Eclesiástico (Siracida)
1O que tocar o pez, ficará manchado dele; o que trata com o soberbo, revestir-se-á de soberba.
2Impõe-se uma pesada carga o que trata com outro mais poderoso que ele; (por isso) não te associes com o que é mais rico do que tu.
3Como se associará uma panela (de barro) com um caldeirão? Quando estes vasos derem um no outro, ela se quebrará.
4O rico faz uma injustiça, e (ainda por cima) solta clamores; o pobre, porém, maltratado, guarda silêncio.
5Enquanto lhe fores útil, utilizará os teus serviços; quando não valeres nada, abandonar-te-á.
6Se tens, fará convivência contigo, e te esgotará sem nenhuma pena ter de ti.
7Se lhe fores necessário, ele te enganará, e, sorrindo-se, te dará boas esperanças; falando-te com boas palavras, dir-te-á: De que necessitas tu?
8Confundir-te-á com os seus banquetes, até que te esgote em duas ou três vezes (que o convides), e, por último, zombará de ti; depois, vendo-te, abandonar-te-á e abanará a cabeça escarnecendo de ti.
9Humilha-te diante de Deus, e espera (que) a sua mão (obre).
10Tem cuidado, não te deixes seduzir para que não caias numa loucura que te humilhe.
11Não te humilhes na tua sabedoria, não suceda que este abaixamento te arraste para a loucura.
12Se fores chamado por algum grande, retira-te, porque isso o excitará mais a chamar-te.
13Não lhe sejas importuno, para que ele se não desgoste de ti; e não te afastes demasiado, para que te não esqueça.
14Não pretendas falar com ele, como se fosses seu igual, nem te fies nas suas muitas palavras, porque ele te experimentará, fazendo-te falar muito, e, sorrindo, te interrogará sobre os teus segredos,
15O seu coração desapiedado conservará todas as tuas palavras, e não te poupará, nem aos maus tratos, nem às prisões.
16Tem cuidado contigo, e presta bem atenção aos teus ouvidos. pois andas em risco de te perder.
17Mas, ouvindo essas coisas (as suas palavras), toma-as por um sonho, e vigiarás.
18Ama a Deus durante toda a tua vida, e invoca-o para tua salvação.
19Todo o ser vivo ama o seu semelhante; igualmente todo o homem ama o seu próximo.
20Toda a carne se une à que se lhe assemelha, e todo o homem se une com o seu semelhante.
21Quando o lobo tiver amizade com o cordeiro, então a terá o pecador com o justo.
22Que relações pode ter um homem santo com um cão? Ou que sociedade pode ter um homem rico com um pobre?
23O asno montês é a presa do leão no deserto; assim também os pobres são a presa dos ricos.
24E, assim como a humildade é a abominação do soberbo, assim também o pobre é a execração do rico.
25O rico, se for abalado, é sustido pelos seus amigos; mas o pobre, quando cai, será repelido até pelos seus amigos.
26Se o rico se engana, tem muitos defensores; se fala com arrogância, justificam-no.
27Se o pobre se engana, ainda em cima é repreendido; se fala avisadamente, não fazem caso.
28Se fala o rico, todos se calam, e exaltam até às nuvens as suas palavras.
29Se fala o pobre, dizem: Quem é este? Se puser um pé em falso, acabá-lo-ão de derrubar.
30As riquezas são boas para o que não tem pecado na sua consciência; a pobreza é péssima na boca do ímpio.
31O coração do homem muda-lhe o rosto, quer para bem, quer para mal.
32O sinal dum bom coração, que é um rosto satisfeito, encontra-se dificilmente e com trabalho.