Unidade 1.2Filho de Davi, Filho de Deus
Mateus 1 · Leitura 2 · Catena Aurea

Filho de Davi, Filho de Deus

Palavra

1Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.

Evangelho de São Mateus 1, 1 — ler o capítulo inteiro ›

Convite à leitura

A mesma frase abre dois mistérios: a descendência humana de Cristo e a sua eternidade divina. Os Padres mergulham aqui no que a fé nunca se cansa de contemplar — o Verbo se fez carne, sem confusão e sem separação. Crer em Cristo é sustentar esse paradoxo até o fim: verdadeiro Deus, verdadeiro homem.

Vozes dos Padres

Santo Agostinho
séc. IV–V

O Evangelista São Mateus mostra que assumiu para si narrar a geração de Cristo segundo a carne, pois iniciou com a genealogia de Cristo. São Lucas, porém, assinalando Cristo mais como sacerdote na expiação dos pecados, não narra as gerações desde o início de seu Evangelho, mas a partir do Batismo de Cristo, onde São João deu testemunho dizendo: Eis aquele que tira os pecados do mundo. Nas gerações narradas por São Mateus significa-se a assunção de nossos pecados pelo Senhor Cristo. Já nas gerações de São Lucas significa-se a abolição de nossos pecados por Ele mesmo; por isso São Mateus narra as gerações de Cristo em ordem descendente, enquanto São Lucas as narra em ordem ascendente. São Mateus, ao descrever a geração humana de Cristo de forma descendente, começa sua enumeração por Abraão.

Santo Ambrósio
séc. IV

Pois Abraão foi o primeiro que mereceu o testemunho da fé; ele creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça(Gênesis 15,6). Era conveniente, portanto, que ele fosse apresentado como o primeiro na linha de descendência, sendo o primeiro a merecer a promessa da restauração da Igreja, Em ti serão benditas todas as nações da terra(Gênesis 22,18). E novamente está terminando em Davi, para que Jesus fosse chamado seu filho; por isso a ele é preservado o privilégio de que dele viesse o princípio da genealogia do Senhor.

São João Crisóstomo
séc. IV

O evangelista São Mateus, querendo recomendar à memória a geração da carne do Senhor através da sequência dos pais, começando pelo pai Abraão, diz: Abraão gerou Isaac. Por que não disse: Ismael, a quem primeiro gerou? Segue-se Isaac gerou Jacó. Por que não disse: Esaú, que foi seu primogênito? Porque, evidentemente, através daqueles não poderia chegar a Davi.

Glossa Ordinária
séc. XII

No entanto, ele enumera todos os irmãos de Judá junto com ele na linhagem. Isto também foi feito porque Ismael e Esaú não permaneceram no culto do único Deus, mas os irmãos de Judá foram contados no povo.

São João Crisóstomo
séc. IV

Ou, ele menciona os doze patriarcas para remover aquela exaltação que vem da nobreza dos antepassados. Pois muitos destes nasceram de servas, mas todos eram igualmente patriarcas e chefes de tribos.

Glossa Ordinária
séc. XII

Porém, Judá é o único mencionado pelo nome, e isso porque o Senhor descende somente dele. Mas em cada um dos patriarcas devemos notar não apenas sua história, mas também o significado alegórico e moral que pode ser extraído deles; alegoria, ao ver a quem cada um dos pais prefigurou; instrução moral naquilo que, através de cada um dos pais, alguma virtude pode ser edificada em nós, seja pela significação de seu nome, seja pelo seu exemplo.1 Abraão é, em muitos aspectos, uma figura de Cristo, e principalmente em seu nome, que é interpretado como 'pai de muitas nações', e Cristo é pai de muitos fiéis. Abraão, além disso, saiu de sua própria parentela e habitou em terra estranha; de modo semelhante, Cristo, deixando a nação judaica, foi por meio de seus pregadores por entre os gentios.

[1] Orígenes considerava que havia três sentidos da Escritura: o literal ou histórico, o moral, e o místico ou espiritual, correspondendo às três partes do homem: corpo, alma e espírito. Homilia in Leviticum ii, 5, de Principio iv, p. 168. Pelo sentido moral entende-se, como o nome implica, uma aplicação prática do texto; pelo místico, aquele que o interpreta do mundo invisível e espiritual.

São João Crisóstomo
séc. IV

Isaac é interpretado como "riso". Mas o riso dos santos não é a insensata gargalhada dos lábios, e sim o júbilo racional do coração, que foi o mistério de Cristo. Pois assim como ele foi concedido aos seus pais em extrema velhice para sua alegria, a fim de que se soubesse que ele não era filho da natureza, mas da graça, assim também Cristo, no último tempo, foi produzido por sua mãe judia como alegria para todos; mas este por uma virgem, aquele por uma anciã, ambos contrários à expectativa da natureza.

Remígio de Auxerre
séc. IX–X

Jacó se interpreta como "suplantador", e sobre Cristo é dito: "Tu derrubaste debaixo de mim aqueles que se levantaram contra mim"(Salmo 18,43). Jacó gerou Judá e seus irmãos.

São João Crisóstomo
séc. IV

E nosso Jacó gerou doze apóstolos em espírito, não na carne; pela palavra, não pelo sangue. Judá, porém, interpreta-se 'confessor', porque era imagem de Cristo, que haveria de ser confessor do Pai, dizendo: confesso-te, Pai, Senhor do céu e da terra.

Glossa Ordinária
séc. XII

Moralmente, Abraão nos significa a virtude da fé por meio dos exemplos de Cristo, como se lê sobre ele: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Isaac significa a esperança, porque se interpreta como riso, pois foi a alegria de seus pais; a esperança, semelhantemente, é nossa alegria, enquanto nos faz esperar os bens eternos e nos alegrar neles. Abraão, portanto, gerou Isaac, porque a fé gera a esperança. Jacó, por sua vez, significa a caridade. Pois a caridade abrange duas vidas: a ativa pelo amor ao próximo, a contemplativa pelo amor a Deus; a ativa é significada por Lia, a contemplativa por Raquel. Lia, de fato, se interpreta como "trabalhadora"1, porque a vida ativa está no trabalho; Raquel, "que vê o princípio"2, porque pela contemplativa o princípio, isto é, Deus, é visto. Nasce, portanto, Jacó de dois pais, porque a caridade nasce da fé e da esperança; pois o que cremos e esperamos, amamos.

[1] Lia cheia de trabalho, Jerônimo de nominibus Hebraicis, de לאה, cansar-se.

[2] Raquel, uma ovelha (como em Gênesis 31,38, etc.), Jerônimo ibid., que também dá a interpretação no texto, de ראה e חלל (החלה princípio).

Para a sua oração

Na sua vida de oração, você trata Cristo como Deus — com adoração — e como homem — com intimidade? Ou tende a ficar só com um dos lados?

Oração

Verbo eterno, gerado do Pai antes dos séculos e nascido no tempo de Maria: dá-me a fé que não separa o que uniste na tua Pessoa. Que eu te adore como Deus, te conheça como homem, e te siga como o único caminho para o Pai. Amém.

Desafio

Hoje, em dois momentos distintos do dia, pare por um minuto: no primeiro, dirija-se a Cristo como Deus (adoração silenciosa, sem pedir nada); no segundo, fale com Ele como quem fala com um amigo próximo, sobre algo concreto do seu dia. Note a diferença — e o que ela revela sobre a sua oração habitual.