Dai de graça o que de graça recebestes
Palavra
5A estes doze enviou Jesus, depois de lhes ter dado as instruções seguintes: "Não vades (agora) para entre os gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos,
6ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.
7Pondo-vos a caminho, anunciai que está próximo o reino dos céus.
8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios. Dai de graça o que de graça recebestes.
Convite à leitura
Os apóstolos saem sem alforje, sem pão, sem dinheiro. Não porque a pobreza seja boa em si — Paulo trabalhou com as próprias mãos —, mas porque quem carrega o Evangelho precisa aprender a confiar na providência, e porque o que recebeu, recebeu de graça. Na ordem da graça não existe mercadoria: ninguém compra o perdão, ninguém vende a fé, ninguém cobra pelo que Deus deu de presente.
Vozes dos Padres
Observai, porém, a oportunidade da missão. Depois que eles viram o morto ressuscitar, o mar ser repreendido, e outras coisas semelhantes, e receberam suficiente demonstração de seu poder, tanto por palavras quanto por obras, então Ele os envia.
Não é, porém, contrário este lugar àquele preceito que depois é dito: "ide, ensinai a todas as gentes": porque isto foi ordenado antes da ressurreição, aquilo após a ressurreição. E convinha anunciar primeiro a vinda de Cristo aos judeus, para que não tivessem justa desculpa, dizendo que por isso rejeitaram o Senhor, porque Ele enviou os apóstolos às gentes e aos samaritanos.
Por isso também envia primeiro aos judeus, para que, como que exercitados em uma palestra na Judeia, entrassem nas lutas do mundo inteiro, e como que induzindo-os a voar como filhotes débeis.
Também para que não pensassem que, porque insultavam a Cristo e O chamavam de demoníaco, por causa disso Ele os odiasse, primeiro Ele se empenhou em corrigi-los, e separando os discípulos de todos os outros, enviou-lhes médicos e doutores; e não somente proibiu anunciar aos outros antes dos judeus, mas nem permitia que percorressem o caminho que conduz aos gentios: o que indica quando diz não vos dirigireis pelo caminho dos gentios. E como os samaritanos eram contrários aos judeus, embora fossem mais fáceis de converter à fé, contudo não permitiu que se pregasse aos samaritanos antes que aos judeus: por isso diz e não entrareis nas cidades dos samaritanos.
Desviando, pois, os discípulos destes, envia-os aos filhos de Israel, a quem chama ovelhas que perecem, não ovelhas que se escondem, de todos os modos concebendo para eles o perdão e atraindo suas mentes.
De acordo com a tropologia, é-nos ordenado a nós, que somos conhecidos pelo nome de Cristo, que não caminhemos no caminho dos gentios e no erro dos hereges; para que aqueles cuja religião é separada, também seja separada a vida.
Vês a grandeza do mistério, vês a dignidade dos apóstolos. Não recebem ordens de anunciar algo sensível, como Moisés e os profetas; mas certas coisas novas e inesperadas; aqueles pregaram bens terrenos, estes, porém, o reino dos céus e todos os bens que ali estão.
Para que ninguém acreditasse nos homens rústicos, sem elegância de eloquência, indoutos e iletrados, que prometiam os reinos dos céus, dá-lhes o poder de fazer o que foi predito, a fim de que a grandeza dos sinais comprovasse a grandeza das promessas.
Mas depois cessaram, tendo o respeito à fé sido implantado por toda parte. Se, porém, foram feitos também posteriormente, foram poucos e raros; pois é costume de Deus fazer tais coisas quando os males se agravam: então, de fato, demonstra Seu poder.
E porque sempre os dons espirituais, se houver pagamento intermediário, são depreciados, acrescenta-se a condenação da avareza, quando diz: "De graça recebestes, de graça dai"; como se dissesse: Eu, vosso mestre e senhor, sem preço vos concedi isto; portanto, também vós, sem preço dai.
Vê como Ele tem tanto cuidado com os costumes quanto com os sinais, mostrando que os sinais sem aqueles nada são. Pois reprime a soberba deles, dizendo "gratuitamente recebestes"; e ordena que estejam limpos do amor ao dinheiro, dizendo "gratuitamente dai". Ou, para que não pareça ser benefício deles, diz "gratuitamente recebestes"; como se dissesse: Nada do que é vosso ofereceis aos que recebem, pois não recebestes isto por pagamento, nem trabalhando por esta graça; pois gratuitamente recebestes; assim, portanto, dai aos outros; pois não é possível encontrar preço equivalente para estas coisas.
Porque a manifestação do Espírito, como diz o Apóstolo, é dada para utilidade da Igreja, depois de conceder poder aos Apóstolos, Jesus os envia para que exerçam este poder para o bem dos outros; por isso se diz: "Jesus enviou estes doze".
Ao enviá-los, ensina-lhes aonde devem ir, o que devem pregar e o que devem fazer. Primeiramente, para onde devem ir: por isso diz-se que os instruiu dizendo: "Não tomeis o caminho dos gentios, e não entreis nas cidades dos samaritanos, mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel".
Ou porque quis antes ser pregado somente à Judeia, e depois aos gentios, a fim de que a pregação do nosso Redentor, repelida pelos seus, buscasse como estrangeiros os povos gentios. Havia também, então, alguns dentre os judeus que deveriam ser chamados e, dentre os gentios, alguns que não deveriam ser chamados; os quais nem mereceriam ser restituídos à vida, nem, contudo, serem julgados mais severamente pelo desprezo à pregação.
A leitura da Lei também devia manter o privilégio do Evangelho, sendo que Israel teria menos desculpa para seu crime, pois havia sentido mais cuidado na admoestação.
Os samaritanos eram gentios que foram deixados na terra de Israel pelo rei da Assíria após o cativeiro por ele realizado. Forçados por muitos perigos, eles se converteram ao judaísmo, recebendo a circuncisão e os cinco livros de Moisés, mas rejeitando completamente todo o resto; por isso os judeus não se misturavam com os samaritanos.
Os quais, ainda que sejam chamados ovelhas, contra Cristo enfureceram-se com línguas e gargantas de lobos e víboras.
Depois que ensinou-lhes aonde deviam ir, insinua o que devem pregar, donde se segue: "ide e pregai, dizendo: aproximou-se o reino dos céus".
Aqui diz-se que o reino dos céus se aproxima pela fé no Criador invisível que nos é concedida, não por algum movimento dos elementos visíveis. Os santos são corretamente designados como céus, porque contêm a Deus pela fé e O amam com caridade.
Foram concedidos também aos santos pregadores milagres, para que o poder demonstrado desse fé às palavras, e aqueles que anunciavam coisas novas realizassem coisas novas; por isso se segue: "Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios".
Todo o poder da virtude do Senhor é transmitido aos Apóstolos, para que aqueles que foram figurados à imagem e semelhança de Deus em Adão, agora obtenham a imagem perfeita de Cristo; e tudo aquilo que o instinto de Satanás introduziu de males no corpo de Adão, isto eles mesmos corrijam novamente pela comunhão do poder divino.
Estes sinais foram necessários no início da Igreja: pois para que a fé dos fiéis crescesse, precisava ser alimentada por milagres.
A Santa Igreja, contudo, faz diariamente de modo espiritual o que então fazia por meio dos apóstolos corporalmente; e estes milagres são, sem dúvida, tanto maiores, quanto por meio deles não são os corpos, mas as almas que são ressuscitadas.
Os enfermos são os fracos que não têm forças para viver bem; os leprosos são os impuros na obra ou no deleite carnal; os mortos são os que praticam obras de morte; os endemoniados são aqueles que foram reduzidos ao poder do Diabo.
Ele diz isso para que Judas, que tinha a bolsa, não quisesse acumular dinheiro por meio do mencionado poder, condenando também, neste ponto, a perfídia da heresia simoníaca.
Pois Ele previa que haveria alguns que transformariam o dom do Espírito recebido em mercadoria, e converteriam o poder dos milagres em instrumento para sua cobiça.
Para a sua oração
O que você recebeu de graça — fé, perdão, dons, oportunidades — você tem repassado de graça, ou transformado em moeda de troca, esperando retorno, gratidão, reconhecimento?
Oração
Senhor Jesus, que me deste tudo sem que eu merecesse: livra-me da contabilidade mesquinha em que a graça se transforma quando passa pelas minhas mãos. Que eu dê de graça o que de graça recebi, confiando que o Pai provê a quem se entrega ao seu serviço. Amém.
Desafio
Dê hoje algo genuinamente de graça: tempo, ajuda, conhecimento, dinheiro — para alguém que não pode retribuir e sem que ninguém mais saiba. O critério é duplo: impossibilidade de retorno e ausência de plateia. Se doer um pouco, está no tamanho certo.