Abrirei em parábolas a minha boca
Palavra
34Todas estas coisas disse Jesus ao povo em parábolas; e não lhes falava sem parábolas,
35a fim de que se cumprisse o que estava anunciado pelo profeta, que diz; Abrirei em parábolas a minha boca, publicarei as coisas escondidas desde a criação (Sl 77, 2)."
Evangelho de São Mateus 13, 34–35 — ler o capítulo inteiro ›
Convite à leitura
Cristo fala em parábolas — e os Padres leem nisso um ato de justiça e de misericórdia ao mesmo tempo. O mistério se abre aos que se dispuseram pela obediência, e se vela aos que endureceram voluntariamente o coração. A parábola é peneira: separa quem escuta de quem apenas ouve. Não é arbitrariedade divina; é a proteção do sagrado contra o desprezo — e um convite permanente: quem quiser entender, aproxime-se mais.
Vozes dos Padres
Depois das parábolas apresentadas anteriormente, para que ninguém pensasse que Cristo estava introduzindo algo novo, o Evangelista cita o profeta, que predisse até mesmo este Seu modo de pregação; e por isso diz: todas estas coisas falou Jesus em parábolas às multidões. Marcos, porém, diz: conforme podiam compreender, falava-lhes a palavra em parábolas(São Marcos 4,33). Portanto, não te admires de que, ao discorrer sobre o reino, Ele mencione o grão e o fermento; pois falava a homens simples e que necessitavam ser guiados por tais auxílios.
Porém, como de maneira alguma se encontrava em Isaías, suponho que tenha sido posteriormente removido por homens prudentes; mas parece-me que no início foi escrito deste modo: "o que foi escrito pelo profeta Asaph, dizendo", pois o septuagésimo sétimo Salmo, do qual este testemunho foi tirado, é atribuído ao profeta Asaph, e o primeiro escritor não compreendeu Asaph, e supôs ser um erro do copista, e emendou para o nome de Isaías, cujo nome era mais conhecido. Deve-se saber, portanto, que não somente Davi, mas também todos os outros (cujos nomes constam nos Salmos, hinos e cânticos de Deus) devem ser chamados de profetas, a saber, Asaph e Idithum, e Heman o Efraimita, e os demais que a Escritura comemora; e quanto ao que é dito na pessoa do Senhor "abrirei em parábolas a minha boca", deve-se considerar com mais atenção e descobrir que descreve a saída de Israel do Egito, e narra todos os sinais contidos na história do Êxodo. Por isso entendemos que todas aquelas coisas que ali estão escritas devem ser compreendidas de modo parabólico, e manifestam sacramentos ocultos; pois isso o Salvador promete que há de declarar, dizendo "abrirei em parábolas a minha boca".
Ou isto é dito não porque Ele não tenha falado nada em sentido próprio, mas porque quase nenhum discurso explicou onde não significasse algo por meio de parábola; embora nisto tenha dito algumas coisas também em sentido próprio: de modo que frequentemente se encontra todo o seu discurso explicado por parábolas, mas nenhum se encontra inteiramente dito em sentido próprio. Chamo de discursos explicados quando, a partir de alguma ocasião, começa a falar de certas coisas até que termine tudo o que pertence àquele assunto e passe a outro. Certamente, às vezes, um Evangelista reúne o que outro indica ter sido dito em tempos diversos: pois não ordenaram a narração que iniciaram totalmente segundo a ordem dos acontecimentos, mas segundo a faculdade da recordação de cada um. Por que, porém, falava em parábolas, o Evangelista manifesta quando acrescenta: "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, que diz: abrirei em parábolas a minha boca, pronunciarei coisas escondidas desde a fundação do mundo".
Como se dissesse: Eu que antes falei pelos profetas, agora em minha própria pessoa abrirei minha boca em parábolas, e extrairei do tesouro do meu segredo; emitirei mistérios que estavam escondidos desde a fundação do mundo.
Parábola em grego, em latim diz-se similitude, pela qual a verdade é demonstrada. De fato, mostra na própria similitude certas figuras de palavras e imagens da verdade.
Para a sua oração
Você lê as parábolas como enigmas a decifrar ou como espelhos que devolvem a sua imagem? O que você faz com as partes do Evangelho que ainda não entende — exige explicação imediata, ou aceita permanecer nelas?
Oração
Senhor Jesus, que abriste a boca em parábolas para revelar o que estava escondido desde a criação: dá-me o coração que entende, não apenas o ouvido que escuta. Que a tua Palavra me peneire — e que, na peneira, eu seja achado entre os que se aproximaram. Amém.
Desafio
Escolha uma parábola que sempre te incomodou ou confundiu (os trabalhadores da última hora, o administrador desonesto, as dez virgens...). Leia-a hoje três vezes, devagar, em momentos diferentes do dia. Não busque explicação fora ainda — apenas permaneça nela. Anote à noite o que ela te disse na terceira leitura que não tinha dito na primeira.