Unidade 2.1Conduzido pelo Espírito ao deserto
Lucas 4 · Leitura 1 · Catena Aurea

Conduzido pelo Espírito ao deserto

Palavra

1Jesus, cheio do Espirito Santo, partiu do Jordão, e foi conduzido pelo Espírito ao deserto,

2onde esteve quarenta dias, e foi tentado pelo demônio. Não comeu nada nestes dias; passados eles, teve fome.

3Então o demônio disse-lhe: "Se és filho de Deus, diz a esta pedra que se converta em pão."

4Jesus respondeu-lhe: "Está escrito: O homem não vive só de pão (Dt 8, 3)."

Evangelho de São Lucas 4, 1–4 — ler o capítulo inteiro ›

Convite à leitura

Não foi o tentador que levou Cristo ao deserto — foi o Espírito Santo. Há aridez que Deus permite, há fome que Deus quer. A primeira tentação ataca por uma necessidade legítima: pão. E Cristo responde com a Escritura, não com milagre. Aprendemos aqui que a Palavra de Deus alimenta antes do pão — e que o jejum é caminho, não castigo.

Vozes dos Padres

São Cirilo de Alexandria
séc. V

Outrora Deus disse: "Não permanecerá o meu espírito nestes homens, porque são carne"; mas quando fomos enriquecidos com a regeneração pela água e pelo Espírito, fomos feitos participantes da natureza divina pela participação do Espírito Santo. O Primogênito entre muitos irmãos foi o primeiro a receber o Espírito, Ele que também é o doador do Espírito, para que também a nós chegasse por meio d'Ele a graça do Espírito Santo.

Teofilacto de Bulgária
séc. XI

Como se dissesse: A natureza humana não se sustenta só com pães; antes, a palavra de Deus é suficiente para nutrir toda a natureza humana. Assim foi alimentado o povo israelita, recolhendo maná durante quarenta anos, e alegrando-se com a presa das aves. Por disposição divina, Elias teve corvos como seus provedores; Eliseu alimentou seus companheiros com ervas silvestres.

Santo Ambrósio
séc. IV

São três as coisas que contribuem para a utilidade da salvação humana: o sacramento, o deserto e o jejum. Ninguém é coroado a não ser aquele que lutou legitimamente; e ninguém é admitido à luta da virtude, a menos que, primeiramente purificado de todas as manchas dos delitos, seja consagrado com o dom da graça celestial.

Santo Agostinho
séc. IV–V

Este número é um sacramento deste tempo laborioso, no qual sob a disciplina do rei Cristo lutamos contra o Diabo. Pois este número significa a vida temporal: os tempos dos anos correm em ciclos de quatro, e quarenta contém quatro vezes dez; além disso, estes mesmos dez são completados pelo número que progride sucessivamente de um até quatro; o que demonstra que o jejum de quarenta dias, isto é, a humilhação da alma, foi consagrado tanto pela lei e pelos profetas por meio de Moisés e Elias, quanto pelo Evangelho através do próprio jejum do Senhor.

São Gregório Magno
séc. VI

A virtude, então, não se alimenta de pão, nem por meio de carnes a alma mantém-se saudável e vigorosa, mas com outros banquetes é sustentada e aumentada a vida sublime. A nutrição do homem bom é a castidade, seu pão é a sabedoria, seu alimento é a justiça, sua bebida é o estado impassível, seu deleite é o bem saber.

São João Crisóstomo
séc. IV

Muito prudentemente foi feito que no jejum não excedesse o número deles; a saber, para que não se pensasse que tinha vindo apenas aparentemente, ou que não tivesse recebido verdadeira carne, ou que fosse de natureza além da humana.

Orígenes de Alexandria
séc. II–III

Quando, portanto, lês que Jesus estava cheio do Espírito Santo, e está escrito nos Atos sobre os Apóstolos que foram cheios do Espírito Santo, vê não julgues serem os apóstolos iguais ao Salvador: pois como quando dizes que estes vasos estão cheios de vinho ou óleo, não afirmas logo que estão cheios com igual medida; assim Jesus e Paulo estavam cheios do Espírito Santo, mas o vaso de Paulo era muito menor que o de Jesus, e, no entanto, ambos estavam repletos segundo sua própria medida. Tendo, pois, recebido o Batismo, o Salvador, cheio do Espírito Santo, que sobre Ele havia descido do céu em forma de pomba, era conduzido pelo Espírito: porque todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus; mas Este era propriamente o Filho de Deus, acima de todos.

Beda, o Venerável
séc. VII–VIII

Para que ninguém duvidasse por qual espírito foi conduzido ou impelido para o deserto, como dizem os outros Evangelistas, São Lucas acrescentou oportunamente: "E era conduzido pelo Espírito no deserto durante quarenta dias", para que não se pensasse que o espírito imundo tivesse algum poder contra Aquele que, cheio do Espírito Santo, fazia tudo o que queria.

São Basílio
séc. IV

Mas, porque não ter fome está acima da natureza humana, o Senhor assumiu a paixão da fome, indicando que ela não é pecado, e concedeu, quando quis, à natureza humana padecer e agir o que lhe é próprio; donde segue: e consumados aqueles dias, teve fome, não forçado pela necessidade que governa a natureza, mas como que provocando o Diabo para o duelo. Pois, percebendo o Diabo que onde há fome, há fraqueza, aproxima-se para tentar; e como inventor de tentações, persuadia a Cristo, que padecia fome, a satisfazer o apetite com pedras; donde segue: Disse-lhe, pois, o Diabo: Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se converta em pão.

Padre Grego
séc.

Se, porém, dispomos nossa vida por nosso próprio arbítrio, como é que Ele era arrastado contra sua vontade? Aquilo que é dito "era conduzido pelo Espírito", tem este sentido: espontaneamente Ele levou uma vida espiritual, para oferecer oportunidade ao tentador.

Para a sua oração

Em que desertos Deus tem conduzido você? Quando falta o pão — o dinheiro, a saúde, o reconhecimento —, o que sai primeiro da sua boca: a queixa ou a Palavra?

Oração

Senhor Jesus, que jejuaste quarenta dias para vencer por nós aquilo em que Adão caiu: ensina-me a não viver só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Quando a fome do corpo ou da alma apertar, que eu vença pela tua Palavra, e não pela minha vontade. Amém.

Desafio

Pratique hoje um pequeno jejum voluntário — de comida, de redes sociais, de uma bebida ou hábito que te consola. No momento em que sentir a falta, em vez de ceder, recite de memória (ou releia) o versículo: 'O homem não vive só de pão'. O objetivo não é a proeza; é descobrir o que o desconforto revela.