Unidade 1.3Três séries de catorze
Mateus 1 · Leitura 3 · Catena Aurea

Três séries de catorze

Palavra

2Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacob, Jacob gerou Judá e seus irmãos,

Evangelho de São Mateus 1, 2 — ler o capítulo inteiro ›

Convite à leitura

Os Padres leem na divisão das gerações em três séries de catorze a plenitude do Espírito necessária à salvação da alma e do corpo. A leitura simbólica dos números não é um jogo — é confissão de que toda história tem um pulso secreto regido pela providência. Mesmo quando as gerações parecem se repetir sem rumo, Deus conta os passos.

Vozes dos Padres

Glossa Ordinária
séc. XII

Passando por cima dos outros filhos de Jacó, o Evangelista segue a linhagem de Judá, dizendo: Judá, porém, gerou Farés e Zara de Tamar.

São João Crisóstomo
séc. IV

Depois disso, mostra-se que todos estavam sujeitos ao pecado: impõe-se a fornicação de Tamar, que acusa Judá, e Davi gerou Salomão de uma mulher fornicária. Se a lei não foi cumprida pelos grandes, nem pelos menores o seria; e assim todos pecaram, e tornou-se necessária a presença de Cristo.

São João Crisóstomo
séc. IV

Por Zaram significa-se o povo judeu, que primeiro apareceu na luz da fé, como que procedendo do ventre tenebroso do mundo. E por isso foi marcado com o fio escarlate da circuncisão, pensando todos que ele seria o povo de Deus. Mas diante de sua face foi posta a lei, como uma sebe ou muro. Assim, pois, o povo judeu foi impedido pela lei, mas nos tempos de Cristo, foi rompida a sebe da lei, que estava entre judeus e gentios, como diz o apóstolo: "derrubando o muro de separação"(Efésios 2,14). Assim aconteceu que os gentios, significados por Phares, depois que a lei foi rompida pelos mandamentos de Cristo, primeiros procederam para a fé; e depois segue o povo judeu. Segue-se que Phares gerou Esrom.

Glossa Ordinária
séc. XII

Judá gerou Farés e Zara antes de entrar no Egito, para onde ambos depois foram com o pai. No Egito, Farés gerou Esrom; e Esrom gerou Arão; Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; e então Moisés os conduziu para fora do Egito. Naasson foi chefe sob Moisés na tribo de Judá pelo deserto, onde gerou Salmon. Este Salmon foi príncipe da tribo de Judá que, com Josué, entrou na terra da promissão.

São João Crisóstomo
séc. IV

Como acreditamos que os nomes destes pais foram dados por alguma causa especial segundo a providência de Deus, segue-se: Naasson, porém, gerou Salmon. Este Salmon, após a morte de seu pai, foi príncipe na tribo de Judá, que entrou na terra prometida com Josué.

São João Crisóstomo
séc. IV

Tomou como esposa uma mulher chamada Raab. Esta Raab se diz ter sido Raab a meretriz de Jericó, que recebeu os exploradores dos filhos de Israel, escondeu-os e preservou-os ilesos. Como Salmon era nobre entre os filhos de Israel, porque era da tribo de Judá e filho de um príncipe, viu Raab tão fiel como se fosse alguém importante, e mereceu tomá-la por esposa. Talvez também por isso se interprete Salmon, como se pelo próprio nome fosse convidado pela providência de Deus a receber Raab como vaso de eleição. Pois Salmon se interpreta como "recebe o vaso". Segue-se: E Salmon gerou Booz de Raab.

Glossa Ordinária
séc. XII

Este Salmon na terra prometida gerou de Rahab a Booz. Booz, porém, gerou Obed de Ruth.

São João Crisóstomo
séc. IV

Como Booz tomou por esposa uma moabita de nome Ruth, julguei supérfluo explicar, uma vez que a Escritura sobre eles é manifesta a todos. Isto, porém, dizemos somente: que Ruth, pelo mérito de sua fé, casou-se com Booz, porque repeliu os deuses de seus antepassados e escolheu o Deus vivo. E Booz, pelo mérito de sua fé, tomou-a por esposa, para que de tal união santificada nascesse uma linhagem real.

Glossa Ordinária
séc. XII

Jessé, pai de David, tem dois nomes, sendo mais frequentemente chamado de Isai. Mas o Profeta diz: Sairá uma vara da raiz de Jessé (Isaías 11,1); portanto, para mostrar que esta profecia foi cumprida em Maria e em Cristo, o Evangelista coloca Jessé.

Glossa Ordinária
séc. XII

Ele mesmo acolhe Rahab, isto é, a Igreja dos gentios. Pois Rahab significa fome, ou largura, ou ímpeto, porque a Igreja dos gentios tem fome e sede de justiça e, pelo ímpeto da doutrina, converte filósofos e reis. Ruth também é interpretada como 'a que vê' ou 'a que se apressa'1, e significa a Igreja que, com coração puro, vê a Deus e se apressa para o prêmio da vocação celeste.

[1] Nota editorial: E assim Jerônimo, de ראה, e talvez רוץ para o segundo.

Glossa Ordinária
séc. XII

Vejamos entretanto quais virtudes estes patriarcas edificam em nós, porque a fé, a esperança e a caridade são o fundamento de todas as virtudes. As virtudes seguintes são como acréscimos. Judá é interpretado como confissão. Há, de fato, duas confissões: uma é de fé, outra é de pecados. Se, portanto, após as três virtudes supramencionadas se cometer pecado, é necessária não apenas a confissão de fé, mas também a dos pecados. Depois de Judá seguem Farés e Zara. Farés é interpretado como divisão, Zara como nascente, e Tamar como amargura1. Pois a confissão gera a divisão dos vícios, o nascimento das virtudes e a amargura da penitência. Depois de Farés segue Esron, que é interpretado como flecha, pois depois que alguém se separa dos vícios e das coisas seculares, deve tornar-se uma flecha para, pregando, matar os vícios nos outros. Segue-se Arão, que é interpretado como eleito ou excelso2, porque depois que alguém se afasta do mundo e beneficia os outros, é necessário que seja considerado eleito por Deus, célebre entre os homens e excelso nas virtudes. Naasson é interpretado como augúrio, mas este augúrio não é secular, mas celeste. Disto glorificava-se José, quando ordenava aos irmãos: vós levastes a taça do meu senhor, na qual costumava adivinhar. A taça é a Sagrada Escritura, onde está a bebida da sabedoria; nela adivinha o sábio, porque aí vê as coisas futuras, isto é, as celestiais. Segue-se Salmon, ou seja, sensível. Pois depois que alguém se dedica à Sagrada Escritura, torna-se sensível, isto é, discernindo pelo gosto da razão o que é bom, o que é mau, o que é doce, o que é amargo. Segue-se Booz, isto é, forte. Pois instruído nas Escrituras, torna-se forte para suportar todas as adversidades.

[1] תמרורים amargura, de מרר (Jeremias 31,15, Oseias 12,15).

[2] Excelso de רום.

São João Crisóstomo
séc. IV

Este, porém, o forte, é filho de Rahab, isto é, da Igreja. Pois Rahab é interpretado como amplitude ou dilatada, porque a Igreja dos gentios foi chamada de todos os confins da terra, é chamada de amplitude.

São João Crisóstomo
séc. IV

Mas aqueles que buscam riquezas e não costumes, beleza e não fé, e desejam em suas esposas aquilo que costuma ser procurado nas meretrizes, não geram filhos submissos a si mesmos ou a Deus, mas rebeldes contra si e contra Deus, de modo que seus filhos sejam castigo de sua irreligiosidade. Este Obed gerou Jessé, isto é, refrigério, pois qualquer um que é submisso a Deus e a seus pais, gera, com o auxílio de Deus, tais filhos pelos quais é refrigerado.

Glossa Ordinária
séc. XII

Ou Jesse, isto é, incenso. Pois se servimos por amor e temor, haverá devoção no coração, que do fogo e desejo do coração oferece a Deus suavíssimo incenso. Depois, porém, que alguém se torna um servo idôneo e um sacrifício para Deus, segue-se que seja David, isto é, forte de mão, que combateu fortemente contra os inimigos e fez os Idumeus tributários. De modo semelhante, ele mesmo deve subjugar a Deus os carnais, isto é, os homens, pela palavra e pelo exemplo.

Santo Agostinho
séc. IV–V

Nem Judá era o primogênito, nem algum desses gêmeos foi o primogênito de Judá; mas antes deles ele já havia gerado três. Assim, ele manteve na ordem das gerações aqueles por meio dos quais chegou a Davi, e daí para onde pretendia.

São Jerônimo
séc. IV–V

É digno de nota que na genealogia do Salvador não há menção de nenhuma das santas mulheres, mas sim daquelas que a Escritura repreende, para que aquele que veio pelos pecadores, nascendo de pecadores, apagasse os pecados de todos, e por isso, também nas sequências, Rute, a moabita, é mencionada.

Santo Ambrósio
séc. IV

Lucas, porém, evitou mencioná-los, para expor a imaculada linhagem da raça sacerdotal. Mas o plano de São Mateus não se afastou da justiça da razão, pois quando evangelizava que aquele que tomaria sobre si os pecados de todos nasceu segundo a carne, sujeito a injúrias, submetido ao sofrimento. Nem mesmo julgou que deveria excluí-lo da afirmação de piedade, para que não recusasse a injúria de uma origem manchada; ao mesmo tempo para que a Igreja não se envergonhasse de ser congregada de pecadores, quando o Senhor nasceu de pecadores; finalmente, para que o benefício da redenção começasse também com seus antepassados, para que ninguém pensasse que a mancha de origem poderia ser impedimento à virtude, nem se vangloriasse insolentemente de sua nobreza.

Santo Ambrósio
séc. IV

Veja, pois, que não foi em vão que São Mateus mencionou ambos, ainda que apenas a comemoração de Farés fosse necessária, porque em ambos existe um mistério. Pois pelos gêmeos é descrita a dupla vida dos povos: uma segundo a lei, a outra segundo a fé.

Santo Ambrósio
séc. IV

Mas como Ruth, sendo estrangeira, casou-se com um judeu, e por qual razão o Evangelista considerou necessário mencionar na genealogia de Cristo essa união, que conforme a sequência da lei era adúltera? Portanto, visto que o salvador não procedeu de uma geração legítima, isso parece ser inadequado, a menos que retorneis ao pronunciamento apostólico de que "a lei não foi estabelecida para os justos, mas para os injustos". Pois sendo ela estrangeira e moabita, especialmente quando a lei de Moisés proibia tais matrimônios e excluía os moabitas da Igreja, como entrou na Igreja senão porque, santa e imaculada em seus costumes, se elevou acima da lei? Portanto, ela excedeu o propósito da lei e mereceu ser contada entre os antepassados da linhagem do Senhor, escolhida pela afinidade de espírito, não do corpo. E é um grande exemplo para nós, pois nela precedeu a figura de todos nós que, reunidos dentre os gentios, entramos na Igreja do Senhor.

São Jerônimo
séc. IV–V

Rute, a moabita, cumpre a profecia de Isaías que diz: Envia, Senhor, o cordeiro dominador da terra, da pedra do deserto para o monte da filha de Sião(Isaías 16,1). Segue-se "Obed gerou Jessé".

Remígio de Auxerre
séc. IX–X

Mas deve-se perguntar por que o santo Evangelista nomeou somente a Davi como rei, o que foi dito para mostrar que ele foi o primeiro rei da tribo de Judá. O próprio Cristo é Farés, o divisor, como está escrito: Separará os cordeiros dos cabritos(São Mateus 25,33). Ele é também Zarã1, o oriente, como está escrito: Eis o homem, Oriente é o seu nome(Zacarias 6,12). Ele é Esrom2, flecha, como está escrito: Fez de mim uma flecha escolhida(Isaías 49,2).

[1] זרח; em Zacarias 6,12, é זרח.

[2] חצרון, como se derivasse de חץ, e assim afirma São Jerônimo.

Rábano Mauro
séc. IX

Ou o átrio, devido à abundância da graça e à amplitude da caridade. É Aram, o escolhido1, conforme aquilo: Eis o meu servo escolhido; ou o excelso, conforme aquilo: O Senhor é excelso sobre todas as nações. Ele mesmo é Aminadab2, isto é, voluntário, que diz: Voluntariamente oferecerei sacrifício a ti. Ele é também Naasson3, isto é, augúrio, que conhece o passado, o presente e o futuro. Ou serpentino, conforme aquilo: Moisés levantou a serpente no deserto. É também Salmon4, isto é, sensível, que diz: Eu senti que de mim saiu virtude.

[1] רם que significa ser elevado.

[2] עמי נדב Meu povo está disposto - Jerônimo; compara-se com עמך נדבת, Salmo 110,3.

[3] נחשן, de נחש para augúrio das serpentes, conforme Jerônimo.

[4] E assim diz Jerônimo.

Remígio de Auxerre
séc. IX–X

Cristo é também Booz1, porque ele é força, pois, Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim(São João 12,32). Ele é Obed, 'um servo'2, pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir(São Mateus 20,28). Ele é Jessé, ou 'incenso'3, pois, Vim trazer fogo à terra(São Lucas 12,49). Ele é Davi4, 'forte em braço', pois, O Senhor é grande e poderoso(Salmo 24,8); 'desejável', pois, Virá o desejado de todas as nações(Ageu 2,7); 'belo de se contemplar', segundo aquilo, Formoso de aspecto mais que os filhos dos homens(Salmo 45,3).

[1] Nota do editor: E assim Jerônimo; talvez בעז =بعز atividade; aqui, como se fosse בעז "com poder".

[2] Nota do editor: עובד Obed, e assim Jerônimo.

[3] Nota do editor: Como se derivasse de אש.

[4] Nota do editor: E assim Jerônimo.

Rábano Mauro
séc. IX
Segue-se Obed, isto é, servidão. Pois não é apto para a servidão senão aquele que é forte; a qual servidão é gerada de Rute, isto é, pressa. Convém, com efeito, que o servo seja diligente, não preguiçoso.

Para a sua oração

Olhando para trás, você reconhece na sua própria vida um ritmo silencioso de preparação — coisas que só fizeram sentido depois? Você tem paciência com o tempo de Deus, ou quer apressar a sua própria história?

Oração

Pai santo, Senhor da história, que conduziste gerações inteiras até o nascimento do teu Filho: conduze também a minha vida, no tempo que me deste, para a plenitude do teu desígnio. Que eu confie no ritmo lento da tua graça, mesmo quando os meus dias parecem se repetir sem fruto. Amém.

Desafio

Identifique um período da sua vida que, na época, pareceu perdido ou sem sentido — e que depois se revelou preparação para algo. Escreva três linhas sobre ele. Depois, nomeie uma área da sua vida atual que parece 'estagnada' e entregue-a conscientemente a Deus em oração, pelo nome.