Unidade 3.1Bem-aventurados os pobres de espírito
Mateus 5 · Leitura 1 · Catena Aurea

Bem-aventurados os pobres de espírito

Palavra

1Vendo (Jesus) aquelas multidões, subiu a um monte, e, tendo-se sentado, aproximaram-se dele os discípulos.

2Abrindo então a sua boca, os ensinava, dizendo:

3"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Evangelho de São Mateus 5, 1–3 — ler o capítulo inteiro ›

Convite à leitura

Cristo subiu ao monte, sentou-se e abriu a boca. Para os Padres, cada gesto é carregado: o monte é a altura de onde se ensina a nova justiça; sentar-se é a postura do mestre com autoridade; abrir a boca é o Verbo rompendo o silêncio. E a primeira palavra deste novo Sinai não é uma ordem — é uma bênção. O Reino começa declarando felizes os que o mundo declara insuficientes.

Vozes dos Padres

São João Crisóstomo
séc. IV

Subiu, pois, ao monte: primeiramente, para cumprir a profecia de Isaías que diz: "sobe tu a um monte alto"; depois, para mostrar que quem ensina a justiça de Deus, assim como quem a ouve, deve permanecer na altura das virtudes espirituais. Pois ninguém pode estar no vale e falar desde o monte. Se estás na terra, fala da terra; se, porém, falas do céu, permanece no céu. Ou subiu ao monte para mostrar que todo aquele que quer aprender os mistérios da verdade deve subir ao monte da Igreja, sobre o qual o profeta diz: "O monte de Deus é um monte fértil".

Santo Agostinho
séc. IV–V

A presunção do espírito significa audácia e soberba. Comumente se diz que os soberbos têm grande espírito, e corretamente, pois o espírito é chamado de vento. E quem não sabe que os soberbos são chamados de inflados, como que distendidos pelo vento? Por isso, entende-se aqui corretamente por pobres de espírito os humildes e tementes a Deus, isto é, aqueles que não têm o espírito que incha.

São Jerônimo
séc. IV–V

Alguns irmãos mais simples pensam que o Senhor ensinou o que segue no monte das oliveiras; o que de modo algum é verdade: pois pelos antecedentes e pelos consequentes demonstra-se que o lugar está na Galileia, que supomos ser ou o Tabor, ou qualquer outro monte elevado1.

[1] Nota editorial: O Monte Tabor é afirmado pelos Padres e pela tradição que chega até os dias de hoje como o cenário da Transfiguração. Mas São Jerônimo parece ser o único autor que fala dele como o cenário do Sermão da Montanha. O monte das Bem-aventuranças, segundo viajantes modernos, fica perto de Cafarnaum, e a dez milhas ao norte do Monte Tabor. Ver Grewell Diss. vol. ii. 294. Descrição do Oriente de Pococke, vol. ii. 67

São Hilário de Poitiers
séc. IV

Ou, subiu ao monte, porque estando colocado na elevação da majestade paterna, estabeleceu os preceitos da vida celestial.

Rábano Mauro
séc. IX

Misticamente, porém, o ato de Jesus sentar-se é Sua encarnação: porque se o Senhor não se tivesse encarnado, o gênero humano não poderia ter se aproximado dele.

São Gregório Magno
séc. VI

Mas antes que o Senhor pronunciasse os sublimes preceitos no monte, diz-se: "Abrindo sua boca os ensinava", Ele, que anteriormente havia aberto a boca dos profetas.

Santo Ambrósio
séc. IV

Ali, portanto, começa a bem-aventurança no juízo divino, onde se considera estar a miséria humana.

Remígio de Auxerre
séc. IX–X

Deve-se saber isto, que o Senhor teve três refúgios, como lemos: a barca, o monte e o deserto; a um destes Ele costumava retirar-se sempre que era oprimido pelas multidões.

Para a sua oração

Você é pobre de espírito — isto é, vive sabendo que tudo o que tem lhe foi dado? Ou carrega, mesmo em silêncio, o orgulho das próprias virtudes e conquistas espirituais?

Oração

Senhor Jesus, Mestre da nova lei, que proclamaste bem-aventurados os pobres de espírito: dá-me essa pobreza interior que não confia em si nem se gloria de si, mas vive de mãos abertas diante de Deus. Que do meu pouco tu faças o que quiseres. Amém.

Desafio

Durante o dia de hoje, cada vez que você se pegar julgando alguém interiormente (no trânsito, no trabalho, nas redes), interrompa o pensamento e diga em silêncio: 'eu também vivo de misericórdia'. Conte quantas vezes precisou fazer isso. O número é o seu diagnóstico — e o começo da pobreza de espírito.