai e do Filho. Mas, porquanto o próprio nome Cristo se entende em Seu Corpo, que é a Igreja, pelo que também Seus membros são os Seus santos e crentes, donde a eles se diz: "Mas vós sois o Corpo de Cristo, e membros", sem dúvida Ele mesmo também recebeu dons nos homens. Ora, Cristo subiu ao alto, e está sentado à destra do Pai: mas se Ele não estivesse também aqui na terra, dali não teria clamado: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" Quando Ele mesmo diz: "Porquanto a um dos Meus menores o fizestes, a Mim o fizestes": por que duvidamos de que Ele recebe, em Seus membros, os dons que os membros d'Ele recebem?
23. Mas o que é "levaste cativo o cativeiro"? É porque venceu a morte, que mantinha cativos aqueles sobre quem reinava? Ou chamou de cativeiro aos próprios homens, que eram mantidos cativos sob o demônio? Cujo mistério contém também o próprio título deste Salmo, a saber, "quando a casa estava sendo edificada depois do cativeiro": isto é, a Igreja depois da entrada dos Gentios. Chamando, pois, de cativeiro os próprios homens que eram mantidos cativos, como quando se fala "do serviço" e se entendem também os que servem, esse mesmo cativeiro, diz ele, foi levado cativo por Cristo. Pois por que não seria feliz o cativeiro, se até para bom propósito os homens podem ser capturados? Donde a Pedro foi dito: "Doravante pescarás homens." Levados cativos, portanto, são eles porque capturados, e capturados porque subjugados, sendo enviados sob aquele suave jugo, sendo libertados do pecado de que eram servos, e sendo feitos servos da justiça de que eram filhos. Donde também Ele mesmo está neles, que deu dons aos homens, e recebeu dons nos homens. E assim, naquele cativeiro, naquela servidão, naquele carro, sob aquele jugo, não há milhares de homens lamentando, mas milhares de homens exultantes. Pois o Senhor está neles, em Sina, no lugar santo. ...
24. Mas que acrescenta ele em seguida? "Pois os que não creem para habitar" (v. 18): ou, como têm alguns códices, "Pois não crendo para habitar". Pois que são os homens que não creem, senão os que não creem? A quem isto tenha sido dito, não é fácil perceber. Pois como se se estivesse dando razão das palavras acima, quando se havia dito "Levaste cativo o cativeiro, recebeste dons entre os homens", acrescentou-se em continuação: "pois os que não creem para habitar", isto é, não crendo que haveriam de habitar. Que é isto? De quem diz ele isto? Acaso aquele cativeiro, antes de passar a um bom cativeiro, mostrou de onde era um mau cativeiro? Pois por não crerem eram possuídos pelo inimigo, "que opera nos filhos da incredulidade: entre os quais também vós andastes outrora, quando vivíeis entre eles". Pelos dons, portanto, de sua graça, Aquele que recebeu dons entre os homens levou cativo aquele cativeiro. Pois não criam que haveriam de habitar. Pois a fé dali os libertou, para que agora, crendo, habitem na Casa de Deus, tornando-se eles mesmos também Casa de Deus, e Carro de Deus, composto de milhares de homens que se alegram.
25. Donde aquele que cantava estas coisas, no Espírito prevendo-as, também ele, cheio de alegria, prorrompeu num hino, dizendo: "Bendito é o Senhor Deus, bendito é o Senhor Deus de dia em dia" (v. 19). O que alguns códices têm: "por dia diariamente", porque os gregos assim o têm, hmeran kaq hmeran: o que mais exatamente se expressaria por "por dia diariamente". Cuja expressão penso que significa o mesmo que aquilo que se disse, a saber, "de dia em dia". Pois diariamente faz Ele isto até o fim, leva cativo o cativeiro, recebendo dons entre os homens.
26. E porque Ele conduz aquele carro até o fim, prossegue e diz: "Uma próspera viagem fará para nós o Deus de nossas saúdes, o nosso Deus, o Deus de fazer seguros os homens" (v. 20). Grandemente é aqui a graça enaltecida. Pois quem estaria seguro, se Ele mesmo não o fizesse são? Mas para que não ocorresse ao pensamento: Por que, pois, morremos, se por sua graça fomos feitos seguros? logo abaixo acrescentou: "e do Senhor é a saída da morte": como se dissesse: Por que te indignas, ó sorte da humanidade, por teres a saída da morte? Também a saída de teu próprio Senhor não foi outra senão a da morte. Antes, pois, consola-te do que te indignes: pois também "do Senhor é a saída da morte". "Pois pela esperança fomos salvos: mas se o que não vemos esperamos, com paciência o aguardamos". Pacientemente, pois, suportemos até mesmo a própria morte, pelo exemplo daquele que, embora por nenhum pecado fosse devedor à morte, e fosse o Senhor, de quem ninguém podia tirar a vida, mas Ele mesmo por si a depôs, teve, contudo, Ele mesmo a saída da morte.
27. "Contudo, Deus quebrará em pedaços as cabeças de seus inimigos, o couro cabeludo dos homens que caminham em suas transgressões" (v. 21): isto é, exaltando-se demasiadamente, sendo demasiado soberbos em suas transgressões, nas quais ao menos deveriam ser humildes, dizendo: "Senhor, sê misericordioso comigo, pecador". Mas Ele quebrará em pedaços as suas cabeças: pois aquele que se exalta será humilhado. E assim, ainda que do Senhor seja a saída da morte, não obstante o mesmo Senhor, porque era Deus, e morreu segundo a carne por sua própria vontade, não por necessidade, "quebrará em pedaços as cabeças de seus inimigos": não somente daqueles que O escarneceram e crucificaram, e meneavam a cabeça, e diziam: "Se é Filho de Deus, desça da Cruz"; mas também de todos os homens que se levantam contra a sua doutrina, e escarnecem de sua morte como se fosse de um homem. Pois esse mesmo de quem se disse: "Salvou a outros, a si mesmo não pode salvar", é o "Deus de nossas saúdes", e é o "Deus de salvar os homens": mas por exemplo de humildade e de paciência, e para apagar a cédula de nossos pecados, quis Ele que a saída da morte fosse sua própria, para que não temêssemos aquela morte, mas antes esta, da qual por meio daquela nos livrou. Contudo, ainda que escarnecido e morto, "quebrará em pedaços as cabeças de seus inimigos", dos quais diz: "Levanta-me Tu, e eu lhes retribuirei": seja bens por males, enquanto a Si mesmo submete as cabeças dos que creem, seja coisas justas por injustas, enquanto castiga as cabeças dos soberbos. Pois de um e outro modo são despedaçadas e quebradas as cabeças dos inimigos, quando da soberba são derrubados, seja pela humildade sendo emendados, seja para as profundezas do inferno sendo lançados.
28. "Disse o Senhor: De Basã eu voltarei" (v. 22): ou, como têm alguns códices, "De Basã eu farei voltar". Pois Ele faz voltar para que sejamos seguros, de quem acima se disse: "Deus de nossas saúdes, e Deus de salvar os homens". Pois a Ele também em outro lugar se diz: "Ó Deus das virtudes, faze-nos voltar, e mostra a tua face, e seguros seremos". Também em outro lugar: "Faze-nos voltar, ó Deus de nossas saúdes". Mas disse: "De Basã eu voltarei". Basã se interpreta confusão. Que é, pois, "eu voltarei da confusão", senão que fica confundido por causa de seus pecados aquele que roga à misericórdia de Deus que estes sejam removidos? Daí é que o publicano não ousava sequer levantar os olhos ao Céu: assim, ao considerar-se a si mesmo, estava confundido; mas desceu justificado, porque "disse o Senhor: De Basã eu voltarei". Basã também se interpreta seca: e retamente se entende que o Senhor volta da seca, isto é, da escassez. Pois os que a si mesmos se julgam em abundância, embora estejam famintos, e cheios, embora estejam de todo vazios, não se convertem. ... "Eu voltarei ao fundo do mar". Se "eu voltarei", por que "ao fundo do mar"? A Si mesmo, na verdade, o Senhor faz voltar, quando salvificamente converte, e não é Ele certamente o próprio fundo do mar. Porventura nos engana a expressão latina, e ali se pôs "ao fundo" como tradução do que significa "profundamente"? Pois Ele não converte a si mesmo, mas converte aqueles que no fundo deste mundo jazem submersos pelo peso dos pecados, naquele lugar onde alguém convertido diz: "Das profundezas clamei a Ti, Senhor". Mas se não é "eu voltarei", e sim "serei voltado até o fundo do mar", entende-se que nosso Senhor disse como, por sua própria misericórdia, foi Ele voltado até o fundo do mar, para libertar até mesmo aqueles que eram pecadores em condição mais desesperada. Embora em um códice grego eu tenha encontrado, não "ao fundo", mas "nas profundezas", isto é, en buqoij: o que reforça o sentido anterior, porque também ali Deus converte a Si os homens que clamam desde as profundezas. E ainda que se entenda que Ele mesmo ali é voltado, para libertar também tal sorte de gente, não é fora de propósito: e assim, então, Ele volta, ou então, para libertá-los, é de tal modo voltado que seu pé se tinge de sangue. O que ao próprio Senhor diz o Profeta: "Para que se tinja o teu pé em sangue" (v. 23): isto é, para que eles mesmos, que a Ti se convertem, ou para libertar os quais Tu és voltado, ainda que no fundo do mar pelo peso da iniquidade tenham sido submersos, façam tão grande progresso por tua Graça (pois onde abundou o pecado, ali superabundou a graça), que se tornem teu pé entre os teus membros, para pregar o teu Evangelho, e por causa do teu nome, prolongando um longo martírio, até o sangue combatam. Pois assim, como julgo, mais convenientemente se percebe o seu pé tingido em sangue.
29. Por fim, acrescenta: "A língua de teus cães, dos inimigos, por meio dEle mesmo", chamando esses mesmos que estavam para lutar pela fé do Evangelho, até de cães, como que latindo por seu Senhor. Não aqueles cães, dos quais diz o Apóstolo: "Guardai-vos dos cães"; mas aqueles que comem das migalhas que caem da mesa de seus senhores. Pois tendo confessado isto, a mulher cananeia mereceu ouvir: "Ó mulher, grande é a tua fé, seja feito contigo como queres". Cães louváveis, não abomináveis; guardando fidelidade para com seu senhor, e diante de sua casa latindo contra os inimigos. Não somente disse "de cães", mas "de teus cães": nem se louvam os seus dentes, mas se louva a sua língua: pois não foi, na verdade, sem propósito, nem sem grande mistério, que Gedeão foi mandado conduzir apenas aqueles que lambessem a água do rio como cães; e de tal sorte não mais de trezentos entre tão grande multidão foram encontrados. Em cujo número está o sinal da Cruz por causa da letra T, que nos caracteres numerais gregos significa trezentos. De tais cães, também em outro Salmo se disse: "Serão voltados à tarde, e fome padecerão como cães". Pois também alguns cães foram repreendidos pelo Profeta Isaías, não porque fossem cães, mas porque não sabiam latir, e amavam dormir. Em qual lugar, na verdade, ele mostrou que, se tivessem vigiado e latido por seu Senhor, teriam sido cães louváveis: assim como são louvados aqueles de quem se diz: "A língua de teus cães". ...
30. "Viram-se os teus passos, ó Deus" (v. 24). Os passos são aqueles com que Tu vieste através do mundo, como se naquele carro fosses percorrer o orbe redondo; cujo carro de nuvens Ele dá a entender serem os seus santos e fiéis no Evangelho, onde diz: "Desde agora vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens". Deixando de lado aquela vinda em que Ele será Juiz de vivos e mortos, "Desde agora", diz Ele, "vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens". Estes "teus passos foram vistos", isto é, foram manifestados, pela revelação da graça do Novo Testamento. Donde se disse: "Quão belos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam boas novas!" Pois esta graça e estes passos jaziam ocultos no Antigo Testamento: mas quando veio a plenitude do tempo, e aprouve a Deus revelar o seu Filho, para que fosse anunciado entre os gentios, "viram-se os teus passos, ó Deus: os passos de meu Deus, do Rei que está no lugar santo". Em que lugar santo, senão em seu Templo? "Pois o Templo de Deus é santo", diz ele, "o qual sois vós".
31. Mas para que aqueles passos pudessem ser vistos, "iam adiante os príncipes conjuntos com os que salmodiavam, no meio das donzelas tocadoras de tamborins" (v. 25). Os príncipes são os Apóstolos: pois iam adiante, para que os povos viessem em multidões. "Iam adiante" anunciando o Novo Testamento: "conjuntos com os que salmodiavam", pelas boas obras dos quais, que eram até mesmo visíveis, como que com instrumentos de louvor, Deus era glorificado. Mas esses mesmos príncipes estão "no meio das donzelas tocadoras de tamborins", a saber, num honroso ministério: pois assim no meio são postos os ministros à frente das novas Igrejas; pois isto é "donzelas": com a carne subjugada louvando a Deus; pois isto é "tocadoras de tamborins", porque os tamborins são feitos de pele seca e estendida.
32. Portanto, para que ninguém tome estas palavras em sentido carnal, e por causa delas conceba em sua mente certas danças de lascívia, ele prossegue e diz: "Nas igrejas bendizei ao Senhor" (v. 26): como se dissesse: por que, ao ouvirdes falar de donzelas, tocadoras de tímpanos, pensais em prazeres lascivos? "Nas igrejas bendizei ao Senhor." Pois as Igrejas vos são indicadas por esta insinuação mística: as Igrejas são as donzelas, adornadas de nova graça; as Igrejas são as tocadoras de tímpanos, sendo espiritualmente harmoniosas pela carne castigada. "Nas Igrejas", pois, "bendizei ao Senhor Deus, desde as fontes de Israel." Pois dali Ele primeiro escolheu aqueles a quem fez fontes. Pois dali foram escolhidos os Apóstolos; e eles primeiro ouviram: "Quem beber da água que Eu lhe der, jamais terá sede, mas nele se fará uma fonte de água que jorra para a vida eterna."
33. "Ali está Benjamim, o mais jovem, em êxtase" (v. 27). Ali está Paulo, o último dos Apóstolos, que diz: "Pois também eu sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim." Mas evidentemente "em êxtase", estando todos os homens maravilhados ante milagre tão grande quanto o de sua vocação. Pois o êxtase é a saída da mente: coisa que por vezes acontece por medo; mas por vezes por alguma revelação, sofrendo a mente separação dos sentidos corporais, a fim de que aquilo que há de ser representado seja representado ao espírito. Donde também assim se pode entender o que aqui foi escrito, a saber, "em êxtase"; pois quando àquele perseguidor foi dito do Céu: "Saulo, Saulo, por que me persegues?", tirada dele a luz dos olhos da carne, respondeu ele ao Senhor, a quem via em espírito, mas os que estavam com ele ouviram a voz dele respondendo, ainda que não vissem a quem ele falava. Também aqui se pode entender ser aquele êxtase seu, do qual ele mesmo, falando, diz que conheceu um homem arrebatado até o terceiro Céu; mas se no corpo, ou se fora do corpo, não sabia: mas que ele, arrebatado ao Paraíso, ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem falar. "Príncipes de Judá, os chefes deles, príncipes de Zabulon, príncipes de Neftali." Visto que indica os Apóstolos como príncipes, entre os quais está mesmo "Benjamim, o mais jovem, em êxtase", palavras em que ninguém duvida que é indicado aquele Paulo; ou quando sob o nome de príncipes são indicados nas Igrejas todos os homens excelentes e dignissimos de imitação: que significam estes nomes das tribos de Israel?... Pois os nomes são hebraicos: dos quais se diz que Judá se interpreta confissão, Zabulon habitação de fortaleza, Neftali minha dilatação. Todas estas palavras nos indicam os mais próprios príncipes da Igreja, dignos de sua chefia, dignos de imitação, dignos de honras. Pois os Mártires ocupam nas Igrejas o lugar mais alto, e pela coroa de santo mérito eles se sobressaem. Mas todavia no martírio a primeira coisa é a confissão, e para isto vem em seguida a fortaleza para suportar o que quer que aconteça; depois, tendo-se suportado todas as coisas, terminadas as angústias, segue-se a dilatação em recompensa. Também assim se pode entender: que, visto que o Apóstolo principalmente recomenda estas três coisas, fé, esperança, caridade; a confissão está na fé, a fortaleza na esperança, a dilatação na caridade. Pois da fé a substância é que com o coração os homens creiam para a justiça, mas com a boca se faça confissão para a salvação. Mas nos sofrimentos das tribulações a coisa em si é dolorosa, mas a esperança é forte. Pois, "se aquilo que não vemos esperamos, por paciência o aguardamos." Mas a dilatação a difusão da caridade no coração a dá. Pois "a caridade perfeita lança fora o temor": o qual temor "tem tormento", por causa das angústias da alma....
34. "Ordena, ó Deus, a Tua Virtude" (v. 28). Pois um só é o nosso Senhor Jesus Cristo, por quem são todas as coisas, e nós nEle, de quem lemos que Ele é "a Virtude de Deus e a Sabedoria de Deus." Mas como ordena Deus ao Seu Cristo, senão enquanto O recomenda? Pois "Deus recomenda o Seu amor em nós, em que, sendo nós ainda pecadores, Cristo morreu por nós." "Como não nos deu Ele também com Ele todas as coisas?" "Ordena, ó Deus, a Tua Virtude: confirma, ó Deus, o que operaste em nós." Ordena ensinando, confirma ajudando.
35. "Do Teu Templo em Jerusalém, reis Te oferecerão presentes" (v. 29). Jerusalém, que é a nossa mãe livre, porque a mesma é também o Teu santo Templo: daquele Templo, pois, "reis Te oferecerão presentes." Quaisquer que sejam os reis entendidos, sejam reis da terra, sejam aqueles a quem "Aquele que está acima dos céus distingue sobre a pomba prateada"; "reis Te oferecerão presentes." E que presentes são tão aceitáveis quanto os sacrifícios de louvor? Mas há um clamor contra este louvor, da parte de homens que trazem o nome de cristãos, e têm opiniões diversas. Faça-se o que se segue: "Repreende Tu as feras da cana" (v. 30). Pois feras são ambas, visto que, por não entenderem, causam dano: e feras da cana são, visto que torcem o sentido das Escrituras segundo sua própria incompreensão. Pois na cana as Escrituras são tão razoavelmente percebidas quanto a linguagem na língua, segundo o modo de expressão pelo qual se fala a língua hebraica, ou a grega, ou a latina, ou semelhante; isto é, pela causa eficiente se subentende a coisa que está sendo efetuada. Ora, é costume na língua latina chamar-se a escrita de "estilo", porque com o stilus se faz: assim também a "cana", porque com uma cana se faz. Diz o Apóstolo Pedro que "homens indoutos e inconstantes torcem as Escrituras para sua própria perdição": estas são as feras da cana, das quais aqui se diz: "Repreende Tu as feras da cana."
36. A respeito destes também é o que se segue: "A congregação de touros em meio às vacas dos povos, para que sejam excluídos os que foram provados com prata." Chamando-os touros por causa da soberba de pescoço teso e indomado: pois se refere aos hereges. Mas por "as vacas dos povos", penso que se devem entender as almas facilmente desencaminhadas, porque facilmente seguem estes touros. Pois não desencaminham povos inteiros, entre os quais há homens graves e estáveis; donde foi escrito: "Num povo grave Te louvarei": mas apenas as vacas que tiverem encontrado entre esses povos. "Pois destes são os que se introduzem sub-repticiamente nas casas e levam cativas mulherzinhas tolas carregadas de pecados, que são levadas por diversas concupiscências, aprendendo sempre, e nunca chegando ao conhecimento da verdade."... Pois "sejam excluídos" foi dito, significando: que apareçam, que se manifestem: como diz ele, "sejam manifestados." Donde também, na arte do ourives, se chamam exclusores aqueles que, a partir da disformidade do bloco, são hábeis para moldar a forma de um vaso. Pois muitos sentidos das sagradas Escrituras estão ocultos, e são conhecidos apenas por alguns de singular inteligência, e nunca são reivindicados de modo tão apropriado e aceitável quanto quando a nossa diligência em responder aos hereges nos constrange. Pois então até mesmo os que negligenciam os estudos da doutrina, sacudindo o seu torpor, são estimulados a uma ouvida diligente, a fim de que os seus opositores sejam refutados. Em suma, quantos sentidos das sagradas Escrituras acerca de Cristo como Deus foram reivindicados contra Fotino, quantos acerca de Cristo como homem contra Maniqueu, quantos acerca da Trindade contra Sabélio, quantos acerca da Unidade da Trindade contra os Arianos, Eunomianos, Macedonianos? Quantos acerca da Igreja Católica difundida por todo o mundo, contra os Donatistas, e Luciferianos, e outros, quaisquer que sejam, que com semelhante erro dissentem da verdade: quantos contra os demais hereges, cuja enumeração ou menção seria tarefa demasiado longa, e para a presente obra desnecessária?... Dos quais, como se fossem touros, isto é, não sujeitos ao jugo pacífico e suave da disciplina, faz menção o Apóstolo, no lugar em que disse que tal deve ser escolhido para o Episcopado que seja "capaz de exortar na sã doutrina e de convencer os contraditores. Pois há muitos insubordinados"; estes são touros de pescoço erguido, impacientes do arado e do jugo: vãos faladores e desencaminhadores de mentes; as quais mentes este Salmo indicou sob o nome de vacas....
37. "Virão embaixadores do Egito, a Etiópia se antecipará com as suas mãos a Deus" (v. 31). Sob o nome de Egito ou de Etiópia, ele significou a fé de todas as nações, pela parte o todo: chamando embaixadores os pregadores da reconciliação. "Pois por Cristo", diz ele, "temos embaixada, como que Deus exortando por nós: rogamos por Cristo que vos reconcilieis com Deus." Não, pois, somente dos israelitas, donde os Apóstolos foram escolhidos, mas também das demais nações, que houvesse pregadores da paz cristã, deste modo foi misticamente profetizado. Mas quando diz "se antecipará com as suas mãos a Ele", diz isto: se antecipará à vingança dEle: a saber, convertendo-se a Ele, para que os seus pecados sejam perdoados, para que, permanecendo pecadores, não sejam punidos. O que também em outro Salmo se diz: "Venhamos perante a face dEle em confissão." Assim como por mãos significa a vingança, assim por face, a revelação e a presença, que haverá no Juízo. Porque, pois, por Egito e Etiópia significou as nações de todo o mundo; logo em seguida acrescentou: "a Deus (pertencem) os reinos da terra." Não a Sabélio, não a Ário, não a Donato, não aos demais touros de pescoço teso, mas "a Deus (pertencem) os reinos da terra." Mas a maior parte dos exemplares latinos, e especialmente os gregos, têm os versículos assim pontuados, que não há um só versículo nestas palavras, "a Deus os reinos da terra", mas "a Deus" está no fim do versículo anterior, e assim se diz: "a Etiópia virá antes com as suas mãos a Deus", e então se segue em outro versículo: "Reinos da terra, cantai a Deus, salmodiai ao Senhor" (v. 32). Por esta pontuação, sem dúvida a ser preferida pelo acordo de muitos exemplares, e esses dignos de crédito, parece-me estar implicada a fé que precede as obras: porque, sem os méritos das boas obras, pela fé é justificado o ímpio, assim como disse o Apóstolo: "A quem crê nAquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada para justiça": a fim de que depois a própria fé, por meio da caridade, comece a operar. Pois só aquelas devem ser chamadas boas obras, que são feitas por amor de Deus. Mas estas a fé necessariamente há de preceder, de modo que a partir dela estas comecem, não a partir destas ela.... Esta é a fé, a respeito da qual à própria Igreja se diz no Cântico dos Cânticos: "Virás e passarás daqui desde o princípio da fé." Pois Ela veio como o carro de Deus em milhares de homens regozijantes, tendo um curso próspero, e passou deste mundo para o Pai: a fim de que nEla se cumpra o que o próprio Esposo diz, que passou daqui, deste mundo, para o Pai? "Quero que, onde Eu estou, estejam também estes comigo": mas desde o princípio da fé. Porque, pois, para que se sigam as boas obras, precede a fé; e não há quaisquer boas obras, senão aquelas que se seguem à fé precedente: nada mais parece ter sido significado em "a Etiópia virá antes com as suas mãos a Deus", senão: a Etiópia crerá em Deus. Pois assim ela "virá antes com as suas mãos", isto é, as suas obras. De quem, senão da própria Etiópia? Pois isto no grego não é ambíguo: pois a palavra "dela" ali, no gênero feminino, foi posta com toda clareza. E assim nada mais foi dito do que "a Etiópia virá antes com as suas mãos a Deus", isto é, crendo em Deus ela se antecipará às suas obras. Pois, "julgo", diz o Apóstolo, "que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei. É Ele Deus somente dos judeus? Não é também dos gentios?" Assim, pois, a Etiópia, que parece ser o extremo limite dos gentios, é justificada pela fé, sem as obras da Lei.... Pois a expressão grega, xeira authj, que a maioria dos exemplares tem, tanto de "mão dela" quanto de "sua própria mão" pode ser entendida: mas aquela que é rara nos exemplares gregos, xeiraj authj, tanto por "mãos dela" quanto por "suas próprias mãos", pode em latim ser expressa.
38. Doravante, como se por profecia tivessem sido discorridas todas as coisas que agora vemos cumpridas, exorta ao louvor de Cristo, e em seguida predisse o Seu futuro Advento. "Reinos da terra, cantai a Deus, salmodiai ao Senhor: salmodiai a Deus, que subiu acima do Céu dos Céus, para o Oriente" (v. 33). Ou, como têm alguns exemplares, "que subiu acima do Céu do Céu, para o Oriente." Nestas palavras não desconhece ele a Cristo, quem não crê na Sua Ressurreição e Ascensão. Mas não terá "para o Oriente", que ele acrescentou, expressado o próprio lugar; visto que nas regiões do Oriente é onde Ele ressuscitou, e donde ascendeu? Portanto, acima do Céu do Céu Ele Se assenta à direita do Pai. Isto é o que diz o Apóstolo, "o mesmo é Ele que subiu acima de todos os Céus." Pois que Céus restam depois do Céu do Céu? O qual também podemos chamar os Céus dos Céus, assim como Ele chamou o firmamento de Céu: qual Céu, todavia, mesmo como Céus lemos, no lugar em que está escrito: "e louvem o nome do Senhor as águas que estão acima dos Céus." E porquanto dali Ele há de vir, para julgar vivos e mortos, observai o que se segue: "eis que dará a Sua voz, a voz do poder." Aquele que, como um cordeiro diante do que o tosquia, esteve sem voz, "eis que dará a Sua voz", e não a voz da fraqueza, como que para ser julgado; mas "a voz do poder", como que indo julgar. Pois Deus não será oculto, como antes, e no juízo dos homens não abrindo a Sua boca; mas "Deus virá manifesto, o nosso Deus, e não Se calará." Por que desesperais, homens incrédulos? Por que zombais? Que diz o servo mau? "Meu Senhor tarda em vir." "Eis que dará a Sua voz, a voz do poder."
39. "Dai glória a Deus, sobre Israel está a Sua magnificência" (v. 34). Do qual diz o Apóstolo, "sobre o Israel de Deus." Pois "nem todos os que são de Israel, são israelitas": pois há também um Israel segundo a carne. Donde diz ele, "vede o Israel segundo a carne." "Pois não os que são filhos da carne, são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados por descendência." Portanto, naquele tempo em que, sem qualquer mistura de homens maus, for o Seu povo, como um monte purgado pela pá, como Israel em quem não há engano, então mais preeminente "sobre Israel" estará "a magnificência" "dEle: e a virtude dEle nas nuvens." Pois não somente Ele virá ao juízo, mas com os anciãos do Seu povo: aos quais prometeu que se assentarão sobre tronos para julgar, os quais também hão de julgar os anjos. Estas são as nuvens.
40. Por fim, para que de nenhuma outra coisa se entendam as nuvens, ele acrescentou em continuação: "Admirável é Deus nos Seus santos, o Deus de Israel" (v. 35). Pois naquele tempo, mais verdadeira e mais plenamente, se cumprirá o próprio nome de Israel, o qual é "aquele que vê a Deus": pois O veremos como Ele é. "Ele mesmo dará virtude e fortaleza ao Seu povo, bendito seja Deus": ao Seu povo agora frágil e fraco. Pois "temos este tesouro em vasos de barro." Mas então, por uma transformação gloriosíssima também dos nossos corpos, "Ele mesmo dará virtude e fortaleza ao Seu povo." Pois este corpo é semeado em fraqueza, ressuscitará em virtude. Ele mesmo, pois, dará a virtude que na Sua própria carne enviou antes, da qual diz o Apóstolo, "o poder da Sua Ressurreição." Mas a fortaleza pela qual será destruída a inimiga morte. Ora, então, deste longo e dificilmente compreendido Salmo, enfim, com o Seu auxílio, demos fim. "Bendito seja Deus. Amém."
Salva-me, ó Deus, porque as águas entraram até a minha alma" (v. 1). Aquele grão é agora desprezado, o que parece proferir palavras humildes. No jardim ele é sepultado, ainda que o mundo venha a admirar a grandeza da erva, cuja semente foi desprezada pelos judeus. Pois observai, de fato, a semente da mostarda, mínima, de cor baça, de todo desprezível, a fim de que nela se cumprisse o que foi dito: Nós o vimos, e não tinha nem forma nem formosura. Mas diz Ele que as águas chegaram até a Sua alma; porque aquelas multidões, que sob o nome de águas Ele designou, puderam prevalecer a tal ponto que mataram a Cristo. ...Donde, pois, clama Ele assim, como que padecendo algo contra a Sua vontade, senão porque a Cabeça prefigura os membros? Pois Ele padeceu porque quis: mas os Mártires, ainda que não quisessem; pois a Pedro assim predisse Ele a sua paixão: "Quando fores velho", diz Ele, "outro te cingirá e te conduzirá para onde não queres." Pois, ainda que desejemos apegar-nos a Cristo, todavia não queremos morrer: e por isso, de boa vontade, ou antes, com paciência, padecemos, porque nenhuma outra passagem nos é dada, pela qual possamos apegar-nos a Cristo. Pois, se de outro modo pudéssemos chegar a Cristo, isto é, à vida eterna, quem quereria morrer? Pois, explicando a nossa natureza, isto é, uma certa associação de alma e corpo, e nessas duas partes uma espécie de intimidade de colagem e junção, diz o Apóstolo que "temos uma Casa não feita por mãos, eterna nos Céus": isto é, a imortalidade preparada para nós, com a qual havemos de ser revestidos no fim, quando ressuscitarmos dos mortos; e diz ele: "Nisto não queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida." Se assim pudesse ser, diz ele, quereríamos tornar-nos imortais de tal modo que já agora essa mesma imortalidade viesse, e já agora, tais como somos, nos transformasse, a fim de que este nosso corpo mortal fosse absorvido pela vida, e o corpo não fosse deposto pela morte, para no fim ter de ser novamente recuperado. Ainda que, pois, das coisas más passemos às boas, contudo a própria passagem é algo amarga, e tem o fel que os judeus deram ao Senhor na Paixão, tem algo de acre a ser suportado, pelo qual se mostram aqueles que Lhe deram vinagre a beber. ...Pois aqui doces são os prazeres temporais, e amargas as tribulações temporais: mas quem não beberia o cálice da tribulação temporal, temendo o fogo do inferno; e quem não desprezaria a doçura do mundo, ansiando pela doçura da vida eterna? Donde, para que sejamos livres, clamemos: para que porventura, em meio às opressões, não consintamos na iniquidade, e verdadeiramente, de modo irreparável, sejamos tragados.
O título do Salmo é: "Para o fim, em favor dos que hão de ser mudados, ao próprio Davi." Ouve agora acerca da mudança para melhor; pois a mudança ou é para pior ou é para melhor. ...Que fomos mudados para pior, a nós mesmos o atribuamos: que somos mudados para melhor, a Deus o louvemos. "Para os que, pois, hão de ser mudados" é este Salmo. Mas donde se fez essa mudança senão pela Paixão de Cristo? A própria palavra Páscoa, em latim, se interpreta como passagem. Pois Páscoa não é palavra grega, mas hebraica. Soa, na verdade, na língua grega como Paixão, porque pasxein significa padecer: mas, se se examinar a expressão hebraica, ela aponta para outra coisa. Páscoa significa passagem. Do que também João, o Evangelista, nos advertiu, o qual (pouco antes da Paixão, quando o Senhor vinha para a ceia em que instituiu o Sacramento de Seu Corpo e Sangue) assim fala: "Mas, quando chegara a hora em que Jesus havia de passar deste mundo para o Pai." Expressou, pois, a "passagem" da Páscoa. Mas se Ele mesmo não passasse daqui para o Pai, tendo vindo por nossa causa, como poderíamos nós ter passado daqui, nós que não viemos por causa de tomar algo, mas caímos? Mas Ele mesmo não caiu; apenas desceu, a fim de levantar aquele que havia caído. A passagem, portanto, tanto d'Ele quanto nossa é daqui para o Pai, deste mundo para o reino dos Céus, da vida mortal para a vida eterna, da vida terrena para a vida celeste, da vida corruptível para a vida incorruptível, da intimidade com as tribulações para a segurança perpétua. Por conseguinte, "Em favor dos que hão de ser mudados" é o título do Salmo. A causa, pois, de nossa mudança, isto é, a própria Paixão do Senhor, e a nossa própria voz nas tribulações, no texto do Salmo, observemo-la, unamo-nos em conhecê-la, unamo-nos em gemer, e em ouvir; no conhecer em conjunto, no gemer em conjunto, sejamos mudados, a fim de que se cumpra em nós o título do Salmo: "Em favor dos que hão de ser mudados."
Nascemos neste mundo, e fomos acrescentados ao povo de Deus, naquele período em que já a erva, de um grão de mostarda, estendera os seus ramos; em que já o fermento, que a princípio era desprezível, fermentara as três medidas, isto é, o mundo inteiro repovoado pelos três filhos de Noé: pois do Oriente e do Ocidente e do Norte e do Sul virão os que se sentarão com os Patriarcas, ao passo que serão lançados fora aqueles que nasceram de sua carne e não imitaram a sua fé. Para a glória, pois, da Igreja de Cristo abrimos os nossos olhos; e aquela estéril, para quem foi anunciada e predita a alegria, porque haveria de ter mais filhos do que aquela que tinha marido? — a ela encontramos tal, que se esqueceu dos opróbrios e da infâmia de sua viuvez: e assim talvez nos admiremos quando por acaso lemos, em alguma profecia, as palavras da humilhação de Cristo, ou da nossa própria. E pode ser que menos nos afetem; porque não chegamos naquele tempo em que essas coisas eram lidas com fervor, quando a tribulação abundava. Mas, de novo, se pensarmos na abundância das tribulações, e observarmos o caminho por que andamos (se é que nele de fato andamos), quão estreito é, e como, através de apertos e tribulações, conduz ao descanso eterno, e como aquilo mesmo que nas coisas humanas se chama felicidade é mais de temer do que a desgraça; posto que, de fato, a desgraça muitas vezes tira da tribulação um bom fruto, mas a felicidade corrompe a alma com uma segurança perversa, e dá lugar ao Demônio Tentador — quando, digo, houvermos julgado prudente e retamente, como fez a vítima salgada, que "a vida humana sobre a terra é provação", e que ninguém está de todo seguro, nem deve estar seguro, até que chegue àquela pátria de onde ninguém que seja amigo sai, na qual ninguém que seja inimigo é admitido, ainda agora, na própria glória da Igreja, reconhecemos as vozes de nossa tribulação: e sendo membros de Cristo, sujeitos à nossa Cabeça no vínculo do amor, e sustentando-nos mutuamente uns aos outros, diremos, a partir dos Salmos, aquilo que aqui encontramos que disseram os Mártires que nos precederam: que a tribulação é comum a todos os homens desde o princípio até o fim. ...
"Fixo estou no lodo do abismo, e não há substância" (v. 2). Que chamou de lodo? Serão aquelas mesmas pessoas que perseguiram? Pois do lodo foi feito o homem. Mas esses homens, caindo da justiça, tornaram-se o lodo do abismo, e todo aquele que não houver consentido com eles, que perseguem e desejam arrastá-lo à iniquidade, do seu lodo faz ouro. Pois o lodo desse merecerá ser convertido em forma celeste, e ser feito consócio daqueles de quem diz o título do Salmo: "em favor dos que hão de ser mudados." Mas, no tempo em que estes eram o lodo do abismo, fiquei preso neles: isto é, eles Me detiveram, prevaleceram contra Mim, Me mataram. "Fixo, pois, estou no lodo do abismo, e não há substância." Que é isto, "não há substância"? Poderá ser que o próprio lodo não seja uma substância? Que é, pois, "fixo estou"? Poderá ser que Cristo assim tenha ficado preso? Ou ficou preso, e não foi, como se disse no livro de Jó, "a terra entregue nas mãos do ímpio"? Foi Ele fixado no corpo, porque este podia ser detido, e sofreu até a crucifixão? Pois, se com pregos não tivesse sido fixado, não teria sido crucificado. Donde, pois, "não há substância"? Não é o lodo uma substância? Mas entenderemos, se for possível, o que é "e não há substância", se primeiro entendermos o que é uma substância. Pois fala-se em substância também a respeito das riquezas, como dizemos: ele tem substância, e ele perdeu a substância. ...
Deus é uma espécie de substância: pois aquilo que não é substância não é absolutamente nada. Ser substância, pois, é ser algo. Donde também, na fé católica, contra os venenos de certos hereges, assim estamos edificados, de modo que dizemos: o Pai e o Filho e o Espírito Santo são de uma só substância. Que é, de uma só substância? Por exemplo, se ouro é o Pai, ouro é também o Filho, ouro também o Espírito Santo. Tudo o que o Pai é, porque é Deus, o mesmo é o Filho, o mesmo o Espírito Santo. Mas, quando Ele é o Pai, isto não é o que Ele é. Pois não é chamado Pai em referência a Si mesmo, mas em referência ao Filho: mas em referência a Si mesmo é chamado Deus. Portanto, naquilo em que é Deus, por isso mesmo é uma substância. E porque da mesma substância é o Filho, sem dúvida o Filho também é Deus. Mas, todavia, naquilo em que é Pai, porque não é o nome da substância, mas se refere ao Filho, não dizemos que o Filho é Pai da mesma maneira que dizemos que o Filho é Deus. Perguntas o que é o Pai; respondemos: Deus. Perguntas o que são o Pai e o Filho; respondemos: Deus. Se interrogado sobre o Pai apenas, responde: Deus; se interrogado sobre ambos, não deuses, mas Deus, responde. Não respondemos como no caso dos homens, quando perguntas o que é o pai Abraão, respondemos: um homem; a substância dele serve de resposta; perguntas o que é o filho dele, Isaac, respondemos: um homem; da mesma substância são Abraão e Isaac; perguntas o que são Abraão e Isaac, respondemos não homem, mas homens. Não assim nas coisas divinas. Pois é tão grande, neste caso, a comunhão da substância, que admite igualdade, mas não admite pluralidade. Se, pois, te disserem, quando afirmas que o Filho é o mesmo que o Pai, que de fato o Filho também é o Pai, responde: segundo a substância, eu disse que o Filho é o mesmo que o Pai, não segundo o termo que se usa em referência a outra coisa. Pois em referência a Si mesmo é chamado Deus, em referência ao Pai é chamado Filho. E, de novo, o Pai, em referência a Si mesmo, é chamado Deus; em referência ao Filho, é chamado Pai. O Pai, como é chamado em referência ao Filho, não é o Filho; o Filho, como é chamado em referência ao Pai, não é o Pai: o que o Pai é chamado em referência a Si mesmo, e o Filho em referência a Si mesmo, o mesmo é Pai e Filho, isto é, Deus. Que é, pois, "não há substância"? Depois desta interpretação de substância, como poderemos entender esta passagem do Salmo, "Fixo estou no lodo do abismo, e não há substância"? Deus fez o homem, fez substância; e oxalá ele tivesse permanecido naquilo que Deus o fez! Se o homem tivesse permanecido naquilo que Deus o fez, nele não teria ficado fixo Aquele que Deus gerou. Mas, além disso, porque, pela iniquidade, o homem caiu da substância em que foi feito (pois a própria iniquidade não é substância; pois iniquidade não é uma natureza que Deus formou, mas uma perversidade que o homem fez); o Filho de Deus veio ao lodo do abismo, e ficou fixo; e aquilo não era substância em que Ele ficou fixo, porque na iniquidade deles Ele ficou fixo. "Todas as coisas por Ele foram feitas, e sem Ele nada foi feito." Todas as naturezas por Ele foram feitas, a iniquidade por Ele não foi feita, porque a iniquidade não foi feita. Aquelas substâncias por Ele foram feitas, que O louvam. Toda a criação, louvando a Deus, é lembrada pelos três meninos na fornalha, e das coisas terrenas às celestes, ou das celestes às terrenas, alcança o hino daqueles que louvam a Deus. Não que todas essas coisas tenham senso para louvar; mas porque todas as coisas, bem meditadas, geram louvor, e o coração, considerando a criação, se enche até transbordar de um hino ao Criador. Todas as coisas louvam a Deus, mas somente as coisas que Deus fez. Observai, nesse hino, se a cobiça louva a Deus? Ali até a serpente louva a Deus, a cobiça não louva. Pois todos os répteis ali são nomeados no louvor de Deus: ali são nomeados todos os répteis; mas ali não são nomeados quaisquer vícios. Pois os vícios de nós mesmos e de nossa própria vontade os temos: e os vícios não são substância. Nestes ficou fixo o Senhor, quando padeceu perseguição: no vício dos judeus, não na substância dos homens que por Ele foi feita.
"Vim à profundeza do mar, e a tempestade Me fez afundar." Graças [truncado]
"Trabalhei clamando, roucas se fizeram as minhas mandíbulas" (v. 3). Onde foi isto? Quando foi isto? Interroguemos o Evangelho. Pois a Paixão de nosso Senhor neste Salmo percebemos. E, com efeito, que Ele padeceu sabemos; que entraram águas até a Sua alma, porque os povos prevaleceram até à Sua morte, lemos, cremos; que na tempestade foi afundado, porque o tumulto prevaleceu para O matar, reconhecemos: mas que Ele trabalhou clamando, e que Suas mandíbulas se fizeram roucas, não só não lemos, como, pelo contrário, lemos que Ele não respondeu a eles nem uma palavra, a fim de que se cumprisse o que em outro Salmo foi dito: "Tornei-me como um homem que não ouve, e que não tem em sua boca repreensões." E o que em Isaías foi profetizado: "Como ovelha para ser sacrificada foi levado, e como cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a Sua boca." Se Ele se tornou como um homem que não ouve, e que não tem em sua boca repreensões, como trabalhou clamando, e como se fizeram roucas as Suas mandíbulas? Será que já então estava silencioso, porque estava rouco de tanto ter clamado em vão? E isto, de fato, sabemos ter sido a Sua voz na Cruz, tirada de certo Salmo: "Ó Deus, meu Deus, por que Me desamparaste?" Mas quão grande foi essa voz, ou de quanta duração, para que nela as Suas mandíbulas se tivessem tornado roucas? Longo tempo clamou: "Ai de vós, Escribas e Fariseus"; longo tempo clamou: "Ai do mundo por causa dos escândalos." E verdadeiramente rouco, de certo modo, clamou, e por isso não foi entendido, quando os judeus disseram: Que é isto que Ele diz? "Duro é este dito, quem pode ouvi-lo?" Não sabemos o que Ele diz. Disse Ele todas essas palavras: mas roucas eram as Suas mandíbulas para os que não entendiam as Suas palavras. "Os meus olhos desfaleceram de esperar em meu Deus." Longe esteja que isto se tome da pessoa da Cabeça: longe esteja que os Seus olhos desfalecessem de esperar em Seu Deus: n'Ele, antes, estava Deus reconciliando o mundo consigo, e que era o Verbo feito carne e habitou entre nós, de modo que não só Deus estava n'Ele, mas Ele mesmo era Deus. Não é assim, pois: os olhos d'Ele mesmo, nossa Cabeça, não desfaleceram de esperar em Seu Deus: mas os olhos d'Ele desfaleceram no Seu Corpo, isto é, nos Seus membros. Esta voz é dos membros, esta voz é do Corpo, não da Cabeça. Como, pois, a encontramos no Seu Corpo e membros?...
Assim "se multiplicaram mais que os cabelos da minha cabeça os que me odeiam gratuitamente" (v. 4). Como se multiplicaram? De modo que a si mesmos acrescentassem até mesmo um dentre os doze. "Multiplicaram-se mais que os cabelos da minha cabeça os que me odeiam sem causa." Com os cabelos da Sua cabeça comparou os Seus inimigos. Com razão foram tosquiados quando, no lugar do Calvário, Ele foi crucificado. Aceitem os membros esta voz, aprendam a ser odiados gratuitamente. Pois agora, ó Cristão, se é necessário que o mundo te odeie, por que não fazes com que te odeie gratuitamente, a fim de que, no Corpo do teu Senhor e neste Salmo, enviado de antemão a Seu respeito, reconheças a tua própria voz? Como acontecerá que o mundo te odeie gratuitamente? Se em nada prejudicas a ninguém, e ainda assim és odiado: pois isto é gratuito, sem causa...
"Ó Deus, Tu conheceste a minha imprevidência" (v. 5). De novo, da boca do Corpo. Pois que imprevidência há em Cristo? Não é Ele mesmo a Virtude de Deus, e a Sabedoria de Deus? Chama Ele de Sua imprevidência aquilo de que fala o Apóstolo: "a loucura de Deus é mais sábia que os homens"? Minha imprevidência, aquilo mesmo em que Me escarneceram os que a si mesmos parecem sábios, Tu conheceste por que foi feito. Pois que coisa era tão semelhante à imprevidência quanto, tendo Ele em Seu poder abater com uma só palavra os perseguidores, permitir-Se ser detido, açoitado, cuspido, esbofeteado, coroado de espinhos, pregado ao madeiro? É semelhante à imprevidência, parece coisa insensata; mas esta coisa insensata excede todos os sábios. Insensata, na verdade, é: mas também, quando o grão cai na terra, se ninguém conhece o costume dos lavradores, parece insensato... Imprevidência parece; mas a esperança faz com que não seja imprevidência. Ele, pois, não Se poupou: porque também o Pai não O poupou, mas O entregou por todos nós. E do Mesmo, "que me amou", diz o Apóstolo, "e Se entregou por mim": pois, salvo se um grão houver caído na terra de modo que morra, fruto, diz ele, não dará. Esta é a imprevidência. "E as minhas transgressões de Ti não estão ocultas." É claro, evidente, manifesto, que isto deve ser entendido como saído da boca do Corpo. Transgressões nenhumas teve Cristo: Ele foi o portador das transgressões, mas não o cometedor. "Não estão ocultas": isto é, confessei-Te todas as minhas transgressões, e diante da minha boca Tu as viste no meu pensamento, viste as feridas que havias de curar. Mas onde? Justamente no Corpo, nos membros: naqueles crentes dos quais já se apegava a Ele aquele membro que confessava os seus pecados.
"Não se envergonhem em Mim os que Te esperam, ó Senhor, Senhor das virtudes" (v. 6). De novo, a voz da Cabeça: "Não se envergonhem em Mim": não se lhes diga: Onde está Aquele em quem confiáveis? Não se lhes diga: Onde está Aquele que vos dizia: Crede ainda em Deus, e em Mim crede? "Não se envergonhem em Mim os que Te esperam", ó Senhor, Senhor das virtudes. "Não sejam confundidos por Minha causa os que Te buscam, ó Deus de Israel." Isto também pode ser entendido do Corpo, mas somente se considerares o Corpo d'Ele não como um só homem: pois, na verdade, um só homem não é o Corpo d'Ele, mas um pequeno membro; o Corpo, porém, é composto de membros. Portanto, o Corpo pleno d'Ele é toda a Igreja. Com razão, pois, diz a Igreja: "Não se envergonhem em Mim os que Te esperam, ó Senhor, Senhor das virtudes."...
3. "Ó Deus, apressa-Te em meu auxílio" (v. 1). Pois necessidade temos de um auxílio sempiterno neste mundo. Mas quando não a temos? Agora, porém, estando em tribulação, digamos especialmente: "Ó Deus, apressa-Te em meu auxílio." "Sejam confundidos e temam os que buscam a minha alma." Cristo fala: quer fale a Cabeça, quer fale o Corpo; fala Aquele que disse: "Por que me persegues?" Fala Aquele que disse: "Na medida em que o fizestes a um dos meus mais pequeninos, a mim o fizestes." A voz, pois, deste Homem sabe-se que é do homem todo, da Cabeça e do Corpo: isto não é preciso mencionar amiúde, porque já se sabe. "Sejam confundidos", diz ele, "e temam os que buscam a minha alma." Em outro Salmo Ele diz: "Olhei para a direita e vi, e não havia quem me quisesse conhecer: pereceu de mim a fuga, e não há quem busque a minha alma." Ali, dos perseguidores, diz que não havia quem buscasse a sua alma; mas aqui: "Sejam confundidos e temam os que buscam a minha alma."... E onde está aquilo que ouviste de teu Senhor: "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem"? Eis que sofres perseguição, e amaldiçoas aqueles de quem a sofres: como imitas as Paixões de teu Senhor que te precederam, pendente da cruz e dizendo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"? Aos que dizem tais coisas, o Mártir replica e diz: puseste diante de mim o Senhor, dizendo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"; entende também a minha voz, para que possa ser tua também: pois que disse eu a respeito dos meus inimigos? "Sejam confundidos e temam." Já tal vingança se tomou dos inimigos dos Mártires. Aquele Saulo que perseguia Estêvão foi confundido e temeu. Respirava mortandade, buscava a quem arrastar e matar: ouvida uma voz do alto, "Saulo, Saulo, por que me persegues", foi confundido e derrubado, e foi levantado à obediência aquele que se inflamara para a perseguição. Isto, pois, desejam os Mártires para os seus inimigos: "Sejam confundidos e temam." Pois enquanto não são confundidos e não temem, hão de necessariamente defender os seus atos: gloriosos se julgam, porque prendem, porque açoitam, porque matam, porque dançam, porque insultam; e por causa de todos estes feitos hão de algum dia ser confundidos e temer. Pois se forem confundidos, também se converterão: porque converter-se não podem, senão depois de terem sido confundidos e de terem temido. Desejemos, pois, estas coisas aos nossos inimigos, desejemo-las sem temor. Eis que disse, e digo-o convosco: que todos os que ainda dançam e cantam e insultam os Mártires "sejam confundidos e temam"; e por fim, dentro destes muros, confundidos batam no peito!
2. Há, pois, neste Salmo a voz de homens turbados, e assim, na verdade, de Mártires em meio a sofrimentos e perigos, mas apoiados em sua própria Cabeça. Ouçamo-los, e falemos com eles por simpatia de coração, ainda que não seja por semelhança de sofrimento. Pois eles já estão coroados, nós ainda estamos em perigo: não que tais perseguições nos aflijam quais os afligiram a eles, mas talvez piores, no meio de tantos e tão grandes escândalos de toda espécie. Pois os nossos tempos mais abundam naquele ai que o Senhor bradou: "Ai do mundo por causa dos escândalos." E: "Porque a iniquidade abundou, esfriar-se-á o amor de muitos." Pois nem mesmo aquele santo Ló, em Sodoma, sofreu perseguição corporal de ninguém, nem lhe foi dito que ali não deveria habitar: a perseguição que ele sofreu foram os maus costumes dos sodomitas. Agora, pois, que Cristo está assentado nos Céus, agora que Ele está glorificado, agora que os pescoços dos reis são submetidos ao Seu jugo e as suas frontes postas debaixo do Seu sinal, agora que já ninguém resta que ouse abertamente calcar aos pés os cristãos, ainda assim, porém, gememos em meio a instrumentos e cantores; ainda aqueles inimigos dos Mártires, porque com palavras e ferro não têm poder, com a sua própria luxúria os perseguem. E oxalá nos entristecêssemos apenas pelos pagãos: seria algum tipo de consolo, esperar por aqueles que ainda não foram assinalados com a Cruz de Cristo; quando fossem assinalados, e quando, ligados por Sua autoridade, deixassem de ser insensatos. Vemos, além disso, homens trazendo na fronte o Seu sinal, e ao mesmo tempo, nessa mesma fronte, trazendo a impudência da luxúria, e nos dias e celebrações dos Mártires não exultando, mas insultando. E em meio a estas coisas gememos, e esta é a nossa perseguição, se há em nós aquela caridade que diz: "Quem enfraquece, e eu não enfraqueço? Quem se escandaliza, e eu não me abraso?" Nenhum servo de Deus, pois, está isento de perseguição: e verdadeira é aquela sentença que o Apóstolo diz: "Mas também todos os que querem viver piedosamente em Cristo padecerão perseguição." ...
1. Graças ao "Grão de trigo", porque quis morrer e multiplicar-se: graças ao único Filho de Deus, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que não desdenhou sofrer a nossa morte, a fim de nos fazer dignos de Sua vida. Eis Aquele que era único até que partisse, como disse em outro Salmo: "Único sou até que parta"; pois Ele era um único grão de trigo de tal modo que tinha em Si mesmo uma grande fecundidade de multiplicação; em quantos grãos exultamos, imitando a Sua Paixão, quando celebramos as natividades dos Mártires! Muitos, pois, membros dEle, sob uma só Cabeça, o próprio Salvador, atados juntos no vínculo do amor e da paz (como convém que saibais, pois já o ouvistes muitas vezes), são um só homem: e do mesmo, como de um só homem, a voz é frequentemente ouvida nos Salmos, e assim um clama como se fosse todos, porque todos em um são um. ...
4. "Sejam voltados para trás e envergonhem-se os que pensam males contra mim" (v. 2). No princípio houve o assalto dos que perseguiam; agora restou a malícia dos que pensam. De fato, há na Igreja tempos distintos de perseguições que se sucedem umas às outras. Fez-se um assalto contra a Igreja quando os reis perseguiam; e porque havia sido predito que os reis haveriam de perseguir e haveriam de crer, cumprida uma coisa, a outra havia de seguir-se. Sucedeu também o que era consequente: os reis creram, deu-se paz à Igreja, a Igreja começou a ser colocada no mais alto grau de dignidade, mesmo nesta terra, mesmo nesta vida; mas não falta o rugido dos perseguidores, converteram os seus assaltos em pensamentos. Nestes pensamentos, como num abismo sem fundo, o demônio foi atado; ele ruge e não irrompe. Pois foi dito a respeito destes tempos da Igreja: "O pecador verá, e se irará." E fará o quê? Aquilo que fez a princípio? Arrastar, atar, ferir? Não faz isto. Que faz então? "Rangerá os dentes, e definhará." E com estes homens o Mártir está, por assim dizer, irado, e contudo por estes homens o Mártir ora. Pois do mesmo modo que desejou o bem àqueles homens acerca dos quais disse: "Sejam confundidos e temam os que buscam a minha alma", assim também agora: "Sejam voltados para trás e envergonhem-se os que pensam males contra mim." Por quê? Para que não vão adiante, mas sigam atrás. Pois aquele que censura a religião cristã, e segundo o seu próprio sistema quer viver, quer, por assim dizer, ir adiante de Cristo, como se Ele de fato tivesse errado e tivesse sido fraco e enfermo, porque quis sofrer, ou pôde sofrer, às mãos dos judeus; mas que ele é homem astuto para se guardar de todas estas coisas, em fugir da morte, até mentindo vilmente para escapar da morte, e matando a sua alma para viver no corpo, julga-se homem de singular e prudente medida. Ele vai adiante ao censurar a Cristo, de certo modo ultrapassa a Cristo: creia ele em Cristo, e siga a Cristo. Pois aquilo que fora desejado agora para os perseguidores que pensam males, o próprio Senhor disse a Pedro. Ora, em certo lugar Pedro quis ir adiante do Senhor. ... Pouco antes: "Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi a carne e o sangue que to revelou, mas Meu Pai que está nos Céus"; agora, num momento: "Retrocede para trás de Mim, Satanás." Que é: "Retrocede para trás de Mim"? Segue-Me. Tu queres ir adiante de Mim, tu queres dar-Me conselho; é melhor que sigas o Meu conselho: isto é, "retrocede", volta para trás de Mim. Ele faz calar aquele que se adianta, para que retroceda; e o chama Satanás, porque quer ir adiante do Senhor. Pouco antes, "bem-aventurado"; agora, "Satanás". De onde, pouco antes, "bem-aventurado"? Porque, "a ti", diz Ele, "não foi a carne e o sangue que revelou, mas Meu Pai que está nos Céus." De onde agora, "Satanás"? Porque "não compreendes", diz Ele, "as coisas que são de Deus, mas as que são dos homens." Nós, pois, que queremos celebrar dignamente as natividades dos Mártires, desejemos a imitação dos Mártires; não queiramos ir adiante dos Mártires, nem nos julguemos de melhor entendimento do que eles, porque fugimos dos sofrimentos em favor da justiça e da fé, que eles não fugiram. Portanto, sejam os que pensam males, e em luxúria alimentam os seus corações, "voltados para trás e envergonhados." Ouçam depois do Apóstolo, que diz: "Mas que fruto tivestes então naquelas coisas de que agora vos envergonhais?"
5. Que se segue? "Sejam voltados para trás logo, envergonhados, os que me dizem: Bem, bem" (v. 3). Duas são as espécies de perseguidores: os injuriadores e os lisonjeadores. A língua do lisonjeador persegue mais do que a mão do que mata: pois também a isto a Escritura chamou fornalha. Na verdade, quando a Escritura falava de perseguição, disse: "Como o ouro na fornalha os provou" (falando dos Mártires que eram mortos), "e como vítima de holocausto os recebeu." Ouve como também a língua dos lisonjeadores é de tal sorte: "A prova", diz ele, "da prata e do ouro é o fogo; mas o homem é provado pela língua dos que o louvam." Aquilo é fogo, isto também é fogo: de ambos deves sair são e salvo. O censurador te quebrou, foste quebrado na fornalha como vaso de barro. A Palavra te moldou, e veio a prova da tribulação: aquilo que foi formado, é necessário que seja temperado; se foi bem moldado, veio o fogo para fortalecer. Por isso disse Ele na Paixão: "Secou-se como caco a Minha força." Pois a Paixão e a fornalha da tribulação O tinham feito mais forte. ...
6. E que sucede quando todos são voltados para trás e envergonhados, sejam eles os que buscam a minha alma, sejam os que pensam males contra mim, sejam os que, com perversa e fingida benevolência, com a língua querem abrandar o golpe que infligem — quando eles próprios tiverem sido voltados para trás e confundidos, que sucederá? "Exultem e alegrem-se em Ti": não em mim, não neste ou naquele homem; mas naquEle em quem foram feitos luz os que eram trevas. "Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te buscam" (v. 4). Uma coisa é buscar a Deus, outra coisa é buscar o homem. "Alegrem-se os que Te buscam." Não se alegrarão, pois, os que buscam a si mesmos, a quem Tu primeiro buscaste antes que eles Te buscassem. Ainda não buscava aquela ovelha o Pastor, tinha-se desgarrado do rebanho, e Ele desceu a ela; buscou-a, e a trouxe de volta sobre os Seus ombros. Desprezar-te-á, ó ovelha que O buscas, Aquele que primeiro te buscou quando tu O desprezavas e não O buscavas? Agora, pois, começa tu a buscar Aquele que primeiro te buscou, e te trouxe de volta sobre os Seus ombros. Faze tu aquilo de que Ele fala: "As que são Minhas ovelhas ouvem a Minha voz, e Me seguem." Se, pois, buscas Aquele que primeiro te buscou, e te tornaste ovelha Sua, e ouves a voz do teu Pastor, e O segues, vê o que Ele te mostra de Si mesmo, o que do Seu Corpo, para que, quanto a Ele, não erres, quanto à Igreja não erres, para que ninguém te diga que é Cristo o que não é Cristo, ou que é a Igreja o que não é a Igreja. Pois muitos homens disseram que Cristo não teve carne, e que Cristo não ressuscitou em Seu Corpo: não sigas tu as vozes deles. Ouve tu a voz do próprio Pastor, que se revestiu de carne, a fim de buscar a carne perdida. Ele ressuscitou, e diz: "Apalpai e vede; pois um espírito não tem carne e ossos como vedes que Eu tenho." Ele te mostra a Si mesmo, segue tu a Sua voz. Mostra também a Igreja, para que ninguém te engane com o nome de Igreja. "Convinha", diz Ele, "que Cristo padecesse, e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia, e que se pregasse em Seu nome o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém." Tens a voz do teu Pastor, não sigas tu a voz dos estranhos: e não temerás o ladrão, se tiveres seguido a voz do Pastor. Mas como O seguirás? Se não tiveres dito a homem algum, como se fosse por mérito próprio, Bem, bem; nem tiveres ouvido o mesmo com alegria, de modo que a tua cabeça não se engorde com o óleo do pecador. "Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te buscam; e digam" — digam o quê, os que exultam? "Seja o Senhor sempre engrandecido!" Digam isto todos os que exultam e Te buscam. O quê? "Seja o Senhor sempre engrandecido; sim, os que amam a Tua salvação." Não somente: "Seja o Senhor engrandecido"; mas também: "sempre." ... Pecador és, seja Ele engrandecido para que chame; confessas, seja Ele engrandecido para que perdoe; agora vives justamente, seja Ele engrandecido para que dirija; perseveras até o fim, seja Ele engrandecido para que glorifique. "Seja o Senhor", pois, "sempre engrandecido; sim, amam eles a Sua saúde salvadora." Pois dEle têm a salvação, não de si mesmos. A saúde salvadora do Senhor nosso Deus é o Salvador nosso Senhor Jesus Cristo: quem quer que ame o Salvador confessa-se ter sido curado; quem quer que confesse ter sido curado, confessa ter estado enfermo. Não a própria saúde salvadora, como se pudessem salvar-se a si mesmos por si mesmos; não como se fosse a saúde salvadora de um homem, como se por ele pudessem ser salvos. "Não confieis", diz ele, "nos príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação." Por que assim? "Do Senhor é a salvação, e sobre o Teu povo é a Tua bênção."
7. Eis: "Seja o Senhor engrandecido": nunca o serás tu, em lugar algum? Nele havia algo, em mim nada: mas se nEle está tudo o que eu sou, seja Ele engrandecido, não eu. Mas tu, então, que és? "Mas eu sou necessitado e pobre" (v. 5). Ele é rico, Ele é abundante, Ele nada necessita. Eis a minha luz, eis de onde sou iluminado; pois clamo: "Tu iluminarás a minha candeia, ó Senhor." Que és tu, então? "Mas eu sou necessitado e pobre." Sou como órfão, a minha alma é como viúva destituída e desolada: busco auxílio, confesso sempre a minha enfermidade. Foram-me perdoados os pecados, já comecei a seguir os mandamentos de Deus: ainda assim, porém, sou necessitado e pobre. Por que ainda necessitado e pobre? Porque "vejo outra lei nos meus membros, que combate contra a lei da minha mente." Por que necessitado e pobre? Porque "bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça." Ainda tenho fome, ainda tenho sede: a minha plenitude foi adiada, não tirada. "Ó Deus, ajuda-me." Muito adequadamente também se diz que Lázaro se interpreta "o ajudado": aquele homem necessitado e pobre, que foi transportado ao seio de Abraão; e traz a figura da Igreja, que deve sempre confessar que tem necessidade de auxílio. Isto é verdadeiro, isto é piedoso. "Disse ao Senhor: Tu és o meu Deus." Por quê? "Porque não necessitas dos meus bens." Ele não necessita de nós, nós necessitamos dEle: por isso Ele é verdadeiramente Senhor. Pois tu não és o verdadeiro senhor de teu servo: ambos são homens, ambos necessitando de Deus. Mas se supões que o teu servo necessita de ti para que lhe dês pão, também tu necessitas do teu servo, para que ele ajude os teus trabalhos. Cada um de vós necessita do outro. Portanto, nenhum de vós é verdadeiramente senhor, e nenhum de vós verdadeiramente servo. Ouve tu o verdadeiro Senhor, de quem és o verdadeiro servo: "Disse ao Senhor: Tu és o meu Deus." Por que és Tu Senhor? "Porque não necessitas dos meus bens"? Mas que és tu? "Mas eu sou necessitado e pobre." Eis o necessitado e pobre: alimente-o Deus, alivie-o Deus, ajude-o Deus: "Ó Deus", diz ele, "ajuda-me."
8. "Meu auxiliador e libertador és Tu; ó Senhor, não te demores." Tu és o auxiliador e libertador: necessito de socorro, ajuda Tu; estou enredado, liberta Tu. Pois ninguém libertará dos enredamentos senão Tu. Cercam-nos por todos os lados os laços de diversos cuidados; de um lado e de outro somos como que dilacerados por espinhos e silvados, caminhamos por via estreita, talvez tenhamos ficado presos nos silvados: digamos a Deus: "Tu és o meu libertador." Aquele que nos mostrou a via estreita ensinou-nos a segui-la. ...
9. Que é: "não te demores"? Porque muitos homens dizem: é longo o tempo até que Cristo venha. Que então: porque dizemos "não te demores", virá Ele antes de ter determinado vir? Que significa esta oração, "não te demores"? Que a Tua vinda não me pareça demasiado demorada. Pois a ti parece longo tempo, a Deus não parece longo, para quem mil anos são como um dia, ou como as três horas de uma vigília. Mas se não tiveres tido perseverança, tarde será para ti; e quando te parecer tarde, serás desviado dEle, e serás semelhante àqueles que se cansaram no deserto, e se apressaram a pedir a Deus as coisas agradáveis que Ele lhes reservava na Terra; e quando não lhes foram dadas no caminho as coisas agradáveis, com as quais talvez tivessem sido corrompidos, murmuraram contra Deus, e voltaram no coração ao Egito: àquele lugar de onde, no corpo, tinham sido separados, no coração voltaram. Não faças tu, pois, assim, não faças assim: teme a palavra do Senhor, que diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló." Ela também, estando a caminho, mas já livre dos sodomitas, olhou para trás; no lugar onde olhou para trás, ali permaneceu: fez-se estátua de sal, para te servir de tempero. Pois a ti foi dada como exemplo, para que tenhas juízo, para que não te detenhas enlouquecido no caminho. Observa a sua detença e passa adiante; observa o seu olhar para trás, e sê tu estendendo-te para as coisas diante de ti, como o foi Paulo. Que é não olhar para trás? "Esquecido das coisas que ficaram atrás", diz ele. Segues, pois, tu, chamado à recompensa celeste, da qual depois te gloriarás. Pois o mesmo Apóstolo diz: "Resta-me a coroa da justiça, que naquele dia o Senhor, justo Juiz, me dará."
2. O título deste Salmo é, pois, como de costume, um título que anuncia já no limiar o que se faz dentro de casa: "Ao próprio David, para os filhos de Jonadabe, e para os que primeiro foram levados cativos." Jonadabe (é-nos recomendado na profecia de Jeremias) foi certo homem que ordenara a seus filhos que não bebessem vinho, e que não habitassem em casas, mas em tendas. Ora, o mandamento do pai os filhos guardaram e observaram, e por isso mereceram uma bênção do Senhor. Ora, o Senhor não havia ordenado isto, mas o próprio pai deles. Contudo, eles o receberam como se fosse um mandamento do Senhor seu Deus; pois, ainda que o Senhor não tivesse ordenado que não bebessem vinho e habitassem em tendas, o Senhor havia ordenado que os filhos obedecessem ao pai. Neste único caso o filho não deve obedecer ao pai: se o pai tiver ordenado algo contrário ao Senhor seu Deus. Pois, de fato, o pai não deve irar-se, quando Deus é preferido a ele. Mas quando o pai ordena o que não é contrário a Deus, deve ser ouvido como se ouve a Deus: porque obedecer ao próprio pai Deus o ordenou. Deus, pois, abençoou os filhos de Jonadabe por causa de sua obediência, e os lançou em rosto ao Seu povo desobediente, repreendendo-o, porque, enquanto os filhos de Jonadabe eram obedientes ao pai, eles não obedeciam ao seu Deus. Mas, ao tratar Jeremias destes assuntos, tinha este propósito quanto ao povo de Israel: que se preparassem para serem levados cativos à Babilônia, e não esperassem outra coisa senão que haveriam de ser cativos. O título, pois, deste Salmo parece daí ter tomado o seu colorido, de modo que, tendo dito "dos filhos de Jonadabe", acrescentou "e dos que primeiro foram levados cativos": não que os filhos de Jonadabe tenham sido levados cativos, mas porque aos que haviam de ser levados cativos se opunham os filhos de Jonadabe, porque eram obedientes a seu pai: a fim de que entendessem que tinham sido feitos cativos porque não foram obedientes a Deus. Acrescenta-se também que Jonadabe se interpreta "o espontâneo do Senhor". Que é isto, o espontâneo do Senhor? Servir a Deus livremente, com a vontade. Que é o espontâneo do Senhor? "Em mim estão, ó Deus, os teus votos, que Te renderei de louvor." Que é o espontâneo do Senhor? "Voluntariamente Te sacrificarei." Pois, se o ensino apostólico admoesta o escravo a servir a um senhor humano, não como que por necessidade, mas de boa vontade, e, servindo livremente, faça-se no coração livre; quanto mais deve Deus ser servido com vontade inteira, plena e livre, Ele que vê a tua própria vontade!... O primeiro homem nos fez cativos, o segundo Homem nos livrou do cativeiro. "Pois assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados." Mas em Adão morrem pela natividade da carne, em Cristo são libertados pela fé do coração. Não esteve em teu poder não nasceres de Adão: está em teu poder crer em Cristo. Por mais, pois, que tenhas querido pertencer ao primeiro homem, ao cativeiro pertencerás. E que é ter querido pertencer? ou que é pertencerás? Já pertences: clama, pois: "Quem me livrará do corpo desta morte?" Ouçamos, pois, este homem clamando isto.
"Ó Deus, em Ti tenho esperado, ó Senhor, não serei confundido para sempre" (v. 1). Já fui confundido, mas não para sempre. Pois como não há de ser confundido aquele a quem se diz: "Que fruto tivestes então nas coisas de que agora vos envergonhais?" Que se fará, pois, para que não sejamos confundidos para sempre? "Aproximai-vos dEle, e sereis iluminados, e vossos rostos não se envergonharão." Confundidos estais em Adão; apartai-vos de Adão, aproximai-vos de Cristo, e então não sereis confundidos. "Em Ti tenho esperado, ó Senhor, não serei confundido para sempre." Se em mim mesmo agora sou confundido, em Ti não serei confundido para sempre.
1. Em todas as Sagradas Escrituras, a graça de Deus que nos liberta recomenda-se a nós, a fim de que nos tenha por recomendados. Disto se canta neste Salmo, do qual empreendemos falar. ...Esta graça o Apóstolo recomenda: por isto veio a ter os judeus por inimigos, que se gloriavam na letra da lei e na própria justiça. Recomendando-a, pois, na lição que se leu, assim diz ele: "Pois eu sou o menor dos Apóstolos, que não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus." "Mas por isso alcancei misericórdia", diz ele, "porque o fiz ignorantemente, na incredulidade." Depois, um pouco adiante: "Fiel é a palavra e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro." Acaso não houve pecadores antes dele? Como, pois, foi ele o primeiro? Sim, precedendo a todos os homens não no tempo, mas na má disposição. "Mas por isso", diz ele, "alcancei misericórdia", para que em mim Cristo Jesus mostrasse toda a longanimidade, para exemplo daqueles que haveriam de crer nEle para a vida eterna: isto é, todo pecador e homem injusto, já desesperado de si mesmo, já com a mente de um gladiador, de modo a fazer o que quisesse, porque necessariamente havia de ser condenado, possa contudo contemplar o Apóstolo Paulo, a quem tão grande crueldade e tão perversa disposição foram perdoadas por Deus; e, não desesperando de si mesmo, possa converter-se a Deus. Esta graça Deus nos recomenda também neste Salmo. ...
4. "Em Tua própria justiça, livra-me e salva-me" (v. 2). Não na minha, mas na Tua própria: pois se na minha, serei um daqueles dos quais diz: "Ignorando a justiça de Deus, e querendo estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus." Portanto, "em Tua própria justiça", não na minha. Pois a minha, que é? A iniquidade a precedeu. E quando eu for justo, será Tua própria justiça: pois pela justiça que me for dada por Ti serei justo; e será minha de tal modo que seja Tua, isto é, dada a mim por Ti. Pois creio naquEle que justifica o ímpio, de modo que a minha fé é reputada por justiça. Assim, pois, a justiça será minha, não, porém, como se fosse minha própria, não como se por mim mesmo me tivesse sido dada: como pensaram aqueles que pela letra se gloriavam e rejeitavam a graça. ...É pouco, pois, que reconheças que o bem que há em ti procede de Deus, se, além disso, não te abstiveres de te exaltares acima daquele que ainda não o recebeu, o qual talvez, quando o houver recebido, te ultrapasse. Pois quando Saulo era o lapidador de Estêvão, quantos eram os cristãos de quem ele era perseguidor! Contudo, quando se converteu, ultrapassou a todos os que o haviam precedido. Dize, pois, a Deus o que ouves no Salmo: "Em Ti tenho esperado, ó Senhor, não serei confundido para sempre: em Tua própria justiça", não na minha, "livra-me e salva-me." "Inclina para mim o Teu ouvido." Também isto é confissão de humildade. Aquele que diz "Inclina para mim" confessa que jaz como um enfermo posto aos pés do Médico que está de pé. Enfim, observa que é um enfermo quem fala: "Inclina para mim o Teu ouvido, e salva-me."
5. "Sê Tu para mim um Deus protetor" (v. 3). Que os dardos do inimigo não me alcancem: pois eu não sou capaz de me proteger a mim mesmo. E pouco é "protetor": acrescentou ele, "e um lugar murado, para que me salves." "Um lugar murado" sê para mim, sê Tu o meu lugar murado. ...Eis que o próprio Deus se fez o lugar para onde te refugias, Aquele que, ao princípio, era o objeto temível de quem fugias. "Um lugar murado", diz ele, sê Tu para mim, "para que me salves." Não estarei seguro senão em Ti: se Tu não fores o meu repouso, a minha enfermidade não poderá ser curada. Levanta-me da terra; sobre Ti me deitarei, para que eu me erga até um lugar murado. Que pode haver mais bem murado? Quando a esse lugar tiveres fugido para te refugiar, dize-me, que adversários hás de temer? Quem espreitará e virá contra ti? Certo homem, diz-se, do cume de um monte, quando um Imperador passava, gritou: "Não falo de ti"; e o outro, diz-se, voltou-se e disse: "Nem eu de ti." Havia desprezado um Imperador com armas rutilantes, com poderoso exército. De onde? De um lugar forte. Se ele estava seguro num alto ponto de terra, quão seguro estás tu naquEle por quem foram feitos o céu e a terra? Eu, se para mim mesmo houvesse escolhido outro lugar, não poderia estar seguro. Escolhe tu, pois, ó homem, se o encontrares, um lugar mais bem murado. Não há, pois, lugar para onde fugir dEle, senão fugindo a Ele. Se queres escapar dEle irado, foge para Ele apaziguado. "Pois Tu és o meu firmamento e o meu refúgio." O que é "meu firmamento"? Por Ti sou firme, e por Ti me firmo. "Pois Tu és o meu firmamento e o meu refúgio": para que eu seja firmado por Ti naquilo em que por mim mesmo me houver enfraquecido, refugiar-me-ei em Ti. Pois firme te faz a graça de Cristo, e inabalável contra todas as tentações do inimigo. Mas ali está também a fragilidade humana, ali está ainda o primeiro cativeiro, ali está ainda a lei nos membros combatendo contra a lei da mente, e querendo levar cativo à lei do pecado: ainda o corpo corruptível oprime a alma. Por mais firme que sejas pela graça de Deus, enquanto ainda levares o vaso terreno, em que está o tesouro de Deus, algo se há de temer ainda desse mesmo vaso de barro. Portanto, "meu firmamento és Tu", para que eu seja firme neste mundo contra todas as tentações. Mas se muitas forem, e me perturbarem: "meu refúgio és Tu." Pois confessarei minha fraqueza, para que eu seja tímido como a "lebre", porque estou cheio de espinhos como o "ouriço". E como se diz em outro Salmo: "A rocha é refúgio para os ouriços e as lebres": mas a Rocha era Cristo.
6. "Ó Deus, livra-me da mão do pecador" (v. 4). Em geral, os pecadores, entre os quais labuta aquele que agora há de ser livrado do cativeiro: aquele que agora clama: "Homem infeliz que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor." Dentro há um inimigo, aquela lei nos membros; há também inimigos fora: a quem clamas? Àquele a quem foi clamado: "Dos meus pecados ocultos purifica-me, ó Senhor, e dos alheios poupa o Teu servo." ... Mas estes pecadores são de duas espécies: há alguns que receberam a Lei, há outros que não a receberam: todos os gentios não receberam a Lei, todos os judeus e cristãos receberam a Lei. Portanto, o termo geral é pecador; seja transgressor da Lei, se a recebeu; seja apenas injusto, sem Lei, se não a recebeu. De ambas as espécies fala o Apóstolo, e diz: "Os que sem Lei pecaram, sem Lei perecerão, e os que na Lei pecaram, pela Lei serão julgados." Mas tu, que em meio a ambas as espécies gemes, dize a Deus o que ouves no Salmo: "Meu Deus, livra-me da mão do pecador." De qual pecador? "Da mão daquele que transgride a Lei, e do homem injusto." Aquele que transgride a Lei é também injusto, na verdade; pois não é senão injusto quem transgride a Lei: mas todo aquele que transgride a Lei é injusto, nem todo injusto transgride a Lei. Pois, "onde não há Lei", diz o Apóstolo, "tampouco há transgressão." Aqueles, pois, que não receberam a Lei, podem ser chamados injustos, transgressores não podem ser chamados. Ambos são julgados segundo os seus merecimentos. Mas eu, que do cativeiro quero ser livrado por Tua graça, clamo a Ti: "Livra-me da mão do pecador." Que é, "da mão dele"? Do poder dele, para que, enquanto ele se enfurece, não me leve a consentir com ele; para que, enquanto ele espreita, não me persuada à iniquidade. "Da mão do pecador e do homem injusto." ...
7. Enfim, segue-se a razão por que digo isto: "pois Tu és a minha paciência" (v. 5). Ora, se Ele é, com razão, paciência, é também aquilo que se segue: "Ó Senhor, minha esperança desde a minha juventude." Minha paciência, porque minha esperança: ou antes, minha esperança, porque minha paciência. "A tribulação", diz o Apóstolo, "produz a paciência; a paciência, a prova; e a prova, a esperança; e a esperança não confunde." Com razão em Ti tenho esperado, ó Senhor, não serei confundido para sempre. "Ó Senhor, minha esperança desde a minha juventude." Desde a tua juventude é Deus a tua esperança? Não o é também desde a tua meninice, e desde a tua infância? Certamente, diz ele. Pois vê o que se segue, para que não penses que eu disse isto, "minha esperança desde a minha juventude", como se Deus em nada tivesse aproveitado à minha infância ou à minha meninice; ouve o que se segue: "Em Ti fui fortalecido desde o ventre." Ouve ainda: "Desde o ventre de minha mãe Tu és o meu Protetor" (v. 6). Por que então, "desde a minha juventude", senão porque foi esse o período a partir do qual comecei a esperar em Ti? Pois antes, em Ti eu não esperava, ainda que Tu fosses o meu Protetor, que me conduziste em segurança até o tempo em que aprendi a esperar em Ti. Mas desde a minha juventude comecei a esperar em Ti, desde quando me armaste contra o Diabo, de modo que, cingido de Tua hoste, armado com Tua fé, amor, esperança e os demais dons Teus, travei combate contra os Teus inimigos invisíveis, e ouvi do Apóstolo: "Não é para nós a luta contra a carne e o sangue, mas contra os principados e as potestades", etc. Ali é um jovem que combate contra estas coisas: mas, ainda que seja jovem, cai, a não ser que Ele seja a esperança daquele que a Ele clama: "Ó Senhor, minha esperança desde a minha juventude." "Em Ti é o meu cântico sempre." É apenas desde o tempo em que comecei a esperar em Ti até agora? Não, mas "sempre". Que é "sempre"? Não apenas no tempo da fé, mas também no tempo da visão. Pois agora, "enquanto estamos no corpo, estamos ausentes do Senhor: pois andamos por fé, não por vista": haverá um tempo em que veremos aquilo que, não sendo visto, cremos: mas quando tiver sido visto aquilo em que cremos, nos alegraremos: mas quando tiver sido visto aquilo em que não creram, os ímpios serão confundidos. Então virá a substância de que agora há a esperança. Mas, "a esperança que se vê não é esperança. Mas se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos." Agora, pois, gemes, agora corres a um lugar de refúgio, para que sejas salvo; agora, estando em enfermidade, suplicas ao Médico: que será quando tiveres recebido a saúde perfeita, que será quando tiveres sido feito "igual aos Anjos de Deus", esquecerás então, porventura, aquela graça pela qual foste livrado? Longe esteja.
8. "Como que um monstro me tornei para muitos" (v. 7). Aqui, em tempo de esperança, em tempo de gemido, em tempo de humilhação, em tempo de tristeza, em tempo de enfermidade, em tempo da voz vinda dos grilhões — que, pois, aqui? "Como que um monstro me tornei para muitos." Por que, "como que um monstro"? Por que me insultam os que me tomam por monstro? Porque creio naquilo que não vejo. Pois eles, felizes nas coisas que veem, exultam na bebida, na luxúria, nos quartos, na cobiça, nas riquezas, nos roubos, nas dignidades seculares, no branquear de um muro de barro — nessas coisas exultam: mas eu ando por um caminho diferente, desprezando as coisas presentes, e temendo até as coisas prósperas do mundo, e seguro em nenhuma outra coisa senão nas promessas de Deus. E eles: "Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos." Que dizes? Repete-o: "comamos", diz ele, "e bebamos." Vamos, que disseste depois? "Pois amanhã morreremos." Aterraste-me, não me desviaste. Certamente, pela própria coisa que disseste depois, feriste-me de temor de consentir contigo. "Pois amanhã morreremos", disseste: e precedeu, "comamos e bebamos." Pois quando disseste "comamos e bebamos", acrescentaste "pois amanhã morreremos." Ouve o outro lado, de mim: "Sim, jejuemos e oremos, `pois amanhã morreremos.'" Eu, guardando este caminho, estreito e apertado, "como que um monstro me tornei para muitos: mas Tu és o meu forte ajudador." Sê Tu comigo, ó Senhor Jesus, para me dizeres, não desfaleças no caminho estreito, eu primeiro o percorri, eu sou o próprio caminho, eu guio, em mim mesmo guio, para mim mesmo guio de volta. Portanto, ainda que "um monstro me tenha tornado para muitos", contudo não temerei, pois "Tu és o meu forte Ajudador."
9. "Encha-se a minha boca de louvor, para que com hino conte a Tua glória, o dia todo a Tua magnificência" (v. 8). Que é "o dia todo"? Sem intermissão. Na prosperidade, porque Tu me consolas; na adversidade, porque Tu me corriges; antes que eu existisse, porque Tu me fizeste; quando eu existia, porque Tu me deste saúde; quando eu havia pecado, porque Tu me perdoaste; quando me converti, porque Tu me ajudaste; quando perseverei, porque Tu me coroaste.
Minha esperança desde a juventude: "não me lances fora no tempo da velhice" (v. 9). Que é este tempo da velhice? "Quando minha força faltar, não me abandones Tu." Eis que Deus te dá esta resposta: sim, que tua força falte, para que em ti permaneça a minha; para que possas dizer com o Apóstolo: "Quando estou fraco, então sou forte." Não temas ser lançado fora nessa fraqueza, nessa velhice. Mas por quê? Não foi teu Senhor feito fraco na Cruz? Não sacudiram a cabeça diante Dele os homens poderosíssimos e touros gordos, como diante de um homem sem força, cativo e oprimido, dizendo: "Se é Filho de Deus, que desça da Cruz"? Acaso Ele desertou por ter sido feito fraco, Ele que preferiu não descer da Cruz, para não parecer que cedia aos que O escarneciam, mas que exibia poder? Que te ensinou Ele, pendente e sem descer, senão a paciência em meio aos homens que escarneciam, para que fosses forte em teu Deus? Talvez também em pessoa Sua se disse: "Como monstro me tornei para muitos, e Tu és um forte Auxiliador." Em Sua pessoa, segundo Sua fraqueza, não segundo Seu poder; segundo aquilo em que nos havia transformado em Si mesmo, não segundo aquilo em que Ele próprio descera. Pois se tornou monstro para muitos. E talvez fosse a mesma a velhice Dele; porque por causa de sua antiguidade não impropriamente se chama velhice, e diz o Apóstolo: "Nosso velho homem foi crucificado juntamente com Ele." Se ali estava nosso velho homem, ali estava a velhice; porque velho, velhice. Contudo, porque é verdadeiro dizer: "Como a de águia se renovará tua juventude" — Ele mesmo ressuscitou ao terceiro dia, prometendo uma ressurreição ao fim do mundo. Já precedeu a Cabeça, os membros hão de seguir. Por que temes que Ele te abandone, que te lance fora no tempo da velhice, quando tua força tiver faltado? Sim, naquele tempo estará em ti a força Dele, quando tua força tiver faltado.
Por que digo isto? "Pois meus inimigos falaram contra mim, e os que vigiavam minha alma tomaram conselho juntos" (v. 10): "dizendo: Deus O abandonou, persegui-O e prendei-O, pois não há quem O liberte" (v. 11). Isto foi dito acerca de Cristo. Pois Aquele que, com o grande poder da Divindade, no qual é igual ao Pai, ressuscitara os mortos, subitamente nas mãos dos inimigos se fez fraco, e, como se não tivesse poder, foi preso. Quando teria sido preso, se antes não tivessem dito em seu coração: "Deus O abandonou"? Donde aquela voz na Cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?" Acaso então Deus abandonou a Cristo, sendo que "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo", sendo que Cristo era também Deus, ainda que segundo a carne procedente dos judeus, "que está sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre" — acaso O abandonou Deus? Longe disso. Mas em nosso velho homem era nossa voz, porque nosso velho homem foi crucificado juntamente com Ele; e desse mesmo nosso velho homem Ele tomara um Corpo, porque Maria era de Adão. Portanto a mesma coisa que eles pensavam, desde a Cruz Ele disse: "Por que Me abandonaste?" Por que pensam estes homens que fui deixado só à sua maldade? Que é: pensar-Me abandonado em sua maldade? "Pois se o houvessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória. Persegui-O e prendei-O." Mais familiarmente, porém, irmãos, tomemos isto acerca dos membros de Cristo, e reconheçamos nossa própria voz nestas palavras: porque também Ele usou tais palavras em nossa pessoa, não em Seu próprio poder e majestade, mas naquilo que Se fez por nossa causa, não segundo aquilo que Era, Ele que nos fez.
"Ó Senhor, meu Deus, não estejas longe de mim" (v. 12). Assim é, e o Senhor de modo algum está longe. Pois "o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado." "Meu Deus, olha para meu auxílio." "Sejam confundidos e pereçam os que atacam minha alma" (v. 13). Que desejou ele? "Sejam confundidos e pereçam." Por que o desejou? "Que atacam minha alma"? Que é "que atacam minha alma"? Atacam como que provocando a alguma contenda. Pois se dizem atacados os que são desafiados à contenda. Se assim é, então guardemo-nos dos homens que atacam nossa alma. Que é "que atacam nossa alma"? Primeiramente, provocando-nos a resistir a Deus, para que em nossos males Deus nos desagrade. Pois quando estás reto, de modo que a ti o Deus de Israel possa ser bom, sendo bom para os homens que combatem no coração? Quando estás reto? Queres ouvir? Quando naquele bem que fazes, Deus te agrada; mas naquele mal que sofres, Deus não te desagrada. Vede, irmãos, o que disse, e guardai-vos dos homens que atacam vossas almas. Pois todos os homens que agem convosco a fim de fazer-vos cansar em dores e tribulações, têm este propósito, a saber, que Deus vos desagrade naquilo que sofreis, e que saia de vossa boca: "Que é isto? Que fiz eu?" Ora, então, nada fizeste de mal, e és justo, sendo Ele injusto? Pecador sou, dizes, confesso, mas justo não me chamo. Mas quê, pecador, terás por acaso feito tanto mal quanto aquele a quem vai bem? Tanto quanto Gaiuseio? Conheço as más obras dele, conheço as iniquidades dele, das quais eu, embora pecador, estou muito longe; e todavia o vejo abundando em todos os bens, e eu sofro tão grandes males. Não digo então, ó Deus, "que fiz eu" contra Ti, porque nada fiz de mal; mas porque não fiz tanto que merecesse sofrer estas coisas. De novo, és justo, sendo Ele injusto? Desperta, homem miserável, tua alma foi atacada! Não me chamei, ele diz, justo. Que dizes então? Pecador sou, mas não cometi tão grandes pecados que merecesse sofrer estas coisas. Não dizes então a Deus: justo sou, e Tu és injusto; mas dizes: injusto sou, mas Tu és mais injusto. Eis que tua alma foi atacada, eis que agora tua alma guerreia. Quê? Contra quem? Tua alma, contra Deus; aquilo que foi feito contra Aquele por quem foi feito. Justamente porque existes para clamar contra Ele, és ingrato. Volta, pois, à confissão de tua enfermidade, e implora a mão curadora do Médico. Não penses que são felizes os que florescem por um tempo. Tu és castigado, eles são poupados: talvez para ti, castigado e corrigido, se guarde uma herança em reserva. ...Por fim, vede o que se segue: "Vistam-se de confusão e vergonha os que me pensam males." "Confusão e vergonha": confusão por causa da má consciência, vergonha por causa do pudor. Que isto lhes suceda, e serão bons. ...
"Mas eu sempre em Ti esperarei, e acrescentarei a todo o Teu louvor" (v. 14). Que é isto? "Acrescentarei a todo o Teu louvor" deve mover-nos. Farás mais perfeito o louvor de Deus? Há algo a ser acrescentado? Se já isso é todo o louvor, acrescentarás alguma coisa? Deus foi louvado em todas as Suas boas obras, em toda a criatura Sua, em todo o estabelecimento de todas as coisas, no governo e na regulação dos séculos, na ordem das estações, na altura do Céu, na fecundidade das regiões da terra, no cerco do mar, em toda excelência da criatura em toda parte produzida, nos próprios filhos dos homens, na doação da Lei, na libertação de Seu povo do cativeiro dos egípcios, e em todas as demais obras maravilhosas Suas: ainda não fora louvado por ter ressuscitado a carne para a vida eterna. Que se acrescente, pois, este louvor pela Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, para que aqui percebamos Sua voz acima de todo o louvor passado; assim é que corretamente entendemos também isto. ...
"Minha boca anunciará Tua justiça" (v. 15): não a minha. Daí acrescentarei a todo o Teu louvor, porque mesmo que eu seja justo, se justo sou, é Tua justiça em mim, não a minha própria; pois Tu justificas o ímpio. "Todo o dia, Tua salvação." Que é "Tua salvação"? Que ninguém se atribua a si mesmo o ter-se salvado: "Do Senhor é a Salvação." Ninguém por si mesmo se salva: "Vã é a salvação do homem." "Todo o dia, Tua Salvação": em todo o tempo. Vem algo de adversidade? Anuncia a Salvação do Senhor. Vem algo de prosperidade? Anuncia a Salvação do Senhor. Não anuncies na prosperidade e cales na adversidade: do contrário não haverá aquilo que se disse, "todo o dia." Pois todo o dia é o dia junto com sua própria noite. Quando dizemos, por exemplo, passaram-se trinta dias, não mencionamos também as noites? Não incluímos sob o próprio termo dias também as noites? No Gênesis que se disse? "Fez-se a tarde, e fez-se a manhã, um dia." Portanto um dia inteiro é o dia junto com sua própria noite; pois a noite serve ao dia, não o dia à noite. Tudo o que fazes na carne mortal deve servir à justiça; tudo o que fazes por mandamento de Deus, não se faça por causa da vantagem da carne, para que o dia não sirva à noite. Portanto, todo o dia fala do louvor de Deus, a saber, na prosperidade e na adversidade; na prosperidade, como que de dia; na adversidade, como que de noite: todo o dia, contudo, fala do louvor de Deus, para que não tenhas cantado em vão: "Bendirei a Deus em todo tempo, sempre está em minha boca o louvor Dele." ...
15. Por isso, diz ele, "não conheci negociações." Que são estas negociações? Que os negociantes ouçam e mudem de vida; e se assim foram, que não o sejam mais; que não saibam o que foram, que se esqueçam; enfim, que não aprovem, não louvem; que reprovem, condenem, mudem, se a negociação é pecado. Pois por isso, ó negociante, por causa de certa avidez de lucro, sempre que tiveres sofrido perda, blasfemarás; e não haverá em ti aquilo de que se falou, "todo o dia Teu louvor." Mas sempre que, pelo preço da mercadoria que estás vendendo, não apenas mentes, mas até juras falsamente, como em tua boca todo o dia está o louvor de Deus? Enquanto isso, se és cristão, até pela tua boca o nome de Deus está sendo blasfemado, de modo que os homens dizem: vede que tipo de gente são os cristãos! Portanto, se este homem por esta razão fala o louvor de Deus todo o dia, porque não conheceu negociações, que os cristãos se emendem, que não negociem. Mas um negociante me diz: eis que trago de região distante mercadoria para estes lugares, onde não há aquelas coisas que trouxe, por meio das quais posso ganhar a vida: peço apenas como recompensa de meu trabalho que possa vender mais caro do que comprei; pois de onde poderei viver, quando está escrito: "digno é o trabalhador de sua recompensa"? Mas ele está tratando da mentira, do juramento falso. Esta é falta minha, não da negociação: pois eu poderia, se quisesse, passar sem esta falta. Eu, então, o mercador, não transfiro minha própria falta à negociação: mas se minto, sou eu que minto, não a negociação. Pois eu poderia dizer: por tanto comprei, mas por tanto venderei; se te aprouver, compra. Pois o comprador, ouvindo esta verdade, não se ofenderia, e nem um pouco menos todos recorreriam a mim: porque amariam mais a verdade que o lucro. Disto, pois, diz ele, adverte-me, que eu não minta, que não jure falso; não que eu abandone o negócio pelo qual me sustento. Pois a que me reduzes quando me afastas disto? Talvez a algum ofício? Serei sapateiro, farei sapatos para os homens. Não são eles também mentirosos? Não são também juramentadores falsos? Não é que, tendo contratado fazer sapatos para um homem, tendo recebido dinheiro de outro, abandonam o que estavam fazendo e se comprometem a fazer para outro, enganando aquele a quem prometeram fazer depressa? Não dizem muitas vezes: hoje estou cuidando disso, hoje terminarei? Em segundo lugar, na própria costura, não cometem tantas fraudes quantas puderem? Estes são seus feitos e estes são seus ditos: mas eles próprios é que são maus, não o ofício que professam. Todos os artífices maus, então, não temendo a Deus, seja por lucro, seja por medo de perda ou necessidade, mentem, jurameram falso; não há neles louvor contínuo de Deus. Como então me afastas da negociação? Queres que eu seja lavrador, e que murmure contra Deus que troveja, de modo que, temendo o granizo, eu consulte um feiticeiro, para saber o que fazer para me proteger contra o mau tempo; de modo que eu deseje a fome para os pobres, a fim de poder vender o que guardei em reserva? A isto me trazes? Mas bons lavradores, dizes, não fazem tais coisas. Nem bons negociantes fazem aquelas coisas. Mas por quê? Até o ter filhos é coisa má, pois quando lhes dói a cabeça, mães más e incrédulas buscam encantamentos e feitiços ímpios? Estes são os pecados dos homens, não das coisas. Um negociante poderia falar-me assim: vê então, ó Bispo, como entendes as negociações que leste no Salmo, para que não as entendas mal, e ainda assim me proíbas a negociação. Adverte-me então como devo viver; se bem, ser-me-á bem: uma coisa, porém, sei, que se eu for mau, não é a negociação que me faz assim, mas minha iniquidade. Sempre que se fala a verdade, nada há a dizer contra ela.
16. Perguntemo-nos, pois, o que ele chamou de negociações, as quais, não as tendo conhecido, todo o dia louva a Deus. A negociação, mesmo na língua grega, deriva da ação, e na latina da falta de inação: mas seja da ação, seja da falta de inação, examinemos [truncado]
Com razão se segue: "Entrarei no poder do Senhor": não no meu, mas no do Senhor. Pois eles se gloriavam em seu próprio poder da letra, e por isso não conheceram a graça unida à letra. ...Mas porque "a letra mata, e o Espírito vivifica": "não conheci a literatura, e entrarei no poder do Senhor." Portanto este verso seguinte fortalece e aperfeiçoa o sentido, de modo a fixá-lo nos corações dos homens, e não permitir que qualquer outra interpretação se insinue de qualquer parte. "Ó Senhor, lembrar-me-ei somente de Tua justiça" (v. 16). Ah! "somente." Por que acrescentou "somente", pergunto-vos? Bastaria dizer: "lembrar-me-ei de Tua justiça." "Somente", diz ele, inteiramente: ali não penso em nada meu. "Pois que tens que não tenhas recebido? Mas se também recebeste, por que te glorias como se não tivesses recebido?" Somente Tua justiça me liberta; o que é meu próprio, somente, nada é senão pecados. Que eu não me glorie então de minha própria força, que eu não permaneça na letra; que eu rejeite a "literatura", isto é, os homens que se gloriam da letra, e perversamente confiam em sua própria força, como homens frenéticos; que eu rejeite tais homens, que eu entre no poder do Senhor, de modo que, quando estou fraco, então seja forte; para que Tu em mim sejas forte, pois "lembrar-me-ei somente de Tua justiça."
"Ó Deus, Tu me ensinaste desde minha juventude" (v. 17). Que me ensinaste Tu? Que eu deveria lembrar-me somente de Tua justiça. Pois, revendo minha vida passada, vejo o que me era devido, e o que recebi em lugar daquilo que me era devido. Devia-se-me castigo, pagou-se graça; devia-se-me o inferno, deu-se a vida eterna. "Ó Deus, Tu me ensinaste desde minha juventude." Desde o próprio início de minha fé, com a qual me renovaste, ensinaste-me que nada precedera em mim, de onde eu pudesse dizer que me era devido o que Tu deste. Pois quem se converte a Deus senão da iniquidade? Quem é resgatado senão do cativeiro? Mas quem pode dizer que injusto foi seu cativeiro, quando abandonou seu Capitão e se passou para o desertor? Deus é nosso Capitão, o diabo um desertor: o Capitão deu um mandamento, o desertor sugeriu engano: onde estavam teus ouvidos entre o preceito e o engano? Era o diabo melhor que Deus? Melhor aquele que se revoltou que Aquele que te fez? Creste no que o diabo prometeu, e encontraste o que Deus ameaçou. Agora então, libertado do cativeiro, ainda porém na esperança, não ainda na substância, caminhando pela fé, não ainda pela visão, "ó Deus", diz ele, "Tu me ensinaste desde minha juventude." Desde o tempo em que me converti a Ti, renovado por Ti, eu que fora feito por Ti, recriado eu que fora criado, reformado eu que fora formado: desde o tempo em que me converti, aprendi que nenhum mérito meu precedera, mas que Tua graça me viera de graça, para que eu me lembrasse somente de Tua justiça.
20. Que se segue depois da juventude? Pois "Tu me ensinaste", diz ele, "desde minha juventude": que depois da juventude? Pois nessa mesma primeira conversão tua aprendeste como, antes da conversão, não eras justo, mas a iniquidade precedia, para que, banida a iniquidade, sucedesse o amor: e, renovado em homem novo, ainda apenas na esperança, não ainda na substância, aprendeste como nada de teu bem precedera, e que pela graça de Deus foste convertido a Deus: agora, talvez, desde que te converteste, terás algo de teu próprio, e em tua própria força deverás confiar? Assim como costumam dizer os homens: agora deixa-me, era necessário que me mostrasses o caminho; basta, caminharei pelo caminho. E Aquele que te mostrou o caminho, "não queres que eu te conduza ao lugar?" Mas tu, se és presunçoso: "deixa-me, basta, caminharei pelo caminho." És deixado, e por tua fraqueza de novo perderás o caminho. Bom seria para ti que Ele te conduzisse, Ele que primeiro te pôs no caminho. Mas a menos que Ele também te conduza, de novo também te desviarás: dize-Lhe então: "Conduze-me, ó Senhor, em Teu caminho, e caminharei em Tua verdade." Mas teu ter entrado no caminho é a juventude, a própria renovação e começo da fé. Pois antes caminhavas por teus próprios caminhos, vagabundo; errando por lugares de mato, por lugares ásperos, ferido em todos os teus membros, buscavas um lar, isto é, uma espécie de assentamento de teu espírito, onde pudesses dizer: está bem; e, estando em segurança, pudesses dizê-lo, em repouso de toda inquietação, de toda provação, em uma palavra, de todo cativeiro; e não o encontravas. Que direi? Veio a ti alguém para mostrar-te o caminho? Veio a ti o próprio Caminho, e foste posto nele por nenhum mérito teu precedente, pois evidentemente erravas. Quê, desde o tempo em que puseste o pé nele, agora te diriges tu mesmo? Aquele que te ensinou o caminho agora te abandona? Não, diz ele: "Tu me ensinaste desde minha juventude; e ainda até agora anunciarei Tuas obras maravilhosas." Pois coisa maravilhosa é o que ainda fazes, a saber, que me diriges, tu que me puseste no caminho: e estas são Tuas obras maravilhosas. Que pensas serem as obras maravilhosas de Deus? Que há mais maravilhoso entre as obras maravilhosas de Deus do que ressuscitar os mortos? Mas serei eu, porventura, morto, dizes tu? A menos que estivesses morto, não se te teria dito: "Levanta-te, tu que dormes, e ressuscita dentre os mortos, e Cristo te iluminará." Mortos estão todos os incrédulos, todos os homens injustos; no corpo vivem, mas no coração estão extintos. Mas aquele que ressuscita um homem morto segundo o corpo, traz-lhe de volta a ver esta luz e a respirar este ar: mas aquele que ressuscita não é ele mesmo luz e ar para ele; começa a ver, como via antes. Uma alma não é assim ressuscitada. Pois uma alma é ressuscitada por Deus; embora também um corpo seja ressuscitado por Deus: mas Deus, quando ressuscita um corpo, ao mundo o traz de volta: quando ressuscita uma alma, a Si mesmo a traz de volta. Se o ar deste mundo é retirado, morre o corpo: se Deus é retirado, morre a alma. Quando, pois, Deus ressuscita uma alma, a menos que esteja com ela Aquele que a ressuscitou, ela, ressuscitada, não vive. Pois Ele não a ressuscita, e depois a deixa viver por si mesma: da mesma maneira que Lázaro, quando foi ressuscitado depois de quatro dias morto, foi ressuscitado pela presença corporal do Senhor. ...O Senhor Se retirou daquela mesma cidade ou daquele lugar, deixou Lázaro de viver? Não é assim que a alma é ressuscitada: Deus a ressuscita, ela morre se Deus Se retirar. Direi ousadamente, irmãos, mas ainda assim a verdade. Duas vidas há, uma do corpo, outra da alma: como a vida do corpo é a alma, assim a vida da alma é Deus: da mesma maneira que, se a alma abandona, o corpo morre: assim a alma morre, se Deus a abandona. Esta é, pois, Sua graça, a saber, que Ele ressuscite e esteja conosco. Porque então Ele nos ressuscita de nossa morte passada, e de certo modo renova nossa vida, dizemos-Lhe: "Ó Deus, Tu me ensinaste desde minha juventude." Mas porque Ele não Se retira daqueles a quem ressuscita, para que não [truncado]
"E até a velhice e a senectude" (v. 18). São estes dois termos para a velhice, e são distinguidos pelos gregos. Pois a gravidade que sucede à juventude tem outro nome entre os gregos, e depois dessa mesma gravidade, a última idade que sobrevém tem outro nome; pois presbútes significa grave, e géron, ancião. Mas porque na língua latina a distinção destes dois termos não se sustenta, ambas as palavras que implicam velhice são inseridas, velhice e senectude: mas sabeis vós que são duas idades. "Tu me ensinaste Tua graça desde minha juventude; e ainda até agora" — depois de minha juventude — "anunciarei Tuas obras maravilhosas", porque estás comigo para que eu não morra, Tu que vieste para que eu ressuscite: "e até a velhice e a senectude", isto é, até meu último suspiro, a menos que estejas comigo, não haverá mérito algum meu; que Tua graça permaneça sempre comigo. Ainda que um só homem dissesse isto — tu, ele, eu — porque esta voz é a de um certo grande Homem, isto é, da própria Unidade, pois é a voz da Igreja; investiguemos a juventude da Igreja. Quando Cristo veio, foi crucificado, morto, ressuscitou, chamou os gentios, começaram estes a se converter, tornaram-se Mártires fortes em Cristo, derramou-se sangue fiel, surgiu uma colheita para a Igreja: esta é Sua juventude. Mas, avançando as estações, que a Igreja confesse, que diga: "Ainda até agora anunciarei Tuas obras maravilhosas." Não somente na juventude, quando Paulo, quando Pedro, quando os primeiros Apóstolos anunciavam: ainda na idade avançada, eu mesma, isto é, Tua Unidade, Teus membros, Teu Corpo, "anunciarei Tuas obras maravilhosas." Que mais, pois? "E até a velhice e a senectude" anunciarei Tuas obras maravilhosas: até o fim do mundo aqui estará a Igreja. Pois se não houvesse de estar aqui até o fim do mundo, a quem disse o Senhor: "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo"? Por que foi necessário que estas coisas fossem ditas nas Escrituras? Porque haveria inimigos da Fé cristã que diriam: "por pouco tempo são os cristãos, depois hão de perecer, e voltarão os ídolos, voltará o que era antes. Até quando serão os cristãos?" "Até a velhice e a senectude": isto é, até o fim do mundo. Quando tu, mísero incrédulo, esperas que os cristãos passem, tu mesmo estás passando sem os cristãos: e os cristãos, até o fim do mundo, hão de perdurar; e quanto a ti, com tua incredulidade, quando tiveres terminado tua breve vida, com que rosto te apresentarás ao Juiz, a quem, enquanto vivias, blasfemavas? Portanto, "desde minha juventude, e ainda até agora, e até a velhice e a senectude, ó Senhor, não me abandones." Não será, como dizem meus inimigos, apenas por um tempo. "Não me abandones, até que eu anuncie Teu braço a toda geração que ainda há de vir." E o Braço do Senhor foi revelado a quem? O Braço do Senhor é Cristo. Não me abandones, pois: que não se alegrem os que dizem, "apenas por tempo determinado são os cristãos." Que haja quem anuncie Teu braço. A quem? "A toda geração que ainda há de vir." Se, pois, é a toda geração que ainda há de vir, será até o fim do mundo: pois quando o mundo terminar, nenhuma geração mais virá.
22. "Vosso poder e Vossa justiça" (v. 19). Isto é, para que eu anuncie a toda geração que há de vir o Vosso braço. E que operou o Vosso braço? Isto, pois, deixa-me anunciar, essa mesma graça a toda geração subsequente: deixa-me dizer a todo homem que há de nascer, nada és por ti mesmo, invoca a Deus, teus são os pecados, os méritos são de Deus: a pena te é devida, e quando vier a recompensa, Ele coroará os Seus próprios dons, não os teus méritos. Deixa-me dizer a toda geração que há de vir, do cativeiro vieste, a Adão pertencias. Deixa-me dizer isto a toda geração que há de vir, que não há força minha, nem justiça minha; mas "Vossa força e Vossa justiça, ó Deus, até às altíssimas obras poderosas que Vós fizestes." "Vosso poder e Vossa justiça," até onde? até à carne e ao sangue? Não, "até às altíssimas obras poderosas que Vós fizestes." Pois os lugares altos são os céus, nos lugares altos estão os Anjos, Tronos, Dominações, Principados, Potestades: a Vós devem que existam; a Vós devem que vivam, a Vós devem que justamente vivam, a Vós devem que bem-aventuradamente vivam. "Vosso poder e Vossa justiça," até onde? "Até às altíssimas obras poderosas que Vós fizestes." Não penses que só o homem pertence à graça de Deus. Que era o Anjo antes de ser feito? Que é o Anjo, se abandonar Aquele que o criou? Portanto, "Vosso poder e Vossa justiça até às altíssimas obras poderosas que Vós fizestes."
23. E o homem se exalta a si mesmo: e, para que pertença ao primeiro cativeiro, ouve a serpente sugerir: "Provai, e sereis como deuses." Homens como deuses? "Ó Deus, quem é semelhante a Vós?" Nenhum no abismo, nenhum no inferno, nenhum na terra, nenhum no céu, pois todas as coisas Vós fizestes. Por que a obra contende com o Artífice? "Ó Deus, quem é semelhante a Vós?" Mas quanto a mim, diz o mísero Adão — e Adão é todo homem —, enquanto perversamente quero ser semelhante a Vós, eis o que me tornei, de modo que do cativeiro a Vós clamo: eu, a quem bem ia sob um bom rei, fui feito cativo sob o meu sedutor; e a Vós clamo, porque de Vós caí. E donde caí de Vós? Enquanto perversamente busco ser semelhante a Vós...
24. Mau erro, má presunção, condenado a morrer por se afastar do caminho da justiça: eis que quebra o mandamento, sacudiu do pescoço o jugo da disciplina, ensoberbecido de ânimo altivo rompeu as rédeas da direção: onde está ele agora? Verdadeiramente cativo clama: "Ó Senhor, quem é semelhante a Vós?" Perversamente quis ser semelhante a Vós, e fui feito semelhante ao animal! Sob o Vosso domínio, sob o Vosso mandamento, eu era de fato semelhante: "Mas o homem posto em honra não entendeu, foi comparado aos animais irracionais, e a eles se fez semelhante." Agora, da semelhança dos animais clama, ainda que tarde, e dize: "Ó Deus, quem é semelhante a Vós?"
25. "Quantas tribulações me mostrastes, muitas e más!" (v. 20). Merecidamente, servo soberbo. Pois quiseste perversamente ser semelhante ao teu Deus, tu que foste feito à imagem do teu Senhor. Quererias que te fosse bem, ao te afastares daquele bem? Verdadeiramente Deus te diz: se te afastas de Mim, e te vai bem, Eu não sou o teu bem. Ademais, se Ele é bom, e sumamente bom, e de Si mesmo para Si mesmo bom, e por nenhum bem alheio bom, e é Ele mesmo o nosso sumo bem; afastando-te dEle, que serás senão mal? Também, se Ele mesmo é a nossa bem-aventurança, que haverá para quem dEle se afasta, senão a miséria? Volta, pois, depois da miséria, e dize: "Ó Senhor, quem é semelhante a Vós? Quantas tribulações me mostrastes, muitas e más!"
2. "Ó Deus, dai o Vosso juízo ao Rei, e a Vossa justiça ao Filho do Rei" (v. 1). O próprio Senhor no Evangelho diz: "O Pai a ninguém julga, mas todo o juízo deu ao Filho:" isto é, pois, "Ó Deus, dai o Vosso juízo ao Rei." Aquele que é Rei é também o Filho do Rei: porque também Deus Pai é certamente Rei. Assim está escrito que o Rei fez as bodas para o Seu Filho. Mas ao modo da Escritura, a mesma coisa é repetida. Pois o que disse em "o Vosso juízo," o mesmo de outro modo exprimiu em "a Vossa justiça:" e o que disse em "o Rei," o mesmo de outro modo exprimiu em "ao Filho do Rei." ... Mas estas repetições muito recomendam os ditos divinos, seja que se repitam as mesmas palavras, seja que em outras palavras se repita o mesmo sentido: e encontram-se sobretudo nos Salmos, e no gênero de discurso pelo qual se há de despertar o afeto da alma.
1. "Para Salomão" é, de fato, o título antepostamente notado deste Salmo: mas nele se dizem coisas que não poderiam aplicar-se àquele Salomão, rei de Israel segundo a carne, conforme aquilo que a santa Escritura diz a respeito dele: mas podem aplicar-se muito pertinentemente ao Senhor Cristo. Donde se percebe que a própria palavra Salomão é usada em sentido figurado, de modo que nele se há de entender Cristo. Pois Salomão se interpreta pacificador: e por isso tal palavra a Ele convém mui verdadeira e excelentemente, por Quem, o Mediador, havendo recebido a remissão dos pecados, nós, que éramos inimigos, somos reconciliados com Deus. Pois "quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do Seu Filho." O Mesmo é Ele próprio esse Pacificador. ...Uma vez, pois, que encontramos o verdadeiro Salomão, isto é, o verdadeiro Pacificador: observemos a seguir o que o Salmo ensina a respeito dEle.
3. Segue-se logo: "Para julgar o Vosso povo em justiça, e os Vossos pobres em juízo" (v. 2). Para que fim o Pai régio deu ao Filho régio o Seu juízo e a Sua justiça, suficientemente se mostra quando diz: "Para julgar o Vosso povo em justiça;" isto é, com a finalidade de julgar o Vosso povo. Tal idiotismo se encontra em Salomão: "Provérbios de Salomão, filho de Davi, para conhecer a sabedoria e a disciplina:" isto é, os Provérbios de Salomão, com a finalidade de conhecer a sabedoria e a disciplina. Assim, "Dai o Vosso juízo, para julgar o Vosso povo:" isto é, dai "o Vosso juízo" com a finalidade de julgar o Vosso povo. Mas o que diz antes em "o Vosso povo," o mesmo diz depois em "os Vossos pobres:" e o que diz antes em "em justiça," o mesmo depois em "em juízo:" segundo aquele modo de repetição. Por onde de fato mostra que o povo de Deus deve ser pobre, isto é, não soberbo, mas humilde. Pois, "bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus." Nessa pobreza também o bem-aventurado Jó era pobre, ainda antes de haver perdido aquelas grandes riquezas terrenas. O que, por esta razão, pensei que se devia mencionar, porque há certas pessoas mais prontas a distribuir todos os seus bens aos pobres do que a se tornarem elas mesmas os pobres de Deus. Pois se inflam de jactância, na qual pensam que o seu bem viver se deve atribuir a si mesmas, não à graça de Deus: e por isso agora nem sequer vivem bem, por maiores que sejam as boas obras que parecem fazer...
4. Mas, visto que mudou a ordem das palavras (ainda que primeiro tivesse dito, "Ó Deus, dai o Vosso juízo ao Rei, e a Vossa justiça ao Filho do Rei," pondo primeiro o juízo, depois a justiça), e pôs primeiro a justiça, depois o juízo, dizendo, "Para julgar o Vosso povo em justiça, e os Vossos pobres em juízo:" mostra mais claramente que chamou o juízo de justiça, provando que a ordem em que a palavra é posta não faz diferença alguma, porque significa a mesma coisa. Pois é costume dizer-se "juízo torto" daquilo que é injusto: mas de justiça iníqua ou injusta não costumamos falar. Pois, se é torto e injusto, já não se deve chamar justiça. Ademais, ao pôr o juízo e repeti-lo sob o nome de justiça, ou ao pôr a justiça e repeti-la sob o nome de juízo, mostra claramente que nomeia especialmente aquele juízo que costuma pôr-se em lugar da justiça, isto é, aquele que não se pode entender como dar um juízo mau. Pois no lugar em que Ele diz, "Não julgueis segundo a aparência, mas julgai o juízo justo;" mostra Ele que pode haver um juízo torto, quando diz, "julgai o juízo justo:" por fim, uma coisa Ele proíbe, outra Ele ordena. Mas quando, sem acréscimo algum, fala Ele de juízo, quer logo que se entenda o juízo justo: como é aquilo que diz, "Deixais as coisas mais pesadas da Lei, a misericórdia e o juízo." Também o que diz Jeremias é: "fazendo suas riquezas não com juízo." Não diz, fazendo suas riquezas com juízo torto ou injusto, ou não com juízo reto ou justo, mas "não com juízo:" não chamando de juízo senão o que é reto e justo.
5. "Que os montes tragam paz ao povo, e os outeiros a justiça" (v. 3). Os montes são os maiores, os outeiros os menores. Estes são, sem dúvida, aqueles que outro Salmo tem: "pequenos com grandes." Pois aqueles montes exultaram como carneiros, e aqueles outeiros como cordeiros do rebanho, na saída de Israel do Egito, isto é, na libertação do povo de Deus da servidão deste mundo. Aqueles, pois, que na Igreja se destacam por eminente santidade, são os montes, que são aptos para ensinar também os demais homens, falando de tal modo que sejam fielmente instruídos, vivendo de tal modo que os imitem para seu proveito: mas os outeiros são os que seguem a excelência dos primeiros pela sua própria obediência. Por que, pois, "os montes, a paz: e os outeiros, a justiça"? Acaso não haveria diferença alguma, ainda que se tivesse dito assim, Que os montes tragam a justiça ao povo, e os outeiros a paz? Pois a ambos é necessária a justiça, e a ambos a paz: e pode ser que, sob outro nome, a própria justiça tenha sido chamada paz. Pois esta é a verdadeira paz, não tal como os injustos fazem entre si. Ou antes, com uma distinção que não se há de descuidar, deve entender-se o que diz, "os montes, a paz, e os outeiros, a justiça"? Pois os homens que sobressaem na Igreja devem aconselhar a paz com vigilante cuidado; para que, por causa das suas próprias distinções, agindo soberbamente, não façam cismas e rompam o vínculo da unidade. Mas que os outeiros os sigam de tal modo por imitação e obediência, que a Cristo os prefiram: para que, não sendo desviados pela vã autoridade de maus montes (pois parecem sobressair), se arranquem da Unidade de Cristo...
6. Assim também mui pertinentemente se pode entender, "que os montes tragam paz ao povo," a saber, que entendamos consistir a paz na reconciliação pela qual somos reconciliados com Deus: pois os montes recebem isto para o Seu povo. ..."Que os montes, portanto, recebam a paz para o povo, e os outeiros a justiça:" de modo que, assim, estando ambos em concórdia, venha a suceder aquilo que está escrito, "a justiça e a paz se beijaram." Mas o que outros exemplares têm, "que os montes recebam a paz para o povo, e que os outeiros:" penso que se deve entender de toda sorte de pregação da paz evangélica, sejam os que vão adiante, sejam os que seguem depois. Mas nestes exemplares segue-se isto: "em justiça Ele julgará os pobres do povo." Mas são mais aprovados aqueles exemplares que têm o que expusemos acima, "que os montes tragam paz ao povo, e os outeiros a justiça." Mas alguns têm, "ao Vosso povo;" alguns não têm "Vosso," mas somente "ao povo."
7. "Ele julgará os pobres do povo, e salvará os filhos dos pobres" (v. 4). Os pobres e os filhos dos pobres parecem-me ser a mesmíssima coisa, assim como a mesma cidade é Sião e a filha de Sião. Mas se se há de entender com distinção, tomamos os pobres pelos montes, e os filhos dos pobres pelos outeiros: por exemplo, os Profetas e Apóstolos, os pobres; mas os filhos deles, isto é, os que proveitam sob a sua autoridade, os filhos dos pobres. Mas o que se disse acima, "julgará," e depois, "salvará," é como que uma espécie de exposição de que modo Ele há de julgar. Pois para este fim Ele julgará, para que possa salvar, isto é, para que separe daqueles que hão de ser destruídos e condenados aqueles a quem dá "a salvação prestes a revelar-se" no último tempo. Pois por tais homens a Ele se diz: "Não percas com os ímpios a minha alma:" e, "Julgai-me Vós, ó Deus, e separai a minha causa da nação não santa." Devemos observar também que não diz, Ele julgará o povo pobre, mas, "os pobres do povo." Pois acima, quando dissera, "para julgar o Vosso povo em justiça e os Vossos pobres em juízo," ao mesmo chamou de povo de Deus como Seus pobres, isto é, somente os bons e os que pertencem ao lado direito. Mas porque neste mundo os da direita e os da esquerda se apascentam juntos, os quais, como cordeiros e cabritos, ao fim hão de ser apartados; ao todo, tal como está misturado, chamou pelo nome de Povo. E porque também aqui toma o juízo em bom sentido, isto é, com a finalidade de salvar: por isso diz, "Ele julgará os pobres do povo," isto é, separará para a salvação aqueles que são pobres entre o povo. "E Ele humilhará o caluniador." Nenhum caluniador se pode aqui reconhecer mais adequadamente do que o diabo. A calúnia é o seu ofício. "Acaso Jó adora a Deus de graça?" Mas o Senhor Jesus o humilha, ajudando pela Sua graça aos Seus, para que adorem a Deus de graça, isto é, se comprazam no Senhor. Humilhou-o também assim: porque, quando nEle o diabo, isto é, o príncipe deste mundo, nada encontrou, matou-O pelas falsas acusações dos judeus, dos quais se serviu o caluniador como de vasos seus, operando nos filhos da incredulidade...
8. "E Ele permanecerá até o sol," ou, "permanecerá com o sol" (v. 5). Pois assim pensaram alguns dos nossos escritores que se traduziria mais exatamente o que no grego é sumparamenei. Mas se em latim se pudesse ter expressado numa só palavra, dever-se-ia expressar por compermanebit: porém, como em latim a palavra não se pode exprimir, a fim de que ao menos o sentido se traduzisse, expressou-se por, "permanecerá com o sol." Pois "co-permanecer com o sol" não é outra coisa senão, "permanecerá com o sol." Mas que grande coisa é para Ele permanecer com o sol, por Quem todas as coisas foram feitas, e sem Quem nada foi feito, senão que esta profecia foi enviada antecipadamente por causa daqueles que pensam que a religião do nome cristão durará neste mundo até certo tempo, e depois não mais existirá? "Permanecerá," pois, "com o sol," enquanto o sol nascer e se puser, isto é, enquanto estes tempos girarem, não faltará a Igreja de Deus, isto é, o corpo de Cristo na terra. Mas o que acrescenta, "e antes da lua, gerações de gerações:" poderia ter expressado por, e antes do sol, isto é, tanto com o sol quanto antes do sol: o que se entenderia tanto com os tempos quanto antes dos tempos. Aquilo, pois, que precede o tempo é eterno: e verdadeiramente se deve ter por eterno aquilo que por nenhum tempo se muda, como, "no princípio era o Verbo." Mas pela lua quis antes indicar os crescimentos e minguantes das coisas mortais. Por fim, quando dissera, "antes da lua," querendo de certo modo explicar para que fim inseriu a lua, "gerações," diz, "de gerações." Como se dissesse, antes da lua, isto é, antes das gerações de gerações que passam na partida e sucessão das coisas mortais, como os minguantes e crescimentos lunares. E assim, que melhor se pode entender por Ele permanecer antes da lua, senão que Ele precede todas as coisas mortais pela imortalidade? O que também, como se segue, não impertinentemente se pode tomar, que, tendo agora humilhado o caluniador, Ele se assenta à direita do Pai, isto é permanecer com o sol. Pois o esplendor da glória eterna se entende ser o Filho: como se o Sol fosse o Pai, e o Esplendor dEle o Seu Filho. Mas como estas coisas se podem dizer da invisível Substância do Criador, não como daquela visível criação em que estão os corpos celestes, dos quais corpos luminosos o sol tem a preeminência, donde se tirou esta similitude: assim como se tiram também das coisas terrenas, a saber, pedra, leão, cordeiro, homem que tem dois filhos, e coisas semelhantes: portanto, tendo humilhado o caluniador, Ele permanece com o sol: porque, havendo vencido o diabo pela Ressurreição, Ele se assenta à direita do Pai, onde já não morre, e a morte já não mais tem domínio sobre Ele. Isto também é antes da lua, como se o Primogênito dentre os mortos fosse adiante da Igreja, que vai passando na partida e sucessão dos mortais. Estas são "as gerações de gerações." Ou talvez seja porque gerações são aquelas pelas quais somos gerados mortalmente; mas gerações de gerações aquelas pelas quais somos regenerados imortalmente. E tal é a Igreja, a qual Ele precedeu, para que permanecesse antes da lua, sendo o Primogênito dentre os mortos. Certamente, o que está em grego geneaj genewn, alguns interpretaram, não "gerações," mas, "de uma geração de gerações": porque geneaj é de caso ambíguo em grego, e se é o genitivo singular thj geneaj, isto é, da geração, ou o acusativo plural taj geneaj, isto é, as gerações, não aparece claramente, exceto que com razão se preferiu aquele sentido em que, como que explicando o que chamara "a lua," acrescentou em seguida, "gerações de gerações."
9. "E descerá como chuva sobre o velo, e como gotas destilando sobre a terra" (v. 6). Ele nos trouxe à memória e nos admoestou que aquilo que se fez por Gedeão, o Juiz, em Cristo tem seu cumprimento. Pois ele pediu ao Senhor um sinal, que um velo posto na eira fosse molhado sozinho pelo orvalho, e a eira ficasse seca; e depois, que o velo sozinho ficasse seco, e a eira fosse molhada pelo orvalho; e assim se fez. O que significava que, estando como que numa eira no meio de todo o mundo circundante, o velo seco era o antigo povo de Israel. O mesmo Cristo, portanto, desceu como chuva sobre um velo, estando a eira ainda seca: donde também disse Ele: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Ali Ele escolheu uma Mãe pela qual receberia a forma de servo, na qual haveria de aparecer aos homens: ali os discípulos, aos quais deu este mesmo mandamento, dizendo: "Pelo caminho dos gentios não vades, e nas cidades dos samaritanos não entreis: ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel." Quando diz, ide primeiro a elas, mostra também que depois, quando enfim a eira fosse molhada, iriam também a outras ovelhas, que não eram do antigo povo de Israel, a respeito das quais diz: "Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; importa que eu as traga também, para que se faça um rebanho e um Pastor." Daí também o Apóstolo: "pois digo", diz ele, "que Cristo foi ministro da circuncisão pela verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais." Assim desceu a chuva sobre o velo, estando a eira ainda seca. Mas quando prossegue: "mas que os gentios glorificassem a Deus por sua misericórdia": para que, chegado o tempo, se cumprisse o que pelo Profeta Ele diz: "um povo que eu não conheci me serviu; ao ouvir com o ouvido, me obedeceu": vemos agora que, da graça de Cristo, a nação dos judeus permaneceu seca, e todo o mundo circundante, por todas as nações, está sendo molhado por nuvens cheias da graça cristã. Pois por outra palavra indicou a mesma chuva, dizendo: "gotas destilando": já não sobre o velo, mas "sobre a terra". Pois que outra coisa é a chuva senão gotas destilando? Mas que a nação acima mencionada seja significada sob o nome de velo, penso que seja ou porque haviam de ser despojados da autoridade de ensinar, assim como a ovelha é despojada de sua pele; ou porque em lugar secreto Ele ocultava essa mesma chuva, que não quis fosse pregada à incircuncisão, isto é, revelada às nações incircuncisas.
10. "Levantar-se-á em seus dias a justiça e abundância de paz, até que a lua seja tirada" (v. 7). A expressão tollatur alguns interpretaram por "seja tirada", mas outros por "seja exaltada", traduzindo uma palavra grega ali empregada, antanaireqh, conforme a cada um pareceu bem. Mas os que disseram "seja removida" e os que disseram "seja tirada" não diferem tanto assim. Pois pela expressão "seja removida", o costume nos ensina que se deva antes entender que uma coisa é tirada e já não existe, do que que é elevada a lugar mais alto: mas "seja tirada" não pode ser entendido de outro modo senão que uma coisa é destruída, isto é, já não existe: mas por "seja exaltada", somente que é elevada a lugar mais alto. O que, na verdade, quando empregado em mau sentido, costuma significar soberba: como naquela passagem, "Em tua sabedoria não te exaltes." Mas em bom sentido pertence a honra mais excelente, como, por exemplo, quando algo se levanta; como é, "Nas noites exaltai as vossas mãos para os lugares santos, e bendizei ao Senhor." Se, pois, aqui entendemos a expressão "seja removida", que será "até que a lua seja removida", senão que se faça de modo que já não exista? Pois talvez quisesse que se percebesse também isto, que a mortalidade há de deixar de existir, "quando for destruído o último inimigo, a morte": de modo que a abundância de paz seja levada tão longe que nada mais resista à felicidade dos bem-aventurados por causa da fraqueza da mortalidade: o que há de acontecer naquela era, da qual temos a fiel promessa de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor, a respeito da qual se diz: "Levantar-se-á em seus dias a justiça e abundância de paz": até que, a morte sendo de todo vencida e destruída, toda mortalidade seja consumida. Mas se sob o termo lua não a mortalidade da carne, pela qual a Igreja agora passa, mas a própria Igreja em geral foi significada, a qual há de perdurar para sempre, livre desta mortalidade, assim se deve entender a expressão: "Levantar-se-á em seus dias a justiça e abundância de paz, até que a lua seja exaltada"; como se se dissesse: Levantar-se-á em seus dias a justiça, para vencer a contradição e rebelião da carne, e por ela se fará uma paz tão crescente e abundante, até que a lua seja exaltada, isto é, até que a Igreja seja elevada, pela glória da Ressurreição, a reinar com Aquele que a precedeu nesta glória, o primogênito dentre os mortos, para que se assentasse à direita do Pai; permanecendo assim o sol antes da lua, no lugar aonde depois havia de ser exaltada também a lua.
11. "E Ele será Senhor de mar a mar, e do rio até os confins do mundo circundante" (v. 8): Aquele, a saber, de quem havia dito: "Levantar-se-á em seus dias a justiça e abundância de paz, até que a lua seja exaltada." Se aqui propriamente é significada a Igreja sob o termo lua, em continuação mostrou quão amplamente essa mesma Igreja Ele haveria de espalhar, quando acrescentou: "e Ele será Senhor de mar a mar." Pois a terra é cercada por um grande mar que se chama Oceano: do qual aflui alguma pequena parte no meio das terras, e nos torna conhecidos aqueles mares que são frequentados por navios. Novamente, em "de mar a mar" disse Ele que, de qualquer extremidade da terra até qualquer outra extremidade, seria Senhor, cujo nome e poder em todo o mundo haveriam de ser pregados e prevalecer grandemente. Ao que, para que não se entendesse de outro modo "de mar a mar", imediatamente acrescentou: "e do rio até os confins do mundo circundante." Portanto, aquilo que diz em "até os confins do mundo circundante", o mesmo havia dito antes em "de mar a mar". Mas naquilo que agora diz, "do rio", expressou evidentemente que quis que Cristo publicasse enfim seu poder a partir daquele lugar de onde também começou a escolher seus discípulos, a saber, do rio Jordão, onde, sobre o Senhor, em seu batismo, quando desceu o Espírito Santo, soou do Céu uma voz: "Este é o meu Filho amado." Deste lugar, pois, partindo sua doutrina e a autoridade do ministério celestial, se dilata até os confins do mundo circundante, quando é pregado o Evangelho do reino em todo o mundo, em testemunho a todas as nações: e então virá o fim.
12. "Em sua presença se prostrarão os etíopes, e seus inimigos lamberão a terra" (v. 9). Pelos etíopes, como pela parte o todo, significou todas as nações, escolhendo mencionar especialmente por nome aquela nação que está nos confins da terra. Por "em sua presença se prostrarão" foi significado: hão de adorá-lo. E porque haveria de haver cismas em diversas partes do mundo, os quais teriam ciúme da Igreja Católica espalhada por todo o mundo circundante, e novamente esses mesmos cismas dividindo-se sob os nomes de homens, e, amando os homens sob cuja autoridade haviam se separado, opondo-se à glória de Cristo, a qual se estende por todas as terras; assim, quando disse "em sua presença se prostrarão os etíopes", acrescentou: "e seus inimigos lamberão a terra": isto é, amarão os homens, de modo que terão ciúme da glória de Cristo, a quem foi dito: "Sê exaltado acima dos Céus, ó Deus, e acima de toda a terra a tua glória." Pois o homem mereceu ouvir: "Terra és, e à terra irás." Ao lamber esta terra, isto é, comprazendo-se com a autoridade vãloquente de tais homens, amando-os, e considerando-os os mais agradáveis dos homens, contradizem os ditos divinos, pelos quais foi predita a Igreja Católica, não como devendo estar em alguma região particular do mundo, como certos cismas estão, mas em todo o universo, dando fruto e crescendo até alcançar até os próprios etíopes, a saber, os mais remotos e imundos dos homens.
13. "Os reis de Társis e das ilhas oferecerão dons, os reis dos árabes e de Sabá trarão presentes" (v. 10). Isto já não requer expositor, mas quem o pense; sim, impõe-se à vista não somente dos crentes que se alegram, mas também dos incrédulos que gemem — a não ser que talvez devamos indagar por que se disse "trarão presentes". Pois costumam ser trazidas as coisas que podem andar. Pois poderia isto, por algum modo, ter sido dito com referência ao sacrifício de vítimas? Longe esteja que tal "justiça" surja em seus dias. Mas esses dons que foram preditos como havendo de ser trazidos parecem-me significar homens, os quais a autoridade dos reis conduz à comunhão da Igreja de Cristo: ainda que também os reis perseguidores trouxeram dons, não sabendo o que faziam, ao sacrificar os santos Mártires. "E o adorarão todos os reis da terra, todas as nações o servirão" (v. 11).
14. Mas, enquanto explica as razões pelas quais tão grande honra Lhe é prestada pelos reis, e Ele é servido por todas as nações: "porque livrou", diz ele, "o necessitado do poderoso, e o pobre, a quem não havia socorredor" (v. 12). Este necessitado e pobre é o povo dos homens que nele creem. Neste povo estão também os reis que o adoram. Pois não desdenham ser necessitados e pobres, isto é, confessando humildemente os pecados, e necessitando da glória de Deus e da graça de Deus, para que este Rei, Filho do Rei, os livre do poderoso. Pois este mesmo poderoso é aquele que acima foi chamado Caluniador: a quem, poderoso para submeter os homens a si e mantê-los presos em cativeiro, não fez sua virtude, mas os pecados dos homens. O mesmo é também chamado forte; por isso também aqui poderoso. Mas Aquele que humilhou o caluniador e entrou na casa do forte para o atar e despojar os seus vasos, Ele "livrou o necessitado e o pobre". Pois isto nem a virtude de alguém poderia realizar, nem homem justo algum, nem Anjo algum. Quando, pois, não havia socorredor, por sua vinda Ele mesmo os salvou.
15. Mas poderia a alguém ocorrer: se por causa dos pecados o homem era retido pelo demônio, acaso os pecados aprouveram a Cristo, que salvou o necessitado do poderoso? Longe esteja. Mas "Ele é quem poupará o desamparado e o pobre" (v. 13): isto é, perdoará os pecados ao homem humilde, e que não confia em seus próprios méritos, nem espera a salvação por causa de sua própria virtude, mas necessita da graça de seu Salvador. Mas quando acrescentou: "e salvará as almas dos pobres": recomendou à nossa atenção ambos os auxílios da graça; tanto aquele que é para a remissão dos pecados, quando diz, "poupará o pobre e o necessitado"; quanto aquele que consiste na comunicação da justiça, quando acrescentou, "e salvará as almas dos pobres". Pois ninguém é capaz por si mesmo da salvação (a qual salvação é a justiça perfeita), a não ser que a graça de Deus o ajude: porque a plenitude da lei não é senão o amor, o qual não existe em nós de nós mesmos, mas é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
16. "Das usuras e da iniquidade Ele redimirá as almas deles" (v. 14). Que são estas usuras senão os pecados, que também são chamados dívidas? Mas penso que foram chamadas usuras porque se encontra mais mal nos castigos do que foi cometido nos pecados. Pois, por exemplo, enquanto o homicida mata somente o corpo do homem, mas de nenhum modo pode ferir a alma; de si mesmo, tanto a alma quanto o corpo são destruídos no inferno. Por causa de tais desprezadores do mandamento presente e escarnecedores do castigo futuro foi dito: "Vindo eu, exigiria com usuras"; destas usuras são redimidas as almas dos pobres por aquele sangue que foi derramado para a remissão dos pecados. Redimirá, digo, das usuras, perdoando os pecados que deviam castigos maiores: mas redimirá da iniquidade, ajudando-os pela graça a fazer também a justiça. Portanto, as mesmas duas coisas foram repetidas que se disseram acima. Pois naquilo que está acima, "poupará o desamparado e o pobre", entende-se "das usuras": mas naquilo que ali diz, "e salvará as almas dos pobres", parece ter-se implicado "da iniquidade": de modo que as palavras "Ele redimirá" se entendem com ambas. Assim, quando poupar o pobre e o desamparado, e salvar as almas dos pobres: assim "das usuras e da iniquidade redimirá as almas deles. E honroso será o seu nome diante deles." Pois dão honra ao seu nome por tão grandes benefícios, e respondem que "digno e justo é" render graças ao Senhor seu Deus. Ou, como têm alguns exemplares, "e honroso é o nome deles diante dele": pois ainda que os cristãos pareçam desprezíveis a este mundo, o nome deles diante dele é honroso, o qual lhes deu, já não lembrando na sua boca aqueles nomes pelos quais antes costumavam ser chamados, quando estavam presos pelas superstições dos gentios, ou marcados com nomes derivados de seus próprios maus merecimentos, antes de serem cristãos, cujo nome é honroso diante dele, ainda que pareça desprezível aos inimigos.
17. "E Ele viverá, e ser-Lhe-á dado do ouro da Arábia" (v. 15). Não se teria dito "e Ele viverá" (pois de quem não se poderia dizer isto, ainda que vivesse por brevíssimo espaço de tempo sobre esta terra?) se não fosse porque aquela vida nos era recomendada, na qual "já não morre mais, e a morte não terá mais domínio sobre Ele." E assim, "e Ele viverá," aquilo que na morte foi desprezado: pois, como diz outro Profeta, "será tirada da terra a vida dEle." Mas o que significa: "e Ser-Lhe-á dado do ouro da Arábia"? Pois o fato de que dali mesmo o antigo Salomão recebeu ouro, neste Salmo, em figura, foi transferido para outro verdadeiro Salomão, isto é, o verdadeiro Pacificador. Pois aquele antigo não teve domínio "do rio até aos confins do orbe da terra." Assim, pois, foi profetizado que também os sábios deste mundo creriam em Cristo. Mas por Arábia entendemos os gentios; por ouro, a sabedoria, que tanto se sobreleva entre todas as doutrinas quanto o ouro entre os metais. Donde foi escrito: "Recebei a prudência como prata, e a sabedoria como ouro provado." "E orarão a respeito dEle sempre." Aquilo que o grego traz, peri autou, alguns interpretaram por "a respeito dEle Mesmo," outros "por Ele Mesmo," ou "por Ele." Mas o que é "a respeito dEle," senão porventura aquilo por que oramos dizendo: "Venha o Teu reino"? Pois a vinda de Cristo tornará presente aos crentes o reino de Deus. Mas como entender "por Ele" é difícil; a não ser que, quando se ora pela Igreja, ora-se por Ele Mesmo, porque ela é o Seu Corpo. Pois a respeito de Cristo e da Igreja foi antecipado um grande Sacramento: "serão dois numa só carne." Mas agora o que se segue, "todo o dia," isto é, em todo tempo, "hão de bendizê-Lo," é bastante evidente.
18. "E haverá um firmamento na terra, sobre os cumes dos montes" (v. 16). Pois "todas as promessas de Deus nEle são Sim," isto é, nEle são confirmadas: porque nEle se cumpriu tudo quanto foi profetizado para a nossa salvação. Pelos cumes dos montes convém entender os autores das divinas Escrituras, isto é, aquelas pessoas por meio das quais elas foram transmitidas: nas quais Ele mesmo é, de fato, o Firmamento; pois a Ele são atribuídas todas as coisas que foram divinamente escritas. Mas quis Ele que isto estivesse sobre a terra; porque por causa dos que estão sobre a terra elas foram escritas. Donde também Ele mesmo veio sobre a terra, a fim de confirmar todas estas coisas, isto é, para mostrar em Si mesmo que se cumpriram. "Pois era necessário," diz Ele, "que se cumprissem todas as coisas que foram escritas na Lei, e nos Profetas, e nos Salmos, a respeito de Mim:" isto é, "nos cumes do monte." Pois assim vem no tempo derradeiro o evidente Monte do Senhor, preparado no cume dos montes: do qual aqui se fala, "nos cumes dos montes." "Sobremodo exaltado acima do Líbano será o Seu fruto." Costumamos entender o Líbano como a dignidade deste mundo: pois o Líbano é um monte que traz árvores altas, e o próprio nome se interpreta como brancura. Pois que maravilha, se acima de todo estado brilhante deste mundo se exalta o fruto de Cristo, cujo fruto os que O amam desprezaram todas as dignidades seculares? Mas se em bom sentido tomarmos o Líbano, por causa dos "cedros do Líbano que Ele plantou," que outro fruto se há de entender, que se exalta acima deste Líbano, senão aquele de que fala o Apóstolo quando está para falar daquele seu amor: "e ainda vos mostro um caminho sobremaneira excelente"? Pois este é posto até mesmo em primeiro lugar entre os dons divinos, no passo em que diz: "mas o fruto do Espírito é o amor:" e a este se ligam as demais palavras como consequência. "E florescerão da cidade como feno da terra." Porque a palavra cidade é usada de modo ambíguo, e não se lhe acrescenta "dEle," ou "de Deus," pois não se disse "da cidade" dEle, ou "da cidade" de Deus, mas somente "da cidade": em bom sentido se entende, de modo que da cidade de Deus, isto é, da Igreja, floresçam como erva; mas erva que dá fruto, como é a do trigo: pois também esta é chamada erva na Sagrada Escritura; como em Gênesis há um mandamento para que a terra produza toda árvore e toda erva, e não se acrescenta todo trigo: o que, sem dúvida, não teria sido omitido, se sob o nome de erva também isto não se entendesse; e em muitas outras passagens das Escrituras isto se encontra. Mas se devemos tomar "e florescerão como a erva da terra" da mesma maneira que se diz "toda carne é erva, e toda a glória do homem como a flor da erva": então certamente se deve entender aquela cidade que designa a sociedade deste mundo: pois não foi sem propósito que Caim foi o primeiro a edificar uma cidade. Assim, sendo o fruto de Cristo exaltado acima do Líbano, isto é, acima das árvores duradouras e madeiras incorruptíveis, porque Ele é o fruto sempiterno, toda a glória do homem segundo a exaltação temporal do mundo se compara à erva; pois pelos crentes, e pelos homens que já esperam a vida eterna, é desprezada a felicidade temporal, a fim de que se cumpra o que foi escrito: "toda carne é erva, e toda a glória da carne como a flor da erva: secou-se a erva, caiu a flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre." Ali está o fruto dEle exaltado acima do Líbano. Pois sempre a carne foi erva, e a glória da carne como a flor da erva: mas porque não se provava claramente qual felicidade se devia escolher e preferir, a flor da erva era tida por grande coisa: não somente não era de modo algum desprezada, mas era até mesmo sobretudo buscada. Como se, portanto, então Ele tivesse começado a ser assim, quando se reprova e despreza tudo quanto costumava florescer no mundo, assim se disse: "sobremodo exaltado acima do Líbano será o fruto dEle, e florescerão da cidade como erva da terra:" isto é, glorificado sobre todas as coisas será aquilo que se promete para sempre, e comparado à erva da terra será tudo quanto se conta por grande coisa no mundo.
19. Seja, portanto, "o nome dEle bendito para sempre: antes do sol permanece o nome dEle" (v. 17). Pelo sol se significam os tempos. Portanto, para sempre permanece o nome dEle. Pois a eternidade precede os tempos, e não é limitada pelo tempo. "E serão benditas nEle todas as tribos da terra." Pois nEle se cumpre o que foi prometido a Abraão. "Pois não diz: E nas sementes, como que em muitas; mas como que em uma: E à tua Semente, que é Cristo." Mas a Abraão foi dito: "Na tua Semente serão benditas todas as tribos da terra." E não os filhos da carne, mas os filhos da promessa é que são contados na Semente. "Todas as nações O magnificarão." Como que em explicação se repete o que acima foi dito. Pois, porque serão benditas nEle, hão de magnificá-Lo; não O fazendo grande de si mesmas, sendo Ele grande por Si mesmo, mas louvando e confessando que Ele é grande. Pois assim magnificamos a Deus: assim também dizemos: "Santificado seja o Teu nome," que aliás é sempre santo.
20. "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, que só Ele fez coisas maravilhosas" (v. 18). Contemplando tudo quanto acima se disse, irrompe um hino; e é bendito o Senhor Deus de Israel. Pois se está cumprindo o que foi dito àquela mulher estéril: "e Aquele que te livrou, o Deus de Israel, Ele mesmo será chamado de toda a terra." "Ele mesmo faz" sozinho "coisas maravilhosas:" pois quaisquer que as façam, é Ele mesmo que nelas opera, "Ele que só faz coisas maravilhosas." "E bendito seja o nome da Sua glória para sempre, e para século dos séculos" (v. 19). Pois que outra coisa deveriam ter dito os intérpretes latinos, que não puderam dizer "para sempre, e para sempre dos sempres"? Pois soa como se uma coisa se significasse na expressão "para sempre," e outra na expressão "para século": mas o grego traz eij ton aiwna, kai eij ton aiwna tou aiwnoj, que talvez mais convenientemente se pudesse traduzir por "para o século, e para o século do século": de modo que por "para o século" se entendesse enquanto dura este século; mas "para o século do século," aquilo que, depois do fim deste, é prometido que há de ser. "E se encherá da Sua glória toda a terra: assim seja, assim seja." Tu ordenaste, ó Senhor, e assim se vai cumprindo: assim se vai cumprindo, até que aquilo que começou com o rio alcance plenamente até os confins do orbe da terra.
6. "Quão bom é o Deus de Israel!" Mas para quem? "Para os retos de coração" (v. 1). Para os homens perversos, o quê? Perverso Ele parece. Assim também em outro Salmo diz Ele: "Com o santo Tu serás santo, e com o inocente Tu serás inocente, e com o perverso Tu serás perverso." Que significa: perverso Tu serás com o perverso? O perverso há de julgar-Te perverso. Não que de modo algum Deus se faça perverso. Longe disso: o que Ele é, Ele é. Mas do mesmo modo que o sol parece brando a quem tem olhos claros, sãos, saudáveis, fortes, mas contra olhos fracos dispara, por assim dizer, duras lanças; ao primeiro, olhando para ele, ele vivifica, ao segundo tortura, ainda que ele mesmo não se mude, mas o homem é que se muda: assim, quando tiveres começado a ser perverso, e a ti Deus parecer perverso, és tu que te mudaste, não Ele. Aquilo, pois, que para ti será castigo, para os bons é alegria. Recordando-se disto, diz ele: "Quão bom é o Deus de Israel para os retos de coração!"
5. Era, portanto, a Sinagoga, isto é, aqueles que ali adoravam a Deus de modo piedoso, mas ainda assim por causa das coisas terrenas, por causa destas coisas presentes (pois há homens ímpios que buscam dos demônios as bênçãos das coisas presentes: mas este povo, por isso, era melhor que os gentios, porque, embora fossem bênçãos presentes e temporais, contudo as buscavam do Deus único, que é o Criador de todas as coisas, tanto espirituais quanto corporais). Quando, pois, aqueles homens piedosos segundo a carne observavam — isto é, aquela Sinagoga que era composta de homens bons, homens bons por então, não homens espirituais, tais como eram os Profetas nela, tais como eram os poucos que entendiam o reino celestial, eterno —, aquela Sinagoga, digo, observava as coisas que recebia de Deus, e as coisas que Deus prometia a esse povo, abundância de coisas terrenas, terra, paz, felicidade terrena: mas em todas estas coisas havia figuras, e eles, não percebendo o que ali estava oculto nas coisas figuradas, pensavam que Deus lhes dava isto como grande coisa, e que nada melhor tinha a dar aos homens que O amavam e serviam: notaram e viram certos pecadores, ímpios, blasfemos, servos dos demônios, filhos do Diabo, vivendo em grande malícia e soberba, e contudo abundando em tais coisas terrenas, temporais, pelas quais eles mesmos serviam a Deus: e surgiu no coração um pensamento pessimíssimo, que fez vacilar os pés, e quase escorregar para fora do caminho de Deus. E eis que este pensamento estava no povo do Antigo Testamento: quisera eu que não estivesse em nossos irmãos carnais, agora que abertamente se proclama a felicidade do Novo Testamento. ...
4. De quem é a voz do Salmo? "De Asafe." Que é Asafe? Como encontramos nas interpretações da língua hebraica para a grega, e estas de novo traduzidas para nós da grega para a latina, Asafe se interpreta Sinagoga. É, portanto, a voz da Sinagoga. Mas quando ouvires Sinagoga, não a abomines desde logo, como se fosse a assassina do Senhor. Que aquela Sinagoga foi de fato a assassina do Senhor, ninguém o duvida: mas lembra-te de que da Sinagoga vieram os carneiros dos quais nós somos os filhos. Donde se diz num Salmo: "Trazei ao Senhor os filhos dos carneiros." Que carneiros são estes, dali vindos? Pedro, João, Tiago, André, Bartolomeu, e os demais Apóstolos. Donde também aquele mesmo, a princípio Saulo, depois Paulo: isto é, a princípio soberbo, depois humilde. ...Portanto, também Paulo veio a nós da Sinagoga, e Pedro e os demais Apóstolos da Sinagoga. Portanto, quando tiveres ouvido a voz da Sinagoga, não olhes para o seu merecimento, mas observa a sua descendência. Está falando, pois, neste Salmo, a Sinagoga, depois da cessação dos hinos de Davi, filho de Jessé, isto é, depois da cessação das coisas temporais, pelas quais Deus costumava ser louvado pelo povo carnal. Mas por que cessaram estas, senão para que outras fossem buscadas? Para que se buscassem o quê? Seriam coisas que ali não havia? Não, mas coisas que ali havia, ocultas em figuras: não que ainda não existissem, mas que ali, como que de certo modo, estavam encobertas em certas coisas secretas de mistérios. Que coisas? "Estas," diz o próprio Apóstolo, "foram as nossas figuras." ...
1. Este Salmo tem uma inscrição, isto é, um título: "Cessaram os hinos de Davi, filho de Jessé. Salmo do próprio Asafe." Tantos Salmos temos em cujos títulos está escrito o nome Davi, e em nenhum outro se acrescenta "filho de Jessé," exceto somente neste. O que devemos crer que não se fez sem propósito, nem ao acaso. Pois em toda parte Deus nos faz indicações, e ao entendimento delas convida o piedoso estudo do amor. Que significa: "cessaram os hinos de Davi, filho de Jessé"? Hinos são louvores a Deus acompanhados de canto: hinos são cânticos que contêm o louvor de Deus. Se há louvor, e não é de Deus, não é hino: se há louvor, e é louvor de Deus, e não é cantado, não é hino. É necessário, então, se é hino, que tenha estas três coisas: o louvor, e que seja de Deus, e o canto. Que significa, pois: "cessaram os hinos"? Cessaram os louvores que se cantam a Deus. Parece contar algo doloroso, e, por assim dizer, deplorável. Pois quem canta louvor, não só louva, mas louva com alegria: quem canta louvor, não só canta, mas também ama Aquele de quem canta. No louvor, há a fala de quem confessa; no canto, o afeto de quem ama. "Cessaram," pois, "os hinos de Davi," diz ele: e acrescentou "filho de Jessé." Pois Davi foi rei de Israel, filho de Jessé, em certo tempo do Antigo Testamento, tempo em que nele estava oculto o Novo Testamento, como o fruto na raiz. Pois se buscares o fruto na raiz, não o encontrarás, e contudo não encontras fruto algum nos ramos, exceto aquele que saiu da raiz. ...E do mesmo modo que o próprio Cristo, para nascer segundo a carne, estava oculto na raiz, isto é, na semente dos Patriarcas, e em certo tempo havia de ser revelado, como que ao aparecer o fruto, conforme está escrito: "floresceu um rebento da raiz de Jessé": assim também o próprio Novo Testamento, que está em Cristo, naqueles tempos anteriores estava oculto, sendo conhecido somente dos Profetas, e de pouquíssimos homens piedosos, não pela manifestação de coisas presentes, mas pela revelação de coisas futuras. Pois que significa, irmãos (para mencionar apenas uma coisa), que Abraão, enviando seu fiel servo para desposar uma mulher para seu filho único, o faz jurar-lhe, e no juramento lhe diz: "Põe a tua mão debaixo da minha coxa, e jura"? Que havia na coxa de Abraão, onde ele pôs a mão ao jurar? Que havia ali, senão aquilo mesmo que então já lhe era prometido: "Na tua semente serão benditas todas as nações"? Sob o nome de coxa, significa-se a carne. Da carne de Abraão, por meio de Isaque e Jacó, e sem mencionar muitos nomes, por meio de Maria, veio o nosso Senhor Jesus Cristo.
No tempo do Antigo Testamento, irmãos, as promessas de nosso Deus àquele povo carnal eram terrenas e temporais. Prometia-se um reino terreno, prometia-se aquela terra à qual também foram conduzidos, depois de libertados do Egito: por Josué, filho de Num, foram conduzidos à terra da promessa, onde também foi edificada a Jerusalém terrena, onde reinou Davi; receberam a terra, depois de libertados do Egito, atravessando o Mar Vermelho. ...Tais eram também aquelas promessas que não haviam de perdurar, através das quais, todavia, se figuravam promessas futuras que haveriam de perdurar, de sorte que todo aquele curso de promessas temporais era figura e como que profecia das coisas futuras. Por isso, quando aquele reino ia declinando, no qual reinava Davi, filho de Jessé — isto é, um que era homem, ainda que profeta, ainda que santo, porque viu e previu o Cristo vindouro, de cuja descendência também segundo a carne Ele havia de nascer —, contudo homem, contudo ainda não o Cristo, contudo ainda não o nosso Rei, Filho de Deus, mas o rei Davi, filho de Jessé; porque então aquele reino havia de declinar, mediante cujo recebimento, naquele tempo, Deus era louvado por homens carnais; pois isto somente estimavam eles grande coisa, a saber, que eram libertados temporalmente daqueles por quem eram oprimidos, e que haviam escapado dos inimigos perseguidores através do Mar Vermelho, e haviam sido conduzidos através do deserto, e haviam encontrado pátria e reino: por isto somente louvavam a Deus, não percebendo ainda aquilo que Deus de antemão dispunha e prometia nessas figuras. No declínio, pois, daquelas coisas pelas quais o povo carnal, sobre o qual reinava aquele Davi, louvava a Deus, "cessaram os hinos de Davi" — não do Filho de Deus, mas do "filho de Jessé"...
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Mas que a raiz estava nos Patriarcas, como o mostraremos? Interroguemos a Paulo. Os gentios, agora crendo em Cristo, e desejando como que gloriar-se sobre os judeus que crucificaram a Cristo — ainda que também daquele mesmo povo viesse outro muro, encontrando-se no ângulo, isto é, no próprio Cristo, com o muro da incircuncisão, ou seja, dos gentios, vindo de outra parte —, quando, digo eu, as nações se levantavam com soberba, assim as deprime ele. "Pois se tu", diz, "sendo cortado da oliveira brava por natureza, foste enxertado entre elas, não te glories contra os ramos: porque, se te glorias, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti." Fala, portanto, de certos ramos quebrados da raiz dos Patriarcas por causa da incredulidade, e da oliveira brava ali enxertada, para que fosse participante da seiva da oliveira, isto é, a Igreja proveniente dos gentios. E quem enxerta a oliveira brava na oliveira? A oliveira costuma ser enxertada na brava; a brava na oliveira jamais vimos. Pois quem quer que assim tenha procedido não encontrará senão bagas de oliveira brava. Porque aquilo que é enxertado, isso mesmo cresce, e desse gênero se encontra o fruto. Não se encontra o fruto da raiz, mas do enxerto. Mostrando o Apóstolo que Deus fez isto por Sua Onipotência — a saber, que a oliveira brava fosse enxertada na raiz da oliveira, e não desse bagas bravas, mas de oliveira —, atribuindo-o à Onipotência de Deus, diz o Apóstolo: "Se foste cortado da oliveira brava por natureza, e contra a natureza foste enxertado numa boa oliveira, não te glories", diz ele, "contra os ramos"...
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Mas que dizer de ti? "Mas quase vacilaram os meus pés" (v. 2). Quando vacilaram os pés, senão quando o coração não estava reto? Donde não estava reto o coração? Ouve: "Quase se transtornaram os meus passos." O que quis dizer com "quase", o mesmo quis dizer com "por pouco"; e o que quis dizer com "quase vacilaram os meus pés", o mesmo quis dizer com "transtornaram-se os meus passos". Quase vacilaram os meus pés, por pouco se transtornaram os meus passos. Vacilaram os pés: mas donde vacilaram os pés e se transtornaram os passos? Vacilaram os pés para o extravio, transtornaram-se os passos para a queda: não inteiramente, mas "quase". Mas que é isto? Já eu ia extraviar-me, não havia ainda extraviado; já eu ia caindo, não havia ainda caído.
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Mas por que ainda isto? "Porque tive inveja", diz ele, "dos pecadores, vendo a paz dos pecadores" (v. 3). Observei os pecadores, vi que tinham paz. Que paz? Temporal, transitória, caduca e terrena: mas ainda assim tal como eu também desejava de Deus. Via que aqueles que não serviam a Deus tinham aquilo que eu desejava a fim de servir a Deus: e vacilaram os meus pés e quase se transtornaram os meus passos. Mas por que os pecadores têm isto, diz ele brevemente: "Porque não há para eles retardamento até a sua morte, e há firmeza no seu flagelo" (v. 4). Agora percebi, diz ele, por que têm eles paz, e florescem sobre a terra; porque não há retardamento para a sua morte, porque a morte certa e eterna os aguarda, a qual nem os evita, nem eles podem evitá-la; "porque não há retardamento até a sua morte, e há firmeza no seu flagelo". E há firmeza no seu flagelo. Pois o flagelo deles não é temporal, mas firme para sempre. Por causa, pois, destes males que hão de ser eternos para eles, agora que mais? "Nos trabalhos dos homens não estão, e com os homens não serão flagelados" (v. 5). Não escapa até mesmo o próprio diabo de ser flagelado com os homens, para quem, todavia, se prepara castigo eterno?
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Por isso, então, que fazem estes homens, enquanto não são flagelados, enquanto não trabalham com os homens? "Por isso", diz ele, "os prendeu a soberba" (v. 6). Observai estes homens, soberbos, indisciplinados; observai o touro, devotado à vítima, deixado a errar em liberdade, e a danificar tudo quanto possa, até mesmo o dia do seu abate. Ora, é bom, irmãos, que ouçamos nas próprias palavras de um profeta acerca deste touro, por assim dizer, do qual falei. Pois assim a Escritura faz menção dele em outro lugar: diz que estão, por assim dizer, preparados como para a vítima, e que são poupados para uma liberdade nefasta. "Por isso", diz ele, "os prendeu a soberba." Que significa "os prendeu a soberba"? "Cobriram-se com a sua iniquidade e impiedade." Não disse: cobertos; mas "cobriram-se", cobertos por todos os lados com a sua impiedade. Merecidamente miseráveis, nem veem nem são vistos, porque estão cobertos; e as suas partes interiores não se veem. Pois quem quer que pudesse contemplar o interior dos homens maus, que são como que felizes por um tempo, quem quer que pudesse ver as suas consciências atormentadas, quem quer que pudesse examinar as suas almas dilaceradas por tão grandes perturbações de desejos e temores, veria que são miseráveis mesmo quando são chamados felizes. Mas porque "se cobriram com a sua iniquidade e impiedade", não veem; mas também não são vistos. Conheceu-os o Espírito, que diz estas palavras acerca deles: e devemos nós examinar tais homens com o mesmo olho com que sabemos que vemos, se for tirado dos nossos olhos o véu da impiedade. ...
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Primeiramente, estes homens são descritos. "Sairá como que da gordura a sua iniquidade" (v. 7). ...Um pobre mendigo comete um furto; da magreza saiu a iniquidade: mas quando um rico abunda em tantas coisas, por que saqueia o alheio? Do primeiro a iniquidade saiu da magreza, do segundo, da gordura. Portanto, ao homem magro, quando lhe dizes: Por que fizeste isto? Humildemente aflito e abjeto responde: A necessidade me obrigou. Por que não temeste a Deus? A carência era urgente. Dize a um rico: Por que fazes estas coisas, e não temes a Deus? — supondo que fosses suficientemente grande para poder dizê-lo — vê se ele sequer se digna a ouvir; vê se também contra ti mesmo não sairá a iniquidade da sua gordura. Pois agora declaram guerra aos seus mestres e repreensores, e se tornam inimigos dos que dizem a verdade, havendo-se há muito acostumado a ser lisonjeados com as palavras dos aduladores, sendo de ouvido tenro, de coração incurável. Quem diria a um rico: Fizeste mal em roubar os bens alheios? Ou, porventura, se alguém ousar falar, sendo ele tal homem que não pudesse resistir-lhe, que responde? Tudo o que diz é em desprezo de Deus. Por quê? Porque é soberbo. Por quê? Porque é gordo. Por quê? Porque é devotado à vítima. "Passaram ao propósito do coração." Aqui, interiormente, passaram. Que significa "passaram"? Atravessaram o caminho. Que significa "passaram"? Excederam os limites da humanidade, não se julgam homens como os demais. Passaram, digo, os limites da humanidade. Quando dizes a tal homem: Teu irmão é este mendigo; quando dizes a tal homem: Teu irmão é este pobre; os mesmos pais tivestes, Adão e Eva: não atentes à tua altivez, não atentes ao vapor até ao qual foste elevado; ainda que uma mansão te cerque, ainda que incontável ouro e prata, ainda que uma casa marmórea te contenha, ainda que tetos lavrados te cubram, tu e o pobre juntos tendes por cobertura aquele teto do universo, o céu; mas tu és diferente do pobre em coisas que não são tuas, acrescentadas a ti de fora: vê a ti mesmo nelas, não elas em ti. Observa-te a ti mesmo, como és em relação ao pobre; a ti mesmo, não aquilo que tens. Pois por que desprezas teu irmão? No ventre de vossas mães fostes ambos nus. Na verdade, mesmo quando houverdes partido desta vida, e estes corpos houverem apodrecido, quando a alma houver sido exalada, distingam-se os ossos do rico e do pobre! Falo da igualdade de condição, daquela mesma sorte da humanidade, na qual todos os homens nascem: pois tanto aqui se torna rico um homem, quanto o pobre não estará sempre aqui; e assim como o rico não vem rico, tampouco parte rico; a mesma é a entrada de ambos, e semelhante é a partida. Acrescento que porventura haveis de trocar de condição. Ora, por toda parte se prega o Evangelho: observai certo pobre coberto de chagas, que jazia diante da porta de um rico e desejava saciar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; observai também aquele semelhante a ti, que se vestia de púrpura e linho fino, e vivia esplendidamente cada dia. Sucedeu, digo, que aquele pobre morresse, e fosse levado pelos anjos ao seio de Abraão: mas o outro morreu e foi sepultado; pois do sepultamento do outro talvez ninguém cuidou. ...Irmãos, quão grande foi o labor do pobre! Quão duradouros foram os deleites do rico! Mas a condição que receberam em troca é eterna. ...Merecidamente, tarde demais dirá: "Envia Lázaro", "que ele conte também a meus irmãos"; já que a ele mesmo não se concede o fruto do arrependimento. Pois não é que o arrependimento não seja dado, mas eterno será o arrependimento, e nenhuma salvação depois do arrependimento. Por isso estes homens "passaram ao propósito do coração".
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"Pensaram e falaram malícia" (v. 8). Mas os homens falam malícia mesmo com temor: mas estes, como? "Iniquidade em altura falaram." Não somente falaram iniquidade; mas até abertamente, à audiência de todos, soberbamente: "Eu o farei"; "Eu vos mostrarei"; "Saberás com quem tens de lidar"; "Não te deixarei viver." Poderias ao menos ter pensado tais coisas, sem lhes dar voz! Ao menos dentro das câmaras do pensamento poderia estar confinado o mau desejo, poderia ele ao menos tê-lo retido dentro do seu pensamento. Por quê? É ele, porventura, magro? "Sairá como que da gordura a iniquidade deles." "Iniquidade em altura falaram."
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"Puseram contra o céu a sua boca, e a sua língua passou sobre a terra" (v. 9). Pois isto, "passou sobre a terra", significa: passam por todas as coisas terrenas? Que é passar por todas as coisas terrenas? Não pensa em si mesmo como homem que pode morrer subitamente, quando fala; ameaça como se houvesse de viver sempre: o seu pensamento transcende a fragilidade terrena, não sabe com que espécie de vaso está envolto; não sabe o que foi escrito em outro lugar acerca de tais homens: "Sairá o seu espírito, e ele voltará à sua terra; naquele dia perecerão todos os seus pensamentos." Mas estes homens, não pensando no seu último dia, falam soberba, e contra o céu põem a sua boca, transcendem a terra. Se um ladrão não pensasse no seu último dia, isto é, no último dia do seu julgamento, quando enviado ao cárcere, nada haveria mais monstruoso do que ele: e, contudo, poderia escapar. Para onde foges tu para escapar da morte? Certo há de ser aquele dia. Que é o longo tempo que tens de viver? Quanto é o longo tempo que tem fim, ainda que fosse longo tempo? A isto se acrescenta que é nada; e a própria coisa que se chama longo tempo não é longo tempo, e é incerta. Por que não pensa ele nisto? Porque pôs contra o céu a sua boca, e a sua língua passou sobre a terra. "E dias plenos se acharão neles."
13. "Portanto voltará para cá o meu povo" (v. 10). Ora, o próprio Asafe está voltando para cá. Pois ele viu que essas coisas abundam para os homens injustos, viu que abundam para os homens soberbos: ele está voltando para Deus, e está começando a indagar e a discutir. Mas quando? "Quando dias plenos se acharem neles." Que é "dias plenos"? "Mas quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou o Seu Filho." Esta é a própria plenitude do tempo, quando Ele veio ensinar aos homens que as coisas temporais devem ser desprezadas, que não estimassem como grande coisa tudo aquilo que os maus cobiçam, que sofressem tudo aquilo que os maus temem. Ele se fez caminho, chamou-nos de volta ao pensamento interior, admoestou-nos sobre o que se deve buscar em Deus. E vede a partir de que pensamento, reagindo sobre si mesmo e como que fazendo recuar as ondas de seu ímpeto, ele passa a escolher as coisas verdadeiras.
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14. "E disseram: Como o soube Deus? E há conhecimento no Altíssimo?" (v. 11). Vede por que pensamento eles passam. Eis que os homens injustos são felizes, Deus não cuida das coisas humanas. Sabe Ele, na verdade, o que fazemos? Vede o que se está dizendo. Estamos indagando, irmãos, "como o soube Deus", etc. (que os cristãos já não o digam mais). Pois como te parece que Deus não o sabe, e que não há conhecimento no Altíssimo? Ele responde: "Eis que estes são pecadores, e no mundo alcançaram abundantes riquezas" (v. 12). Ambas as coisas: são pecadores, e no mundo alcançaram abundantes riquezas. Confessou que não queria ser pecador a fim de ter riquezas. Uma alma carnal, pelas coisas visíveis e terrenas, teria vendido sua justiça. Que espécie de justiça é essa que se retém por causa do ouro, como se o ouro fosse coisa mais preciosa que a própria justiça, ou como se, quando um homem nega a outrem o depósito de seus bens, aquele a quem os negou devesse sofrer maior perda do que aquele que os nega. O primeiro perde uma veste, o segundo, a fidelidade. "Eis que estes são pecadores, e no mundo alcançaram abundantes riquezas." Por isso, portanto, Deus não sabe, e por isso não há conhecimento no Altíssimo.
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15. "E eu disse: portanto sem causa justifiquei o meu coração" (v. 13). Visto que sirvo a Deus e não tenho estas coisas; eles não O servem, e nelas abundam: "portanto, sem causa justifiquei o meu coração, e lavei entre os inocentes as minhas mãos." Isto fiz sem causa. Onde está a recompensa da minha boa vida? Onde está o salário do meu serviço? Vivo bem e estou necessitado; e o homem injusto abunda. "E lavei entre os inocentes as minhas mãos. E fui açoitado todo o dia" (v. 14). De mim os açoites de Deus não se afastam. Sirvo bem, e sou açoitado; ele não serve, e é honrado. Propôs-se a si mesmo uma grande questão. A alma se perturba, a alma passa pelas coisas que hão de perecer rumo ao desprezo das coisas terrenas e ao desejo das coisas eternas. Há uma travessia da própria alma neste pensamento; onde ela se agita como numa tempestade, há de alcançar o porto. E é com ela como é com os enfermos, que estão menos gravemente doentes quando a recuperação está longe: quando a recuperação está próxima, têm febre mais alta; os médicos chamam-na de "crise" pela qual passam rumo à saúde: maior é a febre ali, mas conduzindo à saúde; maior o calor, mas a recuperação está próxima. Assim também este homem está febril. Pois estas são palavras perigosas, irmãos, ofensivas, e quase blasfemas: "Como o soube Deus?" Por isso digo "quase"; ele não disse: Deus não o soube; não disse: não há conhecimento no Altíssimo; mas como que indagando, hesitando, duvidando. É o mesmo que disse pouco antes: "Quase resvalaram os meus passos." Não o afirma, mas a própria dúvida é perigosa. Através do perigo ele está passando para a saúde. Ouvi agora a saúde: "Portanto, em vão justifiquei o meu coração, e lavei entre os inocentes as minhas mãos; e fui açoitado todo o dia, e a minha correção era pela manhã." Correção é castigo corretivo. Quem está sendo corrigido está sendo emendado. Que é "pela manhã"? Não é diferida. A dos ímpios está sendo diferida, a minha não é diferida: aquela é tardia demais, ou não acontece de todo; a minha é pela manhã.
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16. "Se eu disse: assim hei de declarar; eis que reprovei a geração de Teus filhos" (v. 15): isto é, assim ensinarei. Como hás de ensinar? Que não há conhecimento no Altíssimo, que Deus não sabe? Hás de propor esta opinião, que sem causa vivem justamente os que vivem justamente; que o homem justo perdeu o fruto de seu serviço, porque Deus mais favorece aos maus, ou então não cuida de ninguém? Hás de contar isto, declarar isto? Ele se refreia por uma autoridade que o reprime. Que autoridade? Um homem deseja, por vezes, irromper nesta sentença: mas é chamado de volta pelas Escrituras, que sempre nos dirigem a viver bem, dizendo que Deus cuida das coisas humanas, que faz distinção entre o homem piedoso e o ímpio. Portanto, este homem também, querendo proferir esta sentença, se recolhe. E que diz ele? "Reprovei a geração de Teus filhos." Se assim declarar, reprovarei a geração dos justos. Como também trazem alguns exemplares: "Eis a geração de teus filhos, com a qual estive em concerto": isto é, com a qual, composta de Teus filhos, estive em concerto; isto é, com a qual concordei, à qual me conformei: estaria fora do tom com todos, se assim ensinasse. Pois canta em concerto aquele que dá o tom juntamente; mas aquele que não dá o tom juntamente não canta em concerto. Hei de dizer algo diferente do que disse Abraão, do que disse Isaque, do que disse Jacó, do que disseram os Profetas? Pois todos disseram que Deus cuida das coisas humanas; direi eu que não cuida? Há em mim maior sabedoria do que neles? Maior entendimento em mim do que neles? Uma autoridade saudabilíssima recolheu seu pensamento da impiedade. E que se segue? Para que não reprovasse, que fez ele? "E empreendi conhecer" (v. 16). Que Deus esteja com ele para que conheça. Entretanto, irmãos, de uma grande queda ele está sendo retido, quando não presume já saber, mas empreendeu conhecer o que não sabia. Pois há pouco ele queria parecer como que sabendo, e declarar que Deus não tem cuidado das coisas humanas. Pois isto veio a ser a mais perversa e ímpia doutrina dos homens injustos. Sabei, irmãos, que muitos homens disputam e dizem que Deus não cuida das coisas humanas, que por acasos todas as coisas são regidas, ou que nossas vontades foram sujeitadas aos astros, que a cada um não se dá segundo os seus merecimentos, mas pela necessidade de seus astros — má doutrina, ímpia doutrina. Para estes pensamentos ia aquele homem cujos pés quase se moveram, e cujos passos quase resvalaram; a este erro ele ia; mas porque não estava em harmonia com a geração dos filhos de Deus, empreendeu conhecer, e condenou o conhecimento no qual não concordava com os justos de Deus. E o que ele diz, ouçamo-lo; como empreendeu conhecer, e foi ajudado, e aprendeu algo, e no-lo declarou. "E empreendi", diz ele, "conhecer." "Este labor está diante de mim." Verdadeiramente grande labor: conhecer de que modo tanto Deus cuida das coisas humanas, quanto é bem com os maus e labutam os bons. Grande é a importância da questão; portanto, "e este labor está diante de mim." Como que se ergue diante do meu rosto uma espécie de muro, mas tu tens a voz de um Salmo: "Em meu Deus transporei o muro."
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17. ...E ele fez isto; pois diz por quanto tempo o labor está diante dele: "até que eu entre no santuário de Deus, e entenda sobre as últimas coisas" (v. 17). Grande coisa é esta, irmãos: eis que há muito labuto, diz ele, e diante do meu rosto vejo uma espécie de labor insuperável, para conhecer de que modo Deus é justo, e cuida das coisas humanas, e não é injusto porque os homens, pecando e praticando ações iníquas, têm felicidade nesta terra; enquanto os piedosos e os que servem a Deus se consomem amiúde em provações e labores; grande dificuldade é conhecer isto, mas somente "até que eu entre no Santuário de Deus." Pois no Santuário que se te apresenta, a fim de que resolvas esta questão? "E entendo", diz ele, "sobre as últimas coisas": não sobre as coisas presentes. Eu, diz ele, do Santuário de Deus estendo o meu olhar até o fim, passo por cima das coisas presentes. Tudo aquilo que se chama gênero humano, toda aquela massa de mortalidade há de vir à balança, há de vir ao prato, ali serão pesadas as obras dos homens. Todas as coisas agora uma nuvem envolve; mas a Deus são conhecidos os méritos de cada um particularmente. "E entendo", diz ele, "sobre as últimas coisas": mas não por mim mesmo; pois diante de mim há labor. De onde, pois, "posso entender sobre as últimas coisas"? Que eu entre no Santuário de Deus. Naquele lugar, então, ele entendeu também a razão pela qual estes homens agora são felizes.
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18. A saber, "porque por causa do engano Tu os colocaste" (v. 18). Porque são enganosos, isto é, fraudulentos; porque são enganosos, sofrem enganos. Que é isto, que por serem fraudulentos sofrem uma fraude? Desejam praticar uma fraude contra o gênero humano em todas as suas maldades, mas eles próprios também sofrem uma fraude, ao escolherem os bens terrenos e ao abandonarem os eternos. Portanto, irmãos, no próprio ato de perpetrarem uma fraude, sofrem uma fraude. Naquilo que há pouco disse, irmãos: "Que espécie de juízo tem aquele que, para ganhar uma veste, perde a sua fidelidade?" Terá sofrido uma fraude aquele de quem se tomou a veste, ou aquele que é ferido com perda tão grande? Se uma veste é mais preciosa que a fidelidade, o primeiro sofre a maior perda: mas se a boa fé, incomparavelmente, supera o mundo inteiro, o segundo é que parecerá ter sofrido a perda de uma veste; mas ao primeiro se diz: "Que aproveita ao homem se ganhar o mundo inteiro, mas sofrer a perda da própria alma?" Portanto, que lhes sucedeu? "Por causa do engano Tu lhes colocaste: Tu os derrubaste quando estavam sendo exaltados." Não disse: Tu os derrubaste porque foram elevados: não como se, depois de terem sido elevados, Tu os derrubasses; mas na própria elevação foram derrubados. Pois assim ser elevado já é cair.
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19. "Como se tornaram uma desolação, subitamente?" (v. 19). Ele se admira deles, entendendo até às últimas coisas. "Desapareceram." Verdadeiramente como a fumaça, que enquanto se eleva, desaparece, assim eles desapareceram. Como diz ele, "desapareceram"? À maneira de quem entende as últimas coisas: "pereceram por causa de sua iniquidade." "Como o sonho de quem desperta" (v. 20). Como desapareceram? Como desaparece o sonho de quem desperta. Imagina um homem que, em sono, viu-se encontrando tesouros; é homem rico, mas somente até que desperte. "Como o sonho de quem desperta": assim eles desapareceram, como o sonho de quem acorda. Busca-se, então, e não há nada: nada há nas mãos, nada no leito. Um pobre foi dormir, e em sonho tornou-se rico: se não tivesse despertado, seria rico; despertou, encontrou o cuidado que perdera enquanto dormia. E estes homens hão de encontrar a miséria que a si mesmos prepararam. Quando tiverem despertado desta vida, aquilo que se agarrava como que em sonho há de passar. "Como o sonho de quem desperta." E para que não se dissesse: "E então? Pequena coisa te parece a sua glória, pequena coisa te parece a sua condição, pequenas coisas te parecem inscrições, imagens, estátuas, distinções, séquitos de clientes?" "Ó Senhor", diz ele, "em Tua cidade reduzirás a nada a imagem deles."... Tirou a soberba dos ricos, dá conselho. Como se dissessem: Somos ricos, proíbes-nos de ser soberbos, proíbes-nos de nos gloriarmos da ostentação de nossas riquezas: que faremos, então, com estas riquezas? Chegou-se a isto, que nada há que possam fazer com elas? "Sejam ricos", diz ele, "em boas obras; distribuam prontamente, compartilhem." E que aproveita isto? "Tesourizem para si um bom fundamento para o futuro, a fim de que se apeguem à vida verdadeira." Onde devem tesourizar para si mesmos? Naquele lugar para onde ele fixou o seu olhar, ao entrar no Santuário de Deus. Estremeçam todos os nossos irmãos ricos, abundantes em dinheiro, ouro, prata, servidão doméstica, honras, estremeçam diante do que há pouco se disse: "Reduzirás a nada a imagem deles." Não são dignos de sofrer estas coisas, a saber, que Deus reduza a nada a imagem deles em Sua cidade, porque também eles próprios reduziram a nada a imagem de Deus em sua cidade terrena?
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20. "Porque se deleitou o meu coração" (v. 21). Ele está dizendo com que coisas é tentado: "porque se deleitou o meu coração", diz ele, "também os meus rins se mudaram." Quando aquelas coisas temporais me deleitavam, os meus rins se mudaram. Pode-se entender também assim: "porque se deleitou o meu coração" em Deus, "também os meus rins se mudaram", isto é, mudaram-se as minhas concupiscências, e tornei-me inteiramente casto. "Os meus rins se mudaram." E ouvi como. "E fui reduzido a nada, e não soube" (v. 22). Eu, o mesmo homem que agora digo estas coisas dos ricos, outrora ansiava por tais coisas: portanto, "também eu fui reduzido a nada", quando os meus passos quase resvalaram. "E fui reduzido a nada, e não soube." Não devemos, pois, desesperar sequer daqueles contra quem eu dizia tais coisas.
21. Que é "eu não sabia"? "Como um jumento me tornei diante de Ti, e estou sempre contigo" (v. 23). Há grande diferença entre este homem e os outros. Ele se fez como um jumento no desejo das coisas terrenas, quando, reduzido a nada, não conhecia as coisas eternas: mas não se apartou de seu Deus, porque não desejava essas coisas dos demônios, do diabo. Isto já vos fiz notar. A voz é da Sinagoga, isto é, daquele povo que não servia a ídolos. Um jumento, na verdade, me tornei, ao desejar de meu Deus as coisas terrenas: mas nunca me apartei daquele meu Deus.
22. Porque então, tendo-me feito jumento, não me apartei de meu Deus, segue-se: "Tu seguraste a mão da minha destra." Não disse "minha destra", mas "a mão da minha destra". Se é a mão da destra, uma mão tem mão. "Seguraste a mão da minha destra", a fim de que me conduzisses. Pois por que pôs "mão"? Pelo poder. Pois dizemos que um homem tem em sua mão aquilo que tem em seu poder: assim como o diabo disse a Deus acerca de Jó: "Estende a Tua mão, e tira-lhe o que tem." Que é "estende a Tua mão"? Exerce o poder. Chamou a mão de Deus ao poder de Deus: como está escrito em outro lugar: "a morte e a vida estão nas mãos da língua." Acaso a língua tem mãos? Mas que é "nas mãos da língua"? No poder da língua. Que é "no poder da língua"? "Pela tua boca serás justificado, e pela tua boca serás condenado." "Tu seguraste", pois, "a mão da minha destra", o poder de minha destra. Qual era minha destra? Que eu estava sempre contigo. Pela esquerda eu segurava, porque me fiz jumento, isto é, porque havia em mim uma concupiscência terrena: mas a destra era minha, porque estava sempre contigo. Desta minha destra Tu seguraste a mão, isto é, dirigiste o poder. Que poder? "Deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus." Começa agora a estar entre os filhos de Deus, pertencendo ao Novo Testamento. Vede de que modo foi segurada a mão de sua destra. "Em Tua vontade me conduziste." Que é "em Tua vontade"? Não em meus méritos. Que é "em Tua vontade"? Ouvi o apóstolo, que a princípio foi jumento a desejar as coisas terrenas, e vivia segundo o Antigo Testamento. Que diz ele? "Eu que outrora fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso: mas alcancei misericórdia." Que é "em Tua vontade"? "Pela graça de Deus sou o que sou." "E em glória me tomaste." Ora, a que glória foi tomado, e em qual glória, quem poderá explicar, quem poderá dizer? Aguardemo-la, porque na Ressurreição há de ser, nas últimas coisas há de ser.
1. O título deste Salmo é: "Da inteligência de Asafe." Asafe em latim se traduz "congregação", em grego "Sinagoga". Vejamos o que esta Sinagoga entendeu. Mas entendamos primeiramente o que é Sinagoga: a partir daí entenderemos o que a Sinagoga entendeu. Toda congregação se diz sob o nome geral de Sinagoga: pode-se chamar congregação tanto a de animais quanto a de homens; mas aqui não há congregação de animais, quando ouvimos "inteligência"... pois assim o prescreve o título do Salmo, dizendo: "Da inteligência de Asafe." É, pois, certa congregação inteligente cuja voz estamos prestes a ouvir. Mas como propriamente se diz Sinagoga da congregação do povo de Israel, de modo que, onde quer que tenhamos ouvido "Sinagoga", já não costumamos entender senão o povo dos judeus; vejamos se por acaso a voz deste Salmo não é desse mesmo povo. Mas de que espécie de judeus e de que espécie de povo de Israel? Pois não são da palha, mas talvez do grão; não dos ramos quebrados, mas talvez dos que foram fortalecidos. "Pois nem todos os que são de Israel são israelitas." ... Há, pois, certos israelitas, dos quais era aquele acerca de quem se disse: "Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo." Não digo do mesmo modo que nós somos israelitas, pois também nós somos semente de Abraão. Pois aos gentios falava o Apóstolo quando disse: "Portanto, semente de Abraão sois, herdeiros segundo a promessa." Segundo isto, pois, todos nós somos israelitas, os que seguimos as pegadas da fé de nosso pai Abraão. Mas entendamos aqui a voz dos israelitas do mesmo modo que diz o Apóstolo: "Pois também eu sou israelita, da semente de Abraão, da tribo de Benjamim." Aqui, pois, entendamos aquilo de que falaram os Profetas: "um resto será salvo." Do resto salvo, pois, ouçamos neste lugar a voz; a fim de que fale aquela Sinagoga que recebera o Antigo Testamento, e estava atenta às promessas carnais; e por este meio aconteceu que seus pés se abalassem. Pois em outro Salmo, onde também o título traz Asafe, que se diz? "Quão bom é o Deus de Israel para os retos de coração. Mas os meus pés quase se moveram." E como se disséssemos: donde se moveram teus pés? "Quase", diz ele, "meus passos se transtornaram, porque tive inveja no caso dos pecadores, vendo a paz dos pecadores." Pois enquanto, segundo as promessas de Deus pertencentes ao Antigo Testamento, buscava a felicidade terrena, observou que ela abundava entre os ímpios; que aqueles que não adoravam a Deus se enriqueciam com aquelas coisas que ele buscava de Deus: e como se em vão tivesse servido a Deus, seus pés vacilaram. ... Mas oportunamente aconteceu, não por nossa própria disposição, mas pela de Deus, que agora mesmo ouvimos do Evangelho que "a Lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo." Pois se distinguirmos entre os dois Testamentos, Antigo e Novo, não são os mesmos Sacramentos, nem as mesmas promessas; contudo, os mesmos mandamentos, na maior parte. ... Quando examinados, ou se acham todos os mesmos, ou apenas raros há no Evangelho que não tenham sido ditos pelos Profetas. Os Mandamentos são os mesmos, os Sacramentos não são os mesmos, as Promessas não são as mesmas. Vejamos por que os mandamentos são os mesmos: porque segundo eles devemos servir a Deus. Os Sacramentos não são os mesmos, pois alguns Sacramentos dão a Salvação, outros prometem um Salvador. Os Sacramentos do Novo Testamento dão a Salvação; os Sacramentos do Antigo Testamento prometiam um Salvador. Quando, pois, já tens as coisas prometidas, por que buscas as coisas que as prometem, tendo já o Salvador? ... Deus, mediante o Novo Testamento, tirou das mãos de Seus filhos aquelas coisas que são como os brinquedos das crianças, a fim de dar algo mais útil a eles, já crescidos; nem por isso se deve supor que não tenha sido Ele mesmo quem deu aquelas primeiras coisas. Deu ambas Ele mesmo. Mas a própria Lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo: graça, porque se cumpre pelo amor o que pela letra era ordenado; verdade, porque se está cumprindo o que foi prometido. Isto, pois, este Asafe entendeu. Em suma, todas as coisas que aos judeus haviam sido prometidas foram tiradas. Onde está o seu reino? Onde o Templo? Onde a Unção? Onde está agora o Sacerdote? Onde estão agora entre eles os Profetas? Desde que veio Aquele que pelos Profetas fora predito, naquela nação já não há nada disso; já perdeu as coisas terrenas, e ainda não busca as coisas celestiais.
3. "Por que nos rejeitaste, ó Deus, até o fim?" (v. 1). "Rejeitaste até o fim", na pessoa da congregação que propriamente se chama Sinagoga. "Por que nos rejeitaste, ó Deus, até o fim?" Não censura, mas indaga "por quê", para qual fim, por causa de que fizeste isto? Que fizeste? "Tu nos rejeitaste até o fim." Que é "até o fim"? Talvez até o fim do mundo. Rejeitaste-nos até Cristo, que é o Fim para todo aquele que crê? Pois: "Por que nos rejeitaste, ó Deus, até o fim?" "Irou-se o Teu espírito contra as ovelhas do Teu rebanho." Por que Te iraste contra as ovelhas do Teu rebanho, senão porque nos apegávamos às coisas terrenas, e não conhecíamos o Pastor?
2. Não deverias, pois, apegar-te às coisas terrenas, ainda que Deus as conceda. ... Vede como, por temerem perder as coisas terrenas, os judeus mataram o Rei do Céu. E que lhes aconteceu? Perderam até mesmo aquelas mesmíssimas coisas terrenas: e no lugar onde mataram a Cristo, ali foram mortos: e quando, não querendo perder a terra, mataram o Doador da vida, aquela mesma terra, sendo eles mortos, perderam-na; e justamente naquele mesmo tempo em que O mataram, a fim de que por esse mesmo tempo pudessem ser admoestados da razão por que sofriam estas coisas. Pois quando a cidade dos judeus foi destruída, celebravam eles a Páscoa, e com muitos milhares de homens toda a nação se havia reunido para a celebração daquela festa. Naquele lugar Deus (mediante homens maus, é certo, mas Ele mesmo bom; mediante homens injustos, mas Ele mesmo justo e justamente) tomou deles tal vingança, que foram mortos muitos milhares de homens, e a própria cidade foi destruída. Disto se queixa neste Salmo "a inteligência de Asafe", e na própria queixa a inteligência como que distingue as coisas terrenas das coisas celestiais, distingue o Antigo Testamento do Novo Testamento: a fim de que vejas por meio de que coisas estás passando, o que deves buscar, o que abandonar, a que apegar-te. Assim, pois, começa.
4. "Lembra-Te, Senhor, de Tua congregação, que possuíste desde o princípio" (v. 2). Poderá isto ser, por acaso, a voz dos gentios? Possuiu Ele os gentios desde o princípio? Não, mas possuiu a semente de Abraão, o povo de Israel segundo a carne, nascido dos Patriarcas nossos pais: dos quais nos tornamos filhos, não por termos saído de sua carne, mas por imitarmos sua fé. Mas a estes, possuídos por Deus desde o princípio, que lhes aconteceu? "Lembra-Te de Tua congregação, que possuíste desde o princípio. Resgataste a vara de Tua herança." Essa mesma congregação Tua, sendo a vara de Tua herança, Tu a resgataste. Esta mesma congregação chamou de "a vara da herança". Voltemos ao primeiro fato que se deu, quando quis possuir aquela mesma congregação, livrando-a do Egito: que sinal deu a Moisés, quando Moisés Lhe disse: "Que sinal darei para que me creiam, que Tu me enviaste? E Deus lhe diz: Que trazes em tua mão? Uma vara. Lança-a por terra", etc. Que insinua isto? Pois isto não se fez em vão. Indaguemos das Escrituras de Deus. A que persuadiu a serpente ao homem? À morte. Portanto, a morte vem da serpente. Se a morte vem da serpente, a vara na serpente é Cristo na morte. Por isso também, quando por serpentes no deserto eram picados e morriam, o Senhor ordenou a Moisés que erguesse uma serpente de bronze no deserto, e admoestasse o povo de que quem quer que fosse mordido por serpente, olhasse para ela e seria curado. Assim também se fez: assim também os homens, mordidos por serpentes, curavam-se do veneno ao olharem para uma serpente. Curar-se de uma serpente por olhar para uma serpente é grande Sacramento. Que é curar-se de uma serpente ao olhar para uma serpente? É curar-se da morte ao crer em um morto. E, contudo, Moisés temeu e fugiu. Que é isto que Moisés fugiu daquela serpente? Que é, irmãos, senão aquilo que sabemos ter acontecido no Evangelho? Cristo morreu, e os discípulos temeram, e se afastaram daquela esperança em que estavam. ... Mas, naquele tempo, alguns milhares dos próprios judeus, crucificadores de Cristo, creram: e porque se haviam achado à mão, creram de tal modo que venderam tudo quanto tinham, e o preço de seus bens depuseram aos pés dos Apóstolos. Porque, então, esta coisa estava oculta, e a redenção da vara de Deus havia de ser mais manifesta entre os gentios: explica, do que diz, aquilo que disse: "Resgataste a vara de Tua herança." Isto não disse dos gentios, em quem era evidente. Mas de quê? "Do Monte Sião." Contudo, também o Monte Sião pode ser entendido de outro modo. "Aquele em que habitaste." No lugar onde outrora estava o Povo, onde o Templo se erguia, onde se celebravam os Sacrifícios, onde então estavam todas aquelas coisas necessárias que davam promessa de Cristo. Uma promessa, quando a coisa prometida é concedida, torna-se agora supérflua. ...
5. "Levanta a Tua mão sobre a soberba deles, até o fim" (v. 3). Assim como nos rejeitaste até o fim, assim "levanta a Tua mão sobre a soberba deles até o fim." A soberba de quem? Daqueles por quem Jerusalém foi destruída. Mas por quem foi, senão pelos reis dos gentios? Bem se levantou a mão d'Ele sobre a soberba deles, até o fim: pois também eles já conheceram a Cristo. "Pois o fim da Lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê." Quão bem lhes deseja! Como que irado fala, e parece falar mal: e oxalá se cumprisse o mal que ele fala; ora, agora, em nome de Cristo, alegremo-nos de que isso se cumpre. Agora, os que empunhavam o cetro estão sendo submetidos à Palavra da Cruz: agora se cumpre o que foi predito: "adorá-Lo-ão todos os reis da terra, todas as nações O servirão." Agora, na fronte dos reis, mais precioso é o sinal da Cruz do que a joia de uma coroa. "Levanta a Tua mão sobre a soberba deles, até o fim. Quantas coisas fez o inimigo com malícia em Teus lugares santos!" Naqueles que eram Teus lugares santos, isto é, no templo, no sacerdócio, em todos aqueles sacramentos que então havia. Deveras, o inimigo naquele tempo fez essas coisas. Pois os gentios que naquele tempo fizeram isto adoravam falsos deuses, adoravam ídolos, serviam aos demônios: contudo, fizeram muitos males aos Santos de Deus. Como poderiam, se não lhes tivesse sido permitido? Mas quando lhes seria permitido, senão quando aquelas coisas santas, a princípio prometidas, já não fossem mais necessárias, quando Aquele que as prometera já estava Ele mesmo detido? Portanto: "Quantas coisas fez o inimigo com malícia em Teus lugares santos!"
6. "E todos os que Te odeiam se gloriaram" (v. 4). Observai os servos dos demônios, os servos dos ídolos: tais como então eram os gentios, quando destruíram o templo e a cidade de Deus, "e se gloriaram". "No meio da Tua festividade." Lembrai-vos do que eu disse, que Jerusalém foi destruída no tempo em que se celebrava a própria festividade: festividade em que crucificaram o Senhor. Reunidos, enfureceram-se; reunidos, pereceram. "Puseram seus próprios sinais como sinais, e não conheceram" (v. 5). Tinham sinais para ali colocar, seus estandartes, suas águias, seus próprios dragões, os sinais romanos; ou ainda suas estátuas, que a princípio colocaram no templo; ou talvez "seus sinais" sejam as coisas que ouviram dos profetas de seus demônios. "E não conheceram." Não conheceram o quê? Como "não terias poder algum contra Mim, se não te fosse dado do alto." Não souberam que não sobre eles recaía a honra de afligir, de tomar, ou de destruir a cidade, mas sua impiedade foi feita como que o machado de Deus. Foram feitos instrumento d'Aquele irado, não para serem o reino d'Aquele aplacado. Pois Deus faz o que também o homem muitas vezes faz. Às vezes um homem, em fúria, apanha uma vara que jaz no caminho, talvez qualquer tipo de pau, com ele fere seu filho, e depois lança o pau ao fogo e reserva a herança para o filho: assim, às vezes, Deus, mediante homens maus, instrui os homens bons, e mediante o poder temporal daqueles que hão de ser condenados, opera a disciplina daqueles que hão de ser salvos. Pois por que supondes vós, irmãos, que a disciplina foi assim infligida àquela nação, para que perecesse por completo? Quantos, desta nação, depois creram; quantos ainda hão de crer? Uns são palha, outros grão; sobre ambos, porém, passa o trilho; mas sob um mesmo trilho, um se despedaça, o outro se purifica. Que grande bem nos concedeu Deus mediante o mal de Judas, o traidor! Pela própria ferocidade dos judeus, que grande bem foi concedido aos gentios crentes! Cristo foi morto, a fim de que houvesse na Cruz alguém para olhar aquele que fora picado pela serpente. ...
7. Apressemo-nos agora sobre os versículos seguintes à destruição de Jerusalém, pela razão de que são evidentes, e não me apraz demorar-me sobre o castigo, ainda que de inimigos. "Como que numa floresta de árvores com machados, cortaram de uma só vez as portas dela; com picareta e martelo a derrubaram" (v. 6). Isto é, conspirando entre si, com firme resolução, "com picareta e martelo" a derrubaram. "Queimaram a fogo o Teu Santuário, profanaram por terra o Tabernáculo do Teu nome" (v. 7).
8. "Disseram em seu coração (a parentela deles é uma só)" — Disseram o quê? "Vinde, suprimamos da terra todas as solenidades do Senhor" (v. 8). "Do Senhor" foi inserido na pessoa deste homem, isto é, na pessoa de Asafe. Pois eles, enfurecidos, não teriam chamado de Senhor Aquele cujo templo destruíam. "Vinde, suprimamos da terra todas as solenidades do Senhor." Que dizer de Asafe? Que entendimento tem Asafe nestas palavras? Quê? Não aproveita ele nem mesmo da disciplina que lhe foi concedida? Não se endireita a tortuosidade da mente? Foram derrubadas todas as coisas que antes havia: em parte alguma há sacerdote, em parte alguma há Altar dos judeus, em parte alguma há vítima, em parte alguma há Templo. Não há, pois, nenhuma outra coisa a reconhecer que sucedeu a esta partida? Ou, na verdade, ter-se-ia tirado este sinal promissório, se não tivesse vindo aquilo que era prometido? Vejamos, pois, agora neste lugar o entendimento de Asafe, vejamos se ele tira proveito da tribulação. Observai o que ele diz: "Nossos sinais não vimos, já não há profeta, e Ele ainda não nos conhecerá" (v. 9). Eis que estes judeus, que dizem que ainda não são conhecidos, isto é, que ainda estão em cativeiro, que ainda não foram libertados, ainda esperam a Cristo. Cristo virá, mas virá como Juiz; a primeira vez para chamar, depois para separar. Virá, porque já veio, e que virá é evidente; mas doravante virá do alto. Antes de ti Ele já era, ó Israel. Foste esmagado porque tropeçaste contra Ele, jazendo: para que não sejas reduzido a pó, observa-O vindo do alto. Pois assim foi predito pelo profeta: "Quem tropeçar naquela pedra será esmagado, e sobre quem ela cair, o reduzirá a pó." Esmaga quando pequena, reduzirá a pó quando grande. Agora não vês teus sinais, agora não há profeta: e dizes: "e Ele ainda não nos conhecerá:" porque vós mesmos ainda não O conheceis. "Já não há profeta; e Ele ainda não nos conhecerá."
9. "Até quando, ó Deus, ultrajará o inimigo?" (v. 10). Clama como quem foi abandonado, como quem foi desamparado: clama como um doente que preferiu ferir o médico a ser curado: ainda não te conhece Ele. Vede o que fez Aquele que ainda não te conhece. Pois aqueles a quem não houve pregação dEle O verão; e os que não ouviram entenderão: e tu ainda clamas: "Já não há profeta, e Ele ainda não nos conhecerá." Onde está teu entendimento? "O adversário provoca o teu nome até o fim." Para isto o adversário provoca o teu nome até o fim, para que, provocado, Tu possas repreender, e, repreendendo, possas conhecê-los no fim: ou, certamente, "no fim," no sentido de até o fim mesmo.
10. "Por que apartas a Tua mão, e a Tua destra, do meio do Teu seio, até o fim?" (v. 11). Eis, novamente, outro sinal que foi dado a Moisés. Pois assim como acima o sinal veio da vara, assim também agora vem da destra. Pois, quando aquilo se fizera acerca da vara, Deus deu um segundo sinal: "Põe," disse Ele, "a tua mão no teu seio, e ele a pôs: tira-a, e ele a tirou: e viu-se branca," isto é, imunda. Pois a brancura na pele é lepra, não formosura de tez. Pois a própria herança de Deus, isto é, o Seu povo, sendo lançado fora, tornou-se imundo. Mas que lhe diz Ele? Torna a pôr no teu seio. Tornou a pô-la, e restituiu-se à sua própria cor. Quando fazes Tu isto, diz este Asafe? Até quando alienarás a Tua destra do Teu seio, de modo que, fora dele, imunda permaneça? Torna a colocá-la, que volte à sua cor, que reconheça o Salvador. "Por que apartas a Tua mão, e a Tua destra, do meio do Teu seio, até o fim?" Estas palavras clama ele, estando cego, sem entender, enquanto Deus faz o que faz. Pois para que veio Cristo? "Em parte aconteceu a cegueira a Israel, para que entrasse a plenitude dos gentios, e assim todo o Israel fosse salvo." Portanto agora, ó Asafe, reconhece aquilo que precedeu, para que ao menos sigas, se não pudeste ir adiante. Pois não em vão veio Cristo, nem em vão foi Cristo morto, nem em vão caiu o grão de trigo na terra; mas caiu para que ressurgisse multiplicado. Uma serpente foi levantada no deserto, para que curasse do veneno o que fora ferido. Observai o que se fez. Não penseis que em vão Ele veio: para que não te encontre mau, quando vier pela segunda vez.
2. "A Ti confessaremos, ó Senhor, a Ti confessaremos, e invocaremos o Teu nome" (v. 1). Não invoques antes de confessar: confessa, e invoca. Pois Aquele a quem invocas, a ti mesmo o chamas. Pois que é invocar, senão chamar a si mesmo? Se Ele é invocado por ti, isto é, se é chamado a ti, a quem Ele se aproxima? Do soberbo Ele não se aproxima. Alto é Ele, na verdade; quem se ergue não O alcança. Para alcançarmos todos os objetos elevados, nós nos erguemos, e, se não podemos alcançá-los, buscamos alguns instrumentos ou escadas, para que, elevados, alcancemos os objetos elevados: ao contrário, Deus é tanto alto quanto, pelos humildes, alcançado. Está escrito: "Perto está o Senhor dos que têm o coração contrito." A contrição do coração é a piedade, a humildade. Aquele que se contrange a si mesmo, contra si mesmo se ira. Que se ire contra si mesmo, para que O torne misericordioso; que se faça juiz de si mesmo, para que O torne Advogado. Portanto, Deus vem quando é invocado. A quem Ele vem? Ao soberbo Ele não vem. ...Atendei, pois, ao que fazeis: pois, se Ele sabe, não é desatento. Melhor seria, pois, que fosse desatento do que conhecido. Pois que é este mesmo ser desatento, senão não saber? Que é não saber? Não animadverter. Pois é assim que se costuma falar do ato de quem, vingando-se, animadverte. Eis quem ora para que Ele seja desatento: "Desvia a Tua face dos meus pecados." Que farás, pois, se Ele tiver desviado de ti a Sua face? Coisa grave é, e temível, que Ele te abandone. Novamente, se Ele não desviar a Sua face, animadverte. Deus sabe fazer isto, Deus pode fazer isto, a saber, tanto desviar a face do que peca, quanto não desviá-la do que confessa. ...Confessa, pois, e invoca. Pois, confessando, purificas o Templo, no qual Ele poderá entrar, quando invocado. Confessa e invoca. Que Ele desvie a face dos teus pecados, mas não se desvie de ti: que desvie a face daquilo que tu fizeste, mas não se desvie daquilo que Ele mesmo fez. Pois a ti, como homem, Ele mesmo te fez; os teus pecados, tu mesmo os fizeste. ...
3. Mas que há um reforço do sentido na repetição, por muitas passagens das Escrituras somos ensinados. Daí vem aquilo que o Senhor diz: "Em verdade, em verdade." Daí, em certos Salmos, há: "Assim seja, assim seja." Para significar a coisa, um só "Assim seja" teria bastado: para significar a confirmação, foi acrescentado outro "Assim seja." ...Inumeráveis são as passagens deste tipo por toda a Escritura. Com estas basta que tenhamos recomendado à vossa atenção um modo de falar que podeis observar em todos os casos semelhantes: agora atendei à substância: "A Ti confessaremos," diz ele, "e invocaremos." Já disse por que a confissão precede a invocação: porque a quem invocas, a esse convidas. Mas ele não quer vir quando invocado, se te tiveres exaltado; e, se te tiveres exaltado, não poderás confessar. E tu não negas a Deus coisa alguma que Ele já não saiba. Portanto, a tua confissão não O ensina a Ele, mas te purifica a ti.
4. ...Ouvi agora as palavras de Cristo. Pois estas não pareciam, por assim dizer, ser palavras dEle: "A Ti confessaremos, ó Deus, a Ti confessaremos, e invocaremos o Teu nome." Agora começa o discurso na pessoa da Cabeça. Mas, quer fale a Cabeça, quer falem os membros, é Cristo quem fala: fala na pessoa da Cabeça, fala na pessoa do Corpo. Mas o que foi dito? Serão dois numa só carne. "Isto é um grande Sacramento:" "Eu," diz ele, "falo em Cristo e na Igreja." E Ele mesmo no Evangelho: "Portanto já não são dois, mas uma só carne." Pois, para que saibais que estes são, de certo modo, duas pessoas, e novamente uma só pelo vínculo do matrimônio, como um só Ele fala em Isaías, e diz: "Como a um Noivo Ele me cingiu com uma mitra, e como a uma Noiva me revestiu de um ornamento." Noivo chamou-se a Si mesmo na Cabeça, Noiva no Corpo. Fala Ele, pois, como Um só; ouçamo-Lo, e nEle falemos também nós. Sejamos nós os membros dEle, para que esta voz possa ser também nossa. "Contarei," diz ele, "todas as Tuas maravilhas." Cristo prega a Si mesmo, prega a Si mesmo até mesmo nos Seus membros já existentes, para que possa guiar a Si outros, e se aproximem os que ainda não eram, e se unam àqueles Seus membros, por meio dos quais Seus membros o Evangelho foi pregado; e se faça um só Corpo sob uma só Cabeça, em um só Espírito, em uma só Vida.
1. ...O Título deste Salmo assim fala: "Para o fim, não corrompas." Que é "não corrompas"? Aquilo que prometeste, cumpre. Mas quando? "Para o fim." A isto, pois, se dirija o olhar da mente, "até o fim." Passem-se todas as coisas que ocorreram no caminho, para que possamos alcançar o fim. Exultem os soberbos por causa da felicidade presente, inchem-se de honrarias, resplandeçam em ouro, transbordem de domésticos, cerquem-se dos serviços dos clientes: estas coisas passam, passam como uma sombra. Quando aquele fim tiver chegado, quando todos os que agora esperam no Senhor hão de exultar, então a estes virá tristeza sem fim. Quando os mansos tiverem recebido aquilo que os soberbos escarnecem, então a ostentação dos soberbos se converterá em pranto. Então haverá aquela voz que conhecemos no Livro da Sabedoria: pois dirão, naquele tempo em que virem a glória dos Santos, os que, quando estavam em humilhação, os suportaram; os que, quando foram exaltados, não consentiram — naquele tempo, então, dirão: "Estes são aqueles que outrora tivemos por escárnio." Onde também dizem: "De que nos aproveitou a soberba, e que nos deu a jactância das riquezas?" Todas as coisas passaram como uma sombra. Porque confiaram em coisas corruptíveis, a sua esperança se corromperá: mas a nossa própria esperança, naquele tempo, será substância. Pois, para que a promessa de Deus permaneça íntegra, segura e certa para conosco, dissemos, de um coração de fé, "para o fim, não corrompas." Não temais, pois, que algum poderoso venha a corromper as promessas de Deus. Ele não as corrompe, porque é verdadeiro; não há ninguém mais poderoso do que Ele por quem a Sua promessa possa ser corrompida: estejamos, pois, certos quanto às promessas de Deus; e cantemos agora a partir do lugar onde o Salmo começa.
5. E que diz ele? "Quando eu tiver recebido," diz ele, "o tempo, julgarei as justiças" (v. 2). Quando julgará Ele as justiças? Quando tiver recebido o tempo. Ainda não é o tempo determinado. Graças à Sua misericórdia: primeiro prega as justiças, e depois julga as justiças. Pois, se Ele quisesse julgar antes de querer pregar, quem se encontraria que fosse liberto: quem O encontraria que fosse absolvido? Agora, pois, é o tempo da pregação: "Contarei," diz ele, "todas as Tuas obras maravilhosas." Ouvi-O contando, ouvi-O pregando: pois, se O tiveres desprezado, "quando eu tiver recebido o tempo," diz Ele, "julgarei as justiças." Perdoo, diz Ele, agora os pecados a quem confessa; não pouparei doravante a quem despreza. ...Recebeu Ele um tempo como Filho do Homem; governa os tempos como Filho de Deus. Ouvi como, enquanto Filho do Homem, recebeu Ele o tempo de julgar. Diz Ele no Evangelho: "Deu-Lhe poder para executar o juízo, porque é Filho do Homem." Segundo a Sua natureza de Filho de Deus, nunca recebeu Ele poder de julgar, porque nunca lhe faltou o poder de julgar: segundo a Sua natureza de Filho do Homem, recebeu um tempo, como de nascer, e de sofrer, como de morrer, e de ressuscitar, e de ascender, assim de vir e de julgar. NEle, o Seu Corpo também diz estas palavras, pois não sem eles Ele julgará. Pois diz Ele no Evangelho: "Vós vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel." Portanto, o Cristo total diz, isto é, a Cabeça e o Corpo nos Santos: "quando eu tiver recebido o tempo, julgarei as justiças."
6. Mas agora, quê? "A terra se derreteu" (v. 3). Se a terra se derreteu, donde se derreteu, senão pelos pecados? Por isso também se chamam delinquências. Delinquir é, por assim dizer, por uma espécie de liquidez, escorregar para baixo da estabilidade da firmeza na virtude e na justiça. Pois é pelo desejo das coisas inferiores que todo homem peca: assim como é fortalecido pelo amor das coisas superiores, assim cai e como que se derrete pelo desejo das coisas inferiores. Observando este fluxo das coisas pelos pecados do homem, o misericordioso perdoador — sendo misericordioso perdoador dos pecados, ainda não exator das penas — observa e diz: A própria terra, na verdade, se derreteu por causa dos que nela habitam. O que se segue é uma exposição, não um acréscimo. Como se dissesses: de que modo se derreteu a terra? Foram removidos os fundamentos, e foi algo nela tragado por uma espécie de abismo? O que entendo por terra são todos os que nela habitam. Encontrei, diz Ele, a terra pecadora. E fiz o quê? "Fortaleci as suas colunas." Que colunas são estas que Ele fortaleceu? Colunas chamou Ele aos Apóstolos. Assim o Apóstolo Paulo, acerca de seus companheiros Apóstolos, diz: "que pareciam ser colunas." E que teriam sido aquelas colunas, se não tivessem sido por Ele fortalecidas? Pois, por ocasião de uma espécie de terremoto, até mesmo estas mesmas colunas vacilaram: na Paixão do Senhor, todos os Apóstolos desesperaram. Portanto, aquelas colunas que vacilaram na Paixão do Senhor, pela Ressurreição foram fortalecidas. O Princípio do edifício clamou por meio das suas colunas, e em todas aquelas colunas o próprio Arquiteto clamou. Pois o Apóstolo Paulo era uma coluna delas, quando disse: "Quereis receber prova daquele que fala em mim — Cristo?" Portanto, "Eu," diz Ele, "fortaleci as suas colunas:" ressuscitei, mostrei que a morte não deve ser temida, mostrei aos que temem que nem mesmo o próprio corpo perece ao morrer. Ali os aterrorizaram as feridas, ali os fortaleceram as cicatrizes. O Senhor Jesus poderia ter ressuscitado sem cicatriz alguma: pois que grande coisa seria, para aquele poder, restituir a estrutura do corpo a tão perfeita sanidade, que nenhum vestígio de ferida passada aparecesse? Tinha Ele poder para tornar são o corpo mesmo sem cicatriz: mas quis ter aquilo pelo qual pudesse fortalecer as colunas vacilantes.
7. Ouvimos agora, irmãos, o que dia a dia não se mantém oculto: ouçamos agora o que Ele clamou por meio destas colunas. ...Que clama Ele? "Disse aos injustos: Não obreis injustamente" (v. 4). ...Mas já o fizeram, e são culpados: já se derreteu a terra, e todos os que nela habitam. Compungidos no coração ficaram os que crucificaram a Cristo, reconheceram o seu pecado, aprenderam algo do Apóstolo, para que não desesperassem do perdão do Pregador. Pois como Médico viera Ele, e por isso não viera aos sãos. "Pois não têm necessidade," diz Ele, "de médico os sãos, mas os que estão enfermos. Não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento." Portanto, "Disse aos injustos: Não obreis injustamente." Não ouviram. Pois outrora nos foi dito: não ouvimos, caímos, fomos feitos mortais, fomos gerados mortais: a terra se derreteu. Ouçam agora o Médico, para que se levantem, Aquele que veio ao enfermo, Aquele a quem não quiseram ouvir quando sãos, para que não caíssem; que O ouçam agora, jazendo, para que se levantem. ..."Disse aos injustos: Não obreis injustamente; e aos delinquentes: Não exalteis o vosso chifre." Exaltar-se-á em vós o chifre de Cristo, se o vosso chifre não se exaltar. O vosso chifre é de iniquidade, o chifre de Cristo é de majestade.
Não vos ensobervecei, pois: não faleis iniquidade contra Deus" (v. 5)... Que diz Ele em outro Salmo? "Estas coisas fizeste", tendo enumerado certos pecados. "Estas coisas fizeste", diz Ele, "e calei-me". Que é "calei-me"? Ele nunca se cala quanto ao mandamento, mas entrementes cala-se quanto ao castigo: Ele se detém da vingança, não profere sentença contra o condenado. Mas este homem assim diz: fiz tais e tais coisas, e Deus não se vingou; eis que estou incólume, nenhum mal me sobreveio. "Estas coisas fizeste, e calei-me: suspeitaste da iniquidade, que Eu seria semelhante a ti". Que é "que Eu seria semelhante a ti"? Porque tu és injusto, até a Mim reputaste injusto; como se fosse aprovador de tuas más ações, e não adversário, nem vingador delas. E que te diz Ele depois? "Eu te convencerei, e te porei diante de tua própria face"? Que é isto? Porque agora, pecando às tuas costas, tu te pões, não te vês, não te examinas; Eu te porei diante de ti mesmo, e trarei sobre ti o castigo procedente de ti mesmo. Assim também aqui: "Não faleis iniquidade contra Deus". Atendei. Muitos homens falam esta iniquidade; mas não ousam abertamente, para que, como blasfemos, não sejam abominados pelos homens piedosos: em seu coração roem estas coisas, interiormente se alimentam de tal alimento ímpio; compraz-lhes falar contra Deus, e se não irrompem com a língua, no coração não se calam. Donde em outro Salmo se diz: "Disse o insensato em seu coração: Não há Deus". O insensato disse-o, mas temeu os homens: não o quis dizer onde os homens pudessem ouvi-lo, e disse-o naquele lugar onde Aquele mesmo o pudesse ouvir, acerca de Quem o dizia. Portanto também aqui neste Salmo (atendei, caríssimos), visto que aquilo que Ele disse, "Não faleis iniquidade contra Deus", isto Ele viu que muitos faziam no coração, acrescentou também: "pois nem do Oriente, nem do Ocidente, nem dos desertos dos montes (v. 6), porque Deus é o Juiz" (v. 7). De tuas iniquidades Deus é o Juiz. Se Deus é, em toda parte está presente. Para onde te retirarás dos olhos de Deus, de modo que em algum lugar possas falar aquilo que Ele não ouça? Se do Oriente Deus julga, retira-te para o Ocidente, e dize o que quiseres contra Deus: se do Ocidente, vai para o Oriente, e ali fala: se dos desertos dos montes Ele julga, vai para o meio dos povos, onde possas murmurar a ti mesmo. De nenhum lugar julga Aquele que em toda parte é secreto, em toda parte é manifesto; a Quem a ninguém é permitido conhecer tal qual Ele é, e a Quem a ninguém é permitido não conhecer. Atenta ao que fazes. Estás falando iniquidade contra Deus. "O Espírito do Senhor encheu o orbe da terra" (outra Escritura diz isto), "e Aquele que contém todas as coisas tem conhecimento da voz: por isso aquele que fala coisas injustas não se pode ocultar". Não penses, pois, que Deus está em lugares: Ele é contigo tal qual tu fores. Que se tal qual tu fores? Bom, tu terás sido bom; e mau te parecerá, se mau tiveres sido; mas Auxiliador, se bom tiveres sido; Vingador, se mau tiveres sido. Ali tens um Juiz em teu lugar secreto. Querendo fazer alguma coisa má, do público te retiras para tua casa, onde nenhum inimigo te veja; daqueles lugares de tua casa que estão abertos e diante dos olhos dos homens, te removes para um aposento; temes ainda em teu aposento alguma testemunha de algum outro quadrante, retiras-te para teu coração, ali meditas: Ele é mais interior que teu coração. Para onde quer, pois, que tiveres fugido, ali Ele está. De ti mesmo para onde fugirás? Não te seguirás a ti mesmo para onde quer que fugires? Mas, visto que há Alguém mais interior ainda que tu mesmo, não há lugar algum para onde fugires de Deus irado, senão para Deus reconciliado. Não há lugar algum para onde possas fugir. Queres fugir dEle? Foge para Ele... Que faremos, pois, agora? "Vinhamos diante de Sua face", en exomologhesei, vinhamos diante em confissão: brando virá Aquele a quem tinhas feito irado. "Nem dos desertos dos montes, porque Deus é o Juiz": não do Oriente, não do Ocidente, não dos desertos dos montes. Por quê? "Porque Deus é o Juiz". Se em algum lugar Ele estivesse, não seria Deus: mas porque Deus é o Juiz, e não homem, não O esperes fora dos lugares. Seu lugar tu serás, se fores bom, se depois de teres confessado O tiveres invocado.
A um humilha, e a outro exalta" (v. 7). A quem humilha, a quem exalta este Juiz? Observai estes dois homens no templo, e vereis a quem Ele humilha e a quem exalta. "Subiram ao Templo para orar", diz Ele, "um fariseu, e o outro publicano"... "Em verdade vos digo, que aquele publicano desceu justificado mais do que aquele fariseu: porque todo aquele que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado". Assim foi explicado um versículo deste Salmo. Deus, o Juiz, que faz? "A um humilha, e a outro exalta": humilha o soberbo, exalta o humilde.
Porque na mão do Senhor há um cálice de vinho puro cheio de mistura" (v. 8). Justamente assim. "E dele Ele verteu sobre este homem; contudo, o sedimento dele não se esvaziou; dele beberão todos os pecadores da terra". Sejamos um pouco reanimados; há aqui alguma obscuridade... A primeira questão que se nos apresenta é esta: "de vinho puro está cheio de mistura". Como "puro", se "misturado"? Mas quando diz "o cálice na mão do Senhor" (a homens instruídos na Igreja de Cristo estou falando), não deveis, na verdade, pintar em vosso coração a Deus como que circunscrito com forma humana, para que, ainda que os templos estejam fechados, não forjeis ídolos em vossos corações. Este cálice, pois, significa alguma coisa. Havemos de descobri-la. Mas "na mão do Senhor" é, no poder do Senhor. Pois a mão de Deus se diz pelo poder de Deus. Pois até em referência aos homens muitas vezes se diz: em mão o tem; isto é, em seu poder o tem, quando quer o faz. "De vinho puro está cheio de mistura". Em continuação ele mesmo o explicou: "Inclinou", diz ele, "deste para este homem; contudo o sedimento dele não se esvaziou". Vede como estava cheio de vinho misturado. Não vos aterre, pois, que seja ao mesmo tempo puro e misturado: puro por causa de sua genuinidade, misturado por causa do sedimento. Que é, pois, naquele lugar o vinho, e que é o sedimento? E que é "Inclinou deste para este homem", de tal sorte que o sedimento dele não se esvaziou?
11. Lembrai-vos donde ele veio a isto: "a um humilha, e a outro exalta". Aquilo que nos foi figurado no Evangelho por meio de dois homens, um fariseu e um publicano, isto entendamo-lo, tomando-o em sentido mais amplo, acerca de dois povos, dos judeus e dos gentios: o povo dos judeus era aquele fariseu, o povo dos gentios aquele publicano... Como estes, por serem soberbos, se retiraram, assim aqueles, confessando, se aproximaram. O cálice, pois, cheio de vinho puro na mão do Senhor, tanto quanto o Senhor me dá a entender... o cálice de vinho puro cheio de mistura parece-me ser a Lei, que foi dada aos judeus, e toda aquela Escritura do Antigo Testamento, como se chama; ali estão os pesos de toda sorte de sentenças. Pois nela jaz oculto o Novo Testamento, como que no sedimento dos Sacramentos corporais. A circuncisão da carne é coisa de grande mistério, e dela se entende a circuncisão do coração. O Templo de Jerusalém é coisa de grande mistério, e dele se entende o Corpo do Senhor. A terra da promessa se entende como o Reino dos Céus. O sacrifício das vítimas e dos animais tem um grande mistério: mas em todas aquelas espécies de sacrifícios se entende aquele único Sacrifício e única vítima da Cruz, o Senhor, em lugar de todos os quais sacrifícios temos um só; porque também aqueles figuravam este, isto é, com aqueles este era figurado. Aquele povo recebeu a Lei, receberam mandamentos justos e bons. Que há de tão justo quanto: não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe, não cobiçarás a propriedade de teu próximo, a um só Deus adorarás, e só a Ele servirás; todas estas coisas pertencem ao vinho. Mas aquelas coisas carnais como que se depositaram no fundo, para que permanecessem com eles, e dali se derramasse todo o entendimento espiritual. Mas "o cálice na mão do Senhor", isto é, no poder do Senhor: "de vinho puro", isto é, da mera Lei: "está cheio de mistura", isto é, junto com o sedimento dos Sacramentos corporais. E porque a um humilha, o judeu soberbo, e a outro exalta, o gentio que confessa; "inclinou deste para aquele", isto é, do povo judeu para o povo gentio. Inclinou o quê? A Lei. Dali destilou um sentido espiritual. "Contudo, o sedimento dele não se esvaziou", pois todos os Sacramentos carnais permaneceram com os judeus. "Dele beberão todos os pecadores da terra". Quem beberá? "Todos os pecadores da terra". Quem são os pecadores da terra? Os judeus eram, na verdade, pecadores, mas soberbos: também os gentios eram pecadores, mas humildes. Todos os pecadores beberão, mas vede quem bebe o sedimento, quem o vinho. Pois aqueles, bebendo o sedimento, vieram a nada: estes, bebendo o vinho, foram justificados. Ousaria falar deles até como embriagados, e não temerei: e oxalá todos vós estivésseis assim embriagados. Lembrai-vos: "Teu cálice inebriante, quão sobremodo formoso!" Mas por quê? Pensais vós, meus irmãos, que todos aqueles que, confessando a Cristo, até quiseram morrer, estavam sóbrios? Tão ébrios estavam, que não conheciam seus amigos. Todos os seus parentes, que se esforçavam por desviá-los da esperança das recompensas celestiais mediante atrativos terrenos, não eram reconhecidos, não eram ouvidos por eles, ébrios que estavam. Não estavam ébrios, aqueles cujo coração havia sido mudado? Não estavam ébrios, aqueles cuja mente havia sido alienada deste mundo? "Beberão", diz ele, "todos os pecadores da terra". Mas quem beberá o vinho? Os pecadores beberão, mas para que não permaneçam pecadores; para que sejam justificados, para que não sejam castigados.
Mas eu", pois todos bebem, mas separadamente eu, isto é, Cristo com Seu Corpo, "exultarei para sempre, salmodiarei ao Deus de Jacó" (v. 9): naquela promessa que há de estar no fim, da qual se diz: "não corrompas". "E todos os chifres dos pecadores quebrarei, e serão exaltados os chifres do Justo" (v. 10). Isto é: a um humilha, a outro exalta. Os pecadores não quereriam que seus chifres fossem quebrados, os quais sem dúvida serão quebrados ao fim. Não queres então que Ele os quebre; quebra-os tu hoje. Pois ouviste acima, não o desprezes: "Disse aos homens injustos: Não obreis injustamente, e aos delinquentes: Não exalteis o chifre". Quando ouviste, não exalteis o chifre, desprezaste e exaltaste o chifre: chegarás ao fim, onde acontecerá: "Todos os chifres dos pecadores quebrarei, e serão exaltados os chifres do Justo". Os chifres dos pecadores são as dignidades dos homens soberbos: os chifres do Justo são os dons de Cristo. Pois por chifres se entendem as exultações. Odeias na terra a exultação terrena, para que possas ter a celestial. Amas a terrena, Ele não te admite à Celestial: e para confusão será teu chifre que é quebrado, assim como será para glória, se teu chifre for exaltado. Agora, pois, há tempo para fazer escolha; então não haverá. Não dirás: serei deixado e farei escolha. Pois precederam as palavras: "Disse aos injustos". Se eu não disse, prepara uma desculpa, prepara uma defesa: mas se eu disse, apodera-te primeiro da confissão, para que não venhas à condenação; pois então a confissão será tardia demais, e não haverá defesa.
Observai o que é isto. Um dos doze filhos de Jacó era José... Este José teve dois filhos, Efraim e Manassés. Jacó, morrendo, como que por testamento, recebeu aqueles seus netos no número dos filhos, e disse a seu filho José: "Os demais que nascerem serão teus; mas estes serão meus, e dividirão a terra com seus irmãos". Ainda não havia sido dada nem dividida a terra da promessa, mas ele falava no Espírito, profetizando. Acrescentados, pois, os dois filhos de José, todavia completaram-se doze tribos, visto que agora são treze. Pois em lugar de uma tribo de José, foram acrescentadas duas, e fizeram-se treze. Retirada, pois, então a tribo de Levi, aquela tribo dos sacerdotes que servia ao Templo, e vivia dos dízimos de todos os demais aos quais a terra fora dividida, restam doze. Nestas doze estava a tribo de Judá, donde vinham os reis. Pois a princípio, de outra tribo foi dado o rei Saul, e este foi rejeitado por ser rei mau; depois foi dado, da tribo de Judá, o rei Davi, e a partir dele, da tribo de Judá, vieram os Reis. Mas Jacó havia falado disto, quando abençoou seus filhos: "não faltará príncipe de Judá, nem legislador dentre seus lombos, até que venha Aquele a quem a promessa foi feita". Mas da tribo de Judá veio Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois Ele é, como diz a Escritura, e como acabastes de ouvir, da semente de Davi, nascido de Maria. Mas quanto à Divindade de nosso Senhor Jesus Cristo, em que Ele é igual ao Pai, Ele não é apenas anterior aos judeus, mas também ao próprio Abraão; nem somente anterior a Abraão, mas também a Adão; nem somente anterior a Adão, mas também ao Céu e à terra e às eras: pois todas as coisas por Ele foram feitas, e sem Ele nada foi feito. Porque, pois, em profecia se disse "não faltará príncipe de Judá", etc.: examinam-se os tempos anteriores, e achamos que os judeus sempre tiveram seus reis da tribo de Judá, e não tiveram rei estrangeiro antes daquele Herodes que era rei quando o Senhor nasceu. Dali começaram reis estrangeiros, a partir de Herodes. Antes de Herodes todos eram da tribo de Judá, mas somente até que viesse Aquele a quem a promessa fora feita. Portanto, quando o próprio Senhor veio, o reino dos judeus foi derrubado, e removido dos judeus. Agora não têm rei; porque não querem reconhecer o verdadeiro Rei. Vede agora se devem ser chamados judeus. Agora vedes que não devem ser chamados judeus. Eles mesmos, com sua própria voz, renunciaram àquele nome, de modo que não são dignos de serem chamados judeus, senão apenas na carne. Quando se apartaram do nome? Disseram: "Não temos rei senão César". Ó vós que sois chamados judeus e não sois, se não tendes rei senão César, faltou um Príncipe de Judá: veio, pois, Aquele a quem a promessa foi feita. Estes, pois, são mais verdadeiramente judeus, os que de judeus se fizeram cristãos: os demais judeus, que em Cristo não creram, mereceram perder até o próprio nome. A verdadeira Judeia, pois, é a Igreja de Cristo, crendo naquele Rei que veio da tribo de Judá através da Virgem Maria; crendo naquele de quem o Apóstolo há pouco falava, escrevendo a Timóteo: "Lembra-te de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, da semente de Davi, segundo meu Evangelho". Pois de Judá é Davi, e de Davi é o Senhor Jesus Cristo. Nós, crendo em Cristo, pertencemos a Judá: e reconhecemos a Cristo. Nós, que com os olhos não vimos, na fé O guardamos. Não nos vituperem, pois, os judeus, que já não são judeus. Disseram eles mesmos: "Não temos rei senão César". Pois melhor lhes fora que seu rei fosse Cristo, da semente de Davi, da tribo de Judá. Contudo, porque o próprio Cristo é da semente de Davi segundo a carne, mas Deus acima de todas as coisas, bendito para sempre, Ele mesmo é nosso Rei e nosso Deus; nosso Rei, enquanto, nascido da tribo de Judá, segundo a carne, era Cristo o Senhor, o Salvador; mas nosso Deus, que é anterior a Judá, e anterior ao Céu e à terra, por Quem foram feitas todas as coisas, tanto espirituais quanto corporais. Pois se todas as coisas por Ele foram feitas, também a própria Maria, de quem Ele nasceu, por Ele foi feita...
Os judeus costumam gloriar-se neste Salmo que cantamos, dizendo: "Conhecido na Judeia é Deus, em Israel grande é o Seu nome": e vituperar os gentios, aos quais Deus não é conhecido, e dizer que somente a eles Deus é conhecido; visto que o Profeta diz: "Conhecido na Judeia é Deus". Em outros lugares, pois, Ele seria desconhecido. Mas Deus é conhecido de fato na Judeia, se entenderem o que é a Judeia. Pois, na verdade, Deus não é conhecido senão na Judeia. Vede, também nós dizemos isto: que, a não ser que alguém tenha estado na Judeia, Deus não lhe pode ser conhecido. Mas que diz o Apóstolo? Aquele que em secreto é judeu, aquele que o é na circuncisão do coração, não na letra, mas no espírito. Há, pois, judeus na circuncisão da carne, e há judeus na circuncisão do coração. Muitos de nossos santos pais tiveram tanto a circuncisão da carne, como selo da fé, quanto a circuncisão do coração, como a própria fé. Destes pais degenerando estes homens, que agora no nome se gloriam, e perderam as obras; destes pais, digo, degenerando, permaneceram judeus na carne, gentios no coração. Pois estes são judeus, os que provêm de Abraão, de quem nasceu Isaac, e deste Jacó, e de Jacó os doze Patriarcas, e dos doze Patriarcas todo o povo dos judeus. Mas geralmente eram chamados judeus por esta razão, que Judá era um dos doze filhos de Jacó, Patriarca entre os doze, e de sua estirpe veio a realeza entre os judeus. Pois todo este povo, segundo o número dos doze filhos de Jacó, tinha doze tribos. O que chamamos tribos são como que casas e congregações distintas de povo. Aquele povo, digo, tinha doze tribos, das quais doze tribos uma tribo era Judá, da qual vinham os reis; e havia outra tribo, Levi, da qual vinham os sacerdotes. Mas porque aos sacerdotes que serviam o templo nenhuma terra foi atribuída, sendo necessário que entre doze tribos toda a Terra da promessa fosse repartida: retirada, pois, uma tribo de dignidade mais alta, a tribo de Levi, que era dos sacerdotes, teriam restado onze, se pela adoção dos dois filhos de José não se completasse o número doze.
Conhecido na Judeia é Deus, em Israel grande é o Nome dEle" (v. 1). Acerca de Israel também devemos entender assim como entendemos acerca da Judeia: como estes não eram os verdadeiros judeus, assim também aquele não era o verdadeiro Israel. Pois que se diz que é Israel? Aquele que vê a Deus. E como viram eles a Deus, entre os quais Ele andou na carne; e, supondo-O homem, O mataram?... "Em Israel grande é o Seu Nome". Queres ser Israel? Observa aquele homem acerca de quem o Senhor diz: "Eis um verdadeiro israelita, em quem não há engano". Se verdadeiro israelita é aquele em quem não há engano, os enganosos e mentirosos não são verdadeiros israelitas. Não digam, pois, que com eles está Deus, e que grande é Seu nome em Israel. Provem-se israelitas, e eu concedo que "em Israel grande é o Seu Nome".
E fez-se em paz o Seu lugar, e Sua habitação é em Sião" (v. 2). Novamente, Sião é como que a pátria dos judeus; a verdadeira Sião é a Igreja dos cristãos. Mas a interpretação dos nomes hebraicos assim nos foi transmitida: Judeia se interpreta confissão, Israel, aquele que vê a Deus. Depois da Judeia vem Israel. Queres ver a Deus? Primeiro confessa tu, e então em ti se faz um lugar para Deus; porque "fez-se em paz o Seu lugar". Enquanto, pois, não confessas teus pecados, de certo modo estás em contenda com Deus. Pois como não estás disputando com Ele, tu que louvas o que Lhe desagrada? Ele castiga um ladrão, tu louvas o furto: Ele castiga um ébrio, tu louvas a embriaguez. Estás disputando com Deus, não Lhe fizeste um lugar em teu coração: porque em paz está o Seu lugar. E como começas a ter paz com Deus? Começas com Ele na confissão. Há uma voz de um Salmo, que diz: "Começai ao Senhor com confissão". Que é "Começai ao Senhor com confissão"? Começai a unir-vos ao Senhor. De que modo? De sorte que a vós desagrade a mesma coisa que Lhe desagrada. A Ele desagrada tua má vida; se a ti te agrada, estás separado dEle; se te desagrada, pela confissão a Ele estás unido...
4. "Ali quebrou Ele a força dos arcos, e o escudo, e a espada, e a batalha" (v. 3). Onde quebrou Ele? Naquela paz eterna, naquela paz perfeita. E agora, meus irmãos, os que creram retamente veem que não devem confiar em si mesmos: e toda a força de suas próprias ameaças, e tudo quanto neles se aguça para o mal, isto Ele quebra em pedaços; e tudo quanto julgam ser de grande virtude para se protegerem temporalmente, e a guerra que moviam contra Deus ao defenderem os seus pecados, todas estas coisas Ele ali as quebrou.
5. "Tu iluminas maravilhosamente desde os montes eternos" (v. 4). Que são os montes eternos? Aqueles que Ele mesmo fez eternos; que são os grandes montes, os pregoeiros da verdade. Tu iluminas, mas desde os montes eternos: os grandes montes são os primeiros a receber a Tua luz, e da Tua luz que os montes recebem, também a terra se reveste. Ora, aqueles grandes montes os Apóstolos os receberam; os Apóstolos receberam como que os primeiros raios da luz nascente. ...Por isso também, em outro lugar, diz um Salmo o quê? "Levantei os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro." Que é isto, pois? Está nos montes a tua esperança, e de lá te há de vir o socorro? Detiveste-te nos montes? Atenta ao que fazes. Há algo acima dos montes: acima dos montes está Aquele diante de quem os montes tremem. "Levantei", diz ele, "os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro." Mas que se segue? "O meu socorro", diz ele, "vem do Senhor, que fez o céu e a terra." Levantei, sim, os olhos para os montes, porque através dos montes se me manifestaram as Escrituras: mas tenho o meu coração posto Naquele que ilumina todos os montes. ...
6. "Turbaram-se todos os insensatos de coração" (v. 5). ...Como se turbaram? Quando se prega o Evangelho. E que é a vida eterna? E quem é Aquele que ressuscitou dos mortos? Os atenienses se maravilharam quando o Apóstolo Paulo falou da ressurreição dos mortos, e pensaram que ele dizia meras fábulas. Mas porque ele disse que havia outra vida que olho nenhum viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem, por isso se turbaram os insensatos de coração. Mas que lhes sucedeu? "Dormiram o seu sono, e todos os homens ricos nada acharam em suas mãos." Amaram as coisas presentes, e adormeceram no meio das coisas presentes: e assim estas mesmas coisas presentes se lhes tornaram deleitosas; assim como aquele que em sonho se vê haver achado um tesouro é rico enquanto não desperta. O sonho o fez rico, o despertar o fez pobre. O sono talvez o tenha retido a dormitar sobre a terra, e deitado no chão duro, pobre e porventura mendigo; em sonho viu-se deitado num leito de marfim ou de ouro, e sobre plumas amontoadas; enquanto dorme, dorme bem; ao despertar, achou-se sobre o chão duro, onde o sono o havia tomado. Tais são também estes: vieram a esta vida, e por meio dos desejos temporais, aqui como que adormeceram; e a eles as riquezas, e as pompas vãs que voam, os tomaram, e passaram: não entenderam quanto bem poderiam ter feito com elas. Pois se tivessem conhecido outra vida, ali teriam entesourado para si o tesouro que aqui estava destinado a perecer: assim como Zaqueu, o chefe dos publicanos, viu aquele bem quando recebeu o Senhor Jesus em sua casa, e diz: "A metade dos meus bens dou aos pobres, e se em alguma coisa defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo." Este homem não estava na vacuidade dos que sonham, mas na fé dos que velam. ...
7. "Pela Tua repreensão, ó Deus de Jacó, adormeceram todos os que cavalgaram" (v. 6). Quem são os que cavalgaram? Os que não quiseram ser humildes. Cavalgar não é pecado; mas é pecado erguer o pescoço do poder contra Deus, e julgar-se a si mesmo alguma distinção. Porque és rico, cavalgaste; Deus repreende, e tu dormes. Grande é a ira Daquele que repreende, grande é a ira. Repare a vossa Caridade nesta coisa terrível. A repreensão tem ruído, o ruído costuma despertar os homens. Tão grande é a força de Deus quando repreende, que disse: "Pela Tua repreensão, ó Deus de Jacó, adormeceram todos os que cavalgaram." Vede que sono dormiu aquele Faraó que cavalgou. Pois não estava desperto de coração, porque contra a repreensão tinha o coração endurecido. Porque a dureza de coração é sono. Pergunto-vos, irmãos meus, como dormem aqueles que, ressoando o Evangelho, e o Amém, e o Aleluia, por todo o mundo, contudo não querem condenar sua velha vida, nem despertar para uma vida nova. Houve a Escritura de Deus somente na Judeia; agora, por todo o mundo se canta. Naquela única nação se falava de um só Deus que fez todas as coisas, como digno de adoração e culto; agora, onde não é Ele proclamado? Cristo ressuscitou, ainda que escarnecido na Cruz; aquela mesma Cruz em que foi escarnecido, agora a imprimiu nas frontes dos reis: e os homens ainda dormem. ...
8. "Tu és terrível, e quem Te resistirá naquele tempo, por causa da Tua ira?" (v. 7). Agora dormem, e não Te percebem irado; mas foi para que dormissem que Ele Se irou. Agora, aquilo que dormindo não perceberam, no fim o hão de perceber. Pois há de aparecer o Juiz de vivos e mortos. "E quem Te resistirá naquele tempo, por causa da Tua ira?" Pois agora dizem o que querem, e disputam contra Deus, e dizem: quem são os cristãos? ou quem é Cristo? ou que loucos são os que creem no que não veem, e abandonam os prazeres que veem, e seguem a fé de coisas que não se mostram aos seus olhos! Dormis e roncais, falais contra Deus quanto podeis. "Até quando, ó Senhor, até quando hão de gloriar-se os pecadores, hão de responder e falar iniquidade?" Mas quando é que ninguém responde e ninguém fala, senão quando se volta contra si mesmo? ...
9. "Desde o céu Tu fulminaste o juízo: a terra tremeu, e se aquietou" (v. 8). Ela, que agora se perturba a si mesma, ela, que agora fala, há de temer no fim e há de repousar. Melhor lhe fora repousar agora, para que no fim se alegrasse. Repousou? Quando? "Quando Deus Se ergueu para o juízo, para salvar todos os mansos de coração" (v. 9). Quem são os mansos de coração? Os que não cavalgaram em cavalos bufantes, mas na sua humildade confessaram os seus próprios pecados. "Porque o pensamento do homem Te confessará, e os restos do pensamento Te celebrarão solenidades" (v. 10). O primeiro é o pensamento, os últimos são os restos do pensamento. Que é o primeiro pensamento? Aquele de onde começamos, aquele bom pensamento donde começarás a confessar. A confissão une-nos a Cristo. Mas agora a própria confissão, isto é, o primeiro pensamento, produz em nós os restos do pensamento: e esses mesmos "restos do pensamento Te celebrarão solenidades." Que é o pensamento que há de confessar? Aquele que condena a vida anterior, aquele ao qual desagrada o que era, a fim de que seja o que não era; este mesmo é o primeiro pensamento. Mas porque assim deves apartar-te dos pecados, com o primeiro pensamento, depois de teres confessado a Deus, para que não escape à tua memória que foste pecador; nisto que foste pecador, celebras solenidades a Deus. Além disso, há de entender-se o seguinte. O primeiro pensamento contém a confissão, e o apartamento da vida antiga. Mas se te tiveres esquecido de que pecados foste livre, não rendes graças ao Libertador, nem celebras solenidades ao teu Deus. Vede o primeiro pensamento confessante de Saulo, o Apóstolo, agora Paulo, que ao princípio era Saulo, quando ouviu uma voz do céu! ...Ele proferiu o primeiro pensamento de obediência: quando ouviu, "Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues", "Senhor", diz ele, "que queres que eu faça?" Este é um pensamento que confessa: agora ele invoca o Senhor, a quem perseguia. De que maneira os restos do pensamento hão de celebrar solenidades, no caso de Paulo já o ouvistes, quando se lia o próprio Apóstolo: "Lembra-te de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, da descendência de Davi, segundo o meu Evangelho." Que é, lembra-te? Ainda que se apague da tua memória o pensamento com que ao princípio confessaste, fique na memória o resto do pensamento. ...
10. Uma só vez foi Cristo sacrificado por nós, quando cremos; então houve o pensamento; mas agora há os restos do pensamento, quando nos lembramos de Quem veio a nós, e o que nos perdoou; por meio desses mesmos restos do pensamento, isto é, por meio da própria memória, Ele é diariamente assim sacrificado por nós, como se diariamente nos renovasse, Ele que nos renovou pela Sua primeira graça. Pois agora o Senhor nos renovou no Batismo, e nos tornamos homens novos, alegrando-nos na esperança, para que na tribulação sejamos, contudo, pacientes; não deve escapar da nossa memória o que nos foi outorgado. E se agora o teu pensamento não é o que era — pois o primeiro pensamento era apartar-se do pecado; mas agora não te apartas, ainda que naquele tempo te apartaste —, que haja restos do pensamento, para que não escape da memória Aquele que te sarou. ...
11. "Fazei votos, e pagai-os ao Senhor nosso Deus" (v. 11). Faça cada um o voto que puder, e o pague. Não votes e não pagues: mas vote cada um, e pague o que puder. Não sejais tardios em votar: pois haveis de cumprir os votos não por forças vossas. Haveis de faltar, se em vós mesmos confiardes: mas se Naquele a quem votais confiardes, haveis de pagar com segurança. "Fazei votos, e pagai ao Senhor nosso Deus." Que devemos todos, em comum, votar? Crer Nele, esperar Dele a vida eterna, viver piedosamente segundo uma medida comum a todos. Pois há uma certa medida comum a todos os homens. Não cometer furto não é coisa imposta apenas ao que se dedica à continência, e não imposta à mulher casada: não cometer adultério é imposto a todos os homens; não amar a embriaguez, pela qual a alma é tragada, e corrompe em si mesma o templo de Deus, é imposto a todos igualmente; não ser soberbo, é imposto a todos os homens igualmente; não matar o homem, não odiar o irmão, não tramar a destruição de ninguém, é imposto a todos em comum. Tudo isto devemos todos votar. Há também votos próprios de cada um: um vota a Deus a castidade conjugal, que não conhecerá outra mulher além da sua esposa: assim também a mulher, que não conhecerá outro homem além do seu marido. Outros votam também, ainda que tenham usado de tal matrimônio, que além disto não terão tal coisa, que nem a desejarão nem a admitirão: e estes votaram um voto maior que o primeiro. Outros votam mesmo a virgindade desde o princípio da vida, que nem sequer conhecerão tal coisa como aqueles que, tendo experimentado, a deixaram: e estes votaram o maior voto. Outros votam que a sua casa seja lugar de hospedagem para todos os santos que vierem: grande voto votam. Outro vota deixar todos os seus bens para serem distribuídos aos pobres, e ingressar numa comunidade, numa sociedade dos santos: grande voto vota. "Fazei votos, e pagai ao Senhor nosso Deus." Vote cada um o que houver querido votar; atente para isto, que pague o que votou. Se algum homem olhar para trás quanto ao que votou a Deus, é mal. Alguma mulher dedicada à continência quis casar-se: que quis ela? O mesmo que qualquer virgem. Que quis ela? O mesmo que sua própria mãe. Quis ela algum mal? Mal, certamente. Por quê? Porque já havia votado ao Senhor seu Deus. Pois que disse o apóstolo Paulo acerca de tais mulheres? Ainda que diga que as viúvas jovens podem casar-se se quiserem, contudo diz em certa passagem: "mas mais bem-aventurada será, se assim permanecer, segundo o meu juízo." Mostra que ela é mais bem-aventurada, se assim permanecer; mas, contudo, que não é condenada, se quiser casar-se. Mas que diz ele acerca de algumas que votaram e não pagaram? "Tendo", diz ele, "condenação, porque anularam a primeira fé." Que é, "anularam a primeira fé"? Votaram, e não pagaram. Não diga, pois, nenhum irmão, colocado num mosteiro: hei de sair do mosteiro; pois não são somente os que estão num mosteiro que hão de alcançar o Reino dos céus, nem os que ali não estão deixam de pertencer a Deus. Respondemos-lhe: mas eles não votaram; tu votaste, tu olhaste para trás. Quando o Senhor os ameaçava com o dia do juízo, que disse Ele? "Lembrai-vos da mulher de Ló." A todos os homens Ele falou. Pois que fez a mulher de Ló? Foi libertada de Sodoma, e, estando a caminho, olhou para trás. No lugar onde olhou para trás, ali permaneceu. Pois tornou-se estátua de sal, para que, considerando-a, os homens fossem temperados, tivessem juízo, não se infatuassem, não olhassem para trás, para que, dando mau exemplo, não permanecessem eles mesmos e temperassem a outros. Pois ainda agora dizemos isto a alguns de nossos irmãos, a quem porventura tenhamos visto como que fracos no bem que se propuseram. E hás de ser tu tal como foi ela? Pomos diante deles alguns que olharam para trás. São insossos em si mesmos, mas temperam a outros, na medida em que são mencionados, para que, temendo o exemplo deles, não olhem para trás. "Fazei votos, e pagai." Pois aquela mulher de Ló a todos pertence. Uma mulher casada teve a vontade de cometer adultério; do lugar aonde havia chegado, olhou para trás. Uma viúva que havia votado assim permanecer quis casar-se; quis a coisa que era lícita a quem se casasse, mas a ela não era lícita, porque do seu lugar olhou para trás. Há uma virgem dedicada à continência, já consagrada a Deus; tenha ela também os outros dons que verdadeiramente adornam a própria virgindade, e sem os quais essa virgindade é imunda. Pois que, se ela for incorrupta no corpo e corrupta na mente? Que é o que ele disse? Que, se ninguém tocou o corpo, mas se porventura ela for dada à embriaguez, for soberba, for contenciosa, for tagarela? Todas estas coisas Deus condena. Se, antes de haver votado, ela se tivesse casado, não seria condenada: escolheu algo melhor, venceu o que lhe era lícito; é soberba, e comete tantas coisas ilícitas. Isto digo: é lícito a ela casar-se antes de votar; ser soberba nunca é lícito. Ó tu, virgem de Deus, quiseste não casar, o que é lícito: exaltas-te a ti mesma, o que não é lícito. Melhor é uma virgem humilde, que uma casada humilde: mas melhor é uma casada humilde, que uma virgem soberba. Mas aquela que olhou para trás em direção ao casamento é condenada, não porque quis casar-se; mas porque já havia ido adiante, e se tornou a mulher de Ló ao olhar para trás. Não sejais tardios, vós que podeis, a quem Deus inspira a lançar mão de mais altos chamados: pois não dizemos estas coisas para que não voteis, mas para que voteis e pagueis. Ora, porque temos tratado destas ma[truncado]
13. A quem hão de oferecer dons? "Ao Terrível, e Àquele que tira o espírito dos príncipes" (v. 12). Pois os espíritos dos príncipes são espíritos soberbos. Não são, pois, os Espíritos Dele; pois, se sabem alguma coisa, querem que seja sua, não pública; mas Aquele que Se propõe igual para com todos os homens, que Se põe no meio, a fim de que todos os homens tomem quanto puderem, o que quer que possam; não do que é de algum homem, mas do que é de Deus, e portanto do que é seu próprio, porque se tornaram Dele. Por isso, é necessário que sejam humildes: perderam o seu próprio espírito, e têm o Espírito de Deus. ...Pois, se te tiveres confessado pó, Deus do pó faz o homem. Todos os que estão em torno Dele oferecem dons. Todos os homens humildes O confessam, e O adoram. "Ao Terrível oferecem dons." Donde, ao Terrível exultai com tremor: "e Àquele que tira o espírito dos príncipes:" isto é, que tira a altivez dos soberbos. "Ao Terrível entre os reis da terra." Terríveis são os reis da terra, mas Ele está acima de todos, Ele que aterroriza os reis da terra. Sê tu rei da terra, e Deus te será terrível. Como, dirás tu, serei eu rei da terra? Governa a terra, e serás rei da terra. Não ponhas, pois, diante dos teus olhos, por desejo de império, províncias demasiado vastas, onde possas dilatar os teus reinos; governa a terra que carregas. Ouve o Apóstolo governando a terra: "Não combato eu assim como quem fere o ar, mas castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando eu a outros, não venha eu mesmo a tornar-me reprovado." ...
Assim está inscrito o frontispício deste Salmo: "Até o fim, para Iditun, um Salmo do próprio Asafe." O que seja "Até o fim", já o sabeis. Iditun interpreta-se "aquele que salta por cima destes homens"; Asafe interpreta-se "uma congregação". Fala aqui, pois, uma congregação que salta por cima, a fim de alcançar o Fim, que é Cristo Jesus. ...
"Com minha voz", diz ele, "clamei ao Senhor" (v. 1). Mas muitos homens clamam ao Senhor por causa de obter riquezas e evitar prejuízos, pela segurança de seus amigos, pela segurança de sua casa, pela felicidade temporal, pela dignidade secular, e por fim, até mesmo pela mera saúde do corpo, que é a herança do pobre. Por tais e semelhantes coisas muitos homens clamam ao Senhor; quase nenhum pelo próprio Senhor. Pois coisa fácil é ao homem desejar algo do Senhor, e não desejar o próprio Senhor; como se, por certo, aquilo que Ele dá pudesse ser mais doce do que Aquele que dá. Todo aquele, pois, que clama ao Senhor por causa de qualquer outra coisa, ainda não é daqueles que saltam por cima. ...Ele de fato te ouve quando buscas a Ele mesmo, não quando através dEle buscas qualquer outra coisa. Foi dito de alguns homens: "Clamaram, e não houve quem os salvasse; ao Senhor, e Ele não os ouviu." E por quê? Porque a voz deles não era dirigida ao Senhor. Isto a Escritura expressa em outro lugar, onde diz de tais homens: "Ao Senhor não invocaram." A Ele não cessaram de clamar, e contudo ao Senhor não invocaram. Que quer dizer, "ao Senhor não invocaram"? Não invocaram o Senhor para si mesmos; não convidaram o Senhor a seu coração; não quiseram ser habitados pelo Senhor. E, portanto, o que lhes sobreveio? "Tremeram de medo onde não havia medo." Tremeram pela perda das coisas presentes, pela razão de que não estavam cheios dAquele a quem não invocaram. Não amaram gratuitamente, de modo que, após a perda das coisas temporais, pudessem dizer: "Como aprouve ao Senhor, assim se fez; bendito seja o nome do Senhor." Diz, pois, este homem: "Minha voz é para o Senhor, e Ele me ouve." Mostre-nos ele como isto se dá.
"No dia da tribulação busquei a Deus" (v. 2). Quem és tu que fazes isto? No dia de tua tribulação, atenta ao que buscas. Se o cárcere é a causa da tribulação, buscas sair do cárcere; se a febre é a causa da tribulação, buscas a saúde; se a fome é a causa da tribulação, buscas a fartura; se as perdas são a causa da tribulação, buscas o ganho; se o exílio é a causa da tribulação, buscas o lar de tua carne. E por que hei de nomear todas as coisas, ou quando poderia nomear todas as coisas? Desejas ser um daqueles que saltam por cima? No dia de tua tribulação busca a Deus: não através de Deus alguma outra coisa, mas a partir da tribulação a Deus, para que, com este fim, Deus tire a tribulação, a fim de que tu, sem ansiedade, te apegues a Deus. "No dia de minha tribulação busquei a Deus": não outra coisa alguma, mas "a Deus busquei". E como buscaste? "Com minhas mãos, de noite, diante dEle." ...
4. Não se deve pensar que a tribulação seja esta ou aquela em particular. Pois todo indivíduo que ainda não salta por cima julga que ainda não há tribulação, salvo se for algo que tenha sobrevindo a esta vida por alguma ocasião triste; mas este homem, que salta por cima, considera toda esta vida como sua tribulação. Pois tanto ama ele a pátria celeste, que a peregrinação terrena é, por si mesma, a maior tribulação. Pois como pode esta vida ser outra coisa senão tribulação, pergunto-vos? Como pode não ser tribulação aquilo cujo todo se chamou tentação? Tens escrito no livro de Jó: acaso não é a vida humana uma tentação sobre a terra? Disse ele que a vida humana é tentada sobre a terra? Não; mas a própria vida é uma tentação. Se, portanto, é tentação, há de ser certamente tribulação. Nesta tribulação, pois, isto é, nesta vida, buscou a Deus este que salta por cima. Como? "Com minhas mãos", diz ele. Que quer dizer "com minhas mãos"? Com minhas obras. Pois não buscava ele coisa alguma corpórea, de modo que pudesse encontrar e tocar algo que houvesse perdido, de modo que buscasse com as mãos moeda, ouro, prata, vestimenta, enfim tudo o que pode ser tido nas mãos. Contudo, o próprio Senhor nosso Jesus Cristo quis ser buscado com as mãos, quando ao discípulo que duvidava mostrou as cicatrizes. ...Que dizer, pois? Não nos compete a nós buscar com as mãos? Compete-nos, como disse, buscar com as obras. Quando? "De noite." Que quer dizer "de noite"? Nesta era. Pois é noite até que raie o dia no advento glorificado de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, quereis ver como é noite? Se não tivéssemos aqui uma lanterna, teríamos permanecido em trevas. Pois diz Pedro: "Temos também mais firme a palavra profética, à qual fazeis bem em atentar, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva nasça em vossos corações." Há de vir, pois, o dia depois desta noite; entretanto, nesta noite não falta uma lanterna. E é talvez isto o que agora fazemos: explicando estas passagens, trazemos uma lanterna, para que nos alegremos nesta noite. A qual, na verdade, deveria estar sempre acesa em vossas casas. Pois a tais homens se diz: "Não apagueis o Espírito." E como que explicando o que dizia, prossegue e diz: "Não desprezeis as profecias": isto é, que a lanterna sempre brilhe em vós. E mesmo esta luz, em comparação com uma espécie de dia inefável, se chama noite. Pois a própria vida dos crentes, em comparação com a vida dos incrédulos, é dia. ...Noite e dia — dia em comparação com os incrédulos, noite em comparação com os Anjos. Pois os Anjos têm um dia que nós ainda não temos. Já temos um que os incrédulos não têm; mas ainda não têm os crentes o que têm os Anjos: mas o terão, quando forem iguais aos Anjos de Deus, o que lhes foi prometido na Ressurreição. Nisto, pois, que agora é dia e contudo noite; noite em comparação com o dia futuro que anelamos, dia em comparação com a noite passada que renunciamos: nesta noite, pois, digo eu, busquemos a Deus com nossas mãos. Não cessem as obras, busquemos a Deus, não haja anelo ocioso. Se estamos no caminho, gastemos nossos recursos a fim de que possamos alcançar o fim. Com as mãos busquemos a Deus. ..."Com minhas mãos, de noite, diante dEle, e não fui iludido."
5. ..."Minha alma recusou ser consolada" (v. 2). Tão grande fadiga aqui me possuía, que minha alma fechou a porta contra todo consolo. De onde tal fadiga a ele? Pode ser que sua vinha tenha sido apedrejada pelo granizo, ou sua oliveira não tenha dado fruto, ou a vindima tenha sido interrompida pela chuva. De onde a ele a fadiga? Ouve isto de outro Salmo. Pois nele está a voz do mesmo: "a fadiga me abateu, por causa dos pecadores que abandonam a tua lei." Diz ele, então, que foi tomado por tão grande fadiga por causa desta sorte de mal, de modo que sua alma recusou ser consolada. A fadiga quase o havia engolido, e a tristeza o havia submergido totalmente, sem remédio; recusa ele ser consolado. Que restava então? Primeiramente, vede de onde é consolado. Não havia ele esperado por alguém que se condoesse dele? ..."Lembrei-me de Deus, e me deleitei" (v. 3). Minhas mãos não haviam trabalhado em vão, haviam encontrado um grande consolador. Não estando ocioso, "lembrei-me de Deus, e me deleitei." Deve-se, pois, louvar a Deus, de quem este homem, lembrando-se, se deleitou, e foi consolado em caso doloroso, e reanimado quando a segurança estava de certo modo desesperada: deve-se, pois, louvar a Deus. Enfim, porque foi consolado, prossegue e diz: "balbuciei." Naquele mesmo consolo, tendo-me lembrado de Deus, deleitei-me, e "balbuciei." Que quer dizer, "balbuciei"? Alegrei-me, exultei ao falar. Pois propriamente se chamam balbucientes aqueles que pelo povo comum são chamados faladores, os quais, ao se aproximar a alegria, nem podem nem querem calar-se. Tal se tornou este homem. E de novo, que diz ele? "E meu espírito desfaleceu."
6. Com a fadiga ele havia definhado; ao lembrar-se de Deus, havia se deleitado; de novo, ao balbuciar, havia desfalecido: que se segue? "Todos os meus inimigos anteciparam as vigílias" (v. 4). Todos os meus inimigos vigiaram sobre mim; excederam em vigiar-me; em vigiar, se anteciparam a mim. Onde não armam eles ciladas? Não anteciparam os meus inimigos todas as vigílias? Pois quem são estes inimigos, senão aqueles de quem diz o Apóstolo: "Não tendes luta contra a carne e o sangue"? ...Contra o diabo e seus anjos travamos hostilidades. Chamou-os príncipes do mundo, porque eles mesmos dominam os amantes do mundo. Pois não dominam o mundo, como se fossem príncipes do céu e da terra: mas chama de mundo os pecadores. ...Com o diabo e seus anjos não há concórdia alguma. Eles mesmos nos invejam o reino dos Céus. De modo algum podem ser aplacados para conosco: porque "todos os meus inimigos anteciparam as vigílias." Vigiaram mais para enganar do que eu para guardar-me. Pois como poderiam ter feito de outro modo senão antecipar as vigílias, eles que puseram em toda parte escândalos, em toda parte ciladas? A fadiga invade o coração, havemos de temer que a tristeza nos engula: na alegria, temer que o espírito desfaleça ao balbuciar: "todos os meus inimigos anteciparam as vigílias." Enfim, no meio deste mesmo balbuciar, enquanto estás falando, e falando sem temor, quanto se acha muitas vezes que os inimigos apanhariam e censurariam, sobre o que fundariam mesmo acusação e calúnia — "assim disse ele, assim pensou ele, assim falou ele!" Que deveria fazer o homem, senão o que se segue? "Fui perturbado, e não falei." Portanto, quando foi perturbado, para que em seu balbuciar os inimigos, antecipando as vigílias, não buscassem e encontrassem calúnias, não falou. ...
7. "Pensei nos dias antigos" (v. 5). Agora ele, como quem tivesse sido expulso para fora, refugiou-se dentro: está conversando no lugar secreto de seu próprio coração. E que nos declare o que ali faz. Bem lhe vai. Observai, peço-vos, em que coisas está pensando. Está dentro, em sua própria casa está pensando nos dias antigos. Ninguém lhe diz, falaste mal; ninguém lhe diz, falaste demais; ninguém lhe diz, pensaste perversamente. Assim lhe vá bem, que Deus o ajude: pense ele nos dias antigos, e nos diga o que fez em sua câmara mais íntima, aonde chegou, sobre o que saltou, onde permaneceu. "Pensei nos dias antigos; e dos anos eternos me lembrei." Que são os anos eternos? É um pensamento poderoso. Vede se este pensamento requer algo além de um grande silêncio. Apartado de todo ruído exterior, de todo tumulto das coisas humanas, permaneça quieto por dentro aquele que quiser pensar nestes anos eternos. Serão eternos os anos em que estamos, ou aqueles em que estiveram nossos antepassados, ou aqueles em que há de estar nossa posteridade? Longe esteja que se estimem eternos. Pois que parte destes anos permanece? Eis que falamos e dizemos, "neste ano": e que temos deste ano, senão o único dia em que estamos? Pois os dias anteriores deste ano já se foram, e não se podem ter; mas os dias futuros ainda não chegaram. Em um dia estamos, e dizemos, neste ano: dize antes, hoje, se desejas falar de algo presente. Pois de todo o ano que tens tu de presente? Tudo o que dele é passado, já não é; tudo o que dele é futuro, ainda não é: como então, "este ano"? Corrige a expressão: dize, hoje. Dizes a verdade, doravante direi, "hoje." Observa também isto, como hoje as horas da manhã já passaram, as horas futuras ainda não vieram. Corrige, pois, isto também: dize, nesta hora. E desta hora, que tens tu? Alguns momentos dela já se foram, os que são futuros ainda não vieram. Dize, neste momento. Em que momento? Enquanto profiro sílabas, se hei de falar duas sílabas, a última não soa até que a primeira tenha passado: em uma palavra, nesta mesma sílaba, se por acaso tiver duas letras, a última letra não soa até que a primeira tenha passado. Que temos nós, pois, destes anos? Estes anos são mutáveis: hão de pensar-se os anos eternos, anos que permanecem, que não se compõem de dias que vêm e vão; anos dos quais em outro lugar a Escritura diz a Deus: "Mas Tu és o Mesmo, e teus anos não hão de faltar." Nestes anos pensou este homem que salta por cima, não em balbuciar de fora, mas em silêncio.
8. "E meditei de noite com meu coração" (v. 6). Nenhum caluniador busca ciladas em suas palavras, em seu coração meditou. "Balbuciei." Eis o antigo balbuciar. Vigia de novo, para que teu espírito não desfaleça. Não, diz ele, não balbuciei de tal modo como se fosse ao ar livre: de outro modo agora. Como agora? "Balbuciei, e perscrutei meu espírito." Se estivesse ele escavando a terra para encontrar veios de ouro, ninguém diria que era insensato; antes, muitos o chamariam sábio, por desejar chegar ao ouro: quão grandes tesouros tem o homem dentro de si, e não os escava! Estava este homem examinando seu espírito, e falando com este mesmo seu espírito, e no próprio falar balbuciava. Interrogava-se a si mesmo, examinava-se a si mesmo, era juiz sobre si mesmo. E prossegue: "perscrutei meu espírito." Havia de temer que permanecesse dentro de seu próprio espírito: pois havia balbuciado fora; e porque todos os seus inimigos haviam antecipado as vigílias, encontrou ali tristeza, e seu espírito desfaleceu. Aquele que balbuciava fora, eis que agora começa a balbuciar dentro em segurança, onde, estando só em segredo, pensa nos anos eternos. ...
9. E encontraste o quê? "Deus não repelirá para sempre" (v. 7). A fadiga ele havia encontrado nesta vida; em nenhum lugar um consolo confiável, em nenhum lugar um consolo destemido. A quaisquer homens que recorresse, neles encontrava escândalo, ou o temia. Em nenhum lugar, pois, estava livre de cuidado. Coisa má era para ele calar-se, para que porventura não se calasse de boas palavras; falar e balbuciar fora era-lhe penoso, para que todos os seus inimigos, antecipando as vigílias, não buscassem calúnias em suas palavras. Estando sobremaneira angustiado nesta vida, pensou muito em outra vida, onde não há esta provação. E quando há de chegar até lá? Pois não pode deixar de ser evidente que nosso sofrimento aqui é a ira de Deus. Isto é dito em Isaías: "Não serei para vós vingador para sempre, nem me irarei convosco em todo tempo." ...Há de permanecer sempre esta ira de Deus? Este homem não encontrou isto em silêncio. Pois que diz ele? "Deus não repelirá para sempre, e não acrescentará mais que Lhe seja ainda agradável repelir." Isto é, que Lhe seja ainda agradável repelir, e não acrescentará o repelir para sempre. Necessário Lhe é recolher a Si os seus servos, necessário Lhe é receber os fugitivos que regressam ao Senhor, necessário Lhe é ouvir a voz dos que estão em grilhões. "Ou cortará para sempre a misericórdia de geração em geração?" (v. 8).
10. "Ou esquecerá Deus de ter misericórdia?" (v. 9). Em ti, de ti para outro não há misericórdia, a menos que Deus a conceda a ti: e esquecerá o próprio Deus da misericórdia? O regato corre: secar-se-á a própria fonte? "Ou esquecerá Deus de ter misericórdia, ou reterá, na ira, as Suas misericórdias?" Isto é, estará Ele de tal modo irado que não terá misericórdia? Mais facilmente reterá Ele a ira do que a misericórdia.
11. "E disse eu." Agora, saltando para além de si mesmo, que disse ele? "Agora comecei" (v. 10), quando saí até de mim mesmo. Aqui, doravante, já não há perigo; pois até permanecer em mim mesmo era perigo. "E disse eu: Agora comecei: esta é a mudança da destra do Altíssimo." Agora o Altíssimo começou a mudar-me: agora comecei algo em que estou seguro: agora entrei em certo palácio de alegrias, onde nenhum inimigo há que temer: agora comecei a estar naquela região onde todos os meus inimigos não antecipam as vigílias. "Agora comecei: esta é a mudança da destra do Altíssimo."
12. "Lembrei-me das obras do Senhor" (v. 11). Eis agora que ele perambula entre as obras do Senhor. Pois balbuciava por fora, e, entristecido por isso, o seu espírito desfalecia: balbuciou por dentro com o seu próprio coração, e com o seu espírito, e, tendo perscrutado esse mesmo espírito, lembrou-se dos anos eternos, lembrou-se da misericórdia do Senhor, de como Deus não o repelirá para sempre; e começou então, sem temor, a alegrar-se nas Suas obras, sem temor a exultar nelas. Ouçamos agora essas mesmas obras, e exultemos também nós. Mas saltemos também nós, quanto aos nossos afetos, e não nos alegremos nas coisas temporais. Pois também nós temos o nosso leito. Por que não entramos nele? Por que não permanecemos em silêncio? Por que não perscrutamos o nosso espírito? Por que não pensamos nos anos eternos? Por que não nos alegramos nas obras de Deus? Ouçamos agora deste modo, e deleitemo-nos n'Ele mesmo que fala, a fim de que, quando dali tivermos partido, façamos aquilo que costumávamos fazer enquanto Ele falava; contanto que estejamos fazendo o começo d'Aquele de quem ele falou em: "Agora comecei." Alegrar-se nas obras de Deus é esquecer até a si mesmo, se puderes deleitar-te n'Ele somente. Pois que coisa há melhor do que Ele? Não vês que, ao retornares a ti mesmo, retornas a algo pior? "Pois eu me lembrarei, desde o princípio, das Vossas obras maravilhosas."
13. "E meditarei em todas as Vossas obras, e nos Vossos afetos balbuciarei" (v. 12). Eis o terceiro balbuciar! Balbuciou por fora, quando insinuava; balbuciou no seu espírito, por dentro, quando avançava; balbuciou sobre as obras de Deus, quando chegou ao lugar para o qual avançava. "E nos Vossos afetos": não em quaisquer afetos. Que homem vive sem afetos? E pensais vós, irmãos, que os que temem a Deus, adoram a Deus, amam a Deus, não têm afeto algum? Ousarás na verdade supor que a pintura, o teatro, a caça, a falcoaria, a pesca ocupam os afetos, e que a meditação em Deus não ocupa certos afetos interiores que lhe são próprios, quando contemplamos o universo, e pomos diante dos nossos olhos o espetáculo do mundo natural, e nisso nos esforçamos por descobrir o Criador, e o achamos em nenhuma parte desagradável, mas agradável sobre todas as coisas?
14. "Ó Deus, o Vosso caminho está no Santo" (v. 13). Ele contempla agora as obras da misericórdia de Deus ao nosso redor, delas balbucia, e nesses afetos exulta. Primeiramente, ele começa dali: "O Vosso caminho está no Santo"? Qual é esse Vosso caminho que está no Santo? "Eu sou", diz Ele, "o Caminho, a Verdade e a Vida." Convertei-vos, pois, ó homens, dos vossos afetos... "Quem é grande Deus como o nosso Deus?" Os gentios têm os seus afetos para com os seus deuses, adoram ídolos, têm olhos e não veem; têm ouvidos e não ouvem; têm pés e não andam. Por que andas tu atrás de um deus que não anda? Não adoro tais coisas, diz ele, e que adoras tu, então? A divindade que ali está. Adoras, pois, aquilo de que se disse noutro lugar: "porque os deuses das nações são demônios." Ou adoras ídolos, ou demônios. Nem ídolos, nem demônios, diz ele. E que adoras tu, então? Os astros, o sol, a lua, essas coisas celestiais. Quanto melhor é Aquele que fez tanto as coisas terrenas quanto as celestiais! "Quem é grande Deus como o nosso Deus?"
15. "Vós sois o Deus que fazeis maravilhas, Vós só" (v. 14). Vós sois, de fato, grande Deus, que fazeis maravilhas no corpo, na alma; Vós só as fazeis. Os surdos ouviram, os cegos viram, os enfermos se restabeleceram, os mortos ressuscitaram, os paralíticos se fortaleceram. Mas esses milagres foram, naquele tempo, operados nos corpos; vejamos os que se operam na alma. Sóbrios são os que pouco antes eram ébrios, crentes são os que pouco antes eram adoradores de ídolos: dão os seus bens aos pobres os que antes roubavam os bens alheios. ... "Maravilhas, Vós só." Também Moisés as fez, mas não sozinho; também Elias as fez, também Eliseu as fez, também os Apóstolos as fizeram, mas nenhum deles sozinho. Para que tivessem poder de as fazer, Vós estáveis com eles: quando Vós as fizestes, eles não estavam convosco. Pois não estavam convosco quando Vós as fizestes, visto que Vós fizestes até esses mesmos homens. Como "Vós só"? Será porventura o Pai, e não o Filho? Ou o Filho, e não o Pai? Não, mas o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo. Pois não são três Deuses, mas um só Deus que faz maravilhas, Ele só, e até mesmo neste que aqui salta. Pois também o seu saltar e chegar a essas coisas foi um milagre de Deus: quando balbuciava por dentro com o seu próprio espírito, a fim de saltar até para além desse mesmo espírito seu, e pudesse deleitar-se nas obras de Deus, ele então fez, por si mesmo, coisas maravilhosas. Mas que fez Deus? "Fizestes conhecido ao povo o Vosso poder." Daí este saltar da congregação de Asafe; porque Ele fez conhecida, entre os povos, a Sua virtude. Que virtude Sua fez Ele conhecida entre os povos? "Mas nós pregamos a Cristo crucificado, ... Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus." Se, pois, a virtude de Deus é Cristo, Ele fez conhecido a Cristo entre os povos. Não percebemos ainda nem sequer isto? E somos tão insensatos, jazemos tão profundamente embaixo, tão em nada saltamos, que não vemos isto?
16. "Redimistes com o Vosso braço o Vosso povo" (v. 15). "Com o Vosso braço", isto é, com o Vosso poder. "E a quem foi revelado o braço do Senhor?" "Redimistes com o Vosso braço o Vosso povo, os filhos de Israel e de José." Como assim, dois povos, "os filhos de Israel e de José"? Não estão os filhos de José entre os filhos de Israel? ...Ele nos admoestou de que se deve fazer alguma distinção. Perscrutemos o nosso espírito; talvez Deus tenha ali colocado algo — Deus a quem devemos buscar até de noite, com as nossas próprias mãos, para que não sejamos enganados — talvez descubramos a nós mesmos nesta distinção dos "filhos de Israel e de José". Por José quis Ele que se entendesse outro povo, quis que se entendesse o povo dos gentios. Por que o povo dos gentios por José? Porque José foi vendido no Egito por seus irmãos. Aquele José, a quem os irmãos invejaram e venderam no Egito, sendo vendido no Egito, trabalhou, foi humilhado; quando reconhecido e exaltado, floresceu, reinou. E por todas essas coisas, que significou ele? Que outra coisa senão Cristo, vendido por Seus irmãos, banido da Sua própria terra, como que para o Egito dos gentios? Ali, a princípio, humilhado, quando os Mártires sofriam perseguições; agora exaltado, como vemos; visto que se cumpriu n'Ele: "Todas as famílias da terra O adorarão, todas as nações O servirão." Portanto José é o povo dos gentios, mas Israel, o povo da nação hebreia. Deus redimiu o Seu povo, "os filhos de Israel e de José." Por meio de quê? Por meio da pedra angular, na qual os dois muros foram unidos.
17. E como continua ele? "As águas Vos viram, ó Deus, e temeram, e os abismos se turbaram" (v. 16). Que são as águas? Os povos. O que sejam essas águas foi perguntado no Apocalipse, e a resposta foi: os povos. Ali encontramos, mui claramente, as águas postas, por figura, pelos povos. Mas acima ele havia dito: "Fizestes conhecida, entre os povos, a Vossa virtude." Com razão, portanto: "as águas Vos viram, e temeram." Foram mudadas porque temeram. Que são os abismos? As profundezas das águas. Que homem, entre os povos, não se turba quando a consciência é ferida? Buscas tu a profundeza do mar? Que há mais profundo do que a consciência humana? Essa é a profundeza que se turbou quando Deus redimiu, com o Seu braço, o Seu povo. De que modo se turbaram os abismos? Quando todos os homens derramaram as suas consciências em confissão.
18. Nos louvores de Deus, nas confissões dos pecados, nos hinos e nos cânticos, nas orações: "Há uma multidão do som das águas. As nuvens fizeram ouvir sua voz" (v. 17). Daí aquele som das águas, daí a perturbação dos abismos, porque "as nuvens fizeram ouvir sua voz". Que nuvens? Os pregadores da palavra da verdade. Que nuvens? Aquelas acerca das quais Deus ameaça certa vinha, a qual, em vez de uva, produzira espinhos, e Ele diz: "Ordenarei às Minhas nuvens que não derramem chuva sobre ela." Em suma, os Apóstolos, abandonando os judeus, foram aos gentios: pregando a Cristo entre todas as nações, "as nuvens fizeram ouvir sua voz". "Porque as Tuas flechas atravessaram." Essas mesmas vozes das nuvens Ele chamou de novo de flechas. Pois as palavras dos Evangelistas foram flechas. Porque estas são alegorias. Pois, propriamente, nem a flecha é chuva, nem a chuva é flecha: mas, ainda assim, a palavra de Deus é ao mesmo tempo flecha, porque fere; e chuva, porque rega. Que ninguém, pois, mais se admire da perturbação dos abismos, quando "as Tuas flechas atravessaram". Que significa "atravessaram"? Não se detiveram nos ouvidos, mas traspassaram o coração. "A voz do Teu trovão está na roda" (v. 18). Que é isto? Como devemos entendê-lo? Que o Senhor nos ajude. Quando meninos, costumávamos imaginar, sempre que ouvíamos trovões do Céu, que carros saíam como que de estábulos. Pois o trovão produz uma espécie de rolar semelhante ao dos carros. Devemos voltar a esses pensamentos pueris para entender que "a voz do Teu trovão está na roda", como se Deus tivesse certos carros nas nuvens, e a passagem desses carros produzisse aquele som? Longe disso. Isto é pueril, vão, frívolo. Que é, então, "a voz do Teu trovão está na roda"? A Tua voz rola. Nem mesmo isto entendo. Que faremos? Interroguemos o próprio Jedutum, para ver se, porventura, ele mesmo explica o que disse: "A voz", diz ele, "do Teu trovão está na roda." Não entendo. Ouvirei o que dizes: "Os Teus relâmpagos apareceram ao orbe da terra." Dize, pois, eu não tinha entendimento. O orbe da terra é uma roda. Pois o circuito do orbe da terra, com razão, é também chamado "orbe": donde também uma pequena roda se chama "orbículo". "A voz do Teu trovão está na roda": os Teus "relâmpagos apareceram ao orbe da terra". Aquelas nuvens, em roda, percorreram o orbe da terra, percorreram-no com trovões e com relâmpagos, abalaram o abismo, trovejaram com os mandamentos, relampejaram com os milagres. "Por toda a terra saiu o som deles, e até os confins do orbe as suas palavras." "A terra foi movida e fez-se estremecer": isto é, todos os homens que habitam a terra. Mas, por figura, a própria terra é mar. Por quê? Porque todas as nações são chamadas pelo nome de mar, na medida em que a vida humana é amarga e está exposta a tempestades e temporais. Além disso, se observares isto — como os homens se devoram uns aos outros como peixes, como o mais forte devora o mais fraco —, é então um mar, ao qual foram os Evangelistas.
19. "Teu caminho está no mar" (v. 19). Mas ora, o Teu caminho estava no Santo; agora "Teu caminho está no mar": porque o próprio Santo está no mar, e com razão até andou sobre as águas do mar. "Teu caminho está no mar", isto é, o Teu Cristo é pregado entre os gentios. ... "Teu caminho está no mar, e as Tuas veredas em muitas águas", isto é, em muitos povos. "E as Tuas pegadas não serão conhecidas." Ele tocou a alguns, e seria de admirar se não fossem esses mesmos judeus. Eis que agora a misericórdia de Cristo foi de tal modo publicada aos gentios, que "Teu caminho está no mar. As Tuas pegadas não serão conhecidas." Como assim, por quem não serão conhecidas, senão por aqueles que ainda dizem que Cristo ainda não veio? Por que dizem eles que Cristo ainda não veio? Porque ainda não O reconhecem andando sobre o mar.
20. "Guiaste o Teu povo como ovelhas, pela mão de Moisés e de Arão" (v. 20). Por que Ele acrescentou isto é algo difícil de descobrir. ... Baniram a Cristo, enfermos como estavam, não O quiseram para seu Salvador; mas Ele começou a estar entre os gentios, e entre todas as nações, entre muitos povos. Todavia, um resto daquele povo foi salvo. A multidão ingrata permaneceu de fora, até mesmo a largura manca da coxa de Jacó. Pois a largura da coxa é entendida como a multidão da linhagem, e entre a maior parte dos israelitas certa multidão tornou-se vã e insensata, a ponto de não conhecer os passos de Cristo sobre as águas. "Guiaste o Teu povo como ovelhas", e não Te conheceram. Ainda que Tu lhes tenhas feito tão grandes benefícios, dividido o mar, feito-os passar em seco por entre as águas, afogado nas ondas os inimigos perseguidores, no deserto feito chover o maná para a sua fome, guiando-os "pela mão de Moisés e de Arão": ainda assim Te repeliram de si, de modo que no mar esteve o Teu caminho, e as Tuas pegadas não conheceram.
2. "Ouvi", diz Ele, "povo Meu, a Minha lei" (v. 1). Quem podemos supor que aqui fala, senão Deus? Pois foi Ele mesmo que deu uma lei ao Seu povo, o qual, quando o libertou do Egito, congregou; e essa congregação é propriamente chamada Sinagoga, o que a palavra Asafe é interpretada como significando. Foi dito então "Entendimento de Asafe" no sentido de que o próprio Asafe entendeu; ou deve-se entender figuradamente, no sentido de que a própria Sinagoga, isto é, o próprio povo, entendeu, a quem se diz: "Ouve, povo Meu, a Minha lei"? Por que é, então, que Ele está repreendendo esse mesmo povo pela boca do Profeta, dizendo: "Mas Israel não Me conheceu, e o Meu povo não entendeu"? Mas, de fato, havia mesmo naquele povo os que entendiam, tendo a fé que depois seria revelada, não pertencente à letra da lei, mas à graça do Espírito. Pois não podem ter estado sem essa mesma fé os que foram capazes de prever e predizer a revelação dela que haveria de ser em Cristo, na medida em que também aqueles antigos Sacramentos eram significantes dos que haveriam de ser. Tinham somente os profetas essa fé, e não também o povo? Não, antes, também aqueles que fielmente ouviam os Profetas eram ajudados pela mesma graça, a fim de que pudessem entender o que ouviam. Mas, sem dúvida, o mistério do Reino dos Céus estava velado no Antigo Testamento, o qual, na plenitude dos tempos, seria desvelado no Novo. "Pois", diz o Apóstolo, "bebiam da Rocha espiritual que os seguia, e a Rocha era Cristo." Em mistério, portanto, era deles o mesmo alimento e bebida que o nosso, mas na significação a mesma, não na forma; porque o mesmo Cristo lhes foi figurado numa Rocha, manifestado a nós na Carne. "Mas", diz ele, "Deus não Se agradou da maior parte deles." Todos, na verdade, comeram o mesmo alimento espiritual e beberam a mesma bebida espiritual, isto é, significando algo espiritual; mas Deus não Se agradou de todos eles. Quando ele diz "não de todos": havia ali evidentemente alguns de quem Deus Se agradava; e, embora todos os Sacramentos fossem comuns, a graça, que é a virtude dos Sacramentos, não era comum a todos. Assim como em nossos tempos, agora que a fé foi revelada, a qual então estava velada, a todos os homens que foram batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo é comum o Lavacro da regeneração; mas a própria graça, da qual esses mesmos são Sacramentos, pela qual os membros do Corpo de Cristo hão de reinar juntamente com a sua Cabeça, não é comum a todos. Pois até os hereges têm o mesmo Batismo, e também os falsos irmãos, na comunhão do nome católico.
3. Contudo, nem então nem agora é sem proveito a voz daquele que diz: "Ouvi, povo Meu, a Minha lei." Expressão notável em toda a Escritura, como ele não diz "ouve tu", mas "ouvi vós". Pois de muitos homens consiste um povo: a esses muitos, em número plural, é dito o que se segue. "Inclinai o vosso ouvido às palavras da Minha boca." "Ouvi vós" é o mesmo que "Inclinai o vosso ouvido": e o que ali diz "Minha lei", aqui diz "as palavras da Minha boca". Pois piedosamente ouve a lei de Deus e as palavras da Sua boca aquele cujo ouvido a humildade inclina: não aquele a quem a soberba levanta o pescoço. Pois tudo o que é derramado é recebido na superfície côncava da humildade, mas é sacudido da convexidade do inchaço. Donde, em outro lugar, diz: "Inclina o teu ouvido, e recebe as palavras do entendimento." Fomos, pois, suficientemente admoestados a receber também este Salmo com este entendimento de Asafe, a recebê-lo, digo, com ouvido inclinado, isto é, com humilde piedade. E não foi dito como sendo do próprio Asafe, mas ao próprio Asafe. O que é evidente pelo artigo grego, e se encontra em certos exemplares latinos. Estas palavras são, portanto, de entendimento, isto é, de inteligência, a qual foi dada ao próprio Asafe: o que é melhor entendermos não como referente a um homem, mas à congregação do povo de Deus; da qual não devemos de modo algum alhear-nos. Pois, embora propriamente digamos "Sinagoga" dos judeus, mas "Igreja" dos cristãos, porque uma "congregação" costuma ser entendida antes de animais, mas uma "convocação" antes de homens: contudo, também esta encontramos chamada Igreja, e talvez nos seja mais apropriado dizer: "Salva-nos, ó Senhor nosso Deus, e congrega-nos dentre as nações, para que confessemos ao Teu Santo Nome." Nem devemos desdenhar de ser, antes devemos render graças inefáveis por sermos, as ovelhas das Suas mãos, as quais Ele previu quando dizia: "Tenho outras ovelhas que não são deste redil, também a essas Me convém trazer, para que haja um só rebanho e um só Pastor": isto é, unindo o fiel povo dos gentios ao fiel povo dos israelitas, acerca dos quais Ele antes dissera: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Pois também diante d'Ele serão congregadas todas as nações, e Ele as separará, como um pastor separa as ovelhas dos bodes. Ouçamos, pois, assim o que foi dito. "Ouvi, povo Meu, a Minha lei, inclinai o vosso ouvido às palavras da Minha boca": não como se dirigido aos judeus, mas antes como se dirigido a nós mesmos, ou ao menos como se estas palavras fossem ditas tanto a nós quanto a eles. Pois, tendo o Apóstolo dito: "Mas Deus não Se agradou da maior parte deles", mostrando com isso que havia também aqueles de quem Deus Se agradava, acrescentou logo em seguida: "Pois foram derrubados no deserto": em segundo lugar, continuou: "mas estas coisas se tornaram nossas figuras." ... A nós, portanto, mais particularmente foram cantadas estas palavras. Donde neste Salmo, entre outras coisas, foi dito: "Para que outra geração o saiba, os filhos que hão de nascer e se levantarão." [truncado]
1. Este Salmo contém as coisas que se diz terem sido feitas entre o povo antigo: mas o povo novo e último está sendo admoestado, para que se acautele de não ser ingrato quanto aos benefícios de Deus, e provoque a Sua ira contra si, quando deveria antes receber a Sua graça. ...O título dele, em primeiro lugar, move e prende a nossa atenção. Pois não é sem razão que está inscrito "Entendimento de Asafe": mas é talvez porque estas palavras requerem um leitor que perceba não a voz que a superfície profere, mas algum sentido interior. Em segundo lugar, quando está prestes a narrar e mencionar todas estas coisas, que parecem necessitar mais de um ouvinte do que de um expositor: "Abrirei", diz ele, "em parábolas a Minha boca, declararei proposições desde o princípio." Quem não seria aqui despertado do sono? Quem ousaria passar apressadamente pelas parábolas e proposições, lendo-as como se fossem evidentes por si mesmas, quando, pelos seus próprios nomes, significam que devem ser buscadas com olhar mais profundo? Pois a parábola tem, na sua superfície, a similitude de algo: e, embora seja palavra grega, é agora usada como palavra latina. E é de se observar que, nas parábolas, aquelas que se chamam similitudes das coisas são comparadas com as coisas com que temos a tratar. Mas as proposições, que em grego se chamam problhmata, são questões que têm em si algo que há de ser resolvido pela disputação. Que homem, pois, leria as parábolas e proposições de modo apressado? Que homem não prestaria atenção, ouvindo estas palavras com mente vigilante, a fim de que, pelo entendimento, alcance o fruto delas?
4. "Abrirei", diz ele, "em parábolas a Minha boca, declararei proposições desde o princípio" (v. 2). De que princípio ele quer dizer é bem evidente nas palavras seguintes. Pois não é desde o princípio, quando o Céu e a terra foram feitos, nem quando o gênero humano foi criado no primeiro homem: mas desde quando a congregação foi tirada do Egito; de modo que o sentido pertença a Asafe, que se interpreta congregação. Mas oxalá Aquele que disse "Abrirei em parábolas a Minha boca" se dignasse também abrir o nosso entendimento para elas! Pois, se, assim como abriu a Sua boca em parábolas, abrisse igualmente as próprias parábolas; e, assim como declara "proposições", declarasse igualmente as exposições delas, não estaríamos aqui a labutar: mas agora tão ocultas e fechadas estão todas as coisas, que, ainda que possamos, com o Seu auxílio, chegar a algo de que nos alimentemos para a nossa saúde, ainda assim havemos de comer o pão com o suor do nosso rosto; e pagar a pena da antiga sentença não só com o labor do corpo, mas também com o do coração. Fale Ele, pois, e ouçamos as parábolas e proposições.
5. "Quão grandes coisas ouvimos, e as conhecemos, e nossos pais no-las contaram" (v. 3). O Senhor estava falando mais acima. Pois de que outra pessoa se poderiam pensar estas palavras: "Ouvi, ó povo Meu, a Minha lei"? Por que é, então, que agora, de súbito, um homem está falando, pois aqui temos as palavras de um homem: "nossos pais no-las contaram"? Sem dúvida Deus, prestes a falar pelo ministério de um homem, como diz o Apóstolo: "Quereis receber prova d'Aquele que fala em mim, Cristo?", em Sua própria pessoa quis primeiro que as palavras fossem proferidas, para que um homem, falando as Suas palavras, não fosse desprezado como homem. Pois assim é com os ditos de Deus que chegam até nós através do nosso sentido corporal. O Criador move a criatura sujeita por uma operação invisível; não de modo que a substância seja mudada em algo corporal e temporal, quando, por meio de sinais corporais e temporais, sejam eles pertencentes aos olhos ou aos ouvidos, tanto quanto os homens são capazes de recebê-lo, Ele quer fazer conhecida a Sua vontade. Pois, se um anjo é capaz de usar ar, névoa, nuvem, fogo, e qualquer outra substância natural ou espécie corporal; e o homem, de usar rosto, língua, mão, pena, letras, ou qualquer outro significante, com o propósito de intimar as coisas secretas da sua própria mente: em suma, se, embora seja homem, ele envia mensageiros humanos, e diz a um: "Vai", e ele vai; e a outro: "Vem", e ele vem; e ao seu servo: "Faze isto", e ele o faz; com quanto maior e mais eficaz poder usa Deus, a quem, como Senhor, todas as coisas juntas estão sujeitas, tanto o mesmo anjo quanto o homem, a fim de declarar tudo quanto Lhe apraz? ...Pois aquelas coisas foram ouvidas no Antigo Testamento que são conhecidas no Novo: ouvidas quando estavam sendo profetizadas, conhecidas quando estavam sendo cumpridas. Onde uma promessa se cumpre, o ouvido não é enganado. "E nossos pais", Moisés e os Profetas, "no-las contaram."
6. "Não foram ocultadas de seus filhos em outra geração" (v. 4). Esta é a nossa geração, na qual nos foi dada a regeneração. "Anunciando os louvores do Senhor e os Seus poderes, e as Suas obras maravilhosas que Ele fez." A ordem das palavras é: "e nossos pais no-las contaram, anunciando os louvores do Senhor." O Senhor é louvado, a fim de que seja amado. Pois que objeto pode ser amado mais para a nossa saúde? "E Ele levantou um testemunho em Jacó, e estabeleceu uma lei em Jacó" (v. 5). Este é o princípio de que se falou acima: "declararei proposições desde o princípio." Assim, então, o princípio é o Antigo Testamento, o fim é o Novo. Pois o temor prevalece na lei? "Mas o fim da lei é Cristo, para justiça a todo aquele que crê"; por cuja dádiva "o amor é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado": e o amor aperfeiçoado lança fora o temor, na medida em que agora, sem a Lei, a justiça de Deus foi manifestada. Mas, na medida em que Ele tem um testemunho pela Lei e pelos Profetas, por isso "Ele levantou um testemunho em Jacó." Pois até aquele Tabernáculo, que foi erigido com uma obra tão notável e tão cheia de tão admiráveis significações, é chamado o Tabernáculo do Testemunho, no qual havia o véu sobre a Arca da Lei, como o véu sobre o rosto do Ministro da Lei; porque naquela dispensação havia "parábolas e proposições". Pois aquelas coisas que estavam sendo pregadas e estavam por acontecer estavam ocultas em sentidos velados, e não eram vistas em manifestações desveladas. Mas "quando te tiveres voltado para Cristo", diz o Apóstolo, "o véu será tirado." Pois "todas as promessas de Deus n'Ele são sim, Amém." Quem, pois, se apega a Cristo, tem a totalidade do bem que, mesmo nas letras da Lei, não percebe: mas quem é estranho a Cristo, nem percebe, nem possui. "Estabeleceu uma lei em Israel." Segundo o seu costume habitual, ele está fazendo uma repetição. Pois "Ele levantou um testemunho" é o mesmo que "estabeleceu uma lei", e "em Jacó" é o mesmo que "em Israel". Pois, assim como estes são dois nomes de um só homem, assim lei e testemunho são dois nomes de uma só coisa. Há alguma diferença, dirá alguém, entre "levantou" e "estabeleceu"? Sim, na verdade, a mesma diferença que há entre "Jacó" e "Israel": não porque fossem duas pessoas, mas esses mesmos dois nomes foram dados a um só homem por razões diferentes; Jacó por causa da usurpação, porque agarrou o calcanhar de seu irmão ao nascer; mas Israel por causa da visão de Deus. Assim, "levantado" é uma coisa, "estabelecido" é outra. Pois "Ele levantou um testemunho", tanto quanto posso julgar, foi dito porque por ele algo foi levantado; "Pois sem a Lei", diz o Apóstolo, "o pecado estava morto: mas eu vivia outrora sem a Lei: mas, com a vinda do mandamento, o pecado reviveu." Eis o que foi levantado pelo testemunho, que é a Lei, para que aquilo que jazia oculto pudesse aparecer, como ele diz um pouco depois: "Mas o pecado, para que aparecesse como pecado, operou em mim a morte por meio de uma coisa boa." Mas "estabeleceu uma lei" foi dito como se fosse um jugo sobre os pecadores, donde foi dito: "Pois sobre o justo não foi imposta lei." É, pois, testemunho, na medida em que prova algo; mas lei, na medida em que ordena; embora seja uma só e mesma coisa. Por isso, assim como Cristo é pedra, mas para os crentes é a Cabeça do ângulo, ao passo que para os incrédulos é pedra de tropeço e rocha de escândalo; assim o testemunho da Lei, para aqueles que não usam a Lei licitamente, é um testemunho pelo qual os pecadores hão de ser condenados como merecedores de castigo; mas, para aqueles que a usam licitamente, é um testemunho pelo qual se mostra aos pecadores a quem devem recorrer para serem libertados. ...
7. "Quão grandes coisas", diz ele, "ordenou Ele a nossos pais, que as fizessem conhecidas a seus filhos?" (v. 5). "Para que outra geração as conheça, os filhos que hão de nascer e se levantarão, e as anunciarão a seus filhos" (v. 6). "Para que ponham em Deus a sua esperança, e não se esqueçam das obras de Deus, e busquem os Seus mandamentos" (v. 7). "Para que não se tornem, como seus pais, geração perversa e que provoca amargura: geração que não dirigiu o seu coração, e cujo espírito não foi fiel a Deus" (v. 8). Estas palavras apontam, por assim dizer, dois povos, um pertencente ao Antigo Testamento, outro ao Novo: pois, ao dizer que eles receberam os mandamentos "para os fazer conhecidos a seus filhos", deu a entender que estes os receberam, mas não os conheceram nem os praticaram; eles próprios os receberam, a fim de que "outra geração os conhecesse", o que a anterior não conheceu. "Filhos que hão de nascer e se levantarão." Pois os que nasceram não se levantaram, porque não tinham o coração no alto, mas antes na terra. Ora, o levantar-se é com Cristo; donde se disse: "Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são do alto." "E as anunciarão", diz ele, "a seus filhos, para que ponham em Deus a sua esperança"... "E não se esqueçam das obras de Deus": isto é, engrandecendo e vangloriando-se de suas próprias obras, como se as fizessem por si mesmos; quando é "Deus quem opera", naqueles que fazem o bem, "tanto o querer quanto o operar segundo a boa vontade". "E busquem os Seus mandamentos"... Os mandamentos que Ele ordenou. Como, pois, ainda haveriam de buscá-los, se já os aprenderam, senão porque, pondo em Deus a sua esperança, então buscam os Seus mandamentos, a fim de que, por eles, com o Seu auxílio, sejam cumpridos? E diz o motivo, acrescentando logo em seguida: "e o seu espírito não foi fiel a Deus", isto é, porque não tinha fé, a qual obtém aquilo que a Lei ordena. Pois quando o espírito do homem coopera com o Espírito de Deus que nele opera, então se cumpre o que Deus mandou; e isto não acontece senão crendo n'Aquele que justifica o ímpio. Fé esta que a geração perversa e amargurada não tinha; e por isso a respeito dela se disse: "O seu espírito não foi fiel a Deus." Pois isto foi dito com muito mais exatidão para apontar a graça de Deus, a qual não opera apenas a remissão dos pecados, mas também faz com que o espírito do homem coopere com ela na obra das boas ações, como se dissesse: o seu espírito não creu em Deus. Pois ter o espírito fiel a Deus não é crer que o seu espírito é capaz de praticar a justiça sem Deus, mas com Deus. Pois isto é crer em Deus: o que certamente é mais do que crer a Deus. Pois muitas vezes devemos crer até mesmo a um homem, embora nele não devamos crer. Crer em Deus, portanto, é isto: crendo, apegar-se a Deus, que opera as boas obras, a fim de operar bem com Ele...
8. Por fim, "Os filhos de Efraim, arqueiros que entesavam e atiravam com o arco, voltaram as costas no dia da guerra" (v. 9). Seguindo a lei da justiça, à lei da justiça não chegaram. Por quê? Porque não eram da fé. Pois eram aquela geração cujo espírito não foi fiel a Deus; mas eram, por assim dizer, das obras: porque, ao entesarem e atirarem com o arco (que são ações exteriores, como as obras da lei), não dirigiam também o coração, no qual o justo vive pela fé, que opera pelo amor; pela qual os homens se apegam a Deus, que opera no homem tanto o querer quanto o operar segundo a boa vontade. Pois que outra coisa é entesar o arco e atirar, e voltar as costas no dia da guerra, senão ouvir e propor-se no dia da audição, e desertar no dia da tentação; brandindo as armas, por assim dizer, de antemão, e, na hora da ação, recusando-se a combater? Mas, quanto ao dizer "arqueiros que entesavam e atiravam com o arco", quando parece que deveria ter dito: entesando os arcos e atirando as flechas... Alguns exemplares gregos, é certo, dizem "entesando e atirando com arcos", de modo que, sem dúvida, devemos entender flechas. Mas, visto que pelos filhos de Efraim quis que se entendesse toda aquela geração amargurada, é uma expressão que significa o todo pela parte. E talvez esta parte tenha sido escolhida para significar o todo, porque destes homens, especialmente, algo de bom se devia esperar... Embora posto à esquerda por seu pai, como o mais jovem, Jacó, no entanto, com a mão direita o abençoou, e o preferiu ao irmão mais velho com uma bênção de sentido oculto... Pois nisto se figurava como haviam de ser últimos os que eram primeiros, e primeiros os que eram últimos, pela vinda do Salvador, a respeito de quem se disse: "Aquele que vem depois de mim foi feito antes de mim." Do mesmo modo, o justo Abel foi preferido ao irmão mais velho; assim Isaque a Ismael; assim Jacó, seu irmão gêmeo, embora nascido depois, a Esaú; assim também o próprio Farés precedeu, até no nascimento, o seu irmão gêmeo, que primeiro pusera a mão fora do ventre e começara a nascer; assim Davi foi preferido ao seu irmão mais velho: e, sendo esta a razão pela qual todas estas parábolas e outras semelhantes precederam, não só de palavras mas também de fatos, do mesmo modo ao povo dos judeus foi preferido o povo cristão, para cuja redenção, como Abel por Caim, assim por obra dos judeus foi morto Cristo. Esta coisa foi prefigurada também quando Jacó, estendendo as mãos em cruz, com a mão direita tocou Efraim, que estava à esquerda, e o pôs diante de Manassés, que estava à direita, a quem ele mesmo tocou com a mão esquerda.
9. Mas o que significa o que ele diz, "voltaram as costas no dia da guerra", as palavras seguintes o ensinam, nas quais explicou isto muito claramente: "não guardaram", diz ele, "o testamento de Deus, e em Sua lei não quiseram andar" (v. 10). Eis o que é: "voltaram as costas no dia da guerra": não guardaram o testamento de Deus. Quando entesavam e atiravam com o arco, proferiam também as palavras da mais pronta promessa, dizendo: "Tudo quanto o Senhor nosso Deus falou, faremos e ouviremos." "Voltaram as costas no dia da guerra": porque a promessa de obediência não é a audição que a comprova, mas a tentação. Mas aquele cujo espírito foi fiel a Deus mantém-se apegado a Deus, que é fiel, e "não permite que seja tentado além do que pode suportar; antes, com a tentação, dará também a saída", para que possa suportar, e não volte as costas no dia da guerra... Por isso estes homens foram assim marcados: "geração", diz ele, "que não dirigiu o seu coração". Não se disse "obras", mas "coração". Pois, quando o coração é dirigido, as obras são retas; mas quando o coração não é dirigido, as obras não são retas, ainda que pareçam sê-lo. E como a geração perversa não dirigiu o coração, já se mostrou suficientemente, quando disse: "e o seu espírito não foi fiel a Deus". Pois Deus é reto: e por isso, apegando-se ao reto, como a uma regra imutável, o coração do homem, que em si mesmo era perverso, pode tornar-se reto...
10. "E esqueceram os Seus benefícios, e as maravilhas que Ele lhes mostrou; diante de seus pais, as maravilhas que Ele fez" (v. 11). O que isto seja não é questão a ser passada por alto com negligência. A respeito daqueles mesmos pais falava ele pouco antes, que tinham sido geração perversa e que provocava amargura... Que pais, visto que estes são precisamente os pais aos quais ele não queria que a posteridade se assemelhasse? Se os tomarmos por aqueles de quem os outros haviam recebido o ser, por exemplo, Abraão, Isaque, Jacó, já havia muito tempo que tinham adormecido, quando Deus mostrou maravilhas no Egito. Pois segue-se: "na terra do Egito, na planície de Tânis" (v. 12): onde se diz que Deus lhes mostrou maravilhas diante de seus pais. Estariam eles porventura presentes em espírito? Pois deles mesmos diz o Senhor no Evangelho: "pois todos vivem para Ele." Ou entendemos mais convenientemente por isto os pais Moisés e Arão, e os outros anciãos, dos quais se relata na mesma Escritura que também receberam o Espírito, do qual também Moisés recebeu, a fim de que o ajudassem a governar e a suportar aquele mesmo povo? Pois por que não teriam sido chamados pais? Não da mesma maneira que Deus é o único Pai, que regenera com o Seu Espírito aqueles a quem faz filhos para uma herança eterna; mas por honra, por causa da sua idade e afetuoso cuidado: assim como diz o ancião Paulo: "Não para vos confundir escrevo estas coisas, mas como a meus filhos muito amados vos admoesto": embora soubesse, de fato, que fora dito pelo Senhor: "A ninguém chameis vosso pai sobre a terra, pois um só é o vosso Pai, que é Deus." E isto não foi dito para que este termo de honra humana fosse apagado do nosso modo habitual de falar; mas para que a graça de Deus, pela qual somos regenerados para a vida eterna, não fosse atribuída nem ao poder nem sequer à santidade de nenhum homem. Por isso, quando disse: "Eu vos gerei", primeiro disse "em Cristo" e "por meio do Evangelho", para que não se pensasse ser dele o que é de Deus... Assim, pois, a terra do Egito deve ser entendida como figura deste mundo. "A planície de Tânis" é a superfície lisa do mandamento humilde. Pois "mandamento humilde" é a interpretação de Tânis. Neste mundo, portanto, recebamos o mandamento da humildade, a fim de que, em outro mundo, mereçamos receber a exaltação que Ele prometeu, Aquele que, por nossa causa, aqui Se fez humilde.
"Ó Deus, os gentios vieram à Tua herança" (v. 1). Sob esta forma de expressão, outras coisas que haviam de acontecer são narradas como já feitas. Nem se deve estranhar isto, que estas palavras sejam ditas a Deus. Pois não Lhe são representadas como a quem as ignora, mas por cuja revelação são de antemão conhecidas; antes, a alma está falando com Deus com aquele afeto de piedade, do qual Deus tem conhecimento. Pois até mesmo as coisas que os anjos anunciam aos homens, anunciam-nas a quem não as conhece; mas as coisas que anunciam a Deus, anunciam-nas a quem as conhece, quando oferecem as nossas orações, e de modo inefável consultam a eterna Verdade a respeito das suas ações, como uma lei imutável. E por isso este homem de Deus está dizendo a Deus aquilo que há de aprender de Deus, como um discípulo a um mestre, não ignorante mas julgando; e assim, ou aprovando o que Ele ensinou, ou censurando o que não ensinou: sobretudo porque, sob a aparência de quem ora, o Profeta está transformando em si mesmo aqueles que haveriam de existir no tempo em que estas coisas se cumprissem. Mas, ao orar, é costume declarar a Deus as coisas que Ele fez ao tomar vingança, e acrescentar-se uma petição, para que doravante Ele Se compadeça e poupe. Deste modo, também aqui, os juízos são narrados por aquele que os predisse, como se fossem narrados por aqueles a quem sobrevieram, e o próprio lamento e oração é uma profecia.
1. Sobre o título deste Salmo, sendo tão breve e tão simples, penso que não precisamos deter-nos. Mas a profecia que aqui lemos, enviada de antemão, sabemos que evidentemente se cumpriu. Pois, quando estas coisas eram cantadas nos tempos do rei Davi, nada de tal natureza, pela hostilidade dos gentios, havia ainda sucedido à cidade de Jerusalém, nem ao Templo de Deus, o qual ainda nem sequer fora edificado. Pois quem ignora que, depois da morte de Davi, seu filho Salomão fez um templo a Deus? Fala-se, pois, disto como do passado, o que no Espírito era visto como futuro.
5. "Fizeram", diz ele, "dos corpos mortos dos Teus servos, pasto para as aves do céu, as carnes dos Teus santos, para os animais da terra" (v. 2). A expressão "corpos mortos" foi repetida em "carnes": e a expressão "dos Teus servos" foi repetida em "dos Teus santos". Só isto variou: "às aves do céu, e aos animais da terra". Melhor interpretaram os que escreveram "mortos" do que, como alguns têm, "mortais". Pois "mortos" só se diz daqueles que morreram; mas "mortal" é termo aplicado até aos corpos vivos. Quando, pois, como disse, ao seu Lavrador os espíritos dos mártires, como frutos, haviam passado, os seus corpos mortos e as suas carnes puseram-nas diante das aves do céu e dos animais da terra: como se alguma parte deles pudesse perder-se para a ressurreição, quando, dos recônditos esconderijos da natureza, Ele há de renovar o todo, por quem até os nossos cabelos foram contados.
2. "Contaminaram o Teu santo Templo, fizeram de Jerusalém um pomar guardado." "Fizeram dos corpos mortos dos Teus servos pasto para as aves do céu, as carnes dos Teus santos para os animais da terra" (v. 2). "Derramaram o sangue deles como água em torno de Jerusalém, e não houve quem os sepultasse" (v. 3). Se nesta profecia algum de nós houver pensado que se deve entender aquela devastação de Jerusalém que foi feita por Tito, imperador romano, quando já o Senhor Jesus Cristo, depois de Sua Ressurreição e Ascensão, era pregado entre os gentios, não me ocorre como aquele povo pudesse então ser chamado herança de Deus, não se apegando a Cristo, a quem, tendo rejeitado e morto, tornou-se réprobo aquele povo, que nem mesmo depois de Sua Ressurreição quis crer n'Ele, e até matou os Seus mártires. Pois, daquele povo de Israel, todos quantos creram em Cristo — a quem foi feita a oferta de Cristo, e de certo modo o saudável e frutuoso cumprimento da promessa; a respeito dos quais o próprio Senhor diz: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" — esses são os que, dentre eles, são os filhos da promessa; esses são contados por descendência; esses pertencem à herança de Deus. Daqui vêm José, aquele homem justo, e a Virgem Maria, que gerou Cristo: daqui João Batista, o amigo do Esposo, e seus pais Zacarias e Isabel: daqui Simeão, o ancião, e Ana, a viúva, que não ouviram Cristo falando pelo sentido do corpo, mas que, ainda infante e não falando, pelo Espírito O perceberam: daqui os bem-aventurados Apóstolos: daqui Natanael, em quem não havia dolo: daqui o outro José, que também ele aguardava o Reino de Deus: daqui aquela tão grande multidão que ia adiante e seguia atrás do Seu jumento, dizendo: "Bendito o que vem em nome do Senhor": entre os quais estava também aquele coro de crianças, nos quais Ele declarou ter-se cumprido: "Da boca dos infantes e dos que mamam Tu aperfeiçoaste o louvor." Daqui vieram também aqueles, depois de Sua ressurreição, dos quais, num dia três mil e noutro cinco mil foram batizados, soldados em uma só alma e um só coração pelo fogo do amor; dos quais nenhum dizia ser sua qualquer coisa, mas todas as coisas lhes eram comuns. Daqui os santos diáconos, dentre os quais Estêvão foi coroado com o martírio antes dos Apóstolos. Daqui tantas Igrejas da Judeia, que estavam em Cristo, às quais Paulo era desconhecido de rosto, mas conhecido por sua infame ferocidade, e mais conhecido pela mui misericordiosa graça de Cristo. Daqui até mesmo ele, segundo a profecia enviada de antemão a seu respeito: "lobo que despedaça, pela manhã arrebatando a presa, e à tarde repartindo os despojos"; isto é, primeiro como perseguidor, arrebatando para a morte; depois, como pregador, alimentando para a vida. Estes são os que, daquele povo, são a herança de Deus... Assim, pois, também neste tempo um remanescente, por eleição de graça, foi salvo. Este remanescente, daquela nação, pertence à herança de Deus: não aqueles a respeito dos quais um pouco abaixo diz: "Mas os demais foram cegados." Pois assim diz: "Que, pois? O que Israel buscava, isto não obteve: mas a eleição o obteve: e os demais foram cegados." Esta eleição, pois, este remanescente, aquele povo de Deus, que Deus não rejeitou, é chamado a Sua herança. Mas naquele Israel, que não obteve isto, nos demais que foram cegados, já não havia herança de Deus, a respeito dos quais é possível que se dissesse, depois da glorificação de Cristo nos Céus, no tempo do imperador Tito: "Ó Deus, vieram os gentios à Tua herança", e as demais coisas que neste Salmo parecem ter sido preditas a respeito da destruição tanto do templo quanto da cidade pertencentes àquele povo.
3. Além disso, aqui devemos ou entender aquelas coisas que foram feitas por outros inimigos, antes que Cristo tivesse vindo em carne: naquele tempo em que havia ainda os santos profetas, quando se deu o cativeiro na Babilônia, e aquela nação foi gravemente afligida, e no tempo em que, sob Antíoco também, os Macabeus, tendo suportado sofrimentos horríveis, foram coroados gloriosíssimos. Ou, certamente, se depois da Ressurreição e Ascensão do Senhor se deve entender que aqui se fala da herança de Deus, tais coisas devem ser entendidas aqui, como as que, às mãos de adoradores de ídolos e inimigos do nome de Cristo, Sua Igreja padeceu, em tão grande multidão de mártires suportados... Esta Igreja, pois, esta herança de Deus, da circuncisão e da incircuncisão foi congregada, isto é, do povo de Israel e do resto das nações, por meio da Pedra que os edificadores rejeitaram, e que se tornou Cabeça do ângulo, no qual ângulo, por assim dizer, duas paredes vindas de direções diferentes se uniram. "Pois Ele mesmo é a nossa paz, que fez de ambos um só, para edificar os dois em Si mesmo, fazendo a paz, e para unir ambos em um só Corpo a Deus": em cujo Corpo somos filhos de Deus, "clamando: Abba, Pai." Abba, por causa da sua língua; Pai, por causa da nossa. Pois Abba é o mesmo que Pai...
4. Mas agora, no que se segue, "fizeram de Jerusalém um pomar guardado", até a própria Igreja é corretamente entendida sob este nome, a livre Jerusalém, nossa mãe, a respeito de quem foi escrito: "muito mais são os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido." A expressão "um pomar guardado", penso que deve ser entendida do abandono que a devastação da perseguição causou: isto é, como a guarda de um pomar; pois a guarda do pomar é abandonada, quando os frutos já passaram. E, de fato, quando, por meio dos gentios perseguidores, a Igreja parecia estar abandonada, para a mesa celestial, como que muitos e sobremaneira doces frutos [truncado]
Derramaram o seu sangue como água, isto é, abundante e desenfreadamente, "em torno de Jerusalém" (v. 3). Se aqui entendermos a cidade terrena de Jerusalém, percebemos o derramamento do sangue daqueles a quem o inimigo pôde encontrar fora dos muros, em seu circuito. Mas se a entendermos daquela Jerusalém, a respeito da qual foi dito: "muito mais são os filhos da que foi repudiada do que os daquela que tem marido", o circuito dela se estende por toda a terra universal. Pois naquela lição do Profeta, em que está escrito: "muito mais são os filhos da que foi repudiada do que os daquela que tem marido", pouco depois é dito ao mesmo propósito: "e Aquele que te libertou será chamado o Deus de Israel de toda a terra". O circuito, pois, desta Jerusalém, neste Salmo, deve ser entendido assim: enquanto naquele tempo a Igreja se havia expandido, frutificando e crescendo no mundo universal, quando em toda parte a perseguição grassava e fazia estrago dos Mártires, cujo sangue se derramava como água, para grande ganho dos tesouros celestiais. Quanto ao que foi acrescentado, "e não houve quem os sepultasse": ou não deve parecer coisa incrível que em alguns lugares tenha havido tamanho pavor, que nem mesmo sepultadores dos corpos santos se apresentassem; ou, na verdade, que corpos insepultos em muitos lugares jazessem por longo tempo, até que, sendo por assim dizer furtados pelos religiosos, fossem sepultados.
"Tornamo-nos", diz ele, "opróbrio para os nossos vizinhos" (v. 4). Não precioso, pois, à vista dos homens, de quem procedia este opróbrio, mas "preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos". "Escárnio e zombaria": ou, como alguns o interpretaram, "motejo para os que estão em nosso circuito". É repetição da sentença anterior. Pois o que acima foi chamado "opróbrio", o mesmo foi repetido em "escárnio e zombaria"; e o que acima foi dito em "para os nossos vizinhos", o mesmo foi repetido em "para os que estão em nosso circuito". Além disso, em referência à Jerusalém terrena, os vizinhos e os que estão no circuito daquela nação são certamente entendidos como as outras nações. Mas em referência à Jerusalém livre, nossa mãe, há vizinhos até mesmo no seu circuito, entre os quais, sendo eles seus inimigos, a Igreja habita no circuito do mundo redondo.
Em segundo lugar, dando agora voz a uma oração evidente, donde se pode perceber que a rememoração da aflição passada não é por via de informação, mas de oração: "Até quando, Senhor", diz ele, "estarás irado até o fim? Arderá o teu zelo como fogo?" (v. 5). Pede evidentemente a Deus que não se ire até o fim, isto é, que esta tão grande opressão, tribulação e devastação não perdure até o fim; mas que modere a sua correção, segundo o que é dito noutro Salmo: "Alimentar-nos-ás com o pão das lágrimas, e dar-nos-ás a beber lágrimas com medida." Pois o "até quando, Senhor, estarás irado até o fim?" foi dito no mesmo sentido como se tivesse dito: não te ires, Senhor, até o fim. E no que se segue, "arderá o teu zelo como fogo?", ambas as palavras devem ser entendidas, tanto "até quando" quanto "até o fim": como se tivesse dito, até quando arderá como fogo o teu zelo, até o fim? Pois estas duas palavras devem ser entendidas do mesmo modo que aquela palavra empregada um pouco acima, a saber, "fizeram". Pois enquanto a sentença anterior diz: "fizeram dos cadáveres dos teus servos pasto para as aves do céu", esta palavra a sentença posterior não tem, onde se diz: "as carnes dos teus santos, para os animais da terra"; mas certamente ali se subentende o que a anterior tem, a saber, "fizeram".
Além disso, a ira e o zelo de Deus não são paixões de Deus, como alguns imputam às Escrituras que não compreendem; mas sob o nome de ira deve-se entender a vingança da iniquidade; sob o nome de zelo, a exigência da castidade, para que a alma não despreze a lei de seu Senhor e pereça, apartando-se do Senhor por fornicação. Estas coisas, então, em sua operação efetiva na aflição dos homens, são violentas; mas na disposição de Deus são serenas, a quem foi dito: "Mas Tu, ó Senhor das virtudes, com serenidade julgas." Mas por estas palavras se mostra claramente que é por causa dos pecados que estas tribulações sobrevêm aos homens, ainda que sejam fiéis; embora daí possa florescer a glória dos Mártires, por ocasião de sua paciência, e o jugo da disciplina, suportado piedosamente, como o açoite do Senhor. Disto os Macabeus, em meio a torturas agudas, disto os três homens em meio a chamas inócuas, disto os santos Profetas em cativeiro, dão testemunho. Pois, ainda que suportem a correção paterna muito bravamente e muito piedosamente, contudo não escondem o fato de que estas coisas lhes sobrevieram pelos merecimentos de seus pecados...
Mas o que ele acrescenta: "Derrama a tua ira sobre as nações que não te conheceram, e sobre os reinos que não invocaram o teu nome" (v. 6); isto também é profecia, não desejo. Não em imprecação de malevolência são ditas estas palavras, mas, previstas pelo Espírito, são preditas: assim como no caso de Judas, o traidor, os males que haviam de lhe sobrevir foram profetizados de tal modo como se fossem desejados. Pois, do mesmo modo que o profeta não dá ordem a Cristo, embora no modo imperativo dê voz ao que diz: "Cinge a tua espada em torno da tua coxa, ó Poderosíssimo: em tua formosura e em tua bondade, avança, e prosperamente prossegue, e reina" — assim ele não deseja, mas profetiza, quando diz: "Derrama a tua ira sobre as nações que não te conheceram." O que, à sua maneira habitual, ele repete, dizendo: "e sobre os reinos que não invocaram o teu nome." Pois as nações foram repetidas em reinos; e o não o terem conhecido foi repetido nisto, que não invocaram o seu nome. Como, pois, deve ser entendido o que o Senhor diz no Evangelho a respeito dos açoites, "os muitos e os poucos"? Se maior é a ira de Deus contra as nações que não conheceram o Senhor? Pois no que ele diz, "Derrama a tua ira", com esta palavra bastante claramente apontou quão grande ira quis que se entendesse. Donde depois diz: "Retribui aos nossos vizinhos sete vezes tanto." Não há, pois, grande diferença entre os servos, que, ainda que não conheçam a vontade de seu Senhor, contudo invocam o seu nome, e aqueles que são estranhos à família de tão grande Senhor, que tanto ignoram a Deus, que nem sequer invocam a Deus? Pois em lugar dEle invocam ou ídolos, ou demônios, ou qualquer criatura que escolham; não o Criador, que é bendito para sempre. Pois destas pessoas, a respeito das quais ele está profetizando isto, ele nem sequer sugere que sejam tão ignorantes da vontade do seu Deus, que ainda assim temam ao próprio Senhor; mas tão ignorantes do próprio Senhor, que nem sequer O invocam, e que se apresentam como inimigos do seu nome. Há, pois, grande diferença entre servos que não conhecem a vontade de seu Deus, e contudo vivem em sua família e em sua casa, e inimigos que não só opõem a vontade ao conhecimento do próprio Senhor, mas também não invocam o seu nome, e mesmo nos seus servos combatem contra ele.
Por fim, segue-se: "Pois devoraram a Jacó, e o seu lugar tornaram desolado" (v. 7)... Como devemos entender "o lugar" de Jacó, é preciso compreender. Pois antes se pode supor que o lugar de Jacó seja aquela cidade, onde também estava o Templo, aonde toda aquela nação, para o fim do sacrifício e do culto, e para celebrar a Páscoa, o Senhor havia ordenado que se reunisse. Pois se as assembleias dos cristãos, impedidas e suprimidas pelos perseguidores, fossem o que o Profeta quisesse que se entendesse, parece que ele deveria ter dito "lugares tornados desolados", não "lugar". Contudo, podemos tomar o número singular posto pelo plural; como veste por vestes, soldadesca por soldados, gado por animais: pois muitas palavras costumam ser ditas deste modo, e não somente na boca dos falantes vulgares, mas até na eloquência das mais aprovadas autoridades. Nem à própria divina Escritura é estranha esta forma de falar. Pois ela mesma pôs rã por rãs, gafanhoto por gafanhotos, e inúmeras expressões do mesmo gênero. Mas o que foi dito, "Devoraram a Jacó", bem se entende nisto: que muitos homens constrangeram a passar para o seu próprio corpo malintencionado, isto é, para a sua própria sociedade.
...Ele acrescenta: "Não te lembres das nossas iniquidades antigas" (v. 8). Não diz "passadas", o que poderia ser até mesmo recente; mas "antigas", isto é, provindas dos pais. Pois a tais iniquidades é devido o juízo, não a correção. "Que as tuas misericórdias prontamente nos previnam." Previnam, isto é, no teu juízo. Pois "a misericórdia se exalta acima do juízo". Ora, há "juízo sem misericórdia", mas para aquele que não usou de misericórdia. Mas visto que ele acrescenta: "pois nos tornamos sobremaneira pobres" — para este fim ele quer que se entenda que as misericórdias de Deus nos previnam: que a nossa própria pobreza, isto é, fraqueza, sendo Ele misericordioso, seja ajudada a cumprir os seus mandamentos, para que não venhamos ao seu juízo para sermos condenados.
Segue-se, pois: "Ajuda-nos, ó Deus, nosso Sanador" (v. 9). Por esta palavra que diz, "nosso Sanador", ele explica suficientemente que espécie de pobreza quis que se entendesse naquilo que dissera, "pois nos tornamos sobremaneira pobres". Pois é aquela mesma enfermidade para a qual é necessário um sanador. Mas, ao querer que sejamos ajudados, ele nem é ingrato à graça, nem retira o livre-arbítrio. Pois aquele que é ajudado também faz algo de si mesmo. Acrescentou ainda: "pela glória do teu Nome, Senhor, livra-nos": para que aquele que se gloria, não em si mesmo, mas no Senhor se glorie. "E sê misericordioso", diz ele, "para com os nossos pecados, por causa do teu Nome": não por causa de nós. Pois que outra coisa merecem os nossos pecados, senão punições devidas e condignas? Mas "sê misericordioso para com os nossos pecados, por causa do teu Nome". Assim, pois, Tu nos livras, isto é, nos arrancas dos males, enquanto ao mesmo tempo nos ajudas a praticar a justiça e és misericordioso para com os nossos pecados, sem os quais nesta vida não estamos. Pois "diante de ti nenhum vivente será justificado". Ora, o pecado é iniquidade. E "se marcares as iniquidades, quem subsistirá?"
Mas o que ele acrescenta, "para que nunca digam entre os gentios: Onde está o seu Deus?" (v. 10), deve ser tomado antes como referente aos próprios gentios. Pois a um mau fim chegam os que desesperaram do verdadeiro Deus, pensando que Ele não existe, ou que não socorre os seus, e que não é misericordioso para com eles. Mas o que se segue, "e que se conheça entre as nações, diante dos nossos olhos, a vingança do sangue dos teus servos que foi derramado", deve ser entendido ou como referente ao tempo em que creem no verdadeiro Deus aqueles que costumavam perseguir a sua herança — porque também isso é vingança, pela qual é morta a ferocidade da iniquidade deles pela espada da Palavra de Deus, a respeito da qual foi dito: "Cinge a tua espada" — ou quando os inimigos obstinados são, por fim, punidos. Pois os males corporais que sofrem neste mundo, eles podem tê-los em comum com os bons. Há também outra espécie de vingança: aquela em que a expansão e fecundidade da Igreja neste mundo, depois de tão grandes perseguições, nas quais supunham que ela pereceria de todo, o pecador, o descrente e o inimigo veem, e se irritam; "com os seus dentes rangerá, e definhará". Pois quem ousaria negar que também isto é uma pena gravíssima? Mas não sei se o que ele diz, "diante dos nossos olhos", é tomado com suficiente elegância, se por esta espécie de castigo entendermos o que se passa nos mais íntimos recessos do coração, e que atormenta até mesmo aqueles que nos sorriem lisonjeiramente, enquanto não podemos ver o que sofrem no homem interior. Mas o fato de que, quer neles, crendo, seja morta a sua iniquidade, quer lhes seja retribuído por fim o castigo, perseverando eles na sua maldade, é entendido sem dificuldade nem dúvida naquilo que se diz: "que se conheça diante dos nossos olhos a vingança entre as nações".
14. E isto, com efeito, como dissemos, é profecia, não desejo... E o Senhor, no Evangelho, propôs-nos como exemplo a viúva que, desejando ser vingada, intercedia junto ao juiz injusto, o qual afinal a ouviu, não por ser guiado pela justiça, mas vencido pelo cansaço; mas isto o Senhor nos propôs para mostrar que muito mais depressa o Deus justo fará justiça aos seus eleitos, que clamam a Ele dia e noite. Daí também aquele clamor dos Mártires sob o altar de Deus, para que sejam vingados no juízo de Deus. Onde está, pois, o "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem"? Onde está também o "Não retribuindo mal por mal, nem maldição por maldição", e "a ninguém retribuindo mal por mal"?... Pois quando o Senhor nos exortava a amar os inimigos, propôs-nos o exemplo de nosso Pai, que está nos Céus, "que faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e chove sobre justos e injustos": acaso por isso Ele deixa de corrigir mesmo com correção temporal, ou de condenar por fim os obstinadamente endurecidos? Seja, pois, o inimigo amado de tal modo, que a justiça do Senhor, pela qual é punido, não nos desagrade; e agrade-nos a justiça pela qual é punido, de tal modo que a alegria não esteja no mal dele, mas no bom Juiz. Mas uma alma malevolente entristece-se, se o seu inimigo, sendo corrigido, tiver escapado ao castigo; e, ao vê-lo punido, alegra-se tanto por estar vingada, que não se deleita com a justiça de Deus, a quem não ama, mas com a desgraça daquele homem, a quem odeia; e, quando deixa o juízo a Deus, espera que Deus fará mais mal do que ele mesmo poderia fazer; e, quando dá alimento ao inimigo faminto e bebida ao sedento, tem um sentido malintencionado do que está escrito: "Pois, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça"... Deste modo, pois, sob a aparência de quem pede neste Salmo, é profetizada a futura vingança sobre os ímpios, de sorte que devemos entender que os santos homens de Deus amaram os seus inimigos, e nada lhes desejaram senão o bem, que é a piedade neste mundo e a vida eterna no porvir; mas nas penas dos maus tomaram prazer não nos males deles, mas nos bons juízos de Deus; e onde quer que nas sagradas Escrituras lemos dos seus ódios contra os homens, eram ódios aos vícios, que todo homem necessariamente há de odiar em si mesmo, se a si mesmo se ama.
15. Mas agora, quanto ao que se segue, "Entrem à tua vista", ou, como têm alguns exemplares, "à tua vista, os gemidos dos algemados": não facilmente descobre alguém que os Santos tenham sido lançados a ferros pelos perseguidores; e se isto sucede em meio a tão grande e multiforme variedade de castigos, tão raramente sucede, que não se deve crer que o profeta tivesse escolhido aludir a isto especialmente neste versículo. Mas, de fato, os grilhões são a fraqueza e a corruptibilidade do corpo, que oprimem a alma. Pois, por meio da fragilidade dela, como uma espécie de matéria para certas dores e tribulações, o perseguidor poderia constrangê-la à impiedade. Destes grilhões o Apóstolo desejava ser desatado, e estar com Cristo; mas permanecer na carne era necessário por causa daqueles a quem ministrava o Evangelho. Até que, pois, isto que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e isto que é mortal se revista de imortalidade, como que por grilhões a carne fraca detém o espírito pronto. Estes grilhões, pois, não os sentem quaisquer, mas aqueles que em si mesmos gemem, oprimidos, desejando ser revestidos daquele tabernáculo que é do Céu; porque tanto a morte é terror, quanto a vida mortal é tristeza. Em favor destes homens que gemem, o Profeta redobra o seu gemido, para que o gemido deles "entre à vista do Senhor". Podem também ser entendidos como algemados aqueles que estão encadeados pelos preceitos da sabedoria, os quais, sendo suportados com paciência, se convertem em ornamentos: donde foi escrito, "Põe os teus pés nos seus grilhões". "Segundo o gr[trecho truncado]
O trecho final (item 8, parágrafos 14-15) foi cortado no original antes de terminar — traduzi até onde o texto fornecido alcança.
16. "Retribui," diz ele, "aos nossos vizinhos sete vezes tanto em seu seio" (v. 13). Não coisas más ele deseja, mas coisas justas ele prediz e profetiza como havendo de vir. Mas no número sete, isto é, na retribuição sete vezes multiplicada, ele quer que se perceba a plenitude do castigo, pois com este número costuma significar-se a totalidade. Donde também há este dito para os bons: "Ele receberá neste mundo sete vezes tanto:" o que foi posto por todos. "Como não tendo nada, e possuindo todas as coisas." Ele fala de vizinhos, porque entre eles habita a Igreja até o dia da separação: pois ainda não se faz agora a separação corporal. "Em seu seio," diz ele, como estando agora em segredo, de modo que a vingança que agora se executa em segredo nesta vida, doravante seja conhecida entre as nações diante de nossos olhos. Pois quando um homem é entregue a um sentimento reprovável, em seu íntimo seio ele está recebendo o que merece das penas futuras. "O opróbrio deles, com que Te opróbriaram, ó Senhor." Retribui-lhes Tu isto sete vezes em seu seio, isto é, em retorno a este opróbrio, repreende-os Tu plenamente em seus lugares secretos. Pois nisto opróbriaram eles o Teu Nome, pensando apagar-Te da terra em Teus servos.
1. ...Se por acaso as coisas obscuras exigem o ofício de intérprete, aquelas que são evidentes devem exigir de mim o ofício de leitor. O cântico aqui é do Advento do Senhor e de nosso Salvador Jesus Cristo, e de Sua vinha. Mas o cantor do cântico é aquele Asafe, ao que parece, iluminado e convertido, por cujo nome sabeis vós ser significada a sinagoga. Por fim, o título do Salmo é: "Para o fim, em favor daqueles que hão de ser mudados;" isto é, para melhor. Pois Cristo, o fim da Lei, veio de propósito para que mudasse os homens para melhor. E ele acrescenta: "testemunho ao próprio Asafe." Um bom testemunho da verdade. Por fim, este testemunho confessa tanto a Cristo quanto a vinha; isto é, a Cabeça e o Corpo, o Rei e o povo, o Pastor e o rebanho, e todo o mistério de todas as Escrituras, Cristo e a Igreja. Mas o título do Salmo conclui com: "pelos assírios." Os assírios se interpretam "homens que dirigem." Portanto já não é uma geração que não dirigiu o seu coração, mas agora uma geração que dirige. Ouçamos, pois, o que ele diz neste testemunho.
2. Que significa: "Tu que apascentas Israel, ouve, Tu que conduzes José como ovelhas"? (v. 1). Ele é invocado a vir, ele é esperado até que venha, ele é ansiado até que venha. Que Ele encontre, pois, "homens que dirigem": "Tu que conduzes," diz ele, "José como ovelhas": o próprio José como ovelhas. O próprio José são as ovelhas, e o próprio José é uma ovelha. Observai José; pois ainda que mesmo a interpretação de seu nome muito nos ajude, pois significa aumento; e Ele veio, com efeito, para que o grão entregue à morte ressurgisse multiplicado; isto é, para que o povo de Deus fosse aumentado. ..."Tu que estás sentado sobre os Querubins." Querubim é o assento da glória de Deus, e se interpreta a plenitude do conhecimento. Ali Deus está sentado na plenitude do conhecimento. Ainda que entendamos os Querubins como as excelsas potestades e virtudes dos céus: contudo, se quiseres, tu serás Querubim. Pois se Querubim é o assento de Deus, ouve o que diz a Escritura: "A alma do justo é o assento da sabedoria." Como, dizes tu, serei eu a plenitude do conhecimento? Quem cumprirá isto? Tens tu o meio de cumpri-lo: "A plenitude da Lei é o amor." Não corras atrás de muitas coisas, nem te esforces. A amplidão dos ramos te aterroriza: apega-te à raiz, e da grandeza da árvore não penses. Haja em ti amor, e a plenitude do conhecimento há de necessariamente seguir-se. Pois que não sabe aquele que sabe o amor? Visto que foi dito: "Deus é amor." "Aparece." Pois nós erramos porque Tu não apareceste. "Diante de Efraim e Benjamim e Manassés" (v. 2). Aparece, digo eu, diante da nação dos judeus, diante do povo de Israel. Pois ali está Efraim, ali Manassés, ali Benjamim. Mas olhemos para a interpretação: Efraim é o que dá fruto, Benjamim filho da mão direita, Manassés o esquecido. Aparece Tu, então, diante daquele que foi feito frutífero, diante de um filho da mão direita: aparece Tu diante do esquecido, para que ele já não seja esquecido, mas Tu venhas à sua mente, Tu que o livraste. ...Pois fraco Tu eras quando se dizia: "Se é Filho de Deus, desça Ele da Cruz." Tu parecias não ter poder: o perseguidor tinha poder sobre Ti: e Tu mostraste isto de antemão, pois também o próprio Jacó prevaleceu em luta, um homem com um anjo. Acaso alguma vez, se o anjo não o tivesse querido? E o homem prevaleceu, e o anjo foi vencido: e o homem vitorioso segura o anjo, e diz: "Não te deixarei ir, senão me tiveres abençoado." Grande sacramento! Ele tanto está de pé vencido, quanto abençoa o vencedor. Vencido, porque o quis; na carne fraco, na majestade forte. ...Havendo sido crucificado por fraqueza, ressurge Tu em poder: "Desperta o Teu poder, e vem Tu, para nos salvar."
3. "Ó Deus, converte-nos." Pois desviados de Ti temos estado, e a menos que Tu nos convertas, não seremos convertidos. "E ilumina a Tua face, e seremos salvos" (v. 3). Tem Ele acaso uma face escurecida? Ele não tem uma face escurecida, mas colocou diante dela uma nuvem de carne, e como que um véu de fraqueza; e quando pendeu na árvore, não foi tido como o Mesmo que depois havia de ser reconhecido quando estivesse sentado no Céu. Pois assim aconteceu. Cristo presente na terra, e fazendo milagres, Asafe não conheceu; mas quando Ele havia morrido, depois que ressuscitou, e ascendeu ao Céu, ele O conheceu. Foi trespassado no coração, e ele pode também ter dito d'Ele este testemunho que agora reconhecemos neste Salmo. Cobriste Tu a Tua face, e adoecemos: ilumina-a Tu, e seremos sãos.
4. "Ó Senhor Deus das virtudes, até quando estarás irado contra a oração do Teu servo?" (v. 4). Agora Teu servo. Estavas Tu irado contra a oração do Teu inimigo, estarás ainda irado contra a oração do Teu servo? Tu nos converteste, nós Te conhecemos, e estarás ainda irado contra a oração do Teu servo? Estarás manifestamente irado, de fato, como um pai que corrige, não como um juiz que condena. Deste modo, manifestamente, estarás irado, porque foi escrito: "Filho meu, chegando-te ao serviço de Deus, permanece na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação." Não penses que agora a ira de Deus passou, porque foste convertido. A ira de Deus passou de ti, mas somente para que não te condene para sempre. Mas Ele açoita, Ele não poupa: porque açoita a todo filho que recebe. Se recusas ser açoitado, por que desejas ser recebido? Ele açoita a todo filho que recebe. Aquele que não poupou nem mesmo a Seu único Filho, açoita a todos. Mas, contudo, "até quando estarás irado contra a oração do Teu servo?" Já não teu inimigo: mas, "estarás irado contra a oração do Teu servo," até quando? Segue-se: "Nos alimentarás com o pão das lágrimas, e nos darás a beber com lágrimas em medida" (v. 5). Que significa "em medida"? Ouve o Apóstolo: "Fiel é Deus, que não permite que sejais tentados acima do que podeis suportar." A medida é, segundo as vossas forças: a medida é, que sejas instruído, não que sejas esmagado.
5. "Tu nos puseste por contradição a nossos vizinhos" (v. 6). Manifestamente isto aconteceu: pois de Asafe foram escolhidos aqueles que haveriam de ir aos gentios e pregar a Cristo, e a quem se haveria de dizer: "Quem é este anunciador de novos demônios?" "Tu nos puseste por contradição a nossos vizinhos." Pois pregavam Aquele que era o objeto da contradição. A quem pregavam eles? Que depois de morto, Cristo ressuscitou. Quem ouviria isto? Quem saberia disto? É coisa nova. Mas sinais se seguiram, e a uma coisa incrível os milagres deram credibilidade. Ele foi contradito, mas o contraditor foi vencido, e de contraditor foi feito crente. Ali, contudo, houve uma grande chama: ali os mártires alimentados com o pão das lágrimas, e dado a beber em lágrimas, mas em medida, não mais do que podem suportar; a fim de que depois da medida das lágrimas se seguisse uma coroa de alegrias. "E nossos inimigos escarneceram de nós." E onde estão aqueles que escarneceram? Por muito tempo se dizia: Quem são estes que adoram o Morto, que adoram o Crucificado? Por muito tempo assim se dizia. Onde está o nariz daqueles que escarneceram? Agora não fogem para as cavernas aqueles que censuram, para que não sejam vistos? Mas vede o que se segue: "Ó Senhor Deus das virtudes, converte-nos, e mostra a Tua face, e seremos sãos" (v. 7). "Uma vinha do Egito transportaste, expulsaste as nações, e a plantaste" (v. 8). Foi feito, sabemo-lo. Quantas nações foram expulsas? Amorreus, Heteus, Jebuseus, Gergeseus, e Heveus: depois de cuja expulsão e derrota, foi conduzido o povo libertado do Egito, para a terra da promessa. De onde a vinha foi tirada, e onde foi plantada, ouvimos. Vejamos o que em seguida foi feito, como ela creu, quanto cresceu, que terreno cobriu.
6. "Um caminho fizeste diante dela, e plantaste as raízes dela, e ela encheu a terra" (v. 9). Teria ela enchido a terra, se um caminho não tivesse sido feito diante dela? Qual foi o caminho que foi feito diante dela? "Eu sou," diz Ele, "o Caminho, a Verdade, e a Vida." Com razão ela encheu a terra. Isto agora foi dito desta vinha, o que se cumpriu por último. Mas entretanto que? "Ela cobriu os montes com sua sombra, e com seu ramo os cedros de Deus" (v. 10). "Estendeste os seus ramos até o mar, e até o rio os seus rebentos" (v. 11). Isto requer o ofício de um expositor, que o de um leitor e louvador não basta: ajudai-me com atenção; pois a menção desta vinha neste Salmo costuma encobrir de trevas os desatentos. ...Mas, contudo, a primeira nação judaica foi esta vinha. Mas a nação judaica reinou até o mar e até o rio. Até o mar; aparece na Escritura que o mar estava na vizinhança dela. E até o rio Jordão. Pois do outro lado do Jordão alguma parte dos judeus se estabeleceu, mas aquém do Jordão estava toda a nação. Portanto, "até o mar e até o rio," é o reino dos judeus, o reino de Israel: mas não "de mar a mar, e do rio até os confins do orbe;" esta é a futura perfeição da vinha, a respeito da qual neste lugar ele predisse. Quando, digo eu, ele te predisse a perfeição, ele retorna ao princípio, do qual a perfeição foi feita. Do princípio queres ouvir? "Até o rio." Do fim queres ouvir? "Ele terá domínio de mar a mar:" isto é, "ela encheu a terra." Olhemos, pois, para o testemunho de Asafe, quanto ao que foi feito à primeira vinha, e o que se deve esperar para a segunda vinha, ou antes, para a mesma vinha. ...Que, pois, a vinha diante de cuja vista foi feito um caminho, para que enchesse a terra, a princípio onde estava? "Sua sombra cobriu os montes." Quem são os montes? Os Profetas. Por que a sombra dela os cobriu? Porque obscuramente falavam eles as coisas que eram preditas como havendo de vir. Ouves dos Profetas, Guarda o dia de sábado, no oitavo dia circuncida a criança, oferece sacrifício de carneiro, de bezerro, de bode. Não te perturbes, a sombra dela cobre os montes de Deus; virá depois da sombra uma manifestação. "E seus arbustos os cedros de Deus," isto é, ela cobriu os cedros de Deus; muito altos, mas de Deus. Pois os cedros são figuras dos soberbos, que necessariamente hão de ser derrubados. Os "cedros do Líbano," as alturas do mundo, esta vinha cobriu ao crescer, e os montes de Deus, todos os santos Profetas e Patriarcas.
7. Que então? "Por que derrubaste a sua cerca?" (v. 12). Agora vedes a derrocada daquela nação dos judeus: já de outro Salmo ouvistes, "com machado e martelo a derrubaram." Quando poderia isto ter sido feito, se a sua cerca não tivesse sido derrubada? Que é a sua cerca? A sua defesa. Pois ela se ensoberbeceu contra o seu plantador. Os servos que lhe foram enviados e reclamaram recompensa, os lavradores os açoitaram, feriram, mataram: veio também o Filho Único, disseram eles: "Este é o Herdeiro; vinde, matemo-lo, e nossa será a herança:" mataram-No, e da vinha O lançaram fora. Lançado fora, Ele possuiu mais perfeitamente o lugar de onde foi lançado. Pois assim Ele a ameaça por meio de Isaías: "Derrubarei a sua cerca." Por quê? "Porque esperei que ela desse uvas, mas ela deu espinhos." Esperei fruto dali, e encontrei pecado. Por que, então, perguntas tu, ó Asafe: "Por que derrubaste a sua cerca?" Pois não sabes tu por quê? Esperei que ela fizesse juízo, e fez iniquidade. Não haveria necessariamente de ser derrubada a sua cerca? E vieram os gentios quando a cerca foi derrubada, a vinha foi assaltada, e o reino dos judeus foi apagado. Isto a princípio ele lamenta, mas não sem esperança. Pois de dirigir o coração ele agora fala, isto é, para os "assírios," para os "homens que dirigem," é o Salmo. "Por que derrubaste a sua cerca: e a colhem as suas uvas todos os que passam pelo caminho." Que significa "os que passam pelo caminho"? Homens que têm domínio por um tempo.
"Ali a devastou o javali do bosque" (v. 13). No javali do bosque, que entendemos? Para os judeus, o porco é abominação, e no porco imaginam, por assim dizer, a imundície dos gentios. Mas foi pelos gentios que a nação dos judeus foi derrubada: ora, aquele rei que a derrubou não era apenas porco imundo, mas era também javali. Pois que é o javali senão porco selvagem, porco furioso? "O javali do bosque a devastou." "Do bosque", isto é, dos gentios. Pois ela era vinha, mas os gentios eram bosques. Mas quando os gentios creram, disse-se o quê? "Então exultarão todas as árvores dos bosques." "O javali do bosque a devastou; e uma fera singular a devorou." Que é "uma fera singular"? O próprio javali que a devastou é a fera singular. Singular, porque soberba. Pois assim diz todo soberbo: Sou eu, sou eu, e nenhum outro.
Mas com que proveito é isto? "Ó Deus das virtudes, converte-Te, contudo" (v. 14). Ainda que se tenham feito estas coisas, "Converte-Te, contudo." "Olha do céu e vê, e visita esta vinha." "E aperfeiçoa Tu aquela que a Tua destra plantou" (v. 15). Nenhuma outra planta plantes, mas a esta aperfeiçoa. Pois ela é a própria semente de Abraão, ela é a própria semente na qual serão abençoadas todas as nações: ali está a raiz onde é enxertada a oliveira brava. "Aperfeiçoa Tu esta vinha que a Tua destra plantou." Mas em que Ele a aperfeiçoa? "E sobre o Filho do homem, a quem fortaleceste para Ti." Que pode haver de mais evidente? Por que ainda esperais que continuemos a explicar-vos em discurso, e não antes clamemos convosco em admiração: "Aperfeiçoa Tu esta vinha que a Tua destra plantou, e sobre o Filho do homem" aperfeiçoa-a? Que Filho do homem? Aquele "a quem fortaleceste para Ti." Poderosa fortaleza: edifica quanto puderes. "Pois nenhum outro fundamento pode alguém lançar, além do que já está posto, que é Cristo Jesus."
"As coisas queimadas a fogo, e escavadas, pela repreensão do Teu rosto perecerão" (v. 16). Que são as coisas queimadas a fogo e escavadas, que hão de perecer pela repreensão do Seu rosto? Vejamos e percebamos que coisas são as queimadas a fogo e escavadas. Que repreendeu Cristo? Os pecados: pela repreensão do Seu rosto pereceram os pecados. Por que, pois, são os pecados queimados a fogo e escavados? De todos os pecados, duas coisas são no homem a causa: o desejo e o temor. Pensai, examinai, interrogai vossos corações, sondai vossas consciências, vede se pode haver pecados que não sejam ou de desejo, ou de temor. Põe-se diante de ti uma recompensa para induzir-te a pecar, isto é, uma coisa que te deleita; tu o fazes, porque a desejas. Mas talvez não sejas seduzido por subornos; és aterrorizado com ameaças, fazes-o porque temes. Alguém te suborna, por exemplo, para dares falso testemunho. Inumeráveis são os casos, mas ponho diante de vós os mais claros, para que por eles imagineis os demais. Escutaste a Deus, e disseste em teu coração: "Que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, mas sofrer dano de sua própria alma?" Não me deixo seduzir por suborno a perder minha alma para ganhar dinheiro. Volta-se então a suscitar em ti o temor aquele que não pôde corromper-te com suborno; começa a ameaçar perda, desterro, talvez massacres, e morte. Nisto, pois, se o desejo não prevaleceu, talvez o temor prevaleça para fazer-te pecar. ...Que fizera o mau temor? Escavara, por assim dizer. Pois o amor inflama, o temor humilha: por isso, os pecados do mau amor foram acesos a fogo; os pecados do mau temor foram escavados. De um lado, o mau temor humilha, e o bom amor acende; mas de modos diversos, cada qual a seu modo. Pois também o lavrador, intercedendo pela árvore, para que não fosse cortada, diz: "Cavarei ao redor dela, e lhe aplicarei um cesto de estrume." A vala escavada significa a piedosa humildade do que teme, e o cesto de estrume, o proveitoso e sórdido estado do que se arrepende. Mas acerca do fogo do bom amor diz o Senhor: "Vim lançar fogo sobre a terra." Com este fogo ardam os fervorosos de espírito, e também os que se inflamam no amor de Deus e do próximo. E assim, como todas as boas obras são operadas pelo bom temor e pelo bom amor, assim pelo mau temor e pelo mau amor se cometem todos os pecados. Portanto, "as coisas acesas a fogo e escavadas", a saber, todos os pecados, "pela repreensão do Teu rosto perecerão."
Quando, pois, falarem de tais coisas, quando fizerem tais jactâncias, quando disserem estas coisas, e as disserem em desafio, não com temor, mas com altivez, que não vos perturbem. Pois suponde que as pressões abundem; sê tu azeite. Que a borra, enegrecida pelas trevas da ignorância, seja insolente; e que ela, como que lançada nas ruas, vá zombando publicamente: mas tu, contigo mesmo em teu coração, onde Aquele que vê em segredo te recompensará, escoa-te para dentro do lagar.
Nada de tal ouvistes nisto quando se lia. Tomai, pois, os lagares como o mistério da Igreja, que agora se realiza. Nos lagares observamos três coisas: a pressão, e da pressão duas coisas, uma para ser recolhida, outra para ser lançada fora. Realiza-se, então, no lagar um pisar, um esmagar, um peso: e com estes o azeite se escoa secretamente para a tina, e a borra corre abertamente pelas ruas.
1. Por título tem este Salmo: "Até o fim, pelos lagares, na quinta feira do sábado, um Salmo ao próprio Asafe." Em um só título muitos mistérios se acumulam, de tal modo, contudo, que o lintel do Salmo indica as coisas de dentro. Como havemos de falar dos lagares, que ninguém espere que falemos de tina, de prensa, de cestos de azeitona; porque nem o Salmo tem isto, e por isso indica o maior mistério. ...
3. Vede-vos a vós mesmos, ó Asafe, congregação do Senhor. "Exultai a Deus, nosso ajudador" (v. 1). Vós que hoje estais congregados, vós sois hoje a congregação do Senhor, se de fato a vós se canta o Salmo: "Exultai a Deus, nosso ajudador." Outros exultam ao circo, exultai vós a Deus: outros exultam ao seu enganador, exultai vós ao vosso ajudador: outros exultam ao seu deus, que é o ventre, exultai vós ao vosso Deus, que é o vosso ajudador. "Jubilai ao Deus de Jacó." Porque também vós pertenceis a Jacó: sim, vós sois Jacó, o povo mais jovem ao qual serve o mais velho. "Jubilai ao Deus de Jacó." Tudo o que não puderdes explicar em palavras, nem por isso deixeis de exultar: o que puderdes explicar, clamai-o; o que não puderdes, jubilai-o. Pois, da abundância das alegrias, aquele que não encontra palavras suficientes, costuma romper em jubilação; "Jubilai ao Deus de Jacó."
Mas este Salmo, "pelos lagares", e "na quinta feira do sábado", canta-se "a Asafe". Asafe era certo homem assim chamado, como Iditum, como Coré, como outros nomes que encontramos nos títulos dos Salmos: contudo, a interpretação deste nome insinua o mistério de uma verdade oculta. Asafe, com efeito, em latim se interpreta "congregação". Portanto, "pelos lagares, na quinta feira do sábado", canta-se "a Asafe", isto é, para uma pressão distintiva, aos batizados, renascidos da água, canta-se o Salmo à congregação do Senhor. Lemos o título no lintel, e entendemos o que significa por estes "lagares". Agora, se vos apraz, vejamos a própria casa da composição, isto é, o interior do lagar. Entremos, olhemos para dentro, alegremo-nos, temamos, desejemos, evitemos. Pois todas estas coisas haveis de encontrar nesta casa interior, isto é, no próprio texto do Salmo, quando começarmos a ler, e, com o auxílio do Senhor, a dizer o que Ele nos conceder.
Por que também "no quinto dia depois do sábado"? Que é isto? Voltemos às primeiras obras de Deus, para vermos se ali, porventura, encontramos algo em que possamos também entender um mistério. Pois o sábado é o sétimo dia, no qual "Deus repousou de todas as Suas obras", significando o grande mistério do nosso futuro repouso de todas as nossas obras. Chama-se, pois, primeiro depois do sábado aquele primeiro dia, que também chamamos dia do Senhor; segundo depois do sábado, o segundo dia; ...e o próprio sábado, o sétimo dia. Vede, portanto, a quem fala este Salmo. Pois parece-me que fala aos batizados. Porquanto no quinto dia Deus criou das águas os animais: no quinto dia, isto é, no "quinto depois do sábado", disse Deus: "Produzam as águas répteis de almas viventes". Vede, pois, vós em quem as águas já produziram répteis de almas viventes. Pois pertenceis aos lagares, e em vós, que as águas produziram, uma coisa é coada, outra é lançada fora. Pois há muitos que não vivem dignamente do batismo que receberam. Quantos batizados, com efeito, preferiram estar enchendo o Circo a esta Basílica! Quantos batizados ou estão fazendo tendas nas ruas, ou se queixam de que não as fizeram!
... Para mencionar uma só coisa da qual murmuram até os que as cometem: Quão grandes pilhagens, dizem eles, há em nossos tempos, quão grandes aflições dos inocentes, quão grandes roubos dos bens alheios! Assim, de fato, tu reparas nas fezes, que os bens alheios são arrebatados; ao azeite não prestas atenção, que aos pobres são dados até mesmo os bens próprios. O tempo antigo não teve tais saqueadores dos bens alheios: mas o tempo antigo também não teve tais doadores dos bens próprios. ...
Contemplai atentamente este grande espetáculo. Pois Deus não cessa de exibir-nos aquilo que podemos contemplar com grande alegria, nem a loucura do Circo há de comparar-se com este espetáculo. Aquilo pertence às fezes, isto ao azeite. Quando, pois, ouvirdes os blasfemos tagarelarem impudentemente e dizerem que as aflições abundam nos tempos cristãos; pois sabeis que gostam de dizer isto: e é um antigo provérbio, embora tenha começado nos tempos cristãos, "Deus não dá chuva; ponde-o na conta dos cristãos!" Ainda que fossem os antigos que assim falavam. Mas estes agora dizem também: "Que Deus mande chuva, ponde-o na conta dos cristãos! Deus não manda chuva; não semeamos! Deus manda chuva; não colhemos!" E deliberadamente fazem disso ocasião para mostrar soberba, quando deveria antes torná-los mais fervorosos na súplica, preferindo blasfemar a orar.
4. "Tomai o Salmo e dai o tamboril" (v. 2). Tanto "tomai" quanto "dai". Que é "tomai"? Que é "dai"? "Tomai o Salmo, e dai o tamboril." O Apóstolo Paulo diz em certo lugar, repreendendo e lastimando-se, que ninguém comunicara com ele na questão de dar e receber. Que é "na questão de dar e receber", senão aquilo que ele abertamente expôs em outro lugar: "Se vos semeamos as coisas espirituais, é grande coisa se ceifarmos as vossas carnais?" E é verdade que o tamboril, que é feito de couro, pertence à carne. O Salmo, portanto, é espiritual; o tamboril, carnal. Portanto, povo de Deus, congregação de Deus, "tomai vós o Salmo, e dai o tamboril": tomai vós as coisas espirituais, e dai as carnais. Isto também é o que naquela mesa do bem-aventurado Mártir vos exortamos, que, recebendo as coisas espirituais, dêsseis as carnais. Pois estas construções que se erguem para o tempo são necessárias para receber os corpos, seja dos vivos, seja dos mortos, mas em tempo que passa. Acaso, depois do juízo de Deus, havemos de levar estes edifícios ao Céu? Todavia, sem estas, não poderemos neste tempo fazer as coisas que pertencem à posse do Céu. Se, pois, sois ávidos em obter as coisas espirituais, sede devotos em despender as carnais. "Tomai o Salmo, e dai o tamboril": tomai a nossa voz, retribuí com as vossas mãos.
5. "O saltério suave, com a harpa." Lembro-me de que uma vez fizemos notar à vossa caridade a diferença entre o saltério e a harpa. ...Pois celestial é a pregação da palavra de Deus. Mas, se aguardamos as coisas celestiais, não sejamos indolentes em trabalhar as terrenas; porque "o saltério é suave", mas "com a harpa". A mesma coisa se exprime de outro modo, como acima: "Tomai o Salmo, e dai o tamboril": aqui, por "Salmo" se põe "saltério", por "tamboril", "harpa". Disto, porém, somos admoestados, que à pregação da palavra de Deus respondamos com obras corporais.
6. "Tocai a trombeta" (v. 3). Isto é: Pregai em alta voz e com ousadia, não vos atemorizeis! como diz o Profeta em certo lugar: "Clama, e levanta a tua voz como trombeta." "Tocai a trombeta no princípio do mês da trombeta." Foi ordenado que, no princípio do mês, houvesse um tocar de trombeta: e isto ainda agora fazem os judeus de modo corporal, pois segundo o espírito não o entendem. Porquanto o princípio do mês é a lua nova: a lua nova é a vida nova. Que é a lua nova? "Se, pois, alguém está em Cristo, é nova criatura." Que é "tocai a trombeta no princípio do mês da trombeta", senão: Com toda confiança pregai a vida nova, não temais o ruído da vida velha.
7. "Porque é um preceito para Israel, e um juízo para o Deus de Jacó" (v. 4). Onde há preceito, há juízo. Pois "Os que pecaram na Lei, pela Lei serão julgados." E o próprio Autor do preceito, o Senhor Cristo, o Verbo feito carne, diz: "Para juízo vim Eu a este mundo, para que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegados." Que é "que os que não veem vejam, os que veem sejam cegados", senão que os humildes sejam exaltados, os soberbos derrubados? Pois não são os que veem que hão de ser cegados, mas os que a si mesmos parecem ver que hão de ser convencidos de cegueira. Isto se realiza no mistério do lagar, para que os que veem não vejam, e os que veem sejam cegados.
8. "Um testemunho em José Ele estabeleceu" (v. 5). Vede, irmãos, que é isto? José interpreta-se aumento. Lembrai-vos, sabeis de José vendido para o Egito: José vendido para o Egito é Cristo passando aos gentios. Ali José, depois das tribulações, foi exaltado, e aqui Cristo, depois do sofrimento dos Mártires, foi glorificado. Doravante, a José pertencem antes os gentios, e doravante o aumento; porque "muitos são os filhos da que estava deserta, mais do que os da que tem marido." "Ele o estabeleceu, até que saísse da terra do Egito." Observai que também aqui se significa o "quinto depois do sábado": quando José saiu da terra do Egito, isto é, quando o povo se multiplicou por meio de José, foi feito passar pelo Mar Vermelho. Portanto, também ali, as águas produziram répteis de almas viventes. Nenhuma outra coisa era o que ali, em figura, a passagem daquele povo pelo mar prefigurava, senão a passagem dos Fiéis pelo Batismo; testemunha o apóstolo: pois "não quero, irmãos, que ignoreis", disse ele, "que todos os nossos pais estiveram debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar, e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar." Nenhuma outra coisa, pois, significava a passagem pelo mar, senão o Sacramento dos batizados; nenhuma outra coisa os egípcios que perseguiam, senão a multidão dos pecados passados. Vedes mistérios evidentíssimos. Os egípcios apertam, urgem; assim, pois, os pecados perseguem de perto, mas não além da água. Por que, então, temes tu, que ainda não chegaste, chegar ao Batismo de Cristo, passar pelo Mar Vermelho? Que é "Vermelho"? Consagrado com o Sangue do Senhor. Por que temes chegar? A consciência, talvez, de alguns enormes delitos aguilhoa e atormenta o teu ânimo, e te diz que é tão grande coisa a que cometeste, que podes desesperar de que te seja remitida. Teme que reste algo dos teus pecados, se sobrevivesse algum dos egípcios!
Mas quando tiveres passado o Mar Vermelho, quando tiveres sido conduzido para fora das tuas ofensas "com mão poderosa e braço forte", perceberás mistérios que não conheces: pois também o próprio José, "quando saiu da terra do Egito, ouviu uma língua que não conhecia." Ouvirás uma língua que não conheces: a qual os que já a conhecem agora ouvem e reconhecem, testemunhando e sabendo. Ouvirás onde deverias ter o teu coração: o que, agora mesmo, quando eu disse, muitos entenderam e responderam com aclamação, os demais permaneceram mudos, porque não ouviram a língua que não conheciam. Apressem-se, pois, passem, aprendam.
9. "Retirou dos fardos as suas costas" (v. 6). Quem "retirou dos fardos as suas costas", senão Aquele que clamou: "Vinde a Mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados"? De outro modo se significa esta mesma coisa. O que fazia a perseguição dos egípcios, o mesmo fazem os fardos dos pecados. Como se dissesses: De que fardos? "As suas mãos serviram no cesto." Pelo cesto se significam as obras servis; limpar, estrumar, carregar terra, faz-se com um cesto; tais obras são servis: porque "todo aquele que comete pecado é escravo do pecado"; e "se o Filho vos libertar, então sereis verdadeiramente livres." Justamente também as coisas rejeitadas do mundo são contadas como cestos, mas até cestos Deus encheu de pedaços; "Doze cestos" encheu de pedaços; porque "escolheu as coisas rejeitadas deste mundo para confundir as fortes." Mas também, quando com o cesto José servia, então carregava terra, porque fazia tijolos. "As suas mãos serviram no cesto."
10. "Na tribulação clamaste a Mim, e Eu te livrei" (v. 8). Reconheça-se cada consciência cristã, se devotamente atravessou o Mar Vermelho, se com fé, crendo e observando, ouviu uma língua estranha que não conhecia; reconheça-se como tendo sido ouvida em sua tribulação. Pois grande tribulação era aquela, estar sobrecarregado com o peso dos pecados. Como se alegra a consciência, erguida da terra! Eis que és batizado; tua consciência, que ontem estava sobrecarregada, hoje te alegra. Foste ouvido na tribulação; recorda-te de tua tribulação. Antes de chegares à água, que ansiedade carregavas sobre ti! Que jejuns praticaste! Que tribulações carregavas em teu coração! Que orações íntimas, piedosas, devotas! Mortos estão teus inimigos; apagados estão todos os teus pecados. Na tribulação clamaste a Mim, e Eu te livrei.
11. "Ouvi-te no oculto da tempestade." Não numa tempestade do mar, mas numa tempestade do coração. "Provei-te nas águas da contradição." Verdadeiramente, irmãos, verdadeiramente, aquele que foi ouvido no oculto da tempestade deve ser provado nas águas da contradição. Pois quando tiver crido, quando tiver sido batizado, quando tiver começado a andar no caminho de Deus, quando se tiver esforçado por ser prensado no lagar, e se houver retirado das fezes que correm pela rua, terá muitos perturbadores, muitos insultadores, muitos detratores, muitos desanimadores, muitos que até ameaçam onde podem, que dissuadem, que deprimem. Tudo isto é a "água da contradição". Suponho que há hoje aqui alguns, por exemplo — julgo provável que haja aqui alguns a quem seus amigos quiseram arrastar apressadamente ao circo, e a não sei que frivolidades desta festividade do dia: talvez tenham trazido consigo essas pessoas à igreja. Mas quer as tenham trazido consigo, quer não se tenham deixado levar ao circo por elas, na "água da contradição" foram provados. Não te envergonhes, pois, de proclamar o que sabes, de defender, mesmo entre blasfemos, o que criste... Por mais que os maus que são estranhos se enfureçam, oxalá os nossos próprios maus não os ajudassem!
Recordai-vos do que se disse de Cristo, que assim nasceu para "queda de muitos, e ressurreição de muitos, e para sinal que será contraditado". Sabemos, vemos: o sinal da Cruz foi erguido, e foi contraditado. Houve contradição contra a glória da Cruz; mas havia sobre a Cruz um título que não devia ser corrompido. Pois há um título no Salmo: "Pela inscrição do título, não corrompas." Era um sinal a ser contraditado: pois disseram os judeus: "Não escrevas Rei dos Judeus, mas que Ele disse: Sou Rei dos Judeus." Vencida foi a contradição; respondeu-se: "O que escrevi, escrevi."
12. Tudo isto, desde o início do Salmo até este versículo, ouvimos acerca do azeite do lagar. O que resta é antes para tristeza e advertência: pois pertence às fezes do lagar, até o fim; talvez também não sem sentido a interposição do "Diapsalma". Mas também isto é proveitoso ouvir, para que aquele que já se vê no azeite se alegre; aquele que está em perigo de correr entre as fezes se acautele. Atendei a ambos: escolhei um, temei o outro.
"Ouve, povo Meu, e falarei, e testemunharei contra ti" (v. 8). Pois não é a um povo estranho, não a um povo que não pertence ao lagar: "Julgai vós", diz Ele, "entre Mim e a Minha vinha."
1. Este Salmo, como outros de nome semelhante, foi assim intitulado ou pelo nome do homem que o escreveu, ou pela explicação desse mesmo nome, de modo a referir-se, em seu sentido, à Sinagoga, que Asafe significa; especialmente porque isto se insinua no primeiro versículo. Pois começa: "Deus está na sinagoga dos deuses" (v. 1). Longe esteja de nós, contudo, entender por estes deuses os deuses dos gentios, ou ídolos, ou qualquer criatura no céu ou na terra, exceto os homens; pois pouco depois deste versículo o mesmo Salmo relata e explica que deuses são estes em cuja sinagoga Deus está, quando diz: "Eu disse: Sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo; mas morrereis como homens, e caireis como um dos príncipes." Na sinagoga destes filhos do Altíssimo, dos quais o mesmo Altíssimo disse pela boca de Isaías: "Gerei filhos e os exaltei, mas eles Me desprezaram", esteve Deus. Por sinagoga entendemos o povo de Israel, porque sinagoga é o termo próprio usado para eles, embora também fossem chamados Igreja. A nossa congregação, ao contrário, os Apóstolos nunca chamaram sinagoga, mas sempre Ecclesia; seja pela distinção, seja porque há alguma diferença entre uma congregação de onde a sinagoga tem seu nome, e uma convocação de onde a Igreja é chamada Ecclesia: pois a palavra congregação (ou ajuntamento) usa-se do gado, e particularmente daquela espécie propriamente chamada "rebanhos", ao passo que convocação (ou chamamento conjunto) é mais própria das criaturas racionais, como são os homens... Penso, pois, que está claro em qual sinagoga de deuses Deus está.
2. A questão seguinte é se devemos entender o Pai, ou o Filho, ou o Espírito Santo, ou a Trindade, como "estando no meio da congregação dos deuses, e no meio distinguindo os deuses"; porque Cada Um é Deus, e a própria Trindade é Um Só Deus. Não é, na verdade, fácil esclarecer isto, porque não se pode negar que existe, de modo admirável, uma presença de Deus junto às coisas criadas — não corpórea, mas espiritual, conforme a Sua natureza —, presença que poucos compreendem, e ainda assim imperfeitamente: como se diz de Deus, "Se subir aos céus, Tu ali estás; se descer ao inferno, também ali estás." Daí se diz corretamente que Deus está invisivelmente na congregação dos homens, assim como enche o céu e a terra, o que Ele mesmo afirma de Si pela boca do Profeta; e não apenas se diz, mas de certo modo se sabe que Ele está naquilo que criou, tanto quanto a mente humana pode conceber, se também o homem está e O ouve, e se alegra grandemente por causa da Sua voz interior. Mas penso que o Salmo insinua algo que ocorreu em um tempo determinado, pelo fato de Deus estar na congregação dos deuses. Pois aquela presença pela qual Ele enche o céu e a terra nem pertence peculiarmente à sinagoga, nem varia de tempo em tempo. "Deus", portanto, "está na congregação dos deuses"; isto é, Aquele que disse de Si mesmo: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Menciona-se também a causa: "mas no meio, para julgar os deuses"...
3. "Até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios?" (v. 2); como em outro lugar: "Até quando sereis pesados de coração?" Até que venha Aquele que é a luz do coração? Dei uma lei, resististes obstinadamente: enviei Profetas, tratastes-os injustamente, ou os matastes, ou consentistes com os que assim fizeram. Mas se não são dignos sequer de que se lhes fale, aqueles que mataram os servos de Deus que lhes foram enviados, vós que vos calastes enquanto isto se fazia, isto é, vós que quereríeis imitar, como se fossem inocentes, aqueles que então se calaram, "até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios?" Se o Herdeiro vem agora mesmo, há de ser morto? Não quis Ele, por vossa causa, fazer-Se como que uma criança sob tutores? Não sofreu Ele, por vossa causa, fome e sede como quem tem necessidade? Não vos clamou: "Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração"? Não Se fez pobre, sendo rico, para que por Sua pobreza fôssemos enriquecidos? "Dai sentença", portanto, "pelo órfão e pelo pobre; justificai o humilde e o necessitado" (v. 3). Não a estes que por si mesmos são ricos e soberbos, mas Àquele que por vós foi humilde e pobre, crede ser justo: proclamai-O justo. Mas hão de O invejar, e não hão de poupá-Lo em absoluto, dizendo: "Este é o Herdeiro, vinde, matemo-Lo, e a herança será nossa." "Livrai", pois, "o pobre, e salvai o necessitado das mãos dos ímpios" (v. 4). Isto se diz para que se saiba que, naquela nação onde Cristo nasceu e foi morto, não estavam isentos de tão grande crime aqueles que, sendo tão numerosos que, como diz o Evangelho, os judeus os temiam, e por isso não ousavam pôr as mãos em Cristo, depois consentiram, e permitiram que Ele fosse morto pelos governantes judeus, maliciosos e invejosos: contudo, se assim o houvessem querido, ainda seriam temidos, de modo que as mãos dos ímpios jamais teriam prevalecido contra Ele. Pois destes se diz em outro lugar: "Cães mudos, não sabem ladrar." Deles também se diz: "Eis como perece o justo, e ninguém o considera em seu coração." Pereceu, quanto estava da parte daqueles que O quiseram ver perecer; pois como poderia perecer morrendo Aquele que, morrendo dessa forma, antes buscava recuperar o que havia perecido? Se, pois, são justamente culpados e merecidamente repreendidos os que, por seu dissimular, permitiram que se cometesse tão ímpio feito, quanto devem ser culpados — ou antes, não somente culpados, mas quão severamente devem ser condenados — os que fizeram isto por desígnio e malícia!
4. A todos eles, na verdade, ajusta-se perfeitamente o que se segue: "Não souberam nem entenderam, andam em trevas" (v. 5). "Pois se o houvessem sabido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória"; e aqueles outros, se o houvessem sabido, jamais teriam consentido em pedir que Barrabás fosse libertado, e Cristo crucificado. Mas, como a cegueira acima mencionada aconteceu em parte a Israel, até que entrasse a plenitude dos gentios, tendo esta cegueira daquele povo causado a crucificação de Cristo, "todos os fundamentos da terra serão abalados." Assim foram abalados, e hão de ser abalados, até que entre a predestinada plenitude dos gentios. Pois, na própria morte do Senhor, a terra foi abalada, e as rochas se fenderam. E se entendermos por fundamentos da terra aqueles que são ricos na abundância de bens terrenos, foi verdadeiramente predito que seriam abalados, seja por se admirarem de que a baixeza, a pobreza, a morte fossem assim amadas e honradas em Cristo, quando a seus olhos isto é grande miséria; seja mesmo por virem eles próprios a amá-la e segui-la, e a desprezar a vã felicidade deste mundo. Assim são abalados todos os fundamentos da terra, enquanto em parte se admiram, e em parte se transformam. Pois, sem impropriedade, chamamos fundamentos do céu àqueles sobre os quais se edifica o reino dos céus, nas pessoas dos santos e fiéis; cujo primeiro fundamento é o próprio Cristo, nascido da Virgem, do qual diz o Apóstolo: "Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo"; em seguida, os próprios Apóstolos e Profetas, por cuja autoridade se elege o lugar celeste, para que, obedecendo-lhes, sejamos edificados juntamente com eles; donde diz aos Efésios: "Estais edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra angular"... Mas o reino da felicidade terrena é a soberba, à qual veio opor-se a humildade de Cristo, repreendendo aqueles a quem quis, pela humildade, fazer filhos do Altíssimo, e censurando-os: "Eu disse: Sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo" (v. 6). "Mas morrereis como homens, e caireis como um dos príncipes" (v. 7). Quer a estes tenha dito: "Eu disse: Sois deuses", e particularmente aos não predestinados à vida eterna; e aos outros: "Mas morrereis como homens", etc., "e caireis como um dos príncipes", distinguindo assim também os deuses; quer censure a todos em conjunto, a fim de distinguir os obedientes e os que receberam correção: "Eu disse: Sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo": isto é, a todos vós prometi a felicidade celeste, "mas vós", pela fraqueza de vossa carne, "morrereis como homens", e, pela soberba da alma, "como um dos príncipes" — isto é, o diabo —, não sereis exaltados, mas "caireis". Como se dissesse: Ainda que os dias de vossa vida sejam tão poucos, que rapidamente morreis como homens, isto não aproveita à vossa correção; mas, como o diabo, cujos dias são muitos neste mundo, porque não morre na carne, vós vos exaltais para que caiais. Pois pela soberba diabólica sucedeu que os perversos e cegos governantes dos judeus invejassem a glória de Cristo: por esta mesma vontade sucedeu, e ainda sucede, que a humildade de Cristo crucificado até a morte seja levianamente estimada aos olhos daqueles que amam a excelência deste mundo.
5. E, portanto, para que este vício seja curado, na pessoa do próprio Profeta se diz: "Levanta-Te, ó Deus, e julga a terra" (v. 8); pois a terra se ensoberbeceu ao Te crucificar: levanta-Te dos mortos, e julga a terra. "Pois Tu hás de destruir entre todas as nações." Destruir o quê, senão a terra? Isto é, destruindo os que sabem a coisas terrenas, ou destruindo o próprio sentimento de cobiça e soberba terrena nos crentes; ou separando os que não creem, como terra a ser pisada e a perecer. Assim, por meio de Seus membros, cuja conversação está nos céus, Ele julga a terra, e a destrói entre todas as nações. Mas não devo omitir observar que alguns exemplares trazem: "pois herdarás entre todas as nações." Isto também pode ser entendido convenientemente ao sentido, e nada impede que ambos os significados subsistam ao mesmo tempo. A Sua herança se dá pelo amor, o qual, cultivando-o por Seus mandamentos e graciosa misericórdia, destrói os desejos terrenos.
2. O povo de Deus, então, diz neste Salmo: "Ó Deus, quem será semelhante a Ti?" (v. 1). O que suponho ser mais propriamente entendido de Cristo, porque, feito à semelhança dos homens, era tido por aqueles que O desprezavam como comparável a outros homens: pois foi mesmo "contado entre os injustos", mas para este fim, que fosse julgado. Mas quando vier para julgar, então se fará o que aqui se diz: "Ó Deus, quem é semelhante a Ti?" Pois se os Salmos não costumassem falar ao Senhor Cristo, tampouco se diria aquilo que nenhum dos fiéis pode duvidar que foi dito a Cristo: "Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de retidão é o cetro do Teu reino." A Ele, portanto, também agora se diz: "Ó Deus, quem será semelhante a Ti?" Pois a muitos Te dignaste assemelhar-Te em Tua humilhação, até mesmo aos ladrões que foram crucificados contigo: mas quando em glória vieres, "quem será semelhante a Ti?"...
1. O título deste Salmo é: "Cântico de um Salmo de Asafe." Já frequentemente dissemos qual é a interpretação de Asafe, isto é, congregação. Aquele homem, portanto, que se chamou Asafe, é nomeado nos títulos de muitos Salmos em representação da congregação do povo de Deus. Mas em grego, congregação se diz sinagoga, o que veio a ser tido como uma espécie de nome próprio do povo judeu, de modo que se chamasse A Sinagoga; assim como o povo cristão é mais usualmente chamado A Igreja, porquanto também ele se congrega.
"Pois eis que os teus inimigos bramaram, e os que te odeiam levantaram a cabeça" (v. 2). Parece-me que ele significa os últimos dias, quando estas coisas que agora são reprimidas pelo temor hão de irromper em livre manifestação, mas de todo irracional, de modo que devesse antes ser chamada "bramido" do que fala ou discurso. Não começarão, pois, então a odiar, mas "os que te odeiam" então "levantarão a cabeça". E não "cabeças", mas "cabeça"; visto que hão de chegar mesmo a esse ponto, de terem aquela cabeça que "se levanta acima de tudo o que se chama Deus, e que é adorado"; de modo que nele especialmente se há de cumprir: "Aquele que a si mesmo se exalta será humilhado"; e quando Aquele a quem se diz: "Não te cales, nem te aplaques, ó Deus", "o matar com o sopro de sua boca, e o destruir com o resplendor de sua vinda". "Contra o teu povo tomaram astuciosamente conselho" (v. 3). Ou, como trazem outras cópias, "tramaram astuciosamente um conselho, e conspiraram contra os teus santos". Em escárnio se diz isto. Pois como poderiam eles ferir a nação ou o povo de Deus, ou os seus santos, que sabem dizer: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?"
"Disseram: Vinde, e destruamo-los, para que não mais sejam nação" (v. 4). Pôs o número singular pelo plural: como se diz, "de quem é este gado", ainda que se trate de um rebanho, com o sentido de "estes gados". Por fim, outras cópias trazem "para que não mais sejam nações", onde os tradutores antes seguiram o sentido que a palavra. "Vinde, e destruamo-los, para que não mais sejam nação." É este o bramido pelo qual eles antes "bramiram" do que falaram, pois vãmente fizeram ruído com vãs palavras. "E não se mencione mais o nome de Israel." Outros exprimiram isto mais claramente: "e não haja mais memória do nome de Israel." Pois "que se mencione do nome" (memoretur nominis) é frase incomum na língua latina; é antes costume dizer "que se mencione o nome" (memoretur nomen); mas o sentido é o mesmo. Pois quem disse "que se mencione do nome" traduziu a frase grega. Mas Israel deve aqui ser entendido, de fato, quanto à semente de Abraão, à qual diz o Apóstolo: "Logo, sois semente de Abraão, herdeiros segundo a promessa." Não Israel segundo a carne, do qual diz: "Eis Israel segundo a carne."
"Pois de comum acordo conspiraram; juntos, contra ti dispuseram um testamento" (v. 5): como se pudessem ser os mais fortes. De fato, "testamento" é nome dado nas Escrituras não apenas ao que não tem valor senão após a morte dos testadores, mas toda aliança e decreto costumavam eles chamar testamento. Pois Labão e Jacó fizeram um testamento, que decerto haveria de ter vigor entre os vivos; e inúmeros casos assim se leem nas palavras de Deus. Começa então a fazer menção aos inimigos de Cristo, sob certos nomes próprios de nações; a interpretação desses nomes indica suficientemente o que ele queria fosse entendido. Pois por tais nomes figuram-se mui apropriadamente os inimigos da verdade. "Idumeus", por exemplo, se interpretam ou "homens de sangue", ou "de terra". "Ismaelitas" são "obedientes a si mesmos", e portanto não a Deus, mas a si mesmos. "Moabe", "do pai"; o que, em sentido mau, não tem melhor explicação senão considerando-se ligado à própria história, pois Ló, um pai, pelo comércio ilícito procurado por sua filha, o gerou; visto que foi por essa mesma circunstância que assim foi nomeado. Bom, porém, era seu pai, mas assim como "a Lei é boa se dela se usa legitimamente", não impura e ilegitimamente. "Hagarenos", prosélitos, isto é, estrangeiros, por cujo nome também se significam, entre os inimigos do povo de Deus, não aqueles que se tornam cidadãos, mas os que perseveram em ânimo estranho e alheio, e que, ocorrendo ocasião de fazer mal, se manifestam. "Gebal", "vale vão", isto é, humilde em aparência. "Amon", "povo inquieto", ou "povo de tristeza". "Amalec", "povo que lambe"; donde alhures se diz: "e seus inimigos lamberão a terra." A "raça alienígena", ainda que pelo próprio nome em latim suficientemente se mostrem estrangeiros, e por essa causa evidentemente inimigos, contudo em hebraico se chamam "Filisteus", o que se explica "caídos da bebida", como de pessoas embriagadas pela luxúria mundana. "Tiro" em hebraico se chama Sor; que, seja interpretado estreiteza ou tribulação, deve ser tomado, no caso destes inimigos do povo de Deus, naquele sentido de que fala o Apóstolo: "Tribulação e angústia sobre toda alma de homem que faz o mal." Todos estes assim se enumeram nos Salmos: "As tendas dos edomitas, ismaelitas, Moabe e os hagarenos, Gebal, e Amon, e Amalec, e os filisteus com os que habitam Tiro."
6. E como que a apontar a causa por que são inimigos do povo de Deus, acrescenta: "Pois Assur veio com eles." Ora, Assur é frequentemente usado figuradamente pelo diabo, "que opera nos filhos da desobediência", como em seus próprios vasos, para que assaltem o povo de Deus. "Ajudaram os filhos de Ló", diz ele: pois todos os inimigos, pela operação neles do diabo, seu príncipe, "ajudaram os filhos de Ló", que se explica significar "um que declina". Mas bem se explicam os anjos apóstatas como filhos da declinação, pois, declinando da verdade, desviaram-se para se tornarem seguidores do diabo. Estes são aqueles de quem fala o Apóstolo: "Não lutais contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, e os príncipes das trevas deste mundo, contra as maldades espirituais nas regiões celestes." Esses inimigos invisíveis são então ajudados pelos homens incrédulos, nos quais operam a fim de assaltar o povo de Deus.
7. Vejamos agora o que o espírito profético ora que caia sobre eles, antes profetizando que amaldiçoando. "Faze-lhes tu", diz ele, "como a Madiã e a Sísera, como a Jabim junto ao ribeiro de Quisom" (v. 9). "Pereceram em Endor, tornaram-se como esterco da terra" (v. 10). Todos estes, relata a história, foram subjugados e vencidos por Israel, que então era o povo de Deus: como foi também o caso daqueles que a seguir menciona: "Faze aos seus príncipes como a Orebe e Zeebe, e a Zebá e Salmana" (v. 11). O significado destes nomes é o seguinte: Madiã se interpreta juízo pervertido; Sísera, exclusão da alegria; Jabim, sábio. Mas nestes inimigos vencidos pelo povo de Deus deve entender-se aquele sábio de quem fala o Apóstolo: "Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o disputador deste século?" Orebe é secura, Zeebe, lobo, Zebá, uma vítima, a saber, do lobo; pois também ele tem suas vítimas; Salmana, sombra de comoção. Todos estes convêm aos males que o povo de Deus vence pelo bem. Além disso, Quisom, a torrente em que foram vencidos, se interpreta a sua dureza. Endor, onde pereceram, se interpreta a Fonte da geração, mas da geração carnal, a saber, à qual foram entregues, e por isso pereceram, não atentando para a regeneração que conduz à vida, onde não se casarão nem se darão em casamento, pois não mais morrerão. Bem se diz, pois, destes: "tornaram-se como esterco da terra", pois nada deles se produziu senão a fecundidade da terra. Assim como, pois, todos estes foram figuradamente vencidos pelo povo de Deus, como figuras, assim ele ora para que aqueles outros inimigos sejam vencidos em verdade.
8. "Todos os seus príncipes, que disseram: Tomemos para nós em posse o santuário de Deus" (v. 12). Este é aquele vão bramido, com o qual, como dito acima, os teus inimigos fizeram um murmúrio. Mas o que se há de entender por "o santuário de Deus", senão o templo de Deus? como diz o Apóstolo: "Pois o templo de Deus é santo, o qual templo sois vós." Pois que outra coisa visam os inimigos, senão tomar em posse, isto é, tornar sujeito a si o templo de Deus, para que ele ceda às suas ímpias vontades?
9. Mas o que se segue? "Deus meu, faze-os como uma roda" (v. 13). Isto se toma adequadamente no sentido de que não sejam constantes em nada do que pensam; mas creio que também se pode bem explicar: faze-os como uma roda, porque uma roda se ergue pela parte de trás, e se abate pela parte da frente; e assim acontece a todos os inimigos do povo de Deus. Pois isto não é um desejo, mas uma profecia. Acrescenta: "como a palha diante do vento." Por face entende presença; pois que face tem o vento, que não tem feições corpóreas, sendo apenas um movimento, como uma espécie de onda do ar? Mas é posto pela tentação, pela qual são arrebatados os corações leves e vãos.
10. Esta leviandade, pela qual facilmente se dá consentimento ao mal, é seguida de severo tormento; por isso prossegue:
4. Portanto, caríssimos, façam votos cada um conforme puder, e cumpram ao Senhor Deus o que cada um puder: que ninguém olhe para trás, ninguém se compraza em seus antigos interesses, ninguém se desvie do que está adiante para o que está atrás: corra até chegar: pois não corremos com os pés, mas com o desejo. Mas que ninguém, nesta vida, diga que já chegou. Pois quem pode ser tão perfeito quanto Paulo? Contudo ele diz: "Irmãos, não considero ter já alcançado."
"Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos" (v. 1). Ele estava em certos tabernáculos, isto é, em lagares: mas ansiava por outros tabernáculos, onde não há pressão: nestes suspirava por aqueles, destes, por assim dizer, escorria para aqueles pelo canal do desejo anelante.
Mas, postos sob pressão, somos esmagados para este fim: que, pelo amor com que éramos levados para essas coisas mundanas, seculares, temporais, instáveis e perecíveis, tendo padecido nelas, nesta vida, tormentos e tribulações de pressões, e abundância de tentações, comecemos a buscar aquele descanso que não é desta vida, nem desta terra; e o Senhor se torna, como está escrito, "refúgio para o pobre". Que significa "para o pobre"? Para aquele que é, por assim dizer, destituído, sem auxílio, sem ajuda, sem nada em que possa repousar, na terra. Pois para tais pobres, Deus está presente. Pois embora os homens abundem em dinheiro na terra, ...eles se enchem mais de temor do que de gozo. Pois o que há de tão incerto quanto uma coisa que rola? Não sem propósito o próprio dinheiro é cunhado redondo, porque não permanece quieto. Tais homens, portanto, ainda que tenham algo, são todavia pobres. Mas aqueles que não têm nada dessa riqueza, mas apenas a desejam, são também contados entre os ricos que serão rejeitados; pois Deus não leva em conta o poder, mas a vontade. Os pobres, então, são destituídos de toda a substância deste mundo, pois ainda que ela abunde ao seu redor, eles sabem quão fugaz é; e clamando a Deus, não tendo neste mundo nada com que se deleitem e sejam retidos, postos em abundantes pressões e tentações, como que em lagares, escorrem, tendo-se tornado azeite ou vinho. Que são estes últimos senão bons desejos? Pois Deus permanece seu único objeto de desejo; agora não amam a terra. Pois amam Aquele que fez o céu e a terra; amam-nO, e ainda não estão com Ele. Seu desejo é retardado, a fim de que aumente; aumenta, a fim de que receba. Pois não é coisa pequena o que Deus dará a quem deseja, nem precisa ser pouco exercitado para se tornar apto a receber tão grande bem: não algo que Ele fez dará Deus, mas a Si mesmo, que fez todas as coisas. Exercita-te para receber a Deus: aquilo que hás de ter para sempre, deseja-o por longo tempo. ...
Se, portanto, sentes as paixões deste mundo, mesmo quando és feliz, entendes agora que estás no lagar. ...Se, portanto, o mundo te sorrir com felicidade, imagina-te no lagar, e dize: "Achei tribulação e angústia, e invoquei o nome do Senhor." Não disse ele, achei tribulação, sem significado, mas de tal espécie que estava oculta: pois algumas tribulações estão ocultas para alguns neste mundo, os quais pensam que são felizes enquanto estão ausentes de Deus. "Pois enquanto estamos no corpo", diz ele, "estamos ausentes do Senhor." Se estivesses ausente de teu pai, serias infeliz: estás ausente do Senhor, e feliz? Há, pois, alguns que pensam que lhes vai bem. Mas aqueles que entendem que, em qualquer abundância de riquezas e prazeres, ainda que todas as coisas obedeçam ao seu aceno, ainda que nada de penoso se insinue, nada de adverso os aterrorize, contudo estão em má situação enquanto estiverem ausentes do Senhor; com olhar mui perspicaz, estes acharam tribulação e angústia, e invocaram o nome do Senhor. Tal é aquele que canta neste Salmo. Quem é ele? O Corpo de Cristo. Quem é isso? Tu, se quiseres: todos nós, se quisermos: pois o Corpo de Cristo é um só. ...
Mas quem somos nós que estamos postos nos lagares? "Filhos de Coré." Pois segue-se isto: "Para os lagares, aos filhos de Coré." Filhos de Coré já foi explicado, filhos do calvo: tanto quanto puderam explicar-nos aqueles que conhecem aquela língua, segundo o serviço que devem a Deus. ...
Este Salmo tem por título: "Para os lagares." E, como observastes comigo, meus amados (pois vi que estáveis mui atentos), nada se diz em seu texto nem de prensa, nem de cesto de vindima, nem de tina, nem de nenhum dos instrumentos ou da construção de um lagar; nada disso ouvimos ser lido; de modo que não é fácil questão qual seja o sentido deste título nele inscrito, "para os lagares." Pois certamente, se após o título mencionasse algo acerca de tais coisas como enumerei, os homens carnais poderiam crer que era um cântico acerca daqueles lagares visíveis; mas, tendo este título, e todavia nada dizendo depois daqueles lagares que tão bem conhecemos, não posso duvidar de que há outros lagares, que o Espírito de Deus quis que aqui buscássemos e entendêssemos. Recordemos, pois, o que se faz nesses lagares visíveis, e vejamos como isto se dá espiritualmente na Igreja. A uva pende das videiras, e a oliva de suas árvores. Pois é para estes dois frutos que se costumam preparar os lagares; e enquanto pendem de seus ramos, parecem gozar de livre ar; e nem a uva é vinho, nem a oliva é azeite, antes de serem prensadas. Assim é com os homens que Deus predestinou, antes do mundo, a serem conformes à imagem de Seu Filho unigênito, o qual foi primeira e especialmente prensado em Sua Paixão, como o grande Cacho. Tais homens, portanto, antes que se aproximem do serviço de Deus, gozam no mundo de uma espécie de liberdade deliciosa, como uvas ou olivas pendentes: mas, como está dito, "Filho, quando te achegares ao serviço de Deus, permanece em juízo e temor, e prepara a tua alma para a tentação": assim cada um, ao se achegar ao serviço de Deus, acha que chegou ao lagar; há de sofrer tribulação, há de ser esmagado, há de ser prensado, não para que pereça neste mundo, mas para que escorra até os depósitos de Deus. Despem-se dele os invólucros dos desejos carnais, como as películas da uva: pois isto se deu nele nos desejos carnais, dos quais fala o Apóstolo: "Despojai-vos do velho homem, e revesti-vos do novo homem." Tudo isto não se faz senão por pressão: por isso as Igrejas de Deus deste tempo se chamam lagares.
E que se segue? "Minha alma anseia e desfalece pelos átrios do Senhor" (v. 2). Não basta que "anseie e desfaleça": pois em que desfalece? "Pelos átrios do Senhor." A uva, quando prensada, desfaleceu: mas para quê? Para ser transformada em vinho, e escorrer para a tina, e para o restante do depósito, para ali ser guardada em grande sossego. Aqui se anseia, ali se recebe: aqui há suspiros, ali alegria: aqui orações, ali louvores: aqui gemidos, ali regozijo. Aquelas coisas que mencionei, ninguém, enquanto aqui, se envergonhe delas: ninguém se recuse a sofrer. Há perigo de que a uva, enquanto teme o lagar, seja devorada pelas aves ou pelas feras. ...
Ouviste um gemido no lagar: "Minha alma anseia e desfalece pelos átrios do Senhor": ouve agora como ela persevera, regozijando-se em esperança: "Meu coração e minha carne se alegraram no Deus vivo." Aqui se alegraram por essa causa. De onde vem o regozijo, senão da esperança? Por que se alegraram? "No Deus vivo." O que se alegrou em ti? "Meu coração e minha carne." Por que se alegraram? "Pois", diz ele, "o pardal achou casa para si, e a rola ninho, onde ponha os seus filhotes" (v. 3). Que é isto? Havia nomeado duas coisas, e acrescenta duas figuras de aves que a elas correspondem: dissera que seu coração se alegrara e sua carne, e a estas duas fez corresponder o pardal e a rola: o coração como o pardal, a carne como a pomba. O pardal achou para si uma casa: meu coração achou para si uma casa. Ela exercita suas asas nas virtudes desta vida, na fé, na esperança e na caridade, pelas quais possa voar até sua casa: e quando ali houver chegado, permanecerá; e então a voz queixosa do pardal, que aqui existe, ali já não existirá. Pois é o mesmo pardal queixoso de que, em outro Salmo, ele diz: "Como pardal solitário sobre o telhado." Do telhado voa para casa. Que esteja agora sobre o telhado, pisando sua casa carnal: terá uma casa celestial, uma morada perpétua: aquele pardal porá fim às suas queixas. Mas à rola deu filhotes, isto é, à carne: "a rola achou um ninho, onde ponha os seus filhotes." O pardal uma casa, a rola um ninho, e ninho também onde ponha os seus filhotes. Uma casa se escolhe como para sempre, um ninho se arma por certo tempo: com o coração pensamos em Deus, como se o pardal voasse para sua casa: com a carne fazemos boas obras. Pois vedes quantas boas obras se fazem pela carne dos santos; pois por ela realizamos as coisas que nos são mandadas fazer, pelas quais somos ajudados nesta vida. "Reparte teu pão com o faminto, e recolhe em tua casa o pobre e o sem-teto; e se vires alguém nu, cobre-o": e outras coisas semelhantes que nos são mandadas, só as realizamos por meio da carne. ...Dizemos, irmãos, o que sabeis: quantos parecem fazer boas obras fora da Igreja? quantos até pagãos alimentam o faminto, vestem o nu, recebem o estrangeiro, visitam o enfermo, consolam o preso? quantos fazem isto? A rola parece, por assim dizer, gerar filhotes: mas não acha para si um ninho. Quantas obras podem fazer os hereges, não estando na Igreja; não colocam seus filhotes em ninho. Serão pisados e esmagados: não serão guardados, não serão protegidos. ...Nessa fé põe teus filhotes: nesse ninho realiza tuas obras. Pois o que sejam os ninhos, o que seja esse ninho, segue-se logo. Tendo dito, E a rola achou para si um ninho, onde ponha os seus filhotes; como se perguntasses, Que ninho? "Teus altares, ó Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus." Que significa, "Meu Rei e meu Deus"? Tu que me governas, que me criaste.
..."Bem-aventurados os que habitam em Tua casa" (v. 4). ...Se tens tua própria casa, és pobre; se a de Deus, és rico. Em tua própria casa temerás ladrões; da casa de Deus, Ele mesmo é o muro. Por isso "bem-aventurados os que habitam em Tua casa." Possuem a Jerusalém celestial, sem constrangimento, sem pressão, sem diferença nem divisão de limites; todos a têm, e cada um tem tudo. Grandes são essas riquezas. Irmão não oprime irmão: ali não há penúria. Em seguida, que farão eles ali? Pois entre os homens é a necessidade que é a mãe de todos os afazeres. Já disse, em breve, irmãos, percorrei em vosso pensamento quaisquer ocupações, e vede se não é a necessidade sozinha que as produz. Aquelas mesmas artes eminentes que parecem tão poderosas em prestar auxílio aos outros, a arte de falar em sua defesa ou a de medicina em curar, pois estas são as mais excelentes ocupações desta vida; tirai os litigantes, quem há para o advogado ajudar? tirai as feridas e enfermidades, o que há para o médico curar? E todas aquelas ocupações nossas que se requerem e se fazem para nossa vida cotidiana, surgem da necessidade. Arar, semear, desbravar terreno baldio, navegar; o que é que produz todas estas obras, senão a necessidade e a carência? Tirai a fome, a sede, a nudez; quem tem necessidade de todas estas coisas? ...Por exemplo, o mandamento: "Reparte teu pão com o faminto." Pois para quem poderias partir o pão, se não houvesse ninguém com fome? "Recolhe em tua casa o pobre sem-teto." Que estrangeiro há para receber, onde todos vivem em sua própria pátria? Que enfermo há para visitar, onde gozam de saúde perpétua? Que litigantes há para reconciliar, onde há paz eterna? Que mortos há para sepultar, onde há vida eterna? Nenhuma daquelas ações honrosas que são comuns a todos os homens será então tua ocupação, nem nenhuma dessas boas obras; as andorinhas jovens então voarão para fora de seu ninho.
Que, pois? Já disseste o que teremos: "Bem-aventurados os que habitam em Tua casa." Dize agora o que farão, pois não vejo então nenhuma necessidade que me induza à ação. Até mesmo o que agora estou dizendo e argumentando brota de alguma carência. Haverá ali algum tal argumento para ensinar o ignorante, ou lembrar o esquecido? Ou se lerá o Evangelho naquela pátria onde o próprio Verbo de Deus será contemplado? ..."Estarão sempre a louvar-Te." Este será todo o nosso dever, um incessante Aleluia. Não penseis, meus irmãos, que haverá ali qualquer fadiga: se não sois capazes de suportar aqui, por muito tempo, dizer isto, é porque alguma carência vos afasta desse gozo. Se o que não se vê não dá aqui tanta alegria, se com tanto ardor, sob a pressão e fraqueza da carne, louvamos o que cremos, como louvaremos o que veremos? "Quando a morte for tragada pela vitória, quando este corpo mortal se houver revestido de imortalidade," ninguém dirá: "Estou de pé há muito tempo"; ninguém dirá: "Jejuei por muito tempo," "Vigiei por muito tempo." Pois haverá ali grande perseverança, e nossos corpos imortais serão sustentados na contemplação de Deus. E se a palavra que agora vos dispensamos mantém vossa fraca carne de pé por tanto tempo, qual será o efeito daquele gozo? como nos transformará? "Pois seremos semelhantes a Ele, porquanto O veremos como Ele é." Feitos semelhantes a Ele, quando desfaleceremos? o que nos afastará? Irmãos, nunca nos saciaremos do louvor de Deus, do amor de Deus. Se o amor pudesse cessar, o louvor poderia cessar. Mas se o amor é eterno, como ali haverá beleza inesgotável, não temas não seres capaz de louvar para sempre Aquele a quem serás capaz de amar para sempre. Por esta vida suspiremos.
Mas como chegaremos até lá? "Feliz o homem cuja força está em Ti" (v. 5). Ele sabia onde estava, e que, por causa da fragilidade de sua carne, não podia voar até aquele estado de bem-aventurança: pensava em seu próprio fardo, como se diz em outro lugar: "Pois o corpo corruptível pesa sobre a alma, e a morada terrena deprime o entendimento que tem muitos pensamentos." O Espírito chama para cima, o peso da carne chama de volta para baixo: entre o duplo esforço de elevar e de pesar, sobrevém uma espécie de luta: esta luta tende à pressão do lagar. Ouve como o Apóstolo descreve esta mesma luta do lagar, pois ele próprio ali foi afligido, ali foi prensado. ..."Homem infeliz que sou: quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor." ..."Pois me deleito na Lei de Deus, segundo o homem interior." Mas que farei? como voarei? como chegarei até lá? "Vejo outra lei em meus membros," etc. ...E, assim como nas palavras do Apóstolo, aquela dificuldade e aquela luta quase inextricável se alivia com o acréscimo: "A graça de Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor"; assim aqui, quando ele suspirava no ardente anseio pela casa de Deus, e por aqueles louvores de Deus, e quando surgia uma espécie de desespero ao sentir o fardo do corpo e o peso da carne, novamente despertou para a esperança, e disse (v. 5): "Bem-aventurado o homem cujo amparo está em Ti."
10. Que dá, pois, Deus por sua graça àquele a quem toma para conduzi-lo adiante? Prossegue dizendo: "Ele colocou degraus em seu coração." ...Onde coloca degraus? "Em seu coração, no vale de lágrimas" (v. 6). Eis aqui, pois, para lagar, o vale de lágrimas; as lágrimas piedosas na tribulação são o vinho novo daqueles que amam. ...Foram, diz ele, "chorando, lançando sua semente." Que pela graça de Deus, portanto, sejam colocados em teu coração degraus ascendentes. Ergue-te amando. Daí se chama o Salmo "dos degraus". ..."Ele colocou degraus de ascensão para o lugar que designou" (v. 7). Ora, lamentamos; donde procedem nossas lamentações, senão daquele lugar onde estão colocados os degraus de nossa ascensão? Donde vem nossa lamentação, senão daquela causa por que o Apóstolo exclamou ser homem miserável, porque via outra lei em seus membros, guerreando contra a lei de sua mente? E donde procede isto? Da pena do pecado. E pensávamos que facilmente poderíamos ser justos, como que por nossa própria força, antes de recebermos o mandamento; "mas quando veio o mandamento, reviveu o pecado; e eu morri," diz o Apóstolo. Pois foi dada aos homens uma lei, não tal que pudesse de imediato salvá-los, mas para mostrar-lhes em que grave enfermidade jaziam. ...Mas quando o pecado se manifestou pela lei dada, o pecado antes se multiplicou, pois é tanto pecado quanto contra a Lei; "O pecado," diz ele, "tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda espécie de concupiscência." Que quer dizer com "tomando ocasião pela lei"? Tendo recebido o mandamento, os homens tentaram, como que por sua própria força, obedecer-lhe; vencidos pela concupiscência, tornaram-se culpados também da transgressão deste mesmo mandamento. Mas que diz o Apóstolo? "Onde abundou o pecado, muito mais abundou a graça;" isto é, cresceu a doença, e o remédio tornou-se mais eficaz. Assim, meus irmãos, aqueles cinco pórticos de Salomão, em cujo meio jazia o tanque, curavam de algum modo os enfermos? Os enfermos, diz o Evangelista, jaziam nos cinco pórticos. No Evangelho o temos e o lemos. Aqueles cinco pórticos são a lei nos cinco livros de Moisés. Por esta causa os enfermos eram trazidos de suas casas para jazer nos pórticos. Assim a lei trazia os enfermos, mas não os curava: mas pela bênção de Deus a água era agitada, como que por um Anjo que nela descia. À vista da água agitada, aquele que primeiro pudesse, descia e era curado. Aquela água cercada pelos cinco pórticos era o povo dos judeus encerrado em sua lei. O Senhor veio e agitou este povo, de modo que Ele mesmo foi morto. Pois se o Senhor não tivesse perturbado os judeus, descendo até eles, teria sido crucificado? De modo que a água agitada significava a Paixão do Senhor, que surgiu de Sua perturbação do povo judeu. O enfermo que crê nesta Paixão, como aquele que descia à água agitada, é por ela curado. Aquele a quem a Lei não pôde curar, isto é, enquanto jazia nos pórticos, é curado pela graça, pela fé na Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. ...
11. "Dará a bênção," diz ele, "quem deu a lei." ...A graça virá depois da lei; a própria graça é a bênção. E que nos deu esta graça e bênção? "Irão de virtude em virtude." Pois aqui pela graça são dadas muitas virtudes. "A um é dada pelo Espírito a palavra da sabedoria, a outro a palavra da ciência segundo o mesmo Espírito, a outro a fé, a outro o dom de curar, a outro diversos gêneros de línguas, a outro a interpretação das línguas, a outro a profecia." Muitas virtudes, mas necessárias a esta vida; e destas virtudes avançamos para "uma virtude." Para qual "virtude"? Para "Cristo, Virtude de Deus e Sabedoria de Deus." Dá diferentes virtudes neste lugar Aquele que, por todas as virtudes necessárias e úteis neste vale de lágrimas, dará uma única virtude, a Si mesmo. Pois na Escritura e em muitos escritores descrevem-se quatro virtudes úteis para a vida: a prudência, pela qual discernimos entre o bem e o mal; a justiça, pela qual damos a cada um o que lhe é devido, "não devendo nada a ninguém," mas amando a todos os homens; a temperança, pela qual refreamos as concupiscências; a fortaleza, pela qual suportamos todas as tribulações. Estas virtudes são-nos agora dadas pela graça de Deus no vale de lágrimas: destas virtudes ascendemos àquela outra virtude. E qual será esta, senão a virtude da contemplação de Deus somente? ...Segue-se ali: "Irão de virtude em virtude." Qual virtude? A da contemplação. Que é a contemplação? "O Deus dos deuses aparecerá em Sião." O Deus dos deuses, o Cristo dos cristãos. ...Quando tudo se acabar, o que a mortalidade torna necessário, Ele aparecerá aos puros de coração, tal como É, "Deus com Deus," o Verbo com o Pai, "por quem todas as coisas foram feitas."
12. E de novo, do pensamento daquelas alegrias, retorna aos seus próprios suspiros. Vê o que já veio em esperança, e onde está na realidade. ...Retornando, pois, aos gemidos próprios deste lugar, diz: "Senhor Deus das virtudes, ouvi minha oração: escutai, ó Deus de Jacó" (v. 8): pois ao próprio Jacó Vós fizestes Israel a partir de Jacó. Pois Deus lhe apareceu, e foi chamado Israel, vendo a Deus. Ouvi-me, pois, ó Deus de Jacó, e fazei-me Israel. Quando me tornarei Israel? Quando o Deus dos deuses aparecer em Sião.
13. "Eis, ó Deus nosso defensor. E olhai para a face de Vosso Cristo" (v. 9). Pois quando não olha Deus para a face de Seu Cristo? Que é isto, "Olhai para a face de Vosso Cristo"? Pela face somos conhecidos. Que é então: Olhai para a face de Vosso Cristo? Fazei que Vosso Cristo se torne conhecido a todos. Olhai para a face de Vosso Cristo: que Cristo se torne conhecido a todos, para que possamos ir de força em força, para que a graça abunde, já que o pecado abundou.
14. "Pois um dia em Vossos átrios é melhor que mil" (v. 10). Eram aqueles átrios pelos quais suspirava, pelos quais desfalecia. "Minha alma anseia e desfalece pelos átrios do Senhor:" um dia ali é melhor que mil dias. Os homens anseiam por milhares de dias, e desejam viver longamente aqui: que desprezem esses milhares de dias, que anseiem por um dia, que não tem nem aurora nem ocaso: um dia, dia eterno, ao qual nenhum ontem cede lugar, ao qual nenhum amanhã pressiona. Seja este único dia por nós desejado. Que temos nós com mil dias? Vamos dos mil dias a um único dia; apressemo-nos para aquele único dia, indo de força em força.
15. "Escolhi ser lançado fora na casa do Senhor, antes que habitar nas tendas dos pecadores" (v. 11). Pois encontrou o vale de lágrimas, encontrou a humildade pela qual poderia ascender: sabe que, se a si mesmo se elevar, cairá; se a si mesmo se humilhar, será exaltado: escolheu ser lançado fora, para ser erguido. Quantos, além deste tabernáculo do lagar do Senhor, isto é, além da Igreja Católica, desejando ser elevados, e amando suas honrarias, recusam-se a ver a verdade. Se este versículo estivesse em seu coração, não lançariam fora as honrarias, e correriam para o vale de lágrimas, e daí encontrariam em seu coração o caminho da ascensão, e daí iriam de virtudes a uma virtude, colocando sua esperança em Cristo, não em algum homem ou outro? Boa palavra é esta, palavra de que nos alegramos, palavra a ser escolhida. Ele mesmo escolheu ser lançado fora na casa do Senhor; mas Aquele que o convidou para o banquete, quando escolheu lugar mais baixo, chama-o para lugar mais alto, e lhe diz: "Sobe mais para cima." Contudo, ele não escolheu senão estar na casa do Senhor, em qualquer parte dela, contanto que não estivesse fora do umbral.
16. Por que escolheu? ..."Porque Deus ama a misericórdia e a verdade" (v. 12). O Senhor ama a misericórdia, pela qual primeiro veio em meu socorro: ama a verdade, de modo a dar àquele que crê o que prometeu. Ouve, no caso do Apóstolo Paulo, Sua misericórdia e verdade, Paulo que antes era Saulo o perseguidor. Necessitava de misericórdia, e disse que ela lhe foi mostrada: "Eu, que antes era blasfemo, e perseguidor, e injuriador: mas alcancei misericórdia, para que em mim Cristo Jesus mostrasse toda longanimidade para com aqueles que hão de crer nEle para a vida eterna." De modo que, quando Paulo recebeu perdão de tão grandes crimes, ninguém desespere de que quaisquer pecados lhe possam ser perdoados. Eis que tens a Misericórdia. ...Eis que vemos Paulo tê-lO por devedor, tendo recebido a misericórdia, exigindo a verdade. O Senhor, diz ele, restituirá naquele dia. Que te restituirá Ele, senão aquilo que te deve? Como te deve Ele? Que Lhe deste tu? "Quem primeiro Lhe deu, e lhe será restituído de novo." O próprio Senhor fez-se devedor, não por receber, mas por prometer: não se lhe diz, Restitui o que recebeste, mas, Restitui o que prometeste. Mostrou-me misericórdia, diz ele, para me fazer inocente: pois antes eu era blasfemo e injuriador: mas por Sua graça fui feito inocente. Mas Aquele que primeiro mostrou misericórdia, poderá negar sua dívida? "Ama a misericórdia e a verdade. Dará graça e glória." Que graça, senão aquela de que o mesmo disse: "Pela graça de Deus sou o que sou"? Que glória, senão aquela de que disse: "Está-me reservada uma coroa de glória"?
17. Portanto, "o Senhor não negará o bem aos que caminham na inocência" (v. 12). Por que, pois, ó homens, sois relutantes em guardar a inocência, senão para terdes bens? ...Vês a riqueza nas mãos dos ladrões, dos ímpios, dos maus, dos vis; nas mãos de homens escandalosos e criminosos vês a riqueza: Deus lhes dá estas coisas por causa de sua participação na raça humana, pelo abundante transbordar de Sua bondade: Ele que também "faz nascer Seu sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e pecadores." Dá Ele tanto aos ímpios, e nada guarda para ti? Guarda algo: está tranquilo, Aquele que teve misericórdia de ti quando eras ímpio, te abandonará agora que te tornaste pio? Aquele que deu ao pecador o dom gratuito da morte de Seu Filho, que guarda para o salvo por essa morte? Está, pois, tranquilo. Tem-nO por devedor, pois creste nEle prometendo. Que nos resta, pois, aqui, no lagar, na aflição, na dureza, na presente vida perigosa? Que nos resta, para que cheguemos lá? "Senhor Deus das virtudes, bem-aventurado o homem que em Vós põe sua esperança."
2. O Profeta canta-Lhe do futuro, e usa palavras como que de tempo passado: fala de coisas futuras como se já feitas, porque para Deus o que é futuro já se realizou. ..."Senhor, fostes favorável à Vossa terra" (v. 1); como se já o tivesse feito. "Afastastes o cativeiro de Jacó." Seu antigo povo de Jacó, o povo de Israel, nascido da semente de Abraão, na promessa de vir a ser um dia herdeiro de Deus. Aquele era, na verdade, povo real, ao qual foi dado o Antigo Testamento; mas no Antigo Testamento estava figurado o Novo: aquilo era a figura, isto a verdade expressa. Naquela figura, por uma espécie de predição do futuro, foi dada a este povo certa terra de promessa, em região onde habitava o povo dos judeus; onde está também a cidade de Jerusalém, cujo nome todos nós ouvimos. Quando este povo recebeu a posse desta terra, sofreu muitas tribulações de seus inimigos vizinhos que o cercavam: e quando pecou contra seu Deus, foi entregue ao cativeiro, não para destruição, mas para disciplina; não os condenando seu Pai, mas açoitando-os. E depois de capturados, foram libertados, e muitas vezes foram tanto feitos cativos quanto libertados; e agora estão em cativeiro, e isto por um grande pecado, mesmo porque crucificaram seu Senhor. Que devemos, pois, entender que significam as palavras: "Afastastes o cativeiro de Jacó"? ...Este Salmo profetizou em canto. "Afastastes o cativeiro de Jacó." A quem falava? A Cristo; pois disse: "para o fim, para os filhos de Coré:" pois Ele afastou o cativeiro de Jacó. Ouve o próprio Paulo confessando: "Ó homem miserável que sou, quem me livrará do corpo desta morte?" Perguntou quem seria, e logo lhe ocorreu: "A graça de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor." Desta graça de Deus fala o Profeta a nosso Senhor Jesus Cristo: "Afastastes o cativeiro de Jacó." Atende ao cativeiro de Jacó, atende, e vê que é isto: afastastes nosso cativeiro, não libertando-nos dos bárbaros, com os quais não nos havíamos encontrado, mas libertando-nos das más obras, de nossos pecados, pelos quais Satanás exercia domínio sobre nós. Pois se alguém foi libertado de seus pecados, o príncipe dos pecadores não tem mais como exercer domínio sobre ele.
Seu título é: "Salmo para o fim, para os filhos de Coré." Não entendamos outro fim senão aquele de que fala o Apóstolo: pois "Cristo é o fim da lei." Portanto, ao colocar à frente do título do Salmo as palavras "para o fim", ele dirigiu nosso coração a Cristo. Se fixarmos nosso olhar Nele, não erraremos o caminho: pois Ele mesmo é a Verdade à qual ansiamos chegar, e Ele mesmo é o Caminho pelo qual corremos. ...
Como Ele afastou o cativeiro de Jacó? Vede como essa libertação é espiritual, vede como se realiza interiormente. "Perdoaste", diz ele, "a iniquidade de Teu povo: cobriste todos os seus pecados" (v. 2). Eis como Ele afastou o cativeiro deles, ao remitir a iniquidade: a iniquidade os tinha cativos; perdoada a tua iniquidade, estás livre. Confessa, pois, que estás em cativeiro, para que sejas digno de ser libertado: pois quem não conhece o seu inimigo, como poderá invocar o libertador? "Cobriste todos os seus pecados." Que significa "cobriste"? De modo a não vê-los. Como não os viste? De modo a não te vingares deles. Não quiseste ver os nossos pecados: e por isso não os viste, porque não quiseste vê-los: "Cobriste todos os seus pecados." "Aplacaste toda a Tua ira: apartaste-Te do furor da Tua indignação" (v. 3).
E como essas coisas são ditas do futuro, ainda que o som das palavras seja passado, segue-se: "Converte-nos, ó Deus da nossa salvação" (v. 4). Aquilo que ele havia acabado de relatar como já feito, como agora ora para que se faça, senão porque quis mostrar que falara, em profecia, como que do passado? Mas que ainda não estava feito o que ele dissera estar feito, ele o demonstra por isto, que ora para que se faça: "Converte-nos, ó Deus da nossa salvação, e afasta de nós a Tua ira." Não disseste antes: "Aplacaste toda a Tua ira, apartaste-Te do furor da Tua indignação"? Como dizes agora: "E afasta de nós a Tua ira"? Responde o Profeta: Falo dessas coisas como feitas, porque as vejo prestes a acontecer: mas porque ainda não estão feitas, oro para que venham as que já vi.
"Não te irarás contra nós para sempre" (v. 5). Pois pela ira de Deus estamos sujeitos à morte, e pela ira de Deus comemos o pão nesta terra na penúria, e no suor do nosso rosto. Esta foi a sentença de Adão quando pecou: e esse Adão era cada um de nós, pois "em Adão todos morrem"; a sentença proferida sobre ele produziu efeito, depois dele, sobre nós. Pois ainda não éramos nós mesmos, mas estávamos em Adão: portanto, tudo o que sucedeu ao próprio Adão produziu efeito também sobre nós, de modo que morrêssemos: pois todos estávamos nele. ...Até aqui o pecado de teu pai não te prejudica, se tu mesmo te mudaste, assim como não prejudicaria a teu pai se ele mesmo se tivesse mudado. Mas aquilo que a nossa estirpe recebeu quanto à sua sujeição à morte, ela o herdou de Adão. O que herdou assim? Esta fragilidade da carne, este tormento de dores, esta casa de pobreza, esta cadeia da morte, e as ciladas das tentações; todas estas coisas trazemos conosco nesta carne; e esta é a ira de Deus, porque é a vingança de Deus. Mas porque assim havia de ser, que fôssemos regenerados, e pela fé nos fizéssemos novos, e toda aquela mortalidade havia de ser removida em nossa ressurreição, e o homem todo havia de ser restaurado em novidade; "pois como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados"; vendo isto, diz o Profeta: "Não te irarás contra nós para sempre, nem estenderás a Tua ira de geração em geração." A primeira geração era mortal por Tua ira: a segunda geração será imortal por Tua misericórdia. ...
"Ó Deus, Tu nos converterás de novo, e nos vivificarás" (v. 6). Não como se nós mesmos, por nossa própria vontade, sem a Tua misericórdia, nos convertêssemos a Ti, e então Tu nos vivificasses: mas de modo que não somente o sermos vivificados vem de Ti, mas a própria conversão, para que sejamos vivificados. "E o Teu povo se alegrará em Ti." Para o seu próprio mal, alegrar-se-iam em si mesmos: para o seu próprio bem, alegrar-se-ão em Ti. Pois quando quiseram ter alegria de si mesmos, encontraram em si mesmos a desgraça: mas agora, porque Deus é toda a nossa alegria, aquele que quiser alegrar-se com segurança, que se alegre Naquele que não pode perecer. Pois por que, meus irmãos, vos alegrareis na prata? Ou a tua prata perece, ou tu: e ninguém sabe qual primeiro; certo é, porém, que ambos hão de perecer; qual primeiro, é incerto. Pois nem o homem pode permanecer sempre aqui, nem a prata pode permanecer sempre aqui: assim também o ouro, assim as vestes, assim as casas, assim o dinheiro, assim as vastas terras, assim, por fim, esta própria luz. Não queiras, pois, alegrar-te nestas coisas: mas alegra-te naquela luz que não conhece ocaso: alegra-te naquela aurora a que nenhum ontem precede, a que nenhum amanhã sucede. Que luz é essa? "Eu", diz Ele, "sou a Luz do mundo." Aquele que te diz: "Eu sou a Luz do mundo", chama-te a Si. Quando te chama, converte-te: quando te converte, cura-te: depois de te haver curado, verás o teu Convertedor, a quem se diz: "Mostra-nos a Tua misericórdia, ó Senhor, e concede-nos a Tua salvação" (v. 7): a Tua salvação, isto é, o Teu Cristo. Feliz aquele a quem Deus mostra a Sua misericórdia. É aquele que não pode entregar-se ao orgulho, a quem Deus mostra a Sua misericórdia. Pois, ao lhe mostrar a Sua salvação, persuade-o de que todo o bem que o homem tem, não o tem senão Daquele que é todo o nosso bem. E quando um homem viu que todo o bem que possui não o tem de si mesmo, mas do seu Deus, vê que tudo o que nele é louvado provém da misericórdia de Deus, não do seu próprio merecimento; e vendo isto, não se ensoberbece; não se ensoberbecendo, não se eleva; não se elevando, não cai; não caindo, permanece firme; permanecendo firme, apega-se; apegando-se, persevera; perseverando, goza e alegra-se no Senhor seu Deus. Aquele que o fez será para ele deleite: e o seu deleite ninguém o corrompe, ninguém o interrompe, ninguém o arrebata. ...Que diz, pois, João em sua Epístola? "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser." Quem não se alegraria, se, subitamente, andando errante no estrangeiro, ignorando a sua descendência, sofrendo necessidade, e em estado de miséria e labuta, lhe fosse anunciado: Tu és filho de um senador; teu pai goza de um amplo patrimônio na vossa propriedade familiar; ordeno-te que voltes a teu pai: quanto se alegraria, se isto lhe fosse dito por alguém em cuja promessa pudesse confiar? Alguém em quem podemos confiar, um Apóstolo de Cristo, veio e nos disse: Tendes um pai, tendes uma pátria, tendes uma herança. Quem é esse pai? "Amados, somos filhos de Deus." ...Portanto, Ele nos prometeu mostrar-Se a nós. Considerai, meus irmãos, qual é a Sua beleza. Todas aquelas coisas belas que vedes, que amais, Ele as fez. Se estas são belas, o que é Ele mesmo? Se estas são grandes, quão grande é Ele? Portanto, a partir destas coisas que amamos aqui, desejemo-Lo ainda mais: e, desprezando estas coisas, amemo-Lo: para que por esse mesmo amor purifiquemos pela fé os nossos corações, e a Sua visão, quando vier, encontre o nosso coração purificado. A luz que há de nos ser mostrada deve encontrar-nos íntegros: esta é a obra da fé agora. Isto é o que dissemos aqui: "E concede-nos a Tua salvação": concede-nos o Teu Cristo, para que conheçamos o Teu Cristo, vejamos o Teu Cristo; não como o viram os judeus e O crucificaram, mas como O veem os Anjos, e se alegram.
"Escutarei" (v. 8). O Profeta falou: Deus falou dentro dele, e o mundo fazia ruído por fora. Portanto, retirando-se um pouco do ruído do mundo, e voltando-se sobre si mesmo, e de si mesmo para Aquele cuja voz ouvia interiormente; selando, por assim dizer, os seus ouvidos contra a inquietação tumultuosa desta vida, e contra a alma oprimida pelo corpo corruptível, e contra a imaginação que, sob o peso do tabernáculo terreno, pensa em muitas coisas, diz ele: "Escutarei o que fala em mim o Senhor Deus"; e ouviu, o quê? "Pois Ele falará paz ao Seu povo." A voz de Cristo, pois, a voz de Deus, é paz: chama à paz. Eia! diz Ele, todos vós que ainda não estais em paz, amai a paz: pois que coisa melhor podeis encontrar em Mim do que a paz? Que é a paz? Onde não há guerra. Que é isto, onde não há guerra? Onde não há contradição, onde não há resistência, nada que se oponha. Considerai se já ali estamos: considerai se não há agora conflito com o diabo, se todos os santos e fiéis não lutam contra o príncipe dos demônios. E como lutam contra aquele que não veem? Lutam contra os seus próprios desejos, pelos quais ele lhes sugere pecados: e, não consentindo no que ele sugere, ainda que não sejam vencidos, contudo combatem. Portanto, ainda não há paz onde há combate. ...Tudo o que providenciamos para o nosso refrigério, ali de novo encontramos o cansaço. Tens fome? pergunta-se-te: respondes, tenho. Põe-se diante de ti alimento para o teu refrigério; continua a usá-lo, pois dele precisavas; contudo, ao continuares naquilo de que precisas para o refrigério, nisso mesmo encontras cansaço. De tanto estar sentado, cansaste-te; levantas-te e te refrigeras andando; continua esse alívio, e de tanto andar te cansarás; de novo quererás sentar-te. Encontra-me algo com que te refrigeres, em que, se continuares, não voltes a cansar-te. Que paz é, pois, esta que os homens têm aqui, combatida por tantos incômodos, desejos, necessidades, cansaços? Esta não é a verdadeira, não é a perfeita paz. Qual será a paz perfeita? "É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade." ...Persevera em comer muito; isso mesmo te matará: persevera em jejuar muito, por isso morrerás: fica sempre sentado, resolvido a não te levantar, por isso morrerás: anda sempre, de modo a nunca descansar, por isso morrerás; vigia continuamente, sem nunca dormir, por isso morrerás; dorme continuamente, sem nunca vigiar, também assim morrerás. Quando, pois, a morte for tragada pela vitória, estas coisas já não existirão: haverá paz plena e eterna. Estaremos numa Cidade, da qual, irmãos, quando falo acho difícil parar, sobretudo quando as ofensas se tornam comuns. Quem não desejaria aquela Cidade de onde nenhum amigo sai, aonde nenhum inimigo entra, onde não há tentador, nenhum sedicioso, ninguém que divida o povo de Deus, ninguém que canse a Igreja a serviço do diabo; visto que o próprio príncipe de todos esses é lançado no fogo eterno, e com ele os que a ele consentem, e que não têm vontade de se apartar dele? Ali haverá paz purificada nos filhos de Deus, todos se amando uns aos outros, vendo-se uns aos outros plenos de Deus, pois Deus será tudo em todos. Teremos Deus como nosso objeto comum de visão, Deus como nossa posse comum, Deus como nossa paz comum. Pois tudo o que Ele agora nos dá, Ele mesmo será para nós em lugar dos Seus dons; esta será a paz plena e perfeita. Isto Ele fala ao Seu povo: isto era o que quis escutar aquele que disse: "Escutarei o que falará em mim o Senhor Deus: pois Ele falará paz ao Seu povo, e aos Seus santos, e aos que voltam para Ele o seu coração." Eis, meus irmãos, quereis que vos pertença aquela paz que Deus profere? Voltai para Ele o vosso coração: não para mim, nem para aquele, nem para homem algum. Pois todo aquele que quiser voltar para si os corações dos homens, cai juntamente com eles. Qual é melhor: cair com aquele para quem te voltas, ou permanecer de pé com Aquele para quem te voltas? A nossa alegria, a nossa paz, o nosso repouso, o fim de todas as tribulações, não é senão Deus: bem-aventurados "os que voltam para Ele o seu coração."
"Todavia, perto está a Sua salvação dos que O temem" (v. 9). Havia já então alguns que O temiam no povo judeu. Por toda a terra adoravam-se ídolos: temiam-se os demônios, não a Deus: naquela nação temia-se a Deus. Mas por que era Ele temido? No Antigo Testamento Ele era temido, para que não os entregasse ao cativeiro, para que não lhes tirasse a terra, para que não destruísse as suas vinhas com o granizo, para que não tornasse estéreis as suas mulheres, para que não lhes arrebatasse os filhos. Pois essas promessas carnais de Deus cativavam as suas mentes, que ainda eram de pequeno crescimento, e por essas coisas se temia a Deus: mas Ele estava perto daqueles que ainda que por tais coisas O temiam. O pagão pedia terra ao demônio: o judeu pedia terra a Deus: era a mesma coisa que pediam, mas não era o mesmo a quem pediam. Este, embora buscasse o que o pagão buscava, distinguia-se contudo do pagão; pois buscava-o Daquele que fizera todas as coisas. E Deus, que estava longe dos gentios, estava perto deles: contudo, atendeu também aos que estavam longe, e aos que estavam perto, como disse o Apóstolo: "E Ele veio e anunciou paz a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto." A quem se referia como os que estavam perto? Aos judeus, porque adoravam um só Deus. A quem se referia como os que estavam longe? Aos gentios, porque haviam deixado Aquele por quem foram feitos, e adoravam as coisas que eles mesmos haviam feito. Pois não é no espaço que alguém está longe de Deus, mas nos afetos. Amas a Deus, estás perto Dele. Odeias a Deus, estás longe. Estás no mesmo lugar, tanto quando estás perto como quando estás longe. Foi isto, meus irmãos, a que o Profeta atendeu: embora visse a misericórdia de Deus estendendo-se sobre todos, via contudo algo especial e peculiar mostrado para com os judeus, e diz: "Todavia, escutarei o que falará o Senhor Deus: pois Ele falará paz ao Seu povo"; e o Seu povo será, não somente a Judeia, mas será congregado dentre todas as nações: "Pois Ele falará paz aos Seus santos, e aos que voltam para Ele o seu coração", e a todos os que voltarem para Ele o seu coração de todo o mundo. "Todavia, a Sua salvação estará perto dos que O temem, para que a glória habite em nossa terra": isto é, naquela terra em que nasceu o Profeta, habitará maior glória, porque dali começou Cristo a ser pregado. Dali eram os Apóstolos, e para lá foram primeiro enviados; dali eram os Profetas, ali esteve primeiro o Templo, ali se ofereciam sacrifícios a Deus, ali estavam os Patriarcas, ali Ele mesmo veio da semente de Abraão, ali Cristo foi manifestado, ali Cristo apareceu; pois dali era a Virgem Maria que gerou Cristo. Ali Ele andou com Seus pés, ali operou milagres. Em terceiro lugar, Ele atribuiu tão grande honra àquela nação, que quando certa mulher cananeia O interrompeu, orando pela cura de sua filha, Ele lhe disse: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Vendo isto, diz o Profeta: "para que a glória habite em nossa terra."
"A misericórdia e a verdade se encontraram" (v. 10). "A verdade em nossa terra", numa pessoa judia, "a misericórdia" na terra dos gentios. Pois onde estava a verdade? Onde estavam os oráculos de Deus. Onde estava a misericórdia? Sobre aqueles que haviam deixado o seu Deus, e se haviam voltado para os demônios. Olhou Ele também para estes? Sim, como se dissesse: Chamai os que estão fugitivos ao longe, os que se afastaram muito de Mim: chamai-os, que encontrem a Mim os que Me buscam, já que eles mesmos não quiseram buscar-Me. Portanto, "a misericórdia e a verdade se encontraram: a justiça e a paz se beijaram." Pratica a justiça, e terás paz; para que a justiça e a paz se beijem. Pois se não amares a justiça, não terás paz; pois essas duas, justiça e paz, amam-se mutuamente, e se beijam: para que aquele que praticou a justiça encontre a paz beijando a justiça. As duas são amigas: tu talvez queiras uma, e não a outra: pois não há ninguém que não queira a paz: mas nem todos querem praticar a justiça. Perguntai a todos os homens: Queres a paz? Com uma só boca, toda a raça humana vos responde: Quero, desejo, quero-a, amo-a. Amai também a justiça: pois estas duas, justiça e paz, são amigas; beijam-se mutuamente: se não amares a amiga da paz, a própria paz não te amará, nem virá a ti. Pois que grande coisa é desejar a paz? Todo homem mau anseia pela paz. Pois a paz é coisa boa. Mas pratica a justiça, pois a justiça e a paz se beijam mutuamente, não contendem entre si. ...
10. "A verdade brotou da terra, e a justiça olhou desde os céus" (v. 11). "A verdade brotou da terra": Cristo nasceu de uma mulher. O Filho de Deus veio à luz da carne. Que é a verdade? O Filho de Deus. Que é a terra? A carne. Pergunta donde nasceu Cristo, e verás que "a verdade brotou da terra". Mas a Verdade que brotou da terra existia antes da terra, e por Ela foram feitos o céu e a terra; mas, para que a justiça olhasse desde os céus, isto é, para que os homens fossem justificados pela graça divina, a Verdade nasceu da Virgem Maria; para que pudesse oferecer um sacrifício que os justificasse, o sacrifício do sofrimento, o sacrifício da Cruz. E como poderia Ele oferecer um sacrifício por nossos pecados, senão morrendo? Como poderia morrer, senão recebendo de nós aquilo em que pudesse morrer, isto é, a menos que recebesse de nós a carne mortal, Cristo não poderia ter morrido; porque o Verbo de Deus não morre, a Divindade não morre, a Virtude e a Sabedoria de Deus não morrem. Como ofereceria Ele um sacrifício, uma vítima curativa, se não morresse? Como morreria, senão revestindo-Se de carne? Como revestiria a carne, senão porque a verdade brotou da terra?
11. Sobre a mesma passagem podemos apontar outro sentido. "A verdade brotou da terra": a confissão do homem. Pois tu, ó homem, eras pecador. Ó terra, que, tendo pecado, ouviste a sentença: "Terra és, e à terra tornarás", que de ti brote a verdade, para que a justiça olhe desde os céus. Como brota de ti a verdade, enquanto és pecador, enquanto és injusto? Confessa teus pecados, e a verdade brotará de ti. Pois, se, sendo injusto, te chamas justo, como poderá a verdade brotar de ti? Mas, se, sendo injusto, confessas que o és, "a verdade brotou da terra"... Que é que "a justiça olhou desde os céus"? É a justiça de Deus, como se Ele dissesse: Poupemos a este homem, pois ele não se poupa a si mesmo; perdoemo-lo, pois ele mesmo se confessa. Ele se muda a fim de punir seu pecado; Eu também Me mudarei, a fim de o libertar.
12. "Porque o Senhor dará doçura, e a nossa terra dará o seu fruto" (v. 12). ...Ele te dará a doçura de operar a justiça, de modo que a justiça começará a deleitar-te, a ti a quem antes deleitava a injustiça; de sorte que tu, que antes te deleitavas na embriaguez, te alegrarás na sobriedade; e tu, que te alegravas no furto, a ponto de tomar de outrem o que não tinhas, buscarás dar àquele que não tem o que tu tens; e tu, que te deleitavas em roubar, deleitar-te-ás agora em dar; tu, a quem deleitavam os espetáculos, deleitar-te-ás na oração; tu, que te deleitavas em cantigas frívolas e lascivas, deleitar-te-ás agora em cantar hinos a Deus; correndo à igreja, tu que antes corrias ao teatro. Donde te nasce essa doçura, senão disto, que "Deus dá a doçura"? Pois vede o que quero dizer: eis que vos falei a palavra de Deus, semeei a semente em vossos corações devotos, achando vossas almas sulcadas, por assim dizer, pelo arado da confissão; com devota atenção recebestes a semente; pensai agora na palavra que ouvistes, como os que rompem as nuvens, para que as aves não levem a semente, a fim de que o que foi semeado ali possa germinar; e, se Deus não fizer chover sobre ela, de que aproveita ter sido semeada? É isto que se quer dizer com "a nossa terra dará o seu fruto". Que Ele, com suas visitações, no ócio, nos negócios, em vossa casa, em vosso leito, à mesa, na conversação, nos passeios, visite vossos corações, quando nós não estivermos presentes. Que a chuva de Deus venha e faça germinar o que ali foi semeado; e, quando não estivermos presentes, e estivermos em repouso tranquilo, ou ocupados em outra coisa, que Deus dê o crescimento às sementes que semeamos, para que, notando depois vossos costumes melhorados, também nós nos alegremos por vosso fruto.
2. "Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me" (v. 1). Fala Ele sob a forma de servo: fala tu, ó servo, sob a forma de teu Senhor: "Inclina, Senhor, o teu ouvido." Ele inclina o Seu ouvido, se tu não levantas a cerviz; pois Ele se aproxima do humilde; do soberbo Se afasta, exceto daquele a quem Ele mesmo exaltou depois de humilhado. Inclina, pois, Deus o Seu ouvido para nós. Pois Ele está no alto, nós embaixo; Ele em lugar elevado, nós em lugar humilde, mas não desamparado. "Pois, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Dificilmente alguém morrerá por um justo; ainda que talvez por um homem bom alguém ousasse morrer"; mas o nosso Senhor morreu pelos ímpios. Pois não haviam precedido méritos nossos, pelos quais devesse o Filho de Deus morrer; mas, quanto mais não havia méritos, tanto maior foi a Sua misericórdia. Quão certa então, quão firme é a promessa pela qual Ele guarda a vida para os justos, Ele que para os ímpios deu a Sua própria morte! "Porque sou pobre e estou em aflição." Ao rico, pois, Ele não inclina o Seu ouvido; ao pobre e ao que está em aflição inclina o Seu ouvido, isto é, ao humilde e ao que se confessa, ao que necessita de misericórdia; não ao que está cheio, que se levanta e se gaba, como se de nada precisasse, e diz: "Graças Te dou porque não sou como este publicano." Pois o rico fariseu se gabava dos seus méritos; o pobre publicano confessava os seus pecados.
3. Não tomeis, porém, meus irmãos, o que disse de tal modo, como se Deus não ouvisse aqueles que têm ouro e prata, e casa, e campos, se acaso nasceram nessa condição, ou ocupam tal posição no mundo; que apenas se lembrem das palavras do Apóstolo: "Manda aos que são ricos neste mundo que não sejam altivos." Pois os que não são altivos são pobres diante de Deus, e para o pobre, o necessitado e o que está em carência Ele inclina o Seu ouvido. Pois estes sabem que a sua esperança não está no ouro e na prata, nem naquilo em que por algum tempo parecem abundar. Basta que as riquezas não os arruínem; basta que não lhes façam dano; pois bem algum lhes podem fazer. O que verdadeiramente aproveita é a obra de misericórdia, feita pelo rico ou pelo pobre: pelo rico, com vontade e obra; pelo pobre, com a vontade somente. Quando, pois, alguém é tal que despreza em si mesmo tudo aquilo que costuma inchar os homens de soberba, este é um dos pobres de Deus; a este Ele inclina o Seu ouvido, pois sabe que o seu coração é contrito. ...Foi de fato pelo mérito de sua pobreza que o pobre foi levado pelos anjos, ou foi pelo pecado de suas riquezas que o rico foi mandado ao tormento? Naquele pobre se significa a honra que se presta à humildade; naquele rico, a condenação que aguarda a soberba. Provarei em breve que não foram as riquezas, mas a soberba, o que foi atormentado naquele rico. É certo que o pobre foi levado ao seio de Abraão; e do próprio Abraão diz a Escritura que possuía aqui muitíssimo ouro e prata, e era rico na terra. Se todo aquele que é rico é arrebatado ao tormento, como poderia Abraão ter ido adiante daquele pobre, de modo a estar pronto para recebê-lo quando levado ao seu seio? Mas Abraão, em suas riquezas, era pobre, humilde, reverente a todos os mandamentos, e a eles obediente. Tão certo é que ele reputava por nada todas aquelas riquezas, que, por mandado de Deus, estava pronto a sacrificar o filho para quem guardava suas riquezas. Aprendei, pois, a ser pobres e necessitados, quer tenhais algo neste mundo, quer não tenhais...
1. Nenhum dom maior poderia Deus ter dado aos homens do que fazer o Seu Verbo, por quem criou todas as coisas, Cabeça deles, e uni-los a Ele como membros Seus; de modo que o Filho de Deus se tornasse também Filho do homem, um só Deus com o Pai, um só Homem com os homens; de sorte que, quando falamos a Deus na oração, pedindo misericórdia, não separamos o Filho d'Ele; e, quando o Corpo do Filho ora, não separa de si a sua Cabeça: e é um só Salvador do Seu Corpo, o nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que ora por nós, ora em nós, e é orado por nós. Ora por nós, como nosso Sacerdote; ora em nós, como nossa Cabeça; é orado por nós, como nosso Deus. Reconheçamos, pois, n'Ele as nossas palavras, e as palavras d'Ele em nós. Nem, quando algo se diz do nosso Senhor Jesus Cristo, sobretudo na profecia, que implique um grau de humildade abaixo da dignidade de Deus, hesitemos em atribuí-lo Àquele que não hesitou em unir-Se a nós. ...É orado na forma de Deus, na forma de servo Ele ora; ali o Criador, aqui o criado; assumindo sem mudança a criatura, para que ela fosse mudada, e fazendo de nós, com Ele mesmo, um só Homem, Cabeça e Corpo. Portanto oramos a Ele, por Ele, n'Ele; e falamos com Ele, e Ele fala conosco; falamos n'Ele, Ele fala em nós a oração deste Salmo, que se intitula "Oração de Davi". Pois o nosso Senhor foi, segundo a carne, filho de Davi; mas, segundo a Sua natureza divina, Senhor de Davi, e seu Criador. ...Que ninguém, pois, ao ouvir estas palavras, diga: Cristo não fala; nem tampouco diga: Eu não falo; antes, se reconhece estar no Corpo de Cristo, diga ambas as coisas: Cristo fala, e eu falo. Não queiras dizer coisa alguma sem Ele, e Ele nada diz sem ti. ...
4. "Guarda a minha alma, porque sou santo" (v. 2). Não sei se alguém poderia dizer isto, "sou santo", senão Aquele que esteve no mundo sem pecado: Aquele por quem todos os pecados não foram cometidos, mas remidos. Reconhecemos ser esta a Sua voz, dizendo: "Guarda a minha alma, porque sou santo"; naturalmente naquela forma de servo que Ele assumira. Pois nela havia carne, nela havia também alma. Pois Ele não era, como alguns disseram, apenas Carne e o Verbo; mas Carne, e também Alma, e o Verbo, e tudo isto, um só Filho de Deus, um só Cristo, um só Salvador; na forma de Deus igual ao Pai, na forma de servo Cabeça da Igreja. Quando, pois, ouço "porque sou santo", reconheço a Sua voz: mas excluo por acaso a minha? Certamente Ele fala inseparavelmente do Seu corpo quando assim fala. Ousarei, pois, eu dizer: "Porque sou santo"? Se santo como aquele que santifica, e como quem não precisa de ninguém que o santifique, seria eu soberbo e falso; mas se santo como aquele que foi santificado, conforme está escrito: "Sede santos, porque Eu sou santo", então o corpo de Cristo pode ousar, e aquele único Homem "clamando desde a extremidade da terra" pode ousar, com sua Cabeça e sob sua Cabeça, dizer: "Porque sou santo." Pois recebeu a graça da santidade, a graça do Batismo, e da remissão dos pecados. ...Dize ao teu Deus: sou santo, porque Tu me santificaste; porque recebi, não porque possuía; porque Tu deste, não porque mereci. Pois, doutra sorte, começas a fazer injúria ao próprio nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, se todos os cristãos que são fiéis e foram batizados n'Ele o revestiram, como diz o Apóstolo: "Todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes"; se foram feitos membros do Seu corpo, e dizem que não são santos, fazem injúria à sua Cabeça, de quem são membros, e que, no entanto, não seria santa. Vê onde estás, e da tua Cabeça toma a dignidade. Pois estáveis em trevas, "mas agora sois luz no Senhor". "Éreis outrora trevas", diz ele: mas permanecestes trevas? Foi para isto que veio o Iluminador, para que permanecêsseis ainda trevas, ou para que n'Ele vos tornásseis luz? Portanto, todo cristão por si mesmo, e portanto também todo o corpo de Cristo, pode dizer, pode clamar em toda parte, enquanto sofre tribulações, várias tentações e ofensas, pode dizer: "Guarda a minha alma, porque sou santo; meu Deus, salva o teu servo, que em Ti confia." Vê que aquele homem santo não é soberbo, pois em Deus põe a sua confiança.
5. "Tem misericórdia de mim, Senhor, porque a Ti clamei todo o dia" (v. 3). Não "um dia": entende "todo o dia" como significando continuamente: desde o tempo em que o corpo de Cristo geme em suas aflições, até o fim do mundo, quando as aflições passarem, aquele homem geme e invoca a Deus: e cada um de nós, segundo a sua medida, tem a sua parte naquele clamor em todo o corpo. Tu clamaste em teus dias, e teus dias passaram; outro veio depois de ti, e clamou em seus dias: e tu aqui, ele ali, outro alhures: o corpo de Cristo clama todo o dia, seus membros partindo e sucedendo-se uns aos outros. É um só Homem que se estende até o fim do mundo: os mesmos membros de Cristo clamam, e alguns membros já repousam n'Ele, alguns ainda clamam, alguns, quando estivermos em repouso, clamarão, e depois deles outros clamarão. É o corpo inteiro de Cristo cuja voz Ele ouve, dizendo: "A Ti clamei todo o dia." A nossa Cabeça, à destra do Pai, intercede por nós: a alguns membros Ele restaura, a outros açoita, a outros purifica, a outros consola, a outros está criando, a outros chamando, a outros rechamando, a outros corrigindo, a outros restituindo.
6. "Alegra a alma do teu servo, porque a Ti, Senhor, levantei a minha alma" (v. 4). Alegra-a, porque a Ti a levantei. Pois ela estava na terra, e da terra sentia a amargura; para que não se murchasse na amargura, para que não perdesse toda a doçura da tua graça, eu a levantei a Ti: alegra-a Tu contigo mesmo. Pois só Tu és alegria: o mundo inteiro está cheio de amargura. Com razão, decerto, Ele exorta os Seus membros a levantar os corações. Que ouçam e o façam: que levantem a Ele o que na terra está mal. Ali não apodrece o coração, se for levantado a Deus. Se tivesses trigo em teus aposentos de baixo, o levarias para cima, para que não apodrecesse. Levarias teu trigo para cima, e sofres que o teu coração apodreça na terra? Levarias teu trigo para cima: levanta o teu coração ao céu. E como poderei, dizes tu? Que cordas são necessárias? Que máquinas? Que escadas? Os teus afetos são os degraus: a tua vontade é o caminho. Amando, sobes; negligenciando, desces. Estando de pé na terra, estás no céu, se amas a Deus. Pois o coração não se eleva como se eleva o corpo: o corpo, para ser elevado, muda de lugar; o coração, para ser elevado, muda de vontade.
7. "Porque Tu, Senhor, és bom e clemente" (v. 5). ...Até as orações são muitas vezes impedidas por pensamentos vãos, de modo que o coração dificilmente permanece fixo em Deus; e ele quereria manter-se de tal modo fixo, e de certo modo foge de si mesmo, e não encontra molduras em que possa encerrar-se, nenhuma tranca com que possa refrear os seus voos e movimentos errantes, e deter-se para ser alegrado por seu Deus. Dificilmente ocorre uma tal oração entre muitas. Cada um poderia dizer que isto lhe aconteceu, mas não aos outros, se não achássemos na Escritura Sagrada Davi orando em certo lugar, e dizendo: "Porque achei o meu coração, Senhor, para que a Ti orasse." Disse que havia achado o seu coração, como se este costumasse fugir dele, e ele o seguisse como quem persegue um fugitivo, e não pudesse capturá-lo, e clamasse a Deus: "Porque o meu coração me desertou." Portanto, meus irmãos, refletindo sobre o que ele diz aqui, creio ver o que quer dizer com "clemente". Parece-me sentir que, por esta razão, ele chama a Deus clemente, porque suporta essas nossas falhas, e ainda assim espera de nós a oração, a fim de nos aperfeiçoar; e, quando lha damos, Ele a recebe com gratidão, e a escuta, e não se lembra das muitas orações que derramamos sem atenção, e aceita a única que mal conseguimos encontrar. Pois que homem há, meus irmãos, que, sendo dirigido pelo seu amigo, quando deseja responder-lhe, vê o seu amigo virar-se dele e falar com outro, quem há que suportasse isto? Ou, se apelas a um juiz, e o convocas para te ouvir, e de repente, enquanto lhe falas, ele se aparta de ti, e começa a conversar com o teu amigo, quem suportaria isto? Contudo, Deus suporta os corações de tantas pessoas que oram e pensam em coisas diferentes. ...Que faremos, pois? Devemos desesperar do gênero humano, e dizer que já está condenado todo homem em cujas orações se tenham insinuado e as tenham interrompido pensamentos errantes? Se dissermos isto, meus irmãos, não sei que esperança resta. Portanto, porque há alguma esperança diante de Deus, porque a Sua misericórdia é grande, digamos-Lhe: "Porque a Ti, Senhor, levantei a minha alma." E como a levantei? Como pude, como Tu me deste força, como pude captá-la quando fugia. ...Da fraqueza desfaleço: cura-me Tu, e me levantarei; fortalece-me Tu, e serei forte. Mas, até que faças isto, Tu me suportas: "Porque Tu, Senhor, és bom e clemente, e de grande misericórdia." Isto é, não apenas "de misericórdia", mas "de grande misericórdia": pois, quanto mais abunda a nossa iniquidade, tanto mais abunda a Tua misericórdia. "Para com todos os que Te invocam." Que quer, pois, dizer a Escritura, em muitos lugares: "Clamarão, e não os ouvirei"? Contudo, certamente és misericordioso para com todos os que Te invocam; mas sucede que alguns clamam, e todavia não O invocam, daqueles de quem se diz: "Não invocaram a Deus." Clamam, mas não a Deus. Tu invocas aquilo que amas: invocas aquilo que chamas a ti, aquilo que desejas que venha a ti. Portanto, se invocas a Deus por esta razão, para que te venha dinheiro, para que te venha uma herança, para que te venha posição no mundo, invocas aquelas coisas que desejas que te venham; mas fazes de Deus o auxiliar dos teus desejos, não o ouvinte das tuas necessidades. Deus é bom, se dá o que desejas. Mas, se desejas o mal, não será Ele então mais misericordioso não o dando? Então, se não o dá, então Deus não é nada para ti; e dizes: Quanto orei, quantas vezes orei, e não fui ouvido! Ora, que pediste? Talvez que morresse o teu inimigo. E se ele, ao mesmo tempo, orava pela tua morte? Aquele que te criou, criou também a ele; tu és homem, ele também é homem; mas Deus é o Juiz: ouve a ambos, e a nenhum concede a sua súplica. Estás triste, porque não foste ouvido ao orar contra ele; alegra-te, porque a súplica dele não foi ouvida contra ti. Mas dizes: Não pedi isto; não pedi a morte do meu inimigo, mas a vida do meu filho; que mal pedi? Não pediste mal, como pensaste. E se "foi levado, para que a malícia não lhe alterasse o entendimento"? Mas era pecador, dizes tu, e por isso desejei que vivesse, para que se corrigisse. Desejaste que ele vivesse, para que se tornasse melhor; e se Deus soubesse que, se vivesse, se tornaria pior? ...Se, pois, invocas a Deus como Deus, confia que serás ouvido: tens parte naquele versículo: "E de grande misericórdia para com todos os que Te invocam." ...
8. Pensai, irmãos, e considerai que bens Deus dá aos pecadores; e aprendei daí o que Ele reserva para os seus próprios servos. Aos pecadores que O blasfemam todos os dias, Ele dá o céu e a terra, dá as fontes, os frutos, a saúde, os filhos, a riqueza, a abundância: todos esses bens ninguém os dá senão Deus. Aquele que dá tais coisas aos pecadores, que pensas que reserva para os seus fiéis? Há de crer-se isto d'Ele, que Aquele que dá tais coisas aos maus nada reserva para os bons? De modo algum: Ele reserva, não a terra, mas o céu para eles. Coisa demasiado comum, talvez, digo, quando digo céu; antes o próprio Deus, que fez o céu. Belo é o céu, mas mais belo é o Criador do céu. Mas vejo os céus, a Ele não O vejo. Porque tens olhos para ver os céus; coração ainda não tens para ver o Criador do céu; por isso Ele desceu do céu à terra, para purificar o coração, a fim de que seja visto Aquele que fez o céu e a terra. Mas espera tu, com plena paciência, a salvação. Com que tratamento há de curar-te, Ele o sabe; com que corte, com que fogo, Ele o sabe. Trouxeste sobre ti a enfermidade pecando; Ele vem não somente para cuidar, mas também para cortar e queimar. Não vês quanto sofrem os homens sob as mãos dos médicos, quando alguém lhes promete uma esperança incerta? Serás curado, diz o médico; tu...
"Fixa a minha oração em Teus ouvidos, ó Senhor" (v. 6). Grande é a instância daquele que ora! Isto é: que a minha oração não saia dos Teus ouvidos, fixa-a, pois, em Teus ouvidos. Como se afadigou ele para fixar a sua oração nos ouvidos de Deus? Responda Deus e diga-nos: Queres tu que Eu fixe a tua oração em Meus ouvidos? Fixa a Minha lei em teu coração; "e atende à voz da minha oração."
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10. "No dia da minha tribulação clamei a Ti, porque me ouviste" (v. 7). Um pouco antes dissera: Todo o dia clamei, todo o dia estive atribulado. Não diga, pois, nenhum cristão que há algum dia em que não esteja atribulado. Por "todo o dia" entendemos a totalidade do tempo. Que, pois, há tribulação mesmo quando nos vai bem? Ainda assim, tribulação. Como há tribulação? Porque "enquanto estamos no corpo, estamos ausentes do Senhor". Ainda que aqui abunde o que quer que seja, ainda não estamos naquela pátria para a qual nos apressamos a voltar. Aquele a quem é doce a peregrinação estrangeira não ama a sua pátria; se lhe é doce a pátria, amarga lhe é a peregrinação; se lhe é amarga a peregrinação, todo o dia há tribulação. Quando não há tribulação? Quando há alegria na própria pátria. "À Tua direita há delícias para sempre." "Encher-me-ás de alegria", diz ele, "com o Teu rosto: para que eu veja a delícia do Senhor." Ali passarão a fadiga e o gemido; ali não haverá oração, mas louvor; ali o Aleluia, ali o Amém, a voz em concórdia com os Anjos; ali visão sem falha e amor sem fadiga. Enquanto, pois, ali não estivermos, vede que não estamos naquilo que é o bem. Mas acaso tudo abunda? Se tudo abunda, vê se estás seguro de que nada perece. Mas eu tenho o que antes não tinha: veio-me mais dinheiro, que antes não tinha. Talvez tenha vindo também mais temor, que antes não tinhas: talvez fosses tanto mais seguro quanto mais pobre eras. Enfim, ainda que tenhas riqueza, que tenhas abundância desta prosperidade do mundo, que te seja dada segurança de que tudo isto não perecerá; além disso, que Deus te diga: Permanecerás para sempre nestas coisas, elas estarão para sempre contigo, mas o Meu rosto não verás. Que ninguém peça conselho à carne; pedi conselho ao Espírito; que vosso coração vos responda; que a esperança, a fé, a caridade, que começou a existir em vós, vos responda. Se, pois, nos fosse dada a certeza de que sempre estaríamos na abundância dos bens deste mundo, e se Deus nos dissesse: Não vereis a Minha face, alegrar-nos-íamos com esses bens? Alguém talvez escolhesse alegrar-se e dissesse: Estas coisas me abundam, está bem comigo, nada mais peço. Este ainda não começou a ser amante de Deus; ainda não começou a suspirar como quem está longe da pátria. Longe, longe de nós tais coisas; retirem-se todas essas seduções; retirem-se essas falsas lisonjas; afastem-se essas palavras que diariamente nos dizem: "Onde está o teu Deus?" Derramemos a nossa alma sobre nós mesmos, confessemo-nos em lágrimas, gememos na confissão, suspiremos na miséria. Tudo o que nos está presente além do nosso Deus não é doce: não quereríamos ter todas as coisas que Ele deu, se Ele não Se der a Si mesmo, que deu todas as coisas.
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2. "Os seus fundamentos estão sobre os montes santos" (v. 1). O Salmo ainda nada dissera acerca da cidade; começa assim, e diz: "Os seus fundamentos estão sobre os montes santos." De quem? Não pode haver dúvida de que fundamentos, especialmente entre montes, pertencem a alguma cidade. Assim, cheio do Espírito Santo, e com muitos pensamentos de amor e de saudade daquela cidade, como após longa meditação interior, aquele cidadão prorrompe: "Os seus fundamentos estão sobre os montes santos", como se já houvesse dito algo a seu respeito. E como poderia ter dito nada sobre um assunto acerca do qual, em seu coração, jamais se calara? Pois como se poderia ter escrito "os seus fundamentos", de que nada antes se dissera? Mas, como disse, após longo e silencioso trabalho de parto na contemplação daquela cidade em sua mente, clamando a Deus, prorrompe aos ouvidos dos homens assim: "Os seus fundamentos estão sobre os montes santos." E, supondo que aqueles que o ouviam indagassem de que cidade falava, acrescenta: "o Senhor ama as portas de Sião." Eis, pois, uma cidade cujos fundamentos estão sobre os montes santos, uma cidade chamada Sião, cujas portas o Senhor ama, como acrescenta, "mais que todas as moradas de Jacó." Mas que significa isto, "os seus fundamentos sobre os montes santos"? Quais são os montes santos sobre os quais esta cidade está edificada? Outro cidadão no-lo diz mais claramente, o Apóstolo Paulo: desta cidade foi cidadão o Profeta, desta cidade foi cidadão o Apóstolo; e falaram para exortar os demais cidadãos. Mas como são estes, digo, os Profetas e Apóstolos, cidadãos? Talvez neste sentido: que eles mesmos são os montes sobre os quais estão os fundamentos desta cidade, cujas portas o Senhor ama. Diga, pois, outro cidadão isto claramente, para que eu não pareça conjecturar. Falando aos gentios, e dizendo-lhes como estavam voltando, e sendo, por assim dizer, enquadrados juntamente na santa estrutura, "edificados", diz ele, "sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas"; e porque nem os Apóstolos nem os Profetas, sobre os quais repousam os fundamentos daquela cidade, poderiam subsistir por seu próprio poder, acrescenta: "sendo Ele mesmo, Jesus Cristo, a principal pedra angular." Para que, pois, os gentios não pensassem que nada tinham a ver com Sião — pois Sião era certa cidade deste mundo, que trazia uma semelhança típica, como sombra, daquela Sião de que logo fala, aquela Jerusalém Celeste, da qual diz o Apóstolo, "que é a mãe de todos nós" —, para que não se dissesse que nada tinham a ver com Sião, pelo fato de não pertencerem ao povo judeu, dirige-lhes estas palavras: "Assim, pois, já não sois estrangeiros e forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus, e edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas." Vês a estrutura de tão grande cidade; mas sobre que repousa todo esse edifício, onde se firma, para que jamais caia? "Sendo Ele mesmo, Jesus Cristo", diz ele, "a principal pedra angular."
3. ...Mas, para que saibais que Cristo é ao mesmo tempo o mais antigo e o mais alto fundamento, diz o Apóstolo: "Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo." Como, pois, são os Profetas e Apóstolos fundamentos, sendo Cristo também fundamento, do qual nada pode ser mais alto? Como se há de entender isto, senão que, assim como abertamente Ele é chamado Santo dos santos, assim figuradamente é chamado Fundamento dos fundamentos? Assim, se pensas em mistérios, Cristo é o Santo dos santos; se em um rebanho súdito, o Pastor dos pastores; se em um edifício, a Coluna das colunas. Nos edifícios materiais, a mesma pedra não pode estar acima e abaixo; se está no fundo, não pode estar no topo, e vice-versa, pois quase todos os corpos estão sujeitos a limitações no espaço, nem podem estar em toda parte ou para sempre; mas, como a Divindade está em todo lugar, de todo lugar podem ser tomados símbolos para Ela; e, não sendo nenhuma destas coisas em propriedades externas, pode ser tudo em figura. É Cristo uma porta, no mesmo sentido em que são as portas que vemos feitas por carpinteiros? Certamente não; e, contudo, disse Ele: "Eu sou a porta." Ou pastor, na mesma capacidade daqueles que guardam ovelhas? Ainda que tenha dito: "Eu sou o Pastor." Ambos os nomes ocorrem na mesma passagem: no Evangelho, disse Ele que o pastor entra pela porta; as palavras são: "Eu sou o bom Pastor"; e, na mesma passagem, "Eu sou a porta"; e quem é o pastor que entra pela porta? "Eu sou o bom Pastor"; e qual é a porta pela qual Tu, bom Pastor, entras? Como, pois, és Tu tudo? No sentido em que tudo é por Mim. Para explicar: quando Paulo entra pela porta, não entra Cristo? Por quê? Não porque Paulo seja Cristo, mas porque Cristo está em Paulo, e Paulo age por Cristo. Diz o Apóstolo: "Buscais prova de que Cristo fala em mim?" Quando os Seus santos e fiéis discípulos entram pela porta, não entra Cristo pela porta? Como havemos de provar isto? Pois Saulo, ainda não chamado Paulo, perseguia esses mesmos santos, quando Ele lhe bradou do Céu: "Saulo, Saulo, por que Me persegues?" Ele mesmo, pois, é o fundamento e a pedra angular, erguendo-se desde o fundo — se é que desde o fundo, pois a base deste fundamento é a mais alta exaltação do edifício; e, assim como o suporte das construções corpóreas repousa no chão, o das estruturas espirituais repousa no alto. Se estivéssemos edificando sobre a terra, poríamos o nosso fundamento no nível mais baixo; mas, como o nosso edifício é celestial, ao Céu foi o nosso Fundamento adiante de nós; de modo que o nosso Salvador, a pedra angular, os Apóstolos e os poderosos Profetas, os montes que sustentam a estrutura da cidade, constituem uma espécie de edifício vivo. Este edifício agora clama de vossos corações; para que sejais edificados em sua estrutura, a mão de Deus, como a de um artífice, opera até mesmo através da minha língua. Nem foi sem propósito que a arca de Noé fosse feita de "vigas quadradas", que prefiguravam a forma da Igreja. Pois que é ser quadrado? Ouvi a semelhança da pedra quadrada: qualidades semelhantes devem... [texto truncado no original]
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1. O Salmo que acabamos de cantar é breve, se olharmos ao número de suas palavras, mas de profundo interesse em seus pensamentos. ...O assunto do canto e do louvor neste Salmo é uma cidade, cujos cidadãos somos nós, na medida em que somos cristãos; da qual estamos ausentes, enquanto somos mortais; para a qual tendemos; por cujos acessos, indiscerníveis entre os espinhos e abrolhos que os emaranham, o Soberano da cidade abriu para nós um caminho, a fim de que a alcancemos. Caminhando, pois, em Cristo, e peregrinos até chegarmos, e suspirando com saudade de certo repouso inefável que habita naquela cidade, repouso do qual se promete que "olho jamais viu" tal coisa, "nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem"; entoemos o cântico de um coração saudoso, pois quem verdadeiramente tem saudade, assim canta em sua alma, ainda que a sua língua se cale; quem não tem, por mais que ressoe aos ouvidos humanos, é mudo diante de Deus. Vede quão ardentes amantes daquela cidade foram aqueles por quem estas palavras foram compostas, por quem nos foram transmitidas; com quão profundo sentimento foram elas por eles cantadas! Sentimento que o amor daquela cidade neles criou; amor que o Espírito de Deus inspirou; "o amor de Deus", diz ele, "derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado." Fervorosos, pois, com este Espírito, ouçamos o que se diz daquela cidade.
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4. "O Senhor ama as portas de Sião mais que todas as moradas de Jacó" (v. 2). Fiz as observações precedentes, para que não imaginásseis que as portas são uma coisa, e os fundamentos, outra. Por que são os Apóstolos e Profetas fundamentos? Porque a sua autoridade é o sustento da nossa fraqueza. Por que são portas? Porque por eles entramos no reino de Deus, pois eles no-lo anunciam; e, ao entrarmos por seu intermédio, entramos também por Cristo, sendo Ele mesmo a Porta. E fala-se de doze portas de Jerusalém, e a porta única é Cristo, e as doze portas são Cristo, pois Cristo habita nas doze portas; daí ser doze o número dos Apóstolos. Há um profundo mistério neste número de doze: "Vós vos sentareis", diz o nosso Salvador, "sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel." Se ali há doze tronos, não haverá lugar para o tribunal de Paulo, o décimo terceiro Apóstolo, ainda que diga que julgará não somente os homens, mas até mesmo os Anjos — quais, senão os Anjos caídos? "Não sabeis", escreve ele, "que havemos de julgar os Anjos?" O mundo responderia: Por que te gabas de que hás de ser juiz? Onde estará o teu trono? Nosso Senhor falou de doze tronos para os doze Apóstolos: um, Judas, caiu, e seu lugar sendo suprido por Matias, completou-se o número de doze tronos; descobre, pois, primeiro lugar para o teu tribunal, e depois ameaça que hás de julgar. Reflitamos, pois, sobre o significado dos doze tronos. A expressão é figura de certa universalidade, pois a Igreja estava destinada a prevalecer por todo o mundo; donde este edifício é chamado uma edificação conjunta em Cristo; e, porque juízes vêm de todas as partes, falam-se doze tronos, assim como as doze portas, pela entrada de todos os lados naquela cidade. Há quatro regiões do globo: Oriente, Ocidente, Norte e Sul; e são constantemente aludidas nas Escrituras. Daqueles quatro ventos declara o nosso Senhor no Evangelho que há de chamar as suas ovelhas "dos quatro ventos"; portanto, de todos aqueles quatro ventos é chamada a Igreja. E como é chamada? De todo lado é chamada na Trindade; não de outro modo é chamada senão pelo Batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; quatro, pois, tomado três vezes, resulta em doze. Batei, pois, com todo o coração a estas portas; e clame Cristo dentro de vós: "Abri-me as portas da justiça." Pois Ele nos precedeu como Cabeça; a Si mesmo segue em Seu Corpo. ...
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5. "Coisas gloriosíssimas se dizem de ti, cidade de Deus" (v. 3). Contemplava ele, por assim dizer, aquela cidade de Jerusalém na terra; pois considerai de que cidade fala, da qual se dizem certas coisas gloriosíssimas. Ora, a cidade terrena foi destruída; após sofrer o furor do inimigo, caiu por terra; já não é o que era; exibiu o emblema, e a sombra passou. De onde, pois, se dizem "coisas gloriosíssimas de ti, cidade de Deus"? Ouvi de onde: "Pensarei em Raabe e na Babilônia, entre aqueles que Me conhecem" (v. 4). Naquela cidade, o Profeta, na pessoa de Deus, diz: "Pensarei em Raabe e na Babilônia." Raabe não pertence ao povo judeu; a Babilônia não pertence ao povo judeu; como é claro pelo versículo seguinte: "Pois também os filisteus, e Tiro, com os etíopes, ali estavam." Merecidamente, pois, "coisas gloriosíssimas se dizem de ti, cidade de Deus", pois nela se inclui não somente a nação judaica, nascida da carne de Abraão, mas também todas as nações, algumas das quais são nomeadas para que todas se entendam. "Pensarei", diz ele, "em Raabe": quem é aquela meretriz? Aquela meretriz em Jericó, que recebeu os espias e os conduziu para fora da cidade por caminho diverso; que confiou de antemão na promessa, que temeu a Deus, a quem se ordenou que pendurasse na janela um fio de escarlate, isto é, que trouxesse na fronte o sinal do sangue de Cristo. Ali foi salva, e assim representou a Igreja dos gentios; donde disse o nosso Senhor aos soberbos fariseus: "Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram no reino de Deus antes de vós." Entram antes, porque fazem violência; abrem caminho pela fé, e à fé se abre caminho, nem pode ninguém resistir, pois os que são violentos a tomam à força. Pois está escrito: "O reino dos céus padece violência, e os violentos o arrebatam." Assim procedeu o ladrão, mais corajoso na cruz do que no lugar da emboscada. "Pensarei em Raabe e na Babilônia." Por Babilônia entende-se a cidade deste mundo; assim como há uma cidade santa, Jerusalém, há uma não santa, Babilônia; todos os ímpios pertencem à Babilônia, assim como todos os santos a Jerusalém. Mas ele desliza da Babilônia para Jerusalém. Como, senão por Aquele que justifica o ímpio? Jerusalém é a cidade dos santos; Babilônia, a dos ímpios; mas vem Aquele que justifica o ímpio, pois se diz: "Pensarei", não somente "em Raabe", mas "na Babilônia"; mas com quem? "Com aqueles que Me conhecem." ...
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6. Ouvi agora um profundo mistério. Raabe ali está por meio d'Aquele por quem também está a Babilônia, já não mais Babilônia, mas começando a ser Jerusalém. A filha está dividida contra sua mãe, e há de estar entre os membros daquela rainha a quem se diz: "Esquece o teu povo e a casa de teu pai, e assim o rei se agradará de tua formosura." Pois como poderia a Babilônia aspirar a Jerusalém? Como poderia Raabe alcançar aqueles fundamentos? Como poderiam os filisteus, ou Tiro, ou o povo dos etíopes? Ouvi este versículo: "Sião, minha mãe, dirá um homem." Há, pois, um homem que diz isto, por meio de quem todos aqueles que mencionei fazem sua entrada. Quem é este homem? Ele o revela, se ouvirmos, se entendermos. Segue-se, como se se houvesse levantado uma questão, por auxílio de quem Raabe, a Babilônia, os filisteus, Tiro e os etíopes obtiveram entrada. Eis por meio de quem vêm: "Sião, minha mãe, dirá um homem; e nela nasceu um homem, e o próprio Altíssimo a fundou" (v. 5). Que, meus irmãos, pode ser mais claro? Verdadeiramente, porque "coisas gloriosíssimas se dizem de ti, cidade de Deus." Eis: "Sião, ó mãe, dirá um homem." Que homem? "Aquele que nela nasceu." É, pois, o homem que nasceu nela, e Ele mesmo a fundou. Mas como pode Ele nascer na cidade que Ele mesmo fundou? Já estava fundada, para que nela Ele nascesse. Entendei isto, se puderdes: "Mãe Sião, dirá ele"; mas é "um homem" que "dirá: Mãe Sião; sim, um homem nasceu nela"; e, contudo, "a fundou" (não um homem, mas) "o Altíssimo". Assim como criou uma mãe de quem havia de nascer, assim fundou uma cidade em que havia de nascer. Que esperança é a nossa, irmãos! Por nossa causa, o Altíssimo, que fundou a cidade, chama aquela cidade de mãe: e "nela nasceu, e o Altíssimo a fundou."
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7. Como se se dissesse: Como sabeis isto? Todos nós temos cantado estes Salmos; e Cristo, Homem por nossa causa, Deus antes de nós, canta dentro de todos nós. Mas será isto muito dizer, "antes de nós", d'Aquele que existia antes do céu e da terra e do tempo? Ele, pois, nascido por nossa causa homem naquela cidade, também a fundou quando era o Altíssimo. Mas como estamos disto seguros? "O Senhor o narrará quando inscrever os povos" (v. 6), como tem o versículo seguinte. "O Senhor o declarará, quando inscrever os povos, e os seus príncipes." Que príncipes? "Aqueles que nasceram nela"; aqueles príncipes que, nascidos dentro de seus muros, nela se tornaram príncipes; pois, antes que pudessem tornar-se príncipes nela, Deus escolheu as coisas desprezíveis do mundo para confundir as fortes. Era o pescador, o publicano, um príncipe? Eram, sim, príncipes; mas porque nela se tornaram tais. Príncipes de que tipo eram eles? Príncipes vindos da Babilônia, monarcas crentes deste mundo, vieram à cidade de Roma, como à cabeça da Babilônia; não foram ao templo do Imperador, mas ao túmulo do Pescador. De onde, pois, se contavam como príncipes? "Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes, e as coisas loucas Ele escolheu, e as coisas que não são, como se fossem, para reduzir a nada as coisas que são." Isto faz Aquele que "do chão levanta o desamparado, e do monturo exalta o pobre." Para quê? "Para o assentar com os príncipes, sim, com os príncipes do Seu povo." Esta é uma obra poderosa, fonte profunda de prazer e exultação. Vieram depois a esta cidade os oradores, mas jamais o poderiam ter feito, se antes não a tivessem precedido os pescadores. Estas coisas são, na verdade, gloriosas, mas onde poderiam ter lugar, senão naquela cidade de Deus, de quem se dizem coisas gloriosíssimas?
Assim, portanto, depois de reunir e mesclar toda fonte de exultação jubilosa, como conclui ele? "A morada de todos os que hão de ser feitos alegres está em Ti" (v. 7). Como se todos os que se alegram, todos os que exultam, houvessem de habitar naquela cidade. Em nossas peregrinações aqui sofremos contusões: nossa última morada será a morada da alegria somente. O labor e os gemidos hão de perecer: as preces passam, os hinos de louvor as sucedem. Ali estará a morada dos bem-aventurados; não mais os gemidos dos que anseiam, mas o júbilo dos que gozam. Pois estará presente Aquele por quem suspiramos: seremos semelhantes a Ele, pois O veremos como Ele é: ali toda a nossa tarefa será louvar e gozar da presença de Deus: e que mais havemos de pedir, quando só Ele nos satisfaz, por quem todas as coisas foram feitas? Habitaremos e seremos habitados; e estaremos sujeitos a Ele, para que Deus seja tudo em todos. "Bem-aventurados", pois, "os que habitam em Tua casa." Bem-aventurados em quê? No ouro, na prata, na multidão de servos, na prole numerosa? "Bem-aventurados os que habitam em Tua casa: pelos séculos dos séculos Te louvarão." Bem-aventurados naquele único labor que é repouso! Seja, pois, este o único e exclusivo objeto de nosso desejo, meus irmãos, quando houvermos alcançado essa passagem. Preparemo-nos para nos alegrarmos em Deus, para louvá-Lo. As boas obras que nos conduzem até lá não serão ali necessárias. Descrevi, tanto quanto pude, apenas ontem, nossa condição ali: não haverá obras de caridade onde não houver miséria alguma: não encontrarás ali um necessitado, um nu, ninguém te sairá ao encontro atormentado pela sede, não haverá forasteiro, nem enfermo a visitar, nem morto a sepultar, nem litigantes a apaziguar. Que farás, pois, então? Plantaremos novas vinhas, lavraremos, negociaremos, empreenderemos viagens, para sustentar as necessidades do corpo? Ali haverá profundo sossego; cessará toda obra laboriosa que a necessidade exige: morta a necessidade, morrerão também as suas obras. Qual será, pois, o nosso estado? Tanto quanto pôde, a língua de um homem no-lo disse assim: "Como que a morada de todos os que hão de ser aperfeiçoados está em Ti." Por que diz "como que"? Porque ali haverá tal alegria qual não conhecemos aqui. Muitos prazeres vejo aqui, e muitos se alegram neste mundo, uns numa coisa, outros noutra; mas nada se compara àquele deleite, senão dizendo que será "como que" ser feito jubiloso. Pois se digo alegria, logo os homens pensam naquela alegria que costumam ter no vinho, no festim, na avareza, e nas distinções do mundo. Pois com essas coisas se exaltam os homens, e enlouquecem com uma certa alegria: mas "não há alegria, diz o Senhor, para os ímpios." Há uma espécie de alegria que ouvido de homem não ouviu, nem olho viu, nem em coração humano jamais entrou. "Como que a morada de todos os que hão de ser feitos jubilosos está em Ti." Preparemo-nos para outros deleites: pois o que aqui encontramos é uma espécie de sombra, não a realidade: para que não esperemos gozar ali das mesmas coisas com que aqui nos deleitamos: de outro modo, nossa abstinência será avareza. Algumas pessoas, convidadas a um rico banquete, onde ainda hão de vir muitos e custosos pratos, abstêm-se de romper o jejum: se lhes perguntas a razão, dizem-te que estão jejuando: o que é, de fato, grande obra, obra cristã. Todavia, não te apresses em louvá-las: examina os seus motivos: é o ventre, não a religião, que consultam. Para que o apetite não se embote com pratos ordinários, abstêm-se até que se lhes sirva alimento mais delicado. Este jejum é, pois, para a garganta. O jejum é, sem dúvida, importante: combate contra o ventre e o paladar; mas, por vezes, combate a favor deles. Assim, meus irmãos, se imaginais que encontraremos naquela pátria, para a qual a trombeta celeste nos impele, quaisquer prazeres semelhantes, e por isso vos absteis dos gozos presentes, para que ali os recebais mais copiosamente, imitais aqueles que descrevi, que jejuam apenas para maior festim, e se abstêm apenas para maior indulgência. Não sejais assim: preparai-vos para um certo deleite inefável: purificai vossos corações de todo afeto terreno e secular. Veremos algo, cuja visão nos fará bem-aventurados: e isso só nos bastará. Que, pois? Não comeremos? Sim, comeremos: mas esse será o nosso alimento, que sempre restaura, e nunca falta. "Em Ti está a morada de todos os que hão de ser, como que, feitos jubilosos." Já nos disse como seremos feitos jubilosos. "Bem-aventurados os que habitam em Tua casa: pelos séculos dos séculos Te louvarão." Louvemos ao Senhor tanto quanto nos seja possível, mas com lamentos mesclados: pois, ao mesmo tempo que O louvamos, suspiramos por Ele, e ainda não O temos. Quando O tivermos, ser-nos-ão tiradas todas as nossas dores, e nada restará senão o louvor, puro e sempiterno. Oremos agora.
O título deste octogésimo sétimo Salmo contém nova matéria de investigação: as palavras aqui postas, "para Melech responder," não se encontrando em nenhum outro lugar. Já demos nossa opinião sobre o sentido dos títulos Psalmus Cantici e Canticum Psalmi: e as palavras "filhos de Coré" repetem-se constantemente, e já foram muitas vezes explicadas: assim também "até o fim"; mas o que se segue neste título é peculiar. Pois por "Melech" podemos traduzir em latim "para o coro," pois coro é o sentido da palavra hebraica Melech. ...A Paixão de nosso Senhor é aqui profetizada. Ora, diz o Apóstolo Pedro: "Também Cristo padeceu por nós, deixando-nos exemplo, para que sigamos os Seus passos"; este é o sentido de "responder." Diz também o Apóstolo João: "Assim como Cristo deu a Sua vida por nós, assim devemos também nós dar as nossas vidas pelos irmãos"; isto também é responder. Ora, o coro significa a concórdia, a qual consiste na caridade: quem, pois, à imitação da Paixão de nosso Senhor, entrega o corpo para ser queimado, se não tiver caridade, não responde no coro, e por isso de nada lhe aproveita. Além disso, assim como em latim se usam os termos Precentor e Succentor para designar, na música, o que canta a primeira parte, e o que a retoma; assim também neste cântico da Paixão, indo Cristo à frente, segue-Se o coro dos mártires até ao fim de alcançarem coroas no Céu. Isto é cantado pelos "filhos de Coré," isto é, pelos imitadores da Paixão de Cristo: assim como Cristo foi crucificado no Calvário, que é a interpretação da palavra hebraica Coré. Isto é também "o entendimento de Emã, o israelita": palavras que ocorrem no final deste título. Diz-se que Emã significa "seu irmão": pois Cristo Se digna fazer Seus irmãos aqueles que entendem o mistério de Sua Cruz, e não somente dela não se envergonham, mas fielmente nela se gloriam, não louvando a si mesmos por méritos próprios, mas gratos pela Sua graça: de modo que a cada um deles se possa dizer: "Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo," assim como a Sagrada Escritura diz do próprio Israel, que era sem dolo.
"Senhor Deus da minha salvação, dia e noite clamei diante de Ti" (v. 1). Ouçamos, pois, agora a voz de Cristo cantando diante de nós em profecia, a quem Seu próprio coro deveria responder, seja por imitação, seja por ação de graças.
"Entre a minha oração em Tua presença, inclina o Teu ouvido ao meu clamor" (v. 2). Pois também nosso Senhor orou, não na forma de Deus, mas na forma de servo; pois nesta também padeceu. Orou tanto nos tempos prósperos, isto é, no "dia," quanto na calamidade, o que imagino ser significado pela "noite." A entrada da oração na presença de Deus é a sua aceitação: a inclinação do Seu ouvido é a Sua compassiva escuta: pois Deus não tem membros corpóreos como nós temos. A passagem é, contudo, como de costume, uma repetição.
"Pois a minha alma está cheia de males, e a minha vida se aproxima do inferno" (v. 3). Ousaremos dizer que a Alma de Cristo estava "cheia de males," quando a paixão só teve força, na medida em que a teve, sobre o corpo? ...A alma, pois, pode sentir dor sem o corpo: mas sem a alma o corpo não pode. Por que, pois, não havemos de dizer que a Alma de Cristo estava cheia dos males da humanidade, ainda que não dos pecados humanos? Outro Profeta diz Dele que Se afligiu por nós: e o Evangelista diz: "E tomou consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, e começou a entristecer-Se e a angustiar-Se sobremaneira": e o próprio Senhor lhes diz de Si mesmo: "A minha alma está sobremaneira triste até a morte." O Profeta que compôs este Salmo, prevendo que isto haveria de acontecer, O introduz dizendo: "A minha alma está cheia de males, e a minha vida se aproxima do inferno." Pois é aqui expresso, em outras palavras, exatamente o mesmo sentido de quando disse: "A minha alma está triste até a morte." As palavras "a minha alma está triste" são como estas, "a minha alma está cheia de males": e o que se segue, "até a morte," como "a minha vida se aproxima do inferno." Estes sentimentos da fraqueza humana tomou-os sobre Si nosso Senhor, assim como tomou a carne da fraqueza humana, e a morte da carne humana, não pela necessidade de Sua condição, mas pela livre vontade de Sua misericórdia, para transfigurar em Si mesmo o Seu próprio corpo, que é a Igreja (cuja cabeça Se dignou ser), isto é, os Seus membros em Seus santos e fiéis discípulos: para que, se em meio às tentações humanas algum deles viesse a estar em tristeza e dor, não pensasse por isso estar separado do Seu favor: para que o corpo, como o coro que segue o seu regente, aprendesse de sua Cabeça que estas tristezas não eram pecado, mas provas da fraqueza humana. Lemos do Apóstolo Paulo, membro principal deste corpo, e o ouvimos confessar que sua alma estava cheia de tais males, quando diz que sente "grande peso e contínua tristeza no coração por seus irmãos segundo a carne, que são israelitas." E se dissermos que nosso Senhor também Se entristeceu por eles, à aproximação de Sua Paixão, na qual haveriam de incorrer na mais atroz culpa, creio que não falaremos mal. Enfim, a própria coisa que disse nosso Salvador na Cruz, "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem," é expressa mais abaixo neste Salmo: "Sou contado como um dos que descem à cova" (v. 4): por aqueles que não sabiam o que faziam, quando imaginavam que Ele morria como os demais homens, sujeito à necessidade, e por ela vencido. A palavra "cova" é usada para a profundeza da aflição ou do Inferno. "Fui como um homem sem socorro algum."
"Livre entre os mortos" (v. 5). Nestas palavras a Pessoa de nosso Senhor é mostrada de modo mais claro: pois quem mais é livre entre os mortos senão Aquele que, embora à semelhança da carne do pecado, é o único entre os pecadores sem pecado? ...Ele, pois, "livre entre os mortos," que tinha em Seu poder deixar a Sua vida, e de novo retomá-la; a quem ninguém podia tirá-la, mas Ele a deixou por sua própria livre vontade; que podia reerguer a Sua própria carne, como templo por eles destruído, à Sua vontade; que, quando todos O haviam abandonado na véspera de Sua Paixão, não ficou sozinho, porque, como Ele mesmo testifica, o Pai não O abandonou: foi, contudo, por Seus inimigos, por quem orava, que não sabiam o que faziam, ...contado "como quem não tem socorro algum; como aqueles que estão feridos, e jazem na sepultura." Mas acrescenta: "De quem Tu ainda não Te lembras": e nestas palavras deve-se notar uma distinção entre Cristo e o restante dos mortos. Pois, embora fosse ferido, e, morto, posto na sepultura, todavia aqueles que não sabiam o que faziam, ou quem Ele era, O consideravam semelhante a outros que haviam perecido de suas feridas, e que dormiam na sepultura, os quais ainda estão fora da lembrança de Deus, isto é, cuja hora de ressurreição ainda não chegou. Pois assim fala a Escritura dos mortos como que dormindo, porque quer que sejam considerados destinados a despertar, isto é, a ressuscitar. Mas Ele, ferido e adormecido na sepultura, despertou ao terceiro dia, e tornou-Se "como o pardal que se assenta solitário sobre o telhado," isto é, à destra de Seu Pai nos Céus: e agora "não morre mais, a morte não mais terá domínio sobre Ele." Daí difere Ele grandemente daqueles de cuja ressurreição, deste modo, Deus ainda não Se lembrou: pois o que na Cabeça havia de preceder, para o Corpo se reservou no fim. Diz-se, então, que Deus Se lembra, quando faz um ato: e que Se esquece, quando não o faz: pois Deus não pode esquecer, já que jamais muda, nem lembrar, já que jamais pode esquecer. "Sou contado," pois, por aqueles que não sabem o que fazem, "como um homem sem socorro algum": enquanto sou "livre entre os mortos," sou tido por estes homens "como aqueles que estão feridos, e jazem na sepultura." Contudo, os próprios homens que assim Me consideram são ainda ditos "cortados da Tua mão," isto é, quando por eles fui assim feito, "foram cortados da Tua mão"; aqueles que criam que Eu estava destituído de socorro são privados do socorro de Tua mão: pois, como diz noutro Salmo, cavaram diante de mim uma cova, e nela mesmos caíram. Prefiro esta interpretação àquela que refere as palavras "são cortados da Tua mão" aos que dormem na sepultura, de quem Deus ainda não Se lembrou: pois entre estes últimos estão os justos, dos quais, ainda que Deus ainda não os tenha chamado à ressurreição, se diz que "suas almas estão nas mãos de Deus," isto é, que "habitam sob a proteção do Altíssimo, e permanecerão sob a sombra do Deus dos Céus." Mas são cortados da mão de Deus aqueles que criam que Cristo fora cortado da Sua mão, e assim, contando-O entre os ímpios, ousaram matá-Lo.
"Puseram-Me na cova mais baixa" (v. 6), isto é, na cova mais profunda. Pois assim está no grego. Mas que é a cova mais baixa, senão a aflição mais profunda, do que a qual nenhuma há mais funda? Donde noutro Salmo se diz: "Também me tiraste da cova da miséria." "Em lugar de trevas, e na sombra da morte," enquanto não sabiam o que faziam, ali O puseram, assim julgando dEle; não O conheciam, "a quem nenhum dos príncipes deste mundo conheceu." Pela "sombra da morte" não sei se se deve entender a morte do corpo, ou aquilo de que está escrito: "Que andavam em trevas e na terra da sombra da morte, sobre eles se levantou uma luz," porque pela fé foram trazidos das trevas e da morte do pecado para a luz e a vida. Assim julgaram nosso Senhor os que não sabiam o que faziam, e em sua ignorância O contaram entre aqueles a quem Ele veio socorrer, para que estes não permanecessem tais.
"Sobre mim pesa a Tua indignação" (v. 7), ou, como trazem outros exemplares, "a Tua ira"; ou, como outros, "o Teu furor": tendo a palavra grega qumoj recebido diferentes interpretações. Pois onde os exemplares gregos trazem orgh, nenhum tradutor hesitou em expressá-la pelo latim ira; mas onde a palavra é qumoj, a maioria se opõe a traduzi-la por ira, ainda que muitos autores do melhor estilo latino, em suas traduções da filosofia grega, assim tenham vertido a palavra em latim. Mas não discutirei mais esta questão: somente, se também eu houvesse de sugerir outro termo, julgaria "indignação" mais tolerável que "furor," não se aplicando esta palavra, em latim, a pessoas em seu juízo. Que significa, pois, isto, "sobre Mim pesa a Tua indignação," senão a crença daqueles que não conheceram o Senhor da Glória? que imaginavam que a ira de Deus não apenas se acendera, mas pesava duramente sobre Aquele a quem ousaram levar à morte, e não somente à morte, mas àquela espécie que consideravam a mais execrável de todas, a saber, a morte de cruz: donde diz o Apóstolo: "Cristo nos resgatou da maldição da Lei, feito por nós maldição: pois está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro." Por isso, querendo louvar a Sua obediência, que levou ao extremo da humildade, diz: "Humilhou-Se a Si mesmo, e Se fez obediente até a morte"; e, como isto parecesse pouco, acrescentou: "e morte de cruz"; e com o mesmo intuito, quanto posso ver, diz neste Salmo: "E todas as Tuas suspensões," ou, como alguns traduzem, "ondas," outros "vagas," "trouxeste sobre Mim." Encontramos também noutro Salmo: "Todas as Tuas suspensões e ondas vieram sobre Mim," ou, como alguns traduziram melhor, "passaram sobre Mim": pois no grego é dihlqon, não eishlqon: e onde ambas as expressões são empregadas, "ondas" e "suspensões," não se pode usar uma como equivalente da outra. Naquela passagem explicamos "suspensões" como ameaças, "ondas" como os sofrimentos efetivos: ambos infligidos pelo juízo de Deus: mas ali se diz "Todas passaram sobre Mim," aqui, "Tu as trouxeste todas sobre Mim." No primeiro caso, isto é, ainda que alguns males sobreviessem, disse ele, contudo todos os que ali se mencionam passaram; mas neste caso, "Tu os trouxeste sobre Mim." Os males passam quando não tocam o homem, como coisas que sobre ele pendem, ou quando o tocam, como as ondas. Mas quando usa a palavra "suspensões," não diz que passaram, mas "Tu as trouxeste sobre Mim," significando que tudo o que pendia se cumprira. Todas as coisas preditas de Sua Paixão pendiam, enquanto permaneciam nas profecias para cumprimento futuro.
7. "Puseste longe de Mim os Meus conhecidos" (v. 8). Se por "conhecidos" entendermos aqueles que Ele conhecia, serão todos os homens; pois a quem Ele não conhecia? Mas Ele chama de conhecidos àqueles a quem Ele mesmo era conhecido, na medida em que naquele tempo O podiam conhecer: ao menos na medida em que O conheciam como inocente, ainda que O considerassem apenas homem, não igualmente Deus. Embora pudesse chamar de conhecidos os justos a quem aprovava, assim como chama de desconhecidos os ímpios, a quem havia de dizer ao final: "Não vos conheço." No que se segue, "e me puseram por objeto de abominação para si mesmos", podem estar significados aqueles a quem antes chamou de "conhecidos", pois até estes sentiram horror ante o modo daquela morte; mas melhor se refere àqueles de quem falava acima como Seus perseguidores. "Fui entregue, e não pude sair." Será isto porque Seus discípulos estavam fora, enquanto Ele era julgado dentro? Ou devemos dar sentido mais profundo às palavras "não posso sair", como significando: "Permaneci oculto em Meus secretos desígnios, não mostrei quem Eu era, não Me revelei, não fui manifestado"? E assim se segue-
"Meus olhos enfraqueceram por falta" (v. 9). Que olhos devemos entender aqui? Se os olhos da carne em que padeceu, não lemos que Seus olhos se enfraqueceram por falta, isto é, por fome, em Sua Paixão, como amiúde sucede; pois foi traído depois de Sua Ceia, e crucificado no mesmo dia: se os olhos interiores, como se enfraqueceriam por falta, sendo que neles havia luz que jamais poderia faltar? Mas Ele quis significar por Seus olhos aqueles membros no corpo, do qual Ele mesmo era a cabeça, os quais, como mais luminosos e mais eminentes e principais sobre os demais, Ele amava. Deste corpo falava o Apóstolo, quando escreveu, tomando sua metáfora de nosso próprio corpo: "Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido?" etc. O que quis fazer entender por estas palavras, ele o exprimiu mais claramente ao acrescentar: "Ora, vós sois o corpo de Cristo, e membros em particular." Por onde, assim como aqueles olhos, isto é, os santos Apóstolos, a quem não a carne e o sangue, mas o Pai que está nos Céus O havia revelado, de modo que Pedro disse: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo", quando O viram traído, e padecendo tais males, não O viram tal como desejavam, pois Ele não saía, não Se manifestava em Sua virtude e poder, mas ainda oculto em Seu segredo, suportava tudo como homem vencido e enfraquecido, eles se enfraqueceram por falta, como se lhes tivesse sido subtraído seu alimento, sua Luz.
8. Continua: "E Te invoquei." Isto de fato fez mui claramente, quando na Cruz. Mas que se segue? "Todo o dia estendi as Minhas mãos para Ti", cumpre examinar como se deve entender. Pois se nesta expressão entendermos o madeiro da Cruz, como poderemos conciliá-la com o "dia todo"? Poder-se-ia dizer que esteve pendente na Cruz durante o dia todo, considerando-se a noite como parte do dia? Mas se por esta expressão se entendia dia em oposição a noite, ainda deste dia, a primeira e não pequena parte já havia decorrido ao tempo de Sua crucificação. Mas se tomarmos "dia" no mesmo sentido de tempo (mormente porque a palavra se usa no gênero feminino, gênero que em latim se restringe a tal sentido, embora não assim em grego, onde sempre se usa no feminino, o que suponho ser a razão de sua tradução no mesmo gênero em nossa própria versão), o nó da questão se apertará mais: pois como poderia significar todo o espaço de tempo, se Ele nem por um dia sequer estendeu as mãos na Cruz? Além disso, se tomarmos o todo pela parte, como a Escritura por vezes usa esta expressão, não me recordo de exemplo em que o todo se tome pela parte quando a palavra "todo" é expressamente acrescentada. Pois na passagem do Evangelho em que o Senhor diz: "O Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra", não é licença extraordinária tomar o todo pela parte, não sendo a expressão para três dias "inteiros" e três noites inteiras: pois o dia intermediário era inteiro, os outros dois eram partes, sendo o último parte do primeiro dia, o primeiro parte do último. Mas se não é a Cruz o que aqui se significa, senão a oração, que encontramos no Evangelho ter Ele derramado sob forma de servo a Deus Pai, onde se diz haver orado longamente antes de Sua Paixão, e na véspera de Sua Paixão, e também quando na Cruz, não lemos em parte alguma que assim o fizesse durante o dia todo. Portanto, pelas mãos estendidas durante o dia todo, podemos entender a continuação das boas obras nas quais jamais cessou de se esforçar.
9. Mas como Suas boas obras aproveitaram somente aos predestinados à salvação eterna, e não a todos os homens, nem mesmo a todos aqueles entre os quais foram realizadas, acrescenta: "Farás porventura maravilhas entre os mortos?" (v. 10). Se supusermos que isto se refere àqueles cuja carne a vida abandonou, grandes maravilhas se operaram entre os mortos, na medida em que alguns deles reviveram: e na descida de nosso Senhor ao Inferno, e Sua ascensão como vencedor da morte, uma grande maravilha se operou entre os mortos. Refere-se então nestas palavras, "Farás porventura maravilhas entre os mortos?", a homens tão mortos no coração, que tão grandes obras de Cristo não puderam despertá-los para a vida da fé: pois não diz que as maravilhas não lhes são mostradas porque não as veem, mas porque não lhes aproveitam. Pois, como diz nesta passagem, "todo o dia estendi as Minhas mãos para Ti": porque sempre refere todas as Suas obras à vontade de Seu Pai, declarando constantemente que viera para cumprir a vontade de Seu Pai: assim também, como um povo incrédulo via as mesmas obras, diz outro Profeta: "Estendi as minhas mãos todo o dia a um povo rebelde, que não crê, mas contradiz." Mortos são, pois, aqueles a quem não se mostraram maravilhas, não porque não as viram, mas porque por elas não reviveram. O verso seguinte, "Acaso os médicos os ressuscitarão, e Te louvarão?", significa que os mortos não serão ressuscitados por tais meios, para que Te louvem. No hebraico, diz-se haver expressão diversa: usando-se "gigantes" onde aqui se põe "médicos"; mas os tradutores da Septuaginta, cuja autoridade é tal que merecidamente se pode dizer terem interpretado por inspiração do Espírito de Deus, dada sua maravilhosa concordância, concluem, não por engano, mas tomando ocasião da semelhança de som entre as palavras hebraicas que exprimem estes dois sentidos, que o uso da palavra é indicação do sentido em que se deve tomar a palavra "gigantes". Pois se supuserdes que por "gigantes" se significam os soberbos, dos quais diz o Apóstolo: "Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o disputador deste século?", não há incongruência em chamá-los médicos, como se por sua própria e desassistida perícia prometessem a salvação das almas: contra os quais se diz: "Do Senhor é a salvação." Mas se tomarmos a palavra "gigante" em sentido bom, como se diz de nosso Senhor: "Ele se alegra como gigante a correr o seu caminho"; isto é, Gigante dos gigantes, principal entre os maiores e mais fortes, que em Sua Igreja se sobressaem em força espiritual. Assim como Ele é o Monte dos montes, como está escrito: "E acontecerá nos últimos dias que o monte da casa do Senhor se manifestará no cume dos montes"; e o Santo dos santos: não há absurdo em denominar estes mesmos homens grandes e poderosos de médicos. Donde diz o Apóstolo: "se de algum modo eu puder provocar a emulação os que são minha carne, e salvar alguns deles." Mas ainda tais médicos, ainda que não curem por seu próprio poder (como tampouco os do corpo curam pelo seu), contudo, na medida em que por fiel ministério auxiliam para a salvação, podem curar os vivos, mas não ressuscitar os mortos: dos quais se diz: "Farás porventura maravilhas entre os mortos?" Pois a graça de Deus, pela qual as mentes dos homens são de certo modo trazidas a viver vida nova, de sorte que possam ouvir as lições da salvação de qualquer de seus ministros que seja, é gravíssima e mistérios íssima. Desta graça assim se fala no Evangelho: "Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que Me enviou não o trouxer"... a fim de mostrar que a própria fé pela qual a alma crê, e salta para vida nova desde a morte de suas antigas afeições, é dada por Deus. Quaisquer esforços, pois, que os melhores pregadores da palavra, e persuasores da verdade por meio de milagres, façam com os homens, tal como grandes médicos: contudo, se estes estão mortos, e por Tua graça não têm segunda vida, "farás porventura maravilhas entre os mortos, ou os médicos os ressuscitarão? E Te louvarão" aqueles a quem ressuscitam? Pois esta confissão declara que vivem: não, como está escrito noutro lugar, "A ação de graças perece dos mortos, como de quem não existe."
10. "Mostrar-se-á porventura a Tua benignidade na sepultura, ou a Tua fidelidade na perdição?" (v. 11). A palavra "mostrar" entende-se, evidentemente, como que repetida: Mostrará alguém a Tua fidelidade na perdição? A Escritura ama unir benignidade e fidelidade, especialmente nos Salmos. Também "perdição" é repetição de "sepultura", e significa aqueles que estão na sepultura, denominados acima "mortos", no verso "Farás porventura maravilhas entre os mortos?"; pois o corpo é a sepultura da alma morta; donde as palavras de nosso Senhor no Evangelho: "Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora, na verdade, parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos, e de toda imundícia. Assim também vós, por fora, pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniquidade."
11. "Serão conhecidas nas trevas as Tuas maravilhas, e a Tua justiça na terra do esquecimento?" (v. 12); as trevas correspondem à terra do esquecimento: pois pelas trevas se significam os incrédulos, como diz o Apóstolo: "Pois éreis outrora trevas"; e a terra do esquecimento é o homem que se esqueceu de Deus; pois a alma incrédula pode chegar a tão intensas trevas, que "o insensato diz em seu coração: Não há Deus." Assim se pode desenvolver o sentido de toda a passagem em sua conexão: "Senhor, Te invoquei", em meio a Meus sofrimentos; "todo o dia estendi para Ti as Minhas mãos" (v. 13). Jamais cessei de estender Minhas obras para Te glorificar. Por que, então, se enfurecem os ímpios contra Mim, senão porque "não mostras maravilhas entre os mortos"? Porque tais maravilhas não os movem à fé, nem os médicos podem restituí-los à vida para que Te louvem, porque Tua graça oculta não opera neles para atraí-los à fé: porque ninguém vem a Mim, senão aquele a quem Tu trouxeste. Mostrar-se-á, pois, "a Tua benignidade na sepultura"? Isto é, na sepultura da alma morta, que jaz morta sob o peso do corpo: "ou a Tua fidelidade na perdição"? Isto é, em morte tal que não possa crer nem sentir nenhuma destas coisas. "Pois como então nas trevas" desta morte, isto é, no homem que, esquecendo-Te, perdeu a luz de sua vida, "serão conhecidas as Tuas maravilhas e a Tua justiça"...
12. Mas para que estas orações, cujas bênçãos superam toda palavra, sejam mais fervorosas e mais constantes, adia-se o dom que há de durar para a eternidade, ao passo que se permite que se acumulem os males transitórios. E assim se segue: "Senhor, por que rejeitaste a minha oração?" (v. 14), o que se pode comparar com outro Salmo: "Meu Deus, meu Deus, olha para mim; por que me desamparaste?" A razão se põe em questão, não como se se culpasse a sabedoria de Deus de o fazer sem causa; e assim aqui: "Senhor, por que rejeitaste a minha oração?" Mas se esta causa for atentamente considerada, encontrar-se-á indicada acima; pois é com o intuito de que as orações dos Santos sejam, por assim dizer, repelidas pela demora de tão grande bênção, e pela adversidade que encontram nas tribulações da vida, que a chama, assim atiçada, possa irromper em fulgor mais vivo.
13. Para este fim, esboça brevemente no que se segue as tribulações do corpo de Cristo. Pois não é somente na Cabeça que se deram, visto que também a Saulo se diz: "Por que Me persegues?"; e o próprio Paulo, como que colocado qual membro eleito no mesmo corpo, diz: "Para que eu complete na minha carne o que resta das aflições de Cristo." "Por que, pois, Senhor, rejeitaste a minha alma? Por que escondes de mim o Teu rosto?"
"Sou pobre, e em trabalhos desde a minha mocidade: e quando exaltado, fui derrubado, e conturbado" (v. 15).
"As Tuas iras passaram sobre mim; os Teus terrores me perturbaram" (v. 16).
"Cercaram-me todo o dia como água: rodearam-me todos juntos" (v. 17).
"Um amigo Tu puseste longe de mim: e meus conhecidos afastaste de minha miséria" (v. 18). Todos estes males aconteceram e acontecem nos membros do corpo de Cristo, e Deus desvia Sua face das orações deles, não os ouvindo quanto ao que desejam, pois não sabem que o cumprimento de seus desejos não lhes seria bom. A Igreja é "pobre", pois tem fome e sede em suas peregrinações por aquele alimento com que será saciada em sua própria pátria: ela está "em labores desde a juventude", como o próprio Corpo de Cristo diz noutro Salmo: "Muitas vezes me combateram desde a minha juventude." E por esta razão alguns de seus membros são exaltados mesmo neste mundo, para que neles haja maior humildade. Sobre esse Corpo, que constitui a unidade dos Santos e dos fiéis, cuja Cabeça é Cristo, passam as iras de Deus: mas não permanecem, pois é apenas do incrédulo que está escrito que "a ira de Deus permanece sobre ele." Os terrores de Deus perturbam a fraqueza dos fiéis, porque tudo o que pode acontecer, ainda que de fato não aconteça, é prudente temer; e por vezes estes terrores agitam de tal modo a alma reflexiva com os males que a rodeiam, que estes parecem fluir ao nosso redor por todos os lados como água, cercando-nos em nossos temores. E como a Igreja, enquanto peregrina, jamais está livre destes males, que acontecem ora num de seus membros, ora noutro, ele acrescenta "todo o dia", significando a continuação no tempo, até o fim deste mundo. Também com frequência amigos e conhecidos, estando em jogo seus interesses mundanos, em seu terror abandonam os Santos; do que diz o Apóstolo: "todos me abandonaram: que isto não lhes seja imputado." Mas para que serve tudo isto, senão para que, de madrugada, isto é, após a noite da incredulidade, as orações deste santo Corpo possam, na luz da fé, preveni a Deus, até a vinda daquela salvação pela qual agora somos salvos por esperança, não por posse, enquanto a aguardamos com paciência e fidelidade. Então o Senhor não repelirá nossas orações, pois já não haverá nada mais a buscar, mas tudo o que foi retamente pedido será obtido: nem Ele desviará Sua face de nós, pois O veremos como Ele é: nem seremos pobres, porque Deus será nossa abundância, tudo em todos: nem sofreremos, pois não haverá mais fraqueza: nem, após a exaltação, encontraremos humilhação e confusão, pois não haverá ali adversidade: nem suportaremos sequer a ira transitória de Deus, pois permaneceremos em Seu amor permanente: nem Seus terrores nos agitarão, porque Suas promessas realizadas nos abençoarão: nem nosso amigo e conhecido, aterrorizado, estará longe de nós, onde não haverá inimigo a temer.
1. Compreendei, amados, este Salmo, que estou prestes a explicar, pela graça de Deus, acerca de nossa esperança no Senhor Jesus Cristo, e tende bom ânimo, porque Aquele que prometeu cumprirá tudo, assim como já cumpriu muito: pois não é mérito nosso, mas Sua misericórdia, que nos dá confiança nEle. Ele mesmo, ao que creio, é significado pela "inteligência de Etã, o Ezraíta", que deu título a este Salmo. Vedes, então, quem é significado por Etã: mas o significado da palavra é "forte". Nenhum homem neste mundo é forte, senão na esperança das promessas de Deus: pois quanto aos nossos próprios méritos, somos fracos; em Sua misericórdia, somos fortes. Fraco então em si mesmo, forte na misericórdia de Deus, assim começa o salmista: "Cantarei para sempre as misericórdias do Senhor: com minha boca farei conhecida Tua verdade a todas as gerações" (v. 1).
2. Que meus membros, diz ele, sirvam ao Senhor: eu falo, mas é do que é Teu que falo. "Com minha boca farei conhecida Tua verdade": se não Te obedeço, não sou Teu servo: se falo por conta própria, sou mentiroso. Falar então a partir de Ti, e em pessoa própria, são duas coisas: uma minha, outra Tua: a Verdade Tua, a linguagem minha. Ouçamos, pois, que fidelidade ele dá a conhecer, que misericórdias ele canta.
3. "Pois Tu disseste: A misericórdia será edificada para sempre" (v. 2). É isto que eu canto: esta é a Tua verdade, para cujo conhecimento minha boca serve. De tal modo Tu dizes: Eu edifico, sem destruir: pois a alguns Tu destróis e não edificas; e a alguns que Tu destróis, Tu reedificas. Pois, a não ser que houvesse alguns que fossem destruídos para serem reedificados, Jeremias não teria escrito: "Vê, hoje te constituí para arrancar e para edificar." E, de fato, todos os que anteriormente adoravam imagens e pedras não poderiam ser edificados em Cristo, sem serem destruídos quanto ao seu antigo erro. Ao passo que, a não ser que alguns fossem destruídos para não serem edificados, não estaria escrito: "Ele os destruirá, e não os edificará." ... No que se segue, ele une estas duas palavras, misericórdia e fidelidade: "Pois Tu disseste: A misericórdia será edificada para sempre: Tua verdade será estabelecida nos Céus": em que misericórdia e verdade se repetem, "pois todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade", pois a verdade no cumprimento das promessas não poderia manifestar-se, se a misericórdia na remissão dos pecados não a precedesse. Em seguida, como muitas coisas foram prometidas em profecia até mesmo ao povo de Israel, que veio segundo a carne da semente de Abraão, e aquele povo foi multiplicado para que nele se cumprissem as promessas de Deus; ao passo que Deus não fechou a fonte de Sua bondade nem mesmo aos gentios, os quais colocara sob o governo dos Anjos, reservando o povo de Israel como Sua própria porção: o Apóstolo menciona expressamente a misericórdia e a verdade do Senhor referindo-se a estas duas partes. Pois chama Cristo "ministro da Circuncisão pela verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais." Vede como Deus não enganou; vede como não rejeitou Seu povo, que Ele de antemão conheceu. Pois, ao tratar da queda dos judeus, para impedir que alguém cresse que estes fossem tão renegados de Deus que nenhum trigo daquela eira, depois de joeirado, pudesse alcançar o celeiro, diz ele: "Deus não rejeitou o Seu povo, que de antemão conheceu; pois também eu sou israelita." Se toda aquela nação são espinhos, como sou eu, que vos falo, trigo? De modo que a verdade de Deus se cumpriu naqueles israelitas que creram, e assim um muro proveniente da circuncisão vem ao encontro da pedra angular. Mas esta pedra não formaria ângulo, se não recebesse outro muro proveniente dos gentios: de sorte que o primeiro muro se refere de modo especial à verdade, o segundo à misericórdia de Deus. "Ora, digo eu", diz o Apóstolo, "que Jesus Cristo foi ministro da Circuncisão pela verdade de Deus, para confirmar a promessa feita aos pais: e para que os gentios glorificassem a Deus por Sua misericórdia." Justamente, pois, se acrescenta: "Tua verdade estabelecerás Tu nos Céus": pois todos aqueles israelitas que foram chamados a ser Apóstolos tornaram-se como Céus que declaram a glória de Deus, como está escrito a respeito deles: "Os Céus declaram a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de Suas mãos." ... Pois, ainda que tenham sido tomados daqui antes que a Igreja cultivasse o mundo inteiro, contudo, como "suas palavras alcançaram os confins do mundo", com razão supomos que isto que acabamos de ler, "Tua verdade estabelecerás Tu nos Céus", nEles se cumpriu.
4. "Tu disseste: Fiz aliança com Meu escolhido" (v. 3). Que aliança, senão a nova, pela qual somos renovados para uma nova herança, em cujo desejo ardente e amor cantamos um cântico novo. "Fiz aliança com Meu escolhido", diz o salmista: "jurei a Davi, Meu servo." Com que confiança fala aquele que compreende, cuja boca serve à verdade! Falo sem temor, pois "Tu disseste." Se me fazes destemido porque disseste, quanto mais me farás quando juraste! Pois o juramento de Deus é a garantia de uma promessa. Ao homem é justamente proibido jurar: para que, pelo hábito de jurar, uma vez que o homem pode ser enganado, não caia em perjúrio. Só Deus jura com segurança, porque só Ele é infalível.
5. Vejamos, pois, o que Deus jurou. "Jurei", diz Ele, "a Davi Meu servo: para sempre estabelecerei tua semente" (v. 4). Mas o que é a semente de Davi, senão a de Abraão? E o que é a semente de Abraão? "E à tua semente", diz Ele, "que é Cristo." Mas talvez aquele Cristo, Cabeça da Igreja, Salvador do corpo, seja a semente de Abraão, e portanto de Davi; mas nós não seríamos semente de Abraão? Somos certamente; como diz o Apóstolo: "E, se sois de Cristo, sois então semente de Abraão, e herdeiros segundo a promessa." Neste sentido, então, tomemos as palavras, irmãos: "Para sempre estabelecerei tua semente", não apenas daquela Carne de Cristo, nascida da Virgem Maria, mas também de todos nós que cremos em Cristo, pois somos membros daquela Cabeça. Este corpo não pode ser privado de sua Cabeça: se a Cabeça está em glória para sempre, também o estão os membros, de modo que Cristo permanece inteiro para sempre. "Para sempre estabelecerei tua semente: e firmarei teu trono de geração em geração." Supomos que ele diz "para sempre" porque é "de geração em geração": pois disse acima, "com minha boca farei sempre conhecida Tua verdade de geração em geração." Que é "de geração em geração"? A cada geração: pois a palavra não necessitava de tantas repetições quantas fossem o vir e o passar das diversas gerações. A multiplicação das gerações é significada e posta em relevo pela repetição. Talvez se devam entender duas gerações, como sabeis, meus amados irmãos, e como já vos expliquei antes? Pois há agora uma geração de carne e sangue: haverá uma geração futura na ressurreição dos mortos. Cristo é aqui proclamado: ali será proclamado; aqui é proclamado para que se creia nEle: ali será acolhido para que se veja. "Firmarei Teu trono de geração em geração." Cristo tem agora um trono em nós, Seu trono está firmado em nós: pois, se Ele não estivesse entronizado em nosso interior, não nos governaria: mas, se não fôssemos governados por Ele, seríamos derrubados por nós mesmos. Ele, portanto, assenta-se dentro de nós, reinando sobre nós: assenta-se também noutra geração, que virá da ressurreição dos mortos. Cristo reinará para sempre sobre Seus Santos. Deus prometeu isto; Ele o disse: se isto não basta, Deus o jurou. Como, então, a promessa é certa, não por causa de nossos méritos, mas de Sua piedade, ninguém deve temer ao proclamar aquilo de que não pode duvidar. Que aquela força, pois, inspire nossos corações, de onde Etã recebeu seu nome, "forte de coração": preguemos a verdade de Deus, a palavra de Deus, Suas promessas, Seu juramento; e, fortalecidos por todos os lados por estes meios, glorifiquemos a Deus, e, levando-O conosco, tornemo-nos Céus.
6. "Ó Senhor, os próprios Céus louvarão Tuas obras maravilhosas" (v. 5). Os Céus não louvarão os próprios méritos, mas Tuas obras maravilhosas, ó Senhor. Pois em todo ato de misericórdia para com o perdido, de justificação do ímpio, que louvamos senão as obras maravilhosas de Deus? Tu O louvas, porque os mortos ressuscitaram: louva-O ainda mais, porque os perdidos são redimidos. Que graça, que misericórdia de Deus! Vês um homem que ontem era um turbilhão de embriaguez, hoje um ornamento de sobriedade: um homem que ontem era o sumidouro da luxúria, hoje a beleza da temperança: ontem um blasfemador de Deus, hoje seu louvor: ontem escravo da criatura, hoje adorador do Criador. De todos estes estados desesperados os homens assim se convertem: que não olhem para os próprios méritos: que se tornem Céus, e louvem as obras maravilhosas dAquele por quem foram feitos Céus. ...
7. "Pois quem, entre as nuvens, se comparará a Ti, Senhor?" (v. 6). Será este o louvor dos Céus, será esta a sua chuva? Quê? Estão os pregadores confiantes, porque "nenhum entre as nuvens se comparará ao Senhor"? Parece-vos, irmãos, um alto motivo de louvor que as nuvens não possam comparar-se a seu Criador? Se tomado em seu sentido literal, não em seu sentido místico, não é assim: quê? Hão de as estrelas que estão acima das nuvens comparar-se ao Senhor? Quê? Podem o Sol, a Lua, os Anjos, os Céus, sequer comparar-se ao Senhor? Por que, então, diz ele, como se quisesse significar algum alto louvor: "Pois quem, entre as nuvens?" etc. Entendemos, meus irmãos, que estas nuvens, como os Céus, são os pregadores da verdade: Profetas, Apóstolos, os anunciadores da palavra de Deus. ... Se, portanto, as nuvens são os pregadores da verdade, indaguemos primeiro por que são nuvens. Pois os mesmos homens são Céus e nuvens: Céus pelo fulgor da verdade, nuvens pelas coisas ocultas da carne: pois todas as nuvens são obscuras, por causa de sua mortalidade: e vêm e passam. É por causa destas mesmas obscuridades da carne, isto é, das nuvens, que o Apóstolo diz: "Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, que trará à luz as coisas ocultas das trevas." Vedes neste momento o que um homem está dizendo: mas o que ele tem no coração, não podeis ver: o que é arrancado da nuvem, vedes; o que é conservado dentro da nuvem, não vedes. Pois de quem são os olhos que penetram a nuvem? As nuvens, portanto, são os pregadores da verdade na carne. O próprio Criador de todas as coisas veio na carne. ... Somos chamados nuvens por causa da carne, e somos pregadores da verdade por causa das chuvas das nuvens: mas nossa carne provém de um modo, a Dele de outro. Nós também somos chamados filhos de Deus, mas Ele é o Filho de Deus em outro sentido. Sua nuvem provém de uma Virgem; Ele é o Filho desde a eternidade, coeterno com o Pai. "Quem, pois, entre as nuvens, se comparará ao Senhor? E quem, entre os filhos de Deus, será semelhante ao Senhor?" Que o próprio Senhor diga se pode encontrar alguém semelhante a Si mesmo. "Quem dizem os homens ser Eu, o Filho do Homem?" Porque apareço, porque sou visto, porque ando entre vós, e talvez no momento presente me tenha tornado comum; dizei, quem dizem os homens ser Eu, o Filho do Homem? Certamente, quando veem um filho do homem, veem uma nuvem; mas dizei: "Quem dizem os homens que Eu sou?" Em resposta, deram-Lhe os relatos dos homens: "Alguns dizem que Tu és João Batista: outros, Elias, e outros, Jeremias, ou um dos profetas." Muitas nuvens e filhos de Deus são aqui mencionados: pois, por serem justos e santos, como filhos de Deus, Jeremias, Elias e João são também chamados filhos de Deus: em seu caráter de pregadores de Deus, são chamados nuvens. Dissestes que nuvens os homens imaginam que Eu seja: dizei vós também: "Quem dizeis vós que Eu sou?" Pedro, respondendo em nome de todos, um em favor daqueles que eram um, respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo"; não como aqueles filhos de Deus que não são igualados a Ti: Tu vieste na carne, mas não como as nuvens, que não se podem comparar a Ti.
8. ..."Deus é temível em extremo grau no conselho dos justos, e há de ser tido em pavor por todos os que O rodeiam" (v. 7). Deus está em toda parte; quem, pois, são os que O rodeiam, a Ele que está em toda parte? Pois, se Ele tem alguns que O rodeiam, é representado como finito de todos os lados. Além disso, se verdadeiramente se diz a Deus e de Deus que "de Sua grandeza não há fim", quem restam, quem são os que O rodeiam, senão porque Aquele que está em toda parte quis nascer da carne num único lugar, habitar entre uma única nação, num único lugar ser crucificado, de um único lugar ressuscitar e ascender ao Céu? Onde Ele fez isto, ali os gentios O rodeiam. Se Ele permanecesse onde fez estas coisas, não seria "grande, e havido em pavor por todos os que O rodeiam"; mas, uma vez que ali pregou de tal maneira que enviou pregadores de Seu próprio nome por todas as nações em todo o mundo, operando milagres entre Seus servos, Ele se tornou "grande, e há de ser tido em pavor por todos os que O rodeiam".
9. "Ó Senhor Deus dos Exércitos, quem é semelhante a Ti? Tua verdade, ó Senhor poderosíssimo, está em Teu redor" (v. 8). Grande é o Teu poder, com que fizeste o Céu e a terra, e todas as coisas que neles há; mas ainda maior é a Tua benignidade, que manifestou Tua verdade a todos os que Te rodeiam. Pois, se Tu tivesses sido pregado somente no lugar onde Te dignaste nascer, padecer, ressuscitar, ascender, cumprir-se-ia a verdade daquela promessa de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais; mas a promessa de "que os gentios glorifiquem a Deus por Sua misericórdia" não se teria cumprido, se aquela verdade não tivesse sido explicada e difundida aos que Te rodeiam, a partir do lugar onde Te dignaste aparecer. Naquele lugar Tu trovejaste desde a Tua própria nuvem; mas, para derramar chuva sobre os gentios ao redor, enviaste outras nuvens. Verdadeiramente, em Teu poder cumpriste o que disseste: "Doravante vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder, e vindo nas nuvens do Céu".
10. ...Pois ouvistes, como homens acostumados ao regar das nuvens de Deus, que "Tua verdade" então "está em Teu circuito". Mas quando foi isto sem perseguições, quando sem oposição, visto que se diz que "Ele nasceu para ser sinal que será contraditado"? Uma vez que aquela nação, onde Te dignaste nascer e habitar, era como uma terra separada das ondas dos gentios, de modo que parecia seca e pronta para ser regada com chuva, enquanto as demais nações eram como um mar na amargura de sua esterilidade, que fazem os Teus pregadores que espalham Tua verdade em Teu circuito, quando as ondas daquele mar se enfurecem violentamente? "Tu dominas o poder do mar" (v. 9). Pois qual foi o resultado de tal fúria do mar, senão o dia que agora celebramos como santo? Ele matou os Mártires, espalhou sementes de sangue, e a messe da Igreja brotou. Saiam, pois, seguramente as nuvens; difundam Tua verdade em Teu circuito, não temam as ondas selvagens. "Tu dominas o poder do mar." O mar incha, açoita e ruge; mas "Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além do que podeis suportar"; e assim, "Tu aplacas as ondas dele quando se levantam".
11. Por fim, que fizeste Tu no próprio mar, para apaziguar sua fúria e enfraquecê-lo? "Humilhaste o soberbo como a um ferido" (v. 10). Há certa serpente soberba no mar, da qual outra passagem da Escritura fala: "Darei ordem à serpente, e ela o morderá"; e novamente: "Há aquele Leviatã, que fizeste para dele zombares", cuja cabeça Ele esmaga acima das águas. "Tu", diz ele, "humilhaste o soberbo, como a um ferido." Tu Te humilhaste, e o soberbo foi humilhado; pois o soberbo detinha os soberbos por meio da soberba, mas o Grande se humilha, e, ao crer nEle, torna-se pequeno. Enquanto o pequeno é nutrido pelo exemplo dAquele que da grandeza desceu à humildade, o demônio perdeu o que detinha, porque o soberbo só detinha os soberbos. Quando tal exemplo de humildade lhes foi mostrado, os homens aprenderam a condenar sua própria soberba, e a imitar a humildade de Deus. Assim também o demônio, ao perder aqueles que tinha em seu poder, ele mesmo foi humilhado; não castigado, mas prostrado. "Humilhaste o soberbo como a um ferido." Tu foste humilhado, e humilhaste outros; foste ferido, e feriste outros; pois Teu sangue, tal como foi derramado para apagar a cédula dos pecados, não pôde deixar de feri-lo. Pois qual era o fundamento de sua soberba, senão a cédula que ele tinha contra nós? Esta cédula, esta escritura de dívida, Tu a apagaste com Teu sangue: a ele, pois, feriste, de quem resgataste tantas vítimas. Deve-se entender que o demônio foi ferido, não pela perfuração da carne, que ele não possui, mas pelo esmagamento de seu coração soberbo. "Dispersaste Teus inimigos com Teu braço poderoso."
12. "Teus são os céus, Tua é também a terra" (v. 11). De Ti, sobre Tua terra, eles fazem chover. Teus são os céus, por meio dos quais Tua verdade é pregada em Teu circuito; "Tua é a terra", que recebeu Tua verdade em Teu circuito; e que resultou desta chuva? "Lançaste os fundamentos do orbe da terra e de tudo o que nele há." "Criaste o norte e os mares" (v. 12). Pois nada tem poder algum contra Ti, contra o seu Criador. O mundo, na verdade, pode enfurecer-se por sua própria malícia e pela perversidade de sua vontade; ultrapassa ele, contudo, o limite estabelecido pelo Criador, que fez todas as coisas? Por que, então, temerei o vento norte? Por que temerei os mares? No norte, na verdade, está o demônio, que disse: "Sentar-me-ei nos lados do norte; serei semelhante ao Altíssimo"; mas Tu humilhaste, como a um ferido, o soberbo. Assim, o que fizeste neles tem mais força para o Teu domínio do que a própria vontade deles tem para a sua maldade. "Criaste o norte e os mares."
13. "O Tabor e o Hermon se regozijarão em Teu nome." Aqui se entendem aqueles montes, mas eles têm um sentido. "O Tabor e o Hermon se regozijarão em Teu nome." Tabor, quando interpretado, significa luz que se aproxima. Mas de onde vem a luz da qual se diz: "Vós sois a luz do mundo", senão dAquele de quem está escrito: "Aquela era a luz verdadeira, que ilumina todo homem que vem ao mundo"? A luz, pois, que é a luz do mundo, vem daquela luz que não é acesa de nenhuma outra fonte, de modo que não há temor de que se extinga. A luz, pois, vem dEle, que é aquela candeia que não se põe debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, o Tabor, a luz que vem. Hermon significa a sua maldição. Justamente a luz vem e se faz a maldição dele. De quem, senão do demônio, o ferido, o soberbo? A nossa iluminação, pois, provém de Ti; que ele seja tido por maldito entre nós, ele que nos mantinha em seu próprio erro e soberba, provém de Ti. "O Tabor e o Hermon, portanto, se regozijarão", não em seus próprios méritos, "mas em Teu nome." Pois dirão: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dai a glória", por causa do mar enfurecido, para que "os gentios não digam: Onde está agora o Deus deles?".
14. "Tu tens braço poderoso" (v. 13). Que ninguém se arrogue coisa alguma a si mesmo. "Tu tens braço poderoso": por Ti fomos criados, por Ti fomos defendidos. "Tu tens braço poderoso: forte seja Tua mão, e exaltada seja Tua destra."
15. "Justiça e juízo são a preparação de Teu trono" (v. 14). Tua justiça e Teu juízo aparecerão no fim; agora estão ocultos. De Tua justiça se trata em outro Salmo, "sobre as coisas ocultas do Filho". Haverá, então, uma manifestação de Tua justiça e de Teu juízo: uns serão postos à direita, outros à esquerda; e os incrédulos tremerão, quando virem o que agora escarnecem e não creem; os justos se alegrarão, quando virem o que agora não veem, mas creem. "Justiça e juízo são a preparação de Teu trono", especialmente no Dia do Juízo. Que dizer, então, do presente? "Misericórdia e verdade vão diante de Tua face." Eu temeria a preparação de Teu trono, Tua justiça e o Teu juízo vindouro, se a misericórdia e a verdade não fossem diante de Ti; por que temeria, no fim, a Tua justiça, quando, indo Tua misericórdia adiante, apagas os meus pecados, e, manifestando Tua verdade, cumpres as Tuas promessas? "Misericórdia e verdade vão diante de Tua face." Pois "todas as veredas do Senhor são misericórdia e verdade".
16. Em todas estas coisas, não haveremos de nos regozijar? Ou conteremos nosso júbilo? Ou bastarão as palavras para a nossa alegria? Ou poderá a língua exprimir o nosso regozijo? Se, pois, nenhuma palavra basta, "bem-aventurado é o povo, ó Senhor, que conhece o jubiloso clamor" (v. 15). Ó povo bem-aventurado! Concebes retamente, entendes o jubiloso clamor? Pois, se não entenderes o jubiloso clamor, não poderás ser bem-aventurado. Que entendo eu por entender o jubiloso clamor? Se conheces a origem daquele regozijo que está além do que as palavras podem exprimir. Pois este gozo não vem de ti mesmo, visto que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor". Não te regozijes, pois, em tua própria soberba, mas na graça de Deus. Vê que essa graça é tal, que a língua falha em exprimir a sua grandeza, e então entenderás o jubiloso clamor. ...Ó Senhor, "andarão na luz do Teu rosto". "Em Teu nome se regozijarão todo o dia" (v. 16). Que o Tabor e o Hermon se regozijarão em Teu nome: todo o dia se regozijarão, se quiserem, em Teu nome; mas, se quiserem regozijar-se em seu próprio nome, não se regozijarão todo o dia, pois não perseverarão em seu gozo, quando se comprazerem em si mesmos e caírem pela soberba. Para que se regozijem todo o dia, portanto, "se regozijarão em Teu nome, e em Tua justiça serão exaltados". Não na sua própria, mas na Tua, para que não tenham zelo de Deus, mas não segundo o conhecimento. Pois alguns são apontados pelo Apóstolo como tendo zelo de Deus, mas não segundo o conhecimento, "ignorando a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria", e não se regozijando em Tua luz, e assim "não se submetendo à justiça de Deus". E por quê? Porque "têm zelo de Deus, mas não segundo o conhecimento". Mas o povo que conhece o jubiloso clamor (pois os primeiros erram por falta de conhecimento, mas bem-aventurado é o povo, não o que não conhece, mas o que conhece o jubiloso clamor), donde deve ele clamar, donde deve regozijar-se, senão em Teu nome, andando na luz do Teu rosto? E merecerá ser exaltado, mas em Tua justiça: que todo homem afaste inteiramente a sua própria justiça, e trema: virá a justiça de Deus, e ele será exaltado, "e em Tua justiça serão exaltados".
Pois Tu és a glória da força deles: e em Teu beneplácito exaltarás os nossos chifres (v. 17): porque assim Te aprouve, não porque somos dignos.
2. "Senhor", diz ele, "Tu foste o nosso refúgio de geração em geração" (v. 1): seja em cada geração, seja em duas gerações, a antiga e a nova: porque, como disse, ele foi o Ministro do Testamento que dizia respeito à antiga geração, e o Profeta do Testamento que pertencia à nova. O próprio Jesus, o Fiador daquela aliança, e o Esposo nas núpcias que celebrou naquela geração, diz: "Se crêsseis em Moisés, crerieis em Mim: pois de Mim ele escreveu." Ora, não se há de crer que este Salmo tenha sido inteiramente composição daquele Moisés, pois não se distingue por nenhuma daquelas expressões suas que são usadas em seus cânticos: mas o nome do grande servo de Deus é empregado por causa de alguma indicação, que deve dirigir a atenção do leitor ou do ouvinte. "Senhor", diz ele, "Tu foste o nosso refúgio de uma geração a outra."
1. Este Salmo é intitulado "A oração de Moisés, homem de Deus", por meio de quem, seu homem, Deus deu a lei ao Seu povo, por meio de quem os libertou da casa da escravidão, e os conduziu por quarenta anos através do deserto. Moisés foi, portanto, o Ministro do Antigo, e o Profeta do Novo Testamento. Pois "todas estas coisas", diz o Apóstolo, "lhes aconteceram como exemplos: e foram escritas para nossa admoestação, sobre quem vieram os fins dos séculos." Em conformidade, pois, com esta dispensação que foi concedida a Moisés, este Salmo deve ser examinado, visto que recebeu seu título de sua oração.
3. Acrescenta como Ele se tornou nosso refúgio, visto que começou a ser aquilo, a saber, um refúgio, para nós, o que antes não fora, não porque não existisse antes de tornar-Se nosso refúgio: "Antes que os montes nascessem, ou que a terra e o mundo fossem formados: e de eternidade em eternidade Tu és" (v. 2). Tu, portanto, que és eterno, e que existias antes de nós, e antes que o mundo fosse, tornaste-Te nosso refúgio desde que a Ti nos voltamos. Mas a expressão "antes que os montes", etc., parece-me conter um sentido particular; pois os montes são as partes mais elevadas da terra, e se Deus existia mesmo antes que a terra fosse formada (ou, como trazem alguns livros, da mesma palavra grega, "plasmada"), visto que foi por Ele que ela foi formada, que necessidade há de dizer que Ele existia antes dos montes, ou de quaisquer partes determinadas dela, uma vez que Deus existia não somente antes da terra, mas antes do céu e da terra, e mesmo de toda a criação corpórea e espiritual? Mas certamente pode ser que toda a criação racional seja assinalada por esta distinção: que, enquanto a altivez dos Anjos é significada pelos montes, a humildade do homem é significada pela terra. E por esta razão, ainda que todas as obras da criação não sejam impropriamente ditas ou feitas ou formadas, contudo, se há alguma propriedade nestas palavras, os Anjos são "feitos"; pois, como são enumerados entre Suas obras celestiais, a própria enumeração assim se conclui: "Ele disse a palavra, e foram feitos; ordenou, e foram criados"; mas a terra foi "formada", para que dela o homem fosse criado quanto ao corpo. Pois a Escritura usa esta palavra onde lemos: Deus fez, ou "Deus formou o homem do pó da terra." Antes, pois, que as partes mais nobres da criação (pois que há de mais elevado que a parte racional da criação celestial) fossem feitas: antes que a terra fosse feita, para que Tu tivesses adoradores sobre a terra; e mesmo isto é pouco, pois todas estas coisas tiveram princípio ou no tempo ou com o tempo; mas "de eternidade em eternidade Tu és." Melhor seria dizer, de sempre para sempre: pois Deus, que é anterior aos séculos, não existe a partir de um certo século, nem até um certo século que tenha fim, visto que Ele é sem fim. Mas sucede muitas vezes na Escritura que a palavra grega equívoca leva o tradutor latino a pôr século por eternidade, e eternidade por século. Mas com muita razão ele não diz: Tu eras desde os séculos, e até os séculos Tu serás: mas põe o verbo no presente, dando a entender que a substância de Deus é inteiramente imutável. Não é: Foi, e Será; mas somente É. Donde a expressão: Eu Sou o que Sou; e: Eu Sou "me enviou a vós"; e: "Tu os mudarás, e serão mudados: mas Tu és o mesmo, e os Teus anos não faltarão." Eis, pois, a eternidade que é o nosso refúgio, para que dela nos sirvamos para fugir da mutabilidade do tempo, e ali permanecermos para sempre.
4. Mas como a nossa vida aqui está exposta a numerosas e grandes tentações, e é de temer que por elas sejamos desviados daquele refúgio, vejamos o que, por consequência disto, busca a oração do homem de Deus. "Não faças, Senhor, voltar o homem à baixeza" (v. 3): isto é, que o homem, desviado de Tuas coisas eternas e sublimes, não cobice as coisas temporais, nem saboreie as coisas terrenas. Esta oração é o que o próprio Deus nos ordenou, na Oração: "Não nos deixes cair em tentação." Acrescenta: "Outra vez dizes: Voltai, filhos dos homens." Como se dissesse: peço-Te aquilo que Tu me ordenaste pedir: dando glória à Sua graça, para que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor": sem cujo auxílio não podemos, por esforço de nossa própria vontade, vencer as tentações desta vida. "Não faças, Senhor, voltar o homem à baixeza: outra vez dizes: Voltai, filhos dos homens." Mas concede o que Tu ordenaste, ouvindo a oração daquele que ao menos pode orar, e ajudando a fé da alma que se dispõe.
5. "Porque mil anos, diante dos Teus olhos, são como o dia de ontem, que já passou" (v. 4): por isso devemos voltar-nos para o Teu refúgio, onde Tu és sem mudança alguma, apartando-nos das cenas fugazes que nos cercam; pois, por mais longo que se deseje o tempo desta vida, "mil anos, diante dos Teus olhos, são como o dia de ontem": não como o de amanhã, que há de vir: pois todos os períodos limitados de tempo são contados como já passados. Daí a preferência do Apóstolo por antes atentar para o que está diante, isto é, desejar as coisas eternas, e esquecer as coisas passadas, pelas quais se devem entender as coisas temporais. Mas, para que ninguém imagine que mil anos são contados por Deus como um só dia, como se para Deus os dias fossem tão longos, quando isto se diz apenas por desprezo à extensão do tempo, acrescenta: "e como uma vigília da noite": que dura apenas três horas. Não obstante, houve homens que se atreveram a pretender conhecer os tempos, aos quais pretendentes o nosso Senhor disse: "Não vos cabe conhecer os tempos ou as estações, que o Pai reservou em Seu próprio poder": e alegam que este período pode ser definido em seis mil anos, correspondentes a seis dias. Nem atentaram para as palavras "são como um dia que já passou": pois, quando isto foi dito, não haviam passado ainda mil anos apenas, e a expressão "como uma vigília da noite" deveria tê-los advertido para que não fossem enganados pela incerteza dos tempos: pois, ainda que os seis primeiros dias, nos quais Deus concluiu Suas obras, parecessem dar alguma plausibilidade à opinião deles, seis vigílias, que perfazem dezoito horas, não se coadunam com tal opinião.
6. Em seguida, o homem de Deus, ou antes o espírito profético, parece recitar certa lei escrita na secreta sabedoria de Deus, na qual Ele fixou um limite à vida pecaminosa dos mortais, e determinou as tribulações da mortalidade, nas seguintes palavras: "Os seus anos são como coisas de nenhum valor: pela manhã desvaneça-se como a erva" (v. 5). A felicidade, portanto, dos herdeiros da antiga aliança, que pediam ao Senhor seu Deus como grande benefício, alcançou receber esta Lei em Sua misteriosa Providência. Moisés parece recitá-la: "Os seus anos serão coisas tidas por nada." Tais são aquelas coisas que não são antes de vir; e, vindas, logo deixarão de ser: pois não vêm para permanecer aqui, mas para passar. "Pela manhã", isto é, antes que venham, "como um ardor, passe"; mas "à tarde", isto é, depois que vêm, "caia, e seque-se, e murche" (v. 6). É "cair" na morte, "secar-se" no cadáver, "murchar" no pó. E que é isto senão a carne, na qual reside a maldita concupiscência das coisas carnais? "Porque toda carne é erva, e toda a formosura do homem é como a flor do campo; seca-se a erva, murcha a flor: mas a palavra do Senhor permanece para sempre."
7. Não ocultando que esta sorte é uma pena infligida pelo pecado, acrescenta logo: "Porque nos consumimos ao Teu desagrado, e nos perturbamos com a Tua indignação irada" (v. 7): consumimo-nos em nossa fraqueza, e nos perturbamos pelo temor da morte; pois nos tornamos fracos, e ainda assim tememos pôr fim a essa fraqueza. "Outro", diz Ele, "te cingirá, e te levará para onde não queres": ainda que não para ser castigado, mas para ser coroado, pelo martírio; e a alma de nosso Senhor, transformando-nos em Si mesmo, ficou triste até a morte: pois a "saída do Senhor" não é outra senão na "morte".
8. "Puseste os nossos delitos diante de Ti" (v. 8): isto é, não dissimulaste a Tua ira; "e a nossa idade à luz do Teu semblante." "A luz do Teu semblante" corresponde a "diante de Ti", e a "os nossos delitos", como acima.
9. "Pois todos os nossos dias se esvaeceram, e na Tua ira desfalecemos" (v. 9). Estas palavras provam suficientemente que a nossa sujeição à morte é uma pena. Fala ele do esvaecimento dos nossos dias, seja porque os homens neles desfalecem por amarem as coisas que passam, seja porque se reduzem a tão pequeno número; o que ele afirma nas linhas seguintes: "os nossos anos se passam em pensamento como uma aranha." "Os dias da nossa idade são setenta anos; e, se os homens são tão fortes que chegam a oitenta anos, ainda assim o mais deles não é senão trabalho e tristeza" (v. 10). Estas palavras parecem exprimir a brevidade e a miséria desta vida: pois os que chegaram ao seu septuagésimo ano são chamados velhos. Até aos oitenta anos, porém, parecem ainda possuir alguma força; mas, se vivem além disso, a sua existência é laboriosa por causa das tristezas multiplicadas. No entanto, muitos, mesmo abaixo dos setenta anos, experimentam uma velhice das mais enfermas e mísera; e amiúde se têm encontrado velhos maravilhosamente vigorosos ainda além dos oitenta anos. É, pois, melhor buscar algum sentido espiritual nestes números. Pois a ira de Deus não é maior sobre os pecados de Adão (por quem somente "o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, e assim a morte passou a todos os homens"), pelo fato de viverem estes muito menos tempo que os homens antigos; pois até a duração dos seus dias é escarnecida na comparação de mil anos com o dia de ontem que já passou, e com três horas: especialmente porque, no próprio tempo em que provocaram a ira de Deus para enviar o dilúvio no qual pereceram, a sua vida estava no seu mais longo termo.
10. Além disso, setenta e oitenta anos somam cento e cinquenta; número que os Salmos claramente insinuam ser sagrado. Cento e cinquenta têm a mesma significação relativa que quinze, sendo este último composto de sete e oito juntos: o primeiro dos quais aponta para o Antigo Testamento por meio da observância do sábado; o segundo para o Novo, referindo-se à ressurreição de Nosso Senhor. Daí os quinze degraus do Templo. Daí, nos Salmos, os quinze "cânticos de degraus". Daí as águas do dilúvio terem excedido os montes mais altos em quinze cúbitos; e muitos outros exemplos da mesma natureza. "Os nossos anos se passam em pensamento como uma aranha." Labutávamos em coisas corruptíveis, tecíamos obras corruptíveis; as quais, como diz o Profeta Isaías, de nenhum modo nos cobriram. "Os dias dos nossos anos, em si mesmos", etc. Faz-se aqui uma distinção entre "em si mesmos" e "na sua força": "em si mesmos", isto é, nos próprios anos ou dias, pode significar as coisas temporais, que são prometidas no Antigo Testamento, significadas pelo número setenta; "mas se", não em si mesmos, porém "na sua força", refere-se não às coisas temporais, mas às eternas, "oitenta anos", visto que o Novo Testamento encerra a esperança de uma vida nova e de ressurreição para sempre: e o que se acrescenta, que, se passarem este último período, "a sua força é trabalho e tristeza", indica que tal será a sorte daquele que vai além desta fé e busca mais. Pode-se também entender assim: que, embora estejamos estabelecidos no Novo Testamento, que o número oitenta significa, ainda assim a nossa vida é de trabalho e tristeza, enquanto "gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo; pois somos salvos pela esperança; e, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos." Isto se relaciona com a misericórdia de Deus, da qual ele prossegue dizendo: "Pois a Tua misericórdia vem sobre nós, e seremos castigados": pois "o Senhor castiga a quem ama, e açoita a todo filho que recebe", e a alguns poderosos dá um espinho na carne, para os esbofetear, a fim de que não se ensoberbeçam pela abundância das revelações, de modo que a força se aperfeiçoe na fraqueza. Alguns exemplares leem "instruídos", em vez de "castigados", o que igualmente exprime a Divina Misericórdia; pois nenhum homem pode ser instruído sem trabalho e tristeza, já que a força se aperfeiçoa na fraqueza.
11. "Pois quem conhece o poder da Tua ira? E, pelo temor que se Te deve, quem sabe contar a Tua indignação?" (v. 11). Pertence a bem poucos homens, diz ele, conhecer o poder da Tua ira; pois, quando Tu poupas, a Tua ira é tanto mais pesada contra a maioria dos homens; a fim de que saibamos que o trabalho e a tristeza não pertencem à ira, mas antes à Tua misericórdia, quando castigas e instruis aqueles a quem amas, para os salvar dos tormentos da pena eterna: como se diz noutro Salmo: "O pecador provocou o Senhor: Ele não lhe pedirá conta segundo a grandeza da Sua ira." Com isto se entende também o "Quem conhece?" Tal é a dificuldade de encontrar alguém que saiba contar a Tua indignação pelo Teu temor, que ele acrescenta isto, querendo dizer que é para um propósito que Tu pareces poupar a alguns, com os quais estás mais irado, a fim de que o pecador prospere no seu caminho e receba, ao fim, uma sentença mais pesada. Pois, quando o poder da ira humana matou o corpo, nada mais tem a fazer; mas Deus tem poder tanto para punir aqui, como, depois da morte do corpo, para enviar ao Inferno; e, pelos poucos que assim são instruídos, julga-se que a vã e sedutora prosperidade dos ímpios é uma ira ainda maior de Deus. ...
12. "Faze tão conhecida a Tua destra" (v. 12). Esta é a leitura da maioria dos exemplares gregos; não de alguns em latim, que trazem assim: "Faze-me conhecida a Tua destra." Que é "a Tua destra", senão o Teu Cristo, do qual se diz: E a quem foi revelado o Braço do Senhor? Faze-O tão conhecido, que os Teus fiéis aprendam n'Ele a pedir e a esperar de Ti, antes, aquelas coisas como recompensas de sua fé que não aparecem no Antigo Testamento, mas se revelam no Novo: para que não imaginem que a felicidade derivada das bênçãos terrenas e temporais deva ser altamente estimada, desejada ou amada, e assim lhes escorreguem os pés, ao verem-na nos homens que não Te honram: para que os seus passos não vacilem, enquanto não sabem contar a Tua indignação. Por fim, conforme esta oração do Homem que é Seu, Ele fez tão conhecido o Seu Cristo, de modo a mostrar, por meio dos Seus sofrimentos, que não estas recompensas, que parecem tão altamente prezadas no Antigo Testamento — onde são sombras das coisas futuras —, mas as coisas eternas, é que devem ser desejadas. A destra de Deus pode também ser entendida neste sentido, como aquela pela qual Ele há de separar os Seus santos dos ímpios: porque essa mão se torna conhecida quando açoita a todo filho que recebe, e não o deixa, em ira maior, prosperar nos seus pecados, mas, na Sua misericórdia, o açoita com a esquerda, para o colocar purificado à Sua destra. A leitura da maioria dos exemplares, "faze-me conhecida a Tua destra", pode referir-se tanto a Cristo como à felicidade eterna: pois Deus não tem uma destra em forma corpórea, como não tem aquela ira que se excita em paixão violenta.
13. Mas o que ele acrescenta, "e aqueles atados de coração na sabedoria" — outros exemplares leem "instruídos", não "atados": o verbo grego, exprimindo ambos os sentidos, difere apenas por uma sílaba. Mas, visto que estes também, como se diz, põem os "pés nas cadeias" da sabedoria, são instruídos na sabedoria (ele entende os pés do coração, não os do corpo), e, atados pelas suas cadeias de ouro, não se apartam do caminho de Deus, nem se tornam fugitivos d'Ele; qualquer que seja a leitura que adotemos, a verdade do sentido permanece incólume. A estes, assim atados, ou instruídos de coração na sabedoria, Deus os torna tão conhecidos no Novo Testamento, que desprezaram todas as coisas pela Fé que a impiedade de judeus e de gentios abominava; e permitiram que se lhes privasse daquelas coisas que, no Antigo Testamento, são tidas por altas promessas por aqueles que julgam segundo a carne.
14. E, quando assim se tornaram tão conhecidos, ao ponto de desprezarem estas coisas e, pondo os seus afetos nas coisas eternas, deram testemunho por meio dos seus sofrimentos (donde são chamados testemunhas ou mártires, em grego), suportaram por longo tempo muitas amargas aflições temporais. A este atende este homem de Deus, e o espírito profético, sob o nome de Moisés, prossegue assim: "Volta, ó Senhor, até quando? E aplaca-Te para com os Teus servos" (v. 13). Estas são as palavras daqueles que, suportando muitos males naquela época de perseguição, se tornam conhecidos porque os seus corações estão atados na cadeia da sabedoria tão firmemente, que nem mesmo tais adversidades os induzem a fugir do seu Senhor para os bens deste mundo. "Até quando esconderás de mim o Teu rosto, ó Senhor?" ocorre noutro Salmo, em consonância com esta sentença: "Volta, ó Senhor, até quando?" E para que aqueles que, em espírito muito carnal, atribuem a Deus a forma de um corpo humano, saibam que o "desviar-se" e o "voltar-se" do Seu semblante não são como aqueles movimentos do nosso próprio corpo, lembrem-se destas palavras, ditas antes no mesmo Salmo: "Puseste os nossos delitos diante de Ti, e os nossos pecados ocultos à luz do Teu semblante." Como, pois, diz ele nesta passagem "Volta", para que Deus se torne favorável, como se Ele tivesse desviado o Seu rosto em ira; quando, na passagem anterior, fala da ira de Deus de tal modo que insinua que Ele não desviara o Seu semblante dos delitos e do curso de vida daqueles com quem estava irado, mas antes os pusera diante de Si, e à luz do Seu semblante? A palavra "até quando" pertence à justiça que suplica, não à impaciência indignada. "Aplaca-Te" alguns traduziram por um verbo, "abrandar". Mas "aplaca-Te" evita uma ambiguidade; visto que abrandar é um verbo comum: pois pode-se dizer que abranda tanto aquele que derrama as preces, como aquele a quem elas são derramadas: pois dizemos, eu te abrando, e eu me abrando para contigo.
15. Em seguida, na expectativa de bens futuros, dos quais fala como já concedidos, diz ele: "Fomos saciados pela Tua misericórdia pela manhã" (v. 14). Assim se acendeu para nós a profecia, no meio destas fadigas e tristezas da noite, como uma lâmpada nas trevas, até que amanheça o dia, e a Estrela da Manhã se levante nos nossos corações. Pois bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus: então os justos serão saciados com aquela bênção pela qual agora têm fome e sede, enquanto, andando pela fé, estão ausentes do Senhor. Daí as palavras: "Na Tua presença há plenitude de gozo"; e: "Pela manhã, bem cedo, estarão em pé, e olharão para cima"; e, como outros tradutores o disseram: "Seremos saciados pela Tua misericórdia pela manhã"; então serão saciados. Como diz ele noutro lugar: "Serei saciado, quando a Tua glória se revelar." Assim se diz: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta"; e o próprio Senhor responde: "Manifestar-Me-ei a Sião"; e, até que esta promessa se cumpra, nenhuma bênção nos sacia, nem deve saciar, para que os nossos anseios não se detenham em seu curso, quando deveriam antes crescer até alcançarem o seu objeto. "E nos alegramos e regozijamos por todos os dias da nossa vida." Esses dias são dias sem fim: todos existem juntos: assim é que nos saciam: pois não dão lugar a dias que se sucedam; porquanto ali não há nada que ainda não exista por não ter chegado até nós, nem que deixe de existir por ter passado; todos estão juntos: porque há um só dia, que permanece e não passa: este é a própria eternidade. São estes os dias acerca dos quais está escrito: "Quem é o homem que deseja a vida, e quer ver dias bons?" Estes dias, noutra passagem, são chamados anos: onde a Deus se diz: "Mas Tu és o mesmo, e os Teus anos não falharão": pois estes não são anos que se contam por nada, nem dias que perecem como uma sombra; mas são dias que têm existência real, cujo número aquele que assim falou — "Senhor, faze-me conhecer o meu fim" (isto é, depois de alcançado que termo permanecerei imutável, e não terei mais bênção alguma a desejar), "e qual seja o número dos meus dias" (o que é, não o que não é) — pediu para conhecer. Distingue-os ele dos dias desta vida, dos quais fala assim: "Eis que fizeste os meus dias como a um palmo", os quais não são propriamente, porque não se mantêm, não permanecem, mas mudam em rápida sucessão: nem há neles uma só hora em que o nosso ser não esteja assim: uma parte já passou, outra está por vir, e nenhuma permanece tal como é. Mas aqueles anos e dias, nos quais também nós nunca faltaremos, mas sempre seremos renovados, jamais faltarão. Ansiem as nossas almas ardentemente por esses dias, tenham sede fervorosa deles, para que ali sejamos saciados, sejamos satisfeitos, e digamos, em antecipação, o que agora dizemos: "Fomos saciados", etc. "Fomos consolados novamente agora, depois do tempo em que nos humilhaste, e pelos anos em que vimos o mal" (v. 15).
16. Mas agora, nestes dias que ainda são maus, falemos assim: "Olha para os Teus servos, e para as Tuas obras" (v. 16). Pois os próprios servos são Tuas obras, não somente enquanto homens, mas enquanto Teus servos, isto é, obedientes aos Teus mandamentos. Pois somos feitura Sua, criados não apenas em Adão, mas em Cristo Jesus, para as boas obras que Deus preparou de antemão, a fim de que nelas andássemos: "pois é Deus quem opera em nós tanto o querer como o fazer, segundo o Seu beneplácito." "E dirige os seus filhos": para que sejam retos de coração, pois para com estes Deus é generoso; porquanto "Deus é bom para com Israel, para com os que são retos de coração." ...
1. Este Salmo é aquele donde o Diabo ousou tentar a nosso Senhor Jesus Cristo: atentemos, pois, a ele, para que, assim armados, sejamos capazes de resistir ao tentador, não presumindo de nós mesmos, mas d'Aquele que antes de nós foi tentado, para que não fôssemos vencidos quando tentados. A tentação não Lhe era necessária: a tentação de Cristo é o nosso ensinamento; mas, se escutarmos as Suas respostas ao demônio, a fim de que, quando nós mesmos formos tentados, respondamos de modo semelhante, então estaremos entrando pela porta, como ouvistes lido no Evangelho. Pois que é entrar pela porta? É entrar por Cristo, que Ele próprio disse: "Eu sou a porta"; e entrar por Cristo é imitar os Seus caminhos. ...Ele nos exorta a imitá-Lo naquelas obras que Ele não poderia ter realizado se não se tivesse feito Homem; pois como poderia Ele suportar sofrimentos, se não se tivesse feito Homem? Como, de outro modo, poderia ter morrido, sido crucificado, sido humilhado? Assim, pois, faze tu, quando padeceres as tribulações deste mundo, que o demônio, abertamente por meio dos homens, ou secretamente, como no caso de Job, inflige; sê corajoso, sê longânimo; "habitarás sob a defesa do Altíssimo", como este Salmo o exprime: pois, se te apartares do auxílio do Altíssimo, sem forças para te ajudares a ti mesmo, cairás.
Pois muitos homens são valorosos quando suportam a perseguição dos homens, e os veem enfurecer-se abertamente contra si mesmos: imaginando que então imitam os sofrimentos de Cristo, no caso de os homens os perseguirem abertamente; mas se são assaltados pelo ataque oculto do demônio, creem que não estão sendo coroados por Cristo. Nunca temas quando imitas a Cristo. Pois quando o demônio tentou o nosso Senhor, não havia homem algum no deserto; tentou-O secretamente; mas foi vencido, e vencido também quando O atacou abertamente. Faze tu o mesmo, se desejas entrar pela porta, quando o inimigo te assalta secretamente, quando pede um homem para lhe causar algum dano por meio de tribulações corporais, por febre, por doença, ou quaisquer outros sofrimentos do corpo, como os de Jó. Este não via o demônio, e todavia reconhecia o poder de Deus. Sabia que o demônio não tinha poder algum contra ele, senão o que recebesse do Todo-Poderoso Regente de todas as coisas: toda a glória a deu a Deus, poder algum deu ao demônio. ...
Aquele, pois, que assim imita a Cristo, a ponto de suportar todas as tribulações deste mundo, com sua esperança posta em Deus, de modo que não caia em laço algum, nem seja abatido por vãos temores, esse é quem "habita sob a proteção do Altíssimo, e há de permanecer sob a proteção de Deus" (v. 1), nas palavras com que começa o Salmo que ouvistes e cantastes. Reconhecereis as palavras, tão conhecidas, com que o demônio tentou o nosso Senhor, quando a elas chegarmos. "Dirá ao Senhor: Tu és o meu amparo e o meu refúgio: meu Deus" (v. 2). Quem fala assim ao Senhor? "Aquele que habita sob a proteção do Altíssimo": não sob a sua própria proteção. Quem é este? Habita sob a proteção do Altíssimo aquele que não é soberbo, como aqueles que comeram para se tornarem como deuses, e perderam a imortalidade em que haviam sido feitos. Pois escolheram habitar sob uma proteção própria, não sob a do Altíssimo: assim deram ouvidos às sugestões da serpente, e desprezaram o preceito de Deus: e descobriram por fim que se cumprira neles o que Deus ameaçara, e não o que o demônio prometera.
Assim, pois, dize também tu: "Nele confiarei. Pois Ele mesmo me livrará" (v. 3), não eu mesmo. Observai se ele ensina outra coisa senão que toda a nossa confiança esteja em Deus, e nenhuma no homem. De onde te livrará? "Do laço do caçador, e da palavra dura." Livrar-se do laço do caçador é, na verdade, grande bênção: mas como se dá que a libertação da palavra dura o seja também? Muitos caíram no laço do caçador por causa de uma palavra dura. Que quero eu dizer com isto? O demônio e seus anjos armam suas ciladas, como fazem os caçadores: e os que caminham em Cristo passam longe dessas ciladas: pois ele não ousa armar sua rede em Cristo: coloca-a à margem do caminho, não no caminho. Seja, pois, teu caminho Cristo, e não cairás nas ciladas do demônio. ...
Mas que significa "da palavra dura"? O demônio tem enredado a muitos por meio de palavra dura: por exemplo, aqueles que professam o cristianismo entre pagãos sofrem insulto dos gentios: enrubescem ao ouvir a afronta, e, desviando-se por isso do seu caminho, caem nas ciladas do caçador. E, contudo, que te fará uma palavra dura? Nada. Podem nada fazer as ciladas com que o inimigo te enreda por meio de afrontas? Costumam-se estender redes para os pássaros na extremidade de uma sebe, e atiram-se pedras dentro da sebe: essas pedras não farão mal algum às aves. Quando alguém já atingiu um pássaro atirando uma pedra dentro de uma sebe? Mas a ave, atemorizada pelo ruído inofensivo, cai nas redes; e assim os homens que temem as vãs afrontas dos que os caluniam, e que enrubescem diante de insultos gratuitos, caem nas ciladas dos caçadores, e são feitos cativos do demônio... Assim como entre os gentios o cristão que teme as suas afrontas cai no laço do caçador: assim também entre os cristãos, aqueles que se esforçam por ser mais diligentes e melhores que os demais estão condenados a suportar insultos dos próprios cristãos. De que aproveita, pois, meu irmão, se porventura encontrares uma cidade em que não haja gentio? Ninguém ali insulta um homem por ser cristão, pela razão de que não há pagão nela: mas há muitos cristãos que levam má vida, entre os quais aqueles que estão resolvidos a viver retamente, e a serem sóbrios entre os ébrios, e castos entre os incastos, e, entre os consultores de astrólogos, a adorar sinceramente a Deus e a não indagar de tais coisas, e que, entre os espectadores de espetáculos frívolos, só irão à igreja, sofrem, da parte desses mesmos cristãos, afrontas e palavras duras, quando lhes dirigem: "Tu és o poderoso, o justo, tu és Elias, tu és Pedro: tu vieste do céu." Insultam-no: para onde quer que se volte, ouve palavras duras de todos os lados: e se teme, e abandona o caminho de Cristo, cai nas ciladas dos caçadores. Mas o que significa, ao ouvir tais palavras, não se desviar do caminho? Ao ouvi-las, que consolo tem ele, que o impede de lhes dar atenção, e lhe permite entrar pela porta? Diga ele: Que palavras me chamam a mim, que sou servo e pecador? Ao meu Senhor Jesus disseram: "Tens demônio." Acabastes de ouvir as palavras duras ditas contra o nosso Senhor: não era necessário que o nosso Senhor sofresse isto, mas, ao fazê-lo, Ele te advertiu contra as palavras duras, para que não caias nas ciladas dos caçadores.
"Ele te defenderá entre os seus ombros, e sob as suas asas terás esperança" (v. 4). Diz isto para que a tua proteção não venha de ti mesmo, para que não imagines que podes defender-te a ti mesmo; Ele te defenderá, para livrar-te do laço do caçador e da palavra dura. A expressão "entre os seus ombros" pode entender-se tanto pela frente como por trás: pois os ombros estão em torno da cabeça; mas nas palavras "sob as suas asas terás esperança" é claro que a proteção das asas de Deus estendidas te coloca entre os seus ombros, de modo que as asas de Deus, de um lado e de outro, te têm no meio, onde não hás de temer que alguém te faça mal: apenas cuida de nunca deixar esse lugar, onde inimigo algum ousa aproximar-se. Se a galinha defende os seus pintainhos sob as suas asas, quanto mais estarás tu seguro sob as asas de Deus, mesmo contra o demônio e os seus anjos, potestades que voam pelo ar como falcões, para arrebatar o filhote fraco? Pois a comparação da galinha com a própria Sabedoria de Deus não é sem fundamento; pois o próprio Cristo, nosso Senhor e Salvador, fala de si mesmo comparando-se a uma galinha: "Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos", etc. Aquela Jerusalém não quis: queiramos nós. ...Se considerardes outras aves, irmãos, encontrareis muitas que chocam os seus ovos e mantêm quentes os seus filhotes: mas nenhuma que se enfraqueça, por compaixão para com os seus pintainhos, como faz a galinha. Vemos andorinhas, pardais e cegonhas fora dos seus ninhos, sem que se possa saber se têm ou não filhotes: mas conhecemos a galinha como mãe pela fraqueza da sua voz e pelo afrouxar das suas penas: muda-se ela toda pelo amor aos seus pintainhos: enfraquece-se porque eles são fracos. Assim, como éramos fracos, a Sabedoria de Deus fez-se fraca, quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós, para que tivéssemos esperança sob as suas asas.
"A sua verdade te cercará como um escudo" (v. 5). O que são "as asas" é também "o escudo": pois nem asas nem escudo existem ali literalmente. Se qualquer das duas coisas fosse tomada ao pé da letra, como poderia uma ser o mesmo que a outra? Podem as asas ser um escudo, ou o escudo, asas? Mas todas estas expressões, na verdade, são usadas figuradamente, por semelhanças. Se Cristo fosse realmente uma Pedra, não poderia ser um Leão; se um Leão, não poderia ser um Cordeiro: mas Ele é chamado tanto Leão, como Cordeiro, e Pedra, e Bezerro, e qualquer outra coisa desse gênero, metaforicamente, porque não é nem Pedra, nem Leão, nem Cordeiro, nem Bezerro, mas Jesus Cristo, o Salvador de todos nós, pois são semelhanças, não nomes literais. "A sua verdade será o teu escudo", diz-se: um escudo para nos assegurar de que Ele não confundirá os que confiam em si mesmos com os que esperam em Deus. Um é pecador, e o outro é pecador também: mas suponde que um, que presume de si mesmo, é desprezador, não confessa os seus pecados, e dirá: se os meus pecados desagradassem a Deus, Ele não permitiria que eu vivesse. Mas outro não ousou sequer levantar os olhos, mas batia no peito, dizendo: "Deus, tem misericórdia de mim, pecador." Ambos eram pecadores, este e aquele: mas um zombava, o outro chorava: um era desprezador, o outro confessor dos seus pecados. Mas a verdade de Deus, que não acolhe pessoas, discerne o penitente daquele que nega o seu pecado, o humilde do soberbo, aquele que presume de si mesmo daquele que presume de Deus. "Não temerás terror algum de noite."
"Nem a seta que voa de dia, nem a peste que anda na escuridão, nem a ruína e o demônio que há ao meio-dia" (v. 6). Estas duas cláusulas acima correspondem às duas de baixo: "Não temerás" quanto "ao terror noturno", quanto "à seta que voa de dia": ambas coisas por causa "do terror noturno", da "peste que anda na escuridão": e por causa "da seta que voa de dia", da "ruína do demônio do meio-dia". Que se deve temer de noite, e que de dia? Quando alguém peca por ignorância, peca, por assim dizer, de noite: quando peca com pleno conhecimento, de dia. Os primeiros pecados, pois, são mais leves: os segundos, muito mais graves; mas isto é obscuro, e recompensará a vossa atenção, se, pela bênção de Deus, eu puder explicá-lo de modo que o entendais. Chama de tentação leve, à qual cede o ignorante, "terror noturno": a tentação leve, que assalta os que bem sabem, "a seta que voa de dia". Que são as tentações leves? Aquelas que não nos pressionam com tanta urgência a ponto de nos vencerem, mas que podem passar depressa, se recusadas. Suponde, por outro lado, tentações graves. Se o perseguidor ameaça, e atemoriza gravemente os ignorantes — refiro-me àqueles cuja fé ainda é instável, e que não sabem que são cristãos para que possam esperar uma vida futura — logo que se alarmam com os males temporais, imaginam que Cristo os abandonou, e que são cristãos em vão; não sabem que são cristãos por esta razão, para que vençam o presente e esperem o futuro: a peste que anda na escuridão os encontrou e os prendeu. Mas há alguns que sabem que foram chamados a uma esperança futura; que o que Deus prometeu não é desta vida, nem desta terra; que todas estas tentações devem ser suportadas, para que recebamos o que Deus nos prometeu para sempre; tudo isto sabem: quando, porém, o perseguidor os pressiona com maior insistência, e os assedia com ameaças, penas, torturas, cedem por fim, e, embora bem conscientes do seu pecado, caem, por assim dizer, de dia.
Mas por que diz "ao meio-dia"? A perseguição está muito ardente; e assim o meio-dia significa o calor excessivo. ...O demônio que está "ao meio-dia" representa o calor de uma furiosa perseguição: pois estas são palavras do nosso Senhor: "O sol se levantou; e, porque não tinham raiz, secaram-se"; e, ao explicá-lo, Ele o aplica àqueles que se escandalizam quando surge a perseguição, "porque não têm raiz em si mesmos". Temos, pois, razão em entender pelo demônio que destrói ao meio-dia uma perseguição violenta. Ouvi, amados, enquanto descrevo a perseguição da qual o Senhor livrou a sua Igreja. No princípio, quando os imperadores e reis do mundo imaginavam que poderiam extirpar da terra o nome cristão pela perseguição, decretaram que todo aquele que se confessasse cristão fosse ferido. Quem não escolhia ser ferido negava ser cristão, sabendo o pecado que cometia: a seta que voa de dia o alcançou. Mas quem não olhava para a vida presente, e tinha firme confiança numa vida futura, escapava da seta, confessando-se cristão; ferido na carne, era libertado no espírito: repousando em Deus, começava a aguardar em paz a redenção do seu corpo na ressurreição dos mortos: escapava daquela tentação, da seta que voa de dia. "Todo aquele que se professar cristão, seja decapitado" — era como a seta que voa de dia. O "demônio que está ao meio-dia" ainda não andava à solta, ardendo com terrível perseguição, e afligindo com grande calor até os fortes. Ouvi, pois, o que se seguiu: quando o inimigo viu que muitos se apressavam para o martírio, e que o número dos novos convertidos crescia na mesma proporção que o dos que sofriam, disseram entre si: Aniquilaremos a raça humana, tantos são os milhares que creem em seu Nome; se os matarmos a todos, dificilmente restará alguém sobre a terra. Então o sol começou a arder, e a resplandecer com um calor terrível. O seu primeiro edito fora: Todo aquele que se confessar cristão, seja ferido. O seu segundo edito foi: Todo aquele que se tiver confessado cristão, seja torturado, e torturado até negar ser cristão. ...Muitos, pois, que não negavam, sucumbiam em meio às torturas; pois eram torturados até negarem. Mas, para os que perseveraram professando a Cristo, que poderia fazer a espada, senão matar o corpo de um só golpe, e enviar a alma a Deus? Este era também o resultado das torturas prolongadas: e, contudo, quem se poderia achar capaz de resistir a tormentos tão cruéis e contínuos? Muitos sucumbiram: aqueles, creio eu, que presumiam de si mesmos, que não habitavam sob a proteção do Altíssimo, nem sob a sombra do Deus do Céu; que não diziam ao Senhor: "Tu és o meu amparo"; que não confiavam sob a sombra das suas asas, mas depositavam grande confiança nas suas próprias forças. Estes são derrubados por Deus, para lhes mostrar que é Ele quem os protege, Ele quem governa as suas tentações, Ele quem permite que lhes sobrevenha apenas o tanto que cada um pode suportar.
Muitos, pois, caíram diante do demônio do meio-dia. Quereis saber quantos? Prossegue, e diz: "Cairão mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas a ti não chegará" (v. 7). A quem, irmãos, senão a Cristo Jesus, se diz isto? ...Pois os membros, o corpo e a cabeça não estão separados uns dos outros: o corpo e a cabeça são a Igreja e o seu Salvador. Como se diz, pois: "Cairão mil ao teu lado, e dez mil à tua direita"? Porque cairão diante do demônio que destrói ao meio-dia. É coisa terrível, irmãos meus, cair do lado de Cristo, da sua direita: mas como cairão do seu lado? Por que um ao seu lado, outro à sua direita? Por que mil ao seu lado, dez mil à sua direita? Por que mil ao seu lado? Porque mil são menos que os dez mil que cairão à sua direita. Quem sejam estes logo se manifestará em nome de Cristo; pois a alguns prometeu que julgariam com Ele, a saber, aos Apóstolos, que deixaram tudo e O seguiram. ...Esses juízes, pois, são as cabeças da Igreja, os perfeitos. A tais disse Ele: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres." Que significa a expressão "se queres ser perfeito"? Significa: se queres julgar comigo, e não ser julgado. ...Muitos assim, naquele tempo, que haviam distribuído tudo aos pobres, e já se prometiam um lugar ao lado de Cristo no julgamento das nações, sucumbiram entre os tormentos, sob o fogo ardente da perseguição, como diante do demônio do meio-dia, e negaram a Cristo. Estes são os que caíram "ao seu lado": prestes a sentar-se com Cristo para o julgamento do mundo, caíram.
Explicarei agora quem são os que caem à direita de Cristo. ...E porque muitos caíram daquela esperança de serem juízes, mas muitos, muitos mais, daquela de estarem à sua direita, o Salmista assim se dirige a Cristo: "Cairão mil ao teu lado, e dez mil à tua direita." E, porque haverá muitos que não atentaram para todas estas coisas, com os quais, como se fossem os seus próprios membros, Cristo é um só, acrescenta: "Mas a ti não chegará." Foram estas palavras dirigidas somente à Cabeça? Certamente não; certamente nem sequer (chega) a Paulo, nem a Pedro, nem a todos os Apóstolos, nem a todos os Mártires, que não sucumbiram em seus tormentos. Que significam, pois, as palavras "não chegará"? Por que foram eles assim torturados? A tortura chegou à carne, mas não alcançou a região da fé. A fé deles, pois, estava muito além do alcance dos terrores ameaçados pelos seus algozes. Torturem eles, o terror não chegará; torturem eles, mas hão de escarnecer da tortura, pondo a sua confiança naquele que venceu antes deles, para que os demais pudessem vencer. E quem vence, senão os que não confiam em si mesmos? ...Quem não temerá? Aquele que não confia em si mesmo, mas em Cristo. Mas os que confiam em si mesmos, ainda que esperassem julgar ao lado de Cristo, ainda que esperassem estar à sua direita, como se Ele lhes dissesse: "Vinde, benditos de meu Pai", etc.; contudo o demônio que está ao meio-dia os surpreendeu, o calor furioso da perseguição, aterrorizando com violência; e muitos caíram da esperança do assento do julgamento, dos quais se diz: "Cairão mil ao teu lado"; muitos também caíram da esperança da recompensa dos seus deveres, dos quais se disse: "E dez mil à tua direita." Mas esta queda, e o demônio que está ao meio-dia, "a ti não chegará", isto é, à Cabeça e ao corpo; pois o Senhor conhece os que são seus.
"Contudo, com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios" (v. 8). Que é isto? Por que "contudo"? Porque foi permitido aos ímpios tiranizar os teus servos, e persegui-los. Ser-lhes-á, pois, permitido perseguir os teus servos impunemente? Não impunemente, pois, ainda que Tu lho tenhas permitido, e os teus próprios servos daí tenham recebido coroa mais resplandecente, "contudo", etc. Pois o mal que quiseram, não o bem de que inconscientemente foram instrumentos, é o que lhes será retribuído. Falta apenas o olho da fé, pelo qual possamos ver que são exaltados por um tempo somente, ao passo que hão de lamentar-se para sempre; e àqueles a cujas mãos é dado poder temporal sobre os servos de Deus, ser-lhes-á dito: "Apartai-vos para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos." Mas, se todo homem tem olhos no sentido em que se diz "com os teus olhos contemplarás", não é coisa de pouca monta olhar para o ímpio florescendo nesta vida, e ter um olhar voltado para ele, para considerar o que lhe sobrevirá ao fim, se não se emendar dos seus caminhos: pois os que agora quisessem trovejar contra os outros, depois sentirão eles mesmos o raio.
12. "Pois Tu, Senhor, és a minha esperança" (v. 9). Chegou agora à força que o resgata da queda causada pela "ruína e o demônio do meio-dia". "Pois Tu, Senhor, és a minha esperança: puseste bem alto a tua casa de refúgio." Que significam as palavras "bem alto"? Pois muitos fazem da sua casa de refúgio em Deus um mero abrigo contra a perseguição temporal; mas a defesa de Deus está no alto, e é muito secreta, para onde podes fugir da ira vindoura. Interiormente, "puseste bem alto a tua casa de refúgio. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma se aproximará da tua morada" (v. 10).
13. A Cidade Santa não é a Igreja apenas desta região, mas também de todo o mundo: não a deste tempo somente, mas desde o próprio Abel até aqueles que, até o fim, hão de nascer e crer em Cristo, toda a assembleia dos Santos, pertencente a uma única cidade; a qual cidade é o corpo de Cristo, do qual Cristo é a Cabeça. Ali também habitam os Anjos, que são nossos concidadãos: nós labutamos, porque ainda somos peregrinos; enquanto eles, dentro daquela cidade, aguardam a nossa chegada. Cartas também nos chegaram daquela cidade, de onde estamos afastados, errantes: essas cartas são as Escrituras, que nos exortam a viver bem. Por que falo apenas de cartas? O próprio Rei desceu, e se fez caminho para nós em nossa peregrinação: para que, caminhando Nele, não nos desviemos, nem desfaleçamos, nem caiamos entre salteadores, nem sejamos apanhados nas armadilhas postas junto ao nosso caminho. Reconhecemos, pois, este caráter na Pessoa inteira de Cristo, juntamente com a Igreja... Ele mesmo é a nossa Cabeça, Ele é Deus, coigual ao Pai, o Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas: mas Deus para criar, Homem para renovar; Deus para fazer, Homem para restaurar. Olhando, pois, para Ele, ouçamos o Salmo. Ouvi, amados. Este é o ensino e a doutrina desta escola, que vos poderá fazer entender, não apenas este Salmo, mas muitos, se guardardes na memória esta regra. Às vezes um Salmo, e toda a profecia igualmente, ao falar de Cristo, louva somente a Cabeça, e às vezes, da Cabeça, passa ao Corpo, isto é, à Igreja, sem aparentemente mudar a Pessoa de quem se fala: porque a Cabeça não está separada do Corpo, e de ambos se fala como de um só...
14. Que, pois, meus irmãos, que se diz de nossa Cabeça? "Pois Tu, Senhor, és a minha esperança", etc. Disto já falamos: "porque Ele deu ordem aos seus anjos a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos" (v. 11). Ouvistes há pouco estas palavras, quando se lia o Evangelho; atendei, pois. Nosso Senhor, depois de ser batizado, jejuou. Por que foi batizado? Para que não desdenhássemos de ser batizados. Pois quando João disse ao Senhor: "Vens Tu a mim para seres batizado? Eu é que devo ser batizado por Ti"; e o Senhor respondeu: "Deixa por agora, pois assim nos convém cumprir toda a justiça"; Ele quis cumprir toda a humildade, de modo que fosse lavado Aquele que não tinha mácula alguma... Nosso Senhor, pois, foi batizado, e depois do batismo foi tentado; jejuou quarenta dias, número que tem, como já frequentemente mencionei, um sentido profundo. Nem tudo se pode explicar de uma só vez, para que não se consuma tempo demasiado do necessário. Depois de quarenta dias, teve fome. Poderia ter jejuado sem jamais sentir fome; mas então como poderia ser tentado? Ou, se não tivesse vencido o tentador, como poderias tu aprender a lutar com ele? Teve fome; e então o tentador disse: "Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães." Seria grande coisa para nosso Senhor Jesus Cristo fazer pão de pedras, quando saciou tantos milhares com cinco pães? Ele fez pão do nada. Pois de onde veio aquela quantidade de alimento capaz de saciar tantos milhares? As fontes daquele pão estão nas mãos do Senhor. Isto nada tem de admirável; pois Ele mesmo fez, de cinco pães, pão suficiente para tantos milhares, Ele que também todos os dias, de umas poucas sementes, faz brotar na terra colheitas imensas. Estes são os milagres de nosso Senhor: mas, por sua operação constante, são desprezados. Que, pois, meus irmãos, era impossível ao Senhor criar pão de pedras? Ele fez até homens de pedras, nas palavras do próprio João Batista: "Deus é poderoso para, destas pedras, suscitar filhos a Abraão." Por que, então, não o fez assim? Para te ensinar como responder ao tentador, de modo que, se te visses reduzido a qualquer aperto, e o tentador sugerisse: se fosses cristão e pertencesses a Cristo, será que Ele te abandonaria agora?... Ouvi o nosso Senhor: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." Pensas que a palavra de Deus é pão? Se o Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, não fosse pão, Ele não diria: "Eu sou o pão que desceu do céu." Aprendeste, pois, a responder ao tentador, quando pressionado pela fome.
15. E se ele te tentar com estas palavras: se fosses cristão, farias milagres, como tantos cristãos o fizeram? Tu, enganado por uma sugestão perversa, tentarias o Senhor teu Deus, a ponto de lhe dizer: se sou cristão, e estou diante dos Teus olhos, e Tu me contas de algum modo entre os Teus, deixa-me também fazer algo semelhante às muitas obras que os Teus Santos fizeram. Tentaste a Deus, como se não fosses cristão a menos que fizesses isto. Muitos que desejaram tais coisas caíram. Pois aquele Simão, o mago, desejou tais dons dos Apóstolos, quando quis comprar o Espírito Santo por dinheiro. Amava o poder de operar milagres, mas não amava a imitação da humildade... Que, pois, se ele te tentar assim, "faze milagres"? Para que não tentes a Deus, que deverias responder? O que respondeu o nosso Senhor. Disse-lhe o diabo: "Lança-te daqui abaixo; pois está escrito: Ele dará ordem aos seus Anjos a teu respeito", etc. Se Te lançares, os Anjos Te receberão. E poderia, de fato, meus irmãos, acontecer que, se o nosso Senhor se tivesse lançado, os Anjos assistentes receberiam a carne do Senhor; mas que lhe diz Ele? "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus." Pensas que sou homem. Pois o diabo veio a Ele com este propósito, o de experimentar se Ele era o Filho de Deus. Via a Sua Carne; mas o Seu poder aparecia nas Suas obras: os Anjos haviam dado testemunho. Via que Ele era mortal, para poder tentá-Lo, a fim de que, pela tentação de Cristo, o cristão fosse ensinado. Que, pois, está escrito? "Não tentarás o Senhor teu Deus." Não tentemos, pois, o Senhor, a ponto de dizer: se somos Teus, façamos um milagre.
16. Voltemos às palavras do Salmo. "Eles Te levarão em suas mãos, para que nunca firas o teu pé contra a pedra" (v. 12). Cristo foi erguido nas mãos dos Anjos, quando foi assunto ao céu: não que, se os Anjos não O tivessem sustentado, Ele teria caído; mas porque estavam assistindo o seu Rei. Não digas: os que O sustentaram são melhores do que Aquele que foi sustentado. Serão então os animais melhores do que os homens, porque sustentam a fraqueza dos homens? E nem devemos falar assim; pois, se os animais retirassem o seu suporte, os que os montam cairiam. Mas como devemos falar disto? Pois se diz até de Deus: "O céu é o meu trono." Porque, então, o céu O sustenta, e Deus nele se assenta, será por isso o céu melhor? Assim também, neste Salmo, podemos entendê-lo como o serviço dos Anjos: isso não diz respeito a nenhuma fraqueza em nosso Senhor, mas à honra que Lhe prestam, e ao seu serviço... O que é o dedo de Deus, o Evangelho no-lo explica; pois o dedo de Deus é o Espírito Santo. Como o provamos? Nosso Senhor, respondendo àqueles que O acusavam de expulsar demônios em nome de Belzebu, diz: "Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus"; e outro Evangelista, relatando o mesmo dito, diz: "Se eu com o dedo de Deus expulso os demônios." O que, pois, num se declara claramente, noutro se expressa de modo obscuro. Não sabias o que era o dedo de Deus, mas outro Evangelista o explica, chamando-o Espírito de Deus. A Lei, pois, escrita pelo dedo de Deus, foi dada no quinquagésimo dia após a imolação do cordeiro, e o Espírito Santo desceu no quinquagésimo dia após a Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. O Cordeiro foi imolado, celebrou-se a Páscoa, completaram-se os cinquenta dias, e a Lei foi dada. Mas aquela Lei havia de causar temor, não amor: mas, para que o temor se convertesse em amor, foi morto Aquele que era verdadeiramente justo: de quem aquele cordeiro que os judeus imolavam era a figura. Ele ressuscitou dos mortos; e desde o dia da Páscoa de nosso Senhor, como desde o da imolação do cordeiro pascal, contam-se cinquenta dias; e o Espírito Santo desceu, já na plenitude do amor, não no castigo do temor. Por que disse isto? Pois para isto ressuscitou nosso Senhor, e foi glorificado, para que pudesse enviar o Seu Espírito Santo. E já disse antes que isto era assim, porque a Sua cabeça está no céu, os Seus pés na terra. Se a Sua cabeça está no céu, os Seus pés na terra; que significam os pés do Senhor na terra? Os santos do Senhor na terra. Quem são os pés do Senhor? Os Apóstolos enviados por todo o mundo. Quem são os pés do Senhor? Todos os Evangelistas, nos quais o Senhor percorre todas as nações... Não devemos, pois, admirar-nos de que nosso Senhor tenha sido erguido ao céu pelas mãos dos Anjos, para que o Seu pé não se ferisse contra uma pedra: para que aqueles que na terra labutavam em Seu corpo, enquanto percorriam todo o mundo, não se tornassem culpados perante a Lei, Ele lhes tirou o temor, e os encheu de amor. Por temor, Pedro O negou três vezes, pois ainda não recebera o Espírito Santo: depois, quando recebeu o Espírito Santo, começou a pregar com confiança... Nosso Senhor tratou com ele como se lhe dissesse: três vezes Me negaste por temor: três vezes confessa-Me por amor. Com aquele amor e aquela caridade encheu Ele os seus discípulos. Por quê? Porque pôs bem alto a sua casa de refúgio: porque, quando glorificado, enviou o Espírito Santo, libertou os fiéis da culpa da Lei, para que os Seus pés não se ferissem contra uma pedra.
17. "Andarás sobre o áspide e o basilisco; pisarás aos pés o leão e o dragão" (v. 13). Sabeis quem é a serpente, e como a Igreja o pisa, pois não é vencida, porque está de guarda contra a sua astúcia. E de que modo ele é leão e dragão, creio que também o sabeis, amados. O leão enfurece-se abertamente, o dragão jaz oculto em segredo: o diabo possui ambas estas forças e poderes. Quando os Mártires eram mortos, era o leão que rugia; quando os hereges tramam, é o dragão que se arrasta sob nós. Venceste o leão; vence também o dragão: o leão não te esmagou, que o dragão não te engane... Poucas mulheres na Igreja têm virgindade corporal: mas a virgindade do coração todos os fiéis a têm. Na própria matéria da fé, temia ele que a virgindade do coração fosse corrompida pelo diabo: e aqueles que a perderam são inutilmente virgens em seus corpos. Que preserva em seu corpo uma mulher que é corrupta de coração? Assim, uma mulher católica casada é preferível a uma virgem herege. Pois a primeira, na verdade, não é virgem em seu corpo, mas a segunda tornou-se casada em seu coração; e casada não com Deus como seu esposo, mas com o dragão. Mas que fará a Igreja? O basilisco é o rei das serpentes, assim como o diabo é o rei dos espíritos maus.
18. Estas são as palavras de Deus à Igreja. "Porque pôs em mim o seu amor, por isso o livrarei" (v. 14). Não somente, pois, a Cabeça, que agora se assenta nos céus, porque pôs bem alto a sua casa de refúgio, à qual nenhum mal sucederá, nem praga alguma se aproximará da sua morada; mas também nós, que labutamos na terra, e ainda vivemos em tentações, cujos passos se temem, para que não caiam em ciladas, podemos ouvir a voz do Senhor nosso Deus, consolando-nos, e dizendo-nos: "Porque pôs em mim o seu amor, por isso o livrarei: eu o porei em lugar alto, porque conheceu o meu nome."
19. "Ele me invocará, e eu o ouvirei: sim, estou com ele na tribulação" (v. 15). Não temas quando estiveres em tribulação, como se o Senhor não estivesse contigo. Que a fé esteja contigo, e Deus está contigo na tua tribulação. Há ondas no mar, e tu és lançado de um lado a outro em tua barca, porque Cristo dorme. Cristo dormia no barco, enquanto os homens pereciam. Se a tua fé dorme em teu coração, Cristo está como que dormindo em teu barco: porque Cristo habita em ti pela fé; quando começares a ser sacudido, desperta o Cristo que dorme: desperta a tua fé, e terás a certeza de que Ele não te abandona. Mas pensas que és abandonado, porque Ele não te resgata quando tu mesmo o desejas. Não livrou Ele os Três Jovens do fogo? Aquele que fez isto, abandonou porventura os Macabeus? Longe disso! Livrou a ambos: aos primeiros corporalmente, para que os infiéis fossem confundidos; aos últimos espiritualmente, para que os fiéis os imitassem. "Eu o livrarei, e o cobrirei de honra."
20. "Com longura de dias o fartarei" (v. 16). Que é longura de dias? A vida eterna. Irmãos, não penseis que se fala de longura de dias no mesmo sentido em que se diz que os dias são longos no verão, curtos no inverno. Tem Ele tais dias para nos dar? Aquela longura é a que não tem fim, vida eterna, que nos é prometida em longos dias. E, na verdade, visto que isto basta, com razão diz: "o fartarei." O que é longo no tempo, se tem fim, não nos farta: por essa razão nem sequer deveria ser chamado longo. E, se somos cobiçosos, devemos cobiçar a vida eterna: aspirai a tal vida, que não tem fim. Eis uma linha em que a nossa cobiça pode estender-se. Queres dinheiro sem limite? Aspira à vida eterna sem limite. Queres que a tua posse não tenha fim? Busca a vida eterna. "Eu lhe mostrarei a minha salvação." Nem isto, meus irmãos, se deve passar brevemente. "Eu lhe mostrarei a minha salvação": quer dizer, eu lhe mostrarei o próprio Cristo. Por quê? Não foi Ele visto na terra? Que grande coisa tem Ele para nos mostrar? Mas Ele não apareceu tal como O veremos. Apareceu naquela forma em que aqueles que O viram O crucificaram: eis que aqueles que O viram, O crucificaram: nós não O vimos, e contudo cremos. Tinham eles olhos, não os temos nós também? Sim, também nós temos os olhos do coração: mas, por ora, vemos pela fé, não pela visão. Quando será visão? Quando O veremos, como diz o Apóstolo, "face a face"? o que Deus nos promete como a alta recompensa de todos os nossos labores. Em tudo aquilo em que labutas, labutas com este propósito: que possas vê-Lo. Alguma grande coisa é o que havemos de ver, pois toda a nossa recompensa é ver; e nosso Senhor Jesus Cristo é essa grandíssima visão. Aquele que apareceu humilde, aparecerá Ele mesmo grande, e nos alegrará, tal como já agora é visto pelos seus Anjos... Amemo-Lo e imitemo-Lo: corramos após os seus unguentos, como se diz no Cântico dos Cânticos: "Por causa do perfume dos teus bons unguentos, correremos após ti." Pois Ele veio, e exalou um perfume que encheu o mundo. De onde vinha aquela fragrância? Do céu. Segue, pois, rumo ao céu, se não respondes falsamente quando se diz: "Elevai os vossos corações," elevai os vossos pensamentos, o vosso amor, a vossa esperança: para que não apodreça sobre a terra... "Pois onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração."
1. ...Não somos cristãos, senão por causa de uma vida futura: que ninguém espere bens presentes, que ninguém prometa a si mesmo a felicidade do mundo, porque é cristão: mas que use da felicidade que tem, como puder, do modo que puder, quando puder, na medida em que puder. Quando ela está presente, dê graças pela consolação de Deus: quando falta, dê graças à justiça Divina. Seja sempre grato, nunca ingrato: seja grato ao seu Pai, que o acalenta e afaga; e grato ao seu Pai também quando O castiga com o açoite, e o ensina: pois Ele sempre ama, quer afague, quer ameace: e diga o que ouvistes no Salmo: "Bom é louvar ao Senhor; e cantar salmos ao teu Nome, ó Altíssimo" (v. 1).
2. Este Salmo é intitulado: Salmo para se cantar no dia de sábado. Eis que este dia é o sábado, que os judeus, neste tempo, observam com uma espécie de repouso corporal, lânguido e voluptuoso. Abstêm-se dos trabalhos, e entregam-se a futilidades; e, embora Deus tenha instituído o sábado, eles o gastam em ações que Deus proíbe. O nosso repouso é das obras más; o deles, das boas: pois é melhor arar do que dançar. Abstêm-se das obras boas, mas não das fúteis. Deus nos proclama um sábado. Que espécie de sábado? Considerai primeiro onde ele está. Está no coração, dentro de nós; pois muitos estão ociosos quanto aos membros, enquanto se acham perturbados na consciência... Aquele mesmo gozo na tranquilidade da nossa esperança é o nosso sábado. Este é o assunto do louvor e do cântico neste Salmo: como o homem cristão está no sábado do seu próprio coração, isto é, na quietude, na tranquilidade e na serenidade da sua consciência, imperturbado; por isso nos diz aqui de onde os homens costumam ser perturbados, e te ensina a guardar o sábado em teu próprio coração.
3. ...Acusa-te a ti mesmo, e recebes a indulgência. Além disso, muitos não acusam a Satanás, mas ao seu fado. O meu fado me conduziu, diz alguém, quando lhe perguntas: por que fizeste isto? por que pecaste? ele responde: pelo meu mau fado. Para não dizer: eu o fiz; ele aponta para Deus como a fonte do seu pecado: com a língua blasfema. Não diz isto ainda abertamente, mas escutai, e vede que o diz. Perguntas-lhe o que é o fado: e ele responde: os astros maus. Perguntas quem fez, quem estabeleceu os astros; só pode responder: Deus. Segue-se, pois, que, quer o faça direta, quer indiretamente, ainda assim acusa a Deus, e, quando Deus castiga os pecados, faz de Deus o autor dos seus próprios pecados. Não pode ser que Deus castigue o que Ele mesmo operou: castiga o que tu fazes, para libertar o que Ele operou. Mas, às vezes, deixando de lado tudo o mais, atacam a Deus diretamente: e, quando pecam, dizem: Deus quis isto; se Deus não o tivesse querido, eu não teria pecado. Adverte-te Ele para isto, para que não somente não seja ouvido, a fim de te guardar do pecado, mas até seja acusado porque tu pecas? Que nos ensina, pois, este Salmo? "Bom é confessar ao Senhor." Que é confessar ao Senhor? Em ambos os casos: tanto nos teus pecados, porque tu os fizeste; quanto nas tuas boas obras, confessa ao Senhor, porque Ele as fez. Então "cantarás ao Nome de Deus, o Altíssimo": buscando a glória de Deus, não a tua; o Nome dEle, não o teu. Pois, se buscas o Nome de Deus, Ele também busca o teu nome; mas, se negligenciaste o Nome de Deus, Ele também apagará o teu...
"Anunciar de manhã a Tua misericórdia, e à noite a Tua verdade" (v. 2). Que significa isto — que a misericórdia de Deus nos deve ser anunciada de manhã, e à noite a verdade de Deus? A manhã é quando nos vai bem; a noite, a tristeza da tribulação. Que disse ele, pois, em suma? Quando fores próspero, alegra-te em Deus, pois é Sua misericórdia. Ora, dirias talvez: Se me alegro em Deus quando sou próspero, porque é Sua misericórdia, que farei quando estiver na tristeza, na tribulação? É Sua misericórdia quando sou próspero; será, pois, Sua crueldade quando estou na adversidade? Se louvo Sua misericórdia quando me vai bem, hei de então clamar contra Sua crueldade quando me vai mal? Não. Mas, quando te vai bem, louva Sua misericórdia; quando te vai mal, louva Sua verdade: porque, ao flagelar os pecados, Ele não é injusto. ...Durante a noite, Daniel confessou a verdade de Deus: disse ele em sua oração: "Pecamos, e cometemos iniquidade, e agimos perversamente. Ó Senhor, a justiça pertence a Ti; mas a nós, a confusão de rosto." Anunciou ele a verdade de Deus durante a estação da noite. Que é anunciar a verdade de Deus na estação da noite? Não acusar a Deus, porque padeces algum mal, mas atribuir aos teus pecados a Sua correção: anunciar de manhã a Sua benignidade, e à noite a Sua verdade. Quando fazes isto, louvas sempre a Deus, confessas sempre a Deus, e cantas ao Seu Nome.
5. "Sobre o saltério de dez cordas, com cântico, e sobre a harpa" (v. 3). Não é a primeira vez que ouvis falar do saltério de dez cordas: ele significa os dez mandamentos da Lei. Mas devemos cantar sobre esse saltério, e não apenas carregá-lo. Pois também os judeus têm a Lei, mas carregam-na; não cantam. ..."E sobre a harpa." Isto significa, em palavra e obra: "com cântico", em palavra; "sobre a harpa", em obra. Se falas apenas palavras, tens, por assim dizer, somente o cântico, e não a harpa; se obras, e não falas, tens somente a harpa. Por isso, tanto fala bem quanto obra bem, se quiseres ter o cântico junto com a harpa.
6. "Pois Tu, Senhor, me alegraste com as Tuas obras; e exultarei louvando as operações das Tuas mãos" (v. 4). Vede o que ele diz. Fizeste-me viver bem, formaste-me; se por acaso faço algum bem, exultarei na obra das Tuas mãos: como diz o Apóstolo, "Pois somos feitura Sua, criados para boas obras." Pois, a menos que Ele te tivesse formado para boas obras, não conhecerias senão obras más. ...Porque não podes ter a verdade de ti mesmo, resta-te bebê-la ali de onde ela flui: como se te afastasses da luz, estarias nas trevas; assim como a pedra não brilha com calor próprio, mas do sol ou do fogo, e se a retiras do calor, esfria-se — ali se manifesta que o calor não lhe era próprio, pois se aqueceu ou pelo sol ou pelo fogo — assim também tu, se te afastares de Deus, esfriarás; se te aproximares de Deus, te aquecerás, como diz o Apóstolo, "fervorosos em espírito." E que diz ele da luz? Se te aproximares d'Ele, estarás na luz; por isso diz o Salmo: "Olhai para Ele, e sede iluminados; e vossos rostos não serão envergonhados." Porque, portanto, não podes fazer nenhum bem, senão iluminado pela luz de Deus e aquecido pelo espírito de Deus, quando te vires a operar bem, confessa a Deus, e dize o que diz o Apóstolo; dize a ti mesmo, para que não te ensoberbeças: "Pois que tens que não tenhas recebido?" ...
7. Aquele homem infeliz que faz o bem e padece males, vê o outro, perturba-se, e diz: Ó Deus, os ímpios, suponho, Te agradam, e Tu odeias os bons, e amas os que praticam a iniquidade. ...Perdido já o sábado no homem interior, e excluída a tranquilidade do seu coração, e repelidos os bons pensamentos, começa ele agora a imitar aquele a quem vê florescer em meio às suas más obras, e volta-se também para más obras. Mas Deus é longânimo, porque é eterno, e conhece o dia do Seu próprio juízo, onde pesa todas as coisas.
8. Ensinando-nos isto, que diz ele? "Ó Senhor, quão gloriosas são as Tuas obras: Teus pensamentos são feitos muito profundos" (v. 5). Verdadeiramente, meus irmãos, não há mar tão profundo quanto estes pensamentos de Deus, que faz florescer o ímpio e padecer o bom: nada tão profundo, nada tão fundo: nele naufraga toda alma incrédula, nessa profundidade, nessa fundura. Queres atravessar esta profundidade? Não te afastes do madeiro da Cruz de Cristo: não naufragarás; apega-te firme a Cristo. Que quero dizer com isto, apegar-se a Cristo? Foi por esta razão que Ele mesmo escolheu padecer na terra. Ouvistes, enquanto se lia o profeta, como Ele "não desviou as costas dos que O feriam, nem o rosto dos escarros dos homens", como "não desviou a face das mãos deles"; por que escolheu Ele padecer todas estas coisas, senão para que pudesse consolar os que padecem? Poderia ter ressuscitado Sua carne no último dia; mas então não terias tido fundamento para tua esperança, pois não O terias visto. Não adiou Ele Sua ressurreição, para que não permanecesses ainda em dúvida. Padece, pois, a tribulação no mundo com o mesmo fim que observaste em Cristo; e que não te perturbem aqueles que praticam o mal e florescem nesta vida. "Teus pensamentos são muito profundos." Onde está o pensamento de Deus? Não te alegres como o peixe que se exulta na isca: o pescador ainda não puxou o anzol; o peixe tem ainda o anzol nas mandíbulas. E o que te parece longo é breve; todas estas coisas passam rapidamente. Que é a longa vida do homem diante da eternidade de Deus? Queres ser longânimo? Considera a eternidade de Deus. Pois consideras teus poucos dias, e em teus poucos dias queres que todas as coisas se cumpram. Que coisas? A condenação de todos os ímpios, e a coroação de todos os bons: queres que estas coisas se cumpram em teus dias? Deus as cumpre em Seu próprio tempo. Por que padeces cansaço? Ele é eterno; Ele espera; Ele é longânimo; mas tu dizes: Eu não sou longânimo, porque sou mortal. Mas está em teu poder tornar-te tal: une teu coração à eternidade de Deus, e com Ele serás eterno. ...
2. "O Senhor reina, revestiu-Se de beleza; o Senhor revestiu-Se de fortaleza, e Se cingiu" (v. 1). Vemos que Ele Se revestiu de duas coisas: beleza e fortaleza. Mas por quê? Para que fundasse a terra. Por isso segue-se: "Ele consolidou o orbe da terra de tal modo, que não se pode abalar." De onde a fez Ele tão firme? Porque Se revestiu de beleza. Não a faria tão firme, se se revestisse apenas de beleza, e não também de fortaleza. Por que, pois, beleza, por que fortaleza? Pois disse ambas as coisas. Sabeis, irmãos, que, quando nosso Senhor veio na carne, dentre aqueles a quem pregou o Evangelho, a uns agradou, a outros desagradou. Pois as línguas dos judeus estavam divididas entre si: "Uns diziam: É homem bom; outros diziam: Não, antes engana o povo." Uns, pois, falavam bem, outros O detraíam, O dilaceravam, O mordiam e O insultavam. Para com aqueles, portanto, a quem agradou, "Se revestiu de beleza"; para com aqueles a quem desagradou, "Se revestiu de fortaleza." Imita, pois, teu Senhor, para que te tornes Sua veste: sê belo para com aqueles a quem agradam tuas boas obras; mostra tua fortaleza contra os detratores. ...
3. Talvez devamos investigar também esta palavra, por que disse ele: "Se cingiu." O cingir-se significa trabalho: pois todo homem se cinge quando está para trabalhar. Mas por que usou ele a palavra praecinctus, em vez de cinctus? Pois diz em outro Salmo: "Cinge-Te com Tua espada sobre a coxa, ó Tu, poderosíssimo: o povo cairá sob Ti"; usando a palavra accingere, não cingere, nem praecingere: esta palavra aplicando-se ao ato de prender algo ao lado, cingindo-o. A espada do Senhor, com que Ele venceu o orbe da terra matando a iniquidade, é o Espírito de Deus na verdade da palavra de Deus. Por que se diz, pois, que Ele cinge Sua espada em torno da coxa? Em outro lugar, sobre outro Salmo, falamos de outro modo acerca do cingir-se; mas, todavia, já que foi mencionado, não deve ser omitido. Que é o cingir-se da espada em torno da coxa? Ele entende por coxa a carne. Pois o Senhor não venceria de outro modo o orbe da terra, senão viesse a espada da verdade à carne. Por que, pois, se diz aqui que Ele está cingido pela frente (praecinctus)? Aquele que se cinge pela frente coloca diante de si algo com que se cinge; donde se diz que Ele Se cingiu pela frente com uma toalha, e começou a lavar os pés dos discípulos. Porque era humilde quando Se cingiu com uma toalha. Lavou os pés de Seus próprios discípulos. Mas toda fortaleza está na humildade: porque toda soberba é frágil: por isso, quando falava da fortaleza, acrescentou: "Se cingiu": para que te lembres de como teu Deus Se cingiu em humildade, quando lavou os pés de Seus discípulos. ...Depois de ter lavado os pés deles, sentou-Se de novo; disse-lhes: "Vós Me chamais Senhor e Mestre, e dizeis bem, pois assim o sou. Se Eu, pois, vosso Senhor e Mestre, lavei vossos pés, quanto mais deveis vós também lavar os pés uns dos outros?" Se, portanto, a fortaleza está na humildade, não temas os soberbos. Os humildes são como uma rocha: a rocha parece jazer para baixo, mas, todavia, é firme. Que são os soberbos? Como fumaça: embora sejam altivos, se desvanecem. Devemos, pois, atribuir o cingir-se de nosso Senhor à Sua humildade, segundo a menção do Evangelho, de que Se cingiu para lavar os pés de Seus discípulos.
4. ..."Pois Ele consolidou o orbe da terra, que não pode ser abalado." ...Que é, pois, o orbe da terra "que não pode ser abalado"? Não o mencionaria ele especialmente, se não houvesse também um orbe da terra que pode ser abalado. Há um orbe da terra que não será abalado. Há um orbe da terra que será abalado. Pois os bons, que são constantes na fé, são o orbe da terra: para que ninguém diga que estão apenas em parte dele; ao passo que os ímpios, que não permanecem na fé, quando sentem alguma tribulação, estão por toda a terra. Há, portanto, um orbe da terra movível: há um orbe imóvel: do qual fala o Apóstolo. Eis o orbe movível da terra. Pergunto-te, de quem fala o Apóstolo nestas palavras: "Dos quais é Himeneu e Fileto, que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se deu, e transtornam a fé de alguns"? Pertenceriam estes ao orbe da terra que não será abalado? Mas eram joio: e, como ele diz, "transtornam a fé de alguns." ..."Todavia, o fundamento de Deus permanece firme, tendo este selo" — que selo tem ele como seu fundamento seguro? — "O Senhor conhece os que são Seus." Este é o orbe da terra que não será abalado: "O Senhor conhece os que são Seus." E que selo tem ele? "E aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome de Cristo." Aparte-se da injustiça: pois não pode apartar-se dos injustos, porque o joio está misturado com o trigo até que seja padejado. ...
1. ...Intitula-se: "Cântico de louvor do próprio Davi, no dia anterior ao Sábado, quando a terra foi arredondada." Recordando, pois, o que Deus fez em todos aqueles dias, quando fez e ordenou todas as coisas, do primeiro até o sexto dia (pois o sétimo Ele santificou, porque nele descansou depois de todas as obras que fez muito boas), achamos que Ele criou no sexto dia (dia este aqui mencionado, quando diz "antes do Sábado") todos os animais da terra; e por fim, nesse mesmo dia, criou o homem à Sua própria semelhança e imagem. Pois estes dias não foram ordenados sem razão em tal ordem, mas porque também as eras haviam de percorrer curso semelhante, antes que descansemos em Deus. Ora, descansamos se fizermos boas obras. Como figura disto, está escrito de Deus: "Deus descansou no sétimo dia", quando fizera todas as Suas obras muito boas. Pois Ele não Se cansou, a ponto de precisar de descanso, nem cessou até agora de operar, pois nosso Senhor Cristo diz abertamente: "Meu Pai opera até agora." Pois disse Ele isto aos judeus, que pensavam carnalmente acerca de Deus, e não entendiam que Deus opera em quietude, e sempre opera, e está sempre em quietude. Nós, pois, a quem Deus quis então figurar em Si mesmo, teremos descanso depois de todas as boas obras. ...E porque estas boas obras estão destinadas a passar, também aquele sexto dia, quando essas mesmas obras muito boas se aperfeiçoam, tem uma tarde; mas no Sábado não encontramos tarde alguma, porque nosso descanso não terá fim: pois a tarde é posta como figura do fim. Assim, pois, como Deus fez o homem à Sua imagem no sexto dia, achamos que nosso Senhor Jesus Cristo veio na sexta era, para que o homem fosse formado de novo à imagem de Deus. Pois o primeiro período, como o primeiro dia, foi de Adão até Noé; o segundo, como o segundo dia, de Noé até Abraão; o terceiro, como o terceiro dia, de Abraão até Davi; o quarto, como o quarto dia, de Davi até a remoção para a Babilônia; o quinto período, como o quinto dia, da remoção para a Babilônia até a pregação de João. O sexto dia começa da pregação de João, e dura até o fim: e depois do fim do sexto dia, alcançamos nosso descanso. O sexto dia, portanto, ainda agora está passando. E é agora o sexto dia; vede o que diz o título: "No dia anterior ao Sábado, quando a terra foi fundada." Ouçamos agora o próprio Salmo: perguntemos a ele como foi feita a terra, se talvez a terra tenha sido feita então: e não lemos assim em Gênesis. Quando, pois, foi a terra fundada? Quando, senão quando se cumpre o que acaba de ser lido no Apóstolo: "Se", diz ele, "permanecerdes firmes, inabaláveis"? Quando todos os que creem por toda a terra estão firmes na fé, a terra é fundada: então o homem é feito à imagem de Deus. Isto significa aquele sexto dia em Gênesis. ...
5. "Teu trono está estabelecido desde então, ó Senhor" (v. 2). Que é "desde então"? Desde aquele tempo. Como se dissesse: Qual é o trono de Deus? Onde se assenta Deus? Em Seus Santos. Queres ser o trono de Deus? Prepara um lugar em teu coração onde Ele possa assentar-Se. Que é o trono de Deus, senão onde Deus habita? Onde habita Deus, senão em Seu templo? Que é Seu templo? Está cercado de muros? Longe disso. Talvez este mundo seja Seu templo, porque é muito grande, e coisa digna de conter Deus. Não O contém, porém, Aquele por quem foi feito. E em que é Ele contido? Na alma quieta, na alma justa: é esta que O contém. ...Aquele que disse: "Antes que Abraão fosse, Eu Sou": não somente antes de Abraão, mas antes de Adão; não somente antes de Adão, mas antes de todos os anjos, antes do céu e da terra, pois todas as coisas foram feitas por Ele; acrescentou, para que tu, atentando ao dia do nascimento de nosso Senhor, não pensasses que Ele começou a partir daquele tempo: "Teu trono está estabelecido, ó Deus." Mas qual Deus? "Tu és desde a eternidade": para o que usa ele ap'aiônos, na versão grega; palavra esta usada ora para uma era, ora para a eternidade. Portanto, ó Tu que pareces nascer "desde então", és desde a eternidade! Mas não se pense no nascimento humano, senão na eternidade divina. Começou Ele, pois, a partir do tempo de Seu nascimento; cresceu; ouvistes o Evangelho. Escolheu discípulos, encheu-os, Seus discípulos começaram a pregar. Talvez seja isto o que ele diz no verso seguinte.
6. "As torrentes levantam suas vozes" (v. 3). Que são estas torrentes, que levantaram suas vozes? Não as ouvimos: nem quando nosso Senhor nasceu, ouvimos rios falarem, nem quando foi batizado, nem quando padeceu; não ouvimos que rios falassem. Lede o Evangelho, não achareis que rios falaram. Não basta que falassem: "Levantaram sua voz": não somente falaram, mas bravamente, poderosamente, em voz alta. Que são estes rios que falaram? ...O próprio Espírito era um rio poderoso, donde muitos rios se encheram. Desse rio diz o Salmista em outra passagem: "Os braços do rio alegrarão a cidade de Deus." Rios, pois, foram feitos correr do ventre dos discípulos, quando receberam o Espírito Santo: eles próprios eram rios, quando haviam recebido esse Espírito Santo. Donde levantaram estes rios suas vozes? por que as levantaram? Porque a princípio temeram. Pedro ainda não era rio, quando, à pergunta da serva, negou três vezes a Cristo: "Não conheço o homem." Aqui ele mente por medo: ainda não levanta sua voz: ainda não é o rio. Mas, quando foram cheios do Espírito Santo, os judeus os mandaram chamar, e ordenaram-lhes que de modo algum pregassem, nem ensinassem em nome de Jesus. ...Pois, quando os Apóstolos haviam sido despedidos do concílio dos judeus, vieram aos seus, e contaram-lhes o que os sacerdotes e anciãos lhes disseram: mas eles, ao ouvir, levantaram unânimes suas vozes ao Senhor, e disseram: "Senhor, és Tu quem fizeste o céu e a terra, e o mar, e tudo o que neles há"; e o resto que as torrentes, levantando suas vozes, poderiam dizer: "Admiráveis são as suspensões do mar" (v. 4). Pois, quando os discípulos haviam levantado suas vozes a Ele, muitos creram, e muitos receberam o Espírito Santo, e muitos rios, em vez de poucos, começaram a levantar sua voz. Daí segue-se: "das vozes de muitas águas, admiráveis são as suspensões do mar"; isto é, as ondas do mundo. Quando Cristo começou a ser pregado por vozes tão poderosas, o mar se enfureceu, as perseguições começaram a se adensar. Quando, pois, os rios haviam levantado sua voz, "das vozes de muitas águas" foram "admiráveis as suspensões do mar." Estar suspenso ao alto é estar elevado; quando o mar se enfurece, as ondas se suspendem como que de cima. Suspendam-se as ondas quanto quiserem; ruja o mar quanto quiser; poderosas são, na verdade, as suspensões do mar, poderosas as ameaças, poderosas as perseguições; mas vede o que se segue: "mas o Senhor, que habita nas alturas, é mais poderoso." Contenha-se, pois, o mar, e acalme-se algum dia; conceda-se a paz aos cristãos. O mar se perturbou, a nau foi sacudida; a nau é a Igreja: o mar, o mundo. O Senhor veio, andou sobre o mar, e acalmou as ondas. Como andou o Senhor sobre o mar? Sobre as cabeças daquelas poderosas ondas espumantes. Principados e reis creram; foram submetidos a Cristo. Não nos assustemos, pois, porque "o Senhor, que habita nas alturas, é mais poderoso."
7. "Os Teus testemunhos, ó Senhor, são fielmente cridos" (v. 5). O Senhor, que habita nas alturas, é mais poderoso que as poderosas ondas do mar. "Os Teus testemunhos são fielmente cridos." "Os Teus testemunhos", porque Ele dissera antes: "Estas coisas vos disse, para que em Mim tenhais paz. No mundo tereis aflição"... Acrescentou: "mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo." Se, pois, Ele diz: "Eu venci o mundo", apega-te a Ele, que venceu o mundo, que venceu o mar. Alegra-te n'Ele, porque o Senhor, que habita nas alturas, é mais poderoso, e "os Teus testemunhos são fielmente cridos". E qual é o fim de tudo isto? "À Tua casa, ó Senhor, convém a santidade!" A Tua casa, toda a Tua casa, não aqui e ali, mas toda a Tua casa, por todo o mundo. Por que por todo o orbe redondo? "Porque Ele firmou o orbe redondo, que não se pode mover." A casa do Senhor será forte: prevalecerá por todo o mundo; muitos cairão, mas aquela casa permanece; muitos serão perturbados, mas aquela casa não se moverá. "À Tua casa, ó Senhor, convém a santidade!" Por pouco tempo apenas? Não. "Por longura de dias."
2. O Salmo tem este título, isto é, esta inscrição: "Salmo do próprio Davi, no quarto dia da semana." Este Salmo está para ensinar a paciência nos sofrimentos dos justos: ordena a paciência contra a prosperidade dos ímpios, e edifica a paciência. Este é o intento de todo ele, do princípio ao fim. Por que, então, tem tal título, "no quarto dia da semana"? O primeiro dia da semana é o dia do Senhor; o segundo é o segundo dia da semana, que as gentes do mundo chamam de dia da Lua; o terceiro é o terceiro dia da semana, a que chamam dia de Marte. O quarto dos sábados, portanto, é o quarto dia da semana, que pelos pagãos é chamado dia de Mercúrio, e também por muitos cristãos; mas eu não o chamaria assim; e quisera eu que se emendassem para melhor, e deixassem de fazê-lo, pois têm expressão própria de que podem servir-se. Pois estes termos não são de uso universal: muitas nações têm, cada qual, nomes diferentes para eles; de modo que o modo de falar usado pela Igreja melhor convém à boca de um cristão. Contudo, se o costume induziu alguém a proferir com a língua o que o coração reprova, lembre-se de que todos aqueles cujos nomes os astros trazem foram homens, e que os astros não começaram a existir no céu quando aqueles homens começaram a sua existência, mas já ali estavam muito antes; mas por causa de alguns serviços mortais prestados a mortais, aqueles homens, em seus próprios tempos, porque tinham grande poder e eram eminentes nesta vida, visto serem amados pelos homens, não por causa da vida eterna, mas de serviços temporais, receberam honras divinas. Pois então os homens do mundo antigo, enganando-se e querendo enganar, apontavam para os astros no céu, para lisonjear aqueles que lhes haviam prestado algum bom serviço em seu afeto por esta vida, dizendo que aquela era a estrela de tal homem, esta de outro; enquanto o homem que não os tinha visto antes, de modo a saber que aqueles astros já ali estavam antes do nascimento daquele homem, foi enganado a crer; e assim se concebeu esta vã opinião. Este erro o demônio fortaleceu, Cristo o derrubou. Segundo o nosso modo de falar, então, o quarto dia da semana é tomado como o quarto dia a contar do dia do Senhor. Atendei, pois, amados, ao que significa este título. Aqui há um grande mistério, e verdadeiramente oculto. ... Recordemos, pois, da santa Escritura, no Gênesis, o que foi criado no primeiro dia; encontramos a luz; o que foi criado no segundo dia; encontramos o firmamento, que Deus chamou céu; o que foi criado no terceiro dia; encontramos a forma da terra e do mar, e a separação de ambos, de modo que todo o ajuntamento das águas se chamou mar, e tudo o que era seco, terra. No quarto dia, o Senhor fez as luzes no céu: "o sol para governar o dia; a lua e as estrelas para governar a noite": esta foi a obra do quarto dia. Qual é, pois, a razão de o Salmo ter tomado seu título do quarto dia: o Salmo em que se ordena a paciência contra a prosperidade dos ímpios e os sofrimentos dos bons? Encontras o Apóstolo Paulo dizendo: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas: para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus, incontestáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como luzeiros no mundo, retendo a palavra da vida." ...
1. Como escutamos com muita atenção enquanto se lia o Salmo, assim escutemos atentamente enquanto o Senhor revela os mistérios que Ele se dignou obscurecer nesta passagem. Pois alguns mistérios nas Escrituras são encerrados por esta razão, não para que sejam negados, mas para que sejam abertos aos que batem. Se, portanto, batestes com afeto de piedade e sincero amor de coração, Ele, que vê com que intenções batestes, vos abrirá. É sabido de todos nós (e quisera eu que não estivéssemos entre eles) que há os que murmuram contra a longanimidade de Deus, e se afligem, ou porque homens ímpios e perversos vivem neste mundo, ou porque têm grande poder; e, o que é mais, que os maus geralmente têm grande poder contra os bons, e que os maus frequentemente oprimem os bons; que os ímpios exultam, enquanto os bons sofrem; os maus se ensoberbecem, enquanto os bons são humilhados. Observando tais coisas no gênero humano (pois abundam), mentes impacientes e fracas se pervertem, como se em vão fossem boas; visto que Deus desvia, ou parece desviar, Seus olhos das boas obras dos piedosos e fiéis, e promove os ímpios naqueles prazeres que amam. Homens fracos, portanto, imaginando que em vão vivem bem, são induzidos ou a imitar a maldade daqueles que veem prosperar; ou, se por fraqueza corporal ou mental são dissuadidos de fazer o mal por temor das leis penais do mundo — não porque amem a justiça, mas, para falar mais abertamente, temendo a condenação dos homens entre os homens —, abstêm-se, de fato, de obras más, mas não se abstêm de pensamentos maus. E entre seus pensamentos maus, o principal é a maldade que os leva a imaginar impiamente que Deus é negligente e desatento às coisas humanas: e que Ele ou tem em igual estima os bons e os maus, ou ainda — e esta é noção ainda mais perniciosa — que Ele persegue os bons e favorece os maus. Aquele que assim pensa, ainda que não faça mal a nenhum homem, faz o maior mal a si mesmo, e é ímpio contra si mesmo, e por sua maldade não fere a Deus, mas mata a si próprio. ...
3. Atendamos agora ao Salmo. "O Senhor é o Deus das vinganças; o Deus das vinganças agiu com confiança" (v. 1). Pensas que Ele não castiga? "O Deus das vinganças" castiga. Que significa "o Deus das vinganças"? O Deus dos castigos. Murmuras, decerto, porque os maus não são castigados; mas não murmures, para que não estejas entre os que serão castigados. Aquele homem cometeu um furto, e vive; tu murmuras contra Deus, porque aquele que cometeu um furto contra ti não morre. ... Portanto, se queres que outro corrija a sua mão, corrige tu primeiro a tua língua; se queres que ele corrija o seu coração para com o homem, corrige o teu coração para com Deus; para que, porventura, quando desejares a vingança de Deus, se ela vier, não te encontre a ti primeiro. Pois Ele virá; virá, e julgará aqueles que permanecem em sua maldade, ingratos pela prolongação de Sua misericórdia, por Sua longanimidade, entesourando para si ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras; porque "o Senhor é o Deus das vinganças", por isso "agiu com confiança". ... Nossa salvação é o nosso Salvador: n'Ele quis pôr a esperança de todos os necessitados e pobres. E que diz Ele? "Agirei com confiança n'Ele." Que significa isto? Não temerá, não poupará as concupiscências e vícios dos homens. Verdadeiramente, como médico fiel, com a faca curativa da pregação em mãos, cortou todas as nossas partes feridas. Portanto, tal como fora profetizado e pregado de antemão, tal foi Ele achado. ... Que grandes coisas, pois, disse Aquele de quem se diz: "Ensinava-os como quem tem autoridade"? "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!" Que grandes coisas lhes disse Ele, diante de sua face? A ninguém temeu. Por quê? Porque Ele é o Deus das vinganças. Por esta razão não os poupou em palavras, para que permanecessem para Ele, depois, a fim de poupá-los no juízo; porque, se não quisessem aceitar a cura de Sua palavra, incorreriam depois na sentença de seu Juiz. Por quê? Porque disse: "O Senhor é o Deus das vinganças, o Deus das vinganças agiu com confiança"; isto é, a ninguém poupou em palavra. Aquele que não poupou em palavra quando estava para padecer, poupará no juízo quando estiver para julgar? Aquele que em Sua humildade a ninguém temeu, temerá algum homem em Sua glória? Por Seu modo de agir com tal confiança no tempo passado, imagina como agirá no fim dos tempos. Não murmures, pois, contra Deus, que parece poupar os ímpios; mas sê tu bom, e talvez por algum tempo Ele não te poupe a vara, para que ao final te poupe no juízo. ...
4. E o que se seguiu, porque agiu com confiança? "Exalta-Te, ó Juiz do mundo" (v. 2). Porque O aprisionaram quando humilde, pensas que O aprisionarão quando exaltado? Porque O julgaram quando mortal, não será Ele por eles julgado quando imortal? Que diz Ele, pois? "Exalta-Te", Tu que agiste com confiança, cuja confiança da palavra os ímpios não suportaram, mas pensaram fazer obra gloriosa, quando Te prenderam e crucificaram; eles, que deveriam ter-Te tomado com fé, tomaram-Te com perseguição. Tu, pois, que entre os ímpios agiste com confiança, e a ninguém temeste, porque padeceste, "exalta-Te"; isto é, ressuscita, parte para o céu. Suporte também a Igreja com longanimidade o que a Cabeça da Igreja suportou com longanimidade. "Exalta-Te, ó Juiz do mundo: e retribui aos soberbos segundo o seu merecimento." Ele os retribuirá, irmãos. Pois o que é isto, "Exalta-Te, ó Juiz do mundo: e retribui aos soberbos segundo o seu merecimento"? Esta é a profecia de quem prediz, não a ousadia de quem ordena. Não porque o Profeta disse: "Exalta-Te, ó Juiz do mundo", obedeceu Cristo ao Profeta, ao ressuscitar dos mortos e ascender ao céu; mas porque Cristo havia de fazer isto, o Profeta o predisse. Ele vê Cristo abatido em espírito, abatido O vê; a ninguém temendo, a ninguém poupando na fala, e diz: "Agiu com confiança." Vê quão confiantemente agiu, vê-O preso, crucificado, humilhado; vê-O ressuscitando dos mortos, e ascendendo ao céu, e dali vir em juízo daqueles, em cujas mãos padecera todo mal. "Exalta-Te", diz ele, "ó Juiz do mundo, e retribui aos soberbos segundo o seu merecimento." Aos soberbos assim retribuirá, não aos humildes. Quem são os soberbos? Aqueles para quem é pouco fazer o mal; mas ainda defendem os seus próprios pecados. Pois sobre alguns daqueles que crucificaram a Cristo, milagres foram depois operados, quando dentre o próprio número dos judeus se acharam crentes, e o sangue de Cristo lhes foi dado. Suas mãos eram ímpias, e vermelhas com o sangue de Cristo. Aquele cujo sangue haviam derramado, Ele mesmo os lavou. Aqueles que haviam perseguido o seu corpo mortal, que tinham visto, tornaram-se parte de seu próprio corpo, isto é, a Igreja. Derramaram o seu próprio resgate, para que bebessem o seu próprio resgate. Pois depois mais se converteram. ...
5. "Senhor, até quando os ímpios, até quando os ímpios triunfarão?" (v. 3). "Falarão, e proferirão iniquidade; falarão todos os que praticam a injustiça" (v. 4). Que é o seu dizer, senão contra Deus, quando dizem: Que nos aproveita viver assim? Que responderás? Acaso Deus verdadeiramente atenta em nossos feitos? Pois, porque vivem, imaginam que Deus não conhece as suas ações. Eis que mal lhes sucede! Se os guardas soubessem onde estão, prendê-los-iam; e por isso evitam os olhos do guarda, para escapar da prisão imediata; mas ninguém pode escapar ao olhar de Deus, pois Ele não só vê dentro do quarto, mas dentro dos recessos do coração. Eles mesmos creem que nada pode escapar a Deus; e porque fazem o mal, e têm consciência do que fizeram, e veem que vivem enquanto Deus sabe, ainda que não viveriam se o guarda os descobrisse, dizem a si mesmos: Estas coisas agradam a Deus; e, na verdade, se Lhe desagradassem, como desagradam aos reis, como desagradam aos juízes, como desagradam aos governadores, como desagradam aos magistrados — poderíamos, contudo, escapar ao olhar de Deus, como escapamos aos olhos dessas autoridades? Portanto, estas coisas agradam a Deus. ... Vem algum homem justo, e diz: Não cometas iniquidade. Por quê? Para que não morras. Eis que cometi iniquidade: por que não morro? Aquele homem praticou a justiça: e está morto: por que está morto? Eu pratiquei a iniquidade: por que Deus não me levou? Eis que aquele homem agiu com justiça: e por que assim o visitou? por que assim padece? Respondem — este é o sentido da palavra "respondem": pois têm uma réplica a dar; porque são poupados, pela longanimidade de Deus, descobrem um argumento para sua réplica. Ele os poupa por uma razão, eles respondem por outra, porque ainda vivem. Pois o Apóstolo nos diz por que Ele poupa, expõe as razões da longanimidade de Deus: "E pensas tu isto, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas e fazes o mesmo, que escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas as riquezas de Sua bondade, e paciência, e longanimidade, não sabendo que a longanimidade de Deus te conduz ao arrependimento?" "Mas tu", isto é, aquele que responde e diz: Se eu desagradasse a Deus, Ele não me pouparia — ouve o que ele trabalha para si mesmo; ouve o Apóstolo: "mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, entesouras para ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras." Ele, portanto, aumenta Sua longanimidade, tu aumentas a tua iniquidade. O tesouro d'Ele consistirá em misericórdia eterna para com aqueles que não desprezaram Sua misericórdia; mas o teu tesouro se descobrirá na ira, e o que diariamente ajuntas pouco a pouco, encontrá-lo-ás na massa acumulada; ajuntas pelo grão, mas encontrarás o monte inteiro. Não deixes de vigiar os teus pecados diários, ainda que mínimos: os rios se enchem das menores gotas.
6. ... "Humilharam o Teu povo, ó Senhor; e afligiram a Tua herança" (v. 5). "Mataram a viúva e o órfão, e assassinaram o prosélito" (v. 6); isto é, o viajante, o peregrino: o que vem de longe, tal como o próprio Salmista se chama. Cada uma destas expressões é demasiado clara em seu sentido para que valha a pena deter-se sobre elas.
7. "E disseram: O Senhor não verá" (v. 7): Ele não observa, não atenta nestas coisas; cuida de outros assuntos, não entende. Estas são as duas afirmações dos ímpios: uma, que acabo de citar, "Estas coisas fizeste, e eu me calei, e pensaste iniquidade, que eu seria semelhante a ti." Que significa "que eu serei semelhante a ti"? Pensas que vejo os teus feitos, e que me agradam, porque não os castigo. Há outra afirmação dos ímpios: porque Deus nem atenta nestas coisas, nem observa para saber como vivo, Deus não cuida de mim. Faz, pois, Deus alguma conta de mim? Ou sequer leva em conta a mim, ou aos homens em geral? Infeliz homem! Ele cuidou de ti, para que existisses: não cuidará de que vivas bem? Tais são, pois, as palavras destes últimos: "e contudo disseram: O Senhor não verá; nem o Deus de Jacó atentará nisso."
8. "Atendei agora, ó vós, insensatos entre o povo: ó néscios, compreendei alguma vez!" (v. 8). Ele ensina ao Seu povo, cujos pés poderiam vacilar: alguém dentre eles vê a prosperidade dos ímpios, vivendo ele próprio bem entre os Santos de Deus, isto é, entre o número dos filhos da Igreja: vê que os ímpios florescem e praticam a iniquidade, e invejando-os, é levado a segui-los em suas obras; porque vê que aparentemente de nada lhe aproveita viver bem na humildade, esperando aqui a sua recompensa. Pois, se a espera para o futuro, não a perde; porque ainda não chegou o tempo de recebê-la. Estás a trabalhar numa vinha: cumpre a tua tarefa, e receberás a tua paga. Não exigirias do teu patrão o pagamento antes de terminado o teu trabalho, e no entanto exiges de Deus antes de trabalhares? Esta paciência é parte da tua obra, e a tua paga depende da tua obra: tu, que não escolhes ser paciente, escolhes trabalhar menos na vinha: pois este ato de paciência pertence ao próprio labor, que é o meio de ganhares a tua paga. Mas, se és pérfido, cuida-te, para que não apenas não recebas a tua paga, mas também sofras castigo, porque escolheste ser um trabalhador pérfido. Quando tal trabalhador começa a agir mal, observa os olhos de seu patrão, que o contratou para a vinha, a fim de que possa vadiar quando o olhar dele se desvia; mas no instante em que os olhos se voltam para ele, trabalha diligentemente. Mas Deus, que te contratou, não desvia os Seus olhos: não podes trabalhar perfidamente: os olhos do teu Senhor estão sempre sobre ti: procura uma oportunidade para enganá-Lo, e vadeia, se puderes. Se, pois, algum de vós teve tais pensamentos, ao ver os ímpios prosperarem, e se tais pensamentos fizeram vacilar os vossos pés no caminho de Deus, a vós fala este Salmo: mas, se por acaso nenhum de vós for assim, por meio de vós ele se dirige a outros, nestas palavras: "Atendei agora"; pois eles tinham dito: "O Senhor não verá; nem o Deus de Jacó o considerará." "Atendei", diz ele, "agora, ó vós, insensatos entre o povo: e vós, néscios, compreendei alguma vez!"
9. "Aquele que plantou o ouvido, não ouvirá Ele? ou Aquele que formou o olho, não considerará Ele?" (v. 9). "Ou Aquele que instrui as nações, não repreenderá Ele?" (v. 10). Isto é o que Deus faz no presente: Ele instrui as nações: por isso enviou a Sua palavra ao homem por todo o mundo: enviou-a por meio de Anjos, de Patriarcas, de Profetas, de servos, por tantos arautos que precederam o Juiz. Enviou também o Seu próprio Verbo em Pessoa, enviou o Seu próprio Filho em Pessoa: enviou os servos do Seu Filho, e nestes mesmos servos o Seu próprio Filho. Por todo o mundo se prega em toda parte a palavra de Deus. Onde não se diz aos homens: Abandonai a vossa antiga maldade, e voltai-vos para os retos caminhos? Ele poupa, para que vos corrijais: não puniu ontem, para que hoje vivais bem. Ele ensina os gentios, não os repreenderá, pois? Não ouvirá aqueles a quem ensina? Não julgará aqueles a quem de antemão enviou e semeou lições de advertência? Se estivesses numa escola, receberias uma tarefa e não a repetirias? Quando, pois, a recebes de teu mestre, és ensinado: o Mestre põe a tua tarefa em tuas mãos, e não a exigirá de ti quando vieres repeti-la? Ou, quando começares a repeti-la, não temerás os açoites? No presente, pois, recebemos a nossa obra: depois somos postos diante do Mestre, para que Lhe entreguemos todas as nossas tarefas passadas, isto é, para que demos conta de todas as coisas que agora nos são concedidas. Ouvi as palavras do Apóstolo: "Todos devemos comparecer perante o tribunal de Cristo", etc. "É Ele quem ensina ao homem o conhecimento." Não saberá Aquele que te faz saber?
10. "O Senhor conhece os pensamentos do homem, que são vãos" (v. 11). Pois, embora tu não conheças os pensamentos de Deus, que são justos, "Ele conhece os pensamentos do homem, que são vãos." Até mesmo homens conheceram os pensamentos de Deus: mas àqueles a quem Ele se tornou amigo, é a eles que Ele mostra o Seu conselho. Não vos desprezeis, irmãos: se vos aproximais do Senhor com fé, ouvis os pensamentos de Deus; estes ora aprendeis, isto vos é dito, e por esta razão sois ensinados por que Deus poupa os ímpios nesta vida, para que não murmureis contra Deus, que ensina ao homem o conhecimento. "O Senhor conhece os pensamentos do homem, que são vãos." Abandonai, pois, os pensamentos do homem, que são vãos, para que vos apodereis dos pensamentos de Deus, que são sábios. Mas quem é aquele que se apodera dos pensamentos de Deus? Aquele que está posto no firmamento do céu. Já cantamos aquele Salmo, e nele expusemos esta expressão.
2. "Vinde, cantemos ao Senhor" (v. 1). Ele nos chama a um grande banquete de alegria, não deste mundo, mas no Senhor. Pois, se não houvesse nesta vida uma alegria má, que se há de distinguir de uma alegria justa, bastaria dizer: "Vinde, alegremo-nos"; mas ele distinguiu-a brevemente. Que é alegrar-se retamente? Alegrar-se no Senhor. Deverias alegrar-te piedosamente no Senhor, se desejas pisar com segurança o mundo. Mas que quer dizer a palavra "Vinde"? De onde os chama Ele a vir, aqueles com quem deseja alegrar-se no Senhor, senão porque, estando longe, ao virem se aproximem mais, ao se aproximarem cheguem, e ao chegarem se alegrem? Mas de onde estão longe? Poderá um homem estar localmente distante Daquele que está em toda parte?... Não é pelo lugar, mas por ser dessemelhante a Ele, que o homem está longe de Deus. Que é ser dessemelhante a Ele? Significa uma vida má, maus costumes; pois, se por bons costumes nos aproximamos de Deus, por maus costumes nos afastamos de Deus... Se, pois, pela dessemelhança nos afastamos de Deus, pela semelhança nos aproximamos de Deus. Que semelhança? Aquela segundo a qual fomos criados, que, pecando, corrompemos em nós mesmos, que recebemos de novo pela remissão dos pecados, que se renova em nós na mente interior, para que se grave de novo, como que sobre a moeda, isto é, a imagem do nosso Deus sobre a nossa alma, e para que voltemos aos Seus tesouros...
3. "Cantemos com júbilo a Deus, nossa salvação." ... Considerai, amados, aqueles que cantam com júbilo em quaisquer canções comuns, como que numa espécie de competição de alegria mundana, e vede-os, ao recitarem os versos escritos, romperem numa alegria que a língua não basta para exprimir na medida em que a sentem; como gritam, indicando por essa exclamação o sentimento da mente, que não pode em palavras exprimir o que se concebe no coração. Se eles, pois, na alegria terrena cantam com júbilo, não o faríamos nós pela alegria celestial, que na verdade não podemos exprimir em palavras?
1. Eu quisera, irmãos, que estivéssemos antes ouvindo o nosso pai: mas também isto é bom, obedecer ao nosso pai. Visto, pois, que aquele que se digna orar por nós assim o ordenou, falar-vos-ei, amados, o que do presente Salmo Jesus Cristo, nosso comum Senhor, se dignar dar-nos. Ora, o título do Salmo é "Cântico de louvor de Davi." O "Cântico de louvor" significa tanto a alegria, por ser um cântico, quanto a devoção, por ser louvor. Pois que deveria o homem louvar mais do que aquilo que tanto lhe apraz, que lhe é impossível desagradar? No louvor de Deus, pois, louvamos com segurança. Ali está seguro aquele que louva, onde não teme envergonhar-se por causa do objeto do seu louvor. Louvemos, pois, verdadeiramente e cantemos; isto é, louvemos com alegria e júbilo. Mas o que estamos para louvar, este Salmo, nos versículos seguintes, no-lo mostra.
4. "Antecipemo-nos à Sua face com confissão" (v. 2). A confissão tem duplo sentido na Escritura. Há a confissão daquele que louva, e há a daquele que geme. A confissão de louvor pertence à honra Daquele que é louvado: a confissão de gemido pertence ao arrependimento daquele que confessa. Pois os homens confessam quando louvam a Deus: confessam quando se acusam a si mesmos; e a língua não tem uso mais digno. Verdadeiramente, creio serem estes os próprios votos de que ele fala em outro Salmo: "Pagar-Te-ei os meus votos, que distingui com os meus lábios." Nada há mais elevado do que essa distinção, nada tão necessário tanto compreender quanto fazer. Como, pois, distingues os votos que pagas a Deus? Louvando-O, acusando-te a ti mesmo; porque é Sua misericórdia perdoar-nos os pecados. Pois, se Ele escolhesse tratar-nos segundo os nossos merecimentos, não encontraria senão motivo para condenar. "Vinde", disse ele, pois, para que finalmente nos afastemos dos nossos pecados, e para que Ele não nos apresente as contas do passado; mas que, como que uma nova conta se inicie, todas as obrigações das nossas dívidas tendo sido queimadas... Quanto mais, pois, desesperaste de ti mesmo por causa das tuas iniquidades, confessa os teus pecados; pois tanto maior é o louvor Daquele que perdoa, quanto mais abundante for a plenitude da confissão do penitente. Não imaginemos, pois, que nos afastamos do cântico de louvor, ao entender aqui essa confissão pela qual reconhecemos as nossas transgressões: esta é também parte do cântico de louvor; pois, quando confessamos os nossos pecados, louvamos a glória de Deus.
5. "E cantemos-Lhe com júbilo em Salmos." Já dissemos o que é "cantar com júbilo": a palavra é repetida, para que se confirme pelo ato: a própria repetição é uma exortação. Pois não nos esquecemos, a ponto de desejarmos ser novamente admoestados do que foi dito acima, que devêssemos cantar com júbilo: mas geralmente, em passagens de sentimento intenso, repete-se uma palavra já conhecida, não para torná-la mais familiar, mas para que a própria repetição fortaleça a impressão causada: pois repete-se para que compreendamos o sentimento de quem fala... Ouvi agora: "Porque o Senhor é grande Deus, e grande Rei sobre todos os deuses" (v. 3). "Porque o Senhor não rejeitará o Seu povo." Louvor Lhe seja dado, e gritos de júbilo Lhe sejam dados! Que povo não rejeitará Ele? Não temos direito de fazer aqui a nossa própria explicação: pois o Apóstolo no-la prescreveu, ele explicou de quem se fala. Pois este era o povo judeu, o povo em que estavam os profetas, o povo em que estavam os patriarcas, o povo gerado segundo a carne da semente de Abraão; o povo em que todos os mistérios que prometiam o nosso Salvador nos precederam; o povo entre o qual foi instituído o templo, a unção, o Sacerdote como figura, para que, passadas todas essas sombras, viesse a própria Luz; este era, pois, o povo de Deus; a ele foram enviados os profetas, nele nasceram os que foram enviados; a ele foram entregues e confiadas as revelações de Deus. Que, pois? Está todo aquele povo condenado? Longe disso. Ele é chamado pelo Apóstolo a boa oliveira, pois começou com os patriarcas... Esta é, pois, a própria árvore: ainda que alguns dos seus ramos tenham sido quebrados, nem todos o foram. Pois, se todos os ramos fossem quebrados, donde viria Pedro? Donde João? Donde Tomé? Donde Mateus? Donde André? Donde todos aqueles Apóstolos? Donde aquele mesmo Apóstolo Paulo, que há pouco nos falava, e por seu próprio fruto dando testemunho da boa oliveira? Não eram todos estes daquele povo? Donde também aqueles quinhentos irmãos a quem o nosso Senhor apareceu depois da Sua ressurreição? Donde vieram tantos milhares às palavras de Pedro (quando os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, falavam nas línguas de todas as nações), convertidos com tal zelo pela honra de Deus e pela acusação de si mesmos, que aqueles que primeiro derramaram o sangue do Senhor em sua fúria, aprenderam agora a bebê-lo, tendo crido? E todos estes cinco mil converteram-se de tal modo que venderam os seus próprios bens, e depositaram o preço deles aos pés dos Apóstolos. Aquilo que um rico não fez, quando ouviu da boca do Senhor, e dEle se apartou tristemente, isto fizeram subitamente tantos milhares daqueles homens por cujas mãos Cristo havia sido crucificado. Na medida em que a ferida era mais profunda em seus próprios corações, com maior ansiedade buscavam um médico. Visto, pois, que todos estes vinham dali, o Salmo diz deles: "Porque o Senhor não rejeitará o Seu povo."...
6. Que acrescenta o Salmo? "Em Sua mão estão todos os confins da terra" (v. 4): reconhecemos a pedra angular: a pedra angular é Cristo. Não pode haver ângulo, a menos que nele se tenham unido dois muros: vêm eles de lados diferentes para um único ângulo, mas não são opostos um ao outro nesse ângulo. A circuncisão vem de um lado, a incircuncisão do outro; em Cristo os dois povos se encontraram: porque Ele Se fez a pedra, da qual está escrito: "A pedra que os edificadores rejeitaram, tornou-se a cabeça do ângulo."
7. "Pois dEle é o mar, e Ele o fez" (v. 5). Pois o mar é este mundo, mas também o mar Deus o fez: nem podem as ondas enfurecer-se senão até onde Ele lhes marcou os limites, isto é, até a praia. Não há, portanto, tentação que não tenha recebido sua medida. ..."E as suas mãos formaram a terra seca." Sê tu a terra seca: tem sede da graça de Deus, para que, qual doce chuva, desça sobre ti e nela encontre fruto. Ele não permite que as ondas cubram o que semeou. "E as suas mãos formaram a terra seca." Também por isso, pois, exultemos ao Senhor.
8. "Vinde, adoremos e prostremo-nos diante dEle; choremos diante do Senhor que nos fez" (v. 6). ...Talvez ardas com a consciência de uma falta: apaga com lágrimas a chama de teu pecado; chora diante do Senhor; chora sem temor diante do Senhor, que te fez, pois Ele não despreza em ti a obra de Suas próprias mãos. Não penses que podes ser restaurado por ti mesmo. Por ti mesmo podes cair, mas não podes restaurar-te: Aquele que te fez é quem te restaura. "Choremos diante do Senhor que nos fez": chora diante dEle, confessa-te a Ele, previne a Sua face com a confissão. Pois quem és tu, que choras diante dEle e a Ele te confessas, senão aquele que Ele criou? A criatura criada não tem pequena confiança naquele que a criou, e isso não de modo indiferente, mas segundo a Sua própria imagem e semelhança.
9. "Pois Ele é o Senhor nosso Deus" (v. 7). Mas para que sem temor nos prostremos e nos ajoelhemos diante dEle, que somos nós? "Somos o povo de Seu pasto, e as ovelhas de Sua mão." Vede quão elegantemente Ele transpôs a ordem das palavras, e como que não deu a cada palavra o seu próprio atributo, para que entendamos que estas mesmas são as ovelhas, que são também o povo. Não disse Ele: as ovelhas de Seu pasto, e o povo de Sua mão — o que poderia parecer mais congruente, visto que as ovelhas pertencem ao pasto —, mas disse: "o povo de Seu pasto." O povo, portanto, são ovelhas, pois diz: "o povo de Seu pasto": o próprio povo são ovelhas. ...Ele louva também estas ovelhas no Cântico dos Cânticos, falando de alguns perfeitos como os dentes de Sua Esposa, a Santa Igreja: "Teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro, das quais cada uma dá à luz gêmeos, e nenhuma delas é estéril." Que significa "teus dentes"? Estes são aqueles por quem tu falas: pois os dentes da Igreja são aqueles por quem ela fala. De que tipo são teus dentes? "Como um rebanho de ovelhas tosquiadas." Por que "tosquiadas"? Porque depuseram os fardos do mundo. Não eram tosquiadas aquelas ovelhas de que pouco antes falava, as quais o mandamento de Deus tosquiou, quando disse: "Vai, vende o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus; e vem, segue-Me"? Cumpriram este mandamento: tosquiadas vieram. E porque os que creem em Cristo são batizados, que se diz ali? "que sobem do lavadouro", isto é, que sobem da purificação. "Das quais cada uma dá à luz gêmeos." Que gêmeos? Aqueles dois mandamentos, dos quais dependem toda a Lei e os Profetas.
10. Por isso, "Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais os vossos corações" (v. 8). Ó povo meu, povo de Deus! Deus se dirige ao Seu povo: não somente ao Seu povo que Ele não há de rejeitar, mas também a todo o Seu povo. Pois Ele fala, na pedra angular, a cada um dos dois muros: isto é, a profecia fala em Cristo, tanto ao povo dos judeus quanto ao povo dos gentios. Por algum tempo ouvistes a Sua voz por meio de Moisés, e endurecestes os vossos corações. Ele então, quando endurecêsseis os vossos corações, falava por meio de arauto; agora fala por Si mesmo: amoleçam-se os vossos corações. Aquele que costumava enviar arautos diante de Si, dignou-Se agora vir Ele mesmo; aqui fala pela Sua própria boca Aquele que costumava falar pelas bocas dos Profetas.
11. "Como na provocação, e no dia da tentação no deserto, onde vossos pais Me provaram" (v. 9). Que estes não sejam mais vossos pais: não os imiteis. Eles foram vossos pais, mas, se não os imitardes, não serão vossos pais; ainda que, por terdes nascido deles, tenham sido vossos pais. E se os gentios que vieram dos confins da terra, nas palavras de Jeremias, "As nações virão a Ti desde os confins da terra, e dirão: Certamente nossos antepassados herdaram mentiras, vaidade e coisas em que não há proveito"; se os gentios abandonaram os seus ídolos para vir ao Deus de Israel, deveria Israel, a quem o seu próprio Deus conduziu do Egito através do Mar Vermelho, no qual afogou os inimigos que os perseguiam; a quem Ele conduziu ao deserto, alimentou com o maná, de quem jamais retirou a vara da correção, a quem jamais privou das bênçãos de Sua misericórdia — deveria ele abandonar o seu próprio Deus, quando os gentios vieram a Ele? "Quando vossos pais Me tentaram, Me provaram, e viram as Minhas obras. ...
12. "Por quarenta anos estive bem próximo desta geração, e disse: É um povo que sempre erra em seu coração; pois não conheceram os Meus caminhos" (v. 10). Os quarenta anos têm o mesmo sentido da palavra "sempre". Pois aquele número, quarenta, indica a plenitude das idades, como se as idades se aperfeiçoassem neste número. Daí ter o nosso Senhor jejuado quarenta dias, ter sido tentado no deserto por quarenta dias, e ter estado com os Seus discípulos, após a ressurreição, por quarenta dias. Nos primeiros quarenta dias Ele nos mostrou a tentação; nos últimos quarenta dias, a consolação: pois, sem dúvida, quando somos tentados, somos consolados. Porque o Seu corpo, isto é, a Igreja, há de sofrer tentações neste mundo; mas não falta Aquele Consolador que disse: "Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo." Pois por isto estive Eu com eles quarenta anos, para mostrar tal raça de homens, que sempre Me provoca, até o fim do mundo: porquanto, por aqueles quarenta anos, quis significar toda a duração deste mundo.
13. ...Começamos com alegria exultante: mas este Salmo terminou com grande temor: "Aos quais jurei em Minha ira que não entrariam no Meu descanso" (v. 11). É coisa grande Deus falar: quanto maior, então, jurar? Deverias temer um homem quando jura, para que não faça algo contra a sua vontade por causa do juramento: quanto mais deverias temer a Deus quando jura, visto que Ele nada pode jurar levianamente? Ele escolheu o ato de jurar como confirmação. E por quem jura Deus? Por Si mesmo: pois não tem Ele maior por quem jurar. Por Si mesmo confirma as Suas promessas; por Si mesmo confirma as Suas ameaças. Ninguém diga em seu coração: Sua promessa é verdadeira, Sua ameaça é falsa: assim como Sua promessa é verdadeira, também Sua ameaça é certa. Deverias estar igualmente seguro do descanso, da felicidade, da eternidade, da imortalidade, se cumpriste os Seus mandamentos; como da destruição, do fogo eterno que abrasa, da condenação com o diabo, se desprezaste os Seus mandamentos. ...
2. "Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, toda a terra" (v. 1). Se toda a terra canta um cântico novo, ela está, ao cantar, construindo: o próprio ato de cantar é edificar; mas somente se não canta o cântico velho. A concupiscência da carne canta o cântico velho: o amor de Deus canta o novo. ...Ouvi por que é um cântico novo: diz o Senhor: "Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros." Toda a terra, pois, canta um cântico novo: ali se edifica a casa de Deus. Toda a terra é a casa de Deus. Se toda a terra é a casa de Deus, aquele que não se apega a toda a terra é ruína, não casa; aquela antiga ruína cuja sombra representava aquele antigo templo. Pois ali foi destruído o que era velho, para que se edificasse o que era novo. ...O Apóstolo nos ata a esta mesma estrutura, e nos prende, unidos naquela unidade, dizendo: "Suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz." Onde há esta unidade do Espírito, ali há uma só pedra; mas uma só pedra formada de muitas. Como uma só formada de muitas? Suportando-se uns aos outros em amor. Por isso, a casa do Senhor nosso Deus está em construção; é isto que se está operando; para isto estas palavras, para isto estas leituras, para isto a pregação do Evangelho por todo o mundo; ainda está em construção. Esta casa cresceu grandemente, e encheu muitas nações; contudo, ainda não prevaleceu entre todas as nações: pelo seu crescimento reteve muitas, e há de prevalecer sobre todas; e é contestada por aqueles que se gabam de pertencer à sua casa, e que dizem que ela já perdeu terreno. Ela ainda cresce, e ainda todas aquelas nações que ainda não creram estão destinadas a crer; que ninguém diga: crerá aquela língua? crerão os bárbaros? que outro sentido tem o Espírito Santo ter aparecido em línguas de fogo, senão que não há língua tão dura que não possa ser amolecida por aquele fogo? Pois sabemos que já muitas nações bárbaras creram em Cristo: Cristo já possui regiões aonde o império romano jamais chegou; o que ainda está fechado aos que lutam com a espada não está fechado a Quem luta com a madeira. Pois "o Senhor reinou desde o madeiro." Quem é este que luta com a madeira? Cristo. Com Sua cruz venceu reis, e fixou sobre a fronte destes, uma vez vencidos, a própria cruz; e nela se gloriam, pois nela está a sua salvação. Esta é a obra que se está operando, assim a casa cresce, assim se edifica: e, para que o saibais, ouvi os versículos seguintes do Salmo: vede-os laborar e construir a casa. "Cantai ao Senhor, toda a terra."
Meu senhor e irmão Severo ainda protela o prazer que sentiremos com seu discurso, que ele nos deve; pois reconhece que se tem por devedor. Porquanto todas as Igrejas por onde passou, o Senhor alegrou por sua língua: muito mais, pois, deve regozijar-se esta Igreja, de onde o Senhor propagou Sua pregação entre as demais. Mas que faremos, senão obedecer à sua vontade? Disse, porém, irmãos, que ele protelava, não que nos defraudava. Retenhamo-lo, pois, como devedor obrigado, e não o soltemos até que tenha pago. Atendei, pois, amados: na medida em que o Senhor permitir, digamos algo deste Salmo, que já conheceis; pois a menção renovada da verdade é doce. Talvez, quando se pronunciou seu título, alguns o ouviram com espanto. Pois o Salmo está inscrito: "Quando se edificava a casa depois do Cativeiro." Prefixado este título, esperáveis talvez ouvir no texto do Salmo que pedras foram talhadas dos montes, que massas foram trazidas ao lugar, que fundamentos foram lançados, que vigas foram postas ao alto, que colunas se ergueram. Seu cântico não é de nada disso... Não é tal casa que se edifica; pois vede onde ela é edificada: não em um só lugar, não em região alguma particular. Pois assim começa:
3. "Cantai ao Senhor, bendizei o Seu nome: anunciai de dia em dia a Sua salvação" (v. 2). Como cresce a edificação? "Anunciai," diz ele, "de dia em dia a Sua salvação." Seja pregado de dia em dia; de dia em dia, diz ele, seja edificado; cresça a Minha casa, diz Deus. E como se dissessem os construtores: Onde ordenas que se edifique? Onde queres que cresça a Tua casa? Escolhei-nos algum lugar plano e espaçoso, se quereis que se edifique para Vós uma ampla casa. Onde nos ordenas anunciar de dia em dia? Ele mostra o lugar: "Anunciai a Sua honra entre os gentios": a honra dEle, não a vossa. Ó construtores, "anunciai a Sua honra entre os gentios." Se escolherdes anunciar a vossa própria honra, caireis; se a dEle, sereis edificados, enquanto edificais. Por isso, aqueles que escolheram anunciar a sua própria honra recusaram habitar naquela casa; e por isso não cantam um cântico novo com toda a terra. Pois não o compartilham com todo o orbe; e por isso não edificam na casa, mas ergueram uma parede caiada. Quão severamente ameaça Deus a parede caiada! Inúmeros são os testemunhos dos Profetas, nos quais Ele amaldiçoa a parede caiada. Que é a parede caiada, senão a hipocrisia, isto é, o fingimento? Por fora é brilhante, por dentro é lama... Certa pessoa, falando desta parede caiada, disse assim: "como, se numa parede que se ergue sozinha, e não está ligada a outras paredes, fizeres uma porta, quem quer que entre está fora; assim, naquela parte que se recusou a cantar o cântico novo junto com a casa, mas escolheu edificar uma parede, e ainda por cima caiada, e não sólida, de que aproveita ter uma porta?" Se entrares, achar-te-ás por fora. Pois, porque eles mesmos não entraram pela porta, também sua porta não os admite dentro. Pois o Senhor diz: "Eu sou a porta: por Mim entram." ... "Anunciai a Sua honra entre os gentios." Que é "entre os gentios"? Talvez por nações se entendam apenas poucas: e aquela parte que ergueu a parede caiada ainda tem algo a dizer: por que não são nações a Getúlia, a Numídia, a Mauritânia, o Bizácio? Províncias são nações. Tome a palavra de Deus a palavra da hipocrisia, da parede caiada, e edifique a casa sobre todo o mundo. Não basta dizer: "Anunciai a Sua honra entre os gentios"; para que não penses que alguma nação está excetuada, acrescenta: "e as Suas maravilhas entre todos os povos."
4. "Porque grande é o Senhor, e digno de ser louvado sobremaneira" (v. 4). Que Senhor, senão Jesus Cristo, "é grande, e não pode ser dignamente louvado"? Vós sabeis por certo que Ele apareceu como Homem: sabeis por certo que foi concebido no ventre de uma mulher, sabeis que nasceu desse ventre, que foi amamentado, que foi carregado nos braços, circuncidado, que uma vítima foi oferecida por Ele, que cresceu; enfim, sabeis que foi esbofeteado, cuspido, coroado de espinhos, foi crucificado, morreu, foi trespassado com uma lança; sabeis que padeceu todas estas coisas: "Ele é grande, e não pode ser dignamente louvado." Não desprezeis o que é pequeno, compreendei o que é grande. Ele se fez pequeno, porque tais éreis vós: seja Ele reconhecido grande, e nEle sereis grandes. ...Pois que pode dizer uma pequena língua em louvor do Grande? Dizendo: Acima de todo louvor, ele já falou, e deu à imaginação algo que ela possa conceber: como que dizendo, O que eu não posso proferir, reflete tu; e quando tiveres refletido, não será suficiente. O que o pensamento de nenhum homem profere, acaso a língua de algum homem o profere? "Grande é o Senhor, e não pode ser dignamente louvado." Seja Ele louvado, e pregado: declarada a Sua honra, e edificada a Sua casa.
5. ...Pois o lugar onde ele quis edificar a casa é ele mesmo bosque, onde se disse ontem, "encontramo-la no bosque." Pois era essa mesma casa que ele buscava, quando disse, "no bosque." E por que é aquele lugar um bosque? Os homens costumavam adorar imagens: não é de admirar que apascentassem porcos. Pois aquele filho que deixou seu pai, e gastou tudo o que tinha com meretrizes, vivendo como pródigo, costumava apascentar porcos, isto é, adorar demônios; e por essa mesma superstição dos gentios, toda a terra se tornou bosque. Mas aquele que edifica uma casa desarraiga o bosque; e por essa razão foi dito, "Enquanto se edificava a casa, depois do cativeiro." Pois os homens eram mantidos cativos sob o diabo, e serviam aos demônios; mas foram redimidos do cativeiro. Podiam vender-se, mas não podiam redimir-se a si mesmos. Veio o Redentor, e deu um preço; derramou o Seu Sangue, e comprou o mundo inteiro. Perguntais o que Ele comprou? Vedes o que Ele deu; descobri, pois, o que Ele comprou. O Sangue de Cristo foi o preço. O que é igual a isto? O que, senão o mundo inteiro? O que, senão todas as nações? Muito ingratos são pelo seu preço, ou muito soberbos, os que dizem que o preço é tão pequeno que comprou apenas os africanos; ou que são tão grandes, que foi dado só por eles. Que não se exultem, pois, que não se ensoberbeçam: Ele deu o que deu pelo mundo inteiro. Sabia Ele o que comprava, porque sabia a que preço o comprava. Assim, porque somos redimidos, a casa é edificada depois do cativeiro. E quem são os que nos mantinham cativos? Porque aqueles a quem se diz, "Declarai a Sua honra," são os desbravadores do bosque: para que desarraiguem o bosque, libertem a terra do cativeiro, e edifiquem, e levantem, declarando a grandeza da casa do Senhor. Como é desbravado o bosque dos demônios, senão pregando-se Aquele que está acima de todos eles? Todas as nações, pois, tinham demônios por seus deuses: aqueles a quem chamavam deuses eram demônios, como diz mais abertamente o Apóstolo, "As coisas que os gentios sacrificam, sacrificam-nas aos demônios, e não a Deus." Visto, portanto, que estavam em cativeiro, porque sacrificavam aos demônios, e por essa razão toda a terra permanecera bosque; Ele é declarado grande, e acima de todo louvor mundano.
6. ...Pois havendo dito: "Mais temível é Ele do que todos os deuses," acrescentou: "Todos os deuses dos gentios são demônios."... Porque "todos os deuses dos gentios são demônios." E será este todo o louvor Daquele que não pode ser dignamente louvado, que Ele está acima de todos os deuses dos gentios, os quais são demônios? Aguardai, e ouvi o que se segue: "É o Senhor que fez os céus." Não somente acima de todos os deuses, portanto, mas acima de todos os céus que Ele fez, está o Senhor. Se dissesse apenas: "acima de todos os deuses, pois os deuses dos gentios são demônios," e se o louvor de nosso Senhor aqui se detivesse, teria dito menos do que estamos acostumados a pensar de Cristo; mas quando disse: "Mas é o Senhor que fez os céus," vede que diferença há entre os céus e os demônios; e que diferença entre os céus e Aquele que fez os céus; vede quão excelso é o Senhor. Não disse: Mas o Senhor está assentado acima dos céus; pois talvez se pudesse imaginar que outro os houvesse feito, sobre os quais Ele estivesse entronizado: mas: "É o Senhor que fez os céus." Se Ele fez os céus, fez também os Anjos: Ele mesmo fez os Anjos, Ele mesmo fez os Apóstolos. Os demônios cederam aos Apóstolos: mas os próprios Apóstolos eram céus, que traziam em si o Senhor. ...Ó céus, que Ele fez, anunciai a Sua honra aos gentios! Edifique-se a Sua casa por toda a terra, cante toda a terra um cântico novo.
7. "Confissão e beleza estão diante dEle" (v. 6). Amas a beleza? Queres ser belo? Confessa! Não disse Ele beleza e confissão, mas confissão e beleza. Eras disforme; confessa, para que sejas formoso: eras pecador; confessa, para que sejas justo. Podias deformar-te a ti mesmo: não podes fazer-te belo. Mas de que sorte é o nosso Esposo, que amou uma disforme, para fazê-la formosa? Como, dirá alguém, amou Ele uma disforme? "Não vim," disse Ele, "chamar os justos, mas os pecadores." A quem chamas Tu? aos pecadores, para que permaneçam pecadores? Não, diz Ele. E por que meio deixarão de ser pecadores? "Confissão e beleza estão diante dEle." Honram-nO pela confissão de seus pecados, vomitam os males que ávidos haviam devorado; não voltam ao seu vômito, como o cão imundo; e então haverá confissão e beleza: amamos a beleza; escolhamos primeiro a confissão, para que a beleza se siga. Há também quem ame o poder e a grandeza: quer ser grande como os Anjos são. Há certa grandeza nos Anjos; e tal poder, que, se os Anjos o exercessem em plenitude, não poderia ser resistido. E todo homem deseja o poder dos Anjos, mas nem todo homem ama a justiça deles. Ama primeiro a justiça, e o poder te seguirá. Pois que se segue aqui? "Santidade e grandeza estão em Sua santificação." Buscavas antes a grandeza: ama primeiro a justiça: quando fores justo, serás também grande. Pois, se preposteramente quiseres primeiro ser grande, cais antes de poderes levantar-te: pois não te levantas, és levantado. Levantas-te melhor, se te levantar Aquele que não cai. Pois Aquele que não cai desce até ti: tu havias caído: Ele desce, Ele te estendeu a mão; não podes levantar-te por tua própria força; abraça a mão dAquele que desce, para que sejas levantado pelo Forte.
8. Que, pois? Se "confissão e beleza estão diante dEle: santidade e grandeza em Sua santificação" (v. 7). Isto declaramos, quando edificamos a casa; eis que já foi declarado aos gentios; que devem fazer os gentios, a quem aqueles que desbastaram a madeira anunciaram a honra do Senhor? Ele agora diz aos próprios gentios: "Tributai ao Senhor, ó famílias dos povos: tributai ao Senhor glória e honra." Não as tributeis a vós mesmos: porque também aqueles que vo-la anunciaram não anunciaram sua própria honra, mas a dEle. Tributai, pois, "ao Senhor glória e honra"; e dizei: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dá a glória." Não ponhais vossa confiança no homem. Se cada um de vós é batizado, diga: Ele me batiza, de quem o amigo do Esposo disse: "Ele batiza no Espírito Santo." Pois quando dizeis isto, tributais ao Senhor glória e honra: "Tributai ao Senhor glória e honra."
9. "Tributai ao Senhor a glória devida ao Seu nome" (v. 8). Não ao nome do homem, não ao vosso próprio nome, mas ao dEle tributai a adoração... A confissão é uma oferta a Deus. Ó gentios, se quereis entrar em Seus átrios, não entreis vazios. "Trazei oferendas." Que oferendas traremos conosco? O sacrifício de Deus é um espírito atribulado: um coração quebrantado e contrito, "não desprezarás Tu, ó Deus." Entrai com coração humilde na casa de Deus, e tereis entrado com uma oferenda. Mas se és soberbo, entras vazio. Pois de onde serias soberbo, se não estivesses vazio? Pois, se estivesses cheio, não te inflarias. Como poderias estar cheio? Se houvesses de trazer uma oferenda, que devesses levar aos átrios do Senhor. Não vos detenhamos por muito mais tempo: percorramos o que resta. Eis a casa que cresce: eis o edifício que se estende por todo o mundo. Alegrai-vos, porque entrastes nos átrios; alegrai-vos, porque estais sendo edificados no templo de Deus. Pois os que entram são eles mesmos edificados, eles mesmos são a casa de Deus: Ele é o habitador, para quem se edifica a casa sobre todo o mundo, e isto "depois do Cativeiro." "Trazei oferendas, e vinde aos Seus átrios."
10. "Adorai ao Senhor em Seu átrio santo" (v. 9): na Igreja Católica; este é o Seu átrio santo. Não diga ninguém: "Eis aqui está o Cristo, ou ali. Pois se levantarão falsos profetas." Dize-lhes isto: "Não ficará aqui pedra sobre pedra, que não seja derrubada." Chamais-me para a parede caiada; eu adoro o meu Deus em Seu átrio santo. "Estremeça toda a terra diante de Sua face."
11. "Anunciai entre as nações que o Senhor reina desde o madeiro: e que foi Ele quem firmou o orbe de tal modo que não se moverá" (v. 10). Que testemunhos da edificação da casa de Deus! As nuvens do céu trovejam por todo o mundo que a casa de Deus se edifica; e as rãs gritam do pântano: Só nós somos cristãos. Que testemunhos aduzo? O do Saltério. Aduzo o que tu cantas como surdo: abre os ouvidos; cantas isto; cantas comigo, e não concordas comigo; tua língua soa o que a minha soa, e todavia teu coração discorda do meu. Não cantas isto? Eis os testemunhos de todo o mundo: "Estremeça toda a terra diante de Sua face": e dizes que não estás abalado? "Anunciai entre os gentios que o Senhor reinou desde o madeiro." Prevalecerão porventura aqui os homens, e dirão que reinam por madeiro, porque reinam por meio das clavas de seus bandidos? Reina pela Cruz de Cristo, se hás de reinar por madeiro. Pois este teu madeiro te faz de madeira: o madeiro de Cristo te faz atravessar o mar. Ouves o Salmo dizer: "Ele firmou o orbe, de tal modo que não se moverá"; e dizes que ele não só se moveu desde que foi firmado, como também diminuiu. Dizes tu a verdade, e o Salmista a mentira? Os falsos profetas, quando clamam: "Eis aqui está o Cristo, e ali," dizem a verdade; e mente este Profeta? Irmãos, contra estas palavras tão manifestas ouvis nos cantos rumores como estes: "fulano foi traditor," e "fulano foi traditor." Que dizes tu? Devem ouvir-se as tuas palavras, ou as palavras de Deus? Pois "foi Ele quem firmou o orbe, de tal modo que não se moverá." Mostro-te o orbe edificado: traze tua oferenda, e vem aos átrios do Senhor. Não tens oferendas: e por isso não queres entrar. Que é isto? Se Deus te designasse um touro, um bode, ou um carneiro, como oferenda, acharias um para trazer: Ele designou um coração humilde, e tu não queres entrar; pois não achas isto em ti mesmo, porque estás inchado de soberba. "Ele firmou o orbe, de tal modo que não se moverá: e julgará os povos com justiça." Então hão de lamentar-se aqueles que agora se recusam a amar a justiça.
12. "Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra" (v. 11). Alegrem-se os céus, que anunciam a glória de Deus; alegrem-se os céus, que o Senhor fez; regozije-se a terra, sobre a qual os céus chovem. Pois os céus são os pregadores, a terra os ouvintes. "Ruja o mar, e a sua plenitude." Que mar? O mundo. O mar rugiu, e a sua plenitude: todo o mundo se agitou contra a Igreja, enquanto ela se estendia e se edificava sobre toda a terra. Acerca desta agitação, ouvistes no Evangelho: "Vos entregarão aos concílios." "O mar se agitou: mas como poderia o mar jamais vencer Aquele que o fez?"
13. “As planícies se alegrarão, e tudo quanto nelas há” (v. 12). Todos os mansos, todos os brandos, todos os justos, são as “planícies” de Deus. “Então se regozijarão todas as árvores dos bosques.” As árvores dos bosques são os gentios. Por que se regozijam? Porque foram cortadas da oliveira brava, e enxertadas na boa oliveira. “Então se regozijarão todas as árvores dos bosques”: porque enormes cedros e ciprestes foram derrubados, e madeiros incorruptíveis foram comprados para a edificação da casa. Eram árvores dos bosques; mas antes de serem enviadas à construção: eram árvores dos bosques, mas antes de produzirem a azeitona.
3. ..."O Senhor reina, alegre-se a terra; regozijem-se as muitas ilhas" (v. 1). Assim é, com efeito, porque a palavra de Deus foi pregada não somente no continente, mas também naquelas ilhas que jazem em meio ao mar: também estas estão cheias de cristãos, cheias de servos de Deus. Pois o mar não retarda a Quem o fez. Onde as naus podem chegar, não poderão as palavras de Deus? As ilhas se enchem. Mas, figuradamente, as ilhas podem tomar-se por todas as Igrejas. Por que ilhas? Porque as ondas de todas as tentações rugem ao seu redor. Mas assim como uma ilha pode ser açoitada pelas ondas que de todos os lados a arremetem, sem contudo poder ser quebrada, antes ela mesma quebra as ondas que avançam, do que por elas é quebrada: assim também as Igrejas de Deus, brotando por todo o mundo, sofreram as perseguições dos ímpios, que rugem ao seu redor por todos os lados; e eis que as ilhas permanecem fixas, e por fim o mar se acalma.
2. A terra restaurada é a ressurreição da carne; pois, depois de Sua ressurreição, todas aquelas coisas que se cantam no Salmo foram cumpridas. Ouçamos, pois, um Salmo cheio de alegria acerca da restauração da Terra. Que o Senhor nosso Deus excite em nós uma esperança e um deleite dignos de coisa tão grande; que Ele reja o nosso discurso, para que seja próprio dos vossos corações, de modo que toda alegria que o nosso coração sente diante de tais visões, Ele a traga à nossa língua, e dali a conduza aos vossos ouvidos, depois ao vosso coração, e daí às vossas obras.
1. ...Este Salmo tem por título: "Salmo de Davi, quando a sua terra foi restaurada." Refiramos tudo a Cristo, se queremos guardar o caminho de uma reta compreensão: não nos apartemos da pedra angular, para que a nossa inteligência não sofra queda: n'Ele se firme aquilo que oscilava com movimento instável; sobre Ele repouse aquilo que antes vacilava incerto de um lado para outro. Qualquer dúvida que o homem tenha em sua mente ao ouvir as Escrituras de Deus, que não se aparte de Cristo; quando Cristo lhe tiver sido revelado nas palavras, tenha então por certo que compreendeu; mas antes de chegar ao entendimento de Cristo, não presuma ter compreendido. "Pois Cristo é o fim da lei para justiça a todo aquele que crê." Que significa isto, e como se entendem estas palavras em Cristo: "Quando a sua terra foi restaurada"? ...
4. "Nuvens e escuridão o rodeiam: justiça e juízo são a base do Seu trono" (v. 2). ...O próprio Senhor diz: "Para juízo vim a este mundo; para que os que não veem, vejam, e os que veem, sejam cegos." Aqueles que a si mesmos parecem ver, que se julgam sábios, que julgam não necessitar de cura, esses que se façam cegos, que não entendam. E que "os que não veem, vejam"; que aqueles que confessam a sua cegueira alcancem ser iluminados. Haja, pois, "nuvens e escuridão ao Seu redor" para aqueles que não O compreenderam: para aqueles que confessam e se humilham, "justiça e juízo são a base do Seu trono." Chamou de seu trono aos que n'Ele creem: pois deles fez para Si um trono, uma vez que neles a Sabedoria se assenta; pois o Filho de Deus é a Sabedoria de Deus. Mas ouvimos de outra passagem da Escritura firme confirmação desta interpretação: "A alma do justo é o trono da Sabedoria." Porque, então, aqueles que creram n'Ele foram feitos justos: justificados pela fé, tornaram-se o Seu próprio trono: Ele neles se assenta, julgando a partir deles, e conduzindo-os. ...
5. "Fogo irá adiante d'Ele, e abrasará os Seus inimigos ao redor" (v. 3). Lembramo-nos de haver lido no Evangelho que Ele dirá: "Apartai-vos para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos." Não penso que se fale daquele fogo. Por que não penso assim? Porque fala de um certo fogo que há de ir adiante d'Ele, antes que Ele venha para o juízo. Pois se diz que o fogo vai adiante d'Ele, e abrasa os Seus inimigos ao redor, isto é, por todo o mundo. Aquele fogo arderá depois de Sua vinda: este, ao contrário, irá adiante d'Ele. Que fogo é este, pois? ...Eis que compreendemos o fogo que vai adiante d'Ele, que se há de entender como certa espécie de castigo temporal dos incrédulos e ímpios: entendamos o fogo, se possível, também da salvação dos remidos; pois isto nos havíamos proposto. O próprio Senhor diz: "Vim lançar fogo sobre a terra": "fogo" da mesma maneira que "espada"; como noutra passagem diz que não veio para trazer paz, mas espada, sobre a terra. A espada para dividir, o fogo para abrasar: mas ambos salutares: pois a espada de Sua própria palavra de modo salutar nos separou dos maus costumes. Pois Ele trouxe uma espada, e separou todo crente ou de seu pai que não cria em Cristo, ou de sua mãe igualmente incrédula: ou ao menos, se nascemos de pais cristãos, de seus antepassados. Pois nenhum de nós deixou de ter avô, ou bisavô, ou alguma ancestralidade entre os gentios, e naquela incredulidade que é maldita diante de Deus. Somos separados daquilo que éramos antes; mas a espada que separa, sem contudo matar, cortou entre nós. Da mesma maneira também o fogo: "Vim lançar fogo sobre a terra." Os que n'Ele creram foram inflamados, receberam a chama do amor: e por esta razão, quando o próprio Espírito Santo foi enviado aos Apóstolos, assim apareceu: "línguas repartidas, como que de fogo." Ardendo com este fogo, puseram-se a caminho pelo mundo, para abrasar e inflamar os Seus inimigos ao redor. Quais inimigos Seus? Os que, abandonando o Deus que os fez, adoravam os ídolos que haviam feito. ...
6. "Os Seus relâmpagos deram luz ao mundo" (v. 4). Esta é grande alegria. Não o vemos? Não é evidente? Os Seus relâmpagos brilharam para o mundo inteiro: os Seus inimigos foram inflamados e abrasados. Tudo o que contradizia foi queimado, e "os Seus relâmpagos deram luz ao mundo." Como brilharam? Para que o mundo enfim cresse. De onde vieram os relâmpagos? Das nuvens. Que são as nuvens de Deus? Os pregadores da verdade. Mas tu vês uma nuvem, nebulosa e escura no céu, e há nela não sei o quê de oculto. Se dela sai um relâmpago, um resplendor rebrilha: daquilo que desprezavas, irrompeu aquilo que deves temer. Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, enviou os Seus Apóstolos, como Seus pregadores, à maneira de nuvens: eram vistos como homens, e eram desprezados; assim como as nuvens aparecem, e são desprezadas, até que aquilo de que te admiras resplandeça a partir delas. Pois eram, em primeiro lugar, homens envoltos em carne, fracos; depois, homens de condição humilde, iletrados, ignóbeis: mas havia neles o que podia relampejar; havia neles o que podia fulgurar. Pedro, um pescador, aproximou-se, orou, e o morto ressuscitou. Sua forma humana era a nuvem, o esplendor do milagre era o relâmpago. Assim em suas palavras, assim em seus feitos, quando faziam coisas admiráveis, e proferiam palavras admiráveis, "os Seus relâmpagos deram luz ao mundo; a terra viu, e temeu." Não é verdade? Não exclama enfim todo o mundo cristão, Amém, temeroso diante dos relâmpagos que irrompem daquelas nuvens?
7. "Os montes se derreteram como cera à presença do Senhor" (v. 5). Quem são os montes? Os soberbos. Toda coisa elevada que se ergue contra Deus, ante as obras de Cristo e dos cristãos, tremeu, cedeu, e quando digo o que já foi dito, "derreteu-se," palavra melhor não se pode achar. "Os montes se derreteram como cera à presença do Senhor." Onde está a elevação dos poderosos? Onde a dureza dos incrédulos? O Senhor foi para eles um fogo, derreteram-se à Sua presença como cera; tão longamente duros, até que aquele fogo lhes foi aplicado. Toda altura foi nivelada; já não ousa blasfemar contra Cristo: e ainda que o pagão nEle não creia, não O blasfema; ainda que não se tenha feito ainda pedra viva, contudo o monte duro foi subjugado. "À presença do Senhor de toda a terra": não somente dos judeus, mas também dos gentios, como diz o Apóstolo; pois Ele não é o Deus somente dos judeus, mas também dos gentios. É, portanto, o Senhor de toda a terra, o Senhor Jesus Cristo, nascido na Judeia, mas não nascido somente para a Judeia, porque, antes de nascer, criou todos os homens; e Aquele que criou, também recriou todos os homens.
8. "Os céus declararam a Sua justiça: e todos os povos viram a Sua glória" (v. 6). Que céus declararam? "Os céus declaram a glória de Deus." Quem são os céus? Aqueles que se tornaram Seu assento; pois assim como Deus se assenta nos céus, assim Se assenta nos Apóstolos, assim Se assenta nos pregadores do Evangelho. Até tu, se quiseres, serás um céu. Queres sê-lo? Purga de teu coração a terra. Se não tens cobiças terrenas, e não em vão proferiste a resposta de que "elevaste o teu coração," serás um céu. "Se ressuscitastes com Cristo," diz o Apóstolo aos fiéis, "buscai as coisas do alto, não as coisas da terra." Começaste a pôr teu afeto nas coisas do alto, não nas coisas da terra; não te tornaste um céu? Carregas a carne, e em teu coração já és um céu; pois a tua conversação estará no céu. Sendo tal, também tu anuncias a Cristo; pois quem dentre os fiéis não anuncia a Cristo? ...Portanto, toda a Igreja prega a Cristo, e os céus declaram a Sua justiça; pois todos os fiéis, cujo cuidado é conquistar para Deus os que ainda não creram, e que fazem isto por amor, são céus. Deles Deus troveja o terror do Seu juízo; e aquele que era incrédulo treme, e se alarma, e crê. Ele mostra aos homens quanto poder teve Cristo por todo o mundo, ao interceder junto a eles, e conduzi-los a amar a Cristo. Pois quantos, neste dia, conduziram seus amigos ou a algum pantomimo, ou a algum flautista? Por que, senão pela afeição que lhes têm? E vós, amai a Cristo. Pois Aquele que venceu o mundo exibiu tais espetáculos, que ninguém pode dizer que neles encontra motivo de censura. Pois o favorito de cada um no teatro é ali frequentemente vencido. Mas ninguém é vencido em Cristo: não há razão para vergonha. Tomai, conduzi, atraí a quem puderdes: sede sem temor, estais conduzindo a Ele, que não desagrada aos que O veem; e pedi-Lhe que os ilumine, para que O contemplem com bom proveito.
9. "Confundidos sejam todos os que adoram imagens esculpidas" (v. 7). Não se cumpriu isto? Não foram eles confundidos? Não são diariamente confundidos? Pois imagens esculpidas são imagens feitas pela mão. Por que são confundidos todos os que adoram imagens esculpidas? Porque todos os povos viram a Sua glória. Todas as nações confessam agora a glória de Cristo: envergonhem-se os que adoram pedras. Porque aquelas pedras eram mortas, nós encontramos uma Pedra viva; na verdade, aquelas pedras jamais viveram, de modo que nem sequer podem ser chamadas mortas; mas a nossa Pedra é viva, e sempre viveu com o Pai, e ainda que tenha morrido por nós, reviveu, e vive agora, e a morte não mais terá domínio sobre Ele. Esta Sua glória as nações a reconheceram; deixam os templos, correm às Igrejas. Buscam ainda adorar imagens esculpidas? Não escolheram abandonar os seus ídolos? Foram abandonados pelos seus ídolos. "Que se gloriam em seus ídolos." Mas há certo disputador que a si mesmo se parece erudito, e diz: Eu não adoro aquela pedra, nem aquela imagem que carece de sentido; ...não adoro esta imagem, mas adoro o que vejo, e sirvo a quem não vejo. Quem é esse? Alguma divindade invisível, ele responde, que preside àquela imagem. Ao darem esta explicação de suas imagens, parecem a si mesmos hábeis disputadores, porque não adoram ídolos, e contudo adoram demônios. "As coisas," irmãos, diz o Apóstolo, "que os gentios sacrificam, sacrificam-nas aos demônios, e não a Deus; sabemos que um ídolo nada é: e que o que os gentios sacrificam, sacrificam-no aos demônios, e não a Deus; e eu não quereria que tivésseis comunhão com os demônios." Não se escusem, pois, com este fundamento, de que não são devotados a ídolos insensatos; são antes devotados a demônios, o que é mais perigoso. Pois se estivessem apenas adorando ídolos, como estes não os ajudariam, tampouco os prejudicariam; mas se tu adoras e serves a demônios, eles mesmos serão teus senhores. ...
10. Mas observai os homens santos, que são semelhantes aos Anjos. Quando tiveres encontrado algum homem santo que serve a Deus, se quiseres adorá-lo em lugar de Deus, ele to proibirá: não usurpará para si a honra devida a Deus, não será para ti como Deus, mas estará contigo sob Deus. Assim fizeram os santos Apóstolos Paulo e Barnabé. Pregaram a palavra de Deus na Licaônia. Quando realizaram obras maravilhosas na Licaônia, o povo daquela região trouxe vítimas, e quis sacrificar-lhes, chamando a Barnabé de Júpiter, e a Paulo de Mercúrio: eles não se agradaram disso. Recusaram-se, porventura, a receber o sacrifício por aborrecerem ser comparados a demônios? Não, mas porque estremeceram ao ver que se prestava honra divina a homens. As suas próprias palavras o mostram: não é conjectura nossa; pois o texto do livro prossegue dizendo como foram tocados. ...Assim como, então, homens bons proibiram aqueles que os quiseram adorar como deuses, e antes quiseram que só Deus fosse adorado, só Deus fosse reverenciado, só a Deus se oferecesse sacrifício, e não a si mesmos; assim também todos os santos Anjos buscam a glória Daquele a quem amam; esforçam-se por impelir e incitar à contemplação Dele todos os que amam: a Ele O anunciam, não a si mesmos, visto que são anjos; e porque são soldados, só cuidam de buscar a glória do seu Capitão; mas se buscaram a sua própria glória, são condenados como usurpadores. Tais foram o diabo e os seus anjos; ele reivindicou para si honra divina, e para todos os seus demônios; encheu os templos pagãos, e persuadiu-os a oferecer-lhe imagens e sacrifícios. Não era melhor adorar os santos Anjos do que os demônios? Respondem eles: não adoramos demônios; adoramos anjos, como os chamais, as potestades e os ministros do grande Deus. Quisera eu que os adorásseis: facilmente aprenderíeis deles mesmos a não os adorar. Ouvi um Anjo ensinando. Ensinava ele a um discípulo de Cristo, e lhe mostrava muitas maravilhas no Apocalipse de João: e quando lhe fora mostrada certa visão maravilhosa, ele tremeu, e caiu aos pés do Anjo; mas aquele Anjo, que não buscava senão a glória de Deus, disse: "Guarda-te de o fazeres; pois eu sou conservo teu, e de teus irmãos os profetas." Que, pois, meus irmãos? Ninguém diga: temo que o Anjo se ire comigo, se eu não o adorar como a meu Deus. Ele se ira contigo, então, quando tu o escolheste adorar: pois ele é justo, e ama a Deus. Assim como os demônios se iram se não são adorados, assim os Anjos se iram se são adorados em lugar de Deus. Mas para que o coração fraco e trêmulo não diga porventura a si mesmo: Se, pois, os demônios se indignam por não serem adorados, temo ofendê-los; que pode fazer-te ainda o seu chefe, o diabo? Se ele tivesse algum poder sobre nós, nenhum de nós permaneceria. Não se dizem diariamente tantas coisas contra ele pela boca dos cristãos, e contudo a messe dos cristãos cresce? Quando te iras contra o mais depravado dos teus escravos, dás-lhe o nome de "Satanás", "Diabo". Talvez nisto erres, pois o dizes a um homem, e a tua ira desmedida te precipita a ultrajar a imagem de Deus: e contudo escolhes um termo que profundamente odeias, para lho aplicar. Se ele pudesse, não se vingaria? Mas não lhe é permitido: e ele só faz tanto quanto lhe é permitido. Pois quando quis tentar a Jó, teve de pedir poder para tanto: e nada poderia fazer se não o tivesse recebido. Por que, pois, não adoras sem temor a Deus, sem cuja vontade ninguém te fere, e por cuja permissão és castigado, não vencido? Pois se aprouver ao Senhor teu Deus permitir que algum homem, ou algum espírito, te fira: Ele te castigará, para que clames a Ele: "Confundidos," portanto, "sejam todos os que se comprazem em deuses vãos: adorai-O, todos vós, Seus anjos." Aprendam os pagãos a adorar a Deus: querem adorar Anjos: imitem os Anjos, e adorem Aquele que é adorado pelos Anjos.
11. "Sião ouviu, e se alegrou" (v. 8). Que ouviu Sião? Que todos os Seus Anjos O adoram. ...Pois a Igreja ainda não estava entre os gentios; na Judeia, os judeus, alguns deles haviam crido: e os próprios judeus que criam pensavam que só a eles pertencia Cristo: os Apóstolos foram enviados aos gentios, a Cornélio se pregou; Cornélio creu, foi batizado, e os que estavam com Cornélio foram também batizados. Mas sabeis o que aconteceu, para que fossem batizados: o leitor, na verdade, ainda não chegou a este ponto, mas, contudo, alguns se lembram; e os que não se lembram, ouçam de mim brevemente. O Anjo foi enviado a Cornélio: o Anjo enviou Cornélio a Pedro; Pedro veio a Cornélio. E porque Cornélio e sua casa eram gentios, e incircuncisos: para que não hesitassem em dar o Evangelho aos incircuncisos: antes que Cornélio e sua casa fossem batizados, veio o Espírito Santo, e os encheu, e começaram a falar em línguas. Ora, o Espírito Santo não havia caído sobre ninguém que não tivesse sido batizado: mas sobre estes caiu antes do batismo. Pois Pedro poderia hesitar se devia batizar os incircuncisos: veio o Espírito Santo, começaram a falar em línguas; foi dado o dom invisível, e removeu toda dúvida acerca do Sacramento visível; todos foram batizados. ...Que ouviu Sião, de que se alegrou? Que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus. Um muro havia vindo, mas a pedra angular ainda não existia. O nome Sião é aqui dado particularmente à Igreja que estava na Judeia. "Sião ouviu, e se alegrou: e as filhas de Judá se regozijaram." Assim está escrito: "Os apóstolos e os irmãos que estavam na Judeia ouviram." Vede se as filhas da Judeia não se alegraram. Que ouviram? "Que os gentios também haviam recebido a palavra de Deus." ...Portanto, "As filhas de Judá se regozijaram por causa dos Teus juízos, ó Senhor." Que é, por causa dos Teus juízos? Porque, em qualquer nação, e em qualquer povo, aquele que O serve é aceito por Ele: pois Ele não é o Deus somente dos judeus, mas também dos gentios.
12. Vede se não é esta a razão da alegria das filhas de Judá. "Pois Tu, Senhor, és altíssimo sobre toda a terra" (v. 9). Não somente na Judeia, mas sobre Jerusalém; não somente sobre Sião, mas sobre toda a terra. A esta terra toda prevaleceram os juízos de Deus, de modo que Ele reuniu as suas nações de toda parte: juízos com os quais os que se separaram não têm comunhão: nem ouvem a profecia, nem veem o seu cumprimento; "Pois Tu, Senhor, és altíssimo sobre toda a terra: és exaltado muito acima de todos os deuses." Que é "muito"? Pois isto se diz de Cristo. Que significa, pois, "muito," senão que sejas reconhecido coigual ao Pai? Que significa, "acima de todos os deuses"? Quem são eles? Os ídolos não têm vida, não têm sentido: os demônios têm vida e sentido; mas são maus. Que grande coisa é que Cristo seja exaltado acima dos demônios? Ele é exaltado acima dos demônios: mas nem isto é muito grande; os deuses dos pagãos são, na verdade, demônios, mas "Ele está muito acima de todos os deuses." Até os homens são chamados deuses: "Eu disse: Sois deuses: e todos vós sois filhos do Altíssimo": e ainda está escrito: "Deus Se levanta na congregação dos príncipes: Ele é Juiz entre os deuses." Jesus Cristo, nosso Senhor, é exaltado sobre todos: não somente sobre os ídolos, não somente sobre os demônios; mas sobre todos os homens justos. Nem isto ainda basta; também sobre todos os Anjos: pois de onde vem, senão disto, "Adorai-O, todos vós, deuses"? "Tu és muito exaltado sobre todos os deuses."
1. "Cantai ao Senhor um cântico novo" (v. 1). O homem novo conhece isto, o homem velho não o conhece. O homem velho é a vida velha, e o homem novo, a vida nova: a vida velha deriva de Adão, a vida nova se forma em Cristo. Mas neste Salmo, ordena-se ao mundo inteiro que cante um cântico novo. Mais abertamente, em outro lugar, estão estas palavras: "Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, toda a terra"; para que os que se separam da comunhão de toda a terra entendam que não podem cantar o cântico novo, porque este se canta no todo, e não numa parte dele. Atentai também aqui, e vede que isto é dito. E quando se ordena a toda a terra que cante um cântico novo, quer-se dizer que a paz canta um cântico novo. "Pois Ele fez maravilhas." Que maravilhas? Eis que há pouco se lia o Evangelho, e ouvimos as maravilhas do Senhor. O filho único de sua mãe, que era viúva, era levado morto: o Senhor, movido de compaixão, os fez parar; depuseram-no, e o Senhor disse: "Jovem, a ti digo, levanta-te." ..."O Senhor fez maravilhas." Que maravilhas? Ouvi: "A Sua própria mão direita, e o Seu santo braço, O salvaram." Que é o santo Braço do Senhor? Nosso Senhor Jesus Cristo. Ouvi Isaías: "Quem creu em nosso anúncio, e a quem se revelou o braço do Senhor?" O Seu santo braço, pois, e a Sua própria mão direita, é Ele mesmo. Nosso Senhor Jesus Cristo é, portanto, o braço de Deus, e a mão direita de Deus, e por esta razão se diz, "O salvaram." Não se diz somente, "A Sua mão direita salvou o mundo," mas "O salvaram." Pois muitos são salvos para si mesmos, não para Ele. Vede quantos anseiam por aquela saúde corporal, e a recebem dEle: são curados por Ele, mas não para Ele. Como são curados por Ele, e não para Ele? Quando receberam a saúde, tornam-se dissolutos: os que quando enfermos eram castos, quando curados se tornam adúlteros: os que quando doentes a ninguém prejudicavam, ao recobrarem as forças atacam e esmagam o inocente: são curados, mas não para Ele. Quem é curado para Ele? Aquele que é curado interiormente. Quem é curado interiormente? Aquele que nEle confia, para que, quando tiver sido curado interiormente, reformado em homem novo, depois também esta carne mortal, que ora definha por algum tempo, ao fim recobre ela mesma a sua mais perfeita saúde. Sejamos, pois, curados para Ele. Mas para que sejamos curados para Ele, creiamos na Sua mão direita.
2. "O Senhor fez conhecida a Sua salvação" (v. 2). Esta mesma mão direita, este mesmo braço, esta mesma salvação, é nosso Senhor Jesus Cristo, de quem se diz: "E toda carne verá a salvação de Deus"; de quem também falou aquele Simeão que abraçou o Menino em seus braços: "Senhor, agora deixas Teu servo partir em paz; pois meus olhos viram a Tua salvação." "O Senhor fez conhecida a Sua salvação." A quem a fez conhecida? A uma parte, ou a todos? Não a alguma parte especialmente. Que ninguém traia, ninguém engane, ninguém diga: "Eis que Cristo está aqui, ou ali": o homem que diz, Eis que está aqui, ou ali, aponta para lugares particulares. A quem "o Senhor declarou a Sua salvação"? Ouvi o que se segue: "A Sua justiça manifestou abertamente à vista dos gentios." Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é a mão direita de Deus, o braço de Deus, a salvação de Deus, e a justiça de Deus.
3. "Lembrou-Se da Sua misericórdia para com Jacó, e da Sua verdade para com a casa de Israel" (v. 3). Que significa isto, "Lembrou-Se da Sua misericórdia e verdade"? Ele Se apiedou, de modo que prometeu; porque prometeu e mostrou a Sua misericórdia, a verdade se seguiu: a misericórdia precedeu a promessa, a promessa se cumpriu na verdade. ...
"E a Sua verdade para com a casa de Israel." Quem é este Israel? Para que porventura não penseis em uma só nação dos judeus, ouvi o que se segue: "Todos os confins do mundo viram a salvação do nosso Deus." Não se diz, toda a terra: mas, "todos os confins do mundo": como se diz, de uma extremidade à outra. Ninguém corte isto, ninguém o espalhe; forte é a unidade de Cristo. Aquele que deu tão grande preço, comprou o todo: "Todos os confins do mundo."
4. Porquanto viram, pois, "Aclamai ao Senhor, todas as terras" (v. 4). Já sabeis o que é aclamar. Alegrai-vos, e falai. Se não podeis exprimir vossa alegria, gritai; que o grito manifeste vossa alegria, se a palavra não pode: mas que a alegria não seja muda; que vosso coração não se cale a respeito de seu Deus, que não emudeça acerca de Seus dons. Se falas a ti mesmo, para ti mesmo és curado; se a Sua destra te curou para Ele, fala tu a Ele por quem foste curado. "Cantai, exultai e salmodiai."
5. "Salmodiai ao Senhor com a harpa: com a harpa e a voz do saltério" (v. 5). Louvai-O não somente com a voz; tomai também as obras, para que não apenas canteis, mas também obreis. Aquele que canta e obra, salmodeia com o saltério e sobre a harpa. Vede agora que espécie de instrumentos se menciona em seguida, figuradamente: "Com trombetas dúcteis também, e a voz da trombeta de chifre" (v. 6). Que são as trombetas dúcteis, e as trombetas de chifre? As trombetas dúcteis são de bronze: são estendidas a golpes de martelo; se pelo martelar, pelo serdes batidos, sereis trombetas dúcteis, estendidas para o louvor de Deus, se progredis quando na tribulação: a tribulação é o martelar, o progresso é o ser estendido. Jó foi uma trombeta dúctil, quando subitamente assaltado pelas mais pesadas perdas, e pela morte de seus filhos, feito como que uma trombeta dúctil pelos golpes de tão grave tribulação, ressoou assim: "O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor." Como ressoou ele? Quão agradavelmente ressoa a sua voz? Esta trombeta dúctil ainda está sob o martelo. ...Ouvimos como foi martelado; ouçamos agora como ressoa: ouçamos, se vos apraz, o doce som desta trombeta dúctil: "Quê! Havemos de receber o bem da mão de Deus, e não receberemos o mal?" Ó som corajoso, ó som doce! A quem não despertará do sono esse som? A quem não despertará a confiança em Deus, para marchar ao combate sem temor contra o diabo; não para lutar com as próprias forças, mas com as Daquele que o prova? Pois é Ele quem martela: porquanto o martelo não poderia fazê-lo por si mesmo. ...Vede como (ouso assim falar, meus irmãos) até o Apóstolo foi golpeado com este mesmo martelo: ele diz: "foi-me dado um espinho na carne, o mensageiro de Satanás, para me esbofetear." Eis que está sob o martelo: ouçamos como ele fala disso: "Por esta causa", diz ele, "três vezes roguei ao Senhor que se afastasse de mim. E Ele me disse: A Minha graça te basta: porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." Eu, diz o seu Artífice, quero aperfeiçoar esta trombeta; não posso fazê-lo senão martelando-a; na fraqueza se aperfeiçoa a força. Ouvi agora a própria trombeta dúctil ressoando como convém: "Quando sou fraco, então é que sou forte." ...
6. A voz da trombeta de chifre, que é? O chifre eleva-se acima da carne: ao elevar-se acima da carne, necessariamente há de ser sólido, para durar e poder falar. E donde isto? Porque ultrapassou a carne. Quem deseja ser trombeta de chifre, vença a carne. Que significa isto, vença a carne? Que ultrapasse os desejos, que vença as concupiscências da carne. Ouvi as trombetas de chifre. ...Que significa isto, "Pensai nas coisas de cima"? Significa: Elevai-vos acima da carne, não penseis nas coisas carnais. Ainda não eram trombetas de chifre aqueles a quem ele então assim falava: "Não vos pude falar, irmãos, como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Alimentei-vos com leite, e não com alimento sólido; porque até então não podíeis suportá-lo: nem ainda agora podeis. Pois ainda sois carnais." Não eram, pois, trombetas de chifre, porque não se haviam elevado acima da carne. O chifre tanto adere à carne quanto se eleva acima da carne; e, embora brote da carne, contudo a ultrapassa. Se, portanto, és espiritual, quando antes eras carnal; ainda pisas a terra na carne, mas no espírito te elevas ao céu; pois, ainda que andemos na carne, não militamos segundo a carne. ...Irmãos, não repreendais os irmãos a quem a misericórdia de Deus ainda não converteu; sabei que, enquanto fizerdes isso, tresandais a carne. Não é trombeta a que agrada aos ouvidos de Deus: a trombeta da jactância torna estéril a guerra. Que a trombeta de chifre erga tua coragem contra o diabo; que a trombeta carnal não erga tua soberba contra teu irmão. "Aclamai na presença do Senhor Rei."
7. Enquanto vos alegrais, e vos deleitais com as trombetas dúcteis e a voz do chifre, que se segue? "Agite-se o mar, e a sua plenitude" (v. 7). Irmãos, quando os Apóstolos, como trombetas dúcteis e chifres, pregavam a verdade, o mar se agitou, suas ondas se ergueram, as tempestades aumentaram, sobrevieram as perseguições à Igreja. Donde se agitou o mar? Quando se fez a aclamação, quando se cantavam diante de Deus os Salmos de ação de graças: os ouvidos de Deus se compraziam, as ondas do mar se erguiam. "Agite-se o mar, e a sua plenitude: o mundo, e os que nele habitam." Agite-se o mar em suas perseguições. "Batam as torrentes as palmas" (v. 8). Agite-se o mar, e batam as torrentes as palmas; sobrevenham as perseguições, e alegrem-se os santos em Deus. Donde baterão as torrentes as palmas? Que é bater palmas? É alegrar-se nas obras. Bater palmas é alegrar-se; as mãos significam as obras. Que torrentes? Aquelas que Deus fez torrentes, dando-lhes aquela Água, o Espírito Santo. "Se alguém tem sede", diz Ele, "venha a Mim, e beba. Aquele que crê em Mim, do seu ventre correrão rios de água viva." Estes rios bateram as palmas, estes rios se alegraram nas obras, e bendisseram a Deus. "Exultem juntos os montes."
2. "O Senhor reina, irem-se os povos" (v. 1). Pois o nosso Senhor Jesus Cristo começou a reinar, começou a ser pregado, depois que ressuscitou dos mortos e subiu ao céu, depois que encheu os Seus discípulos da confiança do Espírito Santo, para que não temessem a morte, a qual Ele já havia matado em Si mesmo. Começou então o nosso Senhor Cristo a ser pregado, para que aqueles que desejavam a salvação nEle cressem; e os povos que adoravam ídolos se iraram. Iraram-se os que adoravam aquilo que haviam feito, porque era anunciado Aquele por quem eles foram feitos. Ele mesmo, com efeito, anunciava, por meio de Seus discípulos, a Si próprio, querendo que se convertessem a Ele, por quem foram feitos, e se afastassem daquilo que eles próprios haviam feito. Iravam-se contra o seu Senhor em favor de seus ídolos, eles que, mesmo que se irassem contra o seu escravo por causa de seu ídolo, seriam dignos de condenação. Pois o seu escravo era melhor que o seu ídolo: porque Deus fez o seu escravo, mas o carpinteiro fez o seu ídolo. Tão irados estavam em favor de seu ídolo, que não temiam irar-se contra o seu Senhor. Mas as palavras "irem-se" são predição, não mandamento; pois é em profecia que isto se diz: "O Senhor reina, irem-se os povos." Algum bem resulta até do povo irado: irem-se eles, e em sua ira sejam coroados os Mártires. ...Ouvistes, se prestastes atenção, quando Jeremias foi lido antes da leitura do Apóstolo; nele vistes os tempos em que agora vivemos. Disse ele: "Os deuses que não fizeram os céus e a terra pereçam da terra, e de debaixo do céu." Não disse: Os deuses que não fizeram os céus e a terra pereçam do céu e da terra; porque nunca estiveram no céu: mas que disse ele? "Pereçam da terra, e de debaixo do céu." Como se, repetindo a palavra terra, faltasse a repetição da palavra céu (porque nunca estiveram no céu): repete duas vezes a terra, visto que ela está debaixo do céu. "Pereçam da terra, e de debaixo do céu," de seus templos. Considerai se isto não está agora acontecendo; se, em grande medida, já não aconteceu: pois o que, ou quanto, restou? Os ídolos permaneceram antes nos corações dos pagãos, do que nos nichos dos templos.
3. "Aquele que se assenta entre os querubins:" entendei: "Ele é Rei: agite-se a terra." ...O Querubim é o assento de Deus, como a Escritura nos mostra, certo trono celestial e sublime, que não vemos; mas o Verbo de Deus o conhece, conhece-o como o Seu próprio assento: e o Verbo de Deus e o Espírito de Deus revelaram, Eles mesmos, aos servos de Deus onde Deus se assenta. Não que Deus se assente como se assenta o homem; mas tu, se desejas que Deus se assente em ti, se quiseres ser bom, serás o assento de Deus; pois assim está escrito: "A alma do justo é o assento da sabedoria." Pois trono, em nossa língua, se chama assento. Alguns, versados na língua hebraica, interpretaram querubim, em latim (pois é termo hebraico), pelas palavras plenitude de ciência. Portanto, porque Deus ultrapassa toda ciência, diz-se que Ele se assenta sobre a plenitude da ciência. Haja, pois, em ti plenitude de ciência, e tu mesmo serás o trono de Deus. ...Ele conhece todas as coisas: pois os nossos cabelos estão contados diante de Deus. Mas a plenitude de ciência que Ele quis que o homem conhecesse é outra; a ciência que Ele quis que tivesses pertence à lei de Deus. E quem pode, dir-me-ás talvez, conhecer perfeitamente a Lei, de modo a ter em si a plenitude do conhecimento da Lei, e poder ser o assento de Deus? Não te perturbes; brevemente se te diz o que tens, se desejas ter a plenitude da ciência, e tornar-te o trono de Deus: pois diz o Apóstolo: "O amor é o cumprimento da Lei." Que se segue então? Perdeste toda a tua desculpa. Pergunta ao teu coração; vê se nele há amor. Se ali houver amor, ali está também o cumprimento da Lei; já Deus habita em ti, já te tornaste o trono de Deus. "Irem-se os povos;" que pode o povo irado contra aquele que se tornou o trono de Deus? Atentas para os que se enfurecem contra ti: para Quem é que se assenta dentro de ti, não atentas. Tornaste-te um céu, e temes a terra? Pois a Escritura diz, em outra passagem, que o Senhor nosso Deus declara: "O céu é o Meu trono." Se, portanto, também tu, tendo a plenitude da ciência, e tendo amor, foste feito o trono de Deus, tornaste-te um céu. Pois este céu que contemplamos com estes nossos olhos não é muito precioso diante de Deus. As almas santas são o céu de Deus; as mentes dos Anjos, e todas as mentes de Seus servos, são o céu de Deus.
1. Amados irmãos, já vos deve ser sabido, como filhos da Igreja, e bem instruídos na escola de Cristo por meio de todos os livros de nossos antigos padres, que escreveram as palavras de Deus e as grandes coisas de Deus, que era seu desejo prover ao nosso bem, os que havíamos de viver neste tempo, crentes em Cristo; o qual, em tempo oportuno, veio a nós, na primeira vez, em humildade; na segunda, há de vir destinado à exaltação. ...Pois assim se diz nos Salmos: "A verdade brotará da terra: e a justiça olhará desde o céu." Agora, pois, todo o nosso propósito é, ao ouvirmos um Salmo, um Profeta, ou a Lei, tudo o que foi escrito antes que o nosso Senhor Jesus Cristo viesse em carne, ver ali a Cristo, entender ali a Cristo. Atendei, pois, amados, comigo, a este Salmo, e busquemos nele a Cristo; certamente Ele aparecerá aos que O buscam, Ele que primeiro apareceu aos que não O buscavam; e não desamparará os que O anseiam, Ele que redimiu os que O negligenciavam. Eis que o Salmo começa a respeito dEle: dEle se diz:—
4. "Grande é o Senhor em Sião, e mais alto que todos os povos" (v. 2). ...Aquele de quem te falei como estando acima dos Querubins, é grande em Sião. Pergunta agora, que é Sião? Sabemos que Sião é a cidade de Deus. A cidade de Jerusalém se chama Sião; e assim se chama segundo certa interpretação, porquanto Sião significa vigilância, isto é, visão e contemplação; pois vigiar é olhar adiante, ou contemplar, ou esforçar os olhos para ver. Ora, toda alma é uma Sião, se procura ver aquela luz que há de ser vista. Pois se contemplar uma luz sua própria, escurece-se; se contemplar a dEle, ilumina-se. Mas, agora que está claro que Sião é a cidade de Deus; que é a cidade de Deus, senão a Santa Igreja? Pois os homens que se amam uns aos outros, e que amam ao seu Deus que neles habita, constituem uma cidade para Deus. Porque uma cidade se mantém unida por alguma lei; e a lei deles é o próprio Amor; e esse mesmo Amor é Deus: pois abertamente está escrito, "Deus é Amor." Aquele, pois, que está cheio de Amor, está cheio de Deus; e muitos, cheios de amor, constituem uma cidade cheia de Deus. Essa cidade de Deus se chama Sião; a Igreja, portanto, é Sião. Nela Deus é grande. ...
5. Pensais vós, irmãos, que aqueles cujos instrumentos ecoaram ontem não se irritam com os nossos jejuns? Mas não nos iremos contra eles; antes, jejuemos por eles. Pois o Senhor nosso Deus, que em nós habita, disse — Ele mesmo nos ordenou — que orássemos pelos nossos inimigos, que orássemos pelos que nos perseguem: e, à medida que a Igreja assim faz, os perseguidores quase se extinguem. ...O homem embriagado não ofende a si mesmo, mas ofende ao homem sóbrio. Mostrai-me um homem que, por fim, é feliz em Deus, vive gravemente, suspira por aquela paz eterna que Deus lhe prometeu; e vede que, ao ver um homem dançando ao som de um instrumento, ele se aflige mais por sua loucura, do que por um homem que delira por causa de febre. Se, pois, conhecemos os seus males, considerando que também nós fomos libertados desses mesmos males, choremos por eles; e, se choramos por eles, oremos por eles; e, para que sejamos ouvidos, jejuemos por eles. Pois não guardamos os nossos próprios jejuns nas festas deles. Diferentes são os jejuns que celebramos nos dias da Páscoa que se aproxima, nas diferentes estações que nos são fixadas em Cristo: mas, nas festas deles, jejuamos por esta razão, que, quando eles se alegram, nós gememos por eles. Pois, com sua alegria, eles excitam a nossa dor, e nos fazem lembrar quão infelizes ainda são. Mas, visto que vemos muitos livres dali, onde também nós estivemos, não devemos desesperar nem mesmo deles. E se ainda estão enfurecidos, oremos; e se ainda alguma partícula de terra que tenha restado se agita contra nós, perseveremos em lamentação por eles, para que também a eles Deus conceda entendimento, e para que, conosco, ouçam aquelas palavras nas quais neste momento nos alegramos.
6. Todo esse mesmo povo, sobre o qual Tu és grande em Sião, "Confessem eles ao Teu Nome, que é grande" (v. 3). Pequeno era o Teu Nome quando se enfureciam; tornou-se grande; confessem-no eles agora. Em que sentido dizemos que o Nome de Cristo era pequeno, antes de se difundir tão amplamente? Porque por Seu Nome se entende a Sua fama. Pequeno era o Seu Nome; já se tornou grande. Que nação há que não tenha ouvido o Nome de Cristo? Confesse, pois, agora o povo ao Teu Nome, que é grande, o povo que antes se enfurecia com o Teu Nome pequeno. Por que hão de confessar? Porque é "admirável e santo." O Teu próprio Nome é admirável e santo. Tanto é pregado crucificado, tanto pregado humilhado, tanto pregado julgado, para que venha exaltado, para que venha vivo, para que venha julgar em poder. Poupa Ele, por ora, o povo que O blasfema, porque "a longanimidade de Deus conduz ao arrependimento." Pois Aquele que agora poupa, não poupará sempre: nem deixará de vir julgar Aquele que agora é pregado para ser temido. Ele virá, meus irmãos, Ele virá: temamo-Lo, e vivamos de modo que sejamos achados à Sua direita. Pois Ele virá, e julgará, de modo a colocar alguns à esquerda, alguns à direita. E Ele não age de maneira incerta, a ponto de porventura errar entre os homens, de sorte que aquele que devesse ser posto à direita, seja posto à esquerda; ou que aquele que devesse estar à esquerda, por engano de Deus, esteja à direita: Ele não pode errar, a ponto de colocar o mau onde deveria colocar o bom; nem de colocar o bom, onde deveria ter colocado o mau. Se Ele não pode errar, nós é que erramos, se não temermos; mas, se tivermos temido nesta vida, então não teremos o que temer. "Pois a honra do Rei ama o juízo." ...
7. "Tu preparaste a equidade; Tu operaste juízo e justiça em Jacó." Pois também nós devemos ter juízo, devemos ter justiça; mas Ele opera em nós o juízo e a justiça, Ele que nos criou, para em nós operá-los. Como devemos nós também ter juízo e justiça? Tens juízo, quando distingues o mal do bem: e justiça, quando segues o bem, e te desvias do mal. Distinguindo-os, tens juízo; praticando-os, tens justiça. "Aparta-te do mal," diz ele, "e faze o bem; busca a paz, e segue-a." Deverias primeiro ter juízo, depois justiça. Que juízo? Que primeiro julgues o que é mal, e o que é bem. E que justiça? Que evites o mal, e faças o bem. Mas isto não hás de alcançar de ti mesmo; vede o que ele disse: "Tu operaste juízo e justiça em Jacó."
8. "Engrandecei ao Senhor nosso Deus" (v. 5). Engrandecei-O verdadeiramente, engrandecei-O bem. Louvemo-Lo, engrandeçamo-Lo, Ele que operou a própria justiça que temos; Ele mesmo a operou em nós. Pois quem, senão Aquele que nos justificou, operou em nós a justiça? Pois de Cristo se diz: "que justifica o ímpio." ..."E prostrai-vos diante do Seu escabelo: porque Ele é santo." Diante de que devemos prostrar-nos? Do Seu escabelo. O que está debaixo dos pés se chama escabelo, em grego hypopódion, em latim scabellum ou suppedaneum. Mas considerai, irmãos, diante de que ele nos manda prostrar-nos. Em outra passagem das Escrituras se diz: "O céu é o Meu trono, e a terra é o Meu escabelo." Ordena-nos ele, então, adorar a terra, visto que em outra passagem se diz que ela é o escabelo de Deus? Como, pois, adoraremos a terra, quando a Escritura diz abertamente: "Adorarás o Senhor teu Deus"? Contudo, aqui se diz: "prostrai-vos diante do Seu escabelo:" e, explicando-nos o que é o Seu escabelo, diz: "A terra é o Meu escabelo." Estou em dúvida; temo adorar a terra, para que Aquele que fez o céu e a terra não me condene; por outro lado, temo não adorar o escabelo do meu Senhor, porque o Salmo me ordena: "prostrai-vos diante do Seu escabelo." Pergunto: que é o Seu escabelo? E a Escritura me diz: "a terra é o Meu escabelo." Em hesitação, volto-me para Cristo, pois é a Ele mesmo que aqui busco: e descubro em que sentido a terra pode ser adorada sem impiedade, como o Seu escabelo pode ser adorado sem impiedade. Pois Ele tomou sobre Si terra da terra; porque a carne é da terra, e Ele recebeu a carne da carne de Maria. E porque andou aqui em carne verdadeira, e nos deu essa mesma carne para comermos para a nossa salvação; e ninguém come essa carne, sem primeiro tê-la adorado: descobrimos em que sentido tal escabelo de nosso Senhor pode ser adorado, e não somente que não pecamos ao adorá-lo, mas que pecamos em não o adorar. Mas dá a carne a vida? O próprio Senhor nosso, quando falava em louvor desta mesma carne, disse: "É o Espírito que vivifica, a carne para nada aproveita." ...Mas, quando o nosso Senhor a louvava, falava da Sua própria carne, e havia dito: "Se alguém não comer a Minha carne, não terá vida em si." Alguns de Seus discípulos, cerca de setenta, se escandalizaram, e disseram: "Duro é este dito, quem o pode ouvir?" E voltaram atrás, e não andaram mais com Ele. Pareceu-lhes duro que Ele dissesse: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem, não tereis vida em vós:" receberam-no insensatamente, pensaram-no carnalmente, e imaginaram que o Senhor haveria de cortar partes de Seu corpo, e dar-lhas; e disseram: "Duro é este dito." Duros eram eles, não o dito; pois, se não tivessem sido duros, e não mansos, teriam dito a si mesmos: Ele não diz isto sem razão, mas há de haver aqui algum mistério latente. Teriam permanecido com Ele, abrandados, não endurecidos: e teriam aprendido dEle aquilo que os que ficaram, quando os outros se afastaram, aprenderam. Pois, tendo os doze discípulos permanecido com Ele, na partida dos outros, estes que ficaram lhe sugeriram, como que em pesar pela perda dos primeiros, que estes se haviam escandalizado com Suas palavras, e se voltaram. Mas Ele os instruiu, e lhes disse: "É o Espírito que vivifica, mas a carne para nada aproveita; as palavras que Eu vos falei são espírito e são vida." Entendei espiritualmente o que disse; não haveis de comer este corpo que vedes; nem beber aquele sangue que hão de derramar os que Me hão de crucificar. Recomendei-vos certo mistério; entendido espiritualmente, vivificará. Ainda que seja necessário que isto se celebre visivelmente, contudo há de ser entendido espiritualmente.
3. "Jubilai, pois, ao Senhor, todas as terras" (v. 1). Este Salmo dá-nos esta exortação, que jubilemos ao Senhor. Nem exorta, por assim dizer, um canto particular da terra, ou uma habitação ou congregação de homens; mas, porquanto sabe que semeou bênçãos por todas as partes, por todas as partes exige jubilação. Acaso toda a terra ouve agora minha voz? E, contudo, toda a terra já ouviu esta voz. Toda a terra já jubila no Senhor; e o que ainda não jubila, jubilará. Pois a bênção, estendendo-se por todas as partes, quando a Igreja começava a espalhar-se de Jerusalém por todas as nações, em toda parte derruba a impiedade, e em toda parte edifica a piedade: os bons estão misturados com os maus por todas as terras. Toda terra está cheia dos murmúrios descontentes dos maus, e da jubilação dos bons. Que é, pois, "jubilar"? Pois o título do presente Salmo faz-nos atentar sobretudo a esta palavra, porquanto se intitula "Salmo de confissão". Que significa jubilar com confissão? É o sentimento assim expresso em outro Salmo: "Bem-aventurado o povo que entende a jubilação." Certamente aquilo que, sendo entendido, faz bem-aventurado, é algo grande. Conceda-me, pois, o Senhor nosso Deus, que faz bem-aventurados os homens, entender o que dizer, e conceda-vos entender o que ouvis: "Bem-aventurado o povo que entende a jubilação." Corramos, pois, a esta bem-aventurança, entendamos a jubilação, não a derramemos sem entendimento. De que serve ser jubiloso e obedecer a este Salmo, quando diz: "Jubilai ao Senhor, todas as terras", e não entender o que é a jubilação, de modo que apenas nossa voz jubile, não o nosso coração? Pois o entendimento é a voz do coração.
4. Vou dizer o que já sabeis. Aquele que jubila não profere palavras, mas é um certo som de alegria sem palavras: pois é a expressão de uma mente que se derrama em alegria, exprimindo, na medida do possível, o afeto, mas não abarcando o sentimento. Um homem que se alegra em sua própria exultação, depois de certas palavras que não podem ser proferidas nem entendidas, prorrompe em sons de exultação sem palavras, de modo que parece que ele, de fato, se alegra com a própria voz, mas, como que repleto de excessiva alegria, não pode exprimir em palavras o objeto dessa alegria. ... Os que se ocupam do trabalho nos campos são os mais dados a jubilar; os ceifeiros, ou os vindimadores, ou os que colhem quaisquer frutos da terra, deleitados com a produção abundante, e alegrando-se com a própria riqueza e exuberância do solo, cantam em exultação; e, entre os cantos que proferem com palavras, inserem certos clamores sem palavras, na exultação de uma mente jubilosa; e isto é o que se entende por jubilar. ...
5. Quando, pois, jubilamos? Quando louvamos aquilo que não pode ser proferido. Pois contemplamos toda a criação, a terra e o mar, e todas as coisas que neles há: observamos que cada uma tem suas origens e causas, o poder de produção, a ordem do nascimento, o limite da duração, o fim no perecimento, que as sucessivas idades correm sem nenhuma confusão, que os astros giram, ao que parece, do Oriente para o Ocidente, e completam os cursos dos anos: vemos como se medem os meses, como se estendem as horas; e, em todas essas coisas, certo elemento invisível, não sei qual, mas algum princípio de unidade, que se chama espírito ou alma, presente em todos os seres vivos, impelindo-os à busca do prazer e à fuga da dor, e à preservação de sua própria segurança; que também o homem tem algo em comum com os Anjos de Deus; não com os animais, como a vida, a audição, a visão, e assim por diante; mas algo que pode entender a Deus, o que peculiarmente pertence à mente, que pode distinguir a justiça da injustiça, como o olho discerne o branco do preto. Em toda esta consideração da criação, que percorri como pude, pergunte a alma a si mesma: Quem criou todas estas coisas? Quem as fez? Quem fez, entre elas, a ti mesma? ... Contemplei toda a criação, tanto quanto pude. Contemplei a criação corpórea no céu e na terra, e a espiritual em mim mesmo, que estou falando, que animo meus membros, que exerço a voz, que movo a língua, que pronuncio palavras, e distingo sensações. E quando poderei compreender-me a mim mesmo em mim mesmo? Como, pois, poderei compreender o que está acima de mim mesmo? Contudo, a visão de Deus é prometida ao coração humano, e certa operação de purificação do coração é ordenada; este é o conselho da Escritura. Provê os meios de ver o que amas, antes de tentares vê-lo. Pois a quem não é doce ouvir falar de Deus e de Seu Nome, exceto ao ímpio, que está longe, dele apartado? ...
6. Sê, pois, semelhante a Ele na piedade, e diligente na meditação: pois "as coisas invisíveis d'Ele claramente se veem, sendo entendidas pelas coisas que foram feitas"; olha para as coisas que foram feitas, admira-as, busca o seu autor. Se és dessemelhante, hás de retroceder; se semelhante, hás de alegrar-te. E quando, sendo semelhante a Ele, começares a aproximar-te d'Ele, e a sentir a Deus, quanto mais o amor crescer em ti, visto que Deus é amor, hás de perceber algo que procuravas dizer, e contudo não podias dizer. Antes de sentires a Deus, pensavas que poderias exprimir a Deus; começas a senti-Lo, e então sentes que aquilo que sentes não podes exprimir. Mas quando nisto tiveres achado que aquilo que sentes não pode ser exprimido, ficarás mudo, não louvarás a Deus? Ficarás, pois, silente nos louvores de Deus, e não hás de oferecer ações de graças Àquele que quis fazer-Se conhecido a ti? Louvavas-Lo quando O buscavas; ficarás silente agora que O achaste? De modo algum; não serás ingrato. A Ele é devida honra, a Ele é devida reverência, a Ele é devido grande louvor. Considera-te a ti mesmo, vê
2. O título deste Salmo é: "Salmo de confissão". Os versículos são poucos, mas grávidos de grandes assuntos; frutifique a semente em vossos corações, prepare-se o celeiro para a colheita do Senhor.
1. Ouvistes o Salmo, irmãos, enquanto era cantado: é breve, e não obscuro: como se eu vos houvesse dado a garantia de que não temêsseis o cansaço. ...
10. "Servi ao Senhor com alegria" (v. 2): dirige-se a vós, quem quer que sejais, que tudo suportais no amor, e vos alegrais na esperança. "Servi ao Senhor", não na amargura do murmúrio, mas na "alegria do amor". "Vinde à Sua presença com exultação." É fácil alegrar-se exteriormente: alegra-te diante da presença de Deus. Não seja a língua alegre demais: seja alegre a consciência. "Vinde à Sua presença com um cântico."
11. "Sabei que o Senhor é Deus" (v. 3). Quem não sabe que o Senhor é Deus? Mas fala do Senhor, a quem os homens não julgavam Deus: "Sabei que o Senhor é Deus." Não se torne vil a vossos olhos esse Senhor: vós O crucificastes, O açoitastes, O cuspistes, O coroastes de espinhos, O revestistes com veste de infâmia, O suspendestes na Cruz, O trespassastes com cravos, O ferististes com a lança, colocastes guardas junto ao Seu sepulcro; Ele é Deus. "Foi Ele que nos fez, e não nós a nós mesmos." Foi Ele que nos fez: "e sem Ele nada do que foi feito se fez." Que razão tendes para exultar, que razão tendes para vos orgulhar? Outro vos fez; Aquele mesmo que vos fez padece por vossa causa. Mas vós vos exaltais, e vos gloriais em vós mesmos, como se fôsseis criados por vós mesmos. É bom para vós que Aquele que vos fez, vos aperfeiçoe. ... "Somos o Seu povo, e as ovelhas do Seu pasto." Ovelhas, e uma só ovelha. Estas ovelhas são uma só ovelha: e quão amoroso Pastor temos! Deixou as noventa e nove, e desceu a buscar a uma, e a traz de volta sobre os próprios ombros, resgatada por Seu próprio sangue. Aquele Pastor morre sem temor pela ovelha, Ele que, em Sua ressurreição, recupera Sua ovelha.
12. "Entrai por Suas portas com confissão" (v. 3). Nas portas está o começo: começai pela confissão. Daí se intitula o Salmo "Salmo de Confissão": aí sede jubilosos. Confessai que não fostes feitos por vós mesmos, louvai Aquele por quem fostes feitos. Venha de Ele o teu bem, tu que, apartando-te d'Ele, causaste o teu mal. "Entrai por Suas portas com confissão." Entre o rebanho pelas portas: não permaneça fora, presa dos lobos. E como há de entrar? "Com confissão." Seja a porta, isto é, o começo para ti, a confissão. Donde se diz em outro Salmo: "Começai com confissão ao Senhor." O que ali chama "Começar", aqui chama "Portas". "Entrai por Suas portas em confissão." Quê? E, tendo entrado, não haveremos ainda de confessar? Confessai-O sempre: sempre tens o que confessar. É difícil, nesta vida, que o homem se transforme a tal ponto que nenhuma causa de censura se encontre nele: força é que te culpes a ti mesmo, para que Aquele que há de condenar não te culpe. Portanto, mesmo quando já tiveres entrado em Seus átrios, confessa também então. Quando não haverá mais confissão de pecados? Naquele repouso, naquela semelhança com os Anjos. Mas considerai o que disse: ali não haverá confissão de pecados. Não disse que não haverá confissão: pois haverá confissão de louvor. Sempre confessarás que Ele é Deus, tu, criatura; que Ele é teu Protetor, tu, protegido. N'Ele estarás como que oculto. "Entrai em Seus átrios com hinos; e confessai-Lhe." Confessai nas portas; e, tendo entrado nos átrios, confessai com hinos. Hinos são louvores. Culpa-te a ti mesmo, ao entrares; tendo entrado, louva-O. "Abri-me as portas da justiça", diz em outro Salmo, "para que eu entre por elas, e confesse ao Senhor." Disse ele: tendo entrado, não mais confessarei? Mesmo após sua entrada, ele confessará. Pois que pecados confessou nosso Senhor Jesus Cristo, quando disse: "Eu Te confesso, ó Pai"? Confessou louvando-O, não acusando-Se a Si mesmo. "Falai bem do Seu Nome."
13. "Porque o Senhor é bom" (v. 4). Não penseis que desfaleceis ao louvá-Lo. Vosso louvor a Ele é como alimento: quanto mais O louvardes, mais forças adquirireis, e Aquele a quem louvais Se tornará mais doce ainda. "Sua misericórdia é eterna." Pois Ele não cessará de ser misericordioso, depois de te haver libertado: pertence à Sua misericórdia proteger-te até a vida eterna. "Sua misericórdia", pois, "é para sempre: e Sua verdade de geração em geração" (v. 5). Entendei "de geração em geração" ou como toda geração, ou como duas gerações, uma terrena, outra celestial. Aqui há uma geração que produz mortais; outra que faz os que são eternos. Sua Verdade está tanto aqui quanto lá. Não imagineis que Sua verdade não está aqui; se Sua verdade não estivesse aqui, não diria Ele em outro Salmo: "A verdade brotou da terra"; nem a própria Verdade diria: "Eis que Estou convosco todos os dias, até a consumação do século."
1. Neste Salmo, devemos buscar em todo o seu corpo o que encontramos no primeiro versículo: "Misericórdia e juízo Te cantarei, ó Senhor" (v. 1). Não se lisonjeie ninguém, julgando que jamais será punido pela misericórdia de Deus; pois há também juízo; e não tema o juízo do Senhor aquele que foi transformado para melhor, visto que a misericórdia o precede. Pois, quando os homens julgam, às vezes, vencidos pela misericórdia, agem contra a justiça; e parece haver neles misericórdia, mas não justiça: ao passo que, às vezes, quando querem impor um juízo rígido, perdem a misericórdia. Mas Deus nem perde o rigor do juízo na largueza da misericórdia, nem, julgando com rigor, perde a largueza da misericórdia. Suponhamos que distingamos estas duas coisas, misericórdia e juízo, pelo tempo; pois, possivelmente, não estão postas nesta ordem sem significado, de modo que não disse "juízo e misericórdia", mas "misericórdia e juízo": de sorte que, se as distinguirmos pela sucessão no tempo, talvez achemos que o presente é a estação da misericórdia, o futuro a do juízo. Como é que a estação da misericórdia vem primeiro? Considera primeiro como é com Deus, para que também tu possas imitar o Pai, na medida em que Ele to permitir. ... "Faz nascer o Seu sol sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos." Eis a misericórdia. Quando vires os justos e os injustos contemplarem o mesmo sol, gozarem da mesma luz, beberem das mesmas fontes, saciados pela mesma chuva, abençoados com os mesmos frutos da terra, respirarem este ar do mesmo modo, possuírem igualmente os bens do mundo, não penses que Deus é injusto, por dar estas coisas igualmente a justos e injustos. É a estação da misericórdia, ainda não a do juízo. Pois, se Deus não poupasse primeiro por misericórdia, não encontraria aqueles a quem pudesse coroar pelo juízo. Há, portanto, uma estação para a misericórdia, quando a longanimidade de Deus chama os pecadores ao arrependimento.
2. Ouvi o Apóstolo distinguir cada estação, e distingue-a também tu. ... "Pensas tu", diz ele, "ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, e fazes o mesmo, que hás de escapar ao juízo de Deus?" E, como se lhe respondêssemos: Por que cometo tais pecados diariamente, e nenhum mal me sobrevém? ele passa a mostrar-lhe a estação da misericórdia: "Desprezas tu as riquezas de Sua bondade, e tolerância, e longanimidade?" E, de fato, ele as desprezava; mas o Apóstolo o deixou inquieto. "Ignorando", diz ele, "que a bondade de Deus te conduz ao arrependimento?" Eis a estação da misericórdia. Mas, para que não pensasse que isto duraria para sempre, como, no versículo seguinte, lhe suscitou o temor? Ouvi agora a estação do juízo; ouvistes a estação da misericórdia, por isso "misericórdia e juízo Te cantarei, ó Senhor": "Mas tu", diz o Apóstolo, "segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras para ti mesmo ira para o dia da ira, e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras." Eis "misericórdia e juízo". Mas ameaçou quanto ao juízo: deve, pois, o juízo de Deus ser apenas temido, e não amado? Deve ser temido pelos maus por causa da punição, amado pelos bons por causa da coroa. Porquanto, então, o Apóstolo alarmou os maus no testemunho que citei, ouvi onde dá aos bons esperança quanto ao juízo. Apresenta-se a si mesmo, e mostra também em si a estação da misericórdia. Pois, se ele não houvesse achado um período de misericórdia, em que condição o encontraria o juízo? Um blasfemo, um perseguidor, um injuriador de outros. Pois assim fala, e louva a estação da misericórdia, na qual estação agora vivemos: "Eu, que outrora era", diz ele, "blasfemo, e perseguidor, e injuriador: mas alcancei misericórdia." Mas talvez só ele tenha alcançado misericórdia? Ouvi como nos anima: "Para que em mim", diz ele, "primeiro, Cristo Jesus mostrasse toda a longanimidade, como exemplo para os que haveriam de crer n'Ele para a vida eterna." Que significa "que mostrasse toda a longanimidade"? Que todo pecador e ímpio visse que Paulo recebeu perdão, e não desesperasse de si mesmo? Eis que se apresentou a si mesmo como exemplo, e com isso animou também a outros. ... Mas mereceu Paulo somente isto? Pois eu havia dito que, assim como suscitou nossos temores com o primeiro testemunho, assim também nos animou com o segundo. Quando disse: "O Senhor, justo Juiz, me retribuirá naquele dia", acrescenta: "e não somente a mim, mas também a todos os que amam a Sua vinda" e o Seu reino. Portanto, irmãos, já que temos uma estação de misericórdia, não nos lisonjeemos por isso, nem nos indulgentemos, dizendo: Deus sempre poupa. ...
3. "Cantarei ao som da harpa, e terei entendimento, no caminho imaculado. Quando Vós vierdes a mim" (v. 2). Senão no caminho imaculado, não podes nem cantar ao som da harpa, nem entender. Se desejas entender, canta no caminho imaculado, isto é, trabalha com alegria diante de teu Deus. Que é o caminho imaculado? Ouve o que se segue: "Andei na inocência, no meio de minha casa." Este caminho imaculado começa da inocência, e também termina na inocência. Por que buscar muitas palavras? Sê inocente: e terás aperfeiçoado a justiça. ...Mas quem é inocente? Aquele que, enquanto não prejudica a outrem, não fere a si mesmo. Pois quem fere a si mesmo, não é inocente. Diz alguém: Eis que não roubei a ninguém, não oprimi a ninguém: viverei feliz de minha própria substância, dos frutos de meu virtuoso labor; quero ter belos banquetes, quero gastar quanto me aprouver, beber com quem eu quiser tanto quanto me aprouver; a quem roubei, a quem oprimi, quem se queixou de mim? Parece inocente. Mas se corrompe a si mesmo, se destrói dentro de si o templo de Deus, por que esperar que ele haja com misericórdia para com os outros, e poupe os miseráveis? Pode ser misericordioso para com outros aquele que para consigo mesmo é cruel? Toda a justiça, portanto, reduz-se a uma só palavra: inocência. Mas o amante da iniquidade odeia a própria alma. Quando amou a iniquidade, imaginou que estava prejudicando a outros. Mas considera se estava prejudicando a outros: "Aquele que ama a iniquidade," diz ele, "odeia a própria alma." Aquele, pois, que deseja prejudicar a outro, primeiro prejudica a si mesmo; nem anda, pois não há espaço. Pois toda maldade padece de estreiteza: só a inocência é bastante larga para nela se caminhar. "Andei na inocência de meu coração, no meio de minha casa." Pelo meio de sua casa, ou significa a própria Igreja; pois Cristo anda nela: ou seu próprio coração; pois nossa casa interior é o coração: como ele o explicou nas palavras acima, "na inocência de meu coração." Que é a inocência do coração? O meio de sua casa? Quem quer que tenha nela uma casa má, é lançado para fora. Pois quem quer que seja oprimido dentro de seu coração por uma má consciência, assim como qualquer homem, por causa do transbordamento de uma goteira ou de fumaça, sai de sua casa, não suportando nela habitar; assim aquele que não tem coração tranquilo não pode habitar feliz em seu coração. Tais homens saem de si mesmos na inclinação de sua mente, e deleitam-se com coisas exteriores, que afetam o corpo; buscam repouso em ninharias, em espetáculos, em luxúrias, em todos os males. Por que desejam estar bem por fora? Porque não estão bem por dentro, de modo que possam alegrar-se em boa consciência. ...
4. "Não pus diante de meus olhos coisa iníqua" (v. 3). ...Não amei coisa iníqua alguma. E ele explica essa mesma coisa iníqua: "Odiei os que cometem infidelidade." Atendei, irmãos meus. Se andais com Cristo no meio de sua casa, isto é, se ou em vosso coração tendes um bom repouso, ou na própria Igreja prosseguis em boa jornada no caminho da piedade; não deveis odiar somente os infiéis que estão de fora, mas também quaisquer que tenhais encontrado dentro. Quem são os infiéis? Aqueles que odeiam a lei de Deus; os que a ouvem e não a praticam são chamados infiéis. Odiai os que praticam a infidelidade, repeli-os de vós. Mas deveis odiar os infiéis, não os homens: um homem que é infiel tem, vede, dois nomes, homem e infiel; Deus o fez homem, ele se fez infiel; ama nele o que Deus fez, persegue nele o que ele mesmo fez. Pois quando tiveres perseguido sua infidelidade, matas a obra do homem, e libertas a obra de Deus. "Odiei os que cometem infidelidade."
5. "O coração perverso não se apegou a mim." ...O coração do homem que não deseja coisa alguma contrária ao que Deus deseja, chama-se reto. ...Se, pois, o coração justo segue a Deus, o coração tortuoso resiste a Deus. Suponde que lhe suceda algo adverso, ele clama: "Deus, que Vos fiz eu? Que pecado cometi?" Ele deseja parecer justo, e Deus injusto. Que há de mais tortuoso do que isto? Não basta que sejas tu mesmo tortuoso: precisas ainda julgar tortuosa a Sua regra. Reforma-te, e O encontrarás reto, tu que, ao apartar-te dEle, te fizeste tortuoso. Ele age justamente, tu injustamente; e por esta razão és perverso, pois chamas justo ao homem e injusto a Deus. Que homem chamas justo? A ti mesmo. Pois quando dizes, "Que Vos fiz eu?", te julgas justo. Mas ouça-te Deus responder: "Dizes a verdade: nada Me fizeste: fizeste tudo a ti mesmo; pois se algo tivesses feito por Mim, terias feito o bem. Pois tudo o que é bem feito, é feito a Mim; porque é feito segundo Meu mandamento; mas tudo o que de mal se faz, é feito a ti, não a Mim; pois o ímpio nada faz senão por sua própria causa, visto que não é o que Eu mando." Quando virdes tais homens, irmãos, reprovai-os, convencei-os e corrigi-os: e se não puderdes reprová-los ou corrigi-los, não consintais com eles.
6. "Quando o ímpio se apartou de mim, não o conheci" (v. 4). Não o aprovei, não o louvei, não me agradou. Pois encontramos a palavra "conhecer" empregada algumas vezes na Escritura no sentido de "agradar-se de". Pois que se esconde de Deus, irmãos? Acaso conhece Ele os justos, e não conhece os injustos? Que pensas tu que Ele não conheça? Não digo o que tu pensas; mas o que jamais pensarás, que Ele não tenha previsto? Deus conhece todas as coisas, então; e contudo, ao fim, isto é, no juízo depois da misericórdia, diz Ele de algumas pessoas: "Eu lhes declararei: nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade." Havia alguém que Ele não conhecesse? Mas que significa "nunca vos conheci"? Não vos reconheço em Minha regra. Pois conheço a regra de Minha justiça: vós não concordais com ela, dela vos desviastes, sois tortuosos. Por isso disse Ele também aqui: "Quando o ímpio se apartou de mim, não o conheci." ...Portanto, "quando o ímpio se apartou de mim," isto é, quando o ímpio se fez dessemelhante a mim, e não quis imitar meus caminhos, não quis, em sua maldade, viver como eu me propusera para sua imitação; "não o conheci." Que significa "não o conheci"? Não que eu o ignorasse, mas que não o aprovei.
7. "Ao que às escondidas caluniava seu próximo, a este eu perseguia" (v. 5). Eis o justo perseguidor, não do homem, mas do pecado. "Com o olho soberbo, e o coração insaciável, não me alimentei." Que significa "não me alimentei com"? Não comi em comum com tais homens. Atendei, amados, pois estais para ouvir algo admirável. Se ele não se alimentou com este homem, não comeu com ele; pois alimentar-se é comer; como se explica, então, que encontramos o próprio Senhor comendo com os soberbos? Não foi somente com aqueles publicanos e pecadores, pois estes eram humildes: pois reconheciam sua fraqueza, e pediam o médico. Encontramos que Ele comeu com os próprios fariseus soberbos. Certo homem soberbo O havia convidado: era o mesmo que se desagradou porque uma mulher pecadora, de má fama na cidade, se aproximou dos pés de nosso Senhor. ...Aquele fariseu era soberbo: o Senhor comeu com ele; que é, pois, que Ele diz? "Com tal não comi." Como nos ordena Ele o que Ele mesmo não fez? Ele nos exorta a imitá-Lo: vemos que comeu com os soberbos; como nos proíbe, então, de comer com os soberbos? Nós, na verdade, irmãos, por causa da repreensão, abstemo-nos da comunhão com nossos irmãos, e não comemos com eles, para que se corrijam? Antes comemos com estranhos, com pagãos, do que com aqueles que professam conosco, se vimos que vivem malvadamente, para que se envergonhem e se emendem; como diz o Apóstolo: "E se alguém não obedecer à nossa palavra por esta epístola, notai esse homem, e não vos associeis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão." Por causa da cura de outros costumamos fazer isto; mas, todavia, muitas vezes comemos com muitos estranhos e ímpios.
8. O coração piedoso tem seus banquetes, o coração soberbo tem seus banquetes: pois foi por causa do alimento do coração soberbo que ele disse, "com coração insaciável." Como se alimenta o coração soberbo? Se um homem é soberbo, é invejoso: de outro modo não pode ser. A soberba é mãe da inveja: não pode deixar de gerá-la, e sempre coexiste com ela. Todo soberbo é, portanto, invejoso: se invejoso, alimenta-se das desgraças alheias. Donde diz o Apóstolo: "Mas se vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais consumidos uns pelos outros." Vede-os, pois, comendo: não comais com estes: fugi de tais banquetes: pois não podem saciar-se de regozijar-se nos males alheios, porque seus corações são insaciáveis. Cuidado para que não sejas apanhado em seus festins pelo laço do demônio. ...Assim como as aves se alimentam na armadilha, ou os peixes no anzol, foram tomados quando se alimentavam. Os ímpios, portanto, têm seus próprios festins, e os piedosos também têm os seus. Ouvi os festins dos piedosos: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: porque serão fartos." Se, pois, o piedoso come o alimento da justiça, e o ímpio, o da soberba; não é de admirar que seja insaciável de coração. Ele come o alimento da iniquidade: não comas o alimento da iniquidade, e o soberbo de olhar, e o insaciável de coração, não come contigo.
9. E de onde te alimentavas tu? E que te agradava, quando ele não comia contigo? "Meus olhos," diz ele, "estavam sobre os fiéis da terra, para que se assentassem comigo" (v. 6). Isto é, para que comigo se assentassem. Em que sentido hão de "assentar-se"? "Vós vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel." Os fiéis da terra julgam, pois a eles se diz: "Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?" "Aquele que anda em caminho imaculado, esse me ministrava." A "Mim," diz ele, não a si mesmo. Pois muitos ministram o Evangelho, mas a si mesmos; porque buscam as coisas que são suas, não as coisas de Jesus Cristo. ...
10. "O soberbo não habitou no meio de minha casa" (v. 7). Entendei isto do coração. O soberbo não habitou em meu coração: nenhum tal habitou em meu coração: pois se apressou a fugir de mim. Nenhum, senão o manso e pacífico, habitou em meu coração; o soberbo ali não habitou, pois o injusto não habita no coração do justo. Esteja o justo distante de ti, não sei quantas milhas e estações; habitais juntos, se tendes um só coração. "O que obra com soberba não habitou no meio de minha casa: o que fala coisas injustas não se dirigiu à vista de meus olhos." Este é o caminho imaculado, onde entendemos quando o Senhor vem a nós.
11. "Pela manhã destruí todos os ímpios que havia na terra. Para extirpar da cidade do Senhor todos os que praticam a maldade" (v. 8). Isto é obscuro. Há, pois, malfeitores na cidade do Senhor, e estes, ao que parece, atualmente poupados. Por que assim? Porque é o tempo da misericórdia: mas o do juízo há de vir; pois o Salmo assim começou: "De misericórdia e de juízo cantarei a Vós, ó Senhor." ...
12. Ele agora poupa, então há de julgar. Mas quando julgará? Quando a noite houver passado. Por isto disse Ele: "Pela manhã." Quando o dia enfim houver chegado, passada a noite. Por que os poupa até a aurora? Porque era noite. Que significa, era noite? Porque era o tempo da misericórdia: Ele foi misericordioso, enquanto os corações dos homens estavam ocultos. Vês alguém que vive mal; tu o suportas: pois não sabes de que tipo ele há de mostrar-se; visto que é noite; se aquele que hoje vive mal, amanhã viverá bem; e se aquele que hoje vive bem, amanhã será ímpio. Pois é noite, e Deus suporta a todos os homens, pois é longânimo: suporta-os, para que os pecadores se convertam a Ele. Mas os que não se tiverem emendado naquele tempo de misericórdia, serão mortos. E por quê? Para que sejam dispersos para longe da cidade do Senhor, da comunhão de Jerusalém, da comunhão dos Santos, da comunhão da Igreja. Mas quando serão mortos? "Ao raiar do dia." Que significa "ao raiar do dia"? Quando a noite houver passado. Por que agora poupa? Porque é o tempo da misericórdia. Por que não poupa sempre? Porque, "Misericórdia e juízo cantarei a Vós, ó Senhor." Irmãos, ninguém se lisonjeie: todos os que praticam a iniquidade serão mortos; Cristo os matará ao raiar do dia, e os destruirá de Sua cidade. Mas agora, enquanto é tempo de misericórdia, ouçam-nO. Por toda parte Ele clama pela Lei, pelos Profetas, pelos Salmos, pelas Epístolas, pelos Evangelhos: vede que não Se cala; que poupa; que concede misericórdia; mas cuidado, pois o juízo há de vir.
2. Acrescente Ele, pois, pobreza à pobreza: transfigure para Si nosso humilde corpo: seja Ele nossa Cabeça, sejamos nós Seus membros, sejam dois numa só carne. ...Pois Ele Se dignou a ter até mesmo a nós como Seus membros. Os penitentes também estão entre Seus membros. Pois não são excluídos, nem separados de Sua Igreja: nem faria Ele da Igreja Sua esposa, senão por palavras como estas: "Arrependei-vos, pois o reino dos céus está próximo." Ouçamos, pois, o que ora a cabeça e o corpo, o esposo e a esposa, Cristo e a Igreja, ambos uma só Pessoa; mas o Verbo e a carne não são ambos uma só coisa; o Pai e o Verbo são ambos uma só coisa; Cristo e a Igreja são ambos uma só Pessoa, um homem perfeito na forma de sua própria plenitude. ...Ouçamos, pois, a Cristo, pobre em nós e conosco, e por causa de nós. Pois o próprio título indica o pobre. Por fim, lembrai-vos de que conjecturei quem era aquele pobre: ouçamos Sua oração, e reconheçamos Sua Pessoa; e não vos enganeis, quando tiverdes ouvido algo que não se possa aplicar à Sua Cabeça; foi por esta razão que prefaciei como o fiz, para que tudo o que ouvirdes desta descrição, entendais como soando da fraqueza do corpo, e reconheçais a voz dos membros na cabeça. O título é: "Oração do aflito, quando estava atormentado, e derramou sua oração diante do Senhor." É o mesmo pobre que em outro lugar diz: "Desde os confins da terra clamarei a Vós, quando meu coração estiver em angústia." Ele está aflito porque também é Cristo; que, nas palavras do Profeta, chama a Si mesmo tanto Esposo quanto Esposa: "Cingiu-me com o diadema como a um esposo, e como a uma esposa me ornou com um ornamento." Chamou-Se Esposo, chamou-Se Esposa; por que isto, senão porque Esposo se aplica à Cabeça, Esposa ao corpo? São, pois, uma só voz, porque são uma só carne. Ouçamos, e reconheçamo-nos nestas palavras; e se virmos que estamos de fora, esforcemo-nos por estar ali.
Eis que um pobre ora, e não ora em silêncio. Podemos, pois, ouvi-lo, e ver quem ele é: se não seria, porventura, Aquele de quem o Apóstolo diz: "Sendo rico, por vós se fez pobre, para que vós fôsseis enriquecidos pela sua pobreza." Se é Ele, pois, como é pobre? Pois em que sentido é rico, quem não o vê? Que coisa, então, é mais rica do que Ele, por quem foram feitas as riquezas, mesmo aquelas que não são as verdadeiras riquezas? Pois por meio dEle temos ainda estas riquezas: a capacidade, a memória, o caráter, a saúde do corpo, os sentidos e a conformação de nossos membros; pois, quando estas se conservam íntegras, até o pobre é rico. Por meio dEle são também aquelas riquezas maiores: a fé, a piedade, a justiça, a caridade, a castidade, a boa conduta; pois ninguém as possui senão por meio dAquele que justifica o ímpio. ...Eis quão rico! Em um tão rico, como reconhecer estas palavras: "Comi cinza como pão, e misturei minha bebida com lágrimas"? Terão chegado a isto tantas e tão grandes riquezas? O primeiro estado é sobremaneira elevado; este é sobremaneira humilde. ...Ainda assim, examina se este pobre é Ele; pois "o Verbo se fez carne e habitou entre nós." Considera também estas palavras: "Eu sou teu servo, e filho de tua serva." Observa esta serva, casta, virgem e mãe; pois ali Ele recebeu nossa pobreza, quando se revestiu da forma de servo, esvaziando-se a Si mesmo, para que não temesses as suas riquezas e, em teu estado de mendicidade, não ousasses aproximar-te dEle. Ali, digo, Ele revestiu a forma de servo, ali se cobriu de nossa pobreza; ali Se fez pobre, e a nós ricos. Já começamos a compreender estas coisas a respeito dEle; contudo, não devemos ainda pronunciar-nos precipitadamente. ...
3. "Ouve a minha oração, Senhor, e chegue a ti o meu clamor" (v. 1). "Ouve a minha oração, Senhor" é o mesmo que "chegue a ti o meu clamor": o sentimento do suplicante manifesta-se pela repetição. "Não desvies de mim a tua face." Quando desviou Deus a sua face de seu Filho? Quando desviou o Pai a sua face de Cristo? Mas, por causa da pobreza dos meus membros: "Não desvies de mim a tua face; no dia em que estiver angustiado, inclina a mim o teu ouvido" (v. 2). ...Tu estás em tribulação hoje, eu estou em tribulação; outro estará em tribulação amanhã, eu estou em tribulação; depois desta geração, outros descendentes, que sucederem aos vossos descendentes, estarão em tribulação, eu estou em tribulação; até o fim do mundo, todos quantos estiverem em tribulação em meu corpo, eu estou em tribulação. ...Pedro orou, Paulo orou, os demais Apóstolos oraram; os fiéis oraram naqueles tempos, os fiéis oraram nos tempos seguintes, os fiéis oraram nos tempos dos Mártires, os fiéis oram em nossos tempos, os fiéis orarão nos tempos de nossos descendentes. "Bem depressa": pois agora peço aquilo que estás disposto a conceder. Não peço coisas terrenas, como homem terreno; mas, resgatado enfim de meu antigo cativeiro, anelo pelo reino dos céus; "ouve-me bem depressa": pois é somente a tal anelo que dissestes: "Ainda estarás falando, e eu direi: Eis-me aqui." Por que clamas? Em que tribulação? Em que necessidade? Ó pobre, diante da porta de Deus todo-rico, com que anelo suplicas? De que destituição pedes alívio? De que necessidade bates, para que se te abra?
4. "Pois os meus dias se consomem como fumaça" (v. 3). Ó dias! Se dias: pois onde se ouve falar de dia, entende-se a luz. "Meus dias", meus tempos; por que, pois, "como fumaça", senão pela inchação da soberba? ...Vede a fumaça, como a soberba, subir, inchar-se, dissipar-se: por merecimento, pois, falha, e não é estável. "E os meus ossos se queimaram como em uma fornalha." Tanto os meus ossos quanto a minha força, não sem tribulação, não sem ardor. Os ossos do corpo de Cristo, a força do seu corpo, existe em algum lugar maior do que nos santos Apóstolos? E, contudo, vede que os ossos se queimam. "Quem se escandaliza, sem que eu me abrase?" Eles são corajosos, fiéis, hábeis intérpretes e pregadores da palavra, vivendo como falam, falando como ouvem; são manifestamente corajosos, e, no entanto, todos os que padecem escândalos são para eles uma fornalha. Pois ali há caridade, e mais ainda nos ossos. Os ossos estão no interior de toda a carne, e sustentam toda a carne. Mas, se alguém padece algum escândalo, e põe em risco a sua alma, o osso se queima na proporção em que ama. ...
5. Olhai para trás, para Adão, de onde procedeu o gênero humano. Pois de onde, senão dele, foi propagada a miséria? De onde, senão dele, vem esta pobreza hereditária? Que diga, pois, com esperança, aquele que em seu próprio corpo esteve outrora em desespero, agora que está estabelecido no corpo de Cristo: "O meu coração foi ferido, e se secou como a erva" (v. 4). Com merecimento, pois toda carne é erva. Mas como te sucedeu isto? "Porque me esqueci de comer o meu pão." Pois Deus dera o seu mandamento acerca do pão. Que é, pois, o pão da alma? Sugerindo a serpente, e transgredindo a mulher, ele tocou o fruto proibido, esqueceu-se do mandamento: seu coração foi ferido como merecia, e secou-se como a erva, pois se esqueceu de comer o seu pão. Havendo-se esquecido de comer o pão, bebe veneno: seu coração é ferido, e se seca como a erva. ...Come agora aquele pão que te havias esquecido. Mas este mesmo Pão veio, em cujo corpo podes recordar a voz do teu esquecimento, e clamar em tua pobreza, para que recebas riquezas. Come agora, pois estás em seu corpo, Ele que diz: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu." Havias-te esquecido de comer o teu pão; mas, depois de sua crucifixão, "todos os confins da terra se recordarão, e se converterão ao Senhor." Depois do esquecimento, venha a recordação, coma-se o pão que vem do céu, para que vivamos; não o maná, como aqueles que comeram e morreram; aquele pão, do qual se diz: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça."
6. "Por causa da voz do meu gemido, os meus ossos se colaram à minha carne" (v. 5). Pois muitos gemem, e eu também gemo; e até por isto gemo, porque eles gemem por causa errada. Aquele homem perdeu uma moeda, e geme; perdeu a fé, e não geme: eu peso a moeda e a fé, e acho maior razão de gemer por aquele que não geme como deveria, ou que de todo não geme. Ele comete fraude, e se alegra. Com que ganho, com que perda? Ganhou dinheiro, perdeu a justiça. Por esta última razão, aquele que sabe gemer, geme; aquele que está próximo à cabeça, que justamente se apega ao corpo de Cristo, geme por esta razão. Mas os carnais não gemem por esta razão, e fazem com que se gema por eles, precisamente porque não gemem por esta razão; nem podemos desprezá-los, quer não gemam de todo, quer gemam por causa errada. Pois queremos corrigi-los, queremos emendá-los, queremos reformá-los, e, quando não podemos, gememos; e, ao gemermos, não estamos separados deles. ...
7. "Fiz-me semelhante ao pelicano no deserto, e como a coruja entre as ruínas" (v. 6). Eis três aves e três lugares: o pelicano, a coruja e o pardal; e os três lugares são, respectivamente, o deserto, as ruínas e o telhado. O pelicano no deserto, a coruja nas ruínas, e o pardal no telhado. Em primeiro lugar, devemos explicar o que significa o pelicano, visto que nasce numa região que o torna desconhecido para nós. Nasce em lugares solitários, especialmente os do rio Nilo, no Egito. Seja qual for o tipo de ave que seja, consideremos o que o Salmo quis dizer a seu respeito. "Habita", diz, "no deserto." Por que indagar de sua forma, de seus membros, de sua voz, de seus hábitos? Pelo que o Salmo te informa, é uma ave que habita na solidão. A coruja é uma ave que ama a noite. As parietinae, ou ruínas, como as chamamos, são muros que permanecem em pé sem teto, sem habitantes; estas são a habitação da coruja. E, quanto ao telhado e aos pardais, já os conheceis bem. Encontro, pois, algum membro do corpo de Cristo, pregador da palavra, compadecido dos fracos, buscando os ganhos de Cristo, lembrado de seu Senhor que há de vir. Vejamos estas três coisas a partir do ofício de seu administrador. Terá tal homem chegado entre os que não são cristãos? É um pelicano no deserto. Terá chegado entre os que foram cristãos e recaíram? É uma coruja nas ruínas; pois não abandona sequer as trevas dos que habitam na noite, quer ganhá-los também a eles. Terá chegado entre os que são cristãos, habitando numa casa, não como se não cressem, ou como se tivessem abandonado o que criam, mas caminhando mornamente naquilo que creem? O pardal clama a estes, não no deserto, porque são cristãos; nem nas ruínas, porque não recaíram; mas porque estão sob o teto; antes, sob o teto, porque estão sob a carne. O pardal, acima da carne, clama, não emudece os mandamentos de Deus, nem se torna carnal, a ponto de submeter-se ao teto. "O que ouvis ao ouvido, isso pregai sobre os telhados." Há três aves e três lugares; e um só homem pode representar as três aves, e três homens podem representar respectivamente as três aves; e os três tipos de lugares são três classes de homens: contudo, o deserto, as ruínas e o telhado são apenas três classes de homens.
8. ...Não passemos por alto o que se diz, ou mesmo se lê, acerca desta ave, isto é, do pelicano; não afirmando nada precipitadamente, mas também não deixando de considerar o que foi legado para ser lido e proferido por aqueles que o escreveram. Ouvi de tal modo que, se for verdadeiro, possa concordar; se falso, não se sustente. Diz-se que estas aves matam os seus filhotes a bicadas, e que, por três dias, os pranteiam depois de mortos por elas mesmas no ninho; após o que dizem que a mãe se fere profundamente, e derrama o seu sangue sobre os filhotes, os quais, banhados nele, recuperam a vida. Isto pode ser verdadeiro, pode ser falso; contudo, se for verdadeiro, vede como concorda com Aquele que nos deu a vida por seu sangue. Concorda com Ele em que a carne da mãe recorda à vida os seus filhotes com o seu sangue; concorda bem. Pois Ele se chama a Si mesmo galinha que aquece os seus pintos sob as asas. ...Se, pois, assim é verdadeiramente, esta ave assemelha-se de perto à carne de Cristo, por cujo sangue fomos chamados à vida. Mas como pode concordar com Cristo o fato de a própria ave matar os seus filhotes? Não concorda isto com aquilo: "Eu matarei, e farei viver; ferirei, e sararei"? Acaso teria morrido o perseguidor Saulo, se não fosse ferido do céu; ou teria sido erguido o pregador, senão pela vida que lhe foi dada por seu sangue? Mas que aqueles que escreveram sobre o assunto respondam por isso; não devemos deixar que o nosso entendimento repouse sobre terreno duvidoso. Reconheçamos antes esta ave no deserto; como o Salmo o exprime: "Um pelicano na solidão." Suponho que aqui se signifique Cristo, nascido de uma Virgem. Nasceu em solidão, porque só Ele assim nasceu. Depois do nascimento, chegamos à sua Paixão. ...Nascido no deserto, porque só assim nasceu; padecendo nas trevas dos judeus como que na noite, em seu pecado, como que em ruínas: que se segue? "Vigiei", e "fiz-me como o pardal, que habita solitário sobre o telhado" (v. 7). Tu, pois, havias dormido em meio às ruínas, e dissera: "Deitei-me, e dormi." Que significa "dormi"? Porque quis, dormi: dormi por amor da noite; mas segue-se: "Ressuscitei." Por isso se diz aqui: "Vigiei." Mas, depois que vigiou, que fez? Subiu ao céu, fez-se como o pardal ao voar, isto é, ao ascender; "solitário sobre o telhado", isto é, no céu. É, portanto, como o pelicano pelo nascimento, como a coruja pela morte, como o pardal pela nova ascensão: ali, no deserto, como alguém só; aqui, nas ruínas, como alguém morto por aqueles que não podiam permanecer de pé no edifício; e aqui de novo, vigiando e voando por nossa causa, solitário sobre o telhado, ali intercede em nosso favor. Pois a nossa Cabeça é como o pardal, e o seu corpo como a rola. "Pois o pardal encontrou para si uma casa." Que casa? No céu, onde Ele medeia por nós. "E a rola, um ninho", a Igreja de Deus encontrou um ninho na madeira de sua Cruz, onde "ponha os seus filhotes", os seus filhos.
9. "Os meus inimigos me insultam todo o dia, e os que me louvavam juraram-se contra mim" (v. 8). Com a boca me louvavam, no coração me armavam ciladas. Ouvi o seu louvor: "Mestre, sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, e não te importas com ninguém. É lícito dar tributo a César, ou não?" E de onde vem esta má fama, senão porque vim fazer dos pecadores meus membros, para que, pelo arrependimento, estejam em meu corpo? Daí toda a calúnia, daí a perseguição. "Por que come o vosso Mestre com publicanos e pecadores? Os sãos não necessitam de médico, mas sim os enfermos." Prouvera a Deus que estivésseis cientes de vossa enfermidade, para que buscásseis um médico; não o matarieis, e, por vossa soberba insensata, não pereceríeis numa falsa saúde.
10. "Comi cinza como pão, e misturei minha bebida com pranto" (v. 9). Porque Ele quis ter entre os Seus membros esta espécie de homens, para que fossem curados e libertados, dali vem a má fama. Ora, hoje em dia, qual é o caráter da calúnia pagã contra nós? Que julgais vós, irmãos, que nos dizem eles? Corrompeis a disciplina e pervertais a moralidade do gênero humano. Por que nos atacas, dize por quê? Que fizemos nós? Ao dar, replica ele, aos homens espaço para o arrependimento, prometendo impunidade para todos os pecados: por esta razão os homens praticam más ações, descuidados das consequências, porque tudo lhes é perdoado, quando se convertem. ...E que será de ti, homem miserável, se não houver porto de impunidade? Se houver apenas licença para pecar, e nenhum perdão para os pecados, onde estarás, para onde irás? Certamente também para ti aconteceu que aquele aflito comeu cinza como pão, e misturou sua bebida com pranto. Não te agrada agora tal banquete? Mas, contudo, replica ele, os homens acrescentam pecados sobre pecados na esperança do perdão. Não, antes os acrescentariam se desesperassem do perdão. Não observas em que licenciosa crueldade vivem os gladiadores? De onde vem isto, senão de que, destinados à espada e ao sacrifício, escolhem saciar sua luxúria, antes de derramar seu sangue? Não falarias tu também assim a ti mesmo? Já sou pecador, já sou homem injusto, já destinado à condenação, esperança de perdão não há nenhuma: por que não faria eu tudo o que me apraz, ainda que não seja lícito? Por que não realizar, tanto quanto puder, quaisquer desejos que eu tenha, se, depois destes, nada além de tormentos me espera? Não falarias tu assim a ti mesmo, e deste mesmo desespero te tornarias ainda pior? Antes disto, pois, Aquele que promete o perdão te corrige, dizendo: "Vivo Eu, diz o Senhor, não tenho prazer na morte do ímpio; mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva." ...Pois, para que os homens não vivessem pior por desespero, Ele prometeu um porto de perdão; e novamente, para que não vivessem pior pela esperança do perdão, tornou incerto o dia da morte: fixando ambos com suprema providência, tanto como refúgio para o que retorna, quanto como terror para o que se demora. Come cinza como pão, e mistura tua bebida com pranto; por meio deste banquete alcançarás a mesa de Deus. Não desesperes; o perdão te foi prometido. Graças sejam dadas a Deus, diz ele, porque está prometido; eu me apego à promessa de Deus. Vive, pois, agora bem. Amanhã, replica ele, viverei bem. Deus prometeu o perdão; ninguém te prometeu o amanhã. ...
11. "E isto por causa de tua indignação e ira: porque me levantaste, e me lançaste por terra" (v. 10). Esta é a Tua ira, ó Senhor, em Adão: aquela ira em que todos nós nascemos, que se apega a nós por nosso nascimento; a ira originada da estirpe da iniquidade, a ira originada da massa do pecado: segundo o que diz o Apóstolo, "Também nós fomos outrora filhos da ira, como os demais." Pois não diz que a ira de Deus virá sobre ele: mas, "permanece sobre ele:" porque aquela ira em que nasceu não lhe é retirada. ...O homem, constituído em honra, é feito à imagem de Deus: elevado a esta honra, erguido do pó, da terra, recebeu uma alma racional; pela vivacidade desta mesma razão, é posto acima de todos os animais, gado, aves que voam, e peixes. Pois qual destes tem razão para entender? Porque nenhum deles é criado à imagem de Deus. ...Portanto, "Porque me levantaste, me lançaste por terra:" a punição me segue, porque me deste livre escolha. Pois se não me tivesses dado livre escolha, e por esta razão não me tivesses feito melhor que o gado, justa condenação não me seguiria quando eu pecasse. Assim me levantaste, dando-me liberdade de escolha, e pelo Teu julgamento me lançaste por terra.
12. "Meus dias declinaram como sombra" (v. 11). ...Ele havia dito acima, "Meus dias se consomem como fumaça;" e agora diz, "Meus dias declinaram como sombra." Nesta sombra, o dia deve ser reconhecido; nesta sombra, a luz deve ser discernida; para que depois não se diga, em tardio e infrutuoso arrependimento, "De que nos aproveitou a soberba? ou que bem nos trouxe a riqueza com nossa jactância? Todas essas coisas passaram como sombra." Dize agora, nesta hora, todas as coisas passarão como sombra, e tu não hás de passar como sombra. "Meus dias declinaram como sombra, e eu me sequei como erva." Pois havia dito acima, "meu coração está ferido, e me sequei como erva." Mas a erva orvalhada pelo sangue do Salvador há de florescer de novo. "Sequei-me como erva;" eu, isto é, o homem, depois daquela desobediência; isto sofri por Teu justo julgamento: mas que és Tu?
13. Pois não porque eu caí, envelheceste Tu: pois Tu és forte para me libertar, Tu que foste forte para me humilhar. "Mas Tu, ó Senhor, permaneces para sempre: e Tua memória por todas as gerações" (v. 12). "Tua memória," porque Tu não Te esqueces: "por todas as gerações," visto que conhecemos a promessa da vida, tanto presente quanto futura.
14. "Tu Te levantarás, e terás misericórdia de Sião: pois é tempo de Te compadeceres dela" (v. 13). Que tempo? "Mas, quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei." E onde está Sião? "Para redimir os que estavam sob a Lei." Primeiro, pois, foram os judeus: pois dali vieram os Apóstolos, dali aqueles mais de quinhentos irmãos, dali aquela multidão posterior, que tinha um só coração e uma só alma para com Deus. Portanto, "chegou o tempo." Que tempo? "Eis que agora é o tempo aceitável: eis que agora é o dia da salvação." Quem diz isto? Aquele Servo de Deus, aquele Construtor, que disse, "Vós sois o edifício de Deus."
15. Aqui, pois, que diz ele? "Porque os teus servos se comprazem nas suas pedras" (v. 14). Nas pedras de quem? Nas pedras de Sião? Mas há ali aqueles que não são pedras. Não pedras de quê? Que segue então? "e se compadecem do seu pó." Entendo pelas pedras de Sião todos os Profetas: dali foi enviada a voz da pregação, dali assumido o ministério do Evangelho, por sua pregação Cristo se fez conhecido. Portanto, os teus servos se compraziam nas pedras de Sião. Mas aqueles ímpios apóstatas de Deus, que ofenderam seu Criador por suas más ações, retornaram à terra, de onde foram tomados. Tornaram-se pó, tornaram-se ímpios. Mas espera, Senhor; suporta-nos, Senhor; sê longânimo, ó Senhor: não deixes que o vento se precipite, e varra este pó da face da terra. Que venham os teus servos, que venham, que reconheçam nas pedras a Tua voz, que se compadeçam do pó de Sião, que sejam formados à Tua imagem: que o pó diga, para que não pereça, "Lembra-te de que somos pó." Este de Sião: não era pó aquele que crucificou o Senhor? O que é pior, era pó das muralhas arruinadas; totalmente pó era, mas contudo não foi em vão dito acerca deste pó, "Pai, perdoa-lhes." Deste mesmo pó surgiu uma muralha de tantos milhares que creram, e que depositaram o preço de suas posses aos pés dos Apóstolos. Daquele pó, pois, ergueu-se uma natureza humana formada e bela. Quem entre os pagãos assim agiu? Quão poucos são aqueles que admiramos por terem feito assim, comparados aos muitos milhares destes convertidos? A princípio, subitamente três, depois cinco mil; todos vivendo em unidade, todos depositando o preço de suas posses, quando as tinham vendido, aos pés dos Apóstolos, para que fosse distribuído a cada um, conforme cada um tinha necessidade, tendo uma só alma e um só coração para com Deus. Quem fez isto até mesmo deste mesmo pó, senão Aquele que criou o próprio Adão do pó? Isto, pois, é acerca de Sião, mas não somente em Sião.
16. "Os pagãos temerão o Teu Nome, ó Senhor; e todos os reis da terra a Tua Majestade" (v. 15). Agora que Te compadeceste de Sião, agora que os Teus servos se compraziam nas suas pedras, reconhecendo o fundamento dos Apóstolos e Profetas; agora que se compadeceram de seu pó; de modo que o homem é formado, ou antes, reformado, em vida a partir do pó; daí a pregação cresceu entre os pagãos: que os pagãos temam o Teu Nome, que outra muralha se aproxime também dos pagãos, que a Pedra Angular seja reconhecida, que os dois que vêm de regiões diferentes, mas que já não diferem na fé, se encontrem em estreita união.
17. "Porque o Senhor edificará Sião" (v. 16). Esta obra está em curso agora. Ó pedras vivas, correi para a obra da edificação, não para a ruína. Sião está em construção, guardai-vos das muralhas arruinadas: a torre está sendo construída, a arca está em construção; lembrai-vos do dilúvio. Esta obra está em progresso agora; mas quando Sião for edificada, o que acontecerá? "E Ele aparecerá em Sua glória." Para que edificasse Sião, para que fosse fundamento em Sião, foi visto por Sião, mas não em Sua glória: "nós O vimos, e Ele não tinha forma nem formosura." Mas verdadeiramente, quando Ele houver vindo com Seus anjos para julgar, não olharão então para Aquele a quem traspassaram? E serão confundidos, tarde demais, aqueles que recusaram a confusão no arrependimento precoce e salutar.
18. "Ele Se voltou para a oração dos pobres desamparados, e não desprezou o seu desejo" (v. 17). Isto se realiza agora na edificação de Sião: os construtores de Sião oram, gemem: Ele é o único pobre, porque os pobres são muitos; porque os milhares dentre tantas nações são um só n'Ele, porque Ele é a unidade da paz da Igreja, Ele é um, Ele é muitos: um, pelo amor; muitos, por causa de Sua extensão. Portanto, oremos agora, corramos agora: agora, se algum homem costumava ser diferente, e viveu de outro modo, coma cinza como se fosse pão, e misture sua bebida com lágrimas. Agora é o tempo, quando Sião está sendo edificada: agora as pedras estão entrando na estrutura: quando o edifício estiver concluído, e a casa dedicada, por que correrás, para perguntar quando já for tarde demais, para suplicar em vão, para bater à porta sem proveito, condenado a permanecer fora com as cinco virgens néscias? Portanto, corre agora.
19. "Que estas coisas sejam escritas para os que hão de vir" (v. 18). Quando estas palavras foram escritas, não aproveitaram tanto àqueles entre os quais foram escritas, pois foram escritas para profetizar o Novo Testamento, entre homens que viviam segundo o Antigo Testamento. Mas Deus tanto dera aquele Antigo Testamento, como estabelecera naquela terra de promissão o Seu próprio povo. Mas visto que "a Tua memória é de geração em geração", não pertence aos ímpios, mas aos justos; "em nossa geração" pertence ao Antigo Testamento; ao passo que "na outra geração" pertence ao Novo Testamento; e visto que o Novo Testamento anuncia isto que fora profetizado: "Que estas coisas sejam escritas para os que hão de vir: e o povo que há de ser criado louvará ao Senhor." Não o povo que é criado, mas "o povo que há de ser criado". Que coisa mais clara, meus irmãos? Aqui está profetizada aquela criação da qual o Apóstolo diz: "Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram; eis que tudo se fez novo." "Porque Ele olhou desde o Seu excelso santuário." Ele olhou do alto, para que viesse aos humildes: do alto Ele Se fez humilde, para que exaltasse os humildes. ...
20. "Desde o céu olhou o Senhor para a terra" (v. 19): "para que ouvisse os gemidos dos que estão em grilhões, e libertasse os filhos dos que são entregues à morte" (v. 20). Encontramos dito em outro Salmo: "Que os suspiros dolorosos dos presos cheguem diante de Ti"; e numa passagem em que se entendia a voz dos mártires. De onde vêm os mártires em grilhões? ...Mas Deus os havia atado com estes grilhões, duros por certo e penosos por um tempo, mas suportáveis por causa de Suas promessas, a quem se diz: "Por causa das palavras de Teus lábios, guardei caminhos árduos." Devemos, sem dúvida, gemer nestes grilhões, a fim de alcançar a misericórdia de Deus. Estes grilhões não devem ser evitados, a fim de alcançar uma liberdade destrutiva e o prazer temporal e breve desta vida, ao qual há de seguir-se uma amargura perpétua. Assim, a Escritura, para que não recusemos os grilhões da sabedoria, assim nos fala: "... Então os seus grilhões serão para ti forte defesa, e suas cadeias, um manto de glória." Clamem, pois, os presos, enquanto estiverem nas cadeias da disciplina de Deus, na qual os mártires foram provados: os grilhões serão soltos, e eles voarão, e estes mesmos grilhões serão depois transformados em ornamento. Isto aconteceu com os mártires. Pois que conseguiram os perseguidores, matando-os, senão que seus grilhões fossem assim soltos, e transformados em coroas? ...A remissão dos pecados é o soltar. Pois de que teria aproveitado a Lázaro sair do sepulcro, se não se lhe dissesse: "soltai-o, e deixai-o ir"? Ele mesmo com Sua voz o despertou do sepulcro, Ele mesmo lhe restituiu a vida clamando-lhe, Ele mesmo venceu a massa de terra que estava amontoada sobre o sepulcro, e ele saiu atado de pés e mãos: não, portanto, com seus próprios pés, mas pelo poder d'Aquele que o tirou. Isto se dá no coração do penitente: quando ouves que um homem se arrepende de seus pecados, ele já voltou à vida; quando o ouves, confessando, expor sua consciência, ele já foi tirado do sepulcro, mas ainda não está solto. Quando é solto, e por quem é solto? "Tudo o que ligares na terra", diz Ele, "será ligado no Céu" — e, inversamente, o que soltares. O perdão dos pecados pode ser justamente concedido pela Igreja: mas o próprio morto não pode ser despertado senão pelo Senhor clamando dentro dele; pois é Deus quem faz isto dentro dele. Nós falamos aos vossos ouvidos: como sabemos o que se passa em vossos corações? Mas o que se passa interiormente não é obra nossa, mas d'Ele.
21. "Para que o nome do Senhor seja anunciado em Sião" (v. 21). Pois, a princípio, quando os presos estavam destinados à morte, a Igreja era oprimida: desde estas tribulações, o Nome do Senhor tem sido anunciado em Sião, com grande liberdade, na própria Igreja. Pois ela é Sião: não aquele lugar único, a princípio soberbo, depois levado cativo; mas a Sião de que aquela Sião era sombra, a qual significa atalaia; porque, colocados na carne, vemos as coisas diante de nós, estendendo-nos não para o presente que agora é, mas para o futuro. Assim, ela é uma atalaia: pois todo vigia olha ao longe. Os lugares onde se põem guardas chamam-se atalaias: estas se põem em rochedos, em montanhas, em árvores, para que se domine uma vista mais ampla desde uma eminência mais alta. Sião, portanto, é uma atalaia, a Igreja é uma atalaia. ...Se, pois, a Igreja é uma atalaia, o Nome do Senhor já ali é anunciado. Não só o Nome do Senhor é anunciado naquela Sião, mas também "o Seu louvor", diz Ele, "em Jerusalém".
22. E como é anunciado? "Nos povos congregados em um, e nos reinos, para que sirvam ao Senhor" (v. 22). Como se realiza isto, senão pelo sangue dos que foram mortos? Como se realiza, senão pelos gemidos dos que estavam em grilhões? Foram, pois, ouvidos aqueles que estavam em tribulação e humildade; para que em nossos tempos a Igreja estivesse na grande glória em que a vemos, de modo que os próprios reinos que então a perseguiam, agora sirvam ao Senhor.
1. ..."Bendize, ó minha alma, ao Senhor! e tudo o que há em mim, bendiga o Seu santo Nome" (v. 1). Suponho que ele não fala do que há dentro do corpo; não suponho que queira dizer com isto que nossos pulmões e fígado, e assim por diante, devam prorromper na voz de bênção ao Senhor. Há, de fato, pulmões em nosso peito, como uma espécie de foles, que enviam sucessivas respirações, cujo sopro do ar inalado é impelido para fora em voz e som, quando as palavras são articuladas; nem pode sair de nossa boca nenhuma pronúncia, senão a que os pulmões comprimidos deram vazão; mas não é este o sentido aqui; tudo isto se refere aos ouvidos dos homens. Deus tem ouvidos: o coração também tem uma voz. Um homem fala às coisas que há dentro de si, para que bendigam a Deus, e lhes diz: "tudo o que há em mim, bendiga o Seu santo Nome!" Perguntas o que é o que há dentro de ti? A tua própria alma. Ao dizer, pois, "tudo o que há em mim, bendiga o Seu santo Nome", apenas repete o que disse acima, "Bendize, ó minha alma, ao Senhor": pois a palavra "Bendize" está subentendida. Clama com tua voz, se houver quem te ouça; cala tua voz, quando não houver quem te ouça; nunca falta quem ouça tudo o que há em ti. A bênção, portanto, já foi proferida por nossa boca, quando cantávamos estas mesmas palavras. Cantamos o quanto bastava para o tempo, e depois calamos: deveriam nossos corações interiores calar-se à bênção do Senhor? Que o som de nossas vozes O bendiga a intervalos, alternadamente; que a voz de nossos corações seja perpétua. Quando vieres à igreja para recitar um hino, tua voz faz soar os louvores de Deus: cantaste enquanto pudeste, deixaste a igreja; que a tua alma faça soar os louvores de Deus. Estás ocupado em teu trabalho diário: que a tua alma louve a Deus. Estás tomando alimento: vê o que diz o Apóstolo: "Quer comais, quer bebais, fazei tudo para a glória de Deus." Ouso dizer: quando dormes, que a tua alma louve ao Senhor. Que pensamentos de crime não te despertem, que os artifícios do furto não te despertem, que planos arquitetados de trato corrupto não te despertem. A tua inocência, mesmo enquanto dormes, é a voz de tua alma.
2. "Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não esqueças todos os Seus benefícios" (v. 2). Mas os benefícios do Senhor não podem estar diante de teus olhos, a menos que teus pecados estejam diante de teus olhos. Que o deleite no pecado passado não esteja diante de teus olhos, mas que a condenação do pecado esteja diante de teus olhos: condenação vinda de ti, perdão vindo de Deus. Pois assim Deus te retribui, de modo que possas dizer: "Como retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?" Foi isto que os mártires consideraram (cuja memória hoje celebramos), e todos os santos que desprezaram esta vida, e, como ouvistes na Epístola de São João, deram a vida pelos irmãos, o que é a perfeição do amor, assim como diz o nosso Senhor: "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos": foi isto, pois, que os santos mártires, considerando, desprezaram suas vidas aqui, para que as encontrassem ali, seguindo as palavras de nosso Senhor quando disse: "Quem ama a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por Minha causa guardá-la-á para a vida eterna." ..."Não esqueças", diz ele, "todos os Seus benefícios": não recompensas, mas "benefícios". Pois algo diferente era devido, e o que não era devido foi pago. Donde também estas palavras: "Que", pergunta ele, "retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?" Tu retribuíste o bem com o mal; Ele retribui o mal com o bem. Como retribuíste tu, ó homem, a teu Deus com o mal pelo bem? Tu, que uma vez foste blasfemo, e perseguidor, e injurioso, retribuíste blasfêmias. Por que bens? Primeiro, porque existes: mas também uma pedra existe. Depois, porque vives: mas também um animal irracional vive. Que retribuição darás ao Senhor, por te haver criado acima de todo o gado; e acima de todas as aves do ar, à Sua imagem e semelhança? Não busques como retribuir-Lhe: devolve-Lhe a Sua própria imagem: Ele não requer mais; Ele exige a Sua própria moeda. ...
3. Pensa tu, ó alma, em todos os benefícios de Deus, ao refletires sobre todos os teus maus feitos: pois quantos são teus pecados, tantos são Seus benefícios de bem. E que presente, que oferenda, que sacrifício poderás jamais oferecer-Lhe? ...Com que retribuirás ao Senhor? Pois refletias, e não podias achar: "Tomarei o cálice da salvação." Quê? Não foi o próprio Senhor quem deu o cálice da salvação? Retribui-Lhe do que é teu, se puderes. Eu diria: Não, não o faças; não Lhe retribuas do que é teu; Deus não quer ser retribuído do que é teu. Se O retribuis do que é teu, retribuis com o pecado. Pois tudo o que tens, o tens d'Ele: só os pecados tens de teu. Ele não quer ser retribuído do que é teu, Ele quer do que é Seu. Assim como, se trouxesses a um lavrador, da terra que ele semeou, uma espiga de trigo, tu o retribuirias do próprio fruto do lavrador; se espinhos, terias oferecido do que é teu. Retribui em verdade, em verdade louva ao Senhor: se escolheres retribuí-Lo do que é teu, mentirás. Aquele que fala mentira, fala do que é seu. Se aquele que fala mentira fala do que é seu, então aquele que fala verdade fala do que é do Senhor. Mas que é receber o cálice da salvação, senão imitar a Paixão de nosso Senhor? ...Receberei o cálice de Cristo, beberei da Paixão de nosso Senhor. Guarda-te de não faltares. Mas, "invocarei o Nome do Senhor." Aqueles, pois, que faltaram, não invocaram o Senhor; presumiram de suas próprias forças. Volta tu de tal modo, como quem se lembra de que está retribuindo o que recebeu. Assim, pois, que a tua alma bendiga ao Senhor, de modo a não esquecer todos os Seus benefícios.
4. Ouvi todos os Seus benefícios. "Que perdoa todo o teu pecado: que sara todas as tuas enfermidades" (v. 3). Eis os Seus benefícios. Que, senão o castigo, era devido ao pecador? Que era devido ao blasfemo, senão o inferno de fogo ardente? Ele não deu estas retribuições: para que não estremeças de pavor, e sem amor O temas. ...Mas és pecador. Volta de novo, e recebe estes Seus benefícios: Ele "perdoa todo o teu pecado". ...Contudo, mesmo depois da remissão dos pecados, a própria alma é abalada por certas paixões; ainda está ela em meio aos perigos da tentação, ainda se compraz com certas sugestões; com algumas não se compraz, e por vezes consente em algumas daquelas com que se compraz: é apanhada. Isto é enfermidade: mas Ele "sara todas as tuas enfermidades". Todas as tuas enfermidades serão saradas: não temas. São grandes, dirás: mas o Médico é maior. Nenhuma enfermidade se apresenta ao Médico Todo-Poderoso como incurável: sofre tu apenas ser sarado: não repilas as Suas mãos; Ele sabe como tratar contigo. Não te comprazas apenas quando Ele te acaricia, mas suporta-O também quando usa o bisturi: suporta a dor do remédio, refletindo sobre tua futura saúde. ...Não permaneces na incerteza: Aquele que te prometeu saúde não pode ser enganado. O médico é muitas vezes enganado: e promete saúde no corpo humano. Por que é enganado? Porque não está curando a sua própria criatura. Deus fez o teu corpo, Deus fez a tua alma. Ele sabe como restaurar o que fez, Ele sabe como refazer o que já formou: sê tu apenas paciente sob as mãos do Médico: pois Ele odeia quem rejeita as Suas mãos. Isto não acontece com as mãos de um médico humano. ...
5. "Quem redime tua vida da corrupção" (v. 4). Eis que "o corpo que se corrompe pesa sobre a alma". A alma, pois, tem vida em um corpo corruptível. Que espécie de vida? Ela sofre fardos, carrega pesos. Quão grandes são os obstáculos ao pensar no próprio Deus, como é justo que os homens pensem em Deus, como que a interromper-nos pela necessidade da corrupção humana? Quantas influências nos reclamam, quantas nos interrompem, quantas retiram a mente quando fixa no alto? Que multidão de ilusões, que tribos de sugestões? Tudo isto, no coração humano, como que fervilha com os vermes da corrupção humana. Expusemos a grandeza da doença; louvemos também o Médico. Acaso não te curará Aquele que te fez de tal modo que estivesses são, se tivesses escolhido guardar a lei da saúde que recebeste?... Pensa primeiro em tua própria saúde. Às vezes um homem é acometido em sua própria casa, em seu leito, por uma enfermidade mais do que habitualmente manifesta; ainda que esta enfermidade também, que os homens desgostam de contemplar, seja evidente; contudo, cada homem pode ser atacado por aquela doença para a qual se buscam médicos humanos, e pode arquejar de febre em seu leito; talvez queira considerar seus assuntos domésticos, fazer alguma disposição ou ordenação relativa à sua propriedade ou à sua casa; logo é chamado de volta destes cuidados pela ansiedade de seus amigos, claramente expressa ao seu redor, e é aconselhado a deixar de lado tais assuntos, e primeiro cuidar de sua saúde. Isto, pois, é dito a ti, e a todos os homens: se não estás doente, pensa em outras coisas; se a tua própria enfermidade prova que estás doente, cuida primeiro de tua saúde. Cristo é tua saúde: pensa, portanto, em Cristo. Recebe o cálice de Sua Saúde salvadora, "que sara todas as tuas enfermidades"; se assim escolheres, alcançarás esta Saúde. ...Pois tua vida foi redimida da corrupção: descansa agora seguro: o contrato de boa-fé foi celebrado; ninguém engana, ninguém ilude, ninguém oprime o teu Redentor. Ele aqui fez uma troca, Ele já pagou o preço, Ele derramou Seu sangue. O Filho unigênito de Deus, digo eu, derramou Seu sangue por nós: ó alma, ergue-te, és de tão grande preço. ..."Ele redime tua vida da corrupção."
6. "Que te coroa de misericórdia e benignidade." Talvez tivesses começado a te ensoberbecer de algum modo, ao ouvires as palavras: "Ele te coroa." Sou, pois, grande, combati, pois. Por força de quem? Pela tua, mas suprida por Ele. ...Ele te coroa, porque está coroando os Seus próprios dons, não os teus merecimentos. "Trabalhei mais abundantemente que todos eles", disse o Apóstolo; mas vede o que acrescenta: "todavia não eu, mas a graça de Deus que estava comigo." ...É, pois, por Sua misericórdia que és coroado; em nada te ensoberbeças; louva sempre o Senhor; não te esqueças de todos os Seus benefícios. É um benefício quando tu, pecador e ímpio, foste chamado, para que sejas justificado. É um benefício quando és levantado e guiado, para que não caias. É um benefício quando te é dada força, para que perseveres até o fim. É um benefício que até mesmo aquela tua carne, pela qual eras oprimido, ressuscite, e que nem sequer um cabelo de tua cabeça pereça. É um benefício que, após tua ressurreição, sejas coroado. É um benefício que possas louvar ao próprio Deus para sempre, sem cessar. ...
7. Depois da batalha, pois, serei coroado; depois da coroa, que farei? "Ele que sacia teu desejo de bens" (v. 5). ...Busca teu próprio bem, ó alma. Pois uma coisa é boa para uma criatura, outra para outra, e todas as criaturas têm um certo bem que lhes é próprio, para a plenitude e perfeição de sua natureza. Há uma diferença quanto ao que é essencial a cada coisa imperfeita, para que seja aperfeiçoada; busca teu próprio bem. "Ninguém é bom, senão um só, que é Deus." O sumo bem é o teu bem. Que falta, pois, a quem o sumo bem é bem? Pois há bens inferiores, que são bons respectivamente para diferentes criaturas. Que é bom, irmãos, para o gado, senão encher o ventre, evitar a carência, dormir, satisfazer-se, existir, estar são, propagar-se? Isto lhe é bom: e, dentro de certos limites, tem uma medida de bem que lhe é destinada, concedida por Deus, Criador de todas as coisas. Buscas tu um bem como este? Deus também dá isto: mas não persigas somente isto. Podes tu, coerdeiro de Cristo, alegrar-te em comunhão com o gado? Eleva tua esperança ao bem de todos os bens. Ele será o teu bem, por quem tu, em teu gênero, foste feito bom, e por quem todas as coisas, em seu gênero, foram feitas boas. Pois Deus fez todas as coisas muito boas. ...
8. Quando será saciado meu desejo de bens? Quando, perguntas? "Tua juventude se renovará como a da águia." Perguntas, pois, quando tua alma há de ser saciada de bens? Quando tua juventude for restaurada. E acrescenta: como a da águia. Algo aqui se esconde; o que, porém, se diz da águia, não passaremos em silêncio, pois não é estranho ao nosso propósito compreendê-lo. Fique isto apenas gravado em nossos corações: que não é dito sem causa pelo Espírito Santo. Pois nos deu a entender uma espécie de ressurreição. E, de fato, a juventude da águia é restaurada, mas não para a imortalidade, pois foi dada uma similitude, na medida em que pôde ser tirada de uma coisa mortal para significar uma coisa imortal, não para demonstrá-la. Diz-se que a águia, depois que se torna vencida pela idade do corpo, fica incapaz de tomar alimento pelo comprimento desmedido de seu bico, que sempre cresce. Pois, depois que a parte superior de seu bico, que forma um gancho sobre a parte inferior, cresceu pela velhice a um comprimento desmedido, o comprimento deste crescimento não lhe permite abrir a boca, de modo a formar qualquer intervalo entre o bico inferior e o gancho superior. Pois, a menos que haja tal abertura, não tem poder de morder como uma tenaz, pelo qual possa cortar o que puser em suas mandíbulas. Crescendo, pois, a parte superior, e estando demasiadamente encurvada, não pode abrir a boca, e tomar alimento algum. Isto lhe faz a velhice, é sobrecarregada pela enfermidade da idade, e se torna demasiado fraca por falta de força para comer: duas causas de enfermidade a assaltam, a velhice e a carência. Por um artifício natural, pois, para de algum modo restaurar sua juventude, diz-se que a águia se lança e golpeia contra uma rocha o lábio superior de seu bico, pelo demasiado crescimento do qual se fecha a abertura para comer: e assim, esfregando-o contra a rocha, quebra o peso de seu velho bico, que impedia sua tomada de alimento. Chega ao seu alimento, e tudo é restaurado: será, depois de sua velhice, como uma águia jovem; retorna o vigor de todos os seus membros, o brilho de sua plumagem, o governo de suas asas, voa alto como antes, uma espécie de ressurreição nela se realiza. Pois este é o objeto da similitude, como o da Lua, que, depois de minguar e parecer interceptada, novamente se renova, e se torna cheia; e nos significa a ressurreição; mas quando está cheia, não permanece assim; novamente míngua, para que a significação nunca cesse. Assim também o que aqui se disse da águia: a águia não é restaurada para a imortalidade, mas nós o somos para a vida eterna; porém a similitude se deriva daqui, que a rocha nos tira o que nos impede. Não confies, pois, em tua força: a firmeza da rocha desgasta tua velhice: pois aquela Rocha era Cristo. Em Cristo nossa juventude será restaurada como a da águia. ...
9. "O Senhor executa misericórdia e juízo para com todos os que são oprimidos pela injustiça" (v. 6). ...Uma mulher adúltera é trazida para ser apedrejada segundo a Lei, mas é trazida perante o próprio Legislador. ...Nosso Senhor, no momento em que ela foi trazida diante d'Ele, inclinando a cabeça, começou a escrever na terra. Quando Se inclinou sobre a terra, então escreveu na terra: antes de inclinar-Se sobre a terra, não escreveu na terra, mas na pedra. A terra era agora algo fértil, pronta para produzir a partir das letras do Senhor. Na pedra, Ele havia escrito a Lei, dando a entender a dureza dos judeus: escreveu na terra, significando a fecundidade dos cristãos. Então aqueles que conduziam a adúltera vieram, como ondas enfurecidas contra uma rocha: mas foram despedaçados por Sua resposta. Pois lhes disse: "Aquele dentre vós que está sem pecado, atire nela a primeira pedra." E, inclinando novamente a cabeça, começou a escrever no chão. E então cada homem, ao interrogar sua própria consciência, não se adiantou. Não foi a fraca mulher adúltera, mas a própria consciência adúltera deles, que os fez recuar. Queriam punir, queriam julgar; vieram à Rocha, seus juízes foram derrubados pela Rocha. ...
10. Executa misericórdia para com o ímpio, não enquanto ímpio. Não recebas o ímpio, na medida em que é ímpio: isto é, não o recebas como que por inclinação e amor à sua iniquidade. Pois é vedado dar ao pecador, e receber pecadores. Todavia, como se entende isto: "Dá a todo aquele que te pedir"? e isto: "se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer"? Isto parece contraditório: mas se abre para aqueles que batem em nome de Cristo, e há de ser claro para os que buscam. "Não ajudes o pecador": e "não dês ao ímpio"; e contudo, "dá a todo aquele que te pedir." Mas é um pecador que me pede. Dá, não como a um pecador. Quando dás como a um pecador? Quando aquilo que o faz pecador te agrada, de modo que dás por isso. ...Que me digam aqueles que dão a um homem que luta com feras, por que dão? Por que dá a este homem? Ama nele aquilo em que consiste seu maior pecado; alimenta isto, veste isto nele, a própria maldade, tornada pública por todos que a testemunham. Por que dá o homem que dá a atores, ou a aurigas, ou a cortesãs? Não são estas mesmas pessoas seres humanos, a quem dão? Mas não é à natureza da obra de Deus que atendem, mas à iniquidade da obra humana. ...Quando, pois, dás, dás à infâmia, não à bravura. Assim como aquele que dá ao lutador de feras não dá ao homem, mas a uma profissão dos mais infames; pois, se ele fosse apenas um homem, e não um lutador de feras, não darias; honras nele o vício, não a natureza: assim, por outro lado, se dás ao justo, se dás ao profeta, se dás ao discípulo de Cristo algo de que necessite, sem pensar que ele é discípulo de Cristo, que é ministro de Deus, que é despenseiro de Deus; mas estás pensando, nesse caso, em alguma vantagem temporal, por exemplo, que, quando porventura te for necessário para tua causa, ele possa ser comprado por ti, porque lhe deste algo; não deste mais ao justo, se assim deste, do que aquele deu ao homem, quando deu ao lutador de feras. A questão, pois, caríssimos, está bem aberta a nós, e concebo que, embora fosse obscura, agora está clara. Foi a isto que o Senhor te obrigou, quando disse: "Aquele que recebeu o justo." Isso bastaria. Mas, como o justo pode ser recebido com outra intenção, ...Ele diz: "Aquele que recebe um justo em nome de justo": isto é, recebendo-o em consideração à sua justiça: ...isto é, porque é discípulo de Cristo, porque é despenseiro do Mistério: "Em verdade vos digo, de modo algum perderá sua recompensa." Entende, pois, assim: quem recebe um pecador em nome de pecador perderá sua recompensa.
11. ...Por isso, pois, sê misericordioso sem temor, estende o amor até mesmo a teus inimigos: pune aqueles que porventura pertençam ao teu governo, refreia-os com afeto, com caridade, tendo em vista sua salvação eterna; para que, enquanto poupas a carne, não pereça a alma. Faze isto: e ainda que tenhas de suportar muitos, sobre os quais não podes exercer disciplina, porque não tens autoridade legítima sobre eles, suporta suas injúrias; está sem receio. Ele te mostrará misericórdia, se tiveres sido misericordioso: serás misericordioso, sem que as injúrias que sofres percam sua punição; "A mim pertence a vingança, eu retribuirei", diz o Senhor.
12. "Fez conhecer Seus caminhos a Moisés" (v. 7). ...Pois a Lei foi dada com este propósito: que o enfermo se convencesse de sua fraqueza, e orasse pelo médico. Este é o caminho oculto de Deus. Já há muito ouviste: "Que sara todas as tuas enfermidades." Suas enfermidades ainda estavam ocultas nos enfermos; os cinco livros foram dados a Moisés: o tanque era cercado por cinco pórticos; ele trazia os enfermos, para que ali jazessem, para que fossem tornados conhecidos, não para que fossem curados. Os cinco pórticos descobriam, mas não curavam, os enfermos; o tanque curava quando alguém descia, e isto quando estava agitado: a agitação do tanque estava na Paixão de nosso Senhor. ...Visto que, pois, isto é um mistério ali, ensina que a Lei foi dada para que os pecadores se convencessem de seu pecado, e invocassem o Médico a fim de receber a graça. ...Portanto, como eu havia começado a dizer, porque este é um grande mistério na Lei, que foi dada com este propósito, que, pelo aumento do pecado, os soberbos fossem humilhados, os humilhados confessassem, os que confessassem fossem curados; estes são os caminhos ocultos, que Ele fez conhecer a Moisés, por meio de quem deu a Lei, pela qual o pecado abundasse, para que a graça mais abundasse. ..."Fez conhecer Sua boa vontade aos filhos de Israel." A todos os filhos de Israel? Aos verdadeiros filhos de Israel; sim, a todos os filhos de Israel. Pois os traiçoeiros, os insidiosos, os hipócritas, não são filhos de Israel. E quem são os filhos de Israel? "Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo."
13. "O Senhor é cheio de compaixão e misericórdia: longânimo, e de grande misericórdia" (v. 8). Por que tão longânimo? Por que tão grande em misericórdia? Os homens pecam e vivem; pecados se acrescentam, a vida continua: os homens blasfemam diariamente, e "Ele faz nascer o Seu sol sobre bons e maus." Por todos os lados chama à emenda, por todos os lados chama ao arrependimento, chama pelas bênçãos da criação, chama dando tempo de vida, chama através do leitor, chama através do pregador, chama através do pensamento mais íntimo pela vara da correção, chama pela misericórdia do consolo: "É longânimo, e de grande misericórdia." Mas cuidado, para que, usando mal a longanimidade da misericórdia de Deus, não entesoures para ti mesmo, como diz o Apóstolo, ira para o dia da ira. ...Pois há alguns que se preparam para converter-se, e contudo adiam, e neles grita a voz do corvo: "Cras! Cras!" O corvo que foi enviado da arca jamais voltou. Deus não busca procrastinação na voz do corvo, mas confissão no lamento da pomba. A pomba, quando enviada, voltou. Até quando, Amanhã! Amanhã!? Olha para teu último amanhã: já que não sabes qual é teu último amanhã, baste-te teres vivido até hoje como pecador. Ouviste, muitas vezes costumas ouvir, ouviste também hoje; diariamente ouves, e diariamente não te emendas. ...
14. "Não repreenderá para sempre, nem para sempre reterá Sua ira" (v. 9). Visto que é em consequência de Sua ira que vivemos nos açoites e na corrupção da mortalidade: temos isto em castigo do primeiro pecado. ...Não é, acaso, por Sua ira, meus irmãos, que "no suor do teu rosto e em labor comerás o pão, e a terra te produzirá espinhos e abrolhos"? Isto foi dito a nossos antepassados. Ou, se nossa vida é diferente disto; se puderes, volta-te para algum prazer, onde não sintas espinhos. Escolhe o que quiseste, seja avarento ou luxurioso; para nomear apenas estes dois; acrescenta uma terceira paixão, a da ambição; quão grandes espinhos há no desejo de honras? na luxúria das concupiscências, quão grandes espinhos? no ardor da avareza, quão grandes espinhos? Que perturbações há nos amores vis? Que terríveis ansiedades aqui nesta vida? Omito o inferno. Cuidado para que não te tornes, ainda agora, um inferno para ti mesmo. Tudo isto, meus irmãos, é resultado de Sua ira: e quando te tiveres voltado para as obras de justiça, não podes deixar de labutar sobre a terra; e o labor não termina antes que a vida termine. Devemos labutar no caminho, para que nos regozijemos em nossa pátria. Ele, pois, consola com Suas promessas teu labor, teus trabalhos, tuas perturbações, dizendo-te: "Não repreenderá para sempre."
15. "Não nos tratou segundo os nossos pecados" (v. 10). Graças a Deus, porque Ele Se dignou conceder isto. Não recebemos o que merecíamos: "Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos retribuiu segundo as nossas maldades." "Pois quanto está o céu elevado acima da terra, assim confirmou o Senhor Sua misericórdia para com os que O temem" (v. 11). Observai o céu: por toda parte, em todo lado, cobre a terra, nem há qualquer parte da terra que não seja coberta pelo céu. Os homens pecam debaixo do céu: praticam todas as más ações debaixo do céu; contudo são cobertos pelo céu. Dali vem a luz para os olhos, dali o ar, dali o alento, dali a chuva sobre a terra por causa de seus frutos, dali toda misericórdia do céu. Tira à terra o auxílio do céu: logo perecerá. Assim, pois, como a proteção do céu permanece sobre a terra, assim permanece a proteção do Senhor sobre os que O temem. Temes a Deus? Sua proteção está sobre ti. Mas talvez sejas açoitado, e penses que Deus te abandonou. Deus te terá abandonado, se a proteção do céu tiver abandonado a terra.
16. "Quão longe está o oriente do ocidente, tão longe pôs Ele de nós os nossos pecados" (v. 12). Aqueles que conhecem os Sacramentos sabem isto; todavia, digo apenas o que todos podem ouvir. Quando o pecado é remitido, teus pecados caem, tua graça se ergue; teus pecados estão como que em declínio, tua graça, que te liberta, em ascensão. "A verdade brota da terra." Que significa isto? Tua graça nasce, teus pecados caem, és de certo modo feito novo. Deves olhar para o nascente, e afastar-te do poente. Afasta-te de teus pecados, volta-te para a graça de Deus; quando teus pecados caem, tu te ergues e progrides. ...Uma região do céu declina, outra se ergue: mas a região que agora se ergue se porá depois de doze horas. Não é assim a graça que se ergue para nós: tanto os nossos pecados caem para sempre, quanto a graça permanece para sempre.
17. "Assim como um pai se compadece de seus próprios filhos, assim também o Senhor se compadeceu dos que O temem" (v. 13). Que Ele se ire quanto quiser, Ele é nosso Pai. Mas nos açoitou, e nos afligiu, e nos feriu: Ele é nosso Pai. Filho, se te lamentas, lamenta-te debaixo de teu Pai; não o faças com indignação, não o faças com o inchaço da soberba. O que sofres, aquilo por que te lamentas, é remédio, não castigo; é tua correção, não tua condenação. Não recuses o açoite, se não queres ser recusado de tua herança: não penses em que pena sofres no açoite, mas em que lugar tens no Testamento.
18. "Porque Ele conhece a nossa formação" (v. 14): isto é, a nossa fraqueza. Ele sabe o que criou, como caiu, como pode ser reparado, como pode ser adotado, como pode ser enriquecido. Eis que somos feitos de barro: "O primeiro homem é da terra, terreno: o segundo homem é o Senhor do céu." Ele enviou até mesmo o seu próprio Filho, aquele que se fez o segundo homem, aquele que era Deus antes de todas as coisas. Pois foi segundo em sua vinda, primeiro em seu retorno: morreu depois de muitos, ressuscitou antes de todos. "Ele conhece a nossa formação." Que formação? A nós mesmos. Por que dizes que Ele conhece? Porque se compadeceu. "Lembra-Te de que somos pó." Dirigindo-se a Deus mesmo, diz: "Lembra-Te," como se Deus pudesse esquecer: Ele percebe, Ele conhece de tal maneira que não pode esquecer. Mas que significa "Lembra-Te"? Que a tua misericórdia permaneça sobre nós. Tu conheces a nossa formação; não esqueças a nossa formação, para que não esqueçamos a tua graça.
19. "O homem, os seus dias são como a erva" (v. 15). Considere o homem o que é; não se ensoberbeça o homem. "Os seus dias são como a erva." Por que se ensoberbece a erva, que agora floresce, e em brevíssimo espaço se seca? Por que se ensoberbece a erva, que floresce apenas por uma breve estação, até que o sol esquente? Bom é, pois, para nós que a sua misericórdia esteja sobre nós, e faça da erva ouro. "Pois floresce como a flor do campo." Todo o esplendor da raça humana; honra, poderes, riquezas, orgulho, ameaças, é a flor da erva. Aquela casa floresce, e aquela família é grande, aquela família floresce; e quantos florescem, e quantos anos vivem! Muitos anos para ti são apenas uma breve estação para Deus. Deus não conta como tu contas. Comparado com a duração e a longa vida dos séculos, toda a flor de qualquer casa é como a flor do campo. Toda a beleza do ano mal dura o ano. Tudo o que ali floresce, tudo o que ali se aquece com o calor, tudo o que ali é belo, não dura; antes, não pode existir por um ano inteiro. Em quão breve estação passam as flores, e estas são a beleza das ervas! Isto que é tão belo, isto cai rapidamente. Porquanto, pois, Ele conhece como pai a nossa formação, que somos apenas erva, e só podemos florescer por um tempo; Ele nos enviou o seu Verbo, e o seu Verbo, que permanece para sempre, Ele fez irmão da erva que não permanece. Não te admires de que serás partícipe da sua Eternidade; Ele mesmo se fez primeiro partícipe da tua erva. Acaso Aquele que assumiu de ti o que era humilde te negará o que é excelso a teu respeito?
20. "O vento passará sobre ela, e não mais será; e o seu lugar não mais a conhecerá" (v. 16). Pois não está falando da erva, mas daquele por causa de quem até o Verbo se fez erva. Pois tu és homem, e por tua causa o Verbo se fez homem. "Toda carne é erva:" "e o Verbo se fez carne." Quão grande é, pois, a esperança da erva, visto que o Verbo se fez carne? Aquele que permanece para sempre não desdenhou assumir a erva, para que a erva não desesperasse de si mesma.
21. Em tuas reflexões sobre ti mesmo, pensa, pois, em tua baixa condição, pensa em teu pó: não te ensoberbeças: se és algo melhor, sê-lo-ás por sua Graça, sê-lo-ás por sua misericórdia. Pois ouve o que se segue: "mas a misericórdia do Senhor é de eternidade em eternidade sobre os que O temem" (v. 17). Vós que não O temeis, sereis erva, e em erva, e em tormento com a erva: pois a carne ressuscitará para o tormento. Alegrem-se os que O temem, porque a sua misericórdia está sobre eles.
22. "E a sua justiça sobre os filhos dos filhos" (v. 18). Fala de recompensa, "sobre os filhos dos filhos." Quantos servos de Deus há que não têm filhos, quanto menos filhos dos filhos? Mas Ele chama de nossos filhos as nossas obras; a recompensa das obras, os nossos "filhos dos filhos." "Sobre os que guardam a sua aliança." Acautelem-se os homens de que nem todos possam julgar que isto aqui dito lhes pertence: escolham, enquanto têm a escolha. "E se lembram de seus mandamentos para os cumprir." Já estavas disposto a lisonjear-te a ti mesmo, e talvez a recitar-me o Saltério, que eu não sei de cor, ou a dizer de memória toda a Lei. Claramente és melhor do que eu em matéria de memória, melhor do que qualquer homem justo que não conheça a Lei palavra por palavra: mas cuida de guardar os mandamentos. Mas como deverias guardá-los? Não pela memória, mas pela vida. "Os que se lembram de seus mandamentos": não, para os recitar; mas, "para os cumprir." E agora talvez a alma de cada um se perturbe. Quem se lembra de todos os mandamentos de Deus? Quem se lembra de todos os escritos de Deus? Eis que desejo não apenas guardá-los na minha memória, mas também cumpri-los nas minhas obras: mas quem se lembra de todos eles? Não temas: Ele não te sobrecarrega: "de dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas." ...
23. "O Senhor preparou o seu trono no céu" (v. 19). Quem senão Cristo preparou o seu trono no céu? Aquele que desceu e subiu, aquele que morreu e ressuscitou dentre os mortos, aquele que elevou ao céu a humanidade que assumira, Ele mesmo preparou o seu trono no céu. O trono é a sede do Juiz: observai, pois, vós que ouvis, que "Ele preparou o seu trono no céu." ...O reino é do Senhor, e Ele será o Governador entre os povos. "E o seu reino dominará sobre todos."
24. "Bendizei ao Senhor, vós, os seus Anjos, poderosos em força: vós que cumpris a sua palavra" (v. 20). Pela palavra de Deus, pois, não és justo, nem fiel, senão quando a praticas. "Vós que sois poderosos em força, vós que cumpris o seu mandamento, e escutais a voz das suas palavras."
25. "Bendizei ao Senhor, todos vós, exércitos Seus: servos Seus que fazeis a Sua vontade" (v. 21). Todos vós, anjos, todos vós, os poderosos em força: vós que fazeis a Sua palavra: todos vós, exércitos Seus, servos Seus que fazeis a Sua vontade, fazei-a, bendizei ao Senhor. Pois todos os que vivem perversamente, ainda que suas línguas se calem, com seus lábios amaldiçoam o Senhor. Que aproveita que a tua língua cante um hino, enquanto a tua vida respira sacrilégio? Vivendo mal, puseste muitas línguas a blasfemar. A tua língua é dada ao hino, as línguas dos que te contemplam, à blasfêmia. Se, pois, queres bendizer ao Senhor, faze a Sua palavra, faze a Sua vontade. ...
26. "Bendizei ao Senhor, todas as obras Suas, em todos os lugares do Seu domínio" (v. 22). Portanto, em todo lugar. Que Ele não seja bendito onde não reina: "em todos os lugares do Seu domínio". Que ninguém, porventura, diga: não posso louvar ao Senhor no Oriente, porque Ele partiu para o Ocidente; ou: não posso louvá-Lo no Ocidente, porque Ele está no Oriente. "Pois nem do oriente, nem do ocidente, nem tampouco dos montes do deserto. E por quê? Deus é o Juiz." Ele está em toda parte, de tal modo que em toda parte pode ser louvado: está de tal modo em todo lugar, que em todo lugar possamos alegrar-nos n'Ele: é de tal modo bendito em todo lugar, que em todo lugar possamos viver bem. ..."Em todo lugar do Seu domínio: bendize tu ao Senhor, ó minha alma!" O último versículo é o mesmo que o primeiro: a bênção está à cabeça do Salmo, a bênção ao final; da bênção partimos, à bênção retornemos, na bênção reinemos.
1. ..."Bendize ao Senhor, ó minha alma." Diga isto a alma de todos nós, feita una em Cristo. "Ó Senhor meu Deus, Tu és sobremaneira magnificado!" (v. 1). Onde és Tu magnificado? "Confissão e beleza revestiste." Confessai-vos, para que sejais embelezados, para que Ele vos revista. "Vestido de luz como de manto" (v. 2). Vestido de Sua Igreja, porque ela é feita "luz" n'Ele, ela que antes era trevas em si mesma, como diz o Apóstolo: "Éreis outrora trevas, mas agora luz no Senhor." "Estendendo o céu como uma pele:" ou tão facilmente quanto tu estendes uma pele, se for "tão facilmente", de modo que o tomes segundo a letra; ou entendamos a autoridade das Escrituras, estendida sobre todo o mundo, sob o nome de pele; porque na pele se significa a mortalidade, mas toda a autoridade das divinas Escrituras nos foi dispensada por meio de homens mortais, cuja fama ainda se espalha agora que estão mortos.
2. "Que cobre com as águas as suas partes superiores" (v. 3). As partes superiores de quê? Do Céu. Que é o Céu? Figuradamente, dissemos apenas: a divina Escritura. Quais são as partes superiores da divina Escritura? O mandamento do amor, do qual não há nenhum mais elevado. Mas por que o amor é comparado às águas? Porque "o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Donde é o próprio Espírito água? Porque "Jesus estava em pé e clamava: Aquele que crê em Mim, do seu ventre correrão rios de água viva." Donde provamos que isto foi dito do Espírito? Que o próprio Evangelista o declare, ele que prossegue e diz: "Mas isto dizia Ele do Espírito, que haviam de receber os que n'Ele cressem." "Que anda sobre as asas dos ventos;" isto é, acima das virtudes das almas. Que é a virtude de uma alma? O próprio amor. Mas como anda Ele acima dela? Porque o amor de Deus para conosco é maior que o nosso para com Deus.
3. "Que faz dos espíritos os Seus anjos, e do fogo abrasador os Seus ministros" (v. 4): isto é, aqueles que já são espíritos, que são espirituais, não carnais, Ele os faz Seus Anjos, enviando-os a pregar o Seu evangelho. "E do fogo abrasador os Seus ministros." Pois, a menos que o ministro que prega esteja em chamas, não inflama aquele a quem prega.
4. "Ele fundou a terra sobre a sua firmeza" (v. 5). Fundou a Igreja sobre a firmeza da Igreja. Que é a firmeza da Igreja, senão o fundamento da Igreja? Que é o fundamento da Igreja, senão aquilo de que o Apóstolo diz: "Outro fundamento ninguém pode lançar, além do que já está posto, que é Cristo Jesus"? E, portanto, fundada sobre tal fundamento, que mereceu ela ouvir? "Não será abalada para todo o sempre." "Fundou a terra sobre a sua firmeza." Isto é, fundou a Igreja sobre Cristo, o fundamento. A Igreja vacilará se o fundamento vacilar; mas quando vacilará Cristo, antes de cuja vinda a nós, e de tomar carne, "todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez;" que sustém todas as coisas pela Sua Majestade, e a nós pela Sua bondade? Como Cristo não falha, "ela não será abalada para todo o sempre." Onde estão os que dizem que a Igreja pereceu do mundo, quando ela nem sequer pode ser abalada? ...
5. "O abismo, como um manto, é a sua veste" (v. 6). De quem? É, porventura, de Deus? Mas já havia dito de Sua veste: "Vestido de luz como de manto." Ouço que Deus está vestido de luz, e essa luz, se quisermos, somos nós. Que é, se quisermos? Se já não formos trevas. Se, pois, Deus está vestido de luz, de quem, então, é veste o abismo? Pois chama-se abismo uma imensa massa de águas. Toda água, toda natureza úmida, e a substância por toda parte derramada através dos mares, e rios, e cavernas ocultas, tudo isso junto se chama por um só nome, o Abismo. Entendemos, pois, a terra, de que disse: "Fundou a terra." Dela, creio, disse: "O abismo, como um manto, é a sua veste." Pois a água é, por assim dizer, a veste da terra, cercando-a e cobrindo-a. ...
6. "Sobre os montes estarão as águas:" isto é, a veste da terra, que é o abismo, cresceu tanto, que as águas estiveram até acima dos montes. Lemos que isto se deu no dilúvio. ...O Profeta, tendo em mente predizer coisas futuras, não relatar as passadas, por isso o disse, porque queria que se entendesse que a Igreja haveria de estar em um dilúvio de perseguições. Pois houve um tempo em que as inundações dos perseguidores haviam coberto a terra de Deus, a Igreja de Deus, e a haviam coberto de tal modo, que nem mesmo aqueles grandes apareciam, que são os montes. Pois, quando fugiam por toda parte, que outra coisa fizeram senão deixar de aparecer? E, porventura, dessas águas é aquele dito: "Salva-me, ó Deus, porque as águas entraram até a minha alma." Sobretudo as águas que fazem o mar, tempestuoso, infrutífero. Pois qualquer terra que a água do mar tenha coberto, não a fará antes frutífera do que a levará à esterilidade. Pois havia também montes debaixo das águas, porque acima dos montes as águas estiveram. ...Por que os Apóstolos se ocultaram na fuga? Porque "sobre os montes estavam as águas." O poder das águas era grande, mas por quanto tempo? Ouvi o que se segue.
7. "À Tua repreensão fugirão" (v. 7). E isto se cumpriu, irmãos; à repreensão de Deus as águas fugiram; isto é, recuaram de pressionar os montes. Agora os próprios montes se erguem, Pedro e Paulo: como se elevam! Eles que antes eram oprimidos pelos perseguidores, agora são venerados pelos imperadores. Pois as águas fugiram da repreensão de Deus; porque "o coração dos reis está na mão de Deus, Ele o inclina para onde quer;" Ele ordenou que a paz fosse dada por eles aos cristãos; a autoridade dos Apóstolos surgiu e se elevou ao alto. ...As águas fugiram da repreensão de Deus. "À voz do Teu trovão temerão." Ora, quem há que não temeria, diante da voz de Deus pelos Apóstolos, a voz de Deus pelas Escrituras, por Suas nuvens? O mar se aquietou, as águas se atemorizaram, os montes foram desnudados, o imperador deu a ordem. Mas quem teria dado a ordem, se Deus não tivesse trovejado? Porque Deus quis, eles ordenaram, e se fez. Portanto, que nenhum homem se arrogue coisa alguma.
8. "Os montes sobem, e os campos descem, para o lugar que Tu lhes arredondaste" (v. 8). Ainda fala das águas. Não entendamos aqui os montes como terra, nem os campos como terra; mas ondas tão grandes que podem ser comparadas a montes. O mar outrora se agitava, e suas ondas eram como montes, que podiam cobrir aqueles montes que são os Apóstolos. Mas até quando os montes sobem e os campos descem? Enfureceram-se, e foram aplacadas. Quando se enfureciam, eram montes; agora que se aplacaram, tornaram-se campos: pois Ele lhes fundou um lugar. Há um certo leito, como que um lugar profundo, para onde se recolheram todos aqueles corações outrora enfurecidos dos mortais. ...Eram montes outrora, agora são campos: contudo, meus irmãos, mesmo uma calmaria morta é mar. Pois por que não são agora violentos? Por que não se enfurecem? Por que não tentam, se não podem derrubar nossa terra, ao menos cobri-la? Por que não?
9. Ouvi. "Puseste um limite que não transporão, nem tornarão a cobrir a terra" (v. 9). Que é, pois, isto — porque agora as ondas mais amargas receberam uma medida, que se nos deva permitir pregar tais coisas até mesmo com liberdade; porque lhes foi assinalado o limite devido, porque não podem transpor o limite estabelecido, nem tornarão a cobrir a terra —; que se faz, então, na própria terra? Que obras nela se operam, agora que o mar a deixou a descoberto? Ainda que em sua praia pequenas ondas façam seu ruído, ainda que os pagãos ainda murmurem ao redor; ouço o som das praias, não temo um dilúvio. Que é, pois, o que se faz na terra? "Que envia fontes nos pequenos vales" (v. 10). "Tu envias", diz ele, "fontes nos pequenos vales." Sabeis o que são os pequenos vales, lugares mais baixos entre as terras. Pois aos outeiros e montes se opõem, em figura contrária, os vales e pequenos vales. Outeiros e montes são elevações da terra; mas vales e pequenos vales, baixios das terras. Não desprezeis os lugares baixos, dali fluem as fontes. "Tu envias fontes nos pequenos vales." Ouvi um monte. Diz o Apóstolo: "Trabalhei mais do que todos eles." Certa grandeza nos é proposta; mas logo, para que as águas fluam, ele se fez a si mesmo um vale: "Todavia não eu, mas a graça de Deus comigo." Não há contradição em que os que são montes sejam também vales: pois, assim como se chamam montes por causa de sua grandeza espiritual, assim também se chamam vales pela humildade de seu espírito. "Não eu", diz ele, "mas a graça de Deus comigo." ...
10. Que é: "No meio, entre os montes, passarão as águas"? Ouvimos quem são os "montes": os grandes Pregadores da palavra, os elevados Anjos de Deus, ainda que na carne mortal; sublimes não por poder próprio, mas por Sua graça; mas, quanto a si mesmos, são vales, e em sua humildade enviam fontes. "No meio", diz ele, "entre os montes, passarão as águas." Suponhamos que se diga assim: "No meio, entre os Apóstolos, passarão as pregações da Palavra da Verdade." Que é "no meio, entre os Apóstolos"? O que se chama "no meio" é comum. Uma propriedade comum, da qual todos igualmente vivem, está no meio, e não pertence a mim, mas também não pertence a ti, nem tampouco a mim só. ...Pois, se não estão no meio, são como que privadas, não fluem para uso público, e eu tenho o meu, e ele tem o seu próprio; não está no meio, para que ambos, eu e ele, o tenhamos; mas tal não é a pregação da paz. ...Portanto, irmãos, sirva o que dissemos à vossa Caridade para este fim, por causa das fontes: que fluam de vós, sede vales, e comunicai a todos aquilo que tendes de Deus. Fluam as águas no meio, não invejeis a ninguém, bebei, saciai-vos, fluí quando estiverdes saciados. Que em toda parte tenha a glória a água comum de Deus, e não as falsidades privadas dos homens. ...
11. Pois segue-se: "Todos os animais do bosque beberão" (v. 11). Vemos, com efeito, isto também na criação visível, que os animais do bosque bebem das fontes e das correntes que correm entre os montes; mas agora, porquanto aprouve a Deus ocultar Sua própria sabedoria nas figuras de tais coisas, não para negá-la aos que a buscam com afinco, mas para fechá-la aos que não se importam, e abri-la aos que batem; aprouve também ao próprio Senhor nosso Deus exortar-vos por nosso intermédio a isto: que em todas estas coisas que se dizem como que da criação corpórea e visível, busquemos algo espiritualmente oculto, no qual, uma vez achado, nos regozijemos. Por "os animais do bosque" entendemos os gentios, e a Sagrada Escritura o testemunha em muitos lugares. ...
12. Estes animais, pois, bebem daquelas águas, mas de passagem; não permanecendo, mas passando; pois toda aquela doutrina que, durante todo este tempo, se dispensa, passa. ...A não ser que, porventura, a vossa caridade pense que, naquela cidade à qual se diz: "Louva ao Senhor, ó Jerusalém, louva a teu Deus, ó Sião; porque Ele fortificou os ferrolhos de tuas portas" — quando os ferrolhos já estiverem fortalecidos e a cidade fechada, de onde, como dissemos há pouco, nenhum amigo sai, nenhum inimigo entra —, que ali teremos um livro para ler, ou um discurso a ser explicado como agora se vos explica. Por isso se trata agora disto, para que ali se retenha com firmeza; por isso agora se divide por sílabas, para que ali se contemple todo e inteiro. Não faltará ali a Palavra de Deus; mas não já por letras, não por sons, não por livros, não por leitor, não por expositor. Como, pois? Como: "No princípio era o Verbo", etc. Pois Ele não veio a nós de tal modo que dali se apartasse; porque Ele estava neste mundo, e o mundo foi feito por Ele. Tal Verbo havemos de contemplar. Pois "o Deus dos deuses aparecerá em Sião." Mas isto, quando? Depois de nossa peregrinação, quando se cumprir a jornada; se, porém, depois de cumprida nossa jornada, não formos entregues ao Juiz, para que o Juiz nos mande ao cárcere. Mas se, terminada nossa jornada, como esperamos, desejamos e nos esforçamos, tivermos chegado à Pátria, ali contemplaremos Aquilo que sempre havemos de louvar; nem faltará Aquilo que nos é presente, nem nós, que dEle gozamos; nem se fartará quem come, nem faltará aquilo que ele come. Grande e admirável será aquela contemplação. ...
13. "Os onagros saciarão sua sede." Por onagros entende alguns animais grandes. Pois quem não sabe que os jumentos selvagens se chamam onagros? Quer dizer, pois, alguns grandes e indômitos. Pois os gentios não tinham o jugo da Lei: muitas nações viviam segundo seus próprios costumes, vagando em soberba jactância como num deserto. E assim, na verdade, faziam todos os animais, mas os jumentos selvagens são postos para significar os de maior porte. Também eles saciarão sua sede, pois também para eles fluem as águas. Dali bebe a lebre, dali o jumento selvagem: a lebre, pouco; o jumento selvagem, muito; a lebre, tímida; o jumento selvagem, fero: uma e outra espécie ali bebem, mas cada qual para sua sede. ...Tão fiel e suavemente flui, que ao mesmo tempo sacia o jumento selvagem e não atemoriza a lebre. Ressoa a voz de Túlio, lê-se Cícero, é algum livro, é um diálogo seu, seja próprio, seja de Platão, ou de qualquer outro tal escritor: ouvem-no alguns indoutos, fracos de menor engenho; quem ousaria aspirar a tal coisa? É um som de água, e talvez turva, mas certamente correndo com tal violência, que um animal tímido não ousa aproximar-se e beber. A quem soa um Salmo, e ele diz: é demais para mim? Eis agora o que soa o Salmo; são, por certo, mistérios ocultos, mas soa de tal modo que até as crianças se deleitam em ouvi-lo, e os indoutos vêm beber, e, uma vez saciados, prorrompem em cânticos. ...
14. Prossegue então o Salmo em seu texto: "Sobre eles habitarão as aves do céu" (v. 12). ...Sobre os montes, pois, terão sua habitação as aves do céu. Vemos que estas aves habitam sobre os montes, mas muitas delas habitam nos campos, muitas nos vales, muitas nos bosques, muitas nos jardins, nem todas sobre os montes. Há algumas aves que não habitam senão nos montes. Certas almas espirituais denota este nome. As aves são os corações espirituais, que gozam do ar livre. Na claridade do céu se deleitam estas aves, mas seu alimento está nos montes, ali habitarão. Conheceis os montes, deles já se tratou. Montes são os Profetas, montes são os Apóstolos, montes são todos os pregadores da verdade. ...
15. Mas não penseis que estas "aves do céu" seguem sua própria autoridade; vede o que diz o Salmo: "Do meio das rochas darão sua voz." Ora, se eu vos disser: Crede, porque isto disse Cícero, isto disse Platão, isto disse Pitágoras — quem de vós não riria de mim? Pois eu seria uma ave que enviaria sua voz, não da rocha. Que deveria cada um de vós dizer-me? Que deve dizer aquele que assim está instruído? "Se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema." Que me falas de Platão, e de Cícero, e de Virgílio? Tens diante de ti as rochas dos montes, do meio das rochas dá-me tua voz. Sejam ouvidos os que ouvem da rocha; sejam ouvidos, porque também naquelas muitas rochas se ouve a Única Rocha: pois "a Rocha era Cristo." Sejam, pois, de bom grado ouvidos, dando sua voz do meio das rochas. Nada há mais doce que tal voz de aves. Soam, e as rochas ressoam: soam; os homens espirituais discorrem: as rochas ressoam; os testemunhos da Escritura respondem. Eis que dali as aves dão sua voz do meio das rochas, pois habitam sobre os montes.
16. "Regando os montes desde as alturas" (v. 13). Ora, se um gentio incircunciso vem a nós, prestes a crer em Cristo, damos-lhe o batismo, e não o chamamos de volta àquelas obras da Lei. E se um judeu nos pergunta por que fazemos isso, soamos da rocha, dizemos: Isto fez Pedro, isto fez Paulo; do meio das rochas damos nossa voz. Mas aquela rocha, o próprio Pedro, aquele grande monte, quando orava e viu aquela visão, foi regado desde o alto. ...
17. "Do fruto de Tuas obras se fartará a terra." Que é: "Do fruto de Tuas obras"? Não se glorie ninguém em suas próprias obras: mas "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor." De Tua graça se farta, quando se farta: não diga que a graça lhe foi dada por seus próprios méritos. Se se chama graça, "é dada gratuitamente"; se é retribuída por obras, paga-se salário. Recebei, pois, gratuitamente, porque, ímpio, és justificado.
18. "Fazendo brotar a erva para o gado, e a verdura para o serviço dos homens" (v. 14). Isto é verdadeiro, percebo-o; reconheço a criação: a terra faz brotar a erva para o gado, e a verdura para o serviço dos homens. Mas percebo as palavras: "Não atarás a boca ao boi que debulha o trigo. Acaso Deus cuida dos bois? Por nossa causa, pois, o diz a Escritura." Como, então, faz a terra brotar erva para o gado? Porque "o Senhor ordenou que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho." Enviou pregadores, dizendo-lhes: "Comei do que vos for posto diante, pois digno é o operário do seu salário." ...Eles dão as coisas espirituais, recebem as carnais; dão ouro, recebem erva. ..."Se vos semeamos as coisas espirituais, será muito que colhamos as vossas coisas carnais?" Isto disse o Apóstolo, pregador tão laborioso, tão infatigável, tão bem provado, que dá esta mesma erva à terra. "Todavia", diz ele, "não usamos deste poder." Mostra que lhe era devido, e contudo não o recebeu; nem por isso condenou os que receberam o que lhes era devido. Pois seriam de condenar os que exigem o que não é devido, não os que aceitam sua recompensa: contudo, ele renunciou até à sua própria recompensa. Não deixas de dever a outro, porque um renunciou ao que lhe era devido; do contrário, não serás a terra regada que produz erva para o gado. ...Recebes coisas espirituais, retribui coisas carnais: ao soldado são devidas, ao soldado as retribuis; és o pagador de Cristo. "Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o rebanho e não come do leite do rebanho? Não digo isto para que assim se faça comigo." Houve tal soldado que renunciou até à sua própria ração em favor do pagador: mas que o pagador pague as rações. ...
19. "Para que produza pão da terra." Que pão? Cristo. De que terra? De Pedro, de Paulo, dos demais dispenseiros da verdade. Ouve que é da terra: "Temos", diz São Paulo, "este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós." Ele é o pão que desceu do céu, para que fosse produzido da terra, quando é pregado através da carne de seus servos. A terra produz erva, para que produza pão da terra. Que terra produz erva? As nações piedosas e santas. Para que se produza pão de que terra? A palavra de Deus, dos Apóstolos, dos dispenseiros dos Sacramentos de Deus, que ainda caminham sobre a terra, que ainda trazem um corpo terreno.
20. "E o vinho alegra o coração do homem" (v. 15). Que ninguém se prepare para a embriaguez; antes, prepare-se cada um para a embriaguez. "Quão excelente é o Teu cálice, que inebria!" Não queremos dizer: Que ninguém se embriague. Embriagai-vos; mas atentai de que fonte. Se o excelente cálice do Senhor vos saciar, vossa embriaguez se verá em vossas obras, ver-se-á no santo amor da justiça, ver-se-á, enfim, no alheamento de vossa mente, mas das coisas terrenas para as celestes. "Para lhe fazer o rosto alegre com o óleo." ...Que é fazer o rosto alegre com o óleo? A graça de Deus; uma espécie de resplendor para manifestação; como diz o Apóstolo: "A cada um é dado o Espírito para manifestação." Certa graça, que os homens podem claramente ver nos homens, para conciliar o santo amor, chama-se óleo, por seu divino esplendor; e, como apareceu excelentíssima em Cristo, todo o mundo O ama; o qual, ainda que aqui foi desprezado, agora é adorado por toda nação: "Pois do Senhor é o reino, e Ele será Governador entre os povos." Pois tal é Sua graça, que muitos, que não creem nEle, O louvam, e declaram que não querem crer nEle, porque ninguém pode cumprir o que Ele ordena. Os que outrora com injúrias se enfureciam contra Ele, são detidos pelos próprios louvores que Lhe tributam. Contudo, por todos é amado, por todos é pregado; porque é excelentemente ungido, por isso é Cristo: pois se chama Cristo do Crisma ou unção que teve. Messias em hebraico, Cristo em grego, Unctus em latim: mas Ele unge sobre todo o Seu Corpo. Todos, pois, os que vêm, recebem a graça, para que seus rostos se façam alegres com o óleo.
21. "E o pão fortalece o coração do homem." Que é isto, irmãos? Como que nos forçou a entender de que pão falava. Pois, enquanto aquele pão visível fortalece o estômago, alimenta o corpo, há outro pão que fortalece o coração, porquanto é o pão do coração. ...Há, pois, um vinho que verdadeiramente alegra o coração, e não sabe fazer outra coisa senão alegrar o coração. Mas, para que não imagines que isto, na verdade, se deva entender do vinho espiritual, mas não daquele pão espiritual, Ele mostrou este mesmo ponto, que também ele é espiritual: "e o pão", diz, "fortalece o coração do homem." Entende, pois, do pão assim como entendes do vinho; tem fome interiormente, tem sede interiormente: "Bem-aventurados", diz nosso Senhor, "os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados." Aquele pão é a justiça, aquele vinho é a justiça: é a verdade, Cristo é a verdade. "Eu sou", disse Ele, "o pão vivo, que desceu do céu"; e: "Eu sou a Videira, e vós sois os ramos."
22. "As árvores do campo se fartarão" (v. 16); mas com esta graça, produzida da terra. "As árvores do campo" são as ordens mais humildes das nações. "E os cedros do Líbano, que Ele plantou." Os cedros do Líbano, os poderosos do mundo, também eles se fartarão. O pão, e o vinho, e o óleo de Cristo alcançaram senadores, nobres, reis; as árvores do campo se fartam. Primeiro se fartam os humildes; depois também os cedros do Líbano, mas aqueles que Ele plantou; cedros piedosos, fiéis religiosos; pois tais Ele plantou. Pois também os ímpios são cedros do Líbano; porque: "O Senhor quebrará os cedros do Líbano." Pois o Líbano é um monte: ali estão aquelas árvores, mesmo segundo a letra, as mais longevas e excelentes. Mas o Líbano se interpreta, como lemos naqueles que escreveram sobre estas coisas, um resplendor: e este resplendor parece pertencer a este mundo, que ao presente brilha e reluz com suas pompas. Ali estão os cedros do Líbano, que o Senhor plantou; aqueles que o Senhor plantou se fartarão. ...
23. "Ali as andorinhas farão seus ninhos: sua guia é a casa do mergulhão" (v. 17). Onde farão ninho as andorinhas? Nos cedros do Líbano... Quem são as andorinhas? As andorinhas são de fato aves, e aves do céu, mas costuma-se chamar de andorinhas as aves pequenas. Há, pois, alguns espirituais que fazem ninho nos cedros do Líbano: isto é, há certos servos de Deus que ouvem no Evangelho: "Vende tudo o que tens e dá aos pobres; e terás um tesouro no céu; e vem, segue-Me." ... Que aquele que renunciou a muitas coisas não se orgulhe. Sabemos que Pedro era pescador: que teria ele, pois, a abandonar, para seguir a nosso Senhor? Ou seu irmão André, ou João e Tiago, filhos de Zebedeu, eles também pescadores; e, no entanto, que disseram? "Eis que deixamos tudo e Te seguimos." Não lhes disse o Senhor: Esqueceste tua pobreza; que renunciaste tu, para que devesses receber o mundo inteiro? Ele, meus irmãos, que renunciou não somente ao que tinha, mas também ao que desejava ter, renunciou a muito. ...
24. Mas, embora as andorinhas façam ninho nos cedros do Líbano, "a casa do mergulhão é sua guia". Que é a casa do mergulhão? O mergulhão, como todos sabemos, é ave aquática, que habita ou entre os pântanos, ou no mar. Raramente, ou nunca, tem morada na praia; mas em lugares no meio das águas, e assim, geralmente, em ilhotas rochosas, cercadas pelas ondas. Entendemos, pois, que o rochedo é a morada própria do mergulhão; ele jamais habita mais seguro do que no rochedo. Em que espécie de rochedo? Um posto no mar. E, se é açoitado pelas ondas, contudo quebra as ondas, não é quebrado por elas: esta é a excelência do rochedo no mar. Quão grandes ondas açoitaram a nosso Senhor Jesus Cristo? Os judeus arremeteram contra Ele; eles se quebraram, Ele permaneceu íntegro. E que todo aquele que imita a Cristo habite assim neste mundo, isto é, neste mar, onde não pode deixar de sentir tempestades e temporais, de modo que não ceda a vento algum, a onda alguma, mas permaneça íntegro, ao enfrentar todas elas. A casa do mergulhão é, pois, forte e fraca ao mesmo tempo. O mergulhão não tem morada em lugares elevados; nada é mais firme, e nada mais humilde, do que essa morada. As andorinhas, de fato, fazem ninho nos cedros, por necessidade real: mas têm por guia aquele rochedo que é açoitado pelas ondas, e contudo não se quebra; pois imitam os sofrimentos de Cristo. ...
25. Que se segue então? "Os montes mais altos são para os cervos" (v. 18). Os cervos são poderosos, espirituais, passando em sua carreira por todos os lugares espinhosos dos matagais e bosques. "Ele fez meus pés como pés de cervas, e me colocou nas alturas." Que se apeguem aos altos montes, aos altos mandamentos de Deus; que pensem em assuntos sublimes, que se apeguem àqueles que mais se destacam nas Escrituras, que sejam justificados nas coisas mais elevadas: pois aqueles montes mais altos são para os cervos. E quanto aos animais humildes? Quanto à lebre? Quanto ao ouriço? A lebre é animal pequeno e fraco: o ouriço, por sua vez, é espinhoso: um é animal tímido, o outro é coberto de espinhos. Que significam os espinhos, senão os pecadores? Aquele que peca diariamente, ainda que não em grandes pecados, está coberto dos menores espinhos. Em sua timidez, é lebre; em estar coberto dos mínimos pecados, é ouriço: e não pode ele se apegar àqueles altos e perfeitos mandamentos. Pois "os montes mais altos são para os cervos". Que dizer então? Perecem eles? Não. Pois assim "é o rochedo refúgio para os ouriços e para as lebres". Porque o Senhor é refúgio para os pobres. Coloca esse rochedo sobre a terra, é refúgio para ouriços e para lebres; coloca-o no mar, é a casa do mergulhão. Em toda parte o rochedo é útil. Mesmo nos montes é útil: pois os montes, sem o alicerce do rochedo, cairiam no abismo. ...
26. "Ele designou a lua para as estações certas" (v. 19). Entendemos espiritualmente a Igreja, que cresce a partir da menor grandeza, e envelhece, por assim dizer, a partir da mortalidade desta vida; mas de tal modo que se aproxima cada vez mais do Sol. Não falo desta lua visível aos olhos, mas daquela que é significada por este nome. Enquanto a Igreja estava nas trevas, enquanto ainda não aparecia, ainda não resplandecia, os homens eram enganados, e se dizia: Esta é a Igreja, aqui está Cristo; de modo que, "enquanto a lua estava escura, atiravam suas flechas contra os retos de coração". Quão cego é aquele que agora, quando a lua está cheia, ainda erra desgarrado? "Ele designou a lua para as estações certas." Pois aqui a Igreja está temporariamente passando: porque esta sujeição à morte não permanecerá para sempre: haverá algum dia um fim para o crescer e minguar; está designado para as estações certas. "E o sol conhece o seu ocaso." E que sol é este, senão aquele Sol de justiça, que os ímpios lamentarão no dia do juízo, por jamais ter nascido para eles; eles que dirão naquele dia: "Por isso nos desviamos do caminho da verdade, e a luz da justiça não brilhou sobre nós, e o sol não se levantou para nós." Aquele sol nasce para quem entende a Cristo. ...
27. Nem penseis, irmãos, que o sol deva ser adorado por alguns homens, porque o sol às vezes, nas Escrituras, significa Cristo. Tal é, com efeito, a loucura dos homens; como se disséssemos que uma criatura devesse ser adorada, quando se diz que o sol é figura de Cristo. Adorai, então, também o rochedo, pois ele também é figura de Cristo. "Foi levado como cordeiro ao matadouro": adorai também o cordeiro, já que é figura de Cristo. "O Leão da tribo de Judá prevaleceu": adorai também o leão, já que significa Cristo. Vede quão numerosas são as figuras de Cristo: todas elas são Cristo por semelhança, não por essência. ...
28. Que dizer, pois, quando o sol se pôs, quando o nosso Senhor padeceu? Houve uma espécie de treva entre os Apóstolos, faltou a esperança naqueles a quem Ele, a princípio, parecera grande, e Redentor de todos os homens. Como assim? "Fizeste as trevas, e fez-se noite; nela se moverão todos os animais do bosque" (v. 20). ...Aqui os animais do bosque são empregados de modos diversos: pois estas coisas são sempre entendidas em sentidos variados; assim como o próprio Senhor é ora chamado leão, ora cordeiro. Que há de mais diferente do que um leão e um cordeiro? Mas que espécie de cordeiro? Um que pôde vencer o lobo, vencer o leão. Ele é a Pedra, Ele o Pastor, Ele a Porta. O Pastor entra pela porta: e Ele diz: "Eu sou o bom Pastor"; e: "Eu sou a Porta das ovelhas." ...Aprendei assim a entender, quando estas coisas são ditas figuradamente; para que não suceda que, tendo lido que a Pedra significa Cristo, entendais que Ele é assim significado em toda passagem. Em um lugar significa uma coisa, em outro, outra, assim como só podemos compreender o sentido de uma letra vendo sua posição. "Os filhotes do leão, rugindo atrás de sua presa, buscam de Deus o seu sustento" (v. 21). Justamente, pois, o nosso Senhor, quando próximo do seu ocaso, o próprio Sol de justiça reconhecendo o seu ocaso, disse a seus discípulos, como se, estando prestes a vir a treva, o leão fosse rondar buscando a quem devorar, que aquele leão a nenhum homem poderia devorar, senão com licença: "Simão", disse Ele, "esta noite Satanás vos desejou ter, para vos peneirar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça." Quando Pedro negou três vezes, não estava ele já entre os dentes do leão? ...
29. "O sol se levantou, e eles se recolhem juntos, e se deitam em seus covis" (v. 22). Cada vez mais, à medida que o sol se levanta, de modo que Cristo é reconhecido pelo mundo inteiro, e nele é glorificado, os filhotes do leão se recolhem juntos; aqueles demônios se retiram da perseguição da Igreja, os quais instigavam os homens a perseguir a casa de Deus, operando nos filhos da incredulidade. Agora que nenhum deles ousa perseguir a Igreja, "o sol se levantou, e eles se recolhem juntos". E onde estão eles? "E se deitam em seus covis." Seus covis são os corações dos incrédulos. Quantos há que trazem leões agachados em seus corações? Não irrompem dali, não fazem investida alguma contra a peregrina Jerusalém. Por que não o fazem? Porque o sol já se levantou, e resplandece sobre o mundo inteiro.
30. Que fazes tu, ó homem de Deus? tu, ó Igreja de Deus? que és tu, ó corpo de Cristo, cuja Cabeça está no Céu? que fazes tu, ó homem, sua unidade? "O homem", diz ele, "sairá para o seu trabalho" (v. 23). Que este homem, pois, trabalhe boas obras na segurança da paz da Igreja, que trabalhe até o fim. Pois haverá, algum dia, uma espécie de escurecimento geral, e será feita uma espécie de assalto, mas à tarde, isto é, no fim do mundo: mas agora a Igreja trabalha em paz e tranquilidade; pois "o homem sairá para o seu trabalho, e para a sua labuta, até a tarde".
31. "Ó Senhor, quão grandes se fizeram as Tuas obras!" (v. 24). Justamente grandes, justamente sublimes! Onde foram feitas essas obras, que são tão grandes? Qual era aquela posição em que Deus estava, ou aquele assento sobre o qual Ele se assentava, quando fez essas obras? Qual era o lugar onde Ele assim operou? De onde procederam a princípio obras tão belas? Para tomá-lo palavra por palavra, toda criação ordenada, correndo por ordenação, bela por ordenação, nascendo por ordenação, pondo-se por ordenação, atravessando todas as estações por ordenação, de onde procedeu ela? De onde recebeu a própria Igreja o seu início, o seu crescimento, a sua perfeição? De que modo está ela destinada a uma consumação na imortalidade? Com que arauto é ela pregada? Por que mistérios é ela recomendada? Por que figuras é ela ocultada? Por que pregação é ela revelada? Onde fez Deus estas coisas? Vejo grandes obras. "Quão grandes se fizeram as Tuas obras, ó Senhor!" Pergunto onde Ele as fez: não acho o lugar; mas vejo o que se segue: "Em sabedoria fizeste todas elas." Tudo, pois, fizeste Tu em Cristo. ..."A terra está cheia da Tua criação." A terra está cheia da criação de Cristo. E como assim? Discernimos como: pois que não foi feito pelo Pai por meio do Filho? Tudo o que anda e rasteja sobre a terra, tudo o que nada nas águas, tudo o que voa no ar, tudo o que gira no céu, quanto mais, pois, a terra, o universo inteiro, é obra de Deus. Mas parece-me que ele fala aqui de alguma nova criação, da qual o Apóstolo diz: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas velhas passaram; eis que todas as coisas se fizeram novas. E todas as coisas são de Deus." Todos os que creem em Cristo, que despiram o velho homem e vestiram o novo, são nova criatura. "A terra está cheia das Tuas obras." Em um só ponto da terra Ele foi crucificado, em um só e pequeno lugar caiu na terra aquela semente, e morreu; mas produziu grande fruto. ...
32. "A terra está cheia da Tua criação." De que criação Tua está cheia a terra? De todas as árvores e arbustos, de todos os animais e rebanhos, e de toda a raça humana; a terra está cheia da criação de Deus. Vemos, conhecemos, lemos, reconhecemos, louvamos, e nestas coisas O pregamos; contudo não somos capazes de louvar a respeito destas coisas tão plenamente quanto o nosso coração transborda de louvor após a bela contemplação delas. Mas devemos antes atentar àquela criação da qual o Apóstolo diz: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas velhas passaram; eis que todas as coisas se fizeram novas." Que "coisas velhas passaram"? Nos gentios, toda a idolatria; nos próprios judeus, toda aquela servidão à Lei, todos aqueles sacrifícios que eram precursores do Sacrifício presente. A velhice do homem era então abundante; Um veio para renovar a Sua própria obra, para fundir a Sua prata, para formar a Sua moeda, e vemos agora a terra cheia de cristãos que creem em Deus, afastando-se de sua antiga impureza e idolatria, de uma esperança passada para a esperança de uma nova era: e eis que isto ainda não se realizou, mas já se possui em esperança, e por meio dessa mesma esperança agora cantamos e dizemos: "A terra está cheia da Tua criação." Não cantamos isto ainda em nossa pátria, nem tampouco naquele descanso que é prometido, não estando ainda fixados os ferrolhos das portas de Jerusalém; mas ainda em nossa peregrinação, contemplando todo este mundo, os homens que de todos os lados correm para a fé, temendo o inferno, desprezando a morte, amando a vida eterna, desdenhando o presente, e cheios de alegria com tal espetáculo, dizemos: "A terra está cheia da Tua criação."
33. ..."Assim é também o mar, grande e vasto; nele há coisas que se movem sem número, tanto pequenos como grandes animais" (v. 25). Ele fala do mar como coisa terrível. Ciladas rastejam neste mundo, e surpreendem de súbito os incautos; pois quem numera as tentações que rastejam? Elas rastejam, mas cuidado, para que não nos arrebatem. Guardemos vigília sobre o Madeiro; mesmo na água, mesmo sobre as ondas, estamos seguros: que Cristo não durma, que a fé não durma; se Ele dormiu, que seja despertado; Ele ordenará aos ventos; Ele acalmará o mar; a travessia terá fim, e nos alegraremos em nossa pátria. Pois vejo neste mar terrível ainda os incrédulos; pois habitam em águas estéreis e amargas: mas são tanto pequenos como grandes. Sabemos isto: muitos homens pequenos deste mundo ainda são incrédulos, muitos homens grandes deste mundo o são também: há seres viventes, tanto pequenos como grandes, neste mar. Odeiam a Igreja: o nome de Cristo lhes é um fardo: não se enfurecem, porque não lhes é permitido; a crueldade que não pode irromper em atos fica encerrada no coração. Pois todos, sejam pequenos ou grandes, "coisas rastejantes, tanto pequenas como grandes", os que no presente se afligem por se fecharem os templos, se derrubarem os altares, se quebrarem as imagens, pelas leis que fazem da idolatria crime capital; todos os que por isso se lamentam, ainda estão no mar. Que dizer, então, de nós? E por que caminho, então, havemos de viajar até a nossa pátria? Por este mesmo mar, mas sobre o Madeiro. Não temas o perigo; aquele madeiro que sustém unido o mundo também te sustém a ti.
34. "Ali andarão os navios" (v. 26). Eis que os navios flutuam sobre aquilo que te aterrorizava, e não naufragam. Por navios entendemos as igrejas; elas navegam entre as tormentas, entre as tempestades das tentações, entre as ondas do mundo, entre as feras, tanto pequenas quanto grandes. Cristo, sobre o lenho de Sua cruz, é o Piloto. "Ali andarão os navios." Não temam os navios, não se importem tanto com o lugar onde flutuam, mas Sim com Quem os governa. "Ali andarão os navios." Que travessia acham tediosa, quando sentem que Cristo é seu Piloto? Navegarão em segurança; que naveguem com diligência; alcançarão o porto prometido, serão conduzidos à terra do repouso.
35. Há também naquele mar algo que transcende todas as criaturas, pequenas e grandes. Que é isto? Ouçamos o Salmo: "Ali está aquele Leviatã, que Tu formaste para com ele brincar." Há répteis inumeráveis, tanto pequenas quanto grandes feras; ali andarão os navios, e não temerão, não somente os répteis inumeráveis, e as feras pequenas e grandes, mas nem sequer a serpente que ali está; "a qual Tu," diz ele a Deus, "formaste para com ela brincar." Este é um grande mistério; e, contudo, estou para dizer o que já sabeis. Sabeis que certa serpente é inimiga da Igreja: não a vistes com os olhos da carne, mas a vedes com os olhos da fé. ...
36. Esta serpente, pois, nosso antigo inimigo, ardendo de furor, astuta em suas ciladas, está no mar poderoso. "Ali está aquele Leviatã, que Tu formaste para com ele brincar." Brinca tu agora com a serpente: pois para este fim foi feita esta serpente. Ela, caindo por seu próprio pecado das sublimes regiões dos céus, e feita demônio em vez de anjo, recebeu certa região própria neste mar grande e espaçoso. O que julgas ser seu reino, é sua prisão. Pois muitos dizem: por que recebeu o demônio tão grande poder, que possa reinar neste mundo, e tanto prevaleça, tanto possa? Quanto prevalece ele? Quanto pode ele? A não ser por permissão, nada pode. Faze tu de modo que ele não seja permitido a atacar-te; ou se lhe for permitido tentar-te, que se retire vencido, e não te ganhe. Pois foi-lhe permitido tentar alguns santos varões, servos de Deus: eles o venceram, porque não se desviaram do caminho; aqueles cujo calcanhar ele espreitava, não caíram. ...
37. Aquele, pois, meus irmãos, que deseja vigiar a cabeça da serpente, e passar em segurança por este mar; pois é necessário que esta serpente habite aqui, e, como eu havia começado a dizer, o demônio, quando caiu do céu, recebeu esta região; que vigie sua cabeça, no tocante ao temor do mundo e às concupiscências do mundo. Pois é dali que ele sugere algum objeto de temor ou de desejo; ele põe à prova teu amor, ou teu temor. Se temes o inferno, e amas o reino de Deus, vigiarás sua cabeça. ..."Não há poder senão de Deus." Que temes, pois? Que o dragão esteja nas águas, que o dragão esteja no mar: tu hás de atravessá-lo. Ele foi feito para ser objeto de zombaria, foi ordenado a habitar este lugar, esta região lhe foi dada. Julgas que esta habitação é grande coisa para ele, porque não conheces as moradas dos anjos de onde caiu: o que te parece sua glória, é sua condenação.
38. ...Que temes, pois? Talvez ele esteja para provar tua carne: é o açoite de teu Senhor, não o poder de teu tentador. Sua vontade é ferir aquela salvação que é prometida: mas não lhe é permitido; mas, para que não lhe seja permitido, tem a Cristo por tua Cabeça: repele a cabeça da serpente: não consintas à sua sugestão, não escorregues de teu caminho. "Ali está aquele Leviatã, que Tu formaste para com ele brincar."
39. Queres ver quão incapaz ele é de ferir-te, a não ser que seja permitido? "Estes," diz ele, "todos esperam em Ti, para que lhes dês o mantimento a seu tempo" (v. 27). E esta serpente deseja devorar, mas não devora a quem deseja. ...Ouviste qual é o mantimento da serpente. Não queiras que Deus te dê para seres devorado pela serpente; porque não é alimento da serpente: isto é, não abandones a Palavra de Deus. Pois onde se diz à serpente, "Pó comerás," diz-se ao transgressor, "Pó és, e ao pó voltarás." Não queres ser mantimento da serpente? Não sejas pó. Como, replicas tu, não serei pó? Se não tiveres gosto pelas coisas terrenas. Ouve o Apóstolo, para que não sejas pó. Pois o corpo que trajas é terra: mas recusa-te tu a ser terra. Que significa isto? "Pensai nas coisas de cima, não nas que são da terra." Se não puseres tuas afeições nas coisas terrenas, não és terra: se não és terra, não és devorado pela serpente, cujo alimento designado é a terra. O Senhor dá à serpente seu alimento quando quer, o que quer: mas julga retamente, não pode ser enganado, não lhe dá ouro por terra. "Quando lho tens dado, eles o recolhem." ...
40. "Quando abres a Tua mão, todos se fartam de bens" (v. 28). Que é isto, ó Senhor, que abres Tua mão? Cristo é Tua mão. "A quem foi revelado o braço do Senhor?" A quem é revelado, a esse é aberto: pois a revelação é abertura. "Quando abres Tua mão, todos se fartam de bens." Quando revelas o Teu Cristo, "todos se fartam de bens." Mas não têm o bem de si mesmos; isto lhes é muitas vezes provado. "Quando escondes o Teu rosto, ficam perturbados" (v. 29). Muitos, fartos de bens, atribuíram a si mesmos o que tinham, e quiseram gloriar-se como em suas próprias justiças, e disseram a si mesmos: sou justo, sou grande; e tornaram-se autocomplacentes. A estes fala o Apóstolo: "Que tens tu, que não recebeste?" Mas Deus, querendo provar ao homem que tudo quanto tem, o tem d'Ele, de modo que com o bem ganhe também a humildade, às vezes o perturba; volta d'ele Sua face, e ele cai em tentação; e mostra-lhe que sua justiça, e seu bem proceder, estavam somente sob Seu governo. ...
41. Mas por que fazes isto? por que escondes Teu rosto, para que fiquem perturbados? "Tirar-lhes-ás o fôlego, e desfalecerão." Seu fôlego era seu orgulho; eles se vangloriam, atribuem as coisas a si mesmos, justificam-se a si mesmos. Esconde, pois, Teu rosto, para que fiquem perturbados: tira-lhes o fôlego, e que desfaleçam; que clamem a Ti: "Ouve-me, Senhor, e depressa, pois meu espírito desfalece; não escondas de mim Teu rosto." "Tirar-lhes-ás o fôlego, e desfalecerão, e voltarão ao seu pó." O homem que se arrepende de seu pecado descobre em si mesmo que não tinha força própria; e confessa a Deus, dizendo que é terra e cinza. Ó soberbo, tu voltaste ao teu próprio pó, teu fôlego te foi tirado; já não te vanglorias, já não te exaltas, já não te justificas; vês que és feito de pó, e quando o Senhor volta Sua face, caíste de volta em teu próprio pó. Ora, pois, confessa teu pó e tua fraqueza.
42. E vede o que se segue: "Enviarás o Teu Espírito, e serão criados" (v. 30). Tirar-lhes-ás o espírito, e enviarás o Teu próprio: tirar-lhes-ás o espírito: não terão espírito próprio. Estarão, pois, desamparados? "Bem-aventurados os pobres de espírito:" mas não estão desamparados. Recusaram ter espírito próprio: terão o Espírito de Deus. Tais foram as palavras de nosso Senhor aos futuros mártires: "Não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós." Não atribuais a vós mesmos vossa coragem. Se é vossa, diz Ele, e não Minha, é obstinação, não coragem. "Pois somos feitura Sua," diz o Apóstolo, "criados para boas obras." De Seu Espírito recebemos a graça, para que vivamos para a justiça: pois é Ele que justifica o ímpio. "Tirar-lhes-ás o espírito, e desfalecerão; enviarás o Teu Espírito, e serão criados: e renovarás a face da terra:" isto é, com homens novos, confessando-se justificados, não justos por poder próprio, de modo que a graça de Deus está neles. Que se segue, então? Quando Ele nos tiver tirado o espírito, tornaremos ao nosso pó, contemplando para nossa edificação nossa fraqueza, para que, quando recebermos Seu Espírito, sejamos reanimados. Vede o que se segue: "Seja a glória do Senhor para sempre" (v. 31). Não tua, não minha, não dele ou daquele; não por um tempo, mas "para sempre." "O Senhor Se alegrará em Suas obras." Não nas tuas, como se fossem tuas: porque, se tuas obras são más, é por tua iniquidade; se boas, é pela graça de Deus. "O Senhor Se alegrará em Suas obras."
"O que olha para a terra, e ela treme; o que toca os montes, e eles fumegam" (v. 32). Os montes eram soberbos, e se vangloriavam de si mesmos; Deus ainda não os havia tocado. Ele os toca, e eles fumegam. Que significa o fumegar dos montes? Que oram ao Senhor. Eis que grandes montes, montes soberbos, vastos montes, não oravam a Deus: queriam ser eles mesmos rogados, e não rogavam Àquele que estava acima deles. Pois que homem poderoso, arrogante, soberbo existe sobre a terra que se digne humildemente a rogar a Deus? Falo dos ímpios, não dos "cedros do Líbano, que o Senhor plantou". Todo ímpio, alma infeliz, não sabe rogar a Deus, ao passo que deseja ser rogado pelos homens. Ele é um monte; é necessário que Deus o toque, para que fumegue: quando houver começado a fumegar, oferecerá orações a Deus, como que o sacrifício de seu coração. Fumega para Deus, então fere o peito; começa a chorar, pois a fumaça faz brotar as lágrimas.
43. "O que olha para a terra, e ela treme; o que toca os montes, e eles fumegam" (v. 32). Ó terra, tu te exultavas em teu bem, a ti mesma atribuías tua plenitude e opulência; eis que o Senhor olha para ti, e te faz tremer. Que Ele olhe para ti, e te faça tremer: pois o tremor da humildade é melhor que a confiança da soberba. ...Pois é Deus, diz ele, que opera em vós. Por esta razão, pois, com tremor, porque Deus opera em vós. Porque Ele deu, porque o que tens não vem de ti, hás de operar com temor e tremor, pois se não O temeres, Ele tomará de volta o que deu. Opera, portanto, com tremor. Ouve outro Salmo: "Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos Nele com tremor." Se devemos alegrar-nos com tremor, Deus nos contempla, sobrevém um terremoto; quando Deus olha para nós, que tremam os nossos corações; então Deus repousará ali. Ouve-O em outra passagem: "Sobre quem repousará o Meu Espírito? Sobre aquele que é humilde e quieto, e que treme diante da Minha Palavra."
44. "Cantarei ao Senhor em minha vida" (v. 33). Que cantará? Tudo o que estiver disposto. Cantemos ao Senhor em nossa vida. Nossa vida no presente é somente esperança; nossa vida será eternidade no porvir: a vida da vida mortal é a esperança de uma vida eterna. "Louvarei ao meu Deus enquanto eu existir." Visto que estou n'Ele pelos séculos dos séculos, enquanto eu existir, louvarei ao meu Deus. Não imaginemos que, quando começarmos a louvar a Deus naquele estado, teremos alguma outra obra: toda a nossa vida será para os louvores de Deus. Se nos cansarmos d'Aquele a quem louvamos, poderemos também cansar-nos de louvar. Se Ele é amado sempre, é louvado por nós sempre.
45. "Seja-Lhe agradável o meu discurso: meu gozo será no Senhor" (v. 34). Que é o discurso do homem a Deus, senão a confissão dos pecados? Confessa a Deus o que és, e terás discorrido com Ele. Discorre a Ele, faze boas obras, e discorrerás. "Lavai-vos, purificai-vos," diz Isaías. Que é discorrer a Deus? Desvenda-te a Quem te conhece, para que Ele Se desvende a ti, que não O conheces. Eis que é teu discurso que agrada ao Senhor; a oferenda de tua humildade, a tribulação de teu coração, o holocausto de tua vida, isto agrada a Deus. Mas que é agradável a ti mesmo? "Meu gozo será no Senhor." Este é aquele discorrer que eu quis dizer entre Deus e ti mesmo: mostra-te a Quem te conhece, e Ele Se mostra a ti, que não O conheces. Agradável a Ele é tua confissão: doce a ti é Sua graça. Ele falou de Si mesmo a ti. Como? Pelo Verbo. Que Verbo? Cristo. ...
46. "Sejam os pecadores consumidos da terra" (v. 35). Parece irado! Ó alma santa, que aqui canta e geme! Quisera que nossa alma estivesse com aquela mesma alma! Quisera que estivesse a ela ligada, associada, unida! Contemplará também Sua benignidade quando estiver irado. Pois quem, senão aquele que está cheio de caridade, entende isto? Tremes, porque ele amaldiçoa. E quem amaldiçoa? Um santo. Sem dúvida é ouvido. Mas está dito aos santos: "Abençoai, e não amaldiçoeis." Qual é, pois, o sentido das palavras: "Sejam os pecadores consumidos da terra"? Sejam eles totalmente consumidos; seja-lhes tirado o espírito, para que Ele envie o Seu próprio Espírito, e sejam restaurados. "E os ímpios, de modo que não mais existam." Em que não mais existam, senão como homens ímpios? Sejam, pois, justificados, para que não mais sejam ímpios. O Salmista viu isto, e encheu-se de alegria, e repete o primeiro versículo do Salmo: "Bendize, ó minha alma, ao Senhor." Bendiga nossa alma ao Senhor, irmãos, pois Ele Se dignou dar-nos tanto o entendimento quanto o poder da linguagem, e a vós a atenção e o zelo em ouvir. Que cada um, conforme puder recordar o que ouviu, pela conversação mútua reavive o alimento que recebestes, rumine o que ouvistes, não desça em vós às entranhas do esquecimento. Repouse sobre vossos lábios o tesouro a ser desejado. Estas matérias foram buscadas e descobertas com grande labor, com grande labor foram anunciadas e discorridas; que nosso labor vos seja frutífero, e que nossa alma bendiga ao Senhor.
1. Este Salmo é o primeiro daqueles a que se antepõe a palavra Aleluia; cujo significado, ou antes, das duas palavras, é: Louvai ao Senhor. Por esta razão começa ele com louvores: "Confessai-vos ao Senhor, e invocai o Seu Nome" (v. 1); pois esta confissão deve entender-se como louvor, assim como estas palavras de nosso Senhor: "Eu Te confesso, ó Pai, Senhor do céu e da terra." Pois, depois de começar com louvor, costuma seguir-se a invocação a Deus, à qual aquele que ora acrescenta em seguida seus anseios: donde a própria Oração do Senhor tem no início um louvor brevíssimo, nestas palavras: "Pai nosso, que estás nos Céus." Seguem-se, então, as coisas pedidas. ...Segue-se também isto: "Anunciai aos povos o que Ele fez;" ou antes, traduzindo literalmente do grego, como também trazem outros exemplares latinos: "Pregai o Evangelho de Suas obras entre os Gentios." A quem se dirige isto, senão aos Evangelistas em profecia?
Cantai-Lhe, e salmodiai-Lhe (v. 2). Louvai-O tanto pela palavra quanto pela obra; pois cantamos com a voz, ao passo que salmodiamos com um instrumento, isto é, com as mãos. "Falai de todas as suas maravilhas. Gloriai-vos em seu santo Nome" (v. 3). Estes dois versículos podem, sem qualquer absurdo, parecer paráfrases das duas palavras acima; de modo que "Falai de todas as suas maravilhas" possa exprimir as palavras "Cantai-Lhe"; e o que se segue, "gloriai-vos em seu santo Nome", possa reportar-se às palavras "e salmodiai-Lhe" — aquela relativa à boa palavra com que Lhe cantamos, na qual se narram as suas maravilhas; esta à boa obra, na qual se Lhe salmodeia doce música, de modo que ninguém deseje ser louvado por uma boa obra em razão do próprio poder de a realizar. Por esta razão, depois de dizer "gloriai-vos", o que certamente podem merecidamente aqueles que operam o bem, acrescentou "em seu santo Nome", pois "quem se gloria, glorie-se no Senhor". ...Isto é ser louvado em seu santo Nome. Donde lemos também em outro Salmo: "Minha alma será louvada no Senhor: ouçam-no os mansos, e alegrem-se"; o que aqui de certo modo se segue: "Alegre-se o coração dos que buscam o Senhor"; pois assim se alegram os mansos, que não rivalizam com amarga inveja com aqueles a quem imitam como já operadores do bem.
3. "Buscai o Senhor, e sede fortalecidos" (v. 4). Isto é interpretado bem literalmente do grego, ainda que possa parecer não ser palavra latina; donde outros exemplares trazem "sede confirmados"; outros, "sede corroborados". ...Ora, enquanto estas palavras, "Vinde a Ele, e sede iluminados", se referem ao ver, aquelas do texto dizem respeito ao agir: "Buscai o Senhor, e sede fortalecidos". ...Mas que significa "Buscai sempre a sua face"? Sei, na verdade, que apegar-me a Deus é bom para mim; mas se Ele é sempre buscado, quando é encontrado? Quereria ele dizer, por "sempre", toda a vida que vivemos aqui, donde nos tornamos cientes de que devemos assim buscá-l'O, posto que, mesmo achado, Ele ainda há de ser buscado? A saber, a fé já O achou, mas a esperança ainda O busca. Já a caridade tanto O achou pela fé quanto busca possuí-l'O pela visão, onde então será achado de modo a satisfazer-nos, sem que mais precisemos buscá-l'O. Pois, se a fé não O tivesse descoberto nesta vida, não se diria "Buscai o Senhor". Também, se, uma vez descoberto pela fé, Ele não devesse ainda ser diligentemente buscado, não se diria: "Pois, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos". ...E, na verdade, este é o sentido das palavras "Buscai sempre a sua face": que a descoberta não deveria pôr termo àquela busca pela qual a caridade se testemunha, mas que, com o crescimento da caridade, deveria crescer a busca d'Aquele já descoberto.
4. "Lembrai-vos", diz ele, "das suas maravilhas que fez, dos seus prodígios, e dos juízos de sua boca" (v. 5). Esta passagem parece semelhante àquela: "Dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós" — expressão que dificilmente alguma mente abarca, ainda que em ínfima parte. Depois, mencionando o seu próprio Nome, misericordiosamente O misturou com a sua graça para com os homens, dizendo: "Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó; este é o meu Nome para sempre." Por isto quis que se entendesse que aqueles de quem se declarou Deus viviam com Ele para sempre; e disse isto, que até as crianças poderiam entender, para que aqueles que, pelas grandes forças do amor, souberam buscar sua face para sempre, pudessem, segundo a sua capacidade, compreender: Eu Sou o que Sou.
5. A quem se diz: "Ó vós, semente de Abraão seu servo, filhos de Jacó, seus eleitos"? (v. 6). ...Em seguida acrescenta: "Ele é o Senhor nosso Deus: os seus juízos estão em toda a terra" (v. 7). Acaso é Ele o Deus somente dos judeus? De modo nenhum! "Ele é o Senhor nosso Deus": porque a Igreja, onde os seus juízos são pregados, está em toda a terra. ...
6. "Ele se lembrou sempre da sua aliança" (v. 8). Outros exemplares trazem "para sempre"; e isto provém da ambiguidade do grego. Mas, se devemos entender "sempre" a respeito deste mundo, e não da eternidade, por que, quando explica de que aliança se lembrou, acrescenta: "A palavra que ordenou para mil gerações"? Ora, isto pode entender-se com certa limitação; mas ele diz em seguida: "A saber, a aliança que fez com Abraão" (v. 9); "e o juramento que jurou a Isaac; e a estabeleceu para Jacó como lei, e para Israel como testamento eterno" (v. 10). Mas, se nesta passagem se deve entender o Antigo Testamento, por causa da terra de Canaã — pois assim corre a linguagem do Salmo: "dizendo: A ti darei a terra de Canaã: a porção da vossa herança" (v. 11) — como se há de entender isto como eterno, visto que aquela herança terrena não poderia ser eterna? E por esta razão se chama Antigo Testamento, porque é abolido pelo Novo. Mas mil gerações não parecem significar nada de eterno, visto que envolvem um fim; e, contudo, são também numerosas demais para este estado meramente temporal. Pois, por poucos anos que se limite uma geração — a qual em grego se chama genea, cujo período mais breve alguns fixaram em quinze anos, após o qual o homem tem o poder de gerar — que seriam, então, aquelas "mil gerações", não somente desde o tempo de Abraão, quando lhe foi feita aquela promessa, até o Novo Testamento, mas desde o próprio Adão até o fim do mundo? Pois quem ousaria dizer que este mundo deveria durar 15.000 anos? Donde me parece que não devemos aqui entender o Antigo Testamento, do qual se disse, por meio do profeta, que seria cancelado pelo Novo: "Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei uma nova aliança". ...Depois de dizer "Ele se lembrou da sua aliança para sempre" — o que devemos entender como durando eternamente, a saber, a aliança da justificação e de uma herança eterna, que Deus prometeu à fé — acrescenta: "e a palavra que ordenou para mil gerações". Que significa "ordenou"? ...A ordem, então, era a fé, que o justo viveria pela fé; e uma herança eterna é proposta a esta fé. "Mil gerações", pois, devem entender-se, por causa do número perfeito, como significando todas; isto é, enquanto geração suceder a geração, tanto tempo nos é ordenado viver pela fé. Isto observa o povo de Deus, os filhos da promessa, que se sucedem pelo nascimento e partem pela morte, até que se complete cada geração; e isto é significado pelo número mil, porque o quadrado sólido do número dez, dez vezes dez, e este tomado dez vezes, perfaz mil. "A saber, a aliança", diz ele, "que fez com Abraão: e o juramento que jurou a Isaac; e a estabeleceu para Jacó" — isto é, para o próprio Jacó — "como lei". Estes são os próprios três patriarcas, cujo Deus Ele se chama em sentido especial, os quais o Senhor também nomeia no Novo Testamento, onde diz: "Muitos virão do oriente e do ocidente, e se assentarão com Abraão, Isaac e Jacó, no reino dos céus." Esta é a herança eterna. ...
7. Ele passa em seguida a narrar a história bem conhecida na verdade das Sagradas Escrituras. "Quando eram em pequeno número, pouquíssimos, e peregrinos na terra" (v. 12); isto é, na terra de Canaã. ...Mas alguns exemplares trazem as palavras "pouquíssimos, e peregrinos" no caso acusativo, tendo o tradutor vertido a frase grega demasiado literalmente para o latim. Se quiséssemos traduzir toda a cláusula deste modo, deveríamos dizer "que eram pouquíssimos, e peregrinos"; mas a frase "enquanto eram" é o sentido do grego; e o verbo "ser" não rege acusativo, mas nominativo depois de si.
8. "Ao tempo em que passavam de uma nação para outra, de um reino para outro povo" (v. 13). Isto é uma repetição do que havia dito: "de uma nação para outra". "Não permitiu que ninguém lhes fizesse mal: antes repreendeu até reis por causa deles" (v. 14). "Não toqueis", disse Ele, "nos meus ungidos, e não façais mal aos meus profetas" (v. 15). Ele declara as palavras de Deus increpando ou repreendendo reis, para que não fizessem mal aos santos patriarcas, enquanto eram em pequeno número, pouquíssimos, e peregrinos na terra de Canaã. Ainda que estas palavras não se leiam nos livros daquela história, devem contudo entender-se como secretamente ditas — como Deus fala nos corações dos homens por visões invisíveis e verdadeiras —, ou mesmo como anunciadas por meio de um Anjo. Pois tanto o rei de Gerara quanto o rei dos egípcios foram advertidos do Céu para que não fizessem mal a Abraão, e outro rei para que não fizesse mal a Isaac, e outros para que não fizessem mal a Jacó; enquanto eram pouquíssimos, e peregrinos, antes que ele passasse ao Egito para peregrinar com os seus filhos: o que se entende ser aqui mencionado. Mas, como ocorreu perguntar como, antes que passassem e se multiplicassem no Egito, tão poucos em número, e peregrinos numa terra estrangeira, pudessem manter-se, acrescenta em seguida: "Não permitiu que ninguém lhes fizesse injustiça", etc.
9. Mas bem pode suscitar uma questão em que sentido eram chamados (Cristos, ou) ungidos, antes que houvesse qualquer unção, da qual este título foi dado aos reis? ...Donde, pois, eram então chamados "ungidos" aqueles patriarcas? Pois que eram profetas, o lemos a respeito de Abraão; e certamente o que dele se diz manifestamente deve entender-se também a respeito deles. Serão chamados "cristos" porque, ainda que secretamente, já eram cristãos? Pois, embora a carne de Cristo viesse deles, Cristo, contudo, veio antes deles; pois assim respondeu Ele aos judeus: "Antes que Abraão existisse, Eu Sou." Mas como poderiam não O conhecer, ou não crer n'Ele, visto que são chamados profetas exatamente por isto, porque, ainda que de modo algo obscuro, anunciaram de antemão o Senhor? Donde Ele mesmo diz abertamente: "Abraão, vosso pai, desejou ver o meu dia, e o viu, e se alegrou." Pois nenhum homem jamais foi reconciliado com Deus fora daquela fé que está em Cristo Jesus, seja antes da sua Encarnação, seja depois; como muito verdadeiramente o define o Apóstolo: "Pois há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus."
10. Ele então começa a relatar como aconteceu que passassem de uma nação para outra, de um reino para outro povo. "Ele chamou", diz, "a fome sobre a terra: e quebrou todo o sustento do pão" (v. 16). Assim aconteceu que passassem de uma nação para outra, de um reino para outro povo. Mas as expressões das Sagradas Escrituras não devem ser negligentemente passadas por alto. "Ele chamou", diz, "a fome sobre a terra", como se a fome fosse alguma pessoa, ou algum corpo animado, ou algum espírito que obedeceria a quem a chamasse. ...Sob esta impressão os antigos romanos consagraram algumas tais divindades, como a deusa Febre, e o deus Palidez. Ou significará, como é mais crível, que Ele disse que haveria fome; de modo que chamar seja o mesmo que mencionar pelo nome; mencionar pelo nome, como falar; falar, como ordenar? Nem diz o Apóstolo: "Ele chama as coisas que não são, para que sejam"; mas "como se fossem". Pois para Deus já aconteceu aquilo que, segundo a sua disposição, está fixado para o futuro; pois d'Ele se diz em outro lugar: "Aquele que fez as coisas futuras". E aqui, quando sobreveio a fome, então se diz que foi chamada, isto é, que se realizasse aquilo que fora determinado em seu governo secreto. Por fim, ele logo expõe como Ele chamou a fome, dizendo: "Ele quebrou todo o sustento do pão."
"Enviara Ele um homem diante deles" (v. 17). Que homem? "A José." Como o enviou? "José foi vendido para ser servo." Quando isto se deu, foi pecado de seus irmãos; e, contudo, Deus enviou José ao Egito. Devemos, pois, meditar neste assunto tão importante e necessário: como Deus se serve bem das obras más dos homens, assim como estes, ao contrário, se servem mal das obras boas de Deus.
Passa, em seguida, a narrar a história, mencionando o que José padeceu em seu estado de humilhação, e como foi exaltado às alturas. "Feriram-lhe os pés com grilhões; o ferro penetrou-lhe na alma, até que chegou a sua palavra" (v. 18). Que José tenha sido posto a ferros, não o lemos, na verdade; mas de modo algum devemos duvidar de que assim foi. Pois algumas coisas puderam ser omitidas naquela história, as quais, contudo, não escapariam ao Espírito Santo, que fala nestes Salmos. Entendemos pelo ferro que lhe penetrou na alma a tribulação de dura necessidade; pois não disse corpo, mas "alma". Há expressão algo semelhante no Evangelho, onde Simeão diz a Maria: "Uma espada traspassará também a tua própria alma." Isto é, a Paixão do Senhor, que foi queda para muitos, e na qual se revelaram os segredos de muitos corações, visto que lhes foram arrancados os sentimentos que tinham a respeito do Senhor, sem dúvida encheu de extrema dor a própria Mãe dEle, ferida gravemente por humano desamparo. Ora, José estava nesta tribulação "até que chegou a sua palavra", com a qual verdadeiramente interpretou os sonhos; donde foi introduzido diante do rei, para que também a ele predissesse o que haveria de suceder quanto aos seus sonhos. Mas, como disse "até que as suas palavras foram ouvidas", para que não entendêssemos "sua" de todo modo, de sorte que alguém pudesse pensar que tão grande acontecimento devesse ser atribuído ao homem, acrescentou logo: "A palavra do Senhor o inflamou" (v. 19); ou, como trazem outros exemplares mais fielmente ao grego, "A palavra do Senhor o abrasou", para que também ele fosse contado entre aqueles a quem se diz: "Recebei louvor em Seu santo Nome."
"O rei enviou e o soltou, o príncipe dos povos, e o pôs em liberdade" (v. 20). O "rei" é o mesmo que "o príncipe dos povos": "soltou-o" de suas cadeias e "pôs-no em liberdade" de seu cárcere. "Constituiu-o senhor de sua casa, e príncipe de toda a sua fazenda" (v. 21). "Para que instruísse os seus príncipes como a si mesmo, e ensinasse sabedoria a seus anciãos" (v. 22). O grego traz: "e ensinasse sabedoria a seus presbíteros." O que se poderia verter, de todo, à letra, assim: "Para que instruísse os seus príncipes como a si mesmo, e fizesse sábios os seus anciãos." Sendo a palavra traduzida por anciãos presbíteros, isto é, "presbíteros", e não gerontas, isto é, "velhos"; e "ensinar sabedoria" vindo do grego sophizein, que não se pode verter por uma só palavra em latim, e deriva-se de sophia, "sabedoria", diversa da prudência, que em grego se diz phronesis. Contudo, não lemos isto na alta elevação de José, como não lemos dos grilhões em seu estado de humilhação. Mas como poderia acontecer que tão grande homem, adorador do único Deus verdadeiro, estando no Egito, se ocupasse apenas do sustento dos corpos e do governo das coisas carnais, sem nenhum cuidado pelas almas e por como as tornar melhores? Mas aquelas coisas foram escritas naquela história que, segundo a intenção do escritor, no qual estava o Espírito Santo, foram julgadas suficientes para significar, naquela narração, os acontecimentos futuros.
"José também entrou no Egito, e Jacó foi peregrino na terra de Cam" (v. 23). Israel é o mesmo que Jacó, assim como Egito é a terra de Cam. Aqui se mostra bem claramente que a raça egípcia procedeu da semente de Cam, filho de Noé, cujo primogênito foi Canaã. De sorte que, naqueles exemplares em que, nesta passagem, se lê Canaã, devemos corrigir a leitura. Melhor se traduz "foi peregrino" do que "habitou", como trazem outros exemplares, o que equivaleria a "foi habitante", pois não significa coisa diversa; a mesmíssima palavra é usada na passagem grega acima, onde se diz: "Bem poucos, e estes peregrinos na terra." Ademais, a condição de incola ou accola não significa natural, mas peregrino. Vede como "foram de uma nação a outra." O que fora brevemente proposto foi brevemente explicado na narração. Mas bem se pode perguntar de que reino passaram a outro povo. Pois ainda não reinavam na terra de Canaã, porque ali ainda não se estabelecera o reino do povo de Israel. Como, pois, se pode entender isto, senão por antecipação, porquanto ali estava destinado a existir o reino de sua descendência?
Relata-se, em seguida, o que sucedeu no Egito. "E multiplicou", diz ele, "sobremaneira o Seu povo, e o fez mais forte que os seus inimigos" (v. 24). Também tudo isto é brevemente exposto, para que depois se relate o modo como se deu. Pois o povo de Deus não se tornou mais forte que seus inimigos, os egípcios, no tempo em que sua prole masculina era morta, ou quando se exauriam fazendo tijolos; mas quando, pela mão poderosa de Deus, pelos sinais e prodígios do Senhor seu Deus, se tornaram objeto de temor e de honra, até que fosse vencida a resistência do rei endurecido, e o mar Vermelho submergisse o perseguidor com o seu exército.
"E lhes mudou o coração, de sorte que odiassem o Seu povo, e usassem de dolo para com os Seus servos" (v. 25). Deve-se, de algum modo, entender ou crer que Deus muda o coração do homem para o pecado?... Pois não eram bons antes de odiarem o Seu povo; mas, sendo malignos e ímpios, eram tais que prontamente invejariam seus prósperos hóspedes. E assim, ao multiplicar Ele o Seu próprio povo, este ato de bondade converteu os ímpios à inveja. Pois a inveja é o ódio à prosperidade alheia. Neste sentido, portanto, mudou-lhes o coração, de modo que, por inveja, odiaram o Seu povo e usaram de dolo para com os Seus servos. Não foi, pois, tornando maus os seus corações, mas fazendo o bem ao Seu povo, que mudou para o ódio os corações destes, que já eram maus por sua própria vontade. Pois não pervertera um coração justo, mas mudou para o ódio ao Seu povo um coração que por si mesmo já estava pervertido, ao passo que Ele haveria de fazer bom uso daquele mal; não os tornando maus, mas derramando bênçãos sobre aqueles a quem os ímpios mais prontamente invejariam.
Os versículos seguintes, que se cantam em Seu louvor quando se entoa o Aleluia, mostram como Ele se serviu deste ódio deles, tanto para prova do Seu próprio povo quanto para a glória do Seu Nome, o que nos é proveitoso. "Enviou Moisés, Seu servo, e Arão, a quem escolhera a ele" (v. 26). "A quem escolhera" bastaria; mas não há dificuldade no acréscimo de "a ele". É uma locução da Escritura, como "A terra em que hão de habitar nela": locução de que estão cheias as páginas divinas.
"Expôs neles as palavras de Seus sinais, e de Seus prodígios na terra de Cam" (v. 27). Não devemos entender por "as palavras de Seus sinais" palavras à letra, palavras com que se operaram os sinais e prodígios, isto é, que proferiram para que estes sinais e prodígios se realizassem. Pois muitos foram realizados sem palavras, seja com a vara, seja com a mão estendida, seja com cinzas lançadas para o céu...
19. "Enviou trevas, e a fez escurecer" (v. 28). Isto também está escrito entre as pragas com que os egípcios foram feridos. Mas o que se segue é lido diversamente nos diferentes exemplares. Pois alguns trazem: "e provocaram as Suas palavras"; enquanto outros leem: "e não provocaram as Suas palavras"; mas a leitura primeiramente mencionada encontramo-la na maioria; ao passo que, onde se acrescenta a partícula negativa, dificilmente pudemos descobrir dois exemplares. Mas talvez a leitura falsa tenha prevalecido por causa do sentido fácil; pois que há de mais fácil entendimento do que isto: "Provocaram as Suas palavras", isto é, por suas rebeliões contumazes? Procuramos explicar também a outra leitura segundo algum sentido verdadeiro: e isto, por ora, se nos oferece: "Não provocaram as Suas palavras", isto é, em Moisés e Arão; porquanto estes suportaram com paciência gravíssima um povo sobremodo obstinado, até que se cumprissem, em sua ordem, todas as coisas que Deus determinara operar por meio deles.
20. "Converteu as suas águas em sangue, e matou os seus peixes" (v. 29). "Fez a sua terra produzir rãs, sim, até nas câmaras do rei" (v. 30): como se dissesse: converteu a sua terra em rãs. Pois era tão grande a multidão de rãs, que isto bem se poderia dizer por hipérbole.
21. "Falou a palavra, e vieram toda sorte de moscas, e piolhos em todos os seus territórios" (v. 31). Se se pergunta quando Ele falou, foi em Seu Verbo, antes que a coisa acontecesse; e ali estava, sem tempo, o tempo em que havia de acontecer: ainda que também então Ele ordenou que se fizesse, quando havia de se fazer, por meio dos Anjos, e por meio de Seus servos Moisés e Arão.
22. "Converteu as suas chuvas em saraiva" (v. 32). É expressão semelhante à anterior, "Fez a sua terra produzir rãs"; salvo que toda a terra não foi realmente convertida em rãs, ainda que toda a chuva possa ter sido convertida em saraiva. "Um fogo abrasador na sua terra": entenda-se, "Enviou".
23. "Feriu também as suas vides e figueiras; e quebrou toda árvore dos seus termos" (v. 33). Isto se fez pela violência da saraiva, e pelos relâmpagos; donde falou do fogo como "abrasador".
24. "Falou a palavra, e vieram os gafanhotos, e as lagartas, das quais não havia número" (v. 34). Os gafanhotos e as lagartas são uma só praga, da qual aquele é o progenitor, esta a prole.
25. "E comeram toda a erva da sua terra, e devoraram o fruto do seu solo" (v. 35). Até a erva é fruto, como a Escritura costuma falar, a qual chama erva até ao trigo maduro; mas quis que estas duas coisas concordassem em número com as duas que antes mencionara, isto é, o gafanhoto e a lagarta. Mas tudo isto pertence à variedade da fala, que é remédio contra o tédio, não a alguma diferença de sentidos.
26. "Feriu todo primogênito na sua terra: as primícias de todo o seu vigor" (v. 36). Esta é a última praga, exceto a morte no Mar Vermelho. "As primícias de todo o seu vigor", suponho ser expressão derivada dos primogênitos do gado. Estas pragas são dez em número, mas nem todas são mencionadas, nem na mesma ordem em que ali se lê terem acontecido. Pois o louvor está livre da lei que obriga a quem relata ou compõe uma história. E, visto que o Espírito Santo é o Autor e o Ditador, por meio do Profeta, deste louvor; com a mesma autoridade com que guiou aquele que escreveu aquela história, tanto menciona algo que se deu que ali não se lê, quanto passa por alto o que ali se lê.
27. Acrescenta ele ainda isto aos louvores de Deus: que conduziu os israelitas para fora do Egito enriquecidos de prata e ouro; porquanto estavam eles então em tal condição, que ainda não podiam desprezar a justa e devida, ainda que temporal, recompensa de seus trabalhos. ... "Tirou-os também com prata e ouro" (v. 37): também isto é idiotismo da Escritura; pois "em prata e ouro" se diz pelo mesmo que se dissesse "com prata e ouro": "não havia entre suas tribos um só que enfermasse" — no corpo, não no ânimo. Foi também esta uma grande bênção de Deus, que nesta necessidade da partida não houvesse ninguém enfermo.
28. "Alegrou-se o Egito com a sua saída, porque o seu temor caíra sobre eles" (v. 38); isto é, o temor dos hebreus caíra sobre os egípcios. Pois "o seu temor" não é aquele com que os hebreus temiam, mas aquele com que eram temidos. Dirá alguém: como, pois, se mostravam os egípcios pouco dispostos a deixá-los partir? Por que os deixavam ir como se esperassem que voltassem? Por que lhes emprestavam ouro e prata, como a homens que haviam de retornar e restituir-lhes, se "o Egito se alegrou com a sua saída"? Mas devemos entender que, depois daquela derradeira destruição dos egípcios e da terrível derrota do poderoso exército perseguidor no Mar Vermelho, os egípcios que restaram temiam que os hebreus voltassem e, com grande facilidade, esmagassem os que deles restavam: ilustrando assim o que havia declarado, que Ele tornou o seu povo mais forte que os seus inimigos.
29. Passa agora às bênçãos divinas que lhes foram conferidas enquanto peregrinavam pelo deserto. "Estendeu uma nuvem para os cobrir, e fogo para os alumiar de noite" (v. 39). Isto é tão claro quanto notório.
30. "Pediram, e veio a codorniz" (v. 40). Não desejavam codornizes, mas carne. Mas, como a codorniz é carne, e neste Salmo não fala ele da provocação dos que não agradaram a Deus, senão da fé dos eleitos, a verdadeira semente de Abraão, deve-se entender que desejaram que viesse aquilo que pudesse fazer calar os murmúrios dos que provocavam. Depois, na linha seguinte, "e os fartou com o pão do céu", não nomeou, é certo, o maná, mas isto não é obscuro a ninguém que tenha lido aqueles registros.
31. "Abriu a rocha de pedra, e correram as águas, de modo que rios corriam pelos lugares secos" (v. 41). Também este fato se compreende logo que se lê.
32. Mas em todas estas suas bênçãos, recomenda Deus, em Abraão, o mérito da fé. Pois prossegue o Salmista dizendo: "Por que razão? Lembrou-se de sua santa promessa, que fizera a Abraão, seu servo" (v. 42). "E tirou o seu povo com alegria, e os seus escolhidos com regozijo" (v. 43). O que disse "o seu povo", repetiu em "os seus escolhidos". Do mesmo modo, o que disse "com alegria", repetiu em "com regozijo". "E deu-lhes as terras das nações, e tomaram em posse os trabalhos dos povos" (v. 44). "As terras das nações" e "os trabalhos dos povos" são a mesma coisa; e as palavras "deu" repetem-se nestas, "tomaram em posse".
33. ...«Para que guardem os Seus estatutos e busquem a Sua lei» (v. 45). Por fim, uma vez que ele desejou que se entendessem aqui por semente de Abraão aqueles que eram verdadeiramente semente de Abraão, tais como não faltavam sequer naquele povo — conforme o Apóstolo Paulo claramente demonstra, quando diz: «Mas não em todos eles Se agradou Deus» —; pois se Ele não Se agradou de todos, é certo que havia alguns dos quais Se agradou: sendo, portanto, este Salmo um louvor de tais homens, nada disse ele aqui das iniquidades, das provocações e da amargura daqueles de quem Deus não Se agradou. Porém, como não somente a justiça mas também a misericórdia do Deus Todo-Poderoso, o misericordioso, foi manifestada até mesmo para com os ímpios, acerca desses atributos o restante do Salmo prossegue nos louvores de Deus. E todavia ambas as espécies se encontravam num único povo: nem os últimos contaminaram os bons com o contágio das suas iniquidades. Pois «o Senhor conhece os que são Seus» (2 Tim 2:19); e se não pode separá-los neste mundo dos homens ímpios, contudo, «todo aquele que invoca o nome de Cristo afaste-se da iniquidade» (2 Tim 2:19). ...
2. Encontro, porém, estes dois Salmos, o CV e o CVI, de tal modo conexos entre si, que no primeiro deles o povo de Deus é louvado na pessoa dos eleitos, de quem não há queixa alguma, os quais imagino terem estado presentes naqueles com quem Deus Se comprazeu; mas no Salmo seguinte são mencionados, dentro desse mesmo povo, aqueles que provocaram a Deus; sem que, todavia, a misericórdia de Deus lhes houvesse faltado. ...Começa, pois, este Salmo como o anterior: "Confessai ao Senhor." Naquele Salmo, porém, essas palavras são seguidas de: "E invocai o Seu Nome;" ao passo que aqui se lê: "Porque Ele é benigno, e a Sua misericórdia dura para sempre" (v. 1). Nesta passagem, portanto, pode-se entender uma confissão de pecados; pois, alguns versículos adiante, lemos: "Pecamos com nossos pais, agimos perversamente e praticamos a iniquidade;" mas nas palavras "Porque Ele é benigno, e a Sua misericórdia dura para sempre," há principalmente o louvor de Deus, e no Seu louvor, confissão. Embora, quando alguém confessa os seus pecados, deva fazê-lo com louvor de Deus; nem é piedosa a confissão dos pecados, senão quando feita sem desespero e com a invocação da misericórdia de Deus. Contém, portanto, o Seu louvor, seja nas palavras, quando O chama benigno e misericordioso, seja somente no sentimento interior, quando assim O crê. ...Se por misericórdia se entende aqui aquela sem a qual nenhum homem pode ser feliz sem Deus, melhor se traduz: "para sempre;" se, porém, for aquela misericórdia que se manifesta para com os miseráveis, quer para que sejam consolados na miséria, quer mesmo para que dela sejam libertados, melhor se interpreta "até o fim do mundo," no qual jamais faltarão miseráveis a quem essa misericórdia possa ser mostrada. A não ser que alguém ousasse afirmar que alguma misericórdia de Deus não faltará nem mesmo àqueles que hão de ser condenados com o diabo e seus anjos; não uma misericórdia pela qual sejam libertados dessa condenação, mas pela qual ela seja de algum modo amenizada para eles: e que assim a misericórdia de Deus possa chamar-se eterna, como exercida sobre a miséria eterna deles. ...
1. Este Salmo também tem o título Aleluia a ele prefixado: e isso duas vezes. Mas alguns dizem que um Aleluia pertence ao fim do Salmo anterior, e o outro ao início deste. E afirmam que todos os Salmos que têm este título possuem Aleluia no fim, mas não todos no início; de sorte que não admitem que qualquer Salmo que não tenha Aleluia no fim o tenha no início; supondo que o que parece pertencer ao começo pertence, na verdade, ao fim do Salmo anterior. Mas até que nos persuadam por provas seguras de que isso é verdade, seguiremos o costume geral, que, sempre que encontra Aleluia, o atribui ao mesmo Salmo à cabeça do qual se encontra. Pois há pouquíssimas cópias — e eu não o encontrei em nenhuma das cópias gregas que me foi possível examinar — que têm Aleluia ao fim do Salmo CL; após o qual não há outro que pertença ao mesmo cânone. Mas nem sequer isso poderia sobrepor-se ao costume, ainda que todas as cópias assim o tivessem. Pois poderia ser que, com alguma referência ao louvor de Deus, o livro inteiro dos Salmos — o qual se diz consistir em cinco livros, pois afirmam que os livros terminam individualmente onde está escrito Amém, Amém — fosse encerrado com este último Aleluia, após tudo o que foi cantado; nem, por causa do fim do Salmo CL, vejo necessidade de que todos os Salmos intitulados Aleluia devam ter Aleluia no fim. Mas quando há um Aleluia duplo à cabeça de um Salmo, por que razão, assim como Nosso Senhor diz por vezes uma vez, por vezes duas vezes Amém, da mesma maneira não poderia o Aleluia ser usado por vezes uma vez, por vezes duas, não o sei: sobretudo porque, como neste CV, ambos os Aleluias estão colocados após a marca pela qual se descreve o número do Salmo, ao passo que um deles, se pertencesse ao fim do Salmo anterior, deveria ter sido colocado antes do número; e o Aleluia pertencente ao Salmo deste número deveria ter sido escrito após o número. Mas talvez também nisso tenha prevalecido um hábito ignorante, e possa atribuir-se alguma razão que ainda nos é desconhecida, de modo que o juízo da verdade deveria antes ser nosso guia do que o preconceito do costume. Entretanto, antes de sermos plenamente instruídos nesta matéria, sempre que encontrarmos Aleluia escrito, quer uma vez quer duas, após o número do Salmo, segundo o costume mais habitual da Igreja, atribuí-lo-emos àquele Salmo ao qual o mesmo número está prefixado; confessando que tanto cremos que os mistérios de todos os títulos dos Salmos e da ordem dos mesmos Salmos são de grande importância, como que ainda não nos foi possível penetrá-los como desejamos.
3. «Quem poderá exprimir as obras poderosas do Senhor?» (v. 2). Pleno da contemplação das obras divinas, ao mesmo tempo em que implora a Sua misericórdia, diz ele: «Quem poderá exprimir as obras poderosas do Senhor, ou fazer ouvir todos os Seus louvores?» Cumpre suprir o que foi dito acima, a fim de completar aqui o sentido, desta forma: «Quem fará ouvir todos os Seus louvores?», isto é, quem é suficiente para fazer ouvir todos os Seus louvores? «Fará ouvir», diz ele portanto; isto é, fará que sejam ouvidos; mostrando que as obras poderosas do Senhor e os Seus louvores são de tal modo para serem proclamados, que possam ser pregados àqueles que os ouvem. Mas quem pode fazer ouvir «todos»? Será que, tal como dizem as palavras seguintes: «Bem-aventurados os que guardam sempre o juízo e praticam a justiça em todo o tempo» (v. 3), ele talvez tivesse em mente aqueles louvores d'Ele que são compreendidos como Suas obras nos Seus mandamentos? «Pois é Deus», diz o Apóstolo, «quem opera em vós» — já que Ele opera nessas coisas de um modo que não pode ser expresso em palavras. «Quem fará ouvir todos os Seus louvores?», isto é, quem, tendo-os ouvido, pratica todos os Seus louvores? — os quais são as obras dos Seus mandamentos. Na medida em que são praticados, ainda que nem tudo o que é ouvido seja cumprido, é de louvar Aquele que «opera em nós tanto o querer como o realizar, segundo o Seu beneplácito». Por este motivo, ao passo que poderia ter dito todos os Seus mandamentos, ou todas as obras dos Seus mandamentos, preferiu dizer «os Seus louvores». ...
4. Mas, se não houvesse alguma diferença entre juízo e justiça, não leríamos noutro Salmo: «Até que a justiça se converta em juízo.» As Escrituras, com efeito, amam colocar estas duas palavras juntas; como: «A justiça e o juízo são a habitação do Seu trono»; e ainda: «Ele tornará a tua justiça clara como a luz, e o teu juízo como o meio-dia»; onde aparentemente se repete o mesmo pensamento. E talvez, em razão da semelhança de significação, um possa ser posto no lugar do outro, seja o juízo pela justiça, seja a justiça pelo juízo. Todavia, se forem tomados no seu sentido próprio, não tenho dúvida de que há alguma diferença; a saber, que se diz guardar o juízo aquele que julga retamente, mas praticar a justiça aquele que age retamente. E penso que o versículo «Até que a justiça se converta em juízo» pode, não de modo inconveniente, ser compreendido neste sentido: que também aqui são chamados bem-aventurados os que guardam o juízo na fé e praticam a justiça na obra. ...
5. Ademais, visto que Deus justifica, isto é, torna os homens justos curando-os de suas iniquidades, segue-se uma oração: "Lembra-Te de mim, ó Senhor, segundo o favor que dispensas ao Teu povo" (v. 4): isto é, para que estejamos entre aqueles em quem Te agradas; pois Deus não Se agrada de todos eles. "Visita-me com a Tua salvação." Este é o próprio Salvador, em quem os pecados são perdoados e as almas curadas, a fim de que possam guardar o juízo e praticar a justiça; e, dado que aqueles que aqui falam sabem que tais homens são bem-aventurados, oram eles próprios por isso. ..."Visita-nos," pois, "com a Tua salvação," isto é, com o Teu Cristo. "Para vermos a felicidade dos Teus escolhidos e nos regozijarmos na alegria do Teu povo" (v. 5): isto é, visita-nos por esta razão com a Tua salvação, a fim de que vejamos a felicidade dos Teus escolhidos e nos alegremos com a alegria do Teu povo. Pois, em lugar de "felicidade," alguns códices leem "suavidade;" como na passagem anterior, "pois Ele é benigno;" onde outros leem, "pois Ele é suave." E é a mesma palavra no grego, como se lê alhures, "O Senhor manifestará suavidade:" que alguns traduziram por "felicidade," outros por "benignidade." Mas o que significa "Visita-nos para vermos a felicidade dos Teus escolhidos:" isto é, aquela bem-aventurança que concedes aos Teus eleitos — senão que não permaneçamos cegos, como aqueles a quem se diz: "Mas agora dizeis que vedes: por isso o vosso pecado permanece." Pois o Senhor dá vista aos cegos, não pelos seus próprios méritos, mas na felicidade que concede aos Seus escolhidos, que é o sentido de "a felicidade dos Teus escolhidos:" assim como "o auxílio do meu semblante" não procede de mim mesmo, mas é o meu Deus. E falamos de nosso pão quotidiano como nosso, mas acrescentamos: Dá-no-lo. ..."Para que sejas louvado com a Tua herança." Causa-me admiração que este versículo tenha sido assim interpretado em tantos códices, visto que a expressão grega é uma só e a mesma nestes três versículos. ...Mas, uma vez que esta parece ser uma expressão ambígua, se for verdadeiro aquele sentido segundo o qual os intérpretes preferiram "Para que sejas louvado," os dois versículos precedentes devem também ser compreendidos dessa forma, porque, como disse, há uma única expressão grega nestes três versículos; de tal sorte que o conjunto deva ser assim entendido: "Visita-nos com a Tua salvação, para que vejas a felicidade dos Teus escolhidos;" isto é, visita-nos para este fim, a fim de que nos faças estar ali e nos vejas ali; "para que Te alegres na alegria do Teu povo," isto é, para que se diga que Te alegras, visto que eles se alegram em Ti; "para que sejas louvado com a Tua herança," isto é, sejas louvado junto com ela, pois ela não pode ser louvada senão por causa de Ti. ...
6. Ouçamos, porém, o que confessam em seguida: "Pecamos com nossos pais; cometemos iniquidade e procedemos com malícia" (ver. 6). Que significa "com nossos pais"? ..."Nossos pais", diz ele, "não atentaram para os Teus prodígios no Egito" (ver. 7); e muitas outras coisas relata ele acerca dos pecados deles. Ou deve-se entender "pecamos com nossos pais" no sentido de que pecamos à maneira de nossos pais, isto é, imitando os seus pecados? Se assim for, convém que tal interpretação seja sustentada por algum exemplo desse modo de expressão; o qual não me ocorreu quando, nesta ocasião, busquei algum caso em que alguém dissesse ter pecado, ou ter feito algo, junto a outrem a quem houvesse imitado por ato semelhante após longo intervalo de tempo. Que significa, pois, "nossos pais não compreenderam os Teus prodígios", senão isto: que não souberam o que Tu querias convencê-los por meio desses milagres? E o que queriam dizer esses milagres, senão a vida eterna e um bem não temporal, mas imutável, que só se alcança mediante a perseverança? Por isso murmuraram com impaciência, provocaram a ira divina, e pediram que fossem abençoados com bens presentes e passageiros. "Nem se lembraram da grandeza da Tua misericórdia." Ele repreende tanto o entendimento quanto a memória deles. Era necessário o entendimento, para que meditassem a que bens eternos Deus os chamava por meio desses bens temporais; e era necessária a memória, para que ao menos não esquecessem os prodígios temporais que haviam sido operados, e cressem fielmente que, pelo mesmo poder que já haviam experimentado, Deus os livraria das perseguições de seus inimigos; ao passo que se esqueceram do auxílio que Ele lhes havia prestado no Egito, por meio de tais prodígios, para abater os seus inimigos. "E provocaram à ira, ao avançarem em direção ao mar, até ao Mar Vermelho." Devemos notar com particular atenção como a Escritura condena o não compreender aquilo que deveria ter sido compreendido, e o não recordar aquilo que deveria ter sido recordado; coisas que os homens não querem que lhes sejam imputadas como culpa própria, por nenhuma outra razão senão para orar menos e humilhar-se menos diante de Deus, perante Quem deveriam confessar o que são, e poderiam, pela oração em busca do Seu auxílio, tornar-se o que ainda não são. Pois é melhor acusar até mesmo os pecados de ignorância e negligência, para que sejam eliminados, do que escusá-los, de modo que permaneçam; e é melhor removê-los invocando a Deus, do que consolidá-los provocando-O.
Acrescenta ele que Deus não procedeu conforme a incredulidade deles. «Todavia», diz ele, «Ele os salvou por amor do Seu Nome: para que fizesse conhecida a Sua potência» (v. 8): não em razão de mérito algum que lhes fosse próprio.
7. "Ele repreendeu também o Mar Vermelho, e este se secou" (v. 9). Não lemos que alguma voz houvesse sido enviada dos céus para repreender o mar; porém o salmista chamou de repreensão o Poder Divino pelo qual tal coisa se efetuou — a menos que alguém prefira dizer que o mar foi repreendido em segredo, de modo que as águas pudessem ouvir, sem que os homens o pudessem. O poder pelo qual Deus opera é sumamente abstruso e misterioso, poder esse que Ele faz com que até as coisas desprovidas de sentido O obedeçam imediatamente, segundo Sua vontade. "Assim os conduziu através dos abismos, como através de um deserto." Chama de abismos a multidão das águas. Pois alguns, desejando exprimir o sentido de todo este versículo, traduziram: "Assim os conduziu por entre muitas águas." O que significa, portanto, "através dos abismos, como através de um deserto", senão que aquele lugar se tornara como um deserto pela sua secura, onde antes havia os abismos aquosos?
8. "E os salvou dos que os odiavam" (v. 10). Alguns tradutores, a fim de evitar uma expressão inusitada no latim, renderizaram o vocábulo por perífrase: "E os salvou da mão dos que os odiavam, e os resgatou da mão do inimigo." Que preço foi dado neste resgate? É uma profecia, porquanto este feito era figura do Batismo, no qual somos resgatados da mão do diabo por um preço grandíssimo, preço que é o Sangue de Cristo? — donde se segue que esta figura se manifesta de modo mais coerente, não por qualquer mar indistintamente, mas pelo Mar Vermelho; pois o sangue possui a cor vermelha.
9. "Quanto àqueles que os perturbaram, as águas os submergiram: não restou sequer um deles" (v. 11); não todos os egípcios, mas aqueles que perseguiram os israelitas em sua partida, ávidos de os capturar ou de os matar.
10. "Então creram nas Suas palavras" (v. 12). A expressão parece pouco conforme ao latim — pois não diz "creram Sua palavra" nem "creram sobre Suas palavras", mas "creram nas Suas palavras" —; todavia, é locução muito frequente nas Escrituras. "E louvaram louvor a Ele": construção análoga à de quando dizemos "Esta servidão ele a serviu", "Tal vida ele viveu". Alude aqui àquele célebre hino que começa: "Cantarei ao Senhor, porque Se glorificou soberanamente: o cavalo e o cavaleiro lançou Ele ao mar."
11. "Agiram precipitadamente: esqueceram as Suas obras" (v. 13): outros códices leem de modo mais inteligível: "Apressaram-se, esqueceram as Suas obras, e não quiseram aguardar o Seu conselho." Pois deveriam ter reconhecido que obras tão grandes de Deus para com eles não eram destituídas de propósito, mas que os convidavam a uma felicidade sem fim, a qual havia de ser aguardada com paciência; eles, porém, se apressaram a tornar-se felizes com as coisas temporais, as quais a ninguém concedem a verdadeira felicidade, porque não saciam o anseio insaciável: pois "quem quer que beba desta água", diz o nosso Senhor, "tornará a ter sede."
12. Por fim, "E desejaram um desejo no deserto, e tentaram a Deus na terra árida" (v. 14). A "terra árida," ou terra sem água, e o "deserto," são a mesma coisa; assim também são equivalentes "desejaram um desejo" e "tentaram a Deus." A forma de expressão é a mesma que acima: "louvaram um louvor."
13. "E lhes concedeu o que desejavam, e enviou fartura às suas almas" (v. 15). Porém não as tornou assim felizes; pois não era aquela fartura da qual se diz: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados." Nesta passagem, não fala da alma racional, mas da alma enquanto princípio vital do corpo; à substância da qual pertencem o comer e o beber, segundo o que se diz no Evangelho: "Não é a alma mais do que o alimento, e o corpo mais do que a vestimenta?" (Mt 6, 25) — como se coubesse à alma o alimentar-se, e ao corpo o ser vestido.
14. "E irritaram a Moisés nas tendas, e a Aarão, o santo do Senhor" (v. 16). Qual irritação — ou, como alguns o traduziram mais literalmente, qual provocação — de que ele fala, as palavras seguintes o demonstram suficientemente.
15. «A terra se abriu», diz ele, «e tragou Datã, e cobriu a congregação de Abirão» (v. 17): «tragou» corresponde a «cobriu». Tanto Datã como Abirão encontravam-se igualmente implicados num cisma da mais sacrílega impiedade.
16. "E o fogo se acendeu no meio deles; a chama consumiu os pecadores" (v. 18). Esta palavra não costuma ser aplicada na Escritura àqueles que, embora vivam retamente e de modo louvável, não estão isentos de pecado. Antes, assim como há diferença entre quem escarnece e os escarnecedores, entre quem murmura e os murmuradores, entre quem escreve e os escritores, e assim por diante; assim a Escritura costuma designar por "pecadores" os que são sumamente perversos e sobrecarregados com pesados fardos de pecados.
17. "E fizeram um bezerro em Horebe, e adoraram a imagem de escultura" (v. 19). "Assim mudaram a sua glória à semelhança de um bezerro que come feno" (v. 20). Não diz "pela" semelhança, mas "na" semelhança. É tal modo de locução como aquele em que disse "e creram nas Suas palavras." Com grande eficácia, na verdade, não diz que mudaram a glória de Deus ao assim procederem; como também diz o Apóstolo: "Mudaram a glória do Deus incorruptível por uma imagem feita à semelhança do homem corruptível"; mas sim "a sua glória." Pois Deus era a glória deles, se houvessem permanecido no Seu conselho e não se precipitado. ...
18. "Esqueceram-se de Deus, que os havia salvo" (v. 21). Como os salvou Ele? "Ele que fez coisas tão grandes no Egito: Obras admiráveis na terra de Cam, e coisas terríveis no Mar Vermelho" (v. 22). As coisas que são admiráveis são também terríveis; pois não há admiração sem um certo temor: ainda que estas possam ser chamadas terríveis por haverem prostrado os seus adversários e lhes demonstrado aquilo que lhes cumpria temer.
19. "Disse, pois, que os destruiria" (v. 23). Porquanto se esqueceram dAquele que os salvou, do Operador de obras prodigiosas, e fizeram e adoraram uma imagem esculpida, por essa impiedade atroz e incrível mereceram a morte. "Se não tivesse Moisés, Seu eleito, se posto diante dEle na brecha." Não diz que ele se postou na brecha como para deter a ira de Deus, mas no caminho da brecha, entendendo o golpe que deveria feri-los: isto é, se ele não se tivesse interposto por eles, dizendo: "Todavia, agora, se perdoares o seu pecado... e se não, apaga-me, rogo-Te, do Teu livro." Onde fica provado com quanta eficácia prevalece diante de Deus a intercessão dos santos em favor de outros. Pois Moisés, destemido ante a justiça de Deus, a qual não poderia apagá-lo, implorou misericórdia, para que Ele não apagasse aqueles que justamente poderia apagar. Assim ele "se postou diante dEle na brecha, para apartar Sua indignação irada, a fim de que não os destruísse."
20. "Sim, desprezaram aquela terra aprazível" (v. 24). Mas a tinham visto? Como poderiam, pois, desprezar o que não haviam visto, senão como o explicam as palavras que se seguem: "e não creram em Suas palavras"? Com efeito, se aquela terra denominada terra que mana leite e mel não significasse algo de grande — mediante o qual, como por sinal visível, Ele conduzia os que compreendiam Suas obras admiráveis à graça invisível e ao reino dos céus —, não poderiam ser repreendidos por desprezarem aquela terra, cujo reino temporal também nós devemos ter por nada, a fim de que amemos aquela Jerusalém que é livre, mãe de todos nós, que está nos céus, e verdadeiramente digna de ser desejada. Antes, porém, é aqui repreendida a incredulidade, visto que não deram crédito às palavras de Deus, o qual os conduzia a coisas grandes por meio de coisas pequenas; e, apressando-se a beneficiar-se das coisas temporais, de que carnalmente se compraziam, "não esperaram Seu conselho", como se disse acima.
21. "Mas murmuraram nas suas tendas, e não escutaram a voz do Senhor" (v. 25); o qual expressamente lhes havia vedado murmurar.
22. "Então levantou Ele a Sua mão contra eles, para derrubá-los no deserto" (v. 26); "para lançar a sua descendência entre as nações, e para espalhá-los pelas terras" (v. 27).
23. "Foram também iniciados em Baal-Peor;" isto é, foram consagrados ao ídolo dos gentios; "e comeram as oferendas dos mortos" (v. 28). "Assim O provocaram à ira com suas próprias invenções; e a destruição se multiplicou entre eles" (v. 29). Como se Ele houvesse diferido o levantamento da Sua mão, que havia de derrubá-los no deserto, e de lançar a sua descendência entre as nações, e de dispersá-los pelas terras; conforme diz o Apóstolo: "E, como não se importaram de ter a Deus em seu conhecimento, Deus os entregou a um sentido reprovado, para fazerem as coisas que não convêm" (Rom 1, 28). "A 'destruição', portanto, 'se multiplicou entre eles', quando foram gravemente punidos pelos seus graves pecados."
24. «Então se levantou Fineias, e O aplacou, e a comoção cessou» (v. 30). Narrou o todo brevemente, pois não está aqui instruindo os ignorantes, mas recordando àqueles que conhecem a história. A palavra «comoção», neste passo, é a mesma que «quebrantamento», no anterior; com efeito, trata-se de um único vocábulo no grego. Ora, tão grande era a iniquidade deles — ao se consagrarem ao ídolo e ao comerem dos sacrifícios dos mortos (isto é, pelo fato de os gentios sacrificarem a homens mortos como se fossem Deus) — que Deus não Se deixava aplacar de outro modo senão como o Sacerdote Fineias O aplacou, quando matou juntos um homem e uma mulher que encontrou em adultério. Se o houvesse feito por ódio a eles, e não por amor, enquanto o zelo pela casa de Deus o consumia, isso não lhe teria sido imputado por justiça. ...Cristo, Nosso Senhor, com efeito, quando o Novo Testamento foi revelado, elegeu uma disciplina mais suave; porém a ameaça do inferno é mais severa, e desta não lemos naquelas ameaças com que Deus Se manifestava no exercício do Seu governo temporal.
25. "E isso lhe foi contado em justiça entre todas as posteridades para sempre" (v. 31). Deus imputou isso ao Seu Sacerdote como justiça, não somente enquanto houver posteridade, mas "para sempre;" pois Aquele que conhece o coração sabe ponderar com quanto amor pelo povo aquela obra foi realizada.
26. "E eles O irritaram nas águas da contenda: de sorte que Moisés foi afligido por causa deles" (v. 32); "porque provocaram o seu espírito, de modo que falou com dubiedade com os seus lábios" (v. 33). Que significa "falou com dubiedade"? Como se Deus, que antes havia operado prodígios tão grandes, não fosse capaz de fazer brotar água de uma rocha. Pois ele tocou a rocha com sua vara com hesitação, distinguindo assim este milagre dos demais, nos quais não havia hesitado. Tendo assim ofendido, assim mereceu ouvir que haveria de morrer sem entrar na terra da promessa. Pois, perturbado pelos murmúrios de um povo incrédulo, não soube conservar aquela confiança que deveria ter conservado. Todavia, Deus lhe concede, como a um dos Seus eleitos, um testemunho favorável mesmo após a sua morte, para que possamos ver que esta vacilação da fé foi punida com esta única pena: a de não lhe ser permitido entrar naquela terra para a qual conduzia o povo. ...
27. Mas aqueles de cujas iniquidades fala este Salmo, tendo entrado naquela terra temporal da promessa, "não destruíram os povos, como o Senhor lhes ordenara" (v. 34); "antes se misturaram com as nações, e aprenderam as suas obras" (v. 35). "De tal modo que adoraram os seus ídolos, os quais se lhes tornaram em ruína" (v. 36). O não os terem destruído, mas antes se terem misturado com eles, foi o que se lhes tornou em ruína.
28. "Antes, sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios" (v. 37); "e derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e de suas filhas, que sacrificaram aos ídolos de Canaã" (v. 38). Aquela história não relata que ofereceram seus filhos e filhas a demônios e ídolos; mas nem este Salmo pode mentir, nem os Profetas, que afirmam isto em muitas passagens de suas repreensões. Também a literatura dos gentios não se cala a respeito deste costume seu. Mas o que se segue? "E a terra foi morta com sangues." Poderíamos supor que fosse erro de escriba, e que se houvesse escrito interfecta por infecta, não fora a bondade de Deus, que quis que suas Escrituras se escrevessem em muitas línguas; não fora vê-lo escrito assim como no texto em muitos exemplares gregos que já examinamos: "a terra foi morta com sangues." Que significa, pois, "a terra foi morta", senão que isto se refira, por expressão metafórica, aos homens que habitavam a terra? ... Pois eles próprios matavam as suas próprias almas quando sacrificavam seus filhos, e quando derramavam o sangue de infantes que estavam longe de consentir neste crime: donde se diz: "derramaram sangue inocente". "A terra", portanto, "foi morta com sangues, e contaminada pelas suas obras" (v. 39), visto que eles mesmos estavam mortos na alma e contaminados pelas suas obras; "e se prostituíram após as suas próprias invenções". Por invenções entende-se o que os gregos chamam epithdeumata; pois esta palavra ocorre nos exemplares gregos tanto nesta como numa passagem anterior, onde se diz: "Provocaram-No à ira com as suas próprias invenções"; "invenções", em ambos os casos, significando aquilo em que haviam iniciado outros. Ninguém, pois, suponha que por invenções se entenda o que instituíram por si mesmos, sem exemplo algum anterior que imitassem. Donde outros tradutores, na língua latina, preferiram práticas, afeições, imitações, prazeres a invenções: e os mesmos que aqui escrevem invenções, noutro lugar escreveram práticas. Quis mencionar isto, para que a palavra invenções, aplicada ao que não inventaram, mas imitaram de outros, não suscitasse dificuldade.
Portanto se acendeu a ira do Senhor contra o seu próprio povo (v. 40). Nossos tradutores relutaram em usar a palavra ira para o grego qumoj; embora alguns a tenham usado; enquanto outros traduzem por "indignação" ou "ânimo". Qualquer que seja o termo adotado, a paixão não afeta a Deus; mas o poder de punir assumiu este nome metaforicamente, por costume.
De tal modo que abominou a sua própria herança; e os entregou nas mãos dos gentios: e os que os odiavam foram seus senhores (v. 41): e seus inimigos os oprimiram, e foram humilhados sob as mãos deles (v. 42). Visto que os chamou herança de Deus, é claro que Ele os abominou e os entregou nas mãos de seus inimigos, não para sua perdição, mas para sua disciplina. Por fim, diz: Muitas vezes os livrou. Mas eles O provocaram com os seus próprios conselhos (v. 43). É isto que ele disse acima: Não permaneceram no conselho d'Ele. Ora, o conselho do homem lhe é pernicioso, quando busca somente as coisas que são suas próprias, não as que são de Deus. Em cuja herança — herança que Ele mesmo é para nós, quando Se digna conceder-nos a Sua presença para nosso gozo, estando com os Santos — não sofreremos estreiteza alguma na convivência, por amarmos algo como posse própria. Pois aquela cidade gloriosíssima, quando houver alcançado a herança prometida, na qual ninguém morrerá, ninguém nascerá, não conterá cidadãos que se regozijem individualmente no que é seu, porque "Deus será tudo em todos". E todo aquele que nesta peregrinação anseia fiel e ardentemente por esta convivência, acostuma-se a preferir os interesses comuns aos privados, buscando não as coisas que são suas, mas as de Jesus Cristo: para que, sendo sábio e vigilante em seus próprios negócios, não provoque a Deus com o seu próprio conselho; mas, esperando o que não vê, não se apresse a ser bem-aventurado com as coisas visíveis; e, aguardando pacientemente aquela felicidade eterna que não vê, siga o conselho d'Ele em Suas promessas, cujo auxílio implora em suas orações. Assim se tornará também humilde em suas confissões, para não ser como aqueles de quem se diz: "Foram abatidos em sua maldade".
Confessai ao Senhor que Ele é suave, porque para sempre é a sua misericórdia (v. 1). Confessai isto, que Ele é suave: se O provastes, confessai. Mas não pode confessar quem não escolheu provar, pois como dirá que é suave aquilo que não conhece. Mas vós, se provastes quão suave é o Senhor, "Confessai ao Senhor que Ele é suave". Se O provastes com ardor, prorrompei em confissão. "Porque para sempre é a sua misericórdia", isto é, eternamente. Pois aqui "para sempre" está posto assim, já que também em alguns outros lugares da Escritura, "para sempre" — o que em grego se chama eij aiwna — entende-se como eternamente. Pois a Sua misericórdia não é temporal, de modo a não ser eterna, uma vez que para este fim a Sua misericórdia presente está sobre os homens, para que vivam com os Anjos eternamente.
Este Salmo nos recomenda as misericórdias de Deus, provadas em nós mesmos, e por isso é mais doce para o experimentado. E é maravilha se pode agradar a alguém, senão àquele que aprendeu em seu próprio caso o que ouve neste Salmo. Contudo, não foi escrito para um ou dois, mas para o povo de Deus, e proposto para que nele se reconhecesse como num espelho. Seu título não precisa agora ser tratado, pois é Aleluia, e novamente Aleluia. O qual temos por costume cantar em certo tempo em nossas solenidades, segundo antiga tradição da Igreja: nem é sem sentido sagrado que o cantamos em dias particulares. Aleluia, na verdade, cantamos em certos dias, mas todos os dias o pensamos. Pois se nesta palavra se significa o louvor de Deus, ainda que não na boca da carne, certamente na boca do coração. "O seu louvor estará sempre na minha boca." Mas o título ter Aleluia não apenas uma vez, mas duas, não é peculiar a este Salmo, pois o anterior também o tem assim. E, quanto se depreende de seu texto, aquele foi cantado pelo povo de Israel, mas este é cantado pela Igreja universal de Deus, espalhada por todo o mundo. Talvez não sem propósito tenha Aleluia duas vezes, porque clamamos: Abba, Pai. Pois Abba não é senão Pai; contudo, não sem razão disse o Apóstolo: "em quem clamamos, Abba, Pai"; mas porque uma muralha, vinda à Pedra Angular, clama Abba, e a outra, do outro lado, clama Pai; a saber, naquela Pedra Angular, "que é a nossa Paz, que fez de ambos um só". ...
Digam-no os remidos do Senhor, os que Ele remiu da mão dos inimigos (v. 2). Redimido, na verdade, parece ter sido também o povo de Israel da terra do Egito, da mão da escravidão, dos trabalhos infrutíferos, das obras de lodo; contudo, vejamos se aqueles que dizem estas coisas são os que foram libertados pelo Senhor do Egito. Não é assim. Mas quem são eles? "Os que Ele remiu." Ainda se poderia entendê-lo também deles, como remidos da mão de seus inimigos, isto é, dos egípcios. Que se exprima exatamente quem são aqueles para quem este Salmo há de ser cantado. "Ele os ajuntou das terras"; estas ainda poderiam ser as terras do Egito, pois há muitas terras mesmo numa só província. Que fale abertamente. "Do oriente e do ocidente, do norte e do mar" (v. 3). Agora sim entendemos estes remidos em toda a circunferência da terra. Este povo de Deus, livre de um Egito grande e vasto, é conduzido, como pelo Mar Vermelho, para que no Batismo dê fim a seus inimigos. Pois pelo sacramento, por assim dizer, do Mar Vermelho, isto é, pelo Batismo consagrado com o Sangue de Cristo, são lavados os egípcios perseguidores, os pecados. ... "Mas todas estas coisas lhes aconteceram em figura, e foram escritas para nossa admoestação, sobre os quais chegaram os fins dos séculos." ...
Erraram no deserto, em lugar árido, não acharam o caminho de uma cidade para habitar (v. 4). Temos ouvido de uma miserável peregrinação; e quanto à carência? "Famintos e sedentos, a sua alma desfalecia neles" (v. 5). Mas por que desfalecia? Para que bem? Pois Deus não é cruel, mas Se dá a conhecer, na medida em que nos é útil, que seja por nós implorado quando desfalecemos, e que, socorrendo-nos, seja amado. E, por isso, depois desta peregrinação, e fome, e sede, "E clamaram ao Senhor na sua tribulação, e Ele os livrou das suas angústias" (v. 6). E que fez Ele por eles, quando erravam? "E os conduziu pelo caminho reto" (v. 7). Não achavam o caminho de uma cidade para habitar, com fome e sede eram atormentados e desfaleciam, "e os conduziu pelo caminho reto, para que fossem a uma cidade onde habitassem." Como socorreu a sua fome e sede, não o diz, mas isto mesmo esperai: "Confessem ao Senhor as suas misericórdias, e as suas maravilhas para com os filhos dos homens" (v. 8). Dizei-o, vós que sois experimentados, aos inexperientes; vós que já estais no caminho, já dirigidos para achar a cidade, já enfim livres da fome e da sede. "Porque saciou a alma vazia, e encheu de bens a alma faminta" (v. 9).
Não julguei que o Salmo CVIII exigisse exposição, visto que já o expus no Salmo LVII, e no LX, das últimas divisões dos quais este Salmo se compõe. Pois a última parte do LVII é a primeira deste, até o versículo: "A tua glória está sobre toda a terra." Daí em diante até o fim é a última parte do LX: assim como a última parte do CXXXV é a mesma do CXV, a partir do versículo: "Os ídolos dos gentios são prata e ouro"; assim como o XIV e o LIII, com poucas alterações no meio, têm tudo igual do começo ao fim. Quaisquer pequenas diferenças, portanto, que ocorram neste Salmo CVIII, comparado com aqueles dois, de cujas partes se compõe, são fáceis de entender; assim como achamos no LVI: "Cantarei e louvarei; desperta, ó minha glória"; aqui: "Cantarei e louvarei, com a minha glória." "Desperta" ali se diz, para que com ela cante e louve. Também ali: "A tua misericórdia é grande" (ou, como alguns traduzem, "é elevada") "até os céus"; mas aqui: "A tua misericórdia é grande sobre os céus." Pois é grande até os céus, para que seja grande nos céus; e isto é o que quis exprimir por "sobre os céus." Também no LX: "Eu me regozijarei, repartirei Siquém"; aqui: "Eu serei exaltado, e repartirei Siquém." Onde se mostra o que se significa na divisão de Siquém, a qual se profetizou que sucederia depois da exaltação do Senhor, e que este gozo se refere àquela exaltação; de modo que Ele se regozija, porque é exaltado. Donde alhures diz: "Tornaste o meu pranto em alegria; despiste o meu saco e me cingiste de alegria." Também ali: "Efraim, a fortaleza da minha cabeça"; mas aqui: "Efraim, a tomada da minha cabeça." Mas a fortaleza vem da tomada, isto é, Ele torna os homens fortes ao tomá-los, produzindo fruto em nós; pois a interpretação de Efraim é: o que dá fruto. Mas "tomada" pode entender-se de nós, quando tomamos a Cristo; ou de Cristo, quando Ele, que é Cabeça da Igreja, nos toma. E as palavras "os que nos afligem", no Salmo anterior, são as mesmas que "nossos inimigos", neste.
Somos ensinados por este Salmo que aqueles títulos que parecem referir-se à história são muito retamente entendidos proféticamente, segundo o objeto da composição dos Salmos. ...E, contudo, este Salmo se compõe das últimas porções de dois, cujos títulos são diferentes. Onde se significa que ambos concorrem para um objeto comum, não na superfície da história, mas na profundidade da profecia, unindo-se os objetos de ambos neste único, cujo título é: "Cântico ou Salmo de Davi": não se assemelhando a nenhum dos títulos anteriores, senão na palavra Davi. Pois, "em muitas partes e de diversas maneiras", como diz a Epístola aos Hebreus, "falou Deus antigamente aos pais pelos Profetas"; contudo falou d'Aquele que enviaria depois, para que se cumprissem as palavras dos Profetas: pois "todas as promessas de Deus são nEle sim."
Todo aquele que lê fielmente os Atos dos Apóstolos reconhece que este Salmo contém uma profecia acerca de Cristo; pois evidentemente aparece que o que aqui está escrito, "sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu ofício", foi profetizado a respeito de Judas, o traidor de Cristo. ...Pois, assim como se dizem certas coisas que parecem aplicar-se peculiarmente ao Apóstolo Pedro, e contudo não são claras em seu sentido senão quando referidas à Igreja, a qual se reconhece que ele figuradamente representou, por causa do primado que exercia entre os Discípulos — como está escrito: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus", e outras passagens de igual teor — assim também Judas representa aqueles judeus que eram inimigos de Cristo, os quais tanto então odiaram a Cristo, quanto agora, em sua linhagem sucessória, persistindo esta espécie de iniquidade, o odeiam. Destes homens, e deste povo, não somente se pode convenientemente entender o que lemos mais abertamente descoberto neste Salmo, mas também aquelas coisas que são mais expressamente afirmadas a respeito do próprio Judas.
Começa, pois, o Salmo assim: "Ó Deus, não te cales quanto ao meu louvor; pois a boca do ímpio, sim, a boca do enganador se abriu contra mim" (v. 1). Donde se manifesta, tanto que a acusação, da qual o ímpio e o enganador não se calam, é falsa, quanto que o louvor, do qual Deus não se cala, é verdadeiro. "Porque Deus é verdadeiro, mas todo homem é mentiroso"; pois nenhum homem é verdadeiro, senão aquele em quem Deus fala. Mas o mais alto louvor é o do Filho unigênito de Deus, no qual Ele é proclamado precisamente aquilo que É, o Filho unigênito de Deus. Mas isto não aparecia; antes, quando Sua fraqueza aparecia, permanecia oculto, quando a boca do ímpio e do enganador se abriu contra Ele; e por esta razão a sua boca se abriu, porque a virtude d'Ele estava encoberta: e diz: "a boca do enganador se abriu", porque o ódio que estava coberto pelo engano irrompeu em linguagem.
"Falaram contra mim com línguas falsas" (v. 2): principalmente quando o louvavam como "bom Mestre" com insidiosa adulação. Donde se diz alhures: "e os que me louvavam, juraram-se juntos contra mim." Em seguida, porque irromperam em clamores: "Crucifica-O, crucifica-O", acrescentou: "Cercaram-me também com palavras de ódio." Aqueles que com língua traiçoeira falaram palavras aparentemente de amor, e não de ódio, "contra mim", visto que o faziam insidiosamente; depois "cercaram-me com palavras" não de amor falso e enganoso, mas de manifesto "ódio, e combateram-me sem causa." Pois assim como os piedosos amam a Cristo gratuitamente, assim também os ímpios O odeiam gratuitamente; pois assim como a verdade é buscada com afinco pelos melhores homens por si mesma, sem vislumbrar qualquer vantagem exterior a ela, assim a iniquidade é buscada pelos piores homens. Donde entre os autores seculares se diz de um homem muito mau: "era perverso e cruel sem propósito algum."
"Em lugar", diz ele, "de me amarem, difamavam-me" (v. 3). Há seis diferentes espécies de atos desta classe, que, uma vez mencionados, muito facilmente se podem reter na memória: (1) retribuir o bem pelo mal; (2) não retribuir o mal pelo mal; (3) retribuir o bem pelo bem; (4) retribuir o mal pelo mal; (5) não retribuir o bem pelo bem; (6) retribuir o mal pelo bem. Os dois primeiros pertencem aos bons, e o primeiro destes dois é o melhor; os dois últimos pertencem aos ímpios, e o segundo destes dois é o pior; os dois do meio pertencem a uma espécie de classe intermediária de pessoas, mas o primeiro destes confina com os bons, o segundo com os maus. Devemos notar estas coisas nas sagradas Escrituras. O próprio Senhor nosso retribui o bem pelo mal, Ele que "justifica o ímpio"; e que, pendendo na Cruz, disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." ...
5. Mas depois que disse: "em lugar de me amarem, difamavam-me", que acrescenta ele? "Mas eu me dava à oração." Não disse, é certo, o que orava, mas o que podemos entender melhor senão que orava por eles mesmos? Pois grandemente O difamavam, a Ele a quem crucificavam, quando O escarneciam como se fosse um homem, a quem, na opinião deles, haviam vencido; desde aquela Cruz Ele disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"; de modo que, enquanto eles, no abismo de sua malignidade, retribuíam o mal pelo bem, Ele, na altura de Sua bondade, retribuía o bem pelo mal. ...As palavras divinas, pois, nos ensinam, pelo exemplo de nosso Senhor, que, quando sentimos que outros nos são ingratos, não somente por não nos retribuírem com o bem, mas até por retribuírem o mal pelo bem, devemos orar; Ele, na verdade, por outros que se enfureciam contra Ele, ou estavam em tristeza, ou em perigo quanto à fé; mas nós, em primeiro lugar, por nós mesmos, para que, pela misericórdia e auxílio de Deus, possamos vencer nosso próprio ânimo, pelo qual somos levados ao desejo de vingança, quando alguma difamação é feita contra nós, seja em nossa presença, seja em nossa ausência. ...
6. Acrescenta: "Assim me retribuíram o mal pelo bem" (v. 4). E como se perguntássemos: que mal? por que bem? "E ódio", diz ele, "pela minha boa vontade." Esta é a soma total de sua grande culpa. Pois como poderiam os perseguidores prejudicar Aquele que morreu por Sua própria e livre vontade, e não por compulsão? Mas este mesmo ódio é o crime maior do perseguidor, ainda que seja a expiação voluntária de Quem padece. E ele explicou suficientemente o sentido das palavras acima, "Em lugar de me amarem", visto que deviam o amor não apenas como um dever geral, mas em retribuição a Seu amor: nisto que aqui acrescentou, "pela minha boa vontade." Este amor Ele o menciona no Evangelho, quando diz: "Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, e tu não quiseste!"
7. Começa, pois, a profetizar o que haveriam de receber por esta mesma ímpia ação; detalhando sua sorte de tal maneira, como se desejasse sua realização por desejo de vingança. Alguns, não entendendo este modo de predizer o futuro sob a aparência de desejar o mal, supõem que se retribui ódio por ódio, e má vontade por má vontade, uma vez que, na verdade, a poucos pertence discernir de que modo o castigo dos ímpios agrada ao acusador, que anseia saciar sua inimizade; e de modo quão diverso agrada ao juiz, que com ânimo justo pune os pecados. Pois aquele retribui o mal pelo mal; mas o juiz, quando pune, não retribui o mal pelo mal, visto que retribui a justiça ao injusto; e o que é justo é certamente bom. Ele, pois, não pune por deleite na desgraça alheia, o que seria mal pelo mal, mas por amor da justiça, o que é bem pelo mal. ...
8. "Põe sobre ele um ímpio como governante; e esteja Satanás à sua direita" (v. 5). Embora a queixa antes fosse a respeito de muitos, fala agora o Salmo de um só. ...Visto, pois, que aqui fala do traidor Judas, o qual, segundo a Escritura nos Atos dos Apóstolos, havia de ser punido com a pena que lhe era devida, que significa "põe sobre ele um ímpio", senão aquele a quem no versículo seguinte menciona por nome, quando diz: "e esteja Satanás à sua direita"? Aquele, pois, que recusou submeter-se a Cristo, merecia isto: que o diabo fosse posto sobre ele, isto é, que se tornasse súdito do diabo. ...Por esta razão também se diz daqueles que, preferindo os prazeres deste mundo a Deus, chamavam bem-aventurado o povo que tem tais e tais coisas: "a sua direita é uma direita de iniquidade." ...
9. "Quando for julgado, saia condenado, e sua oração se torne em pecado" (v. 6). Pois a oração não é justa senão por meio de Cristo, a quem ele vendeu em seu atroz pecado; mas a oração que não é feita por meio de Cristo, não somente não pode apagar o pecado, mas ela mesma se converte em pecado. Pode-se, porém, indagar em que ocasião teria Judas orado de tal modo que sua oração se tornasse em pecado. Suponho que foi antes de trair o Senhor, enquanto pensava em traí-Lo; pois já não podia orar por meio de Cristo. Pois, depois que O traiu e disso se arrependeu, se orasse por meio de Cristo, pediria perdão; se pedisse perdão, teria esperança; se tivesse esperança, esperaria misericórdia; se esperasse misericórdia, não se teria enforcado em desespero. ...
10. "Sejam poucos os seus dias" (v. 7). Por "seus dias" entendeu os dias de seu apostolado, os quais foram poucos, visto que, antes da Paixão de nosso Senhor, foram encerrados por seu crime e morte. E como se perguntasse: Que será, pois, daquele número tão sagrado de doze, dentro do qual nosso Senhor quis, não sem sentido, limitar Seus doze primeiros Apóstolos? logo acrescenta: "e outro tome o seu ofício." Como quem diz: seja ele punido segundo o seu merecimento, e seja o seu número preenchido.
Este Salmo é uma daquelas promessas que profetizam certa e abertamente o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo; de tal modo que de maneira alguma podemos duvidar de que Cristo seja anunciado neste Salmo, uma vez que somos agora cristãos e cremos no Evangelho. Pois quando o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo perguntou aos judeus de quem diziam ser filho o Cristo, e eles responderam: "Filho de Davi", Ele imediatamente replicou à resposta deles: "Como, pois, Davi em espírito O chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor?", etc. "Se, pois", perguntou Ele, "Davi em espírito O chama Senhor, como é Ele seu filho?" Com este versículo começa este Salmo.
2. "Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés" (v. 1). Devemos, pois, considerar detidamente esta questão que o Senhor propôs aos judeus logo no início do Salmo. Porque, se nos for perguntado o que os judeus responderam, quer o confessemos, quer o neguemos — longe de nós negá-lo! Se nos disserem: Cristo é filho de Davi, ou não? — se respondermos que não, contradizemos o Evangelho, pois o Evangelho de São Mateus assim começa: "Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi." O Evangelista declara que está escrevendo o livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi. Os judeus, pois, quando interrogados por Cristo sobre de quem criam ser Ele filho, responderam corretamente: filho de Davi. O Evangelho concorda com a resposta deles. Não somente a suposição dos judeus, mas também a fé dos cristãos o declara. ..."Se, pois, Davi em espírito O chamou Senhor, como é Ele seu filho?" Os judeus emudeceram ante esta pergunta: nada mais souberam responder; e, no entanto, não O buscaram como Senhor, pois não reconheceram que Ele mesmo era aquele Filho de Davi. Mas nós, irmãos, creiamos e declaremos; pois "com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação"; creiamos, digo eu, e declaremos tanto o Filho de Davi quanto o Senhor de Davi. Não nos envergonhemos do Filho de Davi, para que não venhamos a encontrar irado contra nós o Senhor de Davi.
3. ...Sabemos que Cristo está assentado à direita do Pai, desde a sua ressurreição dentre os mortos e sua ascensão aos céus. Já está feito: não o vimos, mas o cremos; lemo-lo na Escritura, ouvimo-lo pregado, e o retemos pela fé. De sorte que, pela própria circunstância de ser Cristo filho de Davi, tornou-se também seu Senhor. Pois Aquele que nasceu da estirpe de Davi foi tão honrado, que se fez também Senhor de Davi. Admiras-te disto, como se o mesmo não acontecesse nas coisas humanas. Pois, se acontecer que o filho de algum particular seja feito rei, não será ele senhor de seu próprio pai? Algo ainda mais admirável pode acontecer: não só que o filho de um particular, sendo feito rei, se torne senhor de seu pai, mas que o filho de um leigo, sendo feito Bispo, se torne pai de seu próprio pai. De modo que, nesta mesma circunstância — de que Cristo assumiu a carne, de que morreu na carne, de que ressuscitou nessa mesma carne, de que nela ascendeu ao Céu e está assentado à direita de seu Pai, como está escrito — nessa mesma carne tão honrada, tão iluminada, tão transformada em veste celestial, Ele é ao mesmo tempo Filho de Davi e Senhor de Davi. ...
4. Cristo, portanto, está assentado à direita de Deus; o Filho está à direita do Pai, oculto a nós. Creiamos. Duas coisas aqui se dizem: que Deus disse: "Assenta-te à minha direita"; e acrescentou: "até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés", isto é, debaixo de teus pés. Tu não vês Cristo assentado à direita do Pai; mas podes ver isto: como os seus inimigos são postos por escabelo de seus pés. Enquanto isto se cumpre abertamente, crê que aquilo se cumpre secretamente. Que inimigos são postos por escabelo seus? Aqueles a quem, imaginando coisas vãs, se diz: "Por que se enfurecem tanto as gentes, e os povos imaginam coisas vãs?", etc. ...Está Ele, pois, assentado à direita de Deus, até que os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés. Isto está em curso, isto está acontecendo: embora se cumpra gradualmente, cumpre-se sem fim. Pois, ainda que as gentes se enfureçam, tomando conselho juntas contra Cristo, poderão impedir o cumprimento destas palavras: "Dar-te-ei as nações por herança, e as extremidades da terra por tua possessão"? ..."Pereceu a memória deles com estrondo"; mas "o Senhor permanecerá para sempre": como diz outro Salmo, mas não outro Espírito.
5. E que se segue? "O Senhor enviará de Sião o cetro do teu poder" (v. 2). Manifesta-se, irmãos, manifesta-se claríssimamente, que o Profeta não fala daquele reino de Cristo no qual Ele reina para sempre com seu Pai, Regente das coisas que foram feitas por Ele: pois quando não reina Deus Verbo, que está no princípio com Deus? Pois está dito: "Ora, ao Rei eterno, imortal, invisível, ao único Deus sábio, honra e glória para todo o sempre." A que Rei eterno? A um invisível, incorruptível. Pois nisto — que Cristo está com o Pai, invisível e incorruptível, porque é seu Verbo, e seu Poder, e sua Sabedoria, e Deus com Deus, por quem todas as coisas foram feitas — Ele é "Rei eterno"; mas, todavia, aquele reinado de governo temporal, pelo qual, mediante sua carne, Ele nos chamou à eternidade, começa com os cristãos; mas do seu reino não haverá fim. Seus inimigos, pois, são postos por escabelo de seus pés, enquanto Ele está assentado à direita de seu Pai, como está escrito; isto está agora acontecendo, isto acontecerá até o fim. ...
6. Quando, pois, Ele tiver enviado de Sião o cetro do seu poder: que acontecerá? "Domina no meio de teus inimigos." Primeiro: "Domina no meio de teus inimigos" — no meio das gentes enfurecidas. Pois haverá Ele de dominar "no meio de seus inimigos" em época posterior, quando os Santos tiverem recebido a sua recompensa, e os ímpios a sua condenação? E que admira, se Ele há de dominar então, quando os justos reinarem com Ele para sempre, e os ímpios arderem em castigos eternos? Que admira, se Ele há de fazê-lo então? Agora, "no meio de teus inimigos", agora, nesta transição dos séculos, nesta propagação e sucessão da mortalidade humana, agora, enquanto a torrente do tempo passa deslizando, para isto é enviado de Sião o cetro do teu poder, "para que domines no meio de teus inimigos." Domina Tu, domina entre pagãos, judeus, hereges, falsos irmãos. Domina Tu, domina, ó Filho de Davi, Senhor de Davi, domina no meio de pagãos, judeus, hereges, falsos irmãos. "Domina no meio de teus inimigos." Não entendemos corretamente este versículo, se não vemos que isto já está acontecendo. ...
7. "Contigo está o principado no dia do teu poder" (v. 3). Que é este dia do seu poder, quando há princípio nEle, ou que princípio, ou em que sentido há princípio nEle, uma vez que Ele mesmo é o Princípio? ...
8. Que significa: "Contigo está o principado"? Supõe o que quiseres como princípio. Do próprio Cristo, antes se teria dito: Tu és o Princípio, do que: Contigo está o princípio. Pois Ele respondeu aos que Lhe perguntavam: "Quem és Tu?", e disse: "Exatamente o que já vos disse: o Princípio"; uma vez que também seu Pai é o Princípio, do qual procede o Filho unigênito, em cujo Princípio estava o Verbo, pois o Verbo estava com Deus. Que, pois, se tanto o Pai quanto o Filho são o princípio, há dois princípios? Longe disso! Pois, assim como o Pai é Deus, e o Filho é Deus, mas o Pai e o Filho não são dois Deuses, senão um só Deus: assim o Pai é Princípio e o Filho é Princípio, mas o Pai e o Filho não são dois, senão um só Princípio. "Contigo está o principado." Então há de aparecer em que sentido o princípio está contigo. Não que o princípio não esteja também contigo aqui. Pois não disseste Tu também: "Eis que sereis dispersos, cada um para o seu lugar, e Me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo"? Aqui, portanto, também o princípio está contigo. Pois disseste também noutro lugar: "Mas o Pai que habita em mim, esse faz as obras." "Contigo está o principado": nunca o Pai esteve separado de Ti. Mas quando o Princípio aparecer estar contigo, então se manifestará a todos os que se tornarem semelhantes a Ti; pois hão de ver-Te como Tu és; pois Filipe Te viu aqui, e buscava o Pai. Então, pois, se verá o que agora se crê: então "o principado estará contigo" à vista dos justos, à vista dos santos; sendo os ímpios afastados, para que não vejam o esplendor do Senhor. ...
9. Explica de que poder falas. Porque também aqui, como já se disse, se menciona o seu poder, quando o cetro do seu poder é enviado de Sião, para que domine no meio de seus inimigos. De que poder falas, "nos resplendores dos santos"? "Nos resplendores", diz, "dos santos." Fala daquele poder quando os santos estiverem em resplendor; não quando ainda carregam consigo a carne terrena, e gemem num corpo mortal e corruptível. ...
10. Mas isto se adia, isto se concederá depois: que há agora? "Do ventre, antes da estrela da manhã, Eu te gerei." Que se diz aqui? Se Deus tem um Filho, tem Ele também ventre? Como os corpos carnais, não o tem; pois tampouco tem seio; e, no entanto, está dito: "Aquele que está no seio do Pai, esse O deu a conhecer." Mas o que é o ventre, é também o seio: tanto seio quanto ventre se põem por lugar secreto. Que significa "do ventre"? Do que é secreto, do que é oculto; de Mim mesmo, de minha substância; este é o sentido de "do ventre"; pois, "quem contará a sua geração?" Entendamos, pois, o Pai dizendo ao Filho: "De meu ventre, antes da estrela da manhã, Eu te gerei." Que significa, então, "antes da estrela da manhã"? A estrela da manhã está posta por todas as estrelas, como se a Escritura significasse o todo por uma parte, e por uma estrela em destaque todas as estrelas. Mas como foram criadas aquelas estrelas? "Para que sejam por sinais, e por estações, e por dias, e por anos." ...Esta expressão também, "antes da estrela da manhã", usa-se tanto em sentido figurado quanto literal, e assim se cumpriu. Pois o Senhor nasceu de noite, do ventre da Virgem Maria; o testemunho dos pastores o atesta, os quais "guardavam vigília sobre o seu rebanho." Assim Davi: Ó Tu, meu Senhor, que estás assentado à direita de meu Senhor, donde és Tu meu Filho, senão porque "do ventre, antes da estrela da manhã, Eu te gerei"?
11. E para que és Tu gerado? "Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és Sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (v. 4). Pois para isto foste Tu gerado do ventre antes da estrela da manhã, para que fosses Sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. Pois, naquele caráter em que foi gerado do Pai, Deus com Deus, coeterno com Aquele que O gerou, Ele não é Sacerdote; mas é Sacerdote por causa da carne que assumiu, por causa da vítima que havia de oferecer por nós, recebida de nós. "Jurou", pois, "o Senhor." Que significa, então, jurou o Senhor? Acaso o Senhor, que proíbe aos homens jurar, jura Ele mesmo? Ou proíbe Ele, porventura, ao homem jurar, sobretudo para que este não caia em perjúrio, e por esta razão pode o Senhor jurar, já que Ele não pode ser perjuro. Pois ao homem, que pelo hábito de jurar pode resvalar para o perjúrio, com razão se proíbe jurar: pois estará tanto mais longe do perjúrio quanto mais longe estiver de jurar. Pois o homem que jura pode jurar verdadeira ou falsamente; mas quem não jura não pode jurar falsamente, pois de modo algum jura. Por que, pois, não haveria o Senhor de jurar, já que o juramento do Senhor é o selo da promessa? Jure Ele, pois, por certo. Que fazes tu, então, quando juras? Chamas Deus por testemunha: isto é jurar, chamar Deus por testemunha; e por esta razão deve haver cuidado, para que não chames Deus por testemunha de algo falso. Se, pois, tu, por um juramento, chamas Deus por testemunha, por que não haveria também Deus de chamar-Se a Si mesmo por testemunha com um juramento? "Vivo Eu, diz o Senhor" — este é o juramento do Senhor. ..."Jurou", pois, "o Senhor" — isto é, confirmou: "não se arrependerá", não mudará. Quê? "Tu és Sacerdote para sempre." "Para sempre", pois Ele não se arrependerá. Mas Sacerdote, em que sentido? Haverá aquelas vítimas, vítimas oferecidas pelos Patriarcas, altares de sangue, e tabernáculo, e aqueles emblemas sagrados da Antiga Aliança? Longe disso! Estas coisas já estão abolidas; destruído o templo, tirado aquele sacerdócio, desaparecidos igualmente a vítima e o sacrifício deles, nem sequer os judeus têm estas coisas. Veem eles que o sacerdócio segundo a ordem de Arão já pereceu, e não reconhecem o Sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. Falo aos que creem. Se os catecúmenos não entendem algo, deponham a preguiça, e apressem-se para o conhecimento. Não me é, pois, necessário revelar aqui os mistérios: que as Escrituras vos indiquem qual é o Sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque.
12. "O Senhor à tua direita" (v. 5). Havia dito o Senhor: "Assenta-te à minha direita"; agora o Senhor está à direita dEle, como se tivessem trocado de lugar. ...Aquele mesmo Cristo, "o Senhor à tua direita", a quem juraste, e não te arrependerás: que faz Ele, Sacerdote para sempre? Que faz Ele, que está à direita de Deus, e intercede por nós, como sacerdote que entra nos lugares interiores, e no Santo dos Santos, nos mistérios do céu, sendo Ele o único sem pecado, e por isso purificando facilmente dos pecados. Ele, pois, "à tua direita, ferirá até os reis no dia da sua ira." Que reis, perguntas? Esqueceste-te? "Os reis da terra se levantaram, e os príncipes juntamente tomaram conselho contra o Senhor e contra o seu Ungido." A estes reis Ele feriu com sua glória, e pelo peso de seu Nome debilitou os reis, de modo que não tiveram poder para efetuar o que desejavam. Pois esforçaram-se ao máximo por apagar o nome cristão da terra, e não puderam; pois "todo aquele que cair sobre esta pedra será quebrantado." Caem, pois, os reis sobre esta "pedra de tropeço", e por isso são feridos, quando dizem: Quem é Cristo? Não sei que judeu ou que galileu tenha sido este, que morreu, que foi morto de tal maneira! A pedra está diante de teus pés, jazendo, por assim dizer, humilde e desprezível: por isso, ao desdenhá-la, tropeças; ao tropeçar, caes; ao cair, és ferido. ..."Mas sobre quem ela cair, ela o reduzirá a pó." Quando, pois, alguém cai sobre ela, ela jaz, por assim dizer, embaixo; então fere: mas quando o reduzir a pó, então virá de cima. Vê como nestas duas expressões — ferirá e reduzirá a pó: ele choca-se contra ela, e ela cairá sobre ele — se distinguem os dois tempos, o da humilhação e o da majestade de Cristo, o do castigo oculto e o do juízo futuro. Não esmagará, quando vier, aquele homem a quem não fere quando jaz em aparência desprezível. ...
13. "Julgará entre as gentes: encherá o que caiu" (v. 6). Quem quer que sejas tu, obstinado contra Cristo, ergueste no alto uma torre que há de cair. Bom é que te lances por terra, que te faças humilde, que te prostres aos pés dAquele que está assentado à direita do Pai, para que em ti se edifique uma ruína. Pois, se permaneces em tua má altura, serás derrubado quando já não puderes ser edificado. Pois de tais diz a Escritura noutra passagem: "Por isso Ele derrubará, e não os edificará." Sem dúvida, Ele não diria isto de alguns, se não houvesse alguns que Ele derruba para depois os edificar de novo. E isto está acontecendo neste tempo, enquanto Cristo julga entre as gentes de tal modo que enche o que caiu. "Ferirá muitas cabeças sobre a terra." Aqui, sobre a terra, nesta vida, Ele ferirá muitas cabeças. Torna-as humildes em vez de soberbas; e ouso dizer, meus irmãos, que é mais proveitoso caminhar aqui humildemente com a cabeça ferida, do que, de cabeça erguida, cair no juízo da morte eterna. Ferirá muitas cabeças ao fazê-las cair, mas há de enchê-las e reedificá-las novamente.
14. "Ele beberá do ribeiro no caminho, por isso levantará a cabeça" (v. 7). Consideremos Aquele que bebe do ribeiro no caminho: antes de tudo, que é o ribeiro? É o curso fluente da mortalidade humana; pois assim como um ribeiro se forma pela chuva, transborda, ruge, corre, e correndo decorre, isto é, finda seu curso, assim é todo este curso da mortalidade. Os homens nascem, vivem, morrem, e quando alguns morrem, outros nascem, e quando estes morrem, outros nascem, sucedem-se, ajuntam-se em bando, partem e não permanecem. Que se detém aqui? Que não corre? Que não está a caminho do abismo, como se fosse recolhido da chuva? Pois assim como um rio subitamente formado da chuva, das gotas dos aguaceiros, corre para o mar e não mais se vê, nem se via antes de ser recolhido da chuva, assim esta chuva oculta se ajunta de fontes ocultas e flui adiante; na morte, novamente, caminha para onde está oculta: este estado intermediário soa e passa. Deste ribeiro Ele bebe, não desdenhou beber deste ribeiro; pois beber deste ribeiro foi para Ele nascer e morrer. O que este ribeiro tem é nascimento e morte; Cristo o assumiu, nasceu, morreu. "Por isso levantou a cabeça"; isto é, porque foi humilde e "se fez obediente até a morte, e morte de cruz; por isso também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, na glória de Deus Pai."
2. "Eu te confessarei, ó Senhor", diz ele, "de todo o meu coração" (v. 1). A confissão nem sempre é confissão de pecados, mas o louvor de Deus também se derrama na devoção da confissão. Aquela geme, esta se alegra: aquela mostra a ferida ao médico, esta dá graças pela saúde. Esta segunda confissão significa alguém não apenas livre de todo mal, mas até separado de todos os malintencionados. E por esta razão consideremos o lugar em que ele confessa ao Senhor de todo o coração. "No conselho", diz ele, "dos retos, e na congregação": suponho que se trate daqueles que "se assentarão sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel". Pois ali já não haverá homem injusto algum, não se permitirão os furtos de nenhum Judas, não se batizará nenhum Simão Mago, desejando comprar o Espírito, quando na verdade pretende vendê-lo; nenhum latoeiro como Alexandre fará muitos males; nenhum homem coberto de pele de ovelha se insinuará com fingida fraternidade — tais como aqueles entre os quais a Igreja deve agora gemer, e tais como aqueles que ela deverá então excluir, quando todos os justos estiverem congregados.
1. Chegaram os dias em que devemos cantar Aleluia. ...Ora, estes dias vêm apenas para passar, e passam para voltar de novo, e prefiguram aquele dia que não vem nem passa, porque não é precedido de ontem para fazê-lo vir, nem pressionado pelo amanhã para fazê-lo passar. ...Pois, assim como estes dias sucedem, em sua estação regular, com jubilosa alegria, aos dias passados da Quaresma, pelos quais se significa a miséria desta vida antes da Ressurreição do corpo do Senhor, assim aquele dia que, depois da Ressurreição, será dado ao corpo pleno do Senhor, isto é, à santa Igreja, quando todas as tribulações e tristezas desta vida tiverem sido excluídas, há de suceder em perpétua bem-aventurança. Mas esta vida exige de nós a continência, para que, ainda que gemamos e sejamos oprimidos por nossas fadigas e lutas, e desejemos ser revestidos de nossa morada que vem do céu, nos abstenhamos dos prazeres seculares: e isto é significado pelo número quarenta, que foi o período dos jejuns de Moisés, e de Elias, e do próprio Senhor. ...Mas pelo número cinquenta, depois da ressurreição do Senhor, período no qual cantamos Aleluia, não se significa o termo e a passagem de uma certa estação, mas aquela bem-aventurada eternidade; porque o denário acrescentado a quarenta significa a recompensa paga aos fiéis que labutam nesta vida, da qual nosso Pai preparou igual parte para os primeiros e para os últimos. Ouçamos, pois, o coração do povo de Deus, cheio de divinos louvores. Ele representa, neste salmo, alguém que exulta em feliz alegria; prefigura o povo cujos corações transbordam do amor de Deus, isto é, o corpo de Cristo, livre de todo mal.
"Grandes são as obras do Senhor, buscadas em todas as suas vontades" (v. 2): pelas quais a misericórdia não abandona ninguém que se confessa, nem fica impune a maldade de homem algum. ...Escolha o homem para si o que quiser: as obras do Senhor não estão de tal modo constituídas que a criatura, tendo-lhe sido concedido livre-arbítrio, transcenda a vontade do Criador, ainda quando aja contra a Sua vontade. Deus não quer que peques, pois Ele o proíbe; contudo, se pecaste, não imagines que o homem fez o que quis, e que a Deus sucedeu o que Ele não quis. Pois, assim como Ele quer que o homem não peque, assim também quer poupar o pecador, para que se converta e viva; e quer, por fim, punir aquele que persiste em seu pecado, de modo que o rebelde não possa escapar ao poder da justiça. Assim, qualquer que seja a escolha que tenhas feito, o Todo-Poderoso não se verá em dificuldade para cumprir a Sua vontade a teu respeito.
3. "Confissão e obras gloriosas são a Sua obra" (v. 3). Que obra mais gloriosa há do que justificar o ímpio? Mas talvez a obra do homem preveja aquela obra gloriosa de Deus, de modo que, tendo confessado os seus pecados, ele mereça ser justificado. ...Esta é a obra gloriosa do Senhor: pois ama mais aquele a quem mais se perdoou. Esta é a obra gloriosa do Senhor: pois "onde abundou o pecado, superabundou a graça". Mas talvez o homem mereça a justificação pelas obras. "Não", diz ele, "pelas obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura Sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras." Pois o homem não opera a justiça sem que primeiro seja justificado; mas, "crendo naquele que justifica o ímpio", começa pela fé; para que o bem não mostre, precedendo, o que ele mereceu, mas, seguindo, o que ele recebeu. ...
4. "Ele fez com que se recordassem as Suas obras maravilhosas" (v. 4): abatendo a este, exaltando àquele. Reservando milagres extraordinários para a ocasião oportuna, para que assim a fraqueza humana, ávida de novidade, deles se recorde, ainda que Seus milagres cotidianos sejam maiores. Ele criou tantas árvores por toda a terra, e ninguém se admira; secou uma só com uma palavra, e os corações dos mortais ficaram estupefatos. Pois aquele milagre que, por sua frequência, não se tornou comum, é o que mais firmemente se apega ao coração. Mas de que serviriam os milagres, senão para que Ele fosse temido? E de que aproveitaria também o temor, se o "Senhor clemente e misericordioso" não desse "de comer aos que O temem"? (v. 5). Alimento que não se corrompe, "pão que desce do céu", que Ele nos deu sem mérito algum de nossa parte. Pois "Cristo morreu pelos ímpios". Ninguém, pois, daria tal alimento, senão um Senhor clemente e misericordioso. Mas, se Ele deu tanto a esta vida, se o pecador que havia de ser justificado recebeu o Verbo feito carne, que receberá ele quando for glorificado no mundo futuro? Pois "Ele se lembrará para sempre da Sua aliança". Nem Aquele que deu um penhor deu já o todo.
5. "Ele mostrará ao Seu povo o poder das Suas obras" (v. 6). Não se entristeçam os santos israelitas que, deixando todos os seus bens, O seguiram; não se angustiem, dizendo: "Quem, pois, pode se salvar?" Pois "é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus". Pois "para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível". "Para lhes dar a herança das nações." Pois foram eles às nações, e admoestaram os ricos deste mundo a "não serem soberbos, nem porem a esperança na incerteza das riquezas, mas no Deus vivo", para quem é fácil o que é difícil para os homens. Pois assim muitos foram chamados, assim se ocupou a herança das nações, assim aconteceu que também muitos, que nesta vida não abandonaram todos os seus bens para segui-Lo, desprezaram até a própria vida por causa de confessar o Seu Nome; e, como camelos que se humilham para carregar o fardo das tribulações, entraram, por assim dizer, pelo fundo de uma agulha, pelo estreito e penoso caminho do sofrimento. Ele operou estes efeitos, Aquele para quem tudo é possível.
6. "As obras das Suas mãos são verdade e juízo" (v. 7). Mantenham-se firmes na verdade aqueles que aqui são julgados. Os mártires são aqui sentenciados e conduzidos ao tribunal, para que julguem não apenas aqueles por quem foram julgados, mas também profiram juízo sobre os anjos, contra os quais foi aqui a sua luta, mesmo quando pareciam ser julgados pelos homens. Não os separe de Cristo a tribulação, a angústia, a fome, a nudez, a espada. Pois "todos os Seus mandamentos são verdadeiros"; Ele não engana, dá-nos o que prometeu. Contudo, não devemos esperar aqui o que Ele prometeu; não devemos ter esperança disso aqui: mas "eles permanecem firmes para todo o sempre, e são feitos em verdade e equidade" (v. 8). É equitativo e justo que trabalhemos aqui e repousemos ali; visto que "Ele enviou a redenção ao Seu povo" (v. 9). Mas de que são eles redimidos, senão do cativeiro desta peregrinação? Não se busque, pois, o descanso, senão na pátria celeste. Deus deu, na verdade, aos israelitas carnais uma Jerusalém terrena, "que está em escravidão com os seus filhos"; mas esta é a Antiga Aliança, pertencente ao homem velho. Mas aqueles que ali entenderam a figura já então eram herdeiros da Nova Aliança; pois "a Jerusalém que é do alto é livre, a qual é nossa mãe eterna nos céus". Mas que naquele Antigo Testamento foram dadas promessas transitórias, prova-o o próprio fato: contudo, "Ele encomendou a Sua aliança para sempre". Mas que aliança senão a Nova? Quem quer que desejes ser herdeiro desta, não te enganes, nem penses numa terra que mane leite e mel, nem em amenas propriedades, nem em jardins abundantes de frutos e de sombra: não desejes alcançar coisa alguma desse gênero, tal como o olho da cobiça costuma cobiçar. Pois, visto que "a cobiça é a raiz de todos os males", é preciso cortá-la, para que aqui se consuma, e não adiá-la, para que ali se sacie. Escapa primeiro dos castigos, evita o inferno; antes de anelares por um Deus que promete, precata-te de um Deus que ameaça. Pois "santo e reverendo é o Seu nome".
7. ..."O temor do Senhor", pois, "é o princípio da sabedoria." "O entendimento é bom" (v. 10). Quem o contradiz? Mas entender e não fazer é perigoso. É "bom", portanto, "para os que o praticam." Nem por isso se eleve o espírito até a soberba; pois "o louvor d'Aquele", cujo temor é o princípio da sabedoria, "permanece para sempre": e esta será a recompensa, este o fim, esta a eterna estação e morada. Ali se encontram os verdadeiros mandamentos, confirmados para todo o sempre; aqui está a própria herança da Nova Aliança, ordenada eternamente. "Uma coisa", diz ele, "pedi ao Senhor, e a buscarei: que eu habite na casa do Senhor todos os dias da minha vida." Pois "bem-aventurados os que habitam na casa" do Senhor: "eles estarão sempre a louvá-l'O"; porque "o Seu louvor permanece para sempre."
2. "Bem-aventurado o homem que teme ao Senhor: ele terá grande deleite em Seus mandamentos" (v. 1). Deus, que só Ele julga com verdade e com misericórdia, verá até que ponto cada um obedece aos Seus mandamentos: pois "a vida do homem sobre a terra é uma tentação", como diz o santo Jó. Mas "Aquele que nos julga é o Senhor." ...Ele, portanto, verá até que ponto cada homem progride em Seus mandamentos; contudo, aquele que ama a paz desta edificação comum terá grande deleite neles; nem deve desesperar, pois há "paz na terra para os homens de boa vontade."
1. Creio, irmãos, que reparastes e guardastes na memória o título deste Salmo. "A conversão", diz ele, "de Ageu e Zacarias." Estes profetas ainda não existiam quando estes versículos foram cantados. ... Mas ambos, um pouco depois do outro, começaram a profetizar aquilo que parece referir-se à restauração do templo, tal como fora predito havia tanto tempo. ..."Pois o templo de Deus é santo, o qual sois vós." Quem quer que, pois, se converta à obra desta edificação comum e à esperança de um edifício firme e santo, como pedra viva erguida da miserável ruína deste mundo, entende o título do Salmo, entende "a conversão de Ageu e Zacarias." Que ele, pois, cante os versículos seguintes, não tanto com a voz da língua quanto com a da vida. Pois a consumação do edifício será aquela inefável paz da sabedoria, cujo "princípio" é o "temor do Senhor": comece, pois, a partir daí aquele a quem esta conversão edifica.
3. Segue-se, "A sua semente será poderosa sobre a terra" (v. 2). O Apóstolo testemunha que as obras de misericórdia são a semente da colheita futura, quando diz: "Não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos"; e ainda: "Mas digo isto: aquele que semeia parcamente, parcamente também ceifará." Mas que coisa, irmãos, é mais poderosa do que isto: não somente Zaqueu comprar o Reino dos Céus pela metade de seus bens, mas até a viúva por duas moedas, e que cada um possua ali uma parte igual? Que coisa é mais poderosa do que o mesmo Reino valer tesouros para o rico, e um copo de água fria para o pobre? ..."Glória e riquezas haverá em sua casa" (v. 3). Pois a sua casa é o seu coração; onde, com o louvor de Deus, vive em maiores riquezas com a esperança da vida eterna, do que com os homens que o adulam, em palácios de mármore, com tetos esplendidamente adornados, sob o temor da morte eterna. "Pois a sua justiça permanece para sempre": esta é a sua glória, ali estão as suas riquezas. Enquanto a púrpura do outro, e o linho fino, e os grandes banquetes, mesmo quando presentes, vão passando; e quando chegarem ao fim, a língua ardente clamará, ansiando por uma gota de água na ponta do dedo.
4. "Aos retos de coração nasce luz nas trevas" (v. 4). Justamente dirigem os piedosos o seu coração ao seu Deus, justamente caminham com o seu Deus, preferindo a vontade d'Ele a si mesmos; e não tendo soberba presunção nas coisas próprias. Pois se lembram de que outrora estiveram nas trevas, mas agora são luz no Senhor. "Misericordioso, compassivo e justo é o Senhor Deus." Agrada-nos que Ele seja "misericordioso e compassivo", mas talvez nos aterrorize que o Senhor Deus seja "justo." Não temas, não desesperes de modo algum, ó homem feliz, que temes ao Senhor e tens grande deleite em Seus mandamentos; sê doce, sê misericordioso e empresta. Pois o Senhor é justo desta maneira: que julga sem misericórdia aquele que não usou de misericórdia; mas "doce é o homem que é misericordioso e empresta" (v. 5): Deus não o vomitará da Sua boca como se ele não fosse doce. "Perdoai", diz Ele, "e sereis perdoados; dai, e vos será dado." Enquanto perdoas para que sejas perdoado, és misericordioso; enquanto dás para que te seja dado, emprestas. Pois, embora tudo se chame geralmente misericórdia onde outrem é socorrido em sua aflição, contudo há diferença ali onde não gastas nem dinheiro, nem o trabalho de labuta corporal, mas, perdoando o que cada homem pecou contra ti, ganhas também o livre perdão dos teus próprios pecados. ...Aquele que não quer dar ao pobre busca riquezas; ouve o que está escrito: "Terás tesouro no céu." Não perderás, pois, a honra ao perdoar: pois é um triunfo muitíssimo louvável vencer a ira: não empobrecerás ao dar; pois um tesouro celeste é uma posse mais segura. O versículo anterior, "Riquezas e fartura haverá em sua casa", estava grávido deste versículo.
5. Aquele, pois, que faz estas coisas, "guiará as suas palavras com discrição." As suas próprias obras são as palavras pelas quais ele será defendido no Juízo; o qual não será sem misericórdia para com ele, pois ele mesmo usou de misericórdia. "Pois ele jamais será abalado" (v. 6): aquele que, chamado à direita, ouvirá estas palavras: "Vinde, benditos de meu Pai, herdai o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo." Pois nenhumas obras suas, senão as obras de misericórdia, ali são mencionadas. Ele, pois, ouvirá: "Vinde, benditos de meu Pai"; pois "a geração dos retos será bendita." Assim, "os justos serão tidos em memória eterna." "Não temerá más notícias; o seu coração está firme e crê no Senhor" (v. 7). Tais como as palavras que ele ouvirá dirigidas aos que estão à esquerda: "Apartai-vos para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos." Aquele, pois, que aqui não busca as coisas suas, mas as de Jesus Cristo, suporta com muitíssima paciência os sofrimentos, espera as promessas com fé. Nem é abatido por nenhumas tentações: "O seu coração está firmado, e não vacilará, até que veja além dos seus inimigos" (v. 8). Os seus inimigos quiseram ver aqui coisas boas, e, quando lhes eram prometidas bênçãos invisíveis, costumavam dizer: "Quem nos mostrará algum bem?" Esteja, pois, firmado o nosso coração, e não vacile, até que vejamos além dos nossos inimigos. Pois eles querem ver as coisas boas dos homens na terra dos que morrem; nós confiamos em ver as coisas boas do Senhor na terra dos viventes.
6. Mas é grande coisa ter o coração firmado, e não ser abalado, enquanto se alegram os que amam o que veem, e zombam daquele que espera o que não vê; "o que o Senhor preparou para os que O amam." Quão grande é o valor daquilo que não se vê, e que se compra por tanto quanto cada um é capaz de dar por ele. Por isso também ele "espalhou e deu aos pobres" (v. 9): não via, e contudo continuava a comprar; mas ia armazenando o tesouro no céu Aquele que Se dignou ter fome e sede nos pobres da terra. Não é de admirar, pois, se "a sua justiça permanece para sempre": sendo-lhe guardião Aquele que criou os séculos. "O seu poder", cuja humildade era escarnecida pelos soberbos, "será exaltado com honra."
1. ...Quando ouvirdes cantar nos Salmos: "Louvai ao Senhor, ó filhos" (v. 1); não imagineis que essa exortação não vos diz respeito, porque, tendo já passado a juventude do corpo, estais ou a florescer no vigor da virilidade, ou a embranquecer com as honras da velhice: pois a todos vós diz o Apóstolo: "Irmãos, não sejais meninos no entendimento; contudo, na malícia sede meninos, mas no entendimento sede homens." Que malícia em particular, senão a soberba? Pois é a soberba que, presumindo em falsa grandeza, não permite ao homem caminhar pela senda estreita, e entrar pela porta estreita; mas a criança entra facilmente pela entrada estreita; e assim nenhum homem, senão como criança, entra no Reino dos Céus. "Louvai o Nome do Senhor." ...Seja Ele, pois, sempre proclamado: "Bendito seja o Nome do Senhor, desde agora e para sempre" (v. 2). Seja Ele proclamado por toda parte: "Desde o nascer do sol até o seu ocaso, louvai o Nome do Senhor" (v. 3).
2. Se algum dos santos filhos que louvam o Nome do Senhor me perguntasse e me dissesse: por "para sempre" entendo que se quer dizer por toda a eternidade: mas por que "desde agora", e por que não é bendito o Nome do Senhor antes disto, e antes de todos os séculos? Responderei ao pequenino, que não pergunta por contumácia. A vós se diz, mestres e crianças, a vós se diz: "Louvai o Nome do Senhor; bendito seja o Nome do Senhor": seja bendito o Nome do Senhor "desde agora", isto é, desde o momento em que pronunciais estas palavras. Pois começais a louvar, mas louvai sem fim. ...Ou então, visto que nesta passagem ele parece significar antes a humildade que a infância, cujo contrário é a vã e falsa grandeza da soberba; e por esta razão nenhuns, senão as crianças, louvam ao Senhor, pois os soberbos não sabem louvá-l'O; seja a velhice como a infância, e a vossa infância como a velhice; isto é, que nem a vossa sabedoria seja com soberba, nem a vossa humildade sem sabedoria, para que "louveis ao Senhor desde agora e para sempre." Onde quer que a Igreja de Cristo esteja difundida em seus santos semelhantes a crianças: "Louvai o Nome do Senhor"; isto é, "desde o nascer do sol até o seu ocaso."
3. "O Senhor está acima de todos os povos" (v. 4). Os povos são homens: que maravilha há em que o Senhor esteja acima de todos os homens? Eles veem com os olhos aqueles que adoram, colocados acima de si mesmos a brilhar no céu — o sol, a lua e as estrelas —, criaturas a que servem enquanto negligenciam o Criador. Mas não apenas "o Senhor está acima de todos os povos"; também "a Sua glória está acima dos céus". Os céus erguem os olhos para Ele, que está acima deles; e os humildes O têm consigo, eles que não adoram os céus em lugar d'Ele, ainda que postos na carne abaixo dos céus.
4. "Quem é semelhante ao Senhor nosso Deus, que tem a Sua morada tão no alto, e ainda assim contempla os humildes?" (v. 5). Poder-se-ia pensar que Ele habita nos altíssimos céus, de onde poderia contemplar as coisas humildes na terra; mas "Ele contempla as coisas humildes que estão no céu e na terra" (v. 6): qual é, pois, a Sua alta morada, de onde Ele contempla as coisas humildes que estão no céu e na terra? Serão as coisas humildes que Ele contempla a própria e altíssima morada d'Ele? Pois assim Ele exalta os humildes, de modo a não os tornar soberbos. Habita, portanto, naqueles a quem Ele eleva, e faz d'eles céu para Si mesmo, isto é, morada própria; e, vendo-os não soberbos, mas constantemente sujeitos a Si, Ele contempla, mesmo no próprio céu, estas mesmíssimas coisas humildes, nas quais, uma vez elevadas ao alto, Ele habita. Pois assim fala o Espírito por Isaías: "Assim diz o Altíssimo, que habita nas alturas, que habita a eternidade; o Senhor Altíssimo, que habita entre os santos." Ele explicou o que quis dizer por habitar nas alturas mediante a expressão mais plena: "habitando entre os santos"...
5. E Ele nos moveu também a indagar se o Senhor nosso Deus contempla as mesmas coisas humildes no céu e na terra, ou coisas humildes diversas no céu daquelas que contempla na terra... Mas se o Senhor nosso Deus contempla no céu outras coisas humildes das que contempla na terra, suponho que Ele já contempla no céu aqueles a quem chamou, e nos quais habita; ao passo que na terra contempla aqueles a quem agora está chamando, para que neles venha a habitar. Pois tem, junto de Si, uns meditando nas coisas celestiais, e a outros vai despertando, enquanto ainda sonham coisas terrenas. Mas, sendo difícil chamar de humildes até mesmo àqueles que ainda não submeteram, com piedade, o pescoço ao suave jugo de Cristo, visto que os escritos divinos, em todo este Salmo, nos advertem a entender por "humilde" o que é santo, há ainda outra interpretação, que, caríssimos, podeis considerar comigo. Creio que por céus se entendem agora aqueles que se assentarão sobre doze tronos, e julgarão com o Senhor; e sob o nome de terra, o resto da multidão dos bem-aventurados, que se porão à direita, para que, por obras de misericórdia, sejam louvados e recebidos nas moradas eternas por aqueles a quem, nesta vida mortal, fizeram amigos com as riquezas da iniquidade...
6. "Ele levanta o desamparado do pó, e ergue o pobre da lama" (v. 7); "para o assentar com os príncipes, com os príncipes do Seu povo" (v. 8). Não desdenhem, pois, os cabeças dos exaltados de ser humildes sob a destra do Senhor. Pois ainda que o fiel administrador do dinheiro do Senhor seja posto juntamente com os príncipes do povo de Deus, ainda que esteja destinado a sentar-se sobre os doze tronos, e mesmo a julgar anjos, é ele, contudo, levantado do pó e erguido da lama. Não terá sido, porventura, erguido da lama aquele que "servia a diversas concupiscências e prazeres"?...
7. Que diremos, então, irmãos, se já ouvimos falar daquelas coisas humildes que estão no céu, erguidas da lama para serem postas com os príncipes do povo? Por acaso nada ouvimos, em consequência, das coisas humildes que o Senhor contempla na terra? Pois aqueles amigos que hão de julgar com o seu Senhor são em menor número, ao passo que os que eles recebem nas moradas eternas são mais numerosos. Pois embora todo um monte de trigo, comparado à palha separada, pareça conter poucos grãos, considerado em si mesmo, é abundante... A Igreja fala, pois, assim, naquele sentido em que parece não gerar filhos entre aquelas multidões que não deixaram todas as coisas para seguir o Senhor e sentar-se sobre os doze tronos. Mas quantos, na mesma multidão, que fazem para si amigos com as riquezas da iniquidade, hão de estar à direita por obras de misericórdia? Não apenas, pois, Ele levanta da lama aquele que há de colocar com os príncipes do Seu povo; mas também "faz da estéril senhora de casa, mãe alegre de filhos" (v. 9): Ele que habita nas alturas e contempla as coisas humildes que estão no céu e na terra — a semente de Abraão como as estrelas do céu, a santidade posta no alto, nas moradas celestiais; e, como a areia à beira-mar, uma multidão misericordiosa e inumerável, congregada dentre as ondas nocivas e a amargura da impiedade.
1. O rio Jordão, quando entravam por ele para a terra da promessa, tocado pelos pés dos sacerdotes que carregavam a Arca, deteve-se, do alto, com a corrente refreada, enquanto fluía, por baixo, para onde corria em direção ao mar, até que todo o povo passasse, permanecendo os sacerdotes sobre o solo seco. Sabemos destas coisas; contudo, não devemos supor, neste Salmo ao qual agora respondemos entoando o Aleluia, que o propósito do Espírito Santo seja que, ao recordarmos aqueles feitos do passado, deixemos de considerar coisas semelhantes ainda por acontecer. Pois "estas coisas", como diz o Apóstolo, "aconteceram-lhes em figura".
2. "Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó do meio de um povo estranho" (v. 1), "Judá foi o Seu santuário, e Israel o Seu domínio" (v. 2); "o mar viu isso e fugiu, o Jordão foi feito retroceder" (v. 3). Não penseis que se nos relatam feitos passados, mas antes que se prediz o futuro; pois, ao mesmo tempo em que aqueles milagres se davam naquele povo, sucediam coisas presentes, mas não sem indicação de coisas futuras... Ele relatou algumas coisas de modo diverso do que aprendemos e lemos ali, para que não se pensasse que estava, na verdade, repetindo atos passados, e não profetizando coisas futuras. Pois, em primeiro lugar, não lemos que o Jordão foi feito retroceder, mas que se deteve do lado mais próximo à sua nascente, enquanto o povo passava; em seguida, não lemos dos montes e colinas saltando: tudo isso ele acrescentou e repetiu. Pois, depois de dizer: "O mar viu isso, e fugiu; o Jordão foi feito retroceder", acrescentou: "Os montes saltaram como carneiros, e os outeiros como cordeiros" (v. 4); e depois pergunta: "Que tens tu, ó mar, que fugiste; e tu, ó Jordão, que foste feito retroceder?" (v. 5). "Vós, montes, que saltastes como carneiros; e vós, outeiros, como cordeiros?" (v. 6).
3. Consideremos, pois, o que aqui se nos ensina; visto que tanto aqueles feitos foram figuras de nós, como estas palavras nos exortam a reconhecer-nos a nós mesmos. Pois, se retivermos com coração firme a graça de Deus que nos foi dada, somos Israel, a semente de Abraão: a nós diz o Apóstolo: "Portanto, sois vós a semente de Abraão"... Que nenhum cristão, pois, se considere alheio ao nome de Israel. Pois estamos unidos, na pedra angular, com aqueles dentre os judeus que creram, entre os quais encontramos os Apóstolos como principais. Por isso, o Senhor diz noutra passagem: "Outras ovelhas tenho, que não são deste aprisco; a essas também me convém trazer, para que haja um só rebanho e um só Pastor." O povo cristão é, então, antes Israel, e o mesmo é preferivelmente a casa de Jacó; pois Israel e Jacó são o mesmo. Mas aquela multidão de judeus, justamente reprovada por sua perfídia, vendeu, pelos prazeres da carne, o seu direito de primogenitura, de modo que já não pertencia a Jacó, mas antes a Esaú. Pois sabeis que se disse, com este sentido oculto: "Que o mais velho serviria ao mais moço."
4. Mas o Egito, visto que se diz significar "aflição", ou "aquele que aflige", ou "aquele que oprime", é frequentemente usado como figura deste mundo; do qual devemos afastar-nos espiritualmente, para que não carreguemos o jugo com os incrédulos. Pois assim cada um se torna cidadão apto da Jerusalém celeste, quando primeiro renunciou a este mundo; assim como aquele povo não podia ser conduzido à terra da promessa, sem que antes tivesse saído do Egito. Mas, assim como não saíram de lá senão libertados pelo auxílio divino, também nenhum homem se converte em seu coração deste mundo, senão auxiliado pelo dom da misericórdia divina. Pois o que ali outrora se prefigurou, o mesmo se cumpre em cada fiel, nos cotidianos trabalhos de parto da Igreja, neste fim do mundo, neste, como escreve o bem-aventurado João, último tempo. Ouvi o Apóstolo, mestre dos gentios, a nos instruir assim: "Não quero, irmãos, que ignoreis que todos os nossos pais estiveram sob a nuvem, e todos passaram pelo mar; e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, e todos comeram o mesmo manjar espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual; pois bebiam da pedra espiritual que os seguia, e a pedra era Cristo. Mas Deus não Se agradou da maioria deles, pois foram prostrados no deserto. Ora, estas coisas foram exemplos para nós." Que mais quereis, caríssimos irmãos? Pois está por certo claro, não por conjectura humana, mas pela declaração de um Apóstolo, isto é, de Deus e de nosso Senhor: pois Deus falou neles, e, ainda que de nuvens de carne, foi Deus quem trovejou; está claro, pois, por tão grande testemunho, que todas estas coisas que se fizeram em figura estão agora cumpridas em nossa salvação; porque então se predizia o futuro, agora se lê o passado e se observa o presente.
5. Ouvi algo ainda mais admirável: que os mistérios ocultos e velados dos livros antigos são, em certa medida, revelados pelos próprios livros antigos. Pois assim fala o profeta Miqueias: "Segundo os dias da tua saída do Egito, Eu lhe mostrarei coisas maravilhosas", etc... Neste Salmo, portanto, ainda que o admirável espírito de profecia veja para o futuro, parece, contudo, estar apenas narrando o passado. "Judá", diz ele, "foi o Seu santuário: o mar viu isso e fugiu": "foi", "viu" e "fugiu" são palavras no tempo passado; e "o Jordão foi feito retroceder, e os montes saltaram, e a terra tremeu" têm, de igual modo, expressão passada, sem que, contudo, haja qualquer dificuldade em entender por elas o futuro... Pois, ainda que tenha sido tanto tempo depois da saída daquele povo do Egito, e tanto tempo antes destes tempos da Igreja, que ele cantou o que citei, não obstante ele testemunha que está predizendo o futuro, sem qualquer dúvida. "Segundo os dias", diz ele, "da tua saída da terra do Egito, Eu lhe mostrarei coisas maravilhosas." "As nações verão e ficarão confundidas." É isto o que aqui se diz: "O mar viu isso, e fugiu": pois, se nesta passagem, mediante palavras no tempo passado, se revela secretamente o futuro, como de fato ocorre, quem ousaria explicar as palavras "verão e ficarão confundidas" como referentes a acontecimentos passados? E, um pouco mais adiante, ele alude, mais claramente que a própria luz, àqueles mesmos inimigos nossos, que nos seguiram em nossa fuga para nos matar — isto é, os nossos pecados, que são submersos e extintos no Batismo, assim como os egípcios foram afogados no mar —, dizendo, visto que "Ele não retém a Sua ira para sempre, porque é benevolente e misericordioso, Ele fará retornar...
8. "Treme, ó terra, à presença do Senhor, à presença do Deus de Jacó" (v. 7). Que significa "à presença do Senhor", senão à presença d'Aquele que disse: "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo"? Pois a terra tremeu; mas, porque permanecera indolente, foi feita tremer, para que se firmasse mais solidamente à presença do Senhor.
9. "Que converteu a dura rocha em águas paradas, e o pedernal em fontes jorrantes" (v. 8). Pois Ele derreteu a Si mesmo, e o que se poderia chamar a Sua dureza, para dar de beber aos que n'Ele creem, a fim de que n'eles Se tornasse "fonte de água que jorra para a vida eterna"; porquanto, outrora, quando não era conhecido, parecia duro. Por isso, aqueles que disseram: "Duro é este discurso, quem pode ouvi-lo?" foram confundidos, e não esperaram até que Ele fluísse e se derramasse sobre eles, quando as Escrituras fossem reveladas. A rocha, aquela dureza, converteu-se em poços de água; aquela pedra, em fontes de águas, quando, em Sua ressurreição, "lhes expôs, começando por Moisés e todos os profetas, como convinha que Cristo assim padecesse"; e enviou o Espírito Santo, do qual disse: "Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba."
"Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso Nome dai a glória" (v. 1). Pois aquela graça da água que jorrou da rocha ("ora, a rocha era Cristo"), não foi dada em razão de obras precedentes, mas de Sua misericórdia, "que justifica o ímpio". Pois "Cristo morreu pelos pecadores", para que os homens não buscassem glória própria alguma, mas no Nome do Senhor.
"Por causa de Vossa misericórdia e de Vossa verdade" (v. 2). Observai quão frequentemente estas duas qualidades, a misericórdia e a verdade, são unidas nas santas Escrituras. Pois em Sua misericórdia Ele chamou os pecadores, e em Sua verdade julga aqueles que, chamados, recusaram vir. "Para que os gentios não digam: Onde está agora o seu Deus?" Pois, ao fim, Sua misericórdia e verdade resplandecerão, quando "o sinal do Filho do homem aparecer no céu, e então todas as tribos da terra prantearão"; nem dirão então: "Onde está o seu Deus?", quando Ele já não lhes for pregado para ser crido, mas mostrado para ser temido.
"Quanto ao nosso Deus, Ele está no alto céu" (v. 3). Não no céu onde veem o sol e a lua, obras de Deus que eles adoram, mas "no alto céu", que ultrapassa todos os corpos celestes e terrestres. Nem está o nosso Deus no céu de tal modo que temesse uma queda que O privasse de Seu trono, se o céu Lhe fosse retirado de sob os pés. "No céu e na terra fez tudo quanto Lhe aprouve." Nem Ele necessita de Suas próprias obras, como se nelas tivesse um lugar onde permanecer; antes, subsiste em Sua própria eternidade, na qual permanece e fez tudo quanto Lhe aprouve, tanto no céu como na terra; pois estes não O sustentavam, como condição de terem sido por Ele criados: visto que, se não tivessem sido criados, não poderiam sustentá-Lo. Portanto, em tudo aquilo em que Ele mesmo habita, Ele, por assim dizer, o contém como algo que necessita d'Ele; Ele não é contido por isso como se necessitasse dele. Ou pode ser assim entendido: "No céu e na terra fez tudo quanto Lhe aprouve", seja entre as ordens superiores, seja entre as inferiores de Seu povo, fez de Sua graça um dom gratuito, para que ninguém se glorie nos méritos de suas próprias obras. ...
"Seus ídolos", diz ele, "são prata e ouro, obra das mãos dos homens" (v. 4). Isto é, ainda que não possamos mostrar o nosso Deus aos vossos olhos carnais, a quem deveríeis reconhecer através de Suas obras; contudo, não vos deixeis seduzir por vossos vãos pretextos, porque podeis apontar com o dedo os objetos de vosso culto. Pois seria muito melhor para vós não terdes o que apontar, do que ficar exposta a cegueira de vossos corações naquilo que exibis a estes olhos: pois que exibis vós, senão ouro e prata? Têm eles, é certo, ídolos de bronze, de madeira e de barro, e de diferentes materiais desta espécie; mas o Espírito Santo preferiu mencionar o material mais precioso, porque, quando cada homem se envergonhar daquilo que mais preza, muito mais facilmente se afastará do culto dos objetos mais vis. Pois se diz em outra passagem da Escritura, acerca dos adoradores de imagens: "Dizendo a um tronco: Tu és meu pai; e a uma pedra: Tu me geraste." Mas para que aquele que assim fala, não a uma pedra ou a um tronco, mas ao ouro e à prata, não se julgue a si mesmo mais sábio; olhe para cá, volte para cá o ouvido de seu coração: "Os ídolos dos gentios são ouro e prata." Nada de humilde e desprezível se menciona aqui: e, de fato, para a mente que não é terra, tanto o ouro quanto a prata são terra, ainda que mais bela e brilhante, mais sólida e firme. Não empregues, pois, as mãos dos homens para criar uma falsa Divindade a partir do metal que um Deus verdadeiro criou; antes, um falso homem, a quem adorarias como Deus verdadeiro. ...
"Pois têm boca, e não falam; têm olhos, e não veem" (v. 5). "Têm ouvidos, e não ouvem; têm narinas, e não cheiram" (v. 6). "Têm mãos, e não apalpam; têm pés, e não andam; nem clamam por sua garganta" (v. 7). Assim, o próprio artífice os supera, pois teve a faculdade de moldá-los pelo movimento e pelas funções de seus membros: ainda que te envergonhasses de adorar esse artífice. Até tu os superas, embora não tenhas feito estas coisas, visto que fazes o que eles não podem fazer. Até um animal os excede; pois a isto se acrescenta: "nem clamam por sua garganta." Pois, depois de ter dito acima, "têm boca, e não falam", que necessidade havia, depois de ter enumerado os membros da cabeça aos pés, de repetir o que já dissera sobre clamarem por sua garganta; a não ser, suponho, porque percebemos que aquilo que mencionou quanto aos outros membros era comum aos homens e aos animais? Pois estes veem, e ouvem, e cheiram, e andam, e alguns, os macacos por exemplo, apalpam com as mãos. Mas o que dissera da boca é próprio dos homens: pois os animais não falam. Mas para que ninguém referisse o que fora dito apenas às obras dos membros humanos, e preferisse os homens somente aos deuses dos gentios, depois de tudo isto acrescentou estas palavras: "nem clamam por sua garganta", o que, por sua vez, é comum aos homens e aos animais. ...Quanto melhor, pois, julgam os ratos e as serpentes, e outros animais desta espécie, os ídolos dos gentios, por assim dizer, pois não reconhecem neles a figura humana, já que não percebem neles a vida humana. Por esta razão, costumam construir neles seus ninhos, e, a menos que sejam afastados por movimentos humanos, não buscam para si moradas mais seguras. O homem, pois, move-se a si mesmo para afugentar um animal vivo de seu próprio deus; e, contudo, adora aquele deus que não pode mover-se a si mesmo, como se fosse poderoso, deus do qual afugentou um ser melhor do que o objeto de seu culto. ...Até o morto supera uma divindade que nem vive nem jamais viveu. ...
6. Mas parecem a si mesmos ter uma religião mais pura aqueles que dizem: Eu não adoro um ídolo, nem um demônio; mas na imagem corpórea contemplo um emblema daquilo que sou obrigado a adorar. ...Presumem responder que não adoram os próprios corpos, mas as divindades que presidem ao seu governo. Uma sentença do Apóstolo, portanto, testifica seu castigo e condenação: "Os quais", diz ele, "mudaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e serviram a criatura mais do que o Criador, que é bendito para sempre." Pois na primeira parte desta sentença condenou os ídolos; na segunda, a explicação que dão de seus ídolos: pois, ao designarem as imagens forjadas por um artífice pelos nomes das obras da criação de Deus, mudam a verdade de Deus em mentira; enquanto, considerando estas mesmas obras como divindades, e adorando-as como tais, servem a criatura mais do que o Criador, que é bendito para sempre. ...
7. Mas se dirá: também nós temos muitíssimos instrumentos e vasos feitos de materiais ou metal desta espécie para a celebração dos Sacramentos, os quais, sendo consagrados por estes ministérios, são chamados santos, em honra Daquele que assim é adorado para nossa salvação: e que são, de fato, estes mesmos instrumentos ou vasos, senão obra das mãos dos homens? Mas têm eles boca, e contudo não falam? têm olhos, e não veem? oramos nós a eles, porque através deles oramos a Deus? Esta é a causa principal desta insana profanidade: que a figura semelhante à pessoa viva, a qual induz os homens a adorá-la, tem mais influência nas mentes destes miseráveis do que o fato evidente de que ela não está viva, de modo que deveria ser desprezada pelos vivos.
"Amei, pois o Senhor ouvirá a voz de minha oração" (v. 1). Cante assim a alma que peregrina ausente do Senhor, cante assim aquela ovelha que se extraviara, cante assim aquele filho que "morreu e voltou à vida", que "se havia perdido e foi achado"; cante assim a nossa alma, irmãos e filhos caríssimos. Sejamos instruídos, e permaneçamos, e cantemos assim com os Santos: "Amei: pois o Senhor ouvirá a voz de minha oração." Será esta a razão de ter amado, que o Senhor ouvirá a voz de minha oração? E não amamos antes porque Ele ouviu, ou para que Ele ouça? Que significa, pois, "Amei, pois o Senhor ouvirá"? Diz ele que amou porque, visto que a esperança costuma inflamar o amor, esperou que Deus ouvisse a voz de sua oração?
Mas donde esperou ele isto? Pois, diz ele, "Ele inclinou o Seu ouvido para mim; e em meus dias O invoquei" (v. 2). Amei, portanto, porque Ele ouvirá; Ele ouvirá, "porque inclinou o Seu ouvido para mim." Mas donde sabes tu, ó alma humana, que Deus inclinou o Seu ouvido para ti, senão porque dizes: "Cri"? Permanecem, pois, estas três coisas: "a fé, a esperança, a caridade": porque creste, esperaste; porque esperaste, amaste. ...
"Louvai ao Senhor, todos os gentios; louvai-O, todos os povos" (v. 1). Estes são os átrios da casa do Senhor, este é todo o Seu povo, esta é a verdadeira Jerusalém. Escutem antes aqueles que recusaram ser filhos desta cidade, visto que se apartaram da comunhão de todas as nações. "Pois a Sua misericórdia é cada vez mais e mais sobre nós; e a verdade do Senhor permanece para sempre" (v. 2). Estas são aquelas duas coisas, a misericórdia e a verdade, que no Salmo 115 vos admoestei que fossem guardadas na memória. Mas "a misericórdia do Senhor é cada vez mais e mais sobre nós", visto que as línguas furiosas das nações hostis cederam ao Seu Nome, por meio do qual fomos libertados: "e a verdade do Senhor permanece para sempre", seja naquilo que prometeu aos justos, seja naquilo que ameaçou aos ímpios.
1. Neste Salmo somos ensinados que, ao cantarmos Aleluia — que significa Louvai ao Senhor —, devemos, ao ouvirmos as palavras "Confessai-vos ao Senhor" (v. 1), louvar ao Senhor. O louvor de Deus não poderia exprimir-se em palavras mais breves que estas: "Porque Ele é bom." Não vejo o que possa haver de mais solene do que esta brevidade, pois a bondade é atributo tão próprio de Deus que o próprio Filho de Deus, quando por alguém chamado "Bom Mestre" — por alguém, a saber, que contemplando a Sua carne e não compreendendo a plenitude de Sua natureza divina, O considerava apenas homem —, respondeu: "Por que Me chamas bom? Ninguém é bom senão um só, que é Deus." E que outra coisa é isto senão dizer: Se queres chamar-Me bom, reconhece-Me como Deus? Mas, porquanto isto é dito, em revelação das coisas futuras, a um povo livre de toda fadiga e do vagar da peregrinação, e de toda mistura com os ímpios — liberdade esta que lhe foi dada pela graça de Deus, que não só não retribui o mal com o mal, mas ainda retribui o mal com o bem —, com toda propriedade se acrescenta: "Porque a Sua misericórdia dura para sempre."
2. "Confesse agora Israel que Ele é bom, e que a Sua misericórdia dura para sempre" (v. 2). "Confesse agora a casa de Arão que a Sua misericórdia dura para sempre" (v. 3). "Sim, confessem agora todos os que temem ao Senhor que a Sua misericórdia dura para sempre" (v. 4). Recordai-vos, suponho, caríssimos, do que seja a casa de Israel, do que seja a casa de Arão, e de que ambas são os que temem ao Senhor. Pois são "os pequenos e os grandes", os quais já em outro Salmo foram felizmente introduzidos em vossos corações: em cujo número todos nós devemos alegrar-nos de estarmos unidos, pela graça d'Aquele que é bom, e cuja misericórdia dura para sempre; visto que foram ouvidos aqueles que disseram: "Que o Senhor vos aumente cada vez mais, a vós e a vossos filhos"; a fim de que a multidão dos gentios se acrescentasse aos israelitas que creram em Cristo, em cujo número estão os Apóstolos, nossos pais, para a exaltação dos perfeitos e a obediência dos pequeninos; a fim de que todos nós, feitos um só em Cristo, feitos um só rebanho sob um só Pastor, e corpo daquela Cabeça, como um único homem, possamos dizer: "Na angústia invoquei ao Senhor, e o Senhor me ouviu, pondo-me em lugar espaçoso" (v. 5). Os estreitos desfiladeiros de nossa tribulação são limitados; mas o largo caminho por onde passamos não tem fim. "Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?"
3. "O Senhor é o meu ajudador; não temerei o que o homem me possa fazer" (v. 6). Mas serão, então, os homens os únicos inimigos que a Igreja tem? Que é um homem entregue à carne e ao sangue, senão carne e sangue? Mas diz o Apóstolo: "Não lutamos contra a carne e o sangue, mas" ... diz ele, "contra as maldades espirituais nas regiões celestes"; isto é, contra o diabo e os seus anjos; aquele diabo a quem noutro lugar chama "o príncipe da potestade do ar". Ouvi, pois, o que se segue: "O Senhor é o meu ajudador; por isso desprezarei os meus inimigos" (v. 7). De qualquer classe que surjam os meus inimigos, seja do número dos homens maus, seja do número dos anjos maus, no auxílio do Senhor, a quem cantamos a confissão do louvor, a quem entoamos o Aleluia, serão eles desprezados.
4. Mas, uma vez levados ao desprezo os meus inimigos, não se apresente diante de mim o meu amigo como homem bom, a ponto de convidar-me a repousar em si mesmo a minha esperança; pois "melhor é confiar no Senhor do que confiar no homem" (v. 8). Nem tampouco alguém que, em certo sentido, possa ser chamado bom anjo, seja por mim tido como aquele em quem devo depositar a minha confiança; pois "ninguém é bom senão só Deus"; e quando um homem ou um anjo parecem ajudar-nos, quando o fazem com sincero afeto, é Ele quem o faz por meio deles, Ele que os fez bons segundo a sua medida. "Melhor é", portanto, "confiar no Senhor do que confiar em príncipes" (v. 9). Pois também os anjos são chamados príncipes, como lemos em Daniel: "Miguel, vosso príncipe."
5. "Todas as nações me cercaram, mas em o Nome do Senhor delas me vinguei" (v. 10). "Cercaram-me por todos os lados, cercaram-me, digo, por todos os lados; mas em o Nome do Senhor delas me vinguei" (v. 11). Significa ele os labores e a vitória da Igreja; mas, como se lhe perguntassem de que modo pudera ela vencer males tão grandes, volve o olhar ao exemplo, e declara o que primeiro padecera em sua Cabeça, acrescentando o que se segue: "Cercaram-me por todos os lados"; e as palavras "todas as nações" não são aqui, com razão, repetidas, porque isto foi obra somente dos judeus. Ali aquela mesma nação religiosa (que é o corpo de Cristo, e em cujo favor foi feito tudo quanto se fez em forma mortal, com poder imortal, por aquela divindade interior, através da carne exterior) padeceu da parte dos perseguidores, de cuja raça foi assumida aquela carne que foi pendurada na cruz.
6. "Cercaram-me como abelhas a uma colmeia, e se abrasaram como fogo entre espinhos; e em o Nome do Senhor delas me vinguei" (v. 12). Aqui, pois, a ordem das palavras corresponde à ordem dos acontecimentos. Pois retamente entendemos que o próprio Senhor nosso, Cabeça da Igreja, foi cercado por perseguidores, assim como as abelhas cercam uma colmeia. Porquanto o Espírito Santo fala, com mística sutileza, daquilo que foi feito por aqueles que não sabiam o que faziam. Pois as abelhas fazem mel nas colmeias; ao passo que os perseguidores de nosso Senhor, inconscientes como eram, tornaram-nO mais doce para nós ainda por sua própria Paixão; de modo que podemos provar e ver quão doce é o Senhor, "que morreu por nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação". Mas o que se segue, "e se abrasaram como fogo entre espinhos", entende-se melhor de Seu Corpo, isto é, de um povo espalhado por toda parte, o qual todas as nações cercaram, visto que foi ele congregado de todas as nações. Consumiram estes esta carne pecadora, e os dolorosos aguilhões desta vida mortal, na chama da perseguição. "Delas me vinguei": ou porque eles mesmos, extinta aquela malícia que neles perseguia os justos, se uniram ao povo de Cristo; ou porque os demais, que neste tempo desprezaram a misericórdia d'Aquele que os chama, sentirão ao fim a verdade d'Aquele que os julga.
7. "Fui empurrado como um monte de areia, de modo que eu ia caindo, mas o Senhor me susteve" (v. 13). Pois, ainda que houvesse grande multidão de crentes, que se poderia comparar à areia inumerável, e reunida em uma só comunhão como em um só monte, contudo "que é o homem, se Vós dele não Vos lembrardes?" Não disse ele que a multidão dos gentios não pudesse superar a abundância do meu exército, mas: "o Senhor", diz ele, "me susteve". A perseguição dos gentios não conseguiu empurrar até sua queda o exército dos fiéis que juntos habitavam na unidade da fé.
8. "O Senhor é a minha fortaleza e o meu louvor, e Se fez a minha salvação" (v. 14). Quem, pois, cai, quando é empurrado, senão aqueles que escolhem ser sua própria fortaleza e seu próprio louvor? Pois nenhum homem cai no combate, senão aquele cuja fortaleza e cujo louvor falham. Aquele, portanto, cuja fortaleza e cujo louvor é o Senhor, não cai mais do que o Senhor cai. E por esta razão Ele Se fez a salvação deles; não que Se tenha feito algo que antes não era, mas porque eles, quando creram nEle, se fizeram o que antes não eram; e então Ele começou a ser salvação para eles quando se voltaram para Ele, o que não era para eles enquanto voltados para longe de Si mesmo.
9. "A voz de júbilo e de saúde está nos tabernáculos dos justos" (v. 15); onde aqueles que enfureciam-se contra os corpos dos santos julgavam que havia a voz de tristeza e de destruição. Pois não conheciam o júbilo interior dos santos em sua esperança futura. Donde também o Apóstolo diz: "Como entristecidos, mas sempre alegres"; e ainda: "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações."
10. "A destra do Senhor operou grandes feitos" (v. 16). Que grandes feitos? diz ele. "A destra do Senhor", diz ele, "exaltou-me." Grande feito é exaltar o humilde, deificar o mortal, tirar a perfeição da fraqueza, a glória da sujeição, a vitória do sofrimento, dar socorro, erguer do infortúnio; para que a verdadeira salvação de Deus se manifestasse aos aflitos, e a salvação dos homens permanecesse sem proveito para os perseguidores. Grandes são estas coisas: mas que te admira? Ouve o que ele repete: "A destra do Senhor operou grandes feitos."
11. "Não morrerei, mas viverei, e declararei as obras do Senhor" (v. 17). Mas eles, enquanto por toda parte semeavam a devastação e a morte, julgavam que a Igreja de Cristo estava morrendo. Eis que agora ele declara as obras do Senhor. Em toda parte Cristo é a glória dos bem-aventurados Mártires. Sendo golpeado, venceu os que O feriam; sendo paciente nos tormentos, venceu os atormentadores; amando, venceu os que se enfureciam contra Ele.
12. Mostre-nos, contudo, por que razão o corpo de Cristo, a santa Igreja, o povo da adoção, padeceu tais ultrajes. "O Senhor", diz ele, "castigou-me e corrigiu-me, mas não me entregou à morte" (v. 18). Não pensem, pois, os ímpios soberbos que algo foi permitido ao seu poder: não teriam esse poder, se não lhes fosse dado do alto. Frequentemente o pai de família ordena que seus filhos sejam corrigidos pelos escravos mais vis; ainda que destine a herança aos primeiros, e as cadeias aos últimos. Que herança é essa? É de ouro, ou de prata, ou de pedras preciosas, ou de campos, ou de aprazíveis propriedades? Considerai como nela entramos: e aprendei o que ela é.
13. "Abri-me", diz ele, "as portas da justiça" (v. 19). Eis que ouvimos falar das portas. Que há dentro? "Para que eu possa", diz ele, "entrar por elas, e dar graças ao Senhor." Esta é a confissão de louvor cheia de espanto, "até à casa de Deus, em voz de júbilo e confissão de louvor, entre os que celebram a festa": esta é a bem-aventurança eterna dos justos, pela qual são bem-aventurados os que habitam na casa do Senhor, louvando-O para sempre.
14. Mas considerai como se entra pelas portas da justiça. "Estas são as portas do Senhor", diz ele, "os justos entrarão por elas" (v. 20). Que ao menos nenhum ímpio ali entre, naquela Jerusalém que não recebe nenhum incircunciso, onde se diz: "Fora ficam os cães." Baste-me que, em minha longa peregrinação, "tive minha morada entre as tendas de Quedar": suportei até o fim o convívio dos ímpios, mas "estas são as portas do Senhor: os justos entrarão por elas."
15. "Confessar-Te-ei, ó Senhor, porque me ouviste, e Te fizeste minha salvação" (v. 21). Quantas vezes se mostra esta confissão ser de louvor, aquela que não aponta ao médico as feridas, mas dá graças pela saúde recebida. Mas o próprio Médico é a Salvação.
16. Mas quem é este de quem falamos? "A Pedra que os edificadores rejeitaram" (v. 22); pois "tornou-se a Pedra angular", para "fazer de ambos, em Si mesmo, um novo homem, fazendo assim a paz; e para que reconciliasse ambos com Deus em um só corpo"; a saber, a circuncisão e a incircuncisão.
17. "Da parte do Senhor foi feito isto" (v. 23): isto é, é feita, pelo Senhor, a pedra angular. Pois, ainda que Ele não se tivesse tornado isto, se não houvesse padecido, todavia não se tornou isto por meio daqueles por quem padeceu. Pois os que edificavam O rejeitaram: mas no edifício que o Senhor secretamente erguia, tornou-se pedra angular aquilo que eles rejeitaram. "E isto é maravilhoso aos nossos olhos": aos olhos do homem interior, aos olhos dos que creem, dos que esperam, dos que amam; não aos olhos carnais daqueles que, desprezando-O como se fosse um homem, O rejeitaram.
18. "Este é o dia que o Senhor fez" (v. 24). Este homem se recorda de haver dito em Salmos anteriores: "Porque Ele inclinou o Seu ouvido para mim, por isso O invocarei enquanto eu viver"; fazendo menção de seus dias antigos; donde agora diz: "Este é o dia que o Senhor fez"; isto é, no qual Ele me deu a Salvação. Este é o dia do qual disse: "Em tempo aceitável te ouvi, e no dia da Salvação te ajudei"; isto é, um dia em que Ele, o Mediador, se tornou a pedra angular. "Alegremo-nos", pois, "e regozijemo-nos nEle."
19. "Salva-me agora, ó Senhor: prospera bem o meu caminho, ó Senhor" (v. 25). Porque é o dia da Salvação, "salva-me": porque nós, voltando de uma longa peregrinação, estamos separados daqueles que odiavam a paz, com os quais éramos pacíficos, e que, quando lhes falávamos, nos faziam guerra sem causa; "prospera bem o nosso caminho" ao voltarmos, uma vez que Te tornaste o nosso Caminho.
20. "Bendito o que vem em nome do Senhor" (v. 26). Maldito, pois, é aquele que vem em seu próprio nome; como Ele diz no Evangelho: "se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis." "Nós vos bendissemos da casa do Senhor." Creio que estas são as palavras dos grandes aos pequenos, isto é, daqueles grandes que, em espírito, se comunicam com Deus, o Verbo, que está junto a Deus, na medida em que o podem fazer nesta vida; e, no entanto, temperam o seu discurso por causa dos pequenos, de modo que possam dizer sinceramente o que diz o Apóstolo: "Pois, se estamos fora de nós, é para Deus; se, porém, sóbrios, é para vós. Porque o amor de Cristo nos constrange." Eles bendizem as criancinhas desde a casa interior do Senhor, onde aquele louvor não cessa através das gerações: considerai, pois, o que proclamam desde ali.
21. "Deus é o Senhor, que nos mostrou a luz" (v. 27). Aquele Senhor, que veio em nome do Senhor, a quem os edificadores rejeitaram, e que se tornou a pedra angular, aquele "Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo," é Deus, é igual ao Pai; Ele nos mostrou a luz, para que entendêssemos o que cremos, e o declarássemos a vós que ainda não o entendeis, mas já credes. Mas para que também vós entendais: "Celebrai um dia santo em assembleias solenes, até às pontas do altar"; isto é, até a casa interior de Deus, de onde vos bendissemos, onde estão os lugares altos do altar. "Celebrai um dia santo," não de modo indolente, mas "em assembleias solenes" (v. 28). Pois esta é a voz de júbilo entre aqueles que guardam o dia santo, que caminham "no lugar do tabernáculo admirável, até a casa de Deus." Pois, se ali há o sacrifício espiritual, o sacrifício eterno de louvor, então tanto o Sacerdote é eterno, quanto a mente pacífica dos justos é altar eterno. ...
22. E que cantaremos ali, senão os Seus louvores? Que outra coisa diremos ali, senão: "Tu és o meu Deus, e a Ti confessarei; Tu és o meu Deus, e a Ti louvarei; a Ti confessarei, porque me ouviste, e Te tornaste a minha Salvação"? Não diremos estas coisas em palavras altas; mas o amor que nEle habita, por si mesmo, clama nestas palavras, e estas palavras são o próprio amor. Assim como começou com o louvor, assim termina: "Confessai ao Senhor, porque Ele é bom, e a Sua misericórdia dura para sempre" (v. 29). Com isto o Salmo começa, com isto termina; pois, tanto no início, que deixamos para trás, quanto no fim, para onde estamos voltando, não há nada que possa mais proveitosamente nos comprazer do que o louvor de Deus, e o Aleluia para sempre.
1. Desde o seu início, caríssimos, este grande Salmo nos exorta à bem-aventurança, a qual não há ninguém que não deseje. ...E, portanto, esta é a lição que ensina aquele que diz: "Bem-aventurados os incontaminados no caminho, que andam na lei do Senhor" (v. 1). Como quem diz: sei o que desejas, buscas a bem-aventurança: se, então, queres ser bem-aventurado, sê incontaminado. Pois a primeira todos a desejam, a segunda todos a temem; contudo, sem esta, aquilo que todos desejam não pode ser alcançado. Mas onde será alguém incontaminado, senão no caminho? Em que caminho, senão na lei do Senhor? ...
3. Está escrito, e se lê, e é verdade, neste Salmo, que "os que praticam a iniquidade não andam nos Seus caminhos" (v. 3). Mas devemos nos empenhar, com o auxílio de Deus, "em cuja mão estamos nós e as nossas palavras," para que o que é dito corretamente, por não ser corretamente entendido, não confunda o leitor ou o ouvinte. Pois devemos acautelar-nos, para que não se pense que todos os santos, de quem são estas palavras: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós," ou não andam nos caminhos do Senhor, visto que o pecado é iniquidade, e "os que praticam a iniquidade não andam nos Seus caminhos"; ou, porque não há dúvida de que andam nos caminhos do Senhor, se pense que não têm pecado, o que sem dúvida é falso. Pois não se diz isso apenas por causa de evitar a arrogância e o orgulho. Do contrário, não se acrescentaria: "E a verdade não está em nós"; mas se diria: A humildade não está em nós; especialmente porque as palavras seguintes lançam luz mais clara sobre o sentido, e removem todas as causas de dúvida. Pois, tendo dito isto, o bem-aventurado João acrescentou: "Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça." ...
2. Ouvi agora o que acrescenta: "Bem-aventurados os que guardam os Seus testemunhos, e O buscam de todo o coração" (v. 2). Nenhuma outra classe de bem-aventurados me parece ser mencionada nestas palavras, senão aquela de que já se falou. Pois examinar os testemunhos do Senhor, e buscá-Lo de todo o coração, isto é ser incontaminado no caminho, isto é andar na lei do Senhor. Prossegue então, dizendo: "Porque os que praticam a iniquidade não andarão nos Seus caminhos" (v. 3). E, no entanto, sabemos que os que praticam a iniquidade buscam os testemunhos do Senhor por esta razão, que preferem ser doutos a serem justos: sabemos também que outros buscam os testemunhos do Senhor, não porque já vivam bem, mas para saberem como devem viver. Estes, pois, ainda não andam incontaminados na lei do Senhor, e por esta razão ainda não são bem-aventurados. ...
Que significa: "Ordenaste que guardássemos demasiadamente os teus mandamentos"? (v. 4). Será: "Ordenaste demasiadamente"? ou: "guardar demasiadamente"? Qualquer que seja destas a que entendamos, o sentido parece contrário àquela sentença memorável e nobre que os gregos louvam em seus sábios, e que os latinos concordam em louvar: "Nada em demasia." ...Mas a língua latina por vezes emprega a palavra nimis em tal sentido que a encontramos na Sagrada Escritura, e a usamos em nossos discursos, significando "muitíssimo". Nesta passagem, "Ordenaste que guardássemos demasiadamente os teus mandamentos", entendemos simplesmente "muitíssimo", se entendermos retamente; e se dizemos a algum amigo muito querido "eu te amo demasiadamente", não queremos que se entenda mais do que convém, mas sim "muitíssimo".
"Oxalá", diz ele, "fossem tão direitos os meus caminhos, que eu guardasse os teus preceitos" (v. 5). Tu, na verdade, ordenaste: oxalá eu pudesse realizar o que ordenaste. Quando ouves "oxalá", reconhece as palavras de quem deseja; e, tendo reconhecido a expressão de um desejo, deixa de lado o orgulho da presunção. Pois quem diz que deseja aquilo que tem de tal modo em seu poder, que sem necessidade de nenhum auxílio o pode fazer? Portanto, se o homem deseja o que Deus ordena, é preciso rogar a Deus que Ele mesmo conceda o que preceitua. ...
"Assim não serei confundido, quando tiver diante dos olhos todos os teus mandamentos" (v. 6). Devemos olhar para os mandamentos de Deus, seja quando são lidos, seja quando são trazidos à memória, como um espelho, conforme diz o apóstolo Tiago. Este homem deseja ser tal, que possa contemplar, como num espelho, os mandamentos de Deus, e não seja confundido; porque escolhe não apenas ser ouvinte deles, mas também praticante. Por isso deseja que os seus caminhos se tornem direitos para guardar os preceitos de Deus. Como se tornarão direitos, senão pela graça de Deus? De outro modo, encontrará na lei de Deus não motivo de alegria, mas de confusão, se houver escolhido contemplar mandamentos que não cumpre.
"Confessar-te-ei, Senhor", diz ele, "na retidão do meu coração, quando tiver aprendido os juízos da tua justiça" (v. 7). Esta não é a confissão dos pecados, mas do louvor; como também diz Aquele em quem não houve pecado: "Confessar-te-ei, ó Pai, Senhor do céu e da terra"; e como está escrito no livro do Eclesiástico: "Assim dirás, em confissão, de todas as obras de Deus, que são muito boas." "Confessar-te-ei", diz ele, "na retidão do meu coração." De fato, se os meus caminhos se tornarem retos, confessar-te-ei, pois foste Tu quem o fez, e este é o teu louvor, e não o meu. ...
Quando, pois, um homem começou assim a ordenar a sua ascensão; para falar mais claramente, quando um cristão começou a pensar na emenda espiritual, começa a sofrer as línguas dos adversários. Quem ainda não sofreu delas, ainda não progrediu; quem não as sofre, nem sequer se esforça por melhorar. Deseja ele saber o que queremos dizer? Que experimente, ao mesmo tempo, o que se diz de nós. Que comece a melhorar, que comece a desejar ascender, a desejar desprezar as coisas terrenas, frágeis, temporais, a ter por nada a felicidade mundana, a pensar somente em Deus, a não se alegrar com o ganho, a não se consumir com as perdas, a desejar até vender todos os seus bens e distribuí-los aos pobres, e seguir a Cristo; vejamos como ele sofre as línguas dos detratores e dos constantes opositores, e — perigo ainda maior — dos falsos conselheiros, que o desviam da salvação ...Ele, pois, que há de ascender, roga primeiramente a Deus contra estas mesmas línguas: pois diz: "Estando eu em tribulação, clamei ao Senhor, e Ele me ouviu" (v. 1). Por que o ouviu? Para que agora o colocasse nos degraus da ascensão.
O Salmo que acabamos de ouvir cantado, e ao qual respondemos com nossas vozes, é breve e muito proveitoso. Não vos fatigareis por muito tempo em ouvi-lo, nem vos fatigareis infrutuosamente em praticá-lo. Pois é, segundo o título que o antecede, "Cântico dos degraus." Os degraus são ou de ascensão ou de descida. Mas os degraus, tal como são empregados neste Salmo, são de ascensão ...Há, portanto, tanto os que ascendem como os que descem por aquela escada. Quem são os que ascendem? Os que progridem em direção à compreensão das coisas espirituais. Quem são os que descem? Aqueles que, embora gozem, na medida em que é dado aos homens, da compreensão das coisas espirituais, contudo descem até os pequeninos, para lhes dizer aquilo que podem receber, a fim de que, depois de alimentados com o leite, se tornem aptos e fortes o bastante para tomar o alimento espiritual ...
"Livra, Senhor, a minha alma dos lábios iníquos, e da língua enganosa" (v. 2). Que é uma língua enganosa? Uma língua traiçoeira, que tem a aparência de conselho e o veneno da verdadeira malícia. Tais são aqueles que dizem: E farás isto, que ninguém faz? Serás o único cristão? ...Uns dissuadem por meio da dissuasão, outros desencorajam ainda mais por meio do louvor. Pois, sendo tal a vida que há algum tempo se difundiu pelo mundo, tão grande é a autoridade de Cristo, que nem mesmo um pagão ousa culpar a Cristo. Aquele que não pode ser censurado é lido. Não podem contradizer a Cristo, não podem contradizer o Evangelho, Cristo não pode ser censurado; a língua enganosa volta-se então para o louvor como estorvo. Se louvas, exorta. Por que desencorajas com o teu louvor? ...Voltas-te para outro modo de dissuasão, para que, por meio de falso louvor, me afastes do verdadeiro louvor; ou antes, para que, louvando a Cristo, me mantenhas longe de Cristo, dizendo: Que é isto? Eis que estes homens fizeram isto: tu, talvez, não sejas capaz: começas a ascender, cais. Parece advertir-te: é a serpente, é a língua enganosa, tem veneno. Ora contra ela, se desejas ascender.
E teu Senhor te diz: "Que te será dado, ou que te será acrescentado, contra a língua enganosa?" (v. 3). Que te será dado, isto é, como arma para opor à língua enganosa, para te guardares contra a língua enganosa? "Ou que te será acrescentado?" Pergunta para te experimentar: pois Ele mesmo responderá à sua pergunta. Pois responde, dando seguimento à sua própria interrogação: "agudas flechas do Poderoso, com brasas devastadoras", ou "que assolam" (v. 4). As que devastam, ou as que assolam (pois assim se lê diversamente em diferentes cópias), são a mesma coisa, porque, ao assolar, como podeis observar, facilmente conduzem à devastação. Que são estas brasas? Primeiramente, amados irmãos, entendei o que são as flechas. As "agudas flechas do Poderoso" são as palavras de Deus ...Que são, pois, as "brasas que assolam"? Não basta arguir com palavras contra uma língua enganosa e lábios iníquos: não basta arguir com palavras; devemos arguir também com exemplos ...A palavra brasas, portanto, é usada para exprimir os exemplos de muitos pecadores convertidos ao Senhor. Ouves homens admirarem-se e dizerem: Eu conhecia aquele homem, quão dado à bebida era, que celerado, que amante do circo, ou do anfiteatro, que embusteiro: agora, como serve a Deus, quão inocente se tornou! Não te admires; ele é uma brasa acesa. Alegras-te de que esteja vivo aquele que pranteavas como morto. Mas, quando louvares o vivo, se souberes louvar, aplica-o ao morto, para que se inflame; a quem quer que ainda seja tardio em seguir a Deus, aplica-lhe a brasa que se apagou, e tem a flecha da palavra de Deus, e a brasa que assola, para que possas enfrentar a língua enganosa e os lábios mentirosos.
5. "Ai de mim, que se prolongou a minha peregrinação!" (v. 5). Ela se afastou longe de Ti: minha peregrinação tornou-se distante. Ainda não cheguei àquela pátria onde viverei sem nenhum ímpio; ainda não cheguei àquela companhia de Anjos, onde não temerei ofensas. Mas por que ainda não estou lá? Porque a peregrinação é exílio. Chama-se peregrino aquele que habita em terra estrangeira, não em sua própria pátria. E quando é que ela se torna distante? Às vezes, meus irmãos, quando um homem viaja para fora, vive entre pessoas melhores do que talvez viveria em sua própria pátria: mas não é assim quando nos afastamos daquela Jerusalém celeste. Pois um homem muda de pátria, e este exílio estrangeiro às vezes lhe é bom; viajando, encontra amigos fiéis, que não poderia encontrar em sua própria terra. Tinha inimigos, de modo que foi expulso de sua pátria; e quando viajou, encontrou o que não tinha em sua terra. Não é assim aquela pátria, Jerusalém, onde todos são bons: quem quer que dela se afaste está entre os maus; nem pode apartar-se dos ímpios, senão quando retornar à companhia dos Anjos, de modo a estar onde estava antes de viajar. Ali todos são justos e santos, os quais gozam da palavra de Deus sem leitura, sem letras: pois o que a nós é escrito por meio de páginas, ali o percebem por meio da Face de Deus. Que pátria! Pátria verdadeiramente grande, e miseráveis são os que dela andam errantes.
6. Mas o que ele diz, "minha peregrinação se prolongou", são palavras daqueles, isto é, da própria Igreja, que labuta nesta terra. É a sua voz que clama desde os confins da terra em outro Salmo, dizendo: "Desde os confins da terra clamei a Ti..." Onde, pois, ele geme, e entre quem habita? "Habitei entre as tendas de Cedar." Visto que esta é uma palavra hebraica, sem dúvida não a compreendestes. Que significa "Habitei entre as tendas de Cedar"? "Cedar", tanto quanto nos lembramos da interpretação das palavras hebraicas, significa trevas. "Cedar", traduzido para o latim, chama-se tenebrae. Ora, sabeis que Abraão teve dois filhos, os quais o Apóstolo menciona, e declara terem sido figuras dos dois testamentos... Ismael, portanto, estava nas trevas, Isaac na luz. Todo aquele que também aqui busca a felicidade terrena na Igreja, a partir de Deus, pertencerá a Ismael. Estes são precisamente os que contradizem os espirituais que estão progredindo, e os detraem, e têm línguas enganosas e lábios injustos. Contra estes o Salmista, quando subia, orou, e brasas devastadoras, e flechas velozes e agudas do Poderoso lhe foram dadas para sua defesa. Pois entre estes ele ainda vive, até que toda a eira seja joeirada: por isso disse, "Habitei entre as tendas de Cedar." As tendas de Ismael são chamadas as de Cedar. Assim o diz o livro do Gênesis: assim consta, que Cedar pertence a Ismael. Isaac, portanto, está com Ismael: isto é, os que pertencem a Isaac vivem entre os que pertencem a Ismael. Estes querem subir para cima, aqueles querem empurrá-los para baixo: estes querem voar até Deus, aqueles se esforçam por arrancar-lhes as asas...
7. "Minha alma andou muito errante" (v. 6). Para que não entendesses erro corporal, disse que a alma andava errante. O corpo anda errante em lugares, a alma anda errante em seus afetos. Se amas a terra, andas errante longe de Deus: se amas a Deus, sobes até Deus. Exercitemo-nos no amor de Deus e do próximo, para que voltemos à caridade. Se caímos em direção à terra, murchamos e apodrecemos. Mas Alguém desceu até este que havia caído, a fim de que ele pudesse levantar-se. Falando do tempo de seu errar, disse que andava errante nas tendas de Cedar. Por quê? Porque "minha alma andou muito errante." Ele anda errante ali onde ascende. Não anda errante no corpo, não ascende no corpo. Mas em que ascende? "A ascensão", diz ele, "está no coração."
8. "Com os que odeiam a paz, eu era pacífico" (v. 7). Mas por mais que ouçais, amadíssimos irmãos, não podereis provar quão verdadeiramente cantais, a menos que tenhais começado a fazer o que cantais. Por mais que eu diga isto, de quaisquer modos que o exponha, em quaisquer palavras que o transforme, não entra no coração daquele em quem não há sua operação. Começai a agir, e vede o que dizemos. Então as lágrimas brotam a cada palavra, então o Salmo é cantado, e o coração faz o que é cantado no Salmo... Quem são os que odeiam a paz? Os que despedaçam a unidade. Pois se não odiassem a paz, teriam permanecido na unidade. Mas se separaram, na verdade sob o pretexto de que seriam justos, de que não teriam mesclados consigo os ímpios. Estas palavras são ou nossas ou deles: decidi de quem são. A Igreja Católica diz: A unidade não deve perder-se, a Igreja de Deus não deve ser cortada. Depois Deus julgará os maus e os bons... Isto também dizemos: Amai a paz, amai a Cristo. Pois se eles amam a paz, amam a Cristo. Quando, pois, dizemos "Amai a paz", dizemos isto: "Amai a Cristo." Por quê? Pois o Apóstolo diz de Cristo: "Ele é a nossa paz, que fez de ambos um só." Se Cristo, portanto, é a paz, porque fez de dois um só: por que fizestes de um só dois? Como sois, pois, pacificadores, se, quando Cristo faz um de dois, vós fazeis dois de um? Mas, uma vez que dizemos estas coisas, somos pacificadores para com os que odeiam a paz; e, no entanto, os que odeiam a paz, quando lhes falávamos, faziam-nos guerra sem motivo.
1. ...Levantem eles "os olhos para os montes, de onde vem o seu socorro" (v. 1). Que significa: Os montes foram iluminados? O Sol da justiça já se levantou, o Evangelho já foi pregado pelos Apóstolos, as Escrituras foram pregadas, todos os mistérios foram desvelados, o véu foi rasgado, o lugar secreto do templo foi revelado: levantem eles agora, finalmente, os olhos para os montes, de onde vem o seu socorro... "De Sua plenitude todos nós recebemos", diz ele. O teu socorro, portanto, vem d'Aquele de cuja plenitude os montes receberam, não dos montes; para os quais, todavia, se não levantares os olhos por meio das Escrituras, não te aproximarás, de modo a seres iluminado por Ele.
2. Cantai, pois, o que se segue; se quereis ouvir como podeis pôr os pés com mais segurança sobre os degraus, de modo que não vos fatigueis naquela ascensão, nem tropeceis e caiais: orai com estas palavras: "Não permitas que o meu pé vacile!" (v. 3). Por que se movem os pés; por que se moveu o pé daquele que estava no Paraíso? Mas primeiro considerai por que se moveram os pés daquele que estava entre os Anjos: o qual, tendo os pés movidos, caiu, e de Anjo tornou-se demônio: pois, quando teve os pés movidos, caiu. Buscai por que caiu: caiu pela soberba. Nada, pois, move os pés, senão a soberba: nada move os pés para a queda, senão a soberba. A caridade os move a caminhar, a progredir e a ascender; a soberba os move a cair... Corretamente, pois, o Salmista, ouvindo como pode ascender e não cair, roga a Deus que possa aproveitar-se do vale da miséria, e não sucumbir na intumescência da soberba, nestas palavras: "Não permitas que os meus pés vacilem!" E Ele lhe responde: "Não durma o que te guarda." Atendei, amados. É como se um só pensamento fosse expresso em duas sentenças; o homem, ao ascender e cantar "o cântico dos degraus", diz: "Não permitas que o meu pé vacile": e é como se Deus respondesse: Tu Me dizes, Não vacilem os meus pés: dize também, "Não durma o que te guarda", e o teu pé não vacilará.
3. Escolhe para ti Aquele que não dormirá nem tosquenejará, e o teu pé não vacilará. Deus jamais está adormecido: se queres ter um guarda que nunca durma, escolhe Deus para teu guarda. "Não permitas que os meus pés vacilem", dizes: bem, muito bem: mas Ele também te diz: "Não tosquenejará o que te guarda." Talvez estivesses prestes a voltar-te para os homens como teus guardas, e a dizer: quem encontrarei que não durma? que homem não tosquenejará? a quem encontro? para onde irei? para onde voltarei? O Salmista te diz: "O que guarda a Israel não tosquenejará nem dormirá" (v. 4). Queres ter um guarda que nem tosqueneje nem durma? Eis que "o que guarda a Israel não tosquenejará nem dormirá": pois Cristo guarda a Israel. Sê tu, pois, Israel. Que significa Israel? Interpreta-se: Aquele que vê a Deus. E como se vê a Deus? Primeiro pela fé: depois pela visão. Se ainda não podes vê-Lo pela visão, vê-O pela fé... Quem há que não tosquenejará nem dormirá? Quando o buscas entre os homens, és enganado; jamais o encontrarás. Não confies, pois, em nenhum homem: todo homem tosqueneja, e dormirá. Quando tosqueneja? Quando traz a carne da fraqueza. Quando dormirá? Quando estiver morto. Não confies, pois, no homem. Um mortal pode tosquenejar, e dorme na morte. Não busques um guarda entre os homens.
4. E quem, perguntas, me ajudará, senão Aquele que não tosqueneja nem dorme? Ouve o que se segue: "O próprio Senhor é o teu guarda" (v. 5). Não é, pois, o homem, que tosqueneja e dorme, mas o Senhor, que te guarda. Como te guarda Ele? "O Senhor é a tua proteção sobre a mão da tua mão direita." ...Parece-me ter um sentido oculto: de outro modo, teria dito simplesmente, sem qualificação, "O Senhor te guardará", sem acrescentar "à tua direita". Pois como? Guarda Deus a nossa mão direita, e não a esquerda? Não nos criou Ele por inteiro? Não foi Aquele que fez a nossa mão direita, quem fez também a nossa mão esquerda? Enfim, se Lhe aprouvesse falar apenas da mão direita, por que disse "sobre a mão da tua mão direita", e não logo "sobre a tua direita"? Por que diria isto, senão porque guardava aqui algo oculto para que chegássemos a isso batendo? Pois diria, ou "O Senhor te guardará", sem acrescentar mais nada; ou, se acrescentasse a mão direita, "O Senhor te guardará sobre a tua mão direita"; ou, ao menos, tendo acrescentado "mão", diria "O Senhor te guardará sobre a tua mão, isto é, a tua direita", não "sobre a mão da tua mão direita"...
5. Pergunto-vos como interpretais o que se diz no Evangelho: "Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita"? Pois se entenderdes isto, descobrireis qual é a vossa mão direita, e qual a esquerda: ao mesmo tempo entendereis também que Deus fez ambas as mãos, a esquerda e a direita; contudo a esquerda não deve saber o que a direita faz. Por nossa mão esquerda entende-se tudo o que temos de modo temporal; por nossa mão direita entende-se tudo o que o nosso Senhor nos promete que é imutável e eterno. Mas se Aquele que dará a vida eterna, também Ele consola a nossa vida presente com estas bênçãos temporais, Ele mesmo fez a nossa mão direita e a nossa esquerda...
6. Cheguemos agora a este versículo do Salmo: "O Senhor é a tua proteção sobre a mão da tua mão direita" (v. 5). Por mão entende-se o poder. Como provamos isto? Porque também o poder de Deus se chama a mão de Deus... Do qual João diz: "Deu-lhes poder para se tornarem filhos de Deus." De onde recebeste este poder? "Àqueles", diz ele, "que creem em Seu Nome." Se, pois, crês, este mesmo poder te é dado, para estares entre os filhos de Deus. Mas estar entre os filhos de Deus é pertencer à mão direita. A tua fé, portanto, é a mão da tua mão direita: isto é, o poder que te é dado, para estares entre os filhos de Deus, é a mão da tua mão direita...
7. "O Senhor te proteja à mão da tua direita" (v. 6). Eu o disse, e creio que o reconhecestes. Pois, se não o houvésseis reconhecido, e isso a partir das Escrituras, não manifestaríeis com vossas vozes que o compreendestes. Uma vez, pois, que compreendestes, irmãos, considerai o que se segue; por que razão o Senhor te protege "à mão da tua direita", isto é, na tua fé, na qual recebemos "poder para nos tornarmos filhos de Deus", e para estarmos à Sua direita: por que razão haveria Deus de nos proteger? Por causa dos escândalos. De onde vêm os escândalos? Há de se temer escândalos de duas partes, pois há dois preceitos dos quais depende toda a Lei e os Profetas: o amor de Deus e o do próximo. A Igreja é amada por causa do próximo, mas Deus é amado por causa de Deus. De Deus se entende figuradamente o sol; da Igreja se entende figuradamente a lua. Todo aquele que pode errar a ponto de pensar de Deus diversamente do que deve, não crendo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam de uma só Substância, foi enganado pela astúcia dos hereges, principalmente dos arianos. Se creu algo de menor no Filho ou no Espírito Santo do que no Pai, sofreu um escândalo em Deus; é queimado pelo sol. Quem, por outro lado, crê que a Igreja existe numa só província, e não que está difundida por todo o mundo, e quem dá crédito aos que dizem: "Eis aqui", e "Eis ali está o Cristo", como ainda agora ouvistes quando se lia o Evangelho; visto que Aquele que pagou preço tão grande, comprou o mundo inteiro: esse é escandalizado, por assim dizer, no seu próximo, e é queimado pela lua. Quem, portanto, erra na própria Substância da Verdade, é queimado pelo sol, e é queimado durante o dia; porque erra na própria Sabedoria... Deus, pois, fez um sol, que nasce sobre os bons e os maus, esse sol que os bons e os maus veem; mas há um outro Sol, não criado, não gerado, por quem todas as coisas foram feitas; onde está a inteligência da Verdade Imutável: deste, dizem os ímpios: "o Sol não nasceu sobre nós". Quem não erra na própria Sabedoria, não é queimado pelo sol. Quem não erra na Igreja, e na Carne do Senhor, e nas coisas que por nós foram feitas no tempo, não é queimado pela lua. Mas todo homem, ainda que creia em Cristo, erra ou neste ou naquele ponto, a menos que nele se realize o que aqui se pede: "O Senhor é a tua defesa à mão da tua direita". Prossegue, dizendo: "de sorte que o sol não te queime de dia, nem a lua de noite" (v. 6). Tua defesa, portanto, está à mão da tua direita por esta razão: para que o sol não te queime de dia, nem a lua de noite. Entendei, pois, irmãos, que isto é dito figuradamente. Pois, na verdade, se pensarmos no sol visível, ele queima de dia: acaso queima a lua de noite? Mas o que é queimar? O escândalo. Ouvi as palavras do Apóstolo: "Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me abrase?"
8. "Pois o Senhor te guardará de todo mal" (v. 7). Dos escândalos do sol, dos escândalos da lua, de todo mal te guardará Aquele que é a tua defesa à mão da tua direita, que não dormirá nem tosquenejará. E por que razão? Porque estamos em meio a tentações: "o Senhor te guardará de todo mal. O Senhor guardará a tua alma": a tua própria alma. "O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre" (v. 8). Não o teu corpo; pois os Mártires foram consumidos no corpo: mas "o Senhor guardará a tua alma"; pois os Mártires não entregaram as suas almas. Os perseguidores enfureceram-se contra Crispina, cujo dia natalício hoje celebramos; enfureciam-se contra uma mulher rica e delicada: mas ela era forte, pois o Senhor era a sua defesa à mão da sua direita. Ele era o seu Guardião. Há alguém na África, irmãos meus, que a não conheça? Pois ela era muito ilustre, nobre por nascimento, opulenta em riquezas: mas todas essas coisas estavam à sua esquerda, debaixo de sua cabeça. Um inimigo avançou para golpear-lhe a cabeça, e apresentou-se-lhe a mão esquerda, que estava debaixo de sua cabeça. Sua cabeça estava acima, a mão direita a envolvia desde o alto...
1. Assim como o amor impuro inflama a mente, e convoca a alma destinada a perecer para cobiçar as coisas terrenas, e a seguir o que é perecível, e a precipita nos lugares mais baixos, e a submerge no abismo; assim o amor santo nos eleva às coisas celestiais, e nos inflama para o que é eterno, e excita a alma para aquelas coisas que não passam nem morrem, e do abismo do inferno a eleva ao céu. Contudo, todo amor tem um poder próprio, nem pode o amor permanecer ocioso na alma de quem ama; é necessário que a arraste. Mas queres saber de que espécie é o amor? Vê para onde conduz...
2. Este Salmo é um "Cântico de degraus"; como já vos temos dito muitas vezes, pois estes degraus não são de descida, mas de subida. Ele, pois, anseia por subir. E aonde deseja subir, senão ao céu? Que significa, ao céu? Deseja subir para estar com o sol, a lua e as estrelas? Longe disso! Mas há no céu a Jerusalém eterna, onde estão os nossos concidadãos, os Anjos: nós somos peregrinos na terra, longe destes nossos concidadãos. Suspiramos em nossa peregrinação; nos alegraremos na cidade. Mas encontramos companheiros nesta peregrinação, que já viram esta mesma cidade; que nos convocam a correr em sua direção. Com estes também se alegra aquele que diz: "Alegrei-me com os que me disseram: Iremos à casa do Senhor" (v. 1)...
3. "Os nossos pés estavam parados nos átrios de Jerusalém" (v. 2)... Considera o que serás ali; e embora estejas ainda a caminho, põe isto diante dos teus olhos, como se já estivesses ali parado, como se já estivesses a alegrar-te sem cessar entre os Anjos; como se já se realizasse em ti o que está escrito: "Bem-aventurados os que habitam na Tua casa; para sempre Te louvarão". "Os nossos pés estavam parados nos átrios de Jerusalém". Que Jerusalém? Também esta Jerusalém terrena costuma ser chamada por este nome: ainda que esta Jerusalém não seja senão a sombra daquela. E que grande coisa é estar de pé nesta Jerusalém, visto que esta Jerusalém não pôde manter-se de pé, mas foi reduzida a ruína? Pronuncia, pois, o Espírito Santo isto, saído do coração inflamado do amoroso Salmista, como algo grande? Não é esta a Jerusalém a quem o Senhor disse: "Ó Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas", etc.? Que grande coisa desejava ele, então, estar de pé entre aqueles que mataram os profetas, e apedrejaram os que lhes foram enviados? Longe esteja que ele pensasse naquela Jerusalém, ele que tanto ama, que tanto arde, que tanto anseia por alcançar aquela Jerusalém, "nossa Mãe", da qual diz o Apóstolo que é "eterna nos Céus".
4. "Jerusalém que está sendo edificada como cidade" (v. 3). Irmãos, quando Davi proferia estas palavras, aquela cidade já estava concluída, não estava sendo edificada. É, pois, de alguma outra cidade que ele fala, a qual agora está sendo edificada, à qual acorrem pedras vivas na fé, das quais diz Pedro: "Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual"; isto é, o templo santo de Deus. Que significa, sois edificados como pedras vivas? Tu vives, se crês: mas se crês, és feito templo de Deus; pois diz o Apóstolo Paulo: "Santo é o templo de Deus, o qual sois vós". Esta cidade, portanto, está agora sendo edificada; pedras são cortadas dos montes pelas mãos daqueles que pregam a verdade, são esquadrejadas para que entrem numa construção eterna. Ainda há muitas pedras nas mãos do Construtor: que não caiam de Suas mãos, para que sejam edificadas perfeitas na estrutura do templo. Esta é, pois, a "Jerusalém que está sendo edificada como cidade": Cristo é o seu fundamento. Diz o Apóstolo Paulo: "Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo". Quando se lança um fundamento na terra, os muros são edificados por cima, e o peso dos muros tende para as partes mais baixas, porque o fundamento é lançado embaixo. Mas se o nosso fundamento está no céu, edifiquemo-nos em direção ao céu. Corpos edificaram a construção desta basílica, cujas amplas dimensões vedes; e visto que foram corpos que a edificaram, puseram o fundamento no ponto mais baixo: mas visto que nós somos edificados espiritualmente, o nosso fundamento é posto no ponto mais alto. Corramos, pois, para lá, onde possamos ser edificados... Mas de que Jerusalém falo eu? É aquela, pergunta ele, que vedes de pé, erguida na estrutura de seus muros? Não; mas a "Jerusalém que está sendo edificada como cidade". Por que não diz "uma cidade", mas "como cidade"? Senão porque aqueles muros, assim edificados em Jerusalém, formavam uma cidade visível, como por todos é chamada cidade, propriamente; mas esta está sendo edificada "como cidade", pois os que nela entram são como pedras vivas; pois não são, propriamente, pedras? Assim como são chamadas pedras, e contudo não o são: assim a cidade denominada "como cidade" não é uma cidade; pois disse: "está sendo edificada". Pois pela palavra edificação quis que se entendesse a estrutura e a coesão de corpos e muros. Pois por cidade entende-se propriamente os homens que ali habitam. Mas ao dizer "está sendo edificada", mostrou-nos que se referia a uma povoação. E visto que a edificação espiritual tem certa semelhança com a edificação corporal, por isso "está sendo edificada como cidade".
5. Mas que as palavras seguintes removam toda dúvida de que não devemos entender carnalmente as palavras: "cuja participação é no mesmo"... Que significa "o mesmo"? O que está sempre no mesmo estado; não o que ora está de um modo, ora de outro. Que é, pois, "o mesmo", senão aquilo que é? Que é aquilo que é? Aquilo que é eterno... Eis "O Mesmo: Eu Sou o que Sou, Eu Sou". Não podes compreender; é muito compreender, é muito apreender. Lembra-te do que Aquele que não podes compreender se fez por ti. Lembra-te da carne de Cristo, para a qual foste levantado quando estavas enfermo, e quando foste deixado meio morto pelas feridas dos salteadores, para que pudesses ser conduzido à Estalagem, e ali fosses curado. Corramos, pois, à casa do Senhor, e alcancemos a cidade onde os nossos pés possam ficar de pé; a cidade "que está sendo edificada como cidade: cuja participação é no Mesmo"...
6. Aquela cidade "que participa no mesmo" participa da sua estabilidade: com justiça, pois, visto que é feito partícipe de sua estabilidade, o diz aquele que para lá corre. Pois ali tudo permanece onde nada passa. Queres também tu ali permanecer e não passar? Corre para lá. Ninguém tem "o mesmo" de si mesmo...
7. "Pois para lá subiram as tribos" (v. 4). Perguntávamos aonde sobe aquele que caiu; pois dissemos que é a voz de um homem que está subindo, da Igreja que se ergue. Podemos dizer aonde sobe? Aonde vai? Aonde é elevada? "Para lá", diz ele, "subiram as tribos". Aonde? Para "a participação no Mesmo". Mas o que são as tribos? Muitos sabem, muitos não sabem. Pois se usarmos a palavra "cúrias" em seu sentido próprio, nada entendemos, senão as "cúrias" que existem em cada cidade particular, donde vêm os termos "curiais" e "decuriões", isto é, os cidadãos de uma cúria ou de uma decúria; e sabeis que cada cidade tem tais cúrias. Mas há, ou houve outrora, cúrias do povo nessas cidades, e uma cidade tem muitas cúrias, como Roma tinha trinta e cinco cúrias do povo? Estas se chamam tribos. O povo de Israel tinha doze destas, segundo os filhos de Jacó.
8. Havia doze tribos do povo de Israel: mas havia entre elas boas e más. Pois quão más eram aquelas tribos que crucificaram o nosso Senhor! Quão boas as que reconheceram o Senhor! Aquelas tribos, pois, que crucificaram o Senhor, eram tribos do diabo. Quando, portanto, disse aqui: "Pois para lá sobem as tribos", para que não entendesses todas as tribos, acrescentou: "as tribos mesmo do Senhor"... Que são as tribos do Senhor? "Um testemunho a Israel". Ouvi, irmãos, o que isto significa. "Um testemunho a Israel": isto é, pelo qual se pode saber que é verdadeiramente Israel... Tal é aquele em quem não há engano. E que disse o Senhor, quando viu Natanael? "Eis um verdadeiro israelita, em quem não há engano". Se, portanto, é verdadeiro israelita aquele em quem não há engano, sobem a Jerusalém aquelas tribos em quem não há engano... Por que sobem? "Para confessar o Teu Nome, ó Senhor". Não se poderia exprimir mais nobremente. Assim como a soberba presume, assim a humildade confessa. Assim como é presunçoso aquele que deseja aparecer o que não é, assim é confessor aquele que não deseja que se veja o que ele próprio é, e ama Aquilo que É. A estes, pois, sobem os israelitas, em quem não há engano, porque são verdadeiramente israelitas, porque neles está o testemunho de Israel.
1. ...Suba este cantor; e cante este homem do coração de cada um de vós, e seja cada um de vós este homem, pois quando cada um de vós diz isto, visto que sois todos um só em Cristo, um só homem o diz; e não diz: "A Ti, ó Senhor, levantamos" os nossos "olhos"; mas: "A Ti, ó Senhor, levantei os meus olhos" (v. 1). Deveis, na verdade, imaginar que é cada um de vós que fala; mas fala, em sentido especialíssimo, Aquele que também está difundido por todo o mundo...
Que faz pesado o coração de um cristão? O fato de ser peregrino, e ansiar pela sua pátria. Se o teu coração está pesado por esta razão, ainda que tenhas sido próspero no mundo, ainda assim gemes: e se todas as coisas concorrem para tornar-te próspero, e este mundo te sorri por todos os lados, tu, contudo, gemes, porque vês que estás posto numa peregrinação; e sentes que tens, na verdade, felicidade aos olhos dos insensatos, mas não ainda segundo a promessa de Cristo: esta buscas com gemidos, esta buscas com ânsias, e ao ansiar sobes, e enquanto sobes cantas o Cântico dos Degraus.
2. ...Onde estão, pois, as escadas? Pois vemos tão grande intervalo entre o céu e a terra, há separação tão vasta, e tão grande espaço de regiões entre um e outro: queremos subir até lá, não vemos escada alguma; enganamo-nos, porventura, por cantarmos o Cântico dos Degraus, isto é, o Cântico da subida? Subimos ao céu, se pensamos em Deus, que fez degraus de ascensão no coração. Que é subir no coração? Avançar em direção a Deus. Assim como todo aquele que falha não desce, mas cai: assim todo aquele que progride sobe: mas se progride de tal modo que evite a soberba: se sobe de tal modo que não caia: mas se, ao progredir, se ensoberbece, ao subir cai novamente. Mas para que não se ensoberbeça, que deve fazer? Que levante os olhos para Aquele que habita no céu, que não atente para si mesmo...
3. Se, irmãos meus, entendermos por céu o firmamento que vemos com os olhos do corpo, erraremos, na verdade, a ponto de imaginar que não podemos subir até lá sem escadas, ou algumas máquinas de escalada: mas se subimos espiritualmente, devemos entender o céu espiritualmente: se a subida está no afeto, o céu está na justiça. Que é, pois, o céu de Deus? Todas as almas santas, todas as almas justas. Pois também os Apóstolos, embora estivessem na terra segundo a carne, eram céu; pois o Senhor, entronizado neles, percorria o mundo inteiro. Ele, então, habita no céu. Como? ...Por quanto tempo são eles templo segundo a fé? Enquanto Cristo habita neles pela fé; como diz o Apóstolo: "Que Cristo habite em vossos corações pela fé". Mas já são céu aqueles em quem Deus já habita visivelmente, que O veem face a face; todos os santos Apóstolos, todas as santas Virtudes, Potestades, Tronos, Dominações, aquela Jerusalém celestial, longe da qual peregrinamos e por causa da qual gememos, e pela qual oramos com ânsia; e ali habita Deus. Para lá ergueu o Salmista a sua fé, para lá sobe em afeto, com esperanças ansiosas: e este mesmo anseio faz com que a alma expurgue a imundície dos pecados, e se purifique de toda mácula, para que ela mesma também se torne céu; porque levantou os seus olhos para Aquele que habita no céu. Pois se tivermos determinado que aquele céu que vemos com os olhos do corpo é a morada de Deus, a morada de Deus há de passar; pois "o céu e a terra passarão". Onde, pois, habitava Deus antes de criar o céu e a terra? Mas alguém dirá: e antes que Deus fizesse os Santos, onde habitava? Deus habitava em Si mesmo, habitava consigo, e Deus está consigo mesmo. E quando Se digna habitar nos Santos, os Santos não são casa de Deus de tal maneira que Deus caia quando ela é retirada. Pois nós habitamos numa casa de um modo, de outro modo Deus habita nos Santos. Tu habitas numa casa: se ela for retirada, tu cais: mas Deus habita nos Santos de tal modo que, se Ele mesmo se retirasse, é que eles cairiam...
4. Que se segue então, uma vez que disse: "A Ti levanto os meus olhos"? (v. 2). Como levantaste os teus olhos? "Eis que, como os olhos dos servos estão voltados para a mão de seus senhores, e como os olhos da serva para a mão de sua senhora: assim os nossos olhos esperam no Senhor nosso Deus, até que Ele tenha misericórdia de nós." Somos ao mesmo tempo servos e serva: Ele é ao mesmo tempo nosso Senhor e nossa Senhora. Que significam estas palavras? Que significam estas similitudes? Não é de admirar que sejamos servos, e Ele nosso Senhor; mas é admirável que sejamos uma serva, e Ele nossa Senhora. Mas nem mesmo o sermos serva é de admirar; pois somos a Igreja: nem é de admirar que Ele seja nossa Senhora; pois Ele é o Poder e a Sabedoria de Deus... Quando, pois, ouvires falar de Cristo, levanta os teus olhos para as mãos do teu Senhor; quando ouvires falar do Poder de Deus e da Sabedoria de Deus, levanta os teus olhos para as mãos da tua Senhora; pois és ao mesmo tempo servo e serva; servo, porque és povo; serva, porque és a Igreja. Mas esta serva encontrou grande dignidade junto de Deus; foi feita esposa. Mas até que chegue àqueles abraços espirituais, onde possa, sem temor, gozar Daquele a quem amou, e por quem suspirou nesta enfadonha peregrinação, ela está desposada: e recebeu um poderoso penhor, o sangue do Esposo por quem suspira sem temor. Nem lhe é dito: Não ames; como às vezes se diz a alguma virgem desposada, ainda não casada: e justamente se diz: Não ames; quando te tiveres tornado esposa, então ama: com razão se diz assim, porque é coisa precipitada e absurda, e não desejo casto, amar aquele que não se sabe se há de desposar. Pois pode acontecer que um homem lhe seja prometido em esposas, e outro homem a despose. Mas, como não há ninguém mais que possa ser preferido a Cristo, ame ela sem temor: e antes de a Ele se unir, ame, e suspire de longe e desde a sua distante peregrinação...
5. "Pois fomos sobremodo cumulados de desprezo" (v. 3). Todo aquele que quiser viver piedosamente segundo Cristo há de sofrer reprovação, há de ser desprezado por aqueles que não querem viver piedosamente, cuja felicidade toda é terrena. São escarnecidos os que chamam felicidade àquilo que não podem ver com os olhos, e diz-se-lhes: Que credes, insensato? Vês o que crês? Voltou alguém do mundo inferior e te relatou o que ali se passa? Eis que eu vejo e gozo o que amo. Tu és escarnecido, porque esperas o que não vês; e aquele que parece possuir o que vê, escarnece de ti. Considera bem se ele realmente o possui... Tenho a minha casa, gloriou-se ele. Perguntas: que casa própria é essa? Aquela que meu pai me deixou. E de onde a obteve ele? Meu avô lha deixou. Recua até seu bisavô, depois até o pai de seu bisavô, e já não poderá dizer-lhes os nomes. Não te aterroriza antes este pensamento, o de veres que muitos passaram por esta casa, e que nenhum deles a levou consigo para a sua morada eterna? Teu pai a deixou: ele passou por ela: assim também tu passarás. Se, portanto, tens na tua casa apenas uma estada passageira, ela é uma hospedaria para hóspedes de passagem, não uma habitação para morada permanente. Contudo, porque esperamos as coisas que hão de vir, e suspiramos pela felicidade futura, e porque ainda não se manifestou o que seremos, embora já sejamos "filhos de Deus"; pois "a nossa vida está escondida com Cristo em Deus": "somos totalmente desprezados" por aqueles que buscam ou gozam a felicidade neste mundo.
6. "A nossa alma está sobremodo cumulada; um opróbrio para os ricos, e um desprezo para os soberbos" (v. 4). Perguntávamos quem eram "os ricos": ele to explicou, ao dizer "os soberbos". "Opróbrio" e "desprezo" são a mesma coisa: e "ricos" é o mesmo que "soberbos". É uma repetição da sentença: "um opróbrio para os ricos, e um desprezo para os soberbos". Por que são os soberbos ricos? Porque querem ser felizes aqui. Por quê? Sendo eles mesmos miseráveis, são ricos? Mas talvez, quando são miseráveis, não escarneçam de nós. Ouvi, caríssimos. Então, porventura, escarnecem quando são felizes, quando se gloriam na pompa de suas riquezas! quando se gloriam no estado inflado das honras falsas: então escarnecem de nós, e parecem dizer: Eis que estou bem: gozo dos bens que tenho diante de mim: apartem-se de mim os que prometem o que não podem mostrar: o que vejo, possuo; o que vejo, gozo; que eu passe bem nesta vida. Sê tu mais seguro; pois Cristo ressuscitou, e te ensinou o que há de dar-te em outra vida: tem por certo que Ele o dá. Mas aquele homem escarnece de ti, porque possui o que tem. Suporta os seus escárnios, e tu rirás dos seus gemidos: pois depois virá o tempo em que estes mesmos dirão: "Este era aquele de quem outrora escarnecíamos."
7. A isto devemos acrescentar que, algumas vezes, também aqueles que se acham sob o açoite da infelicidade temporal escarnecem de nós... Não escarneceu também o ladrão que foi crucificado com o nosso Senhor crucificado? Se, pois, aqueles que não são ricos escarnecem de nós, por que diz o Salmo: "um opróbrio para os ricos"? Se examinarmos cuidadosamente o assunto, até estes (os infelizes) são ricos. Como são ricos? Sim; pois, se não fossem ricos, não seriam soberbos. Pois um homem é rico em dinheiro, e por isso soberbo: outro é rico em honras, e por isso é soberbo: outro imagina-se rico em justiça, e daí a sua soberba, que é pior. Aqueles que não parecem ricos em dinheiro, parecem a si mesmos ricos em justiça diante de Deus; e quando a calamidade os alcança, justificam-se a si mesmos, acusam a Deus, e dizem: Que mal cometi eu, ou que fiz? Tu respondes: Olha para trás, recorda os teus pecados, vê se nada fizeste. Ele se sente um tanto tocado na consciência, e volta a si, e pensa nas suas más ações; e, depois de ter pensado nas suas más ações, nem mesmo então quer confessar que merece os seus sofrimentos; mas diz: Eis que evidentemente fiz muitas coisas; mas vejo que muitos fizeram pior, e não sofrem mal algum. Ele é justo diante de Deus. Também ele, portanto, é rico: tem o peito inchado de justiça; pois a ele parece que Deus obra mal, e a si mesmo parece que sofre injustamente. E se lhe désses um navio para pilotar, naufragaria com ele: contudo, quer privar Deus do governo deste mundo, e ele mesmo segurar o leme da criação, e distribuir entre todos os homens dores e prazeres, castigos e recompensas. Alma miserável! mas por que vos admirais? Ele é rico, mas rico em iniquidade, rico em malícia; e é tanto mais rico em iniquidade, quanto mais rico em justiça lhe parece ser.
8. Mas um cristão não deve ser rico, mas deve reconhecer-se pobre; e, se tem riquezas, deve saber que não são as verdadeiras riquezas, de modo que deseje outras... E qual é a riqueza da nossa justiça? Por mais que haja de justiça em nós, é como que um orvalho comparado àquela fonte: comparado àquela plenitude, é como poucas gotas, que podem abrandar a nossa vida, e relaxar a nossa dura iniquidade. Desejemos apenas ser cumulados da fonte plena da justiça, ansiemos por ser cumulados daquela abundante riqueza, da qual se diz no Salmo: "Se fartarão da fartura da tua casa: e os farás beber da torrente do teu deleite." Mas, enquanto estivermos aqui, entendamos que somos destituídos e necessitados; não só a respeito daquelas riquezas que não são as verdadeiras riquezas, mas da própria salvação. E, quando estivermos sãos, entendamos que somos fracos. Pois, enquanto este corpo tiver fome e sede, enquanto este corpo estiver cansado de vigiar, cansado de estar de pé, cansado de andar, cansado de estar sentado, cansado de comer; para onde quer que se volte em busca de alívio do cansaço, ali descobre outra fonte de fadiga: não há, portanto, sanidade perfeita, nem mesmo no próprio corpo. Aquelas riquezas, pois, não são riquezas, mas mendicância; pois, quanto mais abundam, tanto mais crescem a destituição e a avareza... Que toda a nossa fome, pois, toda a nossa sede, seja pelas verdadeiras riquezas, e a verdadeira saúde, e a verdadeira justiça. Que são as verdadeiras riquezas? Aquela morada celeste em Jerusalém. Pois quem é chamado rico nesta terra? Quando se louva um homem rico, que se quer dizer? Ele é muito rico: nada lhe falta. Isto é seguramente o louvor de quem louva o outro: pois não é isto, quando se diz: Nada lhe falta. Considera se ele realmente nada precisa. Se nada deseja, nada lhe falta: mas se ainda deseja mais do que possui, as suas riquezas cresceram de tal modo, que também as suas necessidades cresceram. Mas naquela Cidade haverá verdadeiras riquezas, porque ali nada nos faltará; pois não teremos necessidade de coisa alguma, e haverá verdadeira saúde...
2 ...Certos membros, na verdade, daquele corpo do qual também nós somos, que podem cantar em verdade, foram adiante de nós. E isto os santos Mártires já cantaram: pois já escaparam, e estão com Cristo em alegria, prestes a receber, por fim, corpos incorruptíveis, os mesmíssimos que outrora eram corruptíveis, nos quais sofreram as dores; dos quais lhes serão feitos ornamentos de justiça. Portanto, quer eles em realidade, quer nós em esperança, unindo os nossos afetos às suas coroas, e ansiando por uma vida tal qual não temos aqui, e que jamais alcançaremos se não a tivermos ansiado aqui, cantemos todos juntos, e digamos: "Se o próprio Senhor não estivesse em nós."...
1. Já bem sabeis, caríssimos irmãos, que um "Cântico de Degraus" é um cântico da nossa subida: e que esta subida não se efetua pelos pés do corpo, mas pelos afetos do coração. Isto já vo-lo temos repetidamente lembrado: e não precisamos repeti-lo demasiado, para que haja lugar para dizer o que ainda não foi dito. Este Salmo, portanto, que agora ouvistes cantar para vós, tem por título "Cântico de Degraus". Este é o seu título. Cantam, pois, enquanto sobem: e às vezes como que um só homem canta, às vezes como que muitos; porque muitos são um, visto que Cristo é Um, e em Cristo os membros de Cristo constituem um só com Cristo, e a Cabeça de todos estes membros está no céu. Mas, ainda que o corpo labute na terra, não está separado da sua Cabeça; pois a Cabeça olha do alto, e atende ao corpo... Quer, pois, um só, quer muitos cantem, muitos homens são um só homem, porque há unidade; e Cristo, como dissemos, é Um, e todos os cristãos são membros de Cristo.
3. "Se o próprio Senhor não estivesse em nós, diga-o agora Israel" (v. 1)... Quando? "Quando os homens se levantaram contra nós" (v. 2). Não te admires: foram subjugados: pois eram homens; mas o Senhor estava em nós, não estava em nós o homem: pois homens se levantaram contra nós. Contudo, homens esmagariam outros homens, se naqueles homens que não puderam ser esmagados não houvesse, não homem, mas o Senhor. Pois que poderiam os homens fazer-vos, enquanto vos regozijáveis, e cantáveis, e possuíeis com segurança a bem-aventurança eterna? que poderiam os homens fazer-vos quando se levantaram contra vós, se o Senhor não estivesse do vosso lado? que poderiam fazer? "Talvez nos tivessem devorado vivos" (v. 3). "Devorado-nos": não nos teriam primeiro morto, para depois nos devorar. Ó homens desumanos, ó cruéis! A Igreja não devora assim. A Pedro foi dito: "Mata e come": não: Devora vivo. Porque ninguém entra no corpo da Igreja, sem que primeiro seja morto? O que ele era, morre, para que seja o que não era. De outro modo, aquele que não é morto, e não é comido pela Igreja, pode estar no número visível do povo: mas não pode estar no número do povo que é conhecido de Deus, do qual diz o Apóstolo: "O Senhor conhece os que são seus", a não ser que seja comido; e comido não pode ser, se primeiro não for morto. Vem o pagão, ainda nele vive a idolatria; é preciso que seja enxertado entre os membros de Cristo: para que seja enxertado, é necessário que seja comido; mas não pode ser comido pela Igreja, se primeiro não for morto. Renuncie ele ao mundo, e então está morto; creia em Deus, e então é comido... Mas aqueles em quem está o Senhor são mortos e não morrem. Mas os que consentem e vivem são devorados vivos, e, devorados, morrem. Mas os que sofreram, e não cederam às tribulações, alegram-se e dizem: "Se o Senhor não estivesse em nós", etc.
5. Em primeiro lugar, que significa: "Porventura a nossa alma passou"? (v. 5). Entende, porém, o sentido assim: "Pensas que a nossa alma escapou?" e por que dizem eles "Pensas"? Porque a grandeza do perigo torna quase incrível que tenha escapado. Suportaram uma grande morte: estiveram em grandes perigos; foram tão oprimidos, que quase deram consentimento ainda vivos, e quase foram devorados vivos: agora, pois, que escaparam, agora que estão seguros, mas ainda se lembram do perigo, do grande perigo, dizem: "Pensas que a nossa alma passou a água sem substância?"
6. Que é a água sem substância, senão a água dos pecados sem substância? Pois os pecados não têm substância: têm destituição, não substância; têm carência, não substância. Naquela água sem substância, o filho mais moço perdeu toda a sua substância... Queres ver como a água é sem substância? Leva contigo para o mundo inferior o que adquiriste: que farás? Adquiriste ouro: perdeste a tua fé: passados poucos dias, deixas esta vida; não podes levar contigo o ouro que adquiriste com a perda da tua boa fé; o teu coração, destituído de fé, vai para o castigo — o teu coração, que, se estivesse cheio de fé, iria para a coroa. Eis que o que fizeste é nada: e ofendeste a Deus por nada.
7. Os homens ouvem aquele provérbio comum; e os provérbios de Deus dormitam neles. Que provérbio? "Melhor na mão que na esperança." Homem infeliz, que tens na mão? Dizes: "Melhor na mão." Segura-o de modo a não o perderes, e então diz: "Melhor na mão." Mas, se não o seguras, por que não seguras firme aquilo que não podes perder? Que tens, pois, na mão? Ouro. Guarda-o, então, na mão: se o tens na mão, que não te seja tirado sem o teu consentimento. Mas se, também por causa do ouro, és levado para onde não queres, e se um ladrão mais poderoso te busca, porque te acha um ladrão menos poderoso; se uma águia mais forte te persegue, porque arrebataste uma lebre diante dela: menor era a tua presa, tu serás presa de outra maior. Não veem os homens estas coisas nos assuntos humanos: de tal modo os cega a avareza...
4 ..."Quando o seu furor se acendeu contra nós." Estão eles agora irados, agora abertamente enfurecidos: "porventura as águas nos teriam afogado" (v. 4). Por água entende ele as nações ímpias: e veremos que espécie de água é esta nos versículos seguintes. Quem quer que a elas tivesse consentido, a água o teria arrebatado. Pois morreria da morte dos egípcios, não passaria segundo o exemplo dos israelitas. Pois sabeis, irmãos, que o povo de Israel passou através da água, pela qual os egípcios foram arrebatados. Mas que espécie de água é esta? É uma torrente, corre com violência, mas há de passar... Por isso Ele, a nossa Cabeça, bebe primeiro, de quem se diz nos Salmos: "Do ribeiro no caminho beberá; por isso levantará a cabeça." Pois a nossa Cabeça já está exaltada, porque bebeu da torrente pelo caminho; pois o nosso Senhor padeceu. Se, pois, a nossa Cabeça já foi levantada, por que teme o corpo a torrente? Sem dúvida, porque a Cabeça foi levantada, também o corpo dirá depois: "A nossa alma passou a torrente. Porventura a nossa alma passou a água sem substância" (v. 5). Eis de que espécie de água ele falava: "As águas porventura nos teriam afogado." Mas que significa "sem substância"?
1. Este Salmo, que pertence ao número dos Cânticos dos Degraus, ensina-nos que, ao ascendermos e elevarmos as nossas mentes ao Senhor nosso Deus em caridade e piedade amorosas, não fixemos o olhar sobre os homens que prosperam neste mundo, com uma felicidade falsa e instável, e de todo sedutora; onde nada acalentam senão a soberba, e o seu coração se congela contra Deus, e se endurece contra a chuva de Sua graça, de modo que não dá fruto. ...
2. "Os que confiam no Senhor serão como o monte Sião: não serão abalados para sempre" (v. 1).
4. Que é esta Jerusalém? Ele a descreve brevemente. "Os montes cercam Jerusalém" (v. 2). Há algo de grande nisto, que estejamos numa cidade cercada de montes? É esta toda a nossa felicidade, termos uma cidade que os montes rodeiam? Acaso não sabemos o que são os montes? Ou que são os montes senão intumescências da terra? Diferentes, pois, destes são aqueles montes que amamos, montes elevados, pregoeiros da verdade, sejam Anjos, sejam Apóstolos, sejam Profetas. Eles cercam Jerusalém; rodeiam-na, e, por assim dizer, formam para ela uma muralha. Destes montes amáveis e deleitosos fala constantemente a Escritura. ...São eles os montes de que cantamos: "Levantei os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro": porque, nesta vida, temos socorro das santas Escrituras. E, por meio dos montes que recebem a paz, as pequenas colinas receberam a justiça: pois que diz ele acerca dos próprios montes? Não disse que eles têm paz de si mesmos, ou que fazem a paz, ou geram a paz; mas que recebem a paz. O Senhor é a fonte de onde eles recebem a paz. Levanta, pois, os teus olhos para os montes por causa da paz, para que o teu socorro venha do Senhor, que fez o céu e a terra. De novo, o Espírito Santo, mencionando estes montes, diz isto: "Tu os iluminas maravilhosamente desde os teus montes eternos." Não disse que os montes os iluminam; mas: Tu os iluminas desde os teus montes eternos: por meio daqueles montes que Tu quiseste que fossem eternos, pregando o Evangelho, és Tu quem os ilumina, não os montes. Tais são, pois, os "montes que cercam Jerusalém."
5. E para que saibais que espécie de montes são estes que cercam Jerusalém: onde quer que a Escritura tenha mencionado bons montes, rara, e dificilmente, e talvez nunca, deixa de mencionar também imediatamente o Senhor, ou de a Ele aludir no mesmo instante, para que a nossa esperança não repouse nos montes. ...Para que não te detenhas novamente nos montes, acrescenta ele logo em seguida: "Assim também o Senhor está ao redor do seu povo": para que a tua esperança não estivesse nos montes, mas Naquele que ilumina os montes. Pois quando Ele habita nos montes, isto é, nos Santos, Ele mesmo está ao redor do seu povo; e Ele mesmo muniu o seu povo com uma fortificação espiritual, para que não seja abalado para sempre. Mas quando a Escritura fala de montes maus, não lhes acrescenta o Senhor. Tais montes, já vo-lo dissemos muitas vezes, significam certas almas poderosas, porém más. Pois não deveis supor, irmãos, que as heresias pudessem ser produzidas por almas pequenas. Ninguém, senão homens grandes, foi autor de heresias; mas, na medida em que eram poderosos, eram montes maus. Pois não eram tais montes que recebessem a paz, para que as colinas recebessem a justiça; mas receberam a dissensão de seu pai, o diabo. Havia, portanto, montes: guarda-te de não fugires para tais montes. Pois virão homens, e te dirão: Eis um grande herói, eis um grande homem! Quão grande foi aquele Donato! Quão grande é Maximiano! E um certo Fotino, que grande homem era ele! E Ário também, quão ilustre era! Todos estes que mencionei são montes, mas montes que causam naufrágio. ...
6. Mas amai tais montes, nos quais está o Senhor. Então esses mesmos montes te amam, se não puseste neles a tua esperança. Vede, irmãos, o que são os montes de Deus. Por isso são assim chamados noutra passagem: "A tua justiça é como os montes de Deus." Não a justiça deles, mas "a tua justiça." Ouvi aquele grande monte, o Apóstolo: "Para que eu seja achado nEle, não tendo a minha própria justiça, que é da lei, mas a que vem por meio da fé de Cristo." Mas aqueles que escolheram ser montes por sua própria justiça, como certos judeus ou fariseus, seus chefes, são assim repreendidos: "Ignorando a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus." Mas os que se submeteram são exaltados de tal modo que são humildes. Enquanto são grandes, são montes; enquanto se submetem a Deus, são vales: e enquanto têm a capacidade da piedade, recebem a plenitude da paz, e transmitem a copiosa irrigação às colinas; somente cuidai, por ora, de que montes amais. Se quereis ser amados pelos bons montes, não ponhais a vossa confiança nem sequer nos bons montes. Pois quão grande monte foi Paulo? Onde se encontra outro semelhante a ele? Falamos da grandeza dos homens. Pode-se facilmente encontrar alguém de tamanha graça? Contudo, ele temia que aquela grei nele depositasse a confiança: e que diz ele? "Acaso foi Paulo crucificado por vós?" Mas levantai os vossos olhos para os montes, de onde vos poderá vir o socorro: pois "eu plantei, Apolo regou": mas o vosso socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra; pois "Deus é que deu o crescimento." "Os montes," portanto, "cercam Jerusalém." Mas assim como "os montes cercam Jerusalém, assim também o Senhor está ao redor do seu povo, desde agora e para sempre." Se, portanto, os montes cercam Jerusalém, e o Senhor está ao redor do seu povo, o Senhor ata o seu povo num único vínculo de amor e de paz, de modo que os que confiam no Senhor, como o monte Sião, não sejam abalados para sempre: e isto é "desde agora e para sempre."
3. Quem são estes? "Permanecerão firmes para sempre os que habitam em Jerusalém" (v. 2). Se entendermos esta Jerusalém terrena, todos os que nela habitaram foram excluídos pelas guerras e pela destruição da cidade: procura agora um judeu na cidade de Jerusalém, e não o encontrarás. Por que, então, "os que habitam em Jerusalém não serão abalados para sempre," senão porque há uma outra Jerusalém, de que costumais ouvir falar muito? Ela é a nossa mãe, por quem suspiramos e gememos nesta peregrinação, para que a ela retornemos. ...Aqueles, pois, que nela habitam "jamais serão abalados." Mas os que habitaram naquela Jerusalém terrena foram abalados; primeiro no coração, depois pelo exílio. Quando foram abalados no coração e caíram, então crucificaram o próprio Rei da Jerusalém celeste; já estavam espiritualmente fora, e deixaram o seu próprio Rei fechado do lado de fora. Pois lançaram-nO para fora da sua cidade, e O crucificaram fora. Ele também os lançou fora da sua cidade, isto é, da Jerusalém eterna, Mãe de todos nós, que está nos Céus.
7. "Pois o Senhor não deixará a vara dos ímpios sobre a sorte dos justos, para que os justos não estendam as suas mãos para a iniquidade" (v. 3). No presente, na verdade, os justos sofrem em certa medida, e no presente os injustos às vezes tiranizam os justos. De que modos? Às vezes os injustos alcançam honras mundanas: quando as alcançam, e são feitos ou juízes ou reis; pois Deus faz isto para a disciplina do seu povo, para a disciplina da sua gente; a honra devida ao seu poder deve necessariamente ser-lhes mostrada. Pois assim ordenou Deus a sua Igreja, que todo poder ordenado no mundo tenha honra, e às vezes proveniente daqueles que são melhores do que os que estão no poder. A título de ilustração, tomo um exemplo; a partir dele calculai os graus de todos os poderes. A relação de autoridade primária e cotidiana entre homem e homem é a que existe entre senhor e escravo. Quase todas as casas têm um poder desta espécie. Há senhores, há também escravos; estes são nomes diferentes, mas homens e homens são nomes iguais. E que diz o Apóstolo, ensinando que os escravos estão sujeitos aos seus senhores? "Servos, sede obedientes aos que são vossos senhores segundo a carne": pois há um Senhor segundo o Espírito. Ele é o verdadeiro e eterno Senhor; mas aqueles senhores temporais o são apenas por um tempo. Quando caminhas pelo caminho, quando vives nesta vida, Cristo não quer fazer-te soberbo. Coube-te por sorte tornares-te cristão, e teres um homem por senhor: não foste feito cristão para que desdenhasses ser servo. Pois quando, por mandado de Cristo, serves um homem, não é ao homem que serves, mas Àquele que to mandou. Diz ele também isto: "Servos, sede obedientes aos que são vossos senhores segundo a carne." Eis que ele não libertou os homens de serem servos, mas fez bons servos de maus servos. Quanto devem os ricos a Cristo, que lhes ordena a casa! De modo que, se tiveres tido um servo incrédulo, supõe que Cristo o converta, e não lhe digas: Deixa o teu senhor, agora conheceste Aquele que é o teu verdadeiro Senhor: ele talvez seja ímpio e injusto, tu és agora fiel e justo: é indigno que um homem justo e fiel sirva a um senhor injusto e incrédulo. Não lhe falou ele assim, mas antes: Serve-o; e, para confirmar o servo, acrescentou: Serve como eu servi; eu, antes de ti, servi aos injustos. ...Se o Senhor do céu e da terra, por quem todas as coisas foram criadas, serviu os indignos, pediu misericórdia para os seus furiosos perseguidores, e, por assim dizer, se mostrou como Médico deles na sua vinda (pois também os médicos, tanto melhores na arte quanto na saúde, servem os enfermos): quanto mais não deve o homem desdenhar, com toda a sua mente, e toda a sua boa vontade, com todo o seu amor, servir até mesmo a um mau senhor! Eis que o melhor serve o inferior, mas apenas por um tempo. Entendei que o que disse acerca do senhor e do escravo é verdadeiro também acerca dos poderes e dos reis, de todas as posições elevadas deste mundo. Pois às vezes são bons poderes, e temem a Deus; às vezes não temem a Deus. Juliano foi um imperador infiel, um apóstata, um homem ímpio, um idólatra; soldados cristãos serviram a um imperador infiel; quando se tratava da causa de Cristo, reconheciam somente Aquele que estava nos céus. Se ele alguma vez os convocava a adorar ídolos, a oferecer incenso, preferiam Deus a ele: mas sempre que lhes ordenava que se dispusessem em linha, que marchassem contra esta ou aquela nação, obedeciam de imediato. Distinguiam o seu senhor eterno do seu senhor temporal; e, contudo, eram, por causa do seu Senhor eterno, submissos ao seu senhor temporal.
8. Mas será sempre assim, que os ímpios tenham poder sobre os justos? Não será assim. A vara dos ímpios faz-se sentir por um tempo sobre a sorte dos justos; mas não é ali deixada, não estará ali para sempre. Virá um tempo em que Cristo, aparecendo em sua glória, reunirá diante de Si todas as nações. E ali verás muitos escravos entre as ovelhas, e muitos senhores entre os bodes; e, de novo, muitos senhores entre as ovelhas, muitos escravos entre os bodes. Pois nem todos os escravos são bons — não infiras isto da consolação que demos aos servos — nem todos os senhores são maus, porque assim reprimimos a soberba dos senhores. Há bons senhores que creem, e há maus: há bons servos que creem, e há maus. Mas, enquanto bons servos servem a maus senhores, que perseverem por um tempo. "Pois Deus não deixará a vara dos ímpios sobre a sorte dos justos." Por que não a deixará? "Para que os justos não estendam a sua mão para a iniquidade": para que os justos suportem por um tempo o domínio dos ímpios, e entendam que isto não é para sempre, mas se preparem para possuir a sua herança eterna. ...
9. E por isso acrescenta: "Faze bem, ó Senhor, aos que são bons e retos de coração" (v. 4). Aqueles que são retos de coração, de quem eu falava há pouco — os que seguem a vontade de Deus, não a vontade própria — reflitam sobre isto. Mas os que desejam seguir a Deus permitem que Ele vá adiante, e eles O sigam; não que eles vão adiante, e Ele os siga; e em todas as coisas O acham bom, quer castigando, quer consolando, quer exercitando, quer coroando, quer purificando, quer iluminando; como diz o Apóstolo: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus."
10. Donde o Salmista logo acrescenta: "Quanto, porém, aos que se desviam, o Senhor os levará com os que praticam a iniquidade" (v. 5): isto é, aqueles cujas obras imitaram; porque se deleitaram em seus prazeres presentes, e não creram nos castigos vindouros. Que terão, pois, os que são retos de coração, e que não se voltam para trás? Cheguemos agora à própria herança, irmãos, pois somos filhos. Que possuiremos? Qual é a nossa herança? Qual é a nossa pátria? Como se chama? Paz. Nisto vos saudamos, isto vos anunciamos, isto os montes recebem, e as pequenas colinas recebem como justiça. A paz é Cristo: "pois Ele é a nossa paz, que fez de ambos um só povo, e derrubou a parede intermediária de separação entre nós." Visto que somos filhos, teremos uma herança. E como se chamará esta herança, senão paz? E considerai que os que não amam a paz são deserdados. Ora, os que dividem a unidade não amam a paz. A paz é a posse dos piedosos, a posse dos herdeiros. E quem são os herdeiros? Os filhos. ...Visto, pois, que Cristo, o Filho de Deus, é a paz, Ele veio, por isso, para reunir os seus, e separá-los dos ímpios. De que ímpios? Daqueles que odeiam Jerusalém, que odeiam a paz, que desejam rasgar a unidade, que não creem na paz, que pregam ao povo uma falsa paz, e não a possuem. Aos quais se responde, quando dizem: "A paz seja convosco," "E com o teu espírito": mas falam falsamente, e ouvem falsamente. A quem dizem: A paz seja convosco? Àqueles que separam da paz de toda a terra. E a quem se diz: "E com o teu espírito"? Àqueles que abraçam as dissensões, e que odeiam a paz. Pois, se a paz estivesse no seu espírito, não amariam a unidade, e deixariam as dissensões? Falando, pois, palavras falsas, ouvem palavras falsas. Falemos nós palavras verdadeiras, e ouçamos palavras verdadeiras. Sejamos Israel, e abracemos a paz; pois Jerusalém é uma visão de paz, e nós somos Israel, "e a paz está sobre Israel."
2. "Quando o Senhor fez voltar o cativeiro de Sião, ficamos como os que são consolados" (v. 1). Quis com isto dizer que ficamos alegres. Quando? "Quando o Senhor fez voltar o cativeiro de Sião." Que é Sião? Jerusalém, a mesma que é também a Sião eterna. Como é Sião eterna, como é Sião cativa? Nos anjos, eterna; nos homens, cativa. Pois nem todos os cidadãos daquela cidade são cativos, mas os que dela estão ausentes, esses são cativos. O homem era cidadão de Jerusalém, mas, vendido sob o pecado, tornou-se peregrino. De sua descendência nasceu o gênero humano, e o cativeiro de Sião encheu todas as terras. E como é este cativeiro de Sião uma sombra daquela Jerusalém? A sombra daquela Sião, que foi concedida aos judeus, em imagem, em figura, esteve em cativeiro na Babilônia, e, passados setenta anos, aquele povo voltou à sua própria cidade. ...Mas, quando todo o tempo tiver passado, então voltaremos à nossa pátria, assim como, passados setenta anos, aquele povo voltou do cativeiro babilônico, pois Babilônia é este mundo; visto que Babilônia se interpreta "confusão." ...Assim, pois, toda esta vida das coisas humanas é confusão, a qual não pertence a Deus. Nesta confusão, nesta terra babilônica, Sião é mantida cativa. Mas "o Senhor fez voltar o cativeiro de Sião." "E ficamos," diz ele, "como os que são consolados." Isto é, alegramo-nos como quem recebe consolação. A consolação não existe senão para os infelizes, a consolação não existe senão para os que gemem, que choram. Por que, pois, "como os que são consolados," senão porque ainda estamos a chorar? Choramos pela nossa sorte presente, somos consolados na esperança: quando o presente tiver passado, do nosso pranto virá a alegria eterna, quando já não haverá necessidade de consolação, porque não seremos feridos por nenhuma aflição. Mas por que diz ele "como" os que são consolados, e não diz consolados? Esta palavra "como" nem sempre é posta por semelhança: quando dizemos "como," às vezes se refere ao caso real, às vezes à semelhança: aqui é com referência ao caso real. ...Caminhai, pois, em Cristo, e cantai regozijando-vos, cantai como quem é consolado; porque foi adiante de ti Aquele que te ordenou que O seguisses.
1. ...Perguntemos ao Apóstolo Paulo como o homem caiu em cativeiro. ...Pois ele diz: "Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido sob o pecado." Eis donde nos tornamos cativos: porque fomos vendidos sob o pecado. Quem nos vendeu? Nós mesmos, que consentimos com o sedutor. Podíamos vender-nos a nós mesmos; não podíamos redimir-nos a nós mesmos. Vendemo-nos pelo consentimento do pecado, somos redimidos pela fé da justiça. Pois sangue inocente foi dado por nós, para que fôssemos redimidos. Todo o sangue que ele derramou perseguindo os justos, que espécie de sangue derramou? Derramou, na verdade, sangue de homens justos; eram Profetas, homens justos, nossos pais, e Mártires. Derramou o sangue daqueles que, todavia, vinham todos da descendência do pecado. Um só sangue ele derramou daquele que não foi justificado, mas nasceu justo: ao derramar aquele sangue, perdeu aqueles que possuía. Pois aqueles por quem o sangue inocente foi dado foram redimidos, e, retornando do seu cativeiro, cantam este Salmo.
3. "Então a nossa boca se encheu de alegria, e a nossa língua de exultação" (v. 2). Aquela boca, irmãos, que temos em nosso corpo, como se "enche de alegria"? Ela não costuma "encher-se", senão de alimento, ou bebida, ou alguma coisa semelhante que se põe na boca. Às vezes a nossa boca se enche; e é mais do que dizemos à vossa santidade: quando temos a boca cheia, não podemos falar. Mas temos uma boca interior, isto é, no coração, de onde procede tudo quanto, se for mau, nos macula, e se for bom, nos purifica. Pois a respeito desta mesma boca ouvistes quando se leu o Evangelho. Porquanto os judeus repreendiam o Senhor, porque os discípulos dele comiam com mãos não lavadas. Repreendiam eles, que tinham limpeza por fora, e por dentro estavam cheios de manchas. Repreendiam eles, cuja justiça era apenas aos olhos dos homens. Mas o Senhor buscava a nossa limpeza interior, a qual, se a tivermos, é necessário que também o exterior seja limpo. "Purifica", diz Ele, "o interior", e "o exterior também será limpo." ...
4. Mas voltemos ao que há pouco se leu do Evangelho, relativo ao versículo que temos diante de nós: "A nossa boca se encheu de alegria, e a nossa língua de contentamento": pois estamos indagando de que boca e de que língua se trata. Ouvi, amados irmãos. O Senhor foi escarnecido, porque os seus discípulos comiam com as mãos não lavadas. O Senhor respondeu-lhes como convinha, e disse às multidões que havia chamado a si: "Ouvi todos, e entendei: não é o que entra na boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso contamina o homem." Que significa isto? Quando disse "o que entra na boca", referia-se apenas à boca do corpo. Pois o alimento entra, e os alimentos não contaminam o homem; porque "todas as coisas são limpas para os limpos"; e "toda criatura de Deus é boa, e nenhuma deve ser rejeitada, se for recebida com ação de graças." ...
5. Guarda a boca do teu coração do mal, e serás inocente: a língua do teu corpo será inocente, as tuas mãos serão inocentes; até os teus pés serão inocentes, os teus olhos, os teus ouvidos, serão inocentes; todos os teus membros servirão sob a justiça, porque um comandante justo tens no coração. "Então dirão entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor por eles."
6. "Sim, o Senhor fez por nós grandes coisas, das quais nos alegramos" (v. 3). Considerai, meus irmãos, se Sião não diz isto agora entre os gentios, por todo o mundo; considerai se os homens não estão correndo para a Igreja. Em todo o mundo se recebe a nossa redenção; responde-se Amém. Os habitantes de Jerusalém, portanto, cativos, destinados a retornar, peregrinos, suspirando pela sua pátria, falam assim entre os gentios. Que dizem eles? "O Senhor fez por nós grandes coisas, das quais nos alegramos." Fizeram eles alguma coisa por si mesmos? Fizeram mal a si mesmos, pois se venderam sob o pecado. O Redentor veio, e fez por eles as boas coisas.
7. "Converte, Senhor, o nosso cativeiro, como as torrentes no sul" (v. 4). Considerai, meus irmãos, o que isto significa. ...Assim como as torrentes se convertem no sul, converte também o nosso cativeiro. Em certa passagem, a Escritura diz, admoestando-nos acerca das boas obras: "Os teus pecados também se derreterão, como o gelo em tempo ameno e cálido." Os nossos pecados, pois, nos prendiam. Como? Assim como o frio prende a água, para que não corra. Presos pela geada dos nossos pecados, ficamos gelados. Mas o vento sul é um vento quente: quando sopra o vento sul, o gelo se derrete, e as torrentes se enchem. Ora, chamam-se torrentes as correntes invernais; pois, cheias de chuvas repentinas, correm com grande força. Nós, portanto, tínhamos ficado gelados no cativeiro; os nossos pecados nos prendiam: soprou o vento sul, o Espírito Santo: os nossos pecados nos são perdoados, somos livrados da geada da iniquidade; como o gelo em tempo ameno, os nossos pecados se derretem. Corramos para a nossa pátria, como as torrentes no sul. ...
8. Pois as palavras seguintes são: "Os que semeiam em lágrimas, ceifarão em alegria" (v. 5). Nesta vida, que é cheia de lágrimas, semeemos. Que semearemos? Boas obras. As obras de misericórdia são as nossas sementes; a respeito destas sementes diz o Apóstolo: "Não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos." Falando, pois, da própria esmola, que diz ele? "Digo isto: aquele que semeia parcamente, também parcamente ceifará." Aquele, portanto, que semeia abundantemente, ceifará abundantemente; aquele que semeia parcamente, também parcamente ceifará; e aquele que nada semeia, nada ceifará. Por que ansiais por amplas propriedades, onde possais semear abundantemente? Não há campo mais vasto no qual possais semear do que Cristo, que quis que semeássemos nEle mesmo. A vossa terra é a Igreja; semeai quanto puderdes. Mas não tens o suficiente para isto. Tens a vontade? Assim como o que possuísses seria nada, se não tivesses boa vontade, assim não desanimes por não possuíres, se tens boa vontade. Pois que semeias? A misericórdia. E que ceifarás? A paz. Disseram os Anjos: Paz na terra aos homens ricos? Não, mas: "Paz na terra aos homens de boa vontade." Zaqueu tinha vontade forte, Zaqueu tinha grande caridade. ...Terá, pois, semeado pouco aquela viúva que lançou as suas duas pequenas moedas no gazofilácio? De modo nenhum, tanto quanto Zaqueu. Pois ela tinha meios mais restritos, mas igual vontade. Deu as suas duas pequenas moedas com tão boa vontade quanto Zaqueu deu a metade do seu patrimônio. Se considerares o que deram, encontrarás os seus dons diferentes; se olhares para a fonte, encontrá-los-ás iguais: ela deu tudo quanto tinha, e ele deu o que tinha. ...Mas, se são mendigos cujo ofício é pedir esmola, também eles, na sua aflição, têm o que dar uns aos outros. Deus não os abandonou de tal modo que não tenham em que sejam provados pela sua prática de esmolar. Este não pode andar; aquele que pode andar empresta os seus pés ao coxo; aquele que vê empresta os seus olhos ao cego; e aquele que é jovem e são empresta a sua força ao velho ou ao enfermo, carrega-o: um é pobre, o outro é rico.
9. Às vezes também se descobre que o rico é pobre, e algo lhe é dado pelo pobre. Alguém chega a um rio, tanto mais delicado quanto mais rico é; não pode atravessá-lo: se atravessasse com os membros descobertos, resfriar-se-ia, adoeceria, morreria: chega um pobre, mais ágil de corpo; carrega o rico do outro lado; dá esmola ao rico. Não penseis, pois, que são pobres somente aqueles que não têm dinheiro. ...Assim amai, assim vos afeiçoai uns aos outros. Não atendais somente a vós mesmos, mas àqueles que, ao vosso redor, padecem necessidade. Mas, porque estas coisas acontecem nesta vida com tribulações e cuidados, não desfaleçais. Semeais em lágrimas, ceifareis em alegria.
2. Mas o que é a casa de Deus é também uma cidade. Pois a casa de Deus é o povo de Deus; pois a casa de Deus é o templo de Deus. ...Esta é Jerusalém: ela tem guardas: assim como tem construtores, laborando na sua edificação, assim também tem guardas. A esta guarda se referem estas palavras do Apóstolo: "Temo que, de algum modo, as vossas mentes se corrompam, apartando-se da simplicidade que há em Cristo." Ele guardava a Igreja. Vigiava, com todo o seu poder, sobre aqueles a quem fora posto à frente. Os Bispos também fazem isto. Pois um lugar mais elevado foi dado aos Bispos por esta razão, para que eles mesmos fossem os superintendentes e, por assim dizer, os guardiões do povo. Pois a palavra grega Episcopus, e a palavra latina Superintendente, significam o mesmo; pois o Bispo superintende, na medida em que vigia por cima. Assim como se atribui um lugar mais elevado ao vinhateiro no cuidado da vinha, assim também aos Bispos é destinada uma posição mais exaltada. E perigosa é a conta que se presta desta alta posição, a menos que aqui estejamos com um coração que nos faça permanecer sob os vossos pés em humildade, e oremos por vós, para que Aquele que conhece as vossas mentes seja Ele mesmo o vosso guardião. Pois podemos ver-vos tanto entrando como saindo; mas somos de tal modo incapazes de ver quais são os pensamentos dos vossos corações, que nem sequer podemos ver o que fazeis em vossas casas. Como, pois, podemos guardar-vos? Como homens: até onde podemos, até onde recebemos poder. E, porque vos guardamos como homens, e não podemos guardar-vos perfeitamente, ficareis, por isso, sem guardião? Longe disso! Pois onde está Aquele de quem se diz: "Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia o guarda"? (v. 1). Nós vigiamos em nossa guarda, mas em vão é a nossa vigilância, a menos que Aquele que vê os vossos pensamentos vos guarde. Ele guarda enquanto estais acordados, Ele guarda também enquanto dormis. Pois Ele dormiu uma vez na Cruz, e ressuscitou; já não dorme mais. Sede vós Israel: pois "o Guardião de Israel não dorme nem tosqueneja." Sim, irmãos, se quisermos ser guardados sob a sombra das asas de Deus, sejamos Israel. Pois nós vos guardamos em nosso ofício de despenseiros; mas queremos ser guardados juntamente convosco. Somos, por assim dizer, pastores para vós; mas debaixo daquele Pastor somos co-ovelhas convosco. Somos, por assim dizer, vossos mestres nesta posição; mas debaixo dEle, o único Mestre, somos condiscípulos convosco nesta escola.
1. Entre todos os Cânticos intitulados Cântico dos degraus, este Salmo tem, no título, um acréscimo ulterior: o de ser "de Salomão". Pois assim se intitula: "Cântico dos degraus, de Salomão." Isto, portanto, despertou a nossa atenção, e levou-nos a indagar a razão deste acréscimo, "de Salomão". Pois é desnecessário repetir as explicações das outras palavras, Cântico dos degraus. ...Salomão foi, em seu tempo, filho de Davi, homem grande, por meio de quem muitos santos preceitos, saudáveis admoestações e divinos mistérios foram operados pelo Espírito Santo nas Escrituras. O próprio Salomão foi amante de mulheres, e foi rejeitado por Deus: e esta concupiscência foi para ele um laço tão grande, que foi induzido pelas mulheres até a sacrificar a ídolos, como a Escritura testemunha a seu respeito. Mas, se pela sua queda se apagasse o que por meio dele foi transmitido, julgar-se-ia que ele mesmo havia transmitido estes preceitos, e não que foram transmitidos por meio dele. A misericórdia de Deus, portanto, e o seu Espírito, dispuseram excelentemente que tudo quanto de bom foi declarado por meio de Salomão fosse atribuído a Deus; e o pecado do homem, ao homem. Que maravilha que Salomão tenha caído em meio ao povo de Deus? Não caiu Adão no Paraíso? Não caiu um anjo do céu, tornando-se o diabo? Somos, por isto, ensinados a não depositar esperança em nenhum homem. ...O nome de Salomão interpreta-se como "pacificador": ora, Cristo é o Verdadeiro Pacificador, de quem o Apóstolo diz: "Ele é a nossa Paz, que fez de ambos um só." ...Sendo Ele, portanto, o verdadeiro Salomão — pois aquele Salomão era figura deste Pacificador, quando edificou o templo —, para que não penses que aquele que edificou a casa a Deus fosse o verdadeiro Salomão, a Escritura, mostrando-te outro Salomão, assim começa este Salmo: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam" (v. 1). O Senhor, portanto, edifica a casa; o Senhor Jesus Cristo edifica a sua própria casa. Muitos labutam edificando; mas, se Ele não edificar, "em vão trabalham os que a edificam." Quem são os que labutam edificando-a? Todos os que pregam a palavra de Deus na Igreja, os ministros dos mistérios de Deus. Todos nós corremos, todos nós labutamos, todos nós edificamos agora; e, antes de nós, outros correram, labutaram e edificaram: mas "se o Senhor não edificar, em vão é o trabalho." Assim os Apóstolos, vendo alguns caírem, lamentavam estes homens, por terem trabalhado em vão por eles. Nós, pois, falamos por fora; Ele edifica por dentro. Podemos observar com que atenção nos ouvis; só Ele, que conhece os vossos pensamentos, sabe o que pensais. Ele mesmo edifica, Ele mesmo admoesta, Ele mesmo abre o entendimento, Ele mesmo acende o vosso entendimento para a fé; todavia, também nós labutamos como operários; mas, "se o Senhor não edificar", etc.
3. Se queremos ser guardados por Aquele que se humilhou por nós, e que foi exaltado para nos guardar, sejamos humildes. Que ninguém arrogue nada a si mesmo. Nenhum homem possui algum bem, senão o que recebeu dAquele que só Ele é bom. Mas aquele que escolhe arrogar a sabedoria a si mesmo é um insensato. Seja ele humilde, para que a sabedoria venha, e o ilumine. Mas, se antes de a sabedoria vir a ele, imaginar que já é sábio, levanta-se antes da luz, e anda em trevas. Que ouve ele neste Salmo? "É trabalho perdido apressar-vos a levantar antes da alvorada" (v. 2). Que significa isto? Se vos levantais antes que a luz se levante, necessariamente perdereis o vosso trabalho, porque estareis nas trevas. A nossa luz, Cristo, já se levantou; é bom para ti levantar-te depois de Cristo, não levantar-te antes de Cristo. Quem se levanta antes de Cristo? Aqueles que escolhem preferir-se a si mesmos a Cristo. E quem são estes que desejam preferir-se a Cristo? Aqueles que desejam ser exaltados aqui, onde Ele foi humilde. Sejam, pois, humildes aqui, se desejam ser exaltados ali, onde Cristo é exaltado. ...O Senhor chamou de volta os filhos de Zebedeu à humildade, e lhes disse: "Podeis vós beber do cálice que Eu hei de beber?" Eu vim para ser humilde: e quereis vós ser exaltados antes de Mim? O caminho que Eu percorro, segui-o vós, diz Ele. Pois, se escolherdes ir por este caminho onde Eu não vou, perdeis o vosso trabalho, levantando-vos antes da alvorada. Também Pedro se havia levantado antes da luz, quando quis dar conselho ao Senhor, dissuadindo-O de padecer por nós. ...Mas que fez o nosso Senhor? Fê-lo levantar-se depois da Luz: "Vai-te para trás de Mim, Satanás." Ele era Satanás, porque quis levantar-se antes da Luz. "Vai-te para trás de Mim": para que Eu vá adiante, e tu possas seguir; para onde Eu vou, para lá possas ir tu; e não queiras guiar-Me para onde tu quisesses ir. ...
E como se disseras: Quando ressuscitaremos? Ordena-se-nos agora que nos assentemos: quando será a nossa ressurreição? Quando foi a do Senhor. Olha para Ele, que foi adiante de ti: pois se não atentares para Ele, "trabalho perdido é levantar-te antes da aurora". Quando foi Ele ressuscitado? Quando havia morrido. Espera, pois, a tua exaltação depois da tua morte: tem esperança na ressurreição dos mortos, porque Ele ressuscitou e subiu aos céus. Mas onde dormiu Ele? Na Cruz. Quando dormiu na Cruz, trouxe um sinal, sim, cumpriu o que fora significado em Adão: pois quando Adão dormia, foi-lhe tirada uma costela e Eva foi criada; assim também, enquanto o Senhor dormia na Cruz, o seu lado foi trespassado com uma lança, e daí manaram os Sacramentos, donde nasceu a Igreja. Pois a Igreja, Esposa do Senhor, foi criada do seu lado, como Eva foi criada do lado de Adão. Mas assim como esta não foi feita do lado dele senão enquanto ele dormia, assim a Igreja não foi criada do lado d'Ele senão enquanto Ele morria. Se, pois, Ele não ressuscitou dos mortos senão depois de haver morrido, esperas tu a exaltação senão depois desta vida? Mas, para que este Salmo te ensinasse, caso perguntasses: Quando ressuscitarei? talvez antes de me haver assentado? acrescenta: "Quando Ele houver dado sono ao seu amado" (v. 3). Deus dá isto quando os seus amados adormeceram; então os seus amados, isto é, os de Cristo, ressuscitarão. Pois todos, na verdade, ressuscitarão, mas não como os seus amados. Há uma ressurreição de todos os mortos; mas que diz o Apóstolo? "Todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados." Ressuscitam para castigo: nós ressuscitamos como o nosso Senhor ressuscitou, para que sigamos a nossa Cabeça, se somos membros d'Ele. ...Espera por tal ressurreição; e por causa desta sê cristão, não por causa da felicidade deste mundo. Pois se quiseres ser cristão por causa da felicidade deste mundo, visto que Ele, tua Luz, não buscou a felicidade mundana, estás querendo ressuscitar antes da luz; hás de permanecer nas trevas. Sê transformado, segue a tua Luz; ressuscita onde Ele ressuscitou: primeiro assenta-te, e assim ressuscita, "quando Ele der sono ao seu amado".
Como se perguntasses de novo: quem são os amados? "Eis que os filhos são herança do Senhor; o fruto do ventre, seu galardão" (v. 3). Uma vez que diz "fruto do ventre", estes filhos nasceram em trabalho de parto. Há certa mulher, em quem se mostra de modo espiritual o que foi dito a Eva: "com dor darás à luz filhos". A Igreja gera filhos, a Esposa de Cristo; e se os gera, com eles se aflige nas dores do parto. Em figura dela, Eva foi também chamada "a mãe de todos os viventes". Aquele que disse: "Meus filhinhos, de quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós", estava entre os membros daquela que está de parto. Mas ela não se afligiu em vão, nem em vão deu à luz: haverá santa semente na ressurreição dos mortos: os justos, que ao presente estão espalhados por toda a terra, hão de multiplicar-se. A Igreja geme por eles, a Igreja está de parto por eles; mas naquela ressurreição dos mortos, aparecerá a prole da Igreja, e a dor e o gemido passarão. ...
"Como as flechas na mão do valente, assim são os filhos daqueles que foram lançados fora" (v. 4). Donde brotou esta herança, irmãos? Donde brotou herança tão numerosa? Alguns foram lançados da mão do Senhor, como flechas, e foram longe, e encheram toda a terra, donde brotam os Santos. Pois esta é a herança de que se diz: "Pede-me, e dar-te-ei as nações por herança, e as extremidades da terra por possessão". E como se estende e cresce esta possessão até às extremidades da terra? Porque "como as flechas na mão do valente", etc. As flechas são lançadas do arco, e quanto mais forte o braço que as lançou, mais longe voa a flecha. Mas que há de mais forte do que o dardejar do Senhor? Do seu arco Ele lança os seus Apóstolos: não poderia restar lugar algum onde não chegasse a flecha lançada por braço tão forte; chegou até às extremidades da terra. A razão de não ter ido mais longe foi que não havia mais gente humana além. Pois Ele tem tal força, que ainda que houvesse lugar além, aonde a flecha pudesse voar, ali Ele a lançaria. Tais são os filhos daqueles que foram lançados, como os que foram lançados.
7. Talvez os próprios Apóstolos sejam chamados filhos dos que foram sacudidos fora, filhos dos Profetas. Pois os Profetas encerravam mistérios fechados e velados: foram sacudidos, para que dali saíssem manifestamente. ...A menos que a profecia envolvida fosse peneirada com diligência, viriam a nós os sentidos ocultos? Todos estes sentidos estavam, pois, fechados antes da vinda do Senhor. Veio o Senhor, e sacudiu estes sentidos ocultos, e foram manifestados; os Profetas foram sacudidos fora, e nasceram os Apóstolos. Visto, pois, que nasceram dos Profetas que foram sacudidos fora, os Apóstolos são filhos dos que foram sacudidos. Estes, postos como flechas na mão do gigante, chegaram às extremidades da terra. ...Os Apóstolos, filhos dos Profetas, foram como as flechas na mão do valente. Se Ele é valente, sacudiu-os com mão forte; se os sacudiu com mão forte, aqueles que Ele sacudiu chegaram até mesmo às extremidades da terra.
"Bem-aventurado o homem que encheu o seu desejo com eles" (v. 5). Ora, meus irmãos, quem enche o seu desejo com eles? Aquele que não ama o mundo. Aquele que está cheio do desejo do mundo não tem lugar para que nele entre o que eles pregaram. Derrama o que carregas, e faze-te apto para o que não tens. Isto é, desejas riquezas: não podes encher o teu desejo com elas; desejas honras sobre a terra, desejas aquelas coisas que Deus deu até aos animais de carga, isto é, o prazer temporal, a saúde do corpo, e coisas semelhantes; não hás de saciar o teu desejo com elas. ..."Não será envergonhado, quando falar com os seus inimigos na porta." Irmãos, falemos na porta, isto é, que todos saibam o que falamos. Pois quem não escolhe falar na porta, quer que o que fala fique oculto, e talvez o queira oculto por esta razão, que é mau. Se estiver confiante, fale na porta; como se diz da Sabedoria: "Ela clama nas portas, à entrada da cidade". Enquanto se apegarem à justiça na inocência, não serão envergonhados: isto é pregar na porta. E quem é aquele que prega na porta? Aquele que prega em Cristo; porque Cristo é a porta pela qual entramos naquela cidade. ...Aqueles, pois, que falam contra Cristo, estão fora da porta; porque buscam as suas próprias honras, não as de Cristo. Mas aquele que prega na porta busca a honra de Cristo, não a sua própria: e, por isso, aquele que prega na porta diz: Não confieis em mim; pois não entrareis por mim, mas pela porta. Enquanto aqueles que querem que os homens confiem em si mesmos, querem que não entrem pela porta: não é de admirar se a porta lhes for fechada, e se em vão baterem para que se lhes abra.
"Bem-aventurados todos os que temem ao Senhor, e andam nos seus caminhos" (v. 1). Fala a muitos; mas, visto que estes muitos são um só em Cristo, nas palavras seguintes fala no singular: "Porque comerás os trabalhos dos teus frutos." ...Quando falo dos cristãos no plural, entendo um só no único Cristo. Sois, pois, muitos, e sois um; somos muitos, e somos um. Como somos muitos, e todavia um? Porque nos apegamos a Ele, cujos membros somos; e visto que a nossa Cabeça está no céu, para que os seus membros a sigam. ...Ouçamos, pois, este Salmo de tal modo que o consideremos falado de Cristo: e todos nós, que nos apegamos ao Corpo de Cristo, e fomos feitos membros de Cristo, andemos nos caminhos do Senhor; e temamos ao Senhor com temor casto, com temor que permanece para sempre. ...
Félix, o Mártir, verdadeiramente Félix, isto é, "Feliz" tanto no nome quanto na coroa, cujo dia natalício hoje é, desprezou o mundo. Acaso foi ele, porque temia ao Senhor, por isso feliz, por isso bem-aventurado, porque a sua mulher era como videira frutífera sobre a terra, e os seus filhos rodeavam a sua mesa? Todas estas bênçãos ele as possui perfeitamente, mas no Corpo daquele que aqui se descreve; e, porque as entendeu neste sentido, desprezou as coisas presentes, para que recebesse as futuras. Sabeis, irmãos, que ele não sofreu a morte que os outros mártires sofreram. Pois confessou, e foi posto de parte para os tormentos; noutro dia foi encontrado o seu corpo sem vida. Haviam fechado a prisão ao seu corpo, não ao seu espírito. Os verdugos o acharam ausente; quando se preparavam para o torturar, gastaram em vão a sua fúria. Jazia morto, sem sentido para eles, para que não fosse torturado; com sentido para com Deus, para que fosse coroado. Donde foi também feliz, irmãos, não somente no nome, mas na recompensa da vida eterna, se amou estas coisas.
"Comerás os trabalhos dos teus frutos" (v. 2). E tu, ó tu, vós muitos que sois Um, "comerás os trabalhos dos teus frutos". Parece falar de modo perverso aos que não entendem: pois deveria ter dito, comerás o fruto dos teus trabalhos. Pois muitos comem o fruto dos seus trabalhos. Trabalham na vinha; não comem o trabalho em si; mas comem o que provém do seu trabalho. Trabalham em torno das árvores que dão fruto; quem havia de comer os trabalhos? Mas o fruto destes trabalhos, o produto destas árvores, é isto que deleita o lavrador. Que significa: "Comerás os trabalhos dos teus frutos"? Ao presente temos fadigas: os frutos virão depois. Mas, visto que os próprios trabalhos não estão sem alegria, por causa da esperança de que pouco antes falamos, "alegrando-nos na esperança, pacientes na tribulação", ao presente estes mesmos trabalhos nos deleitam, e nos fazem alegres na esperança. Se, pois, a nossa fadiga tem sido algo que se pudesse comer, e que também nos pudesse deleitar; qual será o fruto do nosso trabalho quando comido? "Os que iam chorando pelo caminho, lançando a sua semente", comiam os seus trabalhos; com quanto maior prazer comerão os frutos dos seus trabalhos aqueles que "virão outra vez com alegria, trazendo consigo os seus feixes"? ..."Bem-aventurado és, e bem te irá." "Bem-aventurado és" é do presente: "bem te irá" é do futuro. Quando comeres os trabalhos dos teus frutos, "bem-aventurado és"; quando houveres alcançado o fruto dos teus trabalhos, "bem te irá". Que disse ele? Pois se te for bem, serás feliz: e se hás de ser feliz, também tudo te há de ir bem. Mas há diferença entre a esperança e a posse. Se a esperança é tão doce, quanto mais doce será a realidade?
Cheguemos agora às palavras: "Tua mulher" (v. 3): dito a Cristo. Sua mulher, portanto, é a Igreja: nós mesmos somos a sua Igreja, sua esposa. "Como videira frutífera." Mas em quem é a videira frutífera? Pois vemos muitos estéreis entrarem por estes muros; vemos que muitos intemperantes, usurários, negociantes de escravos, entram por estes muros, e os que recorrem a adivinhos, vão a encantadores e encantadeiras quando têm dor de cabeça. É esta a fecundidade da vinha? É esta a fecundidade da esposa? Não é. Estes são espinhos, mas a vinha não é toda ela espinhosa. Tem certa fecundidade, e é videira frutífera; mas em quem? "Aos lados da tua casa." Nem todos são chamados os lados da casa. Pois pergunto o que são os lados. Que direi? São muros, pedras fortes, por assim dizer? Se falasse desta habitação corpórea, talvez por lados entendêssemos isto. Entendemos por lados da casa aqueles que se apegam a Cristo. ...
5. "Teus filhos." A esposa e os filhos são a mesma coisa. Nestes casamentos e núpcias carnais, a esposa é uma, os filhos são outros: na Igreja, aquela que é a esposa é também os filhos. Pois os Apóstolos pertenciam à Igreja, e estavam entre os membros da Igreja. Estavam, pois, na sua esposa, e eram sua esposa segundo a porção própria que detinham nos seus membros. Por que, então, se diz a respeito deles: "Quando o Esposo lhes for tirado, então jejuarão os filhos do Esposo"? Aquela, pois, que é a esposa, é também os filhos. Digo coisa admirável, meus irmãos. Nas palavras do Senhor, achamos que a Igreja é, ao mesmo tempo, seus irmãos, e suas irmãs, e sua mãe. ...Pois Maria estava entre os lados da sua Casa, e os seus parentes, provindos da linhagem da Virgem Maria, que n'Ele creram, estavam entre os lados da sua Casa; não em razão do parentesco carnal, mas porquanto ouviram a Palavra de Deus, e a obedeceram. ...Acrescentou: "Pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, e irmã, e mãe." "Irmão", talvez, por causa do sexo masculino que a Igreja tem: "irmã", por causa das mulheres que Cristo tem aqui nos seus membros. Como "mãe", senão porque o próprio Cristo está naqueles cristãos que a Igreja diariamente gera cristãos por meio do batismo? Naqueles, pois, em quem entendes a esposa, neles entendes a mãe, neles os filhos.
6. ...Tais filhos devem, pois, estar "em redor" da mesa do Senhor, "como plantas de oliveira". É uma Vinha completa, uma grande bem-aventurança: quem agora recusaria estar ali? Quando vires algum blasfemo ter esposa, filhos, netos, e tu, porventura, estares sem eles, não os invejes; discerne que a promessa se cumpriu também em ti, mas espiritualmente. Se, pois, os temos, por que os temos? Porque tememos ao Senhor. "Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor" (v. 4). Ele é o homem, que é também os homens; e os homens são um só homem; porque muitos são um, porque Cristo é Um.
7. "Do Sião te abençoe o Senhor, e vejas tu os bens que são de Jerusalém" (v. 5). Até às aves foi dito: "Crescei e multiplicai-vos". Queres tu ter como grande bênção o que foi dado às aves? Quem pode ignorar que isso, de fato, foi dado pela voz de Deus? Mas usa destes bens, se os recebes; e antes pensa em como poderás alimentar os que nasceram, do que em que outros venham a nascer. Pois não é felicidade ter filhos, mas tê-los bons. Trabalha na tarefa de os alimentar, se nascerem; mas, se não nascerem, dá graças a Deus. ...Teus filhos são infantes: tu acaricias os infantes: os infantes te acariciam: permanecem eles assim? Mas tu desejas que cresçam, desejas que sua idade aumente. Considera, porém, que, quando vem uma idade, morre outra. Quando vem a puerícia, morre a infância; quando vem a juventude, morre a puerícia; quando vem a idade viril, morre a juventude; quando vem a velhice, morre a idade viril; quando vem a morte, morre toda idade. Quantas sucessões de idades desejas, tantas mortes de idades desejas. Estas coisas, portanto, não "são". Enfim, nascem-te filhos para partilharem contigo a vida na terra, ou antes para te excluírem e te sucederem? Alegras-te com os que nascem para te excluir? Os meninos, ao nascer, dizem algo assim a seus pais: "Ora, então, começai a pensar em retirar-vos daqui, deixai-nos também representar o nosso papel neste palco." Pois toda a vida de tentação no gênero humano é uma peça de teatro; pois está dito: "Todo homem vivente é inteiramente vaidade." Contudo, se nos alegramos com os filhos que nos sucederão, quanto mais devemos alegrar-nos com os filhos com quem permaneceremos, e com aquele Pai para quem nascemos, que não morrerá, mas para que vivamos para sempre com Ele! Estes são os bens de Jerusalém: pois eles "são". E até quando verei os bens de Jerusalém? "Todos os dias da tua vida." Se a tua vida for para sempre, verás os bens de Jerusalém para sempre. ...
8. Pois, "se só nesta vida", diz o Apóstolo, "esperamos em Cristo, somos de todos os homens os mais miseráveis." Por que razão foram os Mártires condenados às feras? Qual é esse bem? Pode ele ser declarado? por que meios, ou que língua pode dizê-lo? ou que ouvidos podem ouvi-lo? Pois na verdade, "nem ouvido ouviu, nem penetrou no coração do homem": somente amemos, somente cresçamos na graça: vede, pois, que não faltam batalhas, e que combatemos com as nossas concupiscências. Combatemos exteriormente com os homens incrédulos e desobedientes; combatemos interiormente com as sugestões e perturbações carnais: em toda parte ainda combatemos. ...Que espécie de paz é, pois, esta? Uma que vem de Jerusalém, pois Jerusalém se interpreta como Visão de Paz. Assim, pois, "vejas tu os bens que são de Jerusalém", e isto, "todos os dias da tua vida" — e vejas, não somente teus filhos, mas "os filhos de teus filhos". Que significa: teus filhos? As tuas obras que aqui praticas. Quem são os filhos de teus filhos? Os frutos das tuas obras. Dás esmola: estes são teus filhos; por causa da tua esmola recebes a vida eterna: estes são os filhos de teus filhos. "Vejas tu os filhos de teus filhos"; e haverá "paz sobre Israel" (v. 6), as últimas palavras do Salmo. ...
1. O Salmo que cantamos é breve; mas, assim como está escrito no Evangelho acerca de Zaqueu, que era "pequeno de estatura", mas grande em obras; assim como está escrito daquela viúva que lançou duas moedinhas no gazofilácio, pequeno era o dinheiro, mas grande era a sua caridade; assim também este Salmo, se contares as palavras, é breve; se pesares os sentimentos, é grande. ...Fale o Espírito de Deus, fale-nos Ele, cante-nos Ele; queiramos ou não dançar, cante Ele. Pois, assim como aquele que dança move os membros ao compasso, assim os que dançam segundo o mandamento de Deus obedecem ao som em suas obras. Que diz, pois, o Senhor no Evangelho àqueles que se recusam a fazer isto? "Tocamos-vos flauta, e não dançastes; pranteamos, e não vos lamentastes." Cante Ele, pois; confiamos na misericórdia de Deus, pois haverá aqueles por meio de quem Ele nos consola. Pois os que são obstinados, perseverando na maldade, ainda que ouçam a Palavra de Deus, perturbam diariamente a Igreja com suas ofensas. Destes fala este Salmo; pois assim começa.
2. "Muitas vezes me combateram desde a minha juventude" (v. 1). A Igreja fala daqueles que ela suporta: e é como se se perguntasse: "É agora?" A Igreja é de antiga origem: desde que os santos assim se chamaram, a Igreja tem estado na terra. Em certo tempo a Igreja esteve somente em Abel, e ele foi combatido por seu irmão ímpio e perdido, Caim. Em certo tempo a Igreja esteve somente em Enoque, e este foi transladado dentre os injustos. Em certo tempo a Igreja esteve somente na casa de Noé, e suportou todos os que pereceram no dilúvio, e somente a arca nadou sobre as ondas, e escapou até a terra firme. Em certo tempo a Igreja esteve somente em Abraão, e sabemos o que ele suportou dos ímpios. A Igreja esteve somente no filho de seu irmão, Ló, e em sua casa, em Sodoma, e ele suportou as iniquidades e perversidades de Sodoma, até que Deus o livrou do meio delas. A Igreja também começou a existir no povo de Israel: suportou o Faraó e os egípcios. O número dos santos começou também a existir na Igreja, isto é, no povo de Israel; Moisés e os demais santos suportaram os ímpios judeus, o povo de Israel. Chegamos ao nosso Senhor Jesus Cristo: o Evangelho foi pregado nos Salmos. ...Por esta razão, para que a Igreja não se admire agora, ou para que ninguém se admire na Igreja, quem quiser ser bom membro da Igreja, ouça a própria Igreja, sua Mãe, dizendo-lhe: Não te maravilhes destas coisas, meu filho: "Muitas vezes me combateram desde a minha juventude."
3. "Diga agora Israel." Ela agora parece falar de si mesma: pois não parecia ter começado por si, mas ter respondido. Mas a quem respondeu ela? Àqueles que pensam e dizem: Quão grandes males suportamos, quão grandes são os escândalos que a cada dia se adensam, à medida que os ímpios entram na Igreja, e nós temos de suportá-los? Mas responda a Igreja por meio de alguns, isto é, pela voz dos mais fortes; responda ela às queixas dos fracos, e confirme o estável ao instável, e o adulto ao infante, e diga a Igreja: "Muitas vezes me afligiram desde a minha juventude" (v. 2). Diga isto a Igreja: não o tema. Pois que significa este acréscimo, "desde a minha juventude", depois das palavras "muitas vezes me combateram"? No presente é assaltada a velhice da Igreja: mas não a tema ela. Deixou ela, pois, de chegar à velhice, porque não cessaram de a combater desde a sua juventude? Puderam eles apagá-la? Console-se Israel, console-se a Igreja com os exemplos passados. Por que me combateram? "Porque não puderam prevalecer contra mim."
4. "Sobre as minhas costas edificaram os pecadores; cometeram a sua iniquidade de longe" (v. 3). Por que me combateram? Porque "não puderam prevalecer sobre mim." Que é isto? Não puderam edificar sobre mim. Não consenti com eles no pecado. Pois todo homem ímpio persegue o bom por esta razão: porque o bom não consente com ele no mal. Suponhamos que ele faça algum mal, e o Bispo não o censure: o Bispo é homem bom; suponhamos que o Bispo o censure: o Bispo é homem mau. Suponhamos que ele leve algo consigo, e o homem roubado se cale: é homem bom; fale ele somente e o repreenda, ainda que não recupere os seus bens: é tudo quanto há de mau. Mau é, pois, quem culpa o ladrão, e bom quem rouba! ...Não atentes que é tal homem que te fala: é um homem ímpio por meio de quem Ela te fala; mas a palavra de Deus, que te fala, não é ímpia. Acusa a Deus: acusa-O, se puderes!
5. Acusas um homem de avareza, e ele acusa a Deus, alegando que Ele fez o ouro. Não sejas cobiçoso. E Deus, replicas tu, não deveria fazer o ouro. Isto agora resta: porque não podes refrear os teus maus atos, acusas as boas obras de Deus: desagrada-te o Criador e Arquiteto do mundo. Ele também não deveria fazer o sol; pois muitos contendem acerca das luzes de suas janelas, e se arrastam mutuamente aos tribunais. Oh, se pudéssemos refrear os nossos vícios! pois todas as coisas são boas, porque um Deus bom fez todas as coisas: e as suas obras O louvam, quando a sua bondade é considerada por aquele que tem o espírito de as considerar, o espírito de piedade e sabedoria. ...
6. Não emprestes dinheiro a juros. Acusas a Escritura, que diz: "Aquele que não deu o seu dinheiro à usura." Não fui eu quem escreveu isto: não saiu primeiro da minha boca: ouve a Deus. Ele replica: que o clero não empreste à usura. Talvez aquele que te fala não empreste a juros: mas se assim emprestar, suponhamos que assim empreste; empresta a juros Aquele que fala por meio dele? Se ele faz o que te ordena, e tu não o fazes, tu irás para as chamas, ele para o reino. Se ele não faz o que te ordena, e igualmente a ti pratica más obras, e prega deveres que não cumpre, ambos igualmente ireis para as chamas. O feno arderá; mas "a palavra do Senhor permanece para sempre." ...
7. "O Senhor justo decepará os pescoços dos pecadores" (v. 4). ...Qual de nós não fixa os olhos na terra, como o Publicano, e diz: "Senhor, tem piedade de mim, pecador"? Se, portanto, todos são pecadores, e ninguém se encontra sem pecado, todos devem temer a espada que pende sobre o seu pescoço, porque "o Senhor justo decepará os pescoços dos pecadores." Não julgo, irmãos meus, que seja de todos os pecadores; mas, no membro que Ele fere, marca Ele quais pecadores fere. Pois não se diz: o Senhor justo decepará as mãos dos pecadores, ou os seus pés; mas, porque se entendiam os pecadores soberbos, e todos os soberbos trazem elevados os pescoços, e não somente praticam más obras, mas ainda se recusam a reconhecê-las como tais, e, quando repreendidos, se justificam: ...como está escrito em Jó (falava ele de um pecador ímpio): "corre contra Deus, até mesmo contra o seu pescoço, contra as grossas saliências dos seus escudos"; assim aqui nomeia o pescoço, porque é assim que te exaltas, e não fixas os teus olhos no chão, nem feres o teu peito. Deverias clamar a Ele, como se clama em outro Salmo: "Eu disse: Senhor, tem piedade de mim, porque pequei contra Ti." Como não escolhes dizer isto, mas justificas os teus atos contra a Palavra de Deus, o que se segue na Escritura recai sobre ti: o Senhor justo decepará os pescoços dos pecadores.
8. "Sejam confundidos e voltem atrás quantos têm má vontade contra Sião" (v. 5). Os que odeiam Sião odeiam a Igreja: Sião é a Igreja. E os que entram hipocritamente na Igreja odeiam a Igreja. Os que se recusam a guardar a Palavra de Deus odeiam a Igreja: "Sobre as minhas costas edificaram": que fará a Igreja, senão suportar o fardo até o fim?
9. Mas que diz ele acerca deles? Seguem-se as palavras: "Sejam como a erva dos telhados, que seca antes de ser arrancada" (v. 6). A erva dos telhados é a que cresce sobre os telhados, sobre um teto de telhas: vê-se ao alto, e não tem raiz. Quanto melhor seria se crescesse mais abaixo, e quanto mais alegremente floresceria! Como está, ergue-se mais alto para secar mais depressa. Ainda não foi arrancada, e já secou: ainda não receberam a sentença do juízo de Deus, e já não têm a seiva da floração. Observai as suas obras, e vede que secaram. ...Os ceifeiros virão, mas não enchem com elas os seus feixes. Pois os ceifeiros virão, e recolherão o trigo no celeiro, e atarão o joio em molhos, e o lançarão ao fogo. Assim também é retirada a erva dos telhados, e tudo quanto dela se arranca é lançado ao fogo, porque já secara antes de ser arrancada. O ceifeiro não enche dali as suas mãos. Seguem-se as suas palavras: "Do que o ceifeiro não enche a sua mão, nem o que ata os feixes o seu regaço" (v. 7). E "os ceifeiros são os anjos", diz o Senhor.
10. "De modo que os que passam não digam sequer: A bênção do Senhor seja sobre vós, nós vos abençoamos em nome do Senhor" (v. 8). Pois sabeis, irmãos, que, quando os homens passam junto de outros que trabalham, é costume saudá-los: "A bênção do Senhor seja sobre vós." E este era especialmente o costume da nação judaica. Ninguém passava e via alguém trabalhando no campo, ou na vinha, ou na colheita, ou em coisa semelhante, sem que fosse lícito passar sem uma bênção. ...Quem são os que passam? Aqueles que já passaram daqui para a sua pátria por este caminho, isto é, por esta vida: os Apóstolos foram passantes nesta vida, os Profetas foram passantes. A quem abençoaram os Profetas e os Apóstolos? Àqueles em quem viam a raiz da caridade. Mas aos que encontravam elevados ao alto sobre os seus telhados, e soberbos nas bossas de seus escudos, a estes declararam o que estavam fadados a tornar-se, mas não lhes deram bênção alguma. Vós, pois, que ledes nas Escrituras, encontrai todos aqueles homens perversos que a Igreja suporta, os quais são declarados malditos, pertencem ao Anticristo, pertencem ao diabo, pertencem à palha, pertencem ao joio. ...Mas os que dizem: Ninguém senão Deus santifica, nem é bom homem algum senão pelo dom de Deus; estes abençoam em nome do Senhor, não em nome próprio: porque são amigos do Esposo, recusam-se a ser adúlteros da Esposa.
1. "Das profundezas clamei a Ti, ó Senhor: Senhor, ouve a minha voz" (v. 1). Jonas clamou desde as profundezas, desde o ventre da baleia. Não estava apenas debaixo das ondas, mas também nas entranhas da fera; contudo, aquelas ondas e aquele corpo não impediram que a sua oração chegasse a Deus, e o ventre da fera não pôde conter a voz da sua oração. Ela penetrou todas as coisas, rompeu através de todas as coisas, alcançou os ouvidos de Deus: se é que devemos dizer que, rompendo através de todas as coisas, alcançou os ouvidos de Deus, visto que os ouvidos de Deus estavam no coração daquele que orava. Pois onde não tem Ele Deus presente, aquele cuja voz é fiel? Contudo, devemos também compreender de que profundeza clamamos ao Senhor. Pois esta vida mortal é a nossa profundeza. Quem quer que tenha compreendido estar na profundeza, clama, geme, suspira, até que seja libertado da profundeza e chegue a Ele, que está assentado acima de todas as profundezas. ...Pois estão muito profundos na profundeza os que nem sequer clamam da profundeza. Diz a Escritura: "Quando o ímpio chega ao fundo dos males, despreza." Considerai agora, irmãos, que espécie de profundeza é essa em que Deus é desprezado. Quando cada homem se vê submerso em pecados diários, oprimido, por assim dizer, por montes e pesos de iniquidades: se lhe é dito, Ora a Deus, ele ri. De que maneira? Diz primeiro: Se os crimes desagradassem a Deus, viveria eu? Se Deus atentasse nos assuntos humanos, considerando os grandes crimes que cometi, não apenas viveria, mas prosperaria? Pois isto costuma acontecer aos que estão longe, na profundeza, e prosperam nas suas iniquidades: e tanto mais estão submersos na profundeza quanto mais parecem felizes; pois uma felicidade enganosa é, ela mesma, uma infelicidade maior. ...
2. "Senhor, ouve a minha voz. Estejam atentos os Teus ouvidos à voz da minha súplica" (v. 2). De onde clama ele? Da profundeza. Quem é, pois, o que clama? Um pecador. E com que esperança clama? Porque Aquele que veio para absolver dos pecados deu esperança até ao pecador lá na profundeza. Que se segue, pois, depois destas palavras: "Se Tu, Senhor, observares rigorosamente as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?" (v. 3). Assim, ele revelou de que profundeza clamava. Pois clama debaixo dos pesos e das ondas das suas iniquidades. ...Não disse, Eu não subsistirei: mas, "quem subsistirá?" Pois via que quase toda a vida humana, por todos os lados, era sempre perseguida por seus pecados, que todas as consciências eram acusadas pelos seus próprios pensamentos, que não se podia encontrar um coração puro que confiasse na sua própria justiça.
2. "Senhor, o meu coração não se ensoberbeceu" (v. 1). Ofereceu ele um sacrifício. Donde provamos que ofereceu um sacrifício? Porque a humildade de coração é um sacrifício. ...Se não há sacrifício, não há Sacerdote. Mas se temos um Sumo Sacerdote nos Céus, que intercede junto ao Pai por nós (pois Ele entrou no Santo dos Santos, para além do véu), ...estamos seguros, pois temos um Sacerdote; ofereçamos ali o nosso sacrifício. Consideremos que sacrifício devemos oferecer; pois Deus não Se compraz nos holocaustos, como ouvistes no Salmo. Mas nesse lugar mostra ele a seguir o que oferece: "O sacrifício de Deus é um espírito atribulado: a um coração quebrantado e contrito, ó Deus, Tu não desprezarás."
1. Neste Salmo, é-nos recomendada a humildade daquele que é servo de Deus e fiel, por cuja voz é ele cantado; a qual é todo o corpo de Cristo. Pois já muitas vezes vos temos advertido, amados, que não deve ser tomado como a voz de um só homem que canta, mas de todos os que estão no Corpo de Cristo. E, visto que todos estão no Seu Corpo, é como se um só homem falasse: e ele é um, sendo também muitos. ...Ora, ora no templo de Deus aquele que ora na paz da Igreja, na unidade do Corpo de Cristo; o qual Corpo de Cristo se compõe de muitos que creem em todo o mundo: e por isso aquele que ora no templo é ouvido. Pois ora em espírito e em verdade aquele que ora na paz da Igreja; não naquele templo em que estava a figura. ...
4. "Se eu não tinha pensamentos humildes, mas ergui a minha alma, como aquele que foi arrancado do peito de sua mãe, tal seja a recompensa da minha alma" (v. 2). Parece ter-se, por assim dizer, vinculado a si mesmo por uma maldição: ...como se estivesse para dizer: Suceda-me assim. "Como aquele que foi arrancado do peito materno, seja a recompensa da minha alma." Sabeis que o Apóstolo diz a alguns irmãos fracos: "Alimentei-vos com leite, e não com alimento sólido; pois até agora não podíeis suportá-lo, nem tampouco ainda podeis." Há pessoas fracas que não são aptas para o alimento sólido; querem apoderar-se daquilo que não podem receber: e se algum dia chegam a receber, ou lhes parece a si mesmos que receberam o que não receberam, ensoberbecem-se com isso, e daí se tornam soberbos; parecem a si mesmos sábios. Ora, isto acontece a todos os hereges; os quais, sendo animais e carnais, ao defenderem suas opiniões depravadas, que não conseguiam ver serem falsas, foram lançados fora da Igreja Católica. ...
5. Outra opinião, na verdade, tem sido sustentada, e outro sentido nestas palavras. ...Ficou evidentemente explicado, meus irmãos, onde Deus quer que sejamos humildes, onde elevados. Humildes, para nos precavermos da soberba; elevados, para alcançarmos a sabedoria. Alimenta-te de leite, para que sejas nutrido; sê nutrido, para que cresças; cresce, para que comas pão. Mas quando tiveres começado a comer pão, serás desmamado, isto é, já não terás necessidade de leite, mas de alimento sólido. Isto parece ter querido dizer: "Se eu não tinha pensamentos humildes, mas ergui a minha alma": isto é, se eu não era uma criança de entendimento, era-o na malícia. Neste sentido disse antes: "Senhor, o meu coração não se ensoberbeceu, nem os meus olhos se elevaram; não me exercito em grandes questões, nem em coisas maravilhosas, acima de mim." Eis que, na malícia, sou uma criança. Mas, uma vez que não sou criança no entendimento, "se eu não tinha pensamentos humildes, mas ergui a minha alma", seja minha aquela recompensa que se dá à criança desmamada do peito de sua mãe, para que eu possa enfim comer pão.
6. Também esta interpretação, irmãos, não me desagrada, visto que não milita contra a fé. Contudo, não posso deixar de notar que não se diz apenas: "Como aquele que foi arrancado do leite, tal seja a recompensa da minha alma"; mas com este acréscimo: "Como aquele que foi arrancado do leite quando ao peito de sua mãe, tal seja a recompensa da minha alma." Há aqui algo que me induz a considerá-lo maldição. Pois não é um recém-nascido, mas uma criança já crescida, que se arranca do leite; aquele que é fraco em sua primeiríssima infância, que é a sua verdadeira infância, está ao peito de sua mãe: se porventura for arrancado do leite, perece. Não é sem razão, pois, que se acrescenta: "Ao peito de sua mãe." Pois todos podem ser desmamados pelo crescimento. Àquele que cresce, e assim é arrancado do leite, isso lhe é bom; mas é nocivo para aquele que ainda está ao peito de sua mãe. Devemos, pois, precaver-nos, meus irmãos, e temer, para que ninguém seja arrancado do leite antes do tempo. ...Não queira, pois, erguer a sua alma, quando porventura não é ainda apto para tomar alimento sólido, mas cumpra os preceitos da humildade. Tem em que se exercitar: creia em Cristo, para que possa entender a Cristo. Não pode ver o Verbo, não pode compreender a igualdade do Verbo com o Pai, não pode ainda ver a igualdade do Espírito Santo com o Pai e o Verbo; creia nisso, e sugue-o. Está seguro, porque, quando tiver crescido, comerá aquilo que não podia antes de crescer mamando: e tem um ponto para o qual se estender. Não busques as coisas que são demasiado difíceis para ti, e não perscrutes as coisas que estão acima de tua força; isto é, coisas que ainda não és capaz de entender. E que hei de fazer, replicas tu? Permanecerei assim? "Mas as coisas que o Senhor te ordenou, nelas medita sempre." Que te ordenou o Senhor? Pratica obras de misericórdia, não te apartes da paz da Igreja, não ponhas a tua confiança no homem, não tentes a Deus ansiando por milagres. ...
7. Pois se não vos exaltardes, se não erguerdes o vosso coração ao alto, se não pisardes em grandes questões que estão acima de vós, mas conservardes a humildade, Deus vos revelará aquilo em que pensais de outro modo. Mas se escolherdes defender justamente aquilo em que pensais de outro modo, e o afirmardes com pertinácia, e contra a paz da Igreja, esta maldição que ele descreveu recai sobre vós; quando estiverdes ao peito de vossa mãe, e fordes arrancados do leite, morrereis de fome longe do peito materno. Mas se permanecerdes na paz católica, se porventura pensais de algum modo diferente do que deveis, Deus vo-lo revelará, se fordes humildes. Por quê? Porque "Deus resiste aos soberbos, e dá graça aos humildes."
3. "Senhor, o meu coração não se ensoberbeceu, nem os meus olhos se elevaram ao alto" (v. 1); "não me exercito em grandes questões, nem em coisas maravilhosas que estão acima de mim" (v. 2). Seja isto dito e ouvido mais claramente. Não fui soberbo: não quis ser conhecido entre os homens por poderes maravilhosos; nem busquei nada acima das minhas forças, com que pudesse gloriar-me entre os ignorantes. Assim como aquele Simão, o mago, quis avançar para maravilhas acima de si mesmo, por isso lhe agradava mais o poder dos Apóstolos do que a justiça dos cristãos. ...O que está acima das minhas forças, diz ele, não busquei; não me estendi ali, não quis ser engrandecido ali. Quão profundamente se deve temer esta auto-exaltação na abundância das graças, para que ninguém se orgulhe do dom de Deus, mas antes conserve a humildade, e faça o que está escrito: "Quanto maior fores, tanto mais te humilha, e acharás favor diante do Senhor": quão profundamente se deve temer a soberba no dom de Deus, é necessário incutir-vo-lo repetidas vezes. ...
8. Conclui, pois, este Salmo com este propósito: "Ó Israel, espera no Senhor, desde agora e até à eternidade" (v. 3). Mas a palavra seculum nem sempre significa este mundo, mas por vezes a eternidade; pois a eternidade se entende de dois modos: até à eternidade, isto é, ou para sempre sem fim, ou até chegarmos à eternidade. Como, pois, deve isto entender-se aqui? Até chegarmos à eternidade, esperemos no Senhor Deus; porque, quando tivermos alcançado a eternidade, já não haverá esperança, mas a própria coisa será nossa.
1. Era, na verdade, justo, caríssimos, que antes ouvíssemos o nosso irmão, meu colega, estando ele presente diante de todos nós. E ele, há pouco, não se recusou, mas apenas nos adiou; pois obteve de mim que agora ele me ouvisse a mim, sob a condição de que eu também o ouça a ele, pois na própria caridade todos nós escutamos a Ele, que é o nosso único Mestre nos céus. Atendei, pois, ao Salmo intitulado Cântico dos Degraus, consideravelmente mais longo que os demais sob o mesmo título. Não nos demoremos, portanto, senão onde a necessidade nos obrigar, para que possamos, se o Senhor permitir, explicá-lo por inteiro. Pois também vós não deveis ouvir tudo como homens não instruídos; deveis, em certa medida, ajudar-nos com o que já ouvistes anteriormente, de modo que não seja necessário declarar-vos tudo como se fosse novo.
1. Este é um Salmo breve, mas bem conhecido e citado. "Eis quão bom e quão agradável é que os irmãos habitem em união" (v. 1). Tão doce é este som, que até mesmo os que não conhecem o Saltério cantam este versículo. ...
2. Pois estas mesmas palavras do Saltério, este doce som, esta melodia de mel, tanto do sentido como do hino, geraram até mesmo os Mosteiros. Por este som foram movidos os irmãos que desejavam habitar juntos. Este versículo foi a sua trombeta. Ressoou por toda a terra, e os que haviam sido divididos foram reunidos. O chamado de Deus, o chamado do Espírito Santo, o chamado dos Profetas, não foram ouvidos em Judá, mas foram ouvidos por todo o mundo. Surdos a esse som foram aqueles em meio aos quais era cantado; achados de ouvidos abertos foram aqueles de quem se disse: "Vê-lo-ão aqueles a quem não foi anunciado; entenderão aqueles que não ouviram." Contudo, caríssimos, se refletirmos, a própria bênção brotou daquele muro da circuncisão. Pois acaso pereceram todos os judeus? E de onde vieram os Apóstolos, os filhos dos Profetas, os filhos dos exilados? Fala como a quem já sabe. De onde vieram aqueles quinhentos, que viram o Senhor depois de sua ressurreição, os quais o Apóstolo Paulo recorda? De onde vieram aqueles cento e vinte, que estavam juntos num só lugar depois da ressurreição do Senhor e de sua ascensão aos céus, sobre os quais, reunidos num só lugar, desceu o Espírito Santo no dia de Pentecostes, enviado do céu, enviado, tal como fora prometido? Todos eram dali, e foram eles os primeiros a habitar juntos em união; os quais venderam tudo o que tinham, e depositaram o preço de seus bens aos pés dos Apóstolos, como se lê nos Atos dos Apóstolos. E fazia-se a distribuição a cada um conforme a sua necessidade, e ninguém chamava a nada seu, mas tinham tudo em comum. E que é "juntos em união"? Tinham, diz ele, um só ânimo e um só coração voltados para Deus. Assim foram eles os primeiros a ouvir: Eis quão bom e quão agradável é que os irmãos habitem juntos. Foram os primeiros a ouvi-lo, mas não o ouviram sozinhos. ...
3. Das palavras deste Salmo foi tomado o nome de Monges, para que ninguém vos censure a vós, que sois católicos, por causa desse nome. Quando vós, com justiça, censurais os hereges por causa dos Circelliões, para que se salvem pela vergonha, eles vos censuram por causa dos Monges. ...
4. Além disso, amados, há os que são falsos Monges, e conhecemos homens desse tipo; mas a piedosa fraternidade não se anula por causa daqueles que professam ser o que não são. Há falsos Monges, assim como há falsos homens entre o Clero, e entre os fiéis. ...
5. Visto que o Salmo diz: "Eis quão bom e quão agradável é que os irmãos habitem juntos em um", por que então não os chamaríamos de Monges? Pois Monos é um. Não um de qualquer maneira, pois um homem no meio de uma multidão é um, mas, embora possa ser chamado um juntamente com outros, não pode ser Monos, isto é, sozinho, pois Monos significa "um só". Aqueles, pois, que assim vivem juntos, de modo a formar um só homem, de sorte que verdadeiramente possuam o que está escrito, "um só ânimo e um só coração", muitos corpos, mas não muitos ânimos; muitos corpos, mas não muitos corações; podem com razão ser chamados Monos, isto é, um só. ...
6. Diga-nos o Salmo como eles são. "Como o óleo sobre a cabeça, que desceu sobre a barba, a barba de Aarão, que desceu até à orla de sua veste" (v. 2). Que era Aarão? Um sacerdote. Quem é sacerdote, senão aquele único Sacerdote, que entrou no Santo dos Santos? Quem é esse sacerdote, senão Ele, que foi ao mesmo tempo Vítima e Sacerdote? senão Ele que, não encontrando nada de puro no mundo para oferecer, ofereceu-se a Si mesmo? O óleo está sobre a sua cabeça, porque Cristo é um todo com a Igreja, mas o óleo procede da cabeça. Nossa Cabeça é Cristo crucificado e sepultado; Ele ressuscitou, e subiu aos céus; e o Espírito Santo veio da cabeça. Para onde? Para a barba. A barba significa os corajosos; a barba distingue os homens já crescidos, os fervorosos, os ativos, os vigorosos. De modo que, ao descrevê-los, dizemos: é um homem barbado. Assim, aquele óleo desceu primeiro sobre os Apóstolos, desceu sobre aqueles que suportaram os primeiros ataques do mundo, e por isso o Espírito Santo desceu sobre eles. Pois os que primeiro começaram a habitar juntos em união sofreram perseguição; mas, porque o óleo desceu até à barba, sofreram, mas não foram vencidos. ...
7. "Como o orvalho de Hermon, que caiu sobre os montes de Sião" (v. 3). Ele quer que se entenda, meus irmãos, que é pela graça de Deus que os irmãos habitam em unidade. ...
8. Mas deveis saber o que é Hermon. É um monte muito distante de Jerusalém, isto é, de Sião. E assim é estranho que diga desta maneira: Como o orvalho de Hermon, que caiu sobre os montes de Sião, visto que o monte Hermon está muito distante de Jerusalém, pois se diz que fica além do Jordão. Busquemos, pois, alguma interpretação de Hermon. A palavra é hebraica, e aprendemos seu significado com aqueles que conhecem essa língua. Diz-se que Hermon significa uma luz posta em lugar elevado. Pois de Cristo vem o orvalho. Nenhuma luz está posta em lugar elevado, senão Cristo. Como está Ele posto no alto? Primeiro na cruz, depois no céu. Posto no alto na cruz quando foi humilhado; humilhado, mas Sua humilhação não pôde deixar de ser elevada. O ministério do homem ia minguando cada vez mais, como foi significado em João; o ministério de Deus em nosso Senhor Jesus Cristo ia crescendo, como se mostrou em seus nascimentos. Aquele nasceu, como demonstra a tradição da Igreja, em 24 de junho, quando os dias começam a diminuir. O Senhor nasceu em 25 de dezembro, quando os dias começam a crescer. Aqui o próprio João confessa: "Convém que Ele cresça, e que eu diminua." E a paixão de cada um mostra isto. O Senhor foi exaltado na cruz; João foi diminuído pela decapitação. Assim, a luz posta no alto é Cristo, de onde vem o orvalho de Hermon. ...Mas se ele tiver o orvalho de Hermon, que caiu sobre o monte de Sião, está quieto, pacífico, humilde, submisso, derramando oração em lugar de murmuração. Pois os murmuradores são admiravelmente descritos em certa passagem das Escrituras: "O coração do insensato é como a roda de um carro." Que significa "o coração do insensato é como a roda de um carro"? Ela carrega feno e range. A roda de um carro não pode deixar de ranger. Assim há muitos irmãos que não habitam juntos, senão no corpo. Mas quem são os que habitam juntos? Aqueles de quem se diz: "E tinham um só ânimo e um só coração para com Deus."
9. "Porque ali o Senhor ordenou a bênção." Onde a ordenou? Entre os irmãos que habitam juntos. Ali determinou a bênção, ali os que habitam com um só coração abençoam a Deus. Pois não abençoas a Deus na divisão do coração. ...Estás angustiado na terra? Parte, tem tua morada no céu. Como poderei eu, dirás, homem revestido de carne, escravizado à carne, ter minha morada no céu? Vai primeiro em coração, aonde hás de seguir em corpo. Não ouças "Elevai os corações" com ouvido surdo. Guarda teu coração elevado, e ninguém te angustiará no céu.
1. "Eis agora, bendizei ao Senhor, todos vós, servos do Senhor" (v. 1), "que estais na casa do Senhor, nos átrios da casa de nosso Deus" (v. 2). Por que acrescentou "nos átrios"? Átrios significam os espaços mais amplos de uma casa. Aquele que está nos átrios não está angustiado, não está confinado, de certo modo está dilatado. Permanece nesta dilatação, e poderás amar teu inimigo, porque não amas as coisas nas quais um inimigo poderia angustiar-te. Como podes ser entendido como estando nos átrios? Está na caridade, e estarás nos átrios. A largueza está na caridade, a estreiteza no ódio.
2. "Levantai as vossas mãos durante a noite no santuário, e bendizei ao Senhor" (v. 2). É fácil bendizer de dia. Que é "de dia"? Na prosperidade. Pois a noite é coisa triste, o dia alegre. Quando te vai bem, bendizes ao Senhor. Teu filho estava doente, e é curado, bendizes ao Senhor. Teu filho estava doente, talvez tenhas buscado um astrólogo, um adivinho, talvez tenha vindo uma maldição contra o Senhor, não de tua língua, mas de teus atos, de teus atos e de tua vida. Não te glories, porque bendizes com a língua, se amaldiçoas com a vida. Por isso, bendizei ao Senhor. Quando? De noite. Quando bendisse Jó? Quando era uma noite triste. Tudo lhe foi tirado quanto possuía; foram tirados os filhos para quem seus bens estavam guardados. Quão triste era sua noite! Vejamos, porém, se ele não bendiz na noite. "O Senhor deu, o Senhor tirou; foi como o Senhor quis; bendito seja o nome do Senhor." E negra era a noite. ...
3. "O Senhor te abençoe desde Sião, Ele que fez o céu e a terra" (v. 3). Ele exorta a muitos a bendizer, e Ele mesmo abençoa a um só, porque de muitos faz um só, visto que "é bom e agradável que os irmãos habitem juntos em um só". É número plural, irmãos, e contudo singular, habitar juntos em um só. Nenhum de vós diga: Isto não se aplica a mim. Sabes tu de quem ele fala: "o Senhor te abençoe desde Sião"? Ele abençoou a um só. Sê um só, e a bênção virá a ti.
1. Muito agradável nos deve ser, e devemos alegrar-nos porque é agradável, aquilo a que este Salmo nos exorta. Pois diz: "Louvai o nome do Senhor" (v. 1). E logo acrescenta a razão pela qual é justo louvar o nome do Senhor. "Louvai ao Senhor, ó servos." Que coisa mais justa? Que mais digna? Que mais agradecida? ...Pois se Ele ensina a seus próprios servos, que dEle bem mereceram, os pregadores de sua Palavra, os pastores de sua Igreja, os adoradores de seu nome, os obedientes a seu mandamento, que em sua própria consciência possuam a doçura de sua vida, para que não se corrompam pelo louvor nem se desanimem pela censura dos homens; quanto mais Ele está acima de tudo, o Imutável, que ensina estas coisas, nem maior se O louvas, nem menor se O censuras. ...Pois nada fareis fora de propósito, louvando a vosso Senhor, como servos. E se houvésseis de ser para sempre apenas servos, deveríeis louvar ao Senhor; quanto mais deveis vós, servos, louvar ao Senhor, para que doravante alcanceis o privilégio de filhos?
2. ...Portanto, "Vós que estais na casa do Senhor, nos átrios da casa de nosso Deus, louvai ao Senhor" (v. 2). Sede agradecidos; estáveis fora, e estais dentro. Já que estais, pois, de pé, é coisa pequena para vós pensar onde Ele deve ser louvado, Ele que vos ergueu quando estáveis prostrados, e vos fez estar de pé em sua casa, para conhecê-lO e louvá-lO? É pequeno benefício estarmos de pé na casa do Senhor? ...Se alguém pensar nisto, e não for ingrato, desprezará totalmente a si mesmo em comparação com o amor de seu Senhor, que fez por ele coisas tão grandes. E, uma vez que nada tem com que retribuir a Deus por benefícios tão grandes, que lhe resta senão dar-Lhe graças, não retribuir-Lhe? Pertence ao próprio ato de ação de graças "receber o cálice do Senhor, e invocar seu nome." Pois que pode o servo retribuir ao Senhor por tudo o que Ele lhe deu?
3. Que razão darei para que O louveis? "Porque o Senhor é bom" (v. 3). Brevemente, numa só palavra, se explica aqui o louvor do Senhor nosso Deus. "O Senhor é bom"; bom, não da mesma maneira que são boas as coisas que Ele aqui fez. Pois Deus fez todas as coisas muito boas; não somente boas, mas também muito boas. Fez o céu e a terra, e todas as coisas que neles há, boas, e as fez muito boas. Se fez todas estas coisas boas, de que qualidade é Aquele que as fez? ...
4. Até onde podemos falar de sua bondade? Quem pode conceber em seu coração, ou compreender quão bom é o Senhor? Voltemo-nos, porém, a nós mesmos, e nEle reconheçamos, e louvemos ao Autor em suas obras, porque não somos capazes de contemplá-lO a Ele mesmo. E na esperança de que possamos vir a contemplá-lO, quando nosso coração tiver sido purificado pela fé, para que doravante se alegre na Verdade; agora, como Ele não pode ser visto por nós, olhemos para suas obras, para que não vivamos sem louvá-lO. Por isso disse: "Louvai ao Senhor, porque Ele é bom; cantai louvores a seu Nome, porque Ele é doce. ...Ele é Mediador, e por isso é doce. Que é mais doce que o alimento dos anjos? Como pode Deus não ser doce, se o homem comeu o alimento dos anjos? Pois homens e anjos não vivem de manjar diferente. Aquilo é a verdade, aquilo é a sabedoria, aquilo é a bondade de Deus, mas não podes fruí-la do mesmo modo que os anjos. ...Para que o homem pudesse comer o alimento dos anjos, o Criador dos anjos se fez homem. Se provastes, cantai louvores; se provastes quão doce é o Senhor, cantai louvores; se aquilo que provastes tem bom sabor, louvai-o; quem é tão ingrato com o cozinheiro ou o provedor, que não retribua com ações de graças, louvando o que prova, se algum manjar lhe agrada? Se não nos calamos em tais ocasiões, calar-nos-emos acerca dAquele que nos deu todas as coisas? ...
5. "Porque o Senhor escolheu para Si a Jacó, a Israel para sua possessão" (v. 4). ...Não se exalte, pois, Jacó, não se glorie, nem atribua isto a seus próprios méritos. Foi conhecido antes, predestinado antes, eleito antes, não eleito por seus próprios méritos, mas encontrado, e dotado de vida pela graça de Deus. Assim é com todos os gentios; pois de que modo mereceu a oliveira brava ser enxertada, vinda da amargura de suas bagas, da esterilidade de sua rudeza? Era madeira do deserto, não do campo do Senhor, e contudo Ele, por sua misericórdia, enxertou a oliveira brava na (verdadeira) oliveira. Mas até então a oliveira brava não estava enxertada.
6. ..."Porque", diz ele, "eu sei que o Senhor é grande, e o nosso Deus está acima de todos os deuses" (v. 5). Se lhe disséssemos: pedimos-te, explica-nos a Sua grandeza; não nos responderia ele, porventura: Aquele que eu vejo não é assim tão grande, se puder ser por mim explicado. Volte-se, pois, para as Suas obras, e no-las conte. Guarde ele em sua consciência a grandeza de Deus, a qual viu, a qual confiou à nossa fé, até onde não pôde conduzir os nossos olhos, e enumere algumas das coisas que o Senhor fez aqui; para que a nós, que não podemos ver a Sua grandeza como ele a viu, Ele se torne doce por meio das Suas obras, que podemos compreender. ...
7. "Tudo quanto o Senhor quis, Ele o fez no céu e na terra, no mar e em todos os seus abismos" (v. 6). Quem pode compreender estas coisas? Quem pode enumerar as obras do Senhor no céu e na terra, no mar e em todos os abismos? Contudo, ainda que não possamos compreendê-las todas, devemos crê-las e retê-las sem hesitação, porque toda criatura que há no céu, toda a que há na terra, toda a que há no mar e em todos os abismos, foi feita pelo Senhor. ...
8. "Fazendo subir as nuvens desde as extremidades da terra" (v. 7). Vemos estas obras de Deus na Sua criação. Pois as nuvens vêm desde as extremidades da terra até ao seu meio, e chovem; tu não perscrutas donde se levantam. Por isso o profeta significa isto, "desde as extremidades da terra", seja do fundo, seja da circunferência dos confins da terra; donde quer que Ele queira, dali faz subir as nuvens, somente da terra. "Fez os relâmpagos em chuva." Pois os relâmpagos sem chuva te aterrariam, e nada te dariam. "Faz os relâmpagos em chuva." Relampeja, e tu tremes; chove, e tu te alegras. "Fez os relâmpagos em chuva." Aquele que te aterrorizou, esse mesmo faz que te alegres. "Que tira os ventos dos Seus tesouros"; ocultas estão as suas causas, tu não sabes donde vêm. Quando o vento sopra, tu o sentes; porém, por que sopra, ou de que tesouro da Sua sabedoria é trazido, não o sabes; e, contudo, deves a Deus o culto da fé, pois não sopraria, se não o tivesse ordenado Aquele que o fez, se não o tivesse produzido Aquele que o criou.
9. Vemos, pois, estas coisas naquela Sua obra; louvamos, admiramos, bendizemos a Deus; vejamos agora o que Ele fez entre os homens, em favor do Seu povo. "Que feriu os primogênitos do Egito" (v. 8). Mas, ao lado disso, contam-se aqueles feitos divinos que poderias amar; não se contam os que poderias temer. Atende, e vê que também quando Ele Se ira, faz o que quer. "Desde o homem até ao animal. Enviou sinais e prodígios no meio de ti, ó Egito!" (v. 9). Vós sabeis, tendes lido o que a mão do Senhor fez por meio de Moisés no Egito, para esmagar e derrubar os soberbos egípcios, "sobre Faraó e sobre todos os seus servos". Pouco fez Ele no Egito: que fez depois que o Seu povo foi dali conduzido? "Que feriu muitas nações" (v. 10), que possuíam aquela terra que Deus quis dar ao Seu povo. "E matou reis poderosos: Seon, rei dos amorreus, e Og, rei de Basã, e todos os reinos de Canaã" (v. 11). Todas estas coisas que o Salmo relata singelamente, lemo-las igualmente noutros livros do Senhor, e ali a mão do Senhor é grande. Quando vires o que foi feito aos ímpios, cuida para que não te suceda o mesmo. ...Mas quando o homem bom vê o que o ímpio padeceu, purifique-se de toda iniquidade, para que não caia em castigo semelhante, em semelhante punição. Já compreendestes plenamente estas coisas. Que fez então Deus? Expulsou os ímpios, "e deu a sua terra em herança, herança a Israel, Seu servo" (v. 12).
10. Segue-se então o alto clamor do Seu louvor. "Ó Senhor, o Teu Nome é para sempre" (v. 13), depois de todas estas coisas que fizeste. Pois que vejo eu que Tu fizeste? Contemplo a Tua criação, que fizeste no céu; contemplo esta parte inferior, onde habitamos, e aqui vejo os Teus dons das nuvens, dos ventos e da chuva. Considero o Teu povo; Tu o conduziste da casa da servidão, e fizeste sinais e prodígios sobre os seus inimigos. Puniste os que lhes causaram aflição, expulsaste os ímpios da sua terra, mataste os seus reis, deste a sua terra ao Teu povo: vi todas estas coisas, e, cheio de alegria, disse: "Senhor, o Teu Nome é para sempre". ...
11. Todas estas coisas, pois, Deus as operou então no corpo, quando os nossos pais foram conduzidos para fora da terra do Egito; agora as opera no espírito. Nem a Sua Mão cessa até ao fim. Não julgueis, portanto, que estes grandes feitos de Deus se acabaram então e cessaram. "O Teu Nome, ó Senhor", diz ele, "é para sempre". Isto é, a Tua misericórdia não cessa, a Tua mão não cessa nunca de fazer estas coisas, as quais então anunciaste de antemão em figura. "Mas foram escritas para admoestação nossa, sobre quem chegou o fim dos séculos." Uma geração e outra geração: a geração pela qual somos feitos fiéis, e renascemos pelo batismo; a geração pela qual haveremos de ressuscitar dos mortos, e viveremos com os Anjos para sempre. A Tua Memória, ó Senhor, está acima desta geração, e acima daquela; pois nem agora Ele Se esquece de nos chamar, nem então Se esquecerá de nos coroar.
12. "O Senhor julgou o Seu povo, e será invocado entre os Seus servos" (v. 14). Já julgou Ele o povo. Salvo o juízo final, o povo dos judeus está julgado. Que quer dizer "julgado"? Os justos são tomados, os injustos são deixados. Mas, se eu minto, ou se se julga que minto, por ter dito que já está julgado, ouvi o Senhor dizendo: "Eu vim a este mundo para juízo, para que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegados." Os soberbos são cegados, os humildes são iluminados. Por isso, "julgou o Seu povo". Isaías falou deste juízo. "E agora, ó casa de Jacó, vinde, andemos na luz do Senhor." Isto é pouco; mas o que se segue? "Pois Ele rejeitou o Seu povo, a casa de Israel." A casa de Jacó é a casa de Israel; pois aquele que é Jacó, esse mesmo é Israel. ...Portanto, Deus julgou o Seu povo, separando os maus dos bons; isto é, "será invocado entre os Seus servos". Por quem? Pelos gentios. Pois quão vastas são as nações que entraram pela fé! Quantos habitantes dos campos e dos ermos vêm agora a nós? Vêm dali em número que ninguém pode contar; querem crer. Dizemos-lhes: Que quereis? Respondem: Conhecer a glória de Deus. Crede, meus irmãos, que nos admiramos e nos alegramos com tal pretensão destas gentes rústicas. Vêm eu não sei donde, movidos por não sei quem. Como direi "não sei por quem"? Bem sei por quem, pois Ele diz: "Ninguém vem a Mim, senão aquele a quem o Pai atrai." Vêm subitamente dos bosques, do deserto, dos montes mais distantes e elevados, para a Igreja; e muitos deles, ou antes, quase todos, falam desta mesma linguagem, de modo que vemos, em verdade, que Deus os ensina interiormente. Cumpre-se a profecia da Escritura, quando diz: "E todos serão ensinados por Deus." Dizemos-lhes: Que anelais? E respondem: Ver a glória de Deus. "Pois todos pecaram, e carecem da glória de Deus." Creem, são santificados, querem que se lhes ordenem clérigos. Não se cumpre, "e será invocado entre os Seus servos"?
13. Por fim, depois de toda esta disposição e economia, o Espírito de Deus volta-Se a reprovar e a ridicularizar aqueles ídolos, que agora são ridicularizados pelos seus próprios adoradores. "Os ídolos das gentes são prata e ouro" (v. 15). Ora, tendo Deus feito todas estas coisas, Ele que fez tudo quanto quis no céu e na terra, que pode ser aquilo que o homem faz, senão objeto de escárnio, e não de adoração? Acaso estava Ele para falar dos "ídolos das gentes", para que todos os desprezássemos? estava Ele para falar dos ídolos dos pagãos, pedras e madeira, gesso e barro? Não falo destes, são materiais vis. Falo daquilo que eles especialmente amam, daquilo que eles especialmente honram. "Os ídolos das gentes são prata e ouro, obra das mãos dos homens." Certamente é ouro, certamente é prata: porque a prata reluz, e o ouro reluz, têm eles, por isso, olhos, ou veem? ...Mas, sendo estas coisas insensatas, por que fazeis de prata e de ouro deuses para os homens? Não vedes que os deuses que fazeis não veem? "Têm boca, e não falarão; têm olhos, e não verão" (v. 16); "têm ouvidos, e não ouvirão; e não há sopro algum em sua boca" (v. 17); "têm narinas, e não cheirarão; têm mãos, e não obrarão; têm pés, e não andarão." Todas estas coisas pôde o carpinteiro, o ourives da prata, o ourives do ouro fazer: olhos, ouvidos, narinas, boca, mãos e pés; mas não pôde dar aos olhos a vista, nem aos ouvidos a audição, nem à boca a fala, nem às narinas o olfato, nem às mãos o movimento, nem aos pés o andar.
14. E tu, homem, ris decerto do que fizeste, se sabes por quem foste feito. Mas dos que não sabem, que se diz? "Sejam semelhantes a eles todos os que os fazem, e todos os que neles confiam" (v. 18). E crede, irmãos, que há uma semelhança com estes ídolos, expressa não na sua carne, mas no seu homem interior. Pois "têm ouvidos, e não ouvem". Deus, na verdade, os chama: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." Têm olhos, e não veem, porque têm os olhos do corpo, e não os olhos da fé. Por fim, esta profecia se cumpre entre todas as nações. ...Não se cumpre? Não se vê, como está escrito? E os que permanecem têm olhos, e não veem; têm narinas, e não cheiram. Não percebem aquele aroma. "Somos bom odor de Cristo", como diz o apóstolo em toda parte. De que aproveita terem narinas, e não sentirem aquele tão suave odor de Cristo? Verdadeiramente se faz isto neles, e verdadeiramente se diz deles: "Todos os que os fazem", etc.
15. Mas diariamente os homens creem por meio dos milagres de Cristo, nosso Senhor; diariamente os olhos dos cegos, os ouvidos dos surdos são abertos, as narinas dos insensatos são insufladas, as línguas dos mudos são desatadas, as mãos dos paralíticos são fortalecidas, os pés dos coxos são guiados; filhos de Abraão são suscitados destas pedras, a todos os quais se diz: "Bendizei ao Senhor, casa de Israel" (v. 19). Todos são filhos de Abraão; e se filhos de Abraão são suscitados destas pedras, é manifesto que são antes a casa de Israel aqueles que pertencem à casa de Israel, à semente de Abraão, não segundo a carne, mas segundo a fé. Mas ainda que se conceda que isto se diz daquela casa, e que se entenda o povo de Israel, foi dali que os Apóstolos e milhares de circuncisos creram? "Bendizei ao Senhor, casa de Arão. Bendizei ao Senhor, casa de Levi" (v. 20). Bendizei ao Senhor, ó nações, isto é, a "casa de Israel" em geral; bendizei-O, ó chefes, isto é, a "casa de Arão"; bendizei-O, ó servos, isto é, a "casa de Levi". E quanto às demais nações? "Vós que temeis ao Senhor, bendizei ao Senhor."
16. Digamos também a uma só voz o que se segue: "Bendito seja o Senhor desde Sião, que habita em Jerusalém" (v. 21). Desde Sião é também Jerusalém. Sião significa "vigilância", Jerusalém "visão de paz". Em qual Jerusalém habitará Ele agora? Naquela que caiu? Não, mas naquela que é nossa mãe, que está nos céus, da qual se diz: "Mais filhos tem a desolada do que a que tem marido." Pois agora o Senhor vem desde Sião, porque vigiamos por quando Ele há de vir; agora, enquanto vivemos na esperança, estamos em Sião. Quando nosso caminho se acabar, habitaremos naquela cidade que jamais cairá, porque o Senhor habita nela e a guarda, a qual é a visão de paz, a Jerusalém eterna; para cujo louvor, meus irmãos, a linguagem não basta; onde não encontraremos inimigo algum, nem dentro da Igreja, nem fora da Igreja, nem em nossa carne, nem em nossos pensamentos. Pois "a morte será tragada pela vitória", e seremos livres para ver a Deus em paz eterna, feitos cidadãos de Jerusalém, a cidade de Deus.
1. "Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque a sua misericórdia é para sempre" (v. 1). Este Salmo contém o louvor de Deus, e todos os seus versículos terminam do mesmo modo. Por isso, ainda que muitas coisas se relatem aqui em louvor de Deus, é todavia a sua misericórdia que mais se enaltece; pois sem este claro enaltecimento, aquele de quem o Espírito Santo se serviu para proferir este Salmo não quis que verso algum se concluísse. Ainda que, depois do juízo pelo qual, ao fim do mundo, hão de ser julgados os vivos e os mortos, sendo os justos enviados para a vida eterna e os injustos para o fogo eterno, não haverá depois aqueles a quem Deus há de ter misericórdia, pode-se, com razão, entender que a sua misericórdia futura é para sempre, aquela que Ele concede aos seus santos e fiéis, não porque estes hão de ser miseráveis para sempre, e por isso hão de precisar para sempre da sua misericórdia, mas porque a própria bem-aventurança, que Ele misericordiosamente concede aos miseráveis, para que deixem de ser miseráveis e comecem a ser felizes, não terá fim, e por isso "a sua misericórdia é para sempre". Pois que de injustos venhamos a ser justos, de enfermos venhamos a ser sãos, de mortos venhamos a ser vivos, de mortais venhamos a ser imortais, de infelizes venhamos a ser felizes, é obra da sua misericórdia. Mas isto que havemos de ser, sê-lo-emos para sempre, e por isso "a sua misericórdia é para sempre". Por isso, "dai graças ao Senhor"; isto é, louvai ao Senhor dando-Lhe graças, "porque Ele é bom": e não é nenhum bem temporal que ganharás desta confissão, pois "a sua misericórdia é para sempre"; isto é, o benefício que Ele misericordiosamente te concede é para sempre.
2. Segue-se então: "Dai graças ao Deus dos deuses, porque a sua misericórdia é para sempre" (v. 2). "Dai graças ao Senhor dos senhores, porque a sua misericórdia é para sempre" (v. 3). Bem podemos perguntar: Quem são estes deuses e senhores, dos quais Aquele que é o verdadeiro Deus é Deus e Senhor? E encontramos escrito em outro Salmo que até os homens são chamados deuses. O próprio Senhor toma nota deste testemunho no Evangelho, dizendo: "Não está escrito na vossa Lei: Eu disse, sois deuses?" ...Não é, pois, porque todos são bons, mas porque "a palavra de Deus veio a eles", que foram chamados deuses. Pois se fosse porque todos são bons, Ele não os distinguiria assim entre si. Ele diz: "Ele julga no meio dos deuses." Segue-se então: "Até quando julgareis injustamente!" e o resto, o que certamente não diz a todos, mas a alguns, porque o diz distinguindo, e contudo distingue entre os deuses.
3. Mas se pergunta: se os homens a quem veio a palavra do Senhor são chamados deuses, hão de ser os Anjos também chamados deuses, quando a maior recompensa que se promete aos homens justos e santos é serem iguais aos Anjos? Nas Escrituras não sei se se pode, ao menos facilmente, encontrar que os Anjos sejam abertamente chamados deuses; mas quando se disse do Senhor Deus: "Ele é terrível sobre todos os deuses", acrescenta, como que a modo de exposição do que diz, isto: "porque os deuses dos gentios são demônios", para que entendêssemos o que se exprimira no hebraico: "os deuses das gentes são ídolos", querendo antes significar os demônios que habitam nos ídolos. Pois quanto às imagens, que em grego se chamam ídolos, nome que agora usamos também em latim, elas têm olhos e não veem, e todas as demais coisas que delas se dizem, porque de todo carecem de sentido; por isso não podem atemorizar-se, pois nada que carece de sentido pode temer. Como se poderia então dizer do Senhor: "Ele é terrível sobre todos os deuses, porque os deuses dos gentios são ídolos", se não se entendesse que os demônios, que podem ser aterrorizados, estão nessas imagens? Donde também o Apóstolo diz: "Sabemos que o ídolo nada é." Isto se refere à sua matéria terrena e insensível. Mas para que ninguém pense que não há natureza viva e sensível alguma que se compraz nos sacrifícios dos gentios, acrescenta: "Mas o que os gentios sacrificam, sacrificam aos demônios, e não a Deus; e não quero que vos torneis participantes dos demônios." Se, portanto, nunca encontramos nas palavras divinas que os santos Anjos sejam chamados deuses, penso que a melhor razão é que os homens não sejam levados por este nome a prestar aquele ministério e serviço de religião (que em grego se chama leitourgia ou latria) aos santos Anjos, o qual tampouco o teriam prestado a homem algum, senão àquele Deus que é o Deus deles próprios e dos homens. Por isso são muito mais corretamente chamados Anjos, o que em latim é Nuntii, para que, pelo nome da sua função, e não da sua substância, entendamos claramente que eles querem que adoremos o Deus que anunciam. Toda esta questão o Apóstolo brevemente a expôs quando diz: "Pois ainda que haja os que se chamam deuses, quer no céu, quer na terra, como há muitos deuses e muitos senhores; para nós, todavia, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós para Ele; e um só Senhor Jesus Cristo, por quem são todas as coisas, e nós por Ele."
4. Demos, pois, "graças ao Deus dos deuses, e ao Senhor dos senhores, porque a sua misericórdia" etc. "Que só Ele fez maravilhas" (v. 4). Assim como na última parte de cada versículo está escrito "porque a sua misericórdia é para sempre", assim devemos entender no princípio de cada um, ainda que não esteja escrito, "Dai graças". O que, de fato, é bastante claro no grego. Assim seria também em latim, se os nossos tradutores tivessem podido servir-se daquela expressão. O que, de fato, poderiam ter feito neste versículo, se tivessem dito: "A Ele que faz maravilhas." Pois onde temos "que fez maravilhas", o grego tem tp poihqanti, onde é necessário entender "dai graças". E quisera eu que tivessem acrescentado o pronome, e dito a Ele "que fez", ou a Ele "que faz", ou a Ele "que firmou"; porque então facilmente se poderia entender "demos graças". Pois, do modo como agora está tão obscuramente traduzido, quem não conhece, ou não se importa de examinar um manuscrito grego, poderá pensar que "que fez os céus, que firmou a terra, que fez os luminares, porque a sua misericórdia é para sempre" foi dito assim porque Ele fez estas coisas por esta razão, "porque a sua misericórdia é para sempre": quando, na verdade, é àqueles que Ele livrou da miséria que pertence a sua Misericórdia; mas não devemos crer que é por sua Misericórdia que Ele faz o céu, a terra e os luminares, pois estes são sinais da sua Bondade, Ele que criou todas as coisas muito boas. Pois criou todas as coisas para que tivessem o seu ser; mas é obra da sua Misericórdia purificar-nos dos nossos pecados e livrar-nos da miséria eterna. E assim o Salmo assim nos exorta: "Dai graças ao Deus dos deuses, dai graças ao Senhor dos senhores." Dai graças a Ele, "que só Ele faz grandes maravilhas"; dai graças a Ele, "que pela sua sabedoria fez os céus"; dai graças a Ele, "que estendeu a terra sobre as águas"; dai graças a Ele, "que só Ele fez as grandes luzes". Mas por que devemos louvá-Lo, Ele o estabelece ao fim de todos os versículos: "porque a sua misericórdia é para sempre".
1. ...Mas hoje cantamos: "Junto aos rios da Babilônia nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião" (v. 1). ...
2. Observai "as águas da Babilônia". "As águas da Babilônia" são todas as coisas que aqui se amam e passam. Um homem, por exemplo, ama praticar a agricultura, enriquecer-se por meio dela, nela ocupar a sua mente, dela tirar prazer: observe ele o desfecho, e veja que aquilo que amou não é fundamento de Jerusalém, mas corrente da Babilônia. Outro diz: É coisa grandiosa ser soldado: todos os lavradores temem os que são soldados. ...
3. Mas então outros cidadãos da santa Jerusalém, compreendendo o seu cativeiro, observam como os desejos naturais e as várias cobiças dos homens os arrastam e arremessam para cá e para lá, e os impelem ao mar; veem isto, e não se lançam eles mesmos nas águas da Babilônia, mas "se assentam e choram", quer por aqueles que por elas são arrebatados, quer por si mesmos, cujos merecimentos os colocaram na Babilônia, mas assentando-se, isto é, humilhando-se. Ó santa Sião, onde tudo permanece firme e nada flui! Quem nos precipitou nisto? Por que deixamos o teu Fundador e a tua sociedade? Eis que, postos onde todas as coisas fluem e se escoam, apenas um, se conseguir agarrar-se à árvore, será arrancado da corrente e escapará. Humilhando-nos, pois, em nosso cativeiro, "assentemo-nos junto às águas da Babilônia", não ousemos lançar-nos nessas correntes, nem sermos soberbos e exaltados no mal e na tristeza do nosso cativeiro, mas assentemo-nos, e assim choremos. Assentemo-nos "junto" às águas, não debaixo das águas, da Babilônia; seja tal a nossa humildade, que ela não nos afogue. Assentai-vos "junto" às águas, não "nas" águas, não "sob" as águas; mas ainda assim assentai-vos, humildemente, e não faleis como falaríeis em Jerusalém. ...
4. Pois muitos choram com o choro da Babilônia, porque também se alegram com a alegria da Babilônia. Quando os homens se alegram com os ganhos e choram com as perdas, ambas as coisas são da Babilônia. Deves chorar, mas na lembrança de Sião. Se choras na lembrança de Sião, deves chorar até mesmo quando tudo te vai bem na Babilônia. ...
5. "Nos salgueiros, no meio dela, pendurámos os nossos instrumentos musicais" (v. 2). Os cidadãos de Jerusalém têm os seus "instrumentos musicais": as Escrituras de Deus, os mandamentos de Deus, as promessas de Deus, a meditação na vida futura; mas, enquanto habitam "na Babilônia", pendurámos os seus instrumentos. Os salgueiros são árvores infrutíferas, e aqui colocadas de tal modo que nenhum bem se pode entender delas: alhures, talvez, possa haver. Aqui entendei árvores estéreis, que crescem junto às águas da Babilônia. Estas árvores são regadas pelas águas da Babilônia, e não dão fruto algum; assim como há homens ávidos, cobiçosos, estéreis em boas obras, cidadãos da Babilônia de tal modo que são até mesmo árvores dessa região; ali se alimentam destes prazeres das coisas transitórias, como que regados pelas "águas da Babilônia". Buscas neles fruto, e em nenhuma parte o encontras. ...Por isso, adiando aplicar-lhes as Escrituras, "penduramos os nossos instrumentos musicais nos salgueiros". Pois não os julgamos dignos de carregar os nossos instrumentos. Não inserimos, pois, os nossos instrumentos neles, nem os atamos a eles, mas adiamos usá-los, e assim os pendurámos. Pois os salgueiros são as árvores infrutíferas da Babilônia, alimentadas pelos prazeres temporais, como pelas "águas da Babilônia".
6. "Pois ali os que nos levaram cativos nos pediram palavras de cânticos, e os que nos conduziram, um hino" (v. 3). Pediram-nos palavras de cânticos e um hino aqueles que nos levaram cativos. ...Somos tentados pelas delícias das coisas terrenas, e lutamos diariamente com as sugestões dos prazeres ilícitos; mal respiramos livremente ainda que na oração: compreendemos que somos cativos. Mas quem nos levou cativos? que homens? que raça? que rei? Se fomos redimidos, outrora fomos cativos. Quem nos redimiu? Cristo. De quem nos redimiu? Do diabo. Foi, pois, o diabo e os seus anjos que nos levaram cativos; e não nos teriam levado, se não consentíssemos. ...
7. "Aqueles" pois "que nos levaram cativos", o diabo e seus anjos, quando nos disseram: "Cantai-nos um dos cânticos de Sião"? Que resposta lhes damos? Babilônia te carrega, Babilônia te contém, Babilônia te nutre, Babilônia fala por tua boca; tu não sabes acolher senão o que reluz para o presente, não sabes meditar nas coisas da eternidade, não acolhes aquilo que pedes. "Como cantaremos o cântico do Senhor em terra estranha?" (v. 4). Verdadeiramente, irmãos, assim é. Começai a querer pregar a verdade na medida em que a conheceis, e vede quão necessário vos é suportar tais escarnecedores, perseguidores da verdade, cheios de falsidade. Respondei-lhes, quando vos perguntarem aquilo que não podem acolher, e dizei, em plena confiança de vosso santo cântico: "Como cantaremos o cântico do Senhor em terra estranha!"
8. Mas atenta em como habitas entre eles, ó povo de Deus, ó corpo de Cristo, ó nobre bando de peregrinos (pois tua pátria não é aqui, mas alhures), para que, ao amá-los, ao buscar sua amizade e temer desagradar a tais homens, a Babilônia não comece a deleitar-te e tu te esqueças de Jerusalém. Temendo isto, pois, vede o que o salmista acrescenta, vede o que se segue. "Se me esquecer de ti, ó Jerusalém" (v. 5), em meio aos discursos daqueles que me tomam cativo, em meio aos discursos dos homens pérfidos, em meio aos discursos dos homens que perguntam com má intenção, perguntando, mas sem querer aprender. ...Que, pois? "Se me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se de mim a minha mão direita."
9. "Apegue-se a minha língua ao meu paladar, se de ti não me lembrar" (v. 6). Isto é, seja eu mudo, diz ele, se de ti não me lembrar. Pois que palavra, que som profere aquele que não profere os cânticos de Sião? Essa é a nossa língua, o cântico de Jerusalém. O cântico do amor deste mundo é língua estranha, língua bárbara, que aprendemos em nosso cativeiro. Mudo, pois, será para com Deus, aquele que se esquece de Jerusalém. E não basta lembrar-se: pois também os seus inimigos dela se lembram, desejando derrubá-la. "Que cidade é essa?", dizem eles; "quem são os cristãos? que espécie de homens são os cristãos? oxalá não fossem cristãos." Ora, o bando cativo venceu os seus captores; ainda assim murmuram, e enfurecem-se, e desejam matar a cidade santa que habita como estrangeira entre eles. Não basta, pois, lembrar-se: atenta em como te lembras. Pois algumas coisas lembramos em ódio, outras em amor. E assim, tendo dito: "Se me esquecer de ti, ó Jerusalém", etc., acrescentou logo: "se eu não preferir Jerusalém no cume de minha alegria." Pois ali está o cume da alegria, onde gozamos de Deus, onde estamos seguros da fraternidade unida, e da união da cidadania. Ali nenhum tentador nos assaltará, ninguém poderá sequer nos impelir a nenhuma sedução: ali nada nos deleitará senão o bem: ali toda carência morrerá, ali a bem-aventurança perfeita raiará sobre nós.
10. Então volta-se a Deus em oração contra os inimigos daquela cidade. "Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom" (v. 7). Edom é o mesmo que também se chama Esaú: pois há pouco ouvistes lidas as palavras do Apóstolo: "A Jacó amei, mas a Esaú aborreci." ...Esaú, pois, significa todos os carnais, Jacó todos os espirituais. ...Todas as pessoas carnais são inimigas das espirituais, pois todas elas, desejando as coisas presentes, perseguem aqueles que veem anelar pelas coisas eternas. Contra estes o salmista, voltando-se para Jerusalém, e suplicando a Deus que seja livrado do cativeiro, diz — o quê? "Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom." Livra-nos dos homens carnais, daqueles que imitam Esaú, que são irmãos mais velhos, e todavia inimigos. Foram os primogênitos, mas os últimos nascidos conquistaram a preeminência, pois a concupiscência da carne derrubou os primeiros, o desprezo da concupiscência elevou os últimos. Os outros vivem, e invejam, e perseguem. "No dia de Jerusalém." O dia de Jerusalém, em que foi provada, em que foi mantida cativa, ou o dia da felicidade de Jerusalém, em que é liberta, em que alcança sua meta, em que é feita partícipe da eternidade? "Lembra-te", diz ele, "Senhor", não te esqueças daqueles "que disseram: Arrasai-a, arrasai-a, até os seus fundamentos." Lembra-te, pois, significa, daquele dia em que quiseram derrubar Jerusalém. Pois quão grandes perseguições sofreu a Igreja! Como disseram os filhos de Edom, isto é, os homens carnais, servos do diabo e de seus anjos, que adoravam paus e pedras, e seguiam as concupiscências da carne, como disseram eles: "Extirpai os cristãos, destruí os cristãos, que não reste nenhum, derrubai-os até os fundamentos!" Não foram estas coisas ditas? E quando foram ditas, os perseguidores foram rejeitados, os mártires coroados. ...
11. Então volta-se para ela: "Ó filha de Babilônia, infeliz"; infeliz em teu próprio exultar, tua presunção, tua inimizade; "infeliz filha de Babilônia!" (v. 8). A cidade é chamada tanto Babilônia quanto filha de Babilônia: assim como se fala de "Jerusalém" e "a filha de Jerusalém", "Sião" e "a filha de Sião", "a Igreja" e "a filha da Igreja". Como sucede à outra, é chamada "filha"; como é preferida à outra, é chamada "mãe". Houve uma Babilônia anterior; permaneceu o povo nela? Porque sucede à Babilônia, é chamada filha de Babilônia. Ó filha de Babilônia, "infeliz" tu! ...
1. O título deste Salmo é breve e simples, e não precisa deter-nos; pois sabemos de quem Davi trazia a semelhança, e nele reconhecemos também a nós mesmos, pois também nós somos membros daquele Corpo. Todo o título é: "A Davi mesmo." Vejamos, pois, o que é a Davi mesmo. O título do Salmo costuma dizer-nos do que nele se trata: mas neste, como o título não nos informa disto, mas apenas nos diz a Quem é cantado, o primeiro versículo nos diz do que se trata em todo o Salmo: "Eu Te confessarei." Ouçamos, pois, esta confissão. Mas primeiro vos lembro que o termo confissão, na Escritura, quando falamos de confissão a Deus, é usado em dois sentidos: de pecado, e de louvor. Mas a confissão de pecado todos conhecem, à confissão de louvor poucos atentam. Tão conhecida é a confissão de pecado, que, onde quer que na Escritura ouçamos as palavras "Eu Te confessarei, Senhor," ou "nós Te confessaremos," logo, por costume de assim entender, nossas mãos apressam-se a bater no peito: tão inteiramente costumam os homens não entender a confissão senão como de pecado. Mas foi então também Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo um pecador, ele que diz no Evangelho: "Eu Te confesso, Pai, Senhor do céu e da terra"? Ele prossegue dizendo o que confessa, para que entendêssemos que Sua confissão era de louvor, não de pecado: "Eu Te confesso, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e prudentes, e as revelaste aos pequeninos." Ele louvou o Pai, louvou a Deus, porque Ele não despreza os humildes, mas os soberbos. E tal confissão vamos agora ouvir, de louvor de Deus, de ação de graças. "Com todo o meu coração." Todo o meu coração ponho sobre o altar de Teu louvor, um holocausto inteiro de louvor Te ofereço. ..."Eu Te confessarei, Senhor, com todo o meu coração: pois ouviste as palavras da minha boca" (v. 1). Que boca, senão o meu coração? Pois ali temos a voz que Deus ouve, que ouvido de homem em nada conhece. Temos, pois, uma boca interior; ali pedimos, dali pedimos, e se preparamos uma pousada ou uma casa para Deus, ali falamos, ali somos ouvidos. "Pois Ele não está longe de nenhum de nós, pois nEle vivemos, e nos movemos, e existimos." Nada te afasta de Deus, senão o pecado somente. Derruba o muro intermédio do pecado, e estás com Aquele a quem pedes.
2. "E diante dos Anjos Te cantarei." Não diante dos homens cantarei, mas diante dos Anjos. Meu cântico é minha alegria; mas minha alegria nas coisas de baixo é diante dos homens, minha alegria nas coisas do alto é diante dos Anjos. Pois o ímpio não conhece a alegria do justo: "Não há alegria, diz meu Deus, para o ímpio." O ímpio se regozija em sua taberna, o mártir em seu cárcere. Em que se regozijava aquela santa Crispina, cuja festa se celebra hoje? Regozijava-se quando era presa, quando era levada diante do juiz, quando era posta no cárcere, quando era trazida acorrentada, quando era erguida no cadafalso, quando era ouvida, quando era condenada: em todas estas coisas se regozijava; e os miseráveis a julgavam desventurada, quando ela se regozijava diante dos Anjos.
3. "Adorarei em direção ao Teu santo Templo" (v. 2). Que santo Templo? Aquele onde havemos de habitar, onde havemos de adorar. Pois nos apressamos para adorar. Nosso coração está prenhe e chega ao parto, e busca onde possa dar à luz. Qual é o lugar onde Deus há de ser adorado? ..."O Templo de Deus é santo," diz o Apóstolo, "o qual sois vós." Mas certamente, como é manifesto, Deus habita nos Anjos. Portanto, quando nossa alegria, estando nas coisas espirituais, não nas terrenas, entoa um cântico a Deus, para cantar diante dos Anjos, essa mesma assembleia dos Anjos é o Templo de Deus, adoramos em direção ao Templo de Deus. Há uma Igreja abaixo, há também uma Igreja acima; a Igreja abaixo, em todos os fiéis; a Igreja acima, em todos os Anjos. Mas o Deus dos Anjos desceu à Igreja de baixo, e os Anjos O serviram na terra, enquanto Ele nos servia; pois, "Eu não vim," diz Ele, "para ser servido, mas para servir." ...O Senhor dos Anjos morreu pelo homem. Portanto, "adorarei em direção ao Teu santo Templo"; refiro-me, não ao templo feito por mãos, mas àquele que fizeste para Ti mesmo.
4. "E confessarei o Teu Nome em Tua misericórdia e Tua verdade." ...Estas coisas também que me deste, dou-Te eu, segundo meu poder, em retorno: misericórdia, no socorrer a outros; verdade, no julgar. Por estas Deus nos ajuda, por estas conquistamos o favor de Deus. Justamente, pois, "todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade." Não há outros caminhos pelos quais Ele possa vir a nós, nem outros pelos quais possamos ir a Ele. "Pois engrandeceste Teu santo Nome sobre todas as coisas." Que espécie de ação de graças é esta, irmãos? Ele engrandeceu Seu santo Nome sobre Abraão. De Abraão nasceu Isaque; sobre aquela casa Deus foi engrandecido; depois Jacó; Deus foi engrandecido, Ele que disse: "Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó." Depois vieram os seus doze filhos. O nome do Senhor foi engrandecido sobre Israel. Depois veio a Virgem Maria. Depois Cristo, nosso Senhor, "morrendo por nossos pecados, ressuscitando para nossa justificação," enchendo os fiéis com Seu Espírito Santo, enviando homens a proclamar por entre os gentios: "Arrependei-vos," etc. Eis que "Ele engrandeceu Seu santo Nome sobre todas as coisas."
5. "Em qualquer dia que Te invocar, ouve-me Tu depressa" (v. 3). Por que "depressa"? Porque disseste: "Enquanto ainda falas, direi: Eis-me aqui." Por que "depressa"? Porque agora não busco a felicidade terrena, aprendi os santos anelos do Novo Testamento. Não busco a terra, nem a abundância terrena, nem a saúde temporal, nem a derrocada de meus inimigos, nem riquezas, nem posição: nada disto busco: por isso, "ouve-me depressa." Já que me ensinaste o que buscar, concede o que busco. ...
6. Vejamos, pois, o que ele busca, com que direito disse: "ouve-me depressa." Pois que buscas tu, para que depressa sejas ouvido? "Tu me multiplicarás." De muitos modos pode entender-se a multiplicação. ...Pois os homens se multiplicam em sua alma com cuidados: parece multiplicar-se em alma aquele em quem se multiplicam até os vícios. Essa é a multiplicação da carência, não da plenitude. Que desejas, pois, tu que disseste "ouve-me depressa," e te retiraste inteiramente do corpo, de toda coisa terrena, de todo desejo terreno, para dizer a Deus: "Tu me multiplicarás na minha alma"? Explica ainda mais o que desejas. Tu me multiplicarás, diz ele, na minha alma "com virtude." ...
7. "Confessem-Te todos os reis da terra, ó Senhor" (v. 4). Assim será, e assim é, e isso diariamente; e mostra-se que não foi dito em vão, senão que era futuro. Mas que eles, quando Te confessarem, quando Te louvarem, não desejem de Ti coisas terrenas. Pois que desejarão os reis da terra? Não têm já a soberania? O que quer que mais o homem deseje na terra, a soberania é o ponto mais alto do seu desejo. Que mais pode desejar? Necessariamente há de ser alguma eminência mais elevada. Mas talvez, quanto mais elevada, tanto mais perigosa. E por isso, quanto mais exaltados os reis na eminência terrena, tanto mais devem humilhar-se diante de Deus. Que fazem eles? "Porque ouviram todas as palavras da Tua boca." Numa certa nação estavam ocultos a Lei e os Profetas, "todas as palavras da Tua boca": somente na nação judaica estavam "todas as palavras da Tua boca", nação que o Apóstolo louva, dizendo: "Que vantagem tem o judeu? Muita, sob todos os aspectos; principalmente porque lhes foram confiados os oráculos de Deus." Estas eram as palavras de Deus. ...Que significava o velo de Gideão? É semelhante à nação dos judeus no meio do mundo, a qual tinha a graça dos sacramentos, não de fato manifestada abertamente, mas oculta numa nuvem, ou num véu, como o orvalho no velo. Veio o tempo em que o orvalho havia de se manifestar na eira; manifestou-se, já não mais oculto. Só Cristo é a doçura do orvalho: só a Ele não reconheces na Escritura, a Ele para quem a Escritura foi escrita. Mas, contudo, "ouviram todas as palavras da Tua boca."
8. "E cantem nos caminhos do Senhor, que grande é a glória do Senhor" (v. 5). Cantem todos os reis da terra nos caminhos do Senhor. Em quais caminhos? Aqueles de que se falou acima, "na Tua misericórdia e na Tua verdade." Não se ensoberbeçam, pois, os reis da terra, sejam humildes. Então cantem nos caminhos do Senhor, se forem humildes: que amem, e cantarão. Conhecemos viajantes que cantam; cantam, e apressam-se para alcançar o fim da sua jornada. Há cânticos maus, próprios do homem velho; ao homem novo pertence um cântico novo. Andem, pois, também os reis da terra nos Teus caminhos, andem e cantem nos Teus caminhos. Cantem o quê? Que "grande é a glória do Senhor", não a dos reis.
9. Vede como Ele quis que os reis cantassem no seu caminho, levando humildemente o Senhor, não se elevando contra o Senhor. Pois, se se elevarem, que se segue? "Porque o Senhor é excelso, e atenta para o humilde" (v. 6). Desejam, pois, os reis que Ele atente para eles? Sejam humildes. Que então? Se se elevarem até à soberba, poderão escapar aos Seus olhos? Para que porventura, porque ouviste "Ele atenta para o humilde", não escolhas ser soberbo, e digas em tua alma: Deus atenta para o humilde, não atenta para mim, farei o que quiser. Ó insensato! Dirias isto, se soubesses o que deverias amar? Eis que, ainda que Deus não queira ver-te, não temes justamente isto, que Ele não queira ver-te? ...Ao excelso, pois, ao que parece, Ele não atenta, pois é ao humilde que atenta. "O excelso" — o quê? "Ele o considera de longe." Que ganha, então, o soberbo? Ser visto de longe, não escapar de ser visto. E não penses que por isso hás de estar seguro, como se Ele visse menos claramente por te ver de longe. Pois tu, na verdade, não vês claramente o que vês de longe; Deus, ainda que te veja de longe, vê-te perfeitamente, contudo não está contigo. Isto ganhas: não que sejas visto menos perfeitamente, mas que não estás com Aquele por quem és visto. Mas que ganha o humilde? "O Senhor está perto dos que são de coração contrito." Eleve-se, pois, o soberbo quanto quiser: certamente Deus habita no alto, Deus está nos céus: queres que Ele se aproxime de ti? Humilha-te. Pois tanto mais alto estará acima de ti, quanto mais te elevares.
10. "Se andar no meio da tribulação, Tu me vivificarás" (v. 7). Verdade é: em qualquer tribulação que estejas, confessa, invoca-O; Ele te livra, Ele te vivifica. ...Amai a outra vida, e vereis que esta vida é tribulação, por mais que resplandeça de prosperidade, por mais que abunde e transborde de delícias; pois ainda não temos aquela alegria mais segura e livre de toda tentação, que Deus nos reserva para o fim; sem dúvida é tribulação. Entendamos, pois, irmãos, que tribulação é esta de que ele também aqui fala. Não como se dissesse: "Se acaso me sobrevier alguma tribulação, Tu me livrarás dela." Mas como diz ele? "Se andar", etc.; isto é, doutro modo não me vivificarás, se eu não andar no meio da tribulação.
11. "Estendeste a Tua mão sobre a ira dos meus inimigos, e a Tua destra me salvou." Enfureçam-se os meus inimigos: que podem fazer? Podem tomar-me o dinheiro, despojar-me, proscrever-me, desterrar-me; afligir-me com dor e tormentos; por fim, se lhes for permitido, até matar-me: podem fazer mais alguma coisa? Mas sobre aquilo que os meus inimigos podem fazer, Tu estendeste a Tua mão. Pois os meus inimigos não podem separar-me de Ti: mas Tu me vingas tanto mais, quanto mais ainda demoras. ...Contudo, não para me levar ao desespero; pois segue-se: "e a Tua destra me salvou."
12. "Tu, Senhor, retribuirás por mim" (v. 8). Eu não retribuo: Tu retribuirás. Enfureçam-se os meus inimigos à vontade: Tu retribuirás o que eu não posso. ..."Caríssimos, não vos vingueis a vós mesmos", diz o Apóstolo, "mas dai lugar à ira; porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor." Há aqui outro sentido, não de desprezar, talvez até de preferir. "Senhor" Cristo, "Tu retribuirás por mim." Pois eu, se retribuo, tomei à força; Tu pagaste o que não tomaste. Senhor, Tu "retribuirás por mim." Vede-O retribuindo por nós. Vieram a Ele os que exigiam o tributo: costumavam pedir como tributo um didracma, isto é, duas dracmas por cada homem; vieram ao Senhor para pagar o tributo; ou antes, não a Ele, mas aos Seus discípulos, e disseram-lhes: "O vosso Mestre não paga tributo?" Vieram e disseram-Lho. Ele diz a Pedro: "para que não os escandalizemos, vai tu ao mar, lança o anzol, e toma o primeiro peixe que subir: e, abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter: toma-o, e dá-o por Mim e por ti." O primeiro que sobe do mar é o Primogênito dentre os mortos. Em Sua boca encontramos dois didracmas, isto é, quatro dracmas: em Sua boca encontramos os quatro Evangelhos. Por essas quatro dracmas somos livres das exigências deste mundo; pelos quatro Evangelistas já não permanecemos devedores; pois ali está paga a dívida de todos os nossos pecados. Ele, pois, retribuiu por nós, graças à Sua misericórdia. Nada devia: não retribuiu por Si mesmo: retribuiu por nós. ...
13. "Senhor, a Tua misericórdia é para sempre." ...Não por um tempo apenas desejo ser livre. "A Tua misericórdia é para sempre", com a qual libertaste os mártires, e assim depressa os tomaste desta vida. "Não desprezes as obras das Tuas próprias mãos." Não digo, Senhor, "não desprezes as obras das minhas mãos": das minhas próprias obras não me glorio. "Busquei", de fato, "ao Senhor com minhas mãos durante a noite, diante d'Ele, e não fui enganado"; mas, contudo, não louvo as obras das minhas próprias mãos; temo que, quando Tu as examinares, encontres nelas mais pecados que méritos. Vê em mim a Tua obra, não a minha: pois se vês a minha, condenas; se vês a Tua, coroas. Pois quaisquer boas obras que haja em mim, de Ti me vêm; e assim são mais Tuas que minhas. Portanto, quer no que somos homens, quer no que fomos transformados e justificados de nossa iniquidade, Senhor, "não desprezes as obras das Tuas próprias mãos."
1. ...Nosso Senhor Jesus Cristo fala nos Profetas, ora em Seu próprio nome, ora no nosso, porque faz-Se um conosco; como está dito: "os dois serão uma só carne." Por isso também o Senhor diz no Evangelho, falando do matrimônio: "portanto já não são dois, mas uma só carne." Uma só carne, porque por causa da nossa mortalidade Ele tomou carne; não uma só divindade, pois Ele é o Criador, nós a criatura. Tudo, pois, quanto o nosso Senhor fala na pessoa da Carne que assumiu, pertence tanto àquela Cabeça que já subiu aos céus, quanto àqueles membros que ainda labutam em sua peregrinação terrena. Ouçamos, pois, o nosso Senhor Jesus Cristo falando na profecia. Pois os Salmos foram cantados muito antes de o Senhor nascer de Maria, contudo não antes de Ele ser Senhor: pois desde a eternidade Ele era o Criador de todas as coisas, mas no tempo nasceu de Sua criatura. Creiamos naquela Divindade, e, tanto quanto pudermos, entendamos que Ele é igual ao Pai. Mas aquela Divindade igual ao Pai foi feita partícipe de nossa natureza mortal, não do que é Seu, mas do que é nosso; para que nós também fôssemos feitos partícipes de Sua Natureza Divina, não do que é nosso, mas do que é Seu.
2. "Senhor, Tu me provaste, e me conheceste" (v. 1). Diga isto o próprio Senhor Jesus Cristo; diga Ele também "Senhor" ao Pai. Pois Seu Pai não é Seu Senhor, senão porque Ele Se dignou nascer segundo a carne. É Pai do Deus, Senhor do Homem. Queres saber de quem Ele é Pai? Do Filho coigual. Diz o Apóstolo: "O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou usurpação ser igual a Deus." A esta "Forma" Deus é Pai, à "Forma" igual a Si mesmo, o Filho unigênito, gerado de Sua Substância. Mas porquanto, por amor de nós, para que fôssemos refeitos, e feitos partícipes de Sua Natureza Divina, renovados para a vida eterna, foi Ele feito partícipe de nossa natureza mortal, que diz o Apóstolo dEle? Diz: "contudo Ele Se esvaziou a Si mesmo, e tomou a forma de servo, e foi feito à semelhança dos homens, e, achado na condição de homem." Estava Ele na Forma de Deus, igual ao Pai; tomou a forma de servo, de modo a ser nisso menor que o Pai. ...
3. "Tu conheceste o meu assentar-me e o meu levantar-me" (v. 2). Que é aqui "assentar-se", que é "levantar-se"? Quem se assenta, humilha-se. O Senhor, pois, "assentou-Se" em Sua Paixão, "levantou-Se" em Sua Ressurreição. "Tu", diz ele, conheceste isto; isto é, Tu o quiseste, Tu o aprovaste; segundo a Tua vontade foi feito. Mas, se preferires tomar as palavras da Cabeça na pessoa do Corpo: o homem assenta-se quando se humilha na penitência, levanta-se quando lhe são perdoados os pecados, e é elevado à esperança da vida eterna. Não vos eleveis, a não ser que primeiro tenhais sido humilhados. Pois muitos querem levantar-se antes de terem-se assentado, querem parecer justos, antes de terem confessado que são pecadores. ...
4. "Tu compreendeste os meus pensamentos de longe; sondaste a minha vereda e o meu termo" (v. 3); "e todos os meus caminhos Tu previste" (v. 4). Que significa "de longe"? Enquanto ainda estou em minha peregrinação, antes de alcançar aquela que é minha verdadeira pátria, Tu já conheceste os meus pensamentos. ...O filho mais moço partiu para uma terra distante. Depois de sua fadiga, de seu sofrimento, de sua tribulação e de sua penúria, pensou em seu pai, e desejou voltar, e disse: "Levantar-me-ei, e irei a meu pai." "Levantar-me-ei", disse ele, pois antes estava assentado. Aqui, pois, podes reconhecê-lo dizendo: "Tu conheceste o meu assentar e o meu levantar." Assentei-me, na penúria; levantei-me, no anseio de Teu Pão. "Compreendeste os meus pensamentos de longe." Pois, na verdade, longe eu tinha ido; mas onde não está Aquele a quem eu havia deixado? Por isso diz o Senhor no Evangelho que seu pai o encontrou quando ele ainda vinha ao longe. Verdadeiramente; pois "compreendera os seus pensamentos de longe". "A minha vereda", diz ele; que outra coisa senão uma má vereda, a vereda que trilhara para deixar o pai? ...Que é "a minha vereda"? aquela por onde caminhei. Que é "o meu termo"? aquilo a que cheguei. "Sondaste a minha vereda e o meu termo." Aquele meu termo, por mais distante que fosse, não estava longe de Teus olhos. Longe eu tinha ido, e contudo Tu ali estavas. "E todos os meus caminhos Tu previste." Não disse ele "viste", mas "previste". Antes que por eles eu passasse, antes que neles caminhasse, Tu os previste; e permitiste que eu, em fadiga, seguisse meus próprios caminhos, para que, se não desejasse mais fadigar-me, pudesse retornar aos Teus caminhos. "Pois não há engano em minha língua." Que quis ele dizer com isto? Eis que Te confesso, caminhei por vereda própria, tornei-me longe de Ti, apartei-me de Ti, com quem me era bem, e para meu mal me foi bem sem Ti. ...
5. "Eis que Tu, Senhor, conheceste todos os meus feitos últimos, e os antigos" (v. 5). Conheceste os meus feitos últimos, quando eu apascentava porcos; conheceste os meus feitos antigos, quando Te pedi a minha porção de bens. Os feitos antigos foram para mim os começos dos últimos males: pecado antigo, quando caímos; castigo último, quando entramos nesta mortalidade fatigosa e perigosa. E oxalá este seja para nós o "último"; assim será, se agora quisermos voltar. Pois há outro "último" para certos ímpios, aos quais se dirá: "Ide para o fogo eterno." ..."Tu me formaste, e puseste sobre mim a Tua mão." "Formaste-me", onde? Nesta mortalidade; agora, para as fadigas para as quais todos nascemos. Pois ninguém nasce sem que Deus o tenha formado no ventre materno; nem há criatura alguma da qual Deus não seja o Formador. Mas "Tu me formaste" nesta fadiga, "e puseste sobre mim a Tua mão", a Tua mão vingadora, abatendo os soberbos. Pois assim, saudavelmente, abateu Ele o soberbo, para que o pudesse levantar humilde.
6. "A Tua sabedoria mostrou-se admirável em mim: tornou-se poderosa: não poderei alcançá-la" (v. 6). Ouvi agora, e escutai algo que é, na verdade, obscuro, mas que traz não pequeno prazer ao ser compreendido. Moisés, o santo servo de Deus, com quem Deus falava por meio de uma nuvem — pois, falando à maneira humana, era necessário que falasse a Seu servo mediante alguma obra de Suas mãos que assumisse — ...ansiava e desejava ver o verdadeiro aspecto de Deus, e disse a Deus, que com ele conversava: "Se agora achei graça diante de Teus olhos, mostra-Te a mim mesmo." Quando isto desejou veementemente, e quis, por assim dizer, arrancar de Deus, naquela espécie de amigável familiaridade com que Deus se dignou tratá-lo, que visse a Sua Glória e a Sua Face — na medida em que se pode falar da Face de Deus —, disse-lhe Ele: "Não podes ver a Minha Face; pois ninguém viu a Minha Face e viveu"; mas Eu te porei numa fenda da rocha, e passarei, e porei a Minha mão sobre ti; e, quando houver passado, verás as Minhas costas. E destas palavras surge outro enigma, isto é, uma figura obscura da verdade. "Quando eu houver passado", diz Deus, "verás as Minhas costas"; como se Ele tivesse de um lado a Sua face, de outro as Suas costas. Longe de nós ter tais pensamentos acerca daquela Majestade! Pois quem tem tais pensamentos de Deus, de que lhe aproveita que os templos estejam fechados? Está edificando um ídolo em seu próprio coração. Nestas palavras, pois, há mistérios poderosos. ...Aqueles que se enfureceram contra o Senhor, a quem viram, agora buscam conselho de como poderão salvar-se; e diz-se-lhes: "Arrependei-vos, e sede batizados cada um de vós em Nome de Jesus Cristo, e vossos pecados vos serão perdoados." Eis que viram as costas Daquele cuja face não podiam ver. Pois a Mão Dele estava sobre os olhos deles, não para sempre, mas enquanto passava. Depois que passou, retirou a Sua Mão dos olhos deles. Quando a mão foi retirada de seus olhos, dizem eles aos discípulos: "Que faremos?" Primeiro são ferozes, depois amorosos; primeiro irados, depois temerosos; primeiro duros, depois brandos; primeiro cegos, depois iluminados. ...
7. Eis que descobres que o fugitivo, em terra distante, não pode escapar aos olhos Daquele de quem foge. E para onde poderá ir agora aquele cujo "termo está sondado"? Eis, que diz ele? "Para onde irei de Teu Espírito?" (v. 7). Quem pode, no mundo, fugir daquele Espírito, do qual o mundo está repleto? "E para onde fugirei de Tua Face?" Busca ele um lugar para onde fugir da ira de Deus. Que lugar abrigará o fugitivo de Deus? Os homens que abrigam fugitivos perguntam-lhes de quem fugiram; e, quando encontram alguém que é escravo de algum senhor menos poderoso do que eles mesmos, a este abrigam quase sem temor algum, dizendo em seus corações: "não tem ele senhor por quem possa ser rastreado." Mas, quando lhes falam de um senhor poderoso, ou não o abrigam, ou o abrigam com grande temor, porque até um homem poderoso pode ser enganado. Onde não está Deus? Quem pode enganar a Deus? A quem não vê Deus? A quem não reclama Deus o Seu fugitivo? Para onde, pois, irá aquele fugitivo, para longe da Face de Deus? Volta-se para cá e para lá, como que buscando um lugar para onde fugir.
8. "Se eu subir", diz ele, "ao céu, Tu ali estás; se descer ao Hades, Tu estás presente" (v. 8). Enfim, ó miserável fugitivo, aprendeste que de modo algum podes tornar-te longe Daquele de quem quiseste afastar-te longe. Eis que Ele está em toda parte; tu, para onde irás? Achou ele um conselho, e este inspirado por Aquele que agora Se digna chamá-lo de volta. ...Se, pecando, desço às profundezas das iniquidades, e recuso confessar, dizendo: "Quem me vê" (pois "no Hades quem se confessará a Ti?"), também ali Tu estás presente, para castigar. Para onde, pois, irei, que possa fugir de Tua presença, isto é, não Te encontrar irado? Este plano ele achou: Assim fugirei, diz ele, de Tua Face, assim fugirei de Teu Espírito; de Teu Espírito vingador, de Tua Face vingadora, assim fugirei. Como? "Se eu tomar de novo minhas asas bem para diante, e habitar nas extremidades do mar" (v. 9). Assim posso fugir de Tua Face. Se ele quiser fugir para as extremidades do mar, para longe da Face de Deus, não estará ali Aquele de quem foge? ...Pois que são "as extremidades do mar", senão o fim do mundo? Para lá fujamos agora, em esperança e em anseio, com as asas do duplo amor; não tenhamos repouso, senão "nas extremidades do mar". Pois, se em outro lugar desejarmos repouso, seremos lançados de cabeça no mar. Voemos até os confins do mar, elevemo-nos sobre as asas do duplo amor; entretanto, fujamos para Deus em esperança, e, em fiel esperança, meditemos sobre aquele "fim do mar".
9. Ouvi agora quem pode conduzir-nos até lá. O mesmo Aquele de cuja face irada desejamos fugir. Pois que se segue? "Até ali me conduzirá a Tua mão, e a Tua destra me guiará" (v. 10). Meditemos nisto, amados irmãos, seja esta a nossa esperança, esta a nossa consolação. Retomemos, pelo amor, as asas que perdemos pela concupiscência. Pois a concupiscência foi o visco de nossas asas, que nos derrubou da liberdade de nosso céu, isto é, das brisas livres do Espírito de Deus. Dali, derrubados, perdemos as asas, e ficamos, por assim dizer, presos no poder do caçador; dali "Ele" nos resgatou com o Seu Sangue, Aquele de quem fugíamos para sermos apanhados. Ele nos faz asas de Seus mandamentos; nós as erguemos agora, livres do visco. ...Necessitamos, pois, de asas, e necessário é que Ele nos conduza, pois Ele é o nosso Auxiliador. Temos livre-arbítrio; mas mesmo com esse livre-arbítrio, que podemos fazer, se não nos ajudar Aquele que no-lo ordena?
10. E, considerando a extensão do caminho, que disse ele a si mesmo? "E disse eu: Porventura as trevas me submergirão" (v. 11). Eis que agora cri em Cristo, agora sou levado no alto pelas asas do duplo amor. ...Considerando a extensão do caminho, disse a mim mesmo: "E a noite era luz em minhas delícias." A noite se me fez luz, porque na noite eu desesperava de poder atravessar tão grande mar, de superar tão longa jornada, de alcançar as extremidades, perseverando até o fim. Graças a Ele, que me buscou quando fugitivo, que feriu as minhas costas com golpes do açoite, que, chamando-me, me chamou de volta da perdição, que fez luminosa a minha noite. Pois é noite enquanto atravessamos esta vida. Como se fez luminosa a noite? Porque Cristo desceu à noite. ...
11. "Pois as trevas não serão escurecidas por Ti" (v. 12). Não escureças, pois, tu, as tuas trevas; Deus não as escurece, mas antes as ilumina ainda mais; pois a Ele se diz em outro Salmo: "Tu, Senhor, acenderás a minha candeia; o meu Deus iluminará as minhas trevas." Mas quem são aqueles que "escurecem as suas trevas", que Deus não escurece? Os homens maus, os homens perversos; quando pecam, são de fato trevas; quando não confessam os pecados que cometeram, mas passam a defendê-los, "escurecem as suas trevas". Por isso, se agora pecaste, estás em trevas, mas, confessando a tua treva, alcançarás ter a tua treva iluminada; defendendo a tua treva, "escurecerás a tua treva". E para onde escaparás da dupla treva, tu que já estavas em dificuldade numa só treva? ...Não "escureçamos as nossas trevas" defendendo os nossos pecados, e "a noite será luz em nossas delícias".
12. "E a noite se iluminará como o dia." "A noite, como o dia." "Dia" para nós é a prosperidade mundana, noite é a adversidade neste mundo: mas, se aprendermos que é pelo merecimento de nossos pecados que sofremos as adversidades, e que os açoites de nosso Pai nos são doces, para que a sentença do Juiz não nos seja amarga, assim acharemos que as trevas desta noite são, por assim dizer, a luz desta noite. ...Mas quando Cristo, nosso Senhor, veio, e habitou na alma pela fé, e prometeu outra luz, e inspirou e concedeu a paciência, e advertiu ao homem que não se deleite na prosperidade nem se esmague na adversidade, o homem, sendo fiel, começa a tratar este mundo com indiferença; a não se exaltar quando lhe sobrevém a prosperidade, nem a esmagar-se quando a adversidade, mas em tudo louvar a Deus, não só quando abunda, mas também quando perde; não só quando está com saúde, mas também quando está enfermo. ..."Qual é a Sua treva, tal é também a Sua luz." As Suas trevas não me submergem, porque a Sua luz não me eleva.
"Pois Tu, ó Senhor, possuíste os meus rins" (v. 13). O Possuidor está dentro; Ele ocupa não somente o coração, mas também os rins; não somente os pensamentos, mas também os deleites: Ele possui, pois, aquilo donde eu haveria de sentir deleite por qualquer luz deste mundo: Ele ocupa os meus rins: não conheço deleite, senão o que vem da luz interior de Sua Sabedoria. Que, pois? Não te deleitas por serem teus negócios muito prósperos, tempos afortunados para ti? não te deleitas na honra, nas riquezas, na tua família? "Não me deleito", diz ele. Por quê? Porque "Tu possuíste os meus rins, ó Senhor; Tu me tomaste desde o ventre de minha mãe". Enquanto eu estava no ventre de minha mãe, não olhava com indiferença as trevas daquela noite e a luz daquela noite. ...Agora, tendo sido tomados do ventre daquela nossa mãe, olhamo-los com indiferença, e dizemos: "Como é a Sua treva, assim é também a Sua luz". Nem a prosperidade terrena nos faz felizes, nem a adversidade terrena, miseráveis. Devemos guardar a justiça, amar a fé, esperar em Deus, amar a Deus, amar também o nosso próximo. Após estes trabalhos teremos luz sem falha, dia sem ocaso. Passageira é toda a luz e toda a treva desta noite.
"Confessar-me-ei a Ti, ó Senhor, pois terrivelmente foste feito admirável: admiráveis são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem" (v. 14). Outrora "o Teu conhecimento foi feito admirável a partir de mim, crescera, e eu não podia alcançá-lo". A partir de mim, pois, "crescera". De onde, pois, "a minha alma" agora "o sabe muito bem", senão porque "a noite é luz no meu deleite"? senão porque a Tua graça veio a mim, e iluminou as minhas trevas? senão porque Tu possuíste os meus rins? senão porque Tu me tomaste desde o ventre de minha mãe?
"Livra-me, ó Senhor, do homem iníquo" (v. 1). Não de um só, mas da classe toda; não somente dos vasos, mas do seu próprio príncipe, isto é, do demônio. Por que "do homem", se ele quer dizer do demônio? Porque também este é chamado homem em figura. ...Ora, pois, feitos luz, não em nós mesmos, mas no Senhor, oremos não apenas contra as trevas, isto é, contra os pecadores, aos quais ainda o demônio possui, mas também contra o seu príncipe, o próprio demônio, que opera nos filhos da desobediência. "Livra-me do homem injusto." O mesmo que "do homem iníquo". Pois o chamou de iníquo porque injusto, para que porventura não penses que algum homem injusto pudesse ser homem bom. Pois muitos homens injustos parecem ser inofensivos; não são ferozes, não são selvagens, não perseguem nem oprimem; contudo são injustos, porque, seguindo algum outro hábito, são luxuriosos, ébrios, entregues ao prazer. ...Iníquo, pois, é todo homem injusto, o qual necessariamente há de ser nocivo, seja ele manso ou feroz. Quem quer que caia em seu caminho, quem quer que seja apanhado em suas ciladas, achará quão nocivo é aquilo que julgava inofensivo. Pois, irmãos, nem mesmo os espinhos ferem com as suas raízes. Arrancai os espinhos do chão, manuseai as suas raízes, e vede se sentis dor. Contudo, aquilo no rebento que te causa dor, procedeu daquela raiz. Não vos agradem, pois, os homens que parecem mansos e afáveis, mas são amantes do prazer carnal, seguidores de concupiscências imundas; não vos agradem. Ainda que pareçam mansos, são raízes de espinhos. ...E assim, meus irmãos, corpo de Cristo, membros de Cristo que gemeis no meio de tais homens iníquos, a quem quer que encontrardes precipitando-se de cabeça em desejos maus e prazeres mortíferos, repreendei logo, castigai logo, queimai logo. Que a raiz seja queimada, e não reste donde possa brotar o espinho. Se não puderdes, sabei com certeza que os tereis como inimigos. Podem calar-se, podem esconder a sua inimizade, mas não podem amar-vos. Mas, uma vez que não podem amar-vos, e uma vez que aqueles que vos odeiam hão de necessariamente buscar o vosso mal, que não seja tarda a vossa língua e o vosso coração para dizer a Deus: "Livra-me, ó Senhor, do homem injusto."
O que este Salmo contém, creio que percebestes quando era cantado; pois nele a Igreja de Cristo, posta no meio dos ímpios, queixa-se e geme, e derrama a sua oração a Deus. Pois a sua voz é, em toda tal profecia, a voz de alguém necessitado e carente, ainda não saciado, "faminto e sedento de justiça", para quem certa plenitude, ao fim, foi prometida, e está reservada. ...
Ordenaram-me os nossos Senhores, irmãos, e neles o Senhor de todos, que eu trouxesse este Salmo ao vosso entendimento, na medida em que Deus mo concede. Ajude Ele as vossas orações, para que eu diga as coisas que devo dizer, e vós as ouçais, a fim de que a todos nós a Palavra de Deus seja proveitosa. Pois a todos não aproveita, porque "nem todos têm fé". ...
"Até o fim, um Salmo ao próprio Davi." A nenhum outro fim podes olhar, senão o que te é estabelecido pelo próprio Apóstolo. Pois "Cristo é o fim". ...Ele era da semente de Davi, não segundo a Sua Divindade, pela qual é Criador de Davi, mas segundo a carne; por isso dignou-se ser chamado Davi na profecia: olha para este "fim", pois o Salmo é cantado "ao próprio Davi"; ouve a voz do Seu Corpo; está no Seu Corpo. Seja tua a voz que ouviste, e ora, e dize o que se segue.
"Que imaginaram iniquidades no seu coração" (v. 2). ...Livra-me deles, deles seja a Tua mão poderosíssima para me libertar. Pois fácil é evitar as inimizades abertas, fácil é desviar-se de um inimigo declarado e manifesto, quando a iniquidade está em seus lábios tanto quanto em seu coração; ele é um inimigo penoso, é secreto, é evitado com dificuldade, aquele que traz coisas boas nos lábios, enquanto no coração oculta coisas más. "Todo o dia moveram guerra." Que é "guerra"? Fizeram, para mim, aquilo contra que eu haveria de lutar todo o dia. Pois dali, de corações como estes, surge tudo aquilo contra que o cristão combate. Seja sedição, seja cisma, seja heresia, seja oposição turbulenta, não brota senão destas imaginações que estavam ocultas, e, enquanto falavam boas palavras com os lábios, "todo o dia moveram guerra". Ouvis palavras de paz, e contudo, fazendo guerra, ela não se aparta dos seus pensamentos. Pois as palavras "todo o dia" significam sem intermissão, por todo o tempo. "Aguçaram as suas línguas como serpentes" (v. 3). Se ainda buscas identificar o homem, eis uma comparação. Na serpente, mais que em todos os animais, há astúcia e artifício para ferir; pois por isso rasteja. Não tem sequer pés, de modo que se ouçam os seus passos quando vem. Em seu progresso, arrasta-se, por assim dizer, suavemente, e contudo não em linha reta. Assim, pois, rastejam e se arrastam para ferir, escondendo o veneno mesmo sob um toque suave. E por isso segue-se: "o veneno das áspides está debaixo dos seus lábios". Eis que está "debaixo" dos seus lábios, para que percebamos uma coisa debaixo dos seus lábios, outra em seus lábios. ...
"Guarda-me, ó Senhor, da mão do pecador; livra-me dos homens injustos" (v. 4). Aqui mostram as suas verdadeiras cores, são conhecidos; aqui não temos necessidade de entender, mas de agir: temos necessidade de orar, não de perguntar quem são. Mas como deves orar contra tais homens, ele o explica no que se segue. Pois muitos oram sem destreza contra os ímpios. "Que imaginaram", diz ele, "fazer tropeçar os meus passos." Até aqui pode ser entendido carnalmente. Todo homem tem inimigos que buscam enganá-lo no comércio, roubar-lhe o dinheiro, onde estão juntos em negócios; todo homem tem algum vizinho por inimigo, que maquina como trazer dano à sua família, prejudicar de algum modo os seus bens; e certamente maquina isto por engano, por fraude, por artifícios diabólicos se esforça por consegui-lo: ninguém pode duvidar disso. Contudo, não é por estas razões que devem ser guardados, mas para que não te armem ciladas e te atraiam para si, isto é, te separem do Corpo de Cristo, e te façam do corpo deles. Pois, assim como Cristo é a Cabeça dos bons, assim o demônio é a cabeça deles. Que é "fazer tropeçar os meus passos"? Não como se fosses enganado no negócio que tens com ele, ou ele te iludisse numa causa que tens com ele nos tribunais. Ele "fez tropeçar os teus passos" se te impediu no caminho de Deus; de modo que aquilo que dirigias retamente venha a vacilar, ou a cair do caminho, ou a cair no caminho, ou a recuar do caminho, ou a parar no caminho, ou a voltar ao lugar de onde tinha vindo. Tudo o que te fez isto, te fez tropeçar, te enganou. Contra tais ciladas como estas ora, para que não percas a tua herança celestial, para que não percas a Cristo, teu Co-herdeiro, pois estás destinado a viver para sempre com Ele, que te fez herdeiro. Pois és feito herdeiro não por alguém a quem hás de suceder após a sua morte, mas por Um com quem hás de viver para sempre.
7. "Os soberbos me armaram um laço" (v. 5). Descreveu brevemente todo o corpo do diabo quando disse "os soberbos". Por isso é que, na maior parte das vezes, se dizem justos quando são injustos. Por isso é que nada lhes é tão penoso quanto confessar os seus pecados. São homens que, sendo falsamente justos, hão de necessariamente invejar os verdadeiramente justos. Pois ninguém inveja a outrem naquilo que não deseja ser nem parecer. ...Daí vêm todas as seduções e ciladas contra os outros. Isto foi o que primeiro quis o diabo, quando, caindo ele mesmo, invejou o homem que permanecia de pé. ...
8. Mas esses "soberbos me armaram um laço"; buscaram fazer tropeçar os meus passos. E que fizeram? "E estenderam cordas como laços." Que cordas? A palavra é bem conhecida na Sagrada Escritura, e em outro lugar encontramos o que significam as "cordas". Pois "cada um está preso pelas cordas dos seus pecados", diz a Escritura. E Isaías diz abertamente: "Ai dos que atraem o pecado como com uma longa corda!" E por que se chama "corda"? Porque todo pecador que persevera nos seus pecados acrescenta pecado a pecado; e quando deveria emendar-se acusando os seus pecados, ao defendê-los duplica, pela defesa, o que pela confissão poderia ter removido, e muitas vezes busca fortalecer-se com outros pecados, por causa dos pecados que já cometeu. ...Mas estes os seus pecados eles "estendem" para os justos, quando os persuadem a fazer os males que eles mesmos fazem. Por isso disse: "estenderam cordas e laços"; isto é, pelos seus pecados desejaram derrubar-me. E onde fizeram isto? "Junto ao caminho me puseram tropeços": não no caminho, mas "junto ao caminho". Teus "caminhos" são os mandamentos de Deus. Puseram "tropeços junto ao caminho"; não te afastes tu do caminho, e não te lançarás sobre os tropeços. Contudo, não quero que digas: "Deveria Deus impedi-los de pôr tropeços junto aos meus caminhos, e então não os poriam." Antes, pelo contrário, Deus permitiu que "pusessem tropeços junto aos teus caminhos", para que tu não abandonasses o caminho.
9. E que resta? Que remédio em meio a tais males, em tais tentações, em tais perigos? "Disse eu ao Senhor: Tu és o meu Deus" (v. 6). Alta é a voz da oração, ela desperta a confiança. Acaso não é Ele o Deus dos outros? De quem não é Ele Deus, sendo o verdadeiro Deus? Contudo, é especialmente deles os que d'Ele gozam, que O servem, que a Ele se submetem de boa vontade. Pois também os ímpios, ainda que contra a vontade, Lhe estão sujeitos. ..."Ouve com os teus ouvidos a voz da minha súplica." Não disse: "Ouve com os teus ouvidos a minha súplica"; mas, como que exprimindo mais claramente o afeto do seu coração, "a voz da minha súplica" — a vida da minha súplica, a alma da minha súplica, não aquilo que soa nas minhas palavras, mas aquilo que dá vida às minhas palavras. Pois todos os outros ruídos sem vida podem chamar-se sons, mas não palavras. As palavras pertencem aos que têm alma, aos vivos. Mas quantos há que oram a Deus, e todavia não têm percepção de Deus, nem retos pensamentos acerca de Deus! Estes podem ter o som da oração, a voz não podem ter, pois neles não há vida. Esta foi a voz da oração de quem estava vivo, porquanto compreendia que Deus era o seu Deus, via por quem fora libertado, percebia de quem fora libertado.
10. Recomendando isto aos ouvidos de Deus, diga ele: "Senhor, Senhor." Tu, Senhor-Senhor, isto é, verdadeiríssimo Senhor, não como os senhores-homens, não como os senhores que compram com bolsas de dinheiro, mas o Senhor que compra com o Seu Sangue. "Senhor, Senhor, fortaleza da minha salvação" (v. 7), isto é, que dás força à minha salvação. Que significa "fortaleza da minha salvação"? Queixou-se dos tropeços e laços dos pecadores, dos homens ímpios, vasos do diabo, que ladravam ao seu redor e lhe punham ciladas em torno; dos soberbos que invejam os justos. Mas logo acrescentou um consolo: "Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo." Isto ele observou e temeu, e, angustiado com a abundância das iniquidades, voltou-se para a esperança. Verdadeiramente serei salvo, se perseverar até o fim; mas a perseverança, para alcançar a salvação, pertence à fortaleza; Tu és "a fortaleza da minha salvação"; Tu me fazes perseverar, para que eu alcance a salvação. ...Labutando, pois, nesta luta, voltou o olhar para a graça de Deus; e porque já começara a aquecer-se e a ressecar-se, encontrou, como que uma sombra, sob a qual viver. "Cobriste a minha cabeça com sombra no dia da batalha": isto é, no calor, para que eu não me aquecesse, para que eu não me ressecasse.
11. "Não me entregues, ó Senhor, pelo meu próprio desejo, ao pecador" (v. 8). Eis para que fim há de valer-me a Tua sombra, para que eu não sofra calor de mim mesmo. E que poderia fazer-me aquele "pecador", por mais que se enfurecesse? Pois os ímpios se enfureceram contra os mártires, arrastaram-nos, prenderam-nos com cadeias, encerraram-nos em cárceres, mataram-nos à espada, expuseram-nos às feras, consumiram-nos pelo fogo: tudo isto fizeram; contudo, Deus não os entregou aos pecadores, porque não foram entregues pelo seu próprio desejo. Ora, roga tu com todas as tuas forças que Deus "não te entregue, pelo teu próprio desejo, ao pecador." Pois tu, pelo teu próprio desejo, dás lugar ao diabo. Pois eis que o diabo te põe diante o lucro, convida-te à desonestidade; não podes ter o lucro, sem cometeres a desonestidade: o lucro é a isca, a desonestidade é o laço: olha tu de tal modo para a isca, que vejas também o laço; pois não podes obter o lucro, sem cometeres a desonestidade; e se cometeres a desonestidade, serás apanhado. ...Por isso a tua cabeça é coberta de sombra no dia da batalha. Pois o desejo causa o calor, mas a sombra do Senhor tempera o desejo, para que possamos refrear aquilo pelo qual éramos arrebatados, para que não nos aqueçamos a ponto de sermos atraídos ao laço. "Pensaram contra mim; não me abandones, para que porventura não se exaltem." Tens em outro lugar: "Os que me oprimem exultarão, se eu vacilar." Tais são eles, porque tal é também o próprio diabo. ...
12. "A cabeça do seu contorno, o labor dos seus próprios lábios os cobrirá" (v. 9). A mim, diz ele, cobrirá a sombra das Tuas asas: pois "cobriste-me no dia da batalha." A eles, que os cobrirá? "A cabeça do seu contorno"; isto é, a soberba. Que é "o seu contorno"? Como andam em roda e não permanecem firmes, como caminham no círculo do erro, onde a jornada não tem fim. Aquele que caminha em linha reta começa de um ponto e termina em outro ponto; aquele que caminha em círculo jamais termina. Este é o labor dos ímpios, o que se expõe ainda mais claramente em outro Salmo: "Os ímpios andam em círculo." Mas "a cabeça do seu contorno" é a soberba, pois a soberba é o princípio de todo pecado. Mas por que é a soberba "o labor dos seus próprios lábios"? Todo soberbo é falso, e todo falso é mentiroso. Os homens labutam ao dizer a falsidade; a verdade, poderiam dizê-la com inteira facilidade. Pois labuta aquele que fabrica o que diz; aquele que deseja dizer a verdade não labuta, pois a própria verdade fala sem labor. ...
13. "Brasas de fogo cairão sobre eles na terra, e Tu os derrubarás" (v. 10). Que significa "na terra"? Aqui, mesmo nesta vida, aqui "brasas de fogo cairão sobre eles." Que são "brasas de fogo"? Conhecemos estas brasas. Serão diferentes daquelas de que estamos para falar? Pois estas, vejo eu, servem para o castigo; aquelas de que hei de falar, para a salvação. Pois falamos de certas brasas, quando o homem buscava socorro contra a língua traiçoeira. ...Os exemplos das "brasas" se acrescentam à ferida das flechas (pois não hei de temer dizer "a ferida", quando a própria Esposa diz: "Estou ferida de amor"), e então o feno é consumido, e por isso se chamam "brasas devoradoras". O feno é devorado, mas o ouro é purificado, e o homem troca a morte pela vida, e começa também ele mesmo a ser uma brasa ardente; tal brasa qual foi o Apóstolo, "que outrora era blasfemo, e perseguidor, e injuriador", brasa negra e apagada; mas, havendo alcançado misericórdia, foi inflamado do Céu, a voz de Cristo o inflamou, toda a negrura nele pereceu, começou a ser fervoroso de espírito, a inflamar outros com aquilo com que ele mesmo fora inflamado. ...
2. "Senhor, a Ti clamei, ouve-me Tu" (v. 1). Isto todos nós podemos dizer. Isto não sou eu somente quem o diz: todo o Cristo o diz. Mas é dito antes em nome do Corpo; pois também Ele, quando esteve aqui e trouxe a nossa carne, orou; e quando orava, gotas de sangue escorriam de todo o Seu Corpo. Assim está escrito no Evangelho: "Jesus orava intensamente, e o Seu suor era como que grandes gotas de sangue." Que é este correr de suor de todo o Seu Corpo, senão o sofrimento dos mártires de toda a Igreja? "Escuta a voz da minha súplica, enquanto clamo a Ti." Pensaste que o negócio do clamor já estava terminado, quando disseste: "A Ti clamei." Clamaste; contudo não te consideres seguro. Se a tribulação está terminada, terminado está o clamor; mas se resta tribulação para a Igreja, para o Corpo de Cristo, até o fim do mundo, que ela não diga somente "A Ti clamei", mas também "Escuta a voz da minha súplica."
...O Salmo que acabamos de cantar é, em muitas partes, algo obscuro. Quando, com o auxílio do Senhor, o que foi dito começar a ser exposto e explicado, vereis que estais ouvindo coisas que já conhecíeis. Mas por esta razão são ditas de modos multiformes, para que a variedade da expressão afaste todo o tédio da verdade. ...
3. "Seja a minha oração dirigida à Tua presença como incenso, e o levantar das minhas mãos, como sacrifício vespertino" (v. 2). Que isto costuma ser entendido da própria Cabeça, todo cristão o reconhece. Pois quando o dia já declinava para a tarde, o Senhor, na Cruz, "depôs a sua vida para retomá-la", não a perdeu contra a sua vontade. Ainda assim, também nós ali estamos figurados. Pois o que dEle pendia sobre o madeiro, senão o que Ele tomou de nós? E como poderia ser que o Pai deixasse e abandonasse o seu Filho unigênito, sobretudo sendo Ele um só Deus com Ele? Contudo, fixando a nossa fraqueza na Cruz, onde, como diz o Apóstolo, "o nosso homem velho foi crucificado com Ele", Ele clamou com a voz daquele nosso "homem velho": "Por que me desamparaste?" Esse é, pois, o "sacrifício vespertino": a Paixão do Senhor, a Cruz do Senhor, a oferta de uma Vítima salutar, o holocausto inteiro aceitável a Deus. Esse "sacrifício vespertino" produziu, na sua Ressurreição, uma oblação matutina. A oração, então, dirigida puramente de um coração fiel, sobe como incenso de um altar consagrado. Nada é mais deleitável que o odor do Senhor: tal odor tenham todos os que creem.
4. ..."Põe, ó Senhor, guarda à minha boca, e uma porta de restrição em torno dos meus lábios" (v. 3). Não disse uma barreira de restrição, mas "uma porta de restrição". Uma porta tanto se abre quanto se fecha. Se, pois, é "porta", que seja tanto aberta quanto fechada: aberta, para a confissão do pecado; fechada, para a desculpa do pecado. Assim será "porta de restrição", e não de ruína. Pois de que nos aproveita esta "porta de restrição"? Que ora Cristo em nome do seu Corpo? "Que não inclines o meu coração a palavras más" (v. 4). Que é "o meu coração"? O coração da minha Igreja; o coração, isto é, do meu Corpo. ...
5. Mas quando o teu coração não tiver sido desviado, ó membro de Cristo, quando o teu coração não tiver sido inclinado "a palavras más, a desculpar pecados, com homens que praticam a iniquidade", também não te unirás aos seus eleitos. Pois segue-se isto: "E não me unirei aos seus eleitos." Quem são os "seus eleitos"? Os que se justificam a si mesmos. Quem são os seus eleitos? Os "que confiam em si mesmos, por serem justos, e desprezam os outros", como disse o fariseu no templo: "Senhor, graças te dou porque não sou como os demais homens." Quem são os seus eleitos? "Este, se fosse profeta, saberia quem e qual é a mulher que lhe toca os pés." Aqui reconheces as palavras daquele outro fariseu, que convidara o nosso Senhor à sua casa, quando a mulher daquela cidade, que era pecadora, veio e se aproximou dos seus pés. ...
Pois até mesmo esta mulher, "se o seu coração se tivesse inclinado a palavras más", não lhe faltaria com que defender os seus pecados. Acaso não defendem diariamente os seus pecados as mulheres, suas iguais na impureza, mas não suas iguais na confissão — meretrizes, adúlteras, praticantes de feitos vergonhosos? Se não foram vistas, negam-nos; se foram surpreendidas e convencidas, ou se cometeram os seus atos abertamente, defendem-nos. E quão fácil é a sua defesa, quão pronta, e contudo quão precipitada; quão comum, e contudo quão blasfema! "Se Deus não o quisesse, eu não o teria feito: Deus o quis; a fortuna o quis; o fado o quis." ...Estas são as defesas dos "eleitos" deste mundo. Mas digam os membros de Cristo, o Corpo de Cristo, diga Cristo em nome do seu Corpo: "Não inclines, meu coração, a palavras más", etc., "e não me unirei aos seus eleitos." ...
6. "Com homens que praticam a impiedade." Que impiedade? Permiti-me mencionar alguma impiedade pecaminosa deles. Permiti-me contar-vos uma impiedade pecaminosa manifesta, que eles próprios reconhecem. Dizem que é melhor ao homem ser usurário do que lavrador. Perguntas a razão, e eles a apresentam. ...Vexa os membros de Cristo quem limpa a terra com o sulco; vexa os membros de Cristo quem arranca a erva da terra; vexa os membros de Cristo quem colhe um fruto da árvore. Para evitar cometer os seus imaginários homicídios na lavoura, comete homicídios verdadeiros na usura. Não dá pão ao necessitado. Vede se pode haver maior iniquidade do que esta justiça. Não dá pão ao faminto. Perguntas por quê? Para que o mendigo não receba a vida que há no pão — a que chamam membro de Deus, substância de Deus — e a prenda na carne. Que fazeis vós, então? Por que comeis? Não tendes carne? Sim; mas nós, dizem eles, porquanto somos iluminados pela fé em Manes, por nossas orações e nossos Salmos, porquanto somos eleitos, purificamos com isso aquele pão, e o transmitimos ao tesouro dos céus. Tais são os eleitos, que não hão de ser salvos por Deus, mas salvadores de Deus. E este é o Cristo, dizem eles, crucificado em todo o universo. Eu recebi no Evangelho a Cristo como Salvador, mas vós, em vossos livros, sois os salvadores de Cristo. Sois manifestamente blasfemadores de Cristo, e por isso não haveis de ser salvos por Cristo. Portanto, para que não se dê uma migalha ao faminto, e nela padeça um membro de Cristo, há de o faminto morrer de fome? A falsa misericórdia para com uma migalha causa o verdadeiro homicídio de um homem. Mas quem são os seus eleitos? "Não inclines, meu coração, a palavras más, e não me unirei aos seus eleitos."
7. "O justo me corrigirá com misericórdia, e me repreenderá" (v. 5). Eis o pecador confessando-se. Ele deseja ser corrigido com misericórdia, e não louvado enganosamente. ..."Repreender-me-á", mas "com misericórdia": repreenderá, e contudo não odeia; antes, tanto mais repreenderá quanto não odeia. E por que, então, dá ele graças? Porque "repreende o sábio, e ele te amará." "O justo me corrigirá." Porque te persegue? Longe disso. Antes, requer corrigir-se a si mesmo quem corrige com ódio. Por que, então, Ele corrige? "Com misericórdia. E me repreenderá." Em quê? "Com misericórdia. Porque o óleo do pecador não engordará a minha cabeça." A minha cabeça não crescerá pela lisonja. O louvor indevido é lisonja: o louvor indevido de um lisonjeiro é "o óleo do pecador." Por isso também os homens, quando escarneceram de alguém com falso louvor, dizem: "Ungi-lhe a cabeça." Amai, pois, ser "repreendidos pelo justo com misericórdia"; não ameis ser louvados pelo pecador em escárnio. Tende óleo em vós mesmos, e não buscareis o "óleo do pecador." ...
8. Dizes-me: Que faço eu? Sou cercado de lisonjeiros; não cessam de me assediar; louvam em mim o que eu não quereria, louvam em mim o que tenho em pouca estima; o que prezo, censuram-mo; lisonjeiros, traiçoeiros, enganadores. Por exemplo: "Gaiuseio é um grande homem, grande, douto, sábio; mas por que é cristão? Pois grande é o seu saber, grande a sua leitura, grande a sua sabedoria." Se grande é a sua sabedoria, aprova que seja cristão; se grande o seu saber, sabiamente escolheu. Enfim, o que tu vituperas, isso agrada àquele a quem louvas. Mas quê? Esse louvor não adoça: é "o óleo do pecador." Contudo, não cesse ele de assim falar. Que ele não te "engorde com isso a cabeça"; isto é, não te alegres com tais coisas; não concordes com tais coisas; não consintas em tais coisas; não te alegres com tais coisas; e então, se ele te tiver aplicado o óleo da lisonja, ainda assim a tua cabeça terá permanecido como estava, não se terá inchado, não se terá intumescido. ..."Pois ainda há de ser a minha palavra do seu agrado." Espera um pouco: agora me vituperam, diz Cristo. Nos primeiros tempos dos cristãos, os cristãos eram censurados por todos os lados. Espera ainda; e "a minha palavra lhes há de agradar." Virá o tempo em que hão de vencer milhares de homens, que baterão no peito, e dirão: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores." Ainda agora, quantos restam que se envergonham de bater no peito? Que nos censurem, pois; suportemo-lo. Que censurem; que odeiem, que acusem, que detraiam; "ainda assim a minha palavra lhes há de agradar"; virá o tempo em que a minha palavra lhes há de agradar. ...Ó defesa verbosa da iniquidade! Em verdade, agora nações inteiras dizem isto, e não cessa o trovão das nações que batem no peito. Justamente trovejam as nuvens, nas quais agora habita Deus. Onde está agora aquela verbosidade, onde aquela jactância: "Sou justo; nenhum mal fiz"? Em verdade, quando tiveres contemplado na Sagrada Escritura a lei da justiça, por mais que tenhas progredido, encontrar-te-ás pecador. ...De que espécie de homem falo agora, irmãos? Falo daquele que adora só a Deus, que confessa a Cristo, que conhece serem o Pai e o Filho e o Espírito Santo um só Deus; que não fornica contra Ele; que não adora demônios; que dele não busca auxílio do demônio; que se mantém na Igreja Católica; de quem ninguém se queixa como de um trapaceiro; sob cuja opressão nenhum vizinho fraco geme; que não assalta a mulher alheia; que se contenta com a própria, ou mesmo sem a própria, do modo que é lícito, e como permite a disciplina apostólica, com o consentimento de ambos, ou quando ela ainda não é casada. Mesmo aquele que é assim, ainda assim é surpreendido nas coisas que mencionei. Para todos estes pecados cotidianos, pois, que esperança temos, senão dizer com coração humilde, na Oração do Senhor, não defendendo os nossos pecados, mas confessando-os: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores"; e ter "um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo", para que Ele seja "a propiciação pelos nossos pecados"? Vede o que se segue: "os seus juízes foram tragados junto à Rocha" (v. 6). Que é "tragados junto à Rocha"? Aquela Rocha era Cristo. "Foram tragados junto à Rocha." "Junto", isto é, comparados, como juízes, como poderosos, potentes, doutos: chamam-se "seus juízes", por julgarem acerca dos costumes, e estabelecerem as suas opiniões. Isto disse Aristóteles. Põe-no junto à Rocha, e é tragado. Quem é Aristóteles? Ouça: "Cristo o disse", e treme entre os mortos. Isto disse Pitágoras, isto disse Platão. Põe-nos junto à Rocha, compara a sua autoridade com a autoridade do Evangelho, compara os soberbos com o Crucificado. Digamos-lhes: "Vós escrevestes as vossas palavras nos corações dos soberbos; Ele plantou a sua Cruz nos corações dos reis; enfim, Ele morreu e ressuscitou; vós estais mortos, e eu não perguntarei como haveis de ressuscitar." Assim "os seus juízes foram tragados junto" àquela "Rocha." Por tanto tempo parecem algo as suas palavras, até serem comparadas com a Rocha. Portanto, se algum deles for achado ter dito o que também Cristo disse, congratulamo-nos com ele, mas não o seguimos. Mas ele veio antes de Cristo. Se alguém diz o que é verdadeiro, é ele, por isso, anterior à própria Verdade? Considera Cristo, ó homem, não quando veio a ti, mas quando te fez. Também o enfermo poderia dizer: "Mas eu adoeci antes de o médico vir a mim." Ora, por essa mesma razão veio Ele por último, porque tu primeiro adoeceste.
9. "Ouvirão as minhas palavras, pois prevaleceram." As minhas palavras prevaleceram sobre as palavras deles. Eles disseram coisas engenhosas; eu, coisas verdadeiras. Uma coisa é louvar quem fala bem, outra é louvar quem fala a verdade. "Ouvirão as minhas palavras, pois prevaleceram." Como prevaleceram? Quem dentre eles, surpreendido a oferecer sacrifício, quando tais coisas eram proibidas pela lei, deixou de negá-lo? Quem dentre eles, surpreendido a adorar um ídolo, deixou de exclamar "Eu não o fiz", e de temer ser convencido? Tais servos tem o demônio. Mas como prevaleceram as palavras do Senhor? "Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. Não temais os que matam o corpo", etc. Ele lhes deu temor, sugeriu esperança, acendeu amor. "Não temais a morte", diz Ele. Temeis a morte? Eu morro primeiro. Temeis que pereça um cabelo da vossa cabeça? Eu primeiro ressurjo na carne incólume. Justamente ouvistes as suas palavras, pois prevaleceram. Falaram, e foram mortos; caíram, e contudo permaneceram de pé. E qual foi o resultado de tantas mortes de mártires, senão que aquelas palavras prevaleceram, e a terra, por assim dizer, regada pelo sangue das testemunhas de Cristo, a cruz da Igreja brotou por toda parte? Como prevaleceram? Já dissemos: quando foram pregadas por homens que não temiam. Não temiam o quê? Nem o exílio, nem as perdas, nem a morte, nem a crucifixão: pois não era só a morte que t [truncado]
10. Que produziram, pois, todas aquelas mortes dos mártires? Ouvi: "Como a gordura da terra se espalha sobre a terra, os nossos ossos foram espalhados junto à cova" (v. 7). "Os ossos" dos mártires, isto é, os corpos das testemunhas de Cristo. Os mártires foram mortos, e os que os mataram pareciam prevalecer. Prevaleceram pela perseguição, para que as palavras de Cristo prevalecessem pela pregação. E qual foi o resultado das mortes dos santos? Que significa "a gordura da terra se espalha sobre a terra"? Sabemos que tudo o que é refugo é a gordura da terra. As coisas que são, por assim dizer, desprezíveis aos homens, enriquecem a terra. ..."Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos." Assim como é desprezível ao mundo, assim é preciosa ao lavrador. Pois ele conhece o seu proveito, e o seu suco abundante; sabe o que deseja, o que busca, donde nasce a colheita fértil; mas este mundo a despreza. Não sabeis que "Deus escolheu as coisas desprezíveis do mundo, e as que não são, como as que são, para reduzir a nada as que são"? Do monturo foi levantado Pedro, e Paulo; quando foram postos à morte, foram desprezados: agora, tendo a terra sido enriquecida por eles, e brotando a cruz da Igreja, eis que tudo o que há de nobre e principal no mundo, até mesmo o próprio imperador, vem a Roma — e para onde se apressa? Para o templo do imperador, ou para o memorial do pescador?
11. "Pois para Ti, Senhor, estão os meus olhos; em Ti esperei, não tires a minha vida" (v. 8). Pois eram torturados nas perseguições, e muitos fraquejaram. Ocorre-lhe que muitos fraquejaram, muitos estiveram em perigo, e como que no meio da tribulação da perseguição é enviada a voz de quem ora: "Pois para Ti, Senhor, estão os meus olhos": não me importa o que ameacem os que estão ao redor, "para Ti, Senhor, estão os meus olhos." Mais fixo o meu olhar nas tuas promessas do que nas ameaças deles. Sei o que sofreste por mim, o que me prometeste.
1. ..."Com a minha voz clamei ao Senhor" (v. 1). Bastaria dizer "com voz": não sem razão, talvez, se acrescentou "minha". Pois muitos clamam ao Senhor, não com a sua própria voz, mas com a voz do seu corpo. Clame, pois, ao Senhor o "homem interior", em quem "Cristo" começou a "habitar pela fé", não com o estrépito dos lábios, mas com o afeto do coração. Deus não ouve onde o homem ouve: a menos que clames com a voz dos pulmões, do peito e da língua, o homem não te ouve; o teu pensamento é o teu clamor ao Senhor. "Com a minha voz orei ao Senhor." O que quis dizer com "clamei", explicou-o ao dizer "orei". Pois também os que blasfemam clamam ao Senhor. Na primeira parte, ele expôs o seu clamor; na segunda, explicou o que era. Como se se perguntasse: Com que clamor clamaste ao Senhor? Ao Senhor, diz ele, orei. O meu clamor é a minha oração, não injúria, não murmúrio, não blasfêmia.
2. «Derramarei diante d'Ele a minha oração» (v. 2). Que é «diante d'Ele»? Em Sua presença. Que é «em Sua presença»? Onde Ele vê. Mas onde Ele não vê? Pois assim dizemos: «onde Ele vê», como se em algum lugar Ele não visse. Mas nesta reunião de substâncias corpóreas, também os homens veem, também os animais veem: Ele vê onde o homem não vê. Pois teus pensamentos nenhum homem os vê, mas Deus os vê. Derrama, pois, ali a tua oração, onde só Ele vê, Aquele que recompensa. Porquanto o Senhor Jesus Cristo te ordenou orar em segredo: mas se sabes o que é «teu quarto», e o purificas, ali orarás a Deus. «Tu, porém», diz Ele, «quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai em secreto, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará». Se são os homens que hão de recompensar-te, derrama a tua oração diante dos homens; se é Deus quem há de recompensar-te, derrama a tua oração diante d'Ele; e fecha a porta, para que o tentador não entre. Por isso o Apóstolo, porque está em nosso poder fechar a porta — a porta do nosso coração, não das nossas paredes, pois nele está o nosso «quarto» —, porque está em nosso poder fechar esta porta, diz: «nem deis lugar ao diabo». Mas que é «fechar a porta»? Esta porta tem, por assim dizer, duas folhas: o desejo e o temor. Ou desejas algo terreno, e por aí ele entra; ou temes algo terreno, e por aí ele entra. Fecha, pois, ao diabo a porta do temor e do desejo; abre-a a Cristo. Como abres a Cristo estas portas duplas? Desejando o reino dos céus, temendo o fogo do inferno. Pelo desejo deste mundo entra o diabo; pelo desejo da vida eterna entra Cristo; pelo temor do castigo temporal entra o diabo; pelo temor do fogo eterno entra Cristo. ...
3. «A minha tribulação anunciarei em Sua presença.» Há aqui repetição, tanto nas duas sentenças precedentes quanto nestas que se seguem: os sentimentos são dois, mas ambos duas vezes expressos. ...Pois «em Sua presença» é o mesmo que «diante d'Ele»; «anunciarei a minha tribulação» é o mesmo que «derramarei a minha oração». Quando fazes isto? Posto no meio da perseguição, diz ele: «enquanto o meu espírito desfalecia em mim» (v. 3). Por que desfaleceu o teu espírito, ó mártir, posto em tribulação? Para que eu não reivindique como minha a minha própria força, para que eu saiba que é Outro quem opera em mim o bem que tenho. E os homens talvez ouviram que o meu espírito desfaleceu dentro de mim, e desesperaram de mim, e disseram: «tomamo-lo cativo, dominamo-lo»; «e Tu conheceste os meus caminhos». Eles pensaram que eu estava derrubado; Tu me viste de pé. Os que me perseguiam e me haviam capturado pensaram que os meus pés estavam presos; «mas os pés deles é que se enredaram, e caíram; nós, porém, nos levantamos e permanecemos de pé». Pois os meus olhos estão sempre voltados para o Senhor, porque Ele há de tirar os meus pés do laço. Persevero em caminhar, porque «aquele que perseverar até o fim, esse será salvo». Eles pensaram que eu estava dominado, mas eu continuei a caminhar. Onde caminhei? Em caminhos que não viam aqueles que me julgavam prisioneiro, nas veredas da Tua justiça, nas veredas dos Teus mandamentos. ...Pois todo caminho é via, mas nem toda via é caminho. Por que, então, se chamam caminhos essas vias, senão porque são estreitas? Larga é a via dos ímpios, estreito o caminho dos justos. Aquilo que é «o caminho» é também «os caminhos», assim como «a Igreja» é também «as Igrejas», e «o céu» também «os céus»: fala-se deles no plural, fala-se também no singular. Por causa da unidade da Igreja, ela é uma só Igreja: «Uma só é a minha pomba, ela é a única de sua mãe». Por causa da congregação dos irmãos em vários lugares, há muitas Igrejas. «As Igrejas da Judeia que estão em Cristo se alegraram», diz Paulo, «e glorificaram a Deus por causa de mim». Assim falou ele das Igrejas; e de uma só Igreja assim fala: «Não deis ofensa nem aos judeus, nem aos gentios, nem à Igreja de Deus». ...
4. «Neste caminho em que eu andava, esconderam-me um laço.» Este «caminho em que eu andava» é Cristo; ali me armaram um laço aqueles que me perseguem em Cristo, por causa do Nome de Cristo. Ali, pois, «me esconderam um laço». Que odeiam em mim, que perseguem em mim? Que eu seja cristão. ...Pois também os hereges querem esconder-nos uma pedra de tropeço no Nome de Cristo, e a si mesmos se enganam. O que pensam pôr no caminho, põem-no fora do caminho, porque eles mesmos estão fora do caminho. Não podem armar um laço onde eles próprios não estão. ...O pagão pensa pôr uma pedra de tropeço no caminho, quando me diz: «Tu adoras um Deus crucificado». Ele censura a Cruz de Cristo, que não compreende. Pensa que põe em Cristo o que põe junto ao caminho. Eu não me apartarei de Cristo, e assim não cairei do caminho no laço. Que ele escarneça de Cristo crucificado; eu vejo a Cruz de Cristo nas frontes dos reis. Naquilo de que ele ri, nisso sou eu salvo. Nada há mais soberbo que um enfermo que ri do seu próprio remédio. Se dele não risse, tomá-lo-ia, e seria curado. A Cruz é sinal de humildade; mas ele, por excesso de soberba, não reconhece aquilo pelo qual se pode curar a tumefação de sua alma. Eu, porém, se a reconheço, caminho no caminho. Tão longe estou de envergonhar-me da Cruz, que não guardo a Cruz de Cristo em lugar algum secreto, mas a trago em minha fronte. Muitos sacramentos recebemos, uns de um modo, outros de outro: alguns, como sabeis, recebemo-los pela boca, outros recebemo-los sobre todo o corpo. Mas porque a fronte é a sede do rubor da vergonha, Aquele que disse: «Quem se envergonhar de Mim diante dos homens, dele Me envergonharei diante de Meu Pai que está nos céus», colocou, por assim dizer, aquela mesma ignomínia de que os pagãos escarnecem, na sede da nossa vergonha. Ouves alguém increpar um desavergonhado e dizer: «Não tem fronte». Que é «não ter fronte»? Não ter vergonha. Que eu não tenha fronte nua; que a Cruz de meu Senhor a cubra. ...
5. «Considerei à direita, e vi» (v. 4). Considerou à direita, e viu: quem considera à esquerda, cega-se. Que é considerar à direita? Onde estarão aqueles a quem se dirá: «Vinde, benditos de Meu Pai», etc. ...Prossegue, dizendo: «e não havia quem me conhecesse». Pois quando temes todas as coisas, quem sabe para onde olhas, se diriges os olhos para a direita ou para a esquerda? Se, ao padecer, buscas o louvor dos homens, olhaste para a esquerda; se, ao padecer, buscas as promessas de Deus, olhaste para a direita. Se olhaste para a direita, verás; se olhaste para a esquerda, cegarás. Mas ainda que olhes para a direita, não haverá quem te conheça. Pois quem te consola, senão o Senhor? «Pereceu para mim a fuga.» Fala como quem está cercado. Alegrem-se os perseguidores sobre ele: está dominado, está capturado, está cercado, está vencido. «Pereceu a fuga» para aquele que não foge. Mas aquele que não foge padece tudo quanto pode por Cristo: isto é, não foge na alma. Pois no corpo é lícito fugir; é permitido, é concedido; pois diz o Senhor: «Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra». Aquele, pois, que não foge na alma, para esse «pereceu a fuga». Mas importa saber por que não foge: se porque está cercado, se porque foi apanhado, ou se porque é corajoso. Pois tanto para o que é apanhado pereceu a fuga, quanto para o que é corajoso pereceu a fuga. Que fuga, então, devemos evitar? Que fuga havemos de deixar perecer em nós? Aquela de que fala o Senhor no Evangelho: «O Bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, que não é pastor, ao ver vir o lobo, foge». Ao ver o devastador, por que foge? «Porque não se importa com as ovelhas». ...De dois modos se busca a vida de um homem: ou pelos seus perseguidores, ou pelos que o amam. Assim, pois, «não há quem busque a minha vida», disse ele a respeito daqueles: em verdade, perseguem a minha vida, mas não buscam a minha vida. Mas se a buscam, hão de encontrá-la apegada a Ti; e se souberem buscá-la, saberão também imitá-la.
6. «A Ti clamei, ó Senhor: disse: Tu és a minha esperança» (v. 5). Quando eu suportava, quando estava em tribulação, «disse: Tu és a minha esperança». Minha esperança está aqui; por isso suporto. Mas «minha porção» não está aqui, senão «na terra dos viventes». Deus dá uma porção na terra dos viventes; mas não algo que provenha d'Ele sem ser Ele mesmo. Que dará Ele a quem O ama, senão a Si mesmo?
7. «Atenta para a minha oração, porque muito fui humilhado» (v. 6). Humilhado pelos perseguidores, humilhado na confissão. Humilha-se ele fora da vista do homem; é humilhado pelos inimigos à vista deles. Por isso é exaltado por Ele, tanto visível quanto invisivelmente. Invisivelmente já estão exaltados os mártires; visivelmente serão exaltados «quando este corruptível se houver revestido de incorruptibilidade» na ressurreição dos mortos; quando esta mesma parte deles, contra a qual somente puderam enfurecer-se os perseguidores, for renovada. «Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma.» E que perece? Que matam eles? ...Por que, então, andas ansioso pelo resto dos teus membros, se não hás de perder sequer um cabelo? «Livra-me dos que me perseguem.» De quem pensas que ele ora ser livrado? Dos homens que o perseguiram? Será assim? São apenas homens os nossos inimigos? Temos outros inimigos, invisíveis, que nos perseguem de outro modo. O homem persegue para matar o corpo; outro persegue para enredar a alma. ...Há, pois, também outros inimigos nossos, dos quais devemos orar a Deus que nos livre, para que não nos desviem, seja esmagando-nos com as tribulações deste mundo, seja aliciando-nos com as suas seduções. Quem são estes inimigos? Vejamos se são claramente descritos por algum servo do Senhor, por algum soldado, já aperfeiçoado, que com eles combateu. Ouve o Apóstolo dizer: «Não temos luta contra a carne e o sangue»: como se dissesse: Não voltais o vosso ódio contra os homens; não os julgueis vossos inimigos; não penseis que é pela hostilidade deles que sois feridos; estes homens que temeis são carne e sangue. ...«Pois eles se fortaleceram sobre mim.» Quem disse: «eles se fortaleceram sobre mim»? Clama o Corpo de Cristo; é a voz da Igreja; clamam os membros de Cristo: «Muito se multiplicou o número dos pecadores.» «Porque a iniquidade abundou, o amor de muitos se esfriará.»
8. «Tira do cárcere a minha alma, para que confesse o Teu Nome» (v. 7). Este «cárcere» foi diversamente entendido pelos escritores anteriores. E talvez seja o cárcere que se chama no título «a caverna». Pois o título deste Salmo assim reza: «Para entendimento, do próprio Davi, oração quando estava na caverna». Aquilo que é a caverna, é também o cárcere. Duas coisas temos diante de nós para entender, mas, entendida uma, ambas se entenderão. Os merecimentos de cada homem fazem o cárcere. Pois numa mesma habitação um homem encontra uma casa, outro um cárcere. ...A alguns, pois, pareceu que a «caverna» e o «cárcere» são este mundo; e isto ora a Igreja: que seja tirada do cárcere, isto é, deste mundo, de debaixo do sol, onde tudo é vaidade. Além deste mundo, pois, promete Deus que estaremos em algum descanso; por isso talvez clamamos, a respeito deste lugar: «Tira do cárcere a minha alma». Nossa alma, pela fé e pela esperança, está em Cristo; «a vossa vida está escondida com Cristo em Deus». Mas o nosso corpo está neste cárcere, neste mundo. ...Mas alguns disseram que este cárcere e caverna é este corpo, de modo que este seja o sentido de «Tira do cárcere a minha alma». Mas também esta interpretação peca em algo. Pois que grande coisa é dizer «Tira do cárcere a minha alma», tira a minha alma do corpo? Acaso não saem do corpo as almas dos ladrões e dos ímpios, indo para castigo pior do que aqui suportaram? Que grande pedido é este, então, «Tira do cárcere a minha alma», quando, mais cedo ou mais tarde, ela há de necessariamente sair? Talvez diga o justo: «Que eu morra agora; tira a minha alma deste cárcere do corpo». Se ele se apressa demais, não tem caridade. Deve, na verdade, ansiar e desejar, como diz o Apóstolo, «tendo desejo de partir e estar com Cristo, o que é muito melhor». Mas onde está a caridade? Por isso segue-se: «mas permanecer na carne é necessário para vós». Que Deus, pois, nos conduza para fora do corpo, quando Ele quiser. Também o nosso corpo poderia ser chamado cárcere, não porque seja cárcere aquilo que Deus fez, mas porque está sob castigo e sujeito à morte. Pois há duas coisas a considerar em nosso corpo: a obra de Deus, e o castigo que mereceu. ...Talvez, pois, quisesse dizer, com «Tira do cárcere a minha alma», tira a minha alma da corrupção. Se assim o entendemos, não há blasfêmia, o sentido é coerente. Por fim, irmãos, penso eu, quis dizer isto: «Tira do cárcere a minha alma», tira-a da estreiteza. Pois para quem se alegra, até um cárcere é espaçoso; para quem está triste, um campo é estreito. Ora, pois, para ser tirado da estreiteza. Pois, embora na esperança tenha dilatação, na realidade, porém, no presente está estreitado. ...Não é o corpo que oprime a alma, mas o corpo corruptível. Não é, pois, o corpo que faz o cárcere, mas a corrupção. «Tira do cárcere a minha alma, para que dê graças ao Teu Nome». Ora, as palavras que se seguem parecem vir da Cabeça, nosso Senhor Jesus Cristo. E são as mesmas das últimas palavras de ontem. As últimas palavras de ontem, se vos lembrais, foram: «Estou só, até que eu passe». E aqui, quais são as últimas palavras? «Os justos me sustentarão, até que me recompenses».
1. ...O título do Salmo é: «Para o próprio Davi, quando seu filho o perseguia». Sabemos, pelos Livros dos Reis, que isto aconteceu: ...mas devemos aqui reconhecer outro Davi, verdadeiramente «forte de mão», o que é a explicação do nome Davi, a saber, o próprio nosso Senhor Jesus Cristo. Pois todos aqueles acontecimentos do tempo passado eram figuras das coisas que haviam de vir. Busquemos, pois, neste Salmo o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, anunciando-Se antecipadamente em Sua profecia, e predizendo o que havia de acontecer neste tempo por meio de coisas que se fizeram há muito. Pois Ele mesmo Se predisse nos Profetas: porque Ele é o Verbo de Deus. Nem disseram eles coisa alguma deste gênero, senão quando cheios do Verbo de Deus. Anunciaram, pois, a Cristo, estando cheios de Cristo; foram diante d'Ele, que havia de vir, e Ele não desamparou aqueles que iam diante. ...
2. Fale, pois, o nosso Senhor; fale Cristo conosco, o Cristo total. «Senhor, ouve a minha oração, recebe com os Teus ouvidos a minha súplica» (v. 1). «Ouvir» e «receber com os ouvidos» são a mesma coisa. É repetição, é confirmação. «Na Tua verdade ouve-me, na Tua justiça.» Não tomes sem ênfase o que se diz: «na Tua justiça». Pois é uma recomendação da graça, para que nenhum de nós julgue sua a própria justiça. Porque esta é a justiça de Deus, que Deus te deu para possuíres. Pois que diz o Apóstolo daqueles que se gloriariam de sua própria justiça? Falando dos judeus, diz: «têm zelo de Deus, mas não segundo a ciência». ...Tu és perverso, porque atribuis a Deus o que fizeste mal, e a ti mesmo o que fizeste bem: serás reto quando atribuíres a ti mesmo o que fizeste mal, e a Deus o que fizeste bem. ...Eis: «na Tua justiça ouve-me». Pois, quando olho para mim mesmo, nada mais encontro de meu, senão o pecado.
3. "E não entres em juízo com o Teu servo" (v. 2). Quem são os que estão dispostos a entrar em juízo com Ele, senão aqueles que, "ignorando a justiça de Deus, procuram estabelecer a sua própria"? "Por que jejuamos, e Tu não viste; por que afligimos a nossa alma, e Tu não o notaste?" Como se dissessem: "Fizemos o que ordenaste; por que, pois, não nos dás o que prometeste?" Deus te responde: Eu te darei que recebas o que prometi; dei-te que fizesses aquilo por que pudesses receber. Enfim, a tais soberbos fala o Profeta: "Por que quereis pleitear comigo? Todos vós transgredistes contra Mim, diz o Senhor." Por que quereis entrar em juízo comigo, e recontar as vossas próprias justiças?... "Porque diante de Ti nenhum vivente será justificado." "Nenhum vivente"; vivente, isto é, aqui, vivendo na carne, vivendo em expectativa da morte; nascido homem; derivando a sua vida de homem; oriundo de Adão, um Adão vivente; todo aquele que assim vive talvez possa ser justificado diante de si mesmo, mas não diante de Ti. Como diante de si mesmo? Agradando-se a si próprio, desagradando a Ti. Não entres, pois, em juízo comigo, ó Senhor meu Deus. Por mais reto que a mim mesmo eu pareça, Tu tiras uma medida do Teu tesouro, ajustas-me a ela, e sou achado torto. Bem se disse: "com o Teu servo". Indigno é de Ti entrar em juízo com o Teu servo, ou mesmo com o Teu amigo... E os próprios Apóstolos? ...Para que logo o percebas, eles aprenderam a orar o que nós oramos: a eles foi dado o modelo da oração pelo Conselheiro celestial. "Deste modo", diz Ele, "orai vós." E, tendo estabelecido primeiro certas coisas, estabeleceu também esta para ser dita pelos condutores das ovelhas, os membros principais do Pastor e Congregador do único rebanho; eles mesmos aprenderam a dizer: "Perdoa-nos as nossas dívidas." Não disseram: "Graças a Ti, que nos perdoaste as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores", mas: "Perdoa, como nós perdoamos." Ora, certamente os fiéis oravam então, certamente os Apóstolos oravam então, pois esta Oração do Senhor foi dada antes aos fiéis. Se apenas aquelas dívidas fossem visadas, as que são perdoadas pelo Batismo, mais conviria aos catecúmenos dizer: "Perdoa-nos as nossas dívidas." Digam, pois, os Apóstolos, sim, digam eles: "Perdoa-nos as nossas dívidas." E quando lhes for dito: "Por que dizeis isto? Quais são as vossas dívidas?", que respondam: "porque à Tua vista nenhum vivente será justificado."
4. "Porque o inimigo perseguiu a minha alma: humilhou a minha vida na terra" (v. 3). Aqui falamos, aqui a nossa Cabeça fala por nós. Manifestamente tanto o demônio perseguiu a Alma de Cristo quanto Judas a Alma de seu Mestre; e agora também o mesmo demônio persiste em perseguir o Corpo de Cristo, e um Judas sucede a outro. Não falta, pois, quem também o Corpo diga: "Porque o inimigo perseguiu a minha alma." Pois que outra coisa procura cada um que nos persegue, senão fazer-nos abandonar a nossa esperança celestial, e saborear a terra, ceder ao nosso perseguidor, e amar as coisas terrenas? "Puseram-me em lugares tenebrosos, como os mortos do mundo." Isto ouvis mais prontamente da Cabeça; isto percebeis mais prontamente na Cabeça. Pois Ele morreu de fato por nós, mas não foi um dos "mortos do mundo". Pois quem são os "mortos do mundo"? E como não foi Ele um dos "mortos do mundo"? Os "mortos do mundo" são aqueles que morreram por merecimento próprio, recebendo a paga da iniquidade, derivando a morte do pecado a eles transmitido; segundo o que se diz: "Pois em iniquidade fui concebido."... Ao morrer, diz Ele, faço a vontade de Meu Pai, mas não sou merecedor da morte. Nada fiz por que devesse morrer, e contudo é obra Minha própria que eu morra, para que, pela morte de um Inocente, sejam libertados os que tinham por que morrer. "Puseram-me em lugares", como se no Hades, como se no túmulo, como se na própria Paixão, "como os mortos do mundo."
5. "E o Meu Espírito dentro de mim", diz Ele, "sofreu fadiga" (v. 4). Lembrai-vos: "A minha alma está profundamente triste até à morte." Aqui vemos uma só voz. Não vemos claramente a transição da Cabeça para os membros, dos membros para a Cabeça?...
6. Mas nós também ali estávamos. Ele passa aos membros. "Recordei-me dos dias antigos" (v. 5). Recordou-Se Ele "dos dias antigos", Ele por quem cada dia foi feito? Não; mas o corpo fala, cada um que foi justificado pela Sua graça, que habita nEle em amor e devota humildade, fala e diz: "Meditei em todas as Tuas obras": manifestamente porque Tu fizeste todas as coisas boas, e nada teria subsistido que não fosse estabelecido por Ti. A Tua criação é feita espetáculo para mim: busquei na obra o Artífice, em tudo o que é feito o Feitor. Por que isto, para que fim isto, senão para que ele entendesse que tudo o que havia de bom em si mesmo foi feito por Ele... Olha, pois, para trás, para o Formador da tua vida, o Autor da tua substância, da tua justiça e da tua salvação: "medita nas obras das Suas mãos", pois também a justiça que há em ti, hás de achar que pertence à Sua mão. Ouve o Apóstolo a ensinar-te isto: "não das obras", diz ele, "para que ninguém se glorie." Não temos nós boas obras? Evidentemente temos: mas vê o que se segue: "pois somos feitura Sua", diz ele. "Somos feitura Sua": talvez, ao falar assim de feitura, quisesse mencionar a natureza pela qual somos homens? Evidentemente não: falava de obras. Mas não façamos conjecturas; prossiga o texto: "pois somos feitura Sua, criados em Cristo Jesus para boas obras." Não penses, pois, que tu mesmo fazes algo, senão enquanto és mau... "Operai a vossa própria salvação", diz o Apóstolo, "com temor e tremor." Se nós operamos a nossa própria salvação, por que com temor, por que com tremor, quando o que operamos está em nosso próprio poder? Ouve por que com temor e tremor: "pois é Deus quem opera em vós tanto o querer quanto o operar, segundo o Seu beneplácito." Portanto "com temor e tremor", para que agrade ao nosso Feitor operar no humilde vale...
7. "Estendi", diz ele, "as minhas mãos para Ti: a minha alma é para Ti como terra sem água" (v. 6). Chove sobre mim, diz ele, para que de mim produzas bom fruto. "Pois o Senhor dará doçura, para que a nossa terra dê o seu fruto." "Estendi as minhas mãos para Ti; a minha alma é como terra sem água", não para mim, mas "para Ti". Eu posso ter sede de Ti; a mim mesmo não posso regar.
8. "Ouve-me depressa, Senhor" (v. 7). Pois que necessidade há de demora para inflamar a minha sede, quando já sedento tão ardentemente estou? Tu demoraste a chuva, para que eu bebesse e absorvesse, não rejeitasse, o Teu influxo. Se então por esta causa demoraste, agora dá; pois "o meu espírito desfaleceu." Que o Teu Espírito me encha. Esta é a razão por que deverias ouvir-me depressa. Já me tornei "pobre em espírito"; faze-me Tu "bem-aventurado no reino dos céus." Pois aquele em quem vive o próprio espírito é soberbo, é inchado com o seu próprio espírito contra Deus...
9. "Não desvies de mim a Tua Face." Desviaste-a de mim quando eu era soberbo. Pois outrora eu estava cheio, e na minha plenitude fui inchado. Outrora, "na minha plenitude, disse eu: Jamais serei abalado." "Disse eu, na minha plenitude: não serei abalado", não conhecendo a Tua Justiça, e estabelecendo a minha própria; mas "Tu, Senhor, na Tua vontade, deste fortaleza à minha formosura." "Disse eu, na minha plenitude: não serei abalado", mas de Ti provinha toda a plenitude que eu tinha. E para provar-me que era de Ti, "desviaste de mim a Tua Face, e fiquei perturbado." Depois desta perturbação, em que fui lançado, porque desviaste a Tua Face, depois da fadiga do meu espírito, depois que o meu coração se perturbou dentro de mim, porque desviaste a Tua Face, então me tornei "como terra sem água para Ti: não desvies a Tua Face." Desviaste-a de mim quando soberbo; devolve-a a mim agora que sou humilde. Porque, se a desviares, "serei semelhante aos que descem à cova. Que é 'descer à cova'"? Quando o pecador chegou ao fundo dos pecados, ele mostrará desprezo. "Descem à cova" os que perdem até a confissão; contra o que se diz: "Não feche a cova a sua boca sobre mim." A esta profundeza chama a Escritura na maior parte "cova", à qual profundeza, quando chegou o pecador, "mostra desprezo." Que é "mostra desprezo"? Já não crê na Providência, ou, se crê, pensa que já não tem mais nada a ver com ela...
10. "Faze-me ouvir pela manhã a Tua misericórdia, pois em Ti tenho esperado" (v. 8). Eis que estou na noite, mas "em Ti tenho esperado", até que passe a iniquidade da noite. "Pois temos", como diz Pedro, "uma palavra profética mais segura, à qual bem fazeis em atender, como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que amanheça o dia, e a estrela da manhã se levante em vossos corações." "Manhã", pois, chama ele o tempo depois do fim do mundo, quando veremos o que neste mundo cremos. Mas que fazer aqui, até que a manhã venha? Pois não basta esperar a manhã; devemos fazer algo. Por que fazer algo? Deus há de ser buscado com as mãos na noite. Que é "com as mãos"? Por boas obras. Já que devemos, pois, assim esperar a manhã, e suportar esta noite, e perseverar nesta paciência até que o dia amanheça, que devemos fazer aqui entretanto? Para que porventura não penses que farás algo de ti mesmo, pelo qual mereças ser conduzido à manhã. "Faze-me conhecer, ó Senhor, o caminho em que devo andar." Por isso acendeu Ele a lâmpada da profecia, por isso enviou o Senhor no vaso, por assim dizer, da carne, Aquele que ainda diria: "A minha força secou-se como um caco." Anda pela profecia, anda pela lâmpada das coisas futuras preditas, anda pela palavra de Deus...
11. "Livra-me dos meus inimigos, Senhor, pois a Ti me refugiei" (v. 9). Eu que outrora fugia de Ti, agora fujo para Ti. Pois Adão fugiu da Face de Deus, e escondeu-se entre as árvores do Paraíso, de modo que dele se disse no Livro de Jó: "Como servo que foge do seu Senhor, e encontra uma sombra." Fugiu ele da Face do seu Senhor, e encontrou uma sombra. Ai dele, se permanecer na sombra, para que não se diga depois: "Todas as coisas passaram como sombra." Os príncipes deste mundo, desta escuridão, os príncipes dos ímpios; contra estes vós lutais. Grande é o vosso combate, não ver os vossos inimigos, e contudo vencer. Contra os príncipes deste mundo, desta escuridão, o demônio, isto é, e seus anjos — não os príncipes daquele mundo, do qual se diz "o mundo foi feito por Ele", mas aquele mundo do qual se diz "o mundo não O conheceu." "Pois a Ti me refugiei."... Para onde fugiria eu? "Para onde iria eu, longe do Teu Espírito?"
"Ensina-me a fazer a Tua vontade, pois Tu és o meu Deus" (v. 10). Confissão gloriosa! regra gloriosa! "Pois Tu," diz ele, "és o meu Deus." Para outro apressar-me-ei a ser refeito, se por outro fui feito. Tu és o meu tudo, "pois Tu és o meu Deus." Buscarei um pai para obter uma herança? "Tu és o meu Deus," não somente o Doador da minha herança, mas a minha própria Herança. "O Senhor é a porção da minha herança." Buscarei um patrono, para alcançar a redenção? "Tu és o meu Deus." Por fim, tendo sido criado, desejo ser recriado? "Tu és o meu Deus," meu Criador, que me criaste por Teu Verbo, e me recriaste por Teu Verbo. "Ensina-me Tu": pois não pode ser que Tu sejas o meu Deus, e contudo eu seja meu próprio senhor. Vede como a graça nos é recomendada. Guardai isto firmemente, bebei isto, que ninguém o expulse de vossos corações, para que não tenhais "zelo de Deus, mas não segundo a ciência." Dizei, pois, isto: "Teu bom Espírito," não o meu mau, "Teu bom Espírito me conduzirá à terra reta." Pois o meu mau espírito me conduziu a uma terra tortuosa. E que mereci eu? Que se poderia contar como minhas boas obras sem o Teu auxílio, por meio do qual eu pudesse obter e ser digno de ser conduzido por Teu Espírito à terra reta?
Ouvi, pois, com toda a vossa força, a recomendação da Graça, pela qual sois salvos sem preço. "Por causa do Teu Nome, ó Senhor, Tu me vivificarás em Tua justiça" (v. 11); não na minha, não porque tenha merecido, mas porque Tu tens misericórdia. Pois se eu fosse mostrar o meu próprio mérito, nada mereceria de Ti, senão o castigo. Tu podaste de mim os meus próprios méritos; enxertaste em mim os Teus próprios dons. "Tirarás a minha alma da tribulação." "E em Tua misericórdia levarás os meus inimigos à destruição: e destruirás todos os que afligem a minha alma; pois eu sou Teu servo" (v. 12).
"Bendito seja o Senhor meu Deus, que ensina as minhas mãos para a batalha, os meus dedos para a guerra" (v. 1). Estas são as nossas palavras, se somos o Corpo de Cristo. Parece uma repetição de sentido; "as nossas mãos para a batalha" e "os nossos dedos para a guerra" são a mesma coisa. Ou há alguma diferença entre "mãos" e "dedos"? Certamente, tanto as mãos quanto os dedos operam. Não é, pois, sem razão que tomamos "dedos" como posto por "mãos." Mas ainda nos "dedos" reconhecemos a divisão da operação, e contudo ainda uma certa unidade. Eis aquela graça! diz o Apóstolo: A um, isto; a outro, aquilo; "há diversidades de operações; mas é um mesmo e único Espírito que opera todas estas coisas"; aí está a raiz da unidade. Com estes "dedos," pois, combate o Corpo de Cristo, saindo para a "guerra," saindo para a "batalha." ...Pelas obras de Misericórdia é vencido o nosso inimigo, e não poderíamos ter obras de misericórdia se não tivéssemos caridade, e caridade nenhuma poderíamos ter se não a recebêssemos pelo Espírito Santo; Ele, pois, "ensina as nossas mãos para a batalha, e os nossos dedos para a guerra": a Ele com razão dizemos, "Minha Misericórdia," de quem também recebemos o sermos misericordiosos: "pois terá juízo sem misericórdia aquele que não usou de misericórdia."
O título deste Salmo é breve no número de palavras, mas pesado no peso de seus mistérios. "A Davi, contra Golias." Esta batalha foi travada no tempo de nossos pais, e vós, amados, recordai-a comigo a partir da Sagrada Escritura. ...Davi pôs cinco pedras em seu alforje, mas lançou apenas uma. Os cinco Livros foram escolhidos, mas a unidade venceu. Então, tendo-o ferido e derrubado, tomou a espada do inimigo, e com ela lhe cortou a cabeça. Isto fez também o nosso Davi: derrubou o diabo com as suas próprias armas; e quando os seus grandes, que ele tinha em seu poder, por meio dos quais matava outras almas, creem, voltam as suas línguas contra o diabo, e assim é cortada a cabeça de Golias com a sua própria espada.
"Minha Misericórdia e meu Refúgio, meu Sustentáculo e meu Libertador" (v. 2). Muito labuta este combatente, tendo a sua carne a cobiçar contra o seu espírito. Guarda o que tens. Então terás em plenitude o que desejas, quando "a morte for tragada na vitória"; quando este corpo mortal for ressuscitado, e mudado para a condição dos anjos, e se erguer para uma qualidade celestial. ...Ali há vida, ali há bons dias, onde nada cobiça contra o espírito, onde não se diz "Combate," mas "Alegra-te." Mas quem é aquele que anseia por estes dias? Certamente todo homem diz: "Eu." Ouve o que se segue. Vejo que labutas, vejo que estás empenhado em batalha, e em perigo; ouve o que se segue: ..."Aparta-te do mal, e faze o bem": que o pobre não chore primeiro debaixo de ti, para que o pobre se alegre por meio de ti. Por que recompensa, já que agora combates? "Busca a paz, e segue-a." Aprende e dize: "Minha Misericórdia e meu Refúgio, meu Sustentáculo e meu Libertador, meu Protetor": "meu Sustentáculo," para que eu não caia; "meu Libertador," para que eu não fique preso; "meu Protetor," para que eu não seja ferido. Em todas estas coisas, em toda a minha labuta, em todas as minhas batalhas, em todas as minhas dificuldades, n'Ele esperei, "que subjuga o meu povo debaixo de mim." Eis que a nossa Cabeça fala juntamente conosco.
"Senhor, que é o homem, para que Te tenhas dado a conhecer a ele?" (v. 3). Tudo está incluído em "que Te tenhas dado a conhecer a ele." "Ou o filho do homem, para que o estimes?" Tu o estimas, isto é, Tu o fazes de tal importância, Tu o consideras de tal preço, Tu sabes sob que o colocas, sobre que o colocas. Pois estimar é considerar o preço de uma coisa. Quão grandemente estimou Ele o homem, Ele que por ele derramou o sangue de Seu Filho unigênito! Pois Deus não estima o homem da mesma maneira que um homem estima outro: este, quando encontra um escravo à venda, dá preço mais alto por um cavalo do que por um homem. Considera quão grandemente Ele te estimou, para que possas dizer: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" E quão grandemente Ele te estimou, "Ele que não poupou o Seu próprio Filho"? "Como não nos dará também com Ele, gratuitamente, todas as coisas?" Aquele que dá este alimento ao combatente, o que reserva Ele para o vencedor? ...
"O homem é feito semelhante à vaidade: os seus dias passam como uma sombra" (v. 4). Que vaidade? O tempo, que passa e escoa. Pois esta "vaidade" se diz em comparação com a Verdade, que permanece sempre, e nunca falha: pois também ela é obra de Sua Mão, em seu grau. "Pois," como está escrito, "Deus encheu a terra com os Seus bens." Que quer dizer "Seus"? Os que estão em conformidade com Ele. Mas todas estas coisas, sendo terrenas, fugazes, transitórias, se comparadas àquela Verdade, onde se diz "Eu Sou Aquele Que Sou," tudo isto que passa se chama "vaidade." Pois com o tempo se esvanece, como o golpe no ar. E por que diria eu mais do que aquilo que disse o Apóstolo Tiago, querendo reduzir os homens soberbos à humildade: "Que é," diz ele, "a vossa vida? É, na verdade, um vapor, que aparece por um pouco de tempo, e depois se desvanece." ...Trabalha, pois, ainda que seja de noite, com as tuas mãos, isto é, por boas obras busca a Deus, antes que venha o dia que há de te alegrar, para que não venha o dia que há de te entristecer. Pois vê quão seguramente trabalhas, tu que não és abandonado por Aquele a quem buscas; "para que teu Pai, que vê em secreto, te recompense abertamente." ...
"Senhor, inclina os Teus céus, e desce: toca os montes, e fumegarão" (v. 5). "Faze relampejar o Teu raio, e os dispersarás; envia as Tuas setas, e os confundirás" (v. 6). "Envia a Tua Mão desde o alto, e livra-me, e tira-me de muitas águas" (v. 7). O Corpo de Cristo, o humilde Davi, cheio de graça, apoiado em Deus, combatendo neste mundo, clama pelo auxílio de Deus. Que são os "céus inclinados"? Os Apóstolos humilhados. Pois aqueles "céus declaram a glória de Deus"; e destes céus que declaram a glória de Deus logo se diz: "Não há discurso nem linguagem, mas as suas vozes são ouvidas entre eles," etc. Quando, pois, estes céus enviaram as suas vozes por todas as terras, e fizeram coisas maravilhosas, enquanto o Senhor relampejava e trovejava a partir deles por meio de milagres e mandamentos, pensava-se que os deuses tinham descido do céu aos homens. Pois alguns dos gentios, pensando isto, desejaram até sacrificar-lhes. ...Mas eles recomendavam a estes o Senhor Jesus Cristo, humilhando-se a si mesmos, para que Deus fosse louvado; porque os "céus" foram "inclinados," para que "Deus" pudesse "descer." ..."Toca os montes, e fumegarão." Enquanto não são tocados, parecem grandes a si mesmos: eles estão agora prestes a dizer, "Grande és Tu, ó Senhor": também os montes estão prestes a dizer, "Só Tu és o Altíssimo sobre toda a terra."
Mas há alguns que conspiram, que "se ajuntam contra o Senhor e contra o seu Cristo". Ajuntaram-se, conspiraram. "Lança os teus relâmpagos, e os dispersarás." Abunda com os teus milagres, e a conspiração deles será quebrada... "Envia as tuas flechas, e os confundirás." Sejam feridos os que não têm saúde, para que, bem feridos, sejam sarados; e digam eles, já postos agora na Igreja, no Corpo de Cristo, digam com a Igreja: "Estou ferido de amor." "Envia a tua mão desde o alto." E depois? E ao fim? Como vence o Corpo de Cristo? Pelo auxílio celestial. "Porque o próprio Senhor descerá do céu com brado de arcanjo, e com a trombeta de Deus", Ele mesmo o Salvador do corpo, a Mão de Deus. Que quer dizer "das muitas águas"? De muitos povos. Que povos? Estranhos, incrédulos, quer nos assaltem de fora, quer nos armem ciladas por dentro. Tira-me das muitas águas, nas quais me disciplinaste, nas quais me revolveste, para livrar-me da minha imundície. Esta é a "água da contradição"... "Da mão dos filhos alheios." Ouvi, irmãos, entre os quais estamos, entre os quais vivemos, dos quais anelamos ser livres. "Cuja boca falou vaidade" (v. 8). Todos vós, hoje, se não vos tivésseis ajuntado a estes divinos espetáculos da palavra de Deus, e não estivésseis a esta hora ocupados neles, quantas vaidades estaríeis ouvindo! "Cuja boca falou vaidade": quando, em suma, eles, falando vaidade, ouviriam a vós falando vaidade? "E a sua destra é destra de iniquidade." Que fazes tu entre eles com o teu alforje pastoral, com as suas cinco pedras dentro? Dize-mo de outra forma: aquela mesma lei que significaste por cinco pedras, significa-a também de outro modo. "Cantar-te-ei um cântico novo, ó Deus" (v. 9). "Cântico novo" é da graça; "cântico novo" é do homem novo; "cântico novo" é do Novo Testamento. Mas para que não penses que a graça se aparta da lei, quando antes pela graça a lei se cumpre, "sobre o saltério de dez cordas te cantarei". Sobre a lei dos dez mandamentos: nela possa eu cantar-te; nela possa alegrar-me em ti; nela possa "cantar-te um cântico novo"; pois "o amor é o cumprimento da lei". Mas os que não têm amor podem levar o saltério, cantar não podem. A contradição não pode fazer calar o meu saltério.
8. "Que dá salvação aos reis, que redime a Davi seu servo" (v. 10). Sabeis quem é Davi; sede vós mesmos Davi. Donde "redime Ele a Davi seu servo"? Donde redime Ele a Cristo? Donde redime Ele o Corpo de Cristo? "Da espada de má intenção livra-me." "Da espada" não basta; acrescenta, "de má intenção". Sem dúvida há uma espada de boa intenção. Que é a espada de boa intenção? Aquela de que o Senhor diz: "Não vim trazer paz à terra, mas espada." Pois Ele estava para separar os crentes dos incrédulos, os filhos dos pais, e cortar todos os demais laços, enquanto a espada extirpava o que estava doente, mas sarava os membros de Cristo. De boa intenção é, pois, a espada duplamente afiada, poderosa com ambos os gumes, o Antigo e o Novo Testamento, com a narração do passado e a promessa do futuro. Esta, pois, é a espada de boa intenção; mas a outra é de má intenção, com a qual falam vaidade, pois aquela é de boa intenção, com a qual Deus fala a verdade. Pois verdadeiramente "os filhos dos homens têm dentes que são lanças e flechas, e a sua língua é espada afiada". "Desta espada livra-me" (v. 11). "E tira-me da mão dos filhos alheios, cuja boca falou vaidade": assim como antes. E o que se segue, "a sua destra é destra de iniquidade", o mesmo já havia posto antes, quando os chamou "muitas águas". Pois para que não penses que as "muitas águas" eram águas boas, explicou-as pela "espada de má intenção".
9. "Cujos filhos são como novas plantas, firmemente arraigadas na sua juventude" (v. 12). Deseja recontar a felicidade deles. Observai, filhos da luz, filhos da paz; observai, filhos da Igreja, membros de Cristo; observai a quem ele chama "estranhos", a quem chama "filhos alheios", a quem chama "águas de contradição", a quem chama "espada de má intenção". Observai, peço-vos, pois entre eles estais em perigo, entre as suas línguas combateis contra os desejos da vossa carne, entre as suas línguas, postas na mão do diabo, com que ele combate... Que vaidade falou a boca deles, e como é a sua destra destra de iniquidade? "As suas filhas são compostas e adornadas à semelhança de um templo." "Os seus celeiros estão cheios, transbordando de um depósito a outro; as suas ovelhas são fecundas, multiplicando-se nas suas ruas" (v. 13); "os seus bois são gordos; a sua cerca não está derrubada, nem o seu caminho, nem há clamor nas suas ruas" (v. 14). Não é isto, pois, felicidade? Pergunto aos filhos do reino dos céus, pergunto à descendência da ressurreição eterna, pergunto ao corpo de Cristo, aos membros de Cristo, ao templo de Deus. Não é isto, pois, felicidade: ter filhos salvos, filhas belas, celeiros cheios, gado abundante, nenhuma queda, não digo de um muro, mas nem sequer de uma cerca, nenhum tumulto e clamor nas ruas, mas quietude, paz, abundância, fartura de todas as coisas em suas casas e em suas cidades? Não é isto, pois, felicidade? Ou deve o justo evitá-la? Ou não achas tu a casa do justo também abundante de todas estas coisas, cheia desta felicidade? Não abundou a casa de Abraão em ouro, prata, filhos, servos, gado? Que diremos? Não é isto felicidade? Seja assim, ainda está à mão esquerda. Que é, à mão esquerda? Temporal, mortal, corporal. Não desejo que a evites, mas que não a tenhas por mão direita... Pois que deviam eles ter posto à mão direita? Deus, a eternidade, os anos de Deus que não faltam, dos quais se diz: "e os teus anos não faltarão." Ali deve estar a mão direita, ali deve estar o nosso anelo. Usemos a esquerda por algum tempo; anelemos pela luta para a eternidade. "Se as riquezas aumentarem, não ponhais nelas o coração."
10. "Chamaram bem-aventurado ao povo que tem estas coisas" (v. 15). Ó homens que falais vaidade! Perderam a verdadeira destra, ímpios e perversos, puseram os benefícios de Deus de modo invertido. Ó ímpios, ó faladores de vaidade, ó filhos alheios! O que estava à mão esquerda, puseram-no à direita. Que fazes tu, Davi? Que fazes tu, Corpo de Cristo? Que fazeis vós, membros de Cristo? Que fazeis vós, não filhos alheios, mas filhos de Deus?... Que dizeis vós? Dizei conosco: "Bem-aventurado o povo cujo Senhor é o seu Deus."
1. ...O título é: "Louvor, ao próprio Davi." Louvor ao próprio Cristo. E, visto que se chama Davi aquele que veio a nós da semente de Davi, sendo, contudo, nosso Rei, governando-nos e conduzindo-nos ao seu reino, entende-se, pois, que "Louvor ao próprio Davi" significa Louvor ao próprio Cristo. Cristo, segundo a carne, é Davi, porque é Filho de Davi; mas, segundo a sua Natureza Divina, é o Criador de Davi e Senhor de Davi. "Exaltar-te-ei, meu Deus, meu Rei; e bendirei o teu Nome pelo século, e século sobre século" (v. 1). Vedes que aqui se começa o louvor de Deus, e este louvor se prossegue até ao fim do Salmo... Ora, começa então a louvar, se pretendes louvar para sempre. Aquele que não quiser louvar neste "século" transitório calar-se-á quando vier "século sobre século". Mas, para que ninguém entenda de outro modo o que ele diz, "louvarei o teu Nome pelo século", e busque outro século em que louvar, diz ele: "Todo dia te bendirei" (v. 2). Louva, pois, e bendize ao Senhor teu Deus todo dia, para que, passados os dias singulares, e vindo um dia sem fim, possas ir de louvor em louvor, como "de força em força". Nenhum dia há de passar em que eu não te bendiga. E não é de admirar se, no teu dia de alegria, bendizes ao Senhor. Mas, e se porventura te tiver amanhecido algum dia de tristeza, como é natural nas circunstâncias da nossa natureza mortal, como há abundância de ofensas, como se multiplicam as tentações; e se algo triste te suceder, ó homem, hás de cessar de louvar a Deus? Hás de cessar de bendizer ao teu Criador? Se cessares, mentiste ao dizer "todo dia", etc. Mas se não cessares, ainda que te pareça que vai mal contigo no dia da tua tristeza, contudo em teu Deus há de ir bem contigo...
2. "Grande é o Senhor, e muito digno de louvor" (v. 3). Quanto estava ele para dizer? Que termos estava para buscar? Quão vasto conceito encerrou na única palavra "muito"? Imagina o que quiseres, pois como se pode imaginar o que não se pode conter? "Muito digno de louvor é Ele. E da sua Grandeza não há fim"; por isso disse "muito": para que porventura não comeces a querer louvar e penses que podes alcançar o fim dos seus louvores, cuja Grandeza não pode ter fim. Não penses, pois, que Aquele cuja Grandeza não tem fim possa alguma vez ser por ti suficientemente louvado. Não é, pois, melhor que, assim como Ele não tem fim, também o teu louvor não tenha fim? A sua Grandeza é sem fim; seja também sem fim o teu louvor...
3. Pois quão grandes coisas mais fez a sua Bondade sem limites e a sua Grandeza ilimitada, que nós não conhecemos! Quando levantamos o olhar dos nossos olhos até o céu, e depois o retiramos do sol, da lua e das estrelas para a terra, e há todo este espaço onde a nossa vista pode vaguear; além dos céus, quem pode estender a vista da sua mente, para não dizer da sua carne? Até onde, pois, nos são conhecidas as suas obras, louvemo-lo por meio das suas obras. "Geração e geração louvará as tuas obras" (v. 4). Toda geração louvará as tuas obras. Pois talvez por "geração e geração" se entenda toda geração... Ou quis ele talvez indicar duas gerações por essa repetição? Pois nesta geração somos filhos de Deus; em outra geração seremos filhos da Ressurreição. A Escritura chamou-nos "filhos da Ressurreição"; à própria Ressurreição chamou Regeneração. "Na regeneração", diz, "quando o Filho do Homem se assentar na sua Majestade." Assim também em outro lugar: "Pois não se casarão, nem serão dados em casamento, porque são filhos da Ressurreição." Portanto, "geração e geração louvará as tuas obras... e anunciarão a tua excelência". Pois não louvarão as tuas obras senão para "anunciar a tua excelência". Os meninos na escola são postos a louvar, e todas essas coisas lhes são propostas para serem louvadas, como Deus as fez: um mortal é posto a louvar o sol, o céu, a terra; para chegar a coisas ainda menores, a louvar uma rosa, ou um loureiro; todas essas são obras de Deus: são propostas, são empreendidas, são louvadas: louvam-se as obras, calam-se quanto ao Obreiro. Desejo, nas obras, louvar o Criador: não amo um louvador ingrato. Louvas o que Ele fez, e calas-te quanto a quem o fez? Naquilo que vês, que é que louvas? A forma, a utilidade, alguma virtude, algum poder nas coisas. Se a beleza te deleita, que há mais belo que o Feitor? Se se louva a utilidade, que há mais útil que Aquele que fez todas as coisas? Se se louva a excelência, que há mais excelente que Aquele por quem todas as coisas foram feitas?...
4. "Falarão da magnificência da glória da tua Santidade, e narrarão os teus feitos maravilhosos" (v. 5). "E a excelência das tuas obras terríveis falarão: e a tua grandeza, eles a relatarão" (v. 6). "A lembrança da abundância da tua doçura derramarão" (v. 7): nenhuma senão a tua. Vede se este homem, meditando nas tuas obras, se desviou do Obreiro para a obra: vede se ele desceu daquele que fez para as coisas que Ele fez. Das coisas que Ele fez, fez um degrau para subir a Ele, não uma descida dEle para elas. Pois se as amas mais que a Ele, não O terás. E que proveito te traz transbordar de obras, se o Obreiro te abandona? Verdadeiramente deverias amá-las; mas ama mais a Ele, e ama-as por causa dEle. Pois Ele não faz promessas sem também fazer ameaças: se não fizesse promessas, não haveria estímulo; se não fizesse ameaças, não haveria correção. Os que te louvam, pois, "falarão" também "da excelência das tuas obras terríveis"; a excelência daquela obra das tuas mãos que castiga e ministra disciplina, falarão dela, não se calarão: pois não hão de proclamar o teu reino eterno e calar-se quanto ao teu fogo eterno. Pois o louvor de Deus, colocando-te no caminho, deve mostrar-te tanto o que deves amar quanto o que deves temer; o que deves buscar, e o que deves evitar; o que deves escolher, e o que deves recusar. O tempo da escolha é agora; o tempo de receber será depois. Diga-se, pois, a excelência das tuas coisas terríveis. Por ilimitada que seja, ainda que "da tua grandeza não haja fim", não se calarão a respeito dela. Como a recontarão, se dela não há fim? Recontá-la-ão ao louvá-la; e, porque dela não há fim, também do seu louvor não haverá fim.
5. "A lembrança da abundância da tua doçura derramarão." Ó felizes banquetes! Que hão de comer os que assim hão de "derramar"!... Come, pois, de tal modo que possas derramar de novo; recebe de tal modo que possas dar. Comes, quando aprendes; derramas de novo, quando ensinas: comes, quando ouves; derramas de novo, quando pregas; mas derramas aquilo que primeiro comeste. Por fim, aquele avidíssimo convivial João, a quem nem a própria mesa do Senhor bastava, se não se reclinasse sobre o peito do Senhor, e do seu íntimo coração bebesse os segredos divinos; que derramou ele? "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus." Como não basta dizer "a tua lembrança", ou "a lembrança da tua abundância"? Porque de que aproveita que seja abundante, se não for doce? Assim também é enfadonho se for doce, mas demasiado pouco.
6. ...Derramando isto, os seus pregadores "exultarão na sua justiça", não na deles próprios. Que fizeste, pois, a nós, ó Senhor, a quem louvamos, para que sejamos, para que louvemos, para que "exultemos na tua justiça", para que "proclamemos a lembrança da abundância da tua doçura"? Digamo-lo, e, ao dizê-lo, louvemos.
7. «Misericordioso e compassivo é o Senhor, longânimo e grandemente misericordioso» (v. 8). «Suave é o Senhor para com todos, e as suas compaixões alcançam todas as suas obras» (v. 9). Se Ele não fosse assim, não haveria busca alguma para nos recobrar. Considera-te a ti mesmo: que merecias tu, ó pecador? Desprezador de Deus, que merecias? Vê se te ocorre algo além da pena, se te ocorre algo além do castigo. Vês, pois, o que te era devido, e o que Ele deu, Ele que deu gratuitamente. Foi dado ao pecador o perdão; foi dado o espírito da justificação; foi dada a caridade e o amor, pelos quais podes praticar todas as boas obras; e, além disso, dar-te-á também a vida eterna, e a comunhão com os anjos: tudo isso por sua misericórdia. ...Ouve a Escritura: «Não quero a morte do pecador, mas antes que se converta e viva». Por estas palavras de Deus, é ele reconduzido à esperança; mas há outra cilada a temer, a de que, por essa mesma esperança, peque ainda mais. Que dizes tu, então, ó tu que por causa da esperança pecas ainda mais? «Sempre que eu me converter, Deus me perdoará tudo; farei o que quiser». Não digas, pois: «Amanhã me converterei, amanhã agradarei a Deus, e todos os feitos de hoje e de ontem me serão perdoados». Dizes bem uma parte: Deus prometeu o perdão à tua conversão; mas não prometeu um amanhã à tua demora.
8. «Suave é o Senhor para com todos, e as suas compaixões estão sobre todas as suas obras». Por que, então, condena Ele? por que açoita? Não são acaso obras suas aqueles a quem condena, a quem açoita? Certamente que sim. E queres saber como «as suas compaixões estão sobre todas as suas obras»? Daí vem aquela longanimidade, pela qual «Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons». Não estão acaso «as suas compaixões sobre todas as suas obras», Ele que «faz chover sobre justos e injustos»? Em sua longanimidade, Ele espera pelo pecador, dizendo: «Convertei-vos a Mim, e Eu me converterei a vós». Não estão acaso «as suas compaixões sobre todas as suas obras»? E quando diz: «Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos», isto não é a sua compaixão, mas a sua severidade. A sua compaixão é dada às suas obras; a sua severidade não recai sobre as suas obras, mas sobre as tuas obras. Por fim, se removeres as tuas próprias obras más, e nada restar em ti senão a obra dEle, a sua compaixão não te deixará; mas, se não deixares as tuas obras, haverá severidade sobre as tuas obras, não sobre as obras dEle.
9. «Confessem-Te todas as tuas obras, ó Senhor, e bendigam-Te os teus santos» (v. 10). Como assim? Não é a terra obra sua? Não são as árvores obra sua? Os animais, as feras, os peixes, as aves, não são acaso obras suas? Certamente que também o são. E como poderão estas também confessar a Ele? Vejo, na verdade, nos anjos, que as suas obras Lhe confessam, pois os anjos são obras suas; e os homens são obras suas; e quando os homens Lhe confessam, as suas obras Lhe confessam; mas terão as árvores e as pedras voz de confissão? Sim, na verdade; «confessem-Lhe todas» as suas «obras». Que dizes tu? até a terra e as árvores? ...Mas surge a mesma questão a respeito do louvor, como a respeito da confissão. Pois, se a terra e todas as coisas destituídas de sensação não podem confessar, porque não têm voz com que confessar, tampouco poderão louvar, porque não têm voz com que proclamar. Mas não enumeram, acaso, aqueles Três Jovens todas as coisas, ao caminharem em meio às chamas inofensivas, eles que tiveram tempo não apenas para não temer, mas ainda para louvar a Deus? Dizem a todas as coisas, celestes e terrestres: «Bendizei ao Senhor, louvai-O e magnificai-O para sempre». Vede como louvam. Ninguém pense que a pedra muda ou o animal mudo têm razão com que compreender a Deus. Os que assim pensaram, erraram longe da verdade. Deus ordenou tudo, e fez tudo: a uns deu sentido, entendimento e imortalidade, como aos anjos; a outros deu sentido e entendimento com mortalidade, como ao homem; a outros deu sentido corporal, mas não lhes deu entendimento, nem imortalidade, como aos animais; a outros não deu nem sentido, nem entendimento, nem imortalidade, como às ervas, às árvores, às pedras: e, no entanto, nem estas podem faltar ao seu gênero, e por certos graus ordenou Ele a sua criação, da terra até o céu, do visível ao invisível, do mortal ao imortal. Este arcabouço da criação, esta beleza perfeitíssima ordenada, que ascende do mais baixo ao mais alto, que desce do mais alto ao mais baixo, jamais quebrada, mas temperada em conjunto por coisas dessemelhantes, tudo louva a Deus. Por que, pois, tudo louva a Deus? Porque, quando o consideras e vês a sua beleza, nela louvas a Deus. A beleza da terra é como que uma voz da terra muda. ...E isto que nela encontraste é a própria voz da sua confissão, para que louves o Criador. Quando pensaste na beleza universal deste mundo, não te responde a própria beleza, como que a uma só voz: «Não fui eu que me fiz, foi Deus que me fez»?
1. ...Eis que o Salmo ressoa; é a voz de alguém (e esse alguém sois vós, se o quiserdes), de alguém que exorta a sua alma a louvar a Deus, dizendo a si mesmo: «Louva ao Senhor, ó minha alma» (v. 1). Pois, algumas vezes, nas tribulações e tentações desta vida presente, quer queiramos quer não, a nossa alma se turba; dessa perturbação fala ele em outro Salmo. Mas, para remover essa perturbação, sugere-lhe a alegria; não ainda em realidade, mas em esperança; e diz-lhe, quando turbada e ansiosa, triste e pesarosa: «Espera em Deus, pois ainda O confessarei». ...
2. Mas quem o diz, e a quem o diz? Que diremos, irmãos? É a carne que diz: «Louva tu ao Senhor, ó minha alma»? E pode a carne sugerir bom conselho à alma? Por mais que a carne seja vencida, e sujeitada como serva a nós pela força que o Senhor concede, de modo que nos sirva inteiramente como escrava, basta-nos que não nos estorve. ...Pois o corpo, enquanto corpo, está mesmo abaixo da alma; e toda alma, por mais vil que seja, se encontra mais excelente que o mais excelente dos corpos. E não vos pareça isto coisa espantosa, que até uma alma vil e pecadora seja melhor que qualquer corpo grande e sobremodo excelente. É melhor, não em méritos, mas em natureza. A alma, na verdade, é pecadora, está manchada de certas imundícies das concupiscências; mas o ouro, ainda que enferrujado, é melhor que o chumbo mais polido. Percorra, pois, a vossa mente cada parte da criação, e vereis que não é incrível o que dizemos, a saber, que uma alma, por mais censurável que seja, é ainda mais louvável que um corpo louvável. Há duas coisas, uma alma e um corpo. A alma repreendo, o corpo louvo: a alma repreendo, porque é pecadora; o corpo louvo, porque é são. Mas é em seu próprio gênero que louvo a alma, e em seu próprio gênero que a censuro; e assim, em seu próprio gênero louvo o corpo, ou o censuro. Se me perguntares qual é melhor, o que censurei ou o que louvei, admirável será a resposta que receberás. ...Assim falas do melhor cavalo e do pior homem: mas preferes o homem que censuraste ao cavalo que louvaste. ...A natureza da alma é mais excelente que a natureza do corpo: supera-a de muito, é coisa espiritual, incorpórea, aparentada à substância de Deus. É de certo modo invisível, governa o corpo, move os membros, guia os sentidos, prepara os pensamentos, produz as ações, recebe em si as imagens de inúmeras coisas; quem, enfim, amados irmãos, bastaria para os louvores da alma? E, no entanto, tal é a graça que lhe foi dada, que este homem diz: «Louva ao Senhor, ó minha alma». ...Não é a carne que o diz. Ainda que o corpo fosse angélico, ainda assim seria inferior à alma, não pode dar conselho ao que lhe é superior. A carne, quando devidamente obediente, é a serva da alma: a alma governa, o corpo obedece; a alma ordena, o corpo executa; como, pois, poderia a carne dar este conselho à alma? Será, então, porventura, a própria alma que fala a si mesma, e de certo modo a si mesma se ordena, se exorta e se interroga? Pois, por certas paixões, em uma parte de sua natureza vacilava; mas em outra parte, que chamam mente racional, a sabedoria pela qual pensa, apegando-se a Deus, e agora suspirando por Ele, percebe que certas partes inferiores de si mesma são perturbadas por emoções mundanas, e por certa agitação de desejos terrenos se voltam para as coisas exteriores, deixando a Deus, que está dentro; assim ela se chama de volta das coisas exteriores para as interiores, das inferiores para as superiores, e diz: «Louva ao Senhor, ó minha alma». ...A própria alma se aconselha a si mesma, a partir da luz de Deus, pela mente racional, pela qual concebe a sabedoria fixada na natureza eterna de seu Autor. Lê ali algo que deve ser temido, louvado, amado, desejado e buscado: ainda não o apreende, ainda não o compreende; fica, por assim dizer, deslumbrada com o esplendor; não tem força para ali permanecer. Por isso se recolhe, como que a um estado são, e diz: «Louva ao Senhor, ó minha alma». ...E então a alma, como que sobrecarregada, e incapaz de erguer-se como convém, responde à mente: «Louvarei ao Senhor em minha vida» (v. 2). Que quer dizer «em minha vida»? Porque agora estou em minha morte. Portanto, exorta-te primeiro a ti mesma, e dize: «Louva ao Senhor, ó minha alma». Responde-te a tua alma: louvo, sim, quanto posso, pouco, pobremente, fracamente. Por quê? Porque «enquanto estamos no corpo, estamos ausentes do Senhor». ...
3. «Em minha vida». Ora, o que tem ela? Poderia responder-te: «Minha morte». De onde, «minha morte»? porque estou ausente do Senhor. Pois, se apegar-se a Ele é vida, apartar-se dEle é morte. Mas o que te consola? A esperança. Vives agora em esperança: em esperança louva, em esperança canta. A tua morte provém da tristeza desta vida, tu vives na esperança de uma vida futura. E como louvarás ao teu Senhor? «Cantarei ao meu Deus enquanto eu existir». Que espécie de louvor é este, «cantarei ao meu Deus enquanto eu existir»? Vede, meus irmãos, que espécie de existência será esta; onde houver louvor eterno, haverá também existência eterna. Vede, agora tens existência: cantas a Deus enquanto tens existência? Eis que estavas cantando, e te desviaste para algum negócio, já não cantas, mas ainda tens existência: tens existência, mas não cantas. Pode ser também que o teu desejo te desvie para algo; não só não cantas, como até ofendes os seus ouvidos, e ainda assim tens existência. Que louvor será aquele em que louvarás enquanto existires? Mas que significa «enquanto eu existir»? Haverá algum tempo em que ele não existirá? Antes, pelo contrário, aquele «enquanto» será eterno, e por isso será verdadeiramente «longo». Pois tudo o que tem fim no tempo, por mais prolongado que seja, ainda assim não é «longo». ...
4. «Não ponhais a vossa confiança em príncipes» (v. 3). Irmãos, recebemos aqui uma grande tarefa; é uma voz do céu, do alto ela nos ressoa. Pois agora, por certa fraqueza, a alma do homem, sempre que se encontra aqui em tribulação, desespera de Deus e escolhe apoiar-se no homem. Diga-se a alguém, posto em alguma aflição: «Há um grande homem, por quem podes ser libertado»; ele sorri, alegra-se, exalta-se. Mas, se lhe é dito: «Deus te liberta», ele se resfria, por assim dizer, de desespero. Promete-se-te o auxílio de um mortal, e tu te alegras; promete-se-te o auxílio do Imortal, e ficas triste? Promete-se-te que serás liberto por quem precisa ser liberto contigo, e tu exultas, como se fosse grande auxílio: promete-se-te aquele Libertador, que de ninguém precisa para ser libertado, e tu desesperas, como se fosse apenas uma fábula. Ai de tais pensamentos: eles vagueiam longe; verdadeiramente há neles triste e grande morte. Aproxima-te, começa a desejar, começa a buscar e a conhecer Aquele por quem foste feito. Pois Ele não abandonará a sua obra, se não for abandonado por sua obra.
5. ..."Sairá o seu espírito, e ele voltará à sua terra: naquele dia perecerão todos os seus pensamentos" (v. 4). Onde está a soberba? onde está o orgulho? onde está a jactância? Mas talvez tenha ele passado a um bom lugar, se é que passou. Pois não sei para onde passou aquele que assim falou. Porque falou com soberba; e não sei para onde passam tais homens, senão que olho para outro Salmo, e vejo que a sua passagem é má. "Vi o ímpio exaltado acima dos cedros do Líbano, e passei, e eis que já não era; procurei-o, e não se achou o seu lugar." O homem bom, que passou e não encontrou o ímpio, chegou a um lugar onde o ímpio não está. Por isso, irmãos, ouçamos todos: irmãos, amados de Deus, ouçamos todos; em qualquer tribulação, em qualquer desejo do dom celestial, "não confiemos em príncipes, nem em filhos dos homens, em quem não há salvação." Tudo isto é mortal, fugaz, perecível.
Que devemos, pois, fazer, se não devemos esperar nos filhos dos homens, nem nos príncipes? Que devemos fazer? «Bem-aventurado aquele cujo Auxiliador é o Deus de Jacó» (v. 5): não este homem ou aquele homem; não este anjo ou aquele anjo; mas «bem-aventurado aquele cujo Auxiliador é o Deus de Jacó»: pois também a Jacó foi Ele tão grande Auxiliador, que de Jacó o fez Israel. Ó poderoso auxílio! agora ele é Israel, «que vê a Deus». Enquanto, pois, estás colocado aqui, e peregrino ainda não vendo a Deus, se tens o Deus de Jacó por teu Auxiliador, de Jacó te tornarás Israel, e serás «vidente de Deus», e todo trabalho e todos os gemidos terão fim, cessarão os cuidados que corroem, sucederão os louvores felizes. «Bem-aventurado aquele cujo Auxiliador é o Deus de Jacó»; deste Jacó. Por que é ele feliz? Entretanto, enquanto ainda geme nesta vida, «a sua esperança está no Senhor seu Deus». ...Quem é este, «o Senhor seu Deus»? ...«Para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e um só Senhor Jesus Cristo, por quem são todas as coisas». Seja Ele, pois, a tua esperança, o Senhor teu Deus; nEle esteja a tua esperança. Também tem a sua esperança no seu senhor deus aquele que adora Saturno; tem a sua esperança no seu senhor deus aquele que adora Netuno ou Mercúrio; sim, mais ainda acrescento, aquele que adora o próprio ventre, de quem se diz: «cujo deus é o ventre». O deus de um é um, o deus de outro é outro. Quem é este «bem-aventurado»? pois «a sua esperança está no Senhor seu Deus». Mas quem é Ele? «Que fez o céu e a terra, o mar, e tudo o que neles há» (v. 6). Meus irmãos, temos um grande Deus; bendigamos o seu santo Nome, porque Se dignou fazer-nos sua possessão. Ainda não vês a Deus; não podes amar plenamente o que ainda não vês. Tudo o que vês, Ele o fez. Admiras o mundo; por que não o Autor do mundo? Ergues os olhos para os céus, e te maravilhas: consideras toda a terra, e tremes; quando poderás conter em teu pensamento a vastidão do mar? Olha para o número incontável das estrelas, olha para todas as tantas espécies de sementes, para todas as diferentes sortes de animais, tudo o que nada na água, rasteja na terra, voa no céu, paira no ar; quão grandes são todas estas coisas, quão belas, quão formosas, quão admiráveis! Eis que Aquele que fez todas estas coisas é o teu Deus. Põe nEle a tua esperança, para que sejas feliz. «A sua esperança está no Senhor seu Deus». Considerai, meus irmãos, o Deus poderoso, o Deus bom, que faz todas estas coisas. ...Se mencionasse apenas estas coisas, talvez me responderias: «Deus, que fez o céu, a terra e o mar, é um grande Deus: mas pensa Ele em mim?» Ser-te-ia dito: «Ele te fez». Como assim? sou eu, porventura, o céu, ou a terra, ou o mar? Certamente é claro; não sou nem céu, nem terra, nem mar: mas estou na terra. Ao menos me concedes isto, que estás na terra. Ouve, pois, que Deus não fez somente o céu, a terra e o mar: pois Ele «fez o céu e a terra e o mar, e tudo o que neles há». Se, pois, Ele fez tudo o que neles há, também a ti Ele fez. É pouco dizer «a ti»; o pardal, o gafanhoto, o verme, nenhum destes deixou de fazer, e de todos cuida. O seu cuidado não se refere ao seu mandamento, pois este mandamento deu Ele somente ao homem. ...Quanto, pois, ao teor do mandamento, «Deus não cuida dos bois»: quanto ao seu cuidado providencial sobre o universo, pelo qual criou todas as coisas e governa o mundo, «Tu, Senhor, salvarás tanto os homens como os animais». Aqui, talvez, alguém me diga que «Deus não cuida dos bois» vem do Novo Testamento; e «Tu, Senhor, salvarás os homens e os animais» é do Antigo Testamento. Há alguns que censuram e dizem que estes dois Testamentos não concordam entre si. ...Ouçamos o próprio Senhor, Chefe e Mestre dos Apóstolos: «Considerai», diz Ele, «as aves do céu; não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros, e o vosso Pai celestial as alimenta». Portanto, mesmo além dos homens, estes animais são objeto do cuidado de Deus, para serem alimentados, não para receberem lei. Quanto, pois, ao dar a lei, «Deus não cuida dos bois»: quanto a criar, alimentar, governar, reger, todas as coisas dizem respeito a Deus. «Não se vendem dois pardais por um asse?», diz o nosso Senhor Jesus Cristo, «e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai: quanto mais valeis vós que eles». Talvez digas: Deus não me conta nesta grande multidão. Segue-se aqui uma passagem admirável no Evangelho: «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados».
6. «Que guarda a verdade para sempre». Que «verdade para sempre»? que «verdade» «guarda» Ele, e em que «a guarda para sempre»? «Que faz justiça aos que sofrem injúria» (v. 7). Ele vinga os que sofrem injúria. Vem-te logo à mente a voz do Apóstolo: «já é sem dúvida uma falta entre vós o litigardes uns com os outros: por que antes não sofreis a injúria?» Não te exortou a sofrer aborrecimento, mas a sofrer injúria: pois nem todo aborrecimento é injúria. Pois tudo o que sofres legitimamente não é injúria; para que não digas, porventura: também eu estou entre os que sofreram injúria, pois sofri tal coisa em tal lugar, e tal coisa por tal razão. Considera se sofreste uma injúria. Os ladrões sofrem muitas coisas, mas não sofrem injúria. Os homens maus, os malfeitores, os assaltantes de casas, os adúlteros, os sedutores, todos estes sofrem muitos males, e, no entanto, não há injúria. Uma coisa é sofrer injúria; outra é sofrer tribulação, ou pena, ou aborrecimento, ou castigo. Considera onde estás; vê o que fizeste; vê por que sofres; e então verás o que sofres. Direito e injúria são contrários. Direito é o que é justo. Pois nem tudo o que se chama direito é direito. E se alguém te apresentasse um direito injusto? nem sequer haveria de chamar-se direito, se é injusto. Aquele é o verdadeiro direito, que é também justo. Considera o que fizeste, não o que sofres. Se fizeste o que é direito, sofres injúria; se fizeste injúria, sofres o que é direito. ...
7. "Que dá alimento aos famintos." Eis que de ti nada espero: "Deus dá alimento aos famintos." Quem são "os famintos"? Todos. Que quer dizer, todos? A todos os seres que têm vida, a todos os homens Ele dá alimento: acaso não reserva Ele algum alimento para os Seus amados? Se estes têm outra espécie de fome, têm também outra espécie de alimento. Indaguemos primeiro qual seja a sua fome, e então encontraremos o seu alimento. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos." Devemos ser os famintos de Deus. ..."O Senhor solta os que estão presos; o Senhor levanta os abatidos; o Senhor dá sabedoria aos cegos" (v. 8). Perfeitamente, por esta última sentença, Ele nos explicou todas as anteriores: para que não viesse a acontecer que, tendo dito, "o Senhor solta os que estão presos," referíssemos isto àqueles presos que, por algum crime, são atados com ferros por seus senhores; e para que, ao dizer, "Ele levanta os abatidos," não nos ocorresse à mente algum que tropeça ou cai, ou é derrubado de um cavalo. Há outra espécie de queda, há outras espécies de grilhões, assim como há outras trevas e outra luz. Ao passo que disse, "Ele dá sabedoria aos cegos," não quis dizer, Ele iluminou os cegos, para que não entendesses isto também em referência à carne, como aquele homem foi iluminado pelo Senhor, quando Ele ungiu os seus olhos com lodo feito de saliva, e assim o curou: para que não buscasses algo desta natureza, quando Ele fala de coisas espirituais, aponta para uma espécie de luz de sabedoria, com a qual os cegos são iluminados. Portanto, do mesmo modo que os cegos são iluminados com a luz da sabedoria, assim os presos são libertados, e os abatidos são levantados. Em que, pois, fomos presos? Em que fomos abatidos? Nosso corpo outrora nos era um ornamento: agora, pecamos, e por isso nos foram postos grilhões. Quais são os nossos grilhões? A nossa mortalidade. ..."O Senhor ama os justos." E quem são os "justos"? Até que ponto são eles justos agora? Assim como tens; "o Senhor guarda os prosélitos" (v. 9). "Prosélitos" são estrangeiros. Toda Igreja das gentes é estrangeira. Pois vem até os Pais, não gerada da carne destes, mas filha deles por imitá-los. Contudo, é o Senhor, e não algum homem, quem os guarda. "Ao órfão e à viúva sustentará." Ninguém pense que Ele sustenta o órfão por causa de sua herança, ou a viúva por algum negócio dela. É verdade que Deus os ajuda; e em todos os deveres do gênero humano, faz boa obra aquele que cuida de um órfão, que não abandona uma viúva: mas, de certo modo, todos nós somos órfãos, não porque nosso Pai esteja morto, mas porque está ausente. ...
8. "E o caminho dos pecadores Ele destruirá." Que é, "o caminho dos pecadores"? Escarnecer destas coisas que dizemos. "Quem é órfão, quem é viúva? Que reino dos céus, que castigo do inferno há? São fábulas dos cristãos. Segundo o que vejo, assim viverei: "comamos e bebamos, pois amanhã morreremos." Guardai-vos de que tais homens vos persuadam de algo: que não entrem por vossos ouvidos até o vosso coração; que encontrem espinhos em vossos ouvidos; que aquele que assim busca entrar, saia trespassado: pois "as más companhias corrompem os bons costumes." Mas aqui talvez digas: "Por que, então, prosperam eles? Eis que não adoram a Deus, e cometem todo tipo de mal diariamente: contudo, abundam naquelas coisas, pela falta das quais eu labuto." Não tenhas inveja dos pecadores. O que recebem, tu vês; o que lhes está reservado, não vês. ...Não crerás sequer no Senhor teu Deus, que diz, "Larga e espaçosa é a via que leva à perdição, e muitos são os que por ela andam"? Este "caminho o Senhor destruirá." E, quando "o caminho dos pecadores" tiver sido "destruído," que nos resta? "Vinde, benditos de meu Pai, desfrutai do Reino;" "O Senhor reinará para sempre" (v. 10). "Ó Sião, o teu Deus" reinará para sempre; certamente o teu Deus não reinará sem ti. "Por geração e geração." Disse-o duas vezes, porque não pôde dizê-lo para sempre. E não penses que a eternidade se limita a palavras finitas. A palavra eternidade consiste em quatro sílabas; em si mesma é sem fim. Não pôde ser-te recomendada senão assim, "por geração e geração." Pouco demais disse ele: se o dissesse o dia inteiro, seria demasiado estreito; se o dissesse por toda a sua vida, não haveria, por fim, de calar-se? Ama a eternidade: sem fim reinarás, se Cristo for o teu Fim, com quem reinarás pelos séculos dos séculos. Amém.
1. Diz-se-nos, "Louvai ao Senhor" (v. 1). Isto se diz a todas as nações, não a nós somente. E estas palavras, proferidas em lugares diversos pelos Leitores, cada Igreja as ouve separadamente; mas é uma só e mesma Voz de Deus que a todos proclama que O louvemos. E como se perguntássemos por que devemos louvar ao Senhor, eis que razão Ele apresentou: "Louvai ao Senhor," diz ele, "porque um Salmo é bom." É esta toda a recompensa dos que louvam? ...O "Salmo" é louvor de Deus. Isto, pois, diz ele: "Louvai ao Senhor, porque é bom louvar ao Senhor." Não passemos assim ao largo do louvor do Senhor. Diz-se, e passou; faz-se, e calamos; louvamos, e depois descansamos; cantamos, e depois descansamos. Vamos a algum negócio que nos espera, e quando outras ocupações nos tomarem, cessará em nós o louvor de Deus? Não seja assim: tua língua louva apenas por um momento, que a tua vida louve sempre. Assim, pois, "um Salmo é bom."
2. Pois um "Salmo" é um canto, não qualquer canto, mas um canto ao saltério. O saltério é uma espécie de instrumento musical, como a lira e a harpa, e outros instrumentos dessa natureza, que foram inventados para a música. Aquele, pois, que canta Salmos, não canta somente com a voz, mas com certo instrumento além disso, que se chama saltério, acompanha a sua voz com as mãos. Queres, pois, cantar um Salmo? Que não seja apenas a tua voz a soar os louvores de Deus; mas que também as tuas obras estejam em harmonia com a tua voz. ...Para agradar, pois, ao ouvido, canta com a tua voz; mas com o teu coração não te cales, com a tua vida não fiques quieto. Não maquines fraude em teu coração: cantas um Salmo a Deus. Quando comeres e beberes, canta um Salmo: não intercalando sons doces ajustados ao ouvido, mas comendo e bebendo com moderação, frugalidade, temperança: pois assim diz o Apóstolo, "quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus." ...Se, por voracidade desmedida, ultrapassas os devidos limites da natureza, e te fartas em excesso de vinho, por maiores que sejam os louvores de Deus que a tua língua profira, todavia a tua vida O blasfema. Depois da comida e da bebida, deitas-te para dormir: em teu leito não cometas nenhuma poluição, nem vás além da licença dada pela lei de Deus: que o teu leito conjugal se conserve casto com a tua esposa; e se desejas gerar filhos, que não haja, contudo, desenfreada sensualidade de luxúria: em teu leito honra a tua esposa, pois ambos sois membros de Cristo, ambos por Ele feitos, ambos renovados pelo Seu Sangue: assim procedendo, louvas a Deus, nem ficará de todo silente o teu louvor. Que sucede, quando o sono te toma? Que uma má consciência não te desperte do repouso: assim a inocência do teu sono louva a Deus. ...
3. "Que os louvores sejam agradáveis ao nosso Deus." Como? Se Ele for louvado por nossas boas vidas. Ouve, pois, que o louvor Lhe será agradável. Em outro lugar se diz, "Não é decoroso o louvor na boca do pecador." Se, pois, na boca do pecador o louvor não é decoroso, tampouco é agradável, pois somente é agradável o que é decoroso. ...Pois o louvor pode ser agradável a um homem, quando este ouve alguém louvar com sentenças elegantes e engenhosas, e com voz doce; mas "que o louvor seja agradável ao nosso Deus," cujos ouvidos estão abertos não à boca, mas ao coração; não à língua, mas à vida de quem O louva.
4. Quem é "o nosso Deus," a quem o louvor há de ser agradável? Ele Se faz doce para nós, Ele Se recomenda a nós; graças à Sua condescendência. ..."Mas Deus recomenda o Seu amor para conosco" ..."em que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós." ...Vejamos se é esta a recomendação de que fala o Apóstolo, que Cristo morreu pelos pecadores e ímpios: "o Senhor que edifica Jerusalém, e reúne as dispersões de Israel" (v. 2). Pois o povo de Jerusalém é o povo de Israel. É a Jerusalém "eterna nos céus," da qual também os Anjos são cidadãos. ...Todos os cidadãos, pois, daquela cidade, por "verem a Deus," alegram-se naquela grande e vasta e celeste cidade; contemplam o próprio Deus. Mas nós somos peregrinos daquela cidade, expulsos pelo pecado, para que nela não permanecêssemos; oprimidos pela mortalidade, para que a ela não retornássemos. Deus voltou o olhar para a nossa peregrinação, e Ele, que "edifica Jerusalém," restaurou a parte que havia caído. Como restaurou Ele a parte que caíra? ...Enviou, pois, ao nosso estado de cativeiro o Seu Filho como Redentor. Toma contigo, disse Ele, uma bolsa, leva nela o preço dos cativos. Pois Ele revestiu-Se de nossa carne mortal, e nela estava o Sangue, pelo derramamento do qual havíamos de ser redimidos. Com esse Sangue Ele "reuniu as dispersões de Israel." E se Ele reuniu os que antes estavam dispersos, quanto mais devemos nós esforçar-nos para que se reúnam os que agora estão dispersos? Se os dispersos foram reunidos, para que na Mão do Edificador fossem formados na edificação, como não haveriam de ser reunidos os que, pela inquietação, caíram da Mão do Edificador? Eis a quem louvamos; eis a quem devemos louvor por toda a nossa vida.
5. Como Ele reúne? Que faz Ele para reunir? "Que sara os quebrantados de coração" (v. 3). Eis o modo pelo qual as dispersões de Israel são reunidas: pela cura dos quebrantados de coração. Os que não são de coração quebrantado não são curados. Que é quebrantar o coração? Que se saiba, irmãos, que se faça, para que possais ser curados. Pois em muitos outros lugares da Escritura se declara: ... "o sacrifício de Deus é o espírito atribulado; a coração quebrantado e contrito Deus não desprezará." Ele sara, pois, os quebrantados de coração, porquanto Se aproxima deles para curá-los; como se diz em outro lugar: "perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado." Quem são os que "têm o coração quebrantado"? Os humildes. Quem são os que não "têm o coração quebrantado"? Os soberbos. O coração quebrantado será curado; o coração inchado será derribado. Pois é para isto, talvez, que é derribado: para que, quebrantado, possa ser curado. Não deseje, pois, o nosso coração, irmãos, ser posto de pé antes de estar reto. É mal que se levante o que não foi primeiro corrigido. ...
6. Quais são os meios pelos quais Ele "liga as suas feridas"? Assim como os médicos ligam as fraturas. Pois algumas vezes (observai isto, amados; é bem conhecido daqueles que o observaram, ou o ouviram dos médicos), algumas vezes, quando os membros estão sãos, mas tortos e distorcidos, os médicos os quebram a fim de endireitá-los, e fazem uma nova ferida, porque a sanidade que estava distorcida era defeituosa. ...
7. Quais são estes meios pelos quais Ele liga? Os sacramentos desta vida presente, pelos quais entretanto obtemos o nosso consolo: e todas as palavras que vos dizemos, palavras que soam e passam, tudo o que se faz na Igreja neste tempo presente, são os meios pelos quais "Ele liga as nossas feridas." Pois assim como, quando o membro se tornou perfeitamente são, o médico tira a ligadura; assim também, na nossa própria cidade Jerusalém, quando formos feitos iguais aos Anjos, pensais vós que ali receberemos o que aqui recebemos? Será então necessário que o Evangelho nos seja lido, para que a nossa fé permaneça? ou que as mãos nos sejam impostas por algum Bispo? Todos estes são meios de ligar fraturas; quando tivermos alcançado a perfeita sanidade, serão tirados; mas jamais a alcançaríamos, se não fossem atadas.
8. "Que conta o número das estrelas, e a todas chama pelos seus nomes" (v. 4). Que grande coisa é para Deus "contar o número das estrelas"! Os próprios homens já se esforçaram por fazer isto; se foram capazes de consegui-lo, é problema deles; contudo, não o tentariam se não pensassem que haveriam de consegui-lo. Deixemos de lado o que eles podem fazer, e até onde chegaram; pois, para Deus, penso que não é grande coisa contar todas as estrelas. Ou porventura Ele percorre o número, para que não o esqueça? É grande coisa para Deus numerar as estrelas, Ele por quem "até os cabelos da vossa cabeça estão contados"? As estrelas são certas luzes na Igreja que consolam a nossa noite; delas todas diz o Apóstolo: "No meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual resplandeceis como luzeiros no mundo, retendo a palavra da vida." Estas estrelas Deus as conta; todos os que hão de reinar com Ele, todos os que hão de ser reunidos no Corpo de seu Filho unigênito, Ele os contou, e ainda os conta. Quem é indigno, nem sequer é contado. Muitos também creram, ou antes, podem, com uma espécie de aparência sombria de fé, ter-se apegado ao seu povo: contudo Ele sabe o que conta, o que peneira. Pois tão grande é a altura do Evangelho, que se cumpriu o que foi dito: "Anunciei e falei: eles se multiplicaram sobre número"; há então entre o povo certos supranumerários, por assim dizer. Que quero dizer com supranumerários? Mais do que ali estarão. Dentro destas paredes há mais do que haverá no reino de Deus, na Jerusalém celeste; estes estão acima do número. Considere cada um de vós se resplandece nas trevas, se recusa ser desviado pela escura iniquidade do mundo; se não for desviado, nem vencido, será, por assim dizer, uma estrela, que Deus já numera. "E chamando todas pelos seus nomes," diz ele. Nisto está toda a nossa recompensa. Que possamos ter certos nomes junto a Deus, que Deus conheça os nossos nomes, isto devemos desejar, para isto agir, com isto nos ocupar, na medida em que pudermos; não nos regozijar em outras coisas, nem mesmo em certos dons espirituais. ...Quando os discípulos voltaram da sua missão exultando, e dizendo: "Senhor, até os demônios se nos sujeitam em teu Nome" — então Ele (sabendo que muitos diriam: "não expulsamos demônios em teu Nome?", aos quais Ele haveria de dizer: "não vos conheço") disse: "Não vos alegreis nisto, que os demônios se vos sujeitam; antes vos alegrai, porque os vossos nomes estão escritos nos céus."
9. "Grande é o nosso Senhor" (v. 5). O Salmista se enche de alegria, derramou as suas palavras de modo admirável: e todavia algo não pôde exprimir, e como conseguiu sequer pensá-lo? "E grande é o seu poder, e do seu entendimento não há numeração." Aquele que "numera as estrelas" não pode Ele mesmo ser numerado. Quem pode expor isto? quem pode sequer imaginar dignamente o que se quer dizer com "e do seu entendimento não há número"? ...Seja, pois, o que for de infinito que este mundo contém, ainda que seja infinito para o homem, não o é para Deus: pouco é dizer, para Deus; até pelos anjos é numerado. O seu entendimento ultrapassa todos os calculadores; não pode ser contado por nós. Quem numera os próprios números? Que há, pois, junto a Deus? com que fez Ele todas as coisas, e onde fez Ele todas as coisas, a quem se diz: "Tu dispuseste todas as coisas em medida, número e peso"? Ou quem pode numerar, ou medir, ou pesar a própria medida, número e peso, nos quais Deus ordenou todas as coisas? Portanto, "do seu entendimento não há número." Calem-se as vozes humanas, aquietem-se os pensamentos humanos: que não se estendam às coisas incompreensíveis, como se pudessem compreendê-las, mas como se houvessem de participar delas, pois participantes seremos. ...Participantes, pois, seremos: ninguém duvide disto: a Escritura o diz. E de que seremos participantes, como se estas fossem partes em Deus, como se Deus estivesse dividido em partes? Quem, pois, pode explicar de que modo muitos se tornam participantes de uma única substância? Não exijas, então, aquilo que penso que vedes não poder ser dito convenientemente: mas volta à cura do Salvador, quebranta o teu coração. Ele o guiará, Ele o ligará onde estiver quebrado, Ele o tornará perfeitamente são; e então aquelas coisas não serão impossíveis para nós, que agora são impossíveis. Pois é bom que confesse a sua fraqueza aquele que deseja alcançar a natureza divina.
10. "O Senhor ampara os mansos" (v. 6). Por exemplo: tu não entendes, não consegues compreender, não podes alcançar: honra a Escritura de Deus, honra a Palavra de Deus, ainda que não seja clara: em reverência aguarda o entendimento. Não te atrevas a acusar a Escritura, seja de obscuridade, seja de aparente contradição. Nada há nela contraditório: algo há que é obscuro, não para que te seja negado, mas para que exercite aquele que depois há de recebê-lo. Quando, pois, é obscuro, isto é obra do Médico, para que batas. Ele quis que fosses exercitado em bater; Ele o quis, para que te abrisse quando batesses. Batendo, serás exercitado; exercitado, serás dilatado; dilatado, conterás o que te é dado. Não te indignes, pois, porque está fechado; sê brando, sê manso. Não recalcitres contra o que é obscuro, nem digas: Melhor se diria, se assim se dissesse. Pois como podes tu assim dizer, ou julgar como convém que se diga? Diz-se como convém que se diga. Não busque o doente emendar os seus remédios: o Médico sabe temperá-los; crê naquele que cuida de ti. Que se segue, pois, a isto? ..."O Senhor ampara os mansos, mas humilha os pecadores até à terra": Ele quis que se entendesse certa espécie de pecadores, a partir da mansidão mencionada primeiro. Por pecadores, pois, neste lugar, entendemos os ferozes, e os que não são mansos. Por que os "humilha até à terra"? Eles mordiscam os objetos do entendimento; hão de perceber somente coisas terrenas.
11. "Começai para com o Senhor pela confissão" (v. 7). Começa por isto, se queres chegar a um claro entendimento da verdade. Se hás de ser conduzido do caminho da fé à profissão da realidade, "começa pela confissão". Primeiro acusa-te a ti mesmo: acusa-te a ti mesmo, louva a Deus. Que se segue depois da confissão? Que se sigam as boas obras. "Cantai ao nosso Deus com a harpa." Que significa "com a harpa"? Como já expliquei, assim como o Salmo é "sobre o saltério", assim também é a "harpa": não somente com a voz, mas com as obras.
12. ...«Que cobre o céu com nuvens, que prepara chuva para a terra» (v. 8). Ora te alarmas, porque não podes ver o céu: quando tiver chovido, colherás fruto, e verás o céu límpido. Talvez o nosso Deus tenha feito isto. Pois se não tivéssemos a obscuridade da Escritura como ocasião, não vos diríamos essas coisas em que vos alegrais. Esta, pois, é talvez a chuva de que vos alegrais. Não seria possível que ela vos fosse expressa por nossa língua, se Deus não cobrisse com nuvens de figuras o céu das Escrituras. Para este fim quis Ele que as palavras dos Profetas fossem obscuras, para que os servos de Deus pudessem depois, interpretando-as, fazê-las fluir sobre os ouvidos e corações dos homens, a fim de que recebessem das nuvens de Deus a pinguidão do gozo espiritual. "Que faz crescer erva sobre os montes, e verdura para o serviço dos homens." Eis o fruto da chuva. "Que faz", diz ele, "crescer erva sobre os montes." Acaso não cresce também na baixada? Sim, mas é grande coisa que cresça "sobre os montes". ...Pois nada poderia ser mais estéril que os duros montes. "E erva para o serviço dos homens." Que "serviço"? Ouvi o próprio Paulo. "E nós mesmos", diz ele, "vossos servos por amor de Jesus Cristo." Aquele que disse: "Se vos semeamos as coisas espirituais, será muito que ceifemos as vossas coisas carnais?", disse também que era "servo". Pois somos vossos servos, irmãos. Nenhum de nós fale de si mesmo como se fosse maior que vós. Seremos maiores se formos mais humildes. "Mas quem quiser ser grande entre vós" (é dito do Senhor), "será vosso servo." Paulo, o Apóstolo, vivendo, na verdade, de seu próprio trabalho, recusou-se mesmo a receber "a erva dos montes"; escolheu passar necessidade; contudo, os montes davam "erva". Porque ele escolheu não receber, deveriam, portanto, os montes deixar de dar, e assim permanecer estéreis? O fruto é devido à chuva, o alimento é devido ao servo, como diz o Senhor: "Comei do que vos derem"; e para que não pensassem que davam algo de seu, acrescentou: "porque digno é o trabalhador do seu salário."
13. ...Acaba de ser lido: "Dá a todo aquele que te pedir"; e em outro lugar diz a Escritura: "Faça a esmola suar em tua mão, até que encontres um homem justo a quem dá-la." Há alguém que te busca, outro deves tu buscar. Não deixes, na verdade, vazio aquele que te busca, pois "dá a todo aquele que te pedir"; contudo há ainda outro que deves buscar: "encontra um homem justo a quem dá-la." Nunca fareis isto, se não tiverdes posto de parte algo de vossos bens, cada um o que lhe aprouver segundo as necessidades de sua família, como uma espécie de dívida a ser paga ao tesouro. Se Cristo não tem um Estado próprio, tampouco tem um tesouro? ...Corta, pois, e poda alguma soma fixa, seja de teus lucros anuais, seja de teus ganhos diários, para que não pareças, por assim dizer, dar de teu capital, e tua mão precise hesitar quando a estenderes para aquilo que não votaste. Corta alguma parte de tua renda; um décimo, se quiseres, ainda que isso seja pouco. Pois se diz que os fariseus davam um décimo: "Jejuo duas vezes na semana, dou o dízimo de tudo quanto possuo." E que diz o Senhor? "Se a vossa justiça não exceder a justiça dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus." Aquele cuja justiça deves exceder dá um décimo: tu não dás sequer um milésimo. Como haverás de superar aquele a quem nem sequer igualas? "Que prepara chuva para a terra."
14. "E que dá aos animais o seu alimento" (v. 9). Estes são os animais a que ele se refere, a saber, os rebanhos de Deus. Deus não defrauda o seu rebanho de seu alimento por meio dos homens, para cujo "serviço Ele faz crescer a erva". "E aos filhotes dos corvos que O invocam." Havemos, porventura, de pensar isto, que os corvos invocam a Deus para que lhes dê o seu alimento? Não penses que a criatura irracional invoca a Deus: nenhuma criatura sabe invocar a Deus, senão somente a racional. Considera-o como dito em figura, para que não penses, como dizem alguns homens maus, que as almas dos homens migram para os animais, cães, porcos, corvos. Não dês lugar a isto em teu coração nem em tua fé. A alma do homem é feita à imagem de Deus: Ele não dará a sua imagem a cão nem a porco. Quem são "os filhotes dos corvos"? Os israelitas costumavam dizer que só eles eram justos, porque a eles fora dada a Lei: a todos os demais homens, de toda nação, costumavam chamar pecadores. E, na verdade, todas as nações estavam entregues ao pecado, à idolatria, ao culto de pedras e de troncos: mas permaneceram elas assim? Ainda que os próprios corvos, nossos pais, não tenham permanecido, nós, porém, "filhotes dos corvos", invocamos a Deus. ...Pois "os filhotes dos corvos", que pareciam adorar as imagens de seus antepassados, avançaram e se voltaram para Deus. E agora ouves "os filhotes dos corvos" invocarem o Deus único. Que, pois? Dizes tu aos "filhotes dos corvos": "deixaste o teu pai?" Certamente que sim, diz ele; pois corvo é aquele que não invoca a Deus. Eu, "filhote do corvo", invoco a Deus.
3. "Louvai ao Senhor desde os céus" (v. 1). Como se tivesse encontrado as coisas nos céus calando-se no louvor do Senhor, ele as exorta a se levantarem e louvarem. Nunca as coisas nos céus se calaram nos louvores de seu Criador, nunca as coisas na terra cessaram de louvar a Deus. Mas é manifesto que há certas coisas que têm fôlego para louvar a Deus naquela disposição em que a Deus aprazem. Pois ninguém louva coisa alguma, senão o que lhe apraz. E há outras coisas que não têm fôlego de vida e entendimento para louvar a Deus, mas que, contudo, porque também elas são boas, e devidamente dispostas em sua ordem própria, e formam parte da beleza do universo que Deus criou, ainda que elas mesmas, com voz e coração, não louvem a Deus, todavia, quando são consideradas por aqueles que têm entendimento, Deus é louvado nelas; e, como Deus é louvado nelas, elas mesmas também, de certo modo, louvam a Deus. ...
4. "Louvai ao Senhor desde os céus: louvai-O nas alturas." Primeiro ele diz "desde os céus", depois desde a terra; pois é Deus que é louvado, Ele que fez o céu e a terra. Tudo no céu é calmo e pacífico; há ali gozo perpétuo, nenhuma morte, nenhuma enfermidade, nenhuma tribulação; ali os bem-aventurados louvam para sempre a Deus; mas nós ainda estamos aqui embaixo: contudo, quando pensamos em como Deus é louvado ali, tenhamos ali o nosso coração, e não ouçamos em vão: "Elevai os vossos corações." Elevemos o nosso coração para o alto, para que não se corrompa na terra: pois nos comprazemos no que os Anjos fazem ali. Fazemo-lo agora em esperança: depois o faremos em realidade, quando ali tivermos chegado. "Louvai-O", pois, "nas alturas."
2. "Aleluia." "Louvai ao Senhor", dizes ao teu próximo, e ele a ti: quando todos se exortam mutuamente, todos fazem aquilo que exortam os outros a fazer. Mas louvai com todo o vosso ser: isto é, que não somente a vossa língua e a vossa voz louvem a Deus, mas também a vossa consciência, a vossa vida, as vossas obras. Pois agora, quando estamos reunidos na Igreja, louvamos; quando saímos cada qual para os seus afazeres, parecemos cessar de louvar a Deus. Que o homem não cesse de viver bem, e então louvará a Deus sempre. ...É impossível que sejam más as ações daquele cujos pensamentos são bons. Pois as ações procedem do pensamento; nem pode o homem fazer coisa alguma, nem mover os seus membros para fazer o que quer que seja, sem que preceda o mando do seu pensamento: assim como em todas as coisas que vedes fazer-se por todas as províncias, tudo o que o Imperador ordena procede do interior do seu palácio e se espalha por todo o Império Romano. Quão grande comoção é causada por uma só ordem do Imperador, sentado ele em seu palácio! Ele apenas move os lábios, quando fala: toda a província se move, quando se executa o que ele falou. Assim também em cada homem, o Imperador está dentro, o seu trono está no coração. Se ele for bom e ordenar coisas boas, boas coisas se fazem; se for mau e ordenar coisas más, más coisas se fazem. Quando Cristo ali está sentado, que pode Ele ordenar, senão o que é bom? Quando o demônio é o ocupante, que pode ele ordenar, senão o mal? Mas Deus quis que estivesse em tua escolha a quem prepararás lugar, se a Deus, se ao demônio: depois que o tiveres preparado, aquele que o ocupar também há de reinar nele. Portanto, irmãos, atendei não somente ao som; quando louvardes a Deus, louvai com todo o vosso ser: que a vossa voz, a vossa vida, as vossas obras, tudo cante.
1. O objeto da nossa meditação nesta vida presente deve ser os louvores de Deus; pois a exaltação eterna da nossa vida futura será o louvor de Deus, e ninguém pode tornar-se apto para a vida futura, se não se exercitou já agora para ela. Assim, pois, agora louvamos a Deus, mas também a Ele oramos. O nosso louvor caracteriza-se pelo gozo, a nossa oração pelos gemidos. ...Por causa destes dois tempos, um, o que agora se passa nas tentações e tribulações desta vida, outro, o que há de vir no eterno repouso e exultação, estabelecemos também a celebração de dois tempos, o que precede a Páscoa e o que se segue à Páscoa. O que precede a Páscoa significa a tribulação em que agora estamos; o que agora celebramos depois da Páscoa significa a bem-aventurança em que futuramente estaremos. A celebração, pois, que guardamos antes da Páscoa é o que fazemos agora; pela que guardamos depois da Páscoa significamos o que ainda não temos. Por isso empregamos aquele tempo em jejuns e orações; este tempo presente gastamo-lo em louvores, e relaxamos o nosso jejum. Este é o Aleluia que cantamos, o qual, como sabeis, significa (em latim) "Louvai ao Senhor". Aquele período, pois, é antes da Ressurreição do Senhor; este, depois da Sua Ressurreição: por este tempo se significa a esperança futura que ainda não temos; pois o que representamos depois da Ressurreição do Senhor, havê-lo-emos depois da nossa própria. Porque em nossa Cabeça figuram-se ambas as coisas, ambas se propõem. O Batismo do Senhor propõe-nos esta vida presente de provação, pois nela devemos labutar, ser afligidos e, por fim, morrer; mas a Ressurreição e Glorificação do Senhor propõe-nos a vida que haveremos de ter no futuro, quando Ele vier para retribuir as recompensas devidas, o mal aos maus, o bem aos bons. E agora, na verdade, todos os homens maus cantam conosco o Aleluia; mas, se perseverarem em sua maldade, poderão proferir com os lábios o cântico da nossa vida futura; a vida mesma, porém, que então estará na realidade que agora é prefigurada, não a poderão alcançar, porque não quiseram exercitar-se nela antes que viesse, nem se apegaram àquilo que havia de vir.
5. "Louvai-O, todos os seus anjos, louvai-O, todas as suas hostes" (v. 2). "Louvai-O, sol e lua; louvai-O, todas as estrelas e luz" (v. 3). "Louvai-O, céus dos céus, e águas que estais sobre os céus" (v. 4). "Louvem eles o Nome do Senhor" (v. 5). Quando poderia ele desdobrar tudo em sua enumeração? Contudo tocou, de certo modo, em todas elas resumidamente, e incluiu todas as coisas que há no céu louvando o seu Criador. E como se lhe fosse perguntado: "Por que O louvam elas? Que lhes conferiu Ele, para que O louvem?", prossegue: "porque Ele falou, e foram feitas; Ele ordenou, e foram criadas." Não é de admirar que as obras louvem o Obreiro, não é de admirar que as coisas feitas louvem o Feitor, não é de admirar que a criação louve o seu Criador. Nisto também se menciona Cristo, ainda que pareça não termos ouvido o Seu Nome. ...Por que meio foram elas feitas? Pelo Verbo? Como mostra ele, neste Salmo, que todas as coisas foram feitas pelo Verbo? "Ele falou, e foram feitas; Ele ordenou, e foram criadas." Ninguém fala, ninguém ordena, senão por palavra.
6. "Ele os estabeleceu para sempre, e de século em século" (v. 6). Todas as coisas que há no céu, todas as coisas do alto, todas as potestades e anjos, certa cidade nas alturas, boa, santa, bem-aventurada; de onde, porque somos peregrinos, somos desventurados; para onde, porque havemos de voltar, somos bem-aventurados em esperança; para onde, quando tivermos voltado, seremos bem-aventurados de fato; "Ele lhes deu uma lei que não passará." Que espécie de mandamento, pensais vós, receberam as coisas do céu e os santos anjos? Que espécie de mandamento lhes deu Deus? Que outro, senão que O louvem? Bem-aventurados aqueles cujo ofício é louvar a Deus! Não lavram, não semeiam, não moem, não cozinham; pois estas são obras de necessidade, e ali não há necessidade. Não roubam, não saqueiam, não cometem adultério; pois estas são obras de iniquidade, e ali não há iniquidade. Não partem o pão para o faminto, não vestem o nu, não hospedam o estrangeiro, não visitam o enfermo, não reconciliam os contenciosos, não sepultam os mortos; pois estas são obras de misericórdia, e ali não há miséria a que se mostre misericórdia. Ó bem-aventurados eles! Pensamos nós que também nós seremos assim? Ah! Suspiremos, gemamos em nossos suspiros. E que somos nós, para que ali estejamos? Mortais, desterrados, abjetos, terra e cinza! Mas Aquele que prometeu é onipotente. ...
7. Volte-se ele, pois, também para as coisas da terra, uma vez que já falou dos louvores das coisas do céu. "Louvai ao Senhor desde a terra" (v. 7). Pois com que começara ele antes? "Louvai ao Senhor desde os céus": e percorreu as coisas do céu; ouvi agora as da terra. "Dragões e todos os abismos." "Abismos" são as profundezas das águas: todos os mares, e esta atmosfera de nuvens, pertencem ao "abismo". Onde há nuvens, onde há tempestades, onde há chuva, relâmpago, trovão, granizo, neve, e tudo o que Deus quer que se faça sobre a terra, por meio desta atmosfera úmida e nebulosa, tudo isto ele mencionou sob o nome de terra, porque é muito mutável e mortal; a menos que penseis que chove de cima das estrelas. Todas estas coisas acontecem aqui, junto à terra. Às vezes até os homens estão nos cumes dos montes, e veem as nuvens abaixo de si, e frequentemente chove ali: e todas as comoções que surgem da perturbação da atmosfera, os que observam com cuidado veem que acontecem aqui, nesta parte inferior do universo. ...Vês, pois, de que espécie são todas estas coisas: mutáveis, tumultuosas, medonhas, corruptíveis; contudo têm o seu lugar, têm a sua ordem, também elas, em seu grau, completam a beleza do universo, e assim louvam o Senhor. Volta-se, pois, para elas, como se quisesse exortá-las também, ou a nós, para que, considerando-as, louvemos o Senhor. Os "dragões" vivem junto às águas, saem das cavernas, voam pelo ar; o ar é agitado por eles: os "dragões" são uma espécie enorme de seres viventes, maiores não há sobre a terra. Por isso começa por eles: "Dragões e todos os abismos." Há cavernas de águas ocultas, de onde brotam fontes e ribeiros: uns saem a correr sobre a terra, outros correm secretamente por baixo; e toda esta espécie, toda esta natureza úmida das águas, juntamente com o mar e este ar inferior, chamam-se abismo, ou "abismos", onde vivem os dragões e louvam a Deus. Quê? Pensamos nós que os dragões formam coros, e louvam a Deus? Longe disso. Mas vós, quando considerardes os dragões, atendei ao Feitor do dragão, ao Criador do dragão: então, quando admirardes os dragões, e disserdes: "Grande é o Senhor que fez estes", então os dragões louvam a Deus por vossas vozes.
"Fogo, granizo, neve, gelo, vento de tempestades, que executam a Sua palavra" (v. 8). Por que acrescentou aqui: "que executam a Sua palavra"? Muitos homens néscios, incapazes de contemplar e discernir a criação, em seus vários lugares e ordens, realizando os seus movimentos ao aceno e mandado de Deus, pensam que Deus governa, de fato, todas as coisas nas alturas, mas as coisas de baixo Ele despreza, rejeita, abandona, de sorte que delas não cuida, nem as guia, nem as governa; antes, são regidas pelo acaso, como podem, do modo que podem: e são influenciados pelo que às vezes dizem uns aos outros: por exemplo: "Se fosse Deus quem desse a chuva, choveria Ele sobre o mar? Que espécie de providência é esta", dizem, "que a Getúlia tem sede, e chove sobre o mar?" Julgam tratar o assunto com sutileza. Dever-se-ia dizer-lhes: "A Getúlia, ao menos, tem sede; tu, nem sequer tens sede." Pois bom seria para ti dizer a Deus: "A minha alma teve sede de Ti." Porquanto aquele que assim argumenta já está saciado; julga-se sábio, não quer aprender, e por isso não tem sede. Pois, se tivesse sede, estaria disposto a aprender, e descobriria que tudo o que acontece sobre a terra sucede pela Providência de Deus, e admirar-se-ia até da disposição dos membros de uma pulga. Atendei, amados. Quem dispôs os membros da pulga e do mosquito, para que tivessem sua ordem própria, sua vida, seu movimento? Considera uma pequena criatura, a mais ínfima que quiseres. Se consideras a ordem dos seus membros e a animação da vida pela qual se move; como foge da morte, ama a vida, busca os prazeres, evita a dor, exerce diversos sentidos, usa vigorosamente os movimentos que lhe são próprios! Quem deu ao mosquito o ferrão com que suga o sangue? Quão estreito é o canal por onde suga! Quem dispôs tudo isto? Quem fez tudo isto? Admiras-te das coisas mínimas; louva Aquele que é grande. Guardai, pois, isto, meus irmãos: que ninguém vos abale da fé ou da sã doutrina. Aquele que fez o Anjo no céu, o mesmo fez também o verme sobre a terra: o Anjo no céu, para habitar no céu; o verme sobre a terra, para permanecer na terra. Não fez o Anjo para rastejar na lama, nem o verme para mover-se no céu. Ele designou aos habitantes as suas diversas moradas; à incorrupção designou moradas incorruptíveis, às coisas corruptíveis, moradas corruptíveis. Observa o todo, louva o todo. Aquele, pois, que ordenou os membros do verme, não governa Ele as nuvens? E por que chove Ele sobre o mar? Como se não houvesse no mar coisas que se nutrem da chuva; como se ali não tivesse feito peixes, como se ali não tivesse feito seres vivos. Observa como os peixes correm para a água doce. E por que, dir-se-á, dá Ele chuva aos peixes, e a mim, às vezes, não dá chuva? Para que consideres que estás em região deserta, e em peregrinação de vida; para que esta vida presente se te torne amarga, e assim suspires pela vida futura: ou então, para que sejas açoitado, castigado, corrigido. E quão bem atribui Ele as suas propriedades às regiões. Eis que, já que falamos da Getúlia, chove aqui quase todos os anos, e dá-se trigo todos os anos; aqui o trigo não se pode guardar, logo apodrece, porque é dado todos os anos; ali, porque é dado raramente, tanto se dá em abundância, quanto se pode guardar por muito tempo. Mas pensas, porventura, que Deus ali abandona o homem, ou que ali não louvam e glorificam a Deus, cada qual à sua maneira de alegrar-se? Toma um getúlio da sua terra, e põe-no entre as nossas árvores aprazíveis; há de querer fugir, e voltar à sua nua Getúlia. A todos os lugares, pois, regiões, estações, Deus designou e dispôs o que lhes convém. Quem poderia expô-lo? Contudo, os que têm olhos veem nisto muitas coisas: vistas, agradam; agradando, são louvadas; não elas, na verdade, mas Aquele que as fez; assim hão de louvar a Deus todas as coisas.
9. Foi pensando nisto que o espírito do Profeta acrescentou as palavras: "que executam a Sua palavra." Não penseis, pois, que estas coisas se movem ao acaso, elas que em todo o seu movimento obedecem a Deus. Para onde Deus quer, para lá se espalha o fogo, para lá se apressa a nuvem, quer traga em si chuva, quer neve, quer granizo. E por que fere o raio, às vezes, o monte, e não fere o ladrão? ...Talvez ainda busque a conversão do ladrão, e por isso é ferido o monte, que não teme, para que se mude o homem, que teme. Também tu, às vezes, ao manteres a disciplina, feres o chão para aterrorizar uma criança. Às vezes também Ele fere um homem, a quem quer. Mas dizes-me: Eis que Ele fere o mais inocente, e passa por alto o mais culpado. Não te admires; a morte, de onde quer que venha, é boa para o homem bom. E de onde sabes tu que castigo está reservado em segredo para esse homem mais culpado, se ele não quiser converter-se? Não preferiam antes ser abrasados pelo raio aqueles a quem se dirá, ao fim: "Apartai-vos para o fogo eterno"? O que importa é que sejas sem malícia. Por quê? É mau morrer de naufrágio, e bom morrer de febre? Quer morra deste modo, quer daquele, pergunta que espécie de homem é o que morre; pergunta para onde há de ir depois da morte, não como há de partir da vida. ...Tudo, pois, o que aqui sucede contra a nossa vontade, saberás que não sucede senão pela vontade de Deus, pela Sua providência, pela Sua disposição, pelo Seu aceno, pelas Suas leis: e, se não entendemos por que algo se faz, concedamos à Sua providência que não se faz sem razão: assim não seremos blasfemos. Pois, quando começamos a discutir a respeito das obras de Deus: "por que isto?", "por que aquilo?", e "não devia Ele ter feito isto", "fez isto mal" — onde está o louvor de Deus? Perdeste o teu Aleluia. Considera todas as coisas de tal modo que agrades a Deus e louves o Criador. Pois, se por acaso entrasses na oficina de um ferreiro, não ousarias censurar [truncado]
10. Depois menciona, para que louvem ao Senhor, "os montes e os outeiros, as árvores frutíferas e todos os cedros" (v. 9): "os animais e todo o gado, os répteis e as aves de asas" (v. 10). Passa então aos homens: "os reis da terra e todos os povos, os príncipes e todos os juízes da terra" (v. 11): "os jovens e as donzelas, os velhos com os moços, louvem o Nome do Senhor" (v. 12). Terminou o louvor do céu, terminou o louvor da terra. "Porque somente o Seu Nome é excelso" (v. 13). Ninguém busque exaltar o seu próprio nome. Queres ser exaltado? Sujeita-te a Quem não pode ser humilhado. "A confissão a Ele pertence, na terra e no céu" (v. 14). Que é "a confissão a Ele"? Será a confissão com que Ele confessa? Não, mas aquela pela qual todas as coisas O confessam, todas as coisas clamam: a beleza de todas as coisas é, de certo modo, a sua voz, pela qual louvam a Deus. O céu clama a Deus: "Tu me fizeste, não eu mesmo." A terra clama: "Tu me criaste, não eu mesma." Como clamam? Quando as contemplas, e nisto reparas, elas clamam pela tua voz, clamam pelo teu olhar. Contempla os céus, são belos: observa a terra, é bela: ambos juntos são belíssimos. Ele os fez, Ele os governa, ao Seu aceno são regidos, Ele ordena as suas estações, Ele renova os seus movimentos, por Si mesmo os renova. Todas estas coisas, pois, O louvam, quer em repouso, quer em movimento, quer da terra debaixo, quer do céu de cima, quer em seu estado antigo, quer em sua renovação. Quando vês todas estas coisas, e te alegras, e te elevas até o Criador, e contemplas "as coisas invisíveis d'Ele, entendidas pelas coisas que foram feitas", "a confissão a Ele pertence, na terra e no céu": isto é, Tu O confessas a partir das coisas da terra, Tu O confessas a partir das coisas do céu. E, visto que Ele fez todas as coisas, e nada há melhor do que Ele, tudo o que fez é menor do que Ele, e tudo o que nestas coisas te agrada é menor do que Ele. Não te agrade, pois, o que Ele fez, de modo a afastar-te d'Aquele que o fez: se amas o que Ele fez, ama muito mais Aquele que o fez. Se as coisas que Ele fez são belas, quanto mais belo é Aquele que as fez. "E Ele exaltará o poder de Seu povo." Eis o que profetizaram Ageu e Zacarias. Ora, o "poder de Seu povo" é humilde nas aflições, nas tribulações, nas tentações, ao bater no peito; quando exaltará Ele "o poder de Seu povo"? Quando o Senhor houver vindo, e houver nascido o nosso Sol — não o sol que se vê com os olhos, e que "nasce sobre bons e maus" — mas Aquele de quem se diz, a vós que ouvis a Deus: "nascerá o Sol da Justiça, e a saúde em suas asas"; e de quem os soberbos e ímpios hão de dizer no fim: "a luz da justiça não brilhou para nós, e o sol da justiça não nasceu sobre nós." Este será o nosso verão. Ora, durante o tempo do inverno, os frutos não aparecem na cepa; observas, por assim dizer, árvores mortas durante o inverno. Aquele que não sabe ver com verdade, julga morta a videira; talvez haja perto dela uma que esteja de fato morta; ambas parecem iguais no inverno; uma está viva, a outra está morta, mas tanto a vida quanto a morte estão ocultas: avança o verão; então a vida de uma resplandece, a morte da outra se manifesta: surge o esplendor das folhas, a abundância dos frutos, a videira se veste, por aparência exterior, do que tinha em sua cepa. Portanto, irmãos, agora somos semelhantes aos demais homens: assim como eles nascem, comem, bebem, vestem-se, passam a sua vida, assim também fazem os santos. Às vezes a própria verdade engana os homens, e dizem: "Eis que ele começou a ser cristão: perdeu, por acaso, a sua dor de cabeça?" ou: "porque ele é cristão, que ganho tenho eu com isso?" Ó videira morta, observas perto de ti uma videira que está, de fato, despida no inverno, mas não morta. Virá o verão, virá o Senhor, o nosso Esplendor, que estava oculto na cepa, e então "Ele exaltará o poder de Seu povo", depois do cativeiro em que vivemos nesta vida mortal. ...
11. "Um hino a todos os Seus Santos." Sabeis o que é um hino? É um canto com louvor a Deus. Se louvas a Deus e não cantas, não proferes hino: se cantas e não louvas a Deus, não proferes hino: se louvas outra coisa, que não pertença ao louvor de Deus, ainda que cantes e louves, não proferes hino. O hino contém, pois, estas três coisas: canto, e louvor, e que este seja de Deus. O louvor de Deus em canto, pois, chama-se hino. Que significa, então: "Um hino a todos os Seus Santos"? Recebam os Seus Santos um hino: profiram os Seus Santos um hino: pois isto é o que hão de receber no fim, um hino eterno. ...
1. Louvemos ao Senhor tanto na voz, quanto no entendimento, quanto nas boas obras; e, como este Salmo exorta, cantemos-Lhe um cântico novo. Começa assim: "Cantai ao Senhor um cântico novo. O Seu louvor está na Igreja dos Santos" (v. 1). O homem velho tem um cântico velho, o homem novo, um cântico novo. O Antigo Testamento é um cântico velho, o Novo Testamento é um cântico novo. No Antigo Testamento há promessas temporais e terrenas. Quem ama as coisas terrenas canta um cântico velho: quem deseja cantar um cântico novo, ame as coisas da eternidade. O próprio amor é novo e eterno; por isso é sempre novo, porque nunca envelhece. ...E este cântico é de paz, este cântico é de caridade. Quem se aparta da união dos santos não canta um cântico novo; pois seguiu a rixa velha, não a caridade nova. Que há na caridade nova? Paz, o vínculo de uma sociedade santa, uma união espiritual, um edifício de pedras vivas. Onde está isto? Não em um só lugar, mas por todo o mundo. Isto é dito em outro Salmo: "Cantai ao Senhor, toda a terra." Por isto se entende que aquele que não canta com toda a terra, canta um cântico velho, quaisquer que sejam as palavras que saiam da sua boca. ...Já dissemos, irmãos, que toda a terra canta um cântico novo. Aquele que não canta com toda a terra um cântico novo, cante o que quiser, faça a sua língua ressoar o Aleluia, profira-o dia e noite inteiros: os meus ouvidos não estão tão inclinados a ouvir a voz do cantor, mas busco as obras de quem age. Pois pergunto, e digo: "Que é isto que cantas?" Ele responde: "Aleluia." Que é "Aleluia"? "Louvai ao Senhor." Vinde, louvemos juntos ao Senhor. Se tu louvas ao Senhor, e eu louvo ao Senhor, por que estamos em discórdia? A caridade louva ao Senhor, a discórdia blasfema do Senhor. ...
2. O campo do Senhor é o mundo, não a África. Não é com o campo do Senhor como é sem estes nossos campos, onde a Getúlia produz sessenta ou cem por um, a Numídia apenas dez por um: em toda parte se Lhe dá fruto, tanto cem por um, quanto sessenta por um, quanto trinta por um: só a ti cabe escolher o que hás de ser, se pensas pertencer à Cruz do Senhor. "A Igreja", pois, "dos santos" é a Igreja Católica. A Igreja dos santos não é a Igreja dos hereges. A Igreja dos santos é aquela que Deus primeiro prefigurou antes que fosse vista, e depois manifestou para que fosse vista. A Igreja dos santos esteve outrora nas Escrituras, agora está nas nações: a Igreja dos santos outrora era apenas lida, agora é lida e vista. Quando era apenas lida, era crida; agora é vista, e é contestada. O Seu louvor está nos "filhos do reino", isto é, "na Igreja dos santos".
3. "Alegre-se Israel n'Aquele que o fez" (v. 2). Que é "Israel"? "O que vê a Deus." Aquele que vê a Deus alegra-se n'Aquele por quem foi feito. Que é isto, então, irmãos? Dissemos que pertencemos à Igreja dos santos: já vemos a Deus? e como somos Israel, se não vemos? Há uma espécie de visão que pertence ao tempo presente; haverá outra que pertencerá ao tempo futuro: a visão que agora há é pela fé; a visão que há de ser será em realidade. Se cremos, vemos; se amamos, vemos: vemos o quê? A Deus. Pergunta a João: "Deus é amor"; bendigamos o Seu santo Nome, e alegremo-nos em Deus, alegrando-nos no amor. Quem tem amor, por que o enviaremos para longe, a fim de ver a Deus? Considere a sua própria consciência, e ali verá a Deus. ..."E exultem os filhos de Sião no seu Rei." Os filhos da Igreja são Israel. Pois Sião, na verdade, foi uma cidade, que caiu: entre as suas ruínas habitaram certos santos segundo a carne: mas a verdadeira Sião, a verdadeira Jerusalém (pois Sião e Jerusalém são uma só), é "eterna nos céus", e é "nossa mãe". É ela que nos deu à luz, ela é a Igreja dos santos, ela nos alimentou, ela, que em parte é peregrina, em parte permanece nos céus. Na parte que permanece no céu está a bem-aventurança dos anjos; na parte que peregrina neste mundo está a esperança dos justos. Daquela se diz: "Glória a Deus nas alturas"; desta: "e paz na terra aos homens de boa vontade." Corram, pois, aqueles que, estando nesta vida, gemem e suspiram pela sua pátria, pelo amor, não pelos pés corporais; busquem não navios, mas asas; lancem mão das duas asas do amor. Quais são as duas asas do amor? O amor de Deus e do próximo. Pois agora somos peregrinos, suspiramos, gememos. Chegou-nos uma carta da nossa pátria: nós a lemos para vós. "E os filhos de Sião exultarão no seu Rei." O Filho de Deus, que nos fez, fez-Se um de nós: e Ele nos governa como nosso Rei, porque é o nosso Criador, que nos fez. Mas Aquele por quem fomos feitos é o mesmo por quem somos governados, e somos cristãos porque Ele é Cristo. Ele é chamado Cristo, de Crisma, isto é, Unção. ...Dai ao Sacerdote algo para oferecer. Que poderia o homem encontrar que pudesse dar como vítima limpa? Que vítima? Que coisa limpa pode oferecer um pecador? Ó homem injusto, ó homem pecador, tudo o que ofereces é imundo, e algo limpo há de ser oferecido por ti. ...Ofereça-Se, pois, a Si mesmo o Sacerdote que é limpo, e te purifique. Foi isto que Cristo fez. Não encontrou no homem nada limpo que pudesse oferecer por ele: ofereceu a Si mesmo como Vítima limpa. Feliz Vítima, verdadeira Vítima, Oferta imaculada. Não ofereceu, pois, o que nós Lhe demos; antes, ofereceu o que de nós tomou, e o ofereceu limpo. Pois de nós tomou a carne, e esta ofereceu. Mas onde a tomou? No ventre da Virgem Maria, para que a oferecesse limpa por nós, imundos. Ele é o nosso Rei, Ele é o nosso Sacerdote; n'Ele nos alegremos.
4. "Que louvem o Seu Nome em coro" (v. 3). Que significa "coro"? Muitos sabem o que é um "coro": aliás, como estamos falando numa cidade, quase todos o sabem. Um "coro" é a união dos cantores. Se cantamos "em coro", cantemos em concórdia. Se a voz de alguém destoa num coro de cantores, ela ofende o ouvido e lança o coro em confusão. Se a voz de um só, ecoando discordante, perturba a harmonia dos que cantam, quanto mais a discórdia da heresia lança em confusão a harmonia dos que louvam. O mundo inteiro é agora o coro de Cristo. O coro de Cristo soa harmoniosamente do oriente ao ocidente. "Que cantem a Ele um salmo com tímpano e saltério." Por que toma para si o "tímpano e saltério"? Para que não seja apenas a voz a louvar, mas também as obras. Quando se toma o tímpano e o saltério, as mãos se harmonizam com a voz. Assim também tu, sempre que cantares "Aleluia", reparte teu pão ao faminto, veste o nu, acolhe o peregrino: então não soa apenas a tua voz, mas a tua mão soa em harmonia com ela, pois as tuas obras concordam com as tuas palavras. Tomaste para ti um instrumento, e teus dedos concordam com tua língua. Nem devemos calar o sentido místico do "tímpano e saltério". No tímpano estica-se o couro, no saltério estica-se a corda de tripa; em ambos os instrumentos a carne é crucificada. Quão bem "cantou um salmo com tímpano e saltério" aquele que disse: "o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo"? Este saltério ou tímpano quer que tomes Aquele que ama o cântico novo, que te ensina, dizendo-te: "Se alguém quiser ser Meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga." Que não deponha o seu saltério, que não deponha o seu tímpano, que se estenda sobre o madeiro e se seque da concupiscência da carne. Quanto mais esticadas as cordas, mais agudo é o som que produzem. O Apóstolo Paulo, então, para que o seu saltério soasse agudo, que disse ele? "Estendendo-me para as coisas que estão adiante", etc. Ele se estendeu: Cristo o tocou; e a doçura da verdade soou.
5. "Porque o Senhor tratou com bondade o Seu povo" (v. 4). Que trato mais bondoso do que morrer pelos ímpios? Que trato mais bondoso do que, com Sangue justo, apagar a cédula de dívida contra o pecador? Que trato mais bondoso do que dizer: "Não considero o que fostes; sede agora o que não fostes"? Ele trata com bondade ao converter o que se desviara, ao socorrer o que combate, ao coroar o vencedor. "E aos mansos exaltará na salvação." Pois também os soberbos são exaltados, mas não na salvação: os mansos são exaltados na salvação, os soberbos na morte; isto é, os soberbos exaltam a si mesmos, e Deus os humilha; os mansos humilham a si mesmos, e Deus os exalta.
6. "Os santos exultarão na glória" (v. 5). Quero dizer algo de importante acerca da glória dos santos. Pois não há quem não ame a glória. Mas a glória dos tolos, a glória popular, como se costuma chamá-la, tem laços que enganam, de modo que um homem, influenciado pelos louvores dos vãos, se disponha a viver de tal maneira que seja falado pelos homens, sejam eles quem forem, seja de que modo for. Daí vem que homens, tornados loucos e inchados de soberba, vazios por dentro, tumefactos por fora, se dispõem sempre a arruinar seus haveres, distribuindo-os a histriões, atores, homens que lutam com feras, aurigas. Que somas dão, que somas dispendem! Prodigalizam não somente os bens do seu patrimônio, mas também os de suas mentes. Desprezam os pobres, porque o povo não clama que se dê ao pobre, mas clama que se dê ao lutador de feras. Quando, pois, nenhum clamor se ergue por eles, recusam-se a gastar; quando os insensatos lhes clamam, ficam eles também insensatos: aliás, todos são insensatos, tanto o que atua, quanto o espectador, quanto o doador. Esta glória insensata é reprovada pelo Senhor, é ofensiva aos olhos do Onipotente... Preferes vestir o lutador de feras, que pode ser vencido e te fazer corar: Cristo nunca é vencido; venceu o diabo, venceu por ti, para ti e em ti; a um vencedor como este preferes não vestir. Por quê? Porque há menos clamor, menos loucura em torno dele. Aqueles, pois, que se comprazem em tal glória, têm a consciência vazia. Assim como esvaziam seus cofres para enviar vestes como presentes, assim esvaziam a sua consciência, de modo a nada terem de precioso nela.
7. Mas os santos, que "exultam na glória", não é necessário que digamos como exultam: basta ouvir o versículo do Salmo que se segue: "Os santos exultarão na glória, exultarão em seus leitos": não em teatros, nem em anfiteatros, nem em circos, nem em loucuras, nem em praças públicas, mas "em seus aposentos". Que é "em seus aposentos"? Em seus corações. Ouve o Apóstolo Paulo exultando em seu recôndito: "Pois esta é a nossa glória, o testemunho da nossa consciência." Por outro lado, há razão para temer que alguém se compraza consigo mesmo, e assim pareça ser soberbo, e se glorie de sua consciência. Pois todos devem exultar com temor, porquanto aquilo em que exultam é dom de Deus, não mérito próprio. Pois há muitos que se comprazem consigo mesmos e se julgam justos; e há uma outra passagem que vai contra eles, a qual diz: "Quem se gloriará de ter o coração limpo, e de estar puro de pecado?" Há, pois, por assim dizer, um limite para o glóriar-se em nossa consciência, a saber, saber que a tua fé é sincera, a tua esperança segura, o teu amor sem dissimulação. "As exultações de Deus estão em suas bocas" (v. 6). De tal modo "se alegrarão em seus recônditos" que não se atribuam a si mesmos o serem bons, mas louvem Aquele de quem receberam o que são, por quem são chamados a alcançar o que ainda não são, e de quem esperam a perfeição, a quem dão graças, porque Ele deu início.
8. "E espadas afiadas de dois gumes em suas mãos." Este tipo de arma encerra um grande sentido místico, no fato de ser afiada em ambos os lados. Por "espadas afiadas de dois gumes" entendemos a Palavra do Senhor: é uma só espada, mas por isso se dizem muitas, porque são muitas as bocas e muitas as línguas dos santos. Como é ela de dois gumes? Fala das coisas temporais, fala também das coisas eternas. Em ambos os casos comprova o que diz, e a quem fere, separa do mundo. Não é esta a espada de que o Senhor disse: "Não vim trazer paz à terra, mas espada"? Observai como Ele veio para dividir, como veio para separar. Ele divide os santos, divide os ímpios, separa de ti aquilo que te impede. O filho quer servir a Deus, o pai não quer: vem a espada, vem a Palavra de Deus, e separa o filho do pai... Por que, então, está ela em suas mãos, e não em suas línguas? "E espadas", diz, "afiadas de dois gumes em suas mãos." Por "em suas mãos" quer dizer em poder. Receberam, pois, a palavra de Deus em poder, para falar onde quisessem, a quem quisessem, sem temer o poder, nem desprezar a pobreza. Pois tinham em suas mãos uma espada; onde queriam, a brandiam, a manejavam, com ela feriam: e tudo isto estava no poder dos pregadores. Pois, se a Palavra não estivesse em suas mãos, por que está escrito: "A Palavra do Senhor foi posta na mão do profeta Ageu"? Certamente, irmãos, Deus não colocou a Sua Palavra em Seus dedos. Que significa "foi posta em sua mão"? Foi posta em seu poder pregar a Palavra do Senhor. Por fim, podemos entender estas "mãos" também de outro modo. Pois os que falavam tinham a palavra de Deus em suas línguas; os que escreviam, em suas mãos.
9. Agora, irmãos, vedes os santos armados: observai a matança, observai as suas gloriosas batalhas. Pois, se há um comandante, é preciso que haja soldados; se soldados, um inimigo; se uma guerra, uma vitória. Que fizeram estes que tinham em suas mãos espadas afiadas de dois gumes? "Fazer vingança entre as nações." Vede se não se tem feito vingança entre as nações. Diariamente se faz: nós mesmos a fazemos ao falar. Observai como as nações da Babilônia são mortas. Ela é retribuída em dobro: pois assim está escrito dela: "retribuí-lhe em dobro conforme ela fez." Como é retribuída em dobro? Os santos travam guerra, desembainham suas "espadas duas vezes afiadas"; daí vêm derrotas, matanças, separações: como é retribuída em dobro? Quando tinha poder para perseguir os cristãos, matava de fato a carne, mas não esmagava a Deus: agora é retribuída em dobro, pois os pagãos são extintos e os ídolos são quebrados... E para que não penses que os homens são realmente feridos com a espada, que sangue é realmente derramado, que feridas são feitas na carne, ele prossegue e explica: "vitupérios entre os povos". Que é "vitupérios"? Repreensão. Que a "espada duas vezes afiada" saia de vós, não tardeis. Dize ao teu amigo, se ainda te resta algum a quem dizê-lo: "Que tipo de homem és tu, que abandonaste Aquele por quem foste feito, e adoras o que Ele fez? Melhor é o Artífice do que aquilo que Ele fabrica." Quando ele começar a corar, quando começar a sentir-se compungido, tu terás feito uma ferida com a tua espada; ela alcançou o coração, ele está prestes a morrer, para que viva.
10. "Para que atem os seus reis com grilhões, e os seus nobres com cadeias de ferro" (v. 8). "Para executarem sobre eles o juízo que está escrito" (v. 9). Os reis dos gentios hão de ser atados com grilhões, "e os seus nobres com grilhões", e estes "de ferro". ...Pois estes versículos que começamos a explicar são obscuros. Para este fim quis Deus consignar alguns de Seus versículos de modo obscuro, não para que deles se extraísse algo novo, mas para que aquilo que já era bem conhecido se tornasse novo por ser obscuramente proposto. Sabemos que reis se fizeram cristãos; sabemos que os nobres dos gentios se fizeram cristãos. Fazem-se assim ainda hoje; fizeram-se, hão de fazer-se; as "espadas de dois gumes" não estão ociosas nas mãos dos santos. Como, pois, entendemos que eles sejam atados com grilhões e cadeias de ferro? Sabeis vós, amados e doutos irmãos (doutos vos chamo, pois fostes nutridos na Igreja e estais acostumados a ouvir ler a Palavra de Deus), que "Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes, e as coisas loucas do mundo escolheu Deus para confundir as sábias, e as coisas que não são, como se fossem, para reduzir a nada as coisas que são". ...Disse o Senhor: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá aos pobres, e vem, segue-Me, e terás um tesouro no céu". Muitos dos nobres assim fizeram, mas deixaram de ser nobres dos gentios, preferindo antes ser pobres neste mundo, nobres em Cristo. Muitos, porém, conservam sua antiga nobreza, conservam seu poder régio, e não obstante são cristãos. Estes estão, por assim dizer, "em grilhões e em cadeias de ferro". Como assim? Receberam grilhões, para que não fossem às coisas ilícitas, os "grilhões da sabedoria", os grilhões da Palavra de Deus. Por que, então, são cadeias de ferro e não cadeias de ouro? São de ferro enquanto temem: amem, e serão de ouro. Atentai, amados, ao que digo. Acabastes de ouvir o apóstolo João: "No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor tem consigo a pena". Esta é a cadeia de ferro. Contudo, se o homem não começar pelo temor a adorar a Deus, não chegará ao amor. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria". O princípio, pois, são cadeias de ferro; o fim, um colar de ouro. Pois se diz da sabedoria: "um colar de ouro ao redor do teu pescoço". ...Vem a nós um homem poderoso neste mundo; sua esposa o ofende, e talvez tenha ele desejado a esposa de outro homem, mais bela, ou outra mulher, mais rica; deseja repudiar a que tem, mas não o faz. Ouve as palavras do servo de Deus, ouve o Profeta, ouve o Apóstolo, e não o faz; é-lhe dito por aquele em cujas mãos está uma "espada de dois gumes": "Não o farás; não te é lícito; Deus não te permite repudiar tua esposa, salvo por causa de fornicação". Ouve isto, teme, e não o faz. ...Ouvi, jovens: as cadeias são de ferro; não busqueis colocar nelas os vossos pés; se o fizerdes, sereis atados mais estreitamente com grilhões. Tais grilhões as mãos do Bispo vo-los fortalecem. Não fogem para a Igreja os homens assim agrilhoados, e não são aqui soltos? Fogem para cá, desejando livrar-se de suas esposas: aqui são mais estreitamente atados; ninguém solta estas cadeias. "O que Deus ajuntou, não o separe o homem". Mas estas cadeias são duras. Quem não o sabe? Desta dureza se afligiram os Apóstolos, e disseram: "Se assim é a condição do homem com a mulher, não convém casar". Se as cadeias são de ferro, não convém pôr nelas os nossos pés. E disse o Senhor: "Nem todos podem receber esta palavra, mas aquele que a puder receber, receba-a". "Estás ligado a uma esposa? Não busques ser livre", pois estás ligado com cadeias de ferro. "Estás livre de esposa? Não busques esposa"; não te ates com cadeias de ferro.
11. "Para executarem neles o juízo que está escrito." Este é o juízo que os santos fazem em todas as nações. Por que "escrito"? Porque estas coisas antes foram escritas, e agora se cumprem. Eis que agora se fazem: outrora se liam, e não se faziam. E concluiu assim: "esta glória têm todos os Seus santos". Por todo o mundo, por todas as nações inteiras, isto fazem os santos; assim são eles glorificados, assim "exaltam a Deus com sua boca", assim "se alegram em seus leitos", assim "exultam em sua glória", assim são "erguidos na salvação", assim "cantam um cântico novo", assim, no coração, na voz e na vida, dizem Aleluia. Amém.
1. Embora a disposição dos Salmos, que me parece conter o segredo de um grande mistério, ainda não me tenha sido revelada, contudo, pelo fato de que eles somam ao todo cento e cinquenta, sugerem-nos algo, ainda que não tenhamos penetrado com o olhar da mente a profundeza de toda a sua disposição, sobre o que, sem excessiva ousadia, na medida em que Deus o conceder, poderemos falar. Primeiramente, o número quinze — do qual este número é múltiplo, digo, este número quinze — significa a concordância dos dois Testamentos. Pois no primeiro observa-se o sábado, que significa o repouso; no segundo, o dia do Senhor, que significa a ressurreição. O sábado é o sétimo dia, mas o dia do Senhor, vindo depois do sétimo, há de ser necessariamente o oitavo, e também deve ser contado como o primeiro. Pois é chamado o primeiro dia da semana, e a partir dele se contam o segundo, o terceiro, o quarto, e assim até o sétimo dia da semana, que é o sábado. Mas do dia do Senhor ao dia do Senhor são oito dias, em que se declara a revelação do Novo Testamento, o qual no Antigo estava como que velado sob promessas terrenas. Além disso, sete e oito perfazem quinze. Do mesmo número são também os Salmos chamados "dos degraus", porque esse era o número dos degraus do Templo. Além disso, também o número cinquenta contém em si mesmo um grande mistério. Pois consiste de uma semana de semanas, com o acréscimo de um, como um oitavo, para completar o número de cinquenta. Pois sete vezes sete fazem quarenta e nove, aos quais se acrescenta um para completar cinquenta. E este número cinquenta é de tão grande significado, que foi após o cumprimento desse número de dias a partir da Ressurreição do Senhor que, no quinquagésimo dia exatamente, o Espírito Santo veio sobre os que estavam reunidos em Cristo. E este Espírito Santo é na Escritura especialmente designado pelo número sete, seja em Isaías, seja no Apocalipse, onde os sete Espíritos de Deus são mencionados mais diretamente, por causa da operação séptupla de um só e mesmo Espírito. E esta operação séptupla é mencionada em Isaías. ...Por isso também o Espírito Santo é designado sob o número sete. Mas este período de cinquenta o Senhor dividiu em quarenta e dez: pois no quadragésimo dia após Sua Ressurreição ascendeu Ele aos céus, e depois, cumpridos dez dias, enviou o Espírito Santo; sob o número quarenta representando-nos o período da peregrinação temporal neste mundo. Pois o número quatro prevalece no quarenta; e o mundo e o ano têm cada um quatro partes; e pelo acréscimo do número dez, como espécie de recompensa acrescentada pelo cumprimento da lei nas boas obras, figura-se a própria eternidade. Este cinquenta o número cento e cinquenta o contém três vezes, como se fosse multiplicado pela Trindade. Por esta razão, portanto, também concluímos que este número do Salmo não é sem propósito.
3. Qualquer que seja destas interpretações a verdadeira, este livro, em suas partes de cinquenta Salmos cada uma, dá uma resposta importante e muito digna de consideração. Pois não me parece sem significado que o quinquagésimo trate da penitência, o centésimo, da misericórdia e do juízo, o centésimo quinquagésimo, do louvor de Deus em Seus santos. Pois assim avançamos para uma vida eterna de felicidade: primeiro condenando os nossos próprios pecados, depois vivendo retamente, para que, tendo condenado a má vida e vivido uma boa vida, possamos alcançar a vida eterna. Nossa predestinação não se opera em nós mesmos, mas em segredo n'Ele, em Sua presciência. Mas somos chamados pela pregação do arrependimento. Somos justificados no chamado da misericórdia e no temor do juízo. Não teme o juízo quem já alcançou a salvação. Sendo chamados, renunciamos ao demônio pelo arrependimento, para que não permaneçamos sob o seu jugo; sendo justificados, somos curados pela misericórdia, para que não temamos o juízo; sendo glorificados, passamos para a vida eterna, onde louvamos a Deus sem fim. ...O versículo com que este Salmo se conclui é a voz da vida eterna.
2. Ora, quanto ao fato de alguns terem crido que os Salmos se dividem em cinco livros, foram levados a isso pelo fato de que, tão frequentemente, ao final dos Salmos, se encontram as palavras "assim seja, assim seja". Mas quando me empenhei em descobrir o princípio desta divisão, não o pude fazer; pois nem as cinco partes são iguais entre si, nem na quantidade de conteúdo, nem tampouco no número de Salmos, de modo que cada uma contivesse trinta. E se cada livro termina com "assim seja, assim seja", podemos razoavelmente perguntar por que o quinto e último livro não tem a mesma conclusão. Nós, porém, seguindo a autoridade da Escritura canônica, onde se diz: "Pois está escrito no livro dos Salmos", sabemos que há um só livro de Salmos. E vejo, na verdade, como isto pode ser verdadeiro, e contudo o outro seja também verdadeiro, sem contradizê-lo. Pois pode ser que houvesse alguma prática na literatura hebraica, pela qual se chama um livro aquilo que, todavia, consiste de mais de um, assim como de muitas igrejas consiste uma Igreja, e de muitos céus um céu, ...e de muitas terras uma terra. Pois é nosso hábito cotidiano dizer "o globo da terra" e "o globo das terras". E quando se diz "Está escrito no livro dos Salmos", embora o modo costumeiro de falar seja tal que pareça ter querido sugerir que há apenas um livro, a isto todavia se pode responder que as palavras significam "num livro dos Salmos", isto é, "em qualquer um destes cinco livros". E isto é, na linguagem comum, tão sem precedente, ou ao menos tão raro, que só nos convencemos de que os doze Profetas formam um só livro porque lemos de modo semelhante: "Como está escrito no livro dos Profetas". Há também alguns que chamam todas as Escrituras canônicas em conjunto de um só livro, porque concordam numa unidade muito admirável e divina. ...
"Louvai o Senhor nos seus santos", isto é, naqueles a quem Ele glorificou: "louvai-O no firmamento do Seu poder" (v. 1). "Louvai-O nos Seus feitos de fortaleza"; ou, como outros o explicaram, "nos Seus feitos de poder: louvai-O segundo a multidão da Sua grandeza" (v. 2). Todos estes são os Seus santos; como diz o Apóstolo: "Para que nós fôssemos feitos justiça de Deus n'Ele". Se, pois, eles são a justiça de Deus, que Ele operou neles, por que não seriam também a fortaleza de Cristo, que Ele operou neles, para que ressuscitassem dentre os mortos? Pois na ressurreição de Cristo, a "fortaleza" nos é especialmente apresentada, porquanto na Sua Paixão houve fraqueza, como diz o Apóstolo. E bem diz: "o firmamento do Seu poder". Pois é o "firmamento do Seu poder" que Ele "já não morre mais, a morte já não tem mais domínio sobre Ele". Por que não haveriam eles também de ser chamados "as obras da fortaleza" de Deus, que Ele fez neles? Antes, eles mesmos são as obras da Sua fortaleza; assim como se diz: "Somos a justiça de Deus n'Ele". Pois que há de mais poderoso do que reinar Ele para sempre, com todos os Seus inimigos postos debaixo dos Seus pés? Por que não haveriam eles também de ser "a multidão da Sua grandeza"? Não aquela pela qual Ele é grande, mas aquela pela qual Ele os fez grandes, sendo eles tantos, isto é, milhares de milhares. Assim como também a justiça se entende de dois modos: aquela pela qual Ele é justo, e aquela que Ele opera em nós, de modo a fazer-nos Sua justiça. Estes mesmos santos são significados por todos os instrumentos musicais em sucessão, para louvarem a Deus. Pois o que o Salmista começou, dizendo "Louvai o Senhor nos Seus santos", isso ele leva adiante, significando de diversos modos estes mesmos santos Seus.
"Louvai-O ao som da trombeta" (v. 3): por causa da excelsa clareza de nota do seu louvor. "Louvai-O no saltério e na harpa." O saltério louva a Deus a partir das coisas de cima, a harpa louva a Deus a partir das coisas de baixo; quero dizer, a partir das coisas no céu e das coisas na terra, como Aquele que fez o céu e a terra. Já explicamos, noutro Salmo, que o saltério tem aquela prancha sobre a qual repousa a série de cordas, para que dê melhor som, colocada acima, ao passo que a harpa a tem embaixo. "Louvai-O no adufe e no coro" (v. 4). O "adufe" louva a Deus quando a carne já está transformada, de modo que não haja nela nenhuma fraqueza da corrupção terrena. Pois o adufe é feito de couro ressecado e fortalecido. O "coro" louva a Deus quando a sociedade pacificada O louva. "Louvai-O nas cordas e no órgão." Tanto o saltério quanto a harpa, já mencionados, têm cordas. Mas "órgão" é nome geral para todos os instrumentos musicais, ainda que o uso corrente já tenha estabelecido que se chamem especialmente órgão aqueles que são insuflados por foles; não penso, contudo, que seja esta espécie a que aqui se refere. Pois, sendo órgão palavra grega, aplicada geralmente, como disse, a todos os instrumentos musicais, este instrumento a que se aplicam foles é chamado pelos gregos por outro nome; mas ser chamado órgão é antes uso latino e coloquial. Quando, pois, diz "nas cordas e no órgão", parece-me que quis significar algum instrumento que tenha cordas. Pois não são somente os saltérios e as harpas que têm cordas; mas, porque no saltério e na harpa, por causa do som proveniente das coisas de baixo e das coisas de cima, algo se encontrou que se pode entender segundo esta distinção, sugeriu-nos que buscássemos outro sentido nas próprias cordas: pois estas também são carne, mas carne já liberta da corrupção. E a estas, talvez, acrescentou o órgão, para significar que não soam cada uma separadamente, mas soam juntas em diversidade acorde, tal como se dispõem num instrumento musical. Pois ainda então os santos de Deus terão suas diferenças, concordes, não discordantes, isto é, concordando, não discrepando, assim como surge a mais doce harmonia a partir de sons de fato diversos, mas não opostos entre si.
"Louvai-O nos címbalos bem soantes, louvai-O nos címbalos de jubilação" (v. 5). Os címbalos tocam-se um ao outro para soar, e por isso são por alguns comparados aos nossos lábios. Mas entendo ser melhor compreender que Deus é, de certo modo, louvado no címbalo quando cada um é honrado pelo seu próximo, não por si mesmo, e então, honrando-se uns aos outros, dão louvor a Deus. Mas para que ninguém entendesse tais címbalos como soando sem vida, por isso, creio, acrescentou: "nos címbalos de jubilação". Pois a "jubilação", isto é, o louvor inefável, não procede senão da vida. Nem julgo que deva passar por alto o que dizem os músicos, que há três espécies de sons — pela voz, pelo sopro, pela percussão: pela voz, emitida pela garganta e pela traqueia, quando o homem canta sem instrumento algum; pelo sopro, como pela flauta, ou coisa semelhante; pela percussão, como pela harpa, ou coisa desse gênero. Nenhuma destas espécies, pois, é aqui omitida: pois há voz no coro, sopro na trombeta, percussão na harpa, representando a mente, o espírito, o corpo — mas por similitudes, não em sentido próprio das palavras. Quando, pois, propôs "Louvai a Deus nos Seus santos", a quem disse ele isto, senão a eles mesmos? E em quem hão de louvar a Deus, senão em si mesmos? Pois vós, diz ele, sois "os Seus santos"; sois "a Sua fortaleza", mas aquela que Ele operou em vós; sois "as Suas obras poderosas, e a multidão da Sua grandeza", que Ele operou e manifestou em vós. Sois "trombeta, saltério, harpa, adufe, coro, cordas e órgão, címbalos de jubilação bem soantes", porque soando em harmonia. Tudo isto sois vós: que nada de vil, nada de transitório, nada de ridículo aqui se pense. E, visto que ter sabor da carne é morte, "louve o Senhor todo espírito" (v. 6).
Longe de mim a ideia de que, em vosso tabernáculo, Senhor, o rico deva ser tido em maior estima que o pobre, ou o nobre mais que o de humilde nascimento. Vós escolhestes as coisas fracas deste mundo para envergonhar as fortes, e escolhestes as coisas desprezíveis, aviltadas e tidas por nada, a fim de reduzir a nada as coisas que são.
Quem poderia suportar ver um homem rico escolhido para ocupar um lugar de honra na igreja, quando um homem mais douto e mais santo é preterido por ser pobre? Não é, acaso, pecado julgar pelas aparências que um rico é homem melhor?
É escolhendo os pobres que Deus os faz ricos na fé, assim como os faz herdeiros do reino. Com razão se diz que Ele escolheu nele esta fé, visto que foi para produzi-la que os escolheu.
Será possível que aquele que fez distinção entre ricos e pobres seja culpado de homicídio, adultério e sacrilégio? Eis, na verdade, a conclusão que Tiago parece tirar. Tal homem é culpado de todo crime, porque, ofendendo em um só ponto, tornou-se culpado de todos.
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Quem julga sem misericórdia será julgado sem misericórdia. E é somente neste sentido que se há de entender a "mesma medida": que a misericórdia que ele não mostrou não lhe será mostrada, e que o juízo que ele profere será eterno, ainda que a coisa julgada não possa ser eterna.
Para socorrê-los, Deus infundiu o temor nos corações dos crentes, para que não pensassem que poderiam ser salvos pela fé somente, ainda que perseverassem na prática desses males.
Não compreendo por que o Senhor disse: "Se queres entrar na vida eterna, guarda os mandamentos" (Mt 19,17), e em seguida mencionou os mandamentos relativos ao bom comportamento, se é possível entrar na vida eterna sem observá-los. (Sobre a Fé e as Obras 15.25)
Verão os demônios a Deus? Os puros de coração é que O verão, e quem ousaria dizer que os demônios são puros de coração? Contudo, eles creem e tremem. (Comentário ao Sermão da Montanha 53.10)
Aqueles que creem e agem segundo a verdadeira fé, esses vivem e não estão mortos; mas aqueles que não creem, ou então creem à maneira dos demônios, tremendo mas vivendo iniquamente, proclamando o Filho de Deus mas não possuindo a caridade, esses hão de antes ser reputados por mortos. (Tratados 22.7.2)
Deve-se interpretar a Sagrada Escritura de modo que concorde plenamente com aqueles que a compreenderam, e não de maneira que pareça inconsistente àqueles que menos a conhecem. Disse Paulo que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei, mas não sem aquelas obras de que fala Tiago. (Sobre a Vida Cristã 13)
Que Abraão cresse em Deus no íntimo do coração é matéria de fé somente; mas que tenha levado seu filho para sacrificá-lo... não é apenas um grande ato de fé, mas também uma grande obra. (Sermões 2,9)
Quem diz que faz penitência apenas no coração diante de Deus, mas recusa confessar-se à Igreja ou ao sacerdote, despreza a ordem e a medicina estabelecidas pelo próprio Senhor. Se bastasse a confissão puramente secreta no íntimo do quarto, em vão Cristo teria dito aos apóstolos: «O que ligardes na terra será ligado no céu». Em vão teriam sido entregues as chaves do Reino à Igreja. Queremos corrigir o Evangelho e anular as palavras de Cristo?
Santo Agostinho, Sermão 392 (Sobre a Penitência), 3 (PL 39, 1711).
Confesso que não sei que idades transcorreram antes que a raça humana fosse criada; contudo, estou certíssimo de que nenhuma criatura é coeterna ao Criador. Curiosamente, o apóstolo emprega a expressão tempora aeterna referindo-se não ao futuro, mas ao passado. Assim ele diz: "na esperança da vida eterna que Deus, que não mente, prometeu antes dos tempos eternos, e a seu tempo manifestou, a saber, a sua palavra." Parece estar dizendo que o tempo se estende eternamente para trás; e, no entanto, o tempo não é coeterno com Deus, pois não só Deus existia "antes dos tempos eternos", como também prometeu a vida eterna, a qual manifestou em seu próprio tempo, isto é, no tempo devido. Ora, o que Ele prometeu foi a sua Palavra. Pois a Palavra é a vida eterna. Mas como fez Ele essa promessa, se ela foi feita àqueles que certamente não existiam antes dos "tempos eternos"? O sentido, portanto, há de ser este: o que haveria de acontecer em seu próprio tempo já estava predestinado e determinado em sua eternidade e em sua Palavra coeterna.
A primeira liberdade, pois, é estar sem crimes. E assim, quando o apóstolo Paulo escolhia sacerdotes ou diáconos para serem ordenados, e quando alguém há de ser ordenado para tomar a seu cargo uma igreja, ele não diz: "se alguém estiver sem pecado." Pois, se assim dissesse, toda pessoa seria rejeitada, ninguém seria ordenado. Mas diz: "se alguém estiver sem crime", tais como homicídio, adultério e a impureza da fornicação, furto, fraude, sacrilégio, e outras coisas semelhantes a estas.
Se alguém disser, contudo, que, sendo os mestres instruídos pelo Espírito Santo, não têm necessidade de que os educadores lhes ensinem o que devem dizer ou de que modo devem dizê-lo, que diga também que não devemos orar, porquanto diz o Senhor: "vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que Lhe peçais". Com tal premissa falsa, poder-se-ia argumentar que o apóstolo Paulo não deveria ter ensinado a Timóteo e a Tito o que e de que maneira deveriam ensinar aos outros. Aquele sobre quem é imposta a pessoa de mestre na Igreja deveria ter diante dos olhos estas três epístolas apostólicas. Não lemos, acaso, na primeira epístola a Timóteo... e na segunda epístola não se diz... e não afirma ele, ainda, a Tito, que o bispo deve perseverar "naquela palavra fiel que é conforme a doutrina, para que seja poderoso tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes"? Da Doutrina Cristã.
Mas eu, traspassado por tamanha dor quanto a que padeço, que posso fazer senão falar? Ou fazem eles tais coisas para depois me dizerem: "Cala-te"? Livre-me o Senhor de tal covardia, que eu guardasse silêncio por temor da ira deles, quando Ele me ordena, por meio de Seu apóstolo, que "devem ser repreendidos" pelo bispo os que "ensinam o que não devem". ... Pois quando Deus ordena que falemos e preguemos a palavra, e que refutemos e condenemos, "a tempo e fora de tempo", aqueles que "ensinam o que não devem" — como posso provar pelas palavras do Senhor e dos apóstolos —, que ninguém pense que me possa ser imposto silêncio nestas matérias.
Se ouvísseis, ainda que de um profano, a oração do sacerdote formulada em palavras convenientes aos mistérios do evangelho, poderíeis porventura dizer-lhe: "A tua oração não é verdadeira", ainda que ele mesmo não seja apenas falso sacerdote, mas nem sequer sacerdote algum? O apóstolo Paulo disse que certo testemunho de um profeta cretense (não sabia ele qual) era verdadeiro, ainda que este não fosse contado entre os profetas de Deus.... Se, pois, o próprio apóstolo deu testemunho ao dito de algum obscuro profeta de raça estrangeira, porque o encontrou verdadeiro, por que não faremos nós o mesmo quando encontramos em alguém o que pertence a Cristo e é verdadeiro, ainda que aquele em quem se encontre seja enganador e perverso? Por que não distinguimos, em tal caso, entre a falta que se encontra no homem e a verdade que ele possui, não de si mesmo, mas de Deus? Das Cartas de Petiliano, o Donatista.
Hão de ser igualmente detestados aqueles que negam que Nosso Senhor Jesus Cristo tivesse a Maria por mãe na terra. Aquela dispensação honrou a ambos os sexos, o masculino e o feminino, e mostrou que ambos tinham parte no cuidado de Deus; não somente aquilo que Ele assumiu, mas também aquilo por meio do qual o assumiu, sendo Ele homem nascido de mulher… Nem se deve diminuir a nossa fé por qualquer referência às "entranhas de uma mulher", como se se devesse rejeitar tal geração de Nosso Senhor porque os sórdidos julgam sórdido o que é assim. "A loucura de Deus é mais sábia que os homens"; e "para os puros, todas as coisas são puras".
Mas agora, quando te abstiveres, para castigar o corpo, de várias espécies de alimentos que em si mesmas são perfeitamente lícitas, lembra-te de que "para os puros, todas as coisas são puras"; não consideres nada como impuro senão aquilo que a incredulidade contaminou; "pois para os impuros e incrédulos", diz o apóstolo, nada é puro. Mas, naturalmente, quando os fiéis reduzem os seus corpos à servidão, tudo o que se subtrai ao prazer corporal é creditado à saúde espiritual.
Ora, os judeus, como se sabe, haviam recebido certos animais que não podiam comer, e outros dos quais deviam abster-se. O apóstolo Paulo deixa claro que eles receberam esta lei como sinal simbólico de realidades futuras.
Com tudo isto, a ninguém se compele a suportar privações para as quais não tenha aptidão. Nada se impõe a alguém contra a sua vontade, nem é ele condenado pelos demais por confessar-se demasiado fraco para os imitar. Eles têm em mente quão fortemente a Escritura recomenda a caridade para com todos... Assim, todos os seus esforços não se voltam para a rejeição de certos alimentos como impuros, mas para a subjugação do desejo desordenado e a manutenção do amor fraterno.
Portanto, se um homem oferece sacrifício a Deus, e um homem bom o recebe de suas mãos, o sacrifício é para cada homem da mesma qualidade que ele próprio se mostrou ser, visto que também encontramos escrito que "para os puros todas as coisas são puras".
Todas as heresias... todas dizem: "Jesus é Senhor." E Ele não há de, por certo, excluir do reino dos céus aqueles que encontrar no Espírito Santo; e, no entanto, disse: "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus." Mas: "Ninguém pode dizer: Jesus é Senhor, senão no Espírito Santo"; ninguém, evidentemente; mas no sentido em que isso foi dito, isto é, em obras... O mesmo apóstolo, com efeito, diz também de alguns: "Afirmam conhecer o Senhor, mas O negam com as obras." Assim como se pode negar pelas obras, também se pode confessar pelas obras.
No que nos concerne, nossa consciência é tudo o que importa. No que vos concerne, nossa reputação entre vós não deve ser manchada, mas deve influenciar para o bem. Notai o que disse, e fazei a distinção. Há duas coisas, consciência e reputação: a consciência para ti mesmo, a reputação para o teu próximo. Aqueles que, tendo a consciência tranquila, negligenciam sua reputação, são cruéis; sobretudo se se encontram nessa posição. O apóstolo escreve sobre isso a seu discípulo: "Mostrando-te em tudo como exemplo de boas obras."
Um episcopado pertence necessariamente a quem é cabeça da casa. É uma superintendência sobre a fé dos membros da casa, para que nenhum caia em heresia. Estende-se à esposa, a um filho ou filha; estende-se também a um escravo, pois também ele foi resgatado por tão grande preço. O ensinamento apostólico pressupõe a colocação do senhor acima do escravo e do escravo abaixo do senhor, mas Cristo deu o mesmo preço por cada um deles. Não negligencies nem sequer o mais humilde de tua casa.
Paulo há de receber, abraçar e observar, sem qualquer reserva, aqueles preceitos da lei que ajudam a formar o caráter dos fiéis, tais como "renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos sóbria, justa e piamente neste mundo" e "Não cobiçarás", escolhido pelo apóstolo como a parte da lei digna do maior louvor; e também os preceitos acerca do amor a Deus e ao próximo, tal como expostos na lei sem qualquer figura ou mistério... Mas todo progresso que fizer nestas coisas não o deve atribuir a si mesmo, senão à "graça de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor".
Há, porém, um jejum grande e geral, que é o jejum perfeito: abster-se das iniquidades e dos prazeres ilícitos do mundo: "que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos sóbria, justa e piamente neste mundo". Que recompensa acrescenta o apóstolo a este jejum? Prossegue e diz: "Aguardando aquela bendita esperança e a manifestação da glória do bendito Deus e Salvador, Jesus Cristo". Celebramos, pois, neste mundo, por assim dizer, uma Quaresma de abstinência quando vivemos bem, quando nos abstemos das iniquidades e dos prazeres ilícitos. Mas, porque esta abstinência não há de ficar sem salário, aguardamos "aquela bendita esperança". Nessa esperança, quando a realidade se tiver cumprido a partir da esperança, receberemos um denário como salário.
Os fiéis que são santos e bons podem ser poucos em comparação com o número maior dos ímpios, mas... "muitos virão do oriente e do ocidente, e se assentarão com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus." Deus mostra para Si mesmo "um povo numeroso, zeloso de boas obras." ... Ainda que às vezes escurecido e, por assim dizer, obscurecido por um grande número de escândalos... ainda assim este povo resplandece em seus membros mais fortes.
Paulo poderia estar cumprindo as obras manifestas da lei, seja por temor do homem, seja por temor de Deus, e ainda assim ter em si mesmo afeições más…. Sabendo-se tal em suas afeições internas, antes da graça de Deus que está em Jesus Cristo, nosso Senhor, o apóstolo confessa isto mesmo, alhures, de modo bem manifesto…. "Pois também nós éramos, outrora, insensatos e incrédulos, errantes, servindo a várias concupiscências e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos, e tendo-nos ódio uns aos outros." Tal era Saulo, ainda quando diz que era, quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.
Pois, se alguém me perguntasse se fomos salvos pelo batismo, não poderei negá-lo, visto que o apóstolo diz: "Ele nos salvou pelo lavacro da regeneração e renovação do Espírito Santo". Mas se me perguntasse se, por esse mesmo lavacro, já nos salvou em todo sentido de modo imediato, responderei: Não é assim. Porque o mesmo apóstolo diz também: "Pois somos salvos em esperança".
Somente as criancinhas que não praticaram obras próprias, nem boas nem más, serão condenadas unicamente por causa do pecado original, a menos que a graça do Salvador as tenha livrado dele mediante "o lavacro da regeneração". Todos os demais [são condenados], os quais usaram do livre-arbítrio para acrescentar pecados próprios ao pecado original, mas também pelos atos deliberados da própria vontade. Assim é, a menos que sejam libertados do poder das trevas e transladados para o reino de Cristo pela graça de Deus.
É verdade que ainda não ressuscitamos como Cristo ressuscitou, mas dizemos que com Ele ressuscitamos por causa da esperança que nEle depositamos. Assim, novamente ele diz: "Segundo a sua misericórdia, Ele nos salvou mediante o lavacro da regeneração." Evidentemente, o que obtemos no lavacro da regeneração não é a própria salvação, mas a esperança dela. E, contudo, porque esta esperança é certa, dizemos que somos salvos, como se a salvação já nos tivesse sido outorgada.
Se a remissão dos pecados não se pudesse obter na Igreja, não haveria esperança de vida futura nem de libertação eterna. Rendemos graças a Deus, que deu à sua Igreja tamanho dom. Eis-vos aqui; vireis à sagrada fonte, sereis lavados no batismo salvífico, sereis renovados n"o banho da regeneração". Ao saírdes daquele banho, estareis totalmente isentos de qualquer pecado. Todas as coisas que outrora vos afligiam serão apagadas.
Por esta razão, a caridade, que tem mais consideração pelo bem comum do que pelo próprio, diz-se que "não busca o que é seu"… Por isso, esta caridade se exercita agora nas boas obras do amor, mediante as quais se estende a prestar socorro em qualquer direção que possa, e isto é a sua largura. Suporta a adversidade com longanimidade e persevera naquilo que tem por verdadeiro, e isto é o seu comprimento. Mas tudo isto o faz a fim de alcançar a vida eterna que lhe é prometida no alto, e isto é a sua altura. Esta caridade, com efeito, está oculta no lugar em que estamos fundados e, por assim dizer, enraizada em profundidade. Por isso, não perscrutamos as razões da vontade de Deus, por cuja graça somos salvos. Isto não veio "pelas obras de justiça que houvéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia". "Pois, por sua própria vontade, Ele nos gerou pela palavra da verdade", e esta sua vontade permanece oculta.