Unidade 2.3Não tentarás o Senhor teu Deus
Lucas 4 · Leitura 3 · Catena Aurea

Não tentarás o Senhor teu Deus

Palavra

9Levou-o também a Jerusalém, pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: "Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo;

10porque está escrito que Deus mandou aos seus anjos que te guardem,

11e que te sustenham em suas mãos, para não magoares ó teu pé em nenhuma pedra (Sl 90, 11-12)."

12Jesus, respondeu-lhe: "Também foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6, 16)."

13Terminada toda a tentação, retirou-se dele o demônio até outra ocasião.

Evangelho de São Lucas 4, 9–13 — ler o capítulo inteiro ›

Convite à leitura

A terceira tentação é a mais astuciosa: o tentador cita a Escritura. Mostra a Cristo o pináculo do templo e oferece a confiança presunçosa nos anjos. Os Padres notam com sobriedade: o adversário também conhece a Bíblia — e a usa torcida. Fé não é se atirar de telhados esperando socorro; é caminhar onde Deus chamou, mesmo quando o chão treme.

Vozes dos Padres

Santo Ambrósio
séc. IV

Verdadeiramente é uma voz diabólica a que se esforça por precipitar a mente do homem do grau mais elevado de seus méritos. Ao mesmo tempo, o Diabo revela sua fraqueza e malícia, pois não pode prejudicar ninguém, a não ser que este mesmo se lance para baixo. Porque aquele que, abandonando as coisas celestiais, escolhe as terrenas, incorre em uma espécie de precipício voluntário de uma vida decadente. Simultaneamente, como o Diabo viu que sua arma estava embotada, ele que sujeitara todos ao seu próprio poder, começou a julgar que se tratava de algo mais do que um homem. Mas Satanás se transfigura em anjo de luz e, muitas vezes, a partir das Sagradas Escrituras, prepara laços para os fiéis; por isso, segue-se: "Porque está escrito: que aos seus anjos mandou a teu respeito, que te guardem, e que te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra com teu pé."

Orígenes de Alexandria
séc. II–III

De onde vem a ti, ó Diabo, esse conhecimento de que tais coisas estão escritas? Porventura leste os profetas ou as palavras divinas? De fato leste, não para que tu mesmo te tornasses melhor pela leitura deles, mas para que, a partir da simples letra, mates aqueles que são amigos da letra. Sabes que se quiseres falar de outros livros dele, não enganarás.

São Gregório Magno
séc. VI

Legitimamente combatendo, encontra-se o termo dos embates; seja porque o adversário cede espontaneamente ao vencedor, ou é derrubado após a terceira queda, conforme o decreto da arte do combate; por isso segue-se "e, consumada toda a tentação, o Diabo afastou-se dele até certo tempo".

São João Crisóstomo
séc. IV

Observe como o Senhor não se perturbou; pelo contrário, disputa com o iníquo de maneira extremamente humilde usando as Escrituras, para que te conformes com Cristo na medida do possível. O Diabo conhece as armas de Cristo, pelas quais foi vencido: pela mansidão o capturou, pela humildade o derrotou. Tu também, quando vires um homem transformado em Diabo e vindo ao teu encontro, vence-o do mesmo modo, ensina tua alma a formar palavras conformes às de Cristo: pois assim como um juiz romano, quando está sentado, não dará ouvidos à resposta de quem não sabe falar do modo que ele fala, assim também Cristo, se não falares à Sua maneira, não te ouvirá nem te dará atenção.

Santo Agostinho
séc. IV–V

São Mateus narra tudo isso igualmente, mas não com a mesma ordem; de onde é incerto o que foi feito primeiro: se os reinos da terra foram primeiro mostrados a Ele e depois foi levado ao pináculo do templo; ou se isto ocorreu primeiro e aquilo depois. Nada disso importa, desde que seja manifesto que todas estas coisas aconteceram.

São Cirilo de Alexandria
séc. V

Pois Deus não concede auxílio aos que o tentam, mas aos que nele creem: por isso Cristo não mostrava milagres aos que o tentavam, mas lhes dizia: "uma geração perversa busca um sinal, e não lhe será dado"(São Mateus 12,39)

São Máximo, o Confessor

Ou o Diabo, no deserto, havia sugerido a Cristo preferir as coisas do mundo ao amor divino; e o Senhor lhe ordenou que se retirasse, o que era indício do amor divino; por isso, depois, empenhou-se em fazê-lo prevaricador do amor ao próximo; e assim, enquanto Ele ensinava os caminhos da vida, provocava os fariseus e escribas a armarem-lhe ciladas, para que fosse levado a odiá-los. Mas o Senhor, por causa do amor que tinha por eles, advertia-os, repreendia-os e não cessava de conceder-lhes benefícios.

Santo Atanásio
séc. IV

O diabo não entabulou combate contra a divindade, pois não ousava; e por isso dizia: "Se és Filho de Deus"; mas travou combate com o homem, a quem outrora pudera seduzir.

Teofilacto de Bulgária
séc. XI

Ou porque o havia tentado no deserto com a volúpia, retirou-se dele até o tempo da cruz, no qual havia de tentá-lo com a tristeza.

Para a sua oração

Você confia em Deus, ou exige provas dele? Quantas vezes você já confundiu fé com presunção — esperando que Deus abençoasse riscos que Ele nunca pediu que você corresse?

Oração

Senhor Jesus, que recusaste a presunção e nos ensinaste a confiar sem pôr Deus à prova: dá-me uma fé madura, que caminha sem exigir sinais, que crê sem precisar de espetáculo, e que aceita o silêncio do Pai como parte do amor com que Ele me conduz. Amém.

Desafio

Examine suas orações recentes: alguma delas era, no fundo, um teste — 'se Deus fizer X, então creio / então sigo em frente'? Reescreva hoje essa oração, tirando a condição. Peça a mesma coisa, mas termine com: 'e que a tua vontade seja feita, mesmo que a resposta seja não'.